Brooklyn

  • Por: Pamella Luiz
  • Categoria: Originais
  • Palavras: 5663
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Sinopse: Existem apenas dois tipos de finais. Os felizes e os necessários. Foi difícil entender e aceitar, mas eu aprendi que a vida é feita de escolhas. Quando você dá um passo para frente, inevitavelmente alguma coisa fica para trás. Mas até mesmo as lembranças ruins fazem parte de quem eu sou hoje, como eu lido com as decepções é o que define quem eu sou. Criar expectativas de um dia melhor é mera ilusão. O sol pode voltar depois da tempestade, mas o estrago não desaparece com a chuva.
Gênero: Comédia Romântica
Classificação: 16
Restrição: Apenas o personagem principal não é fixo.
Beta: Donna Sheridan

Capítulos:

 

Prólogo:

 

“Lucy não conseguia reprimir suas lágrimas naquele momento, havia adiado a verdade por tanto tempo que agora parecia tão certo continuar assim. Mas sabia que não poderia alimentar a mentira, não mais. Havia chegado ao limite, assim como ele. O homem à sua frente era completamente diferente de quem ele habituava ser, ela não poderia o culpar por isso, havia o transformado naquilo e precisava pagar por preencher o seu coração de odiosidade. O horror estava estampado em seus olhos, sua respiração era célere e falha, a verdade não deveria doer tanto, não é mesmo? Mas ainda assim corroía cada fragmento do seu corpo. Ele estava no seu cume da alienação e estava prestes a cometer o maior erro da sua vida, que no momento, parecia a coisa certa a se fazer. Os olhos delas se arregalaram ao ver a arma apontada novamente sobre seu coração. – Não, por favor! – ela suplicou entre sussurros. – Eu vou destruir o seu coração, assim como fez com o meu. – O barulho se espalhou por todo o galpão e no instante seguinte ela era apenas um corpo frio atirado no chão e ele era um homem vingado.”

Capítulo 1 – Memórias.

 

Agachei-me com cuidado depositando na lápide as flores preferidas dela, sem ao menos perceber que uma lágrima foi junto, e depois mais uma e então eu já não conseguia mais contá-las. Era inevitável não chorar todas as vezes que vinha visitá-la, tendo que me lembrar de tudo que passou. Que passamos. Limpei inutilmente algumas lágrimas com a palma de minha mão e com a mesma passei por cima de seu nome bem desenhado. ‘Lucy Benette’ disse em meio aos soluços e então já não conseguindo me aguentar firme, me sentei ao chão.
– Oi, Mamãe, como a senhora está? – disse sentindo minha voz oscilar. – Se te serve de consolo não estou muito diferente de você. – acariciei a sua foto preta e branca e então me permiti sorrir um pouco. Lembrar que nem tudo foi só dor era bom em momentos como esse. – Eu só queria que soubesse que você venceu, estou indo para Manhattan para recomeçar. O John me matriculou em uma dessas escolas para esnobes que eu sempre detestei, disse que depois que eu me formar na faculdade vou poder ter a minha própria casa, como a gente sempre sonhou, e eu só preciso me dar bem com as minhas notas. – sorri novamente me lembrando dos nossos planos de comprar uma casa longe daquele lugar que chamávamos de lar. – Também quero que saiba que isso não é uma despedida, eu vou sempre te levar comigo, onde quer que eu vá. E eu vou visitá-la sempre que eu puder, eu prometo. – novamente eu estava começando a chorar. Eu nunca tinha ficado tão longe dela como iria.
De repente, um vento forte passou por mim espalhando algumas pétalas e trazendo algumas folhas secas. Olhei para o céu sorrindo para mim mesma sabendo que de alguma forma, ela estava feliz em me ver partir.
– Eu também te amo.

Dois anos depois.
 

– Pai, olha o que eu fiz pra você. – Brooke deixou de lado seu lápis de colorir e se levantou levando consigo seu desenho. Era um trabalho de escola, mas havia horas que Brooke tentava o aperfeiçoar, ela queria mostrar ao pai o quanto amava sua família, mesmo com todos os desentendimentos.
– Pra mim, pequena? Que lindo! – James desistiu de acender o seu cigarro para dar atenção à sua princesa. Colocou Brooke em seu colo analisando o desenho. – Quem são?
– Eu, você, a mamãe e o Charlie – apontou para o cachorro em seu desenho.
– Olha, nós temos um cachorro!!! – James fingiu surpresa enquanto via Brooke esconder um sorriso. – E ele fala. – notou um balão no desenho.
– Mamãe disse que se eu for bem na escola, nós podemos adotar um.
– É mesmo?
– A-ham – Brooklyn assentiu olhando seu pai. – Ela também disse que se adotarmos um cachorro talvez nós vamos parecer uma família de verdade.
Pode ser que para uma criança de nove anos, essa frase não surta tanto efeito quanto surtiu para James. Afinal, o que havia de errado com Lucy? Ela precisava mesmo dizer uma coisa dessas na frente de Brooklyn? Precisava mesmo levar isso para o lado pessoal, aquilo era a gota d’água. James de modo gentil retirou Brooklyn de seu colo e a mesma o olhou confusa vendo seu pai ir para o hall da cozinha. Ela não deu muita importância ao fato até ouvir seus pais debaterem. A cada grito, Brooklyn se arrepiava, suas lágrimas tinham vida própria e já manchavam todo o desenho o transformando em um grande e feio borrão colorido. Ouviu a porta se fechar atrás de si e então seus olhos correram até seu pai que estava entrando na sala novamente. James andou até sua menina se agachando e a olhando com brandura, seus olhos varreram até o desenho e então sentiu uma culpa enorme em si. Brooklyn não precisava estar no meio de tudo aquilo, não merecia sofrer com a inconsequência dos pais.
– Escuta, princesa, nós precisamos conversar. – limpou algumas lágrimas de Brooke. – Às vezes, quando um casal se ama muito pode haver um pequeno desentendimento, e talvez eles precisem ficar um tempo afastados um do outro. – Brooke virou seu rosto para seu desenho e começou a rabiscar algo que não sabia o que. James não sabia como iria contar para sua menina que sairia de casa, nem ao menos sabia como deixaria o seu maior tesouro. Mas levar Brooklyn com ele só traria mais problemas. Por Deus como ele a queria, mas ela deveria ficar com a mãe, pelo menos até ele estiver estabilizado e com recursos para dar a ela uma vida de princesa. – O papai vai fazer uma viagem e não sabe quando volta.
– Você não vai voltar. – Brooklyn deixou as palavras que tanto lhe doíam sair pelos lábios. – Mas se é isso que você quer, papai, eu vou com você. – Brooklyn se levantou ajeitando o vestido e olhando para seu pai decidida dos seus atos. Ela amava sua mãe, mesmo, mas Lucy tinha seus vizinhos que eram um amor. No entanto, James só tinha a ela. Há onze anos quando Lucy engravidou ele havia deixado a faculdade para trabalhar e ajudar Lucy. Meses depois seus pais faleceram em um acidente de carro e por ser filho único não tinha ninguém para se apoiar a não ser em Lucy. Brooke sabia que seu pai ficaria sozinho por aí, e ela não permitiria que isso acontecesse. James sorriu abraçando sua menina, tendo certeza naquele momento que tinha criado a melhor filha do mundo.
– Muito bem, arrume suas coisas!

Memórias Off
– Brooke?
John me trouxe de volta à realidade e estava um charme. Todo engomadinho e descabelado. Coloquei meu livro sobre a mesinha do centro e me levantei.
– Ai, meu Deus, será que você vai sair casado desse evento hoje? – andei até ele ajeitando sua gravata.
– Estou com os dedos cruzados. – disse e cruzou os dedos.
– Eu tenho mesmo que ir? – fiz minha melhor expressão de cansada.
– Você sabe que sim, vou fechar um negócio importante hoje.
Apenas suspirei e depositei as mãos na minha cintura, ele ficou me analisando atentamente.
– O que foi?
– Você estava viajando, são efeitos desses livros que você não larga? – andou até o armário tirando um vinho branco de lá. Mas não me pergunte o nome porque eu não entendo de bebidas.
Inspirei todo ar possível.
– Na verdade estava pensando no Thiago e na Lucy. – John engasgou ao me escutar, sabia que aquele assunto o deixava desconfortável. – Você sabe o que aconteceu, não sabe? Por que eles brigavam tanto? – tentei mais uma vez arrancar informações dele.
– Eu já te disse tudo que eu sei. – deixou seu copo sobre a bancada e se afastou me dando as costas.
– Você tem que se lembrar de alguma coisa, qualquer coisa. – implorei ao segui-lo.
– Brooklyn, por mais próximo que eu fosse dos seus pais, eles mantinham as aparências perto de terceiros, sempre pareciam felizes e de bem com a vida que levavam. Foi uma surpresa quando soube que Thiago havia abandonado vocês, tentei falar com ele, mas não tive sucesso, e sua mãe… – se virou pra mim.
– Minha mãe?
Ele negou.
– Você se parece tanto com ela.
– O que mais me assusta são essas lembranças confusas e fora de ordem que chegam pra mim do nada. Me confundem e eu fico sem saber o que pensar, ou como interpretar.
– Você ouviu o que Mariah te disse várias e várias vezes, ainda está apegada ao seu passado. Você não conseguiu seguir em frente. Está assustada com a partida do seu pai, a morte da sua mãe, os maus tratos do Willy.
Willy… Só de ouvir aquele nome eu me arrepiava. Os piores momentos da minha vida vinham como pesadelos na noite, e eu não conseguia escapar.
– Você está segura agora. – ele me trouxe a realidade de novo me puxando para um abraço, senti seu carinho por mim. – Tudo isso passou e você precisa seguir em frente.
– Eu sei. – me soltei do seu abraço forçando um sorriso. – Preciso me arrumar. – dei uma sacudida em meu corpo para tentar espantar a tristeza que me cercou.
– O quê? Não vai de calça jeans e camiseta? Estou chocado! – riu de mim.
– Às vezes eu tenho que fazer certos esforços.
– Encontro você lá? – ajeitou as mangas da camisa social por baixo do blazer.
– Claro, vou dar uma passada na casa da Emma, ela já deve estar me esperando.

Hoje era o último dia de férias, semana que vem as aulas voltariam e logo estaria terminando meu último ano na Trinity School e então entraria na faculdade. Se mamãe pudesse me ver agora, eu sei exatamente como estaria. Sentada em sua cama, ela viria até mim e pentearia meus cabelos e depois o prenderia em um rabo de cavalo, me daria o seu melhor sorriso de orgulhosa e me abraçaria. Eu sentia tanta a falta dela, mas ao mesmo tempo sei que o que aconteceu foi o melhor. Ela sofreu muito depois que papai nos deixou e, com a chegada de Willy, as coisas só pioraram. Começar uma nova vida não foi o suficiente, conheci pessoas novas, desabafei com minha psicóloga, fiz vários amigos, tenho minhas provas e agora preciso me preocupar com minhas notas para conseguir uma boa recomendação da minha professora de literatura. Minha vida era tão corrida que não sobrava tempo para pensar no que aconteceu, mas mesmo assim, as lembranças estavam tão vivas como nunca estiveram antes.
Essa noite, deixando de lado o meu clássico estilo de camisetas super comportadas e confortavéis e minhas calças jeans que nunca saem de moda, resolvi usar um vestido Valentino. Ele é branco com um rendado transparente na parte das costas, com uma saia mais ou menos rodada que iam até a metade das minhas coxas e terminava com uma bainha de rendado transparente, e apesar das mangas longas eu tive que colocar um sobretudo cor salmão. E já que não me dou bem com saltos, coloquei uma sandália rasteira e disso eu não abro mão.
– Quem é você e o que fez com a minha amiga Brooklyn? – Emma não evitou sua expressão de surpresa ao abrir a porta do seu quarto. Então seus olhos foram até meus pés. – Ah, aí está você.
Sorri ao passar por ela me sentar em sua cama.
– Tudo na vida tem um limite.
– Podem te tirar do Brooklyn, mas não podem tirar o Brooklyn de você.
Apenas me limitei a piscar para ela e abri um pequeno sorriso. Ela me analisou alguns segundos antes de ir para frente do espelho.
– Me deixa perguntar mais uma vez. – começou a retocar o batom.
– Hm?
– Então, eu posso ficar com o Brian sem nenhum problema? – se virou pra mim. – Não vai ficar chateada?
– Acho que não tem problema. – tentei parecer confiante nas palavras.
– Acha? Do tipo, não tem certeza?
– Do tipo… – mordi meu lábio, piscando várias vezes. – Acho que do tipo, Brian e eu ficamos juntos por um tempo, não houve uma vinculação sentimental da minha parte e foi por isso que terminamos. Eu não vou sentir ciúmes nem nada do tipo. – andei até ela arrumando meu cabelo. – Até por que não gosto dele. Só acho curioso ele ter se aproximado justo da minha melhor amiga.
– Você acha que ele só está tentando te fazer ciúmes? – questionou.
– Acho que ele é um idiota. – me virei pra ela.
Emma respirou fundo.
– Brooke, você é a pessoa mais indecifrável que eu conheço. Mesmo se alguém estiver enfiando uma faca na sua barriga você diria que não está doendo porque tem medo de contar como realmente está se sentindo para não machucar a outra pessoa.
Pensei sobre isso, em como a Emmalyn tinha toda a razão. Eu tinha sérios problemas de confiança, isso me deixava vulnerável e eu não quero parecer vunerável para ninguém!
– Emma…
Não sabia o que dizer.
– Mas você não gosta dele, não é? – se virou para o espelho novamente, e eu acatei no mesmo instante.
– É, não! Com certeza, sem nenhum sentimento.
– E a gente nem vai namorar ou coisa do tipo, vamos nos beijar e depois esquecer a existência um do outro.
– Parece um bom plano. – sorri mesmo não querendo sorrir.
– E nós vamos encontrar o seu par perfeito hoje.
A encarei.
– Eu não estou procurando por ninguém. – deixei claro.
– Todo mundo está procurando por alguém.
– Mas não em um evento para a caridade. – adverti.
– Eu sei que esses eventos costumam ser uma chatice. Mas todos os gatinhos da alta sociedade vão estar lá, ou grande parte. Você vai conhecer alguém, e vai seguir em frente.
– Quer saber, se você parasse de falar nesse assunto, eu já tinha seguido em frente.
– Me deixe ver você. – repousou as mãos em meu ombro. – Está linda, Brooklyn, e vai pegar muitos gatos hoje.
Rolei os olhos.
– Você nunca desiste em querer me ver com alguém, não é? – a segui para fora do quarto.
– Meu objetivo de vida.

The Quin é com certeza um dos hotéis mais bem localizados de Nova Iorque e por isso figurões como John sempre realizavam suas reuniões de negócios neste hotel. Manter as aparências nessa cidade é necessário e você sempre vê um ou dois famosos circulando por aqui. Sem falar nas pessoas mais importantes que precisam ser impressionadas. Como o presidente, ou os donos do Madison Square Garden, o que eu não sei, porque raramente vou a shows. Emma adora esse lugar por que simplesmente podemos ir a 5º avenida e voltar sem sermos notadas de tão perto que fica. O lobby é fantástico, vários quadros coloridos na parede com fotos de famosos como Barack Obama e Elvis Presley.
Alguns dos meus amigos estavam no lounge sentados nas poltronas se embebedando e eu tentava ao máximo prestar atenção na conversa deles, mas eu ainda estava com a cabeça nas nuvens.
– Estão ansiosos pela volta às aulas? – Elijah perguntou tomando um gole de sua bebida.
– Não me importaria de prolongar as férias por mais uma semana.
– Isso por que você já entrou pra Morgan State. – Emmalyn rolou os olhos pra mim.
– Não sei não, ainda estou analisando minhas opções. A senhora Hill disse que tenho grandes chances de fazer o curso especial de Harvard para tirar qualquer dúvidas.
– Ela quem está te plantando dúvidas, sempre quis ir pra Morgan e agora está pensando em Harvard?
– Sei que se sairá muito bem, independente da faculdade que escolher. – Elijah me abraçou por trás e depositou um beijo em meu rosto. – Eu e os caras vamos lá fora tomar um ar, tudo bem?
Assenti.
– Claro.
O vi me soltar e sair com os meninos me deixando a sós com Emma que me olhava com cautela.
– O quê?
– Nada. – negou. – Onde será que o Brian está?
– Eu não faço ideia. – disse sem interesse algum.
– Vamos pegar mais uma bebida?
Enlaçou seu braço ao meu me puxando até o bar que ficava na parte de trás do saguão do hotel. Eu sabia que Elijah e Emmalyn não se davam muito bem, não mais, os dois tiveram um romance de verão há um ano e desde que voltaram quase não se falam. Mas eles nunca nos disseram do por quê.
Emma havia sumido tinham exatas meia hora e eu não aguentava mais esses eventos de caridade onde falam apenas de negócios, negócios e mais negócios fingindo ser para o bem dos mais necessitados. Olhei a minha volta procurando por um rosto conhecido, mas eu não via ninguém.
– Nossa, que perfume maravilhoso. – ouvi alguém assoprar em meu ouvido, o odor do álcool exalando fortemente misturado com um sotaque que eu não fazia ideia de onde vinha.
– Pois é! Me disseram que era repelente contra cantada cafajeste, mas pelo visto não funciona.
Ele deu uma risadinha de convencido e eu me limitei a rolar os olhos o ignorando completamente.
– Posso saber por que não está acompanhada? – sorri sarcástica.
– Essa é uma daquelas táticas em que você pretende saber se eu estou namorando ou não?
– Talvez.
Virei-me para ele pronta para mais uma má resposta que estava na ponta da língua, mas fiquei um pouco surpresa por ele ser tão jovem, talvez um ano mais velho que eu, não tinha como saber. Estava todo engomadinho e por isso não poderia ser um penetra, apesar de nunca ter o visto por aqui antes. Pele clara, um pouco alto, cabelos escuros, olhos claros e tinha uma boca bem rosada. Não tinha como não reparar já que ela ficava bem diante dos meus olhos. Ele deu um meio sorriso antes de continuar a falar.
– Ou talvez eu só queira saber alguma coisa sobre você, seu nome por exemplo.
– Fala sério. – disse entre um sussurro, rolando os olhos.
– Mora em Manhattan?
Não o respondi.
– Estuda? Trabalha? É católica?
O encarei novamente, ele estava sendo evasivo.
– Por que não gosta de falar sobre você?
– Porque eu não sou da sua conta.
Ele fechou a boca no mesmo instante, me encarando silenciosamente.
– Tá, acho que você não vai cair no meu charme.
– E você jura que alguém já caiu?
Ele semicerrou os seus olhos claros para mim e por algum momento eu achei que ele fosse continuar com todo aquele papo furado, mas sabiamente resolveu me deixar sozinha e com um sorriso de quem sabe que perdeu, ele se retirou. Obrigada!
Josh havia voltado uns dez minutos depois e estava sozinho. Me fazia companhia enquanto debatíamos sobre a volta às aulas, o que seria interessante já que era o nosso último ano na Trinity e depois cada um de nós seguiríamos rumos diferentes na vida. Emma queria ser psiquiatra, adorava isso, dar conselhos e ajudar os outros a dar um rumo na vida, essas coisas. Josh quer ser advogado como os pais. Os pais de Ed queriam que ele fosse dentista assim como eles, mas sei que Ed tem planos para sair do armário para a família e logo tentará uma vaga na Julliard, já que ele quer tanto ser um artista, eu só ainda não sei qual é o talento mágico dele para simplesmente querer entrar em uma das faculdades mais importante do país, mas no fundo eu sei que na verdade, ele só não quer sair de Nova York, ele adora esse lugar. John me importunava às vezes querendo que eu fizesse publicidade para ajudar com os negócios da família. Ele tem uma agência de publicidade encarregada por comerciais, produção de vídeo, publicidade, agência de talentos. Ele é o melhor no ramo dele, pessoas do país inteiro procuram por seu trabalho e, em parte, eu sei que ele gostaria que eu continuasse o trabalho da vida dele. John é viúvo e antes que sua mulher o deixasse ele não pode ter filhos, com medo de se apaixonar ele não se casou novamente. Por um tempo eu realmente achei que essa seria uma boa ideia, mas quando estava no primeiro ano comecei a ler mais livros do que eu poderia imaginar para as aulas de literatura da Sra. Hill, Eu simplesmente me apaixonava cada vez mais pelas palavras, andava com um dicionário comigo para traduzir as que eu não sabia o significado. Eu via a mágica que era pode escrever e inventar um mundo fantasioso e, ainda sim, quando fechava os olhos fazer tudo parecer muito real. Acho que com tudo que aconteceu comigo, na minha vida, aquela era uma forma de me fazer botar pra fora meus sentimentos confusos, raivosos, ternos e, às vezes, apenas às vezes, eu podia criar um mundo, talvez uma espécie de bolha, onde meus pais ainda existiam em minha vida e éramos a melhor família de todas. Enfim, estávamos no meio dessa discursão quando vi Emmalyn e Brian nos fundos do hotel, bebiam e jogavam conversa fora. Tudo bem, até aí normal. Tentei não demonstrar emoção alguma para Josh, mas falhei ao ver minha melhor amiga e meu ex-namorado se beijando intensamente.
– Você está bem? Ficou pálida uma hora para a outra. – Josh se acercou de mim.
– Sim, eu… Eu só preciso ir ao banheiro. – lhe dei um meio sorriso tentando convencer que estava tudo bem quando não estava nada bem. Assim que cheguei ao banheiro segurei com tanta força o mármore que poderia quebrá-lo a qualquer instante, minha respiração estava falha, meus olhos estavam molhados. Eu não podia estar com ciúmes, eu terminei com ele por que não gostava dele, então isso não era ciúmes! Não podia ser.
– Noite difícil? – Aquele mesmo garoto do bar me abordou encarando meu reflexo pelo espelho. Olhei para o chão não sabendo o que expressar. Há meia hora eu era a garota “incantável” e agora estava chorando em um banheiro de um hotel caro.
– Um cisco… Foi um cisco. – tentei disfarçar enxugando meu olho.
– Claro que foi. – sua voz era irônica.
– Olha só, esse não é um banheiro feminino? – Mudei de assunto me virando pra ele.
– Bem observado.
, eu…
Uma garota saiu de algum lugar do banheiro e parou pra me encarar.
– Você está chorando?
– Foi um cisco! – Ele riu de mim.
– Um cisco? Vamos ver… – ela me analisou curiosa. – Ele te traiu?
– O quê?
– Não corresponde o seu amor?
– Descobriu que ele é gay?
– Não estou entendo.
O tal do , que segurava uma bolsa, sentou em um banquinho ao lado de mim. Por que ele estava com uma bolsa? Ele é gay? Mas e aquela cena no bar? Talvez ele só estivesse brincando com a minha cara, não seria a primeira vez que isso aconteceria. Acho que ele só está um pouco bêbado de mais.
– Pode se abrir com a gente, somos as melhores pessoas do mundo em questôes amorosas. Já quebramos a cara milhares de vezes em relação a isso. – me trouxeram de volta a realidade.
– Eu não vou falar nada. – bufei diante aquela ideia obscena.
– Ele tem razão, pode desabafar. Só tem a gente aqui, e não vamos contar para ninguém.
Os dois me encaravam inquietos, como se estivessem esperando uma confissão pretensiosa, e de repente eu me lembrei das palavras da Emma e pensei que talvez não tivesse nada de ruim em contar a eles como me sentia, provavelmente eu não os veria mais. E falar com alguém que eu nunca mais voltaria a ver era uma ideia agradável.
– Talvez eu tenha dado carta branca pra minha melhor amiga ficar com o meu ex-namorado, e agora que eu os vi junto eu estou me sentindo estranha.
– Ciúmes? – A garota se virou para o .
– Não gosto dele. – afirmei.
– Como não gosta dele, se está com ciúmes dele? – protestouu.
– Não estou com ciúmes.
– Então pode ser orgulho.
Orgulho? Será?
– Orgulho? – repliquei.
– Querida, quando vemos algo ou alguém que era nosso em posse de outra pessoa, nós sentimos nosso orgulho ferido, como se esse algo ou alguém, devesse pertencer apenas a você, mesmo você não querendo mais esse algo ou esse alguém.
Que baboseira.
– Eu não sou egoísta. Quero que ele seja feliz.
– Mas não com a sua melhor amiga. – Harry andava de um lado pro outro. – A amizade é um círculo que nunca deve ser ultrapassado. Existe uma linha tênue entre dividir os segredos e dividir os ex-namorados. Você ficaria com algum ex dela?
– Claro que não! – me senti ofendida.
– Por que não?
– Porque é uma… – me voz perdeu o volume. – Uma traição.
– Você está se sentindo traída?
– Eu sabia que eles iriam ficar.
– Mas não sabia que se sentiria dessa forma.
– Foi um risco que eu assumi. – dei de ombros.
Ele me encarou.
– Você parece aquelas pessoas que tem um coração maior do que a razão. – seus olhos ainda pregados em mim me fazia, pela primeira vez em sua presença, me sentir corada. Ele me olhava como se me enxergasse por dentro. – Tem medo de se expressar e achar que vai machucar alguém?
– Eu a amo. – expliquei. – Não seria egoísta a privar disso?
– Você não pode colocar a necessidades de outra pessoa antes das suas e achar que foi por amor.
Ele tinha razão?
– Pode ser o álcool falando, mas eu acho que todo mundo precisa ser egoísta uma vez na vida, não da pra viver só realizando a vontade dos outros. Quando talvez, eles não fariam o mesmo por você.
– Harry, você está um ótimo conselheiro hoje. – A garota sorriu para ele. – A propósito, eu sou Helena. – Dei um sorriso constrangedor.
– Brooklyn. – Os olhos do se franziram e eu me perguntei se tinha algo de errado com a minha aparência.
– É um nome bem interessante. – me pareceu intrigado.
– Obrigada? – não sabia o que responder.
Uma garota entrou no banheiro e encarou o .
– Tudo bem, já estou de saída.
Ele consertou a bolsa em seu ombro e saiu com a Helena me deixando sozinha novamente.

– Brooke, aonde você vai? – Esbarrei com Emma no caminho para fora do hotel.
Não a respondi, apenas continuei seguindo o meu caminho.
– Brooklyn. – gritou o meu nome quando já estava do lado de fora.
Me virei bruscamente para encará-la.
– Eu não estou feliz que você tenha ficado com o Brian. – Tentei experimentar essa coisa de dizer como se sente, para eu realmente saber como estava me sentindo.
– Por que não? – me encarou confusa.
– Eu não sei, acho que é essa a sensação já que você é minha melhor amiga
– Por que não me falou antes? Eu não teria ficado com ele.
Pousei as mãos na cintura.
– Olha… Está tudo bem.
– Não fala que está tudo bem, se não está. – se aproximou de mim. – Por que não me falou antes?
– Eu não achei que tinha esse direito e na verdade eu não tenho. Você é a pessoa que sabe o que é melhor para você.
Vi seus olhos cristalinos, ela estava quase chorando.
– Eu não queria que você soubesse que isso me incomodou, mas se eu não puder ser sincera com você então o meu papel como sua melhor amiga não passa de um status. Você queria tanto ficar com ele que não parecia certo atrapalhar isso!
Ela não reagiu ao meu desabafo, apenas ficou ali me encarando.
– Desculpa. – a ouvi dizer de repente. – Queria que tivesse dito isso antes, quando pedi a sua opinião e não agora que já aconteceu.
– Como eu disse, está tudo bem. – voltei a andar indo a procura de um táxi.
– Sei que não está tudo bem. – se apressou em ficar na minha frente. – Mas agora eu não posso fazer mais nada.
– Emmalyn, eu preciso ir pra casa.
– Volta com ele. – disse rapidamente.
– O quê? Não! Eu não gosto dele!
– Você gosta sim.
– Não, não gosto. E mesmo se eu gostasse, ele deu em cima da minha melhor amiga. Odeio ele.
– Se odiasse não se importaria tanto. Para de mentir pra si mesma. – Me impediu de passar.
– Não me importo com ele, entenda isso! Me importo com a nossa amizade.
– Brooklyn, realmente pra mim, não tinha nada demais em ficar com o Brian. Principalmente por que você insiste em dizer que não gosta dele. Agora, se isso te fez mal, deveria ter me dito. Não agiu como minha amiga quando escondeu isso.
Suspirei.
– Você tem razão, eu não agi como amiga quando deixei o que pensava de lado para que você ficasse com ele! Não agi como amiga quando não te contei que me importava, porque eu quis que você ficasse bem, queria que ficasse com quem quisesse.
Seus olhos estavam arregalados, ela ainda chorava. Ameacei sair novamente, mas ela me abraçou.
– Me desculpa, eu não quero perder a sua amizade nunca. Realmente achei que não se importava.
Fiquei um pouco assustada, mas retribuí seu abraço carinhosamente.
– Obrigada por se abrir comigo. Você não tem ideia do quanto isso é importante para mim. – ela me encarou. – Prometa que isso não vai acabar com a nossa amizade, e que daqui pra frente vai sempre me dizer como se sente.
Sorri para ela.
– Prometo.
– Eu te amo. – ela me abraçou de novo.
– Amo você também.

Memórias On
 

Brooke analisou seu pequeno quarto olhando à sua volta. Ela sentiria falta dali, da sua casa, principalmente de sua mãe. Mas a decisão já havia sido tomada. Pegou sua lancheira e andou até a mesinha ao lado da cama puxando o porta retrato consigo.
– Família. – sussurrou olhando para a foto, onde estava Brooke, Lucy e James felizes.
– Brooke! – Lucy a chamou se escorando na porta. A menina olhou para a mãe no mesmo instante. – Por que não foi se despedir do seu pai?
– Como assim, mamãe? – quis saber.
– Seu pai acabou de sair! – andou até a cama e se sentou. – Disse que você não quis se despedir.
– Não, mãe. Ele vai me levar com ele. – disse andando até a porta e ouviu um suspiro de sua mãe. – Aposto que ele está me esperando na rua. – deixando o quarto ela foi até a porta de saída ouvindo os passos de sua mãe atrás de si. Mas para a sua total infelicidade o velho carro de seu pai não estava ali. No mesmo instante seu porta retrato foi parar ao chão e seus pés correram até o quarto de seus pais. Brooklyn não acreditava que James havia a enganado de tal forma. Ela acreditou que ele iria a levar consigo. Abriu o guarda-roupa vendo somente as roupas de sua mãe ali entre o vazio onde antes estava ocupado por pertences de James.
– Princesa… – ouviu Lucy a chamar, mas não quis saber. Apenas sentou-se ao chão chorando. – Eu sinto muito.

Memórias Off
 

 

Capítulo 2 – O canadense.

 

– Brooke, verdade ou consequência?
Encarei Ed assim que me sentei ao lado dele, de frente para Emma, sem entender nada até ver a garrafa de Heineken apontada para mim.
– Ah não, não estou brincando. – neguei no mesmo instante.
– Está sim. – Emma debateu.
– Não estou não. – neguei novamente.
– Você se sentou na roda, então está brincando. – disse suave, mas eu sabia que ela estava um pouco apreensiva.
Desde o ocorrido no Quin, Emma não tem se desgrudado de mim, acho que a cada segundo ela tem se certificado de que eu não estou com raiva, e eu realmente não estou. Olhando para tudo que aconteceu fico feliz por ter cruzado um dos meus limites que eu não ultrapasso há muito tempo.
– Verdade ou consequência? – Ed reforçou a pergunta.
– Eu nem sabia que isso era uma roda. – sussurrei.
– Pois é, mas é. Anda, escolhe logo. – Ed me apressou.
– Ta, é… Consequência. – tomei um gole da minha Fanta, mas engasguei ao notar que escolhi errado. – Não, espera…
– Tarde demais. – Ed olhou cúmplice para Emmalyn e então me encarou novamente. – Eu te desafio a beijar o Josh. E na boca. – Então ele fez biquinho ao debochar de mim.
– O quê? Não! Josh é meu melhor amigo, nada a ver. – olhei nervosa para Ed ao protestar.
– Você escolheu, e agora vai ter que cumprir.
– Ele nem está aqui, aliás, por que estão brincando de verdade ou consequência, se só estamos em três?
– Isso realmente não importa. – Ed se levantou. – Amanhã, no primeiro intervalo você vai beijá-lo.
– O quê? – engasguei novamente.
– Está tarde, tenho que ir para casa. Nos vemos amanhã? Mal posso esperar. – E então saiu, simples assim.
Encarei Emma que estava se esforçando para não rir.
– Acha isso engraçado? – tomei mais um gole da minha Fanta.
– Você sabe como o Ed é.
– Mas o que ele pretende com isso?
– Talvez ele não seja o único que queira te ver com alguém. – ela se levantou.
Bufei bem alto.
– Mas Josh é só um amigo.
– Talvez ele não te veja apenas como uma amiga.
Franzi o cenho na mesma hora. Como assim? Levantei-me e andei até ela que olhava toda a Manhattan pela sacada do meu quarto.
– O que quer dizer com isso?
Depois de alguns segundos em silêncio, ela negou com a cabeça e se virou para mim.
– Está realmente tarde e eu deveria ir, amanhã temos aula. – ela pendurou a cabeça de lado e passou sua mão em meu rosto. – Você realmente está bem? Sobre o Brian.
Coloquei minha mão sobre a sua.
– Quantas vezes eu vou ter que te dizer que sim, ein? – lhe dei um meio sorriso.
– Eu não quero perder sua amizade nunca. – reforçou.
Segurei suas mãos e encarei seus olhos.
– Melhores amigas, para sempre e nada vai atrapalhar isso, muito menos o babaca do Brian.
Ela gargalhou ao se afastar de mim.
– A gente se vê amanhã, então. – andou até a porta e me analisando mais uma vez, ela saiu.
Enfim, amanhã teríamos as aulas de volta e seríamos os veteranos, o que não deveria contar muito para uma escola tão religiosa, mas na verdade, conta sim. Sempre contou. Em qualquer lugar, na minha antiga escola no Brooklyn, em filmes, livros, aqui. Não me declaro uma pessoa popular porque para mim esse termo sequer é válido. Mas tenho que admitir que desde que comecei a andar com Josh, Elijah e Ed, tenho sido convidada para todo o tipo de evento que o corpo estudantil (e rico até as cuecas) da Trinity faz. Nunca foi minha intenção ser parte disso, nunca quis ser rica e patricinha, como a Emma é. Ganhei todas essas coisas de uma forma tão fácil, mas a que preço? Se eu pudesse escolher ainda viveria com meus pais no Brooklyn, não tínhamos a vida que levo com John, mas eu era muito mais feliz, pelo menos eu acho que sim. Mas tudo que eu realmente quero é ficar sentada em algum canto sozinha e ler.

Memórias On
 

– Willy, para, você está machucando ela – supliquei a Willy enquanto me agarrava em seu braço que estava apertando o pescoço de minha mãe.
– SUA VADIA, VOCÊ É UMA VADIA! – ele gritava com ela me ignorando e ela não conseguia dizer nada a não ser tentar respirar.
– Eu vou chamar a policia se você não soltá-la. – pedi mais uma vez, mas ele não se afastou. – SOLTA ELA – gritei chorando e batendo em suas costas. – Você está machucando ela. – o choro já estava embargado em minha garganta e só quando eu vi os olhos de minha mãe perderam a cor que eu senti uma raiva se apossar de mim. Olhei para o lado encontrando um pedaço de vidro que havia sido quebrado quando Willy jogou minha mãe sobre o espelho da parede. Segurei com toda a minha força sentindo cortar a minha mão e então me aproximei de Willy novamente enfiando aquele pedaço de vidro em seu pescoço. No mesmo instante ele a soltou, pousando sua mão sobre o local ferido e gritando de dor. Minha mãe começou a tossir desesperadamente puxando todo o ar necessário e eu a puxei pra perto de mim a ajudando sair de lá.

Memórias Off
 

Com um sobressalto eu acordei notando meu corpo todo suado. Minha cabeça latejava, minha respiração estava acelerada. Que merda foi essa? Eu não me lembrava disso, mas eu sei que realmente aconteceu porque depois daquele dia me mandaram para a Inglaterra por alguns meses, até receber a notícia da morte da minha mãe e vir morar com John. Que droga, como eu poderia ter esquecido isso? Willy tinha chegado mais cedo do trabalho naquele dia e estava furioso, mais do que o normal, mas por quê? Por que eu nunca sabia de nada do que estava acontecendo mesmo estando no meio de toda aquela merda de confusão?
– Meu Deus, você está horrível! – John não soube ser discreto ao me ver entrar na cozinha. Fazendo a Nana rir.
– Um pouco de descrição é bom, John. – Ela o repreendeu.
– Se a diretora da Trinity te ouvir falar o nome de Deus em vão você estaria bem encrencado há essa hora. – me sentei na bancada.
– É por isso que você estuda lá e não eu. – Nana não disfarçou outro riso ao ouvir John e veio até mim.
– Café?
– Por favor! – apoiei minha cabeça em minhas mãos massageando minhas têmporas.
– Bem, eu vou começar o meu dia. Boa aula pra você. – me deu um beijo no rosto e se retirou.
– Foi dormir tarde? Está com cara de que não dormiu bem. – John perguntou curioso.
– Não. – dei um gole no café. – Eu tive um pesadelo com o Willy e Lucy.
John parou sua xícara suspensa no ar, bem a caminho da sua boca, e me encarou. Ele sempre tinha essas reações estranhas quando eu tocava no assunto.
– Ah é?
– É. – concordei.
– E era sobre o quê?
– Foi um dia antes de me mandarem para Inglaterra. Ele tentou matar Lucy e eu enfiei um pedaço de vidro no pescoço dele.
John abriu a boca, um pouco chocado com isso.
– Você nunca me disse isso.
Dei de ombros.
– Pensei que já soubesse. – me levantei jogando minha mochila em minhas costas. – Eu preciso ir.
– Tudo bem. – ele também se levantou. – Quer que eu fale com Mariah?
– Não, ela ainda está de férias, não quero incomodar. – mordi meu lábio.
– Você vai ficar bem? – a voz estava carregada de preocupação.
Apenas concordei em silêncio. Ele me deu um abraço breve e deixou um beijo em minha testa.

– Até que enfim você chegou.
Mal passei pelos portões e Ed já estava agarrado aos meus ombros me guiando para dentro da escola.
– Ed… – censurei.
– Josh está bem ali. Você quer beijar ele agora ou depois no intervalo?
– Que tal em momento algum?
– Temos um acordo, não seja covarde.
– Não temos nada!
– Temos sim. – Ele viu alguém atrás de mim. – Emma, diz para a Brooke que ela tem que beijar o Josh.
– Você tem que beijar o Josh. – apontou para mim e andou até a fonte do pequeno pátio se sentando ali. A seguimos.
– Fala sério, somos só amigos. – tentei me defender.
– Não existe amizade entre homem e mulher, entenda isso.
– Você é meu amigo.
– Mas eu sou quase uma mulher. – deu uma voltinha.
– Se não fosse pelo seu amiguinho no meio das pernas. – Emma implicou, não evitei uma risada.
– Detalhe. – estreitou os olhos para ela.
Depois disso eu não escutei mais a conversa por que tentei reconhecer um carinha que havia acabado de passar pelo corredor da Trinity, ocupado de mais com seus cadernos e folhas, ele parecia perdido e me parecia conhecido. Espreitei meus olhos, mas não sabia quem ele era.
– Quem é? – Ed sussurrou em meu ouvido, olhando na mesma direção.
– Não sei!
– É um gato. – eu conhecia aquele olhar, ah não!
– Senhorita Bennette, ai está você. – a coordenadora Murphy se acercou de nós
– Está me procurando? – fiquei confusa.
– Sim, temos um aluno novo e eu gostaria que você apresentasse a escola para ele.
– Por quê?
– Porque é a nossa melhor aluna, vamos. – ela saiu pisando na frente e antes de segui-la até a sala de espera da diretoria vi um sorriso abusado de Emmalyn e Ed.
– Salva pelo gongo. – o escutei gritar.
Fiquei me perguntando desde quando sou a melhor aluna daqui, nem de longe sou eu. Emma é mil vezes mais inteligente, será que eles já viram essa menina resolvendo cálculos? Eu mal sei quanto é dois mais dois.
– Senhor , quero te apresentar à senhorita Bennette, ela irá te guiar em uma tour pela nossa escola e tirar quaisquer dúvidas se tiver alguma.
– Perfeito. – o garoto disse firme em um sotaque carregado.
– É com você. – Ela me deu uma piscadela e nos deixou a sós.
Ao sair eu pude finalmente ver quem ele era. O tal bêbado e talvez gay do Quin, e pela sua expressão de surpresa ele também me reconheceu.
– Brooklyn? – perguntou.
– Achei que estivesse bêbado de mais para se lembrar.
– Não tem como esquecer um nome como esse. – deu um sorriso rápido.
, certo? – sorri sem graça.
– Exatamente. – por que ele tinha que me olhar bem dentro dos olhos? Não sou boa com contatos visuais. – Você sumiu depois da nossa conversa.
– E eu esperava que você fizesse o mesmo, mas… – resolvi mudar de assunto quando seus olhos me fuzilaram. – Bem, parece que estou encarregada de te mostrar a Trinity School. – dei de ombros.
– Parece que sim. – então apontou para a porta de saída e fomos para o corredor.
Ele guardou suas coisas quando começamos a andar em silêncio.
– E sua amiga?
– Elena? – ele me olhou rapidamente. – O que tem ela?
– Também irá estudar aqui?
– Nah! O lance dela é cantar na banda de garagem que ela tem.
– Ela tem uma banda?
– Tem! – e ele continuava a me encarar. Cocei a garganta ao descermos as escadas.
– Bem, a Trinity tem um currículo impecável, como já deve saber temos fila de espera e as regras são bem rigorosas, o uso do uniforme é indispensável porque a escola é meio que religiosa, não que alguém ligue pra isso a não ser os professores, mas…
– Me deixa adivinhar, você é a garota prodígio?
– O quê? Não! – neguei e continuei rapidamente. – Então, o corredor da direita vai te levar as aulas como Inglês, matemática avançada, história, e o da esquerda é informática, aula de música…
– Se você não é a garota prodígio então por que eles fariam tanta questão de que me mostrasse a escola?
Ele me interrompeu.
– Acho que é só pra fazer você se sentir bem-vindo, talvez.
– Sei.
Cocei a garganta mais uma vez e voltamos a subir as escadas que iam para o refeitório.
– Está no último ano? – perguntei.
– Sim. – outra palavra monossílaba, legal!
– Tem alguma faculdade em mente? – arrisquei mais uma pergunta.
– Já tenho que me preocupar com isso?
– Os professores pegam pesados com os veteranos por causa das cartas de recomendação para a faculdade.
– Aposto que a sua já está pronta. – implicou. – E você? Já tem alguma faculdade em mente? – me perguntou.
– Estou avaliando minhas opções.
– Oxford? Harvard? Yale? Qual delas?
– Na verdade, nenhuma delas.
– É mesmo? – pareceu surpreso.
– Sim. E você tem pelo menos algum curso em mente?
– Meu pai quer que eu faça direito, mas eu não sei se é a minha praia.
– Ah! – evito olhar pra ele. – Aqui é o…
– Refeitório. – me interrompeu olhando pelos vidros redondos da porta. – Deu pra notar.
– Nossa escola tem o melhor cardápio da cidade.
– Aposto que sim.
Ele é tão evasivo nas respostas dele.
– Você não me disse que curso pretende fazer. – continuou. – Na faculdade.
– Hm, literatura inglesa.
– Mesmo? Bem, até isso é melhor do que direito.
– Acho que direito não é muito a sua cara. – tentei me enturmar, já que ele não curte direito. Continuei a andar.
– E o que seria a minha cara? – ficou intrigado ao me seguir.
– Não sei, moda? Artes cênicas, música talvez? – dei de ombros.
– E por que essas são as minhas únicas opções? – ele arqueou a sobrancelha.
Viramos à direita até a biblioteca.
– Faz o seu estilo.
– Me conhece há dois minutos e já está julgando pela aparência? – ele parou de andar.
– Não é isso. Mas eu pensei que você… – corei.
– O quê? – Ele esperava pela a resposta enquanto ajeitava a alça da mochila nos ombros. – Espera, você acha que eu sou gay?
Me senti completamente vermelha, sua voz era de indignação e depois ele começou a rir, que bom que achou isso engraçado.
– Bem, você realmente deu em cima de mim no bar, mas estava bêbado. E depois você me deu aqueles conselhos nada típicos de “homens” em um banheiro feminino, e você segurava uma bolsa.
– Suspeito. – tinha um sorriso escancarado no rosto.
– Me desculpe.
– Está tudo bem!
Os olhos dele me observavam avidamente, como se me vigiassem para que eu não fugisse, era uma sensação estranha de se sentir, e eu estava me sentindo encurralada. Desviei o olhar rapidamente.
– Chegamos ao meu lugar favorito desta escola. – apontei para a biblioteca feliz por mudar de assunto.
– A biblioteca? – arqueou a sobrancelha.
– É aqui que você sempre vai me achar. – por que eu disse isso? – Quer dizer… – ai meu Deus. – É que quando eu não estiver na sala, eu…
– Eu entendi. – ele ainda sorria. Merda. – Vou me lembrar disso.
– De onde você é? Por que esse sotaque não é daqui. – novamente troquei de assunto.
– Você percebeu né. – convencido. – Canadá.
– Está longe de casa.
Ele concordou em silêncio ainda me encarando.
– Aqui é minha casa agora.
De alguma forma eu percebi certa mágoa no seu tom de voz, mas antes que eu pudesse perguntar se tinha algo de errado, o sinal bateu.

– Como ele é? – Ed mal esperou eu me sentar para me encher de perguntas.
– Quem? – me fingi de desentendida.
– Não banque a sonsa, por favor.
Rolei os olhos, mas me divertia com a situação. Ed é de longe a pessoa mais curiosa que eu conheço e se tratando de meninos então, vixe!
– Ahhh sim. – tirei meu caderno da bolsa e depositei sobre mesa. – Você deve estar falando do , o novato que veio do Canadá.
– Ele é do Canadá? Fala sério. – os olhos dele brilhavam. – Meu primeiro gringo.
– Ele não é gay, só pra você saber.
– E daí? Eu também não era até o primeiro ano, só pra você saber – ele riu. – Ah, ali está o seu prêmio. – Acenou para Josh e Elijah que logo ocuparam seus lugares atrás de nós.
– Beleza? – Elijah nos cumprimentou.
– Tenho e você? – Ed brincou.
Josh me deu um beijo no rosto e depois bagunçou o topete de Ed.
– Oi, Josh, quer uma bala de menta? – Ed rapidamente lhe entregou uma.
Josh o olhou confuso.
– Por quê? Estou com hálito ruim? – ele tentou cheirar a própria boca.
Ai, Ed. Merda. Escondi meu rosto com as mãos.
– Não, nada disso. Não posso ser legal com meus melhores amigos?
– Então, por que você não me ofereceu uma? – Elijah se opôs.
– Desculpa, Elijah, era minha última. Fico te devendo essa.
– Me paga uma cerveja mais tarde que fica tudo bem.
– O que tem mais tarde? – tentei mudar de assunto.
– Nós vamos ao Birdland, quer vir? – Josh me convidou.
– Pode ser, mas vou chegar atrasada porque vou passar…
– Na biblioteca. – Os três disseram juntos e começaram a rir. De mim! Não debati, apenas virei para frente na hora em que a professora de história chegou.
Ah claro, o primeiro dia de aula. Pra onde vocês viajaram? O que vocês fizeram? Agradeceram muito a Deus por estarem vivos? E blá, blá, blá. Ed, Elijah, Josh e eu resolvemos dar uns de antissociais e começamos a jogar forca. Não demorou muito para que Ed voltasse a me perturbar sobre o canadense.
– Ai meu Deus, eu achei o Twitter dele. – sussurrou para mim. – “Saudades do meu Canadá.” Tadinho, deve estar precisando de alguém para consolar ele.
– Você não presta.
– Acho que estou apaixonado. – não evitei uma risada.
– Ed, sua vez. – Josh chamou a atenção dele que rapidamente pegou o caderno fazendo as anotações da brincadeira.
– Ok… É um país. – deu a pista.
Fiquei olhando distraidamente para minhas mãos me perguntando como eu beijaria Josh. Se ele ficaria com raiva de mim. Espero que não e espero que ele entenda que foi tudo uma brincadeira de mau gosto de Ed, sei que se eu não o fizer, ele nunca mais me deixará em paz.
– Brooklyn, tem alguma ideia do que é? – Josh me trouxe a realidade.
– Me deixa dar uma olhada. – puxei o caderno e com um segundo já sabia a resposta. Quando ele cismava com algo era difícil alguém tirar da cabeça dele. – Canadá.
Os meninos ficaram surpresos com a minha rapidez e contaram as setinhas.
– Isso, deu certinho. Está certo Ed?
– Nossa como ela é boa, não é? – Ed comentou cheio de cinismo e eu estreitei os olhos para ele.
– Bixa má. – sussurrei em seu ouvido e ouvi sua risadinha afetada.

– Não, você não vai fugir. – Ed me segurou pelo cotovelo assim que saí da sala.
– Edward! – o chamei pelo nome todo sabendo que ele odiava.
– Você não fez isso, fez? – me arrastou pelo corredor.
– Combina com você. – o provoquei.
– Você ficou sabendo do aluno novo? – Ele perguntou para Emma assim que ela nos encontrou. – Já adicionei no facebook, e o segui no twitter.
– Novo recorde? – não disfarcei um riso.
– Estamos na mesma classe. – ela jogou o cabelo para o lado e saiu rebolando na nossa frente.
– Que sortuda filha da mãe. – a seguimos.
– Sortuda? – ela parecia indignada. – Se lembra de que por sua causa me trocaram de turma no primeiro ano e desde então eu estudo sozinha? – ela o encarou.
– Uma coisa não tem nada a ver com a outra. – deu de ombros. – como ele é?
– Muito gato e nem um pouco gay.
– Você não pode ter certeza disso.
– Eu vou pegar um iogurte, vocês vêm?
– Não mesmo, senhorita. – Ed me segurou pele braço mais uma vez. Rolei os olhos. – Onde está o Josh?
– Bem ali. – Emma apontou para ele, escorado no seu armário com Elijah e algumas meninas da nossa turma.
– É agora. – Ed disse decidido. – No mínimo 10 segundos.
– Não, gente. Não!
Os dois não me escutaram e me arrastaram até eles que nos olharam confusos quando chegamos. Abri minha boca para falar algo, mas eu não consegui. Que merda. Ok, não tinha pra onde fugir, então…
Segurei o rosto de Josh com minhas mãos e colei meus lábios aos dele. Senti a surpresa dele com esse ato repentino e ouvi Elijah falar alguma coisa que não entendi direito. Quando ia me separar, Josh enfiou sua língua dentro da minha boca, como assim? Ele queria aprofundar o beijo? Afastei-me no mesmo instante o vendo de olhos fechados que se abriram logo depois, sua expressão era confusa e eu não sabia para onde olhar então apenas saí dali.
– Brooke…
Emma me gritou, mas eu a ignorei.

No caminho até a biblioteca me esbarrei com alguém, pousei minha mão sobre o ombro o sentindo doer.
– Wow, olha pra onde anda.
Mesmo sem olhar eu reconheci o sotaque dele.
– Desculpa, Canadá, eu não vi você. – o nome dele me fugiu a mente nesse momento.
– Tudo bem. – o olhar dele suavizou ao notar que era eu. – Você está bem? Se machucou?
– Estou bem.
Então lhe dei as costas, mas ele me chamou.
– Espera! Eu acho que estou meio perdido. – me virei para ele arqueando a sobrancelha. – Você poderia me dizer onde fica a sala de informática?
Sorri para ele e olhei o chão alguns segundos antes de responder
– Está bem atrás de você.
Ele olhou para a porta com uma expressão de surpresa e depois soltou uma risada.
– É mesmo, é a sala.
– Como eu disse. – acenei para ele e lhe dei as costas mais uma vez.
– Mas só que eu…
Parei mais uma vez e cruzei os braços para encará-lo. Mais uma vez.
– Você o quê?
– Eu queria saber se pode me ajudar com o computador.
– Você não sabe mexer em um computador? – perguntei incrédula.
Ele rolou os olhos, mas ainda sorria.
– Óbvio que eu sei, mas e se eu estragar algo?
Estreitei os olhos e passei por ele entrando na sala.
– É só apertar esse botão atrás do monitor e vai ficar tudo bem com o resto. – A tela do computador se acendeu.
– Você é demais, obrigado!
– Não tem de que, Canadá. – ele se sentou na cadeira e começou a navegar na internet. – Toma cuidado com o que você pesquisa, os computadores são monitorados.
– Eu só vou mandar um e-mail para minha família, meu celular descarregou. Mas pode deixar vou me lembrar disso.
– Quer ajuda pra entrar no site? – impliquei.
– Engraçadinha.
Lhe dei um sorriso e deixei a sala.

Não havia um livro naquela biblioteca que eu não tivesse lido, o que me deixava sem muitas opções, mas a minha terapia para tudo sempre foi ler. Então me contentei com a Megera domada e me sentei. Uma cadeira se arrastou ao meu lado e eu vi Josh me encarar pacientemente.
– Josh…
– Ed e Emma me contaram tudo. – se apressou em dizer.
– Me desculpa. – me virei para ele.
– Não, nada a ver pedir desculpas, eu conheço Ed desde pequeno, sei que quando ele coloca algo na cabeça, ele não tira até conseguir. Não foi culpa sua.
– É, Ed pode ser bem persuasivo quando quer.
Ele me deu um meio sorriso.
– Eu queria me desculpar por tentar…
Corei no mesmo instante, sabia sobre o que ele falar.
– Só que eu pensei que você queria… Quer dizer, beijo é beijo, não é?
Fiquei encarando minhas mãos por que eu não sabia o que dizer.
– Olha pra mim, fala comigo. – pediu.
– Josh, você é o meu melhor amigo e eu não quero confundir as coisas entre nós.
– Brooke, como eu disse, beijo é beijo e isso nunca vai definir o nível da nossa amizade.
– Então você sai por aí beijando as pessoas sem ter interesse nelas?
– Bem, às vezes eu só quero me divertir. – ele me dá um sorriso tímido. – Mas você é com certeza a mulher mais interessante e misteriosa que eu conheço e eu sou um filho da puta de um sortudo de poder ser seu melhor amigo. Você sabe que sempre vai poder contar comigo, e eu não me importo que você me beije às vezes, ainda sou homem.
– Josh. – corei ao empurrá-lo pelo ombro. – Obrigada por ser meu melhor amigo.
O puxei para um abraço.
– Me diz que você vai dar o troco no Ed.
– Com certeza!
– É assim que se fala.
– Aí estão vocês.
Ed, Emma e Elijah entraram na biblioteca.
– Onde mais Brooke estaria?
– Acho que vou ter que trocar meu esconderijo secreto.
– Muito secreto, onde todos os alunos precisam vir para estudar. – Emma debochou.
– Podemos ir para outro lugar? – Elijah pediu. – Eu passo grande parte do meu dia aqui, não quero estragar meu tempo livre aqui também.
– Vamos? – Josh me levantou.
– Vocês são muito chatos.
Declarei ao sair da biblioteca sendo seguida por eles.
– E feios. – completei.
– O quê? Ah, olha só pra você…
– Brooklyn? – quase esbarrou em mim novamente.
– Oi. – os olhos deles estavam grudados em mim como se só estivesse apenas eu ali.
Senti a mão de Ed me apertar no mesmo instante. Cocei a garganta.
– Canadá, estes são meus amigos. Emma, Ed, Elijah e Josh. Pessoal esse é o do Canadá.
– Canadá é com certeza o meu país favorito. Depois dos Estados Unidos, é claro. – Ed se apressou em cumprimentá-lo.
– É um prazer conhecer os amigos da Brooklyn. – deu um aceno para eles.
– Me chama de Brooke. – pedi.
– Brooke. – repetiu meu apelido. – Legal. Ei, não estamos na mesma turma? – se dirigiu a Emmalyn.
– Estamos sim. – abriu um sorriso absurdo para ele.
Emma e Ed estavam totalmente enfeitiçados pelo Canadá e nem disfarçavam. Então Josh passou o braço por meus ombros e Elijah ficou bem ao meu lado.
– Prazer, cara, mas nós estamos atrasados pra próxima aula. Seja bem-vindo.
– Jura? Eu não ouvi o sinal tocar. – ele franziu o cenho.
– É que nós sempre chegamos antes.
Eu fiquei confusa com toda aquela história, como assim?
– Aaaaah. – Ed pareceu se recordar de algo. – Mais tarde nós vamos ao Birdland, aparece por lá. – deu uma piscadela para que concordou. E antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, eles estavam me arrastando para a sala.
Quando Ed nos acompanhou recebeu uma expressão estranha de Elijah e Josh.
– Que foi?

– Cheguei!
Anunciei ao entrar e fui direto para a cozinha pegar qualquer coisa pra comer.
– Oi, querida, como foi o primeiro dia de aula? – Nana perguntou.
– Muito chato. – peguei uma maçã. – Eles só ficam fingindo que querem saber onde passamos as férias.
– Ué, não fizeram vocês se ajoelharem no canto da sala para pedir perdão pelos pecados?
A olhei seriamente, mas a piada realmente tinha sido boa.
– Não, mas com certeza estão planejando alguma viagem para ver o papa.
– Ah! – ela suspirou. – As piadas infinitas que podemos fazer com a sua escola.
– Não é? Eu nem preciso ir à igreja mais. – Ela concordou no mesmo instante ao terminar de lavar as vasilhas.
– Por que será que de todas as escolas John preferiu a Trinity? – fiquei curiosa em saber.
– Deve ser por que é uma das melhores escolas de Nova York. – ela me olhou. – E por que é a única escola que a bíblia é uma matéria.
Dessa vez não consegui segurar o riso.
– Pra ser sincera, cada vez eu acredito menos em Deus.
De repente o ar não era mais de diversão.
– Por causa do que aconteceu com o seus pais? – seu olhar era de pena e eu odiava isso. Por isso nunca falava disso a não ser com Mariah e John.
– Sim e não, sabe? Não estou só pensando em mim, mas obviamente existem mais pessoas sofrendo nesse mundo do que feliz.
Ela concordou em silêncio.
– Quer saber, se eu tivesse criado um mundo todas as pessoas iriam ser felizes ou… Todas as pessoas iriam ser tristes, sem meio termo.
Ela deu um meio sorriso para mim.
– Acho que isso se chama livre arbítrio. Deus fez o mundo e é o grande criador, mas ele te da a escolha de querer ser uma pessoa boa ou ruim. Infelizmente nem todos preferem ser bons. Vai chegar uma hora que você vai entender que algumas perguntas não têm respostas.
Concordei com ela.
– Bem, por que não vai tomar um banho enquanto o almoço não fica pronto? Estou fazendo almondegas.
– Tudo bem! – Ela saiu da cozinha
Estava pronta pra ir para o meu quarto quando John entrou.
– Chegou cedo.
– Pois é, acabei esquecendo o carimbo para as folhas de admissão em casa, vou aproveitar para almoçar. Que cheiro maravilhoso!
– Almondegas. – disse com água na boca.
– Hmmmm, Nana adivinhou. – Ele lambeu os lábios.
– O pessoal quer ir ao Birdland mais tarde, tudo bem para você? – o analisei.
– Em plena segunda-feira? – me olhou torto. – Não sabia que gostava de Jazz.
– Não tenho nada contra. – dei de ombros. – Então você está contratando na Brion Ross?
John se sentou ao meu lado e me encarou alguns segundos.
– Estou. – passou a língua nos lábios. – Por quê?
– Acho que poderia ser bom para as minhas atividades extracurrículares…
– Não, Brooklyn. Já tivemos essa conversa.
– Mas é só por meio período.
– Quero que se concentre nos seus estudos por enquanto, tudo bem? – concordei, mas eu não estava concordando por dentro.
– John, o que houve? – Nana entrou na cozinha nos interrompendo.
– Decepcionada em me ver?
Brincou e ela concordou indo direto ao forno.
– Vou por um prato pra vocês.
– Obrigada, Nana. Já disse que você é a melhor?
– Me agradeça me dando um aumento.
– Eu vou tomar um banho. – dei um beijo em Nana e fui para o meu quarto.

Assim que sai do táxi meus olhos se encontraram com os de Brian, ótimo, eu deveria saber que ele estaria aqui também. Fingi que não o vi e segui caminho até a entrada do Birdland. Eu nem precisei olhar para perceber que ele estava logo atrás de mim.
– Brooke! – me chamou.
Respirei fundo antes de me virar para ele.
– Você já voltou das férias, que legal.
Resumindo a história: Eu terminei com o Brian duas semanas antes das férias de verão, mas ele não aceitou muito bem. Pediu que eu pensasse melhor durante as férias e depois que eu voltasse a gente poderia conversar novamente. Eu nunca tive a intenção de voltar com ele, mas ele acabou com qualquer chance de um término amigável ao enfiar a língua dentro da boca da minha melhor amiga.
– Como foi na Austrália? – perguntou quando notou meu silêncio.
– Eu não fui para Austrália.
– Ah não? Mas você disse…
– Eu sei o que eu disse.
Sua expressão era confusa.
– Então para onde foi?
– Pro Quin, semana passada. Eu te vi lá, aliás.
Os olhos dele se arregalaram rapidamente, de confusão para surpresa.
– Então você sabe, sobre eu e a… –
– Pois é, eu sei! – deixei meus lábios em uma linha reta.
– Brooke. – apareceu e eu agradeci aos céus por isso.
– Canadá! Vamos entrar?
Puxei sua mão e entramos.
– Você acabou de me salvar. – o agradeci.
– Quem é?
– Meu ex, Brian.
– O cara que ficou com a sua melhor amiga?
– Esse mesmo.
Não tive tempo de procurar meus amigos, sentamos na primeira mesa vazia porque eu estava com tanta raiva que minhas pernas tremiam.
Brian sentou em uma mesa ao nosso lado e eu sei que era para me vigiar, ele sempre foi ciumento.
– Ele não para de olhar pra você.
realçou o óbvio.
– Ótimo. – rolei os olhos.
– Qual é o lance afinal?
– Eu já disse, ele ficou com a Emma. – arqueou as sobrancelhas.
– Emma é sua melhor amiga?
– É.
– E você está falando com ela, mas não está falando com ele?
O encarei.
– É complicado.
– Você tem certeza que não gosta dele? Se não gostasse não estaria espumando pela boca.
– Quê? Nada a ver. – rolei os olhos. – Acho que se eu gostasse dele eu estaria sentada lá com ele e não aqui com você.
– Não, você estaria agindo exatamente como está agindo nesse exato momento.
– Você quer mesmo falar sobre ele?
– Não é errado você está se sentindo assim, é normal! Ele ficou com a sua melhor amiga, tudo bem! Mas pelo visto ele está querendo uma segunda chance com você.
– Do que está falando?
– Do jeito que ele te olha só mostra que ainda gosta de você.
– Que seja, nunca vamos voltar de qualquer forma.
– Tem que parar com isso. – apontou o dedo no meu rosto.
– O quê?
– Você está se fazendo de forte pra não ir até ele e ouvir que ele tem para falar.
– Quem esta julgando agora, uh?
– A questão é que ele foi um idiota.
– Ele é mesmo um idiota.
– Bem observado.
– Você é um idiota. – bati de leve em seu ombro.
– Mas tenho ótimos conselhos, e uma intuição aguçada.
– E o que a sua intuição está te dizendo? – não escondi um sorriso.
– Que você teve um desapontamento no seu relacionamento, e agora está com os escudos armados pra não se deixar levar por qualquer cantada barata.
Fiquei quieta, novamente ele estava me mostrando algo que eu não queria ver.
– Você devia parar de me fazer parecer uma garota mimada.
– E você devia parar de me olhar como se eu fosse seu amiguinho colorido. Talvez eu queira mais do que te dar conselhos.
– Você não está a fim de mim. – rolei os olhos.
– E o que te faz pensar isso? – me encarou seriamente, mas seus lábios apontavam diversão.
– Qual é!
– Você é uma garota inteligente, bonita, engraçada, aparentemente cai fácil na minha lábia, eu não poderia querer mais.
– Caio fácil? Você não deve estar se lembrando do que aconteceu na noite em que nos conhecemos, está? – ambos rimos.
– Eu estava bêbado, nem me lembro do que eu disse. – ele riu mais. – Mas estou feliz de ter te conhecido. Não foi fácil sair do Canadá direto para Nova York.
– Eu imagino que sim. – pousei minha mão sobre a sua. – Mas você pode contar comigo sempre que precisar. Apesar de ter sido um idiota monossilábico hoje mais cedo. E eu não sou nenhum prodígio. – Ele ampliou seu sorriso.
– Acho que fiquei intimidado.
– Aí está você, estávamos te esperando.
Josh apareceu ao meu lado sorrindo, mas ficou sério ao ver ao meu lado, depois seus olhos se escureceram ao ver minha mão sobre a dele. Tirei no mesmo instante.
– Chegamos há uns dez minutos.
– Vieram juntos? – arqueou a sobrancelha.
– Não, me encontrou na entrada e me salvou do Brian.
Apontei discretamente para a mesa ao lado.
– Aquele babaca. – ele rangeu os dentes.
– Brooke, . – Ed apareceu de algum lugar. – Venham, vão liberar o karaokê.
Ed me puxou pela mão.
– Espera. – pedi assim que notei que ficou para trás. – Você não vem?
– Vai na frente, eu vou depois.
– Ta bom. – lhe dei um sorriso simples e fui até o palco com meus amigos.

Ed e Emma cantavam Sorry do Justin Bieber e tentavam dançar ao mesmo tempo, o que não faziam muito bem, resultando em algo bem engraçado. Eu tentei ao máximo me divertir, mas Brian estava há alguns passos de mim. Rolei os olhos…
– Você está com raiva de mim? – perguntou como se fosse ingênuo.
– Por que eu estaria com raiva de você? – arqueei a sobrancelha sendo irônica.
– Porque você me viu com outra garota…
– Te vi beijando a minha melhor amiga. Você quis dizer! – o corrigi sem tirar os olhos do palco.
– Isso! – sua voz era de insegurança.
– Não temos nada, Brian, você pode ficar com quem quiser.
– Mas o que nós tivemos, eu…
– Espero que tenha aproveitado, porque não vamos ter mais nada.
– Então você ficou com raiva?
Sério?
– Você beijou a minha melhor amiga não só na minha frente como na frente da Trinity inteira. Você não vê a gravidade dos seus atos?
– Não achei que estivesse lá.
– E você achou que Emma não me contaria? Ou algum dos meus amigos? Realmente achou que eu não saberia?
– Eu entendo a sua raiva, Brooklyn, mas eu agi por impulso, não sei. Achei que se você visse que estava me perdendo você voltaria atrás na sua decisão. E por que você não está com raiva da Emmalyn? Ela é tão culpada quanto eu sou.
– Você não vale tanto assim, a ponto de estragar uma amizade.
Os olhos deles estavam arregalados, um pouco surpreso com o que ouviu.
– Brooke, sei que você já sabia da minha reputação quando aceitou sair comigo.
– E com quantas meninas você fez o mesmo teatrinho?
– Eu nunca me senti bem com uma garota dessa forma. Só você.
– Fala sério. – cruzei os braços diante o peito.
– Você realmente é diferente de todas as garotas com quem eu saí, e se eu pudesse teria evitado essa cena que você viu…
– Não, foi bom ter acontecido, Brian Scott. Ficou mais fácil terminar com você de vez.
– Então você não tinha nenhuma intenção de voltar comigo?
– Não! – fui direta.
– Você está dizendo isso por causa do beijo, eu sei.
– Não estou não.
– Então isso quer dizer que está com ciúmes.
Esforcei-me pra não rolar os olhos.
– Eu vou me fingir de desentendida.
– É por que faz sentido o que eu falei, não é?
– Só não quero continuar um assunto que não vai nos levar a lugar algum.
– Você está saindo com outra pessoa? É isso? – segurou meu braço. O Brian ciumento apareceu seja lá onde quer que ele estivesse.
– E se for? – puxei meu braço no mesmo instante
– Responda. – sua voz tinha um tom autoritário, e meio que me assustou.
– Eu não te devo explicação de nada, se enxerga. – Saí pisando firme até a saída.
– Não, espera! – Me alcançou, mas não tocou em mim. – Me desculpe, eu não sei o que esta acontecendo. Só de pensar em você com outro…
– Realmente não me importa.
– É só que agora eu… Eu, eu tenho uma noção de como você pode ter se sentindo quando me viu com a Emma.
É sério isso?
– Você não pode ter uma noção do que eu senti, porque eu não tenho sentimento em relação a você. Nada! É vazio. Não tenho ressentimentos, nem mágoas, e às vezes nem lembro que você existe.
– Eu…
– Você é um problema seu! – me alterei, mas logo tratei de abaixar o tom por que tinha algumas pessoas a nossa volta.
– Eu só estava com medo de te perder, eu nunca fiquei sério com ninguém antes. E essa tática de provocar ciúmes… Meus amigos, sempre deu certo pra eles. E pra muitas pessoas!
– Então você é a maior prova de que nem todo mundo merece o amor que recebe.
– Brooke…
– Me esquece, Brian.
Retirei-me do Club.
Para o meu ego, foi bom saber que apesar de tudo, ele ainda tinha alguma esperança de ficar comigo, e para o bem do meu ego, foi melhor ainda tê-lo rejeitado, sabendo que depois dessa noite, qualquer chance de me envolver com Brian Scott novamente era nula.
Mandei uma mensagem para Emma dizendo que iria embora mais cedo enquanto esperava um taxi. Estava frio e amanhã ainda era terça-feira. Vi sair acompanhado por April Granger do terceiro ano e estavam se divertindo muito. Os braços entrelaçados e estavam muito próximos. Fiquei encarando aquela cena até ouvi uma buzina tocar. Era Josh.
– Quer comer alguma coisa?
– Você leu meus pensamentos.

Eu não sabia que estava com tanta fome até o meu lanche chegar. Comi minhas batatas fritas em segundos enquanto sentia o olhar de Josh sobre mim.
– Pode perguntar seja lá o que esteja enfurnado na sua cabeça. – o peguei de surpresa.
– Não é que… Você e o canadense se deram bem, né?
Fiquei surpresa em saber que esse era o assunto, achei que falaria de Brian ou do beijo.
– É, acho que sim. – dei de ombros.
– Rápido demais. – acho que comentou mais para ele do que pra mim.
– O que quer dizer com isso? – o encarei seriamente.
– Eu me lembro de quando você chegou na escola, parecia um gato encurralado e com medo do mundo. Não deixava ninguém se aproximar até que Emma não te deu muitas opções.
Sorri ao me lembrar desse dia, Emma disse que sempre que me via no canto, sozinha, ela tinha uma tremenda vontade de conversar comigo, de ser minha amiga. No começo achei que fosse por pena, mas ela realmente é uma garota especial e Brian jamais irá estragar isso.
– Eu não sou mais aquela garota com medo do mundo, Josh, eu cresci, amadureci e enfrentei os meus medos. – nem todos. Acrescentei mentalmente.
– É, com certeza você não é. – não sei por que, mas eu não gostei do tom de voz dele.
– Você tem algo pra me dizer? – cruzei meus braços, olhos fixos aos deles.
– Primeiro, o Brian, a última pessoa do mundo que eu pensei que você fosse se interessar, e agora um cara que você nem conhece…
– Espera, você acha que eu gosto dele?
– Eu sei que você gosta.
– Isso é ridículo! E como você mesmo observou, eu nem conheço o cara. É essa ideia que você tem de mim? – meu tom era de espanto.
– Não, Brooke! Não me entenda mal, mas eu só estou dizendo o que está bem óbvio.
– E o que é?
– Que você se interessou pelo cara.
Bufei bem alto.
– Até onde eu sei, ele está com a April. – disse a primeira coisa que veio em mente. – E ele não faz o meu tipo de qualquer forma. – me levantei e estava brava. – Já que insiste, você pode pagar a conta. – peguei minha bolsa e o meu lanche e saí da lanchonete.

Quando entrei no prédio não segurei um riso ao notar que John, Nana e o Paterson, nosso porteiro, estavam sentados no chão em um canto da recepção jogando uno. E pela expressão em seus rostos, eles se divertiam muito.
– Brooke, chegou cedo. – John olhou para seu relógio no pulso. – Ainda são oito e meia.
– Estou um pouco cansada.
– Quer que eu prepare alguma coisa para você comer? – Nana mencionou a se levantar
Neguei.
– Comi um lanche no caminho.
– Então quer jogar com a gente, querida?
– Quero sim. – Sorri ao meu sentar entre ela e Peterson.
– Nos conte como foi seu primeiro dia de aula. – Peterson pediu ao dar as cartas. Todos me olhavam em expectativas.
– Descobri que eu sou a melhor aluna da Trinity. – informei.
– Não! Isso é sério? Quem poderia imaginar? – John debochou de mim.
– Eu não sou a melhor aluna daquela escola, eu nem acredito em Deus e isso deveria ser levado em conta.
– O que eles com certeza levam em conta são as suas notas A+ seguidas no últimos anos.
– Na verdade, eu tirei B- em matemática avançada. – O corrigi.
– Não teve nenhuma novidade na escola? Por que suas notas até eu posso adivinhar. – Nana disse com um tom entediado.
– Vocês não me deixaram terminar. – Joguei um oito azul em cima do oito amarelo da Nana. – Então, como eu ia dizendo, descobri que eles acham que sou a melhor aluna da Trinity e por isso tive que mostrar a escola para um aluno novo.
– Hmm, fez novas amizades? – Agora Nana parecia interessada.
– Mais ou menos.
– Estranho. A Trinity geralmente não aceita alunos para o último ano, a formação acadêmica dele não estaria completa ao modo de ensinamento da escola. – John ficou confuso.
– Talvez ele estivesse há muito tempo na fila de espera.
– Pode ser. – ele deu de ombros.
– Ou ele quer ser Padre. – Peterson brincou.
– Pode ser também. – John disse sério, mais seus lábios puxavam para um sorriso, assim como Nana.
– E ele veio do Canadá, então não tinham muitas opções. – John jogou um +2 para Nana que olhou bravo para ele.
– E ele é bonito? – Nana chamou minha atenção.
– Quem?
– O aluno novo.
– Bom, é! Mas é uma beleza normal.
– E vocês se deram bem? – Agora foi a vez de John perguntar.
– Por que não nos daríamos bem? – Arquei a sobrancelha para ele.
– Porque você às vezes é bem fechada em relação as pessoas.
– Eu o levei para conhecer a escola e não para um encontro, posso me virar quanto a isso.
– Só amigos, então? – Peterson me encarou.
– Não estou entendendo esse interrogatório. – Joguei minha última carta sendo a primeira a sair, como sempre. – Eu vou subir. Estou cansada.
Me levantei e saí sem olhar pra trás, mas sabia que eles estavam fofocando, o que me fez revirar os olhos.

***

– É aqui que eu moro. – a menina com quem eu havia passado uma grande parte da minha noite sinalizou para o The Max, um prédio de apartamentos aparentemente caros. Ela se virou para mim com um sorriso misterioso. – Você quer subir? Os meus pais estão viajando, estou sozinha em casa.
– Eu adoraria, Alice…
– April! – me corrigiu e eu concordei.
– Isso, eu adoraria, April, mas está um pouco tarde.
– Tem certeza?
Sob seus cílios eu pude ver seus olhos queimarem de desejo. Sua respiração estava acelerada e suas pernas se cruzavam constantemente. Eu até gostaria de subir, mas a minha mãe ficaria muito preocupada, então era melhor não contrariar.
– Infelizmente eu tenho. – lhe dei um meio sorriso, um pouco sem graça em ter que recusar seu pedido.
Ela ficou alguns segundos em silêncio apenas me encarando e então tirou o cinto de segurança e montou em mim com certa facilidade. No instinto, empurrei o assento para trás para que ela pudesse se sentir mais a vontade sobre mim, enquanto ela trabalhava em retirar o meu cinto de segurança. Sua boca buscou a minha com urgência e minhas mãos pousaram em sua cintura a empurrando em direção ao meu quadril. Seus lábios eram tão macios e convidativos, nossas línguas se enroscavam em uma dança sincronizada e eu estava começando a ficar muito excitado. Se ela continuasse eu teria que repensar no seu pedido. Quando pensei em subir minha mão até seus cabelos ela se afastou, mas ainda conseguia sentir a sua respiração quente em meu rosto.
– Isso é pra você ter uma ideia do que vai perder.
Um sorriso de lado surgiu em seu rosto e ao se aproximar novamente ela me deu um selinho demorado. Depois pegou sua bolsa no banco de trás e abriu a porta.
– Até amanhã, !
Esperei ela sair do carro e entrar no prédio para poder soltar a minha respiração. Assim que ela sumiu de vista me joguei para trás pousando minha mão sobre a testa e fechando os olhos. Que garota!

***
 

Abri meus olhos rapidamente ao sentir um tremor em meu corpo, tinha alguma coisa errada. Olhei a minha volta, analisando a situação. Meu quarto estava escuro e silencioso, mas eu conseguia ver algumas coisas, como a porta do closet, minha escrivaninha, a porta da sacada e o teto. Parecia tudo em ordem, exceto pelo fato de que meu corpo não se mexia, apenas meus olhos. Comecei a entrar em pânico mentalmente, minhas pernas e braços não respondiam ao meu comando, ao invés disso, meu corpo todo tremia por dentro, com uma rapidez avassaladora. De repente parou e meu corpo ficou instável. Não me lembrava de ter dormido de barriga para cima, mas aqui estava eu, com os olhos esbugalhados de medo e confusão. Então eu senti algo em cima das minhas pernas, olhei rapidamente para baixo e não tinha ninguém, apenas a sensação estranha de que algo estava subindo em cima de mim. O pânico tomou conta mais uma vez e comecei a tentar me debater, até conseguir recuperar o controle de alguns movimentos e no fim eu consegui me mexer por completo. Sentei-me na cama ligando o abajur em cima do criado mudo e vasculhei todo o meu quarto com os olhos e não tinha ninguém, só a sensação de ter alguém comigo. Levantei-me com cuidado, sentindo meu coração bater aceleradamente e fui até o closet, respirei fundo antes de abri-lo e me certificar que também estava vazio, exceto pelas minhas roupas, sapatos e outras coisas. Talvez tivesse sido só um sonho ruim, eu sempre tenho sonhos ruins. Só que desta vez foi muito diferente. Desta vez foi real e intenso, geralmente eu sonho com coisas que me aconteceram no passado, lembranças dolorosas. Mas este sonho foi muito diferente de qualquer coisa que eu já tenha sonhado.
Um barulho na porta me fez pular de susto, me virei quase de imediato sentindo um estalo em meu pescoço.
– Brooklyn, ainda está acordada? – John colocou apenas a cabeça para dentro quarto.
Esperei minha respiração se acalmar para poder lhe responder. Meu coração parecia querer sair da boca.
– Acabei de… Acordar. – apoiei minhas mãos no joelho.
– Aconteceu alguma coisa? – seu semblante era de preocupação, me sentei na cama mais uma vez e o vi entrar o quarto.
– Acho que só tive outro pesadelo. – pisquei varias vezes olhando para as meias em meus pés.
– Com seus pais? – ele se sentou ao meu lado.
– Não, desta vez foi com outra coisa.
– E era sobre o quê?
– Não me lembro. – menti por que eu não saberia explicar.
– E por que você acha que foi um pesadelo?
– Porque eu não sei se eu sonhei ou se foi real.

Capítulo 3 – Demônios.

 

A chuva caía sem parar pelas ruas de Manhattan e eu não estava com vontade de sair da cama hoje. Ainda estava meio transtornada pelo sonho que tive há algumas semanas e que se repetiu por mais três vezes. Eu tinha medo de dormir em algumas noites, pegava alguns livros e os relia, estava ficando cansada demais, mas ainda assim me esforçava muito para não me prejudicar na escola e que ninguém percebesse. Por mais que eu quisesse pensar em qualquer outra coisa, eu não conseguia.
Espreguicei-me e bocejei lentamente, sabia que estava atrasada para o colégio, mas eu não me importava. Depois de relutar bastante, eu decidi me levantar e andar até a janela, abri um lado da cortina e fiquei olhando a chuva cair maravilhosamente do lado de fora.
– Está atrasada. – Nana entrou no quarto colocando uma bandeja sob a cama e meu estômago roncou. – Como você não pode faltar aula, eu decidi adiantar o seu café da manhã, passar seu uniforme e deixar em cima da cama pra você não perder um segundo sequer. – adentrou meu closet.
Sorri pra ela e me sentei à cama me deliciando com um pouco de suco de laranja que eu simplesmente amava. Ela voltou na mesma hora em que John colocou a cabeça para dentro do quarto.
– Ainda não levantou? – Ele entrou e se escorou na penteadeira pegando uma de minhas fotos com Lucy. Ele sempre olhava aquela foto.
– Vocês não estão vendo toda aquela água caindo do céu? – apontei para fora. – É um sinal claro de que devo ficar na cama e dormir por mais dez horas. Aliás, você deveria dar folga para a Nana.
– Só porque nos meus dias de folgas eu gosto de ir à praia ou fazer caminhada? – Nana disse com um tom de deboche que com certeza aprendeu em convivência com John. – Você é muito boa pra mim.
– Desde quando você acredita em sinais? – John largou o porta retrato e se sentou na cama. – Todos já estamos cientes do seu ceticismo.
– É… – dei uma pausa para mastigar e engolir meus waffles. – Mas eu adoraria saber quem coloca a água dentro do coco.
John rolou os olhos ao ouvir minha piada.
– Ou como vivemos em uma bola flutuante. – Nana disse baixinho enquanto guardava algumas de minhas roupas e eu balancei a cabeça exageradamente para John em sinal de concordância com o que ela havia falado.
– É um ótimo tema para o seu próximo trabalho anual, o que acha? – John se levantou da cama e lhe dei uma risada sarcástica ao me levantar também.
– Se a Trinity descobrir que eu tenho dúvidas sobre a existência de um ser supremo eles me expulsam e ainda alegam que foi por justa causa. – me arrastei até o banheiro. – Vou tomar um banho.
– Espera aí. – ele me olhou cauteloso. – Você tem dúvidas se Deus existe ou não?
O encarei processando aquela pergunta.
– Bem, eu… Eu não sei. Às vezes eu sei que ele não existe, mas às vezes eu paro e penso que pra mim seria mais fácil acreditar nisso porque teria uma justificativa de tudo que aconteceu comigo.
Ele concordou em silêncio ainda me encarando.
– Estou tentando entender se é um fato ou se eu só estou querendo me cegar diante essa situação.
John me deu um sorriso simples e andou até a mim me dando um abraço apertado.
– Talvez ainda haja esperança pra você.

– Não olha agora, mas o seu gatinho não para de olhar pra você.
Encarei Emma tentando processar aquela frase. “Não olha agora”, mas eu precisava olhar. Me encolhi na cadeira da lanchonete e olhei por cima do meu ombro. Era Josh, e ele realmente me olhava.
– Ele não é meu gatinho. – me apressei em dizer.
– Só por que você não quer.
– Ele é um dos meu melhores amigos.
– O que isso tem a ver? Vocês podem se pegar e continuar amigos, dá certo para muitas pessoas.
– Tipo você e Elijah? – ela abriu a boca para me responder, mas pensou melhor e ficou quieta.
Rolei os olhos e vi passar por mim. Não disfarcei ao sustentar o olhar dele.
– Uuuuh, que tensão! Por que não vão procurar um quarto?
Olhei Emma boquiaberta.
– Do que está falando?
– Dessa troca de olhares com o Canadense, admite vai, você está muito afim dele. Assim como todas as meninas da Trinity.
– Olha, em primeiro lugar eu não estou afim dele e depois, ele está saindo com a April Granger.
– É sério? – Emma olhou para a mesa do lado notando que os dois estavam sentados juntos. – Ela é muito bonita.
– Eu sei. – disse em um tom um pouco irritado.
– Mas você é mais, sem falar que ela é muito chata. Ele vai enjoar dela rapidinho.
– Bom saber que eu posso ser a segunda opção de alguém.
Emma rolou os olhos e depois jogou seus cabelos castanhos e brilhosos para trás dos ombros.
– Você não precisa fazer drama. É só ir até lá e perguntar se ele quer sair com você.
– Por que eu o chamaria para sair?
– Porque ele foi o primeiro garoto depois do Brian que você se aproximou.
– Eu pensei que ele fosse gay.
– Isso não é uma desculpa. Você está fazendo de novo, está reprimindo suas emoções porque você não quer se envolver.
– Ele é um colega, eu mal o conheço. Não tenho sentimentos por ele.
– Eu conheço você, Brooke, morre de medo de se entregar, de se apaixonar. Eu não entendo isso.
– Você sabe que eu tenho certos problemas de confiança.
– Você nunca vai poder confiar no cara se você não o conhecer melhor.
– Qual a parte de que o Canadá está saindo com a April você não entendeu?
Olhei para o meu iogurte sem a menor vontade de tomar.
– Quer saber, isso nem é um pretexto para não ir falar com ele. Você está com medo.
– Eu estou com medo? Eu estou com medo do que, exatamente?
– De gostar dele, está com medo de sentir algo por ele.
– Não, nada haver. – me mexi desconfortável. – Eu nem penso nele dessa forma. – dei de ombro
– Porque você é assim, certinha e medrosa.
– Eu não sou certinha. – contrapus, pendendo minhas costas no acostamento da cadeira.
– Não é certinha? – Perguntou indignada, e eu rolei os olhos. – Você não fuma, não bebe, nunca brigou com John, nunca tirou uma nota baixa, nunca fugiu de casa pra ir a alguma festa, você nunca vai a uma festa sem a gente te arrastar. – Ela se aproximou de mim cochichando. – Você é virgem.
A encarei.
– Você falando dessa forma…
– Não estou dizendo que você precisa mudar quem é, porque nós te amamos do mesmo jeito, mas se você continuar fechada para relacionamentos você vai acabar como a minha tia Dulce e seus trezes gatinhos.
– Você não tem uma tia chamada Dulce.
Ela deu de ombros.
– Você devia mesmo ir falar com ele.

– Eu te ajudo. – apareceu de repente e me ajudou a tirar um livro de uma das estantes da biblioteca.
– Está alto demais. – ele conseguiu pegar. – Obrigada.
– Você sabe agradecer então? – Acompanhou meus passos quando o deixei pra trás.
– O que quer dizer?
– Você às vezes é arrogante comigo, e outras não.
– Bem vindo ao mundo feminino.
Ele sorriu.
– Por que toda essa pressa?
– Preciso ir até a secretaria pegar a apostila para a aula de Álgebra.
– Quer companhia?
– Por que eu te chamaria para ir até a secretaria? Você acabou de me chamar de arrogante.
Passei a mão pelo cabelo tentando conter a minha diversão em ter aquela conversa.
– Já que perguntou… – ele tinha um sorriso nos lábios enquanto me induzia a caminhar com ele. – Eu diria que as razões para um convite seriam porque sou gente boa, bacana, simpático, que apesar da sua arrogância e antipatia, eu sempre lhe tratei bem. Independente de tudo.
– Direto! Assim como quando me chamou de arrogante, aliás, obrigada pela “antipatia”, vai entrar para a lista dos defeitos que você está encontrando em mim.
– Como você pode perceber, eu sou sim muito sincero, o mundo precisa de pessoas assim e não de mentes inférteis como a maioria. Mas… – ele suspirou ao inclinar sua cabeça e me olhou atentamente. Ele é tão lindo. – Isso talvez não seja seu defeito e sim uma das suas qualidades que lhe deixa um pouco mais interessante. – sua voz era serena e traiçoeira.
Ele me achava interessante? O quê? me acha interessante? Isso está vindo de um cara que está saindo com a garota mais desejada da Trinity? Ele notou meu silêncio repentino e minha confusão óbvia, e aí deixou um sorriso cafajeste escapar dos lábios. Ele é muito convencido.
– Desculpe se falei demais. A culpa é sua, pois se me tratasse como todas as garotas eu não estaria aqui, falando demais. E tentando me explicar.
Respirei fundo tentando assegurar de que minhas palavras daqui em diante seriam extremamente calculadas. Não sou as “outras garotas”.
– Não precisa se desculpar. Gosto das palavras, principalmente as que são usadas para me definir. – Comecei a andar o deixando pra trás. – Agora eu sou uma pessoa arrogante, antipática, porém interessante. Sua mudança de humor está me confundindo!
– Não, me entenda. – me alcançou. – Você foi arrogante algumas vezes, e antipática, porém você é carinhosa e divertida quando quer. Isso te torna uma pessoa diferente. Nem sempre má, mas nem sempre boa.
– Carinhosa… – pensei sobre tal palavra. – Eu poderia me acusar de muitas coisas, menos de carinhosa!
– Você se conhece melhor do que eu, isso é apenas uma das poucas expressões que eu identifiquei pelos poucos momentos que conversamos. Posso estar enganado ou não, não sei, vamos ver com o tempo.
– Dizem que às vezes as pessoas são exatamente aquilo que aparentam ser! Acho que esse é o meu caso. Não gosto de fingir sentimentos em relação a ninguém. Eu sou assim, mas pelo que vejo você meio que gosta desse tipo de personalidade. Na verdade, ainda estou tentando te entender.
Ele me encarou com uma expressão sombria, e continuo a sorrir.
– Não vai ser fácil me entender. – ele passou seus dedos longos por seus cabelos brilhosos. Eu queria que fosse eu a fazer isso. – Gosto de pessoas divertidas, e você me faz sorrir com os seus sacarmos. Este é o ponto.
– Me acha divertida? – arqueei a sobrancelha. – Talvez tenhamos um progresso.
– Digamos que isso me fez querer me aproximar de você, por isso nos damos bem. – Mordeu seu lábio enquanto me encarava. – Mas ainda te acho arrogante.
Começou a andar na minha frente.
– A sinceridade sempre é bem vinda. – sorri e depois o acompanhei. – Mas cuidado com as suas palavras, como sabe, eu sou arrogante. E no momento estou me segurando para não mandar você ir pra um lugar bem chato.
– Acho que já estamos nele. – e aquele sorriso que não saía dos seus lábios havia se engrandecido.
– Sei que é mais inteligente do que isso.
– Bem, eu adoraria continuar a discussão, mas acho que chegamos à secretaria.
Olhei para a porta esperando que alguém saísse dali de dentro e me puxasse, para ter que evitar uma despedida constrangedora.
– Por mais que seja difícil admitir, você é divertida. – tinha um tom brincalhão. – Considere um elogio vindo de mim, isso não é frequente.
– Acho que é porque você tem uma queda por mim. – brinquei. – Torna minha presença mais tolerante. – eu disse isso mesmo?
Seus olhos escureceram em tempo recorde.
– Não coloque palavras em minha boca. Não sou tão fácil quanto aparento.
– Você ficar afim de uma pessoa não significa que você é fácil.
– Eu costumo flertar, flertes são sempre bem vindos. – escorou a mão na parede e continuou a me olhar daquele jeito.
Mordi meu lábio me divertindo em jogar o mesmo jogo que ele.
– Então, eu opinei errado sobre o fato de você ter me achado um pouco interessante, mesmo sendo arrogante e antipática. Me achado engraçada, abre aspas – carinhosa – fecha aspas, porque essa personalidade eu desconheço. Resultando em eu ter confundido uma “queda por mim” como um simples flerte? – Rolei os olhos – É verdade, onde eu estava com a cabeça quando imaginei isso?
– Acho que tira conclusões precipitadas demais das pessoas, até porque você parecia relutante em me deixar me aproximar antes. Acabamos de nos conhecer…
– Isso é meio irrelevante agora, não acha? – dei de ombros. – Pelo menos eu vou ter a liberdade de conversar com você sabendo que seus interesses são inteiramente mútuos. Ou seja, amizade! – molhei os lábios. – Pode ficar tranquilo. Sei ser amiga de alguém.
– Isso foi desnecessário.
– Depende do ponto de vista.
– Geralmente flertes são indicações de interesse, você nem sequer entendeu o que eu quis dizer quando os mencionei, fora que depois já veio me pré-julgando, dizendo que meus interesses são mútuos… – fingi que não estava nem aí, mas não conseguir segurar o riso, e quando fiz menção pra entrar na secretaria senti seu braço me puxar de volta. – Creio que está querendo jogar. Um motivo para se sair bem na conversa, esperta. Porém, desnecessário.
– Você estava relutante em dizer que tem interesse, eu só dei um empurrãozinho.
– Isso quer dizer que se eu te convidar pra sair, você vai aceitar?
– Não! – disse de uma forma bem direta e óbvia para que ele não insistisse.
– E eu posso saber por que estou sendo rejeitado tão friamente?
– Porque além de você não fazer o meu tipo, você já está saindo com a April.
Ele me olhou de um jeito desconfiado, com total confiança de que fazia o meu tipo. Assim como fazia de todo mundo.
– Você sabia que muitas garotas dessa escola adorariam estar no seu lugar?
Minha nossa, como ele era convencido.
– Ótimo! Então você não precisa de mim.
Ele me encarou silenciosamente por alguns segundos.
– Eu não desisto fácil.
– Continue tentando.
Com uma piscadela eu lhe dei as costas.

Você se recusou a sair com ? – A foto de Ed surgiu na tela do chat.
Ignorei e continuei com minhas pesquisas.
Qual é o seu problema? Ele é tipo, o garoto mais desejado da escola no momento e está querendo sair com você e você o rejeita?
– Você leu a parte em que ele está saindo com a April? – Lhe respondi ligeiramente.
A April? Esquece. Ele deve estar só se divertindo.
– Bem, comigo que ele não vai se divertir.
Autocontrole, gata, sempre admirei isso em você. Mas “libera” logo pra você saber o que é diversão de verdade.
Enrubesci no mesmo instante cruzando meu olhar até os fundos da sala. Concluí a conversa do chat e entreguei meu dever para a professora, me retirando da sala.
Tropecei em Brian.
No mesmo instante esperei que ele fosse tirar um papel do bolso e começar a ler um pedido de desculpas, mas ele só me olhou silenciosamente e saiu andando corredor a fora. No caminho até o corredor dos armários vi que haviam publicado algo no mural de noticias e fui dar uma olhada. Ah! A semana das oficinas estava chegando. Teríamos fotografia, teatro e artes.
– Já sabe qual vai fazer? – Elijah apareceu ao meu lado olhando o nome dos inscritos em cada categoria.
– Vou me inscrever em fotografia, não sou boa com os outros dois. – tirei uma caneta do meu estojo e escrevi meu nome.
– Brooklyn Bennette não sendo boa em algo? Difícil de acreditar. – Suas palavras estavam cheio de sarcasmos e eu lhe dei um empurrão de leve.
– Saíram a inscrições para as oficinas? – Josh se pôs entre nós dois olhando as opções. – Por que não colocaram música de novo?
Dei de ombros.
– Pelo menos o Ed vai gostar de uma das opções.
– Finalmente vamos saber se ele tem talento para a Juilliard. – Josh disse e depois se inscreveu em arte.
– Artes? Você não sabe nem escrever o seu nome direito. – Elijah implicou com ele.
– Aí estão vocês, o que estão fazendo? – Ed se acercou de nós.
– Inscrições para a semana das oficinas. E olha o que vai ter esse ano. – apontei para a folha.
Ed deu uma olhada e eu pude jurar que seus olhos brilharam.
– Não acredito. Deus ouviu as minhas preces! Finalmente! Será que vai vir algum olheiro da Juilliard?
– Eu espero que não. – Elijah se escorou na parede.
– E por que você está me gorando?
– Não é isso, mas… Sabemos que você não sabe cantar, muito menos dançar. Qual talento você vai usar para impressionar os olheiros?
– O meu talento é natural, qualquer um que me olhe pode perceber isso. – passou a mão no topete.
– O único talento que todos percebem que você tem é o de irritar os outros. – Falei ao me afastar do grupo sabendo que eles vinham logo em seguida.
– O quê?
– E fazer fofoca!

***

– O que é isso? – apontei para as pessoas aglomeradas no mural da escola.
– Abriram as inscrições para a semana das oficinas. – April respondeu enquanto estava agarrada ao meu braço.
– E como funciona isso exatamente? – fiquei intrigado e andei até o mural.
– Você escolhe uma categoria e pratica ela em grupos, a escola diz que melhora o nosso percentual em atividades extracurriculares.
April deu uma olhada nas opções e então acabou se escrevendo em artes.
– Isso vale nota? – perguntei um pouco contrariado em querer participar disso.
– Tudo que você faz aqui vale para alguma coisa.
Pensei em me escrever em artes junto com April, mas o nome da Brooklyn em fotografia me chamou atenção. Me inscrevi no mesmo instante recebendo um olhar de reprovação de April.
– Fotografia? Não é só olhar para alguma coisa e tirar foto. Isso aqui é a Trinity, você ao menos sabe o que é uma foto panorâmica?
Perguntou como se eu fosse um ignorante. Mas eu não a respondi, apenas fiquei encarando o nome da Brooklyn na lista e deixei um sorriso escapar ao recordar a nossa conversa mais cedo.
– Gosto de desafios.

***

Após o término das aulas, decidimos ir até o Central-Park para jogar mais conversa fora. Sentamos no gramado e começamos a jogar banco imobiliário. Não sei como e nem quando, mas acabei pegando no sono no meio do jogo. Acordei sentindo cócegas no meu braço, na coxa e na minha bochecha. Eles estavam me pintando e eu estava cansada demais para protestar.
– Ela acordou e não nos xingou. Ok… Estou preocupado. – Ed parou de fazer um coração na minha coxa e me encarou.
– Você está bem? – Emma perguntou com o cenho franzido.
– Não, na verdade. – fui sincera.
– O que houve?
– Não estou dormindo muito bem esses dias. – me levantei e me escorei em um tronco qualquer.
– E por que não? – Elijah parou de jogar e também me encarou, assim como Josh.
– Estou tendo uns pesadelos estranhos ultimamente.
Pela primeira vez decidi conversar com alguém sobre isso. Pelo menos até Mariah voltar da Itália.
– Quer nos contar o sonho? – Emma pediu.
Encarei meus amigos ainda sonolenta e muito confusa. Bocejei antes de começar a falar.
– Eu acho que me vejo dormindo, não como se eu saísse do meu corpo, mas eu meio que acordo na consciência, sabe? Me vejo deitada na cama, olhando a minha volta, o meu quarto escuro…
– E o que tem de estranho nisso? – Josh perguntou.
– O estranho é que eu não tenho controle sobre os meus movimentos, eu não consigo me mexer, só os olhos. E então meu corpo começa a tremer, mas por dentro, entendem? E quanto mais eu tento recuperar meus movimentos eu vou ficando sufocada. – Todos me olhavam atentamente. – Na primeira vez eu senti algo subindo na minha cama, por cima das minhas pernas, com muito custo consegui me recuperar e levantar. E quando isso acontece, não consigo pegar no sono de novo, com medo de acontecer mais uma vez.
Fiquei olhando para a grama verde e cheirosa me sentindo estranha por saber que eles não iriam me entender e começar a me achar esquisita.
– Por quanto tempo você fica sem se mexer? – Elijah perguntou ao juntar as pernas e cruzar os braços em volta delas.
– Não sei! Às vezes uns dois minutos, às vezes cinco. Só sei que algumas vezes demora mais que outras.
– E acontece com que frequência? – tornou a perguntar.
– Quatro vezes em quase um mês.
– Estranho… – ele sussurrou para ele mesmo.
– Você sabe de alguma coisa sobre isso? – Perguntei me sentindo desperta de repente e a atenção de todos agora era de Elijah.
– Isso se chama paralisia do sono. – Ele tirou o celular do bolso e começou a pesquisar algo. – Ou deveria ser. Olha, é uma coisa muito comum de se acontecer, mas não com frequência. – me entregou o celular com a pesquisa aberta. – Geralmente quando estamos pegando no sono ou já em um sono profundo, nossa mente meio que desliga o nosso corpo, para que não aconteça algo enquanto estivermos dormindo, como nos debater e essas coisas. Costuma durar por volta de alguns minutos e como eu disse, não acontece com frequência, embora aconteça com 99,99% da população em geral.
– Credo. – Josh disse meio atordoado.
– Esses sintomas de sentir o corpo tremer ou sentir alguém subindo nas suas pernas é desconhecido por mim e por pessoas que desenvolveram essas pesquisas.
– Isso porque tudo tem que ter uma explicação cientifica. – Ed se intrometeu na conversa.
– O que quer dizer?
– Quero dizer que deveríamos fazer uma sessão espirita. – Ele se levantou juntando suas coisas.
– Você está dizendo que ela está sendo assombrada? – Josh, Elijah e Emma se levantaram e ficaram encarando Ed com descrença.
– Não sejam bobos, não existe isso de “fantasma”. Até existe, mas eles não podem fazer muita coisa.
– O que é então? – Me levantei e o encarei.
– Já ouviu falar em demônios? – arqueou a sobrancelha.
– O quê?
– E qual a diferença entre fantasmas e demônios? – Josh quis saber e eu também.
– Fala sério, vocês nunca assistiram filme de terror não? – depositou uma de suas mãos na cintura e outra coçou a testa. – Olha, “fantasma” são pessoas que já viveram no nosso mundo e morreram. Eles não têm intuito de fazer mal a alguém, no máximo querem visitar algum parente, matar saudade, essas coisas. Não que seja possível, é só uma teoria. – começou a andar de um lado para o outro. – Mas um demônio é algo que nunca foi humano. Que tem um poder sobrenatural e pode nos fazer mal através do medo.
Fiquei encarando Ed pensando na possibilidade de ser a minha mãe, ela poderia estar se comunicando comigo? Mas por que agora? Depois desses anos, logo agora…
– Fantasmas podem ser uma teoria e um demônio não? – Elijah perguntou a Ed.
– Vocês nunca leram a bíblia? – ele rolou os olhos. – Me admira que a Trinity ainda aceitem vocês lá.
– Pensei que estava se baseando em filmes.
– E no que você acha que os filmes são baseados? – disse com muita convicção.
Ouvi Emma bufar bem alto ao meu lado, mas não consegui tirar os olhos de Ed.
– Não dê ouvidos a ele, não vê que ele só está querendo te assustar?
– Acontece que eu já estou assustada, Emma. Eu não durmo há semanas. – passei minhas mãos pelo meu rosto me sentindo frustrada.
– Eu só quero ajudar, ou alguém tem uma ideia melhor?
– Invocar um demônio é a sua ideia melhor? – Josh perguntou incrédulo.
– Não vamos chegar tão longe, está legal? Podemos jogar aquele tabuleiro de Ouija e saber se tem algo no seu quarto e tentar saber o que ele quer de você. Ou você pode continuar tendo seus pesadelos e descobrir isso sozinha.
– E se não der certo? – perguntei em um sussurro.
– E se der? – Ele rebateu.
– Esse é o problema. – Josh pendurou a mochila nas costas. – Se der certo.
– Deixa de ser medroso. – Ed caçoou dele. – O que você me diz?
Olhei todos me sentindo dividida. Se eu não acreditava em Deus, obviamente não acreditava em demônios. Mas ao mesmo tempo se eu pudesse ter certeza de que o mal existe, então é sinal de que o bem também pode existir. E talvez eu tivesse mais uma chance de falar com a minha mãe.
– Na minha casa. Às onze e meia em ponto.
Josh soltou um gemido de frustação ao meu lado, mas eu sabia que por seu meu melhor amigo, ele não me deixaria na mão.
– E o John? – Emma perguntou.
– Com ele eu me viro.
– Você tem certeza disso? – Elijah segurou minha mão. E eu só pude negar silenciosamente.

Menti para os meus amigos dizendo que iria embora, mas toda aquela conversa só me deixou mais curiosa. Então resolvi ir até a biblioteca mais próxima e pesquisar um pouco sobre o assunto. Conheço Ed, e sei que ele não tem medo de coisas que ele entende. Então se eu vou mesmo fazer isso, preciso ter um mínimo de conhecimento e tentar não ficar com medo. Meio confusa, andei até o recepcionista com uma aparência de simpático sem saber o que falar.
– Boa tarde. – disse com a língua presa.
– Olá, boa tarde! – abriu um sorrisão ao me ver. – Posso ajudar você?
– Por um acaso você tem algum livro que fale sobre demônios ou entidades do mal?
Ele realmente não esperava por essa. Uma menina com um uniforme escolar, que deveria estar querendo ler sobre romances e essas coisas, querendo saber sobre coisas sobrenaturais? Isso não é normal, não é?
– Você pode se especificar? – quis saber, já sem um sorriso no rosto.
– Bem, eu… Eu queria entender melhor sobre… Essas coisas, se realmente existem e…
– Entendi – me olhava com cautela. – Você parece confusa. Por que não começa do começo?
– Como? – agora fiquei confusa.
Ele se levantou e deu uma volta na sua mesa e começou andar até uma parte da biblioteca que tinha uns computadores para pesquisas. Eu o segui bem quietinha.
– Você pode ler vários relatos sobre casos demoníacos, como assombrações ou até mesmo possessões. Se não quiser perder tempo, você pode assistir um filme. Mas antes de querer tentar acreditar na existência, por que não procura saber por quê eles existem?
Olhei para ele, depois para o computador e depois para ele de novo.
– Você acredita nisso? – fiz soar como se fosse uma pergunta inocente.
– Eu acredito em muitas coisas. – disse simplesmente e me deixou ali sozinha, com o computador.
Ok…
Agora que já estou aqui, não vou desistir. Sentei-me de frente pra tela e abri o Google. Sobre o que eu poderia começar a pesquisar? Decidi ser bem direta.

Por que os demônios existem?

Eu deveria saber que haveriam várias teorias sobre isso, mas todas tinham um mesmo ponto de conclusão. Um dos anjos de Deus queria ser mais poderoso que ele e se rebelou levando consigo outros anjos. Lúcifer era o anjo mais lindo e perfeito de Deus, talvez sua melhor criação. Mas não demorou muito para que ele quisesse ser melhor que Deus e logo conseguiu dividir os anjos, travando uma luta. O que mais me chamou atenção era que a classe de Lúcifer era de um querubim, a classe mais alta dos anjos, e ele foi derrotado por um Arcanjo, O Arcanjo Miguel. A classe mais baixa. Eu simplesmente não conseguia parar de ler, mas ao mesmo tempo não conseguia acreditar que tudo aquilo aconteceu há anos luz antes de mim, antes de todos que eu conheço. Quando estava lendo sobre o dilúvio, meu celular tocou. Era John.
– John? – não tirei meus olhos da tela.
– Onde você está? – seu tom era de preocupação. Droga, eu me esqueci de avisar.
– Em uma biblioteca… – olhei a minha volta percebendo que eu não sabia o nome e só aí eu notei que havia anoitecido. – Eu não vi a hora passar.
– Você e esses livros… – eu sabia que ele estava me censurando.
– Me desculpe, já estou indo pra casa.
Fechei minhas pesquisas e me levantei com minhas coisas.
– Nana fez bolo de carne.
Minha barriga roncou no mesmo instante.
– Isso não foi justo. – eu sabia que ele sorria.
– Tomara que não tenha acabado quando você chegar.
E desligou.
Ele estava me provocando! Encarei meu celular por uns instantes e depois fui até o recepcionista que sorriu novamente ao me ver.
– Encontrou o que queria?
– Não consegui ler tudo que eu gostaria, mas foi um começo. Obrigada! Quanto eu devo?
Ele deu uma gargalhada e eu não entendi.
– As pesquisas são de graça. – disse enfim e eu fiquei sem graça.
– Beleza, então… – arrumei minha bolsa nos ombros e lhe dei um aceno torto. – Obrigada.

***

Olhei minha mão entrelaçada à mão de April procurando sentir algum tipo de carinho diferente, mas eu sabia que tudo que eu sentia por ela era tesão. Mas por que eu não conseguia olhá-la de outra forma? Talvez por que eu não estava pronto para querer algo sério? Ou por que ela foi a primeira garota com quem fiquei quando cheguei aqui? Poderia ser isso. Não quero limitar as minhas opções, quero conhecer outras garotas e me divertir. Mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia parar de olhar para ela. Talvez a menina mais linda que eu tenha conhecido. April me deixa louco em todos os sentidos e mesmo assim, meu coração ainda não batia forte ao ouvir seu nome e eu não ficava ansioso pra vê-la. Quem sabe com o tempo? Quem sabe quando nos conhecermos melhor?
– Você não quer mesmo subir? – balançou nossas mãos e sua voz estava dócil.
– Você sabe que eu adoraria, mas amanhã temos aula. Se eu subir, dormir vai ser a última coisa que vamos fazer.
Ela me deu um sorriso tímido, sendo que de tímida não tinha nada, e me beijou. Segurou meu rosto com carinho e me abraçou. Eu gostava disso que tínhamos e eu gostaria saber até onde poderíamos chegar e saber se posso sentir algo mais intenso por ela.
– Até amanhã. – se despediu com um selinho e a vi passar pela porta giratória.
Ao me virar, eu esbarrei com alguém.
– Wow.
Era Brooklyn, e de alguma forma, meu sorriso foi espontâneo.
– Aonde vai com tanta pressa, Canadá? – perguntou ajeitando sua mochila. Ela ainda estava com o uniforme tradicional da Trinity e eu supus que não tinha ido para casa depois da escola.
– Vim deixar a April em casa, e você? O que está fazendo aqui? – dei um passo para a direita, a bloqueando na hora em que ela tentou passar.
– Bem, eu moro aqui. – segurou meu ombro e eu achei que ela fosse me abraçar, mas me girou para que eu saísse do caminho dela.
April e Brooklyn moram no mesmo prédio? Isso não vai dar certo.
– E então, já conseguiu visitar todos os pontos turísticos de Nova York? – perguntou de repente.
– Alguns, na verdade. – dei de ombros. – Mas eu estou mesmo é doido por uma comida caseira. Minha mãe não cozinha nada e na correria da mudança ainda não contratamos uma empregada.
Ela concordou em silêncio e depois encarou o prédio, depois voltou a olhar para mim com uma expressão estranha.
– É seu dia de sorte. – pôs as mãos na cintura. – Nana fez bolo de carne. Quer subir?
Eu amo bolo de carne, é sério. Mas aceitar aquele convite não tem nada a ver com a comida. Eu não sabia explicar, só não consegui dizer não. Ela me deu as costas e eu a segui.
– Oi, Sr. Peterson, como vai? – ela parou para falar com o porteiro e eu estranhei.
– Com dor nas costas, e você?
Ele a tratou com intimidade? Fiquei mais confuso ainda.
– Com fome, Nana fez bolo de carne, vamos subir?
Ela também estava o convidando? Convidando o porteiro do prédio?
– Não posso. – ele soltou um suspiro longo. – Hoje meu turno é à noite. – lamentou.
– Tudo bem, eu trago para você.
Ele sorriu de uma forma carinhosa para ela e só depois foi notar minha presença.
– Quem é esse? – perguntou como se eu não estivesse ali.
– Aquele garoto novo da minha escola de que eu falei outro dia. – ela cochichou, só que eu escutei. Então ela falou de mim? E para o porteiro? Interessante.
– Ahhh. – deu uma risadinha e depois dotou uma postura mais rígida. – É um prazer… – se dirigiu a mim, estendendo a mão. A apertei.
, .
– Meu nome é Henry, mas todos me chamam de Peterson.
Disse como se tivéssemos alguma intimidade. Dei um sorriso breve para ele.
– Bem, nós vamos subir. Até mais tarde.
Ela caminhou até o elevador e eu novamente a segui. Após ela digitar uma senha, o elevador começou a subir.
– Convidou o porteiro? Achei que o convite tinha sido exclusivo pra mim.
– O nome dele é Peterson. E pode ser uma surpresa pra você, mas eu trato todo mundo da mesma forma.
– Estou chocado e decepcionado. – coloquei minha mão no coração e ela me olhou com censura. – Então você falou de mim para o porteiro? – perguntei assim que as portas se fecharam e com sorte estávamos sozinhos.
Ela rolou os olhos.
– Não foi nada importante.
– Não estou dizendo que foi… – cruzei minhas mãos atrás das costas e me escorei na parede. – Mas se você tiver pensado melhor na proposta de sair comigo…
Ela me encarou.
– Será que só rola esse tipo de assunto entre nós? – perguntou.
– Esse tipo de assunto?
– Você tentando jogar seu charme pra cima de mim. – ela cruzou os braços diante o busto.
Então ela acha que eu tenho charme? Outra coisa interessante. Passei a língua nos lábios.
– Gosto de flertar com você. – lhe dei o meu melhor sorriso. Eu sabia que ser direto a afetava, porque ela encarava tudo, menos a mim. E pensava bem antes de continuar a falar. – Mas também curto uma boa conversa civilizada.
– E o que tem em mente?
– Podemos tentar a boa e velha abordagem. Por exemplo: Como você está? Como foi o seu dia? Sentiu saudades de mim?
Ela soltou um sorriso de uma forma convencida, parecia que estava caçoando de mim.
– Dispenso. – seu tom era cheio de desinteresse.
– Por quê?
– Esse tipo de assunto não desperta o meu interesse. Ninguém realmente quer saber se estamos bem, é só uma política social idiota, um pouco de educação e muito interesse na vida particular alheia.
– Você é muito reservada. – notei naquele instante.
– E você muito dramático. – ela rolou os olhos.
– Por que eu sou dramático se é você quem está dispensando o assunto?
– Chega dessa conversa antes que eu me arrependa de ter te convidado.
Decidi ficar calado, mas não consegui tirar um sorriso do rosto. Por quê? Notei que estava demorando chegar.
– Você mora na cobertura? – lembrei da senha.
– Sim, e é bom se comportar se não quiser aprender a voar.
Segurei um riso ao sairmos do elevador e mesmo estando no hall já podia sentir o cheiro maravilhoso do bolo de carne.
– Pode ficar a vontade, eu vou guardar as minhas coisas. – E sumiu.
O apartamento da Brooklyn era gigante e muito acolhedor. Tinha uns quadros de mulheres negras penduradas na parede branca do hall e uma mesa com um vaso de rosas vermelhas. E depois me deparei com a sala cor de nude, tinha uma televisão de plasma enorme e um sofá preto em forma de um “U”, uma mesinha de centro com mais rosas vermelhas e um tapete de pele branco.
– São as favoritas da Brooke. – fui pego olhando para as flores. Me recompus do susto e me virei para encarar o homem alto a minha frente. – E você é…?
, do Canadá. – Brooklyn voltou, seja lá de onde ela estava e ainda de uniforme.
O homem me olhou surpreso por alguns segundos e depois olhou para ela de volta.
– Isso é muito interessante.
– Nem começa. – Ela lhe apontou o dedo indicador e ele se calou.
Uma mulher, com roupas sociais pretas, apareceu na sala.
– Nana, o vai jantar com a gente, pode colocar mais um prato na mesa? – ela pediu com uma educação e carinho no seu timbre.
– É claro, querida. – a mulher sorriu e depois voltou para dentro.
– Eu sou John Henson. Todos os amigos de Brooke são bem vindos em minha casa. – O homem me cumprimentou.
– Obrigado. – foi o que eu consegui dizer.
Pensei que o sobrenome de Brooklyn fosse Bennette. Ou será que ela não usa o Henson? Estranho.
– Nunca o vi tão calado e na sua, deveria vir aqui mais vezes. – Ela me provocou.
– Isso é um convite? – Rebati ao me recompor.
Ela rolou os olhos como sempre fazia quando estava comigo e me deu as costas. Eu a segui.

***

– Esse bolo de carne está maravilhoso, Nana. – tive que dizer.
– Eu tenho que concordar. – disse ao meu lado. – Não me lembro de qual foi a última vez que comi uma comida tão boa.
– Realmente, eu cozinho muito bem. – Se gabou ao se sentar à mesa e separou um prato para si. Reparei que a encarou confuso, com certeza pelo fato de Nana estar comendo com a gente, o que ela fazia todos os dias.
– Então, , Canadá? É uma grande mudança. – John puxou um assunto.
– Meu padrasto abriu uma filial da empresa aqui em Nova York e decidiu tomar conta dos primeiros passos pessoalmente. – deu uma garfada na sua comida.
– E com o que seu padrasto trabalha? – ele parecia curioso.
– Ele é dono da Food of Year, uma empresa que exporta comida do Brasil para o resto do mundo.
– Olha que legal. – John me olhou. – Graças ao padrasto do temos nosso alimento.
– Pensei que fosse graças a Deus. – Falei baixinho e Nana riu.
– Seu estoque de piadinhas céticas não acaba nunca, não é?
Dei de ombros.
– É espontâneo.
– Mesmo? – sua voz era sarcástica. – Jurava que você tinha um caderninho cheio de anotações.
– Você é cética? – me perguntou e eu o olhei.
– Sou.
Disse de forma simples e direta. piscou uma vez ao continuar a me encarar e depois franziu o cenho.
– Mas e a Trinity?
– O que tem a Trinity?
– Você mesma me disse que é uma escola religiosa.
– Ela foi fundada por padres ou algo assim, e acho que até hoje a igreja é dona de certa parte. Mas o que leva aquela escola adiante é o dinheiro, não a nossa crença. Eles não podem nos obrigar a acreditar ou seguir uma religião específica.
Ouvimos duas batidas na porta e logo o senhor Peterson estava entrando. Abri um sorriso.
– Brooke me disse que Nana fez bolo de carne e eu não resisti. – se explicou.
– Sente-se, Henry, venha conhecer o convidado especial da Brooke. – John pediu e ele não pensou duas vezes.
– Eu pego um prato pra você. – pedi como uma desculpa para não perceber que fiquei sem graça com o comentário.
– Ahh, o amigo da Brooke! não é isso? – perguntou ao se sentar e concordou. – Já nos conhecemos no saguão.
– Ele estava dizendo que o pai tem uma empresa de exportação de alimentos. Peterson olhou para surpreso.
– Ah é?
– E ele é mais bonito do que você tinha nos falado, Brooke. – Nana comentou quando voltei à mesa. me olhou de um jeito curioso e convencido e eu praguejei Nana por isso.
Afundei-me na cadeira já sem fome e muito arrependida de ter trazido .
– Você está solteiro, ? – Peterson perguntou e aquilo foi a gota d’água.
– Gente, chega, né. – pedi, revezando o olhar entre o três.
– Na verdade, eu estou saindo com uma garota. Mas só porque Brooke rejeitou todas as minhas tentativas de levá-la para sair.
– Convidou Brooke para sair e ela não aceitou? – John tinha um tom de surpresa.
, você precisa ir agora, não é? – me levantei o puxando pelo braço. Ele estava no meio de uma garfada quando o puxei.
– Mas eu…
– Agora. – o arrastei atrás de mim, ouvindo os três rindo.
– Eu posso pelo menos mastigar a comida direito?
– Você pode fazer isso enquanto anda. – continuei o puxando.
– Seja bem-vindo para voltar quando quiser . – John gritou da sala de jantar.
– Acho que eles gostaram de mim. – comentou presunçoso quando abri a porta.
– Não, eles gostam de me deixar sem graça. É diferente!
– Seu pai disse que posso voltar quando eu quiser. – se escorou no batente da porta e abriu um sorriso de lado. Por que tão gato e convencido?
– Tchau, .
Bati a porta na cara dele.
– Eu gostei dele. – Nana apareceu atrás de mim.
– Isso porque você não o conheceu melhor. – a olhei.
– E você já o conheceu melhor?
Não a respondi porque ela já sabia a resposta. Existem poucas pessoas que me conhecem tão bem quanto Nana e ela sabe que eu tenho dificuldades de deixar as pessoas se aproximarem de mim, então acho que pra todos, ter convidado para jantar foi um progresso e tanto.

Acendi algumas velas e as espalhei por todo o canto, arrastei meu criado mudo até o centro do quarto para que pudéssemos sentar em volta dele. Fiz algumas pesquisas sobre como esses jogos funcionavam e confesso que quase voltei atrás, mas já era tarde demais. Recebi uma mensagem de Ed dizendo que todos estavam subindo e eu fui esperar eles no hall, sem fazer barulho para não acordar John.
– Que cheiro de queimado é esse? – Ed disse assim que eu abri a porta.
– Shiii. – pedi silêncio. – John está dormindo.
– E Nana? – Emma perguntou assim que entrou, seguida por Josh e Elijah.
– Está com o senhor Peterson.
– Você tem certeza de que quer fazer isso? – Josh verificou de novo.
– Tarde demais para voltar atrás. – Ed tirou o tabuleiro de Ouija da bolsa.
– Onde você conseguiu isso? Nem sabia que era fabricado ainda.
– Meu tio tem uma loja de brinquedos. – Ed me seguiu até meu quarto assim como os outros. – Vejo que já estava entrando no clima.
O quarto estava escuro, exceto pelas velas que eu acendi. Apontei para o meu criado mudo e Ed logo estava colocando o tabuleiro em cima.
– Sentem em volta da mesa. – deu as instruções e logos todos o fizeram.
– Isso não é uma mesa. – Elijah observou.
– Estou sendo criativo. – disse rápido. – Quero que desliguem o celular de vocês, se livrem de qualquer coisa que faça barulho.
Colocou seu dedo apontador sobre a prancheta que estava em cima da letra “G”.
– Coloquem o dedo índicador na prancheta, um de cada vez. – E foi o que fizemos e eu estava começando a ficar nervosa e mal tínhamos começado. – Pressionem a prancheta com firmeza, mas sem muita força, ou ela não se moverá facilmente se vocês colocarem muita força sobre ela. – E começou a mover a prancheta em círculos pelo tabuleiro. – Seguinte, para fazer isso dar certo temos que ser paciente. Às vezes o espirito é tímido e demora a se comunicar. Elijah tentou disfarçar uma risada, em vão. Recebeu um olhar bravo de Ed.
– Às vezes a prancheta pode se mexer rápido, outras devagar. O importante é obter respostas.
– Você já jogou isso? – Emma perguntou, mas Ed não a respondeu.
– Vamos rezar a oração Pai Nosso duas vezes.
Eu só sabia aquela oração porque minha avó me ensinou a rezar quando era menor, junto com a oração do anjinho da guarda, só que dessa eu não me lembrava mais. Fizemos a oração duas vezes seguida como Ed instruiu.
– O que você quer perguntar, Brooke?
Quero saber se é a minha mãe, quero saber agora. Mas eu li na internet que devemos começar com perguntas simples, pra não espantar o espírito. Respirei profundamente pensando na minha pergunta.
– Tem algum espírito presente? – sussurrei sentindo minha barriga dar voltas e não era de fome.
– Você precisa falar mais alto. – Ed me censurou.
Tudo bem, eu consigo fazer isso. Respire, respire!
– Tem algum espirito presente? – disse um tom mais alto e claro.
Todos ficaram olhando a prancheta, mas ela não se mexeu.
– Faça outra pergunta. – Emma me incentivou.
– Você é um espirito bom ou ruim? – perguntei novamente, mas o tabuleiro não se mexeu. – Qual é o seu nome?
Decidi ir mais direta, mas não teve resposta alguma. Olhei para os meus amigos que me encaram com pena. É claro, se não tem espíritos aqui, eu só posso estar ficando doida por achar que esses pesadelos são reais.
– Acho que isso já foi longe de mais. – Josh ameaçou se levantar.
– Não! – Ed o interrompeu. – Você não pode tirar o dedo senão não dará mais certo.
– Só que isso já não está dando certo. – Ele rebateu. – Brooke… – me olhou cauteloso.
– Tem uma coisa que eu quero tentar antes de desistir.
Na pesquisa que eu fiz, dizia que se eu quisesse falar com algum parente morto eu deveria deixar algum objeto de posse dele. Olhei para Josh que com custo se sentou de volta no seu lugar sem ter movido o dedo. Retirei a escova de cabelos de minha mão da gaveta do criado mudo.
– O que você quer fazer com isso? – Emma me perguntou.
Respirei fundo fechando os olhos tentando me concentrar em todas as lembranças boas que tive com ela, todos os carinhos e risos.
– Tem algum espirito presente? – Tornei a perguntar alto e claro ainda de olhos fechados.
De repente meu dedo na prancheta começou a se mexer junto com os outros e o espanto neles eram evidentes assim como em mim. Deu certo?
– Ed, isso não tem graça. – Josh disse encarando a prancheta que foi direto para a palavra Yes.
Encarei Ed esperando que ele dissesse algo.
– Não sou eu. – me encarou alguns segundos e parecia apreensivo.
– Brooke, continue…
– Qual o seu nome?
A prancheta voltou a se mexer indo para as letras. “L” “U” “C” “Y”
– Quem é Lucy? – Elijah perguntou.
Minha respiração falhou no mesmo instante! Mãe?
– Muito engraçado Ed. – Josh retirou o dedo e se levantou.
– Josh, não. – disse, mas já era tarde.
– Você não quer continuar com essa palhaçada não é?
– Gente. – Ed se levantou. – Eu fiz o sim, mas eu não escrevi Lucy.
Josh bufou.
– Eu deveria saber que você só tentaria nos fazer medo.
– Eu estou falando sério. Por que eu escreveria Lucy? Esse nome nem é bonito.
Todos se levantaram e eu permaneci sentada.
– Você sempre faz isso! Não sei porque ainda caímos nas suas pegadinhas.
– Será que vocês podem acreditar em mim?
Do nada, as velas se apagaram e Emma soltou um grito rápido e agudo. Levantei-me ainda estática com tudo aquilo.
– Gente, eu juro que não fui eu. – Ed sussurrou.
Elijah se deslocou ao meu lado indo até a sacada, puxando a cortina.
– Foi o vento.
Todos respiraram aliviados ao notar que eu tinha esquecido a porta da sacada aberta, mas o que não explicava o nome “Lucy”.
A luz do quarto se acendeu e todos deram um pulo de susto com a claridade, até ver John parado na porta com uma cara nada boa.
– O que está acontecendo aqui?

– Você perdeu o juízo, Brooke?
John estava tão bravo andando para os lados, como eu nunca tinha visto antes. Ele parecia se esforçar para não gritar comigo.
– Eu…
– Você não tem noção do perigo desses jogos? De brincar com esse tipo de coisa?
– Como eu poderia ter noção?
– Aaah é, você é a cética. Não acredita nessas coisas. – seu habitual tom de deboche. – Mais um motivo para querer saber por que você resolveu jogar esse jogo.
Limpei algumas lágrimas que surgiram nos meus olhos e me sentei na beirada da cama encarando meus pés.
– Há algumas semanas eu ando tendo os mesmos pesadelos. – John parou na minha frente esperando a continuação. – Eu estou acordada e me vendo dormir aqui no quarto. E eu não consigo me mexer ou falar, apenas observar a minha volta e ouvir. – o encarei, e seu rosto estava embaçado pelas lágrimas que surgiram do nada em meus olhos. – John, eu sinto alguém subir pela cama, nas minhas pernas, eu sinto meu corpo tremer e meu coração disparado.
John estava estático e quieto. Me olhava petrificado, como se tivesse esquecido de como se fala. Ele piscou algumas vezes saindo do transe e negou algumas vezes com a cabeça.
– É só um pesadelo.
– E por que eu sinto que não é? Por que quando eu consigo me mexer é como se tudo tivesse realmente acontecendo? Parece que eu sinto algo em cima de mim, que gosta de me deixar imóvel e muda. Isso não tem nada a ver com as minhas lembranças com Willy e meus pais, isso é outra coisa. Muito pior. – passei minhas mãos pelo meu rosto tentando tirar alguns fios que teimavam em cair nos meus olhos. Com o rosto molhado não ajudava muito. John soltou um suspiro profundo e se sentou ao meu lado. Parecia mais paciente.
– E por que o jogo? – perguntou com cautela.
– Eu contei para os meus amigos e eles acharam que eu poderia estar sendo assombrada.
– Só que isso não funciona assim, Brooke. – John enfiou o rosto nas mãos e parecia estar escondendo algo.
– Como… Como você sabe?
Depois de alguns segundos em silêncio, ele soltou outro suspiro e me encarou.
– Quando eu tinha vinte anos eu gostava de desenhar como passatempo e eu comecei a notar que coisas estavam sumindo do nada. – começou a encarar suas mãos. – Uma vez um pincel desapareceu da mesa enquanto eu estava desenhando. Deixei o pincel de lado e fui desenhar com outro. Quando me virei para pegar o pincel, cadê? Procurei pelo meu quarto inteiro até me conscientizar que o pincel simplesmente havia sumido. Intrigado, continuei o desenho sem o tal pincel. No dia seguinte o achei dentro da geladeira. Esta foi a primeira situação em que eu comecei a questionar se eu estava vendo coisas. E isso só piorou.
Ele parou de falar e eu tive certeza que ele estava ponderando se iria continuar ou não a história. Só que ele começou e teria que terminar.
– Nessa época, meus pais viajavam muito. E eu ficava no apartamento com o Nick, o cachorro mais inteligente que eu já tive. E um dia, ao voltar da faculdade, do elevador eu pude ouvir o Niki latindo. Quem tem cachorro por muito tempo, sabe distinguir o “tom” do latido do cachorro. E aquele era um tom agressivo. O Nick latia ferozmente. Mas não havia ninguém em casa porque meus pais e a minha irmâ estavam viajando. Eu entrei correndo pra ver. Ali, no meio da sala estava o Nick. O pelo arrepiado. As orelhas levantadas, olhando fixamente para a parede. Ele estava em frenesi. Latindo como se visse claramente alguma coisa. E o Nick recuava e avançava latindo. Era como se ele visse algo se aproximar. Eu olhei e vi que no canto da sala a cadeira de balanço que minha mãe tinha estava balançando.
Ele se levantou e parecia indignado.
– Maluco… Eu só podia estar maluco. Eu olhei para a cadeira e ela balançava sozinha. O Nick não subia nela. Nunca. E não havia ninguém em casa. A pergunta é: Quem balançou a cadeira? E eu comecei a achar que a resposta só podia ser que a “coisa” que balançou a cadeira estava sendo vista pelo Nick. E eu não via. Parece que a coisa correu para a varanda quando eu entrei. Como eu sei? – me perguntou quando notou que eu já iria fazer essa pergunta. – Porque o Nick acompanhou com a cabeça e foi latindo atrás. O Nick sempre vinha me receber na porta. Neste dia ele correu latindo e parecia ver alguma coisa. Ele enfiou a cabeça pela grade da varanda e continuou latindo. Um comportamento muito, muito estranho.
Ai ele parou de falar do nada e ficou encarando a minha foto com Lucy.
– Não tem mais? – perguntei. Eu precisava saber, aquilo não era suficiente para mim.
Ele continuou a encarar a foto por um longo período e quando eu achei que ele não fosse continuar…
– Eu tentei acalmar o Nick, mas ele estava muito agitado. Pensei que talvez ele pudesse ter entrado em algum tipo de delírio causado pela ausência da minha mãe, de ter ficado sozinho em casa. Seja como for, eu passei, daquele dia em diante, a ficar de olho no Nick e no comportamento dele. Não contei para ninguém o ocorrido, achei que se eu não contasse, poderia fingir que não aconteceu. Até que a coisa se repetiu dias depois. Mas de um modo bem diferente.
Finalmente tirou os olhos da foto e me encarou.
– Eu cheguei de um passeio com meus amigos e era tarde da noite. Ao chegar ao corredor ouvi a televisão bem alta. Achei estranho, porque eu mesmo tinha desligado a tevê antes de sair. Quando eu entrei, o que eu vi nunca mais esquecerei: Ali estava o Nick. Sentado no sofá. Vendo tevê como um ser humano. Parecia em transe. Eu entrei lentamente e quando vi a tevê mostrava um desfile de cachorros. Foi à cena mais bizarra que já presenciei. Como meu cachorro tinha ligado a tevê? Quando eu falei com o Nick ele pareceu “acordar”. Saiu da posição que estava e veio balançando o rabinho. O controle remoto estava sobre a estante. No alto, ao lado da tevê. Até hoje não compreendi direito aquela cena. Naquele dia e no outro, quando vi o Nick dando o primeiro “pití” para a parede, senti que tinha alguma coisa na casa. Eu comecei a me acostumar com aquela sensação. Até que aprendi que aquilo não era exatamente uma… Imaginação.
– Então aconteceu com você também? Isso significa que você acredita em mim? – tive que me levantar por que eu estava muito elétrica. Ele não se mexeu.
– Durante vários dias eu fiquei trancado no meu quarto, desenhando como de costume e sentia claramente que alguém se aproximava atrás de mim. Eu olhava para trás achando que era a Ivana, ela adorava me ver desenhar, mas não era. Não tinha ninguém. – Essas últimas palavras eram um mero sussurro. – A sensação era muito clara pra mim. Ela tinha um começo, um meio e um fim. Em geral a “coisa” ficava por trás de mim, como se projetasse o corpo para frente sobre meu ombro. Em muitas vezes eu olhava de canto e via o vulto. Mas se me virasse, não tinha nada. E as coisas continuavam a sumir.
Ele voltou a andar pelo quarto, mexendo nos meus livros, na penteadeira, na cadeira da escrivaninha, como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. Mas eu sabia que ele só estava evitando me olhar.
– Um dia eu chamei a Ivana no quarto e falei com ela da “coisa”. Contei que o quarto estava assombrado. Ela não acreditou é claro. Mas bastou ela não acreditar para que o rádio que estava ligado mudasse de estação, passando sozinho por várias estações até pegar uma música antiga que tocava. A música tocou e nós ficamos ali em silêncio, os olhos arregalados, fixos no botão. A música acabou e o botão rodou. Rodou uma, duas, três vezes e voltou para a estação que estava. Dali a um tempo eu comecei a me conscientizar de que havia uma “entidade” naquela casa além da minha família. Fosse como fosse, ela não parecia ser hostil. Minha irmâ e meus pais viajavam e eu ficava sozinho em casa. Tentava prolongar minhas saídas até o quanto desse. Mas de madrugada eu sentia um medo filho da puta. – Encarei John chocada com o palavrão, ele raramente usava esses palavreados, se é que usava. – Várias vezes ouvi risinhos no corredor e sussurros na sala. Isso sempre acontecia quando eu estava quase pegando no sono. Um dia eu ouvi uma porção de vozes. Parecia uma reunião na sala. Acordei e assim que abri os olhos as vozes pararam e só havia o silêncio. Eu ficava quieto, como que petrificado quando isso acontecia. Geralmente perdia o sono e ficava com o ouvido em pé ouvindo os barulhos da noite. O vento nas árvores lá fora. As ondas quebrando na praia. Eu ia pegando no sono quando as tábuas estalavam e aí eu arregalava os olhos novamente. Era a noite toda lutando com o medo, mas eu não viajava. Eu ficava lá, impelido por um misto de curiosidade e racionalidade. Cada neurônio meu arrumava uma bela justificativa para cada uma daquelas coisas. – Foi então que ele me olhou, depois de muito tempo falando. – Eu não queria aceitar.
Eu o entendia, não só sobre essa questão.
– Quando eu estava desenhando, sentia aquela coisa chegando. Um dia eu resolvi conversar com a tal entidade. Estava sozinho mesmo… Então, não tem problema dar uma de pirado quando se está sozinho, né? – acho que ele deu um breve sorriso. – A coisa veio chegando. Parou em cima do meu ombro direito, como sempre. Eu parei. Olhei para trás. Não havia nada e comecei a falar: “Caro senhor fantasma. Ou senhora. Eu não estou vendo você. Mas eu sei que você está aí. Eu sei que você gosta de me ver desenhar. Eu sinto a sua presença. Eu queria pedir que o senhor, ou a senhora, não ficasse atrás de mim, olhando o meu processo de desenho, porque isso está me incomodando e eu não estou conseguindo me concentrar.” Eu falava aquilo calmo, mas por dentro estava com muito medo e simultaneamente me sentindo um débil mental. Mas e se tivesse uma resposta? Continuei: “Então seria pedir demais se eu desenhasse primeiro e você admirasse o trabalho depois dele pronto? Eu prometo que termino o desenho e deixo o trabalho sobre a mesa por algum tempo, tá bom? Não precisa responder! Eu considerarei que você entendeu e que é um fantasma educado”.
Tive a vontade de rir ao imaginar John tendo uma conversa com uma “entidade”. Mas me segurei porque eu não queria que ele parasse de falar.
– A coisa foi educada e depois daquele dia, parou. Então nós –eu e o fantasma– convivemos bem por um tempo. Mas eu arrumei uma namorada espírita. A… – Ele iria falar o nome dela, mas pareceu se lembrar de algo e parou no meio da frase. Seus olhos pregados em mim, a boca meio aberta. Ele continuou: – Eu não sabia que ela era espírita. Achava que era maluca mesmo. Eu gostava da voz dela. Quando eu a levava lá em casa, eu saía do meu quarto para pegar alguma coisa e ela ficava lá, sempre que eu voltava ela estava falando baixinho. Eu pensava que ela estava cantando. Mas um dia as coisas ficaram muito estranhas. Estávamos nos beijando quando ela arrepiou. Deu um pulo. Os olhos arregalados. Eu fiquei muito confuso. E ela começou a falar, desandou a falar igual uma maluca, e eu não entendia nada. Ela falava sem parar e quando dei por mim, ela estava discutindo com… Ela mesma! Pior, era uma cena de ciúmes daquelas cabulosas! Eu comecei a suar frio. Eu a segurei porque ela estava tremendo, pálida e gritando. Achei que ela ia ter um ataque. Ela correu e bateu a porta do armário. Ficou segurando a porta e eu ali, bolado, sentado na beira da cama olhando espantado. A porta do armário começou a socar, como se algo estivesse ali dentro. Ela segurando a porta, como se impedisse de sair algo ali de dentro e eu muito confuso. A porta foi batida varias vezes, como se alguém estivesse batendo nela e eu estava convicto que era a “entidade”. Ela começou a rezar. E segurar a porta. As batidas diluíram progressivamente até que pararam. Ela voltou exausta. Suada. Sentou na cama e disse que eu tinha que ir urgente com ela num centro espírita. Não quis explicar muita coisa. Limitou-se a dizer que havia uma entidade mesmo ali e que ela estava obcecada por mim. Que era alguém que me conhecia de outro plano. E que era altamente ciumenta. Foi ai que eu entendi que a coisa estava ficando pior. Decidi ir com ela e dias depois, lá estava eu, num centro espírita pela primeira vez na vida. – Me indicou a cama e eu sentei relutante, porém eu não sabia o que via e nem quanto mais tempo aquela história duraria. Então resolvi o fazer.
– Era um lugar no centro de Miami, não lembro nada de como cheguei lá. Só lembro que tinha um cheiro de rosa e ficava tocando sem parar aquela musica bonita pra caramba de um filme chamado “Em algum lugar do passado”. As pessoas ficavam em uns banquinhos e lá na frente a luz era mais fraca. Havia pessoas que usavam jalecos brancos e essas pessoas levavam cada um dos muitos ali dos banquinhos lá pra dentro. Até que me chamaram e eu fui. A pessoa me colocou de frente para um cara que estava de cabeça baixa, era um sujeito de uns 40 anos, com a barba por fazer. Achei que ele tinha cara de bêbado, mas não parecia estar bêbado não. Parecia estar dormindo. Ele não me olhou nos olhos, eu tentei olhar, mas os olhos dele estavam estranhos. Pensei se ele era cego ou algo assim. Ele pegou minhas mãos de uma maneira grosseira e com um tipo estranho de giz fez um “X” em cada uma. Aí começou a falar um monte de coisa que eu confesso, não entendi merda nenhuma. – outro palavrão – Só entendi que “eu tinha que estudar muito para entender.” E que “não era para deixar isso de lado. Que eu TINHA que estudar.” Aí ele falou qualquer coisa sobre “papai do céu”. E me virou do tradicional jeito grosseiro, começou a me dar um passe e eu não senti absolutamente nada. Então veio um cara mais velho com um jaleco e me levou de volta ao meu lugar no banquinho. Depois disso as coisas diminuíram bem. A entidade parece que resolveu dar um tempo depois do confronto com a minha namorada XMen. – ele fez uma piada? – Mas eu terminei o namoro logo depois com medo de tudo voltar a acontecer. E é isso.
– Isso? Então você nunca mais viu ou sentiu a entidade? – fiquei muito curiosa.
– Uma vez você me perguntou porque eu acreditava em Deus e eu não te respondi, mas não era porque eu não tinha uma resposta, era porque eu precisava que você acreditasse por você mesma e não por mim ou por seus amigos.
– O que você quer dizer com isso?
– Não é que eu não acreditava em Deus, mas com vinte anos todo mundo quer curtir, ir para uma festa, ficar doido e voltar pra casa de madrugada. Ninguém quer ir à igreja, ficar duas horas em pé e ver alguém lendo algo que você pode ler depois, mas sempre deixa pra mais tarde. Depois que tudo isso aconteceu eu resolvi que devia seguir uma religião e rezar. – ele voltou a me olhar e seus olhos tinham uma serenidade que eu não sabia de onde vinha. – Eu não me considero alguém muito religioso e de muita fé, mas quando eu rezo eu sinto uma paz interior que eu jamais poderei explicar. Às vezes até sinto que algo está me vigiando, cuidando de mim.
– A entidade?
– Não. – ele negou com um sorriso. – É uma coisa boa, boa de uma forma diferente.
– Como você pode saber disso?
– Porque eu não me sinto incomodado como me sentia com a entidade. Eu sinto paz, e uma calmaria enorme.
De repente ele agarrou as minhas mãos e se virou para mim.
– Me prometa que você nunca mais vai brincar com esses jogos? Você pode não acreditar, mas não corra o risco. Por favor, me prometa.
Como eu poderia prometer? Eu queria muito continuar, eu queria saber se era Lucy querendo falar comigo. Eu não podia…
– John…
– Me prometa, Brooklyn.
– Acho que mamãe está tentando falar comigo.
Outra vez ele voltou a ficar estático, olhos cravados em mim. Sem reação alguma.
– Como…
– No jogo, eu perguntei qual era o nome do fantasma presente e ele escreveu “Lucy”.
Ele piscou deliberadamente muito confuso com a situação.
– E se for um dos seus amigos?
– Impossível! – mordi meu lábio brevemente antes de continuar. – Eu nunca falei da Lucy para nenhum deles.

Essa história é real e aconteceu com Philipe Kling David.

 

Capítulo 4 – Deus não existe!

Apesar de todos os meus esforços para continuar aquela conversa com John, ele fez de tudo para ficar afastado de mim. Saia mais cedo para o trabalho e ficava até mais tarde na agência. Às vezes, eu o flagrava parado na porta do meu quarto, me vigiando dormir. Mas eu resolvi dar um espaço para ele. Se havia alguma coisa a ser dita, ele diria no seu tempo. Por mais que eu estivesse curiosa. Quanto aos meus amigos, resolvemos não voltar a jogar por hora. Emma teve um comportamento estranho de início, mas parece que agora tudo voltou a normal. Inclusive minhas noites de sono.

Era uma noite, e eu dormia.
E nos meus sonhos revi.

As ilusões que sonhei!

E no meu lado senti…

Meu Deus! Por que não morri?

Por que do sono acordei?

Não parava de reler a anotação que fiz do texto de Álvares de Azevedo, um escritor brasileiro, no canto de uma folha do meu caderno de literatura quando a senhora Hill retornou a falar.
– O romance “Os sofrimentos do jovem Werther”, do escritor alemão Goethe, é um dos marcos fundadores do Romantismo Europeu e exerceu grande influência sobre os maiores escritores que conhecemos. O que se passa na história?
A professora revezava os olhares para os alunos esperando uma resposta, mas ninguém se prontificou a dizer. O que era interessante já que a professora pediu para que lêssemos o livro antes de sairmos de férias alegando que ele seria estudado quando voltassem às aulas.
– Senhorita Bennette?
É claro que iria sobrar para mim. Endireitei-me na cadeira para poder responder.
– A obra fala sobre as cartas que Werther, um jovem escritor e pintor, escreveu para um amigo. Por meio delas, ficaram sabendo da sua chegada a um vilarejo alemão, do despertar de sua paixão não correspondida por Carlota que se casa com Alberto, e como Werther torna-se amigo do casal. O que acentua ainda mais sua frustração amorosa resultando em um suicídio.
Eu podia sentir o olhar de todos os alunos em mim.
Esquisita!
Deviam estar pensando isso. Que tipo de pessoa passa as férias fazendo trabalho escolar? Eu sei a resposta: O meu tipo.
– Correto! Como sempre senhorita Bennette. – Me deu um olhar breve e depois continuou. – A obra literária…
– Como você consegue ser você? – Ed me cutucou.
– Ela pediu para ler o livro antes das férias, não se lembra?
– Eu não lembro nem o que eu comi no café da manhã.
Não evitei um sorriso lacônico e me virei para a professora novamente.
– Existem duas cartas deixadas por Werther, uma antes de se apaixonar por Carlota, logo antes de sua chegada ao vilarejo. E outra é escrita quando ele já está perdidamente apaixonado. Façam um resumo completo sobre elas, que deverá conter uma opinião clara de como Werther se sente na primeira carta e depois na segunda carta. Quero o resumo para a próxima aula.
Todos bufaram baixinho em forma de reprovação. Se não leram o livro durante as férias, teriam que ler agora. Ninguém aqui gostava de ler livros tanto quanto eu. E nem era uma tarefa tão difícil assim. E não adianta pegar resumo de internet, eles sempre sabem.
– Brooklyn, podemos conversar? – A senhora Hill me chamou antes de sair da sala. Olhei para os meninos.
– Vejo vocês depois. – Acenei para eles.
– Boa sorte. – Ed me desejou e saiu.
– Está tudo bem, senhora Hill? – Perguntei.
– Tudo ótimo na verdade. – Ela se levantou de sua cadeira para sentar-se à mesa e ficou um pouco mais alta do que eu. – Eu gostaria de saber se você pensou no que te falei sobre Harvard.
Ah! Era isso.
– Senhora Hill…
– Brooklyn, eu já sei o que vai falar. Mas antes que me dê uma resposta contundente, tem algo que você precisa saber. Enviei seus últimos trabalhos anuais e suas notas passadas em uma carta de recomendação para Harvard. Eles amaram, é sério. Assim como eu amei! Disseram que você é tipo de pessoa que eles procuram para a faculdade, e que seria uma honra te ter com eles.
Fiquei muito surpresa com o que ela havia acabado de falar.
– Só tem mais uma coisa… – Me avaliou antes de continuar. – Eles querem mais um trabalho para ter certeza.
– Como assim mais um trabalho?
– Só para garantirem sua vaga. Normalmente, você teria que terminar o ano letivo aqui, mas se você fizer o trabalho com o tema certo, você pode conseguir o curso especial e começar a faculdade antes disso. – Ela se levantou e se aproximou de mim. – Você é tão capaz. A melhor aluna que já tive! Sua paixão por literatura me faz lembrar o porquê eu escolhi essa matéria para lecionar.
– Eu nem sei o que dizer…
– Me prometa que vai fazer o trabalho. Faça o melhor trabalho da sua vida! Você não precisa escolher agora, mas se tudo ocorrer como eu penso, Harvard vai te procurar mais cedo que imagino.
Eu sei que seria uma honra entrar pra uma das melhores faculdades do mundo, é o sonho de muitos alunos daqui, e eu não achava justo porque novamente eu estava me vendo em uma situação em que eu ganho algo que eu não desejei. Sei que deveria estar feliz, mas eu não conseguia. Eu amo literatura, mas eu não quero Harvard.
– Eu prometo que vou pensar.
Ela me deu um sorriso breve e voltou a se sentar na sua cadeira. Retirei-me da sala e fui até meu armário.
– O que a senhora Hill queria? – Josh perguntou ao acercar-se junto com os meninos.
– Idolatrar a aluna preferida dela, óbvio. – Ed se intrometeu na conversa. Rolei os olhos ao guardar meu livro e fechar o armário.
– Não é tão difícil ler um livro, sabiam?
– Quem disse que eu não leio? – Ed cruzou os braços me encarando.
– Revistas e sites de fofoca não conta.
– Ah, então… – Descruzou o braço. – Deixa pra lá
– Ela disse que Harvard me quer. – Dei uma olhada rápida neles e comecei a andar pelo corredor.
– Como assim Harvard te quer? – Josh indagou.
– Não acredito que ficou surpreso. – Elijah comentou atrás de mim.
– Estou surpreso por estarmos no começo, pelo fato das aulas terem acabado de começar. Ainda nem fizemos as provas.
Virei-me para eles.
– Ela enviou meus trabalhos anuais e minhas notas dos anos passados para eles, e parece que eles amaram.
– Claro que amaram. – Ed passou seu braço pelo meu ombro. – Você é a melhor em tudo que faz.
– Não acho isso. – O afastei. – Eu só me esforço para alcançar meus objetivos.
– Determinação. Você é meu exemplo de vida.
Não dava para dialogar sério com Ed.
– Você não cansa nunca? – Elijah perguntou para Ed que o olhou torto.
– De que?
– De ser você. – Todos riram.
– Vocês não podem me odiar por ser o mais bonito, o mais engaçado…
– Te odiamos por outro motivo, não se preocupe. – Josh deu um abraço em Ed amenizando a piada.
– Oi, Brooke! Posso falar com você? – Emma se aproximou de nós e parecia preocupada com algo.
– É claro que sim!
O sinal bateu indicando o fim do intervalo.
– Hm… Eu te ligo depois. – E se afastou me deixando muito confusa.
Josh segurou a minha mão.
– Vem!

Todos se quietaram quando a supervisora chegou com o técnico em fotografia que nos daria aulas por duas semanas. O nome dele é Jeremy Lee, quarenta e três anos, casado há vinte anos, duas filhas gêmeas de cinco anos e trabalha no ramo fotográfico há doze anos. Fizemos uma dinâmica rápida de apresentação formal e ele nos pediu para ficarmos em dupla. Todos os alunos se deslocaram até seus parceiros e eu vi Brian vindo em minha direção, mas , que eu não falava desde o jantar na minha casa, estacionou na minha frente, com aquele sorriso arrogante e convencido.
– Acho que somos uma dupla.
Olhei a minha volta notando que todos estavam com seus pares e que eu não tinha outra opção.
– Parece que sim. – Dei-lhe uma olhada rápida e me sentei novamente.
– Opa, que desanimação é essa? Pensei que fossemos amigos agora. – Se sentou ao meu lado.
– Ainda estou decidindo se você merece a minha amizade.
Virei para o técnico em um sinal claro de que não queria mais conversar e sim prestar atenção na aula. Ele começou a passar alguns slides com diversas fotografias de todos os tipos e ângulos.
– A prática da fotografia envolve muito mais do que simplesmente apertar o botão de disparo de uma máquina fotográfica e a fotografia acontecer. Essa mágica requer a sensibilidade, técnica, criatividade, capacidade de observação, integração e subjetividade. Através da fotografia podemos desenvolver uma linguagem pessoal para dialogar com o mundo à nossa volta. Para a primeira aula de vocês, eu pensei em algo mais voltado para a diversão. Vocês terão a oportunidade de fotografar tudo que veem e se divertirem ao mesmo tempo. A fotografia será um recurso facilitador para experimentarem uma nova percepção de si e do mundo à sua volta, aliando essas novas experiências a práticas cotidianas que envolvem a tecnologia digital. Desta forma, os objetivos dessa oficina se traduzem em acrescentar uma nova forma de expressão artística no processo global do aprendizado; desenvolvimento de qualidades como a observação, a sensibilidade, a percepção, o poder de decisão, a criatividade, a objetividade, o espírito de equipe, a integração com o meio ambiente, conhecimento da tecnologia e etc.
Ele deu uma pausa para tomar um pouco de água.
– Como eu disse, hoje teremos mais ação do que aula preparatória. E por isso quero que combinem com parceiro de vocês um horário cabível para ambos e se encontrem para fotografar tudo que vocês acharem que signifique mais do que uma visão normal poderia demonstrar. Como crianças, animais, até mesmo uma flor. Tudo pode ser visto de várias maneiras e a fotografia é só mais um meio para facilitar isso.
Ele olhou para uma das alunas que levantou a mão.
– Sim?
– Ainda não recebemos as câmeras.
– Na verdade receberam sim, mas como esse vai ser um trabalho externo, fora da escola. Vocês poderão trabalhar com os celulares de vocês. Quero que aprendam a essência de uma foto, reconheçam a particularidade de cada momento que pode ser retratado por uma lente. Quero que se esforcem o máximo que puderem e a dupla que fizer o melhor trabalho ganhará uma Câmera Nikon D3200 cada. Fotos com até 24,2MP e vídeos em Full HD, lente intercambiável, ajustes manuais e bateria recarregável.
Ele tirou a câmera de dentro do armário mostrando para todos os alunos e o sinal tocou.
– Não se esqueçam de revelar a melhor foto de vocês e trazerem para mim amanhã. Estão dispensados.
Juntei minhas coisas rapidamente ansiando muito comprar uns muffins de chocolate e quando iria sair da sala ouvi uma risadinha convencida.
– Que horas eu posso te pegar? – se apoiou no batente da porta me atrapalhando passar.
– Como é que é? – Perguntei só para saber se tinha entendido direito.
– Para o trabalho, você não ouviu o técnico?
– E por que você teria que me “pegar” se podemos nos encontrar?
– Por que eu tenho um carro. – Disse como se aquilo me impressionasse.
– E eu posso pagar um taxi. Empatamos.
– Não exatamente…
Rolei os olhos e empurrei a mão dele o fazendo se desiquilibrar, me dando espaço para passar. Ele me seguiu.
– Então voltamos para a parte em que você me trata com apatia?
– Estou te tratando da mesma forma que eu trato todos, já te disse isso.
– Eu gostaria de pensar que seu mau humor não se restringe somente a mim, mas eu já notei que é um problema exclusivo comigo. E eu adoraria saber o porquê.
Virei-me para ele abraçando minha apostila.
– A essa altura do campeonato você ainda não percebeu que eu não sou exatamente uma pessoa fácil de lidar?
– Estou me habituando a isso. – Ele cruzou os braços diante o peito e tinha alguma coisa diferente no olhar dele. Não era aquele de sempre, convencido e nada modesto. Era… Diferente! – Tem algo em você que não me deixa me afastar, apesar de todas as suas tentativas.
Pronto! Ele disse o que precisava para me deixar desconfortável, desviei meus olhos para qualquer coisa que não fosse ele.
– Então se acostuma comigo agindo dessa forma a qualquer hora inesperada do dia.
– Eu posso lidar com isso. – Abriu um sorriso sacana.
E o convencido estava de volta.
– Já te disseram que tentar entender você é como tentar matar a sede com a água do mar?
– Não, mas vou anotar no meu caderno de reclamações.
– Deve ter bastantes anotações aí, em. – Lhe dei as costas caminhando em direção ao refeitório.
– Quase todos seus.

Joguei minha mochila no sofá e fui direto para a cozinha, encontrando Nana e John almoçando juntos. Eles ficaram em silêncio no momento que entrei. Estranho
– Qual o cardápio do dia? – Fui direto para a forma em cima da bancada.
– Você tem uma sessão com Mariah amanhã. – John disse atrás de mim.
Paralisei no mesmo instante.
– Ela não iria voltar só no final do mês? – Virei-me para ele.
– Depois do que aconteceu, ela decidiu se adiantar.
– Não acredito que contou pra ela.
De repente fiquei sem fome e me retirei da cozinha. Claro que ele me seguiu.
– Você precisa conversar com alguém.
– Então por que você não fala comigo? – Exclamei. – Ao invés de ficar até mais tarde na agência, por que não se senta e me conta o que sabe sobre os meus pais? Por que ao invés de conversar com uma estranha, eu não posso conversar com alguém que sabe mais da minha vida do que eu?
– Ela não é uma estranha.
– Talvez não pra você. – Peguei minha mochila e andei em direção ao meu quarto.
– Depois de dois anos, você ainda não se acostumou?
– Com o quê? – Meu tom era de indignação e muito interrogativo. – Em conversar com uma pessoa que só sabe dizer “você ainda não seguiu em frente”, “você precisa seguir em frente”. Você que não precisa pagar tão caro para alguém me dizer uma coisa que eu já sei.
– Brooke…
– Que resposta ela pode me dar? Ela sabe por que meu pai foi embora? Ela sabe por que Willy matou minha mãe? Em dois anos, você não acha que eu já deveria saber a resposta?
Ele deu um passo pra trás, mantendo o contato visual.
– Você vai falar com a Mariah e isso não está em discursão. – E me deu as costas, voltando para a cozinha.
Fui para o meu quarto pisando firme, estou precisando colocar meus pensamentos em ordem.
Eu odiava não ter respostas, pensar em várias teorias sobre tudo e ainda assim não chegar a uma conclusão. O que será que aconteceu de tão ruim? E eu quero mesmo saber? Talvez o meu pai só se apaixonou por outra mulher e nos deixou, me deixou! E Willy é um psicopata inconsequente que não mede seus atos, tirando a vida da minha mãe. Essa era uma teoria muito boa, mas nada convincente. Meu pai me amava acima de tudo, e minha mãe foi o grande amor da vida dele. Então eu voltava para a estaca zero. Desliguei o chuveiro e dei uma olhada para a banheira. Eu estava mesmo precisando relaxar. Coloquei o meu roupão e fui preparar um banho para mim. Usei um pouco de espumas de lavanda e sais de banho e certifiquei de que a água estava morna. Peguei uma toalha colocando sobre o banquinho. Puxei meu travesseiro inflável e liguei meu Ipod, logo Shawn Mendes estava tocando e eu estava começando a me sentir relaxada. Fiz um coque em meu cabelo e retirei meu roupão entrando na banheira me deitando e ali permaneci até adormecer. Comecei a pensar na existência de um segundo plano, outra vida. Uma encarnação. Se Deus pode existir, então podemos ter outra chance. Eu sempre quis acreditar que eu teria outra vida. Eu adorava imaginar que isso era possível, que pessoas como eu, teriam outra oportunidade de concertar os erros, e saberia escolher melhor em quem confiar. Tinha que ter alguma saída para mim, deveria existir outra história bem mais contada, eu não podia ficar presa nessa vida sem ter uma vida melhor a minha espera no futuro. Isso se, Deus realmente existir.

Memórias On:
Brooklyn abriu a porta de fininho pensando que por alguma ironia do destino, Willy estivesse dormindo e ninguém precisaria saber que ela havia voltado tarde de uma noite de estudos na casa de sua amiga mais próxima.
– Já voltou Brooklyn? – Willy estava sentado na poltrona em frente à lareira esperando ansiosamente por aquele momento. Ele perguntou sem mover os olhos ou o corpo, sua voz exalando ironia. Brooke olhou para o relógio e já eram dez horas da noite. Não estava cedo.
– Eu… – Tentou dizer.
– Quem deixou você sair?
– Minha mãe… – Não conseguiu terminar de responder porque Willy já havia se levantado e estava indo em sua direção. A fuzilava com os olhos enquanto pensava: “quem essa garota pensa que é para fazer suas próprias vontades?” Afinal, ele agora era o pai dela e ela precisava o obedecer. O medo era visível. Ele a agarrou pelo braço esquerdo e a puxou para longe da porta, em direção ao sótão.
– Me solta. – Ela tentou o empurrar, mas Willy era visivelmente mais forte.
– Vem, vem comigo. Vou te ensinar a me obedecer de uma vez por todas. – Ele a jogou escada a baixo a fazendo machucar as costas e ralar os braços.
Willy trancou a porta e desceu as escadas.
– Não adianta gritar, sua mãe se dopou e está dormindo que nem um bebê. – Arregalou os dentes, feliz pela situação. Quando Brooklyn tentou se levantar ele a chutou nas costelas a fazendo cair novamente e gemer de dor.
– Você sentiu isso? Ah, que alívio, sentiu sim. Agora se levante. – A puxou pelo braço sem se importar se ela estava machucada. Lágrimas se acumulavam nos olhos de Brooke enquanto tencionava seus músculos. – Você sabia que agora eu sou seu pai. – Willy endureceu a voz fazendo com que Brooklyn o olhasse morbidamente.
– Você nunca vai ser o meu pai. – Rangeu os dentes, deixando bem claro. Willy deu uma risada ponderando sobre o que ela havia favado.
– No fundo você tem razão. – A analisou de cima a baixo. – Se eu fosse seu pai não estaria pensando em fazer uma coisinha com você. – Ele a viu arregalar os olhos e se afastar no mesmo instante, sem se importar com a dor que sentia. – Guarde o medo para quando eu deixar você mole nesse chão, ai você vai ter motivos pra chorar. Agora, onde nós estávamos? – Puxou as duas mãos de Brooklyn a jogando contra a parede – Ah, é! – Prendeu sua cintura – Você saiu com aquele menino que vive atrás de você, sem me avisar e eu não gostei nem um pouco disso. Bom, vou ter que garantir que não ocorrerá de novo. – Ele segurou o rosto dela obrigando o olhar.
Willy estava apenas sendo Willy, mais desta vez com mais prazer em vê-la com medo. Brooke estava atenta a qualquer movimento involuntário, com medo de que ele a machucasse não apenas fisicamente.
– Isso é meu! – Ele disse ao colocar sua mão direita no seio esquerdo de Brooke. E apertou.
– Na-ão – Gaguejou sentindo a dor e a repulsa falar mais alto. Willy apertou mais ainda sua mão fazendo movimento circulares. – Quando aquele seu amiguinho tocar você bem aqui, vai se lembrar de que já tem um dono.
Brooklyn já não conseguia ver Willy através de suas lágrimas, mas sabia que ainda não havia acabado. Mal havia começado. Willy arrastou sua mão pelo braço de Brooke, a repousando em sua bunda, fechou seus olhos apreciando aquele momento. Há muito tempo queria uma desculpa para fazer isso e agora estava aproveitando sua chance. Em um movimento rápido, Brooke se soltou e o chutou bem no meio de suas pernas, em seu órgão mais sensível. Willy se inclinou para frente sentindo uma dor horrível.
– Sua vadia!!!
Ela o encarou.
– Nunca mais você vai tocar em mim.

Memórias Off
Um barulho incômodo começou a zumbir em meu ouvido, abri meus olhos tentando me acostumar com o clarão do ambiente, estava vendo tudo embaçado e minha mente ainda estava processando onde eu estava. Ah sim, eu adormeci na banheira e tive mais uma lembrança com aquele maldito. Olhei a minha volta notando que meu celular estava tocando, deve ser isso que me despertou. Peguei meu roupão e sai da banheira, andando até meu celular que parou de tocar no mesmo instante que eu o peguei. Era um número desconhecido e havia quatro chamadas perdidas, devia ser importante. Quando pensei em ligar de volta, o celular voltou a tocar. Atendi na mesma hora.
– Alô?
– Até que enfim você resolveu me atender.
Não precisei perguntar quem era para reconhecer a voz do Canadá, que não tinha mais tanto aquele sotaque carregado.
– Devo me preocupar em como conseguiu meu número? – Andei de volta até meu quarto ainda me sentindo sonolenta.
– A Emma esteve aqui te procurando e eu pedi a ela.
Parei no mesmo instante.
– Emma… – Fiquei confusa. – Aqui onde? – Ouvi a risada dele.
– Você deveria ter me encontrado no Central Park há meia hora, e como você não apareceu, eu resolvi fazer uma visita domiciliar.
Olhei para o relógio notando o quanto de tempo eu perdi dentro da banheira.
– Eu acabei dormindo. – Me expliquei.
– Tudo bem, mas desce de uma vez. Antes que eu acabe aceitando os convites do Peterson para subir até ai.
– Eu já vou. Fique onde está.
– Você tem cinco minutos. Tic, Tac!

Minutos depois, lá estava , me esperando do lado de fora do elevador. Com as mãos enfiadas no bolso da calça jeans e mostrando seus dentes perfeitos. Ele notou que eu estava parada no mesmo lugar o encarando e quando eu percebi que ele estava entrando, sai andando até a portaria o deixando para trás.
– Caminho errado, o meu carro está lá no estacionamento. – Ele me fez parar. Virei-me para ele e arquei a sobrancelha. – Cortesia do Henry.
Olhei para Peterson que fazia sinal com as mãos de duas pessoas se beijando. deu uma acenada descarada para ele.
– Ele gosta de mim.
– Quem não gosta? – Disse com sarcasmo e andei até o elevador novamente.
– Aparentemente, você não gosta.
– Eu não tenho nada contra. – O vi entrar e as portas de fecharem.
– Muito menos a favor.
Respirei fundo encarando a minha frente.
– Gosto de ser imparcial.
– Acho que eu já notei isso. – Ele parou na minha frente, me obrigando a fazer contato visual com ele.
– O que foi?
– Nada, só… Você. – Tinha um sorrido de lado. E eu me esforcei para não rolar os olhos. Chegamos.
O carro do desgraçado era incrível, preto e muito brilhoso. Impossível não chamar atenção com ele e era o que eu menos queria.
– É um Bugatti Veyron Supersport – Se plantou ao meu lado. – Damas primeiro. – E abriu a porta.
Deslizei facilmente no banco do carona me sentindo muito confortável e chegando a uma conclusão. tinha motivos para se gabar da forma como se gabava.

– O que tem em mente? – perguntou ao me seguir.
– Pensei que poderíamos começar com o Sheep Meadow, há vários turistas e podemos fotografar eles sem parecer dois estranhos.
– Então vamos fotografar turistas? – O modo como ele perguntou, me fez parar para analisá-lo.
– E o que você tem em mente?
soltou um suspiro breve e depois deu uma olhada rápida para o lado. Retirou o celular do bolso e mirou em minha direção. Então eu entendi que ele estava tirando fotos de mim.
– O que está fazendo? – Tampei meu rosto com minha bolsa.
– O técnico pediu para fotografarmos algo que mostre muito além do que realmente estamos vendo. – Ele começou a andar em círculos a minha volta e continuava a tirar fotos.
– E o que está vendo em mim com o seu celular que não consegue ver com seus olhos? Espinhas?
– Eu vejo alguém que esconde quem realmente é por trás de todo esse sarcasmo. – Ele abaixou o celular para me encarar. – Do que você tem medo?
Dei de ombros tentando fingir que nada daquilo fazia sentido.
– É isso que você vai dizer quando mostrar essas fotos?
Ele arqueou a sobrancelha.
– Está me subestimando?
– Sarcasmo é uma das maneiras mais sutis de insultar um idiota sem ter que chamá-lo de imbecil.
– Não, eu não caio nessa. Se você quiser me chamar de imbecil você simplesmente vai chamar.
Fiz uma careta pra ele e depois encarei o chão. Droga!
– Olha Canadá, tem assuntos que não é da sua conta. – Coloquei uma mexa de cabelo atrás da orelha. – Sem ofensa.
– Você não me ofende. – Se aproximou de mim. – Só me deixa cada vez mais curioso!
– Curioso sobre o quê? – Enruguei a testa.
– Sobre quem você realmente é. Seus amigos podem acreditar nessa fachada, mas eu já percebi que é só uma casca calejada.
– Você não sabe nada sobre mim. – Dei um passo pra trás.
– Não, mas eu sei que vou saber. Um dia! – Deu uma piscadela e seguiu caminho até o gramado.
– Você não tem nada melhor pra fazer do que tomar conta da vida dos outros?
– E o que você sugere?
– Hm, não sei… Que tal ser um garoto solitário em uma nova cidade onde ninguém te conhece?
Ele sorriu sem mostrar os dentes.
– Sabe o que é mais solitário? Estar em uma cidade onde todo mundo sabe o seu nome, mas ninguém sabe quem você é de verdade.
Trinquei os dentes e passei por ele pisando firme. era a segunda pessoa que conseguiu me tirar do sério hoje. Mas algo bem fundo em mim sabia que o motivo de eu estar mexida dessa forma, era que, em anos, alguém finalmente notou que eu sou mais do que eu realmente mostro ser.

John estava escorado no batente da porta do meu quarto quando eu subi as escadas. Parei no último degrau e o encarei confusa com aquilo. Ele descruzou os braços que estavam diante o peito e se aproximou de mim me envolvendo em um abraço. Retribui com todo carinho do mundo. Não gostava de discutir com John, mesmo que isso quase não acontecesse. Eu sempre vou ser grata por tudo que ele fez por mim desde que minha mãe morreu. Minha única família.
– Você me lembra muito a sua mãe. – Paralisei ao ouvi-lo. – Ela era uma mulher muito forte e determinada. Sempre correu atrás dos seus objetivos sem esperar que alguém estendesse a mão para ela. Ela estaria tão orgulhosa da mulher que estar se tornando. Tão independente e inteligente. – Me deu um beijo na testa enquanto pousava suas mãos em meu rosto. O fitei. – Tudo que eu faço é para o seu bem, mesmo que não pareça agora. Um dia você vai entender.
Depois de me olhar profundamente, ele saiu, me deixando sozinha e sem palavras. Talvez ele tenha falado mais da Lucy agora do que eu poderia me lembrar. No fundo eu só queria tomar outro banho e dormir.

***
Aos poucos fui acordando e me recompondo da noite que tive. Vi April deitada sobre meu peito, usando apenas o lençol da minha cama, em um sono profundo. Puxei meu braço com cuidado para não acordá-la e fui ao banheiro doido por uma chuveirada quente. Cinco minutos depois ela entrou no Box completamente nua.
– Por que não me chamou? – Se aproximou de mim, ficando debaixo da ducha.
– Não queria te acordar. – Peguei o sabão e comecei a passar pelo belo corpo que ela possuía.
– Hmmm. – Sorriu para mim e me deu um selinho. – Por que não passamos o dia deitados na sua cama?
– Por que temos aula, e minha mãe chega de viagem daqui algumas horas. – Peguei minha toalha e enrolei na minha cintura. Deixei o banheiro.
– Quando você vai me apresentar para sua mãe e o seu padrasto? – Paralisei ao ouvir tal pergunta.
Por que eu apresentaria April para eles?
– Eles são muito ocupados. – Pensei em uma desculpa qualquer.
– Sei… – Ela voltou para o quarto. – Podemos chegar atrasados e esperar eles chegarem de viagem.
Que garota insistente.
– Não dá, tenho a oficina de fotografia na primeira aula. Não posso deixar a Brooklyn na mão.
– Brooklyn? – Começamos a vestir nossos uniformes. – Brooklyn Bennette?
– Sim, somos parceiros. Você a conhece? – Parei para encará-la.
– Claro, estudamos na mesma escola há dois anos. – Vestiu sua saia me tirando o prazer de ver sua lingerie.
– Vocês são amigas, então?
Ela me deu um olhar engraçado e depois vestiu sua meia até o joelho.
– Eu até que gostaria, mas as únicas pessoas que ela deixou se aproximar todo esse tempo foi a Emmalyn Monroe e o trio.
– Trio? – Ajeitei minha gravata.
– Elijah Harris, Josh Hunter e Edward Roettinger. Eles são o trio. Os garotos mais legais da escola, segundo os alunos da Trinity.
– Como assim? – Fiquei intrigado.
-Tudo começou quando Edward decidiu assumir que é gay, beijando um garoto na frente de todos os alunos e professores da Trinity. Os pais do Ed foram chamados na escola, mas segundo os boatos que eu escutei, ele ainda não se assumiu para a família, então ninguém apareceu. – Ela arrumou sua bolsa. – Estava tudo certo para a expulsão dele quando Elijah e Josh o defenderam na frente de todo o corpo estudantil e até fizeram um discurso legal sobre como ser diferente pode te fazer uma pessoa melhor e que isso não te torna menos humano. Afinal, se fosse um garoto e uma garota não teria tanta proporção e isso é uma injustiça, não é?– Ela me encarou. – Eles nos fizeram perceber que não havia nada de errado em sermos nós mesmos e que ninguém deveria nos dizer o que é certo ou errado. Conseguiram convencer 90% dos alunos a protestarem contra a expulsão dele e funcionou. Depois disso, eles viraram “as pessoas com quem você definitivamente deve fazer amizade”. Maaas… Parece que ninguém é bom o suficiente pra isso. A não ser a Brooklyn e Emmalyn.
Fiquei bem impressionado com o que ela disse sobre os amigos da Brooklyn. Foi uma iniciativa bem legal da parte deles.
– E o que a Brooklyn teria de especial pra isso?
April penteou os cabelos enquanto parecia se lembrar de algo.
– Ela era bem esquisita quando iniciou seus estudos na Trinity. Não falava com ninguém, não se aproximava de ninguém. Talvez fosse isso. Ela era diferente e é isso que chamou a atenção deles, eu acho. – Ela deu de ombros. – Vamos comer alguma coisa? – Ela já estava pronta enquanto eu ainda calçava meus sapatos sociais.
– Eu já vou indo.
A vi sair do quarto e no mesmo instante alcancei meu celular. Fiquei passando e repassando as fotos de Brooklyn que eu havia tirado na tarde de ontem tendo mais certeza ainda de que ela escondia algo que mais ninguém parecia perceber.

***
– Fotografia do grego [fós] (“luz“), e [grafis] (“estilo“, “pincel“) ou grafê, significa “desenhar com luz e contraste“. Por definição é essencialmente a técnica de criação de imagens por meio de uma exposição luminosa, fixando-as em uma superfície sensível. A primeira fotografia reconhecida remonta ao ano de 1826 e é atribuída ao francês Joseph Nicéphore Niépce. – O técnico apontou para o nome do cara escrito bem grande no quadro negro. – Contudo, a invenção da fotografia não é obra de um só autor, mas um processo de acúmulo de avanços por parte de muitas pessoas trabalhando juntas ou em paralelo, ao longo de muitos anos. Por um lado os princípios fundamentais da fotografia se estabeleceram há décadas e, desde a introdução do filme fotográfico colorido, quase não sofreram mudanças, por outro, os avanços tecnológicos têm sistematicamente possibilitado melhorias na qualidade das imagens produzidas, agilização das etapas do processo de produção e a redução de custos, popularizando o uso da fotografia.
Ele guardou seus livros e nos olhou.
– Agora que já vimos um pouco da história da tecnologia fotográfica, eu gostaria de ver as fotos que tiraram com os celulares de vocês.
Enquanto ele chamava as duplas eu peguei minha fotografia preferida de um casal de velhinhos sentados no gramado rindo um para o outro enquanto estavam rodeados por crianças e olhei para que estava alheio à aula desde que entramos, ele não falou uma palavra comigo, e isso era bem estranho. Será que eu fui muito rude com ele ontem?
– Senhorita Bennette, senhor ? – Ele nos chamou logo em seguida e nós fomos até o centro da sala ficando de frente para os alunos. – Nos conte sobre as fotografias de vocês.
Olhei para me questionando se ele gostaria de começar, mas o mesmo apenas continuava alheio à situação a sua volta. Encarei os alunos.
– A minha fotografia representa um casal que mesmo no auge da idade, parecem felizes com a vida que levam um com o outro. Esses podem ser seus netos ou crianças quaisquer, mas o que importa é a simplicidade em que eles conseguiam fazê-las sorrirem e vice-versa. Nos mostra que não precisamos de muito para sermos felizes se estivermos rodeados pelas pessoas certas.
– Muito bem senhorita Bennette, é uma ótima foto. – Fui aplaudida por alguns segundos e então chegou à vez de que me encarou antes de levantar a sua foto, me deixando completamente paralisada. A sala inteira ficou em silencio naquele instante.
– Senhor , a sua melhor foto é da senhorita Bennette?
concordou com um aceno.
– E pode nos dizer o porquê?
A foto ampliava o meu rosto, e desfocava tudo a minha volta. Eu estava com um meio sorriso e um olhar sereno. Eu sabia muito bem o porquê. Foi na hora em que eu tirava fotos do casal de velhinhos. A felicidades que os cercavam me deixou feliz também.
– Vocês claramente não podem ver o que eu vi nesse momento. Mas neste instante, Brooklyn não conseguia desviar o olhar de uma cena comum de um casal rodeado de crianças. Fiquei me perguntando o “porquê”. Era como se ela estivesse conhecendo, ali, o verdadeiro significado da felicidade. Que é quando você está com alguém que ama. – Ele me encarou. – A Brooklyn é alguém que consegue transparecer vários tipos de sentimentos, principalmente o sarcasmo, para poder esconder quem realmente é. Por quê? Isso é um mistério pra mim.
Por alguns instantes a sala ficou preenchida de silêncio.
– Você tem algo a dizer, senhorita Bennette? – O técnico perguntou enquanto eu só conseguia pensar em todos os piores nomes que definiam naquele momento.
Senti uma lágrima escorrer pela minha bochecha enquanto não conseguia tirar os olhos da maldita foto. Quem ele pensa que é para me expor daquela maneira na frente de todos? Em um ato não pensado, tomei a foto de suas mãos e a rasguei em pedaços, os jogando ao chão. Quando dei por mim, minha respiração estava acelerada e todos me olhavam assustados. Sai da sala no mesmo instante. Parei no meu armário e me escorei nele mal conseguindo me manter em pé. Por que fez isso? Eu não entendo! Como ele consegue notar o que ninguém notou em anos? Logo o sinal bateu e o corredor começou a ficar lotado. Me recompus enquanto procurava meu livro de matemática avançada.
– Pelo visto eu passei do limite. – estacionou ao meu lado e eu me segurei para não gritar com ele.
– Parece que você não conhece a palavra “limite”. – Minha voz saiu dura e um pouco rude.
– Se isso te afetou deve ser porque no fundo eu tenho um pouco de razão, não é?
– Ter razão não te dá o direito de fazer o que fez. O que você queria com isso? – O fitei. – Me humilhar?
Ele franziu o cenho.
– Você acha que não demonstrar quem você realmente é, é algo incomum? Você não pensa que metade desta escola não tem segredos escondidos por aí?
– Ótimo! Vai se preocupar com a vida de outra pessoa então. – Fechei meu armário com força. – E me deixa em paz.
– Difícil já que teremos que nos encontrar mais tarde. – Ele piscou pra mim. – O técnico quer mais um trabalho em dupla. – Jogou sua mochila sob os ombros. – Ele não vai considerar a minha foto depois do que você fez. Nos vemos no Central Park? – Sorriu e eu quis arrancar aquele sorriso do rosto dele. – E vê se não atrasa. – Então me deu as costas, seguindo corredor a fora.
Não sei por quanto tempo eu fiquei olhando caminhar, mas logo o sinal bateu e essa era a minha deixa para tentar pensar em outras coisas.

– Adivinha quem é. – Alguém tampou meus olhos, mas obviamente eu reconhecia aquela voz.
– Seria o melhor amigo do mundo? – Sorri no mesmo instante. Ele se sentou na minha frente e me entregou uma garrafa com um papel dentro. – O que é isso? – Estreitei os olhos para ele.
– Um presente. – Comprimiu os lábios. – Abre.
O olhei desconfiado, mas decidi abrir. Derramei o papel em minhas mãos e o desenrolei.
Fiquei surpresa.
Era um desenho meu.
Eu estava escorada em uma das estantes da biblioteca e tinha um livro em mãos. Eu não sabia que ele tinha esse dom para desenho.
– Josh, isso ficou incrível. Obrigada. – Me joguei em cima dele e o abracei apertado.
– Olha, será que eles resolveram assumir o namoro em público?
Ouvi a voz enjoada de Ed e logo rolei os olhos.
– Acho que assumiram quando Brooke beijou Josh na frente de todo mundo. – Elijah estava junto e se sentaram ao nosso lado na mesa do refeitório.
– Como é que é?
– Eu vou pegar um sanduíche natural, vocês querem? – Josh se levantou aos risos e nós concordamos. Assim que ele saiu eu encarei os dois.
– Relaxa! Apoiamos Vocês. – Elijah acariciou o meu rosto.
– Fale por você. – Ed o interrompeu. – Se eu fosse a Brooke já teria me jogado pra cima do gato gringo.
? – Elijah perguntou ao me encarar e eu me senti sem graça.
– Ééééé. Ele anda arrastando uma asa para a Brooke, mas a princesa está se fazendo de difícil.
– Que ele use a asa dele para voar pra bem longe de mim. – Bufei. Ed tinha que me fazer lembrar desse garoto.
– Bom… – Elijah passou o braço pelo meu ombro. – Eu sou time Josh. Só pra você saber.
Sorri para ele.
– Somos só…
– Amigos? – Arqueou a sobrancelha para mim. – Sei. – Passou a língua nos lábios e seus olhos desceram até minhas mãos. – Adorei o desenho, anyway.
– Ai, me deixa ver. – Ed o tomou das minhas mãos. – Que declaração de amor maravilhosa!!! – Sua voz era melosa. – Por que não me faz um desses? – Se virou para Elijah que deu de ombros.
– Talvez o dia que você se chamar Emmalyn, ele faça. – Impliquei e eu sabia que ele não esperava isso vindo de mim.
– Uuuh, parece que a Brooklyn também sabe revidar. – Ed brincou. – Quer saber, quando vocês dois assumirem que se amam, eu apresento o meu namorado pra vocês. – Apontou para Elijah e depois para Emma que estava do outro lado do refeitório com a turma da sala dela.
– Primeiro você precisa arranjar um, não é? – Impliquei com Ed também.
– Tem alguém com a língua afiada hoje. – Me encarou.
– Antes eu preciso saber se ele é bom o suficiente pra você. – Elijah o puxou pela mão e brincou com o topete de Ed.
– Que maneira mais sutil de dizer que está com ciúmes. – O empurrou para longe.
Parei de escutar os dois e encarei Emma.
Recordei-me do Canadá dizer que ela havia ido me procurar, mas eu não liguei de volta. O que será que ela queria? Quando mencionei me levantar e ir até ela, Josh voltou com os sanduíches.

– O que está fazendo? – John parou na porta do meu closet e se escorou no batente. O olhei de relance e depois continuei a jogar minhas roupas pelo chão.
– O que será que se veste para ir a uma sessão psiquiátrica? – Eu pude ver os olhos dele se revirarem. – Tudo branco parece um pouco fora de moda para mim.
– Que tal algo bem quente, porque o dia está bastante frio.
– Acho que poderia ter pensado nessa possibilidade sozinha. – Peguei um vestido e coloquei a frente do meu corpo e depois uma blusa de manga. Mas nada parecia bom o suficiente.
– O que você está vestindo está ótimo.
O que eu vestia era uma Skinny Jeans preta, com um leve rasgado no joelho esquerdo e uma blusa de moletom.
– Então vai ser um casaco da Jocelyn Westwood, a minha bolsa Cashhimi e… – Dei uma olhada para a parte alta do closet, onde ficava parte dos meus sapatos.
– Minhas botas Carmelinas.
Com tudo em mão, voltei para meu quarto sendo seguida por John.
– Você não se veste assim nem quando temos eventos importantes. – Joguei minhas coisas na cama, me sentando sobre ela e coloquei minhas meias.
– Bem, acho que é valido dizer que essa é uma ocasião importante.
Depois de calçar minhas botas, eu vesti meu casaco e soltei meus cabelos.
– Uaaau Brooke. – Nana apareceu na porta do quarto.
– É para uma ocasião importante. – Andei até minha penteadeira e resolvi usar meu batom nude. Pelo espelho, vi Nana e John se olharem. – Não precisa me buscar. – Me virei para eles. – Vou me encontrar com o para um trabalho da Trinity.
Nana soltou um risinho na mesma hora. A encarei.
– Então essa é a ocasião importante.
Dei de ombros.
– Um trabalho da Trinity sempre é importante. – Passei por eles, indo até a sala.
– Não adianta se esquivar, eu conheço você muito bem pra dizer que se arrumou toda para esse garoto.
– Está delirando.
– Você gosta dele? – John perguntou e eu o olhei com uma expressão incrédula.
– É obvio que não.
– Porque se você gosta, eu o aprovo.
Os dois estavam se divertindo com a situação.
– Sinto em te decepcionar, mas não passa de um arrogante, galanteador e muito convencido. Conheci pessoas bem melhores e que mesmo assim não conseguiram me conquistar.
– Calma, só estamos brincando. – Nana tentou apaziguar a situação.
– Eu vou pegar o meu casaco. – John trocou um último sorriso com Nana e saiu.

John parou o carro em frente ao centro psiquiátrico de Manhattan e permaneceu imóvel no banco, sem emitir um som. E eu não tinha nada pra dizer que já não tinha dito. Ele não me ouvia, achava que a melhor coisa a ser feita, seria eu me abrir com Mariah sobre meus problemas pessoais. Só que eu não achava isso, não chegava nem perto do que eu realmente penso que poderia ser a solução dos meus problemas. Mencionei sai do carro.
– Espera. – Segurou a minha mão e eu o olhei. – Não quero que se sinta pressionada.
– Não acha que é meio tarde pra isso?
– Olha, dê uma chance a ela, tente confiar nela, tenho certeza que vai se sentir mais confortável depois disso.
Dei de ombros.
– Vou tentar. – Mencionei sair do carro e novamente ele segurou minha mão.
– Você vai ficar bem? – Me analisou.
– Se eu não ficar, eu finjo.
E sai.
Mariah Evans é a melhor psiquiatra de Nova York, e a amiga mais próxima de John. Os dois se conhecem há muito tempo e por isso, imagino eu, John tenha me pedido para participar de seções semanais com ela. Já ouvi dizer que quando “botamos tudo para fora”, nos sentimos mais leves. Mas comigo não funciona bem assim. Quanto mais eu falo sobre meus medos e pesadelos, mais eles me assombram.
– Brooklyn. – Mariah veio me receber na recepção pessoalmente.
Estava linda e radiante depois das férias, pele bronzeada e os cabelos pretos brilhantes batendo soltos em seus ombros. Ela me deu um abraço nada típico de uma profissional. – É muito bom ver você de novo.
– Você está ótima Mariah. – Caminhamos até sua sala. Ela me deu um sorrisão.
– Essas férias me fizeram muito bem, eu recomendo a você, deveria conhecer a Itália.
– Se você conseguir manter John nos Estados Unidos, eu também adoraria conhecer. – Brinquei.
– Voltamos ao caso “John super protetor?” – Me sentei no pufe gigante e branco assim como quase toda a sala, enquanto ela se sentou na minha frente, cruzando suas pernas.
– Às vezes é meio sufocante, mas eu o entendo. – Deitei meu corpo, me deixando de uma maneira mais confortável e encarei o teto.
– Vamos começar de onde paramos? O que tem feito desde então?
– Estudando, lendo, saindo com meus amigos, tendo os mesmos sonhos, tentando descobrir se minha mãe está querendo entrar em contato comigo, essas coisas…
Eu pude notar que ela não se sentia nenhum pouco surpresa. Com certeza John deve ter lhe falado a respeito.
– É muita coisa para digerir. Como está se sentindo?
Respirei profundamente.
– Eu não sei… Cansada, talvez. – Continuei a encarar o teto branco e muito familiar. – Só estou cansada de nunca obter as respostas das minhas perguntas.
– Entendo…
– Não, você não entende! E nunca vai entender. Ninguém vai.

Avistei fotografando algumas crianças que brincavam com seus balões e corriam em círculos cantando uma cantiga. Ele estava tão distraído que mal notou minha aproximação. Coloquei minhas mãos no bolso do casaco e o deixei se dar conta da minha presença. O que não tardou.
– Aí está você. – Se virou para mim e seus olhos mudaram de cor a me ver. – Está bonita.
Pousei minhas mãos sobre minha cintura.
– Vejo que não me esperou.
– Não estava nos meus planos ir te buscar hoje. Você fez alguma coisa no cabelo?
Franzi o cenho e neguei.
– Não, não fiz. – Passei a língua nos lábios. – Então… Crianças?
deu uma olhada rápida para elas que não pareceram se importar com a nossa conversa.
– É, eu… Elas me lembram de uma fase onde tudo era mais fácil.
– Eu não consigo imaginar você tendo dificuldade em conseguir algo. – Debochei.
– Por que não imagina isso?
– Ah, – Dei de ombros. – talvez pelo seu carro, ou pelo seu ego inflável que demonstra o quanto você pode e consegue o que quer.
– Pode parecer que não, mas eu não tenho tanto poder de escolha.
– Está falando sobre se mudar para os Estados Unidos ou sobre a faculdade? – Tentei entender, ele deu de ombros. – O que foi? É tão difícil assim contar para o seu pai que não quer fazer Direito? – Lembrei-me da nossa conversa sobre algo parecido.
– E por que isso seria uma coisa difícil?
– Se fosse fácil, você já teria dito para ele. – Cruzei os braços diante o peito. – Ou você já disse? – Arqueei a sobrancelha.
Ele me encarou por alguns segundos.
– Não. – Seu tom de voz era rude, e isso era um sinal nato de que eu tinha cutucado a onça com a vara curta.
– É bem chatinho quando alguém se intromete na nossa vida sem ser chamado, não é?
– Você ainda está chateada com o que aconteceu mais cedo na escola?
Mordi meu lábio.
– Chateada não é bem a palavra que eu usaria, mas… Não! Eu não estou. Não mais!
Tirei meu celular da bolsa e comecei a fotografas as crianças que antes estavam sendo fotografadas por ele.

e eu não voltamos a falar sobre esse assunto, nos focamos em tirar fotos de tudo que pudesse ter algum significado e, depois de duas horas, decidimos ir embora. parou o carro no estacionamento da Shake Shack e eu não entendi o porquê daquela parada.
– O que está fazendo? – Perguntei quando ele abriu a porta do carro para mim.
– Tentando ser educado.
– Por que começar agora? – Saí do carro sem tocar nele. – E então? – Perguntei.
– Por que não comemos alguma coisa? – Sugeriu enquanto andava na minha frente. – Oi, você pode me trazer um café? – Pediu gentilmente a uma garçonete.
– Café? – O segui. – Pensei que os canadenses gostassem mais de cerveja.
– Estou tentando me encaixar na cultura americana.
– Isso explica o fato de estar perdendo seu sotaque?
– Acho que é mais a convivência.
– Se você quer se enturmar, deveria começar a usar casacos nessa época do ano.
– No Canadá é bem mais frio do que isso. – Se explicou. – Estou me sentindo no verão.
Encontramos duas cadeiras e uma pequena mesa de metal esverdeada do lado de fora do estabelecimento, era formidável e cheirava muito bem. Uma moça trouxe o cardápio, o café do e já que eu estava aqui mesmo, iria comer alguma coisa.
– Eu vou querer um cheeseburger e batatas fritas no óleo de amendoim. Pode me trazer também um copo de suco de laranja.
Ela anotou meu pedido em uma caderneta e se virou para . Quando seus olhos o viram ela trepidou um pouco. Seja discreta!
– Só o café.
Não pude deixar de notar que a garçonete demorou a tirar os olhos de e, o que pareceu uma eternidade, ela finalmente se afastou. Senti-me ridícula por notar isso e me repreendi mentalmente. tomou um pouco do seu café antes de escorar suas costas na cadeira e me encarar. E eu me repreendi ainda mais por ter o achado lindo.
– Por que Brooklyn?
Olhei para ele confusa.
– Como assim?
– Por que se chama “Brooklyn”?
Dei de ombros.
– Acho que é pelo fato de eu ter nascido lá.
– É mesmo? Eu nasci em Ottawa e nem por isso esse é o meu nome.
– Bem, obviamente nossos pais não são os mesmo.
Ele deu um sorriso breve.
– Não que eu ache que esteja errado, mas… – Ele suspirou. – Eu percebi que, talvez, eu tenha cruzado um pouco a linha e ter falado de mais durante a oficina de fotografia.
– Isso quase soou como um pedido de desculpas.
Ele deu um longo gole no seu café sem tirar os olhos de mim.
– Foi mal. – Comprimiu os lábios em um sorriso nada convincente de que realmente se sentia mal.
– Isso não é um pedido de desculpas. – Usei um tom repreendedor.
– Essa é a sua opinião. – Debateu.
– Eu quero um pedido de desculpas verdadeiro. – Enfatizei e ele deu mais um gole no seu café.
Rolei os olhos.
– Você vai acabar vendo seu cérebro, de tanto que revira os olhos.
– Um comentário sarcástico?
– Estou aprendendo com a melhor.
Optei por não o responder e ficar em silêncio. Mas óbvio que isso não o impediu de ficar em silêncio também.
– Vamos fazer um acordo.
Franzi o cenho.
– Que tipo de acordo?
– Eu te conto um pouco da minha vida no Canadá e você me conta um pouco da sua vida antes de eu chegar aqui.

– Quando você estiver preparada e quando confiar em mim. – Me interrompeu. – Temos um acordo? – Estendeu a mão em minha direção e eu a olhei.
– Por que você iria querer saber sobre a minha vida? – Questionei.
– Porque eu adoro mistérios e é tudo o que eu vejo quando olho para você. – Me encarou seriamente. – Uma garota misteriosa. – Abaixou sua mão.
– E se não for o que você pensa? Talvez seja só uma história triste e sem sentido.
– Então vai ser bom pra você pode tirar um pouco do peso das costas e talvez começar a amolecer um pouco seu coração.
– Está me chamando de insensível?
– Talvez. – Deu de ombros. – Mas todas as pessoas que se tornam insensíveis tem motivos para isso.
Abaixei meu rosto e fiquei encarando minhas mãos.
– Eu só quero saber quem é a verdadeira Brooklyn Bennette. O que me diz? – Voltou a estender sua mão.
Será que isso seria uma boa ideia? Não sei se eu iria querer corromper com o meu passado. Não quero que ninguém tenha pena de mim ou qualquer sentimento parecido. Mas ver parado ali na minha frente me fazia pensar que se tiver outra visão dos fatos, poderia me ajudar a chegar alguma conclusão.
– Brooklyn?
Olhei para o lado e avistei Emma parada há poucos metros de mim. Tinha uma expressão estranha.
– Emmalyn? O que faz aqui? – Me levantei e fui até ela.
– Eu estou tentando falar com você há dias, mas eu… – Olhou para e depois para mim. – Podemos conversar?
Nos afastamos um pouco da lanchonete e durante esse processo eu podia sentir que Emma estava apreensiva, talvez um pouco ansiosa? Ela ficou de frente para mim e parecia tentar encontrar as palavras para serem ditas.
– Você está começando a me deixar preocupada. – A analisei.
– É sobre o jogo de Ouija, eu… – Parou de falar e começou a beliscar os próprios dedos.
– Emma, tudo bem! Seja lá o que estiver te incomodando você pode me falar. – Tentei tranquiliza-la.
Ela olhava para todo o canto daquele local menos para mim, estava inquieta e tinha um semblante carregado. Será que ela estava sendo assombrada como eu?
– É que… – Ela finalmente me encarou. – Fui eu quem escreveu o nome Lucy no tabuleiro. – Disse muito rápido, mas ainda assim eu consegui entender todas as palavras. Então foi como se o mundo tivesse parado. Eu não via nada mais a não ser uma Emmalyn se sentindo culpada na minha frente. Primeiro eu senti raiva por ela ter me feito acreditado que minha mãe queria falar comigo, depois eu fiquei confusa em como ela poderia saber sobre Lucy se eu nunca tinha tocado no nome dela para nenhum dos meus amigos. Eu tinha que fazer a pergunta de um milhão de dólares.
– Como você sabe sobre a Lucy? – Minha voz era gélida, sem emoção alguma.
Ela suspirou.
– Teve uma vez em que fomos para a casa do Ed e você adormeceu no meu colo e de repente começou a falar. De início, eu pensei que estava falando comigo, mas depois você começou a falar sobre essa “Lucy” e eu percebi que você estava sonhando. – Prendi minha respiração. – Teve outra vez em que nós ficamos estudando até mais tarde na sua casa e acabamos adormecendo. Eu acordei com você conversando com alguém. Achei que fosse o John, mas não tinha ninguém ali além de mim. E novamente você voltou a falar o nome “Lucy”. Eu percebi que não poderia ser apenas alguém da sua imaginação, que essa Lucy realmente deve existir. Eu fiquei semanas, meses até, esperando você me contar quem era, mas você nunca disse. Aliás, você nunca sequer me disse algo sobre o seu passado. E quando o Ed propôs o jogo eu achei uma chance perfeita para fazer você falar. – Ela suspirou outra vez. – Mas fora a suas reações estranhas, você não tocou no assunto. Me desculpe Brooke, eu sei que errei em ter escondido isso e que provavelmente eu deixei você pensando muitas coisas, eu só não encontrei outra saída para fazer você falar.
– E por que você não me perguntou quem ela era? Porque, realmente eu comecei a achar que alguém poderia estar tentando falar comigo, comecei a pensar que…
– Me desculpe, Brooke, eu só não sabia o que fazer.
Eu não tinha palavras para descrever o quanto eu estava com raiva. Por algum segundo eu tinha uma ideologia na cabeça e agora tudo se esvaiu. Não dava para acreditar que Emma tinha feito isso comigo.
– Podemos conversar outra hora? Estou ocupada agora.
Não esperei por uma resposta.
Dei-lhe as costas e andei até novamente, que me encarava enquanto comia minhas batatas que veio junto com o lanche.
– Espero que não se importe. – Disse assim que eu me aproximei.
– Tudo bem, eu perdi a fome. Podemos ir para casa? – Coloquei minha bolsa em meu ombro.
– Você está bem? – Franziu o cenho a se levantar.
– Não, na verdade! – Forcei um sorriso para e ao fundo eu avistei um senhor de idade sentando no chão segurando um cartaz qualquer. Provavelmente um mendigo. Andei até ele sabendo que vinha logo atrás, mas não me importei. Dei a ele o meu lanche e mais alguns dólares que eu levava comigo. O senhor olhou para mim surpreso e me deu um sorriso enorme em forma de agradecimento.
– Deus te abençoe. – Disse e não esperou muito para devorar o lanche.
Fiquei o encarando comer por alguns segundos até conseguir dizer:
Deus não existe!