Born for This.

  • Por: Lívia Velásquez
  • Categoria: Originais
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Sinopse: Nada foi como esperávamos de princípio, mas também não imaginávamos o final, porque, como dizem, o melhor sempre fica pro final. Dessa vez não foi diferente, já que um filho autista e cego, pode nos demandar um bocado de tempo mas isso não importava, não quando ele é a criança mais encantadora do planeta, e mesmo tão pequeno e da sua melhor forma, mostrou para o que veio!
Gênero: Drama.
Classificação: Livre.
Restrição: Nenhuma.
Beta: Elena Alvarez.

— Não, mãe! Não precisa vir, ok? Ele já está bem melhor, a febre já abaixou. – Repeti pela milésima vez ao telefone.

Mas, querida…

— “Mas” nada. Não há com que se preocupar, eu juro. Preciso desligar, tá? Os cupcakes estão no forno. Obrigada por tudo, amo vocês. – A ouvi murmurar as respostas devidas e desliguei, indo em direção ao forno vendo que os cupcakes já começavam a crescer.

A encomenda de 150 cupcakes decorados era para amanhã à tarde e apesar da correria, gostava de fazê-los o mais perto da entrega possível, assim, mantinham-se fresquinhos como feitos á pouco. Ouvi passos arrastados descendo as escadas e a criança de cabelos castanhos e totalmente desgrenhados aparecer na porta da cozinha, vestindo seu pijama estampado de foguetes e coçando os olhinhos inchados, adoravelmente.

— Mãaaae… – Chamou-me com a voz arrastada e manhosa de derreter o coração. — Tô’ com fome.

— Acabamos de tomar café da manhã, amor! – Sorri. — Sabe que precisamos continuar tomando a canja que a vovó fez e só assim, você fica bem logo.

— Não tô’ com fome de canja. Tô’ com fome de bolinhos!

— Espertinho! – Fiz um esforço para levantá-lo e sentá-lo na bancada da cozinha. — Se tomarmos a canja, prometo 2 bolinhos de sobremesa. Decorados como você quiser! – O encorajei, vendo seu rosto se iluminar com a ideia.

Andrew, é a criança mais esperta, adorável e incrível do mundo inteiro. É curioso e sempre procura, incansavelmente, entender as coisas que não sabe ainda. Insiste vez ou outra de pular do escorregador do parquinho alegando que vai voar, não parece querer parar tão cedo e já me causou boas dores de cabeça com seus tombos feios mas nada disso parecia o abalar, nem mesmo sua condição. Meu pequeno Andy tem autismo de grau moderado e cegueira parcial congênita, ambos descobrimos em seu primeiro ano de vida quando percebemos que não focava o olhar em nós e nem nos brinquedos, estes os maiores indicativos em ambas condições. Me corta o coração ver que aquela criaturinha que botei no mundo estava sofrendo e minhas mãos estavam atadas.

As encomendas que recebo de doces em geral pagavam as contas no limite mas pudemos dormir mais tranquilos quando concluí o curso de confeitaria profissional. Porém, nem tudo se resolveu por aí, não quando, conforme crescia, as consultas e tratamentos de Andy duplicavam ou triplicavam de valor. Os óculos que usava precisavam de ajustes mensais, já que, ironicamente, eram altamente recomendados com o intuito de não sobrecarregar a visão que lhe restava com tanta rapidez e a armação de silicone presa ao seu rosto, permitia que brincasse com liberdade, aliviando a bolha de estresse que eu me esforçava para não sufocá-lo.

— Você já é um homem e sabe comer sozinho, não é? – O vi assentir prontamente e repetidamente. — Mas é claro que sabe! Então, vou decorar seus cupcakes enquanto você come, tudo bem? – Meu filho parecia absorto demais em seu prato para me responder, afaguei seus cabelos e deixei um beijo no topo de sua cabeça para voltar ao outro lado da bancada, onde prepararia a última fornada de cupcakes.

Andrew comia devagar como de costume, separando imprescindivelmente cada um dos ingredientes em sua colherada no seu ritmo decorado.

Os cupcakes da primeira fornada já haviam esfriado da forma necessária, prontos para a parte mais demorada e engenhosa da decoração. Individualmente, seriam personalizados de acordo com os personagens infantis de Monstros SA e cada detalhe de Sullivan e Mike Wakowski eram imprescindíveis, quanto ao bolo red velvet, seria texturizado com chantilly nas cores de Sully e ao centro, um bombom no melhor formato de Mike. Sozinha, se tornava um trabalho e tanto mas nada que pensar no dinheirinho bem-vindo não aliviasse.

— Mã… mãe! – Andy gritou, angustiado. — Tem um gat…gato sozinho na rua.

— Provavelmente de algum vizinho, meu bem. – Respondi alto o bastante, vendo a sombra do menino dançar no chão conforme se mexia pela sala para observar o bichano.

— Não, não, mãe. E-ele tá’ sozinho. – Ouvi o baque da porta da sala se fechando e corri até lá, sem ver Andrew ali.

— NÃO VÁ PARA A RUA, ANDREW! – Ordenei, correndo atrás dele que perseguia o gato cada vez mais longe. — Andrew! – Após um longo esforço, o alcancei, puxando-o pela mão, ofegante. — Quantas vezes já lhe disse que não pode sair sozinho? – Minha voz soou ríspida quando talvez nem fosse o real propósito. Me agachei à sua altura sentindo que uma fina e gélida garoa começava a cair sobre nós. Ele encarava os pés juntos enquanto balançava o corpo para trás e para frente, resultado de sua ansiedade. — Me desculpe, Andy. Não queria falar assim mas está doente e enquanto não melhorar, não podemos brincar aqui fora. – Enquanto balançava seu corpo, meu filho começou a bater palmas ritmadas e este era mais um sinal da sua agitação, agora, elevada. Talvez fosse pela garoa e a temperatura que caíra em meio às poucas roupas que vestia as buzinas na rua, o modo que me portei ou qualquer outra coisa. Andy carecia de permanecer-se entretido o tempo inteiro ou as crises atacavam e essa era a pior versão do meu menino.

Me levantei, conduzindo-o pelos ombros até a porta de casa. O cobri com uma manta vermelha, assistindo que gradativamente seus movimentos cessavam, até que se acalmassem por completo. Quase que automaticamente, podia ouvir sua voz ao fundo dizendo “vermelha como a capa do Superman” e os olhinhos que brilhavam sempre que se comparavam fazia tudo valer a pena.

De volta á cozinha, buscava pelo fondant que após de pronto, carecia de uns minutinhos de descanso para torná-lo mais maleável. A base dos desenhos exigia uma cor semelhante á dos personagens, mas não a coloração, de fato e no caso de Mike Wazowski, o verde-menta era a opção, quando por cima teríamos o verde-chartreuse. Os traços que davam vida ao desenho eram feitos á mão, com pincel e tudo o que me restava era muita paciência e concentração. Notando que a casa estava em um completo silêncio -exceto pelos ruidinhos da televisão- me desloquei até a sala, na ponta dos pés, encontrando Andy adormecido no sofá, encolhidinho da forma que gostava e de respiração serena. Apesar de ter acordado á pouco, Andrew adormecera tão fácil devido á queda drástica de adrenalina após a crise parcial de mais cedo e quando acordar, talvez nem se recorde que fui rude. O peguei no colo, cuidadosamente e subi as escadas, amaldiçoando-as por rangerem tanto fazendo com que ele se revirasse em meus braços. Respirei aliviada quando o coloquei na cama, cobrindo-o com mais uma coberta por precaução, chequei as janelas trancadas e ao sair, encostei a porta retornando ao trabalho. Ouvi meu celular tocar ao fundo e me apressei para atendê-lo, mas a ligação caiu, aparecendo à notificação da segunda ligação seguida de Francine, minha melhor amiga e sem enrolações, retornei.

— Como está a minha Cake Boss? – Saudou-me bem humorada como sempre, assim que atendera.

— Oi, Fran! Estou abarrotada com a encomenda mas feliz, obrigada pela indicação. Você sabe como estavam as coisas aqui em casa… – Suspirei. — Tudo certo, por aí?

— Não há de quê babydoll, exceto pelos…

— Cupcakes de red velvet? – Me adiantei. — Os seus já estão separadas, é claro!

Já disse, hoje, que te amo? – Comentou travessa. Estou com ingressos para o Toy Story e estava pensando em levar o nosso próprio Andy.

— Oh, ele está gripado. Ontem teve febre alta e tudo, mas hoje já acordou bem melhor.

— Esse é o tipo de coisa que você deveria me contar, ! – Exasperou.

— Minha mãe já veio aqui e o mimou por horas. Vocês vão deixá-lo mal acostumado!

— Então acho que não seria uma boa ideia dar um teclado pra ele… não é?

— Francine.

— O quê? Assim ele não precisa viver correndo para a casa dos seus pais para tocar! Pode estudar em casa. – Fez pouco caso.

— Ele precisa entender o que são limites e vai enlouquecer com um teclado aqui!

— Ele é um talento nato, , precisa explorar. E outra, meu afilhado vai ter tudo o que quiser!

— Eu desisto de você, Fran! – Ri nasalado.

— Você diz isso há, mais ou menos, 15 anos! Preciso ir, os estúdios estão sendo montados para os castings e está uma correria. – Pelo seu tom de voz entediado, pude imaginar que ela estava rolando os olhos.

— Tudo bem. Amanhã tenho a entrega ás 16h, á partir daí sinta-se livre para vir buscar os seus cupcakes.

— Irei! Se cuidem, amo vocês.

— Nós, também!

Francine, apesar de alguns parafusos á menos, é a melhor pessoa que eu poderia conhecer. Amiga para todas as horas, nem no meu pior pesadelo eu discordaria disso. Nos conhecemos na escola e nos grudamos desde a primeira aula do primeiro dia, sem nos desgrudarmos desde então. Ela esteve do meu lado quando as primeiras suspeitas em Andrew começaram a dar as caras e esteve ao meu lado quando os diagnósticos também chegaram, segurou meu mundo para que não desmoronasse quando nem eu mesma tinha forças para isso. O pior de tudo fora ouvir da boca do pai de Andy, Nathaniel, que se o filho fosse realmente dele, não nasceria “retardado”. Doeu mais do que eu imaginei que doeria, como múltiplas facadas impiedosas no meu peito e por muito tempo ainda pude ouvir sua voz reverberando e disparando tudo aquilo novamente. Mais do que dolorido, era humilhante.

Os cupcakes pareciam se multiplicar facilmente como coelhos, ou apenas era o cansaço que começava pesar e meus ombros conforme a noite fria caía. Andy já havia passado por mim algumas vezes contando seus passos como de costume, enquanto procurava seu livro de curiosidades sobre o Universo ao mesmo tempo que aprimorava sua alfabetização, como o bom nerdzinho que era.

— Quando vamos pa..para o vovô? – Dei um pequeno pulo com a brusca chegada do meu pequeno, ri nasalado sabendo que ele já fizera isso inúmeras vezes e já passara da hora de eu me acostumar.

— Quando se curar da gripe, meu amor.

— Ma-as eu ‘tô bem

— Você melhorou, realmente, mas não está 100% ainda. Tenha paciência! – Sorri e pisquei para ele, vendo-o torcer o nariz como fazia quando não gostava do que ouvia.

— Mãe. – Desviei minha atenção da decoração que fazia e o encarei, esperando que prosseguisse. — Vi a senhora Clark c-com dois cachorros hoje. P-podemos ter um?

Não era a primeira vez que me pedia um cachorro mas a ideia de ter um, me dava dores de cabeça apenas por imaginar que dobrariam minhas obrigações. Sabia que era egoísmo pensar como tal, porém tenho tentado enrolá-lo até que cresça mais um pouco, para que possa adicionar mais uma responsabilidade sem que o sobrecarregue, no entanto, precisava confessar que a ideia de ver meu homenzinho correndo por aí com um cachorro fazia meu coração se derreter por completo.

— Vou pensar, tudo bem? – Ele sorriu banguela, exibindo sua janelinha e ajeitou os óculos em seu rosto. Empurrei seus cupcakes até seu campo de visão e seus olhinhos se arregalaram brilhantes, competindo imediatamente com a beleza do seu sorriso inocente. Sabia que após seu pico de ansiedade, ele não se lembraria do que havia me pedido, mas nada que não pudesse soar como um pequeno presente nos tempos difíceis e meu filho logo correu até a sala com os bolinhos em mãos. Voltou segundos depois, atravessando a cozinha para abraçar as minhas pernas, um tanto desajeitado e agachei para beijar seus cabelos e abraçá-lo de uma vez. O ouvi murmurar um “obrigada, mãe” abafado pelo meu carinho e precisei segurar seus ombros para que não corresse mais uma vez, me dando o luxo de observá-lo um pouco. A pele pálida evidenciava a ponta do nariz que estava vermelha mas que mesmo assim, deixava suas sardinhas á mostra e os cabelos castanhos, curtinhos e repicados estavam bagunçados pela forma que deslizava minha mão por eles. Passou a manga da blusa que vestia nos óculos para limpá-los, os mesmos que tinham a armação azul de silicone fixada ao seu rosto como medida emergencial após perder ou quebrar inúmeros, contrastando com as bochechas rechonchudas e rosadas dele, fazendo-o o ser humano mais incrível do mundo, e era ele, que eu protegeria até o fim dos meus dias.

Depositei um beijo estalado em sua bochecha para distraí-lo enquanto passava a mão no punhado de farinha de trigo, sujando-o em divertimento. Ele me olhou confuso e se manteve quieto, esfregando o local para limpá-lo, esgueirou-se pelas beiradas da bancada e o observei voltar à sala, restando entregar-me mais uma vez ao trabalho. Comecei juntando os utensílios e ingredientes que não usaria mais, para agilizar o processo de organização quando o sono batesse e senti sua mãozinha quente deslizando no meu braço, sujando-o da forma que fiz com ele há pouco. A risada que dei se transformou em uma gargalhada conforme percebi que ele ria também e imediatamente senti meu coração se esquentar.

— Oh! É bom que você corra, rapazinho, porque eu quero te encher de cócegas! – Ameacei indo em sua direção, sem tempo para mais, ele logo correu para o andar superior e nossas risadas apenas aumentavam. Vi que ele adentrou seu quarto e cessei os passos, dando tempo para que se escondesse como bem entendesse, adentrei o cômodo nas pontas dos pés, olhando em geral mesmo sabendo que ele estava embaixo da cama. Andei pelo quarto, abrindo as portas do guarda-roupa e mexendo nas cortinas para tapear meu menino, ouvindo seu risinho -adorável- quase se tornando incontrolável. — Onde ele se escondeu? – Parei no meio do quarto e pus as mãos na cintura, dramatizando. — O jeito é deitar aqui e esperar ele aparecer. – Fiz um muxoxo, me esparramando por sua cama lembrando-me de remexer bastante, tendo certeza do alvo atingido quando gargalhou alto. Aguardei alguns segundos até silenciar e me abaixei subitamente na tentativa de assustá-lo mas foi em vão, ele apenas alargou o sorriso e se levantou, tentando correr mas antes de qualquer coisa, consegui segurá-lo pelos braços, levantando no ar. Distribuí beijos por todo o seu rosto ainda que Andrew tentasse se esquivar, ele caiu na cama e pude concretizar minha promessa, enchendo sua barriga de cócegas, rindo das suas pequenas mãos que tentavam fazer o mesmo em mim. Ele se contorcia e ria alto, e eu não estava muito diferente, percebendo que os olhos começavam a criar lágrimas nos cantos perante as gargalhadas, cessei as cócegas trazendo-o comigo para que sentássemos na beirada da cama e recuperássemos a respiração. — Deus do céu! Você é o garoto mais lindo do mundo, como pode? – Me curvei, deixando um beijo solitário em sua testa e céus! Eu estou cada vez mais coruja! — Vem, vamos jantar porque eu não sei você, mas eu estou morta de fome.

Acordei com o pescoço dolorido e os ombros travados depois de dormir no sofá após jantar com Andy assistindo Os Vingadores para dispersá-lo, enquanto seus remédios faziam efeito. Estes ajudavam com o sono tranquilo à noite, logo que descobrimos seu pânico da escuridão. Quando Andy já estava na cama, me dei o luxo de alguns minutos de descanso aproveitando para terminar o filme, o difícil fora perceber que estes “minutos de descanso” se alongaram até ouvir o cantar dos pássaros no dia seguinte.

O cheiro gostoso de café se espalhava por toda a casa enquanto eu fazia a higiene matinal e a massa para o bolo já estava pronta e posta para assar em suas respectivas camadas. Ao que tudo indicava Andy acordaria logo já que seus dias de acordar tarde aconteciam apenas quando adoecia, sem contar que seus desenhos preferidos sempre foram os que passam cedinho. Dito e feito! Camadas assando, cupcakes em seus toques finais e Andy despertando.

— Bom dia, Incrível Hulk! – Cumprimentei, fazendo referência ao seu pijama estampado do herói.

— Mãe, po-podemos ir visit-tar o vovô hoje? – Perguntou com a voz baixinha, se arrastando preguiçoso até mim.

— Temos uma entrega hoje á tarde, depois vamos direto pra lá. – Ele assentiu e tomou seu lugar á mesa. Providenciei as nossas panquecas com mel que tanto amávamos e me sentei ao seu lado, para a primeira refeição do dia.

Gostava de me iludir com a ideia de que um ou dois nós se desfizeram nos meus ombros apenas com a água quente que caía do chuveiro apesar de conseguir ouvir o tic-tac do relógio na 1h30 que me restava antes da entrega. Tudo estava devidamente em seu lugar, inclusive o bolo, que me causou ondas gostosas de satisfação e orgulho após finalizado, nos mais sórdidos detalhes de Sully. A meia hora que separei para arrumar á mim e á Andy passou mais rápido do que eu imaginei e a correria começou quando precisei passar as encomendas para o carro. Na maioria das vezes levava Andy comigo pois era inviável deixá-lo sozinho em casa e de acordo com as condições financeiras, uma babá estava fora de questão. Quanto aos meus pais, eles estavam sempre disponíveis mas dispostos nem tanto, já que meu filho demandava energia á beça, coisa que, eu mesma, poucas vezes pude dar conta!

De Norristown até o condado de Eagleville eram 7km, esta, a região próxima mais rica com uma arquitetura encantadora de casas enormes e perfeitas como nos filmes, sem contar que as melhores escolas do estado da Pensilvânia se encontravam naquele condado e diziam os curiosos, que vez ou outra, alguns artistas de Hollywood passavam suas férias com a família por ali, relembrando a infância e tudo isso, valorizava ainda mais a região. Atravessando a Avenida Summit já podíamos ver o EagleVille Park, a biblioteca e o conservatório de música e dança mais á frente. Seguindo o endereço na rua Sunderland a casa se encontrava logo a frente e não me surpreendi de como a casa era luxuosa. Estacionei e vi de relance Andrew descarregando boa parte da sua força para abrir o porta-malas e ver sua dedicação em mínimas que fossem as coisas era cativante, dessa vez não foi diferente. O início da festa estava programado para três horas á partir dali e apesar da grande margem de tempo restante, a decoração infantil já começava a dar vida por todo o local e era gostoso ver todo o trabalho ser executado, comumente recebia fotos dos doces inseridos na decoração como feedback e contribuição para a divulgação do meu trabalho. Poder comparar o antes e depois era um privilégio lauto e me deixava cada vez mais entusiasmada com tudo que eu poderia realizar para ver cada rostinho sorridente.

Cruzei o grande jardim da casa, até a lateral, fazendo o mesmo caminho que o buffet fazia, conhecendo o caminho para que pudesse descarregar.

? – Uma voz feminina e suave me interrompeu no caminho.

— Sim, pois não?

— Sou Juliet Donovan, a contratante. – Ela se apresentou brevemente, me oferecendo um aperto de mãos. Loira, de olhos claros e delicados, tinha uma figura quase angelical.

— Ah sim! Claro! Me desculpe. – Correspondi ao seu cumprimento, desajeitada. — Este é Andrew, meu filho.

— Olá Andrew, como vai? – Ela se agachou um pouco para se aproximar da baixa estatura dele e o cumprimentou, polida como fez a mim. — Desculpa tê-la contatado apenas por intermédio de Francine mas está tudo uma correria ultimamente.

— Não se preocupe, eu agradeço que mesmo por intermédio, ter me dado essa chance.

— Não seja modesta, querida! Aquelas provas que me enviou são de tirar o fôlego! – Sorriu simpática. — Red velvet sempre foram minha paixão mas os seus…

— Juliet! Juliet! – Um homem a chamou esbaforido. — Achei que… – Tentou retomar o fôlego após chegar correndo. — Achei que não fosse consegui chegar a tempo!

— Bom pra você! Porque ainda restam algumas horinhas de descanso. – O abraçou ternamente mesmo que rápido. — Mamãe está lá em cima e ah! Esta é , encomendei o bolo e cupcakes com ela.

— Perdoe minha falta de educação! – Suspirou. — Sou , irmão de Juliet e tio da pequena Alice. – Cortês, o rapaz de olhos claros se apresentou, esticando-se para um aperto de mãos tão cordial quanto o da irmã mas que me fez desviar os olhos para a mão que deslizou por seus cabelos, tentando arrumá-los ainda que estivessem perfeitos no lugar para, de quebra, espalhar seu perfume ali.

— Sou ” Craig.

, pode ajudar Alli a se trocar? Ela estará de Boo mas as roupas já estão separadas só não deixe ela se sujar. – O moreno assentiu e logo se retirou em direção ao andar superior da casa, tão apressado quanto chegara. — Desculpe a interrupção , ele claramente tem um parafuso á menos! – Riu nasalado e eu a acompanhei. — tem boa vontade mas é tão atrapalhado quanto Alli, capaz que eu suba e estejam os dois imundos! Nos falamos depois, tudo bem? – Assenti prontamente sem ter muito o que realmente responder e retornei a atenção ao porta-malas do carro.

Sabendo que levaria Andy, sempre separava parte das encomendas em embalagens menores para que ele pudesse me ajudar a descarregar do seu próprio jeito, e ele estava sente disposto a cumpri-lo. Entramos e cruzamos os jardins algumas vezes, com todo o cuidado necessário e parando algumas vezes para ajudar quem estava em uma correria maior que a nossa.

?

— Sim! – Respondi automaticamente com o rosto enfurnado no porta-malas, puxando mais algumas caixas. — ! Oi! Algum problema? – Coloquei as mãos na cintura, observando-o.

— Juliet me expulsou, então pensei que talvez pudesse ajudar aqui! – Fez um muxoxo e colocou as mãos no bolso dianteiro da calça jeans clara.

— Por aqui está tudo tranquilo mas obrigada.

— Este é meu jeito de dizer que não fui á academia essa semana e estou tentando me redimir com algum trabalho braçal. – Disse rápido, como se estivesse contando um segredo. — Tenha misericórdia! – Clamou, soltando uma risada contagiante ao final que precisei me render.

— Tudo bem, acho que posso ter piedade! – Respondi marota ainda rindo de seu drama, assistindo seu sorriso se alargar sendo escondido –infelizmente- quando se curvou para pegar o bolo no carro, fazendo-me rezar vinte Ave Marias a cada passo seu, até que estivesse devidamente seguro.

Os cupcakes por minha conta e de Andy não demoraram a ser terminados, então logo fechávamos o porta-malas com o dever propriamente cumprido.

— Satisfeito com o treino de hoje? – Sorri para , quando o vi retornar.

— Muito! Me sinto outra pessoa. Obrigado! – Gargalhei do seu exagero e ele me acompanhou.

— Então minha missão está cumprida! – Pisquei.

— Missão. – Andy repetiu ao meu lado, batendo continência.

— Obrigada, , foi um prazer conhecê-lo. – Me aproximei, lhe oferecendo um aperto de mãos que respondeu de bom grado e nos mantemos em silêncio por um tempo enquanto reparava na intensidade que seus olhos transmitiam. Pigarreei, tentando retomar a consciência.

— Igualmente. Ah! Os bolinhos ficaram fiéis aos personagens, parabéns. Você é muito boa! E garoto. – Se dirigiu á Andy. — Você tem a força do Superman! – Ofereceu um hi-five para o meu filho que demorou um pouquinho a corresponder, me olhando como se pedisse permissão ou se fosse realmente confiável e eu assenti.

— Bom, está na minha hora, o Superman tem o mundo pra salvar não é? – Passei a mão pelos cabelos de Andy e ele sorriu, contido. — Agradeço a confiança de vocês, é uma honra.

— Igualmente. – Repetiu lentamente. Murmurei um “boa festa” e girei as chaves nos dedos, talvez para me ajudar a sair do transe, ajudando Andrew á entrar no carro e colocar o cinto de segurança, batendo a porta e fazendo o mesmo á mim — ! – Dexter chamou, antes que eu ligasse o carro, vindo até nós. — Tem algum cartão? Pra eu recomendar á algum amigo. – Coçou a nuca e seu perfume, agora mais forte pela proximidade, se espalhou ali e eu precisei suspirar na desculpa de recobrar a atenção mas, na verdade, eu queria aproveitar os segundos que respirava aquela essência invulgar. Me estiquei até o porta-luvas, buscando meio dúzia de cartões com os números de contato e site com demonstrações do trabalho, deixando-os em sua mão, que agradeceu, e me deixou apenas a coragem de murmurinhar um comedido “eu que agradeço”, despedindo mais uma vez para finalmente ligar o veículo, rumando a casa dos meus pais, consideravelmente longe dali.

De volta a Norristown, investimos toda a nossa tarde em matar as saudades que Andy estava dos avós e eu também, de um tempinho repleto de risadas com meus pais.

Papai insistia em continuar com as aulas de piano com o neto e me enchia de orgulho cada avanço seu e assistir sua desenvoltura com o instrumento era encantador. Pouco a pouco, meu pai treinava a voz de Andy também, ganhando força e imposição para que pudesse cantar e tocar simultaneamente, dando vida ao dom do mais novo e a um dos métodos mais eficazes de entretenimento no autismo. A voz de Andy era doce como a de uma criança costumava ser, mas ao cantar, se tornava segura, forte e deslumbrante como de um performista nato. Seus olhos cobertos pelos óculos infantis lhe davam um ar, até fofo, e fechava-os por um instante para concentrar, abrindo-os e revelando a forma feroz que devoravam as teclas do piano em uma agilidade descomunal e uma destreza que não fora ensinada, mas que nascera com ele.

Ansioso, meu filho tomava a frente e arrancava algumas sinfonias que aprendera e era impossível não enxergar que mais do que qualquer coisa, a criança pertencia ao dom da música e nada mais.

Já mamãe, era a responsável por tentar tirá-lo de casa na desculpa de que papai era muito rígido em manter o garoto apenas embaixo do mesmo teto tendo de lidar com partituras, então, as partidas de futebol que inventava era perfeita para fugir de tal. Apesar da noite que começava a cair, a temperatura subira consideravelmente hoje, comparada aos últimos dias cinzentos, fazendo do pôr-do-sol uma sensação agradável. No jogo de hoje, mamãe era a atacante do time adversário e Andy o goleiro em uma final de Copa do Mundo com direto á decisão nos pênaltis e tudo mais, me causando risinhos e suspiros bobos conforme os observava pela janela vez ou outra, enquanto eu e papai conversávamos tranquilamente na sala tomando seu inseparável vinho de safras antigas.

Meu pai, um maestro aposentado, tentava brotar no neto a paixão que o fisgou durante uma vida inteira, e apesar de me ver recusar inúmeras vezes, encontrou seu parceiro de crime e estava para nascer quem discordasse que meu filho compartilhava da mesma paixão envolvente do avô e estava para seguir seus passos.

! Querida, venha! Venha rápido. Andrew se machucou! – Minha mãe abriu a porta da sala, afoita e atropelando algumas palavras em sua voz trêmula e vacilante. Sem me dar o luxo de pensar muito corri até o quintal, vendo que as poucas crianças dali, observavam meu filho, espantadas.

Andrew estava deitado no chão e chorava copiosamente, meu coração agora menor que uma ervilha estava prestes á sair pela boca quando meus olhos também começaram a criar lágrimas.

— Meu amor, mamãe está aqui, não se preocupe. Estou aqui. – Como se fosse de porcelana, o peguei para apoiá-lo em meu colo, da forma que fazia desde seus primeiros dias de vida para acalmá-lo. Ele estava agitado demais, rangendo os dentes, mantendo as pálpebras fechadas com força enquanto lágrimas grossas escorriam por seu rosto. Na sua testa, havia um corte e ver o sangue dali pode ter aumentado sua crise. — Mãe, o que aconteceu?

— Eu… Eu chutei a bola longe demais e ele foi buscar. Não olhou para os lados e foi atropelado por uma bicicleta.

— E por acaso não o viram? – Rangi os dentes.

— Era um adolescente que apenas passava aqui no bairro, não era daqui e quando percebeu, saiu correndo.

Balançava minimamente Andrew em meus braços mas parecia em vão, já que seus movimentos repetitivos não cessavam. O peguei no colo, carregando-o com cuidado.

— Mãe, pega minhas chaves e a bolsa lá dentro, rápido. – Ela saiu disparada e insisti em um carinho nas costas do meu filho. — Estou aqui, meu amor, não se preocupe. – Repeti, sussurrando serena ao seu ouvido. Mamãe retornou com os pertences e papai ao encalço, aflito.

— O que vai fazer, ? – Perguntou ele.

— Preciso levá-lo ao hospital, Ele não consegue me falar onde dói então vamos precisar de um check-up. – Esclareci automaticamente, destrancando o veículo para deitá-lo nos bancos traseiros.

— Me deixe ir com vocês. – Mamãe insistiu com a voz chorosa.

— Não precisa, mãe. Ligo pra vocês depois, ok? – Adentrei o carro, ligando-o com pressa. — E não se culpe! – Gritei por último, dando ré para sair cantando pneu.

Eu com certeza teria algumas –muitas- multas de excesso de velocidade para lidar depois mas nada que fosse mais preocupante que meu filho chorando, estirado nos bancos atrás de mim e eu não poderia aguentar mais um segundo de sua dor.

Estacionei com urgência no Einstein Norristown Family Hospital, pegando-o no colo mais uma vez, batendo as portas do veículo da melhor forma que me foi possível. Um enfermeiro saía na mesma hora e gritei por ajuda, ele se adiantou e chamou mais duas colegas, uma delas trazia uma maca, onde o deitei, vendo vestirem meu filho com um colar cervical.

— Mãe, o que aconteceu? – O enfermeiro questionou apressado enquanto empurrávamos a maca para dentro do hospital.

— Ele foi atropelado por uma bicicleta adulta em alta velocidade. Ele também é autista e tem baixa visão e não conseguiu me dizer onde dói.

— Tudo bem. Vamos fazer um raio-X mas precisamos que a senhora preencha a ficha na recepção. – Sem gentileza alguma, desvencilharam minhas mãos da maca e uma das enfermeiras se pôs na minha frente, impedindo minha passagem adiante.

— Mas eu preciso ir com ele! Ele é…

— Eu sei, senhora. Preencha a ficha.

— Ele não pode ir sozinho porque…

— Senhora. A ficha. – Ela me encarou entediada e afrouxou a mão que segurava meu braço que eu sequer percebera, indicando-me a recepção.

Preenchi rápida e automaticamente os dados que sabia de cor, na esperança de ver o mais rápido possível como Andy estava e cada segundo naquela sala de espera, era uma angústia e dava espaço para um medo irracional sem fim.

— Senhora Craig? – Um enfermeiro me chamou e eu prontamente levantei. — Pode entrar, chamarei um médico para conversar com vocês. Precisamos injetar um sedativo leve em Andrew para que pudéssemos aplicar analgésicos e tirar o raio-X. Se me der licença. – Ouvi atentamente, assentindo para murmurar um “claro” com a voz rouca, ficando sozinha no quarto com meu filho desacordado. Era ainda mais desesperador não ouvir sua voz, nem ver seus olhos, sentir seu toque…

Não demorou até que a porta se abrisse e o médico adentrasse, buscando diretamente o prontuário de Andy, analisando-o.

— Boa noite, senhora Craig e Andrew, correto? – Assenti e ele suspirou, ajustando seus óculos ao rosto, tirando a caneta do bolso do jaleco para rabiscar os papeis e sua tranquilidade silenciosa para tal estava me matando aos poucos. Seus anos de experiência evidentes em seus cabelos grisalhos me davam ainda mais angústias com que me atentar e nessa atual conjuntura, eu mal conseguia me manter em pé nas pernas bambas.

— E então? – O apressei, em suplício.

— Bom, ele não deslocou, trincou e muito menos, quebrou nenhum osso.

— Ah! Céus! Eu já estava quase desmaiando! – Suspirei aliviada.

— Mas… – Meu coração sem tempo para se aliviar, logo acelerou novamente e engoli em seco. — Com o choque, as retinas se descolaram e como sabe, em médio a longo prazo deve causar cegueira e apenas a cirurgia é capaz de reverter o caso. No caso de Andrew, me surpreende que no caso clínico de baixa visão isso não tenha acontecido antes. – Suspirou. — Digo de médio a longo prazo por ele ser jovem e a sua recuperação de tecidos ser muito mais rápida mas enquanto não fizermos a cirurgia ele ficará sem visão alguma, sinto muito. Os sedativos o ajudarão dormir tranquilo até amanhã de manhã apenas, a senhora pode descansar também, logo a enfermeira lhes dará o papel da alta. Com licença.

O chão sumiu embaixo dos meus pés, meus pulmões se esforçavam para encontrar ar, minha visão estava turva e eu havia desistido de tentar segurar as lágrimas grossas, assim como não segurei o choro que rasgou minha garganta. Não… Não com o meu filho, o meu amor, meu tesouro. Ele não merecia isso, ele só quer ser feliz. Ler seus livros que mais nenhuma criança da sua idade lia e assistir os documentários da NASA, não era justo que fosse impedido de tal, algo tão simples. Não era justo que fosse impedido de qualquer coisa! A criança mais adorável do mundo saíra de dentro de mim e eu não poderia permitir que o sofrimento deste mundo o abatesse. Andrew Craig. A melhor criança do universo, meu filho, não vai sofrer uma dor que não lhe pertence, porque tem á mim para livrá-lo dela e eu posso sofrer sua dor até o fim dos meus dias, se eu puder tirá-la dele.

O médico passou mais uma vez no quarto para me explicar melhor sobre o sedativo, a cirurgia incluindo seu custo e os resultados do exame de sangue. Encaminhados para um oftalmologista, fiz o orçamento da cirurgia contendo Retirada de Corpo Estranho Intra-ocular com vitrectomia após Descolamento de retina, vitrectomia conclusiva e óleo de silicone. O valor passou do que eu imaginava, na verdade duplicou e eu não fazia noção de como conseguir essa enxurrada de mil dólares. Após a consulta e orçamento, fui até a lanchonete, procurando por algo que me mantesse acordada, no caso de Andy acordar assustado por não saber onde está e me sentei por ali. Apesar de destruída interna e externamente, eu precisava me manter acordada, maquinando a melhor, mais rápida e mais viável forma de desembolsar a pequena fortuna. Respirei fundo lutando por sanidade, lembrei-me que por mais tarde que já fosse, prometi que ligaria para os meus pais e só de imaginar que teria de reler todo aquele roteiro, minha garganta criava um nó difícil de engolir e senti a visão turva, pigarreando para tomar coragem, discando os números.

— Alô? , querida! – Meu pai se adiantou a mais uma vez senti o nó na garganta me castigar, mas desta vez, os olhos não foram tão fortes, deixando as lágrimas escorrerem sem freio. — Por favor filha, me diga o que aconteceu. – Ele suplicou já com a voz embargada e eu o quis ali, para me abraçar da forma terna que fazia quando tinha a idade de Andy, dizendo que tudo ficaria bem e realmente ficava. Minha cabeça parecia rodopiar conforme, cada vez mais forte as lágrimas caíam.

— Pai, ele não vai enxergar.

— Oh não…

— Descolamento de retina, resumidamente, ainda há mais umas quinhentas coisas que não consegui nem decorar os nomes. – Funguei, secando meu rosto úmido.

— Sinto muito, querida. Nós vamos dar um jeito nisso e ele vai ser feliz, como sempre foi.

— Eu não sei, pai… Não sei se ele vai entender, ainda é tão novinho.

— Ele é um menino de ouro, , é claro que vai! Não se preocupe, estamos com você.

— Obrigada. – Sussurrei, respirando fundo e secando as lágrimas teimosas que ainda caíram. — Cadê a mamãe? – E foi a vez dele suspirar, então arqueei minhas sobrancelhas sabendo que ele só fazia isso em casos extremos.

— Precisei trocar o remédio dela da pressão por um calmante e antes do calmante fazer efeito, dei o da pressão. Ela ficou nervosa demais , não conseguiria ouvir nenhuma notícia agora.

— Principalmente uma dessas.

— Querida, estou indo aí.

— Não, pai, não precisa. Ele só vai acordar amanhã de manhã e se não se importa, gostaria de conversar com ele sozinha.

— Tudo bem, mas não hesite em nos chamar. – Alertou.

— Não hesitarei. Pai, pode ligar pra Fran? Avise que não estamos em casa mas não fale nada ainda, converso com ela depois.

— Certo. Sua mãe já está acordando, tenho que desligar. – Sussurrou.

— Tudo bem, me avise como ela está e pegue leve com ela, por favor.

— Não vou deixá-la se sentir culpada.

— Obrigada, amo vocês.

— Também amamos vocês. – Finalizamos a chamada e me vi sozinha mais uma vez, e agora, o peso parecia ainda maior. O frio na barriga se espalhou por todo o corpo me causando calafrios de angústia difíceis de controlar e eu me sentia ainda mais impotente.

Sem opção, retornei ao quarto, vendo Andy exatamente da mesma forma que o deixara e isso fazia meu coração murchar sem que pudesse ouvi-lo. Acomodei-me na poltrona ao seu lado, sem conseguir tirar meus olhos do seu corpo que parecia ainda menor naquela cama de hospital e meus olhos vacilaram mais uma vez naquela noite.

Tentei me aconchegar de outra forma na poltrona mas piorou, devido ao mal jeito no pescoço e foi o suficiente pra que eu não pregasse mais os olhos, sentindo o quarto mais quentinho do que horas atrás, resultado do Sol que nascia. Refiz o caminho até a lanchonete, buscando um café puro e ao longo vi Dean Dawson, o médico de Andy, direcionando-se até o quarto e me apressei para desfazer do café, que eu sabia que não desceria mais uma gota sequer.

— Doutor Dawson? – Ele se virou, oferecendo um aperto de mão que correspondi.

— Bom dia, senhora Craig. Estava mesmo procurando-a. Aqui estão alguns panfletos informativos de pré e pós cirurgia e hospitais referência em oftalmologia. – Entregou-me. — Lembrando que temos a margem de mais ou menos, um ano. Não digo como médico mas como pai: talvez seja, para ele, um baque maior do que imaginamos e então, uma boa ideia seria conversar com Andrew ainda aqui, onde podemos disponibilizar de apoio psicológico, se necessário.

— Obrigada, Dr. Dawson, é muito gentil da sua parte porque, eu mesma, não estou com muita cabeça pra pensar nisso tudo agora. – Ri nasalado.

— Não se preocupe, é apenas uma cirurgia e ele voltará novinho em folha como no dia em que nasceu. – Sorriu sem mostrar os dentes, encorajador. — E o garotão está de alta, os curativos da cabeça devem permanecer uma semana e o dos olhos, quatro dias é suficiente, lavando-os com soro fisiológico três vezes ao dia. Foi um prazer. Melhoras.

O quarto agora totalmente alaranjado pelos raios de Sol, davam uma –ainda que falsa- sensação de aconchego e me sentei ao lado de Andy, em sua cama, para acariciar seus cabelos com cuidado, sabendo e tentando lidar com a realidade que seus olhos, repletos de ansiedade e carinho, não me encarariam hoje. Isso estava me matando aos poucos, e saber que os próximos dias também seriam assim, me enfraquecia ainda mais.

— Bom dia, meu amor. – Disse com a voz terna, ainda com os dedos mergulhados em seus cabelos e ele se remexeu, botando em meu rosto um sorriso melancólico, ouvindo seus murmúrios desconexos. — Preciso conversar com você, príncipe. Algo muito sério. – Expliquei calmamente. — Mas você precisa me prometer que não vai abrir os olhos, tudo bem? – Meu filho assentiu um pouco preguiçoso e eu continuei. — Se lembra do que aconteceu ontem?

— Est… Estávamos na casa d-da vovó quando eu caí.

— Exatamente, meu amor. – O nó na minha garganta pareia cada vez maior, na intenção de me deixar muda e incapaz, mas agora era a única hora, em que eu precisava, pelo menos, fingir uma força descomunal, pelo meu menino. — Quando você caiu, soltou uma pecinha dentro de você e essa pecinha ficava no olho, e sem ela você… – A voz falhou e meu lábio inferior estava sendo castigado na tentativa falha de segurar as lágrimas enquanto o mordia. — Você não vai poder enxergar.

— Mas eu se-sempre usei os óculos, mãe!

— Eu sei, e você fez certo! Mas desta vez, é sobre a pecinha que está solta em você. Para consertarmos ela, precisamos de cirurgia. – Suspirei. — E essa cirurgia é muito cara, do tipo, o dinheiro que a mamãe não tem.

— Tenho treze dólares embaixo d-do meu abajur!

— Será muito útil! – Sorri encorajadora e enlacei minhas mãos nas suas, para que ele pudesse sentir. E mesmo depois de tanta coisa, Andrew continuou o mesmo. Este é o meu filho, a melhor criança do universo! Apesar de não ter certeza de que ele realmente entendeu esta ainda era a forma amável que Andy sempre foi e eu amo cada centímetro.

Meu pequeno optou por tomar café da manhã ali e eu sabia que era para se aproveitar da salada de frutas da qual se esbaldou!

Abrir a porta de casa e sentar no próprio sofá se tornou um dos maiores luxos após a noite mais do que mal dormida e Andy permaneceu quietinho boa parte do tempo, talvez confuso por não saber o que fazer sem seus livros e desenhos animados. E isso era de cortar o coração.

— Hey, ainda podemos ler seus livros, posso ler pra você, o que acha?

— Legal. – Respondeu automaticamente.

— Está sentindo essas bolinhas? – Envolvi sua mão com a minha para deslizá-la pela capa do livro que havia leitura em braile. — Elas também são letras, que nós vamos aprender ainda e enquanto isso posso te ensinar a fazer bolo, se quiser… – Um sorrisinho brotou em seus lábios fazendo com que automaticamente brotasse um em mim também.

— Não vai tr-trabalhar hoje?

— Não. Hoje temos o dia só pra nós, para o que quisermos. – Entonei animada na tentativa de animá-lo.

— Bolo de chocolate? – Perguntou incerto.

— Só se for com gotas de chocolate e muita cobertura! – Depositei um beijo em seu rosto e ele riu, se levantando e buscando por minha mão para segurar. O som da campainha soou e corri para atender.

— Fran! Eu te liguei mil vezes! – Ela não disse nada, largou sua bolsa no chão e me abraçou.

— Como ele está?

— Meu pai te contou?

— Ele não queria mas eu o obriguei. – Revirou os olhos.

— Depois eu te explico melhor e ele está bem, só não está entendendo muito.

— Precisa explicá-lo, .

— Eu sei, e eu vou. Só pretendo distrair um pouquinho agora pra que ele não sinta o baque todo de uma só vez. Vem, vamos fazer um bolo de chocolate! – Ela concordou e recolheu seus pertences, rapidamente, adentrando a sala, vendo que Andy nos aguardava.

— Não acredito que vocês iam fazer um bolo sem mim! – Foi até meu filho e o abraçou, levantando-o no ar como sempre pedia e eu pude, finalmente, ouvir sua risada ecoar.

— Tia Fran, est-tava c-com saudade.

— Eu também estava, Incrível Hulk! – Respondeu marota da melhor forma que sua pose de “tia legal” lhe proporcionava. Quando com Andy, Francine se tornava tão criança quanto ele. — Vamos logo fazer esse bolo porque não há nenhum no mundo melhor que o da mamãe, não é Andrew?

— SIM! – Ele respondeu alto.

— Não me bajulem, porque vocês vão bater a massa sim! E eu vou preparar o recheio e a cobertura. – Andrew acatou de imediato, mas minha melhor amiga resmungou por um tempo, contrariada como uma criança.

A visita de Fran era exatamente tudo o que precisávamos e por mais que eu não gostasse de admitir á mim mesma, esse tempo livre era perfeito para que eu esfriasse a cabeça e pudesse pensar com mais clareza nos passos seguintes.

Uma semana se passou e com ela, os curativos de Andrew e umas encomendas pequenas mas as preocupações estavam aqui, aliás, elas sempre estavam.

— Mãe! Chegamos! – Gritei assim que cruzamos a porta da casa dos meus pais, ouvindo os passos apressados de ambos e a bengala que auxiliava Andy bater em alguns cantos da casa.

— Andrew! ! Querida, pareceu uma eternidade! – Mamãe abriu os braços, ansiosa por nós.

—Céus! Só estávamos em outro bairro! – Ri do exagero dos meus pais, me referindo aos dias que passamos no apartamento de Fran e eles tanto cobraram que passássemos com eles também, que estávamos ali então só assim, mamãe veria que, na medida do possível, estamos bem.

Meus pais moram em um bairro familiar –se é que posso chamar assim- e nunca estão sozinhos. Sempre há uma vizinha para conversar ou trazer tortas, uma criança para papai arrumar a correia da bicicleta ou ensinar piano. Este, que passava horas tocando com Andy, desde muito pequeno.

O instrumento trazia para o meu filho a disciplina que precisava, ajudava na coordenação motora e de quebra, o entretia, tendo em vista que o garoto se apaixonou pelo piano desde sua primeira aula com o avô. Hoje, já dava seus primeiros passos em sinfonias complexas como Bach, deixando papai todo orgulhoso.

Era reconfortante saber que o refúgio para Andy, das coisas que nem ele mesmo entendia, estava em uma arte. A arte que meu pai exerceu durante todos os dias de sua vida, sendo repassado para o meu filho como em um desenrolar de gerações. A Clave de Sol já não era mais dificuldade e a Clave de Fá logo precisou ser estudada para que ele cessasse sua sede de desafios, fazendo os colchetes muito mais frequentes, tocando com as duas mãos simultaneamente. Papai deu uma piscadela para mamãe enquanto os dois aqueciam para a aula de hoje com o primeiro movimento da Sinfonia ao Luar de Beethoven, aproveitamos a harmonia que reverberava por toda a casa para conversarmos na cozinha.

— Querida, não entendi o que aconteceu com Andrew, como ele ainda consegue tocar se mal enxerga?

— Ele conhece as notas, as claves, as músicas, mãe.

— Ele conhece o coração, e está seguindo por ele. Meu neto tem o dom. – Sorriu melancólica.

— Sim, mãe, ele tem. – Sorri, fechando os olhos alguns instantes para ouvi-lo.

, eu preciso te perguntar. – A olhei e vi seu rosto sério, assentindo para que continuasse. — Andy já perguntou do pai? – Revirei os olhos, bufando impaciente.

— Mãe…

— Perguntou?

— Não, não perguntou. – Respondi automaticamente.

— Ele te manda alguma mensagem? – Neguei com a cabeça. — Como não? Vocês têm um filho jun…

— Nate tem outra família. – Vi a mais velha se espantar ao meu lado, incrédula. — Dois filhos, uma mulher fitness e um labrador.

— Você deveria processá-lo!

— Não quero nada dele mãe, absolutamente nada. Podemos mudar de assunto?

— Certo. – Pigarreou contrariada. — Por que não escreve Andrew no show de talentos da igreja?

— Nunca me vi fazendo isso! – Ri nasalado. — Sabe como ele é… E com estranhos, não acho que reagiria bem.

— Vocês podem até ganhar um dinheirinho, na igreja mesmo. Ás vezes é disso que ele precisa, que o vejam.

— É todo um processo, mãe, talvez ele se sinta pressionado com uma plateia, não sei. – Tentei explicar calmamente. — Ou talvez seja isso que ele precisa. – Sussurrei por último, mais para mim mesma do que para a mulher ao meu lado.

— Você é quem sabe, querida, apenas não fique com medo. – Segurou minha mão em cima da mesa com força, buscando me passar a força que eu sabia que ela tinha. — Ele precisa crescer. – Seus lábios formaram um sorriso simples de compreensão e eu suspirei. Indiretamente, eu sabia disso e sabia também, que não poderia mantê-lo embaixo das minhas asas o resto da vida, mas o receio, enquanto ele era tão pequeno, parecia maior.

Nesta semana, enquanto eu e Fran buscávamos distraí-lo, expliquei pouco a pouco sobre o que aconteceu e o que estava para acontecer, como conseguir o dinheiro e a forma que a cirurgia se sucederia. Expliquei até mesmo a ideia de mamãe, para que ele se apresentasse em público e que ele poderia abrir mão quando quisesse, com o tempo, a ideia não me pareceu tão esdruxula assim. Andrew pareceu compreender o que acontecia, fez perguntas simples, como se eu já tinha decidido sobre seu cachorro e com o aniversário dele próximo, era uma opção começar á ponderar.

Andy estava curioso e disposto a aprender ler em braile, seu entusiasmo facilitou as coisas e tornou mais fácil até para mim, a tarefa de aprender e repassá-lo. Desfrutei de músicas que facilitavam o aprendizado e principalmente á decorar cada letrinha porque nada mais é, do que uma nova alfabetização completa. Mamãe estava completamente envolta na causa também, sempre paciente e disponível para que não precisasse parar as encomendas. Papai mais atencioso do que nunca, estava ainda mais exigente nas aulas de canto e piano do neto, fazendo-me sentir cada vez mais que estava criando um Mozart dentro de casa. Fran, a sabichona do ramo, ficou mais acesa do que qualquer um de nós com a notícia e ela mesma se encarregou de explicá-lo como tudo acontecia nos bastidores, e que tudo não bastava de uma brincadeira de realização de sonhos e caso este fosse um dos seus maiores sonhos, ele poderia realizá-lo agora mesmo, da forma que artistas como Michael Jackson começaram cantando na igreja e ele poderia ser tão bem sucedido quanto.

Andrew sabia que havia uma pontada de responsabilidade e firmeza ali, como fui sincera ao explicá-lo mas nada disso pareceu assustá-lo, pelo contrário, me parecia muito corajoso, como nunca aliás e me aliviava vê-lo tão seguro depois de poucas e boas.

Assim como em seus aniversários anteriores, a decoração era simples porém meus pais juntos e Fran, faziam de qualquer decoração irrelevante. Se tornava um pouco melancólico que Andy não pudesse ver como caprichei em seus pratos favoritos desta vez, mas aparentava se contentar com as fotos que lhe prometi, para guardar todos os pequenos detalhes.

O avô do aniversariante foi o responsável por puxar o coro de “Parabéns pra você” e o seguimos, cantando alto e animadamente, vendo que Andy cantava e batia palmas conosco. Sussurrei ao seu ouvido que tinha direito á um pedido e ele fechou os olhos com força, prendendo os dedos em figuinhas, murmurando algo que não me esforcei para entender já que um bom pedido de aniversário, é aquele que ninguém sabe. Assoprou as velinhas de nove anos completos e sorriu ao meu lado, banguelo e perfeito, como sempre fora.

— Andy, tem que escolher alguém para receber o primeiro pedaço porque é muito especial. – Mamãe o lembrou enquanto o ajudei a separar a primeira fatia.

— Lembrando que eu te trouxe o melhor presente! – Foi a vez de Fran enfatizar e rimos da sua tentativa de persuadir o garoto.

— Ent-tão, o primeiro pe-pedaço é da mamãe, porque ela fez o b-bolo e as panquecas pra mim! – Ele confessou simplesmente, repleto de inocência, me derretendo por completo. Ouvi Fran sussurrar “puxa-saco” emburrada e papai lhe deu uma cotovelada de leve, antes que eu pudesse fuzilá-la com os olhos.

— Hora dos presentes! – Minha melhor amiga anunciou, animada novamente, puxando Andy pela mão até a sala. — Andy, abre o meu primeiro. – Adiantou-se, colocando o presente em seu colo, facilitando que ele rasgasse o papel de embrulho e se encarregou de tirar da caixa. Ele passou as mãos pelo presente mas não entendeu de imediato sobre o que se tratava.

— É quase d-do meu ta-tamanho!

— Sim! Já sabe o que é? – O pequeno assentiu que não, voltando a tatear. Fran se sentou ao seu lado no sofá, dividindo o tamanho do presente entre eles, comandando as mãos do garoto para que passeassem nos lugares certos, tornando mais fácil a tarefa de adivinhar. Encontrou as teclas, dedilhando-as receoso até ouvir o som da primeira nota. Dedilhou repetidamente mais algumas vezes, confirmando suas suspeitas de um teclado musical. Um sorriso se abriu de orelha a orelha no rosto do aniversariante do dia, distinguindo as notas e se divertindo imediatamente, leve e feliz como sempre sonhei em vê-lo.

— Como se diz, Andy? – Chamei sua atenção, vendo-o imediatamente enlaçar os braços na mulher ao lado.

— Obrig-gado, tia Fran! Você é a me-melhor tia d-do mundo!

— Pois é, querido, eu merecia aquele primeiro pedaço! – Respondeu carrancuda, soltando uma risada no final que fez todos a acompanharem. — Próximo presente!

Mamãe se adiantou, sentando a frente de Andy e sem mistérios o desembrulhou, deixando que o neto apalpasse enquanto lhe explicava.

— Meu bem, este é um livro sobre Planetas do Sistema Solar, daqueles que você ama e espero que goste desse! E em braile, logo você vai poder ler sozinho! – O beijo soou estalado quando ela o depositou na bochecha do neto, já chamando papai para que entregasse o seu.

— Obrigado, vó’.

— Garoto, te trouxe um presente também. – Meu pai se levantou, tomando uma pequena distância e tirando da sacola uma bola, para chutá-la cuidadosamente aos pés do neto, revelando o guizo que chacoalhava dentro dela. Ele a pegou em seus pés, balançando de forma que o guizo se sacudia por igual.

— Uau. – Meu menino se limitou, sibilado, concentrando-se nas linhas desenhadas na bola.

— Agora só falta a mamãe! – Fran se direcionou a mim, energética. Me sentei ao lado deles no sofá, aproximando a mesinha de centro de nós, com a caixa que estava ali. Envolvi suas mãos com as minhas para que abríssemos juntos e aproveitei a comodidade para que tirássemos juntos, também, o presente dali.

— Meu amor, esse é um globo terrestre interativo. Tem a leitura em braile e partir do momento que você escolhe um país, clica duas vezes e ele te dá três informações sobre qualquer lugar no mundo inteiro! – Expliquei entusiasmada, vendo que mesmo sem dominar a leitura em braile, Andy optou por um país aleatório para testar, ouvindo as três curiosidades sobre a Itália e sua capital, Roma. Ele sorriu e me apertou o máximo que pôde com seus bracinhos finos de uma forma meio estabanada.

— Obrigado mãe, é de-demais!

Arrastamos a comemoração do aniversário de Andy até o anoitecer, admirando a forma como trocava um presente por outro inúmeras vezes, querendo descobrir sobre todos ao mesmo tempo. Após um bom tempo conversando e aproveitando dos bons vinhos que papai trouxera, os três insistiram em me ajudar com a bagunça que deixara na cozinha e não adiantava tentar negar, estava no DNA deles, eles sempre faziam isso, já o aniversariante se enfurnou nos seus desenhos favoritos como o melhor amigo da televisão que era, enquanto se adequava a descrição de áudio.

— Vamos para a sala? Queria conversar com vocês. – Fran comunicou, séria demais para o seu habitual, esperando que a seguíssemos até o cômodo vizinho, onde já conversava com Andy para desligar a TV enquanto nos aconchegávamos na espera que ela falasse. — Bom, como vocês já sabem, esse ramo musical pode ser traiçoeiro mas há suas regalias e levando isso em consideração, já posso revelar qual programa vou dirigir e porque. – Ela queria sorrir mas se esforçou o máximo que pôde para conter, mantendo-se séria. — Senhoras e senhores. Andy vai pro America’s Got Talent!

— O QUÊ? – Me levantei abrupta, correspondendo á forma que a notícia tocou meu coração, acelerando-o e resultando num sorriso confuso e descomunal de tão feliz.

— Vocês já passaram das audições quando mostrei um vídeo de Andy. Foi unânime e matou o resto da produção de emoção, foi fantástico, vocês tinham que ver! – Pigarreou. — Bom, com esse empurrãozinho, pasmem, estão na semifinal! Mas não pasmem tanto assim porque temos um longo caminho pela frente. São cinco semis ao todo, cada semana um programa com nove concorrentes cada e vocês estarão nesse meio, onde o público escolhe o seu favorito ao final de cada episódio, formando um pódio. O mais votado passa imediatamente para a final, os outros dois ficam a critério do júri e no caso de empate ali, é revelado a porcentagem do público. Na final, ao todo, serão onze. Pois é, onze! Ainda que sejam dois salvos á cada semana, equivalem dez, mas o Wildcard permite que a bancada de jurados salve um para disputar a final, o que pode ser mais uma salvação pra nós em último caso. Nossas maiores chances correm em direção ao GoldenBuzz, o botão dourado, que os jurados têm a chance usá-lo uma única vez por temporada e á essa altura do campeonato, não foi usado e pode nos colocar tranquilamente em uma final garantida.

— Meu Deus, Fran… Eu não sei nem o que dizer, é perfeito demais pra acreditar! – Segurei suas mãos com a mesma intensidade que segurava minhas lágrimas e a abracei. — Obrigada.

— Não há o que agradecer. É o reconhecimento do talento do seu filho e eu estava na direção das audições, tive a chance de usar o meu próprio GoldenBuzz! Vai valer a pena, eu sei disso!

— Não imaginava direito o coral da igreja, quem dirá o AGT! – Confessei, rindo nervosa enquanto me desvencilhava dela.

— Se acostume, mulher! Você é a mãe de um astro! – Afagou os cabelos de Andy, sorrindo admirada.

— Podemos dar as passagens até Los Angeles. – Mamãe s manifestou pela primeira vez após a novidade, um pouco desajeitada secando os lacrimejos que brotaram no canto de seus olhos.

— É custeado pelo programa, Grace, assim como a hospedagem, não se preocupem! Apenas ensaiem, viajamos em 10 dias. – Piscou, confiante.

— Parabéns pela direção do AGT! Não consigo pensar em alguém que mereça mais. – Sorri e ela me abraçou mais uma vez, eufórica.

A primeira vez de Andy no avião fora mais tranquila do que a minha própria e pudemos admirar a paisagem tropical que só LA tinha, tão graciosa de uma forma que vira apenas em seriados. Sentia constantemente um friozinho na barriga e gostaria de disfarçá-lo ao dizer que era por conta do avião, mas eu sabia que não, porque a sensação despontara já há duas semanas atrás quando me dei a plena conta de que o meu filho estava prestes a se revelar em um dos palcos mais prestigiados do mundo, o meu pequeno Andy, da pequena Norristown.

As cinco horas de voo passaram corridas a partir do momento que dormimos tranquilos, sabendo que o frenesi começaria amanhã, me fazendo aguardar ansiosa por cada minuto, inquieta para ver Andrew crescer mais do que seus nove anos de idade completos há pouco, me mostraram.

Terry Crews apresentava a dinâmica do programa aos telespectadores de forma elegante e bem-humorada como só ele sabia, em seu terno azul-maya que ressaltava sua pele. Enquanto aguardávamos nos bastidores, a equipe corria de um lado para o outro com headphones enormes tentando manter a ordem que o local merecia, mas todos ali pareciam ansiosos demais na sua estreia para acatar ordens.

Aproveitei o momento para conversar com Andy, mesmo ali, próximo ao seu sonho mas não tanto a ponto de deixá-lo tenso. Ele sabia que o dinheiro que poderíamos ganhar seria diretamente desviado para a cirurgia, não inteiramente, mas boa parte, devido o tempo que passara e então, ele estaria livre da bengala-bastão que não era imprescindível mas precisava levar consigo.

O palco era enorme e no telão ao fundo, tinha os dizeres “America’s Got Talent semi-finals” que faziam meu estômago borbulhar de ansiedade cada vez que meus olhos pousavam ali. A plateia estava intensamente animada com as apresentações anteriores e parecia exigentes demais, tanto quanto a própria banca de jurados e não era pra menos, já que o auditório tinha seu mérito. Fran passara vez ou outra, correndo uma maratona de sua forma perfeccionista buscando deixar tudo em forma, como no sonho de cada um dali. Um dos assistentes nos avisara sobre a posição que apresentaríamos, após o grupo de dança de Atlanta e o mimico de Essex, aproveitando para checar conosco as informações de nome, instrumento e música, nos dando uma margem de quinze minutos até sentir a mesma vibração sendo dividida com Simon Cowell.

— Hey, . – Fran se esgueirou por meio das caixas de instrumentos, espalhadas. — Só mais dois candidatos e então, vocês, ok? – Encarou-me por alguns segundos, tentando me dizer algo com o olhar. — Eu sei que já checaram com vocês, mas quero fingir checar para conseguir tempo de levá-los até o palco. Agora, por favor, encene! – Ordenou em sussurro quase macabro.

Pareceram apenas milésimos do momento que assistia a performance do grupo de dança até vê-los passarem por nós, energéticos, enquanto Fran os orientava para que chegassem até o camarim. O frio na barriga aumentou e me restou engolir em seco e segurar mais forte a mão de Andy, ao meu lado.

— Meu amor, você é o próximo. Não se preocupe, você é fantástico da forma que é e um musico extraordinário, sua vaga aqui é prova disso, então, não se preocupe em ganhar mas antes de qualquer coisa, sinta como é estar lá, e principalmente, merecer estar lá, tudo bem? – Respirei fundo, espantando as lágrimas de ansiedade que nem percebi se formarem.

— T-tudo bem, mãe! – Assentiu repetidas vezes, batendo os pés com força no chão.

O último concorrente antes de nós estava saindo do palco e para mim, seus passos se tornaram cada vez mais lentos como se o tempo estivesse parando para nós. Respirei fundo, depositando um beijo demorado na bochecha de Andrew assistindo a correria para posicionar o piano.

— Lá vamos nós. – Sibilou Fran ao meu lado, entregando-me o microfone e vendo que do outro lado do palco seu colega de produção sinalizara para entrarmos. — Realizem o sonho de vocês. – Disse por fim, acompanhando o instrumento que adentrava o palco.

— Com o pé direito, meu amor. – Pronunciei a superstição, com a mão enlaçada á do meu filho, demos o primeiro passo no palco do America’s Got Talent.

A multidão na plateia era maior do que eu imaginei, e turbulenta como eu sempre sonhei, recebendo-nos com aplausos e gritos entusiasmados, diminuindo a tensão da competição por estar de frente com Dexter Donovan, Julianne Hough, Gabrielle Union e Simon.

— Olá, bem-vindos ao America’s Got Talent! – Gabrielle Union nos recepcionou, simpática e de um sorriso acolhedor, até mesmo aconchegante. — Qual seu nome? – Correspondi ao seu sorriso da mesma forma, posicionando o microfone para que Andrew respondesse. Ele balançava seu corpo para trás e para frente, ansioso, demorando uns segundos até que sua voz soasse.

— S-sou Andrew.

— Quantos anos você tem? – Union perguntou.

— Te-tenho nove.

— E quem é você, senhorita? – Foi a vez de Julianne perguntar, e em um reflexo me dei conta do outro par de olhos azuis que nos encarava.

— Sou a mãe! – Sorri alegre. — Craig. – Ouvindo as risadas e assuada dos espectadores.

— Então, o que os trazem aqui hoje? – Gabrielle retomou.

— Vou cantar e toc-ar no p-piano. – Meu filho respondeu ainda um pouco acanhado mas se acostumando com o ambiente.

, nos fale um pouco mais sobre o Andrew. – Solicitou, Union.

— Bom, Andy é autista e nasceu com baixa visão, a perdeu por completo recentemente. Meu pai é maestro aposentado e apresentou a música para Andy ainda muito pequeno, desde então, sua habilidade melhorou generosamente, vê-lo tocando é como vê-lo se transformar e crescer junto com a música, e foi aí que eu entendi, que o que ele tem é o dom. – Ouvi palmas ecoarem e me contive um instante, aproveitando-as. — Cantar e tocar o ajudou muito, porque quando se é autista, se torna mais difícil fazer o que os outros fazem e isto, pareceu nascer com ele.

— Estamos ansiosos para ouvi-lo! Está pronto? – Gabrielle o estimulou.

— Est-tou pronto! – Sorriu banguela.

— Então vamos nessa! – A plateia se manifestou mais uma vez, fervorosa e ajudei Andy á se posicionar no banco do piano.

— Faça o que sabe de melhor, meu amor. Pronto? – Ele assentiu mais uma vez, ágil, colocando os pés nos pedais e ajeitando a postura, quando lhe aproximei o microfone acoplado ao instrumento. Lhe dei um beijo rápido, me afastando e lhe aguardando ansiosa ao lado de Terry Crews, ouvindo o silêncio matador que se instalara, concentrado nele.

Suas mãos deslizaram facilmente pelo piano e ele começou á tocar. Concentrado, astuto e mais lindo do que nunca!

A voz suave, confiante e harmoniosa soou, fazendo Simon e Julianne se encararem boquiabertos, ao mesmo tempo que Terry, radiante, me abraçou.

E no final das contas, sem querer saber de resultados, eu soube que meu filho nasceu para encantar. Encantar da sua própria forma e do seu simples jeito. Encantar com o que gostava de fazer e se aperfeiçoava por amá-lo. Encantar para amar e ser amado.

Meu filho nasceu perfeito como deveria ser, tinha certeza disso desde seu primeiro segundo em meu colo, quando pude finalmente conhecê-lo. Saber das suas qualidades –e de suas fraquezas também- fazia de mim uma mulher nova todos os dias, porque aquele menino no palco, me renovava á cada dia, me deixando crente de que eu estaria pela metade sem ele.

Vi Julianne Hough não se privar das lágrimas e por fim, me debulhei. Sem insegurança alguma, eu não segurei minhas lágrimas porque quando a música acabou, se levantou e a plateia o seguiu, enlouquecida, e aplaudiram de pé a pessoa que eu mais amava no mundo inteiro.

Os outros jurados estavam de pé, aplaudindo Andy da forma mais sincera que seus corações permitiam, e eu sentia cada vibração por inteiro, esperando que ele sentisse da mesma forma. Meu filho sorriu, balançando as pernas curtinhas no banco do piano e batendo palmas aceleradas, seguindo as que ouvia e aproveitando cada milésimo do momento que era exclusivamente seu.

Retornei ao seu lado, buscando enlaçar nossas mãos da mesma forma que entramos, para aguardar as notas do júri, sorrindo sem querer mensurar essa felicidade que me proporcionou, transbordando meu coração de orgulho.

— Isso é tudo pra você, meu amor, essas palmas são todas pra você! – Sussurrei ao seu ouvido, sentindo sua mão apertar a minha. Respirei fundo, retomando o fôlego quando os jurados retomaram seus lugares, assim como os espectadores.

? – Gabrielle encorajou-o a iniciar.

— Primeiro de tudo: Vou te dizer que os quatro jurados e exatamente todo mundo aqui, estava de pé para você, garoto! Absolutamente, todo mundo! – Os aplausos soaram, ainda mais fortes que os primeiros. — Nós não conseguimos sentir apenas a autenticidade com que se apresentou, mas também a inspiração e o talento com que o fez, sem contar com a naturalidade e isso é inacreditavelmente maravilhoso! Parabéns!

— O-obrigado.

— Julianne? – Union passou a palavra para ela, aguardando que a dançarina retomasse a respiração após as lágrimas.

— Eu sei que… – Pigarreou. — Eu sei que todos nós precisamos ter uma voz como forma de expressão, e eu consegui sentir seu coração, sua paixão e sua voz nos conduzir aqui! E só queria dizer que eu te ouvi e te senti, e isso foi lindo!

— Obrigado. – Eu e Andy respondemos juntos.

— Simon?

— O que aconteceu aqui? Foi extraordinário! Realmente, extraordinário! Não sei como é viver no mundo do Andrew mas o que eu vi, foi a excelente relação de vocês dois. Sua voz, é absolutamente fantástica, com um tom lindo, então, obrigado por confiar em nós este talento! Eu vou me lembrar deste momento para o resto da minha vida!

— Muit-to obrigado.

— Sou uma nova jurada esta temporada. – Gabrielle Union, tomou a voz. — E antes de qualquer coisa, sou uma nova mãe e é o trabalho mais difícil e compensador que eu já tive! Nós só queremos dar todas as estrelas do céu aos nossos filhos, e esta noite… Eu vou lhe dar, algo muito especial!

Meu corpo se tensionou involuntariamente e sem via de dúvidas, o mundo ficou mais lento quando Gabrielle direcionou sua mão até o botão dourado e sim! O meu filho era um Golden Buzzer do America’s Got Talent com toda a certeza.

A plateia não se conteve e reagiu com o furor que meu menino merecia, gritos, aplausos e lágrimas por ali também, quando nós mesmos estávamos vivendo a maior felicidade que sonhamos perpetuar. O abracei forte, sentindo seus soluços porque ele também chorava enquanto uma chuva de papeis dourados caíam sobre nós e um público incontrolável. Fran correu das coxias para nos abraçar também, apertando-nos conforme dizia palavras desconexas e levantando-o alto.

Gabrielle Union foi a primeira a vir até nós, abraçando-me forte, e sem, audivelmente, dizer uma palavra sequer, mas aquele carinho, naquele momento, nos dizia muito por si só. Em seguida, Terry Crews, Simon, Julienne e por último, .

— É tão forte a parceria de vocês. – me abraçou e como no dia que nos conhecemos, ali, em uma singela entrega de encomenda, meu corpo estava imóvel e inebriado por conta dos seus olhos, tão… encantadores, como se nos conhecêssemos a anos. — Incrível de presenciar uma mãe tão companheira. E só pra constar, eu sabia que a gente ia se encontrar de novo!

Alright, so you think you’re ready?
Okay, then you’ll say this with me, go!
We were born for this
(We were born for this)