Deixe-Me Ficar

Deixe-Me Ficar

  • Por: Tai Aguiar
  • Categoria: Originais
  • Palavras: 1099
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  • Capítulos: 21 | ver todos

Sinopse: Depois de tantos problemas e com 338 km de distância deles, ela tenta esquecer o passado destruidor e recomeçar a vida. Cada dia é uma luta, principalmente quando seu irmão tenta a reaproximação da família. Durante uma das insistidas de Christian, ela é “salva” por um dos caras mais famosos do campus, e a partir daquele encontro, tão inesperado e confuso, ele decide que precisa conhecer a tão misteriosa garota e, aos poucos, despertar o amor adormecido dentro dela.
Gênero: Romance.
Classificação: 14 anos.
Beta: Regina George.

1

— Isso só pode ser brincadeira. — Resmungo para mim mesma enquanto desço a escada branca de madeira desviando dos copos vermelhos jogados pelo chão.

Ainda é quarta feira, eu estou atrasada para a primeira aula e minha casa está uma zona. Mas, claro que a culpa também é minha porque fui eu quem escolhi morar numa casa de líderes de torcida e é óbvio que a rotina delas, além de manter as notas lá no alto e frequentar os treinos, é encher a casa com o time de futebol no meio da semana. Isso não seria um problema pra mim, se eu não fosse a louca da limpeza. Ok, eu não moro só com líderes de torcida e esse não é o verdadeiro problema.

Maddie e Alexis, as duas líderes, e Sofia, minha amiga de faculdade, são as meninas que dividem a casa comigo. E eu agradeço sempre que posso por elas terem me acolhido, mas bem que podiam manter a ordem de vez em quando. Desvio do corpo de Ethan Boots deitado no chão da sala para chegar na porta da frente, e tento não bater a madeira na coxa do atleta enquanto saio de casa. Ethan é o casinho de Maddie, mas sempre que ele dorme aqui em casa, é na sala, nunca no quarto dela. Não me pergunte o porquê.

Engato a marcha ré do meu Honda Civic assim que entro no carro, e saio da garagem virando na direção certa para o campus, sem poupar o pedal do acelerador no percurso. Estaciono na primeira vaga mais próxima ao meu prédio e corro para aula, depois de me certificar que só tenho alguns minutos para chegar antes que o professor note o meu super atraso. Mas é claro que ele nota, e me fuzila com o olhar durante os 40 minutos restantes de aula, porque além de ser meu professor, Christian é meu irmão mais velho.

Ele encerra a aula dando as orientações para o trabalho final e eu tomo o cuidado de anotar absolutamente tudo, porque Chris pode ser meu irmão, mas a minha responsabilidade como aluna ainda é a mesma. No começo do outono consegui pegar essa matéria pendente com outro professor, mas o senhor Smith sofreu um acidente e meu irmão precisou substituí-lo; como eu já estava matriculada, me recusei a desistir das aulas, e nós dois assinamos um termo de responsabilidade para que o parentesco não atrapalhe no decorrer do semestre.

— Você chegou atrasada de novo. — A voz grossa ecoa pela sala de aula, agora vazia, e eu levanto a cabeça do caderno

— Sim, não ouvi o despertador, eu estava cansada. — Tomo cuidado com as palavras, ficando na defensiva; nunca sei se nesses momentos ele está falando como Christian irmão, ou como Christian professor.

— Por que não foi dormir mais cedo ontem? — Ok, aqui está o Christian irmão. Posso subir meus escudos.

— A lanchonete estava cheia e eu precisei ficar até mais tarde.

, você não precisa trabalhar, você sabe que… — meu irmão começa o discurso e eu automaticamente bloqueio os meus ouvidos. Odeio depender dele financeiramente e não vou ficar sem trabalhar só porque ele acha que ainda sou a garota frágil de dois anos atrás. Sou muito grata pela ajuda que ele me deu, com o carro e com a bolsa aqui na faculdade, mas quero ter o meu próprio dinheiro.

— Obrigada, mas eu passo. — Respondo quando noto que o discurso acabou e recuso qualquer que seja a oferta que ele tenha proposto.

— Tente ao menos reduzir os turnos, não quero ver você se saindo mal na faculdade.

— Não estou me saindo mal, apenas cometi o deslize de não ouvir o despertador. É algo que acontece com todo mundo, sabe? — Termino a frase numa pergunta retórica, já colocando meu caderno na mochila, pronta pra levantar e cair fora.

— Eu sei, … — o olhar triste que meu irmão deposita em mim deixa claro o que ele está pensando. Faço questão de descer por entre as fileiras rápido o suficiente para ele notar que quero ir embora antes de ter essa conversa.

— Não vou chegar atrasada na semana que vem, Christian. — abro a porta da sala já ouvindo o burburinho universitário no corredor, estou prestes a sair quando ouço a voz melancólica do meu irmão.

— O final de semana dos pais está chegando. — Prendo a respiração por dois segundo ao ouvir isso, antes que eu consiga pensar com clareza sobre a sexta palavra proferida na frase, e saio batendo o pé, como a irmã caçula que sou. — ! — ouço o grito do meu irmão, mas agora já me misturei entre os alunos e preciso correr de volta para o estacionamento.

A minha visão já está turva quando vejo, de longe, meu carro estacionado na vaga pequena. Deixo a primeira lágrima escorrer e a enxugo rápido, diminuindo o ritmo dos meus passos. Não olho pra trás pra conferir se Chris está me seguindo, embora saiba que ele não é capaz de fazer uma cena no estacionamento do campus. Final de semana dos pais. Pais.

Só de pensar neles sinto a bile subir, e preciso engolir em seco, respirando fundo. Tem dois anos desde que vi meus pais pela última vez, e não sinto a mínima vontade de colocar os pés naquela cidade novamente. Estaria mentindo se dissesse que não sinto falta do colo da minha mãe, mas ela fez a escolha dela e eu não sei se sou capaz de perdoá-la.

! — Ouço longe a voz do meu irmão e acelero o ritmo dos meus pés. Mantenho a cabeça baixa, fingindo que não é comigo. Parece que eu estava errada, Christian quer fazer uma cena. Meu carro está a seis passos de distância, e eu vou chegar lá ilesa.
Cinco.
Quatro.
Três.
Do… sinto os dedos grandes segurarem meu cotovelo antes de eu alcançar a porta do motorista, e sem olhar pra trás já sei quem é.

. — a voz dele sai como uma súplica, e eu me obrigo a virar o rosto.

2

Não sei o que está acontecendo enquanto caminho para o estacionamento, mas tem um burburinho bem atrás do meu carro. Ok, não é um burburinho. É um cara, segurando uma menina pelo cotovelo, e ninguém ao redor está fazendo absolutamente nada para impedir a briga que vai acontecer.

Meu colega de apartamento costuma assistir algumas lutas, eu não entendo nada, mas presumo que esse cara está em uma posição prestes a bater em alguém. Não diminuo o ritmo dos meus passos porque estou louco para ir embora, então me aproximo com a intenção de pedir para que o casal desloque a briga para o fundo do carro estacionado ao lado, sabe… para eu poder sair.

Mas quando eu me aproximo o suficiente para entender o que está acontecendo, noto que na verdade o cara está na defensiva, e que a verdadeira posição de luta vem da morena baixinha, e com lágrimas nos olhos. Balanço a cabeça, segurando o riso. Nunca vi essa garota no campus, mas “baixinha” com certeza não é um bom adjetivo para defini-la no momento.

— Eu não tenho nada pra falar com eles, Christian. — A voz áspera da garota invade meus pensamentos, e eu sou o único que aparentemente parece incomodado com a cena, e não é só porque está acontecendo atrás do meu carro. O tal do Christian bufa de modo grosseiro, e eu sinto que é o meu momento de interferir, mudando a abordagem, porque agora que ouvi o que a garota tem a dizer – que no caso é absolutamente nada – não quero que a briga mude de lugar, quero que ela acabe.

— EI, — começo falando mais alto do que devia, atraindo a atenção dos dois, enquanto me encosto no Audi. — Achei que tivéssemos combinado de estudar na lanchonete, não precisava me esperar aqui. — Direciono meu olhar para a garota, que parece confusa.

— O quê? — Foi a vez do babaca abrir a boca. Viro meu rosto lentamente em direção aos dedos que ainda seguram o cotovelo fino, e depois levanto o olhar para ela de novo. Gatinha, espero que você tenha entendido meu resgate. E ela entendeu, porque aproveita a confusão pra se soltar, se aproximando de mim.

— Achei que seria legal se fossemos juntos, para já ir passando o assunto no carro. Você sabe que não tenho muito tempo antes do trabalho. — Ela sorri amarelo.

— Por mim tudo bem — aperto o botão da chave e o alarme do carro soa atrás de nós.

— Ainda não acabamos aqui, — o segurador de cotovelos olha pra mim com a testa franzida, e faz uma careta enquanto pronuncia
Ok, é o nome dela.

— Na verdade…

— Na verdade, — eu interrompo — Você e eu sabemos que a não pode se atrasar pro trabalho, cara. Sugiro que se você precisa da ajuda dela, peça em um outro momento, porque agora ela não está disponível. — Concluo tranquilo enquanto abro a porta do carona, não sei se ela vai ter coragem de entrar, mas a minha parte eu estou fazendo, e eu percebo isso só em notar o olhar de gratidão.

Salva pelo gongo, . Ou melhor, salva pelo .

— Eu tô de carro — ela aponta pro Honda Civic estacionado na vaga do lado. Por essa eu não esperava.

— Ok, vamos no seu então — dou meia volta, fechando o Audi e ativando o alarme, enquanto paro ao lado da porta do carona do carro cinza.

! — o cara balbucia mais uma vez.

— A gente se fala depois. — Ela abre o carro quase correndo, enquanto simula uma despedida e senta no banco do motorista.

— Até mais, Chris — ironizo quando entro no banco do passageiro e bato a porta. Não tenho tempo de falar absolutamente nada, porque já engatou a ré, e já deixou o cara comendo poeira no estacionamento.

***

Os próximos dez minutos são de um silêncio sufocante. dirige com as duas mãos apertando o volante tão forte que os nós dos dedos estão brancos. Eu queria ser capaz de falar alguma coisa para descontrair, mas não sei nada sobre ela, e talvez ela precise desse silêncio mórbido, já que nem o som do rádio ligou.

Aproveito o momento para relaxar no banco, afrouxando um pouco o cinto de segurança, e uso minha visão periférica e apurada para analisar a minha motorista, que parece dirigir sem rumo. Os cabelos ondulados, de um castanho diferenciado, caem pelos ombros, emoldurando o rosto fino. As feições são marcadas por uma expressão dura, e eu tento imaginar o que aquele cara fez pra deixá-la desse jeito. Ele deve ser um babaca.

O clima ameno do outono permitiu que vestisse somente uma legging preta, que se adequa de forma justa no seu corpo e vai até o tornozelo, encontrando o cano alto do all-star vermelho. As pernas são compridas, e eu mordo o lábio inferior, segurando um sorriso só de lembrar do fatídico momento em que cogitei chamá-la de baixinha; tenho certeza de que a mulher sentada ao meu lado não tem menos que 1,68.

Na parte de cima, ela veste uma camisa fina, branca, de manga longa, que lhe cai muito bem, marcando o busto de forma que eu preciso pensar em qualquer outra coisa, para não chamar atenção. O corpo de parece ter sido esculpido de forma especial e por um momento eu me pergunto como nunca havia notado essa garota antes. Será que ela é caloura?

— Seu carro. — Ouço ela sussurrar e levanto o olhar.

— O quê?

— Você, — ela tira um dedo do volante e aponta pra mim de uma forma meio torta. — Deixamos o seu carro no estacionamento e eu nem sei quem é você.

— Você não se importou com isso antes de arrancar o carro com um desconhecido dentro. — Eu acuso, abrindo um sorriso, e a vejo revirar os olhos cor de mel. — Eu sou o , aliás. É um prazer conhecê-la, — estendo a mão de modo educado e ela me olha atravessado, claro que não vai tirar a mão do volante para me cumprimentar.

. — Ela é seca na resposta e eu recolho a mão. — Pode me chamar de — explica.

Eu balanço a cabeça concordando, talvez ela não esteja com vontade de ouvir piadinhas idiotas ao seu respeito, então é melhor ficar calado.

— Vou fazer o retorno, pra você ir buscar seu carro.

— Não precisa. — Simplesmente não sabia pra onde ela estava dirigindo, então mandei uma mensagem e pedi pro Tyler ir buscá-lo com a chave reserva. — Um amigo já está indo buscar. — Tyler Wesson é meu melhor amigo, aliás. E agora eu estou lhe devendo uma.

— Hmm — ela faz um beicinho, e eu preciso me controlar para parar de olhar. Pelo amor de Deus, , você não tem mais quinze anos. — Onde você quer que eu te deixe, então?

— Para onde você estava indo, antes de lembrar que eu estava no carro?

— Para o Up’s House B&B, — ela faz uma curva, entrando em uma avenida mais tranquila — é lá que eu trabalho.

— Tudo bem, eu estava mesmo com vontade de comer um hambúrguer. — Comento abrindo um sorriso torto, e ela olha para mim quase cedendo um sorriso.

Ainda temos cinco minutos antes de chegar na lanchonete, e minha língua está coçando para descobrir mais um pouco sobre ela, quando o silêncio é quebrado de novo.

— Obrigada, aliás. — ela balbucia e eu aproveito a oportunidade para matar minha curiosidade.

— Ele é seu namorado?

— O Christian? É meu irmão mais velho. — realmente, ele parecia velho demais pra ela; mas cada um tem seu gosto né? — E é professor, por isso eu acho que você foi o único capaz de se meter. Eu não costumo precisar de ajuda para encarar meu irmão, mas ele me pegou desprevenida e então… Desculpa, estou falando demais.

Eu mantenho o meu sorriso aberto, porque aparentemente é do tipo de menina que fala demais quando está nervosa, e eu adoro isso.

— Não precisa se desculpar, nem se justificar. — eu a tranquilizo. — Às vezes minha irmã também precisa de ajuda para se livrar de mim. — Quando termino de falar, já estacionou no Up’s, e vira pra mim abrindo um leve sorriso.

— Também foi um prazer conhecê-lo, . — Ela diz e se prepara para sair do carro, me convidando em silêncio para fazer o mesmo.

3

Quando eu entro no Up’s, sei que ainda está me seguindo porque dou uma olhada de rabo de olho enquanto caminho para os fundos da lanchonete. Eu estou um pouco adiantada para o turno do dia e o lugar ainda está relativamente vazio, mas torço para que Bobby, meu chefe, me deixe sair mais cedo hoje, então tenho certeza de que não fiz mal em chegar antes do horário do dia.

— Você já vai começar a trabalhar ou… — ouço a voz dele atrás de mim e paro de andar, olhando para ele. Sei que agora Mia, minha melhor amiga e colega de trabalho, está me observando do balcão.

— Na verdade, cheguei um pouco cedo, mas posso anotar seu pedido assim que me trocar. — Abro um sorriso torto como resposta.

— Ah. — Ele abre um sorriso divertido. — Eu ia te convidar pra sentar comigo, não para anotar meu pedido.

Congelo. Tudo o que eu menos precisava era de um cara da faculdade me chamando pra sair. Bom, tecnicamente eu concordei em sair com ele lá no estacionamento, mas foi só para me livrar do meu irmão, e porque eu estava desesperada. Ele ficou calado quase o caminho inteiro e foi muito legal a atitude de me salvar, mas será que ele entendeu o “foi um prazer conhecer você” como algo a mais? No way, .

Desde que tudo aconteceu eu tenho evitado ao máximo sair com homens que mal conheço. Sinto que meus músculos das costas tensionam enquanto seguro a bolsa mais perto do corpo. agora me olha com a testa franzida e eu mordo o lábio, completamente sem saber como reagir ao convite inesperado.

— Ei, — a voz de Mia me tira do transe, e eu me viro para o balcão, rodando com o calcanhar. Olho para ela como uma súplica, e pelo brilho no olhar que recebo como resposta, sei que percebeu o meu receio. O restaurante só tem nossos clientes de sempre da mesa cinco e provavelmente o nosso chefe está no escritório, então ela quase grita para falar comigo. — Tem como você me ajudar lá atrás rapidinho? Sei que você chegou mais cedo, mas quebra uma para mim só hoje? — Eu não penso duas vezes antes de balançar a cabeça rapidamente, concordando.

— Eu.. é… — viro para , apontando para Mia no balcão. — Preciso ir lá.

— Tudo bem. — Ele sorri simpático. — Vou sentar para comer alguma coisa. — É a vez de ele apontar para uma mesa no canto da lanchonete.

Eu concordo com a cabeça rapidamente, e quase tropeço enquanto ando rápido em direção ao bar. Mia me olha com uma cara de confusa e faz um sinal para que Liam, nosso colega de trabalho, dê conta do balcão enquanto ela me arrasta para o banheiro dos funcionários.

— Ok. — Agora ela já está sentada no mármore da pia, com os braços cruzados olhando pra mim. Eu me encostei na parede de tijolos, cruzando uma perna na frente da outra. — Por que eu acabei de te salvar do ?

— Como você sabe que esse é o nome dele?

? A cidade inteira sabe quem é . — Ela revira os olhos, como se eu fosse uma tapada — Ele é o melhor amigo do Tyler Wesson, o quarterback mais famoso da liga. Ah qual é, a gente já foi assistir aos jogos juntas!

É, nós realmente fomos. E eu me lembro de ter prestado 0 atenção ao jogo porque o balde de pipoca parecia muito mais interessante.

— Tá tá. — Ela gesticula com as mãos — Agora me explica por que você parecia desesperada para se livrar dele.

Eu suspiro e prendo meu cabelo em um coque antes de começar a falar. Conheço Mia a um tempo e graças a Deus ela esteve ao meu lado no pior momento da minha vida, então me sinto confortável em desabafar com ela e contar o que realmente sinto. Começo falando da aula de Christian e de como ele me pegou desprevenida com o assunto “final de semana dos pais”. Mia assente, ouvindo atentamente cada palavra que sai da minha boca. Quando eu comento do aparição surpresa de me livrando do meu irmão ela abre um sorriso no canto da boca, como se dissesse “é exatamente o que um cara legal faria”.

Termino de contar a história de forma rápida porque ela viu quando as minhas costas tencionaram ao ouvir o convite de , então não tenho muito o que dizer depois disso.

— Você sabe como é difícil para mim lidar com a situação homens, então não me olhe com essa cara. — é a última coisa que eu digo, quando o olhar de Mia parece indignado.

— E você sabe exatamente o que eu penso sobre isso, . — Afala da minha melhor amiga agora é tensa, e eu sei que ela está pisando em ovos para não me magoar. — Eu acho que você precisa começar a entender a ideia de que não vai acontecer a mesma coisa agora — ela suspira, enquanto balança a cabeça, sei que ela lembrou das cenas que presenciou — Quantos anos se passaram? Três?

— Eu sei, mas… — mordo o lábio inferior, me controlando para que as lembranças não tomem conta de mim. Flashes de memória começam a escorrer pela minha mente. Flores em cima da mesa, o cartão molhado, guarda-roupa vazio, gotas de sangue. Os gritos de dor ecoam pelos meus ouvidos e eu fecho os olhos com força. Sinto minhas pernas falharem, e a voz de Mia me traz para a realidade, enquanto pisco.

— Você não precisa sair daqui e ir sentar com o agora, mas pensa um pouquinho sobre como você está deixando de conhecer pessoas legais, por causa daquele idiota. — Mia desce do balcão, pronta para me abraçar.

— É tão difícil… — eu interrompo a frase, como um solução, antes de conseguir concluí-la e ela abre os braços com um sorriso acolhedor.

Eu respiro fundo antes de enterrar a cabeça entre o pescoço e ombro da minha melhor amiga em um abraço quentinho, enquanto sinto algumas lágrimas úmidas escorrerem pela minha bochecha, molhando o uniforme dela. As mãos de Mia afagam as minhas costas como sempre fazem quando preciso e eu fecho os olhos tentando esquecer os últimos anos da minha vida.

4

A sexta-feira chegou mais rápido do que eu imaginei. E é uma sexta especial, porque é noite de futebol e a universidade para de funcionar mais cedo, isso quer dizer que as chances de encontrar a pelo campus são mais escassas do que ontem. Sim, isso também quer dizer que procurei por ela ontem, mesmo sem saber exatamente em que prédio ela estuda. E sim, talvez eu também tenha ido ao Up’s ontem à tarde, mas aparentemente não era o turno dela.

Ok. Eu sei o quão obsessivo isso pode ser, mas foi muito estranho como a amiga que estava atrás do balcão pareceu perceber que ela queria se livrar de mim. E não, não estou obcecado por causa do fora que levei, até porque já lidei com isso antes e prefiro que a mulher seja sincera. Mas o que aconteceu na quarta-feira foi verdadeiramente esquisito, eu diria até fora do comum.

Passei um tempo observando a porta pela qual entrou, mas depois que Tyler apareceu no Up’s com meu carro, não consegui me concentrar em tentar falar com ela novamente – inclusive porque meu melhor amigo tinha coisas importantes para me contar.

A verdade é que ela não tem obrigação de aceitar sair comigo, mas eu nem a chamei para um encontro oficial, só queria sentar para comer e continuar a conversa porque algo em como a fala me chamou atenção e me deixou inebriado. Queria ter a oportunidade de sentir isso novamente mas não vai ser agora, porque tenho um jogo de futebol americano para assistir.

Claro que eu chego atrasado no estádio. Tyler não pode me culpar – caso ele pergunte se assisti ao jogo todo – já que eu estava fazendo um favor de preparar nossa casa para a festa que eu sei que ele vai promover depois do jogo. Esse é meu melhor amigo. Ganhando ou perdendo, ele dará uma festa em casa. Ganhando ou perdendo, todos os universitários vestidos de vermelho e dourado vão parar na minha sala de estar, jardim, cozinha e banheiros.

Quando finalmente localizo Collins na multidão da arquibancada desço pedindo licença.

— Você perdeu quase o jogo inteiro e estamos perdendo meio feio para os nossos padrões. — Peter Collins me recebe com um copo de cerveja extra. Eu balanço a cabeça pegando o copo de papel e dando a primeira golada.

— Como está Wesson? — é o que pergunto, preocupado com o cara que considero irmão. Não entendo muito do jogo, mas sempre estou aqui para apoiá-lo. Collins sabe desse meu fracasso no futebol, então aponta para o campo, para que eu localize nossos melhores amigos.

— Ele e Ethan estão jogando bem, mas não podem segurar o placar sozinhos — ele suspira, balançando a cabeça — O resto do time está meio desestabilizado.

Balanço a cabeça tentando prestar o máximo de atenção que posso e consigo. Assistir aos jogos do Peter é muito mais fácil, ele joga hóquei então só preciso comemorar quando o disco entra no gol do time adversário. Mas agora, pelo que vejo o pessoal comentando, sei que ganhamos o primeiro período e perdemos os dois últimos.

Quando o quarto período começa, a torcida do Kansas vibra do outro lado do estádio apoiando o time que até então está ganhando. Bom, pelo andar da carruagem e pouco que entendo, parece que eles vão continuar ganhando.

***

De fato, perdemos. Mas isso não impede nenhum estudante de se reunir para beber e festejar, por isso quando me aproximo de casa já vejo o jardim lotado de torcedores com as cores da universidade. Como metódico dono de casa que sou, resolvo subir para conferir se tranquei os quartos principais.

Atravesso o jardim e a sala de estar sem prestar muita atenção ao meu redor, mas não deixo de notar que algumas pessoas que circulam acenam para mim. Sei que elas estão dizendo silenciosamente algo como “obrigada por nos receber”, porque a primeira coisa que Tyler fez quando saiu do campo foi digitar a mensagem “festa para afogar as mágoas da derrota lá em casa em uma hora” e mandar no grupo principal da faculdade. Por isso, abro um sorriso e também aceno em resposta, quase de modo automático.

Isso na verdade é consequência de ser amigo do Tyler Wesson. Todo mundo de Boston conhece ele. Consequentemente, – quase – todo mundo de Boston sabe quem eu sou. Não que eu ache isso ruim, até porque isso me leva aos contatos, e contatos nos conseguem ingressos para os eventos mais legais, as festas mais divertidas e algumas das meninas mais maneiras – eu nem faço nada, além de apoiar o cara que cresceu comigo.

Pensar nisso me faz lembrar, de novo, da . Não é como se eu quisesse me gabar mas se quase todas as pessoas da cidade me conhecem, no campus não é muito diferente; só que com ela foi. não sabia quem eu era, não se preocupou com o fato de ter o no banco do carona e nem pensou duas vezes antes de fugir, como o diabo foge da cruz, com ajuda de alguém que ao contrário dela parecia saber quem eu sou.

Balanço a cabeça terminando de conferir se fechei o meu quarto, o de Tyler e a sala de TV; o extra eu deixei aberto para caso alguém precise de privacidade. Aceito que a casa fique cheia, mas não aceito que transem no tapete da minha sala – o pessoal já sabe dessa minha regrinha.

O corredor do andar de cima já está lotado de gente em pé conversando e algumas pessoas usando o banheiro social. Encontro Tyler pela primeira vez na noite desde que cheguei em casa.

— Sinto muito por hoje, cara — são as primeiras palavras que profiro para ele, como faço no final de todo jogo em que perdemos.

— Obrigada, . — ele responde, dando de ombros, abrindo um sorriso meio bêbado e nos abraçamos rapidamente. O cara que segura a mão dele se afasta um pouco, como se meu melhor tivesse pedido para que ele fizesse isso, caso a gente se encontrasse. — Você pode tomar conta da casa enquanto eu afogo as minhas mágoas?

— Não esqueça de trancar o quarto de novo quando sair. — eu aviso, revirando os olhos.

— Acho que não vamos demorar, tem muita gente lá embaixo querendo conversar comigo e com o Boots, faça sala pra mim, ok? — o sorriso bêbado se alarga ainda mais — Seja legal com as pessoas, . Nada de ser rabugento.

— Não sou rabugento. — Rebato, agora sorrindo. Estico minha mão e puxo o copo vermelho completamente cheio que ele segura entre os dedos. — Acho que você não vai precisar mais disso.

Meu melhor amigo ri quando me vê cheirar o conteúdo e tomar um gole longo da cerveja gelada.

— Você realmente precisa disso para ser mais sociável mas não precisava pegar o meu, lá embaixo tem mais — Tyler balança a cabeça e estende a mão, o ruivo atrás dele a segura e sorri pra mim, ergo meu copo em resposta — Te vejo por aí, bro. — Wesson fala antes de seguir para o quarto na lateral do corredor.

Confesso que acho o máximo o fato de o Tyler ter se assumido publicamente antes da última temporada começar. Logo quando aconteceu foi bem difícil para todo mundo do campus – e até da cidade – entender isso e até respeitar, mas o cara é foda no que faz, além de ser muito responsável e é isso que realmente importa.

Depois de mais uma passada conversando com o pessoal do andar de cima resolvo descer para cumprir com o que prometi ao anfitrião da festa, mas uma cena me chama atenção no meio da escada, então paro para analisar.

Só de olhar eu tenho certeza de que não são um casal. O cara está perto demais. Ela parece confusa e incomodada, mas está de costas, então não tem como saber exatamente o que está acontecendo. Os cabelos castanhos brilham, apesar do ambiente mal iluminado e ela gesticula com as mãos como já vi alguém fazer antes. Na realidade, também já vi esse cabelo brigando com alguém.

Me aproximo devagar, descendo os degraus e quase mordo o lábio para segurar o riso. Quase não a reconheço, mas essa postura briguenta eu nunca vou esquecer.

— Eu não preciso mais da sua ajuda, muito obrigada, verdade — ela grita por cima do som, mas ele não se afasta e responde algo que eu infelizmente não consigo escutar.

Bom, hora de agir de novo .

! — é a minha vez de gritar por cima do som, chamando atenção dos dois no pé da escada. Agora consigo ver o rosto do cara, ele é ruivo e está visivelmente bêbado. olha para trás e arregala os olhos quando me vê. Desço mais dois degraus, e agora só um nos separa. — Tava te procurando.

— Hã.. eu também tava te procurando — ela vacila antes de continuar — Viu? Não preciso mais da sua ajuda — ela balbucia para o cara, virando de lado para mim.

— Você não tava procurando uma líder de torcida? — o ruivo pergunta, visivelmente confuso.

— É que nas horas livres eu faço isso, cara — agora desço mais um degrau, ficando lado a lado com — Você deve ter entendido errado, mas obrigada por ficar com ela enquanto estive fora — uso a mão para quase dispensar ele, e direciono o olhar para a morena ao meu lado — Vamos subir, ?

Olho pra ela com o máximo de carinho que posso. Agora, ao invés de querer se afastar de mim ela parece querer se afastar do cara, então concorda com a cabeça e já começa a subir os degraus. O ruivinho franze a testa e eu ofereço um brinde levantando o copo antes de virar e seguir escada acima.

5

caminha com os braços ao redor do corpo, como uma proteção. Não é como se o corredor do meu andar de cima fosse muito longo, mas é espaçoso e eu sei que as pessoas se afastam quando comunico – com o meu olhar – para que façam isso. Essa é mais uma vantagem de ser melhor amigo de Tyler e dono da casa onde as festas acontecem; a gente oferece tudo para o pessoal e basta um olhar para que entendam quando nós dois precisamos de espaço, ou quando nós dois precisamos que eles comecem a esvaziar o andar de cima e se distribuam pelo resto da casa.

Tomo o cuidado de não ficar próximo demais das costas dela, mas fico atento a todo movimento. Sinto em mim que ela é uma mulher forte, mas já é a segunda vez que preciso tirá-la de uma situação desagradável e isso me preocupa, então já sei que me encontro no meu mais perfeito estado de alerta.

Ela encosta no cantinho da parede, onde está mais vazio e com menos barulho, e só agora parece conseguir respirar tranquilamente. Como não sei exatamente o que fazer, ao invés de ficar parado na frente dela eu me posiciono ao seu lado, com alguns centímetros de distância afastando nossos braços. Não sei quem deve quebrar o silêncio de novo, mas sinto vontade de rir ao pensar que estamos na mesma situação de dois dias atrás.

— Você sabe onde fica o banheiro? — A ouço sussurrar, o barulho já não nos atrapalha de conversar — Preciso lavar o rosto.

Direciono meu olhar para ela sabendo que preciso raciocinar rápido. Ela perguntou se eu sei onde fica o banheiro, isso significa que ela não sabe que está na minha casa. Se eu levá-la ao meu banheiro – dentro do quarto – talvez a assuste, por mais limpo que ele esteja comparado ao social. Mas não posso deixar que ela fuja de mim de novo sem trocar mais do que dez palavras, então tomo minha decisão.

— Te acompanho até lá. — Ouço minha voz proferir enquanto ando em direção ao banheiro social. Por sorte está vazio, ela sorri timidamente para mim antes de entrar — Vou te esperar aqui fora — Aviso e ela concorda com a cabeça, enquanto fecha a porta.

Acabei quebrar a promessa que fiz a Wesson – não tenho condições de fazer sala e ser um bom anfitrião. Eu só vou descer quando tiver certeza de que ela está bem, ou quando ela quiser fazer isso.

Quase cinco minutos se passam até que a porta se abra novamente. O pouco da maquiagem que tinha no rosto sumiu, o cabelo castanho agora está preso com um coque no alto da cabeça e as mangas do moletom azul estão arregaçadas. Por um momento só consigo pensar em como ela é linda e em como o destino é bom comigo. Isso me faz abrir um sorriso idiota e um segundo depois ela me olha com a testa franzida.

— Obrigada, pelo banheiro e pela ajuda com o cara — ela usa as mãos para apontar em direção a escada — Agora eu preciso ir, só não sei exatamente para onde…

Não. Não posso deixar ela ir embora assim do nada, de novo.

— Eu ouvi o cara dizer que você estava procurando uma líder de torcida, ainda precisa de ajuda para procurá-la? — pensei rápido, ponto para mim.

— Na verdade eu acho que já desisti, vai ser impossível achar a Maddie no meio de toda essa gente — ela suspira — E eu quero muito ir embora.

— Maddie? Você conhece a Maddie? — já ouvi esse nome saindo da boca de algum dos meus amigos, pergunto sobre ela para ganhar tempo.

— Eu moro com a Maddie. — Ela é singela na resposta.

— Bom, não acho que seja tão difícil assim encontrar ela por aqui. Se ela é líder de torcida, muita gente deve conhecer… — pondero — Você veio com ela?

— Eu vim sozinha — ela responde e eu pisco. Sei que franzi o cenho.

Difícil de acreditar já que esse não parece ser o tipo de lugar que a frequenta. Primeiro porque parece completamente perdida, segundo porque também parece que quer fugir do ambiente o mais rápido que conseguir, terceiro porque não sabe que essa é a minha casa e mesmo quem só veio em uma primeira festa sabe quem são os donos.

— Eu esqueci minha chave de casa do armário da lanchonete. E agora o Up’s já fechou, mandei uma mensagem para as outras meninas, mas ela foi a única que me respondeu, falou para eu vir pegar a chave dela aqui porque provavelmente ela não vai pra casa hoje — ela desata a falar visivelmente nervosa, como fez quando estávamos no carro — Bom, não a encontrei e já estou aqui dentro desde que eu soube que o jogo acabou, todo mundo do campus parece estar aqui também, menos quem eu procuro. Por exemplo, qual era a probabilidade de eu te encontrar nessa casa lotada e enorme? — ela gesticula e cruza os braços em seguida.

Muitas, já que a casa é minha. É o que sinto vontade de responder, mas apenas abro um sorriso maroto e retruco de outra forma.

— Tecnicamente fui eu quem te encontrei — respondo e pela primeira vez na noite vejo sorrir genuinamente, revirando os olhos — Posso te ajudar a procurar, não deve ser tão difícil, ela tá sozinha?

— Hmm… — ela pensa — Acho que ela tá ficando com aquele jogador Ethan Boots, ele tava dormindo na nossa sala essa semana. — Quase engasgo com a última informação, começando a rir.

— O Ethan estava dormindo no chão da sala? — ela concorda com a cabeça.

— Sempre que ele dorme lá em casa é assim — ela explica, depois de rir um pouco junto comigo — Você conhece ele?

— Ele é um dos meus melhores amigos, não vai ser difícil encontrá-lo. Vem comigo. — Tenho o impulso de estender a mão para que ela segure antes de nos dirigirmos ao andar inferior, mas chego a conclusão de que não devia ter feito isso porque agora está encarando a minha mão como se ela fosse transmitir alguma doença contagiosa.

***

Respiro fundo e enxugo o suor na calça antes de aceitar e colocar a minha mão junto com a do . Nos nossos dois encontros por acaso ele foi muito simpático, me salvando de situações completamente complicadas para mim.

Percebo que ele respira aliviado quando sente meus dedos encostarem nos dele. aperta minha mão de um jeito gentil e eu lembro da conversa que tive com Mia no banheiro de funcionários do Up’s. Ele parece ser um cara legal, talvez eu não precise fugir de novo, afinal ele só vai me ajudar a encontrar a Maddie e possivelmente não vamos nos ver nunca mais. Quer dizer, achei que nosso primeiro e último encontro havia sido na quarta, mas parece que não, então nem sei mais.

De qualquer forma andar segurando a mão dele é muito esquisito. abre espaço pelo corredor, que volta a encher, sem nenhuma dificuldade e vamos juntos em direção à escada. Lembro que Mia comentou sobre ele ser conhecido, mas aparentemente todas as pessoas – todas MESMO – conhecem ele. Os torcedores de vermelho e dourado se espalham pela casa e todo mundo o cumprimenta com o olhar, ou acena, ou faz um brinde no ar. Ele é completamente educado e retribui cada interação que lhe é direcionada. Sinto que algumas pessoas olham para as nossas mãos entrelaçadas mas esquecem rápido. Algo na órbita de chama todos os olhares do ambiente para ele.

Eu me sinto pequena ao seu lado, mas de um jeito bom, protegida.

Ele olha para trás, quase como para conferir se estou bem e pisca pra mim. Já é a segunda vez na noite que abro um sorriso espontâneo com alguma atitude dele. Esse movimento quase involuntário me assusta, mas confesso que ao mesmo tempo me conforta. Não sinto isso a um bom tempo.

Parece que ele sabe exatamente onde vai encontrar os amigos. não pergunta a absolutamente ninguém, mas segue andando para o lado de fora da mansão. Quando passamos pela cozinha ele aproveita para deixar o copo que tem em mãos no balcão, mas vira para mim antes de deixarmos o local.

— Você quer beber alguma coisa? — é o que pergunta. A cozinha está com as luzes acesas e algumas pessoas circulam no local apenas para pegar bebida e jogar conversa fora.

— Estou bem, obrigada. — Afirmo antes de perceber que mesmo quando paramos de andar não soltou minha mão. Meu corpo reage no mesmo instante, mas de uma forma que não imaginei. Ao invés de soltá-lo como um impulso, sinto meus dedos apertarem os dele. Acho que o pego de surpresa porque ele arregala os olhos e sorri.

— A gente já tá quase encontrando o Boots, vamos lá — sinto um puxão e mais uma vez sou levada por para a multidão.

O jardim está mais vazio, isso porque é completamente enorme. Assim que sinto a brisa do vento gelado do outono encostar no meu rosto, ouço de longe a risada de Maddie, exatamente para onde sei que estou sendo levada.

Quase suspiro alto de alívio quando vejo minha amiga sentada no colo do jogador de futebol americano. Eles estão em uma mini rodinha com mais um cara de cabelo preto.

— Hey caras. — é o primeiro a falar. Os três levantam o olhar rapidamente, incluindo minha colega de apartamento.

! — ela grita quando me vê segurando a mão de . Agora o impulso é como eu esperava, solto-a — Achei que você tivesse desistido de vir.

— Eu demorei de te encontrar… — falo em um sussurro enquanto ela me abraça.

— Tecnicamente não foi você quem encontrou ela, — ouço provocar.

Os dois amigos que ainda estão sentados levantam a sobrancelha e eu sou rápida para me explicar.

— Ele só me ajudou a achar vocês porque sabia onde o Ethan estaria.

— É incrível como esse papai sempre sabe onde vamos estar. — É a vez de Ethan falar, enquanto ri.

— Não sei o que seria da gente sem ele — o outro cara dá uma tragada no cigarro antes de se apresentar — Eu sou Peter, mas isso você já deve saber.

Eu balanço a cabeça confusa. Não sei quem é Peter. E não sei porque deveria conhecê-lo.

— Relaxa Collins, a não conhece ninguém por nome — Maddie responde e pisca para mim — Você vai ficar um pouquinho ou já quer a chave?

Pondero antes de responder avaliando o lugar. Aqui nos fundos até que está tranquilo, mas estou cansada do trabalho. Olho para e tenho a certeza de que ele espera uma resposta. Os amigos também me olham. Não quero decepcionar ninguém, então faço a minha mais cara de cansada que consigo e tomo minha decisão.

— Quero a chave, o dia foi cansativo hoje. Quem sabe em uma próxima — não vai ter próxima, mas eles não precisam saber.

Maddie puxa a chave do bolso traseiro do shorts e me entrega, sentando novamente no colo do namorado/peguete/o que quer que ele seja.

— Vamos esperar você na próxima — o tal Peter exclama simpático e eu concordo com a cabeça.

— Vou cobrar, da próxima vez que eu for na sua casa — Ethan também é simpático na resposta.

Dou um falso sorriso antes de começar a me despedir dando um tchau coletivo, mas me interrompe antes de concluir.

— Já está tarde, você quer uma carona para casa? — a voz dele é calma, parece realmente preocupado.

— Eu tô de carro — abro um sorriso gentil — E nossa casa não é tão longe. Mas obrigada, e obrigada pela ajuda — indico a Maddie com a cabeça.

Ele me olha sério. Sei que está pensando em algo, pensando muito, antes de falar.

— Você pode ao menos me enviar uma mensagem quando chegar? Sabe, só pra eu saber se você chegou bem.

Pisco. Passar uma mensagem para ele significa que de forma fácil estarei informando o meu número de celular. A voz de Mia ecoa no fundo da minha cabeça “pensa um pouquinho sobre como você está deixando de conhecer pessoas legais”. Fecho os olhos enquanto tiro o celular do bolso de trás. Talvez me arrependa disso depois, mas posso pensar até chegar em casa.

— Anota seu número — é a última coisa que eu falo antes de pegar meu celular de volta e encarar a tela com um novo contato.

6

A casa está escura quando finalmente consigo entrar. O dia hoje foi insuportavelmente agitado e cansativo e eu juro: não esperava que ele terminasse em festa. Bom, tecnicamente não terminou, não para mim, mas precisei presenciar aquele lugar lotado para conseguir voltar para o meu lar de paz.

Deixo meu tênis no hall de entrada antes de arrastar os pés pelo carpete da escada e do andar de cima. Sinto meu celular vibrar na bolsa e o alcanço antes de entrar no quarto. Tem uma mensagem de Mia, uma de Sophia – minha outra amiga de república – e a última é do meu irmão mais novo. Respondo as duas primeiras avisando que consegui encontrar a Maddie e já estou indo para o quentinho da minha cama. Minha melhor amiga responde com algumas carinhas sorrindo, Sophia manda uma selfie com o namorado fazendo sinal de positivo.

Quando estou prestes a abrir a mensagem de Anthony me lembro que prometi ao quase não mais desconhecido de que avisaria quando chegasse em casa. Claro que pondero. Não pensei nisso no caminho de casa porque Camila Cabello começou a tocar na rádio e eu perdi completamente a concentração em qualquer outra coisa que não a estrada e a música. Abro meu iMessage e busco “ ” nos contatos. A essa altura eu já entrei no quarto e já estou sentada na cama, encarando o celular como uma maníaca.

Eu tenho algumas opções, então pondero-as antes de tomar qualquer atitude. A opção número um é: mandar uma mensagem avisando que cheguei e agradecendo de forma rápida, não dando brecha para que ele responda muita coisa ou puxe papo – o que na verdade não sei se ele está interessado em fazer, pode ser só coisa da minha cabeça. A opção número dois é: mandar uma mensagem avisando – com um emoji – que cheguei bem em casa, e talvez deixar um espaço para uma resposta mais entusiasmada. E a terceira opção: não mandar absolutamente nada e apagar o contato dele do meu celular, afinal, qual seria a chance da gente se esbarrar por aí de novo? Quer dizer, ele sabe onde eu trabalho e pode aparecer por lá, nós também estudamos no mesmo campus então as chances de nos encontrarmos outra vez aumentam um pouco.

Ok, acho que a opção três é descartável. Eu deixei ele anotar o número no meu celular, não faz sentido nenhum eu simplesmente ignorar isso e não mandar a mensagem. Talvez ele até esteja esperando.

Quem você quer enganar, ? Claro que ele não deve estar esperando, ele está numa festa e provavelmente não vai nem me responder, duh! Tomo a liberdade de decidir rapidamente tendo como base essa minha teoria, respiro fundo e tiro coragem de eu onde eu não sei. Já tem um tempo que não pratico esse lance de fazer novas amizades, principalmente com caras em potencial – o que é, porque posso ser meio surtada mas não sou cega.

“Oie 🙂 cheguei em casa bem! Obrigada por me ajudar a achar a Maddie para recuperar minha chave.
Bjs, .”

Péssima. A chave nem era minha. E é melhor eu não mandar beijos, a gente nem amigo é, não quero deixar as coisas atravessadas. Balanço a cabeça enquanto apago o que escrevi e digito outra vez.

“Oi . Já estou em casa. Obrigada pela ajuda!
.”

Aperto o botão de enviar e fecho os olhos por um segundo. Talvez eu me arrependa disso.

Quando abro os olhos novamente a mensagem azul já foi enviada. Encaro o aparelho por menos de trinta segundos, mas quando vejo o “enviada” se transformar em “lida” e os três pontinhos de que a outra pessoa está digitando aparecer não penso duas vezes: bloqueio a tela e jogo o celular na cama, ficando de pé. Preciso tomar um banho.

***

A água escorre pela minha cervical enquanto mantenho as costas debaixo do chuveiro. Meus olhos permanecem fechados e o silêncio do banheiro é uma coisa que sempre me faz pensar mais do que devo.

Agora, estou pensando no cara que provavelmente respondeu minha mensagem de forma gentil. .

Solto uma risada boba. O peso desse nome não significa nada para mim e eu nem sei na verdade o que significa para o resto das pessoas, mas sei que é alguma coisa importante. Relembro na mente a última hora em que estive na festa. Nos primeiros 40 minutos eu fui uma completa invisível, era só mais uma aluna qualquer sem usar as roupas com cores da universidade. Assim que encontrei o dono dos cabelos castanhos com sorriso encantador, tudo mudou. Quando pensei mais cedo sobre como a órbita do atrai as pessoas, não estava brincando. De invisível passei a ser notada por absolutamente todo mundo.

E pela primeira vez em três anos não achei isso ruim. Esfrego meus dedos – aqueles que ficaram cruzados com o do cara em questão – e lembro do conforto que um segurar de mãos me trouxe; é algo que não tenho desde que tudo mudou do dia para noite.

A órbita que hipnotiza tem uma energia boa e segura. Mas a antiga também tinha, pelo menos no começo. E eu sei que essa é a minha verdadeira preocupação. Abro os olhos de forma rápida, quase que para impedir que o fantasma de Jonah invada minha mente.

Mas não funciona e de repente todos aqueles olhares simpáticos do pessoal da mansão se transformam em olhares de julgamento. A mão macia e segura se transforma em uma mão firme e calejada, que me segura com força e me arrasta pela multidão de uma forma diferente.

Respiro fundo para tentar manter a calma, alcanço o sabonete com cheiro de lavanda e começo a esfregar o corpo com força. A lembrança resgata o cheiro enjoado de perfume forte com cigarro e eu sinto a bile subir até o meio da garganta. Engulo em seco, respirando bem fundo.

Você não estava com ele, . Você estava com o . Minha consciência grita e eu sigo treinando a respiração que minha terapeuta me ensinou.

Você não está mais com ele. Expiro.
Ele nem mora no mesmo Estado que você. Inspiro.
As mesmas coisas não vão acontecer. Expiro.
O é só um amigo, um cara legal. Inspiro.
Tá tudo bem em sair com outros caras, você já tem sua própria casa e seu lar em segurança. Expiro.
Não tem nada de errado em ter medo de ser abandonada, mas também não tem nada de errado em fazer novas amizades. Inspiro.
Ninguém é igual ao Jonah. Expiro.

Um pouco mais calma, desligo o chuveiro e me enrolo na toalha, caminhando em direção ao quarto. A tela do celular ainda está acesa em cima da cama.

Agora tenho mensagem dos meus dois irmãos e a resposta . Decido abrir a do último, os podem esperar mais um pouco.

“Oi . Fico feliz que você tenha chegado bem, é uma pena que não ficou mais um pouco com a gente.
Espero poder te encontrar um outro dia para conversarmos melhor. A gente só se vê quando preciso te salvar, desse jeito vou achar que você só quer se aproveitar de mim, haha, brincadeira!
Boa noite.
.”

Quando leio, automaticamente percebo o sorriso se abrir no meu rosto. Alguém como Jonah nunca me mandaria uma mensagem dessas e é por isso que em mais um ato de coragem do dia eu decido responder.

“Eu não trabalho domingo, quem sabe a gente possa se encontrar para conversar e almoçar. Boa noite para você também. :)”

Aperto o botão de enviar e bloqueio o celular, indo me preparar para dormir. Papai do céu, ou força maior, não sei se você existe mas te peço: não deixe que eu me decepcione de novo.

7

Sinto minha mão suar e enxugo na calça antes de sair do carro. Acabei de estacionar no restaurante italiano que combinei de almoçar com e confiro o relógio do celular para me certificar de que não cheguei nem muito cedo, nem muito tarde.

Trocamos algumas mensagens ontem e foi especialmente divertido, quer dizer, exigiu que o almoço de hoje não fosse um encontro e sim um almoço entre amigos para nos conhecermos melhor — mas eu achava que se conhecer melhor era o que os casais faziam em um primeiro encontro. Bom, de qualquer forma, entre todas as exigências do nosso “não encontro” ela pediu para que viéssemos em carros separados, então não precisei passar na casa dela e buscá-la — embora eu gostaria de ter feito isso.

Me certifico de acionar o alarme e tento não ficar nervoso enquanto caminho pelo estacionamento chutando algumas pedrinhas. Também não quero pensar nos meus amigos idiotas que passaram o sábado e a manhã de hoje tirando sarro com a minha cara, porque desde que cheguei em Boston essa é a primeira vez que estou saindo em um não encontro. Também é a primeira vez que preciso me esforçar para não assustar uma garota — mas essa informação eles ainda não sabem. E nem saberão, porque na verdade eles são uns babacas. Agora sou eu quem vou almoçar em um lugar legal com uma garota legal, enquanto eles comem pizza e jogam Fifa.

Entro no restaurante agradecendo mentalmente pela temperatura um pouco mais agradável dentro do lugar. Procuro com o olhar e encontro sentada em uma mesa próximo a janela de vidro. Enquanto caminho entre as mesas não consigo parar de observá-la. O rosto fino está concentrado no celular mas demonstra uma expressão suave, os cabelos castanhos estão semi presos com algumas mechas soltas em frente ao rosto e ela morde o lábio inferior de forma aparentemente leve.

— Atrapalho? — pergunto baixinho quando encosto na cadeira à sua frente. levanta o olhar e de forma sincera abre um sorriso.

— Hey — me chama pelo nome e confesso que acho isso especial. — Senta aí, eu estava só jogando Candy Crush. — Ela vira o celular na minha direção e eu não consigo não sorrir feito um idiota enquanto puxo a cadeira e me sento. , não seja patético.

sai do jogo e bloqueia o aparelho, guardando na bolsa que está em seu colo. Quando termino de sentar, sinto os olhos claros me encararem. Bom, parece que é hora de falar.

— Você vem sempre aqui? — solto. E só percebo a mancada que foi falar isso quando solta uma gargalhada.

— Essa é sua cantada chave? — ela arqueia as sobrancelhas como um desafio e eu começo a estalar meus dedos.

— Não foi isso que eu quis dizer, é só que não conhecia o restaurante então…

— Tudo bem, eu entendi — ela balança a cabeça sorrindo. — Mas sim, gosto muito desse lugar. Comida italiana é uma das minhas preferidas.

Quando ela termina de falar não consigo comentar porque o garçom se aproxima e pergunta se queremos pedir alguma coisa para beber. Eu me limito a uma água com gás e sumo de limão, mas sei que arregalo os olhos quando ouço pedir uma taça de vinho branco e o dispensar, avisando que ainda não escolhemos os pratos. Ele se retira pedindo licença.

— Eu vim de uber. — Ela dá de ombros, se justificando. Eu abro um sorriso. É claro que ela veio.

As bebidas chegam mais rápido do que esperamos e aos poucos eu começo a relaxar, sendo o mais eu que posso. não fala muito sobre ela, mas percebo como parece mais solta do que nas últimas vezes que a vi. É como se aqui fosse um espaço onde ela se sente segura para ser ela mesma.

Durante o papo os sorrisos são espontâneos e eu me forço a fazer uma nota mental sobre todas as poucas informações que ela solta de si mesma.

Quando contei que era da Califórnia ela disse que sempre foi louca para conhecer, mas que nunca teve a oportunidade de atravessar o país — depois soltou que na verdade ela é de Nova York e chegou em Boston há pouco tempo.

— Mas e você? — ela beberica o vinho — Por que veio estudar tão longe? Tem muitas universidades legais no Oeste.

— Na verdade eu não vim por mim — começo e ela franze as sobrancelhas — O Tyler é meu melhor amigo e sempre jogou futebol americano, quando ele recebeu a proposta da bolsa aqui em Boston pensou duas vezes, por vários problemas relacionados a abandonar a família — começo explicando, tentando não expôr a vida do cara que é quase um irmão — Mas sempre o apoiei e quando senti que na verdade o que estava o impedindo era medo, propus vir junto, só assim ele aceitou — dou de ombros — Sempre nos tratamos como irmãos, nossas famílias se dão super bem, foi relativamente fácil mudar.

sorri com meu relato e isso me faz relaxar na cadeira, ela morde o lábio inferior antes de perguntar: — Você não sente saudades de casa?

— Falo com minha mãe e irmã todos os dias e sei que elas estão bem. Sempre que tenho uma folga pego um avião ou envio passagens. — Eu abro um sorriso lembrando de tudo que deixei para trás — Mas e você, pensa em voltar para Nova York? — pergunto. Mas assim que o faço, me arrependo.

agora está com a postura ereta e o cardápio que tinha em mãos apoiado na mesa. Levo três segundos para perceber que o problema não foi minha pergunta — na realidade, agora tenho certeza de que ela se perdeu antes mesmo de eu terminar de falar sobre a minha família e nem ouviu eu perguntar sobre a dela. Os olhos claros estão vidrados na porta do restaurante. Viro discretamente o pescoço apenas para entender o que está acontecendo. E então eu vejo Christian, o irmão babaca do estacionamento.

Percebo que ele ainda não notou a nossa presença, mas a mulher que se apoia em seu braço direito de forma carinhosa não para de encarar . Ela tem um cabelo curto, bem preto, que contrasta com uma jaqueta branca e os olhos azuis brilham com o reflexo da luz. Volto o olhar para a garota sentada à minha frente. parece hipnotizada.

trinca os dentes de forma severa quando ouço os passos ecoarem pelo pequeno restaurante. Fomos notados. Ela desvia o olhar rapidamente em minha direção e balança a cabeça de forma negativa e discreta. Sei com esse movimento que a primeira parada do casal será em nossa mesa e que é para eu me comportar — como se eu não tivesse feito isso no nosso primeiro esbarrão. Ah , está um a zero para mim nesse combate com seu irmão.

— Oi . — A mulher é a primeira a falar quando os dois encostam na nossa mesa.

— Briana, quanto tempo! — Vejo levantar e a abraçar de forma sincera. Christian mantém o rosto sério como uma carranca, então tomo a liberdade de levantar e estender a mão em sua frente.

— Oi Chris, bom te rever. — Blefo. Ele aperta minha mão de volta, mas não se dá ao trabalho de responder, o que me faz sentir vontade de rir. Olho para o lado vendo e a mulher a quem não fui apresentado me encararem. O ar do ambiente parece mais pesado agora. Tomo a liberdade de acenar a cabeça para a tal Briana e me sento de novo, ainda olhando para os três.

— Você não respondeu as mensagens do Anthony — são as primeiras palavras que ele profere e eu sinto vontade de levantar de novo só para mandá-lo falar direito com a garota, mas me seguro. Meu olhar corre para os braços de , agora cruzados em frente ao corpo, como um escudo.

— Não vi que ele tinha falado comigo — ela dá de ombros, mas tenho certeza de que está mentindo. Ele a encara de forma séria, mas antes que fale alguma coisa grosseira de novo a possível namorada toma a frente.

— Gente, não precisamos falar disso hoje — a voz doce chama a atenção dos dois enquanto a dona das cordas vocais de mel sorri — Que tal se nos juntarmos a vocês para falarmos de coisas boas? , você nem me apresentou seu amigo. — Ela agora sorri para mim, mas eu só consigo pensar é sério que ela quer sentar na nossa mesa?

— Sinto muito, Bri, mas já estamos de saída. — transfere o olhar para mim, no mesmo momento em que Briana olha para nossa mesa. O cardápio ainda está aberto, nossos copos ainda estão quase cheios. Sinto vontade de rir, mas concordo com a cabeça, enquanto levanto.

— É uma pena, quem sabe marcamos para você ir jantar lá em casa qualquer dia desses. Foi bom ver vocês! — A mulher exclama enquanto levanta a mão direita em forma de despedida antes de arrastar o irmão mais velho de pelo restaurante. Mais uma vez ele não se dá ao trabalho de se despedir.

— Você se incomoda se formos embora agora? — ela pergunta com um olhar triste — Eu sei que nem comemos e você também deve estar com fome, mas… — ela vacila.

Abro a carteira e jogo uma nota de 50 na mesa, sei que ela paga o pouco que consumimos e ainda sobra gorjeta.

— Vamos? — pergunto, estendendo a mão. olha para a mesa do irmão e dessa vez segura a minha mão sem hesitar. Caminhamos juntos para fora do restaurante.

Abro a porta do carona para ela entrar assim que chegamos no meu carro. Quando me acomodo atrás do volante viro meu corpo para , ela brinca com os dedos das mãos.

— E aí? Quer ir para algum lugar específico? — pergunto. Ela me olha e morde os lábios, como uma mania.

— Não quero voltar para casa sem comer. — É sincera, isso me arranca um sorriso — Mas também não quero correr o risco de ser encontrada de novo.

— Sei de um lugar onde podemos comer italiana também… — ela franze a sobrancelha — Bom, provavelmente pizza, mas o lugar é seguro, as companhias são legais e quando a gente chegar já estará na mesa — afirmo.

— Por mim tudo bem — é o que a ouço dizer. Tiro o celular do bolso e digito uma mensagem para os caras.

“Chego com a para almoçar em menos de 30 minutos.
Catem as latas de cerveja da sala.
Joguem um desinfetante no banheiro.
Peçam pizzas a mais.
E tentem não se matar enquanto fazem isso.
Sejam legais e sem perguntas quando a gente chegar.”

Jogo o celular no painel e dou a partida no carro. Parece que zombei do combo pizza e Fifa cedo demais.

8

não me pressiona a conversar enquanto estamos dentro do carro e eu admiro isso nele porque preciso processar o que acabou de acontecer. Na verdade, sempre ando precisando entender o que meus irmãos almejam interferindo tanto na minha vida. Primeiro Christian, que insiste nessa ideia de que eu preciso reencontrar o papai e a mamãe, e agora Anthony, meu irmão mais novo, que mandou diversas mensagens perguntando sobre o final de semana dos pais. Bom, eu menti para Chris. É claro que vi as mensagens do Tony na sexta, mas sinceramente? Não quero precisar lidar com esse problema agora.

Eu sinto falta do meu irmão, ele era só uma criança quando tudo aconteceu, mas sei que ele não virá a Boston sozinho, e eu não estou disposta a encarar meus pais. Na verdade, acho que nunca estarei. A escolha de me expulsar de casa foi do grande e incrível Doutor , então ele que assuma com as consequências. Assim como eu assumi as minhas.

Sinto o carro reduzir a velocidade e quando percebo estamos estacionando em frente a uma quase mansão. Olho pela janela antes de direcionar o meu olhar para , que se concentra em fazer uma baliza entre uma BMW e um carro clássico. Já estive nessa casa antes. Franzo a testa, olhando de novo para a grande porta de madeira fechada. Claro, a festa de sexta foi aqui.

Quando ouço o motor do carro desligar encaro o cara sentado no banco do motorista tentando assimilar o que está acontecendo. O jardim da casa está limpo, as cortinas estão fechadas, assim como a porta, e nem parece que tem alguém em casa a não ser pelos carros parados próximo ao meio fio. Não está tendo nenhuma festa hoje.

Pisco enquanto ele me olha coçando a nuca quando as peças começam a encaixar. Essa é a casa dele. E é por isso que ele sabia onde todos os cômodos ficavam, ou como desviar das pessoas para chegar até seus amigos. É por isso que todo mundo — absolutamente todo mundo — falou com ele enquanto passávamos.

Claro que ele é dono de uma mansão. Não sei porque isso me espanta, eu estou sentada no banco de couro de um Audi A8.

Ele é dono de tudo isso. Mas ele não é o Joah. Meu subconsciente me lembra e eu respiro fundo.

— E aí, vamos entrar? — quebra o silêncio enquanto me olha.

Balanço com a cabeça em concordância e saímos juntos do carro. Fico parada ao lado da porta do carona enquanto ele atravessa a frente do veículo, dando uma batidinha no capô. Ele pisca para mim de um jeito gentil e começamos a subir juntos as escadas em frente à porta. me olha sério e percebo que quer falar alguma coisa antes de entrarmos, então dou um empurrãozinho.

— O que foi? — pergunto.

— Meus amigos estão em casa, bom… — ele hesita — A essa altura você já deve saber que moro aqui — concordo com a cabeça e mordo o lábio — Eles estão em casa, mas eles são muito legais, poxa, eu deveria ter te avisado antes de te trazer pra cá… — ele desata a falar.

— o interrompo, olhando em seus olhos — Tá tudo bem, vamos entrar, tem pizza né? — abro um sorriso sincero e o vejo relaxar enquanto também sorri. Acho fofo o gesto de se preocupar, e ainda mais fofo o fato de ele virar um tagarela quando está nervoso. Bom, temos isso em comum. Ele respira fundo antes de digitar a senha na porta de entrada e fazê-la destrancar.

— Queridos, cheguei. — brinca assim que entramos na sala de estar. Definitivamente a casa parece ainda maior, agora que está de dia e sem um milhão de pessoas circulando.

Só hoje consigo reparar na decoração e disposição dos móveis. Um sofá cinza escuro enorme e em L ocupa o maior espaço, quadros que me lembram a Califórnia preenchem a parede atrás do sofá, uma mesa de centro com pés de madeira e tampo de mármore escuro serve de apoio para algumas latas de cerveja, os controles de videogame e da TV — que está pendurada na parede oposta ao sofá. Uma mesa enorme de sinuca, com veludo preto, ocupa o que eu imagino ser o espaço de uma mesa de jantar, e o bar, disposto embaixo da escada também preta, é preenchido por diversos tipos de bebidas diferentes.

Vejo três pares de olhos nos encararem no instante seguinte e já espero o bombardeio. Mas não acontece. Na verdade, os meninos agem como se eu chegar com fosse a coisa mais comum do mundo, e eu respiro aliviada. Isso me deixa muito mais confortável.

— Oi pessoal — estendo a mão.

— Hey , hey daddy. — Peter solta, acenando com o controle do vídeo game.

— Que bom que vocês chegaram, eu tô morrendo de fome. — Ethan fala enquanto levanta do sofá.

— Não precisava esperar a gente para comer — eu pontuou sem graça e olho para o cara em pé ao meu lado.

— Eles teriam comido tudo e a gente teria morrido de fome — é a vez de abrir a boca.

— Ele está certo — o cara que eu ainda não conheço levanta do sofá e caminha em minha direção, deve ser o Tyler — E olha que pedimos pizza a mais quando soubemos que vocês estavam vindo, só para não parecermos uns ogros mal educados — estende a mão quando se aproxima de mim — Eu sou o Tyler, a gente não se conhece ainda, mas sei que seremos bons amigos.

Solto uma risada com o comentário e o cumprimento, enquanto balança a cabeça, também sorrindo.

— Ok, podemos ir comer agora? — Peter já está de pé.

— Bom, eu estou morrendo de fome — concordo com a cabeça enquanto falo.

— Vamos então, seus esfomeados. — Tyler pronuncia, seguindo na frente para a cozinha.

— Todo mundo lavando as mãos primeiro — grita atrás de mim e eu me pego rindo outra vez. Os meninos olham atravessado em sua direção. Peter suspira, Tyler levanta o dedo do meio e Ethan revira os olhos, mas todos passam no lavabo, o obedecendo. Agora entendi porque chamaram ele de “daddy”.

Sou a última a sair do lavabo todo decorado em tons de azul marinho. Confesso que estou um pouco impressionada com a decoração impecável de uma casa 100% masculina. Balanço a cabeça rindo sozinha enquanto entro na cozinha — igualmente bem decorada. Acho que hoje já bati meu recorde de sorrisos dos últimos anos.

Os meninos agora ocupam a enorme ilha bem no meio do cômodo. Vejo algumas caixas de pizza apenas esperando para serem devoradas e mantenho o sorriso, mais uma vez eles me esperaram para comer. Me aproximo e ouço perguntar qual sabor eu quero primeiro, acabo escolhendo de calabresa enquanto me sento na banqueta de frente para ele. Assim que ele me serve, os outros entendem que já podem comer e um mar de mãos atrapalhadas voam entre as caixas, escolhendo os pedaços preferidos.

Enquanto mantenho a boca cheia de pizza, presto atenção nos garotos. Tyler está sentado ao meu lado e só agora noto como o cara é gigante, que dizer, ele é jogador de futebol americano então não poderia ser diferente. Peter está na ponta da ilha e agita as mãos enquanto fala de boca cheia, acho que está contando algo sobre o treino e pelo que entendi ele joga hóquei. Ethan, que eu já conheço, abre um sorriso de galã de novela enquanto usa a mão sem pizza para bater na cabeça do moreno ao seu lado, que acabou de falar uma grande besteira — o que arranca uma alta gargalhada de Tyler e uma risada abafada minha.

Por último, viro minha atenção para aquele que salvou o nosso não encontro. É a primeira vez que observo com cuidado. Ele está usando uma camiseta vinho sem nenhuma estampa, os cabelos castanhos estão levemente bagunçados na testa, o maxilar é marcado e os lábios rosados estão pressionados, como se ele segurasse a risada de alguma besteira que um de seus amigos disse. Mas ele falha, porque logo em seguida ouço o som gostoso do seu riso, enquanto os dentes brancos são revelados.

Dois segundos depois, percebo seu olhar recair sobre mim. Ele pisca e sinto minhas bochechas esquentarem. O sorrisinho feliz que ele dá em minha direção também faz minha pulsação acelerar. Dou um gole na garrafinha de cerveja que Tyler pôs em minha frente, apenas para ter a atenção desviada e ouço Peter bater no balcão com a cerveja dele.

— Todo mundo de barriga cheia? Vamos começar o torneio de Fifa? — ele questiona, dividindo o olhar entre todos no ambiente. Inclusive eu, que por um impulso sou a primeira a abrir a boca.

— O quê? — dou um gritinho agudo e os caras me olham sorrindo — É de dupla ou individual? — faço logo a minha pergunta e começo a analisar meus adversários. Sou viciada em Fifa, bem, eu era. Cresci no meio de um monte de homem, então todas as festas e reuniões de família sempre acabavam em torneios e bom, eu sempre ganhava.

— Individual, claro. — Ethan responde limpando as mãos oleosas de pizza em um guardanapo.

— Você vai… — Tyler começa a perguntar mas nem me dá oportunidade de responder — Claro que vai, que pergunta boba.

— Tem certeza, ?

— Se eu tenho certeza? — pergunto já levantando, enquanto direciono um olhar atravessado para — Claro que tenho. Qual de vocês vai ser o primeiro a perder?

— Na verdade, você. — Peter responde, se gabando — Eu sou o grande campeão aqui.

— Tá, então vamos começar por você ó grande campeão. — Balanço a cabeça rindo, enquanto viro em direção da sala. Ouço a agitação dos meninos quando correm para me alcançar.

— Ela vencer o Peter? Essa eu quero ver — Ethan sussurra.

— Isso foi bem machista. — Tyler retruca, o que me faz sorrir.

— Cala a boca vocês, vamos logo. — Peter convoca os amigos, sentando ao meu lado no sofá.

***

— Não quero mais ver. Não quero mais ver. — Ouço Ethan reclamar enquanto se joga de qualquer jeito no sofá. É a segunda vez que ele perde para no videogame. Na verdade, nenhum de nós ganhou.

Peter perdeu a primeira partida, Tyler a segunda e eu a terceira, mas confesso que fiquei mais concentrado em vê-la jogar com garra do que com o jogo em sim. Não que isso seja uma desculpa. Ela é muito boa.

— Mais alguém quer revanche? — vejo a garota que destruiu meus melhores amigos erguer as sobrancelhas, como um desafio.

— Sinceramente, eu desisto. Coops, onde você arranjou essa garota? — Tyler se manifesta, quando sai do banheiro, arrancando uma gargalhada gostosa de ; hoje eu descobri que adoro esse som. Dou de ombros como resposta.

— Quem sabe outro dia. — Peter desconversa. Ele odeia perder.

— Tudo bem meninos, foi um prazer derrotar todos vocês — ela abre um sorriso largo — Mas já que ninguém mais quer perder, é hora de ir embora.

Quando vejo levantar, sei que é minha deixa para pegar a chave do carro. Claro que ela recusa de primeira a minha carona, mas já escureceu, eu não bebi e não acho seguro que ela pegue um uber se posso muito bem levá-la. Os meninos me ajudam na insistência e ela acaba cedendo com um sorriso cansado no rosto. Quando levanta, abraça um por um, se despedindo de forma educada. Tyler a convida para voltar mais vezes, Peter brinca dizendo que vai encontrar um jogo o qual ela não ganhe e Ethan ri afirmando que nunca mais vai pedir revanche, porque o massacre foi bem maior pela segunda vez.

Eu a espero encostado na porta. Vê-la interagir com meus amigos durante todo o dia deixou meu coração aquecido — sim, isso mesmo — mas foi só porque eu estava nervoso, com medo de que tudo desse errado, e ela se sentiu muito à vontade aqui em casa. Bom, eu acho que foi só por isso. Ela acena para os garotos uma última vez quando saímos pela porta e logo em seguida estamos sentados no Audi.

The Fray toca no rádio e eu me divirto quando descubro que também ama a banda. Cantamos alto e ela gargalha entre a letra da música sempre que tem a oportunidade. Agradeço mentalmente por esse pequeno momento, achei que o clima mudaria quando entrássemos no carro, mas ela permaneceu sendo a mesma de todo o dia. Solta, sorridente e confortável com a situação.

Ela abaixa o volume quando paro o carro em sua porta e se vira para mim sorrindo. As bochechas estão coradas — talvez pelo álcool que ingeriu com os caras — e o sorriso largo.

— Obrigada por ter salvado o nosso não encontro. Seus amigos são muito legais — ela pontua, agradecendo e eu levanto as sobrancelhas — Você também é… — ela faz manha e eu sorrio.

— Foi realmente muito divertido. — Concluo sem jeito. desvia o olhar e agora, ao invés de me olhar nos olhos ela encara minha boca; só segundos depois percebo que faço o mesmo com ela. Os lábios rosados são perfeitamente bem desenhados, o arco do cupido parece ter sido feito à mão. A respiração acelerada passa por sua boca entreaberta e eu sinto meu coração bater um tanto quanto rápido, enquanto eu rezo para que ela não esteja o escutando.

— Acho melhor eu ir — quebra o silêncio e eu volto a olhá-la nos olhos. Eles ainda brilham, então eu comemoro por não ter feito nenhuma burrada nos últimos segundos.

— Certo… — coço a nuca.

— Obrigada pela carona — ela se vira, já abrindo a porta — A gente se vê por aí . Boa noite!

— Boa noite, — vejo o sorriso que ela abre enquanto sai do carro e me ouve pronunciar o apelido que inventei quando nos encontramos pela primeira vez.

bate a porta, acenando. Só percebo que estava prendendo a respiração quando a vejo entrar em casa e sinto o ar escapar dos meus pulmões

9

Minha cabeça parece borbulhar e o ar do carro ainda parece pouco para mim quando estaciono de volta em casa. O que acabou de acontecer? Ou melhor, o que aconteceu hoje?

Presto atenção ao meu redor e agradeço mentalmente por não ver o carro de Ethan ou a moto de Peter estacionados, como um sinal de que ambos já foram embora. Já sei quão torturante vai ser responder as perguntas do Ty, imagine precisar fazer isso com mais dois marmanjos curiosos.

Abro a porta da entrada mais devagar do que o normal e tento disfarçar minha chegada enquanto subo as escadas em passos silenciosos. Tenho certeza de que assim que esbarrar com o Tyler não vou conseguir disfarçar nenhum sentimento. O cara me conhece há mais de dez anos, e com certeza ao olhar na minha cara vai saber que, desde que deixei a em casa, não parei de pensar nela. O silêncio predomina e eu rezo mentalmente para que ele tenha saído com os meninos e eu consiga tomar um banho antes de cair na cama.

Mas minha teoria — e reza — caem por terra assim que abro a porta do meu quarto, porque Tyler está deitado na minha cama me esperando, exatamente como uma cobra pronta para dar o bote.

— Achei que você não fosse chegar nunca — meu melhor amigo balbucia de forma preguiçosa.

— Posso saber o que você está fazendo aqui? — Disfarço tirando os tênis de forma casual, claro que sei o que ele está fazendo aqui.

, você é mais esperto do que isso e me conhece o suficiente para saber o que quero aqui — ele suspira e continua — Mas já que você parece perdido eu vou lembrar, ok? — Pontuando com os dedos ele começa — Primeiro, você convidou uma menina para um encontro, a última vez que isso aconteceu a gente tinha quinze anos…

— Não era um encontro — o interrompo.

— Você realmente acredita nisso? — Ele bufa, ficando de joelhos no meu colchão macio, enquanto eu reviro os olhos — Então o segundo ponto acabou de ser alterado e agora afirmo que você se encontra em estado de negação!

— Qual era o segundo ponto? — Minha curiosidade fala mais alto e eu levanto as sobrancelhas.

— Você trouxe a menina para casa no primeiro encontro e não foi para levá-la para a cama, a veio destruir a gente no videogame. — Meu melhor amigo gesticula enquanto fala, me fazendo lembrar do Tyler de catorze anos.

— Ty… — começo — Onde você quer chegar com tudo isso?

— Me diga você — se joga na cama de volta, de forma dramática — Onde você quer chegar com todas essas atitudes? Você nem nos contou porque trouxe ela.

— E eu preciso contar? — Agora tiro a camisa, já pensando em me virar para o banheiro e deixar Wesson falando sozinho. Não vou falar mais nada sobre as intimidades familiares da para ele, já basta ter contado como a gente se conheceu.

— Você enviou mensagens mandando a gente limpar a porra do banheiro — argumenta.

— Vocês sujam o banheiro, não fazem mais do que a obrigação quando limpam. — Agora já dou as costas, enquanto caminho pensando na água morna.

, não dê as costas para mim — eu sei que ele revirou os olhos — Você passou a semana inteira, desde a quarta-feira, falando sobre a , depois daquele lance na festa falou ainda mais, hoje ficou babando na pizza enquanto ela conversava com a gente e perdeu porque não conseguiu se concentrar no jogo. Custa assumir que talvez você esteja se apaixonando e dividir isso comigo? — Ele quase grita por cima do meu ombro. Como foi que arrumei um melhor amigo tão esperto e sentimental?

— Custa — é o que eu respondo com um sorriso no rosto, que ele não consegue ver, quando bato a porta do banheiro.

***

Sinto a água morna bater nas minhas costas tensas e os músculos começarem a relaxar. Não imaginei que meu domingo seria tão intenso, mesmo sabendo que almoçaria com a . Quer dizer, quais as chances de o irmão dela aparecer num restaurante afastado do centro, eu levar ela para minha casa, ela virar amiga dos caras e a gente quase se beijar no carro?

Esse último ponto desperta a vontade de bater em mim mesmo, simplesmente por ter perdido, ou ter deixado passar, a oportunidade de beijá-la. Quando fecho os olhos enquanto molho os cabelos, a única coisa que me vem à mente é a .

De todos os dias em que estivemos juntos, hoje foi o aquele que, com certeza, eu mais consegui observá-la. Durante uma parte do não almoço, os olhos castanhos esverdeados brilhavam com o reflexo do sol no vidro do restaurante. Quando ela ficou em pé para cumprimentar a cunhada consegui notar como estava bem vestida e em como manteve a postura ereta, mesmo diante de uma situação desconfortável. Ao segurar minha mão, enquanto caminhávamos para o carro, reparei que os dedos compridos estavam preenchidos por lindos anéis e as unhas estavam pintadas de um chumbo quase preto.

Resgatando as lembranças de quando finalmente chegamos em casa, percebo que Tyler tinha razão. Antes de entrarmos o sorriso genuíno de encorajamento me encantou e prendeu a minha atenção, enquanto comíamos só consegui notar em como ela segurava a fatia de pizza, em como ela ria, acompanhada do Ty, das piadas infames do Peter e em como mordia o lábio inferior para se concentrar no jogo, apertando os botões do pequeno controle de forma frenética.

Desligo o chuveiro depois de me enxaguar e tento associar o que sinto quando penso na a qualquer outro momento da vida, mas simplesmente não consigo. Quer dizer, eu era cheio de namoradinhas durante a minha adolescência na Califórnia, mas nunca senti isso por ninguém. E eu nem sei exatamente o que é isso.

Enrolo uma toalha na cintura e em seguida abro a porta do banheiro. Para a minha surpresa, Tyler está na mesma posição de quando cheguei em casa, mas agora ele me encara com um sorrisinho travesso no rosto, como se soubesse porque demorei mais que o normal no banho. Ele é um idiota metido.

— Refletiu sobre a nossa conversa? — Ele morde o lábio inferior e a atitude me faz lembrar . Merda, não posso pensar nela enquanto encaro meu melhor amigo. Balanço a cabeça e viro de costas, indo em direção ao closet.

— Qual é , somos melhores amigos desde crianças. — Ele grita para que eu ouça de onde estou — Eu sei quando você deu seu primeiro beijo, perdeu sua virgindade, caiu da bicicleta pela primeira vez, andou de moto sem habilitação — a voz dele se aproxima, entregando que levantou da cama e agora caminha para o meu refúgio — Não custa nada você me contar que está se apaixonando pela, sei lá, talvez primeira vez? — A afirmação acompanha uma quase pergunta.

— Quando você sabe que está se apaixonando? — Meus lábios me traem e a pergunta sai. A pergunta que era para ficar só na minha cabeça. Tyler estala os dedos atrás de mim. Ele sabe que não vou virar porque essa situação é desconfortável para mim, embora eu saiba que ele não vai me zoar como talvez os outros caras fariam, então começa a me responder de onde está.

— Eu acho que só me apaixonei uma vez, por aquele cara do ensino médio, o Lucca, você lembra? — Ele pergunta e eu balbucio um “aham”, então ele continua — Eu não sentia muita fome e ficava pensando nele o dia inteiro, dava mil e uma desculpas para encontrar ele nos corredores da escola, mesmo durante as aulas e lembro de ficar pensando no som da voz dele quando falava comigo. — Ele solta um risinho.

Eu mal toquei na pizza enquanto observava . Eu passei a semana inteira pensando nela e tentando calcular maneiras de encontrá-la pelo campus, sem ser invasivo. Por fim, a memória de cantando freneticamente no carro me invade.

Viro para o meu melhor amigo, que me olha com um sorriso aberto encostado na entrada do closet. Ele arqueia a sobrancelha na minha direção como quem diz “e aí? Tá se apaixonando né?” E eu sei que a resposta está estampada na minha cara.

— Você acha que agora eu posso me considerar na merda? — É o que eu pergunto, já sentindo a mão suar.

— Claro que não, cara — ele ri do meu desespero — A é demais.

— Não acho que ela esteja interessada — respondo, mesmo querendo estar errado.

— A gente vai ter que descobrir — ele dá de ombros — Já marquei o almoço semanal com os meninos no Beer & Burger.

— Você fez o que? — Arregalo os olhos.

— Um empurrão não vai fazer mal a nenhum dos dois, a comida é boa e também gostamos de tê-la por perto. — Ele pisca e me dá as costas, finalmente saindo do meu quarto, enquanto me deixa parado no meio do caos das minhas roupas e dos meus pensamentos.

Meu melhor amigo é inacreditável.

10

Não tenho o que comparar com o susto que eu levo quando vejo os quatro caras mais “famosos” da universidade entrarem no B&B na hora do almoço. Estou atendendo uma família, nossos clientes de sempre, quando as quatro vozes altas tomam conta do ambiente e eu levanto o olhar com a testa franzida. Tyler é o primeiro a me ver e estende a mão de uma forma alegre enquanto indica para os amigos uma mesa na área do restaurante que ele conclui ser a minha — porque estou aqui. Abro um sorriso em resposta e antes de ir atendê-los, levo o pedido dos Porter para a cozinha.

A lanchonete está relativamente vazia, então quando atravesso o balcão para pegar os cardápios vejo meus colegas de trabalho — desocupados — me olhando, afinal, Mia é fofoqueira, então já contou para Liam o que está rolando, embora não seja nada demais. Bom, eu acho que não é nada demais. Ela pisca para mim dando uma risadinha cínica e ele balança a cabeça de forma positiva de trás da caixa registradora.

Quando me aproximo da mesa onde os quatro estão sentados, eles interrompem a conversa me encarando e eu agradeço mentalmente por não precisar usar um uniforme ridículo.

— Oi meninos, sejam bem-vindos — sou a primeira a quebrar o silêncio, seguindo o protocolo de recepcionar bem os clientes, enquanto distribuo os cardápios.

, que surpresa você por aqui — Peter é o primeiro a falar e eu vejo Ethan esconder um sorriso maroto.

— Ele está blefando — o quarterback anuncia quando pega o cardápio da minha mão — Ficamos com saudade — ele sorri olhando para mim e completa olhando para o melhor amigo sentado em sua frente — Todos nós.

— Acredito que ficaram, porque hoje é segunda e só nos vimos ontem — falo rindo, depois de ouvir uma tosse falsa vindo de . Pela primeira vez no dia olho para ele, que está com as bochechas vermelhas. Acho fofo como se envergonha fácil. Ele me dá um sorrisinho e enfia a cara no cardápio — Volto daqui a pouco para recolher o pedido de vocês, ‘tá?

Quando me afasto um pouco da mesa consigo ouvir um “cara, você é ridículo” e um “ridículo é você, que ficou caladão” em resposta. Mais uma vez me pego segurando o riso e isso me surpreende. Acho que de ontem para hoje eu sorri verdadeiramente e de forma espontânea mais do que no último ano inteiro.

Quer dizer, o dia de ontem foi meio anormal na minha rotina. Conhecer os meninos e me sentir tão à vontade perto deles foi uma novidade, e confesso que deu uma aquecida no meu coração — acho que era disso que estava precisando. Não lembro de um único dia feliz enquanto dormia nos diferentes sofás e colchões nas casas dos meus amigos, esperando uma carta de recomendação para transferência de universidade. Talvez eu tenha dado um sorriso triste quando peguei a I-90, saindo de Nova York em direção a minha nova vida em Boston, mas as lágrimas que escorreram durante as quase quatro horas de estrada estão muito mais marcadas na minha memória.

Também foram poucos os momentos em que sorri de verdade enquanto morei por algumas semanas com Briana e Christian. Claro que sempre serei muito grata pela acolhida da minha cunhada e pelos bolinhos de caramelo que eventualmente eram feitos por ela, mas noventa e nove por cento dos momentos em que eu sorria era de modo automático, exatamente como fazemos quando crianças e os nossos pais nos obrigam a tirar foto com o Papai Noel ou o coelhinho fake da páscoa. A insistência do meu irmão mais velho para que eu ligasse para a mamãe também não me ajudou a passar ilesa e completamente feliz pela casa deles.

Quando me mudei para onde hoje moro com as meninas, senti muito mais alívio do que felicidade instantânea. Então também não consigo resgatar muitas memórias felizes e que me arrancaram risadas, diferente do dia de ontem. Foram meses de adaptação até eu me acostumar com as festas, os treinos barulhentos no quintal e o modo carinhoso — porém invasivo — de preocupação que elas desenvolveram por mim.

Acho que as únicas pessoas que conseguiram me fazer sorrir desde que tudo aconteceu foram Mia, Liam e Anthony — embora eu não o veja com tanta frequência, como gostaria que acontecesse.

Mas, desde que conheci foi diferente e, embora seja difícil assumir isso sem nem ter precisado passar pela terapia, eu gostei. Quer dizer, ele pegou a mim de surpresa por duas vezes e mesmo que eu tenha ficado assustada de primeira já senti algo novo.

Depois do nosso não almoço, percebi como não precisei fingir ser uma diferente. Até na presença dos garotos eu fui capaz de me sentir leve, bem recebida e confortável pela primeira vez depois de alguns anos. Estaria louca se não assumisse que ceder um pouco mais a cada dia tem sido bom para mim.

O que passou, passou. Agora eu estou me refazendo. Acho que esse é o meu novo mantra.

Me pego sorrindo de novo enquanto anoto os pedidos e também ao levar os pratos. De todos os meninos, é o mais calado quando eu estou por perto. Tyler e Peter se encarregam de deixar o clima leve e fazer qualquer piada boba durante a minha aproximação. No meio da refeição eu vou levar uma nova rodada de cerveja quando sou pega de surpresa.

— Sabe — Tyler começa, enquanto me deixa servi-los, eu olho para ele com a testa franzida — Eu e os outros estamos ocupados com os treinos no final de temporada e acho que por causa disso nosso amigo fica muito sozinho.

— Ty… — ouço suplicar, enquanto encaro o jogador de futebol americano.

— É verdade, você sabe que é verdade — ele se vira para o amigo e depois para mim novamente — Talvez vocês devessem passar mais tempo juntos.

— Tyler! — o moreno chama atenção e eu mordo o lábio inferior.

— Acho que não é uma má ideia, não conheço muita gente na cidade — a resposta sai antes mesmo de eu pensar, e eu encaro um visivelmente sem graça. Peter dá um gole na cerveja, Ethan começa a mexer no celular, prendendo o riso.

— Você tem certeza? — ele hesita ao perguntar e vejo os olhos castanhos esverdeados brilharem.

— ‘Tá com medo de perder no videogame de novo? — arqueio a sobrancelha direita.

— Ah, — ele gargalha jogando o cabelo bagunçado para o lado — Ontem foi sorte de principiante.

Balanço a cabeça em negativa enquanto sorrio de forma sincera para ele, mas antes de conseguir responder, vejo a mesa dos Porter chamar minha atenção.

— Preciso ir atendê-los, mas entendo sua frustração. Não é fácil mesmo ser tão mau jogador. — Pisco para ele quando dou as costas com um sorriso idiota no rosto e vou atender meus clientes. Ouço a gargalhada alta dos outros meninos quando me afasto.

***

— Você ‘tá com febre? — Mia sussurra atrás do bar enquanto Liam fecha uma conta para mim.

— O quê? — questiono.

— Você ‘tá sorrindo igual uma tonta e hoje você tá dobrando o turno. — Ela começa.

— E você nunca fica feliz quando precisa dobrar o turno — Liam completa me entregando a pastinha de couro.

— Vocês estão vendo coisa — resmungo, fechando a cara.

Eles estão certos, claro que estão. Quer dizer, eu não estou sorrindo porque estou com febre, só não ajo assim no meu estado normal de humor. Mas esses dois abusados não precisam esfregar meu sorriso na minha cara como se fosse o prêmio da Mia por me convencer a conversar com algumas pessoas novas. Saio de perto deles bufando, mas me recomponho quando chego com a conta para os meninos.

— E aí, entrego para quem? — pergunto, voltando a abrir meu sorriso idiota. Que bom que daqui eu fico de costas para os dois babacas atrás do bar.

— Pro . — Ethan anuncia, já levantando.

— Isso aí cara, você convidou, você quem paga. — Peter imita o outro.

— Aham, a gente te espera no carro. — Tyler completa — Bom te ver, . — os três falam juntos enquanto se afastam da mesa, piscando para mim.

Eu mordo o lábio enquanto entrego o papel para ele, visivelmente envergonhado. Ele ainda é o mesmo cara que foi almoçar comigo, mas hoje claramente os amigos resolveram pegar no seu pé, então acho fofo o fato de ele ficar sem jeito quando colocado sob pressão. Mas é bem diferente do que encarou meu irmão no estacionamento e no restaurante. Eu particularmente gosto dos dois.

— Terra chamando . — já está de pé quando volto a prestar atenção no ambiente.

— Desculpa — sorrio, e ele me entrega a capinha de couro com a conta e uma nota suficiente para pagar o almoço dos quatro — Foi um prazer receber vocês aqui — concluo, agradecendo também pela gorjeta, que é comum no país e eu não vou recusar, afinal esse é o meu trabalho.

— Estava tudo muito gostoso — ele coloca as duas mãos nos bolsos da calça jeans — Espero que os meninos não tenham te importunado muito, sabe… falando todas aquelas coisas. — Ele hesita, mas vejo sinceridade nos seus olhos.

— Eles são divertidos, não se preocupa. — concorda balançando a cabeça.

— Sabe, sobre o que o Tyler falou… se você quiser passar um tempo comigo, quem sabe quando não estiver estudando, ou trabalhando — me encarando, ele abre um sorriso tímido ao falar rápido. Sinto que preciso tranquilizá-lo, mas só percebo isso quando já estou respondendo.

— Eu acho ótimo — ele arregala os olhos, acho que não esperava uma resposta assim tão fácil — Hoje eu estou dobrando o turno aqui, mas amanhã preciso estudar e me preparar para a aula de quarta, porque cheguei atrasada da última vez. Você tem aula quarta, não é? — questiono, balança a cabeça concordando — Que tal então se a gente tomar café lá no campus antes do primeiro horário?

Quê? De onde eu tirei essa ideia? Quer dizer, acabei de chamar para tomar café na universidade antes da minha aula com Christian.

— Ah, por mim pode ser, daí a gente pode conversar sem ter os meninos… — ele é interrompido por uma buzina alta, mas ri quando continua — Atrapalhando!

Eu dou risada e concordo. Não combinamos nenhum horário, mas ele diz que me manda uma mensagem amanhã à noite para acertarmos. Estamos próximos, ainda em pé ao lado da mesa e eu sou pega de surpresa quando ele se despede de mim depositando um beijo rápido na minha bochecha. A buzina ecoa outra vez e ele sai quase correndo do restaurante.

Levo quase dois minutos parada olhando pela grande janela quando vejo o Audi que eu já conheço o suficiente para reconhecer sair do estacionamento. Viro de costas levando o dinheiro para o caixa e balançando a cabeça.

— Nenhuma palavra. — Aviso aos dois curiosos do bar e aproveito o restaurante vazio para ir lavar o rosto no banheiro dos funcionários.

— Eu não ia falar nada — Mia retruca para Liam, mas eu ainda consigo ouvir.

— Ia sim — ele responde, e pelo tom da voz sei que está rindo.

11

O estacionamento do campus ainda está relativamente vazio quando eu estaciono na quarta-feira pela manhã. É estranho chegar aqui tão cedo, principalmente se considerarmos que hoje é a aula de Christian, mas a verdade é que não consegui dormir à noite pensando no porquê de eu ter convidado o para tomar café da manhã no campus.

Solto o cinto de segurança para ficar mais confortável, enquanto suspiro. O Audi ainda não está no estacionamento então eu presumo que ele não chegou, e tudo bem, porque eu estou adiantada para o horário combinado. Agradeço mentalmente por isso, enquanto envio uma mensagem avisando que a gente pode se encontrar no estacionamento.

É estranha essa sensação de estar me relacionando com alguém diferente dos meus amigos de sempre. Foi difícil me abrir para o Liam, a Maddie e as outras meninas, mas tudo parece mais fácil de lidar quando o está por perto. Quer dizer, com ele eu sempre estou sorrindo, esqueço dos problemas e consigo ser a que eu realmente sou, sem medo de julgamentos.

Na segunda, quando os meninos foram embora da lanchonete e quando eu parei de me esconder no banheiro de funcionários, acabei conversando com os meus dois melhores amigos sobre todas as novas — porém confortáveis — sensações. Mia, que sempre pensa com o coração, bateu o pé afirmando que eu estava a um passo de ficar “perdidamente apaixonada”. Lembro de ter rido na hora e, claro, discordado, mas confesso que a fala dela ativou uma pulga atrás da minha orelha. Eu debati e disse que não estava me apaixonando porque eu já havia sofrido isso antes, sabia como era me apaixonar e não parece com o que está acontecendo na minha mente agora, afinal, da última vez foi completamente diferente disso. Liam riu e disse que era diferente porque o que senti por Jonah não era um amor seguro e confortável e sim uma rebeldia de adolescente completamente louca.

E ele não está totalmente errado com esse pensamento, tenho que admitir. Amar Jonah nunca foi confortável, embora fosse amor — e eu tenho a plena certeza de que era. Isso é muito doido, porque em alguns momentos a gente reproduz aquele ensinamento horrível de que o amor machuca, dói, que precisamos nos humilhar quando o sentimos; e eu sempre me senti um pouco assim diante do primeiro homem que acreditei amar.

Mas não sinto nada disso quando penso em estar com . Por exemplo, se eu estivesse sentada agora em um carro esperando o Jonah para tomar café da manhã provavelmente teria me preocupado em não ser a que realmente sou vestindo uma calça legging, com moletom e tênis.

Preciso parar de comparar o com o babaca do Jonah. Lembro a mim mesma e em seguida ouço uma batidinha no vidro ao meu lado.

está parado, com um dos braços apoiados no teto do meu carro, os cabelos castanhos estão bagunçados de um jeito charmoso e algumas mechas caem na testa. Abro o vidro devagar encarando o sorriso divertido que ele direciona a mim.

— Olá, posso ajudar? — pergunto de uma forma cômica, enquanto mordo o lábio inferior para segurar meu sorriso.

— Na verdade, acho que bati no carro errado — ele responde forma travessa — Mas se você quiser podemos tomar um café da manhã.

— Hmmm — murmuro, enquanto finjo pensar, olhando meu relógio de pulso — Parece uma boa ideia, tenho um horário vago antes da aula começar.

— Poxa, que coincidência. — Ele exclama fingindo surpresa, me arrancando uma risada.

Quando eu saio do carro percebo que o estacionamento já está mais movimentado, se oferece de forma gentil para carregar minha mochila, mas eu recuso. Caminhamos devagar até a cafeteria do prédio onde eu terei aula hoje, no caminho ele conta como foi a briga de Tyler e Ethan pelo controle remoto na noite anterior e eu me divirto com o relato, balançando a cabeça enquanto reparo como ele fala dos amigos de uma forma sincera e genuína.

Quando chegamos no nosso destino, ele empurra a porta dupla me dando passagem e eu agradeço o cavalheirismo com um sorriso. A cafeteria está relativamente cheia e são poucos os lugares vazios para sentarmos juntos. me encara meio decepcionado; acho que ele não esperava que os estudantes realmente tomassem café da manhã aqui. Algumas pessoas olham para nós dois parados na porta, outras cumprimentam o cara ao meu lado levantando as mãos e só então me dou conta de que estou com o melhor amigo do quarterback — embora ele pareça desconfortável com a situação.

Num ato impulsivo eu estendo a minha mão, puxando a dele e entrelaçando nossos dedos como no dia da festa. Puxo para a fila que só faz crescer no balcão e ele me acompanha, visivelmente surpreso com minha atitude.

— A gente pode pedir e ir para outro lugar, se você quiser — eu sussurro enquanto ele olha pra frente na fila. concorda com a cabeça antes de me perguntar o que vou pedir.

— Provavelmente só um café gelado — respondo — Não costumo conseguir comer antes das dez — dou risada com o meu próprio comentário.

— Vou pedir a mesma coisa então, e um croissant — ele avalia o balcão — E um donut também, porque estou em fase de crescimento. — Justifica rindo.

Quando terminamos de pagar por nosso café da manhã caminhamos em silêncio até o corredor. Penso bastante antes de fazer isso, mas sei que ainda faltam quarenta minutos para a aula começar e também sei que meu irmão só entra na sala quando tem pelo menos dois alunos, então tenho certeza de que teremos privacidade o suficiente antes para comermos em paz. me segue arrastando o all-star preto enquanto já dá umas mordidas no croissant.

Quando chegamos em frente a sala de aula eu olho pelo pequeno vidro na porta se alguém já está ocupando o ambiente e fico feliz ao ver que não, já que o corredor está enchendo. Uso a mão livre para empurrar a maçaneta e comemoro internamente quando a porta se abre sem maiores dificuldades.

— Isso é permitido? — pergunta quando me vê sentar na cadeira de sempre.

— Digamos que eu e você chegamos um pouquinho mais cedo para a aula de hoje — dou de ombros.

— É claro que chegamos — ele balança a cabeça se jogando na cadeira ao meu lado — Aos alunos que não chegam cedo para a aula, como nós dois. — ele estende o copo de café e eu solto uma risada antes de bater meu copo no dele.

***

— Não acredito que você fez isso — respiro fundo enquanto tento controlar a risada. Ele acabou de me contar uma história de quando juntos ele e Tyler saíram com a moto dos pais de Wesson e ele acabou sendo derrubado, quebrando alguns ossos.

— Não não, a culpa foi todinha do Tyler — ele ri, me acompanhando — Ele sabia que eu não tinha carteira e era menor de idade.

— E como vocês se safaram dessa? — pergunto, roubando mais um pedaço do donut que ele me ofereceu antes de contar a história.

— Ele ligou para minha mãe antes de ligar para a ambulância. Fiquei um tempo desacordado, mas acho que ela deu um jeito porque não fui preso por dirigir ilegalmente e causar um acidente — ele dá de ombros — É meio comum adolescentes inconsequentes na Califórnia — morde o lábio e as bochechas ficam vermelhas com a revelação que faz em seguida — Minha mãe é advogada, está acostumada a lidar com essas coisas, sabe… dos filhos dos clientes.

— Imagina só você na cadeia e cheio de gesso — balanço a cabeça, não tocando no assunto da mãe, para não deixá-lo ainda mais constrangido.

— Pelo menos eu fui muito mimado, minha vó resolveu passar uns dias lá em casa para cuidar de mim — ele pega o celular e começa a me mostrar umas fotos de quando esteve acamado — E eu ganhei uma cicatriz maneira na coxa — ele aponta para a perna direita e automaticamente eu me pego olhando para as longas pernas cobertas por uma calça jeans escura.

Ele pigarreia chamando minha atenção e eu levanto o olhar sem jeito. Agora os lábios entreabertos revelam um sorriso maroto e as pupilas dilatadas escondem um ar de divertimento, enquanto me encaram.

— Será que valeu a pena mesmo, tudo isso por uma cicatriz? — eu respondo em um sussurro.

— Eu acho que sim, mas você pode me dizer depois — ele responde, no mesmo tom de voz, ainda me encarando.

Abaixo o olhar completamente envergonhada e o ouço suspirar, quase derrotado. A mão direita se aproxima, segundo meu queixo e levantando meu rosto devagar, encaro por alguns segundos, as bochechas estão rosadas e a respiração acelerada.

— Eu vou te avisar só para não ser invasivo — ele começa — Mas eu quero muito te beijar agora.

12

Eu estou beijando .
E não faço a mínima ideia de como vim parar aqui, com a boca colada na dela. Na verdade, quando dei por mim já estava beijando-a, minha língua pediu passagem e ela cedeu, correspondendo. A mão direita de puxa de leve meu cabelo, enquanto a outra se apoia na mesa que separa nossos corpos de se colarem. Com uma das mãos eu seguro seu rosto, usando o polegar para acariciar uma de suas bochechas. Meu corpo parece em chamas. E eu sinto na boca do estômago as borboletas dando piruetas; a última vez que me senti assim foi quando dei meu primeiro beijo.

Tento puxar para o mais perto de mim que sou capaz e solto um gemido frustrado entre o beijo quando percebo que a mesa não vai deixar eu me aproximar como gostaria. Mas sinto o calor e o desejo serem correspondidos pela forma como ela passeia com as unhas pela minha nuca. Por um minuto só consigo pensar em como seus lábios são macios e como sua língua mesmo com um gosto de café gelado misturado com menta, é quente e confortável. Uma combinação que nunca imaginei ser perfeita.

O barulho da porta abrindo devagar faz com que ela se afaste rápido, quebrando o beijo de uma forma assustada. Eu olho para a garota que acabei de beijar antes de conferir quem nos interrompeu nesse momento de glória. As bochechas de estão vermelhas e os lábios levemente inchados, entregando que estávamos nos beijando com desejo. Ela morde próprio lábio inferior, antes de quebrar o silêncio, enquanto encara a porta.

— Ai Sophia — suspira aliviada. Transfiro meu olhar para a ruivinha de óculos e cabelo cacheado parada na porta com uma mochila nos ombros. Franzo o cenho confuso. Essa não é a professora, né?

— Desculpa, baby — ela abre um sorriso sem graça — Oi — acena para mim e eu respondo levantando uma das mãos sem me preocupar em como ela sabe quem eu sou — Vi o que vocês estavam fazendo pela janelinha da porta…

— Claro que viu — interrompe e a menina revira os olhos, ignorando o comentário e continuando a explicação. Acho que são amigas.

— Mas seu irmão está parado no corredor conversando com alguns alunos antes de entrar, então achei melhor interromper antes que, você sabe… — ela hesita.

— Eu sei — a morena ao meu lado conclui, suspirando e se recostando na cadeira — Obrigada, Sô.

A ruiva pisca e coloca a mochila em uma das cadeiras antes de sair da sala alegando que vai nos deixar sozinhos. Acompanho a fechada de porta devagar, em seguida direciono o meu olhar para .

— O que acabou de acontecer? — pergunto, quase rindo.

— Sophia mora comigo, além de ser minha colega de turma, então ela conhece Christian — ela apoia o rosto em uma das mãos, olhando para mim — Foi legal da parte dela. Já pensou se, mais uma vez, somos interrompidos pelo meu irmão mais velho?

— E por que exatamente ele iria nos interromper aqui? — pergunto, olhando diretamente em seus olhos. desvia o olhar para baixo, mas uma voz grave responde por ela.

— Porque eu sou o professor dessa turma. — Não preciso olhar para saber quem é. Fecho os olhos devagar e passo a mão pelos cabelos. Claro que ele é o professor, como não pensei nisso antes? Parece que agora eu e o irmão mais velho empatamos.

Abro os olhos devagar e vejo encarar o irmão. Uma carranca já se formou em seu rosto e isso faz com que eu lembre de quando a conheci na semana passada. Seguro a risada, porque o bico revoltado que molda seus lábios me fazem ter vontade de voltar a beijá-la. É uma pena que o mais velho esteja no mesmo ambiente que a gente nesse exato momento.

Christian se movimenta devagar pela sala de aula, deixando suas coisas em cima da mesa com o computador. Ele franze o cenho enquanto olha para mim, balançando a cabeça de forma negativa. Não o que, babaca? Você nem me conhece. Ele suspira antes de olhar para e relaxar a mandíbula.

— Preciso falar com você antes da aula começar — diz, e eu arrisco que está na defensiva. O tom de voz é baixo, quase como um sussurro.

— Diga — ela é seca na resposta. Percebo então que estou fazendo um ping-pong com o olhar, tentando analisar a feição dos dois enquanto conversam, ou enquanto tentam conversar.

… — ele chama ela pelo nome, mas não termina. A ouço bufar e ela olha para mim. Sei que quer que eu a salve, como das últimas vezes, mas também sei que ela é capaz de enfrentar essa. E, embora ele tenha balançado a cabeça de forma negativa para mim e tenha sido arrogante nos últimos encontros que tivemos, sinto que ela precisa se livrar dele da forma menos problemática possível. Eles são irmãos e pensar nisso faz com que eu lembre que odiaria ficar tanto tempo brigado com Cassie, minha caçula.

— Pode falar cara, estamos ouvindo — respondo o chamado, antes mesmo de pensar, ou olhar para ele.

agora me encara com as pupilas dilatadas e a respiração quase acelerada, então eu estendo uma das mãos por cima da mesa e faço círculos lentos em seu cotovelo. Viro para Christian antes dela, abrindo o sorriso mais falso que posso e balanço a mão livre, pedindo para que ele continuasse a frase.

— É sobre nossos pais. — Ele pronuncia as palavras devagar, como se estivesse entrado em um campo minado, e eu agradeço mentalmente por ele não ter respondido com um “a sós”, quando sugeri que falasse com nós dois.

— Eu não vou voltar, Chris — ela responde em sussurro.

— Não estou pedindo para fazer isso, é o que estou tentando dizer desde sempre — ele passa as mãos no cabelo, sentando na mesa do professor.

— O que você quer então? — ela arqueia as sobrancelhas, o desafiando.

— Não sei o que eu quero — ele vacila e olha para mim antes de começar a expor o que realmente pensa — Minha maior vontade é de reconstruir nossa família, isso não vai acontecer e não vou forçar você. Mas queria que ao menos tentasse se juntar a mim, a Bri e ao Tony. Ele vem no final de semana dos pais.

— O Anthony vem pra Boston? — a voz dela vacila e eu continuo com o carinho, mas não ouso interromper. Chris concorda com a cabeça. — Ele não vem sozinho, né?

— Não tinha como eu convidar só o Tony para o final de semana dos pais — ele suspira — A mamãe insistiu e os três vão ficar lá em casa.

— Tô fora. — Vejo revirar os olhos — Não vou me juntar a “você, Bri e Tony”. — Usa aspas com as mãos.

Christian respira fundo e olha o relógio, sei que falta pouco para os alunos começarem a entrar já que o burburinho fora da sala de aula fica cada vez mais alto. Ele parece ponderar e escolhe não discutir, usando com cuidado as palavras.

— Vocês podem ir jantar lá em casa então, só vocês, — acho que é a primeira vez que o ouço chamá-la pelo apelido.

— Vocês quem? — ela pergunta, ainda com a cara fechada.

— Você e… — ele hesita, olha para mim, depois volta a encará-la — Seu amigo.

— O quê? — respondo primeiro, quase soltando uma risada.

— Você tá convidando eu e o para jantar na sua casa? — ela olha para o irmão, que balança a cabeça se dando por vencido.

— Estou, vamos poder conversar. Não pode ser tão ruim assim. — Comenta, na dúvida.

cerra os olhos, encarando sua versão masculina e mais velha. Em seguida ela me olha de forma séria e eu engulo meu sorriso. Os olhos brilham, mesmo que lá no fundo, assim como quando ela ganhou de mim e dos meus amigos no FIFA, e como quando perguntou do irmão mais novo. Ela morde o lábio, receosa, esperando que eu responda.

Sei que ela quer ir. E por mais louco que isso pareça, sei que ela quer que eu vá. Não pode ser tão ruim né? Quer dizer, o cara fez sinal de negativo me olhando de cima a baixo, só falou comigo hoje, e tratou com grosseria nos nossos últimos dois encontros. Mas ela quer ir, sei que sim. E a opinião dele pouco me importa. Só a dela. A garota que há uma semana atrás não quis sentar comigo mas que beijou a poucos minutos, e que me quer num jantar na casa do irmão protetor.

Qualquer coisa eu posso sair correndo de lá, né?
Pelo amor de Deus, ! Pare de ser bobo. Meu subconsciente grita.

— Por mim, tudo bem — respondo, olhando para , que sorri de forma tímida.

Ouço Christian balbuciar algo sobre combinarmos o jantar para a próxima folga da irmã, mas não me importo em ouvir. Sei que ele levanta da mesa se concentrando no quadro e percebo que alguns alunos começam a entrar na sala, escolhendo os lugares para sentar.

— Preciso ir pra aula e te deixar assistir a sua… — sussurro para que só escute, enquanto fico de pé.

— Você não precisa fazer isso, — ela responde e sei que está se referindo ao jantar.

— Quero fazer isso — respondo, omitindo o “por você” da frase.

— Tem certeza? — balanço a cabeça, concordando. A sala enche cada vez mais.

— A gente fala sobre isso depois da aula — me inclino com um sorriso no rosto e deposito um beijo em sua testa, antes de me virar e sair da sala. Ainda sinto o olhar de Christian nas minhas costas quando fecho a porta e solto o ar.

Dois a um para mim.

13

Saio da sala ignorando completamente a informação de que também tenho aula hoje. Me conheço o suficiente para saber que os últimos acontecimentos deram uma chacoalhada na minha mente e só uma coisa vai me ajudar agora — e não é a aula que eu estou fazendo só para cumprir carga horária.

Arrasto meus pés para fora do prédio seguindo o fluxo contrário dos alunos que chegam atrasados para a primeira aula; algumas pessoas falam comigo acenando, outras me param para perguntar se tem festa esse final de semana. Só fico realmente seguro quando sento no banco de couro do Audi e ligo o motor, deixando o aquecedor interno fazer o trabalho dele. Confiro o relógio no painel do carro e suspiro quando vejo que ainda são 8:30 da manhã em Massachusetts, o que significa que as três horas de diferença me atrapalham quando penso em falar com a minha família. Ainda é muito cedo na Califórnia, mas Cassandra é minha irmã então ela tem a obrigação de me atender em momentos de desespero, certo?

Tiro o celular do bolso e acesso o aplicativo do FaceTime, vejo o contato da minha irmã em segundo lugar na lista de ligações recentes e aperto para iniciar a ligação. Depois do quinto toque o rosto amassado de Cassie aparece na tela.

— Eu espero que você esteja morrendo, porque só isso justifica uma ligação a essa hora manhã — a voz rouca exclama do outro lado da tela e eu solto uma risada alta.

— Para o seu azar e a minha sorte, não estou morrendo — digo, abrindo um sorriso.

, são cinco e meia da manhã, qual é o seu problema? — ela abre os olhos e me encara pela tela, bocejando.

— O que faz você pensar que eu tenho um problema? — questiono.

— Você costuma respeitar o fuso quando quer falar banalidades e sempre liga para o celular da mamãe quando não tem problemas — argumenta.

— É um bom ponto — retruco — Mas estou com saudades de vocês — digo, e é verdade. Sempre que vejo as duas mulheres da minha vida pela tela do celular o coração aperta.

— Não me faça pegar um avião até Boston — ela revira os olhos de forma dramática — Também estamos com saudade, mas por favor desembucha, eu sei que você tem algo para falar.

Mordo meu lábio inferior encarando a minha caçula com cara de sono, porém atenta, do outro lado da tela. Cassie me ajuda desde que eu tinha 4 anos de idade e nós dois temos uma conexão que nunca vi em nenhuma outra família. Já ouvi dizer que irmãos gêmeos sentem algo assim mas não é o nosso caso, embora tenhamos nascido no mesmo dia. Ela é dois anos mais nova e eu sempre disse que foi o presente de aniversário mais legal que recebi.

Nós dois somos bem diferentes, mas minha mãe diz que nos completamos da melhor forma. Eu sempre fui instável, Cassie sempre foi pé no chão. Eu sempre fui inseguro, Cassandra sempre foi a menina mais cheia de atitude que conheci. Eu sempre fui sensível, Cassie sempre foi durona. E nós dois sempre funcionamos bem juntos, nos equilibrando nas qualidades do outro que faltavam em nós mesmos. Como quando cai do skate pela primeira vez com cinco anos de idade, ela tinha três e gritou mandando eu parar de chorar, em seguida correu com as pernas curtas até em casa para chamar nossa avó enquanto eu continuei estatelado no asfalto. Ela segurou minha mão pequena enquanto o remédio ardia no meu joelho ralado.

Com oito, minha vida mudou completamente depois da morte do nosso pai, e ela estava lá, com apenas seis anos, sendo a pessoa mais forte da família. Nunca perguntei onde ela aprendeu que o papai tinha virado uma estrelinha, mas Cassandra foi a primeira pessoa a me dizer isso. Ela sempre soube o que me dizer, até quando a mamãe ficava sem palavras. E foi exatamente por isso que liguei para ela hoje, sem nem pensar duas vezes.

Jogo minha cabeça para trás e com a mão livre bagunço meu cabelo. Cassie segura o riso, porque ela sabe que eu não sei por onde começar, enquanto balança uma das mãos em frente a câmera.

— Ok, — começo — Acabei de beijar uma garota. — Solto de vez e Cassie franze o cenho antes de soltar uma gargalhada. Eu reviro os olhos, mas não me deixo levar pelo seu riso contagiante. — É sério, sua babaca.

, você beija garotas desde que eu entendo o que é beijar — minha irmã retruca.

— Não é isso, Cassie — suspiro. Será mesmo que foi uma boa ideia ligar para ela?

— Calma! — exclama — É…? — ela questiona e eu entendo sem que minha irmã precise completar a frase. Balanço a cabeça confirmando e ela pede para que eu conte desde o começo.

A postura de Cassandra muda assim que começo a falar sobre . Ao invés de permanecer deitada ela senta se apoiando na cabeceira e prestando atenção em cada detalhe que sai da minha boca. Eu conto desde o começo, quando “salvei” do irmão, conto do nosso encontro inesperado na festa e também o que rolou quando combinamos de almoçar juntos.

A risada que ela dá quando relato a nossa derrota para no videogame é uma delícia de ouvir, e Cassie completa dizendo que merecíamos mesmo perder. Ela afirma que está com saudades do Tyler quando descobre que ele me colocou contra a parede e me fez admitir sentimentos por . Termino contando a minha irmã como foi nosso almoço no B&B e como o café da manhã de hoje terminou com quase um “auto” convite para jantar.

— Se você fosse um pé no saco como esse irmão dela eu nunca deixaria meu namorado jantar com você — é a primeira opinião dela.

— Você tem um namorado? — arqueio a sobrancelha.

— Hipoteticamente falando, mano — revira os olhos apontando o indicador esquerdo para a câmera — E o foco ainda é você. — Reviro os olhos imitando-a, e concordo com a cabeça.

— Você acha que fui muito precipitado? — questiono.

— Em aceitar o jantar? Acho que não, você falou que ele te convidou — ela suspira — Está na cara que ele não gosta de você, é claro. Mas não podemos ignorar todos os sinais que a aparentemente deu né? — ela questiona e eu balanço a cabeça — Então não acho que você está correndo, mas… — hesita — Isso te assusta?

— Porra, como sim — desabafo, tirando o primeiro peso do ombro. Do outro lado da tela Cassie me encara enquanto faz um coque frouxo, sei que ela está me dando o tempo que preciso para começar a falar. Solto um suspiro antes de começar. — Não me assusta o fato de eu ir jantar na casa de alguém, Cas, é o que eu estou sentindo. Você me conhece mais do que eu mesmo — desvio o olhar para um ponto qualquer do estacionamento — Fico com meninas desde que entendi o que era isso, sinto atração por meio mundo de mulheres, sorrisos diferentes, cores de cabelos diferentes… mas nada nunca foi igual ao que senti quando encarei pela primeira vez, enquanto os dedos do irmão a seguravam pelo cotovelo. Foi muito mais do que atração física, e você sabe disso. Não estaria ligando se não fosse importante para mim, se não fosse diferente. Já jantei na casa de milhares de garotas, encarando os pais mais terríveis da Califórnia e não senti absolutamente nada. Tudo é diferente. O jeito que me sinto o idiota mais legal do mundo quando estou com ela, como senti vontade de conversar antes mesmo de beijá-la…

— Bom, isso é mesmo diferente — minha irmã me interrompe, zoando a minha última frase para quebrar o gelo e eu levanto meu dedo do meio em resposta, mas continuo com a falação.

— Já entendi que a foi machucada, não tenho nem ideia do que aconteceu, mas meu maior medo é ser invasivo demais.

— Você não está sendo, mano bro! — afirma — Só o fato de você se preocupar com isso é diferente dos outros caras babacas que estão por aí, e eu não estou dizendo isso só porque sou sua irmã — ela sorri — Mas é porque te conheço.

— Tem certeza? — vacilo.

, eu nunca falaria uma coisa dessas se não fosse verdade. Você está se apaixonando por ela, é normal que tenha medo, se sinta inseguro e todas essas coisas, mas pelo que você me contou as coisas entre vocês estão funcionando porque os dois se sentem confortáveis, porque ela já começou a confiar em você. Não tem porque começar a hesitar agora.

— Acho que nunca fiz isso antes — mordo o lábio inferior — Me apaixonar, sabe?

— Você sempre foi o cara que fazia as garotas se apaixonarem — ela dá de ombros rindo e me arrancando um sorriso.

Cassie ainda me diz para seguir meu coração, embora eu ainda não saiba como fazer isso, e me manda confirmar o jantar assim que terminarmos a ligação. Agradeço a minha irmã por ter paciência para as minhas crises amorosas e ela ri, afirmando que esperava por esse dia. Depois de mais algumas perguntas para saber se a mamãe está bem, nós desligamos.

Dou a partida no carro mais aliviado e seguro diante de todos esses sentimentos confusos. O sorriso é inevitável quando penso nos lábios quentes sobre os meus e só consigo pensar em como seria feliz com nos meus braços, mas por enquanto me contento com o fato de que ela está começando a confiar em mim. Isso já é especial e mais do que o suficiente no momento.

Tudo no seu devido tempo, .

 

Capítulo 14

O sábado chegou mais rápido do que eu esperava e finalmente — ou não — eu ia arrastar o para jantar na casa do Christian. A ideia foi mais deles do que minha, na realidade. No meio da aula na quarta-feira eu recebi uma mensagem do falando que se eu quisesse era só marcar o dia e o horário com o meu irmão e avisá-lo, agradeci a atitude e acabei combinando com o Chris de que poderíamos jantar juntos depois do meu turno de trabalho do sábado.

Claro que me arrependi de ter aceitado essa palhaçada no segundo em que o fiz, mas não podia deixar o medo de encarar meu irmão me dominar de novo então respirei fundo e passei os últimos três dias pensando nisso, é claro. E confesso, também pensei que seria uma “desculpa” legal para ter o por perto, porque não nos vemos desde a quarta-feira.

A realidade é que vem sendo muito legal comigo desde que o conheci e é muito difícil ignorar esse fato, mesmo diante da minha vontade e necessidade quase pessoal de distanciamento durante os últimos anos. Nos falamos por mensagem quase todos os dias e, mesmo que não seja nenhuma conversa muito específica além de trocas de piadas e figurinhas, isso me deixa feliz, me faz sentir acolhida e especial de alguma forma. Hoje ele fez questão de me avisar que iríamos no mesmo carro para o jantar, óbvio que eu resisti, mas como um bom cavalheiro ele insistiu e agora eu estou parada na porta de casa com meus braços cobrindo o próprio corpo enquanto vejo o Audi preto virar a esquina e encostar no meio fio.

Ele sai do carro, mantendo-o ligado enquanto eu caminho em direção a porta do passageiro. franze a testa quando me vê e eu sei que é porque estou com uma cara de poucos amigos. A verdade é que eu amo dirigir, principalmente quando preciso aliviar o estresse pré algum evento que não me deixa segura, então essa ideia de ir de carona não me agrada muito.

— Devo me preocupar com esse bico? — ele brinca, dispensando o “oi”, enquanto abre a porta do passageiro.

— Você sabe que eu não concordo com isso aqui — gesticulo fazendo o sinal de relação entre eu e o carro. me olha com os olhos cerrados, como se estivesse avaliando a minha postura corporal. Minha coluna está ereta e sei que meus ombros livres estão tensos.

— Estamos no mesmo lugar e vamos para o mesmo destino — ele pondera — Vai te fazer melhor se você for dirigindo? — pergunta e eu arregalo os olhos.

— O quê? — questiono.

— Você falou que não está confortável com a situação — dá de ombros — Vai se sentir melhor se dirigir? Já entendi que essa é sua praia e eu teria que colocar o endereço no GPS de qualquer maneira. — Ele justifica de uma forma levemente fofa, o que me faz abrir um quase sorriso.

— Acho que prefiro ir dirigindo então — respondo, em um sussurro. solta um “tá bom” e, ao invés de fechar a porta do passageiro enquanto me espera pegar as chaves do Honda, ele entra no carro se acomodando no banco de couro do carona. Arregalo os olhos. Ele quer que eu dirija o carro dele?

me encara enquanto continuo parada olhando para o Audi ligado e com a porta aberta. Ele sorri divertido balançando a cabeça.

— Eu sei que ele é seu irmão, mas vai soar um pouco deselegante se chegarmos muito atrasados — ele morde o lábio inferior segurando o riso — Você pode entrar no carro e nos levar para jantar? — questiona, abrindo um sorriso galanteador e batendo a porta do Audi.

Balanço a cabeça quase saindo de um transe enquanto dou a volta e abro a porta do motorista. Olho para mais uma vez só para me certificar de que ele tem certeza do que está propondo, mas já está entretido jogando no celular. Me acomodo no banco de couro ainda em choque enquanto encaro o painel já acesso. Na minha cabeça, só consigo pensar em uma coisa: Jonah nunca me deixaria dirigir o carro dele.

— Você tem certeza? — pergunto em voz alta, sem direcionar o olhar para ele.

— Por que não teria? — a voz rouca me responde e sei que estou sendo observada — Quer dizer, sua carteira de motorista não foi comprada né? — ele questiona com um tom risonho, o que também me faz abrir um sorrisinho. Balanço a cabeça de forma negativa — Então pode dirigir, — ele me incentiva de forma tranquila, voltando a atenção para o celular — E pode ajustar os retrovisores, banco e essas coisas porque eu não me incomodo com isso.

Mesmo sabendo que ele não está olhando para mim concordo com a cabeça outra vez, começando a fazer o que me orientou. O carro é bem diferente do meu então demoro um pouco para me acostumar com os botões enquanto faço os ajustes, mas ele não interfere e me deixa super à vontade para que eu me acomode. Quando dou a partida no carro me assusto, de uma forma positiva, porque é uma delícia de dirigir.

Não consigo conter o gritinho de alegria ao acelerar e sentir uma resposta rápida, rápida mesmo, do motor. Abro um sorriso idiota enquanto dirijo e presto atenção em todos os detalhes, querendo guardar na memória esse momento — por alguns motivos, devo ressaltar. O primeiro deles é o fato de eu estar dirigindo um Audi e, embora isso pareça banal, é muito louco para mim. Sempre fui vidrada em carros e tenho várias lembranças de momentos especiais com a minha família por causa deles. Meu pai foi dono de uma oficina que ficava embaixo do nosso apartamento, então desde criança eu estive rodeada de diversas marcas e modelos. Em casa eu assistia aos programas de corrida e documentários na TV com meu pai e irmão, aprendi a dirigir antes dos dezesseis e tirei minha carta sem maiores dificuldades, estimulei Tony a montar uma coleção de carrinhos e também amar os automóveis.

O fato de ter me permitido sentar no banco do motorista também me deixou feliz. Sei que não preciso de nenhuma aprovação masculina para a minha direção impecável, mas venho de um histórico romântico onde não podia cogitar a possibilidade de ser a motorista, mesmo quando não bebia, então a sugestão me impressionou. Eu sempre achei que todos os homens fossem cem por cento protetores com seus carros; alguns caras até nomeiam e chamam de filho, não é?

Levo um susto quando The Fray invade os altofalantes do carro que, eu não havia percebido antes, mas estavam desligados. ri do meu sobressalto enquanto mexe na tela de mídia ajustando o volume e eu desvio o olhar da pista só para lhe mostrar a língua.

***

É inevitável não olhar para enquanto ela dirige meu carro. Isso me faz lembrar de quando a conheci e tive a oportunidade de examiná-la enquanto me levava para longe do campus, exatamente como estou fazendo agora. O sorriso e seu rosto enquanto canta e pisa no acelerador me preenche, e por mais que isso soe bobo — principalmente para um cara que nunca se apaixonou — é uma coisa legal de sentir. Faço uma nota mental de que devo deixá-la dirigir mais vezes se isso a faz sentir livre.

Balanço a cabeça, usando minha visão periférica. Hoje está especialmente bonita. As longas pernas estão cobertas por uma calça com estampa camuflada que prende no tornozelo e um top preto toma o lugar de o que poderia ser uma camiseta. Desvio o olhar para não parecer um adolescente cheio de hormônios no exato momento em que ela dá a seta para estacionar.

Paramos em frente a uma casa de madeira com dois andares. A luzes do interior brilham além das cortinas e uma caminhonete está parada na garagem externa. Vejo encarar a janela do carro assim que o desliga, o rosto carrega uma expressão séria, como se perguntasse a si mesma “o que eu estou fazendo aqui?”.

— A gente pode ir jantar em algum outro lugar se você quiser… — tomo a iniciativa de quebrar o silêncio. Ela se vira para mim e a vejo esboçar um sorriso.

— Está tudo bem — suspira — Só faz um tempo que não venho aqui, mas eu prometo que o Christian não é tão ruim assim e as sobremesas da Bri são deliciosas — brinca.

— Eu acredito… só na parte da sobremesa, claro. — Brinco e ela ri revirando os olhos.

Saímos do carro juntos e espera até que eu a alcance para começar a andar. Depois do que imagino termos dado dois passos sinto seus dedos segurando meu punho esquerdo e me viro questionando se tem algo errado. O olhos esverdeados brilham de um jeito que me assusta porque não sei se é bom ou ruim.

— Obrigada por me deixar dirigir seu carro — fala e eu não deixo de sorrir, ela continua sem me deixar responder — Se esse jantar for um desastre a gente pode fingir que não aconteceu? — questiona, revelando o motivo de sua inquietação.

Abro um sorriso carinhoso. Não posso prometer isso porque sei que não sou capaz de ignorar a existência dos momentos ao seu lado, por mais desagradável que seja ter também a lembrança de um irmão mais velho e rabugento

— me aproximo, segurando seu rosto com a mão livre — Se o jantar for um desastre prometo deixar você dirigir e nos levar para longe daqui — falo, ela suspira fechando os olhos enquanto morde o lábio inferior. Deposito um beijo em sua testa e deslizo meu punho para fora dos seus dedos, sendo rápido o bastante para não afastá-la e segurar sua mão enquanto caminhamos juntos para tocar a campainha.

15

Eu percebo que estava prendendo a respiração somente quando vejo Briana abrir a porta e eu solto ar. Minha cunhada está impecável, mesmo que com uma roupa casual, e os cabelos curtos balançam enquanto ela fala e gesticula nos convidando para entrar.

Assim que entro percebo que algumas coisas estão diferentes de quando morei aqui. As paredes, que antes eram de um tom escuro, estão pintadas de cinza claro, os móveis mudaram de lugar e vários novos porta-retratos foram colocados na estante ao lado da lareira. Briana comenta alguma coisa sobre Christian descer logo porque está em uma ligação com o coordenador do campus e eu balbucio uma resposta caminhando em direção as fotos.

Sei que agora e Briana estão conversando alguma banalidade, mas deixei de prestar atenção porque me aproximei para examinar as fotos. Percorro os olhos de uma forma rápida, porque são muitas, muitas mesmo. Dou um sorriso leve assim que vejo eu, Christian e Anthony sentados na neve, na nossa viagem em família para o Canadá. É bizarro como me lembro perfeitamente bem do momento em que a foto foi tirada pela nossa mãe; eu tinha aproximadamente doze anos e ria de alguma coisa que o Christian havia dito. Tony, com três, estava sentado no meu colo com a língua para fora.

Mesmo com a diferença de idade entre nós, sempre fomos muito unidos, o que talvez pareça maluco, eu sei. Mas Tony e Chris eram uma espécie de porto seguro para mim, as duas pessoas no mundo com quem eu mais gostava de dividir os meus dias.

Meu coração aperta quando penso nisso, então balanço a cabeça passeando os olhos pela parte de cima da estante. Consigo ver fotos do casamento do meu irmão e mais algumas de integrantes da nossa família e da de Briana. Mas quando uma foto me chama muita atenção eu paro, disposta a analisá-la com cuidado.

Fico na ponta dos pés para alcançar a fotografia e tiro da prateleira uma foto do meu irmão mais novo. É inevitável não sentir o nó apertar na garganta quando o vejo tão grande. Imagino que a foto seja das últimas férias em que Chris passou junto com a nossa família, em New York. Os cabelos loiros de Tony caem na testa e ele faz uma careta para a câmera sentado no banco do motorista da caminhonete do nosso irmão mais velho — que na foto ocupa o lugar do carona — e eu penso em como estou perdendo de viver todos esses momentos junto com os dois.

Sinto meus olhos arderem quando lembro de como foi meu último encontro com Anthony.

***

Brooklyn, New York.
2016.

— Você tem certeza de que deseja fazer isso? — Jonah pergunta com um sorriso solidário no rosto e eu balanço a cabeça de forma positiva. A adrenalina toma conta de mim assim que ele me ajuda a sair do carro e cobre minha cabeça com o capuz do moletom lilás.

Quando vejo a luz do quarto de Tony apagar sei que chegou a hora. Jonah não sobe comigo porque diz que vai ficar de tocaia, caso veja algum movimento diferente. Ele me dá um beijo demorado e pergunta mais uma vez se meu celular está no bolso e no silencioso, concordo com a cabeça antes de ele me oferecer o ombro pra subir. Alcanço o primeiro lance da escada de incêndio atrás da oficina do meu pai sem maiores problemas, me penduro antes de lançar meu próprio corpo para cima, ficando de pé na plataforma de metal. Dou um tchauzinho para meu namorado e o vejo piscar.

Eu e Jonah precisamos ficar de tocaia por alguns dias para ter certeza de que Tony ainda era dono da janela ao lado da escada de incêndio antes de tomar a decisão de fazer uma visita surpresa e em segredo.

Fiz minhas escolhas de vida e agora essa era a única forma de ver meu irmão sem precisar enfrentar meus pais. Me estico na grade e bato de leve em sua janela, usando nosso antigo toque. Anthony não demora mais do que um minuto para abrir a janela com os olhos arregalados e o cabelo amassado. Faço sinal de silêncio com o dedo e me esforço para entrar no quarto sem fazer barulho. Ele anda devagar e senta na cama, esperando que eu me aproximasse.

Quando me ajoelho ao lado de sua cama ele abre um sorriso enorme e se joga nos meus braços. Respiro fundo contra seu cabelo, me lembrando do cheirinho de criança que sempre amei, mesmo que ele já estivesse com nove anos.

— Você veio me ver? — a voz doce pergunta baixinho.

— Sim, mas esse é nosso segredo, certo? — sussurro — Ninguém pode saber que estive aqui.

Ele concorda com a cabeça e abre espaço para que eu me deite com ele, enquanto faço carinho em seu cabelo despenteado e conto uma história maluca da minha última viagem. Quinze minutos depois, sinto o celular vibrar e confiro a mensagem de Jonah avisando que é hora de irmos. Tony faz biquinho quando começo a me despedir e eu o abraço apertado mais uma vez.

— Amo você daqui até a lua. — Ele sussura.

— Amo você daqui até a lua — beijo sua bochecha — Tranque a janela quando eu sair. — Dou o meu último aviso voltando para a escada de incêndio. Aceno uma última vez para meu irmão antes de o ver fechar as janelas e meu coração aperta.

Jonah me ajuda a descer pela escada de ferro, segurando meu corpo triste quando quase despenco. Ele segura minha mão fazendo círculos com um dos dedos enquanto me guia para o carro e abre a porta para mim. Fecho os olhos esperando que ele arraste o carro porque precisamos nos afastar da minha antiga vizinhança o mais rápido possível. Em cinco minutos, ele estaciona o carro em uma Starbucks antiga e fechada para reforma.

Sou facilmente levada para seu colo, onde me aconchego, segurando as lágrimas.

— Como está o tampinha? — pergunta, fazendo carinho na minha nuca.

— Bem — sussurro — Mas é horrível deixar ele para trás.

— Não precisamos deixar ele para trás, — ele me olha com ternura, me chamando pelo nome, de um jeito que só ele sabe fazer. — Podemos voltar sempre que a barra estiver tranquila.

— Não posso invadir minha própria casa.

— Se é a sua casa você não está invadindo, só usando uma entrada alternativa — ele pisca e me arranca a primeira risada da noite.

— Você entendeu o que quis dizer — ele segura meu queixo enquanto faz sinal de “sim” com a cabeça, aproximando nossos rostos e colando nossos lábios. Meu corpo se derrete com o toque carinhoso e me deixo ser beijada de forma intensa.

Quando nos separamos, o aperto forte pelo tronco e ele beija o topo da minha cabeça. Ouço Jonah começar a sussurrar a música que, ele sabe, eu cantava para o meu irmão quando éramos crianças.

Meu coração aperta e eu penso que não sei quando será meu próximo encontro com Tony. Não posso correr os riscos de ser pega, então não sei se faria o que fiz hoje uma segunda vez. Sinto as lágrimas de saudade começarem a rolar pelos meus olhos e molharem a camiseta do meu namorado. Pelo menos eu tenho ele comigo.

***

Uma lágrima quente e solitária toca minha bochecha no mesmo instante em que se aproxima. Enxugo rápido o rosto e o sinto depositar a mão na minha lombar de forma carinhosa.

— É seu irmão? — ele pergunta próximo ao meu ouvido e eu concordo com a cabeça, sentindo que ele repete meu gesto enquanto me afasto para devolver o porta-retrato à estante — Christian já desceu, estão esperando a gente na sala de jantar.

Me viro, encarando . Ele me olha de forma cautelosa, mas seus olhos brilham em um misto de verdade e preocupação e eu me pergunto mentalmente se precisaria passar por tudo que passei para ficar com ele. Cooper franze a testa antes de falar pela segunda vez.

— Essa cara é de fome do tipo “vamos logo jantar” ou de quem que fugir? — ele pergunta de forma baixa e sua naturalidade me faz soltar uma risadinha.

— Não vamos fugir — o informo.

— Tudo bem, mas o convite está de pé — ele ergue as mãos se entregando e eu balanço a cabeça, indicando a sala de jantar.

Seguro sua mão, tentando apagar os últimos minutos de angústia da mente e o arrasto até o cômodo ao lado, indo ver meu irmão pela primeira vez na noite.

16

estava certa quando falou sobre a cunhada e o poder de uma boa sobremesa, mas também acertou quando afirmou que esse jantar estava fadado ao fracasso. Bom, poderia ter sido um desastre, o que seria bem pior, então ainda estamos no lucro.

Dou mais uma garfada na minha torta de caramelo em silêncio, apreciando o gosto delicioso e rezando para que possamos ir embora em breve.

Na verdade, pensei em fugir assim que Christian desceu as escadas com cara de poucos amigos — que, diga-se de passagem, permaneceu durante todo o jantar — e nos cumprimentou. Eu respondi, mas parecia em outro mundo enquanto analisava algumas fotos na estante da sala de estar, então Chris, o nervosinho, foi fortemente ignorado.

Depois do que pareceu uma eternidade de puro silêncio e troca de olhares, o casal anfitrião me avisou que nos esperariam na sala de jantar e eu precisei ser o responsável por resgatar para a terra outra vez. Hoje ficou claro para mim que o rompimento dela com a família não foi algo muito saudável e, enquanto a via enxugar uma lágrima solitária, percebi que é muito mais do que a saudade que eu sinto de casa.

A refeição praticamente inteira foi feita no silêncio mais perturbador que já vivi na vida. não deu uma palavra depois que agradeceu por eles nos receberem, Christian ficou me encarando enquanto comia e eventualmente olhava para a irmã — que estava no mundo da lua. Como uma boa anfitriã Briana fez questão de fazer alguns comentários soltos e algumas perguntas que só eu, como um bom e constrangido convidado, fiz questão de responder. Mas ela cansou de forçar a barra, então continuamos comendo em silêncio até o momento.

— Eu reparei em como você estava olhando as fotos. — O Roberts mais velho finalmente abre a boca e o olhar severo é direcionado a .

Levanto o olhar da torta e os observo com cuidado. Ele tem olhos escuros e sustenta uma carranca, com a testa franzida, que é difícil de decifrar. Então ela o encara. Consigo ver tristeza em sua expressão, mas também vejo raiva e isso me confunde.

— E daí? — é a resposta que Christian ganha.

— Como e daí? — ele questiona revirando os olhos, do mesmo jeito que a irmã faz quando está insatisfeita.

— Chris… — Briana sussurra, chamando a atenção do marido. Ela está sentada de frente para .

— E daí que você viu como eu estava olhando para as fotos? — ignora a cunhada e resmunga, bufando.

— Você sente falta deles, — ele afirma, encarando-a.

— Não me chame assim. — Ouço a mulher sentada ao meu lado falar em um sussurro bravo. Ela abaixa o olhar quando escuta o irmão a chamar pelo nome e não é a primeira vez que faz isso. Lembro automaticamente do dia em que nos conhecemos e como pediu para que eu a chamasse de .

É bizarro assistir uma briga entre irmãos, então eu só tenho vontade de me esconder em algum buraco. Mas, ao invés de fazer isso, tomo o impulso de segurar a mão livre de por baixo da mesa. Percebo que ela direciona o olhar para os meus dedos fazendo carinho em círculos, mas não consigo parar e nem vou.

Quem eu quero enganar? Sei que estamos entrando em um território delicado durante a conversa e meu instinto é tentar confortá-la de alguma maneira, então eu agradeço mentalmente por ela permitir que eu faça isso.

— Não te chamar de quê? De ? — ele provoca e eu aperto mais forte os meus dedos entre os dela.

— Christian — Briana chama atenção pela segunda vez.

Respirar já se tornou pesado e eu começo a elaborar um plano de fuga para o caso de o jantar virar um desastre maior. Porque, claramente, eu comemorei cedo demais.

Christian bufa e começa a falar mais alto, e por mais que ainda esteja sentado, ele usa os braços para gesticular e sua fala ganha ênfase. Ele direciona o olhar firme para , enquanto afirma que vai chamá-la assim porque esse foi o nome que os pais deram a ela.

aperta minha mão forte enquanto escuta o irmão falar, então sou impedido de manter meu carinho com os dedos. Não quero que ela exploda, mas não sei como interferir no discurso patético que estou sendo obrigado a ouvir. Fico incomodado a cada palavra que ele profere, porque claramente Christian não percebe como as palavras afetam a irmã, por mais que sua mulher tente avisá-lo.

— Não é porque ficou sofrendo só porque seu namoradinho te chamava assim que ninguém mais pode fazê-lo — ele passa a mão nos cabelos de uma forma exagerada — Chega, , porque tudo isso já passou e o papai e a mamãe não tem culpa!

se afasta de mim no momento em que ele cita o “namoradinho”. Ela espalma uma das mão sobre a mesa e com a direta aponta diretamente para o irmão mais velho. O olhar é sombrio e molhado por lágrimas que não escorrem, o que me faz perceber como ela está sendo forte tentando inibir uma onda de sentimentos.

— Você — ela fala, mantendo a voz baixa, enquanto inclina o corpo para a frente — Não tem o direito de falar sobre os meus sentimentos — aponta para si mesma. — Porque você, Christian, não sabe o que eu passei. E talvez tenha achado que fez muito quando me abrigou, mas isso só aconteceu depois que eu passei quase um ano dormindo em sofás desconfortáveis e fedidos — ela começa a soltar verdades — Aliás, você já dormiu dentro do próprio carro? — questiona, de modo retórico sem permitir que o irmão responda — Claro que não, porque sempre foi o protegido da mamãe e do papai. Não fale da saudade que sinto da nossa família quando nunca precisou invadir o quarto do Tony porque foi proibido de vê-lo. — levanta, ainda encarando o irmão — Não me fale do final de semana dos pais, como se eu tivesse obrigação de perdoá-los e convidá-los depois de tantos natais, jantares de ação de graças e aniversários “esquecidos”. — Usa o dedo para fazer as aspas. — Mas, pode avisá-los de que a estrada para Boston está ótima, passei por ela quando precisei me mudar sozinha — ela termina, fazendo uma careta.

Permaneço sentado, com as mãos no colo, enquanto tento processar tudo que acabei de ouvir. Aparentemente não sei nada sobre o passado da quanto achei que sabia, e muito me surpreende que ela tenha aceitado jantar com essas pessoas no dia de hoje. Fico feliz por vê-la se impor, por saber que é uma mulher mais forte do que imaginei e, não vou mentir, meu coração pula quando percebe que ela confia em mim o suficiente para falar sobre essas coisas na minha frente.

Mas sinto raiva quando olho na direção de Christian. O rosto é frio e eu não tenho certeza se o relato da irmã o abalou. Sei que, se eu ainda fosse o de dezesseis anos estaria pronto para deixá-lo com os dois olhos roxos.

Balanço a cabeça enquanto desvio o olhar para , que já não encara mais o irmão e agora, os olhos claros me pedem silenciosamente para irmos embora. Eu concordo com a cabeça e levanto da mesa de jantar tentando manter a calma.

Quando me vê levantar, ela não espera para dar as costas ao cômodo em direção a porta de entrada. Espero até que saia e olho para Christian, que permanece sentado e sem mexer músculo algum para se desculpar com a irmã.

— Obrigada pelo jantar, Briana — começo, porque não acho que ela tenha culpa das palavras que saem da boca do marido idiota — E sugiro, Chris, — irozino o nome dele — que você pare de agir como um babaca se quer ter sua irmã de volta. Porque, pelo pouco que eu sei, é melhor que ela esteja distante dessa família, se todos se parecerem com você. — falo, dando as costas sem ligar para a resposta que ele resmunga.

Já perdi as contas de quanto tá para mim, irmão babaca.

***

Quando saio pela grande porta de entrada, encontro encostada na porta do carona do Audi. Os olhos estão marejados e ela não pergunta porque eu demorei de sair da casa, ao invés disso ela se afasta do carro e joga as chaves em minha direção.

— Acho melhor você dirigir — explica, abraçando o próprio corpo. Concordo com a cabeça e abro a porta para que ela entre.

Quando estamos os dois acomodados, olho em sua direção. Ela encara o vidro da frente, como se estivesse sendo tomada pelas lembranças.

— Se importa se passarmos em um lugar diferente antes de eu te deixar em casa? — pergunto.

— Que lugar? — questiona, me olhando.

— É surpresa — abro um sorrisinho, tentando animá-la — Mas prometo que vai ser legal.

— Tudo bem. — Sussurra, dando de ombros e voltando a olhar para frente.

O alívio bate quando a ouço concordar e então eu dou a partida no carro. Não fui eu quem estragou tudo, mas ainda posso ser o responsável por permitir que se sinta mais livre e quem sabe mais próxima do irmão mais novo — ao meu modo e de Cassie, se der certo, é claro.

A nossa noite não vai acabar tão ruim assim, .

17

Mantenho os olhos fixos na janela enquanto vejo a noite cair. Não sei o que planeja, mas só o fato de ele manter um sorriso leve no rosto acalma um pouco o meu coração. Tento não pensar em tudo que acabei de ouvir do meu irmão enquanto dirige em alta velocidade sem me contar para onde estamos indo.

Enxugo uma lágrima solitária no mesmo instante em que ele estaciona o carro em frente a uma antiga mercearia, ou que teria sido uma no passado. O prédio parece ser antigo, mas a rua iluminada e relativamente movimentada permite que eu consiga ver o topo, de onde algumas luzes saem iluminando um velho letreiro. Um senhorzinho de meia idade está sentado em uma cadeira de balanço na porta do estabelecimento fechado e abre um sorriso largo quando percebe que foi quem saiu do carro.

Fico confusa, mas me permito segurar sua mão e ser levada para a calçada quando ele abre a porta do Audi para que eu saia.

— Menino — o senhor fala com ele, confirmando que o conhecia — O céu está lindo hoje, é uma boa noite para ter vindo.

— Não está, Thomas? — ele fala visivelmente confortável com a situação e me apresenta — Essa é a .

— Oi querida — Thomas mexe o chapéu cinza para me cumprimentar e eu abro um sorriso — Espero que aproveite a visita.

— A gente pode subir né? — pergunta e vejo o senhor concordar com a cabeça, voltando a atenção para a revista de sudoku em suas mãos. Subir?

Os dedos de apertam os meus enquanto ele me guia para a parte dos fundos do prédio. Uma escada de madeira — visivelmente feita por amadores — está encostada na parede de tijolos, fazendo o encontro do topo do prédio até o chão. Levo uns segundos para entender o motivo de estarmos aqui.

— Não, não, não — solto a mão dele dando três passos para trás. Eu definitivamente não vou subir nesse negócio.

— Eu nem falei nada — ele deixa escapar uma risada, se encostando na escada.

— Eu não vou subir nesse treco, — aponto para a escada.

— Não disse que a gente ia subir — ele rebate e eu reviro os olhos de uma forma dramática — Tá, te trouxe aqui para subir, mas eu juro que é seguro. — O vejo estender a mão na minha direção.

… — hesito antes de me aproximar, entrelaçando nossos dedos.

— Confia em mim? Lá em cima eu te conto porque estamos aqui.

— Não é para olhar as estrelas como nos filmes? — franzo a testa.

— Bom… — ele pondera — Pode ser, mas é mais importante que isso. Você sobe na frente e qualquer coisa eu te pego, pode ser?

Finalmente eu cedo, concordando com a cabeça. Ele abre um sorriso e me puxa para um abraço antes de subirmos. Quando nos afastamos, ele beija a minha testa de forma carinhosa e me ajuda a subir os primeiros degraus.

A escada parece mais assustadora olhando de baixo do que realmente é. O prédio não é tão alto, então são aproximadamente quarenta e cinco degraus não muito bem posicionados mas que aguentam o peso. Não tenho coragem de levantar quando chegamos ao telhado, então praticamente engatinho até o meio do espaço, esperando terminar de subir.

— Por que estamos aqui? — pergunto quando finalmente ele senta com as pernas cruzadas virado para mim.

Os olhos castanhos claros brilham enquanto me olha com um pequeno sorriso. Ele estende a mão, ainda em silêncio, e sinto o calor do seu corpo invadir o meu através do toque de nossos dedos.

— A pessoa que eu mais amo no mundo é a Cassandra — ele começa, falando da irmã — Acho que nunca te falei, mas ela nasceu no dia do meu aniversário, então digo que foi o melhor presente que Deus e meus pais me deram — ele ri — Desde que peguei ela no colo pela primeira vez se tornou minha melhor amiga, e hoje estamos separados por quatro mil e oitocentos quilômetros. Então você deve pensar que sinto muita falta dela, certo? — pergunta com calma.

— Sim — não sei onde ele quer chegar, mas respondo com um sussurro.

— Eu sei que posso tirar meu celular do bolso e ligar para a Cassie sempre que quiser, mas às vezes só preciso me sentir conectado com ela e é até mais legal do que ouvir aquela voz enjoada gritar meu nome — ele ri, me fazendo sorrir.

Mordo minha bochecha. Não sei onde o quer chegar exatamente, mas a cada palavra que sai de sua boca só consigo pensar em Tony e em tudo que aconteceu comigo essa noite depois que realizei o tamanho da saudade que sinto. Preciso me conter para que lágrimas não comecem a rolar antes da hora, porque sei que vão cair em algum momento.

— O que isso tem a ver com esse lugar, ? — pergunto baixinho, e o sinto começar a fazer carinho nas minhas mãos.

— É aqui que me conecto com ela.

— Quê?

— Tá, não exatamente aqui nesse telhado — ele ri e aponta para onde as hastes de luz saem — Aquele parapeito ali é perfeito para sentir o sangue correr e a adrenalina chegar e isso me conecta com Cassandra de alguma maneira, porque era isso que fazíamos juntos.

— Parkour? — questiono.

— Ela era muito nova para um parkour propriamente dito, então com ela eu só me equilibrava em alguns parapeitos — ele levanta, piscando para mim e anda até a ponta do telhado. Sinto meu coração acelerar só com a possibilidade de vê-lo ali tão perto da ponta, mas ele aumenta a voz para que eu ouça além das buzinas lá embaixo — Se eu subir aqui, consigo sentir minha mãe revoltada — ele ri — e consigo me conectar com a adrenalina que sempre dividi com Cassie. Sinto ela pertinho de mim. Funciona se eu pular de paraquedas, acelerar demais na moto ou se eu simplesmente ficar aqui parado olhando para baixo.
Olho para com os olhos arregalados quando o vejo caminhar devagar no parapeito. Minha cabeça borbulha tentando entender o porquê de ele me contar isso e me trazer aqui. As coisas ainda estão um poucos confusas na minha cabeça porque por muito tempo tentei ignorar o sentimento por Tony. Fiz isso cancelando ligações escondidas, deixei de ler algumas mensagens enviadas com o assunto influenciado por Christian e fui, cada dia mais, me afastando do meu irmão. Nas últimas semanas pensar em Anthony começou a ser mais difícil e ver fotos do nosso passado hoje me machucou profundamente porque percebi que sinto falta exatamente disso: nossa antiga conexão.

Mas como fazer isso sem ter ele por perto? Foi por isso que me trouxe aqui.

As lágrimas começam a cair quando me dou conta da situação. Vejo dá uma olhada nos carros, depois pular de volta para a parte interna do telhado. Ele caminha devagar na minha direção e se ajoelha na minha frente, segurando meu rosto com as duas mãos. Os dedos polegares brincam entre enxugar as minhas lágrimas e fazer carinho nas minhas bochechas.

— O que você mais gostava de fazer com seus irmãos? — ele pergunta baixinho.

— Pintar — eu respondo, sem nem precisar pensar.

Nossa mãe era artista plástica, então sempre que podíamos sentávamos juntos para brincar com as telas e tintas que restavam de algum trabalho. Pintávamos nós mesmos, as telas, a toalha que cobria o chão e algumas folhas de papel. Esses eram sempre os nossos melhores momentos.

— Certo… — quebra o silêncio, levantando e me estendendo a mão com um sorriso que só ele tem — Então acho que precisamos ir comprar algumas tintas.

***

estava falando sério sobre comprar tintas.

Depois que ele me ajudou a descer a escada de madeira, nos despedimos de Thomas rapidamente e acelerou o Audi até uma loja de materiais dentro do próprio bairro. Saímos com três sacolas lotadas de pincéis, tintas e algumas pequenas telas. Ele me levou para casa e durante o trajeto fez questão de contar algumas coisas da família e algumas aventuras que viveu com Cassandra, capazes de deixar a mãe com cabelo em pé.

A presença de , junto com sua risada e o som de Why don’t we tocando no carro deixaram o ar mais leve e eu agradeci mentalmente por, de alguma forma, as forças maiores terem colocado no meu caminho naquela quarta-feira.

Quando chegamos em casa, ele já estava prestes a se despedir, mas me sinto confortável o suficiente para convidá-lo a entrar. Com um sorriso, o vejo estacionar o carro atrás do meu e saímos juntos do carro.

É sábado à noite, então a casa está vazia porque as meninas devem estar em alguma festa por aí, então não precisamos passar por ninguém enquanto vamos em direção a escada branca. faz questão de levar as sacolas para o meu quarto e assim que entramos eu aviso que vou trocar de roupa apenas para não sujar o que estou vestindo. Ele concorda com a cabeça e se acomoda sentando na poltrona perto da janela.

Uso um lençol velho para cobrir o chão antes de começar a abrir as tintas. continua sentado no mesmo lugar e me observa com cautela.

— Tem certeza de que você quer que eu fique? — ele pergunta baixinho chamando minha atenção.

— Por que não? — rebato com um questionamento e um sorriso. A cada dia me sinto mais confortável em sua presença e a ideia de ele estar comigo nesse momento me agrada.

— Não sei, pode ser meio… íntimo pra você. — Ele hesita.

— Tá tudo bem, — afirmo, olhando para as tintas organizadas no chão — Hora de começar.

Escolho a tinta com a cor azul para começar porque sempre foi a preferida de Tony. Encaro a folha de papel e encosto o pincel, mas nada acontece além de uma mancha muito mal feita. Eu não sinto absolutamente nada. Respiro fundo. Ok, ! Você consegue.

Quando tento pela segunda vez, me sinto frustrada porque mais uma vez nada acontece. Ainda com a cabeça baixa, sinto se aproximar devagar. O fato de ele ter visto meu fracasso me deixa ainda mais triste e eu suspiro, largando o pincel.

— Você não tem que pensar, — ele diz com calma, sentando ao meu lado — Você só precisa sentir. — Explica.

— Como faço isso sem pensar? — pergunto, levantando o olhar e o encarando.

Ele sorri, aquele sorriso que só ele tem, e pega um dos pincéis.

— Me dê a sua mão — obedeço, oferecendo a mão direita a ele — Feche os olhos — ele orienta e assim eu faço.

posiciona o pincel entre os meus dedos e segura minha mão firme. Com os olhos fechados e a respiração levemente alterada sinto as cerdas encostarem na minha perna movendo-se. Não sei exatamente o que acontece ou o que estou pintando, mas consigo sentir a presença do meu irmão, o cheiro de tinta invadindo meu cérebro, e sou até capaz de ouvir sua risadinha fina enquanto me sujava inteira de tinta.

Quando abro os olhos novamente, já soltou minha mão mas mantém o rosto próximo ao meu. Abaixo o olhar apenas para ver o esboço de uma flor azul pintada na minha coxa e fico assustada com a precisão do traço que fiz mesmo com os olhos fechados. Essa foi a coisa mais louca que vivi nos últimos tempos.

Encaro , que está com um sorriso nos lábios, e não sinto outra coisa a não ser vontade de beijá-lo. E assim eu faço.

18

— Tá, qual é o verdadeiro lance com o ? — ouço Mia perguntar enquanto termina de limpar uma das mesas e levanto meu olhar em sua direção, arqueando a sobrancelha.

Estamos terminando mais um dia de trabalho no Up’s, o restaurante já está fechado e nós duas, na companhia de Liam, trabalhamos para deixar tudo pronto para a abertura amanhã. De alguma forma já esperava ter essa conversa com meus melhores amigos, mas adiei o momento pelo máximo de tempo que pude.

— Não tem lance nenhum — respondo com um semi sorriso, revirando os olhos. Nós três sabemos que estou mentindo, é claro.

Hoje é sexta-feira e desde o último sábado — quando beijei e nos sujamos de tinta no chão do meu quarto — algumas coisas mudaram. Bom, não sei definir o que aconteceu ou em que pé do nível de amizade nós estamos, mas não posso negar que algumas coisas estão diferentes.

— Claro que não, — ela debocha usando o apelido, o que me faz rir.

— É por isso que ele está do lado de fora do restaurante esperando para te levar embora — Liam retruca, fechando o caixa. Touché.

Eu dou risada e olho através do vidro, encontrando um sentado no capô do meu carro usando o celular. Essa foi uma cena que vi dois dias durante a minha semana. Sim, ele anda vindo me encontrar no serviço quando pode e nós andamos trocando mais mensagens do que acho que deveríamos.
Na segunda ele apareceu com um donut no horário do meu intervalo, na quarta ficou esperando meu turno acabar e me acompanhou até em casa, ontem veio almoçar com o Peter e hoje, mais uma vez, está esperando para que eu não vá sozinha embora. Confesso que acho fofa a forma como ele se preocupa em se manter por perto de forma gentil e sem me sufocar. Os nossos papos sempre são leves, divertidos e me deixam confortável de uma maneira que não sei como explicar. É engraçado pensar assim porque há três semanas atrás eu fugia de qualquer contato com o sexo masculino que não viesse do Liam ou dos namorados das nossas amigas.

— Ele me chamou para assistir ao jogo com ele amanhã — comento com meus melhores amigos enquanto termino de repor alguns ketchups nas últimas mesas. Não falo isso olhando na direção deles, mas sei que trocaram um olhar preocupado só pelo tom de voz na resposta de Mia.

— Ele te chamou para assistir ao jogo mais cheio da temporada? — questiona.

A verdade é que o final de semana dos pais começou hoje à noite em um evento no campus e já pudemos ver alguns calouros acompanhados das famílias ocupando os espaços em Boston. Sei que isso preocupa a Mia tanto quanto a mim, por isso resolvi compartilhar o convite e ouvir a opinião dos dois.

Confesso que me assustei quando falou de irmos juntos assistir ao Tyler jogar, mas não consegui deixar de pensar em como seria legal viver um pouquinho a experiência de ser uma estudante da Ivy League do jeito mais tradicional possível para os meus padrões. Talvez seja arriscado? Absolutamente; mas depois do que aconteceu sábado não entramos novamente no tópico minha família, o que me deixou aliviada, e foi super legal.

— Você quer a nossa opinião? — Liam pergunta com a voz aveludada ecoando pelo restaurante vazio. Concordo com a cabeça, direcionando meu olhar para ele. — Certo… — pondera.

É difícil ler a expressão do meu amigo e tentar adivinhar o que ele vai dizer, mas eu considero muito a opinião que vem do lado masculino do nosso trio, por isso atravesso a lanchonete e apoio meus cotovelos no balcão, o encarando.

— Como você se sente estando na presença do e do Christian? — pergunta, cruzando os braços. Espera, o quê?

— O que o meu irmão tem a ver com… — começo, mas minha melhor amiga me interrompe, sentando no balcão.

— Não estamos descartando a possibilidade do primogênito sem noção ir assistir ao jogo e por acaso vocês se esbarrarem no estádio — ela explica.

— Essa possibilidade também vem acompanhada da ideia de que talvez ele não esteja sozinho — Liam continua me encarando — Afinal, estamos no final de semana dos pais. — Os olhos escuros brilham esperando alguma reação da minha parte.

— Gente, eu avisei ao Chris que não vou participar dessa palhaçada de evento — reviro os olhos.

— Tudo bem, mas isso não descarta que ele pode ir ao jogo com a Briana, certo? — meu amigo pontua — Como vai ser para você?

Eu não demoro para responder que, por mais estranho que pareça, não será desconfortável. Já falei tudo o que precisava e estava entalado na garganta para o Christian no último final de semana. Claro que não foi fácil, mas aprendi muitas coisas com o apoio que me ofereceu e me sinto mais segura para lidar com meu irmão mais velho.

— Eu sou a favor da sua ida — Mia responde antes que Liam possa falar qualquer outra coisa — O tem sido legal com você todos os dias, ele vem te ver no trabalho e ainda tá lá fora esperando você fofocar com a gente — ela ri — Não custa tentar, . Você sabe o que penso sobre novas chances e se libertar um pouquinho. — Conclui, dando de ombros.

— Acho que nossa loirinha tem razão — Liam suspira, meio se dando por vencido — O cara já tem fama no campus mas nunca ouvi nada negativo a respeito dele.

— Não é como se vocês fossem entrar em um relacionamento, já que “não existe um lance” — ela ironiza fazendo aspas com as mãos — só porque vão juntos assistir a um jogo de futebol americano.

— É que, ouvi dizer que sempre tem festa após os jogos… — comento, fingindo desinteresse e lembrando de como foi encontrar com o da vez que nos encontramos em uma festa.

Liam levanta as sobrancelhas em uma expressão surpresa e questiona se também me convidou para a festa. Ele fica ainda mais reflexivo quando digo que sim e que, não vou mentir, cogitei ir. Não foi tão ruim da última vez, embora eu tenha passado poucos minutos com ele.

Mia ri super animada e começa a tagarelar sobre como as festas na universidade são uma experiência única, que eu não deveria deixar passar e como ela e o Liam poderiam aparecer por lá para saber se está tudo tranquilo e, quem sabe, nos divertirmos um pouco juntos fora da área de trabalho.

A ideia de que meus amigos podem estar presentes em um momento do dia me deixa um pouco mais aliviada então acabo estendendo o convite do para os dois, que ficam felizes e me prometem aparecer. Agradeço pelo apoio enquanto abraço os dois, me despedindo, antes de tirar meu avental e ir me trocar para ir embora.

***

Dou uma olhada para dentro do Up’s e consigo ver sorrindo enquanto abraça os dois amigos. Aparentemente ela está se despedindo, o que significa que em breve ela sairá por aquela porta ao meu encontro fazendo meu coração acelerar em ritmo de música pop agitada.

Dou risada do meu próprio pensamento. Ainda não sei definir o que sinto quando estou perto dela mas, por mais que me assuste, é uma sensação confortável e divertida; por isso essa é a segunda vez na semana que estou levando-a para casa e a quarta vez que venho ao Up’s na maior cara de pau e — quase — inocência.

Tenho tentado seguir os conselhos de Cassandra e Tyler para não pressioná-la ou assustá-la com toda essa proximidade, mas é um tanto quanto difícil considerando que é bom tê-la por perto. De qualquer forma, depois do sábado passei a enxergar melhor a necessidade de irmos o mais devagar possível para qualquer padrão de relacionamento. Entendi que muitos homens a machucaram, começando pelos de sua família e passando por um ex-namorado complicado, então é por isso que talvez seja difícil se abrir para novos encontros.

Mas, ao mesmo tempo sei que não preciso me esforçar. É fácil ser eu mesmo quando estou perto da já que fui criado apenas por mulheres incríveis, então não faço mais que a minha obrigação sabendo como devo tratá-la. Foi por isso também que tive coragem de convidá-la para o jogo e a festa de amanhã; porque tive certeza de que sou capaz de fazer com que ela se sinta bem. Claro que, como é final de semana dos pais e um dos jogos mais cheios da temporada, tomei o cuidado de conseguir ingressos em um lugar exclusivo para as famílias dos jogadores, assim sei que ela ficará mais tranquila sem as chances de encontrarmos algum outro membro da família .

Mesmo depois de todo o caos, a nossa última noite de sábado foi especial para nós dois, por isso tomei essa atitude. Naquele dia eu me abri quando expus a ela um pouco da minha relação com Cassandra, demonstrei que confio nela, assim como ela pode confiar em mim, e como resposta consegui conhecer um pouquinho mais de todo o mistério que ronda essa garota. Vê-la se conectar com o passado através das tintas foi uma das coisas mais loucas que já presenciei e me senti especial quando ela permitiu que eu me fizesse presente em um momento tão pessoal.

Mas, é claro que beijá-la foi o ponto alto da noite e um passo importante para isso que estamos vivendo, seja lá o que for. Foi um beijo diferente do primeiro — aquele que demos na sala de aula. Foi mais intenso, embora calmo, e não fomos interrompidos por absolutamente ninguém. Consegui sentir o calor do corpo de com o toque de nossas línguas, com seus dedos bagunçando meu cabelo, seu corpo colado no meu, minhas mãos acariciando seus braços e as tintas colorindo o cenário.

Abro um sorriso idiota só ao lembrar, e ele cresce ainda mais quando vejo uma silhueta conhecida sair do Up’s com uma bolsa enorme no ombro. A luz fraca do poste no estacionamento consegue iluminá-la de forma suficiente para que eu veja um sorriso tímido tomando conta de seus lábios enquanto anda na direção do carro. Na minha direção.

E meu coração se transforma em uma bateria fazendo seu solo durante um show.

19

Mia tinha razão quando me alertou sobre a multidão que invadiria o estádio localizado perto do campus. O jogo já está perto de começar, então milhares de famílias se aglomeram nas arquibancadas com os rostos pintados de vermelho e dourado, baldes de pipoca e vozes altas em conversas super empolgadas que me dão a impressão de ser a pessoa mais calada de todo o ambiente.

Não sei que tipo de contatos o tem com a equipe de futebol, além do fato ser melhor amigo do quarterback, mas estamos sentados em lugares privilegiados na beira do gramado, o que me deixa um pouco mais aliviada porque temos espaço o suficiente para respirar.

Peter se junta a nós um pouco antes de os times entrarem em campo, ele veste uma de suas camisas do hóquei mas o boné vermelho em sua cabeça representa o time de futebol.

É engraçado estar em um estádio novamente porque não lembro qual foi a última vez que vivi um momento como esse. Quer dizer, meu pai sempre foi torcedor dos Giants e às vezes nos levava para assistir aos jogos, embora eu nunca tenha aprendido muito bem sobre as jogadas. Mas isso não é um problema muito grave já que Peter Collins se encarrega de narrar cada passo do Tyler e Ethan para mim e — que aparentemente apoia o melhor amigo mas sabe muito pouco sobre o jogo.

Os dois me contam que desde que Tyler começou a jogar como titular é assim que funciona, o que eu acho engraçado. Quando Peter está viajando com o time de hóquei, precisa acompanhar o jogo pelo twitter. revira os olhos envergonhado e diz que é porque na verdade nunca sentou para tentar entender, o que me faz rir mais ainda. Tenho certeza de que ele já tentou.

No intervalo do terceiro período os meninos começam a ficar um pouco mais atentos ao placar porque, apesar de estarmos perdendo, a diferença de pontuação não é tão grande assim e seria muito bom para os meninos e para o histórico da temporada se ganhássemos esse jogo.

Mas mesmo prestando a maior atenção no campo, consegue ser gentil comigo. Ele, além de ter saído para comprar pipoca em dois momentos do jogo, me olha de forma carinhosa a cada comemoração que faço, vem aguentando algumas piadinhas — que me fizeram rir — do Peter, beijou minha bochecha quando fizemos o primeiro touchdown e fez alguns stories zoando da minha torcida exagerada para os dois únicos jogadores do time que conheço. Essas atitudes deixam o ambiente confortável e só me trazem a confirmação de que foi uma boa ideia acompanhar hoje, mesmo sem saber a que pé anda isso que nós dois temos.

Meu celular vibra no bolso de trás da calça e eu confirmo minhas suspeitas quando vejo mensagens de Mia e Liam fazendo perguntas sobre o “jogo”, que na verdade são sobre . Solto uma risada baixinha e começo a digitar uma resposta rápida no momento em que sinto tocar meu ombro. Direciono o olhar a ele com um sorriso no rosto.

— Se importa se formos embora antes do jogo acabar? Preciso ser um dos primeiros a sair porque tenho que — ele revira os olhos de forma dramática — abrir a porta da casa para a festa do Tyler. — Me pergunta com um sorriso.

Eu concordo com um aceno rápido de cabeça e guardo o celular na pochete sem responder meus melhores amigos. segura a minha mão e me guia para fora do estádio com Peter logo atrás de nós. Vejo que, assim como a gente, algumas famílias saem antes do jogo acabar e presumo que seja pelo mesmo motivo de evitar congestionamento no estacionamento. Essa atitude lembra-me meu pai, que sempre saia mais cedo dos lugares para não ficar preso em um engarrafamento com o carro cheio de crianças com idades diferentes que brigavam pela escolha da música, e eu abro um sorriso espontâneo com a lembrança.

Estamos quase chegando no Audi quando meus pés simplesmente param. Isso só pode ser minha mente me traindo.

Quase do outro lado do estacionamento vejo uma família caminhando em direção a uma picape. Minha respiração acelera e eu fecho os olhos. Só pode ser uma miragem, respire fundo . Abro os olhos de novo só para ter certeza de que não, não é uma miragem. Meu pai e meus irmãos estão rindo, Briana e minha mãe seguem atrás deles, conversando sobre alguma coisa enquanto apontam para eles e trocam risinhos.

Engulo em seco porque sei que eles não me viram ainda, então posso simplesmente ignorar a presença deles e entrar no carro de .

— Linda? — ouço me chamar de longe, mesmo sabendo que ele está parado ao meu lado. Pela visão periférica o vejo direcionar o olhar na mesma direção que eu; seu suspiro baixo vem logo em seguida — … — ele suplica pela minha atenção, mas meus pés tomam uma decisão sozinhos e antes de o sangue bombear algo racional para meu cérebro eu já estou andando na direção da família .

— O que deu nela? — Peter pergunta, mas não estou mais prestando atenção quando responde.

Meus passos aceleram à medida que atravesso entre os carros do estacionamento e agora já estou quase correndo. Christian é o primeiro a notar a minha presença e, assim como eu, ele paralisa chamando atenção do restante da família. Meu olhar cruza com o da minha mãe, que arregala os olhos azuis assim que eles cruzam com os meus, respiro fundo em busca de ar para os meus pulmões mas não consigo parar de andar. Segundos depois um cabelo loiro corre na minha direção e braços magros agarram minha cintura.

— Ah, Tony — o abraço de volta, fechando os olhos e me concentrando no momento. Sinto o cheiro do perfume favorito do meu irmão invadir minhas narinas e sorrio sozinha pensando em como ele não cresceu tanto assim. Me afasto do abraço e seguro seu rosto com as duas mãos tentando assimilar todas as mudanças pelas quais minha criança — quase um adolescente — passou. Ele abre um sorriso com lágrimas nos olhos e eu me permito abraçá-lo outra vez.

— Amo você daqui até a lua. — Anthony sussurra baixinho e só isso é o suficiente para fazer com que minhas primeiras lágrimas finalmente comecem a rolar.

— Amo você — respiro fundo — daqui até a lua. — respondo ainda mais baixo.

Não sei quanto tempo passamos abraçados, mas quando nos separamos, meus pais já estão perto o suficiente para chamar a atenção do meu irmão mais novo. Patrick me encara com uma carranca que só o vi esboçar duas vezes em toda a minha vida, e segura a mão da minha mãe com força, talvez para mantê-la afastada de mim.

— minha mãe fala com a voz rouca e embargada no mesmo instante em que meu pai chama a atenção do meu irmão.

— Anthony — meu pai vocifera — está na hora de irmos.

Solto um suspiro e beijo na bochecha de Tony, me afastando dele em seguida. Meu pai o puxa para perto pelo ombro e eu controlo a minha vontade de gritar só pelo fato dele ter tido coragem de afastar meu irmão, mas não ter tido a decência de dirigir a palavra a mim.

Pisco para Tony como um ato de aviso de que tudo ficará bem um dia, e abro um sorriso carinhoso quando o vejo enxugar as lágrimas esfregando as mãos pelo rosto. Minha mãe engole em seco e meu pai se apressa em arrastar os dois para o carro de Christian sem se despedir.

Observo os três se afastarem e só volto a realidade quanto sinto a mão macia de tocar meu ombro de forma carinhosa. Ele não se demora e me abraça forte no meio do estacionamento depositando um beijo na minha cabeça antes de segurar minha mão e me guiar até o banco do carona do Audi.

Peter não dá uma palavra quando entro. Ele está jogado no banco de trás, então contorna à frente do carro tomando o lugar do motorista. Ele engata a ré saindo da vaga e em seguida deposita a mão direita no meu joelho esquerdo, fazendo círculos com os dedos. O carinho me acalma sem que ele precise dizer muita coisa e eu me concentro em manter o controle da minha respiração.

Pelo amor de Deus. A última coisa que eu pensei vivenciar nesse estádio era um abraço emocionado com meu irmão mais novo no meio do estacionamento e foi exatamente o que aconteceu. Abraçar Tony pela primeira vez, de forma tão intensa, depois de três anos foi enlouquecedor em diversos sentidos e agora a minha cabeça borbulha em pensamentos não muito confortáveis e lembranças que, ao invés de me deixarem felizes, me assustam de modo considerável.

Apoio minha testa nas minhas duas mãos, puxando todo o ar que sou capaz, e começo a repetir mentalmente alguns mantras do meu aplicativo de meditação.

Quando me sinto um pouco mais calma, levanto os rosto e não demoro muito para perceber que está fazendo o caminho mais longo para a casa dele. Abro um sorriso automático porque a atitude me encanta, é claro que ele se preocupa com o fato de eu ter reencontrado minha família e não sabe se deve me levar para uma festa com universitários barulhentos.

Coloco minha mão em cima daquela que está apoiada em meu joelho. Beber alguma coisa enquanto a música alta camufla meus pensamentos não vai ser tão ruim.

— Ainda estamos indo para a festa, né? — olho para ele abrindo o melhor sorriso que sou capaz.

— Ufa! — Peter sussurra do banco de trás arrancando uma risada baixa do amigo.

— Estamos. — pisca na minha direção e se encarrega de voltar atenção para a estrada, enterrando o pé no acelerador.

20

Sinto minha garganta queimar quando tomo mais um shot de tequila com o Peter. Eu poderia ter consciência de quanto já bebi, mas confesso que não contei em momento algum. A música alta e a cozinha com poucas luzes acesas fazem minha cabeça girar um pouco. Respiro fundo tentando manter a calma. Qual é, ? Você não é fraca para bebida desse jeito.

Ouço um grupo de universitários gritar aquela coisa toda do arriba, abajo antes de virarem alguns copos perto das portas do fundo da cozinha. Olho ao redor procurando um rosto conhecido e pisco os olhos antes de conseguir focar a visão.

Peter já virou de costas para mim e está conversando com uma garota qualquer que ocupou o espaço vazio ao seu lado. Tirando isso, o que diz no meu celular é que Mia e Liam ainda não chegaram na festa, então tecnicamente eu só teria mais um conhecido por perto, mas parece que ele sumiu. O que não é difícil de acontecer, porque deve ser divertido deixar a de lado um pouquinho. Fecho os olhos apoiando a cabeça na parte livre do balcão quando a voz do meu pai se mistura com a do cantor de eletrônica.

***

Brooklyn, NY
2016

— Então é essa sua escolha, ? — ele é duro com as palavras, enquanto me olha com uma carranca assustadora. O boné do Giants está para trás, e o rosto sujo de graxa marcam o fato de que ele saiu da oficina antes do horário habitual.

E é claro, isso estragou o meu plano. Não que eu tivesse um belo plano, mas gostaria que ele não me fizesse mais escolher e tivesse mudado de opinião quando me visse com as malas prontas, assim, eu não precisaria ir embora de verdade. Mas aí ele entrou no quarto com um rompante enquanto eu ainda dobrava as roupas em cima da cama e o impacto da minha atitude não foi bem como eu esperava.

Fechei a cara em um sorriso torto, antes de levantar o rosto um pouco mais, ao encarar meu pai.

— Você me disse para escolher, aliás não… — suspiro dramaticamente — Você me obrigou a fazer uma escolha.

— E obviamente você vai fazer a escolha mais burra, não é? — ele bufa. É difícil entender o que ele diz quando está bravo, as palavras embolam enquanto ele fala, tentando controlar o tom de voz.

— Depende do ponto de vista — levanto, agora encarando meu pai de frente — Você vive reclamando do meu relacionamento quando não faz parte dele, então talvez o errado não seja o meu namorado — desafio.

— Você não possui a mínima ideia do que está fazendo, não é? Do que está abrindo mão… — ele tira o boné e passa a mão puxando um pouco os cabelos quase grisalhos.

— Você faz, pai? — pergunto, cruzando os braços.

… — minha mãe aparece na porta do quarto, o olhar é de súplica, então eu fecho os olhos antes de puxar o ar para dentro dos pulmões.

***

? — uma voz grossa, porém aveludada, se mistura com a da minha minha mãe e eu abro os olhos rapidamente. A imagem do meu quarto lilás do Brooklyn desaparece da minha cabeça assim que encaro os olhos castanhos esverdeados parados em minha frente — Tá tudo bem? — ele abre um sorriso, aquele sorriso lindo e quase obsceno, que só ele tem, com dentes absolutamente alinhados que me fazem tremer os joelhos, e eu concordo com a cabeça enquanto me afasto do balcão.

Vejo comprimir os lábios segurando a risada, provavelmente da minha cara de quase bêbada, quando me avisa que Mia e Liam já chegaram e estão em algum lugar perto da mesa de sinuca. Eu continuo calada antes de segui-lo para fora da cozinha com a testa franzida.

Meus melhores amigos me abraçam com força e Mia sussurra coisas que não consigo identificar. A essa altura já sei que contou para eles sobre o ocorrido no estacionamento, por isso parecem emocionalmente abalados. Mas eu não tenho muitas condições de responder algo coerente, por isso prefiro ficar calada, tentando mentalizar que tudo está bem e que agora eu estou em um lugar seguro, enquanto Mia me puxa para dançar numa tentativa de me fazer esquecer o quanto sinto vontade de beber para afogar todas as lembranças.

***

Brooklyn, NY
2016

— Bem-vinda de verdade, — Jonah me oferece um sorriso quando abre a porta do apartamento que vamos passar a dividir; o apartamento dele, onde morava sozinho desde que entrou na faculdade, agora é nosso. Respondo com um sorriso aberto e cheio de dentes, enquanto arrasto a minha mala para a sala de estar que amo frequentar.

É fácil demais entrar aqui e visualizar os anos incríveis que eu e Jonah teremos pela frente. O namoro na bancada da cozinha, os filmes que vamos assistir deitados no sofá da sala, as músicas que vou cantar enquanto tomo banho e uso emprestado o seu shampoo de lavanda.

Caminho na direção do meu namorado e me jogo em seu colo, onde sou acolhida. Quando seus braços fortes me apertam contra seu corpo sei que fiz a escolha certa. Vamos dar um jeito de encontrar meu irmão, de quebrar as regras idiotas impostas pelos meus pais. Os olhos de Jonah brilham quando ele me beija e eu sei que esse é o lugar mais seguro onde eu poderia estar.

— Pronta para fazer o nosso primeiro jantar oficial? — ele sussurra contra meu ouvido.

— Podemos pedir um delivery? — levanto o olhar, apoiando o queixo em seu peito, enquanto o vejo gargalhar.

***

! — A voz de Mia gritando meu sobrenome me tira de mais um transe. Minha cabeça gira e eu sei que coloquei mais algumas doses de bebida para dentro depois que fugi da pista de dança, quando o rosto de Jonah começou a invadir meus pensamentos.

Meu corpo está levemente apoiado no de , que discretamente tira um copo vermelho da minha mão exatamente no mesmo momento em que Liam me olha com uma feição não muito feliz.

Abro um sorriso completamente bêbado e tento avisá-los de que estou sóbria.

— Você não precisa fingir que não aconteceu, — Liam abre a boca pela primeira vez na noite. Bom, acho que é a primeira vez. Mas o tom é acusatório, então não gosto.

— Você — aponto para ele com o indicador esquerdo, tenho certeza de que ele não estava presente — Não sabe o que aconteceu.

— Não precisa… — Mia começa, olhando em minha direção. Mas eu interrompo porque não estou no mood de opiniões que invadam meus sentimentos.

— Você não sabe do que eu preciso, Mia. — As palavras se embolam, mas consigo proferi-las.

As pessoas sempre tiveram o prazer de controlar a minha vida, e eu acho mesmo que prazer pode ser a palavra certa. Do meu pai, ao meu ex namorado. Mas os meus melhores amigos também tomaram as rédeas em relação aos meus sentimentos quando eu perdi o controle sobre algumas coisas, quando me encontrei um pouco sem rumo e com medo de encarar o que estava na minha frente.

Mas agora, eu sei que preciso e estou passando a recuperar aquilo que pensei nunca ter, então sinto que não preciso de Mia e Liam me dizendo o que fazer porque, por mais que tenham me oferecido todo o tipo de apoio que estava ao alcance dos dois, eles não sabem um terço do que senti.

Eles não sabem o que eu senti quando deixei aquele apartamento no Brooklyn, o que senti quando pisei com malas no apartamento do Jonah, ou no dia em que recebi aquela carta, o que senti no dia que me ajudou a recuperar a paixão pelas tintas. Felizmente para eles, não fazem ideia do que senti quando vi minha família ali, tão perto do meu novo eu.

Não, eu não estou sendo ingrata. Muito pelo contrário, já que eu sempre agradeci e entendi o suporte, mas chega um momento da vida em que preciso tomar conta disso sozinha, mesmo que bêbada na cozinha de um cara que faz carinho no meu cabelo enquanto os outros dois me encaram.

21

Seguro a risada quando vejo se assustar com a minha presença no Up’s. Tenho certeza de que ela não esperava me ver entrando pela porta considerando que está me evitando desde o dia em que acordou na minha casa após a festa.

A verdade é que não acho que consiga lembrar de tudo que aconteceu depois que saímos da cozinha, e como ela foi acordar na minha cama com muita ressaca, então talvez seja só por falta de comunicação que estamos, de fato, sem trocar mais do que dez mensagens por dia. Mas cansei de esperar a poeira abaixar e, possivelmente, a vergonha passar, por isso estou sentando em uma mesa onde sei que ela irá me atender e ser obrigada a falar comigo mesmo que não queira.

A vejo respirar fundo quando se aproxima da minha mesa enxugando as mãos nervosas no avental e abro o meu mais sincero sorriso, de forma involuntária mesmo, porque é quase impossível não fazer isso sempre que penso nela.

— Hey, bem-vindo ao Up’s Beer&Burger. Você já sabe o seu pedido? — ela me recebe como se fosse um cliente comum e sei que faz isso porque está nervosa, então faço o meu melhor para deixá-la confortável.

— Hey, — direciono o olhar para ela — Eu vou querer o de sempre.

— Só isso?

— Ah não, hoje eu também vou querer conversar com a minha amiga, já que ela está tendo dificuldades em se comunicar pelo telefone… sabe como é né? O sinal das empresas de telefonia andam péssimos — brinco com uma das desculpas que ela deu para não me atender na segunda-feira. Observo suspirar, relaxando os ombros, enquanto as bochechas coram de leve.

, desculpa mesmo, mas é que eu… — a interrompo antes que ela comece a pedir desculpas dais quais não preciso.

— Está tudo bem — aquele sorriso de novo! — Podemos conversar depois do expediente?

Ela concorda com a cabeça abrindo um sorriso discreto e diz que vai ser liberada daqui a pouco, o que é ótimo porque assim vamos conseguir pegar o pôr do sol em um lugar legal, exatamente como pensei. Em seguida corre para o balcão, indo comandar meu pedido para a cozinha.

***

— Ai meu Deus, , mil desculpas. Que vergonha! — ela solta uma risada fraca enterrando o rosto nas mãos enquanto balança a cabeça completamente envergonhada.

Quando o turno de trabalho da acabou, eu a acompanhei até em casa para que ela pudesse se trocar e deixar o carro em segurança. Em seguida, ela entrou completamente envergonhada no banco do carona do Audi. Dirigimos em silêncio mas eu não pude evitar de manter um sorriso no rosto, afinal, ela parou de fugir e finalmente tinha aceitado conversar sobre o final de semana. The Fray explodiu pelos alto-falantes do carro e começou a batucar com os dedos na coxa, seguindo o ritmo da música.

Depois de aproximadamente quinze minutos dirigindo, eu estacionei o carro em uma das grandes vagas espalhadas pela Bacon St. Quando saímos do carro, caminhamos em silêncio, lado a lado, por dentro do Chestnut Hill Reservation até chegamos à margem do reservatório de Chestnut Hill. Sentei primeiro no chão, dei batidinhas na grama para que ela se acomodasse ao meu lado e assim ela fez, cruzando as pernas estilo indiozinho.

Claro que precisei ser o primeiro a quebrar o silêncio e sem muita cerimônia já perguntei o motivo de ela ter simplesmente sumido desde o final de semana. suspirou antes de responder que havia se assustado quando acordou em minha cama, sem lembrar de absolutamente nada que fizemos na noite anterior. Não pude deixar de sorrir, mas afirmei que não havíamos feito nada. Bom, na verdade ela bebeu e simplesmente apagou antes que eu tivesse a oportunidade pensar em como a levaria para casa e o quarto de hóspedes já estava ocupado.

Agora ela está aqui, com as bochechas vermelhas de vergonha e o rosto enfiado nas mãos enquanto me ouve rir baixo.

— Não precisa ficar com vergonha , eu nem te contei as melhores partes! — eu abro um sorriso bem galanteador.

— Ah, eu apaguei de tão bêbada e essa não é a melhor parte? Eu fiz o que também? Vomitei no seu carpete? — balbucia.

— Não — mordo o lábio inferior, prendendo o riso — eu estou brincando com você, claro que o ápice da noite foi ver você dançando Dua Lipa, mas… — não consigo concluir a frase, porque me interrompe.

— Espera! Eu dancei Dua Lipa? Você está brincando né?

— Não, não estou… — solto uma risada baixa, rouca — Mia te acompanhou depois de dois shoots e Liam filmou com o celular, eles não te mostraram? — balança a cabeça negando. — Bom, as coisas esquentaram um pouco entre vocês, mas acho que de fato o dia já tinha sido muito… estressante? Eu aconselhei que seus amigos a deixassem relaxar.

— E aparentemente relaxei até demais, eu não sou assim — retruca.

— Não é verdade, . E tudo bem se você for, sabe? Peter e Tyler são meus melhores amigos e beberam o triplo naquele dia — Suspiro. — Tenho certeza de que você se lembra de tudo que aconteceu até antes de virar uma garrafa de vodca, e não acho que você esteve errada quando falou aos seus amigos para que cuidassem um pouco menos da sua vida, afinal eles são seus amigos mas não são você. — olha para mim com um sorriso fraco. — Quero dizer, não estou aqui para julgar absolutamente ninguém, até porque eu sou o amigo que cuida dos caras e sei que a intenção de todo mundo é cuidar de você da melhor forma que conseguem, mas você é uma mulher que consegue se cuidar sozinha.

— Então eu fui meio grossa com meus melhores amigos e você acha que estive em uma posição certa? — desvia o olhar para além do reservatório, o sol prestes a se pôr reflete na água.

— Não estou dizendo que você foi certa quando os tratou com grosseria. Estou dizendo que não tem nada de errado em querer tomar conta de si um pouco, sabendo que você consegue, e sabendo que tem quem te apoie.

— Isso tudo é muito confuso, — solta, mas hesita antes de continuar, como se os lábios tomassem uma iniciativa contrária daquilo que ela gostaria de fazer — há muito tempo tempo não estou nessa posição. Encontrar minha família naquele dia me afetou mais do que eu pensei que faria caso acontecesse.

— E tudo bem, a gente não tem controle nenhum sobre isso, então é normal que você tenha resgatado lembranças. — Mantenho a voz calma. — Posso fazer uma pergunta?

— Já fez — ela me empurra de leve pelo ombro e, juntos, soltamos uma risada — Mas pode fazer outra.

— Por que você tentou se afastar de mim depois da festa? Quer dizer, você não fez nada demais e não precisava ter vergonha por não se lembrar, sabe? — tento soar o menos acusador possível enquanto falo.

olha pra mim, fecha os olhos e suspira. Quando abre, já se virou por completo em direção ao reservatório; ela abraça os joelhos e apoia a cabeça neles antes de começar a falar, o olhar direcionado ao sol quase pondo é intenso, e eu tento registrar cada detalhe da sua linguagem corporal. Os lábios se afastam e a voz sai quase como em um sussurro.

— Confio em você, mas é muito difícil entrar em qualquer tipo de relação sem lembrar daquela que mais me machucou — ela morde o lábio inferior antes de voltar a falar — Não senti vergonha de você, nem medo de que você fosse me julgar, . Mas me esconder e esperar passar era a forma que mais funcionava pra gente, digo, pra mim — suspira, cortando a fala.

Eu não respondo, porque sinto que é como se ela precisasse de um tempo para pensar em silêncio antes de continuar a falar. Ainda é o outono, a brisa semigelada bate fazendo as mechas do cabelo de se soltarem de trás da orelha, ela recolhe usando a mão direita, colocando os fios rebeldes no lugar, enquanto fecha os olhos.

— Eu tinha dezessete anos quando comecei a namorar com Jonah. A família dele era do Upper East Side e ele frequentava alguns bares do Brooklyn com os amigos, foi assim que nos conhecemos, sabe? — suspira — Ele já estava na faculdade e um dia, voltando da escola, eu e minhas amigas nos deparamos com o grupinho do Jonah no parque do quarteirão. Aquele passou a ser nosso lugar de encontro.

“Eu sabia que meu pai nunca, sob hipótese alguma ia aceitar nosso relacionamento. Principalmente porque eu era menor, e ele já tinha 20 anos, quase 21. Quando meu irmão, Christian, descobriu, Patrick fez um show. Ele odiava o Upper East Side, por causa da oficina mesmo, eram os clientes que mandavam os carros mais caros e demoravam de pagar, sempre dando desculpas. Então, Jonah foi jantar lá em casa, quando foi embora meu pai proibiu o relacionamento, mas eu estava perdidamente apaixonada, não ia ceder fácil sabe? Enfim, aos dezoito eu precisei fazer uma escolha e fui morar com ele, no início foi incrível, até que comecei a frequentar as festas e os mesmos lugares que os amigos de Jonah.

Ele era famoso em NYU, jogava no time de futebol, era o quarterback. Foi quando comecei a beber, usei algumas coisas por influência de amigos dele. Era estranho, Jonah me incentivava a fazer aquelas coisas mas no dia seguinte, quando eu não sabia muito bem o que tinha acontecido, a culpa se tornava minha. Por subir na mesa, por estourar o champanhe após os jogos ganhos. Eu aprendi a me esconder depois de cada festa que era forçada a participar, me escondia do Jonah, mas também dos olhares no campus. Até que alguém fazia algo no meio da semana, qualquer acontecimento das festas era completamente esquecido e voltávamos a ser o casal goals da NYU.”

— Isso é bizarro, mas se tornou parte da minha rotina nos últimos meses namorando com ele — ela suspira, enxugando uma lágrima solitária — Era fácil me esconder e parecia o certo, porque éramos namorados, eu o amava e queria agradá-lo. — Conclui.

Eu respiro fundo. Não esperava que ela confiasse em mim a ponto de me contar essa parte da vida. Por um lado, me sinto aliviado. Por outro, sinto raiva por ela ter cruzado o caminho de vida com um cara tão sem escrúpulos. Claramente viveu um relacionamento abusivo, isso me parte o coração e meio que explica algumas de suas atitudes quando nos conhecemos.

— Eu, eu… — tento procurar as palavras certas mas, diferente da minha irmã, sou péssimo com isso — Sinto muito .

— Não sinta — vira o rosto pra mim, o céu alaranjado iluminando a parte direita do seu rosto — Também foi uma escolha minha.

— Mas você não precisava passar por isso — estico minha mão para acariciar sua bochecha e secar uma segunda lágrima — E se depender de mim, saiba que não vai passar de novo, nunca mais.

abre um sorriso meio triste e apoia uma das mãos em cima daquela que está em seu rosto, em um ato de carinho mútuo.

— Você não está nem perto de ser alguém como ele foi, . — Ela fala fechando os olhos, quase como um sussurro, e eu a puxo para meu peito, dando um abraço apertado enquanto beijo seus cabelos com cheirinho de rosas.