Brooklyn

  • Por: Pamella Luiz
  • Categoria: Originais
  • Palavras: 5663
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Sinopse: Existem apenas dois tipos de finais. Os felizes e os necessários. Foi difícil entender e aceitar, mas eu aprendi que a vida é feita de escolhas. Quando você dá um passo para frente, inevitavelmente alguma coisa fica para trás. Mas até mesmo as lembranças ruins fazem parte de quem eu sou hoje, como eu lido com as decepções é o que define quem eu sou. Criar expectativas de um dia melhor é mera ilusão. O sol pode voltar depois da tempestade, mas o estrago não desaparece com a chuva.
Gênero: Comédia Romântica
Classificação: 16
Restrição: Apenas o personagem principal não é fixo.
Beta: Donna Sheridan

Capítulos:

 

Prólogo:

 

“Lucy não conseguia reprimir suas lágrimas naquele momento, havia adiado a verdade por tanto tempo que agora parecia tão certo continuar assim. Mas sabia que não poderia alimentar a mentira, não mais. Havia chegado ao limite, assim como ele. O homem à sua frente era completamente diferente de quem ele habituava ser, ela não poderia o culpar por isso, havia o transformado naquilo e precisava pagar por preencher o seu coração de odiosidade. O horror estava estampado em seus olhos, sua respiração era célere e falha, a verdade não deveria doer tanto, não é mesmo? Mas ainda assim corroía cada fragmento do seu corpo. Ele estava no seu cume da alienação e estava prestes a cometer o maior erro da sua vida, que no momento, parecia a coisa certa a se fazer. Os olhos delas se arregalaram ao ver a arma apontada novamente sobre seu coração. – Não, por favor! – ela suplicou entre sussurros. – Eu vou destruir o seu coração, assim como fez com o meu. – O barulho se espalhou por todo o galpão e no instante seguinte ela era apenas um corpo frio atirado no chão e ele era um homem vingado.”

Capítulo 1 – Memórias.

 

Agachei-me com cuidado depositando na lápide as flores preferidas dela, sem ao menos perceber que uma lágrima foi junto, e depois mais uma e então eu já não conseguia mais contá-las. Era inevitável não chorar todas as vezes que vinha visitá-la, tendo que me lembrar de tudo que passou. Que passamos. Limpei inutilmente algumas lágrimas com a palma de minha mão e com a mesma passei por cima de seu nome bem desenhado. ‘Lucy Benette’ disse em meio aos soluços e então já não conseguindo me aguentar firme, me sentei ao chão.
– Oi, Mamãe, como a senhora está? – disse sentindo minha voz oscilar. – Se te serve de consolo não estou muito diferente de você. – acariciei a sua foto preta e branca e então me permiti sorrir um pouco. Lembrar que nem tudo foi só dor era bom em momentos como esse. – Eu só queria que soubesse que você venceu, estou indo para Manhattan para recomeçar. O John me matriculou em uma dessas escolas para esnobes que eu sempre detestei, disse que depois que eu me formar na faculdade vou poder ter a minha própria casa, como a gente sempre sonhou, e eu só preciso me dar bem com as minhas notas. – sorri novamente me lembrando dos nossos planos de comprar uma casa longe daquele lugar que chamávamos de lar. – Também quero que saiba que isso não é uma despedida, eu vou sempre te levar comigo, onde quer que eu vá. E eu vou visitá-la sempre que eu puder, eu prometo. – novamente eu estava começando a chorar. Eu nunca tinha ficado tão longe dela como iria.
De repente, um vento forte passou por mim espalhando algumas pétalas e trazendo algumas folhas secas. Olhei para o céu sorrindo para mim mesma sabendo que de alguma forma, ela estava feliz em me ver partir.
– Eu também te amo.

Dois anos depois.
 

– Pai, olha o que eu fiz pra você. – Brooke deixou de lado seu lápis de colorir e se levantou levando consigo seu desenho. Era um trabalho de escola, mas havia horas que Brooke tentava o aperfeiçoar, ela queria mostrar ao pai o quanto amava sua família, mesmo com todos os desentendimentos.
– Pra mim, pequena? Que lindo! – James desistiu de acender o seu cigarro para dar atenção à sua princesa. Colocou Brooke em seu colo analisando o desenho. – Quem são?
– Eu, você, a mamãe e o Charlie – apontou para o cachorro em seu desenho.
– Olha, nós temos um cachorro!!! – James fingiu surpresa enquanto via Brooke esconder um sorriso. – E ele fala. – notou um balão no desenho.
– Mamãe disse que se eu for bem na escola, nós podemos adotar um.
– É mesmo?
– A-ham – Brooklyn assentiu olhando seu pai. – Ela também disse que se adotarmos um cachorro talvez nós vamos parecer uma família de verdade.
Pode ser que para uma criança de nove anos, essa frase não surta tanto efeito quanto surtiu para James. Afinal, o que havia de errado com Lucy? Ela precisava mesmo dizer uma coisa dessas na frente de Brooklyn? Precisava mesmo levar isso para o lado pessoal, aquilo era a gota d’água. James de modo gentil retirou Brooklyn de seu colo e a mesma o olhou confusa vendo seu pai ir para o hall da cozinha. Ela não deu muita importância ao fato até ouvir seus pais debaterem. A cada grito, Brooklyn se arrepiava, suas lágrimas tinham vida própria e já manchavam todo o desenho o transformando em um grande e feio borrão colorido. Ouviu a porta se fechar atrás de si e então seus olhos correram até seu pai que estava entrando na sala novamente. James andou até sua menina se agachando e a olhando com brandura, seus olhos varreram até o desenho e então sentiu uma culpa enorme em si. Brooklyn não precisava estar no meio de tudo aquilo, não merecia sofrer com a inconsequência dos pais.
– Escuta, princesa, nós precisamos conversar. – limpou algumas lágrimas de Brooke. – Às vezes, quando um casal se ama muito pode haver um pequeno desentendimento, e talvez eles precisem ficar um tempo afastados um do outro. – Brooke virou seu rosto para seu desenho e começou a rabiscar algo que não sabia o que. James não sabia como iria contar para sua menina que sairia de casa, nem ao menos sabia como deixaria o seu maior tesouro. Mas levar Brooklyn com ele só traria mais problemas. Por Deus como ele a queria, mas ela deveria ficar com a mãe, pelo menos até ele estiver estabilizado e com recursos para dar a ela uma vida de princesa. – O papai vai fazer uma viagem e não sabe quando volta.
– Você não vai voltar. – Brooklyn deixou as palavras que tanto lhe doíam sair pelos lábios. – Mas se é isso que você quer, papai, eu vou com você. – Brooklyn se levantou ajeitando o vestido e olhando para seu pai decidida dos seus atos. Ela amava sua mãe, mesmo, mas Lucy tinha seus vizinhos que eram um amor. No entanto, James só tinha a ela. Há onze anos quando Lucy engravidou ele havia deixado a faculdade para trabalhar e ajudar Lucy. Meses depois seus pais faleceram em um acidente de carro e por ser filho único não tinha ninguém para se apoiar a não ser em Lucy. Brooke sabia que seu pai ficaria sozinho por aí, e ela não permitiria que isso acontecesse. James sorriu abraçando sua menina, tendo certeza naquele momento que tinha criado a melhor filha do mundo.
– Muito bem, arrume suas coisas!

Memórias Off
– Brooke?
John me trouxe de volta à realidade e estava um charme. Todo engomadinho e descabelado. Coloquei meu livro sobre a mesinha do centro e me levantei.
– Ai, meu Deus, será que você vai sair casado desse evento hoje? – andei até ele ajeitando sua gravata.
– Estou com os dedos cruzados. – disse e cruzou os dedos.
– Eu tenho mesmo que ir? – fiz minha melhor expressão de cansada.
– Você sabe que sim, vou fechar um negócio importante hoje.
Apenas suspirei e depositei as mãos na minha cintura, ele ficou me analisando atentamente.
– O que foi?
– Você estava viajando, são efeitos desses livros que você não larga? – andou até o armário tirando um vinho branco de lá. Mas não me pergunte o nome porque eu não entendo de bebidas.
Inspirei todo ar possível.
– Na verdade estava pensando no Thiago e na Lucy. – John engasgou ao me escutar, sabia que aquele assunto o deixava desconfortável. – Você sabe o que aconteceu, não sabe? Por que eles brigavam tanto? – tentei mais uma vez arrancar informações dele.
– Eu já te disse tudo que eu sei. – deixou seu copo sobre a bancada e se afastou me dando as costas.
– Você tem que se lembrar de alguma coisa, qualquer coisa. – implorei ao segui-lo.
– Brooklyn, por mais próximo que eu fosse dos seus pais, eles mantinham as aparências perto de terceiros, sempre pareciam felizes e de bem com a vida que levavam. Foi uma surpresa quando soube que Thiago havia abandonado vocês, tentei falar com ele, mas não tive sucesso, e sua mãe… – se virou pra mim.
– Minha mãe?
Ele negou.
– Você se parece tanto com ela.
– O que mais me assusta são essas lembranças confusas e fora de ordem que chegam pra mim do nada. Me confundem e eu fico sem saber o que pensar, ou como interpretar.
– Você ouviu o que Mariah te disse várias e várias vezes, ainda está apegada ao seu passado. Você não conseguiu seguir em frente. Está assustada com a partida do seu pai, a morte da sua mãe, os maus tratos do Willy.
Willy… Só de ouvir aquele nome eu me arrepiava. Os piores momentos da minha vida vinham como pesadelos na noite, e eu não conseguia escapar.
– Você está segura agora. – ele me trouxe a realidade de novo me puxando para um abraço, senti seu carinho por mim. – Tudo isso passou e você precisa seguir em frente.
– Eu sei. – me soltei do seu abraço forçando um sorriso. – Preciso me arrumar. – dei uma sacudida em meu corpo para tentar espantar a tristeza que me cercou.
– O quê? Não vai de calça jeans e camiseta? Estou chocado! – riu de mim.
– Às vezes eu tenho que fazer certos esforços.
– Encontro você lá? – ajeitou as mangas da camisa social por baixo do blazer.
– Claro, vou dar uma passada na casa da Emma, ela já deve estar me esperando.

Hoje era o último dia de férias, semana que vem as aulas voltariam e logo estaria terminando meu último ano na Trinity School e então entraria na faculdade. Se mamãe pudesse me ver agora, eu sei exatamente como estaria. Sentada em sua cama, ela viria até mim e pentearia meus cabelos e depois o prenderia em um rabo de cavalo, me daria o seu melhor sorriso de orgulhosa e me abraçaria. Eu sentia tanta a falta dela, mas ao mesmo tempo sei que o que aconteceu foi o melhor. Ela sofreu muito depois que papai nos deixou e, com a chegada de Willy, as coisas só pioraram. Começar uma nova vida não foi o suficiente, conheci pessoas novas, desabafei com minha psicóloga, fiz vários amigos, tenho minhas provas e agora preciso me preocupar com minhas notas para conseguir uma boa recomendação da minha professora de literatura. Minha vida era tão corrida que não sobrava tempo para pensar no que aconteceu, mas mesmo assim, as lembranças estavam tão vivas como nunca estiveram antes.
Essa noite, deixando de lado o meu clássico estilo de camisetas super comportadas e confortavéis e minhas calças jeans que nunca saem de moda, resolvi usar um vestido Valentino. Ele é branco com um rendado transparente na parte das costas, com uma saia mais ou menos rodada que iam até a metade das minhas coxas e terminava com uma bainha de rendado transparente, e apesar das mangas longas eu tive que colocar um sobretudo cor salmão. E já que não me dou bem com saltos, coloquei uma sandália rasteira e disso eu não abro mão.
– Quem é você e o que fez com a minha amiga Brooklyn? – Emma não evitou sua expressão de surpresa ao abrir a porta do seu quarto. Então seus olhos foram até meus pés. – Ah, aí está você.
Sorri ao passar por ela me sentar em sua cama.
– Tudo na vida tem um limite.
– Podem te tirar do Brooklyn, mas não podem tirar o Brooklyn de você.
Apenas me limitei a piscar para ela e abri um pequeno sorriso. Ela me analisou alguns segundos antes de ir para frente do espelho.
– Me deixa perguntar mais uma vez. – começou a retocar o batom.
– Hm?
– Então, eu posso ficar com o Brian sem nenhum problema? – se virou pra mim. – Não vai ficar chateada?
– Acho que não tem problema. – tentei parecer confiante nas palavras.
– Acha? Do tipo, não tem certeza?
– Do tipo… – mordi meu lábio, piscando várias vezes. – Acho que do tipo, Brian e eu ficamos juntos por um tempo, não houve uma vinculação sentimental da minha parte e foi por isso que terminamos. Eu não vou sentir ciúmes nem nada do tipo. – andei até ela arrumando meu cabelo. – Até por que não gosto dele. Só acho curioso ele ter se aproximado justo da minha melhor amiga.
– Você acha que ele só está tentando te fazer ciúmes? – questionou.
– Acho que ele é um idiota. – me virei pra ela.
Emma respirou fundo.
– Brooke, você é a pessoa mais indecifrável que eu conheço. Mesmo se alguém estiver enfiando uma faca na sua barriga você diria que não está doendo porque tem medo de contar como realmente está se sentindo para não machucar a outra pessoa.
Pensei sobre isso, em como a Emmalyn tinha toda a razão. Eu tinha sérios problemas de confiança, isso me deixava vulnerável e eu não quero parecer vunerável para ninguém!
– Emma…
Não sabia o que dizer.
– Mas você não gosta dele, não é? – se virou para o espelho novamente, e eu acatei no mesmo instante.
– É, não! Com certeza, sem nenhum sentimento.
– E a gente nem vai namorar ou coisa do tipo, vamos nos beijar e depois esquecer a existência um do outro.
– Parece um bom plano. – sorri mesmo não querendo sorrir.
– E nós vamos encontrar o seu par perfeito hoje.
A encarei.
– Eu não estou procurando por ninguém. – deixei claro.
– Todo mundo está procurando por alguém.
– Mas não em um evento para a caridade. – adverti.
– Eu sei que esses eventos costumam ser uma chatice. Mas todos os gatinhos da alta sociedade vão estar lá, ou grande parte. Você vai conhecer alguém, e vai seguir em frente.
– Quer saber, se você parasse de falar nesse assunto, eu já tinha seguido em frente.
– Me deixe ver você. – repousou as mãos em meu ombro. – Está linda, Brooklyn, e vai pegar muitos gatos hoje.
Rolei os olhos.
– Você nunca desiste em querer me ver com alguém, não é? – a segui para fora do quarto.
– Meu objetivo de vida.

The Quin é com certeza um dos hotéis mais bem localizados de Nova Iorque e por isso figurões como John sempre realizavam suas reuniões de negócios neste hotel. Manter as aparências nessa cidade é necessário e você sempre vê um ou dois famosos circulando por aqui. Sem falar nas pessoas mais importantes que precisam ser impressionadas. Como o presidente, ou os donos do Madison Square Garden, o que eu não sei, porque raramente vou a shows. Emma adora esse lugar por que simplesmente podemos ir a 5º avenida e voltar sem sermos notadas de tão perto que fica. O lobby é fantástico, vários quadros coloridos na parede com fotos de famosos como Barack Obama e Elvis Presley.
Alguns dos meus amigos estavam no lounge sentados nas poltronas se embebedando e eu tentava ao máximo prestar atenção na conversa deles, mas eu ainda estava com a cabeça nas nuvens.
– Estão ansiosos pela volta às aulas? – Elijah perguntou tomando um gole de sua bebida.
– Não me importaria de prolongar as férias por mais uma semana.
– Isso por que você já entrou pra Morgan State. – Emmalyn rolou os olhos pra mim.
– Não sei não, ainda estou analisando minhas opções. A senhora Hill disse que tenho grandes chances de fazer o curso especial de Harvard para tirar qualquer dúvidas.
– Ela quem está te plantando dúvidas, sempre quis ir pra Morgan e agora está pensando em Harvard?
– Sei que se sairá muito bem, independente da faculdade que escolher. – Elijah me abraçou por trás e depositou um beijo em meu rosto. – Eu e os caras vamos lá fora tomar um ar, tudo bem?
Assenti.
– Claro.
O vi me soltar e sair com os meninos me deixando a sós com Emma que me olhava com cautela.
– O quê?
– Nada. – negou. – Onde será que o Brian está?
– Eu não faço ideia. – disse sem interesse algum.
– Vamos pegar mais uma bebida?
Enlaçou seu braço ao meu me puxando até o bar que ficava na parte de trás do saguão do hotel. Eu sabia que Elijah e Emmalyn não se davam muito bem, não mais, os dois tiveram um romance de verão há um ano e desde que voltaram quase não se falam. Mas eles nunca nos disseram do por quê.
Emma havia sumido tinham exatas meia hora e eu não aguentava mais esses eventos de caridade onde falam apenas de negócios, negócios e mais negócios fingindo ser para o bem dos mais necessitados. Olhei a minha volta procurando por um rosto conhecido, mas eu não via ninguém.
– Nossa, que perfume maravilhoso. – ouvi alguém assoprar em meu ouvido, o odor do álcool exalando fortemente misturado com um sotaque que eu não fazia ideia de onde vinha.
– Pois é! Me disseram que era repelente contra cantada cafajeste, mas pelo visto não funciona.
Ele deu uma risadinha de convencido e eu me limitei a rolar os olhos o ignorando completamente.
– Posso saber por que não está acompanhada? – sorri sarcástica.
– Essa é uma daquelas táticas em que você pretende saber se eu estou namorando ou não?
– Talvez.
Virei-me para ele pronta para mais uma má resposta que estava na ponta da língua, mas fiquei um pouco surpresa por ele ser tão jovem, talvez um ano mais velho que eu, não tinha como saber. Estava todo engomadinho e por isso não poderia ser um penetra, apesar de nunca ter o visto por aqui antes. Pele clara, um pouco alto, cabelos escuros, olhos claros e tinha uma boca bem rosada. Não tinha como não reparar já que ela ficava bem diante dos meus olhos. Ele deu um meio sorriso antes de continuar a falar.
– Ou talvez eu só queira saber alguma coisa sobre você, seu nome por exemplo.
– Fala sério. – disse entre um sussurro, rolando os olhos.
– Mora em Manhattan?
Não o respondi.
– Estuda? Trabalha? É católica?
O encarei novamente, ele estava sendo evasivo.
– Por que não gosta de falar sobre você?
– Porque eu não sou da sua conta.
Ele fechou a boca no mesmo instante, me encarando silenciosamente.
– Tá, acho que você não vai cair no meu charme.
– E você jura que alguém já caiu?
Ele semicerrou os seus olhos claros para mim e por algum momento eu achei que ele fosse continuar com todo aquele papo furado, mas sabiamente resolveu me deixar sozinha e com um sorriso de quem sabe que perdeu, ele se retirou. Obrigada!
Josh havia voltado uns dez minutos depois e estava sozinho. Me fazia companhia enquanto debatíamos sobre a volta às aulas, o que seria interessante já que era o nosso último ano na Trinity e depois cada um de nós seguiríamos rumos diferentes na vida. Emma queria ser psiquiatra, adorava isso, dar conselhos e ajudar os outros a dar um rumo na vida, essas coisas. Josh quer ser advogado como os pais. Os pais de Ed queriam que ele fosse dentista assim como eles, mas sei que Ed tem planos para sair do armário para a família e logo tentará uma vaga na Julliard, já que ele quer tanto ser um artista, eu só ainda não sei qual é o talento mágico dele para simplesmente querer entrar em uma das faculdades mais importante do país, mas no fundo eu sei que na verdade, ele só não quer sair de Nova York, ele adora esse lugar. John me importunava às vezes querendo que eu fizesse publicidade para ajudar com os negócios da família. Ele tem uma agência de publicidade encarregada por comerciais, produção de vídeo, publicidade, agência de talentos. Ele é o melhor no ramo dele, pessoas do país inteiro procuram por seu trabalho e, em parte, eu sei que ele gostaria que eu continuasse o trabalho da vida dele. John é viúvo e antes que sua mulher o deixasse ele não pode ter filhos, com medo de se apaixonar ele não se casou novamente. Por um tempo eu realmente achei que essa seria uma boa ideia, mas quando estava no primeiro ano comecei a ler mais livros do que eu poderia imaginar para as aulas de literatura da Sra. Hill, Eu simplesmente me apaixonava cada vez mais pelas palavras, andava com um dicionário comigo para traduzir as que eu não sabia o significado. Eu via a mágica que era pode escrever e inventar um mundo fantasioso e, ainda sim, quando fechava os olhos fazer tudo parecer muito real. Acho que com tudo que aconteceu comigo, na minha vida, aquela era uma forma de me fazer botar pra fora meus sentimentos confusos, raivosos, ternos e, às vezes, apenas às vezes, eu podia criar um mundo, talvez uma espécie de bolha, onde meus pais ainda existiam em minha vida e éramos a melhor família de todas. Enfim, estávamos no meio dessa discursão quando vi Emmalyn e Brian nos fundos do hotel, bebiam e jogavam conversa fora. Tudo bem, até aí normal. Tentei não demonstrar emoção alguma para Josh, mas falhei ao ver minha melhor amiga e meu ex-namorado se beijando intensamente.
– Você está bem? Ficou pálida uma hora para a outra. – Josh se acercou de mim.
– Sim, eu… Eu só preciso ir ao banheiro. – lhe dei um meio sorriso tentando convencer que estava tudo bem quando não estava nada bem. Assim que cheguei ao banheiro segurei com tanta força o mármore que poderia quebrá-lo a qualquer instante, minha respiração estava falha, meus olhos estavam molhados. Eu não podia estar com ciúmes, eu terminei com ele por que não gostava dele, então isso não era ciúmes! Não podia ser.
– Noite difícil? – Aquele mesmo garoto do bar me abordou encarando meu reflexo pelo espelho. Olhei para o chão não sabendo o que expressar. Há meia hora eu era a garota “incantável” e agora estava chorando em um banheiro de um hotel caro.
– Um cisco… Foi um cisco. – tentei disfarçar enxugando meu olho.
– Claro que foi. – sua voz era irônica.
– Olha só, esse não é um banheiro feminino? – Mudei de assunto me virando pra ele.
– Bem observado.
, eu…
Uma garota saiu de algum lugar do banheiro e parou pra me encarar.
– Você está chorando?
– Foi um cisco! – Ele riu de mim.
– Um cisco? Vamos ver… – ela me analisou curiosa. – Ele te traiu?
– O quê?
– Não corresponde o seu amor?
– Descobriu que ele é gay?
– Não estou entendo.
O tal do , que segurava uma bolsa, sentou em um banquinho ao lado de mim. Por que ele estava com uma bolsa? Ele é gay? Mas e aquela cena no bar? Talvez ele só estivesse brincando com a minha cara, não seria a primeira vez que isso aconteceria. Acho que ele só está um pouco bêbado de mais.
– Pode se abrir com a gente, somos as melhores pessoas do mundo em questôes amorosas. Já quebramos a cara milhares de vezes em relação a isso. – me trouxeram de volta a realidade.
– Eu não vou falar nada. – bufei diante aquela ideia obscena.
– Ele tem razão, pode desabafar. Só tem a gente aqui, e não vamos contar para ninguém.
Os dois me encaravam inquietos, como se estivessem esperando uma confissão pretensiosa, e de repente eu me lembrei das palavras da Emma e pensei que talvez não tivesse nada de ruim em contar a eles como me sentia, provavelmente eu não os veria mais. E falar com alguém que eu nunca mais voltaria a ver era uma ideia agradável.
– Talvez eu tenha dado carta branca pra minha melhor amiga ficar com o meu ex-namorado, e agora que eu os vi junto eu estou me sentindo estranha.
– Ciúmes? – A garota se virou para o .
– Não gosto dele. – afirmei.
– Como não gosta dele, se está com ciúmes dele? – protestouu.
– Não estou com ciúmes.
– Então pode ser orgulho.
Orgulho? Será?
– Orgulho? – repliquei.
– Querida, quando vemos algo ou alguém que era nosso em posse de outra pessoa, nós sentimos nosso orgulho ferido, como se esse algo ou alguém, devesse pertencer apenas a você, mesmo você não querendo mais esse algo ou esse alguém.
Que baboseira.
– Eu não sou egoísta. Quero que ele seja feliz.
– Mas não com a sua melhor amiga. – Harry andava de um lado pro outro. – A amizade é um círculo que nunca deve ser ultrapassado. Existe uma linha tênue entre dividir os segredos e dividir os ex-namorados. Você ficaria com algum ex dela?
– Claro que não! – me senti ofendida.
– Por que não?
– Porque é uma… – me voz perdeu o volume. – Uma traição.
– Você está se sentindo traída?
– Eu sabia que eles iriam ficar.
– Mas não sabia que se sentiria dessa forma.
– Foi um risco que eu assumi. – dei de ombros.
Ele me encarou.
– Você parece aquelas pessoas que tem um coração maior do que a razão. – seus olhos ainda pregados em mim me fazia, pela primeira vez em sua presença, me sentir corada. Ele me olhava como se me enxergasse por dentro. – Tem medo de se expressar e achar que vai machucar alguém?
– Eu a amo. – expliquei. – Não seria egoísta a privar disso?
– Você não pode colocar a necessidades de outra pessoa antes das suas e achar que foi por amor.
Ele tinha razão?
– Pode ser o álcool falando, mas eu acho que todo mundo precisa ser egoísta uma vez na vida, não da pra viver só realizando a vontade dos outros. Quando talvez, eles não fariam o mesmo por você.
– Harry, você está um ótimo conselheiro hoje. – A garota sorriu para ele. – A propósito, eu sou Helena. – Dei um sorriso constrangedor.
– Brooklyn. – Os olhos do se franziram e eu me perguntei se tinha algo de errado com a minha aparência.
– É um nome bem interessante. – me pareceu intrigado.
– Obrigada? – não sabia o que responder.
Uma garota entrou no banheiro e encarou o .
– Tudo bem, já estou de saída.
Ele consertou a bolsa em seu ombro e saiu com a Helena me deixando sozinha novamente.

– Brooke, aonde você vai? – Esbarrei com Emma no caminho para fora do hotel.
Não a respondi, apenas continuei seguindo o meu caminho.
– Brooklyn. – gritou o meu nome quando já estava do lado de fora.
Me virei bruscamente para encará-la.
– Eu não estou feliz que você tenha ficado com o Brian. – Tentei experimentar essa coisa de dizer como se sente, para eu realmente saber como estava me sentindo.
– Por que não? – me encarou confusa.
– Eu não sei, acho que é essa a sensação já que você é minha melhor amiga
– Por que não me falou antes? Eu não teria ficado com ele.
Pousei as mãos na cintura.
– Olha… Está tudo bem.
– Não fala que está tudo bem, se não está. – se aproximou de mim. – Por que não me falou antes?
– Eu não achei que tinha esse direito e na verdade eu não tenho. Você é a pessoa que sabe o que é melhor para você.
Vi seus olhos cristalinos, ela estava quase chorando.
– Eu não queria que você soubesse que isso me incomodou, mas se eu não puder ser sincera com você então o meu papel como sua melhor amiga não passa de um status. Você queria tanto ficar com ele que não parecia certo atrapalhar isso!
Ela não reagiu ao meu desabafo, apenas ficou ali me encarando.
– Desculpa. – a ouvi dizer de repente. – Queria que tivesse dito isso antes, quando pedi a sua opinião e não agora que já aconteceu.
– Como eu disse, está tudo bem. – voltei a andar indo a procura de um táxi.
– Sei que não está tudo bem. – se apressou em ficar na minha frente. – Mas agora eu não posso fazer mais nada.
– Emmalyn, eu preciso ir pra casa.
– Volta com ele. – disse rapidamente.
– O quê? Não! Eu não gosto dele!
– Você gosta sim.
– Não, não gosto. E mesmo se eu gostasse, ele deu em cima da minha melhor amiga. Odeio ele.
– Se odiasse não se importaria tanto. Para de mentir pra si mesma. – Me impediu de passar.
– Não me importo com ele, entenda isso! Me importo com a nossa amizade.
– Brooklyn, realmente pra mim, não tinha nada demais em ficar com o Brian. Principalmente por que você insiste em dizer que não gosta dele. Agora, se isso te fez mal, deveria ter me dito. Não agiu como minha amiga quando escondeu isso.
Suspirei.
– Você tem razão, eu não agi como amiga quando deixei o que pensava de lado para que você ficasse com ele! Não agi como amiga quando não te contei que me importava, porque eu quis que você ficasse bem, queria que ficasse com quem quisesse.
Seus olhos estavam arregalados, ela ainda chorava. Ameacei sair novamente, mas ela me abraçou.
– Me desculpa, eu não quero perder a sua amizade nunca. Realmente achei que não se importava.
Fiquei um pouco assustada, mas retribuí seu abraço carinhosamente.
– Obrigada por se abrir comigo. Você não tem ideia do quanto isso é importante para mim. – ela me encarou. – Prometa que isso não vai acabar com a nossa amizade, e que daqui pra frente vai sempre me dizer como se sente.
Sorri para ela.
– Prometo.
– Eu te amo. – ela me abraçou de novo.
– Amo você também.

Memórias On
 

Brooke analisou seu pequeno quarto olhando à sua volta. Ela sentiria falta dali, da sua casa, principalmente de sua mãe. Mas a decisão já havia sido tomada. Pegou sua lancheira e andou até a mesinha ao lado da cama puxando o porta retrato consigo.
– Família. – sussurrou olhando para a foto, onde estava Brooke, Lucy e James felizes.
– Brooke! – Lucy a chamou se escorando na porta. A menina olhou para a mãe no mesmo instante. – Por que não foi se despedir do seu pai?
– Como assim, mamãe? – quis saber.
– Seu pai acabou de sair! – andou até a cama e se sentou. – Disse que você não quis se despedir.
– Não, mãe. Ele vai me levar com ele. – disse andando até a porta e ouviu um suspiro de sua mãe. – Aposto que ele está me esperando na rua. – deixando o quarto ela foi até a porta de saída ouvindo os passos de sua mãe atrás de si. Mas para a sua total infelicidade o velho carro de seu pai não estava ali. No mesmo instante seu porta retrato foi parar ao chão e seus pés correram até o quarto de seus pais. Brooklyn não acreditava que James havia a enganado de tal forma. Ela acreditou que ele iria a levar consigo. Abriu o guarda-roupa vendo somente as roupas de sua mãe ali entre o vazio onde antes estava ocupado por pertences de James.
– Princesa… – ouviu Lucy a chamar, mas não quis saber. Apenas sentou-se ao chão chorando. – Eu sinto muito.

Memórias Off
 

 

Capítulo 2 – O canadense.

 

– Brooke, verdade ou consequência?
Encarei Ed assim que me sentei ao lado dele, de frente para Emma, sem entender nada até ver a garrafa de Heineken apontada para mim.
– Ah não, não estou brincando. – neguei no mesmo instante.
– Está sim. – Emma debateu.
– Não estou não. – neguei novamente.
– Você se sentou na roda, então está brincando. – disse suave, mas eu sabia que ela estava um pouco apreensiva.
Desde o ocorrido no Quin, Emma não tem se desgrudado de mim, acho que a cada segundo ela tem se certificado de que eu não estou com raiva, e eu realmente não estou. Olhando para tudo que aconteceu fico feliz por ter cruzado um dos meus limites que eu não ultrapasso há muito tempo.
– Verdade ou consequência? – Ed reforçou a pergunta.
– Eu nem sabia que isso era uma roda. – sussurrei.
– Pois é, mas é. Anda, escolhe logo. – Ed me apressou.
– Ta, é… Consequência. – tomei um gole da minha Fanta, mas engasguei ao notar que escolhi errado. – Não, espera…
– Tarde demais. – Ed olhou cúmplice para Emmalyn e então me encarou novamente. – Eu te desafio a beijar o Josh. E na boca. – Então ele fez biquinho ao debochar de mim.
– O quê? Não! Josh é meu melhor amigo, nada a ver. – olhei nervosa para Ed ao protestar.
– Você escolheu, e agora vai ter que cumprir.
– Ele nem está aqui, aliás, por que estão brincando de verdade ou consequência, se só estamos em três?
– Isso realmente não importa. – Ed se levantou. – Amanhã, no primeiro intervalo você vai beijá-lo.
– O quê? – engasguei novamente.
– Está tarde, tenho que ir para casa. Nos vemos amanhã? Mal posso esperar. – E então saiu, simples assim.
Encarei Emma que estava se esforçando para não rir.
– Acha isso engraçado? – tomei mais um gole da minha Fanta.
– Você sabe como o Ed é.
– Mas o que ele pretende com isso?
– Talvez ele não seja o único que queira te ver com alguém. – ela se levantou.
Bufei bem alto.
– Mas Josh é só um amigo.
– Talvez ele não te veja apenas como uma amiga.
Franzi o cenho na mesma hora. Como assim? Levantei-me e andei até ela que olhava toda a Manhattan pela sacada do meu quarto.
– O que quer dizer com isso?
Depois de alguns segundos em silêncio, ela negou com a cabeça e se virou para mim.
– Está realmente tarde e eu deveria ir, amanhã temos aula. – ela pendurou a cabeça de lado e passou sua mão em meu rosto. – Você realmente está bem? Sobre o Brian.
Coloquei minha mão sobre a sua.
– Quantas vezes eu vou ter que te dizer que sim, ein? – lhe dei um meio sorriso.
– Eu não quero perder sua amizade nunca. – reforçou.
Segurei suas mãos e encarei seus olhos.
– Melhores amigas, para sempre e nada vai atrapalhar isso, muito menos o babaca do Brian.
Ela gargalhou ao se afastar de mim.
– A gente se vê amanhã, então. – andou até a porta e me analisando mais uma vez, ela saiu.
Enfim, amanhã teríamos as aulas de volta e seríamos os veteranos, o que não deveria contar muito para uma escola tão religiosa, mas na verdade, conta sim. Sempre contou. Em qualquer lugar, na minha antiga escola no Brooklyn, em filmes, livros, aqui. Não me declaro uma pessoa popular porque para mim esse termo sequer é válido. Mas tenho que admitir que desde que comecei a andar com Josh, Elijah e Ed, tenho sido convidada para todo o tipo de evento que o corpo estudantil (e rico até as cuecas) da Trinity faz. Nunca foi minha intenção ser parte disso, nunca quis ser rica e patricinha, como a Emma é. Ganhei todas essas coisas de uma forma tão fácil, mas a que preço? Se eu pudesse escolher ainda viveria com meus pais no Brooklyn, não tínhamos a vida que levo com John, mas eu era muito mais feliz, pelo menos eu acho que sim. Mas tudo que eu realmente quero é ficar sentada em algum canto sozinha e ler.

Memórias On
 

– Willy, para, você está machucando ela – supliquei a Willy enquanto me agarrava em seu braço que estava apertando o pescoço de minha mãe.
– SUA VADIA, VOCÊ É UMA VADIA! – ele gritava com ela me ignorando e ela não conseguia dizer nada a não ser tentar respirar.
– Eu vou chamar a policia se você não soltá-la. – pedi mais uma vez, mas ele não se afastou. – SOLTA ELA – gritei chorando e batendo em suas costas. – Você está machucando ela. – o choro já estava embargado em minha garganta e só quando eu vi os olhos de minha mãe perderam a cor que eu senti uma raiva se apossar de mim. Olhei para o lado encontrando um pedaço de vidro que havia sido quebrado quando Willy jogou minha mãe sobre o espelho da parede. Segurei com toda a minha força sentindo cortar a minha mão e então me aproximei de Willy novamente enfiando aquele pedaço de vidro em seu pescoço. No mesmo instante ele a soltou, pousando sua mão sobre o local ferido e gritando de dor. Minha mãe começou a tossir desesperadamente puxando todo o ar necessário e eu a puxei pra perto de mim a ajudando sair de lá.

Memórias Off
 

Com um sobressalto eu acordei notando meu corpo todo suado. Minha cabeça latejava, minha respiração estava acelerada. Que merda foi essa? Eu não me lembrava disso, mas eu sei que realmente aconteceu porque depois daquele dia me mandaram para a Inglaterra por alguns meses, até receber a notícia da morte da minha mãe e vir morar com John. Que droga, como eu poderia ter esquecido isso? Willy tinha chegado mais cedo do trabalho naquele dia e estava furioso, mais do que o normal, mas por quê? Por que eu nunca sabia de nada do que estava acontecendo mesmo estando no meio de toda aquela merda de confusão?
– Meu Deus, você está horrível! – John não soube ser discreto ao me ver entrar na cozinha. Fazendo a Nana rir.
– Um pouco de descrição é bom, John. – Ela o repreendeu.
– Se a diretora da Trinity te ouvir falar o nome de Deus em vão você estaria bem encrencado há essa hora. – me sentei na bancada.
– É por isso que você estuda lá e não eu. – Nana não disfarçou outro riso ao ouvir John e veio até mim.
– Café?
– Por favor! – apoiei minha cabeça em minhas mãos massageando minhas têmporas.
– Bem, eu vou começar o meu dia. Boa aula pra você. – me deu um beijo no rosto e se retirou.
– Foi dormir tarde? Está com cara de que não dormiu bem. – John perguntou curioso.
– Não. – dei um gole no café. – Eu tive um pesadelo com o Willy e Lucy.
John parou sua xícara suspensa no ar, bem a caminho da sua boca, e me encarou. Ele sempre tinha essas reações estranhas quando eu tocava no assunto.
– Ah é?
– É. – concordei.
– E era sobre o quê?
– Foi um dia antes de me mandarem para Inglaterra. Ele tentou matar Lucy e eu enfiei um pedaço de vidro no pescoço dele.
John abriu a boca, um pouco chocado com isso.
– Você nunca me disse isso.
Dei de ombros.
– Pensei que já soubesse. – me levantei jogando minha mochila em minhas costas. – Eu preciso ir.
– Tudo bem. – ele também se levantou. – Quer que eu fale com Mariah?
– Não, ela ainda está de férias, não quero incomodar. – mordi meu lábio.
– Você vai ficar bem? – a voz estava carregada de preocupação.
Apenas concordei em silêncio. Ele me deu um abraço breve e deixou um beijo em minha testa.

– Até que enfim você chegou.
Mal passei pelos portões e Ed já estava agarrado aos meus ombros me guiando para dentro da escola.
– Ed… – censurei.
– Josh está bem ali. Você quer beijar ele agora ou depois no intervalo?
– Que tal em momento algum?
– Temos um acordo, não seja covarde.
– Não temos nada!
– Temos sim. – Ele viu alguém atrás de mim. – Emma, diz para a Brooke que ela tem que beijar o Josh.
– Você tem que beijar o Josh. – apontou para mim e andou até a fonte do pequeno pátio se sentando ali. A seguimos.
– Fala sério, somos só amigos. – tentei me defender.
– Não existe amizade entre homem e mulher, entenda isso.
– Você é meu amigo.
– Mas eu sou quase uma mulher. – deu uma voltinha.
– Se não fosse pelo seu amiguinho no meio das pernas. – Emma implicou, não evitei uma risada.
– Detalhe. – estreitou os olhos para ela.
Depois disso eu não escutei mais a conversa por que tentei reconhecer um carinha que havia acabado de passar pelo corredor da Trinity, ocupado de mais com seus cadernos e folhas, ele parecia perdido e me parecia conhecido. Espreitei meus olhos, mas não sabia quem ele era.
– Quem é? – Ed sussurrou em meu ouvido, olhando na mesma direção.
– Não sei!
– É um gato. – eu conhecia aquele olhar, ah não!
– Senhorita Bennette, ai está você. – a coordenadora Murphy se acercou de nós
– Está me procurando? – fiquei confusa.
– Sim, temos um aluno novo e eu gostaria que você apresentasse a escola para ele.
– Por quê?
– Porque é a nossa melhor aluna, vamos. – ela saiu pisando na frente e antes de segui-la até a sala de espera da diretoria vi um sorriso abusado de Emmalyn e Ed.
– Salva pelo gongo. – o escutei gritar.
Fiquei me perguntando desde quando sou a melhor aluna daqui, nem de longe sou eu. Emma é mil vezes mais inteligente, será que eles já viram essa menina resolvendo cálculos? Eu mal sei quanto é dois mais dois.
– Senhor , quero te apresentar à senhorita Bennette, ela irá te guiar em uma tour pela nossa escola e tirar quaisquer dúvidas se tiver alguma.
– Perfeito. – o garoto disse firme em um sotaque carregado.
– É com você. – Ela me deu uma piscadela e nos deixou a sós.
Ao sair eu pude finalmente ver quem ele era. O tal bêbado e talvez gay do Quin, e pela sua expressão de surpresa ele também me reconheceu.
– Brooklyn? – perguntou.
– Achei que estivesse bêbado de mais para se lembrar.
– Não tem como esquecer um nome como esse. – deu um sorriso rápido.
, certo? – sorri sem graça.
– Exatamente. – por que ele tinha que me olhar bem dentro dos olhos? Não sou boa com contatos visuais. – Você sumiu depois da nossa conversa.
– E eu esperava que você fizesse o mesmo, mas… – resolvi mudar de assunto quando seus olhos me fuzilaram. – Bem, parece que estou encarregada de te mostrar a Trinity School. – dei de ombros.
– Parece que sim. – então apontou para a porta de saída e fomos para o corredor.
Ele guardou suas coisas quando começamos a andar em silêncio.
– E sua amiga?
– Elena? – ele me olhou rapidamente. – O que tem ela?
– Também irá estudar aqui?
– Nah! O lance dela é cantar na banda de garagem que ela tem.
– Ela tem uma banda?
– Tem! – e ele continuava a me encarar. Cocei a garganta ao descermos as escadas.
– Bem, a Trinity tem um currículo impecável, como já deve saber temos fila de espera e as regras são bem rigorosas, o uso do uniforme é indispensável porque a escola é meio que religiosa, não que alguém ligue pra isso a não ser os professores, mas…
– Me deixa adivinhar, você é a garota prodígio?
– O quê? Não! – neguei e continuei rapidamente. – Então, o corredor da direita vai te levar as aulas como Inglês, matemática avançada, história, e o da esquerda é informática, aula de música…
– Se você não é a garota prodígio então por que eles fariam tanta questão de que me mostrasse a escola?
Ele me interrompeu.
– Acho que é só pra fazer você se sentir bem-vindo, talvez.
– Sei.
Cocei a garganta mais uma vez e voltamos a subir as escadas que iam para o refeitório.
– Está no último ano? – perguntei.
– Sim. – outra palavra monossílaba, legal!
– Tem alguma faculdade em mente? – arrisquei mais uma pergunta.
– Já tenho que me preocupar com isso?
– Os professores pegam pesados com os veteranos por causa das cartas de recomendação para a faculdade.
– Aposto que a sua já está pronta. – implicou. – E você? Já tem alguma faculdade em mente? – me perguntou.
– Estou avaliando minhas opções.
– Oxford? Harvard? Yale? Qual delas?
– Na verdade, nenhuma delas.
– É mesmo? – pareceu surpreso.
– Sim. E você tem pelo menos algum curso em mente?
– Meu pai quer que eu faça direito, mas eu não sei se é a minha praia.
– Ah! – evito olhar pra ele. – Aqui é o…
– Refeitório. – me interrompeu olhando pelos vidros redondos da porta. – Deu pra notar.
– Nossa escola tem o melhor cardápio da cidade.
– Aposto que sim.
Ele é tão evasivo nas respostas dele.
– Você não me disse que curso pretende fazer. – continuou. – Na faculdade.
– Hm, literatura inglesa.
– Mesmo? Bem, até isso é melhor do que direito.
– Acho que direito não é muito a sua cara. – tentei me enturmar, já que ele não curte direito. Continuei a andar.
– E o que seria a minha cara? – ficou intrigado ao me seguir.
– Não sei, moda? Artes cênicas, música talvez? – dei de ombros.
– E por que essas são as minhas únicas opções? – ele arqueou a sobrancelha.
Viramos à direita até a biblioteca.
– Faz o seu estilo.
– Me conhece há dois minutos e já está julgando pela aparência? – ele parou de andar.
– Não é isso. Mas eu pensei que você… – corei.
– O quê? – Ele esperava pela a resposta enquanto ajeitava a alça da mochila nos ombros. – Espera, você acha que eu sou gay?
Me senti completamente vermelha, sua voz era de indignação e depois ele começou a rir, que bom que achou isso engraçado.
– Bem, você realmente deu em cima de mim no bar, mas estava bêbado. E depois você me deu aqueles conselhos nada típicos de “homens” em um banheiro feminino, e você segurava uma bolsa.
– Suspeito. – tinha um sorriso escancarado no rosto.
– Me desculpe.
– Está tudo bem!
Os olhos dele me observavam avidamente, como se me vigiassem para que eu não fugisse, era uma sensação estranha de se sentir, e eu estava me sentindo encurralada. Desviei o olhar rapidamente.
– Chegamos ao meu lugar favorito desta escola. – apontei para a biblioteca feliz por mudar de assunto.
– A biblioteca? – arqueou a sobrancelha.
– É aqui que você sempre vai me achar. – por que eu disse isso? – Quer dizer… – ai meu Deus. – É que quando eu não estiver na sala, eu…
– Eu entendi. – ele ainda sorria. Merda. – Vou me lembrar disso.
– De onde você é? Por que esse sotaque não é daqui. – novamente troquei de assunto.
– Você percebeu né. – convencido. – Canadá.
– Está longe de casa.
Ele concordou em silêncio ainda me encarando.
– Aqui é minha casa agora.
De alguma forma eu percebi certa mágoa no seu tom de voz, mas antes que eu pudesse perguntar se tinha algo de errado, o sinal bateu.

– Como ele é? – Ed mal esperou eu me sentar para me encher de perguntas.
– Quem? – me fingi de desentendida.
– Não banque a sonsa, por favor.
Rolei os olhos, mas me divertia com a situação. Ed é de longe a pessoa mais curiosa que eu conheço e se tratando de meninos então, vixe!
– Ahhh sim. – tirei meu caderno da bolsa e depositei sobre mesa. – Você deve estar falando do , o novato que veio do Canadá.
– Ele é do Canadá? Fala sério. – os olhos dele brilhavam. – Meu primeiro gringo.
– Ele não é gay, só pra você saber.
– E daí? Eu também não era até o primeiro ano, só pra você saber – ele riu. – Ah, ali está o seu prêmio. – Acenou para Josh e Elijah que logo ocuparam seus lugares atrás de nós.
– Beleza? – Elijah nos cumprimentou.
– Tenho e você? – Ed brincou.
Josh me deu um beijo no rosto e depois bagunçou o topete de Ed.
– Oi, Josh, quer uma bala de menta? – Ed rapidamente lhe entregou uma.
Josh o olhou confuso.
– Por quê? Estou com hálito ruim? – ele tentou cheirar a própria boca.
Ai, Ed. Merda. Escondi meu rosto com as mãos.
– Não, nada disso. Não posso ser legal com meus melhores amigos?
– Então, por que você não me ofereceu uma? – Elijah se opôs.
– Desculpa, Elijah, era minha última. Fico te devendo essa.
– Me paga uma cerveja mais tarde que fica tudo bem.
– O que tem mais tarde? – tentei mudar de assunto.
– Nós vamos ao Birdland, quer vir? – Josh me convidou.
– Pode ser, mas vou chegar atrasada porque vou passar…
– Na biblioteca. – Os três disseram juntos e começaram a rir. De mim! Não debati, apenas virei para frente na hora em que a professora de história chegou.
Ah claro, o primeiro dia de aula. Pra onde vocês viajaram? O que vocês fizeram? Agradeceram muito a Deus por estarem vivos? E blá, blá, blá. Ed, Elijah, Josh e eu resolvemos dar uns de antissociais e começamos a jogar forca. Não demorou muito para que Ed voltasse a me perturbar sobre o canadense.
– Ai meu Deus, eu achei o Twitter dele. – sussurrou para mim. – “Saudades do meu Canadá.” Tadinho, deve estar precisando de alguém para consolar ele.
– Você não presta.
– Acho que estou apaixonado. – não evitei uma risada.
– Ed, sua vez. – Josh chamou a atenção dele que rapidamente pegou o caderno fazendo as anotações da brincadeira.
– Ok… É um país. – deu a pista.
Fiquei olhando distraidamente para minhas mãos me perguntando como eu beijaria Josh. Se ele ficaria com raiva de mim. Espero que não e espero que ele entenda que foi tudo uma brincadeira de mau gosto de Ed, sei que se eu não o fizer, ele nunca mais me deixará em paz.
– Brooklyn, tem alguma ideia do que é? – Josh me trouxe a realidade.
– Me deixa dar uma olhada. – puxei o caderno e com um segundo já sabia a resposta. Quando ele cismava com algo era difícil alguém tirar da cabeça dele. – Canadá.
Os meninos ficaram surpresos com a minha rapidez e contaram as setinhas.
– Isso, deu certinho. Está certo Ed?
– Nossa como ela é boa, não é? – Ed comentou cheio de cinismo e eu estreitei os olhos para ele.
– Bixa má. – sussurrei em seu ouvido e ouvi sua risadinha afetada.

– Não, você não vai fugir. – Ed me segurou pelo cotovelo assim que saí da sala.
– Edward! – o chamei pelo nome todo sabendo que ele odiava.
– Você não fez isso, fez? – me arrastou pelo corredor.
– Combina com você. – o provoquei.
– Você ficou sabendo do aluno novo? – Ele perguntou para Emma assim que ela nos encontrou. – Já adicionei no facebook, e o segui no twitter.
– Novo recorde? – não disfarcei um riso.
– Estamos na mesma classe. – ela jogou o cabelo para o lado e saiu rebolando na nossa frente.
– Que sortuda filha da mãe. – a seguimos.
– Sortuda? – ela parecia indignada. – Se lembra de que por sua causa me trocaram de turma no primeiro ano e desde então eu estudo sozinha? – ela o encarou.
– Uma coisa não tem nada a ver com a outra. – deu de ombros. – como ele é?
– Muito gato e nem um pouco gay.
– Você não pode ter certeza disso.
– Eu vou pegar um iogurte, vocês vêm?
– Não mesmo, senhorita. – Ed me segurou pele braço mais uma vez. Rolei os olhos. – Onde está o Josh?
– Bem ali. – Emma apontou para ele, escorado no seu armário com Elijah e algumas meninas da nossa turma.
– É agora. – Ed disse decidido. – No mínimo 10 segundos.
– Não, gente. Não!
Os dois não me escutaram e me arrastaram até eles que nos olharam confusos quando chegamos. Abri minha boca para falar algo, mas eu não consegui. Que merda. Ok, não tinha pra onde fugir, então…
Segurei o rosto de Josh com minhas mãos e colei meus lábios aos dele. Senti a surpresa dele com esse ato repentino e ouvi Elijah falar alguma coisa que não entendi direito. Quando ia me separar, Josh enfiou sua língua dentro da minha boca, como assim? Ele queria aprofundar o beijo? Afastei-me no mesmo instante o vendo de olhos fechados que se abriram logo depois, sua expressão era confusa e eu não sabia para onde olhar então apenas saí dali.
– Brooke…
Emma me gritou, mas eu a ignorei.

No caminho até a biblioteca me esbarrei com alguém, pousei minha mão sobre o ombro o sentindo doer.
– Wow, olha pra onde anda.
Mesmo sem olhar eu reconheci o sotaque dele.
– Desculpa, Canadá, eu não vi você. – o nome dele me fugiu a mente nesse momento.
– Tudo bem. – o olhar dele suavizou ao notar que era eu. – Você está bem? Se machucou?
– Estou bem.
Então lhe dei as costas, mas ele me chamou.
– Espera! Eu acho que estou meio perdido. – me virei para ele arqueando a sobrancelha. – Você poderia me dizer onde fica a sala de informática?
Sorri para ele e olhei o chão alguns segundos antes de responder
– Está bem atrás de você.
Ele olhou para a porta com uma expressão de surpresa e depois soltou uma risada.
– É mesmo, é a sala.
– Como eu disse. – acenei para ele e lhe dei as costas mais uma vez.
– Mas só que eu…
Parei mais uma vez e cruzei os braços para encará-lo. Mais uma vez.
– Você o quê?
– Eu queria saber se pode me ajudar com o computador.
– Você não sabe mexer em um computador? – perguntei incrédula.
Ele rolou os olhos, mas ainda sorria.
– Óbvio que eu sei, mas e se eu estragar algo?
Estreitei os olhos e passei por ele entrando na sala.
– É só apertar esse botão atrás do monitor e vai ficar tudo bem com o resto. – A tela do computador se acendeu.
– Você é demais, obrigado!
– Não tem de que, Canadá. – ele se sentou na cadeira e começou a navegar na internet. – Toma cuidado com o que você pesquisa, os computadores são monitorados.
– Eu só vou mandar um e-mail para minha família, meu celular descarregou. Mas pode deixar vou me lembrar disso.
– Quer ajuda pra entrar no site? – impliquei.
– Engraçadinha.
Lhe dei um sorriso e deixei a sala.

Não havia um livro naquela biblioteca que eu não tivesse lido, o que me deixava sem muitas opções, mas a minha terapia para tudo sempre foi ler. Então me contentei com a Megera domada e me sentei. Uma cadeira se arrastou ao meu lado e eu vi Josh me encarar pacientemente.
– Josh…
– Ed e Emma me contaram tudo. – se apressou em dizer.
– Me desculpa. – me virei para ele.
– Não, nada a ver pedir desculpas, eu conheço Ed desde pequeno, sei que quando ele coloca algo na cabeça, ele não tira até conseguir. Não foi culpa sua.
– É, Ed pode ser bem persuasivo quando quer.
Ele me deu um meio sorriso.
– Eu queria me desculpar por tentar…
Corei no mesmo instante, sabia sobre o que ele falar.
– Só que eu pensei que você queria… Quer dizer, beijo é beijo, não é?
Fiquei encarando minhas mãos por que eu não sabia o que dizer.
– Olha pra mim, fala comigo. – pediu.
– Josh, você é o meu melhor amigo e eu não quero confundir as coisas entre nós.
– Brooke, como eu disse, beijo é beijo e isso nunca vai definir o nível da nossa amizade.
– Então você sai por aí beijando as pessoas sem ter interesse nelas?
– Bem, às vezes eu só quero me divertir. – ele me dá um sorriso tímido. – Mas você é com certeza a mulher mais interessante e misteriosa que eu conheço e eu sou um filho da puta de um sortudo de poder ser seu melhor amigo. Você sabe que sempre vai poder contar comigo, e eu não me importo que você me beije às vezes, ainda sou homem.
– Josh. – corei ao empurrá-lo pelo ombro. – Obrigada por ser meu melhor amigo.
O puxei para um abraço.
– Me diz que você vai dar o troco no Ed.
– Com certeza!
– É assim que se fala.
– Aí estão vocês.
Ed, Emma e Elijah entraram na biblioteca.
– Onde mais Brooke estaria?
– Acho que vou ter que trocar meu esconderijo secreto.
– Muito secreto, onde todos os alunos precisam vir para estudar. – Emma debochou.
– Podemos ir para outro lugar? – Elijah pediu. – Eu passo grande parte do meu dia aqui, não quero estragar meu tempo livre aqui também.
– Vamos? – Josh me levantou.
– Vocês são muito chatos.
Declarei ao sair da biblioteca sendo seguida por eles.
– E feios. – completei.
– O quê? Ah, olha só pra você…
– Brooklyn? – quase esbarrou em mim novamente.
– Oi. – os olhos deles estavam grudados em mim como se só estivesse apenas eu ali.
Senti a mão de Ed me apertar no mesmo instante. Cocei a garganta.
– Canadá, estes são meus amigos. Emma, Ed, Elijah e Josh. Pessoal esse é o do Canadá.
– Canadá é com certeza o meu país favorito. Depois dos Estados Unidos, é claro. – Ed se apressou em cumprimentá-lo.
– É um prazer conhecer os amigos da Brooklyn. – deu um aceno para eles.
– Me chama de Brooke. – pedi.
– Brooke. – repetiu meu apelido. – Legal. Ei, não estamos na mesma turma? – se dirigiu a Emmalyn.
– Estamos sim. – abriu um sorriso absurdo para ele.
Emma e Ed estavam totalmente enfeitiçados pelo Canadá e nem disfarçavam. Então Josh passou o braço por meus ombros e Elijah ficou bem ao meu lado.
– Prazer, cara, mas nós estamos atrasados pra próxima aula. Seja bem-vindo.
– Jura? Eu não ouvi o sinal tocar. – ele franziu o cenho.
– É que nós sempre chegamos antes.
Eu fiquei confusa com toda aquela história, como assim?
– Aaaaah. – Ed pareceu se recordar de algo. – Mais tarde nós vamos ao Birdland, aparece por lá. – deu uma piscadela para que concordou. E antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, eles estavam me arrastando para a sala.
Quando Ed nos acompanhou recebeu uma expressão estranha de Elijah e Josh.
– Que foi?

– Cheguei!
Anunciei ao entrar e fui direto para a cozinha pegar qualquer coisa pra comer.
– Oi, querida, como foi o primeiro dia de aula? – Nana perguntou.
– Muito chato. – peguei uma maçã. – Eles só ficam fingindo que querem saber onde passamos as férias.
– Ué, não fizeram vocês se ajoelharem no canto da sala para pedir perdão pelos pecados?
A olhei seriamente, mas a piada realmente tinha sido boa.
– Não, mas com certeza estão planejando alguma viagem para ver o papa.
– Ah! – ela suspirou. – As piadas infinitas que podemos fazer com a sua escola.
– Não é? Eu nem preciso ir à igreja mais. – Ela concordou no mesmo instante ao terminar de lavar as vasilhas.
– Por que será que de todas as escolas John preferiu a Trinity? – fiquei curiosa em saber.
– Deve ser por que é uma das melhores escolas de Nova York. – ela me olhou. – E por que é a única escola que a bíblia é uma matéria.
Dessa vez não consegui segurar o riso.
– Pra ser sincera, cada vez eu acredito menos em Deus.
De repente o ar não era mais de diversão.
– Por causa do que aconteceu com o seus pais? – seu olhar era de pena e eu odiava isso. Por isso nunca falava disso a não ser com Mariah e John.
– Sim e não, sabe? Não estou só pensando em mim, mas obviamente existem mais pessoas sofrendo nesse mundo do que feliz.
Ela concordou em silêncio.
– Quer saber, se eu tivesse criado um mundo todas as pessoas iriam ser felizes ou… Todas as pessoas iriam ser tristes, sem meio termo.
Ela deu um meio sorriso para mim.
– Acho que isso se chama livre arbítrio. Deus fez o mundo e é o grande criador, mas ele te da a escolha de querer ser uma pessoa boa ou ruim. Infelizmente nem todos preferem ser bons. Vai chegar uma hora que você vai entender que algumas perguntas não têm respostas.
Concordei com ela.
– Bem, por que não vai tomar um banho enquanto o almoço não fica pronto? Estou fazendo almondegas.
– Tudo bem! – Ela saiu da cozinha
Estava pronta pra ir para o meu quarto quando John entrou.
– Chegou cedo.
– Pois é, acabei esquecendo o carimbo para as folhas de admissão em casa, vou aproveitar para almoçar. Que cheiro maravilhoso!
– Almondegas. – disse com água na boca.
– Hmmmm, Nana adivinhou. – Ele lambeu os lábios.
– O pessoal quer ir ao Birdland mais tarde, tudo bem para você? – o analisei.
– Em plena segunda-feira? – me olhou torto. – Não sabia que gostava de Jazz.
– Não tenho nada contra. – dei de ombros. – Então você está contratando na Brion Ross?
John se sentou ao meu lado e me encarou alguns segundos.
– Estou. – passou a língua nos lábios. – Por quê?
– Acho que poderia ser bom para as minhas atividades extracurrículares…
– Não, Brooklyn. Já tivemos essa conversa.
– Mas é só por meio período.
– Quero que se concentre nos seus estudos por enquanto, tudo bem? – concordei, mas eu não estava concordando por dentro.
– John, o que houve? – Nana entrou na cozinha nos interrompendo.
– Decepcionada em me ver?
Brincou e ela concordou indo direto ao forno.
– Vou por um prato pra vocês.
– Obrigada, Nana. Já disse que você é a melhor?
– Me agradeça me dando um aumento.
– Eu vou tomar um banho. – dei um beijo em Nana e fui para o meu quarto.

Assim que sai do táxi meus olhos se encontraram com os de Brian, ótimo, eu deveria saber que ele estaria aqui também. Fingi que não o vi e segui caminho até a entrada do Birdland. Eu nem precisei olhar para perceber que ele estava logo atrás de mim.
– Brooke! – me chamou.
Respirei fundo antes de me virar para ele.
– Você já voltou das férias, que legal.
Resumindo a história: Eu terminei com o Brian duas semanas antes das férias de verão, mas ele não aceitou muito bem. Pediu que eu pensasse melhor durante as férias e depois que eu voltasse a gente poderia conversar novamente. Eu nunca tive a intenção de voltar com ele, mas ele acabou com qualquer chance de um término amigável ao enfiar a língua dentro da boca da minha melhor amiga.
– Como foi na Austrália? – perguntou quando notou meu silêncio.
– Eu não fui para Austrália.
– Ah não? Mas você disse…
– Eu sei o que eu disse.
Sua expressão era confusa.
– Então para onde foi?
– Pro Quin, semana passada. Eu te vi lá, aliás.
Os olhos dele se arregalaram rapidamente, de confusão para surpresa.
– Então você sabe, sobre eu e a… –
– Pois é, eu sei! – deixei meus lábios em uma linha reta.
– Brooke. – apareceu e eu agradeci aos céus por isso.
– Canadá! Vamos entrar?
Puxei sua mão e entramos.
– Você acabou de me salvar. – o agradeci.
– Quem é?
– Meu ex, Brian.
– O cara que ficou com a sua melhor amiga?
– Esse mesmo.
Não tive tempo de procurar meus amigos, sentamos na primeira mesa vazia porque eu estava com tanta raiva que minhas pernas tremiam.
Brian sentou em uma mesa ao nosso lado e eu sei que era para me vigiar, ele sempre foi ciumento.
– Ele não para de olhar pra você.
realçou o óbvio.
– Ótimo. – rolei os olhos.
– Qual é o lance afinal?
– Eu já disse, ele ficou com a Emma. – arqueou as sobrancelhas.
– Emma é sua melhor amiga?
– É.
– E você está falando com ela, mas não está falando com ele?
O encarei.
– É complicado.
– Você tem certeza que não gosta dele? Se não gostasse não estaria espumando pela boca.
– Quê? Nada a ver. – rolei os olhos. – Acho que se eu gostasse dele eu estaria sentada lá com ele e não aqui com você.
– Não, você estaria agindo exatamente como está agindo nesse exato momento.
– Você quer mesmo falar sobre ele?
– Não é errado você está se sentindo assim, é normal! Ele ficou com a sua melhor amiga, tudo bem! Mas pelo visto ele está querendo uma segunda chance com você.
– Do que está falando?
– Do jeito que ele te olha só mostra que ainda gosta de você.
– Que seja, nunca vamos voltar de qualquer forma.
– Tem que parar com isso. – apontou o dedo no meu rosto.
– O quê?
– Você está se fazendo de forte pra não ir até ele e ouvir que ele tem para falar.
– Quem esta julgando agora, uh?
– A questão é que ele foi um idiota.
– Ele é mesmo um idiota.
– Bem observado.
– Você é um idiota. – bati de leve em seu ombro.
– Mas tenho ótimos conselhos, e uma intuição aguçada.
– E o que a sua intuição está te dizendo? – não escondi um sorriso.
– Que você teve um desapontamento no seu relacionamento, e agora está com os escudos armados pra não se deixar levar por qualquer cantada barata.
Fiquei quieta, novamente ele estava me mostrando algo que eu não queria ver.
– Você devia parar de me fazer parecer uma garota mimada.
– E você devia parar de me olhar como se eu fosse seu amiguinho colorido. Talvez eu queira mais do que te dar conselhos.
– Você não está a fim de mim. – rolei os olhos.
– E o que te faz pensar isso? – me encarou seriamente, mas seus lábios apontavam diversão.
– Qual é!
– Você é uma garota inteligente, bonita, engraçada, aparentemente cai fácil na minha lábia, eu não poderia querer mais.
– Caio fácil? Você não deve estar se lembrando do que aconteceu na noite em que nos conhecemos, está? – ambos rimos.
– Eu estava bêbado, nem me lembro do que eu disse. – ele riu mais. – Mas estou feliz de ter te conhecido. Não foi fácil sair do Canadá direto para Nova York.
– Eu imagino que sim. – pousei minha mão sobre a sua. – Mas você pode contar comigo sempre que precisar. Apesar de ter sido um idiota monossilábico hoje mais cedo. E eu não sou nenhum prodígio. – Ele ampliou seu sorriso.
– Acho que fiquei intimidado.
– Aí está você, estávamos te esperando.
Josh apareceu ao meu lado sorrindo, mas ficou sério ao ver ao meu lado, depois seus olhos se escureceram ao ver minha mão sobre a dele. Tirei no mesmo instante.
– Chegamos há uns dez minutos.
– Vieram juntos? – arqueou a sobrancelha.
– Não, me encontrou na entrada e me salvou do Brian.
Apontei discretamente para a mesa ao lado.
– Aquele babaca. – ele rangeu os dentes.
– Brooke, . – Ed apareceu de algum lugar. – Venham, vão liberar o karaokê.
Ed me puxou pela mão.
– Espera. – pedi assim que notei que ficou para trás. – Você não vem?
– Vai na frente, eu vou depois.
– Ta bom. – lhe dei um sorriso simples e fui até o palco com meus amigos.

Ed e Emma cantavam Sorry do Justin Bieber e tentavam dançar ao mesmo tempo, o que não faziam muito bem, resultando em algo bem engraçado. Eu tentei ao máximo me divertir, mas Brian estava há alguns passos de mim. Rolei os olhos…
– Você está com raiva de mim? – perguntou como se fosse ingênuo.
– Por que eu estaria com raiva de você? – arqueei a sobrancelha sendo irônica.
– Porque você me viu com outra garota…
– Te vi beijando a minha melhor amiga. Você quis dizer! – o corrigi sem tirar os olhos do palco.
– Isso! – sua voz era de insegurança.
– Não temos nada, Brian, você pode ficar com quem quiser.
– Mas o que nós tivemos, eu…
– Espero que tenha aproveitado, porque não vamos ter mais nada.
– Então você ficou com raiva?
Sério?
– Você beijou a minha melhor amiga não só na minha frente como na frente da Trinity inteira. Você não vê a gravidade dos seus atos?
– Não achei que estivesse lá.
– E você achou que Emma não me contaria? Ou algum dos meus amigos? Realmente achou que eu não saberia?
– Eu entendo a sua raiva, Brooklyn, mas eu agi por impulso, não sei. Achei que se você visse que estava me perdendo você voltaria atrás na sua decisão. E por que você não está com raiva da Emmalyn? Ela é tão culpada quanto eu sou.
– Você não vale tanto assim, a ponto de estragar uma amizade.
Os olhos deles estavam arregalados, um pouco surpreso com o que ouviu.
– Brooke, sei que você já sabia da minha reputação quando aceitou sair comigo.
– E com quantas meninas você fez o mesmo teatrinho?
– Eu nunca me senti bem com uma garota dessa forma. Só você.
– Fala sério. – cruzei os braços diante o peito.
– Você realmente é diferente de todas as garotas com quem eu saí, e se eu pudesse teria evitado essa cena que você viu…
– Não, foi bom ter acontecido, Brian Scott. Ficou mais fácil terminar com você de vez.
– Então você não tinha nenhuma intenção de voltar comigo?
– Não! – fui direta.
– Você está dizendo isso por causa do beijo, eu sei.
– Não estou não.
– Então isso quer dizer que está com ciúmes.
Esforcei-me pra não rolar os olhos.
– Eu vou me fingir de desentendida.
– É por que faz sentido o que eu falei, não é?
– Só não quero continuar um assunto que não vai nos levar a lugar algum.
– Você está saindo com outra pessoa? É isso? – segurou meu braço. O Brian ciumento apareceu seja lá onde quer que ele estivesse.
– E se for? – puxei meu braço no mesmo instante
– Responda. – sua voz tinha um tom autoritário, e meio que me assustou.
– Eu não te devo explicação de nada, se enxerga. – Saí pisando firme até a saída.
– Não, espera! – Me alcançou, mas não tocou em mim. – Me desculpe, eu não sei o que esta acontecendo. Só de pensar em você com outro…
– Realmente não me importa.
– É só que agora eu… Eu, eu tenho uma noção de como você pode ter se sentindo quando me viu com a Emma.
É sério isso?
– Você não pode ter uma noção do que eu senti, porque eu não tenho sentimento em relação a você. Nada! É vazio. Não tenho ressentimentos, nem mágoas, e às vezes nem lembro que você existe.
– Eu…
– Você é um problema seu! – me alterei, mas logo tratei de abaixar o tom por que tinha algumas pessoas a nossa volta.
– Eu só estava com medo de te perder, eu nunca fiquei sério com ninguém antes. E essa tática de provocar ciúmes… Meus amigos, sempre deu certo pra eles. E pra muitas pessoas!
– Então você é a maior prova de que nem todo mundo merece o amor que recebe.
– Brooke…
– Me esquece, Brian.
Retirei-me do Club.
Para o meu ego, foi bom saber que apesar de tudo, ele ainda tinha alguma esperança de ficar comigo, e para o bem do meu ego, foi melhor ainda tê-lo rejeitado, sabendo que depois dessa noite, qualquer chance de me envolver com Brian Scott novamente era nula.
Mandei uma mensagem para Emma dizendo que iria embora mais cedo enquanto esperava um taxi. Estava frio e amanhã ainda era terça-feira. Vi sair acompanhado por April Granger do terceiro ano e estavam se divertindo muito. Os braços entrelaçados e estavam muito próximos. Fiquei encarando aquela cena até ouvi uma buzina tocar. Era Josh.
– Quer comer alguma coisa?
– Você leu meus pensamentos.

Eu não sabia que estava com tanta fome até o meu lanche chegar. Comi minhas batatas fritas em segundos enquanto sentia o olhar de Josh sobre mim.
– Pode perguntar seja lá o que esteja enfurnado na sua cabeça. – o peguei de surpresa.
– Não é que… Você e o canadense se deram bem, né?
Fiquei surpresa em saber que esse era o assunto, achei que falaria de Brian ou do beijo.
– É, acho que sim. – dei de ombros.
– Rápido demais. – acho que comentou mais para ele do que pra mim.
– O que quer dizer com isso? – o encarei seriamente.
– Eu me lembro de quando você chegou na escola, parecia um gato encurralado e com medo do mundo. Não deixava ninguém se aproximar até que Emma não te deu muitas opções.
Sorri ao me lembrar desse dia, Emma disse que sempre que me via no canto, sozinha, ela tinha uma tremenda vontade de conversar comigo, de ser minha amiga. No começo achei que fosse por pena, mas ela realmente é uma garota especial e Brian jamais irá estragar isso.
– Eu não sou mais aquela garota com medo do mundo, Josh, eu cresci, amadureci e enfrentei os meus medos. – nem todos. Acrescentei mentalmente.
– É, com certeza você não é. – não sei por que, mas eu não gostei do tom de voz dele.
– Você tem algo pra me dizer? – cruzei meus braços, olhos fixos aos deles.
– Primeiro, o Brian, a última pessoa do mundo que eu pensei que você fosse se interessar, e agora um cara que você nem conhece…
– Espera, você acha que eu gosto dele?
– Eu sei que você gosta.
– Isso é ridículo! E como você mesmo observou, eu nem conheço o cara. É essa ideia que você tem de mim? – meu tom era de espanto.
– Não, Brooke! Não me entenda mal, mas eu só estou dizendo o que está bem óbvio.
– E o que é?
– Que você se interessou pelo cara.
Bufei bem alto.
– Até onde eu sei, ele está com a April. – disse a primeira coisa que veio em mente. – E ele não faz o meu tipo de qualquer forma. – me levantei e estava brava. – Já que insiste, você pode pagar a conta. – peguei minha bolsa e o meu lanche e saí da lanchonete.

Quando entrei no prédio não segurei um riso ao notar que John, Nana e o Paterson, nosso porteiro, estavam sentados no chão em um canto da recepção jogando uno. E pela expressão em seus rostos, eles se divertiam muito.
– Brooke, chegou cedo. – John olhou para seu relógio no pulso. – Ainda são oito e meia.
– Estou um pouco cansada.
– Quer que eu prepare alguma coisa para você comer? – Nana mencionou a se levantar
Neguei.
– Comi um lanche no caminho.
– Então quer jogar com a gente, querida?
– Quero sim. – Sorri ao meu sentar entre ela e Peterson.
– Nos conte como foi seu primeiro dia de aula. – Peterson pediu ao dar as cartas. Todos me olhavam em expectativas.
– Descobri que eu sou a melhor aluna da Trinity. – informei.
– Não! Isso é sério? Quem poderia imaginar? – John debochou de mim.
– Eu não sou a melhor aluna daquela escola, eu nem acredito em Deus e isso deveria ser levado em conta.
– O que eles com certeza levam em conta são as suas notas A+ seguidas no últimos anos.
– Na verdade, eu tirei B- em matemática avançada. – O corrigi.
– Não teve nenhuma novidade na escola? Por que suas notas até eu posso adivinhar. – Nana disse com um tom entediado.
– Vocês não me deixaram terminar. – Joguei um oito azul em cima do oito amarelo da Nana. – Então, como eu ia dizendo, descobri que eles acham que sou a melhor aluna da Trinity e por isso tive que mostrar a escola para um aluno novo.
– Hmm, fez novas amizades? – Agora Nana parecia interessada.
– Mais ou menos.
– Estranho. A Trinity geralmente não aceita alunos para o último ano, a formação acadêmica dele não estaria completa ao modo de ensinamento da escola. – John ficou confuso.
– Talvez ele estivesse há muito tempo na fila de espera.
– Pode ser. – ele deu de ombros.
– Ou ele quer ser Padre. – Peterson brincou.
– Pode ser também. – John disse sério, mais seus lábios puxavam para um sorriso, assim como Nana.
– E ele veio do Canadá, então não tinham muitas opções. – John jogou um +2 para Nana que olhou bravo para ele.
– E ele é bonito? – Nana chamou minha atenção.
– Quem?
– O aluno novo.
– Bom, é! Mas é uma beleza normal.
– E vocês se deram bem? – Agora foi a vez de John perguntar.
– Por que não nos daríamos bem? – Arquei a sobrancelha para ele.
– Porque você às vezes é bem fechada em relação as pessoas.
– Eu o levei para conhecer a escola e não para um encontro, posso me virar quanto a isso.
– Só amigos, então? – Peterson me encarou.
– Não estou entendendo esse interrogatório. – Joguei minha última carta sendo a primeira a sair, como sempre. – Eu vou subir. Estou cansada.
Me levantei e saí sem olhar pra trás, mas sabia que eles estavam fofocando, o que me fez revirar os olhos.

***

– É aqui que eu moro. – a menina com quem eu havia passado uma grande parte da minha noite sinalizou para o The Max, um prédio de apartamentos aparentemente caros. Ela se virou para mim com um sorriso misterioso. – Você quer subir? Os meus pais estão viajando, estou sozinha em casa.
– Eu adoraria, Alice…
– April! – me corrigiu e eu concordei.
– Isso, eu adoraria, April, mas está um pouco tarde.
– Tem certeza?
Sob seus cílios eu pude ver seus olhos queimarem de desejo. Sua respiração estava acelerada e suas pernas se cruzavam constantemente. Eu até gostaria de subir, mas a minha mãe ficaria muito preocupada, então era melhor não contrariar.
– Infelizmente eu tenho. – lhe dei um meio sorriso, um pouco sem graça em ter que recusar seu pedido.
Ela ficou alguns segundos em silêncio apenas me encarando e então tirou o cinto de segurança e montou em mim com certa facilidade. No instinto, empurrei o assento para trás para que ela pudesse se sentir mais a vontade sobre mim, enquanto ela trabalhava em retirar o meu cinto de segurança. Sua boca buscou a minha com urgência e minhas mãos pousaram em sua cintura a empurrando em direção ao meu quadril. Seus lábios eram tão macios e convidativos, nossas línguas se enroscavam em uma dança sincronizada e eu estava começando a ficar muito excitado. Se ela continuasse eu teria que repensar no seu pedido. Quando pensei em subir minha mão até seus cabelos ela se afastou, mas ainda conseguia sentir a sua respiração quente em meu rosto.
– Isso é pra você ter uma ideia do que vai perder.
Um sorriso de lado surgiu em seu rosto e ao se aproximar novamente ela me deu um selinho demorado. Depois pegou sua bolsa no banco de trás e abriu a porta.
– Até amanhã, !
Esperei ela sair do carro e entrar no prédio para poder soltar a minha respiração. Assim que ela sumiu de vista me joguei para trás pousando minha mão sobre a testa e fechando os olhos. Que garota!

***
 

Abri meus olhos rapidamente ao sentir um tremor em meu corpo, tinha alguma coisa errada. Olhei a minha volta, analisando a situação. Meu quarto estava escuro e silencioso, mas eu conseguia ver algumas coisas, como a porta do closet, minha escrivaninha, a porta da sacada e o teto. Parecia tudo em ordem, exceto pelo fato de que meu corpo não se mexia, apenas meus olhos. Comecei a entrar em pânico mentalmente, minhas pernas e braços não respondiam ao meu comando, ao invés disso, meu corpo todo tremia por dentro, com uma rapidez avassaladora. De repente parou e meu corpo ficou instável. Não me lembrava de ter dormido de barriga para cima, mas aqui estava eu, com os olhos esbugalhados de medo e confusão. Então eu senti algo em cima das minhas pernas, olhei rapidamente para baixo e não tinha ninguém, apenas a sensação estranha de que algo estava subindo em cima de mim. O pânico tomou conta mais uma vez e comecei a tentar me debater, até conseguir recuperar o controle de alguns movimentos e no fim eu consegui me mexer por completo. Sentei-me na cama ligando o abajur em cima do criado mudo e vasculhei todo o meu quarto com os olhos e não tinha ninguém, só a sensação de ter alguém comigo. Levantei-me com cuidado, sentindo meu coração bater aceleradamente e fui até o closet, respirei fundo antes de abri-lo e me certificar que também estava vazio, exceto pelas minhas roupas, sapatos e outras coisas. Talvez tivesse sido só um sonho ruim, eu sempre tenho sonhos ruins. Só que desta vez foi muito diferente. Desta vez foi real e intenso, geralmente eu sonho com coisas que me aconteceram no passado, lembranças dolorosas. Mas este sonho foi muito diferente de qualquer coisa que eu já tenha sonhado.
Um barulho na porta me fez pular de susto, me virei quase de imediato sentindo um estalo em meu pescoço.
– Brooklyn, ainda está acordada? – John colocou apenas a cabeça para dentro quarto.
Esperei minha respiração se acalmar para poder lhe responder. Meu coração parecia querer sair da boca.
– Acabei de… Acordar. – apoiei minhas mãos no joelho.
– Aconteceu alguma coisa? – seu semblante era de preocupação, me sentei na cama mais uma vez e o vi entrar o quarto.
– Acho que só tive outro pesadelo. – pisquei varias vezes olhando para as meias em meus pés.
– Com seus pais? – ele se sentou ao meu lado.
– Não, desta vez foi com outra coisa.
– E era sobre o quê?
– Não me lembro. – menti por que eu não saberia explicar.
– E por que você acha que foi um pesadelo?
– Porque eu não sei se eu sonhei ou se foi real.