Chicago Med

  • Por: Lívia Velásquez
  • Categoria: Originais
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Sinopse: Quando uma mulher descobre seu valor, nada, nem ninguém pode pará-la e eu posso provar.
A Direção do Gaffney Chicago Medical Center estava nas minhas mãos. Exercer tal poder pode lhe fazer encarar boas caretas mal-humoradas, estas, que não me causam medo, porque no final do dia a cabeça que descanso no travesseiro é casa de uma consciência limpa de quem não traz desaforo pra casa, e de quem sabe do esforço que encoraja.
Gênero: Drama, romance.
Classificação: Livre.
Restrição: Nomes como Natalie, Seiji e Andre em uso.
Beta: Elena Alvarez.

— A Dra. Williams nos colocou em uma situação difícil. – Exasperou o médico assim que adentrou minha sala, deixando até mesmo que a porta batesse atrás de si.

— Você quer falar que eu nos coloquei? Que tal falarmos, sobre, apenas estarmos nessa situação porque a garota não tinha outra opção. A família mora em Indiana. -Contrapôs à loira.

— Onde precisa de consentimento dos pais em todo procedimento médico. – Completei-a.

— Ela teve medo de contar pra eles e não viu para onde correr, então, procurou na internet sobre medicamentos abortivos. É um beco escuro e sem saída o aborto nessa geração! – Doutora Natalie Williams aumentou o tom de voz, impaciente, batendo ambas as mãos ao lado do corpo.

— Não fazemos as leis, mas temos que segui-las, Natalie. – Dr. Seiji tornou à contrapor. — Jennifer é menor de idade, o que significa que temos que dar aos pais boletim médico completo.

— Não. O teste de gravidez ainda é positivo. Portanto, sob a lei, ela é emancipada.

— Estava grávida, não está mais.

— Tecnicamente, ainda está.

— Senhorita ? – O Dr. Chong me intimou, direcionando seus olhos apreensivos até mim, não muito diferentes dos de Natalie, que cruzava os braços, bufando alto. Suspirei, retirando meus óculos de grau calmamente, descansando-os em cima da mesa.

— Admito que tenho um argumento fraco, mas a emancipação cobre as decisões de uma mulher, inclusive nos termos de uma gravidez. No meu entendimento, a senhorita Jennifer River já fez a escolha dela.

— Então, trairemos a confiança dela? – Natalie inflou as narinas.

— Bem, não é o que eu estou sugerindo.

— Temos que obedecer a lei e contar aos pais. – Fora a vez de assistir Dr. Chong cruzar os braços na altura do peito, com um ar superior.

— Isso também não está exatamente certo, Seiji. – Vi seu sorriso murchar em segundos e prossegui. — Se tivéssemos feito um aborto médico, o que não aconteceu, então, o estado de Illinois diz que somos obrigados a contar aos pais. Mas, agora, que ela já teve a medicação fora deste estado, então, nem mesmo eu, tenho muita certeza.

— Então, a senhorita não pretende contar aos pais sob detalhes técnicos? – O doutor voltou a se indignar.

— Não. Porque a paciente exigiu sigilo. – Natalie se pronunciou.

— Sugiro que continuem a tratá-la de acordo com os desejos e necessidades dela, até que os advogados do hospital tomem uma decisão. – Revezei o olhar entre os dois, sentindo-os satisfeitos na medida do possível.

— Obrigada, senhorita . – Dra. Williams se despediu com um aceno de cabeça, mesmo que eu ainda pudesse ver o sorriso mínimo que brotara no canto de seus lábios.

— Obrigado. – Seiji Chong agradeceu carrancudo como de costume, atravessando porta afora.

Permaneci na sala da Diretoria por mais alguns minutos, estes que não contei e não me interessavam quantos eram, mas que foram suficientes até que assinasse todos os contratos pendentes dos novos fornecedores de materiais cirúrgicos.

Há poucos dias em uma revista local especializada em negócios, tecnologia e economia o nome do Gaffney Chicago Medical Center fora citado em letras garrafais, o que nos resultou em publicidade da melhor qualidade, aumentando as preferências pelos cirurgiões e consequentemente, engordando os cofrinhos do hospital.

Os poucos dias na Diretoria absoluta do hospital quase metropolitano de Chicago estavam há todo vapor e isso, nem de longe me assustava, pois não havia nada que com os anos de experiência que tenho, não pudesse resolver. Isso é uma certeza.

Fechei as pastas com os devidos contratos, percebendo a pilha que quando amontoados, formava. Busquei meu celular em cima da mesa para sair da sala com o propósito de verificar o maior número de leitos em departamentos distintos. Não era fácil mantê-los na linha, afinal.

Os saltos faziam ecos no andar administrativo enquanto eu andava, estes, que logo foram calados pelo alvoroço de alguns andares abaixo, mais especificamente o do Pronto-Socorro.

— Maggie, o que está acontecendo aqui? – Perguntei para a enfermeira-chefe assim que a localizei na localização de macas por todos os lados.

— Algum louco espirrou um específico tipo de spray em uma feira de artesanato no centro da cidade. As maiores ocorrências são de falta de ar, ardência pela pele e olhos. A polícia o deteu e estão investigando a procedência do spray.

— Me dê um kit, vou ficar por aqui, também.

— Não, , você não quer fazer isso. – Alertou-me em tom maternal. — Uma vez que você entra nesse PS, você não consegue mais sair dele.

Maggie, da forma maternal que sempre gostou de ser, coordenava o Pronto-Socorro da sua melhor maneira e não havia nenhum defeito à apontar ali, até porque, a superlotação faz parte da profissão.

Contornei o balcão que nos separava enquanto conversávamos, me agachando para separar para mim um kit de espécie de roupas para paramentação cirúrgica, vestindo-a de imediato. Lancei um olhar significativo para Maggie que pelo tempo de amizade, saberia muito bem que o significado deste era que não havia nada que me impedisse de fazer o que me desse na telha, e eu não pararia até que visse aquele PS com sala de espera, vazia.

Os leitos estavam quase em sua lotação máxima e a maioria dela, se dava apenas por crianças, que estavam com ataque de asma ou algum tipo de bronquite, tendo de ficar ligadas à tubos de O². Outras tinham queimaduras superficiais ou algum membro luxado, deslocado ou quebrado na hora da correria do desespero. Os poucos adultos que foram vítimas do ataque pareciam aguentar de forma mais paciente o atendimento, no entanto, eram atendidos com a mesma dedicação que os pequenos.

Me responsabilizei por quatro leitos que já estavam com os pacientes devidamente identificados pela passagem na triagem.

— Bom dia, mãe. – Cumprimentei-a assim que adentrei o cômodo, vendo que se levantara de prontidão. — Sou , Diretora-Chefe do Hospital. O que aconteceu com esta princesa?

— Ela tem asma, perdeu a bombinha na correria no parque e cada vez que tosse, piora. Está reclamando de dor no ombro direito, também. – Explicou atropelando algumas palavras e apertando a bolsa junto ao seu corpo, angustiada de forma que os nós de seus dedos esbranquiçavam. Assenti com as informações iniciais que a mãe repassara, tirando o estetoscópio de uma das gavetas do armário estreito que fazia parte do padrão dos leitos.

— Certo… – Iniciei incerta.

— Lindsay. – A responsável pela criança me completou e eu agradeci com um sorriso.

— Certo, Lindsay, preciso que respire o mais fundo que conseguir assim que eu pedir. Consegue fazer isso? – A criança mal concordou com a cabeça, porém fora o suficiente para mim. — Puxa pelo nariz e solta pela boca. Um, dois, três e já. – Encostei o diafragma do estetoscópio em seu tórax, mudando de localização vez ou outra assim como comandava a respiração da criança à minha frente.

Os sibilos auscultados inspiratórios eram claros e de quebra, a pulsação cardíaca em uma crise de asma, estava na medida do possível.

— Vou colocá-la na inalação com soro, berotec e atrovent pra aliviar a falta de ar e então, vemos o ombro, tudo bem? – A mãe assentiu acelerada e logo preparei a inalação, dando baixa na medicação na ficha da paciente. — Lindsay, vou mexer no seu ombro e preciso saber onde dói, mas sei que você é corajosa demais, então logo acabaremos com isso. – Expliquei calmamente, recebendo a ajuda da mãe da paciente para manter o tronco dela ereto enquanto, com três dedos, pressionava levemente algumas partes nos ombros da criança, estudando a expressões em seu rosto. Lindsay contraiu as sobrancelhas, contudo não reclamou, gemendo assim que deslizei os dedos para a esquerda, encontrando o ponto de dor. — Aparentemente é apenas uma luxação na escápula e não há com que se preocupar, talvez de uma queda na correria. Suspeitei que fosse apenas o impulso exagerado que ela fazia pra respirar, mas se fosse os dois lados doeriam e não apenas um. Para conclusões precisas, vamos fazer um Raio-X e suprir as dúvidas. E eu juro que não dói nada, Lindsay! – Pisquei marota para a menina. — Assim que acabar essa inalação, alguém da pediatria virá buscar vocês para levá-las até o andar pediátrico para o Raio-X e outras duas inalações, uma com quarenta minutos de intervalo da outra, ok?

— Obrigada doutora. Ela já teve crises terríveis de asma, então quando começa uma eu já me apavoro inteira! – Riu, sem jeito.

— Não se preocupe, ao final da medicação um médico vai checá-la de novo. – Retirei as luvas descartáveis que usava, descartando-as na lixeira mais próxima e atualizando a ficha de Lindsay presa à porta. Balancei a mão em um último tchauzinho’, sinalizando para Maggie que tudo ocorrera bem e seguindo para o leito 6, do outro lado do corredor.

O leito já estava ocupado por outro médico e me virei, perguntando silenciosamente à Maggie o que aconteceu, e ela deu de ombros, como quem dizia que estava tão por fora da situação quanto eu. Busquei outro par de luvas de látex e peguei a ficha do paciente, estudando-a por alguns poucos segundos. Dylan, 14 anos, deslocou o dedão da mão esquerda e tinha ferida exposta no joelho direito, mediante à sete pontos. O médico esterilizava o joelho do garoto, que parecia inquieto de medo, para que começasse a sutura. Voltei a ficha para seu lugar anterior, sabendo que haviam pacientes em piores condições por aquelas salas, me retirando dali.

Corri nos outros dois leitos que era responsável e os mesmos já estavam sob cuidados de outros médicos, e mais rápido do que imaginei, as coisas voltavam à se acalmar.

Maggie atualizava no computador do PS as entradas e saídas de medicamentos do dia, mantendo os dados atualizados.

— Pois não, doutora? – Zombou assim que me viu aproximar.

— As coisas normalizaram cedo, não é estranho?

— Demais. Ter a Diretora perambulando por aqui faz, principalmente os residentes, trabalharem mais. – Comentou amarga, com o tom risonho que carregava naturalmente.

— Oh! Você não deveria ter me dito isso!

— Oh! Eu gosto de ver o circo pegando fogo! – Rimos juntas ainda que baixinho e logo a vi se virar para se encaminhar à triagem. Tão rápido quanto Maggie, me desfiz das vestimentas e me encaminhei ao elevador para finalizar a ronda dos departamentos.

Enquanto me deslocava até o último andar, chequei automaticamente meu celular sem muitas novidades ou mensagens relevantes, ouvindo o tilintar das portas do elevador assim que se abriram.

O último andar é cheio de obstáculos, logo, o mais severo de todos, mas também, de onde muitos milagres se tornavam realidade. Neste andar fica situada à especialização de cirurgia de trauma e os residentes que passavam por ali, tinham os olhos curiosos, abismados até, de vez em quando, mas era de se acostumar.

Chequei o computador do departamento verificando as entradas e saídas para internação cirúrgica do dia. Perambulei corredores e corredores, checando postura dos médicos, higiene, fichas e tudo o que me era permitido. Conversei com alguns pacientes em recuperação e um ou outro que estavam a minutos da cirurgia que mudaria suas vidas. Vi ao fundo uma maca ser posicionada em um quarto, de um paciente que acabara de acordar, indo até lá.

Me encostei no batente da porta do quarto, observando o médico que explicava para ele como a cirurgia se saíra e em suas palavras: um tremendo sucesso. Com alguma dificuldade, o paciente desviou o olhar do médico para mim, chamando a atenção do outro que também se virou.

— Olá. Parte da família do senhor Jackson está lá embaixo, na cafeteria. – Ele me informou, automático e sem muito interesse de ouvir minha resposta, retirando-se do cômodo assim que ajustou o Oxigênio do paciente. Ri nasalado sem me importar muito, porque, querendo ou não, mais cedo ou mais tarde, ele saberia que não sou paciente e nem acompanhante por aqui.

Com o olhar, o observei cruzar o longo corredor de paredes brancas e azuis, com sua pose inabalável de quem sabe mais que os outros e que sabe que é o melhor cirurgião traumatologista que Chicago já viu. Chequei o relógio em meu pulso, concluindo que faltavam poucos minutos para mais uma reunião entre o comitê, coisa que ocorrera muito frequentemente nos últimos dias.

Havia muito o que discutir, parte de uma crise começava à cair sobre o hospital e o comitê não parecia querer entrar em comum acordo tão cedo. Um e outro, queriam radicalizar à ponto de pôr o prédio abaixo e recomeçá-lo do zero; Outros queriam apenas um reajuste de valores nos exames conclusivos, apenas.

A sala de reuniões já tinha a ampla mesa com seus devidos lugares ocupados por todo o comitê do hospital, a maioria deles, folheavam suas pastas e isso não era bom sinal. Os advogados do hospital também estavam presentes, todavia se pronunciavam apenas quando requisitados.

— Boa tarde. Não entramos em comum acordo quanto às mudanças a serem feitas, no entanto, as contas estão se apertando e algo precisa ser feito. Hoje. – Decretei categórica, na ponta da extensa mesa, sentindo todos os pares de olhos se voltarem a mim.

— Meus advogados estudaram os relatórios da semana passada e preciso dizer… – Walter, quatro cadeiras a minha direita, riu, em ironia, abrindo os botões do seu paletó muito bem cortado. — Esse relatório completo me causa ataque de risos! Se meu comitê visse isso, estariam pedindo um voto de desconfiança. – Finalizou, referindo-se à empresa fornecedora de alimentos que herdou de seu pai -e que logo passaria para seu filho-, tirando os óculos de grau dos seus cabelos grisalhos e pousando-os em seus olhos.

— O Senhor pode ver que um dos nossos problemas fiscais é a sala híbrida do PS, que financiou apenas parcialmente, Walter.

— Creio que o resto do comitê concorda comigo que minhas contribuições foram bem generosas. E para ser sincero, vejo muitos dos seus projetos parados, incluindo a reforma da Ala VIP. Há dezenas de leitos vazios lá. – Rebateu em uma postura firme como uma rocha.

— E como Diretora-Chefe deste hospital preciso lhe esclarecer que há outro projeto para a Ala VIP, mas, antes das plantas estarem prontas não posso simplesmente derrubar paredes. – Cruzei minhas mãos encima da mesa. — Ainda estamos no processo de reformulação. Por isso, faremos alguns cortes em outros departamentos para suprir os gastos da sala híbrida no meio tempo, unicamente por este semestre.

— E no próximo semestre? – Cristina López, representante internacional, perguntou.

— Se a crise persistir no próximo semestre… Nós fechamos a sala híbrida. Alguma dúvida? Ou podemos dar este assunto como encerrado? – O silêncio se permaneceu, para a minha surpresa, pois na minha cabeça, a reunião duraria horas e teria ânimos exaltados. — Muito obrigada, comitê dispensado.

Sabia que ânimos se exaltariam assim que pudesse reunir os médicos especialistas de todos os departamentos, porque muitos deles, senão a maioria, usufruía da sala híbrida, contudo não era como se fosse essencial. Até que pudesse reuni-los, acharia a melhor maneira de alertar sobre os dias contados da sala e lhes dar soluções alternativas a partir da anulação do programa.

Esta sala híbrida, nada mais é, do que uma espécie de triagem para pacientes em estado grave. Em uma hemorragia interna, por exemplo, a sala era perfeitamente equipada para suprir as dificuldades de um procedimento emergencial deste porte, nos poucos segundos em que nos era humanamente possível. Por abranger apenas casos graves, a sala acabava sendo usada duas vezes por dia, no máximo, o que por um lado, é ótimo, mas quando os cofrinhos emagreciam, se tornava a perfeita chance de corte de gastos.

Os equipamentos da sala híbrida serão distribuídos em leitos do PS e continuarão suprindo todas as carências, porém individualmente, e não reunidos em apenas uma sala com gastos diários.

Aguardando que o comitê se dispersasse, chamei um dos advogados, James Messer para esclarecer o caso que a Dra. Williams e o Dr. Chong me apresentaram nesta manhã. Era mais complicado do que imaginava e no final das contas, ambos estados estavam envolvidos.

Como dito mais cedo, assim que tivesse uma resposta, daria à eles e fora isso que busquei após atravessar os corredores do PS, bem mais calmo desde o que o deixara.

— Maggie. – A chamei, vendo-a soltar os tablets que sincronizava. — Chong e Williams: onde estão?

— Leito 2 e leito 6. – Apontou na direção deles, respectivamente, e eu lhe ofereci uma piscadela em agradecimento.

Andei até o primeiro que Maggie me indicara, verificando os quartos pelos quais passava e chegando até onde Dr. Seiji trabalhava, no momento, de costas para mim, comentava algo da ficha do paciente, com o doutor que há pouco vi no andar de trauma. Adentrei o quarto pegando um par de luvas de látex e me adiantando em examinar o paciente que, no momento do surto no PS, era um dos pacientes pelos quais me responsabilizei. O garoto Dylan, de 14 anos, estava desacordado, o que era muito estranho para quem chegara com o diagnóstico de joelho ralado e dedo deslocado. Dylan estava entubado e quando me aproximei dele, vi Chong se virar para mim, percebendo minha presença. Busquei a lanterna em uma das gavetas próximas à maca, abrindo um dos olhos do menino, verificando as pupilas que não estavam dilatadas. Me voltei até os pés do paciente, livrando-os da coberta, em um lapso passei a caneta nos pés dele, esperando algum reflexo e fora em vão.

— Quantas vezes preciso dizer? Residentes não pegam um caso na metade. – O outro médico que dividia o caso com Seiji Chong se pronunciou, agitado e desdenhoso. — Se quer um caso só seu, volte para o PS e coloque um band-aid em alguém.

— Dr. , ela não… – Chong iniciou, incerto e eu levantei a mão, como se pedisse que parasse. Meneei a cabeça para fora do leito, me retirando e ouvindo os passos dele atrás de mim. — Sei que não conheceu todos os médicos daqui ainda, , mas o é um dos melhores, não se deixe enganar pela carranca.

— Me preocupa que ele use desse tom com qualquer um aqui. – Revirei os olhos. — Preciso conversar com você e Natalie. Os advogados deram um veredito.

Seiji me acompanhou quando me dirigi até o leito 2 para buscar a Dra. Williams que dava alta para um dos pacientes do atentado mais cedo. Pela forma que nos olhou, sabia sobre o que se tratava e que após a palavra dos advogados não havia o que pudéssemos revogar. Fomos até a cafeteria, alguns andares acima, para uma conversa mais particular sem que precisasse encurralá-los. Os médicos aproveitaram para comer alguma coisa na pequena pausa que tiveram e eu apenas mordisquei um bolinho que mataria minha fome o suficiente pelas próximas horas.

— E então? – Natalie me apressou, assim que nos aconchegamos em uma mesa do refeitório da lanchonete.

— Se o corpo de Jennifer expelir o feto, ela automaticamente não será uma mulher emancipada pela lei de Chicago e então, precisaremos contatar os responsáveis. Se a gravidez persistir e não apresentar risco à jovem, ela estará protegida inclusive pelas leis de Indiana, como se houvesse dado entrada aqui, com uma febre.

— Mas, se a gravidez for de risco, mesmo que ainda não expelindo o feto…? – Dr. Chong deixou a frase no ar.

— Nós faremos a cirurgia e se necessário, curetagem. – Esclareci.

— Então, ela está sob a guarda de lei de um estado ou outro, apenas em casos extremos? – Natalie, perguntou, entre indignada e confusa.

— É o que podemos oferecer, garantindo à ela a chance de sobrevivência. – Mordi o bolinho, soltando um muxoxo em seguida.

— Confesso que achei que seria um veredito mais severo.

— Eu também. – Dr. Chong concordou com a colega de trabalho. — Obrigado, senhorita . – Assenti com a cabeça, oferendo à eles um sorriso reconfortante sem mostrar os dentes, me retirando da mesa e desfazendo do que restara do bolinho, retornando ao PS.

Desde que atravessara as portas automáticas do Pronto-Socorro pela primeira vez no dia, vi Maggie descansando o rosto ancorado em uma das mãos, com cara de tédio.

— É estranho ter silêncio nesse lugar. – Ela proferiu, em voz arrastada. — Podemos ouvir os bipes das máquinas. – Jessica, enfermeira, logo apareceu ao lado de Maggie, enquanto checava o computador.

— Não estou acostumada à ter esse PS em silêncio. – Jess continuou o raciocínio de Meg.

— Reclamação por falta de trabalho é música para os meus ouvidos! – Sorri, vendo-as reagirem da mesma forma.

— Falando nisso, senhorita , tem um garoto que está aguardando o pai ser atendido após o atentado e não sai do lado dele. Geralmente pedimos isso ao Dr. Simon, mas ele está com os residentes de Psicologia.

— Nem termine, Jess! Posso dar conta disso! – Pisquei marota.

— Eu avisei que você jamais conseguiria sair daqui! – Meg disse mais alto, o suficiente para que eu ouvisse enquanto me deslocava até o quarto.

— Andre Sullivan, 8 anos. Caiu sobre o braço no meio do atentado, sem deformações ou deslocamentos. – Jessica disse baixo assim que avistamos pai e filho que conversavam entre si.

Dei três batidinhas na porta do quarto, atraindo os olhares para mim.

— Ouvi dizer que por aqui tem um rapaz muito corajoso cuidando do pai, estou certa? – O pai, Harry Sullivan, sorriu assim que me pronunciei, mas não vi Andre fazer o mesmo. Tentei distraí-lo assim que Jess começava preparar o pai do garoto para a cirurgia aguardando que o especialista chegasse.

— Não seja mal-educado, Andy. – Harry o repreendeu, mesmo que ternamente. O garoto de cachos castanhos logo levantou seu olhar para mim.

— Eu quero ficar com meu pai. – A voz fina do menino estava chorosa e demonstrava claramente toda a insegurança que sentia.

— Seu pai está com a enfermeira e logo estará com um médico, coisa que você poderia nos permitir também. – Comentei serena, assim que me sentei ao seu lado. — Me chamo . – Estiquei minha mão, em um cumprimento formal, aguardando ser correspondida. O garoto hesitou, para de pouco em pouco desfazer os nós que suas mãos formaram de tanto tempo escondidas em meio aos braços cruzados. Andre gemeu choroso assim que tentou esticar o braço esquerdo, voltando a cruzar o direito por cima, acanhado.

De relance vi a Dra. Saxton da Traumatologia chegar apressada, pegando com Jessica os updates dos exames.

— Quem é ela? – Andre se levantou, correndo até a beirada da maca do pai.

— Ela é uma médica muito boa e que vai ajudar seu pai, mas pra isso precisamos dar espaço à ela.

— Não vou sair daqui.

— E não vamos sair mesmo. Mas, podemos nos afastar um pouco, o que acha? Só pra que possam trabalhar direito. – Andre estava hesitante. — Quanto mais ela trabalhar, mais rápido seu pai melhora. – Seus ombros antes curvados de tensão, se aliviaram, e pude achar uma brecha na desconfiança do garoto. O conduzi gentilmente pelos ombros até a saída do quarto. — Então, vamos vê-lo daqui.

— O que elas estão fazendo? – Andre esbugalhou os olhos enquanto espalmou as mãos na porta transparente que separavam os leitos, como se buscasse enxergar cada detalhe atentamente.

— Está vendo aquela máscara sobre o nariz dele? – Ele assentiu agitado. — Aquilo o ajuda a respirar melhor e esta máquina que estão posicionando em cima dele, serve para que possam enxergar por dentro dele, como a visão de Raio-X do Super-Homem. – O pequeno finalmente deixou que um pequeno sorriso brotasse em seu rosto. — Aquela moça de jaleco, é uma médica muito esperta e se encontrarem algo errado no tórax dele, é ela quem vai consertar.

— O que vão fazer agora? Por que estão levando ele? Pai, pra onde você vai? – Andre se apoiou na beirada da maca, abraçando desajeitado, o que podia do pai.

— Estou indo lá em cima tomar injeção e enquanto isso, preciso que você fique aqui e seja corajoso. Venha aqui. – O pequeno se aproximou o máximo que pode, e Harry se livrou da máscara de oxigênio. — Sei que está assustado, mas eu acredito em você.

— Certo, eu consigo! Serei corajoso!

— Seja corajoso! – Baguncei os cabelos do garoto, ouvindo as palavras do pai e assistindo-o se despedir com ‘tchauzinhos’ energéticos.

— Vamos cuidar do braço do garoto mais corajoso que este hospital já viu! – O encorajei mais uma vez, indo em direção contrária ao elevador que o pai do menino entrara. Recebendo a piscadela de Jessica antes que as portas do elevador se fechassem.

No andar pediátrico, procurei por uma tipoia que o ajudasse na atenuação da dor que sentia, no meio tempo em que aguardávamos ser chamado para o Raio-X. Permaneci ao lado dele em todos os segundos que me fora possível, para que não se sentisse desamparado. Sabia que não era a função principal da minha profissão, mas do que adianta ostentar dos melhores suplementos e não cuidar de quem os recebe? E esta é a minha prioridade, fazer o que estiver ao meu alcance.

Assim que acomodado em um dos leitos pediátricos, Andre recebeu um litro de soro endovenoso para manter-lhe hidratado e uma inalação para desobstruir os brônquios. No meio tempo, o garoto se distraiu com os gibis da Sala de Espera que lhe ofereci, mesmo que vez ou outra visse seus olhinhos se dispersarem da leitura encarando as paredes, como se esperasse que seu pai atravessasse alguma delas. Calculando o horário em que o garoto deu entrada no atendimento com o pai, logo teria direito ao seu almoço, um tanto tardio, admito, mas que o fez se ajeitar apressado na maca assim que a enfermeira adentrou o quarto com a badeja. Andre se lambuzou com o pudim de chocolate e fez as pupilas brilharem quando se virou para mim perguntando se poderia ter mais um destes, no entanto não me contive e quando dei por mim, já voltava do refeitório com outro pudim em mãos.

Suas pálpebras pesaram e em poucos minutos, o garoto dormia tranquilo e sereno. Deixei um post-it colado na capa do gibi que não soltara desde o vira, com um “Já volto” de letras grandes e sorrisos em volta.

O andar de traumatologia estava repleto de residentes e todos tinham cirurgias para assistir e fazer anotações, porque o extenso andar comportava e apoiava tal desempenho.

Me dirigi ao computador, buscando pelo nome de Harry Sullivan e as atualizações sobre o estado clínico estavam em branco, o que me dava duas opções: ou a cirurgia ainda estava em andamento, ou o pior havia acontecido. Retornei ao PS o mais rápido que me fora possível, vendo que Jessica checava o computador e fui até ela.

— Ele ainda não saiu de cirurgia. – Jess proferiu como se lesse meus pensamentos sobre o que buscava.

— Não me olhe assim.

— Ao que tudo indica, precisaremos dar a notícia ao garoto. – Engolimos em seco, sentindo uma mão pousar em meu ombro, percebendo que Meg estava por ali também.

— Procure por algum parente, precisamos da autorização pra notificar o menino e para buscá-lo também.

Peguei as fichas em cima do balcão e assinei as dos pacientes que haviam tido alta no período da manhã e começo de tarde, vendo a de Harry Sullivan em meio à papelada, causando-me arrepios involuntários na espinha.

Afundei quando sentei-me à cadeira da Diretoria, mais uma vez, sentindo a impotência cada vez mais cruel enquanto me rodeava. Permaneci alguns momentos desta forma, imersa na escuridão da sala, encarando a visão do pôr-do-sol e sem muita reação, porque não havia muito o que fazer quando a própria esperança que criou, escorre pelos seus dedos. Meu celular tocou, encima da mesa e me estiquei para olhar o visor, que indicava inúmeras mensagens de Jessica, que as ignorei, tomando a coragem que carecia para acender as luzes e continuar o trabalho que sabia ter nascido para exercer.

Pelas paredes laterais e transparentes da sala, pude ver Dr. Chong andar em passos largos e apressados em direção à porta, como se tentasse impedir algo, que veio à calhar quando ouvi o baque da porta ao se chocar com a parede.

— Não pode banir a Sala Híbrida! Chegou esses dias e não pode simplesmente mandar e desmandar. – Ele proferiu as palavras estúpidas e descabidas conforme se aproximava da minha mesa a passos pesados.

— Desculpe , ele simplesmente perdeu a cabeça e… – Seiji tentou argumentar.

— Não me interrompa, Seiji. – Virou o rosto para o colega de trabalho que observava um tanto afastado. — Se quiser desativar a Sala Híbrida, vai precisar passar por cima de mim primeiro, senhorita. – Cuspiu as palavras, ríspido e imponente como se nada, nem ninguém, pudesse realmente desafiá-lo. Cruzei meus braços na altura do peito, encarando-o, como se aguardasse que terminasse seu show, mesmo que só quisesse enxergar seu nome no jaleco.

… Certo? – Iniciei cortês. — O cargo de Diretora-Chefe me dá sim, o poder de desmandar e mandar exatamente o que eu achar melhor. E uma das duas coisas que quero mandar agora, é o seu tom desagradável pelos corredores. – Ele mordeu o lábio inferior e passou as mãos inquietas pelos cabelos castanhos muito bem penteados, soltando uma risada irônica em seguida.

— Não me interesso sobre o que te incomoda. – Espalmou ambas as mãos na minha mesa, aproximando para me encarar. — O meu foco é a Sala Híbrida que teve um gordo investimento do meu pai e sem este dinheiro, sequer estaria aqui. – Sussurrou com a voz rouca, talvez na tentativa de me intimidar.

— Não se sinta privilegiado, porque pretendia conversar com todo o Corpo Médico, mas vejo que está difícil de entender. – Enlacei minhas mãos vagarosamente, pousando-as à mesa, sentindo seu olhar seguir cada movimento meu. — A Sala Híbrida é o maior motivo de crise financeira no hospital, e entre fechar leitos ou a SH, eu escolho a Sala Híbrida.

— Sua primeira gestão, é uma piada.

— Então, eu sugiro que engula suas palavras, porque na minha gestão, estas são as decisões e não pretendo voltar atrás. – Me pus à sua altura, com as mãos espalmadas na mesa da mesma forma, cravando os olhares tempestuosos.

— Senhorita… . – Abaixou o tom, buscando meu sobrenome da plaquinha que tinha em cima da mesa, acomodando-se em uma das cadeiras de frente para mim. Ao fundo, vi Chong bufar audível e dar as costas, fechando a porta atrás de si. — Não queira me desafiar. Porque, se perguntar pelos corredores, saberá que não é uma boa ideia.

— Não tenho medo do que isso quer dizer. – Me aconcheguei na poltrona atrás de mim.

— Está brincando com fogo, Diretora.

— Não queira medir influências, Dr. .

— Não fique no meu caminho.

— Não questione minhas decisões, , porque como eu dizia, uma das duas coisas que me é de direito refutar é o seu tom rude, e a outra, é a Sala Híbrida que é uma realidade.

— Ainda não é uma realidade… . – Fez uma pausa, como anteriormente, para ler meu nome na plaquinha em cima da mesa, suspirando e se levantando, para se retirar da minha sala em passos mais calmos, ainda que imponentes e presunçosos como o vira fazer em cem por cento das vezes.

Chequei o relógio em meu pulso, pegando o celular para abrir as mensagens de Jess, estas, que me avisavam que Andre acabara de acordar e minhas pernas automaticamente, se apressaram até o andar pediátrico.

— Achei que tinha ido embora. – Ele murmurou amuado, assim que me viu adentrar o quarto.

— É claro que não! Mas, ajudo outras pessoas por todo o hospital, também.

— No que você trabalha aqui? – Ele perguntou, curioso.

— Sou a Diretora-Chefe.

— Na minha escola a Diretora é muito brava e grita o tempo inteiro. Você também grita? – Gargalhei com a inocência da sua pergunta.

— Quando é necessário, sim.

— Você dá advertência?

— Também! – Assenti com a cabeça, energética como ele. — Agora, nós já podemos tirar o acesso do seu braço, porque você foi corajoso e aguentou esse tempo todo de medicação!

— Não vou tomar mais nada? – Suas sobrancelhas se arquearam, em surpresa.

— Não mesmo! Mas, vai ficar com a tipoia por alguns dias, enquanto o braço estiver doendo, tudo bem?

— Não é tão ruim! – Deu de ombros, assistindo-me vestir as luvas para retirar o acesso. Andre fechou os olhos, abrindo-os apenas quando já havia retirado à agulha, segurando o algodão que colocara no local. Peguei um dos band-aid coloridos, substituindo o algodão e vendo-o dobrar o braço, como se agradecesse por não ter que mantê-lo esticado. — Cadê o meu pai?

Meu coração gelou e minha garganta travou. Uma coisa era dar esta notícia para um adulto que tinha a consciência de que fizemos tudo o que pudemos. Outra totalmente diferente era ter que explicar os termos para o pequeno que tanto confiara em mim.

Jessica adentrou o quarto carregando uma bandeja com os materiais que usaria para retirá-lo do acesso e parou ao meu lado assim que percebeu, que já o havia tirado, compartilhando da minha agonia ouvindo a pergunta do menino. A enfermeira maneou com a cabeça que saíssemos do quarto, e eu a segui assim que o fez.

— Achamos uma tia do garoto, em Nova Iorque e ela está vindo pra cá, mas vai demorar algumas horas. – Jess se apressou em me atualizar.

— Ela deu permissão para contar? – A mulher assentiu à minha frente, pesarosa.

Andre estava encolhido na cama, pequeno, assustado e indefeso desde que ouvira as palavras mais duras que eu poderia proferir para alguém de esperanças tão acesas. Me sentia egoísta e desumana. Impotente e indigna. As palavras de agora pareciam fazer enorme sentido quando reverberaram na minha cabeça: “Sua primeira gestão, é uma piada”. Eu mal conseguia me sentir inteira, após dar uma notícia que era específica da profissão. Era uma piada completa.

O garoto permanecera de costas para mim, abraçado ao gibi que lhe entregara mais cedo e podia ouvi-lo fungar vez ou outra. Mesmo que não quisesse muito de mim ali, continuei ao lado de Andre até que sua tia chegasse e assinasse os papéis da alta médica. Nada parecia consolá-lo, nem mesmo a cópia fiel que sua tia era de seu recém-falecido pai.

Reuni coragem, repassando os detalhes da cirurgia para ela, aproveitando Andre distraído amarrando os cadarços dos tênis no intervalo em que pintava algum desenho na Sala de Recreação, ao lado. Ingrid queria chorar tão deliberadamente quanto o sobrinho, mas ao mesmo tempo, queria se manter forte para que ele mesmo se mantivesse. Ingrid também autorizou a doação dos órgãos do irmão, da maneira que ele mesmo havia confessado a ela tempos atrás, como se adivinhasse. A mulher secou as lágrimas que brotavam desesperadas nos cantos dos olhos e chamou Andre, que recolhera seus desenhos e enlaçara sua mão à da tia.

Me afastei quando a vi se agachar na altura do menino, sussurrando palavras tão bonitas quanto as últimas que o pai proferira à ele, me virando para deixar o quarto, antes que minha gestão se tornasse um show de horrores, por completo.

— Senhorita ? – Ingrid me chamou e eu me virei assim que atravessei a porta semiaberta do quarto. — Andre quer te dar uma coisa. – Em passos receosos, ele veio até mim, com os desenhos que fizera há pouco, dobrando-os. — O envelope, Andre! – Ingrid se apressou até nós, ajudando-o a colocar as folhas de forma que coubessem no envelope cor-de-rosa. Recebi o envelope de suas mãos, ansiosa para abri-lo. — Não pode abrir agora, apenas quando sairmos. Palavras dele. – Sussurrou a tia do menino. — Obrigada, senhorita , vocês fizeram tudo que estava ao alcance de vocês, eu tenho certeza.

Andre correu até o elevador, apertando o botão inúmeras vezes, enquanto a tia agradecia atenciosa à Jessica também. O elevador chegou e Ingrid se apressou, alcançando o sobrinho que se despediu com ‘tchauzinhos’ repetitivos e intensos, me deixando com um sorriso bobo que queria brotar no canto dos meus lábios. Suspirei assim que as portas se fecharam, levando-os para longe de mim.

O dia fora de longe, um dos mais longos que já precisei enfrentar e começava contar os segundos até que pudesse sentir o conforto dos lençóis ao meu redor. Joguei minha bolsa no ombro, me despedindo dos demais que permaneceram no PS. Atravessei o estacionamento, em direção ao meu carro, avistando-o de longe, vergonhosamente estacionado ao lado de um belíssimo Porsche 992, preto e polido de forma que era possível refletir o pouco do brilho da Lua nesta noite. Girei a chave nos dedos, destravando o carro e abrindo a porta do banco do passageiro pra que eu jogasse a bolsa.

— Boa noite, Diretora. – Fechei a porta no baque do susto e me virei para encará-lo. estava com os braços cruzados e encostado confortável no capô do lindíssimo Porsche.

— Boa noite, Dr. . – Respondi tão automática quanto ele, dando a volta no carro para adentrar o lado do motorista.

— Dia longo?

— Você que o diga. – Forcei-lhe um sorriso, adentrando o carro, colocando o cinto de segurança e dando partida, abrindo o vidro do lado do passageiro para deixar um singelo ‘tchauzinho’ para , arrancando até em casa.

Nem mesmo o silêncio da minha própria casa fora capaz de cessar os pensamentos inquietos que me rondaram durante todo o dia, e mais especificamente, as últimas horas. A ducha demorada que tomei também não fora capaz de desatar todos os nós que provocava a tensão em meus ombros, os travesseiros empilhados atrás de mim não causavam o conforto que procurava e mal chegavam perto de tal. Tentei dormir, revirando no colchão durante um bom tempo, levantando para fazer um chá, porque este sim, como receita da minha mãe, era certeiro para o sono.

A caneca fumegante em meio aos meus dedos, causava uma pequena pontada de aconchego, fazendo com que eu apenas desejasse sentir mais daquela sensação, pois era exatamente o que precisava. Na televisão ligada, nem mesmo meus queridos amigos reunidos no Central Perk foram capazes de animar o resto da noite e reparei na bolsa que jogara na poltrona do quarto assim que o adentrei. O envelope de Andre estava lá.

Afastei as cobertas, de forma desajeitada, me apressando até a bolsa e revirando-a até que encontrasse o envelope rosa, que me custou inúmeros xingamentos, para que o tivesse em meus dedos. Sentei na beirada da cama, abrindo calmamente o envelope simples, retirando as folhas dobradas de lá.

Aos desdobrá-las, meu coração acelerou de forma que parecia ter se curado do que lhe faltava. Do que eu não sabia que faltava, até senti-lo completo da forma que o sentia agora. Repleto de gratidão e transbordando amor. O mais sincero dos amores. O amor de agradecimento.

Uma das folhas, havia sim um desenho, de traços desajeitados e que parecia muito ser eu, de jaleco e símbolo da SuperGirl exposto nos primeiros botões abertos do jaleco.

Na folha atrás do desenho, as letras eram irregulares e atrapalhas, nos dizeres que fizeram me faltar o ar.

“Para a Diretora legal e que não grita.
Que me deu pudim
Um band-aid irado
E um gibi engraçado.
Obrigada senhorita , você é sensacional!”

Meus olhos lacrimejaram enquanto lia e relia a carta durante inúmeras vezes, aproveitando a sensação de conforto que buscava. E estava na carta de Andre. Dormindo com o coração aliviado -e com o desenho de Andre exposto na cabeceira ao meu lado-, meu corpo descansou da forma que implorava e minha mente desacelerou, tranquila.

Estacionei ao lado do Porsche de que permanecera na mesma vaga da noite anterior, sem muito tempo para perder por ali, contornando o hospital e adentrando pelos fundos que era um caminho fácil para a cafeteria. O refeitório estava vazio, exceto pelo trio de residentes que faziam anotações mais ao fundo e me cumprimentaram com acenos tímidos de cabeça. Fiz o pedido do café da manhã já que não estava na animação de prepará-lo em casa, aguardando-o na mesa de canto, que proporcionava a visão do jardim mais a frente, recebendo os poucos raios de sol que começavam nascer.

Respondi alguns e-mails pessoais até que o café chegasse, forte do jeito que eu gostava e fumegante de forma que embaçava as lentes dos óculos de grau que estava. Me mantive entretida nas mensagens de mamãe que insistia em saber se eu estava comendo bem e se o clima de Chicago era rigoroso, bebericando o café vez ou outra.

— Bom dia, . – tirou minha bolsa da cadeira à minha esquerda, para sentar-se ali. — Espero não a ter assustado novamente. – O sorriso cínico em seus lábios me causava repulsa.

— Bom dia, . Acho que isso é algo que devo me acostumar, certo? – Vi a garçonete depositar a xícara de café a sua frente, e ele se servir de um dos meus cookies. — Servido? – Lhe ofereci os cookies, irônica, após vê-lo devorar um em apenas uma mordida.

— Ser um cirurgião cobiçado tem seu preço, Diretora. Não pude sequer passar em casa.

— Temos a Ala VIP reservada nesta manhã. – Me limitei, lembrando-o de uma cirurgia que movimentaria mais de um departamento.

— Isso não me espanta. – Mordeu mais um cookie, dando de ombros em seguida. — Queria me desculpar pela forma que lhe dirigi antes de vê-la, de fato, como Diretora-Chefe. – Confessou como quem não queria nada, olhando-me apenas de esguelha.

— Deveria tomar mais cuidado como se dirige, então, Dr. .

— Ou os residentes deveriam ser menos intrometidos. – Bebericou de seu café.

— Doutor ? – A voz de uma das enfermeiras soou apressada atrás de mim, e ele assentiu. — O senhor operou Elijah Jackson?

— Sim. O que houve?

— Ele teve uma para cardiorrespiratória súbita e não resistiu. A família o aguarda.

andou em passos largos e apressados sem olhar para trás, pude ouvi-lo pedir para que segurassem o elevador. Juntei minhas coisas, sem terminar o café porque sabia que com este caso, muita coisa poderia acontecer.

Me dirigi diretamente ao último andar, onde o senhor Jackson havia sido operado horas atrás.

Uma senhora gritava em alto e bom som, palavras desconexas brecadas pelas lágrimas, apontando o dedo para , que permaneceu quieto, vendo que me aproximava do tumulto.

— Bom dia, sou , Diretora-Chefe do hospital. O que está acontecendo? – Me apresentei calma, tentando conter alguns dos ânimos.

— Seu cirurgião… Matou o meu marido. – Disse da sua melhor forma, entre lágrimas, a senhora que ainda apontava o dedo em direção à .

— Eu mesma chequei o estado do senhor Jackson ontem, e o pós-operatório foi um exato sucesso, assim como toda a cirurgia.

— Talvez a conduta dele, não foi das melhores.

— É do direito de vocês, abrirem uma Assembleia com o comitê do hospital e discutirem as decisões tomadas pelo Dr. . – Esclareci.

— Meu marido não vai voltar, mas eu quero alertar toda a Chicago do cirurgião que elegeram o melhor do ano. É uma fraude!

Alice Jackson estava à minha esquerda da mesa em que reunimos o comitê, enquanto ocupava a direita. Os advogados ocupavam as mesmas cadeiras que o dia anterior, assim como Walter, pai de e que não conseguira conter-se quanto ao motivo da Assembleia.

se apresentou cortês ao comitê e iniciou uma explicação incisiva de como a cirurgia se iniciara, os instrumentos que usara e quem o auxiliou. Não houve complicações e na verdade, o procedimento não era dos mais complexos.

O cirurgião não parecia tenso, ao contrário, estava seguro de si, mas cá entre nós, isso não é novidade alguma.

— Quero deixar claro que sou totalmente responsável pelo caso do senhor Jackson, incluindo seus resultados, mesmo que tais decisões custem a minha Licença. – finalizou, tomando seu lugar à minha direita mais uma vez.

— Então, Dr. , deveria saber que não o convocamos apenas para acusá-lo, mas para defendê-lo também. – Levantei da minha cadeira, encarando todo o comitê atento. — Eu, particularmente, o convoquei para me desculpar. – Pigarreei, quando ouvi alguns burburinhos tomarem voz. — Os residentes que assistiram a cirurgia deixaram claro em suas anotações que seus métodos e decisões foram éticos e claros. Revisei o caso do senhor Jackson e com a gravidade do trauma, não encontrei motivos para discordar. Em voz do comitê, decreto que você não é responsável pela morte do senhor Jackson e está livre com sua Licença para continuar seu trabalho.

Alice muito tentou argumentar, mas nada havia que indicasse negligência médica por parte de e ela estava encurralada.

Retornei à minha sala, sem alimentar as picuinhas que rodearam a Assembleia, aconchegando na poltrona atrás da minha mesa, refletindo como em poucos minutos, este hospital dera tantas reviravoltas.

Algumas pastas estavam empilhadas na mesa e destas, só me faltavam assiná-las, coisa que fiz automaticamente, travando nas duas últimas, de fisionomia diferente das outras que voltariam para os Arquivos do hospital.

Na primeira, nada havia para assinar, pois em letras garrafais, o estado de Washington me convidava pra palestrar sobre a melhor forma de manter uma administração hospitalar, durante um evento de grandes representantes pelos jardins da Casa Branca. A indicação acontecera após administrar os corredores do Saint Mary’s Los Angeles Hospital, meu antigo posto, onde permaneci durante cinco anos.

Isso sequer era algo à se pensar, eu mal podia acreditar!

Aparentemente as surpresas não paravam por aí. Meu coração mal teve tento de normalizar os batimentos cardíacos acelerados quando me dirigi à segunda pasta.

Nesta pasta não carecia da minha assinatura, também, até porque se tratava de uma doação anônima de U$2 bilhões e meio de dólares em prol das atividades do hospital!

Ouvi batidinhas na porta, arrancando-me do transe, aguardando que entrassem.

— Não estou acostumado, mas me parece ser a segunda vez que serei gentil com você, . – mergulhou as mãos inquietas nos bolsos do jaleco, aproximando-se da minha mesa.

— É bom se tornar um hábito, nos veremos muito daqui em diante. – Fechei a pasta da doação anônima, cruzando minhas mãos encima dela. Esforçando-me pra conter o sorriso que queria dominar de canto à canto do meu rosto.

— Obrigado por acreditar no meu trabalho e se esforçar para provar a autenticidade dele.

— Hoje é como um dia de sorte, Dr. . – Pisquei marota para ele, quebrando a bolha de seriedade que nos encobriu.

— Não imagino o porquê. – Puxou a cadeira para se sentar.

— A Sala Híbrida acaba de ser salva.

— Algum milagre?

— Na verdade, uma doação anônima de dois…

— Dois bilhões e meio de dólares. – Cruzou os braços, na altura no peito e minhas sobrancelhas se arquearam.

, você não pode estar falando sério!

— Mas eu não disse nada, senhorita. – Os olhos verdes do homem estavam mais intensos do que nunca, e seu sorriso cafajeste à tiracolo não o abandonava jamais. Não rebati, e ele também não parecia muito disposto à fazê-lo, porque logo se levantou, indo em direção à porta.

, você pode e deve, reinaugurar a Sala Híbrida. – Segurei a maçaneta antes que ele o fizesse, pondo-me à sua frente.

— Não preciso de muita coisa, senhorita. – Pousou sua mão sobre a minha, que segurava a maçaneta, cravando seus olhos intensos demais em mim.

— Não disse que precisava. – Murmurei de voz ridiculamente falha quando seus olhos passearam meus lábios.

— Mas eu ouvi seu corpo, me chamar, . – Damon se aproximou cauteloso, de forma que minhas costas bateram na porta, deixando-me entre ela e o corpo do homem.

— Não vou dizer que está errado.

— Não adiantaria. – tirou sua mão que ainda estava por cima da minha para girar a chave da porta, trancando-a, fazendo com que o barulho da fechadura causasse um sorriso em ambos.

Subiu a mão da fechadura até a minha cintura, onde a enlaçou, forte e imponente, quebrando o pouco de distância que havia entre nós.

— Alguma objeção, Diretora? – Senti seu hálito quente bater na minha bochecha e sua voz se tornar mais rouca com o sussurro.

— A demora.

— É só suspense, senhorita. – Ele sorriu, causando arrepios ridículos por cada centímetro do meu corpo, embrenhando a mão livre em meus cabelos e puxando-me para um beijo.

O beijo que era doce para contradizer sua personalidade, mas hipnotizante como seu perfume e feroz, como gostava de me deixar.