Don’t Stop Me Now

Sinopse: Rotina: substantivo feminino
2. fig. hábito de fazer algo sempre do mesmo modo, mecanicamente; rotineira.
Em um ato desesperado, ela abandonou uma aula pela metade e saiu em busca de um momento de liberdade. Um instante no qual não se sentisse sufocada por sua própria rotina. Pegando seu carro velho, na companhia de um amigo que tinha intenções de ser algo mais dela, ela cai na estrada por 4 dias em busca daquilo que lhe faltava: a sensação de se sentir viva. Ela sairia daquela loucura com novas concepções de vida e novos ideais. E por que não com uma chance de amar?
Gênero: Romance.
Classificação: 14 anos.
Restrição: A história se passa no Rio Grande do Sul e o vocabulário local é utilizado.
Beta: Regina George.

Capítulo Único

Aquela quinta-feira tinha começado como qualquer outra. O despertador tocou às 5:30 da manhã e eu não pude me dar ao luxo de acionar a função soneca, já que as minhas responsabilidades não poderiam ser adiadas nem mesmo por cinco minutos. Me coloquei de pé e fui para o banheiro, tomando uma ducha e fazendo minha higiene. Em questão de 20 minutos eu já estava dentro dos meus jeans favoritos, usando uma camiseta rasgada do Homem-Aranha e meus inseparáveis Vans pretos. Minha bolsa já estava em cima da mesa, com todo o material e aparato necessário para que eu sobrevivesse a aquele dia. Meus trabalhos estavam em suas pastas, meu lanche e almoço em seus recipientes térmicos, minha carteira com os documentos e dinheiro estava escondida ao fundo da bolsa, uma pequena maleta com os itens necessários para uma maquiagem leve e a higiene diária e uma muda de roupa, para o caso de precisar.
Peguei um pote de iogurte e uma fruta, trancando a casa em seguida e chamando o elevador, que me levaria até o subsolo, onde meu carro – velho, diga-se de passagem – estava estacionado. Destravei o veículo e joguei a bolsa no banco do passageiro, terminando de comer a banana e abrindo o pote de iogurte, finalizando com o líquido em poucos instantes, juntando o pequeno lixo e despejando na lixeira localizada na saída da garagem pela janela aberta do carro.
Liguei o rádio e coloquei na função para tocar o pendrive que já estava inserido no aparelho. Logo Every Road do The Maine tocava e eu aumentei o volume, antes de pegar a avenida movimentada que me levaria para a universidade. O trânsito às 6h da manhã em Porto Alegre não era dos mais tranquilos, então o engarrafamento era inevitável, mas consegui chegar a minha primeira aula do dia com bastante antecedência. A aula começava às 7:30, então eu tinha meia hora para revisar as matérias. Tinha uma semana de sono acumulado pedindo libertação dentro de mim, estava exausta mentalmente e dezenas de trabalhos para fazer. Sem comentar na revisão de todas as matérias que eu tinha agendado para o final de semana, para que minha próxima semana – onde eu fatalmente voltaria ao trabalho após 15 dias em casa – de provas fosse um pouco menos infernal do que sempre costumava ser. A ansiedade atacava e eu passava 7 dias em um verdadeiro inferno pessoal.
Perdi a noção do tempo em meio às minhas anotações, sentindo meus olhos mais pesados que o normal, percebendo a presença do professor em aula, quando – minha melhor amiga da vida e colega de curso – jogou seu material na classe ao meu lado e sentou-se, completamente descabelada e amassada, enfiando a cabeça por entre os braços e escondendo o rosto.
– O caminhão de lixo te atropelou? – Indaguei, com um meio sorriso. me lançou um olhar atravessado, mas contente, antes de enfiar um pão de queijo, de onde eu não sabia que ela tinha tirado, na boca e me responder após mastigar.
– Eu tô morta. – Comentou. – Arrastei para uma festa ontem, com entrada gratuita até a meia noite. Bebemos até quase morrer. Cheguei em casa 5h da manhã, então tu já deve imaginar o meu estado.
– Tu é maluca. – Afirmei, sem nem me abalar. Aquele comportamento era típico de : a garota simplesmente não dava a mínima para horários e responsabilidades. Se quisesse fazer algo, ia lá e fazia. Totalmente diferente de mim, que era escrava do relógio e da minha agenda.
– Eu estava vivendo. – Ela deu de ombros. – Valeu a pena.
O professor iniciou a aula e logo encerramos nossa conversa, fazendo anotações sobre o conteúdo quando necessário e grifando partes importantes nos livros-texto.
Eu estava cansada. Naquele dia em especial, me sentia muito mais esgotada que o normal. Podia perceber todos os meus colegas com expressões de tédio, mas seus olhares continham felicidade. Eles queriam sair daquela aula o mais rápido possível por motivos diferentes dos meus: eles queriam poder dormir mais um pouco. Eu queria me livrar de toda aquela responsabilidade por uns instantes.
Sacudi a cabeça, em negação, afastando aqueles pensamentos o máximo que conseguia. Mas infelizmente, eu não conseguia evitar escutar os burburinhos. Todos ali pareciam ter tido noites de quarta-feira sensacionais. E teriam um dia de quinta-feira tão sensacional quanto o dia anterior. Todos tinham compromissos que não incluíam a universidade. Todos tinham conversas espontâneas e histórias para contar. Eu me sentia perdida no meio de toda aquela gente.
– Parece que todo mundo saiu ontem. – Comentei com , em murmúrios baixos.
– Não duvido disso. – Ela respondeu. – Quarta-feira é o dia oficial de meter o louco. Esperar até sexta-feira é um inferno. – Deu de ombros, como se aquilo fosse normal.
E bem, deveria ser. Menos para mim.
Respirei fundo e prometi a mim mesma que tomaria uma xícara de chá durante o almoço. Não era saudável manter todo aquele nervosismo para mim durante o dia inteiro.
Mas não cheguei tão longe. No meio do último período aula que finalizaria as aulas daquela manhã, eu surtei.
Podia ouvir os murmúrios cada vez mais altos dentro de meus pensamentos. Meus colegas marcando encontros, festas, reuniões. falando sobre seu próximo encontro com no final da tarde e que provavelmente a levaria para algum bar e para as ruas da Cidade Baixa durante a madrugada. O professor comentando sobre um evento que aconteceria em um museu durante o sábado. E eu só conseguia pensar que nada daquilo fazia ou faria parte da minha vida. Eu não sairia com meus amigos ou iria ao tal evento sugerido pelo professor. Não iria tomar uma cerveja sentada na grama da Redenção no domingo de tarde. Eu tinha dezenas de textos para ler e trabalhos para terminar. Eu tinha resumos para fazer e matéria para revisar. Como as pessoas conseguiam fazer tanta coisa e ainda assim, se manter em dia com os estudos?
tirava as mesmas notas que eu. E a garota não parava em casa, mesmo em dia de semana.
Eu me sentia sufocar e não sabia de onde vinha todo aquele sentimento. Mas sufocava a ponto de não conseguir respirar, como se todos a minha volta, estivessem reprimindo a circulação de ar em meus pulmões. Eu me sentia presa e queria gritar. Até perder a voz. Gritar até sentir um gostinho de liberdade em minha garganta. Queria jogar tudo para o alto em busca de um segundo de liberdade. Um ínfimo momento, onde a vida não fosse aquela rotina que me limitava e me prendia. Eu queria esquecer das minhas contas para pagar, da faculdade e do meu emprego. Mandar para o inferno todas as cobranças, os horários e as regras. Eu sentia uma necessidade de fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Eu queria ser e fazer o que quisesse, sem medo de experimentar, de arriscar e me entregar. Eu queria me sentir viva. Nem que fosse por um instante.
E jogando toda a minha rotina e meus planos no lixo, abandonei meu material em cima da mesa e corri para fora da sala de aula como uma louca, apenas com minha bolsa em mãos. Ouvi gritar por mim, mas não parei de correr até estar no estacionamento. Procurei por meu carro com pressa, esbarrando em alguém assim que encontrei o veículo e me virei em direção a vaga que eu ocupara mais cedo naquele dia.
? Tu tá bem? – indagou, como semblante preocupado.
era o melhor amigo de . Nos conhecíamos, pois, tínhamos o mesmo círculo de amizade, então costumávamos nos ver com frequência. Eu tinha uma pequena queda por ele e segundo , o sentimento era recíproco. Mas eu vivia tão envolva dos estudos e meus planos futuros que jamais havíamos sequer tido um encontro, por mais que ele já tivesse me chamado algumas vezes. Eu sempre estava ocupada com alguma tarefa ou presa no trabalho até mais tarde.
– Não. – Eu respondi, decidindo pela verdade. – Eu não tô bem.
– Tá passando mal? Tá machucada? – Ele indagou, preocupado.
– Não. Tô bem, fisicamente. – Afirmei, mas ainda sentia a adrenalina correndo por meu corpo. Eu precisava sair daquele lugar o mais rápido possível. – Escuta , eu preciso ir.
Voltei a andar em direção ao meu carro, atenta a presença de me seguindo e os passos apressados de Batina, que finalmente chegara ao estacionamento.
, tu tá louca? – Minha amiga indagou, esbaforida.
Eu respirei fundo, abrindo o carro e jogando minha bolsa no banco traseiro. Fechei a porta e me virei para meus amigos, que me encaravam com a mesma expressão assustada e surpresa.
– Eu preciso sair daqui. – Falei. – Dessa rotina da minha vida, que tá me matando. Eu acordei hoje com os mesmos planos de sempre, mas algo mudou e eu preciso fazer alguma coisa que não seja passar o resto do dia estudando e pensando em toda essa merda. – Respirei fundo, fitando suas expressões chocadas e tendo a certeza de que eu precisava fazer aquilo. – Então tô vazando.
– Tu não pode sair assim, sem rumo! – exclamou.
– Eu preciso sair daqui. – Respondi minha amiga, com um olhar suplicante. – Vou enlouquecer se não fizer isso.
– Eu super te apoio, . Mas tu não pode sumir sozinha por algum tempo. É perigoso e eu não posso ir contigo, tô com as minhas faltas estouradas já. – Ela murmurou, nervosa. Eu sabia que me apoiaria, mas jamais pediria para que ela fosse comigo, mesmo sabendo o quão perigoso seria sair por aí sozinha de carro.
. – Supliquei, já sentindo as lágrimas em meus olhos.
– Eu vou com ela. – disse por fim, chamando a atenção de nós duas.
– O quê? – e eu indagamos juntas.
precisa de um tempo. Tu não pode acompanhar ela, se não vai reprovar. Eu tô livre. É simples.
– Mas … – murmurou, ainda sem se convencer.
– Tem problema eu ir, ? – perguntou, focando seus olhos azuis em meu rosto. Sacudi a cabeça para os lados, negando. Eu não me importava muito com a companhia. Só precisava fazer alguma coisa que não fosse parte do marasmo da minha rotina. – Então tá resolvido. – Ele disse por fim. Pegou meu material na mão de e beijou minha amiga no rosto, cochichando algo em seu ouvido, a deixando mais calma pelo que percebi. deu a volta no carro e entrou no banco do passageiro, à minha espera.
, toma cuidado. Eu sei que tu precisa disso, mas toma cuidado, por favor. E me liga. – disse, me puxando para um abraço apertado. Sorri para ela e entrei no carro, dando partida em seguida, dirigindo em direção ao apartamento de .
– Por que a gente tá aqui? – indagou, confuso.
– Pra ti pegar alguma muda de roupa e qualquer outra coisa que vá precisar. – Olhei para ele. – Eu não pretendo voltar hoje e vou entender caso tu queira desistir de ir comigo.
abriu um sorriso e se retirou do carro, não sem dizer: – Volto em 15 minutos.
***
– Então, pra onde vamos? – indagou, assim que peguei a RS 116. O carro estava tomado pela música nova da Ariana Grande e os bancos traseiros lotados com as coisas que havia pegado em seu apartamento: mochilas com roupas, cobertores, comida, água e qualquer outra coisa que ele achou que seria útil naquela viagem inesperada. Eu havia passado em casa e pego algumas coisas, mas havia sido exagerado e pego coisas demais.
– Acho que… Gramado? Nessa época do ano é bonito. E eu sempre quis visitar o Lago Negro. – Eu dei de ombros, sem muita certeza.
– Gramado, então. – sorriu, trocando de música e colocando Beatles para tocar.
– Sempre soube que tu era fã de Beatles. – Eu ri.
– Não posso fugir dos clássicos. – Ele respondeu, sorrindo.
Alguns minutos de silêncio onde me lançava olhares furtivos, que foram o suficiente para me fazer suspirar.
– Pode perguntar. – Disse por fim.
– Não quero te pressionar.
– Eu sei. – Olhei para ele rapidamente. Eu realmente sabia que não era o tipo que insistia até conseguir o que queria. A pessoa em minha vida que tinha esse papel era . era suave, como uma brisa de primavera. Ele se preocupava com as pessoas e tentava deixá-las confortáveis. Mas eu sabia, que mesmo ele, deveria estar curioso a respeito de meu surto. Afinal, eu era . E eu jamais surtava.
– E então? – Ele se deu por vencido.
– Já sentiu como se não estivesse aproveitando a vida? Como se estivesse sufocando, dia após dia, em busca de algo que você não sabe se vai conseguir? Eu sinto isso o tempo todo. – Confessei. – Eu amo o meu curso, mas não me vejo trabalhando com isso. Também não me vejo com meu emprego para o resto da vida. Passo meus dias estudando e perdendo de ver meus amigos e familiares. Perco tempo me preparando para um futuro no qual eu não me vejo, quando eu poderia estar fazendo algo que gosto. Algo que me faz bem. Que me faz feliz. – Suspirei. – Ando me sentindo quase morta, . E hoje foi o ápice.
– Por quê?
– Eu conseguia ouvir todo mundo fazendo planos. Marcando compromissos, conversando sobre saídas e etc. E meu único plano era ir para casa fazer fichamento de texto para a semana de provas. A última vez que eu saí, foi há dois meses, no aniversário do . E eu fui embora cedo porque tinha que trabalhar no dia seguinte. – Sorri triste. – Tô cansada de me sentir assim.
– Ok. – concordou, e olhei brevemente para ele. – Vou traçar uma rota para nossa viagem. Só voltaremos no domingo.
, tu não precisa se envolver nisso. Posso te levar de volta.
– E perder a diversão? – Os olhos do rapaz brilhavam em expectativa. – Até parece que não me conhece. – Ele riu.
E eu conhecia. Sabia que assim como era a pessoa mais tranquila que eu conhecia, ele também era a mais aventureira. Já havia perdido as contas de quantas vezes ele tinha mencionado seus mochilões e viagens pelo Brasil. Dizia que o maior sonho era visitar a Europa apenas usando o sistema metroviário.
Sem dúvidas, ele era a companhia perfeita para aquela aventura.
***
Gramado era realmente linda. Tanto eu como , já havíamos visitado a cidade durante o inverno, mas durante a primavera tudo parecia ainda mais especial. Havia muitas ofertas de hotéis para passarmos à noite, já que a temporada de inverno tinha passado e os preços caiam muito durante o veraneio. Acabamos escolhendo uma pousada ao centro da cidade, que incluía jantar e café da manhã na diária. Já nos ajudava a economizar com alimentação, então valia a pena, apesar de haver apenas um quarto disponível para nós dois. Não deixei meus pensamentos focarem naquilo e simplesmente me agarrei a oportunidade de fazer algo que não fosse estudar ou trabalhar.
Deixei o carro na garagem, e e eu largamos nossos pertences no quarto da pousada, para podermos aproveitar a visita sem pesos desnecessários. Levei comigo apenas uma bolsa pequena com meus documentos e dinheiro, e uma garrafinha d’água.
e eu seguimos andando até o Lago Negro, já que havia programado nossa visita a alguns pontos turísticos. Completaríamos nossa visita a Gramado passando pela Rua Torta no dia seguinte e então partiríamos para o Cânion Itaimbezinho. realmente havia levado a sério e feito um cronograma para nossa road trip made in Brasil.
Ao parar em frente ao Lago e observar a paisagem, eu senti que estava fazendo algo certo, pela primeira vez em muito tempo. Me permiti deitar na grama e respirar fundo, sentindo o cheiro da natureza, ouvindo o som das conversas e risadas a minha volta, enquanto as pessoas se divertiam. Abri os olhos e encarei o céu azul, sorrindo verdadeiramente como não sorria a muito tempo. Chutei meu tênis para longe e deixei meus pés em contato com a grama, arriscando um riso frouxo.
Era tão bom me sentir daquela forma. Livre. Leve.
Me peguei desejando mais momentos como aquele e me arrependi amargamente de todas as decisões que tornaram minha vida meu próprio inferno pessoal. Suspirei, os pensamentos a mil em minha mente.
Senti a presença de ao meu lado e virei o rosto em sua direção, o encontrando com um sorriso animado e um algodão doce nas mãos. Ele se sentou ao meu lado, também tirando os tênis e deixando a grama entrar em contato com sua pele.
– Comprei ingressos pros pedalinhos. – Ele avisou.
– Não precisava, tu sabe. – Comentei, sem querer alongar o assunto.
– Eu adoro andar de pedalinho, me senti na obrigação. – Ele deu de ombros, me oferecendo algodão doce. Peguei um punhado e coloquei na boca, voltando a fitar o céu. Por fim, fechei os olhos e aproveitei a brisa em meu rosto.
Quarenta minutos passados e estávamos e eu, saindo do pedalinho, rindo como dois idiotas. Eu demorei para pedalar e ele acabou fazendo todo o esforço sozinho, o que me fazia gargalhar, enquanto ele resmungava e ria junto comigo.
– Tu é realmente péssima. – Ele acusou.
– Em minha defesa, eu tava enferrujada. Só ando de carro nos últimos tempos. – Eu retruquei, ainda rindo.
– Me lembre de fazer uma vaquinha com o pessoal para te comprarmos uma bicicleta de presente. – disse, rindo em seguida. – Aí quem sabe, na próxima visita, tu consiga ajudar a pedalar e não vamos ficar encalhados por 20 minutos no meio do lago.
– Tu está reclamando, mas deu bastante risada. – Eu retruquei e deu de ombros.
– Alguma vantagem esse passeio tem que ter né.
Paramos em uma cafeteria para comer alguma coisa, pedindo um táxi para o Mundo de Chocolate em seguida. Compramos nossos ingressos e visitamos o mundo feito de chocolate sólido. tirou dezenas de fotos com todas as esculturas, enquanto eu apenas me sentia admirada demais com a perfeição de detalhes de todas as atrações e embriagada com o cheiro de chocolate por todo o lugar.
– Eu poderia viver aqui. – Eu comentei, atraindo a atenção de , que observava Torre Eiffel com admiração.
– Viveríamos juntos, então. – Ele disse, sorrindo.
– Não existe cheiro melhor que de chocolate, tu não acha?
– Eu gosto muito do cheiro de café. – comentou. – Mas chocolate ganha em disparada.
– Ainda bem. – Eu ri. – Não poderia conviver com uma pessoa que não gosta de chocolate.
– Esse tipo de pessoa existe? – arregalou os olhos, fingindo uma grande surpresa. – Pensei que fosse invenção para aterrorizar criancinhas.
Eu ri alto, arrastando para a área de degustação em seguida.
***
Visitar o Harley Motor Show foi tão divertido quanto fazer as degustações no Mundo de Chocolate. O bar temático enchia os olhos de todos, mesmo aqueles que como eu, não eram muito entusiastas de motocicletas. , por outro lado, parecia uma criança em sua primeira visita ao parquinho, maravilhado com tudo. O homem quase não piscava, com medo de perder algum detalhe na decoração do lugar. Tomamos alguns chopes e pedimos um táxi para a pousada, mas não sem antes tirar uma foto juntos para mandar para , avisando que estávamos bem e voltaríamos no domingo.
Jantamos na pousada mesmo, caindo na cama que teríamos que dividir em seguida.
– Eu posso dormir no chão. – disse, pela oitava vez.
Eu já estava confortável em minha camiseta do Blink e um shorts de algodão, quentinha embaixo das cobertas e sabia que ele se encontrava na mesma situação que eu. Mas entendia o motivo pelo qual ele não se sentia confortável em dividir uma cama comigo, sem estarmos com níveis absurdos de álcool no sangue para ligar para qualquer coisa. Ele gostava de mim e sabia que era recíproco. E apesar de não conseguir pensar nisso naquele instante, eu o entendia completamente. Mas também, não o deixaria dormir no chão e acordar todo dolorido.
– Já disse que não precisa. – Eu retruquei. – A gente tá morto e somos adultos. Não precisa dormir no chão. – Me virei para ele, encontrando seus olhos fixos em mim.
– Quando tudo isso acabar, tu vai finalmente aceitar sair comigo? – Ele indagou, num murmúrio.
Eu sorri, fechando os olhos antes de murmurar: – Acho que sim.
***
Na sexta-feira, acordamos cedo. Bem, na verdade, acordou. Eu estava confortável demais sendo abraçada por ele e não me importei nenhum pouco em acordar daquela maneira. Mas manteve as bochechas coradas durante todo o nosso café da manhã improvisado e durante toda a rápida visita que fizemos a Rua Torta. Pedi para tirar algumas fotos de mim parada no meio da rua e fiz o mesmo com ele.
Pegamos a estrada às 8h em direção ao Cânion Itaimbezinho, na esperança de chegar lá antes das 10h da manhã. O carro estava silencioso, apenas com a música do rádio fazendo um plano de fundo para a situação. Eu suspirei, desviando o olhar da estrada e o focando em rapidamente.
– Tu vai mesmo ficar assim só porque a gente dormiu abraçado? – Indaguei, o vendo respirar fundo antes de responder.
– Só é… estranho. – Respondeu-me. – Tu sabe como eu me sinto e eu sei como tu te sente. E mesmo assim, a gente nunca teve nada.
– Por minha culpa. – Assumi a responsabilidade.
– É estranho acordar abraçado contigo, . Porque eu queria muito isso, mas tu nunca me deu abertura. E parece que eu tô me aproveitando da tua busca por liberdade pra forçar isso na tua vida. – fechou os olhos, em conflito consigo mesmo.
… eu sei que tu não tá te aproveitando. Entendo que ache que eu tô mais vulnerável, mas na verdade, só tô vivendo as coisas que eu queria viver há muito tempo. – Dei de ombros, sentindo seus olhos em mim. – E se a gente acabou se abraçando durante a noite, ok. Foi bom. Ter tua companhia tá sendo maravilhoso. Essa viagem é pra me redescobrir. E se você estiver incluído, eu não vou reclamar. Tu sabe que eu também quero.
– Tudo bem. – suspirou. – Se tá ok pra ti, então tá pra mim também. – Ele sorriu e eu voltei minha atenção para a estrada.
***
Três horas mais tarde e estávamos na borda do Cânion Itaimbezinho. Acabamos escolhendo o percurso mais rápido e mais fácil, a Trilha do Vértice. Passamos pela Cascata das Andorinhas e a cascata do Véu de Noiva, tendo uma vista incrível de todo o Cânion ao final da trilha. Acabamos subindo sozinhos, em nosso próprio ritmo, enquanto fotografava e eu simplesmente curtia o vento no rosto e a sensação de pura liberdade que experimentei ao parar a beira do Cânion e respirar fundo. Fechei os olhos e simplesmente me deixei aproveitar a sensação, me sentindo tão bem como jamais havia me sentido antes.
Me sentei no chão e inclinei o tronco para trás, usando meus braços como apoio. Não parei para prestar atenção em , perdida demais dentro de minha própria mente.
Há tanto tempo eu me sentia refém de minhas próprias escolhas de vida. Me sentia presa, cheia de incertezas. Lutava todos os dias por coisas sobre as quais eu nem sabia se queria. Coisas que eu havia decidido com 17 anos, e agora aos 22, não sabia se tinha feito as escolhas certas.
Eu tinha tanto medo do fracasso, que não havia parado para pensar no que realmente seria fracassar. Desistir de um curso no qual eu me via no futuro seria um fracasso? Sair de um emprego do qual eu não gosto, mas tem um bom salário seria um fracasso? Usar todo o meu tempo livre, que já é escasso, para me preparar para um mestrado que eu nem sabia se realmente queria? Usar anos da minha vida, abdicando de ser feliz, por um futuro tão incerto quanto a probabilidade de chover no final de uma tarde de inverno. Porque não existem certezas de felicidade ao atingir esse futuro magnífico que eu havia planejado.
Eu não queria chegar aos 40, com meu diploma de PhD, e pensar “porra, eu perdi tanta coisa por isso e ainda me sinto infeliz”. Eu sentia tanto medo de fracassar agora, que me apegava aos estudos e ao trabalho como minhas únicas metas de vida. Mas andava sentindo um medo maior ainda de fracassar no futuro, de chegar lá na frente e pensar que não tinha valido a pena perder tanta coisa. Que eu deveria ter saído mais com meus amigos, dado mais risadas e enchido a cara, fazendo dezenas de coisas estúpidas. Que eu deveria ter amado como se o amanhã não existisse, apenas por me sentir bem no presente. Que eu deveria ter aproveitado os pequenos momentos, pois eram eles que construíram as melhores lembranças.
Eu não queria que minha vida se resumisse em estudar, trabalhar, pagar boletos e tentar emagrecer. Eu queria muito mais da vida, mas não sabia exatamente o que.
Eu suspirei, totalmente confusa.
Os braços de me envolveram e só então eu percebi que estava chorando. Minhas lágrimas eram de medo e frustração. Medo do futuro. Frustração pelo presente. Haveria uma forma de conciliar as coisas? Eu claramente não estava tendo as melhores escolhas, já que me sentia tão sufocada por minha própria vida.
– Eu não fui totalmente honesto contigo, porque eu não disse nada. – comentou, com um suspiro longo. Olhei para ele, totalmente perdida quando ao assunto. – Quando tu perguntou se eu já tinha sentido que não tava aproveitando a minha vida. – Suspirou. – Eu já me senti assim. Há dois anos, antes de te conhecer, eu cursava Direito, por vontade da minha família. Trabalhava com meus pais no escritório deles, fazia dois cursos de línguas e morava em um apartamento enorme. Mas eu era infeliz. Odiava meu emprego, os estudos e todo o resto. Mas nunca fui apegado a isso. Então eu simplesmente larguei. Fui cursar Ciências Sociais, arrumei um emprego no bar e passei a dividir um apartamento minúsculo com . Então eu entendo o que tu tá sentindo. – Ele concluiu, e eu o fitei abismada. era uma pessoa tão tranquila e tão bem resolvida, que eu jamais poderia imaginar que ele havia passado por essa crise tão recentemente. – Mas nossos casos são diferentes. Esse é o teu planejamento de vida, então é difícil pra ti abandonar isso. Mas se for o que tu quer, , tem que tentar. Por ti mesma.
– Existe um meio termo? – Indaguei, com a voz trêmula devido às lágrimas. – Sabe, eu amo meu curso. Realmente acho que nasci pra Psicologia. Mas eu não me vejo trabalhando com isso, principalmente por causa do meu emprego. Odeio aquele consultório. É todo mundo tão superficial. Pessoas ricas falando sobre seus problemas enquanto a psicóloga dá conselhos idiotas.
– Tem outras áreas nas quais tu pode trabalhar. Já deu uma olhada nisso? – Questionou, e eu senti minhas bochechas coradas. Nunca havia parado para pensar naquilo. – Acho que não. – Ele sorriu. – Tu já tinha tanta certeza que nem pensou em planos alternativos. É compreensível.
– Vou me informar sobre isso quando voltarmos. – Decidi, me aconchegando mais no peito de . – E vou procurar um novo emprego.
– Isso tira todas as tuas frustrações? – Ele perguntou, mas eu vi em seus olhos que ele sabia que não. Abri um mínimo sorriso, grata demais pela presença de naquela viagem.
– Não exatamente. – Dei de ombros. – Mas já dá o empurrão que eu preciso. Vou tentar parar de focar em apenas uma meta de vida.
– E quais são suas outras metas? – Ele questionou.
– Construir lembranças que valham a pena. – Eu disse por fim. – Como essa. – Indiquei nós dois, sentados na grama, à beira do Cânion Itaimbezinho, conversando sobre a vida.
Ele sorriu, beijando meu rosto em seguida, voltando a olhar para a paisagem à nossa frente. E naquele momento, eu senti que tudo ia ficar bem.
***
– Sabe? – Indaguei, enquanto entrávamos no carro, duas horas mais tarde. – Não tenho mais tanta certeza quanto ao nosso roteiro.
– Quer voltar pra Porto Alegre? – indagou, confuso.
– Não. – Respondi, rápido demais. – Eu só tava pensando… e se fossemos pra praia?
– Que praia, exatamente? – Ele questionou, interessado.
– Não sei. Qualquer uma. – Dei de ombros. – Eu só quero curtir esse final de semana como não faço há muito tempo. E road trip é sensacional, mas a gente cansa demais dirigindo. E podíamos chamar e . – Pontuei e assentiu em concordância.
– Meus pais têm casa em Capão. – Ele lembrou e ambos sorrimos, antes de entrar no carro e eu iniciar uma ligação para .
“Tu finalmente resolveste aparecer sua vaca!”. O rosto rosado de tomou conta da tela do meu celular, me arrancando um sorriso frouxo. “Qual o motivo da ilustre ligação, já que pedir notícias de vocês não adiantou de nada”!
– Nós mandamos fotos! – Eu exclamei, em nossa defesa. concordou com a cabeça.
“Foda-se”. Ela disse simplesmente, revirando os olhos. “ mandou vocês se foderem também”.
– Duvido! – riu, sabendo tanto quanto eu, que aquele não era um comportamento de .
“O que vocês querem? Tão atrapalhando meu intervalo”. resmungou, ainda de mal humor. Eu revirei os olhos, passando os olhos rapidamente pelo relógio no canto superior da tela do celular, confirmando que eram quase 14h. estava matando aula e nem tinha vergonha de mentir.
– Íamos te fazer um convite, mas já que tu tá toda estressada, melhor deixar para lá, não é ? – Indaguei, olhando para com divertimento. Ele sorriu, concordando com a cabeça.
– Realmente não vale a pena fazer o convite.
“Que convite?” A cabeça de tomou conta da tela e eu sorri em cumprimento ao meu amigo. “Se a não aceitar, eu aceito”!
e eu trocamos um olhar, antes de rir.
– Nós vamos pra casa dos meus pais em Capão. – explicou. – Se quiserem, peguem o carro e nos encontrem lá.
“Vocês vão chegar lá que horas?” indagou, enquanto resmungava que não queria ir igual a uma criança. “Estamos na faculdade, mas matamos aula, então podemos sair agora”.
– Estamos em Cambará do Sul. – Respondi. – Dá umas 2 horas de viagem até Capão. Mas nós vamos parar para comer alguma coisa, então umas 3 horas.
“Eu sei como chegar lá”. sorriu, animado. “Nos vemos mais tarde então”. E com isso, desligamos a chamada.
se ofereceu para dirigir, não me deixando dúvidas ao aceitar, visto que eu havia dirigido até Cambará pela manhã. Agora seriam mais duas horas de viagem até Capão e seria um bom descanso para mim. Liguei o rádio, colocando as pernas em cima do painel do carro. Busquei o pacote de marshmallows que estava jogado no banco de trás, abrindo o pacote e colocando alguns na boca, mastigando com calma, balançando a cabeça no ritmo da música que tocava.
– Ei. – chamou. Olhei para ele, que abriu a boca e indicou o pacote de doces com a cabeça. Eu ri, sacudindo a cabeça para os lados e colocando um marshmallow na boca de em seguida.
– Tu é abusado, mas eu nem vou reclamar.
– Claro que não vai. Eu que comprei o pacote. – Ele retrucou, me deixando apenas a alternativa mais sensata a se ter: dei de língua para ele, que gargalhou.
***
Chegamos a Capão quase 17h. Acabamos parando em um restaurante de beira de estrada para comer, o que otimizou nosso tempo de viagem.
e já estavam a nossa espera quando finalmente estacionou o carro em frente à casa de seus pais. Meu queixo caiu assim que eu coloquei os pés para fora do carro, impressionada com a beleza daquele chalé quase à beira do mar de Capão da Canoa. Ainda era difícil de acreditar que o que eu conhecia, o cara que já me pedira passagem emprestada para voltar para casa, tinha uma casa como aquela fazendo parte dos bens de sua família. Mas eu sabia por experiencia própria, que nem sempre fazíamos o estereótipo de nossas famílias e com não era diferente. Nada mudava porque seus pais tinham grana. Ele ainda era o cara com quem eu dividira sanduiches no intervalo das aulas.
Corri até e abracei meu amigo com força, enquanto ele me xingava por não dar notícias. foi a próxima, aparentemente curada de sua irritação conosco, já que me puxou para um abraço e comentou que eu parecia muito mais contente. os cumprimentou com abraços e logo estávamos dentro da casa, com nos guiando por dentre os corredores.
– A casa tem só dois quartos. – explicou, quando chegamos ao segundo andar.
– Eu divido um com a , sem problemas. – ofereceu e e eu trocamos um olhar rápido, concordando em manter para nós o fato de não termos problemas em dividir um quarto também.
– Tudo bem. – Ele disse por fim. Podem ficar com o do final do corredor. – Apontou para a porta de madeira escura. – e eu ficamos por aqui. – Indicou a porta a nossa frente.
e eu seguimos para o quarto, arrastando nossos pertences. Assim que fechei a porta, minha amiga pulou em cima de mim, me arrastando para a cama e me fazendo sentar de qualquer jeito no colchão extremamente macio.
– O que foi, sua doida? – Eu questionei, confusa.
! – Ela exclamou, animada. – Me conte tudo!
– Contar o quê?
– Não te faz de idiota, . – revirou os olhos para mim. – Tem um clima no ar. Rolou beijo?
– Não! – Exclamei, assustada. – Essa não foi uma viagem pro e eu ficarmos juntos.
– Eu sei. – Ela revirou os olhos novamente. – Mas poderia ter rolado, já que aparentemente você cansou de colocar a faculdade e o trabalho acima da diversão. E convenhamos, é uma bela diversão.
– Não rolou nada. – Expliquei, ignorando seu comentário de propósito. – Só estamos mais próximos, o que já era de se esperar.
me lançou um olhar descrente, mas não retrucou. Apenas se levantou e seguiu para o banheiro, afirmando que ia tomar banho.
Eu suspirei e me joguei na cama, fechando os olhos e aproveitando para descansar antes que o furacão saísse do banheiro.
***
Balancei a garrafinha de long neck em minhas mãos, dando mais um gole longo enquanto observava meus amigos conversarem e fazerem piadas idiotas.
Estávamos , , e eu comendo pizza, jogados no carpete fofo da sala de TV – sim, o chalé de praia dos pais de tinha uma sala de TV que mais parecia uma tela de cinema, assistindo Harry Potter e bebendo cerveja como loucos.
– O professor ficou muito chocado com a tua saída da sala, . – comentou, com as bochechas rosadas devido aos 5 drinks que ela já havia bebido. – Ele me perguntou se tu tava com algum problema feminino.
Eu soltei uma gargalhada, largando a cerveja na mesa com medo de derivar a garrafa.
– Eu tô muito ferrada, não tô? – Indaguei, ainda com o sorriso nos lábios. – Perdi todas as revisões pras provas.
– Não exatamente, já que os professores não fizeram revisão. – deu de ombros. – A gente vai se dar bem.
– Sei que sim. – Sorri para ela, beliscando as batatas fritas novamente. Eu já havia comido demais, mesmo assim, não conseguia deixar de pegar algumas batatinhas apenas para me manter ocupada.
– Mas nos digam, pra onde vocês foram quando saíram de Porto Alegre? – indagou, curioso.
– Gramado. – respondeu, dando um gole em sua caipirinha em seguida. – Depois fomos pra Cambará.
– O Cânion é ainda mais maravilhoso ao vivo. – Eu suspirei, sorrindo. – A gente tem que voltar lá algum dia! – Falei para , só percebendo as sobrancelhas arqueadas de e quando já era tarde demais.
– Ela nem nos convidou, percebeu? – comentou, sorrindo com malícia.
e agora são melhores amigos. – riu, entrando na provocação da namorada. – Somos apenas carga extra, por aqui.
– Vocês são idiotas assim desde sempre ou estão fazendo curso? – Resmunguei, revirando os olhos e bebendo mais de minha cerveja.
– Obviamente eles fazem curso. – comentou e eu ri baixinho.
– Certo. – estalou os lábios, divertida. – Então vocês querem mesmo nos convencer de que não rolou nada?
– Não queremos convencer vocês de nada. – resmungou. – Até porque, não aconteceu nada que a gente quisesse esconder.
– Se vocês dizem. – deu de ombros, abandonando o assunto e me fazendo suspirar em alívio.
Meus amigos quando resolviam insistir em alguma coisa, ficavam horas e horas batendo na mesma tecla até conseguirem algo. principalmente, mas eu tinha esperanças de que aquele assunto ficasse de lado por hora. e eu não havíamos conversado, de fato, sobre o que sentíamos e eu não queria ter aquela conversa na frente das duas pessoas mais curiosas que eu conhecera na vida.
Trocamos um olhar rápido, sabendo que mais cedo ou mais tarde, teríamos que ter aquela conversa, com concordando em silêncio que o momento não era aquele.
– Eu já perdi as contas de quantas vezes vimos esse filme. – comentou, com os olhos fixos na tela que transmitia o primeiro filme da franquia de Harry Potter. A cena em questão era a primeira aula de Harry com o professor Snape e todos nós sabíamos as falas de cor, devido as centenas de vezes que havíamos assistido aquele filme juntos e também, separados, já que eu dificilmente aparecia para as noites de filme na casa de .
– Estou com sono. Vou subir. – Murmurei, após alguns minutos assistindo ao filme. Levantei-me, recolhendo as garrafas de cerveja vazias e as levando para a cozinha, voltando para a sala e desejando boa noite para todos.
– O quarto tem ar condicionado, então fica à vontade . – me disse e eu sorri em resposta, agradecendo com um sussurro. Subi para o quarto e vesti meu pijama, caindo na cama em seguida e suspirando alto, fechando os olhos e deixando o sono me dominar.
Não sabia quanto tempo havia se passado, talvez minutos ou horas, quando senti um cutucão em meu braço, me fazendo bocejar e abrir os olhos lentamente, sonolenta.
– Chega para lá. – murmurou, me empurrando para a ponta direita da cama de casal. Ele vestia apenas uma bermuda e tinha uma expressão cansada no rosto.
? – Indaguei, confusa. – O que aconteceu?
me expulsou do quarto. E apesar do sofá ser confortável, já dividimos uma cama. Não vi problemas em vir dormir aqui. – Ele explicou, com as bochechas levemente coradas. Eu assenti, movendo meu corpo para a beirada e deixando espaço para se deitar.
– Sem problemas. – Eu disse, voltando a fechar os olhos e abraçar uma almofada qualquer, em uma tentativa de voltar a dormir.
– Boa noite, . – falou, num suspiro. Senti seus braços envolverem minha cintura e suspirei, me aconchegando contra seu corpo em seguida.
– Boa noite, .
***
– EU SABIA!
O grito de me despertou. Dei um pulo na cama, abrindo os olhos com rapidez e tentando situar as coisas a minha volta. dormia tranquilamente, um de seus braços descansava em cima de minha cintura e o outro estava jogado ao lado de seu corpo. Os cabelos revirados tão característicos dele estavam jogados no travesseiro e seu rosto mantinha uma expressão serena. estava parada a porta do quarto, usando um vestido soltinho e chinelos. Um sorriso malicioso cobria seus lábios e ela me olhava com tanta animação que eu me senti corar.
– Para de gritar, maluca. – Eu resmunguei, afastando o braço de e me levantando da cama, caminhando para o banheiro e ouvindo os passos de em meu encalço. Ela trancou a porta do banheiro e me segurou pelos ombros, animada demais para conseguir controlar suas ações.
– Eu sabia que tu não tinha me contado alguma coisa! – Ela acusou, com os olhos em fendas em minha direção. Eu suspirei baixinho.
– Não rolou nada demais. – Eu disse, em minha defesa. – Não nos beijamos, se é o que tu vais perguntar.
– Então o que rolou? – indagou, confusa. – Eu sei que vocês dois já tinham alguma proximidade. Pequena, mas existia algo. E vocês se gostam! Achei que isso acabaria acontecendo.
– E talvez vá. – Dei de ombros. – Mas ainda não aconteceu.
– Me conta tudo, sem esconder os detalhes!
– Nós dividimos a cama de quinta para sexta. A pousada em Gramado só tinha um quarto e eu não ia deixar ele dormir no chão. – Falei. – E sexta… me ajudou para caramba, sabe? Enquanto estávamos no cânion, eu parei para repensar toda a minha vida. Acabei começando a chorar, porque entrei em desespero por não saber o que fazer. E então nós conversamos muito. me ajudou a entender alguns dos meus problemas e tentou me dar algumas soluções. E eu entendi que tudo depende de mim. – Sorri fraco. – A mudança que eu quero, só eu sou capaz de fazer. E eu não entendia isso, até me contar sobre a vida dele. Nós só estamos muito mais próximos do que já fomos. – Finalizei e abriu um sorriso gigante, enquanto dava pulinhos animados e exclamava coisas sem sentido.
– Vocês vão acabar juntos! – Ela sentenciou, por fim.
– Eu sinceramente, não sei. Mas eu não vou mais me esconder disso. Se tiver que ser, será. – Dei de ombros.
***
Passamos o sábado na praia de Capão, tomando sol, nos banhando no mar e comendo e bebendo coisas que só o litoral poderia oferecer com um gostinho diferente.
Eram quase 18h quando nós finalmente recolhemos nossas coisas e caminhamos de volta para o chalé. Eu havia conseguido pegar um bronze, mas nada comparado a cor maravilhosa que tanto quanto haviam conseguida. continuava branquelo, como sempre, devido ao fator 60 que usava por ter a pele muito sensível.
– Onde vamos hoje? – Eu indaguei, largando a bolsa em cima da mesa da cozinha e procurando um copo de água na geladeira. se jogou na bancada e catou uma fruta para comer, enquanto os rapazes chegavam o estoque de bebida que restara na casa.
– Podemos comer alguma coisa pelo centro. Tem o parque de diversões perto do calçadão. – comentou, entonando mais um latão de Budweiser.
– Ótimo! – disse, animada. Saímos daqui 1 hora, pode ser? – Indagou, sem esperar pela resposta, me puxando para o andar de cima no mesmo instante.
Acabei vestindo um short jeans, tênis e uma blusinha soltinha rosada. colocou um macacão jeans e um cropped branco, junto de sua alpargata colorida. Descemos faltando 10 minutos para as 19h, já que havíamos dispensado maquiagem e apenas havíamos cuidado dos cabelos rapidamente. Apesar de não ter molhado o cabelo no mar, eu sabia que a maresia detonava os fios. Os rapazes já nos esperavam na sala, usavam camiseta, bermuda e tênis, como sempre usavam. tinha um boné na cabeça, que eu logo roubei para mim, enquanto ele me retirava a língua.
Acabamos chamando um Uber que levou 25 minutos para nos largar na avenida mais movimentada do centro de Capão, que estava lotada, como era de se esperar. A música ao vivo a beira do mar ecoava por todo o centro, enquanto as pessoas bebiam e se divertiam em todos os cantos. Acabamos comendo crepes e bebendo capetas de diversos sabores, enquanto jogávamos conversa fora. Tinham muitas lojinhas abertas, mas acabamos apenas vendo as vitrines enquanto nós encaminhávamos em direção ao parque de diversões.
– Eu não vou andar no kamikaze! – informou, quando paramos na fila do brinquedo. gargalhou e eu apenas reprimi a risada com a mão, lembrando da última vez que minha amiga tinha andando naquele brinquedo.
– Por que não? – indagou, confuso.
– Pense apenas em Fanta uva, enjoada e vômito roxo voando para todo lado. – Expliquei, com uma careta de nojo, que foi espelhada no rosto de .
– Ai que nojo! – Ele exclamou e revirou os olhos para ele.
– Eu não vou andar em nenhum desses brinquedos. – Ela completou, emburrada.
– Sobrou o carrossel e o carrinho bate-bate para ti, então. – disse, rindo.
– Vocês são ridículos! – resmungou, se afastando da fila no instante em que fomos chamados pelo instrutor para andar no brinquedo.
A mesma birra de minha amiga se repetiu nos 7 brinquedos que ela considerava perigosos para seu estômago. Acabamos esgotando nossos ingressos quando entramos na fila para a Casa do Terror e e eu fomos comprar mais, pois ainda tinham alguns brinquedos mais inofensivos para andarmos.
– Será que mais uns 30 ingressos bastam? – Eu questionei, quando nossa vez ao guichê chegou.
– Acho até que sobram. Melhor pegar 20. – Ele disse e eu assenti, pedindo vinte ingressos para a vendedora. Puxei pela mão, correndo para a fila onde nossos amigos nos esperavam, enquanto ria de minha animação e eu lhe estirava a língua, sem realmente me afetar pela zoação dele.
– Compramos 20. – avisou e eu entreguei os ingressos para , sem soltar da mão de , fato esse que meus amigos observaram, mas não comentaram.
– Eu ainda vou gastar algum dinheiro na barraquinha de tiro ao alvo. – Suspirei, procurando a tal barraca com o olhar, sem realmente encontrar devido ao aglomerado de gente.
– Tu é péssima com mira, . – lembrou, rindo. Eu dei de ombros.
– O que vale é tentar, não é? – Indaguei, e ela sorriu, concordando com a cabeça.
Torramos o restante de nossos ingressos nos brinquedos mais idiotas do parque. se recusou a andar na roda gigante e eu lhe fiz companhia, pois não gostava da dinâmica do brinquedo. Acabamos seguindo para a fila do tiro ao alvo quando e saíram da roda gigante, enquanto eu sentia a expectativa de todos os meus amigos as minhas costas, quando finalmente peguei a arma e me posicionei para atirar. De dez tiros, eu acertei apenas um e ganhei um pacote de balas, por ter feito o mínimo de pontos possível. ria de minha cara e gravava com o celular, enquanto eu lhe mostrei o dedo médio e abandonei o jogo.
– Eu nem queria aquela merda de urso mesmo. – Resmunguei.
– Queria sim. – zombou, se divertindo às minhas custas. Revirei os olhos.
– Vamos embora, logo. – Pedi, mas fui totalmente ignorada por meus amigos, que deixaram o queixo cair enquanto focavam o olhar para além do meu ombro. Virei o rosto, procurando o motivo de tanta agitação. Encontrei segurando o urso que eu queria ter ganhado no tiro ao alvo, agradecendo ao rapaz que vendia as fichas da barraca e se voltando para nós, com um sorriso fofo nos lábios. Eu pisquei rapidamente, embasbacada, quando ele me ofereceu o urso.
– Ganhei pra ti. – Falou e suas bochechas coraram levemente.
– Obrigada. – Eu sorri, o puxando para um abraço. envolveu minha cintura com seus braços e eu escondi o rosto em seu peito, respirando seu perfume e sentindo o calor de sua pele contra a minha. Meu coração bateu acelerado e eu simplesmente me deixei aproveitar, sem saber por que diabos tinha negado aquele carinho que sempre me oferecera por motivos tão idiotas. Quando nos separamos, e nos encaravam com sorrisos gigantes nos rostos, o que apenas nos deixou mais envergonhados.
– Vamos comer alguma coisa? – finalmente quebrou o gelo, atraindo a atenção do casal.
– Podemos comer, eu acho. – disse. – Tem uma hamburgueria mais à frente.
– Eu quero chope! – exclamou, já puxando a namorada pela mão, enquanto e eu seguíamos os dois, cortando caminho por entre as pessoas. Eu estava abraçada em meu urso, com a mão de segurando a minha com firmeza. E me sentia bem demais com tudo aquilo.
***
Acabamos ficando um tempo mais longo na hamburgueria do que o esperado. O clima do lugar era simplesmente sensacional e a comida maravilhosa demais. Por fim, ficou sabendo que estava rolando uma especial de rave à beira-mar e nos fez largar a vontade de cantar no karaokê para nos arrastar para onde sua alma sedenta de diversão teria seu alimento mais puro.
Estava lotado, como era de se esperar. Logo já estávamos com garrafas de cerveja em mãos – e eu segurando meu urso com a uma delas, dançando ao som dos remixes que o DJ parecia adorar colocar para tocar. Eu esperava que ele mudasse um pouco o modelo de música, mas esperava me divertir de qualquer forma, independentemente do tipo de música que ele fosse tocar.
– A quanto tempo tu não sai para dançar? – indagou para mim, aos berros.
– Desde o aniversário do , eu acho. – Dei de ombros, frente a expressão chocada de minha melhor amiga.
– Tu precisa começar a viver, . – Ela disse. – Com urgência.
– Tô fazendo isso! – Eu ri, levantando uma long neck de Heineken em sua direção, fingindo brindar. gargalhou e voltou a dançar com o corpo colado ao de , que sorriu largamente para ela antes de beijá-la. Ali estava um casal que eu esperava que durasse para sempre.
***
Eu estava dançando e bebendo, dando algumas voltas por entre as pessoas, sem saber ao certo para onde ir. Estava terminando We Found Love da Rihanna quando eu encontrei meus amigos novamente. gritava e pulava no mesmo lugar, enquanto e riam e conversavam aos gritos, devido a música alta.
Quando colocou os olhos em mim, suas bochechas coraram ao mesmo tempo em que sorria para mim e gritava: – Ai está ela!
– Eu tô aqui! – Gritei de volta, animada. Não sabia dizer se por causa da música ou da grande quantidade de álcool que eu já havia ingerido.
– Sim! – gritou. – E tá muito feliz por isso. Vocês deveriam dançar juntos, que tal? – Meu amigo me empurrou em direção a depois de tomar o urso das minhas mãos. Eu só consegui rir abobada quando fuzilou com o olhar.
– Desculpe por isso. – Ele disse, curvado em minha direção. – já bebeu mais do que eu pude contar.
– Tá tudo bem. – Dei de ombros. – Podemos dançar juntos, se quiser.
– Tu quer? – Ele questionou e eu sorri.
– Por que não iria querer?
E com isso, começamos a dançar em um ritmo totalmente fora do comum. não era um bom dançarino e eu muito menos. Mas dançamos. E dançamos tanto, que eu sentia meus pés doendo e estava pronta para pedir arrego quando o DJ colocou um remix de Don’t Stop Me Now, do Queen. Eu abri um sorriso gigante e me acompanhou, me girando e fazendo alguns passos estranhos, enquanto eu berrava a música em plenos pulmões, sentindo-a como uma verdade absoluta daquela nova eu. Aquela garota que descobriria uma nova paixão dentro da área que já amava. Aquela garota que trocaria de emprego e deixaria de ser infeliz. Aquela garota que começaria a viver de verdade, que pararia de se arrepender e de se sentir sufocada pela vida que escolhera viver.

Tonight I’m gonna have myself a real good time
I feel alive
And the world, I’ll turn it inside out, yeah!

Eu estava presa em uma bolha. Sentia todo o meu corpo vibrar com uma felicidade que não sentia a muito tempo. A minha volta, as pessoas dançavam e riam, como se nada no mundo pudesse tirá-las daquela felicidade tão contagiante. As luzes piscavam e tudo parecia em câmera lenta. Principalmente, o sorriso de .
As mãos de estavam em minha cintura. Seu sorriso, tão perto do meu. Os olhos espelhavam a mesma alegria que eu sentia naquele momento. Ele estava tão perto. E eu queria aquilo há tanto tempo. Eu deveria recuar? Talvez. Sorrir e me afastar. Esperar minha vida entrar nos trilhos e então, ver no que poderíamos dar. Porque era inegável que daríamos em algo. Era a coisa mais sensata a se fazer. Mas eu estava cansada de ser sensata. Estava cansada de contabilizar cada passo, cronometrar cada minuto. Estava exausta de me limitar nessa aventura louca que era viver. E foi pensando nisso, que eu segurei pela nuca e grudei nossos lábios.
Ao longe, ouvi os gritos e palmas de e . Ainda ouvia as pessoas, entretidas com sua própria felicidade. Mas era tão longe, que eu mal podia dizer ser testemunha daquilo. Tudo que eu sentia, era . Seus lábios nos meus e seus braços envolvendo minha cintura. Seus cabelos entre meus dedos e seu coração, batendo tão descompassado quanto o meu. Eu perdi a noção do tempo. Perdi a noção de espaço. Tudo que me prendia e fazia sentido, era me beijado. me abraçando. ali comigo, tão perto. E quando o ar faltou e nos separamos, ele encostou a testa na minha e suspirou. Abri os olhos, encontrando suas írises azuis brilhando com tanta intensidade que eu só pude sorrir.
– Caramba. – Foi tudo o que ele disse, sorrindo em seguida.
– Eu fui uma idiota por nos fazer esperar tanto. – Eu disse, ainda grudada a ele.
– Não posso negar isso. – Ele riu brevemente. – Mas tu tem certeza, ? Ainda tem muito o que decidir na tua vida e eu não quero te atrapalhar.
– Minhas decisões calculadas são uma droga. – Eu disse. – Essa é a única coisa da qual eu tenho certeza agora, .
– Certo. – Ele sorriu. – Posso voltar a te beijar?
– Deve. – Eu ri. – Eu vou fazer isso dar certo, .
– Nós vamos fazer isso dar certo, . – Ele finalizou, antes de me beijar novamente.

Don’t stop me now (yes, I’m havin’ a good time)
I don’t wanna stop at al

Fim.

Nota da autora: Essa foi a primeira história que eu escrevi que se passa no Brasil e ela é meu xodózinho! Espero que tenham gostado, não deixem de comentar <3

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