Believe In Me

Believe In Me

Sinopse: Sua vida estava uma bagunça. Os conflitos internos pareciam devorá-la cada vez mais e saber o que fazer, como se livrar da dor, parecia impossível, porque ela não conseguia entender a única coisa que precisava para que conseguisse superar tudo: Ela sempre foi o suficiente, exatamente como era.
Gênero: Drama, suspense.
Classificação: 16 anos.
Restrição: Possui cenas de/com bulimia e tentativa de suicídio.
Beta: Regina George
Finalizada

Capítulos:

Capítulo 1
I’m losing myself…. Trying to compete with everyone else.

02 de março.

não tinha nenhum problema em ficar sentada, com os olhos fechados e a cabeça para trás encostada no apoio da cadeira enquanto fazia sua maquiagem. Ela já tinha se acostumado com a ideia de que deveria ficar quieta enquanto sua maquiadora, que também era sua melhor amiga, fazia o trabalho em sua pele.
estava acostumada porque havia sete anos que aquele momento se tornou rotina em sua vida, quando passou para o primeiro papel em um filme. Depois de inúmeros testes e “não” recebidos, aceitou tudo o que aquela carreira lhe pedia. Tudo porque amava o que fazia. Amava a sensação de interpretar outra pessoa tão ou nem tão diferente de si. Amava sentir como se os seus personagens fossem, às vezes, um desejo escondido que havia em seu interior e que poderia ser exposto para o mundo. amava a sua profissão antes mesmo de começá-la, desde pequena amou ver filmes e seriados. Romance, drama, ação e até alguns de terror. sempre amou a possibilidade de interpretar mil pessoas sendo uma só. Ela amava o fato de que em um trabalho poderia ser a princesa indefesa, e no próximo poderia ser a bruxa má. amava interpretar.
Interpretar se tornou uma parte importante de si desde o primeiro teste que foi aprovada.
E era boa nisso. Os prêmios espalhados por sua casa comprovavam que a garota era realmente boa no que fazia. Ela era boa em interpretar e viver um personagem, e sabia disso. Mas sempre achava que poderia fazer mais. Ser melhor. Ser ainda maior do que já era em sua carreira. Interpretar melhor. Ter a melhor pele, o melhor corpo… O melhor tudo que uma atriz poderia ter.
Que queria sempre o melhor isso não era novidade pra toda sua equipe que a acompanhava desde o começo, eles estavam acostumados com o esforço que ela fazia pra estar sempre da melhor forma. E até achavam engraçado quando ela dizia que precisava emagrecer ainda mais para algum papel ou que, talvez, faria alguma plástica para melhorar seu rosto ou seu corpo. Eles riam quando ouviam isso da garota, diziam que ela não precisava e que era linda do que jeito que era. fazia uma careta como resposta, dizia que eles não sabiam de nada e que provavelmente estavam cegos. Afinal, alguém já reparou se existem olhos mais lindos que o de Angeline Jolie? Se existe um cabelo mais hidratado que o da Megan Fox? Ou, se existe um sorriso mais bonito que o da Emma Watson? Aparentemente, a equipe de nunca reparou nisso. Mas, ela sim.
E esse se tornou o seu maior problema.
– Ei, acabei. – A voz de despertou da pequena soneca que ela caiu enquanto sentia os pinceis e as esponjas tocando seu rosto. – Dormiu é? – A amiga riu da atriz que afirmou sorrindo que sim.
– Esses seus pinceis e esponjas sempre me fazem dormir, você sabe. – comentou ficando ereta em frente ao espelho e olhando para o incrível trabalho de . Sinceramente, era impossível que existisse em qualquer lugar do mundo uma maquiadora melhor que . sempre se sentia linda quando lhe maquiava. A atriz não entendia muito bem como a maquiadora conseguia a incrível habilidade de deixar bonita. conseguia fazer com que ficasse um pouco parecida com aquelas mulheres das manchetes das revistas mais bem vendidas. conseguia fazer com que se sentisse linda com uma boa camada de maquiagem cobrindo as tantas imperfeições que existiam em seu rosto. Com o trabalho da mulher, a atriz se transformava em outra pessoa. Uma pessoa melhor do que a que ela via no espelho todos os dias quando acordava pela manhã.
– Você deveria começar a dormir um pouco mais cedo, isso sim. – comentou enquanto passava as mãos pelo cabelo de e abaixava os poucos fios que haviam levantado. – Tal-
– Ei, você não fez o contorno da boca. – reclamou ao aproximar seu rosto ainda mais do espelho, quase ficando com a face colada no vidro, e observando que não havia contornado sua boca com o lápis como ela tinha pedido dentro do carro enquanto estavam indo até ali, o estúdio onde seria a sessão de fotos.
– Hoje não dá pra fazer, . O ensaio de hoje é natural, lembra? Até coloquei um batom nude em você. – A profissional explicou usando seu tom de voz calmo enquanto encarava a atriz pelo reflexo do espelho.
– Mas eu quero o contorno. Eu te mostrei, a boca fica mais bonita. Os lábios ficam maiores. – explicou enquanto procurava pelo batom que usou e retirou a tampa do objeto quando o encontrou.
, sua boca já é bonita e seus lábios possuem o tamanho certo. Você não precisa de contorno.
– Você faz ou eu faço? – questionou , ignorando completamente todas as palavras que ela havia dito.
– Você tem que parar de ficar vendo essas blogueiras. – aconselhou não como a maquiadora que tinha que fazer algo, que não concordava, na pele de uma cliente, mas como a melhor amiga que conhecia desde que nasceram.
– Elas são bonitas. Então, porque não posso ficar igual a elas? – questionou quando teve sua cabeça levemente inclinada por .
ficava verdadeiramente chateada de ver sua melhor amiga se comparando ou querendo ficar como as outras mulheres. era linda do jeito que era. Sua pele, seu rosto, seus olhos, seu sorriso, sua voz, seu jeito, qualidades e defeitos. Ela era linda. E com certeza, era a pessoa mais bonita que já conhecera em sua vida. E não só no quesito beleza, mas no quesito personalidade também. era um ser humano incrível. A garota possuía um amor ao próximo incrível e uma risada que fazia rir só de ouvir, sem nem precisar saber qual era o motivo. A voz de era suave, seu tom baixo sempre dava a esperança de que com um dialogo tudo pode se resolver e que podemos mudar o mundo sem gritar. queria ter aquele tom de voz. Aquela risada. Aquelas piadas bobas, aquele amor ao próximo, à fé na humanidade, a empatia que possuía. E também queria ser forte como sabia que a atriz era. queria ser um pouco como ela, mas também queria que a menina visse o quão incrível era. queria que se enxergasse com os olhos dela. Mas, aparentemente a atriz estava ocupada demais se comparando com outras mulheres e tentando ser como elas.
Enquanto para ver fazer o contorno que aumentaria seus lábios e os deixaria no tamanho ideal e perfeito fazia com que ela se sentisse bonita.

Capítulo 2
Instead of just being me. I don’t know where to turn.

20 de abril.

Aquela já deveria ser a décima vez que recusava qualquer tipo de comida que lhe oferecia naquele dia que ainda estava na parte da tarde, enquanto bebia a garrafa com dois litros de água que comprou com tantas outras na última vez que fora ao mercado próximo de sua casa. Garrafas d’água tornaram-se suas melhores amigas. Afinal, o liquido lhe enchia o suficiente para tirar de si a vontade de comer, e ainda acabava com sua sede. tinha lido na internet que se bebesse bastante água até poderia perder alguns quilos, e quem sabe, se livrar daquela grossa camada de gordura que tinha em sua barriga e nas laterais de seu corpo. Talvez também conseguisse afinar seus braços e diminuir os tamanhos de suas coxas. Ou, quem sabe, se bebesse bastante água e colocasse o liquido no lugar de todas as suas refeições, conseguiria fazer com que sua cintura ficasse marcada como a boneca Barbie ou como a cintura daquela modelo que postou ontem uma foto no Instagram.
Garrafas e mais garrafas de água nunca eram demais, pelo contrário, era a melhor descoberta que tinha feito em sua vida. E ela não poderia estar mais grata aquele post que leu em um site na internet.

Capítulo 3
I’ve been stuck in this routine. I need to change my ways.

 

28 de maio.

– Você precisa comer. – comentou colocando quando entrou no quarto do hotel e viu sentada na cama. – Eu trouxe comida. – Avisou como se não fosse notável a bandeja em suas mãos e o prato, talheres, o copo com suco e o cheiro que toda aquela refeição espalhava pelo ambiente.
O estomago de tremeu quando o aroma da comida penetrou seu nariz e correu por todo o seu sistema. Fazia quase quarenta e oito horas que ela não comia uma refeição como aquela, e não sentia falta. Afinal, ela precisava perder uns quilos e por isso começara aquela dieta.
– Não estou com fome. – respondeu olhando para e empurrando um pouco a bandeja que foi colocada em cima de suas pernas que estavam cobertas pelo edredom do jogo de cama. – Pode comer se quiser.
– Você nunca está com fome, esse é o problema. – apontou quando colocou sua mão cobrindo a tela do celular de que a olhou com uma sobrancelha erguida. Ela estava cansada de ser ignorada quando o assunto era a alimentação errada da atriz, que sempre fingia não lhe ouvir porque estava ocupada fazendo algo no celular. – , eu sei que você não almoçou e nem jantou ontem. E, provavelmente, nem tomou café da manhã e nem almoçou hoje. – deu de ombros e bufou quando tentou tirar a mão da amiga da tela de seu celular e não conseguiu.
– Eu comi frutas e cereais. E bebi bastante água, . – empurrou a mão da amiga enquanto se arrependia do exato momento em que deixou que a recepção do hotel desse uma cópia do cartão da porta de seu quarto para a menina.
– Algumas frutas, barras de cereais e água não contam como refeição, . – suspirou e sentiu-se idiota por repetir algo que, obviamente, ainda não tinha entrado na cabeça de . E provavelmente não entraria.
– Eu me sinto satisfeita com tudo isso. – deu de ombros. – Me sinto bem. E não é como se eu desmaiar por falta de arroz, fei…
– Mas eu não tenho dormido por ficar pensando que você pode desmaiar com a falta deles. Eu fico preocupada de verdade com essa sua alimentação desregulada e essa dieta maluca que você arrumou. – informou o seu tom de voz triste mexeu com . A atriz não gostava quando as pessoas ficavam tristes consigo. detestava a ideia de machucar alguém, principalmente, detestava a ideia de machucar . – Por favor, come um pouco de comida de verdade.
E comeu. Para agradar e até mesmo fazer com que a menina parasse de ficar preocupada com algo que estava sobcontrole. Comeu todo o arroz, feijão, o pedaço de bife e as batatas fritas. Também bebeu todo o suco, e até elogiou a refeição do hotel. sorriu para quando terminou de comer.
Elas conversaram durante um tempo e combinaram que dormiria ali. Mas ela precisava buscar seu celular que esqueceu em seu quarto, carregando em cima do criado mudo que ficava próximo a cama. aproveitou para levar a bandeja para fora do quarto e deixa-lo no carrinho de serviço de quarto que estava ao lado da porta do quarto de no corredor.
E foi naquele momento… Naqueles curtos minutos que respirou fundo e levantou-se da cama.
Comer toda a refeição tinha feito sorrir, mas fizera com que se sentisse sufocada, pesada e angustiada. Sua barriga tremia com a sensação de ter mais que o necessário em si. Suas mãos soavam e até tremiam, em sua mente havia uma voz lembrando que ela não podia ficar com tudo aquilo dentro de si.
E foi durante a ida de ao seu quarto, que caminhou apressada até o banheiro da suíte que estava e pegou a escova de dente que colocara no suporte assim que chegou naquele hotel há dois dias.
Enquanto desconectava seu celular do carregador, se ajoelhava na frente do vaso sanitário, enfiava a parte do cabo da escova em sua boca e apertava o material do vaso com sua outra mão enquanto sentia toda a refeição saindo. Enquanto saia de seu quarto, pronta para dormir com sua melhor amiga, voltava a se sentir leve e satisfeita em não ter nada pesando seu estômago.

Capítulo 4
Instead of always being weak.

 

1 ano e 5 meses depois.

A casa estava quase que em total silêncio, senão fosse pelo baixo som da respiração de que estava dentro da banheira da suíte principal da casa.
A atriz abraçava suas pernas, suas mãos seguravam força seus braços para que não corresse o risco de se soltar. A cabeça apoiada de lado em seus joelhos, a respiração sendo solta pela boca que estava entreaberta, enquanto as lágrimas saiam de seus olhos molhando sua face e acabando por pingar na água da banheira que estava cheia. tinha seu olhar fixo na tela de seu celular que estava no chão ao lado da “pequena piscina”, o nome e a foto que anunciavam ser sua mãe quem ligava, fazia com que ela sentisse seu coração agitado, ele batia tão rápido e descompassado que chegava a doer. E aquela dor, de seu coração acelerado ao extremo, só somava a dor que já tomava conta de si há alguns dias.
Ver o nome e a foto de sua mãe na tela de seu celular doía, e saber o que a mulher queria saber também doía, mas não ter a resposta que ela queria ouvir para dar, doía ainda mais. Afinal, como poderia dizer a sua mãe que, mais uma vez, foi incapaz de fazer algo correto? Que mais uma vez foi insuficiente para um conseguir um papel importante em um filme? Como dizer a sua mãe, a mulher que sempre acreditou em si, que não havia conseguido passar em um teste porque estava fora do peso ideal para o personagem, porque estava magra demais? Como dizer que não conseguiu ficar com o corpo ideal para aquele papel porque precisava ter o peso ideal para se igualar as modelos das revistas e blogs? Como assumir em voz alta, para sua mãe, que mais uma vez foi incapaz? E que não merecia todo o esforço que sua mãe sempre fizera para que a menina conseguisse entrar naquela profissão? Como dizer “ah mãe, me desculpe, mas a sua filha não conseguiu honrar todo o seu esforço para que ela se tornasse uma boa atriz. Desculpa-me por ser incapaz de passar em um teste e ser insuficiente. Eu sei que a senhora merece mais, eu sei, mas infelizmente eu sou menos. A senhora e o papai deveriam ter me colocado para adoção quando tiveram a chance”.
suspirou pelo o que deveria ser a décima vez em menos de dois minutos, e pensativa concluiu, mais uma vez, que aquela dor deveria parar de doer. Que ela não aguentaria mais carregar diariamente aquela dor consigo. Era demais.
Dói bater o dedinho do pé na quina de algum móvel ou da parede. Dói morder a língua ou as bochechas durante uma refeição. Dói quando cai algo em nossos olhos ou quando a unha quebra bem próxima a carne. Dói muito. Incomoda. Dá vontade de gritar e chorar. Mas, precisamos admitir que existem dores maiores e piores. Ser reprovada em um teste, não atender ao padrão da sociedade, não ser o suficiente e nem capaz, não ser o que esperam de ti ou, simplesmente, não conseguir se olhar no espelho… Tudo isso dói muito mais. E naquele momento, dentro da banheira com o corpo e o cabelo molhados, a pele dos dedos enrugados e os olhos ardendo de tanto chorar, sentia aquela dor. A dor forte. Insuportável. A dor que trazia para a sua mente uma voz que repetia que ela não iria suportar aquilo por muito mais tempo. Que precisava de paz, de um momento sem dor e sofrimento. Que ela precisava, a todo e qualquer custo, se livrar daquela dor latejante.
A dor ficava intensa a cada segundo que passava no relógio. E não importava quantas vezes respirasse fundo e murmurasse para si mesma que tudo iria passar em algum momento, tudo continuava a doer. A latejar. E a voz continuava lhe dizendo que ela precisava fazer aquilo tudo parar. precisava fazer a dor parar.
O celular parou de tocar deixando a casa inteira em silêncio. A atriz suspirou quando a imagem de sua mãe parou de aparecer na tela e deu espaço para a foto que ela escolheu como protetor de tela no mesmo dia que a tirou, há alguns meses. Era uma foto de com Phelipe. O seu primeiro amor e atual ex-namorado.
E então, chorou. Um choro mais intenso, dolorido e nostálgico. Um choro que não era o suficiente para arrancar de si a angustia que sentia em seu peito, a saudade que aumentava a cada dia, a dor de não tê-lo mais por perto, o sentimento de culpa por saber que poderia ter feito mais por seu namoro e namorado, e a certeza de que se estivesse com Phelipe tudo estaria melhor.
– Sinto sua falta, garoto. – Murmurou olhando para a foto e dando um leve e quase imperceptível triste sorriso. – Tudo estaria mais fácil com você aqui, sabia? O mundo nunca pareceu girar tão rápido quando eu estava em seus braços ou ouvindo a sua voz, ele girava no ritmo certo. No nosso ritmo. A gente brigava, eu sei. Mas, pensei que nosso amor pudesse superar todo e qualquer obstáculo. – O suspiro baixo e pesado veio logo em seguida quando pausou sua fala e só ficou encarando sua imagem com Phelipe na tela do celular. – Você sempre vai ser a pessoa que eu mais amei em toda minha vida. Eu estou perdida sem você. Completamente perdida. E não vou me achar nunca mais.
e Phelipe se conheceram no terceiro ano do colegial, há alguns anos. Eles não eram do mesmo grupo de amigos. Faziam o típico opostos separados pela popularidade que ele possuía e pelo jeito tímido e afastado de todos de . Se fosse um filme, Phelipe seria o capitão do time de futebol e a nerd que fingia não ouvir os cochichos sobre si que surgiam toda vez que ela andava pelos corredores do colégio, ou as ofensas que às vezes gritavam para que ela escutasse perfeitamente. A história dos dois daria um belo filme clichê. Belo e triste filme. E é obvio que com a diferença visível entre os dois, eles só foram se aproximar quando o professor de história passou um dever em dupla e os dois foram sorteados pra formarem uma dupla. É claro. A primeira reunião para o trabalho aconteceu na casa de Phelipe que surpreendeu ao se recusar a deixa-la fazer todo o dever sozinha. E ao contrário do que pensou os encontros com Phelipe continuaram mesmo após o fim e a entrega do trabalho. Trabalho este que a dupla tirou a nota máxima.
Uma amizade começou. No colégio acabou indo para o grupo de amigos de Phelipe, e fora do prédio de ensino ela comentava do menino para , que infelizmente estudava em outro colégio. No começo de sua amizade com Phelipe, precisou enfrentar algumas pequenas discussões com que dizia não confiar muito em Phelipe, mesmo sem conhecê-lo. nunca se deixava abalar pelas palavras da melhor amiga que repetiu sua opinião sobre o garoto, após conhecê-lo um dia quando ela estava saindo da casa de no exato momento em que ele foi buscar a menina para irem ao cinema. Para , Phelipe era um garoto legal e diferente dos outros. Afinal, ela nunca o ouviu cochichar ou gritar palavras ofensivas sobre ela, pelo contrário, desde que começaram a amizade, Phelipe sempre a defendeu e por vezes batera de frente com quem ousasse falar mal de perto dele. E por isso, não levava fé em e sempre achava que a melhor amiga estava inventando coisas porque estava com ciúmes e não queria dividir com ninguém.
O que não entendia era que com Phelipe, se sentia bem. Ele a fazia bem. Ele era grosso e estúpido algumas vezes, mas nada que um pedido de desculpas não resolvesse e fizesse se esquecer do ultimo erro dele, porque ela sabia que Phelipe jamais faria algo de propósito para machuca-la. Seu coração apaixonado lhe dizia isso. E as promessas feitas por Phelipe também.
Depois que terminou o colégio e começou com sua carreira de atriz, acabou perdendo o contato com Phelipe que reapareceu há sete meses. Eles se reencontraram em um restaurante próximo a casa de . Ela tinha ido jantar com a convite da maquiadora. E quando viu Phelipe de novo, o coração de acelerou do mesmo jeito que fazia anos atrás. Phelipe continuava lindo, cheiroso e com o sorriso mais bonito que a menina já vira até aquele dia de sua vida. Naquela noite, ele e sua meia-irmã se sentaram com e , mesmo que a contragosto da maquiadora que aparentemente ainda detestava o menino. Os quatro, mais Phelipe e , conversaram sobre o colegial e como a vida de adulto era chata. Riram de piadas, relembraram alguns momentos, terminaram o jantar, falaram sobre alguns personagens que fizera em alguns filmes e falaram sobre a série que ela participava naquele período. Escolheram e tomaram sorvete como sobremesa, anotaram os novos números de celular um do outro e menos de quinze dias após aquele reencontro inesperado, e Phelipe tinham um encontro marcado. Ele havia a convidado para um jantar no mesmo restaurante, mas dessa vez a sós.
Se apaixonar de novo por Phelipe não foi difícil. Na verdade, duvidava se um dia deixou de ser apaixonada por ele. Menos de um mês estavam namorando. Um namoro público, com direito a milhares de manchetes em revistas, posts em sites e redes sociais. falava para o mundo o quanto Phelipe a fazia feliz e o levava consigo quando tinha algum evento para ir. Havia inúmeras fotos dos dois em tapetes vermelhos, entrando ou saindo de restaurantes, indo ou vindo de lugares, de mãos dadas na rua ou algumas das que postavam em seus perfis nas redes sociais. As fotos eram lindas, ambos sempre sorrindo ou de mãos dadas, nenhuma imagem nunca retratava um dos momentos em que chorava após uma briga ou discussão que para ela era séria, mas que para Phelipe era uma das crises da garota.
Nenhuma foto mostrava o quão culpada ela se sentia por esperar que Phelipe a pedisse desculpas por um erro que ela cometera, demorou a entender que era ela quem sempre errava naquele relacionamento. Se eles brigavam a culpa era dela. Se Phelipe ficava irritado ou enciumado a culpa era de que não o respeitava como namorado, e ficava falando com outros caras. Mesmo que eles fossem seus amigos de profissão ou da vida. Ela demorou a entender que se ele a fazia chorar por gritar com ela, era sem querer e porque quem o estressou. demorou a entender que Phelipe a amava demais para fazer mal a ela. não dava o real valor que Phelipe merecia, e infelizmente só percebera isso quando o perdeu.
O término do namoro aconteceu seis meses após o inicio. Phelipe estava há quatro dias sem falar com , após uma briga que ela causou por sentir ciúmes ao ver uma menina, a mesma que estava com Phelipe quando o reencontrou meses atrás no restaurante e lhe foi apresentada como a meia-irmã de Phelipe, sentando no colo dele e quase beijando Phelipe na boca na última boate que a atriz foi junto com ele. Eles brigaram quando chegaram em casa, e Phelipe chamou de ignorante por não saber que amigas podem sentar no colo dos amigos e beijar a boca deles. Phelipe chamou de idiota por ela pensar que ele a trocaria pela tal garota e a culpou por estar fazendo com que ele pensasse em desistir deles dois. Ah, Phelipe também saiu da casa da atriz batendo a porta com força. Mas, tudo bem, ele estava apenas com raiva. E era culpa de .</> E após mandar inúmeras mensagens o pedindo desculpas e assumindo seu erro, recebeu uma mensagem. A mensagem do fim. Phelipe terminou o namoro por mensagem. Ele acabou com por mensagem.
Lembrar-se de seu relacionamento com Phelipe doía demais.
Lembrar-se do fim de seu relacionamento com Phelipe, do teste que não passou, da decepção que causaria em sua mãe, do olhar de desapontamento de sua equipe quando seu assessor lhe deu o resultado do teste, tudo por não ter sido capaz de ser boa o suficiente, doía como nunca doeu antes. Era uma dor aguda, forte e fora do comum. Era uma dor que precisava ser parada. não a aguentava mais. Ela não podia mais levantar na manhã seguinte com aquela dor que espalhava por todo o seu corpo e se intensificava a cada segundo. Ela não conseguia mais. já aguentava aquela dor por tempo demais. Dias demais. Meses demais. Anos demais.
A dor de não ser o suficiente sempre foi maior que . E naquela tarde, ela estava disposta a dar fim naquilo tudo. E daria um fim naquela dor.
Quando virou sua cabeça para o lado contrário e viu a fina gilete no lugar onde ficavam os sais de banho, xampu, condicionador, sabonete, esponja e tudo que deveria existir em um banheiro e poderia ser usado durante o banho, sentiu seu coração acelerar por saber que dali pouco tempo tudo estaria acabado. A dor iria ido embora junto com as lágrimas.
A atriz segurou o objeto com cuidado para não cortar seus dedos, como já estava acostumada a fazer. Esticou suas penas no fundo da banheira e viu a água mexer com seu movimento, e por um segundo se lembrou de quando era criança e molhava todo o banheiro ao se mexer demais na banheira que ficava sempre cheia de água e com bastante espuma.
esticou seu braço para frente e encarou sua pele. Ela observou com cuidado as marcas finas que existiam em seus pulsos e que eram, na maioria das vezes, cobertas por pulseiras ou um pouquinho de maquiagem. Aquelas marcas eram feitas em momentos que precisava ter a dor física pra ver se a interior diminuía. E como era de se esperar, não adiantava em nada.
encostou a gilete em sua pele, respirou fundo e suspirou e nervoso e ansiedade quando sua visão ficou totalmente turva pelas lágrimas. Suas mãos tremiam e seu coração parecia estar completamente encolhido em sua caixa torácica enquanto sua respiração se agitava.
A dor precisa ir embora. Tudo isso precisa acabar. E não há outro jeito. Não há outra saída.
Ela murmurou as dezoito palavras enquanto passava a gilete com precisão em cima de sua pele e via o vermelho vivo do sangue. Quando terminou o corte no pulso esquerdo fez um no direito, e o ardor que sentia na pele fazia com que suspirasse profundamente e se convencesse de que em breve toda e qualquer tipo de dor iria parar.
deixou a gilete de volta onde estava, e olhou para a água da banheira que já estava avermelhada pelas gotas do sangue que pingavam. Ela colocou os pulsos dentro da água e viu o tom do vermelho na água ficar mais intenso conforme os segundos e minutos se passavam.
fechou os olhos quando encostou a cabeça na beirada da banheira, respirou fundo e soltou o ar pela boca. O ar que estava ficando difícil de ser encontrado. Passou a língua por seus lábios, mexeu seus pés dentro da água e deu um leve sorriso quando viu um pequeno filme de sua vida em sua mente. Imagens de sua infância, sua família, , Phelipe, seus fãs, os filmes e seriados que participou, as festas que foi, as pessoas que conheceu, as drogas que usou, as bebidas alcoólicas que a fez vomitar no dia seguinte, o teste que não passou, as críticas que recebia diariamente, os olhares de ódio, as manchetes com seu nome e uma crítica, os cochichos, as ofensas, os haters, o seu corpo que nunca ficava do jeito ideal, sua incapacidade e, por fim, uma imagem sua gritando por socorro.
Porém, agora não precisava mais pedir socorro.
Agora sua dor iria parar. E tudo iria ficar bem.

Capítulo 5
I don’t wanna be afraid. I wanna wake up feeling…
Beautiful today.

Quase 4 anos depois.

– Não pegue o notebook para assistir série antes de ir arrumar sua mala, . Amanhã nós vamos sair cedo, e não vai dar para ficar te esperando jogar as roupas na mala ou se arrumando devagar porque foi dormir de madrugada e está cheia de sono. – falava como uma verdadeira mãe que dava ordens a um filho preguiçoso.
– E quem te disse que eu vou ver o próximo episódio da série assim que você sair? Eu sou uma pessoa responsável, ok? – questionou fingindo estar indignada. – Ei. – Resmungou quando se virou para trás, ficando de frente para a triz, rápido demais e a encarou com uma sobrancelha arqueada.
, eu te conheço mais do que ninguém. Eu sei que é capaz de você fechar essa porta assim que eu sair, correr pro quarto e abrir a Netflix. – Afirmou fazendo com que risse porque era verdade, era bem capaz da atriz esperar virar as costas para que ela fosse terminar a primeira temporada da série que descobriu há menos de dois dias. – Me promete que vai arrumar a mala quando eu sair. Que vai direto arrumar a mala quando eu sair.
– Direto? – perguntou fazendo um biquinho nos lábios que não causou comoção nenhuma em sua melhor amiga, pelo contrário, só revirou os olhos para a atitude da menina e colocou as mãos na cintura.
– Direto, sem desvios pelo caminho.
– E se eu precisar ir tomar banho?
– Você acabou de tomar banho. – apontou para a atriz que usava uma camisa preta grande que mais lhe parecia um vestido, e tinha os cabelos molhados. – Promessa de dedinho. – Ergueu seu dedo mínimo.
– Às vezes eu te odeio, sabia? – resmungou enquanto entrelaçava seu dedo mínimo ao de e concluía a promessa ao encostarem seus dedos polegares. – Vai embora, vai. já deve estar cansado de te esperar lá embaixo. Sai.
– Ele chegou não tem nem cinco minutos, ele consegue esperar. – ria enquanto era empurrada por para a porta de entrada e saída do apartamento que comprou e morava há quase três anos. – Espera. – A maquiadora parou assim que girou a maçaneta e estava a dois passos de sair para o corredor. – Tem certeza que você não quer ir? Posso te esperar se arrumar, e o também.
– Que? Claro que eu tenho certeza. – afirmou, pela décima vez desde que começou a se arrumar para sair com . – , eu já sai com vocês dois para aprovar ou não o , não preciso ir hoje pra conhecer o melhor amigo dele e a namorada.
– O e a . – disse o nome do casal a quem seria apresentada aquela noite.
e , isso. Sou péssima com nomes, você sabe. Enfim, eu já aprovei o . Não preciso avaliar também o melhor amigo dele e a namorada do garoto. É demais. Vai logo, vai. Tchau. Bom encontro. – se despediu antes que pudesse dizer alguma coisa, mas seu plano de fechar a porta na cara da menina a expulsando dali foi por água abaixo quando colocou o pé antes que a porta fosse fechada.
– Promete que vai me ligar caso acontece alguma coisa. Qualquer coisa.
… Eu estou bem. Não vai acontecer nada. – garantiu sorrindo para a menina que respirou fundo e continuou encarando a atriz que a conhecia o suficiente para saber que só iria embora dali após uma promessa. – Tá, eu prometo. Eu vou te ligar caso aconteça alguma coisa. Irei aprender a usar o celular para te pedir ajuda.
– Você sabe usar o celular, . – revirou os olhos, e deu de ombros.
– Detesto ligações e você sabe disso, então, eu finjo que não sei ligar para não ter que ligar para ninguém. As pessoas acreditam, sabia? Os dozes meses que fiquei longe de celular ou telefone me deram uma carta debaixo da manga. – Explicou e piscou para que franziu o cenho não acreditando na história que ouvia. – É verdade. Ficam me olhando como se eu fosse um ET, mas, contando que eu não tenha que ligar para ninguém está tudo certo.
– Você vai me ligar. – afirmou deixando de lado a falsa história da “burrice” de sua melhor amiga, que ultimamente estava engraçada demais para o seu gosto. E apesar de achar algumas piadas de um pouco sem graça, gostava de ver a menina daquele jeito. Era bom ver sorrindo depois de tudo. – Independente do que aconteça, pode ser uma coisa pequena. Mas você vai me ligar e-
– E se eu for cag…
– Menos nesse momento! – interrompeu que a interrompeu primeiro. – Você é tão… Argh! Porque não podemos ter uma conversa séria?
– Porque você fica sentimental e começa a chorar. E agora não estamos com tempo para isso. Você não está com tempo, na verdade. – começou a empurrar as mãos de fazendo com a menina soltasse a porta. – Vai logo que tem gente te esperando lá embaixo. Eu vou ficar aqui, assistindo minha série e arrumando a mala.
– Primeiro a mala, depois a série. – lembrou a atriz que revirou os olhos e a empurrava na direção do elevador.
– Isso, nessa ordem. – revirou os olhos e apertou o botão que chamou o elevador.
– Como estou? – perguntou e riu quando ouviu a pergunta. – Que foi?
– É engraçado como você fica insegura quando vai se encontrar com o . – Explicou e colocou uma mão no ombro da amiga. – , ele já te viu acordando, está tudo bem.
– Eu não perguntei me referindo a ele, idiota. – Deixou um tapa na testa da outra que não perdeu a chance de revidar. – Eu quero saber se a roupa está boa para conhecer o e a .
– Ah, está ótimo. – respondeu após olhar dos pés à cabeça, como se não tivesse acompanhado todo o processo de escolha da roupa, acessórios e até da maquiagem. A maquiadora usava uma calça jeans de cintura alta justa ao corpo, um par de botas de canos baixos, uma blusa preta com um sobretudo cinza. tinha os cabelos soltos e fizera uma maquiagem simples, mas com um batom vermelho sangue nos lábios. – Pronto, vai. Tchau.
– Grossa. – resmungou quando foi praticamente empurrada para dentro do elevador assim que as portas se abriram. – Me liga, não esquece.
– Sim, eu sei. Qualquer coisa, eu vou te ligar. Para você eu sei ligar. – e sorriu quando piscou para a menina que riu. – E, , mesmo se a for muito legal lembra que eu sou mais, tá? E mesmo que o seja mais bonito que o , lembra que eu já sou time e que me recuso a conhecer outro garoto e…
– Eu não vou trocar o pelo melhor amigo dele, . – a interrompeu.
– Ufa, porque isso seria chato e ficaria um clima bem pesado. – A menina suspirou fazendo seu teatro dramático que contou com uma mão em cima de seu coração. – E além do mais, você já está apaixonada pelo , então… É, seja lá quem for esse ele já perdeu essa. Ele e qualquer um que apareça.
– Eu não estou apaixonada pelo , nós nos conhecemos há menos de qua…
– Aham, tá. Eu que estou apaixonada por ele, é. Agora tira essa mão daqui e vai embora. Tchau. – tirou a mão de que estava segurando as portas do elevador, impedindo que elas se fechassem e parou diante dele enquanto via sua melhor amiga desaparecendo atrás das portas.
– Eu te amo!
gritou enquanto um minúsculo espaço entre as portas ainda existia, e riu sozinha quando as portas se fecharam de vez e o elevador foi embora.
E mesmo que não tivesse ouvido uma resposta de , ela sabia que o amor era recíproco.

xxxx

|Arrume a mala!

riu quando pegou seu celular e leu a mensagem que acabara de receber de .

Eu iria começar agora|
Você saiu tem menos de 20 minutos, me ame menos|

jogou o aparelho em cima do colchão da cama após esperar dois minutos por uma resposta que não veio, provavelmente a enviou quando estava saindo do carro após chegar com ao restaurante jantariam e ela conheceria e .
conheceu há menos de quatro meses, o encontro aconteceu na festa de aniversário de Anne, a estilista de . nunca deixa de assumir que se encantou pelo cabelo colorido de e, por isso, não perdeu a chance de pedir o número do celular da maquiadora quando estava indo embora da festa. Os encontros entre e se tornaram rotina após a festa de Anne. E não é como se não estivesse gostando de ver sua melhor amiga com um cara depois de longos anos só ficando com um aqui e outro ali. E melhor do que saber que estava ficando sério com alguém, era saber que fazia sua melhor amiga feliz do jeito que não se lembrava da última vez de tê-la visto assim. Era notável o bem que fazia a , e era lindo de vê-los juntos e observar o jeito que ele a tratava. Por isso, não foi difícil aprovar o garoto quando ele foi até a casa de para um jantar junto com . E além do mais, como não aprovar , se ele ria de piadas idiotas com e até contava outras mais idiotas? Impossível.
E de qualquer forma, já tinha avisado que caso ele machucasse , iria se ver com ela.
voltou sua atenção a seu closet quando olhou a hora no relógio que ficava no criado-mudo ao lado de sua cama, e reparou que já estava pra começar a arrumar sua mala há quase meia hora. E quanto antes ela fizesse aquilo, mais cedo iria assistir a série de romance que começara a assistir e mal podia esperar para descobrir com quem a protagonista terminaria.
suspirou quando olhou suas peças de roupas organizadas em nichos e cabides. Olhou suas bolsas e seus calçados organizados em prateleiras separadas. Abriu algumas das gavetas que continham mais roupas, e observou suas pulseiras, cordões, brincos e pingentes. respirou fundo enquanto se perguntava por onde começaria a arrumar a mala. E, principalmente, o que deveria ou não levar para Los Angeles.
Pensar que em algumas horas estaria dentro de um avião que a levaria para a cidade onde começaria a gravar um novo filme, depois de tantos meses, a deixava nervosa. Muito nervosa. Afinal, quase quatro anos tinham se passado desde o último personagem que interpretou, e quase três anos desde que esteve em um avião.
Pensar que no dia seguinte estaria retomando sua carreira fazia com que suspirasse e sentisse seu coração acelerar.
Por isso, antes que sua mente começasse a lhe pregar algum tipo de peça, ela decidiu começar a escolher o que levaria ou não na viagem. pegou a mala que ficava no alto, com o auxílio de uma escada que ficava ali dentro do closet justamente para aquilo, e a abriu no meio do cômodo não se importando em ter que desviar dela algumas vezes enquanto ia de um lado para o outro pegando roupas, calçados, acessórios, maquiagem, bolsas ou chapeis e toucas.
pegou seu celular em cima da cama e decidiu que seria uma boa colocar sua playlist para tocar. E enquanto as músicas agitadas tocavam, vestia cada peça de roupa que pensava se deveria levar ou não para a viagem. Calçava o par de sapatos que achava que combinava, colocava algumas pulseiras e anéis, e alternava entre toucas e chapeis. Quando parava na frente do espelho, ela ria sozinha de seus passos de dança e, de suas poses que fazia imitando as modelos que desfilavam para grandes marcas.
Depois alguns altos e baixos, erros e acertos, e de longos meses de aprendizado, a atriz tinha entendido que imitar as poses das modelos não era errado, e que errado era querer ser igual a elas e machucar a si mesma nesse processo.

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levou trintas músicas e alguns videoclipes para terminar de arrumar sua mala. Deixou separado em um cabide as roupas que usaria na manhã seguinte e o par de all star no chão na direção da roupa. E sorriu satisfeita que conseguiu fazer tudo sem deixar seu closet uma bagunça de roupas espalhadas por todo lado.
Ela terminava de arrumar sua bolsa de mão. Ali dentro já estava sua bolsinha que continha todos os seus remédios e um gel para mãos. estava olhando para o espaço embaixo da gaveta de seu criado-mudo a procura de algum livro, que poderia levar dentro da bolsa para ler durante o voo.
saiu de seu closet deixando a bolsa em cima da cadeira de canto que tinha em seu quarto e se abaixou em frente ao criado-mudo. Passou a ponta de seus dedos por todos os livros, sussurrando o nome de cada um e se sentindo atraída por um que lembra ter ganhado de , mas que nunca chegou a ler.
Ela lembrava exatamente do dia em que ganhou aquele livro, de como tentou disfarçar o olhar de preocupação e do sorriso amarelo que sua melhor amiga tinha nos lábios. se lembra do tom de voz baixo que a mulher usava enquanto lhe entregava o livro, e evitava olhar para o espaço ao redor delas. Enquanto passava o dedo pela capa do livro, em cima da ilustração do pequeno príncipe que estava de pé em cima do que aprecia ser um planeta. só não se lembrava do porque nunca ter começado a leitura daquele livro que recebeu tantos elogios de . Talvez fosse porque os meses após receber aquele presente tivessem sido duros, apesar de terem sido de grande aprendizado.
– Se esse livro não for bom, eu vou te socar, . – riu após ameaçar sua melhor amiga que nem estava ali, e como boa curiosa que sempre foi, folheou as páginas do livro e se surpreendeu quando viu uma folha branca dobrada entre duas páginas. – Ei.
se sentou quando pegou a folha e deixou o livro ao seu lado, desdobrou o papel que havia sido dobrado em dois e sentiu seu coração acelerar antes mesmo de começar a ler as palavras que estavam ali.
Ela conhecia aquele papel, aquela letra e lembrava exatamente do dia e do momento em que escreveu aquela carta.
suspirou quando passou uma de suas mãos por seu rosto, tirando de sua pele a lágrima que escorreu de um de seus olhos e, se permitiu ler a carta que escreveu há quase três anos atrás.
começou a ler, em um tom de voz baixinho, a carta que escreveu durante a sua estadia, que durou doze meses, na clínica de reabilitação.

“Oi.
O céu está chorando lá fora. Está chovendo, mas eu acho que ele está chorando. E espero que você ainda pense assim. Espero que você, eu, olha eu não sei bem como devo te chamar então vou chamar de “você”, ok? Acho que vai ficar mais fácil e menos confuso do que já está. Enfim, eu espero que você ainda pense que o céu, toda a natureza em si, possuem sentimentos como nós, os seres humanos. É ignorância demais achar que só a gente possui sentimentos, certo?
Me pediram para escrever essa carta, e tem algo a ver com autoconhecimento, e de lembrar, em um futuro, pela péssima situação que passamos e superamos. Eu tenho que escrever isso para você e não posso abrir essa carta até estar fora daqui, e me sentindo melhor comigo mesma. Só vou poder ler quando estiver feliz, de verdade, e então poderei pensar no quão forte eu fui por ter sobrevivido a tudo isso. E olha… Sendo bem sincera… Eu espero que esse dia exista. Que não seja uma coisa inventada pelo pessoal daqui.
Bom, falaram que eu preciso ser sincera e dizer o que eu espero do “amanhã”, então, quero começar pedindo para que você se desculpe com a , sim? Diga a ela que sinto muito pela cena que ela viu. Que eu sinto muito por ela ter me encontrado na banheira do jeito que eu estava, mas que sou grata pelo dia em que dei a cópia da chave de minha casa para ela. Ainda não tive muito tempo para pensar no que fiz, e ainda não sei se estou convencida de que ter falhado na missão de parar a dor, tenha sido algo bom. Mas, posso garantir que nunca quis ver a dor que enxerguei nos olhos da quando a encarei no quarto do hospital que ela me levou. Por favor, diga que eu sinto muito. E peça para ela me entender. Eu espero que ela possa me entender. E espero, mais do que tudo, que continue ao meu lado depois de tudo isso. Mesmo sem saber, foi, até o último minuto, a dona da voz que eu ouvia bem longe me dizendo para tentar mais um dia. E eu ainda ouço a voz dela.
Peça desculpa a minha mãe, meu pai, e toda minha equipe também, sim? Meus fãs e a todos que decepcionei. Eu só queria… Livrar-me da dor. Tudo o que eu sempre quis, é que parasse de doer.
Bem, já que preciso escrever para você e te desejar algumas coisas, aqui vou eu ok? Vamos supor que isso seja uma lista de supermercados, e você vai dando check em tudo o que já tiver sido ‘comprado’, está bem? Deus, eu sou péssima nisso!

1- Eu espero que as coisas estejam melhores aí para você. Espero que os dias não sejam tão chuvosos aí dentro e que você consiga ver algum raio de sol agora. Espero que as lágrimas tenham dado lugar a algum sorriso, e que a dor tenha parado. Por deus, me diz que a dor parou. Me diz que agora não dói mais, mas que se doer me diga que é bem menos. Por favor. Diga-me que você consegue suportar e que consegue acreditar que o amanhã vai ser melhor. Me diz que conseguiu ser forte e suficiente. Forte e suficiente para si mesma. E que não precisa mais, tanto assim, da suficiência alheia para se manter firme na caminhada de sua própria vida.
2- Espero que as comidas estejam parando em seu estomago. Vomitar dói. Forçar vomito dói. E achar que só será boa após vomitar o que comeu, dói ainda mais. Dói não só a garganta ou o esôfago, dói também o coração. E apesar de ter feito isso por um longo período de tempo achando ser o correto na maior parte do tempo, e ainda ter uma voz em mim me dizendo que preciso disso, eu espero que você não faça mais nada disso. Que consiga manter a comida aí dentro. Seria uma dor a menos, pelo menos.
3- Espero que as cicatrizes tenham se fechado, e que as marcas sejam fraquinhas indicando que nenhum objeto cortante lhe encosta há um longo período de tempo. Espero que a automutilação tenha sido encerrada. E que tenha entendido que se machucar fisicamente não alivia em nada a dor interna, só piora porque ter que esconder as marcas de nossa fraqueza é doloroso. Eu sei disso, lembra? Possuo um monte dessas marcas em meu corpo. Uma moça daqui de dentro, me disse que são as marcas feitas durante a guerra que enfrentei, enfrento e vou continuar enfrentando ao longo da minha vida. Ignoremos o fato de ela ter mais certeza de que vou continuar viva do que eu mesma. Ela afirmou que ninguém passa pela guerra sem nenhum arranhão. Eu perguntei de que guerra ela se referia, e ela disse que é a guerra de nós contra nós mesmos. Eu pensei em retrucar com alguma piadinha, mas ultimamente não tenho mais forças para isso. Então, só aceitei a explicação dela e espero que ela esteja certa. Espero que as marcas na armadura tenham sido cicatrizadas, e que não exista nenhuma cicatriz nova.
4- Espero que você tenha conseguido entender as pessoas. Que tenha conseguido entender porque algumas são tão ruins, outras tão felizes e outras tão tristes. Mas, antes de qualquer coisa, se você tiver mesmo lendo essa carta, espero que tenha conseguido manter o pensamento de fazer o bem a todos. Independente de para quem seja. E que não se arrependa por ter ajudado alguém, ou por ter amado alguém. E se for possível, espero que continue espalhando o amor. E, se possível, espero que você tenha aprendido alguma coisa com as cicatrizes que o amor causou na sua armadura.
5- Espero que suas piadas tenham voltado. Sinto falta delas. E apesar de tudo, sinto falta da sua risada e do seu sorriso. Sinto falta da dor que surgia em sua mandíbula sempre que ria demais, do jeito que a garganta parecia arranhar quando a gargalhada era intensa. Sinto falta de como seu coração ficava aquecido de felicidade. Espero que ela, a felicidade, tenha lhe encontrado e que ela seja uma de suas melhores amigas agora.
6- Espero que consiga se olhar no espelho. E que isso dure mais de três segundos. Espero que seu corpo esteja do jeito ideal para você, independente de qual forma ele tenha. Eu só quero que você consiga sorrir ao olhar para ele. Que suas marcas sejam lindas e que não passem disso… Marcas. Eu desejo, de verdade, que você consiga pensar que o seu corpo é melhor do que o de modelos ou blogueiras. Espero que você consiga sorrir ao ver o seu reflexo. Porque eu sei como dói não conseguir sorrir ao seu olhar no espelho.
7- Eu espero que esteja tudo bem. Que os dias tenham se tornado menos difíceis, e mais fáceis. Espero que a respiração tenha se regularizado, os batimentos cardíacos encontrado um ritmo certo e tranquilo. Espero que suas mãos tenham parado de tremer, os lábios de secar e os olhos de lacrimejar. Eu desejo fortemente, que sua voz esteja mais alta agora. Que todos possam te ouvir dizer o que quer que você fale. Ah, eu espero que você fale. Fale tudo. O que pensa, o que deseja o que quer. Solte a voz. Fale alto e claro. Explica o que acha melhor e transforme seus pensamentos em palavras. Quem sabe, você não consiga mudar o mundo dos outros? Sei que estou ousada para alguém que não tinha certeza de nada no começo dessa carta, e eu ainda não tenho, mas se é para desejar coisas boas porque não desejar coisas grandiosas também? Então, eu desejo que você se expresse. E que esteja bem. Por favor, esteja bem acima de tudo e qualquer coisa.
8- Seja forte. Seja forte do jeito que não fui. Enfrente tudo de frente como eu não fiz. Grite sua dor e não se ache fraca por isso. Há alguns dias me falaram aqui dentro, é, o pessoal aqui é meio filosofo, que ser forte não é esconder a sua dor e tentar vencê-la sozinho. Isso é ser fraco. Afinal, é fácil esconder a dor do mundo. Difícil mesmo é dizer que dói. Difícil mesmo é dizer como se sente e pedir por ajuda. Então, se você chegou até aí e está lendo tudo isso que escrevi com essa minha letra não tão bonita, eu espero que você esteja sendo forte. Espero que tenha desistido de ser fraca e tenha entendido o verdadeiro conceito de forte. Então… Mais uma vez, para enfatizar; seja forte.
E quando for forte, mantenha-se forte.

Bom, essa foi minha lista de supermercado. Vou chama-la de “Lista de supermercados – Vida”, o que você acha? Eu gostei. Não muito, mas gostei. Eu queria acrescentar mais duas coisas, mas agora eu preciso ir. Temos horário para tudo aqui dentro, e como essa foi a última atividade do dia e preciso ir tomar banho, comer alguma coisa, tomar os remédios e dormir.
Eu realmente não sei se você vai ler essa carta, não sei se ela vai conseguir chegar até você. Mas, se chegar e se você a ler… Eu espero que tenha dado check em algumas dessas coisas. Pelo menos em uma dessas coisas.
E me desculpe pela grosseria, mas há uma voz em minha mente que me pede para dizer que; no fundo, eu espero que, eu e você, não nos encontremos nunca mais. Que você seja tão diferente de mim que não possamos ser amigas. Mas, se você chegou até aí, não se esqueça de mim, ok? Eu sei que é egoísmo pedir isso, porém… Eu quero mesmo saber se todo esse lance de “autoconhecimento e superação” é verdadeiro. Eu quero saber se tudo o que vivi, teve algum propósito ou foi em vão.
É irônico escrever isso enquanto estou chorando, mas… Fique bem.
Um beijo e um forte abraço, daquela que foi o seu “eu” no passado.
Com carinho,
Para o meu “eu” no futuro.

soltou a carta assim que terminou de ler a última palavra. Apoiou seus cotovelos em suas pernas, colocou seu rosto em suas mãos e chorou livremente. As lágrimas desciam sem indicar quando iriam parar, seu peito subia e descia pela respiração agitado e seu coração que estava acelerado.
Seu choro era sentido. Era intenso, mas tão intenso que a deixava sem palavras. chorava como não fazia há muito tempo. Ela chorava de felicidade. Não era de dor, era de felicidade. De saber que o seu eu do passado, ficaria feliz em saber que o seu eu no futuro daria check em cada item daquela lista de supermercados.
riu em meio ao choro, e quando ouviu o som de sua risada sorriu por poder estar escutando aquele som de novo.
Sua internação na clínica acontecera menos de dois dias após sua tentativa de suicídio. Foi decidido ainda no hospital, que a levou junto com a ambulância que chamou quando encontrou na banheira, que o melhor seria que ela fosse para um lugar onde fosse cuidada de verdade. E ela foi sem fazer muitas reclamações por estar envergonhada por ter falhado em sua “missão”. ficou na clínica por doze meses. Os meses mais intensos de sua vida. Lá dentro ela aprendeu um monte de coisas, melhorou em alguns aspectos e se redescobriu em outros, mas foi quando saiu da clínica que se sentiu em uma prova real. Afinal, estar em uma clínica com tratamento vinte e quatro horas por dia era fácil, difícil mesmo era permanecer forte do lado de fora da clínica sem profissionais a seguindo praticamente para todos os cantos. Os tratamentos com os médicos continuaram, mas, a atriz teve que aprender a andar com a própria força. A dizer não para a voz que cismava em surgir em sua mente. A dizer sim para um prato de comida, e a dizer não para o cabo da escova de dentes ou algum objeto cortante.
Dizer que foi fácil sua vida após a saída da clínica seria uma grande mentira, mas, dizer que sua vida estava melhor após todo o tratamento que enfrentou e todo o suporte que recebeu, era uma grande e imensa verdade.
E jamais poderia agradecer aos médicos e ao pessoal da clínica o suficiente. E muito mais do que isso, ela jamais seria capaz de agradecer o suficiente a sua melhor amiga, sua família e todos aqueles que sempre estiveram ao seu lado e ela nunca enxergou por estar ocupada demais tentando ser quem via pela tela do celular. era grata por ter as melhores pessoas ao seu redor. E por hoje, saber valoriza-los e pedir a ajuda quando necessário. Sua vida parecia bem melhor agora que aprendeu a dar valor aqueles que estão na vida real, e não em uma rede social ou na tela do celular.
também tinha aprendido que pra ser gente, a gente precisa de gente. Que ela precisava de outras pessoas para ser feliz, e que se cobrar uma felicidade autossuficiente era errado porque o risco de ir para o caminho errado era tão grande. Grande e triste. também aprendeu que precisar de outra pessoa não é vergonha, e que está tudo bem nisso.
Ela também aprendeu que dias ruins existem. E que nem tudo é mil maravilhas. Que não é porque um tratamento foi feito, que todos os dias de sua vida serão felizes. Vai ter dias em que ela vai acordar triste, sem ânimo e sem vontade de levantar da cama, mas… Está tudo bem. Acontece. Dias tristes existem para que possamos dar mais valor aos dias felizes. E bem, se os dias felizes acabam porque os tristes não vão acabar também? aprendeu que é ok chorar, gritar ou querer um tempinho sozinha. Assim como também aprendeu e entendeu que errado é valorizar demais esses dias tristes. É como dizem por aí “o problema tem o tamanho da importância que você dá para ele”.
aprendeu que pessoas ruins existem, assim como as pessoas boas. E que tudo bem tropeçar em uma das ruins às vezes. Pessoas boas ou ruins, elas sempre aparecerem em nossa vida para nos ensinar alguma lição. E depois de meses, entendeu qual foi a missão de Phelipe em sua vida: ele veio para ensinar a ela que, ela jamais conseguiria ser amada por alguém, se antes não fosse amada por si mesma. E apesar dos apesares, ela era grata pela passagem de Phelipe em sua vida.
aprendera tantas coisas depois dos piores anos de sua vida, mas naquele momento… Olhando para seus braços e vendo as marcas quase invisíveis em sua pele, ela sorriu ao observar cada uma delas. passou a ponta de seus dedos pelas marcas que tinham um leve relevo, e suspirou ao senti-las. Seu coração estava acelerado e dizer que não sentia um tremor por todo o seu corpo era mentira.
– Está tudo bem.
Ela murmurou ainda tocando uma de suas marcas.
Estava tudo bem. E se alguma coisa, no dia seguinte ou no próximo, ficasse ruim de novo, iria respirar fundo e enfrentar aquele dia até que um novo dia chegasse. Porque está tudo ter dias ruins. Está tudo bem não se sentir linda sempre e nem suficiente. Mas, tudo fica ainda melhor quando nos convencemos de que, independentemente da quantidade de cicatrizes que a guerra nos deixe, nós somos capazes de ganhar cada batalha que surgir.
Capaz. Uma palavra tão pequena e tão forte.
Por um longo período de tempo se martirizou colocando duas letras na frente dessa palavra e tirando, da palavra e de si, toda a força que possuíam.
E foi pensando nisso, que ela se levantou do chão e procurou por seu celular. pegou o aparelho de cima da cama e discou o número de Jeff, seu empresário, passou as mãos por seu rosto que ainda estava molhado pelas lágrimas, e não permitiu que o homem concluísse nem o seu “alô” quando atendeu a ligação.
– Não vou poder começar a gravação do filme amanhã. Eu fiquei tempo demais me achando incapaz, Jeff. E eu não posso deixar que outras pessoas continuem ou passem pelo o que eu passei. A minha história precisa ser mostrada, eu posso ajudar outras pessoas e- – Respirou fundo quando o ar lhe faltou, e riu baixo com a ideia que teve. – Eu preciso dizer para o mundo que doença mental existe e que podemos sempre ser maior do que nós mesmos. Eu preciso ajudar quem passa pelo o que eu passei. Eu preciso dar voz para quem não tem. Eu quero aceitar aquela proposta daquele canal para falar do que enfrentei, Jeff. E…
, cadê a ? – O homem perguntou a interrompendo, e a atriz riu.
– Foi se encontrar com o . E você pode me ajudar no que eu quero Jeff. Eu não te pedindo pra comprar absorvente pra mim. Ou pa…
– Eu perguntei pela porque vamos precisar ir para Londres pra você falar com aquele canal, . E o único voo que tem é para daqui há duas horas.
– Você… É incrível!

No dia seguinte.

Dizer que estava nervosa enquanto estava sentada no sofá no quarto do hotel que estava hospedada em Londres, era uma mentira. Ela estava muito mais que nervosa. Suas mãos soavam, seu coração parecia prestes a sair de seu peitoral e todo o seu corpo tremia por dentro. Mas ela sabia que o motivo que a levou até ali, a tomar a decisão que a levou até Londres, era muito maior e mais importante que seu nervosismo. Por isso, ela estava disposta a responder todas as perguntas da repórter, Kristy, e procurava não se importar tanto com as quatro câmeras que a filmava e com a equipe que acompanhava Kristy.
As três primeiras perguntas se referiam ao começo de sua carreira. Como descobriu que queria ser atriz, como foi seu primeiro papel, se teve o apoio e qual foi a reação de sua família, como que era interpretar tantos personagens diferentes e se possuía algum sonho que considerava impossível. Mais alguns comentários foram feitos por ela e por Kristy, deixando o quarto com um ar mais leve e descontraído, antes que a pergunta principal fosse feita.
– Acho que não seria errado dizer que, todo o mundo ficou bastante chocado quando sua tentativa de suicídio veio à tona. Digo, ninguém esperava isso de você. – Kristy falou, introduzindo a pergunta que fez o coração de errar uma batida. – Você estava sempre tão linda em todos os eventos e trabalhos, sorrindo e parecendo feliz. E de repente, explode a notícia de que você tentou tirar a sua vida.
– Sim. – concordou, sabendo que as palavras de Kristy poderiam ter soado de forma grosseira, mas que não havia outro jeito de falar sobre aquilo.
– Você pode nos dizer como isso tudo começou? Como essa decisão de tentar tirar a própria vida veio?
– Bom, eu não gosto de chamar isso de “decisão”. Não o fato de eu ter tentado suicídio. – se acomodou melhor no sofá, cruzando suas pernas feito um índio quando encostou suas costas no encosto e jogou um pouco de seu cabelo para o lado antes de colocar uma mecha atrás de sua orelha. – Veja bem… No começo, é muito fácil achar que a anorexia, bulimia ou automutilação são as suas melhores amigas. É muito fácil achar que parar de comer é a melhor saída, que vomitar o pouco que come é ok e que se mutilar para tentar parar a dor interna é o correto. No começo, realmente parece que essas três coisas estão te ajudando. Parece que elas te fortalecem e te motivam ainda mais a ir em busca do seu objetivo, seja o de um corpo ideal ou a aceitação da sociedade. Mas, quando você percebe que na verdade elas são as suas inimigas, tudo ganha um novo sentido, entende? – A atriz suspirou, passando a mão por sua bochecha para limpar dali a lágrima que molhava sua pele. – Eu não vomitava depois de comer porque achava legal, eu vomitava porque sentia que comer era um crime que eu cometia comigo mesma. Eu não me enchia de água e recusava outros tipos de comida porque queria me hidratar, era porque eu não queria engordar. Eu queria ter o corpo perfeito. Eu queria ser como aquela modelo que vi na revista, aquela atriz que vi em algum filme ou ter aquele tipo de corpo que alguém falou que era o ideal. E, principalmente, eu não me cortava porque queria chamar atenção. Se fosse só por atenção, eu não cobriria meus cortes com pulseiras e maquiagem. Eu queria que a dor física fosse maior que a dor emocional.
– Era como uma saída? – Kristy perguntou, e concordou com um aceno de cabeça.
– Sim, uma saída que na verdade não era uma saída. Porque não importava quantas vezes eu me machucasse fisicamente, a minha dor interna não passava. Muito pelo contrário, só aumentava. Mas, uma voz dentro de mim sempre me dizia que, na próxima vez, no próximo corte, a dor iria passar de vez.
– Até que…
– Até que eu não fui aceita em um papel que eu julgava importante na época, e o próximo corte veio. – sorriu fraco, se lembrando perfeitamente do dia em que entrou na banheira de seu banheiro afim de dar um fim a toda dor que sentia. – Naquele momento eu não pensei em de fato acabar com a minha vida, eu queria acabar com a minha dor. Eu queria que não doesse mais, que a voz sumisse da minha mente e que todo o mundo parasse de pesar tanto.
– Mas você não conseguiu. – Kristy comentou, não de um jeito que soava como se tivesse falhado em sua missão de parar a dor, mas como se a atriz tivesse encontrado outro jeito de parar com o sofrimento que sentia.
– Não. Naquele dia, Deus realmente me mostrou o anjo que tinha colocado em minha vida, e que eu nem tinha percebido porque estava ocupada demais com outras coisas. – olhou sobre Kristy, as câmeras e toda a equipe do canal e pessoas que ocupavam aquele quarto, até encontrar encostada na parede próxima à porta. Não sorrir fora impossível o ver sua melhor amiga ali. – , a minha melhor amiga, foi até a minha casa aquele dia e me salvou. Ela quem ligou para a emergência e me acompanhou até o hospital. Ai depois de dois dias no hospital, eu fui para a clínica de reabilitação e me tratei.
– Você ficou quantos meses internada?
– Doze, foram meses longos. Em alguns momentos eu pensei que não fosse nem conseguir sair dali, mas, bem… Eu estou aqui. – sorriu e acabou por rir levemente, sentindo-se uma vitoriosa por estar ali. Viva. Bem.
– E com certeza você tirou algum aprendizado sobre isso tudo? – Kristy perguntou, e o sorriso de se alargou quando viu o da mulher.
– Com toda certeza do mundo! – Afirmou tão empolgada que todos que estavam presentes riram. – É até difícil dizer o que eu aprendi primeiro, mas me arrisco a dizer que eu aprendi que está tudo bem. Que tudo vai ficar bem, e que nada acaba até que tudo tenha ficado bem. Sabe, na hora da dor é fácil acreditar que não vamos conseguir sair daquela situação difícil, mas somos capazes de superar o que quer que seja. E eu não estou falando isso porque fiquei doze meses recebendo tratamento em uma clínica, eu estou falando isso porque apesar de ter frequentado uma clínica de reabilitação eu vivo todos os dias de uma vez, e me deparo com situações difíceis. – explicou, com um semblante sério e tentando passar sua experiência e aprendizado. – Eu ainda vivo situações que me fazem duvidar da minha capacidade. Dias ruins existem, e está tudo. Assim como dias bons também existem, e também está tudo bem. Nada será sempre um mar de flores, e está tudo bem! – Sorriu quando teve de passar a sua mão novamente por sua bochecha, limpando a lágrima que saiu de seus olhos.
– Eu aprendi também que eu não devo me calar, não devo achar que sozinha vou mais longe ou que pedir ajuda é vergonhoso. Muito pelo contrário, pedir ajuda é lindo. É puro. Aprendi a me cercar de pessoas boas e que me amam de verdade. E aprendi também que se um dia eu me deparar com alguma pessoa ruim, eu não devo julgá-la por ser ruim, eu devo amá-la com o melhor que há em mim. Porque ser ruim é um problema dela, e tudo o que posso fazer é tentar mostrá-la que o amor é muito maior e melhor que qualquer coisa. E eu só queria que as pessoas soubessem disso: Que o amor vence tudo e todos. Que com amor ao próximo e a nós mesmos, tudo fica melhor. – suspirou, olhando diretamente para a câmera pela primeira vez depois de meses, a fim de falar diretamente com quem a assistiria. – Eu não tenho vergonha em expor toda a minha luta, eu até me orgulho dela. Minhas feridas e quedas do passado me fizeram quem eu sou hoje. E eu tenho a certeza de que o meu eu do passado ficaria orgulhoso do meu eu de agora. – Sorriu lembrando-se da carta que encontrou no dia anterior e que estava em sua mala, especialmente da lista.
– E, agora, eu peço a você que está me assistindo, que também não tenha vergonha da sua luta. Está tudo bem cair, tropeçar e achar que não conseguir. E tudo vai ficar ainda melhor quando você procurar por ajuda, seja conversando com um amigo próximo ou indo atrás de profissionais. Não acha que você vai ser um fraco ou uma fraca por ir atrás de tratamento, muito pelo contrário, você só mostrará a sua força. Porque se tem uma coisa que eu aprendi, é que ficar no chão é muito mais fácil do que se levantar dele. Mas que não é impossível. – Ela respirou fundo mais uma vez, e continuou concentrada em fazer o que queria quando aceitou aquela entrevista. – Eu só quero que você saiba que não está só. E que você não é o único a enfrentar tantos problemas emocionais, mentais ou quaisquer que sejam. Eu enfrentei tantos problemas e continuou enfrentando, e vou continuar enfrentando até o meu último dia de vida. Mas, eu preciso que você saiba e tenha em mente, que tudo vai passar. E que a sua vida vale mais que qualquer coisa. Você vale mais que um corpo perfeito no ponto de vista da sociedade, vale mais do que parecer com aquela pessoa daquela foto que você viu e muito mais do que a opinião alheia. Sua vida é importante, você é importante. E o mundo não é mundo sem você. Então, fique bem. Se cuide. Peça ajuda quando achar que o mundo está girando rápido demais. Fale o que sente, e seja forte. Por favor, seja forte. E quando for forte, mantenha-se forte. Vai ficar tudo bem, eu te prometo.
O quarto ficou em absoluto silêncio enquanto falava, e quando ela terminou o silêncio continuou, mas era possível ouvir algumas fungadas de algumas pessoas que chorava após ouvir o pequeno discurso da atriz. O clima que se instalou não era de tristeza, era de esperança. A mesma esperança e força que sentia dentro de si, ela conseguira transmitir em suas palavras e em seu olhar. E fora impossível, para qualquer um dos presentes, não se sentir tocado e emocionado com a garota que apesar de tão nova tinha tanta coisa para mostrar ao mundo.
– Bom, – Kristy suspirou, tentando disfarçar as lágrimas que deixavam seus olhos marejados. – eu tenho uma última pergunta. E mesmo sabendo a resposta, eu preciso fazer. – A mulher riu baixo, e sorriu quando fez um movimento com a cabeça, assentindo. – Hoje você acredita em você mesma? Depois de tudo o que viveu você acredita na sua capacidade?
– Uh. – A atriz respirou fundo, rindo diante da pergunta e olhando brevemente para todos ao seu redor antes de voltar a encarar Kristy que já sabia a resposta. – Eu aprendi a não ter medo. A encarar tudo o que aparecer, e me convenci de que tudo está ou vai ficar bem. E eu sei que eu sou ok. Porque todo mundo é perfeito de jeitos diferentes, e está tudo bem. Então, yey, eu posso dizer que sim. Eu afirmo que sim. Eu acredito em mim. – sorria e sentia-se verdadeiramente bem ao dizer àquelas palavras que descreviam perfeitamente como e o que ela sentia. – Agora eu acredito em mim.

FIM.

N/A: Espero que tenham gostado! Sejam fortes e mantenham-se fortes. Lembrem: pedir ajuda não é vergonha. Está tudo bem.
Até a próxima! Caso queiram falar comigo, só irem no meu Twitter : @_causeyoure.