Caça Ao Tesouro

Caça Ao Tesouro

  • Por: Paula Moreira
  • Categoria: Originais
  • Palavras: 6097
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Sinopse: A Ilha do Barão no interior do Rio de Janeiro é conhecida pela água cristalina e suas grutas românticas, plenas de história desde os primórdios do local. E mesmo assim, ele conseguia se concentrar apenas nos problemas que deixou na cidade grande. O restaurante, o jantar de casamento do seu melhor amigo que ele precisava liderar e sua maior dor de cabeça: o que fazer com a propriedade de seu falecido pai? Entretanto, todas as suas ideias se esvanecem quando coloca os pés na Pousada da Gaivota Amarela. Uma caça ao tesouro e uma nova velha companhia faz o garoto da cidade refletir sobre a vida através dos sete mares.
Gênero: Comédia romântica
Classificação: 12 anos
Restrição: Algumas características físicas próprias, interativa
Betas: Natasha Romanoff

Capítulo 1 – Pousada da Gaivota Amarela

O cheiro de água salgada inundou meus sentidos.

Mesmo que uma grande parte de mim preferisse estar em São Paulo cuidando de meu – recém-inaugurado e cheio de dívidas – restaurante, era bom pisar naquela areia da praia infestada de nostalgia e parar um segundo para poder respirar ar puro.

Cozinhar era minha verdadeira e única paixão, e mesmo a nossa paixão pode nos deixar um pouco loucos, principalmente em uma cozinha lotada de pedidos.

Eu estava em Búzios. Uma estância brasileira situada numa península oceânica a este do Rio de Janeiro, segundo nosso amigo Google.

Resumidamente, são numerosas praias paradisíacas onde podemos ver peixes nadando pela água cristalina mesmo no meio do oceano. Um cartão postal. E esta era minha verdadeira casa, que abdiquei anos atrás para seguir o meu sonho em estudar gastronomia em São Paulo.

Fazia tanto tempo que não voltava para lá que passou a ser somente uma lembrança distante sobre a minha infância e adolescência, quando meu pai ainda era vivo.

E naquele dia estava ali novamente, dentro de um pequeno barco com , e a tia depravada dele, Rita. Estávamos todos voltando para nossas origens, pretendendo passar uma semana preparando o Buffet para o glorioso dia.

O casamento de e .

Mas vamos acompanhar uma pequena retrospectiva do princípio.

Não era incomum ver os jovens dali finalizarem seus estudos e buscarem a cidade grande, afinal, as chances de ter um futuro melhor são maiores.

E não foi diferente com nós três. Nascemos e crescemos na ilha. A presença de alguns parentes meus por parte de pai me atraíram para São Paulo e desde cedo me organizei, prestando vestibulares e guardando dinheiro para conseguir sobreviver lá. No fim, tudo deu certo quando consegui uma bolsa.

e conseguiram os seus diplomas desejados, entretanto, vinham fazendo a mudança novamente para a Búzios. No meio de todo o processo na faculdade, acabaram se apaixonando – não surpreendeu ninguém – e ele a pediu em casamento seis meses atrás.

Eu fiz a janta, ele comprou o anel, se ajoelhou no jardim e tudo. Foi até bonitinho de ver. Ela, como o esperado, aceitou, então estávamos ali a caminho, faltando uma semana para o casamento do casal. Até mesmo eu já estava ficando impaciente com a demora daquela cerimônia.

Só aconteceria na próxima manhã de domingo, mas como todos os preparativos eram humildes e proferidos por eles, teríamos que ir mais cedo para fazer quase tudo.

Rita, a tia de , que chegou a nos ajudar uma época na São Paulo, decidiu que também ficaria em Búzios, largando tudo para trás e se juntando a nós naquela viagem de barco que parecia ser eterna.

No fim das contas, não havia lugar como nosso lar, aparentemente, e de todos eles, eu era o único que não via motivos para voltar para casa.

Toda a diversão de um lugar turístico prenderia minha atenção por um tempo, mas naquele momento, tudo que eu fazia era olhar para o meu celular em busca de alguma notícia de João, o garoto que deixei a encargo do meu restaurante por aquela semana, enquanto pensava na forma de negociar as dívidas do aluguel.

tinha notado minha falta de atenção.

— Ninguém vai colocar fogo lá dentro, — disse, sentado à minha frente, um pouco desconfortável pela quantidade de pessoas sentadas ao seu lado.

se apertava contra o noivo ao lado esquerdo, evitando olhar para a cabeça de um peixe morto que o passageiro ao seu lado levava. Era um pintado. Na brasa, ficava delicioso e acompanhado de arroz com castanhas poderia ressaltar o seu sabor.

Lembrando que Rita era a única aproveitando a viagem, jogando seu curto cabelo e vermelho vivo contra a cara de um dos pescadores dali, enquanto flertava descaradamente.

— Eu não havia pensado nisso até agora. Obrigado, — forcei um sorriso. Apenas mais uma coisa para a lista de preocupações de como João poderia acabar com o meu ganha pão.

— Só estou dizendo para você relaxar. Estamos em casa, amigo! Olha esse mar, se forçar a visão, tenho certeza de que vai ver alguns golfinhos sendo puxados por sereias! — ele exclamou, e riu antes de também incentivar as palavras do noivo.

— Ele está certo, . Faz tanto tempo que não voltamos aqui e… — Ela estava um pouco verde e tenho certeza de que estava se segurando para não vomitar em cima do pintado, ou no colo de . Por essa razão, deixei minhas costas retas para que nada fosse atingido a mim. — Bom, você é você. O mestre do trabalho. Se você deixou o Cortês nas mãos desse carinha, é porque confia nele e ele vai gerenciar bem.

Cortês era o nome do meu restaurante.

— Me deem um desconto, faz quantos meses que não deixo o Cortês? E agora só saio de São Paulo para conhecer novos sabores em novas cidades. Me sinto nu fora de uma cozinha, ainda preciso me acostumar.

— Você precisa é de algo para distrair sua mente. Sabe que estamos dentro do paraíso e a única coisa que importa para você é se o celular vai tocar ou não. — disse. colocou a mão na própria boca, um pouco estrábica. A vida marítima não era para ela… — É a primeira vez desde o enterro de seu pai também. Já decidiu o que vai fazer com o restaurante dele?

Acabaria vendendo. Voltar a viver em Búzios estava fora de cogitação e tudo que me lembrava ao entrar naquele lugar era meu pai me deixando. O velho senhor Cortês e eu mantínhamos contato pela internet antes de ele falecer por causas naturais e quando voltei para seu enterro percebi que já não me sentia mais em casa naquele lugar. Pelo menos não sem ele ali.

Tampouco ajudou o assunto que eu precisava tratar ser algo tão triste.

Tudo que eu pensava era que pensar no falecimento de meu pai e meu restaurante pegando fogo em outro estado não era o meu ponto principal de entretenimento.

Eu precisava de mais do que uma mera distração.

**********

Atracamos e um primo de nos deu uma carona até a Pousada da Gaivota Amarela.

A estrutura era como um monte com quartos de mármore e calcário construídos em cima de um imenso morro, fazendo com que as elevações acompanhassem os andares. Era um belo e antigo monumento, com uma vista incrível, onde eu preferia passar aqueles sete dias ao invés de ter que abrir o restaurante e dormir no segundo andar de lá.

E, no fim, mais tarde teria que conversar com Jairo para lidar com a papelada e escritura para poder me livrar o mais rápido possível de tudo aquilo. Nem era um restaurante tão legal assim.

e eu levávamos as malas e chegando à recepção notamos que e Rita conversavam com o Senhor Peixoto, e parecia unilateral da parte feminina.

A loira estava sorridente e zen como sempre, falando sobre o casamento, a família que iria reencontrar para poder finalmente ficar e Rita estava chupando um pirulito. Aquela cena não poderá ser narrada para que eu possa fingir que nunca aconteceu e apagar de minha mente. Mas acredito que o seu alvo da vez era o Senhor Peixoto.

Aquele homem me dava medo… Era um velho amigo de meu pai que parecia nunca sorrir. O maior medo na infância entre meus colegas era quebrar uma das janelas de seu hotel, se isso acontecesse, preferíamos nos jogar no mar ainda que gelado antes que o Senhor Peixoto nos encontrasse e fizesse o trabalho por si só.

Ele sempre usava um chapéu cinza e camiseta branca por baixo de um colete xadrez. Nunca vi Senhor Peixoto sorrindo.

Me pergunto se ele não pensou em colocar outra pessoa para atender na recepção, afinal, era recepção e esperamos alguém amigável para que possamos nos sentir acolhidos e aceitar o preço do quarto.

Acho que a sua intenção era apenas passar medo, assim não teríamos a escolha de não aceitar o quarto. Boa ideia. Era semelhante ao que acontecia na minha cozinha. Não que eu precisasse colocar medo em alguém, porque minha comida era divina, muito obrigado.

De repente, gritos atrapalharam todo o silêncio na entrada do hotel, fazendo com que e eu derrubássemos as malas assustados, esperando algum ataque fatal de um animal não identificado.

Ah, era um ataque sim. O ataque feminino.

Juliana, e .

e Juliana são as irmãs Marche da ilha, conhecidas pelas personalidades tão distintas. Uma era fã da natureza e a outra era fã de baladas. O que não as impediu de serem melhores amigas.

E também havia . Ou também carinhosamente apelidada de Peixinho por causa de seu sobrenome Peixoto.

Existem garotas bonitas, garotas lindas e algumas maravilhosas que deixam você de queixo caído quando as vê, sentindo-se um menino na puberdade novamente que gaguejava ao falar com qualquer mulher. E existe Peixoto, que passa por todos esses níveis e acima.

Quando ainda morava na ilha, ela não somente era um acesso restrito por ser filha de Samuel Peixoto, o cara que todos os garotos da Búzios temiam e que ele poderia lhe dar um tiro somente se olhasse de lado para sua filha. Mas também havia a diferença de classes e era aquela menina que estava muito acima do meu pequeno caminhãozinho.

tinha um corpo que atraía os olhos de todos os marmanjos da ilha. Seu rosto possuía os traços mais belos e diferentes possíveis, o nariz bem desenhado, a pele brilhava assim como os seus olhos levemente inocentes.

— O TRIO CALAFRIO ESTÁ DE VOLTA! — A ruiva, Juliana, gritou.

— SE PREPARE, BÚZIOS — disse, tentando manter uma cara matadora que ficou apenas fofa.

— Nós vamos sair todas as noites e vocês vão me ajudar com as preparações. Depois, nós vamos encontrar as flores, tudo vai ser muito lindo e branco, vai ter passarinhos e a água do lado e as fotos vão sair com um tom ambiente maravilhoso… — interrompi.

— Respira, — pelo menos ela não estava mais verde como no barco.

— Vou mostrar o quarto de vocês — tomou nossa frente, animada, ignorando minha existência.

**********

— COMO ASSIM VOCÊ ESTÁ SEM A ESCRITURA? — Explodi.

— Calma, Senhor Cortês, para tudo tem uma explicação. Seu pai me deixou somente alguns documentos e não havia nada sobre o restaurante. Talvez algumas contas para você pagar, mas, além disso, nada ao meu alcance.

— E como vou conseguir vender aquela porcaria de mercado dessa forma? Vou ter que continuar pagando coletas e impostos por ele? Isso não faz sentido. Não posso repassar a casa dessa forma.

— E por isso te aconselho a pensar muito bem no assunto. É o restaurante de seu pai, onde você cresceu e aprendeu a amar a gastronomia que lhe segue até hoje. Pode não morar aqui, mas deve repensar uma viagem mensal, apenas para manter tudo em ordem.

Estávamos os dois em seu escritório a beira mar. Um local como aquele em São Paulo seria mais escuro e sério, ali poderia ser confundido com uma agência de viagens.

— Eu não tenho tempo para vir para cá todo mês, Jairo — bufei, massageando as têmporas. — Me dê o resto da papelada que eu penso no que irei fazer. Talvez conversar com o pessoal do banco que hipoteca a casa… Tanto faz.

— Está tudo aqui, garoto. Cuidei com muita importância, afinal, era de seu pai — colocou uma maleta na mesa à minha frente.

Jairo era advogado de meu pai e na morte dele todos esses assuntos passaram para ele, já que o velho Cortês tinha um monopólio que eu expandi mundo afora, então, sim, eram papéis importantes. Mas me espanta a escritura não estar com ele. Não estava comigo também. Seria esse um plano infalível do meu pai para que eu não vendesse o restaurante? Era a cara dele.

Abri a maleta preta e só havia o esperado. Contas, contas, contas. Um boletim meu escolar velho? Hm. E, no fundo, uma carta amarelada pela idade.

— Nunca a abri. É sua — olhei para Jairo e ele tinha certa expectativa em seu rosto. Qual o segredo de estado que tinha naquela carta?

Não havia um grande texto, mas percebi pela caligrafia que foi escrita por ele próprio. Já estava esperando o dia em que fosse dessa para melhor. Me senti um pouco culpado por não ter percebido que aquele dia chegaria. Ele também nunca reclamou, sempre dizia estar bem…

Ao ler aquelas palavras, meu sangue esquentou.

Não poderia ser aquilo. Não.

Ele estava realmente fazendo aquilo? Era uma forma de protesto para que eu não vendesse a porcaria do mercado e me manter preso com um laço naquela ilha para sempre? Ele estava praticamente fazendo a droga de uma caça ao tesouro comigo.

Comigo.

Aquele que presa cada tempo livre para aprender mais sobre algo que ajude na minha carreira e, sinceramente, tudo aquilo parecia uma grande perda de tempo.

Passar no banco para fazer cópias de papeladas parecia ser mais certo do que seguir as instruções em uma carta de um cara que adorava pregar peças. Não é hoje que você vai me segurar neste fim de mundo, papai.

**********

sempre esteve bem, mas agora perdi o fôlego lá embaixo — Juliana disse, com uma cara de tarada, deitada na cama ao lado da minha no hotel.

— Quando eu tinha dez anos, meu crush nele era gigante e ele nunca me deu bola — fiz bico, acariciando Pulga, meu vira-lata caramelo. — Ainda não superei.

— Isso é porque todos os meninos do Rio de Janeiro têm medo de se meter com o seu pai — disse, e infelizmente tive de concordar.

— Bom, deixando os meninos de fora agora, e aí, está preparada para o grande dia? — Juli perguntou para a irmã mais velha.

Era um pouco surreal ver as duas juntas depois de tanto tempo separadas. Meu coração estava derretido com esse encontro do milênio.

— Preparada? Sim. Nervosa? Completamente. Mas as estrelas e os cosmos estão junto comigo e irão me ajudar a fazer essa travessia para a vida adulta.

— Ah, você vai se sair bem. Não tem como errar. O amor atravessa barreiras e o de vocês dois já atravessou um oceano juntos. — Juliana sorri para ela, com um olhar apaixonado.

Apesar de ter preguiça daqueles momentos românticos, eu estava feliz também. Parecia que foi ontem que ela chorou para mim ao dizer que tinha beijado uma menina loira embaixo da árvore, no meu quintal. Claro que eles não estavam juntos na época e sequer imaginava que daria bola para ele um dia.

— Tanto açúcar me dá dor de barriga — comentei, como uma ogra, e ela jogou um urso de pelúcia em mim. — Cadê o vestido?

se levantou em um pulo e abriu sua mala, revirando algumas coisas. Retirou um protetor transparente e vimos o tecido branco e fino.

A dúvida estampava minha cara e Juliana torceu o nariz, tentando ser graciosa.

— Muito bonito… O vestido… Tem esses babados aí, né — a ruiva se levantou e pegou o vestido em mãos, parecia estar procurando a entrada da cabeça. — E tem… É branco.

— É terrível — soltei a bomba.

! — Juliana ralhou comigo.

nem ligou para o comentário.

Escuta, eu era uma mulher sincera, ok? Se minha amiga estava alucinada e preparada para se casar dentro de uma tenda de circo, ótimo, mas eu precisava falar a real.

Contudo, a bichinha estava toda feliz, rodopiando, fazendo a cauda gigante se encher, provavelmente se sentindo como uma princesa. Aquele era o dia dela e as damas da noiva não tinham opinião.

Pulga não seguiu essa linha. Se levantou do meu colo e começou a latir para e seu vestido.

— Ele não gostou do vestido — comentei, inocentemente, e Juliana me deu um soquinho no braço. — O quê? Meu cachorro tem bom gosto.

— O Pulga não entende o valor espiritual desse vestido. Pertencia à minha vovó e mais de cem almas o utilizaram no próprio casamento. Eu sei que o vestido vai dar sorte — comentou, ignorando as súplicas de estilo do meu cão.

— Será que algumas dessas 100 almas lavaram o vestido? — suspirei, levando outro soquinho de Juliana.

O latido do meu bichinho começou a ficar cada vez mais alto e para valer ele começou a rosnar contra a peça branca. olhou esquisito para mim e acho que estava ficando com medo daquela coisinha de 10cm.

— Segure essa ferinha, amiga — Juliana se escondeu atrás da porta com a irmã, se protegendo dele.

— O que deu nele? — a noiva disse.

— Eu sei lá? Talvez ele tenha sentido o cheiro das 100 almas que já usaram esse vestido — dei de ombros, tentando conter Pulga para longe das meninas.

Quando ele quase me mordeu, soltei um grito assustado e corri para trás da porta junto às meninas.

— MENINO MAU! Não vai ganhar osso mais tarde! — tentei demonstrar poder de mãe ali e ele respondeu ainda pior. Eu sabia que continha palavrões na sua língua. Pulga estava virando um adolescente rebelde.

— PULGA, NÃO! — Juliana disse, histérica.

E o inevitável aconteceu.

O vira-lata tacou seus dentinhos na tenda de circo de e rasgou metade do vestido. Ele saiu correndo como um pequeno ratinho a mil por hora e nós três fomos atrás dele, tentando resgatar o pedaço do tecido.

— VOCÊ VAI PAGAR CARO POR ISSO! — rosnou mais alto que ele dessa vez, quebrando toda sua paz espiritual.

— Ih, ela jogou os cosmos para o céu agora — Juliana comentou.

Pulga desceu as escadas do hotel e vimos o quanto estávamos ridículas e descabeladas com uma noiva ao lado e decidimos voltar para o quarto.

— Foi só um pedaço, acho que dá para consertar — falou, esperançosa, vendo a própria perna de fora no espelho.

— Honestamente, eu acho que ficou melhor assim — recebi mais um ursinho de pelúcia na cabeça.

**********

Já passava das onze e as meninas deram um jeito de aparecer no quarto em que o Senhor Peixoto colocou e eu. Elas surgiram com esse convite de invadirmos a melhor suíte da pousada, mas teríamos que entrar nela de uma forma mais inusitada, porque a filha do dono não conseguiu roubar a chave da recepção.
Então fomos até lá pela calefação.

pulou primeiro para dentro do quarto, que por sorte estava com a janela aberta, somente com um mosquiteiro facilmente removível.

Ele ajudou a noiva e Juliana a seguirem seu rastro e fui logo atrás.

apareceu depois na janela, com duas garrafas de vodca. Ela escorregou um pouco por estar com os braços ocupados e tive que segurá-la pela cintura.

Ela deu um sorriso envergonhado em troca e depois riu de si mesma.

Pulga, o vira-lata caramelo pequeno, já estava no quarto, mordendo um tecido branco. Dei de ombros, sem questionar, afinal, ele era o rei daquela pousada.

Naquela altura, já estávamos alterados por conta do álcool e ouvindo o bom e velho MPB.

— E agora temos que encontrar alguém para consertar tudo. — finalizou a história da tarde das três.

e eu olhamos para o cachorro mastigando aquele tecido e tudo fez sentido, mas fiquei com um pouco de medo da força dele.

— Você até que está levando tudo numa boa, Peixinho. Eu estaria surtando neste momento se algo tão importante assim do meu próprio casamento tivesse dado errado e eu só tivesse uma semana para dar um jeito em tudo.

— Isso porque você vive a vida através de uma agenda — riu e fiquei indignado.

— Ei! Pensei que fosse meu amigo. De qualquer forma, o que isso significa?

— Acho que o estava acertando na ponta do menino paulista aí — comentou, rindo.

— Menino paulista? O que isso significa?

— Ah, é um apelidinho que surgiu aqui — Juliana encolheu os ombros. — Os garotos que jogavam futebol com você ou estudavam juntos começaram a de te chamar de menino paulista quando você foi embora.

— O quê? Por quê? — fazia sentido por eu estar morando fora, isso era óbvio. Mas eu sabia que não era somente por isso e eles também sabiam.

— Não é nada demais — tentou desconversar. — Eles só estavam pegando no seu pé.

— Agora eu quero saber.

— Também tinha os sinônimos comuns, como garoto da cidade grande, senhor falta de espontaneidade e algumas vezes playboy. Diziam isso porque você tinha a vida toda planejada desde os treze anos, basicamente — Juliana respondeu.

— E isso é ruim? — bebi um gole do copo.

— Claro que não. Ainda assim falavam — encolheu os ombros.

— Eu concordo completamente — disse .

— Coragem viu, ? Falavam o mesmo sobre você, ou ainda pior — Juliana riu.

— Pois então discordo completamente.

Revirei os olhos.

— Então essa é minha fama na ilha, o cara estrangeiro que quis ter um futuro brilhante, huh. Não é tão ruim — pareci mais confiante do que estava na minha mente.

— Somos espontâneos — nos defendeu, isso aí! — É por isso que vou me casar.

Todos vaiamos seu comentário e Juliana jogou uma almofada na cara de .

— O que está tentando dizer é que, bom, estamos aqui, não é? Nossa viagem até São Paulo foi espontânea — tentei contornar.

— Foi nada — começou. — Vocês se preparavam para a faculdade a vida toda. Notas boas desde o jardim de infância. E nem existe nota no jardim de infância.

— Perdão se eu estava atrás de estabilidade na minha vida — disse, sarcástico, começando a me incomodar.

— Estabilidade é bom quando você já passou por toda a rota. Comprar um estabelecimento para iniciar o próprio negócio foi uma loucura legal. O resto que ouvi de você é trabalho, trabalho, gastronomia, trabalho… — e ela continuava a repetir de forma monótona.

— Ok, entendi. Mas talvez seja isso que me deixa feliz, trabalhar. — sorri como se tivesse ganhado.

— Talvez? Não tem certeza? Olha, amar o trabalho é legal. Mas se você está tão preso a uma rotina, não pode abrir os olhos para o que tem ao redor. Algo que esteve sempre com você e parece que não teve tempo de vivenciar com gosto aquilo. E isso faz com que você passe a amar somente o que conhece.

Ok, aquelas palavras me pegaram de jeito. Notei que os outros três já estavam engatados em outra conversa e e eu estávamos mais próximos.

O problema era que parecia ser mais do que somente aquilo. No fundo das palavras de , tinha algo por trás que parecia até mesmo pessoal eu ter dado as costas pra ilha. Somente não parecia o local ideal para ter certeza e perguntar mais sobre isso.

Não me dei por vencido e continuei me defendendo.

— Toda a vida é um desconhecido. Eu não sabia que a gastronomia daria certo, porém deu, e estou feliz com isso.

— Não estou questionando sua felicidade, longe de mim, só que é tudo o que você conhece, não é? Como sabe que só ama isso se é só isso que faz? — ela sorriu espertinha. — Falta em ti, meu bom homem, espontaneidade.

— Eu sou espontâneo. — Começaria a me espernear como uma criança em minutos. Como provar isso? E por que me importava tanto a opinião dela? — Bem, eu cheguei aqui prestes a vender o restaurante de meu pai. E não vou mais fazer isso porque recebi uma carta dele.

— Que carta? — perguntou , interessado novamente. E todos já estavam inteirados da conversa e eu não poderia voltar atrás sobre isso.

— Uma carta — pensei em como falar. — É estranha, mas ele fez um tipo de caça ao tesouro? Com analogias sobre os locais em que devo procurar pistas de alguns documentos do restaurante para que eu tenha o direito sobre ele novamente. Não entendi a razão dele, mas…

— Que locais? — perguntou.

— Locais da ilha. Há um mapa atrás e um ponto está desenhado.

— E você vai fazer? — perguntou. Dei de ombros com uma careta estampada no rosto. Faria? Para provar minha espontaneidade?

— Se é importante para o Senhor Cortês, acho que você deveria fazer. Do contrário, ele não mandaria a carta. A razão deve ser a mesma coisa que eu acho sobre você, . — sorriu, como se tivesse um segredo.

Eu iria perguntar o que era, mas alguém bateu na porta antes. E foi o suficiente para causar um reboliço no quarto. Principalmente por reconhecermos muito bem a voz de quem nos chamou.

Senhor Peixoto estava ali. E se o que tivesse dito era real, estaríamos em sérios problemas se ele nos pegasse na suíte principal.

— Se ele me pegar aqui, vai me matar. — sussurrou, com medo evidente.

— Ele vai matar todo mundo.

— O que vamos fazer? — a acompanhou no drama, enquanto Juliana se escondia debaixo da cama.

correu para desligar a luz e fez o mesmo com a caixinha de som.

O casal acabou se escondendo debaixo dos cobertores e entrei no armário de roupas com .

Ouvimos o “click” da maçaneta alto demais e os passos do Senhor Peixoto. Ele não acendeu a luz e com sorte tínhamos lembrado de colocar o mosquiteiro outra vez na janela.

— Vem logo — sua voz reclamou, e passos pequenos e repetitivos o seguiram para fora.

— Ele não dorme um dia sem o Pulga — sussurrou com uma risada ao meu lado. Samuel se afastou e finalmente fechou a porta. Somente aí voltei a respirar com calma. — Relaxa, menino da cidade.

Revirei os olhos no breu. Ela tomaria esse apelido em qualquer oportunidade agora para me irritar, não é?

Sorte dela que outra coisa estava me incomodando depois de tempo demais próximos dentro de um armário.

Virei a atenção para a maçaneta e não consegui abrir de primeira. Tentei mais algumas vezes e nada. ficou nervosa.

— Gente? Podem abrir por fora? A maçaneta tá toda errada — ela pediu, por dentro.

Senti os passos do lado de fora e a luz foi acesa. Pelas frestas, dava para ver tentando abrir a porta, sem resultados.

— Ok, se afasta.

Peguei a distância possível e forcei o impacto de meu ombro na porta de madeira. Nada.

— O que você pensa que tá fazendo? O hotel já está velho e você quer acabar com o resto dele! — brigou comigo, batendo em meu ombro de leve.

— É isso ou continuamos aqui a noite toda e esperamos seu pai abrir. — falei o óbvio.

As tentativas do lado de fora estavam nulas e por dentro passei a forçar a maçaneta mais algumas vezes, sem sucesso. Por fim, decidimos que deveria ir até a recepção roubar as chaves da suíte para que conseguíssemos sair logo dali.

suspirou atrás de mim e achou um local confortável para se sentar no chão.

— O que está fazendo?

— Ninguém vai conseguir quebrar essa porta. Juliana tá a meia hora vendo vídeo no YouTube sobre como arrombar uma maçaneta, não para de meditar e só vai encontrar a recepção amanhã. Então vou tentar tirar uma soneca enquanto isso, porque eu tô bêbada e exausta.

Troquei olhares da porta e para ela e decidi que a garota tinha um bom ponto.

— Justo — me sentei na sua frente, me encostando ao armário de trás. Olhei para o meu relógio. — Mais trinta minutos e perderemos o casamento da .

— Os cosmos não deixariam. Aposto que ela casa mesmo com o vestido cortado pela metade.

— Cá entre nós, o vestido ficou melhor com a ajuda de Pulga — encolhi os ombros e ela riu. No meio do silêncio, tentei resgatar algo que tinha me deixado com uma pulga – não o cachorro – atrás da orelha. — , sobre o que disse mais cedo…

— Esquece isso, .

— É que me pareceu um pouco mais sério do que soou. Possivelmente, eu li entrelinhas coisas estúpidas. Mas e se tiver um tom de verdade nessa história?

— O que você quer dizer com isso? — arqueou a sobrancelha.

Pensei em contar a ela sobre algumas coisas que estavam entaladas no meu peito desde que parti, mas o meu cérebro dizia que definitivamente não era um bom momento.

Endureci quando ouvi a porta do quarto se bater. Os passos acompanharam até o armário e a sombra se estabeleceu em minha frente.

E pá.

A maçaneta estava no chão.

arregalou os olhos quando a porta se abriu. Era Rita. Com um pijama branco, um guarda-chuva em mãos e óculos escuros. Ela havia quebrado a maçaneta com o guarda-chuva? Uau…

— O próximo que interromper meu sono de beleza com tanto barulho vai levar esse guarda chuva na garganta. — disse, para . Senti medo por ela.

Quando a velhinha finalmente saiu do quarto, batendo a porta com força, a morena voltou a respirar.

**********

— Aqui. — entreguei um pão com ovo frito para .

Eu estava sentada na mesa da cozinha da pousada, pois estávamos os dois morrendo de fome e um pouco nervosos pelo quase flagra do meu pai.

É engraçado porque meu pai nem é tão mau assim, acho que só a ideia de ele me pegar no quarto de alguns garotos meio bêbada dava mais medo do que se realmente acontecesse.

— Vai mesmo tentar cozinhar para um mestre cuca? — deu um sorriso malandro.

— Esqueci que você era um. Devolva. Agora.

— Tarde demais — ele levantou o sanduíche e deu uma gloriosa mordida no pão. Levou alguns segundos para receber sua resposta e pensei que ele faria o movimento da Ana Maria Braga embaixo da mesa a qualquer segundo. — Está perfeito!

— Posso trabalhar no seu restaurante?

— Depende. O que mais você pode cozinhar?

— Sei fazer miojo.

Que nojo, como eu chamo. Aquele negócio tem mais sódio do que o mar vermelho.

— É daí mesmo que vem o gostinho que eu adoro.

Continuamos a devorar nossos pratos e o silêncio até que não era constrangedor. Acho que eu já estava velha demais para esse tipo de coisa e o álcool no meu sangue me ajudava a ficar aqui.

A de dez anos estaria surtando ao saber que teria um lanche da madrugada na pousada do pai com o garoto mais bonito da ilha. Pelo menos na perspectiva dela.

— Sabia que nossos pais eram grandes amigos? — perguntei.

— Claro. Toda terça era noite de pôquer no Cortês.

— E na pousada era toda quinta. Seu pai sempre foi muito legal comigo e era notável a falta que ele sentia de você.

Ele pareceu ter sentido bastante aquela frase, por isso desconversou. Não queria tocar em qualquer ferida que ele tinha com o seu pai, pelo contrário, não pensei que tivesse.

— Estranho nós nunca termos ficado tão próximos quanto eles — comentou.

Ah, bobinho, a de 10 anos tentou muito que isso acontecesse. Mas você só queria saber de futebol no campinho enquanto ela preferia assistir ao Disney Chanel.

— Você sempre foi mais velho e focado nos estudos enquanto eu estava por aí colocando fogo nas coisas com as meninas pela ilha inteira — tentei soar bem mais legal e menos trouxa do que fui na minha mente.

— Você conhece esse lugar com a palma da sua mão, não é?

— Gosto de achar que sim — encolhi os ombros.

— Tenho uma pergunta — ele tinha perdido toda sua confiança quando soltou essa pergunta.

— Manda bala — falei, sorrindo.

— O primeiro lugar dessa possível caça ao tesouro que meu pai falou fica na praia da sereia, eu acho. É onde está um círculo vermelho, no mapa atrás da carta.

— Ok… Onde está a sua dúvida nisso? — apesar de tudo, nasceu ali. Ele sabia exatamente onde ficava a praia da sereia. Tínhamos passeios escolares para este lado da ilha. Era um lugar incrível.

— Acho que vou precisar de uma testemunha para a minha espontaneidade, . E você é perfeita para a jornada. Você topa?

 

    • Nota da autora: E aí, o que acharam, florzinhas? A história é um projeto antigo, originalmente com pouquinhos capítulos e inspirado no filme Mamma Mia <3 Espero que gostem!

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