ELE

ELE

  • Por: La Faria
  • Categoria: Originais
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  • Capítulos: 10 | ver todos

Sinopse: Depois de quinze anos fugindo do passado, Olivia retorna a sua cidade natal com o marido e o filho, em busca de uma vida nova. Mas é surpreendida pela avalanche de sentimentos que a antiga cidade e seus habitantes trazem. Confusa e se vendo novamente com dezessete anos, Olivia tenta retomar sua vida de onde parou e dar enfim uma chance a um amor impossível.
Gênero: Romance.
Classificação: 12 anos.
Restrição: Sem restrições.
Beta: Natasha Romanoff.

Capítulos:

PROLÓGO

Você já amou? Já amou tanto alguém que só em pensar nessa pessoa sentia o coração acelerar?
Sabe aquele sentimento capaz de te deixar nas nuvens? A sensação de estar ligado a alguém, um sentimento tão puro que, mesmo à distância, você é capaz de amar com todo seu coração. É capaz de amar por inteiro, intensamente, sem esperar nada em troca. Ou melhor, esperando apenas ser notado.
Já sonhou com o dia em que enfim encontraria com esse alguém, olharia em seus olhos e reconheceria o amor de sua vida? Assim, simples, amor à primeira vista.
Eu perdi as contas de quantas vezes imaginei como seria nosso encontro. Me imaginava na praia, então teria câimbras e em meu socorro ELE viria. Me imaginei chegando a uma festa, ELE me veria, ficaria espantado com a minha beleza e, percebendo que eu era o grande amor de sua vida, deixaria sua namorada e viria até mim. Sonhei com o dia que ELE esbarraria em mim, nossos olhares se encontrariam e ELE perceberia que eu era tudo que sempre quis. Eu sonhava com ELE o tempo todo, me imaginava sentindo seu cheiro de perto, olhando em seus olhos de perto, comendo com ELE, rindo com ELE, fazendo tudo que casais normais faziam.
Quando eu não estava imaginando, estava procurando. Quando ELE estava com o meu irmão, era um pouco mais fácil, podia admirá-lo de longe. ELE havia estado na minha casa algumas vezes, para minha infelicidade, em momentos em que eu não estava.
Eu já nem me lembrava quando ou como havia me apaixonado por ELE, por Brian. Só sabia que era perdidamente apaixonada, eu o admirava, Brian era perfeito. Era como se eu fosse uma fã obcecada por um ídolo inalcançável, mas, para o meu azar ou sorte, Brian estava próximo mesmo que longe de mim. Era um amigo de um dos meus irmãos, para meu azar, o que eu menos me identificava. Me faltava coragem, sempre que ele estava a menos de dez metros de mim, eu congelava, não me lembrava nem de como respirar. Uma vez, ele até sorriu para mim.
Brian infelizmente tinha alguém. Eu havia encontrado o homem dos meus sonhos, mas fui apresentada primeiro à sua bela namorada. Me lembro de chorar por uma semana inteira, não entendia o que ela poderia ter que eu não conseguiria oferecer. Eu daria a ele tudo que ele quisesse, o mundo se fosse preciso, apenas para sentir o abraço dele uma única vez.
Por mais que detestasse a ideia de Brian com alguém, tinha que admitir que não era difícil se apaixonar por ele, era facílimo. ELE era lindo, os olhos mais brilhantes que eu já tinha visto, gentil, doce, fazia trabalhos voluntários, ensinava crianças no fim de semana. Eu sentia que o conhecia como a palma da minha mão, só não sabia como, já que nunca havíamos trocado nem um “oi”. No fundo, me perguntava como era possível ser perdidamente apaixonada por um homem que nunca sequer havia percebido minha singela existência.
Sempre ficava atordoada com esses pensamentos, me achava louca e até procurei um terapeuta, não poderia ser normal ou saudável um comportamento deste tipo. Até que, certo dia, li alguma coisa sobre vidas passadas, nunca nada fez tanto sentido. Era como se fosse exatamente aquilo que estivesse acontecendo. Eu apaixonada por um homem que nunca sequer olhou para mim, explicava minhas fantasias de um modo não racional, mas aceitável. Mas minha descrença no mundo espiritual e a distância dele me lembravam que isso era apenas uma fantasia da minha mente carente e romântica, que queria viver um romance épico de qualquer jeito. Sua relação firme com uma garota aparentemente perfeita também cortava meu coração. Eles namoravam há dois anos e eu não tinha o direito de me meter entre eles.
Todas as vezes que alguém que eu conhecia falava dele, meu coração sangrava, mas eu mantinha a pose, duvido se alguém alguma vez percebeu o que eu sentia.
Mas minha vida nunca parou por causa disso. Eu tinha algum amor-próprio, sempre tentei me apaixonar, gostar de alguém do modo que eu imaginava gostar dele. Durava algumas semanas, no máximo alguns meses. Era como se minha alma esperasse por mais, esperasse o momento certo. O que só dificultava as coisas, pois não era fácil viver desta maneira, esperando alguém que você nunca sabe se vai chegar ou não.
Alguns meses depois de ouvir meu amigo Jared elogiar o casal, eu descobri que eles iriam se casar. Não me lembro de ter sentido dor parecida com aquela, era o final para mim. O casamento de Brian selaria que nós nunca teríamos chance, que eu nunca poderia estar com ele da maneira que gostaria. Eu passei a me odiar por isso, como eu conseguia ser tão estúpida a ponto de chorar rios de lágrimas por um homem que eu sequer conhecia? Fiquei melancólica e tudo que eu queria era sumir ou morrer, qualquer coisa que me tirasse aquela dor que eu não sabia de onde saía, mas que tomava proporções enormes.
Resolvi traçar um novo plano para minha vida. Chorar e se lamentar pelo resto da vida não era algo do meu feitio. Decidi estudar, me mudei para longe, deixei minha família, amigos e toda e qualquer lembrança dele que eu pudesse ter, me forçando a criar novas e a ocupar tanto minha mente que não sobraria tempo para me lamentar. Ao passar pela placa que marcava a divisa da cidade, prometi a mim mesma que nenhum amor inexplicável me tiraria de mim e que eu não sofreria daquele jeito nunca mais. Nunca mais sentiria a dor de perder um amor que nunca foi meu e que, provavelmente, nunca amaria alguém de verdade. Talvez algo em mim tenha se apagado ou adormecido quando parti, mas era necessário, eu precisava seguir em frente.
Iniciei o curso de gastronomia e me apaixonei pela área, segui minha vida com quase um manual de como esquecer sua paixão avassaladora-platônica em três passos. Primeiro, esqueça tudo que te lembre — incluindo família e amigos, se for o caso —; segundo, se mude e ocupe sua mente; terceiro, arrume outros problemas.
Agora, quinze anos depois, formada, muito bem, obrigada, mais madura e menos inocente, eu volto à minha antiga cidade. Mas agora já não me importam amores que nunca foram amores de verdade, a única coisa que dou importância agora é a minha família.

 

Capítulo 1

A casa era bonita, grande e espaçosa. já havia escolhido seu quarto, ficava bem ao lado do meu. Era uma vida diferente agora, eu era uma pessoa diferente. Quando deixei a cidade, era uma jovem cheia de melancolia por ter um amor não correspondido, agora, era uma mulher, casada e com filho.
Eu tinha dezessete anos e vinte e três quando nos conhecemos no primeiro dia de aula. Eu sempre o evitei, não acreditava que poderia suportar uma vida vazia e superficial, ainda estava mexida pelos últimos acontecimentos. Quando eu tinha dezenove anos, me rendi às tentações e fiquei com ele, engravidei depois. e eu passamos a viver juntos desde então. Ele era um ótimo pai para nosso filho, , e eu não podia reclamar dele como marido também, por mais superficial que fosse, ele era ótimo e, por fim, eu me acostumei àquele tipo de relacionamento e acabei gostando dele. Hoje estamos aqui, eu abrindo as janelas, enquanto traz mais algumas caixas para dentro e conhece melhor a casa. Uma família totalmente imperfeita, mas a minha família.
— O que acha de jantarmos pizza hoje? — disse, se sentando no sofá recém colocado.
— Eu acho uma boa ideia, estou exausta. — Disse, e me sentei ao seu lado, colocando a cabeça em seu ombro.
— Amanhã, eu tenho que ir falar com o Simon. Ele disse que poderia começar amanhã mesmo, espero que tenha palavra. — Ele disse, enquanto segurava minha mão.
— Eu acho que ele vai honrar o que disse. Não me parece o cara que deixa o melhor engenheiro do país desempregado. — Eu disse, sorrindo e apertei sua mão.
— Só se ele não conseguir alcançar minha média salarial. — riu alto e eu o acompanhei. — E você?
— Eu ainda não sei. Estou pensando em uma jornada dupla de mãe e esposa, o que acha? — Falei, sorrindo, e me acompanhou. — tem aula amanhã, vai ser bom conseguir organizar as coisas.
— Vejo se consigo sair mais cedo para te ajudar. — disse, e piscou.
— Obrigada. — Disse, e beijei seu rosto. — É melhor eu tentar descobrir onde foi parar a louça. — Sorri e me acompanhou.
Ele era um bom homem, bonito e inteligente. Do tipo super-herói americano, alto demais, com ombros largos e cabelos loiros. Parecia a descrição de um homem bonito comum, mas não era. tinha um toque selvagem que nunca encontrara em homem algum, e ficava grata por ter encontrado nele. No fundo, gostava de acreditar que, na realidade, todos relacionamentos eram assim e não como aqueles da TV, em que o casal nem consegue respirar de tanta felicidade, como se seu coração fosse explodir. Gostava de pensar que isso era só coisa de adolescente.
A semana passou e eu assumi meu lugar como dona de casa comum. Acordava, preparava o café, levava até o colégio e ia trabalhar, eu cuidava da casa, terminava de desempacotar coisas e à noite, quando o marido e filho chegavam, o jantar já estava pronto. Uma família exemplar. Meus pais foram jantar conosco naquele domingo, contaram fofocas sobre todos os meus antigos amigos, todos menos ele, talvez por intercessão divina.
— Então, , já está pensando no que fazer? — Meu pai perguntou.
— Na verdade, eu ainda não pensei muito nisso. Talvez eu abra um restaurante, mas ainda não sei. — Eu estava tão entediada com o jantar que nem sequer havia tocado na comida.
— Ah. — Meu pai achou que eu estava debochando dele, pela expressão confusa.
— Isso é sério. Eu fiz gastronomia, lembra? — Eu disse, tentando contornar a situação.
— E então, Abigail, como vai o Charlie? — me salvou de outra bola fora perguntando do meu irmão.
— Ah, ele está ótimo. Sua esposa, a Sue, está meio triste, um amigo está bem ruim no hospital, então eles nem têm vindo nos visitar. Parece que teve um derrame. Um rapaz jovem, é uma pena. — Mamãe disse, com pesar.
— Deve ser horrível. — disse, e o assunto acabou novamente.
Não que eu gostasse de ser a eterna criança birrenta da família, mas não estava afim de ouvir falar do passado, principalmente, quando esse passado falava da família perfeita do meu querido e adorado irmão. Por que não falar da faculdade e do parto de , ou do emprego novo de , qualquer coisa que não fosse sobre a cidade e seus tempos antigos e meu irmão? A pergunta de um milhão de dólares é: se eu odeio tanto este lugar, para que voltar?
O jantar passou rápido, estávamos terminando a sobremesa quando o foco da conversa se voltou para mim.
— Esse jantar está maravilhoso, . — Minha mãe disse.
— Que bom que os anos na faculdade valeram a pena. — Disse, sem humor e meu pai riu.
— Quem disse que precisa ir para a faculdade para aprender a cozinhar? — Ele disse, eu respirei fundo e sorri.
— Bom, eu fui. Foi isso que eu estudei durante anos. — olhou para mim com receio.
— Ouviu isso, querida? Disse para ela que você aprendeu com sua mãe? — Meus pais riram alto, e eu e nos encaramos.
— Quando você foi para faculdade, achei que fosse estudar algo de verdade. — Meu pai disse, e deu de ombros.
Eu não consegui dizer nenhuma outra palavra até eles passarem pela porta, nem mesmo um “boa noite”.
— Isso foi pedreira. — disse, enquanto recolhia a louça.
— Será que a gente pode colocar na porta um aviso de “proibido a entrada de qualquer membro da família ”? — Eu disse, revirando os olhos.
, eu sei que eles são terríveis e que amam o Charlie, possivelmente mais do que amam você e Oliver. — Eu olhei para ele, fingindo estar ofendida. — Mas eles são seus pais. Cheios de defeitos, mas seus pais. — Ele finalizou, me dando um beijo na testa. — Coloque o na cama, a louça é minha.
Obedeci. não era a minha paixão avassaladora, mas era meu marido e meu amigo, e eu o amava. Ele estava certo, era confortável. Encontrei jogando vídeo game, me surpreendia como ele ficava cada vez mais bonito. Agora com quase treze anos, ele tinha muitos traços do pai, mas não era parecido. Tinha o cabelo loiro de , mas os olhos azuis da minha avó paterna, era alto e bonito, além de ser engraçado e doce, gentil e prestativo. Quando eu olhava para ele, me sentia mais que orgulhosa, sentia que não tinha falhado com ele, que meu filho era alguém do qual eu me orgulharia muito.
— Hora de dar tchau. — Disse, olhando do batente da porta.
— Só mais dez minutos. — Ele pediu.
— Já são onze horas, você precisa dormir. Se lembra da prova de amanhã? E do teste para o time de futebol? — Eu disse, me aproximando e colocando as mãos em seu ombro.
— Os testes. — Ele corrigiu. — Vou fazer o teste para entrar para o time de natação, o pai pediu.
— O quê? Ele pediu para fazer o da equipe de natação? — Disse, incrédula, me sentando.
— Ele disse que ganhava todos campeonatos quando estudava. — disse, revirando os olhos.
— Mas, em compensação, ele era o cara mais chato e arrogante da escola. Aposto que ele não te contou essa parte. — Eu disse, rindo.
— Não contou. — respondeu, chocado.
— Se você realmente quer entrar na equipe de natação, faça o teste. Mas se não quer, o que eu acho. Não faça.
— Mas meu pai… — me lembrava tanto da minha infância.
— Faça o que você gosta, se for o clube de teatro, o coral, ou o time de futebol. — Eu disse, sorrindo.
— Obrigada, mãe. — Ele sorriu.
Sempre achei que essa ligação entre mãe e filho fosse algo inventado, como todos os outros sentimentos, romantizados demais. Mas com eu via que era tudo verdade. Vê-lo sorrir, ficar feliz e animado por um teste de futebol, me deixava feliz. As conquistas dele eram as minhas, os fracassos dele eram os meus. Ele era meu pedaço. Talvez os quinze anos fora não tenham sido assim tão ruins, não olhando por esse lado.


Capítulo 2

Levantei mais cedo que o habitual para preparar o café da manhã, afinal, o dia merecia começar com chave de ouro.
— Bom dia! — disse, sorrindo e cutucando uma panela que ainda estava no fogo.
— Não toque aí. — Dei um tapa leve em seu braço.
— Isso está muito cheiroso. Qual a ocasião especial?
— Começa com Nosso e termina com . — Disse, rindo e acompanhou. — Bom dia, querido! — devia estar tão ansioso que havia chegado à cozinha antes de irmos chamá-lo.
— E aí, carinha? — começou a falar umas coisas inaudíveis com nosso filho.
— O café está na mesa. Omelete, panquecas com geleia de frutas vermelhas, suco de laranja e tartelette de frutas da estação com calda de tangerina. Eu sei que você ama. — Disse, sorrindo.
— Nossa. Poderia ter um teste todo dia. — Ele disse, retribuindo o sorriso.
— Espere pela melhor parte. Eu vou levar você à escola hoje. — Eu disse, servindo café preto a .
— Você? O que houve, você bateu a cabeça? — disse, rindo.
— Eu quero ir ao mercado. Preciso de umas coisas que faltaram da última vez que você foi. — Disse, revirando os olhos.
—Tudo bem, senhora Chef!
Éramos uma família bacana, apesar de tudo. No caminho, eu só conseguia pensar em como seria incrível ter alguém como meu filho na minha época. Na época em que eu vivi ali, época que eu acreditava que tudo era parte de um complô contra mim e que uma dor de coração partido duraria a vida toda. Era nostálgico pensar que meu filho passaria a adolescência onde eu passei a minha. Uma coisa assim era inimaginável para mim até seis meses atrás, quando chegou com a notícia do emprego novo em casa.
Era estranho estar ali, estranho e nostálgico. A escola era a mesma, obviamente com algumas mudanças. Ainda mantinham a grande piscina, na qual meus amigos quase me afogaram uma vez, o campo de futebol e as arquibancadas em que eu dei o meu primeiro beijo. Será que aconteceria isso com também? Ou já havia acontecido? Um aperto tomou meu coração. Até quando eu teria o meu bebê? Não gostava nem de pensar na hipótese de começar a namorar. Olhei de soslaio para o banco do carona. Ele estava lá, batendo os dedos na coxa, com os fones de ouvido. Daria qualquer coisa para saber o que estaria se passando na mente dele naquele momento.
— Chegamos, Quarterback. — Disse, parando o carro.
— É. — Ele parecia nervoso.
. — Ele voltou seu olhar para mim. — Você é ótimo. Você era do time em New York e você é bom. Mas se não conseguir, tudo bem também. Não é nada demais, é só tentar de novo. — Ele assentiu e sorriu.
— Valeu. — Seu abraço era bom e, por mais que ele fosse meu filho e, na maioria das vezes, eu que comprasse seu perfume, todas as vezes que o abraçava era como se nunca tivesse sentido seu cheiro antes.
Saí do carro junto a ele, mas apenas o observei de longe. Ele olhava receoso para trás, se certificando de que não estava sendo seguido. Eu tinha ali o amor da minha vida, a coisa mais importante para mim, a pessoinha que me fazia feliz todos os dias de um modo inimaginável. Eu nunca fora exatamente o modelo de mãe. Às vezes parecia ser mais uma irmã mais velha que uma mãe, sempre dizia isso. Mas era quem eu era. Uma velha criança de trinta e poucos anos, meio imatura, mas totalmente séria quando necessário. Claro que meu lado doce e amável havia ficado em New York. A velha cidade sempre despertara o lado amargo, ainda mais quando assuntos do passado surgiam.
— Meu Deus! Eu não acredito que está aqui bem na minha frente! — Uma voz esganiçada me assustou e me fez ficar alarmada. — , é você mesmo?
— Quem é você? — Quando dei por mim, os braços da desconhecida já me envolviam.
— Caroline. Spilner. Se lembra? Eu namorei seu irmão. — Mas que droga, pensei.
— Caroline, oi! — Claro que eu me lembrava dela, mas não que fosse uma lembrança amigável. Fingi meu melhor sorriso.
— Eu estava te olhando desde antes de você sair do carro para ter certeza se era mesmo você. — Ela disse, rápido demais. — Aquele era seu garoto? Ele é lindo. Se parece com seu irmão.
— Você é a primeira pessoa que diz isso. — Tudo bem tentar ser educada.
— Você se casou? Está linda! — Ela parecia realmente feliz em me ver.
— Obrigada, você também está. Sim, me casei. E você?
— Me casei. Estou grávida do meu terceiro filho. — Ela estava bem radiante.
— É mesmo? Parabéns! — Tentava soar agradável e não sabia se havia conseguido. Não era de bom tom soar desinteressada ou entediada, mesmo quando se está.
— Sim, é uma menina e se chamará Camile. Estamos no sétimo mês. — Ela disse, sorrindo. — Quem diria que um dia você voltaria para cá, não é? A popular, presidente da turma.
— Eu nem me lembrava disso. — E eu estava sendo sincera.
— Sua mãe me disse que você morava em New York. Por que voltaram para cá? — Um pouco bisbilhoteira. Eu sabia que se dissesse a ela, a cidade toda saberia. Talvez não houvesse mal nisso.
— Meu marido recebeu uma proposta interessante de trabalho.
— Que ótimo! — Ela assentiu. — A cidade continua minúscula, exatamente a mesma que você deixou. Sem muitas mudanças. Se bem que. — Ela riu alto. — Se lembra da Carly, que namorou seu outro irmão? — Eu realmente não queria entrar nesse assunto.
— Sim, claro. — Disse, fingindo prestar atenção e estar interessada no que ela dizia.
— Ela agora se chama Jack, namora uma miss e mora na casa dos pais. Fora isso, tudo continua o mesmo. — Não me contive e acabei rindo com Caroline.
— Apenas isso mudou? — Não conseguia segurar a risada enquanto imaginava o drama que Charlie devia ter feito ao descobrir que a quase noiva agora se chamava Jack. Não tinha nada a ver com Charlie, mas religioso e careta como era, eu só conseguia imaginar a reação dele.
— Claro que muita gente se casou. — Ela ainda ria, possivelmente pelo mesmo motivo. — Coisas ruins aconteceram também. — Ela parou de rir e começou a acariciar a barriga.
— Como por exemplo… — Talvez eu quisesse saber das fofocas.
— Ted e Natalie morreram ano passado. Houve um incêndio na casa deles.
— Ted do time de futebol e Natalie, a estranha? — Eu os conhecia, Ted era meu amigo e eu sequer sabia da sua morte. — Espera, eles se casaram?
— Sim. Infelizmente, o tempo não volta, não é? — Ela parecia um pouco sentida.
— Ted era meu amigo. Meu melhor amigo. — Eu estava totalmente chocada.
— O Jared ficou destruído. Ele se separou há um tempo, a esposa fugiu com o vizinho.
— Além de você e do meu irmão, mais alguém aqui teve um casamento feliz? — Perguntei, assustada com a resposta que poderia receber.
— Sim. — Ela riu. — Muita gente.
— Essa deve ser a cidade com mais tragédias do país. — Ri baixo.
— Talvez. — Ela estava com aquela cara que sempre fazia quando queria contar uma fofoca.
— O que você quer me contar? — Eu disse, inclinando um pouco a cabeça.
— Você ainda me conhece, não é? — Ela riu.
Por mais difícil que fosse aceitar, quando estávamos no colégio, Caroline namorou meu outro irmão, Oliver, e nos tornamos amigas, mesmo quando eles terminaram, depois que uma onda de términos assolou nossa turma. Nós éramos inseparáveis. Caroline era líder de torcida e era da equipe de natação. Eu era presidente da turma e a primeira da classe. Éramos o que os filmes adolescentes chamam de populares, mas sem aquela parte do bullying. Tudo bem, às vezes também tinha essa parte, não me orgulho.
— Tudo bem. Você se lembra da Sarah? — Ela disse, como quem conta um segredo.
— Não. Eu deveria?
— Não, tudo bem. Você não a conhecia e nem ninguém que tivesse proximidade, eu acho. — Ela deu de ombros. — O Jared a conhecia.
— Ela morreu? — Perguntei, incrédula.
— Não! — Carol parecia chocada. — Pior, o noivo ficou doente e ela o abandonou, acredita?
— Que cruel. — Quem era a Sarah que Jared conhecia? Eu só me lembrava de uma, mas não poderia ser essa, poderia? Não! Não!
— O noivo não tinha família, sabe? Alguns amigos ainda o visitam, mas ouvi dizer que ele não tem mais tempo. Deve morrer logo. — Ela voltou a acariciar a barriga.
Não era possível que, depois de tudo, aquilo voltava a me perseguir. Ele voltava. Não que eu tivesse o esquecido por alguns segundos sequer, mas não podia acontecer de novo. Por favor, não! Também podia não ser ele, não é? Tudo bem que ele era o noivo de uma Sarah que o Jared conhecia e que não tinha família, mas qual era a probabilidade de ser a mesma pessoa a estar morrendo no hospital?
Eu tinha que perguntar, mas eu não sabia se queria ou não ouvir a resposta. Não queria, mas eu precisava.
— Não é a Sarah do , é? Aquele bonitinho? — Perguntei, fingindo desinteresse.
— Sim. É essa. Sabe, , se você o ver hoje em dia, nem o reconhece. Minha prima Darcy trabalha no hospital. Ela disse que o médico não deu muita esperança. — Foi como um soco na boca do estômago.
— Que droga, não é? — Eu não sabia o que fazer. — Caroline, eu preciso passar no mercado. Nos falamos depois, tudo bem? — Tentei ser simpática o máximo que conseguia.
— Claro, . Nos vemos na hora da saída. — Ela acenou.
No carro, não era como se eu pensasse em outra coisa a não ser ir para o hospital. Ainda me lembrava bem onde era. Descendo a ladeira depois da escola, entre os prédios mais altos da cidade, um lugar frio e úmido. Eu odiava a cidade e seu hospital. Mas assim que eu escutei as palavras saindo da boca de Caroline, já não tinha mais escolha, nem controle sobre o que eu fazia. Não existia nada mais que importasse naquele momento do que o hospital e quem estava nele. Nada no mundo me tiraria da rota. E assim eu estava prestes a quebrar uma promessa que durou mais de uma década, sem qualquer arrependimento.
Passar pela recepção e todo o resto não era difícil. Em menos de dez minutos, eu já estava no corredor indicado pela enfermeira. A porta do quarto era grande, e ao ficar de frente a ela, era possível ver uma movimentação de enfermeiros tentando sem êxito fazer a contenção de um paciente.
Ele se debatia na cama, rápido e com força, era possível que se machucasse daquela maneira, e gritava. Não era possível entender, já que parecia não conseguir falar mais. Era como se estivesse preso no próprio corpo e se debatesse desesperado, tentando sair. Eu demorei alguns minutos olhando a cena até perceber do que se tratava, ou melhor, de quem se tratava. Só o reconheci quando os olhos azuis assustados cruzaram com os meus. O rosto antes bonito e corado, estava pálido e ossudo, como se todos os músculos da face tivessem sido retirados cirurgicamente. O cabelo, antes bagunçado e um pouco grande, com algumas ondas, estava curto, cortado de qualquer maneira por máquina. Os membros, antes fortes e firmes, pareciam varetas finas. Agora ele tentava se erguer, balançando o corpo como uma gangorra. Foi a cena mais assustadora e triste que eu havia visto na vida.
A vontade de se aproximar e a angústia de vê-lo naquela situação foi maior que a vontade de chorar e correr de volta a New York. Quanto mais próxima ficava da cama que ele estava, mais era possível sentir o cheiro de urina e vômito. Pelo que eu sabia dele, com certeza seu desespero era devido a estar sendo visto naquela situação. Ele babava e balbuciava coisas que eu não entendia, parecia estar agressivo demais para uma aproximação. Talvez estivesse louco, desorientado, completamente fora de suas faculdades mentais.
Mas quem era meu cérebro para mandar me afastar naquele momento?
Num impulso, antes mesmo que os enfermeiros notassem, corri em direção à maca e segurei num ímpeto a mão do homem que ali estava. Quando os olhos deste se voltaram para mim, meus lábios se moveram suavemente, como se eu não estivesse em pane por dentro.
— Está tudo bem! Eu estou aqui com você! Vai ficar tudo bem! — E repeti aquelas palavras, quase centenas de vezes. Como um mantra. Como se tudo que aconteceu na minha vida até aquele momento fosse para que eu pudesse fazer aquilo, naquela hora, naquele lugar.
Ele, como o vento de uma tempestade, foi se acalmando, bem devagar. Parou de gritar e de se mexer e começou a me encarar fixamente. O cheiro forte ainda estava ali, mas não importava. Eu apenas sorria e repetia o mantra.
O tempo não parecia ter passado, não estava ali há nem dez minutos, quando uma enfermeira veio incomodar.
— Senhora, eu preciso que saia. Eu preciso cuidar do paciente agora. — A enfermeira parecia receosa.
— Não tem muito tempo que estou aqui.
— O horário de visitas acabou há meia hora. Se quiser, pode voltar à noite.
—Tudo bem. — Eu disse. — Vai ficar tudo bem, descanse, eu volto depois. — Disse para ele, com um sorriso, e apertei-lhe de leve a mão antes de soltá-la com pesar.
Olhei-o algumas vezes antes de sair do quarto, mas ele continuava imóvel. Não sabia o que estava sentindo, estava totalmente confusa.
— Com licença. — Alguém interrompeu meus devaneios.
— Sim.
— Você é da família? — Um médico perguntou.
— Desculpe, eu não entendi. — Mantinha uma expressão confusa no rosto.
— Senhor Walker. Onde você passou cinco horas. — Cinco horas?
— Eu só o conheço. — Estava totalmente desorientada.
— Parece que ele te reconheceu. Você o acalmou. — O médico sorriu, eu estava totalmente confusa com tudo. — Pode me chamar de Rafael, senhora…?
. . — Disse, rápido. — Você é o médico responsável por ele? O que ele tem? É grave? — Praticamente vomitei as palavras sobre o médico.
— Bom, nosso amigo tem um quadro de Síndrome de Albizzi, grau oito. Vou tentar não usar o meu vocabulário médico. — Ele sorriu e eu não entendi por que fizera aquilo.
— Então é bem grave, não é? — Nem sabia direito por que perguntava aquilo.
— Sim, sinto muito. — Dr. Rafael disse, um pouco mais sério. — O quadro dele tem se desenvolvido de uma maneira atípica. Ele não tem mais exatamente todos os movimentos do corpo. É como se fosse um tipo de paralisia. Por enquanto, ele aparenta às vezes estar orientado, mas às vezes acontecem surtos como esse que você presenciou. Eles são bem comuns. — Mas o que era tudo aquilo? Pensei.
— Desculpe, você disse grau oito? Qual seria o grau nove e o dez?
— Nove, os órgãos param de funcionar. Dez, óbito por Síndrome de Albizzi. — Dr. Rafael disse, olhando sério.
— Quais as chances de uma reversão? — Eu não entendia como aquilo estava acontecendo.
— Sinceramente, senhora , talvez ele passe anos estagnado no grau oito, talvez essa noite avance para o grau dez. Não é possível prever. Quanto a uma reversão, acredito que apenas com um milagre. Essa síndrome é nova, não se tem muitos registros dela. Noventa por cento das pessoas que tiveram Albizzi morreram e os dez por cento que sobreviveram não tiveram a doença tão avançada. — Eu precisava sair dali.
— Eu preciso ir. — Disse, rápido e praticamente corri até a saída.
Da portaria do hospital, era possível ver os portões verdes do cemitério da cidade. Me lembrei de Ted. Era como um turbilhão de sentimentos dentro de mim e eu não conseguia organizar meus pensamentos.
Quando entrei no cemitério, uma brisa gelada atravessou as roupas que eu usava. Eu não gostava daquele lugar. O cemitério tinha tristes e grandes árvores, algumas estátuas e colinas. Do alto dessas colinas, era possível ver a baía, a praia, o píer com seus barcos ancorados.
Lembrava de ter ido ao funeral do pai de Ted, talvez ele estivesse por perto. Depois de caminhar um pouco, encontrei o mausoléu da minha família, no alto da primeira colina. Era possível ver a baía e seus barcos de pesca recolhendo as redes. Seria uma vista bonita, se não fosse um cemitério. Logo atrás do mausoléu, estavam os túmulos da família Weiss. Ted estava, como previsto, ao lado de seu pai. Theodore J. Weiss Jr. Amado marido, pai, irmão e filho. Para sempre nos nossos corações. Até a última folha cair e o último rio secar. A velha frase de Ted estava em sua lápide, ele a usava para tudo, desde que a leu em um livro no colégio. Ele tinha deixado um filho e morrido queimado. Por mais que tivesse abandonado a cidade sem pensar duas vezes, enxergar agora todas as mudanças, tudo que havia passado. Ted era meu melhor amigo, eu poderia tê-lo aconselhado em seu relacionamento, ido ao seu casamento, poderia ter conhecido seu filho. Tinha perdido muita coisa. Me sentei com cuidado, encostando na lápide de Ted, e deixei que as lágrimas escorressem livremente.
— Me desculpe. Eu nunca estive aqui para você, não é? Lembra do que o Charlie sempre me chamava? — Dei um suspiro profundo. — Egoísta, você nunca vai ter alguém porque você não merece que alguém goste de você. — Disse, repetindo as palavras que meu irmão sempre repetia. — Ele estava certo. Eu fugi daqui porque eu não conseguia conviver com a felicidade alheia e olha tudo que aconteceu. Você se casou, teve filhos, morreu e eu não soube de nada disso, até a Carol língua grande me contar hoje. — Respirei fundo. — Eu sinto muito. Eu nunca tive um amigo lá como você, sabe. Na verdade, acho que a última vez que eu vivi, foi no colégio. Que droga, eu não consigo acreditar que você morreu e eu nem fiquei sabendo. — Mais lágrimas e suspiros.
Já não existiam mais lágrimas para serem derramadas, estava encostada na lápide do meu melhor amigo, encarando o vazio, pensando no quão idiota eu tinha sido, no quão estúpida, em como tudo havia dado errado para e para Ted e como eu simplesmente preferi ignorar tudo e abandonar todos por inveja e egoísmo. Não havia me dado conta que as horas passaram, só percebi quando encarei o céu negro e com algumas estrelas. Pude ouvir passos lentos atrás de mim. Não me virei, a essa altura não fazia diferença se fosse o zelador ou um fantasma.



Capítulo 3

— Você gosta mesmo de desaparecer, não é? — Uma voz macia, tinha impressão de conhecê-la. — Acho que se tivesse um grupo de autoajuda para pessoas que odeiam essa cidade, você já estaria matriculada. Você precisa achar uma cidade para te fazer feliz. Se tivesse uma competição de melancolia e mau humor, você sempre ganharia. — Oliver, pensei.
— Oliver? — Perguntei, virando para trás.
— Quem achou que era? — Ele respondeu, se sentando ao meu lado. — estava quase acionando a polícia. Você está desaparecida desde as oito da manhã. Sabe que horas são agora? Nove da noite. Eu pensei que você tinha fugido ou se jogado na baía. Lembra quando éramos crianças, você sempre sumia, ia para a baía quando as coisas ficavam ruins e ameaçava se afogar lá? Sempre tão dramática. — A lembrança me fez sorrir fraco.
— Como me encontrou? — Perguntei, olhando para ele de soslaio.
— Fui te visitar e descobri que tinha sumido. Impedi de ir até a polícia e refiz seus passos. Imagina a surpresa que tive quando descobri que Carol língua grande tinha contado sobre tudo que aconteceu na cidade nos últimos quinze anos. Imaginei que sua consciência iria te trazer até aqui.
— Por que ninguém nunca me contou sobre ele? — Fiz a pergunta que estava na minha mente desde que soube de tudo.
— Eu não sei. Nunca quis contar. — Ele deu de ombros. — Ele era meu melhor amigo também. Eu não acredito até hoje que ele morreu.
— Como foi? — Oliver deu um pesado suspiro antes de continuar.
— O Jack estava com os avós e o Ted estava em casa com a mulher. Ninguém sabe direito como aconteceu. Foi durante a noite. Talvez tenham morrido dormindo. — Oliver deu um sorriso triste.
— E a criança?
— Os avós continuam aqui e ele vive com eles. Tem uns treze anos. Lembra como o Ted era bom recebedor? Jack é ainda melhor.
— Eu queria ter convivido mais com ele. Antes dele morrer.
— Não tinha como você adivinhar. Está tudo bem. Você veio aqui pedir desculpas? — Oliver disse, envolvendo meus ombros com seu braço.
— Sim.
— Então continue visitando que ele vai te perdoar. — Oliver disse, sorrindo. — Vamos. Todo mundo está louco atrás de você.

Depois de vários abraços e muitos “Graças aos céus que você está bem”, Oliver foi embora com meus pais e eu fui tomar um banho. Quando fui me deitar, já estava à minha espera na cama. Eu me deitei e coloquei a cabeça em seu peito.
— Dia difícil. — Fiquei em silêncio, sentindo o calor de sua pele. — Oliver me contou o que aconteceu. Eu sinto muito, de verdade.
— Teve mais uma coisa. — Não sabia exatamente por que havia dito aquilo.
— O que foi? — disse, com seu olhar compassivo.
— Uma pessoa, um amigo. Eu também descobri que ele está no hospital, poucas chances de recuperação e a noiva o abandonou quando ele ficou doente. — Estava ficando boa em fingir que não me importava.
— Tudo bem. — me abraçou mais forte. — Você não vai perder mais ninguém. Você foi vê-lo?
— Sim.
— É mesmo assim tão grave? — perguntou, passando a mão no meu cabelo.
— Pior ainda.

O resto da semana passou como se aquele episódio emocional desesperado nunca tivesse acontecido. Não fui mais ao hospital, nem levar ao colégio. Não visitei o túmulo de Ted, nem vi Caroline língua grande. Não vi meu irmão gêmeo, nem meus pais e meu irmão carma, Charlie. Era uma sexta como outra qualquer, se despediu e foi para o carro e veio me dar um beijo antes de sair.
— Quais são seus planos para essa sexta ensolarada? — Ele perguntou, sorrindo.
— Nenhum. — Eu sorri enquanto recolhia a louça.
— Por que não visita seu amigo no hospital hoje? Aproveite e leve umas flores para o Ted. — sugeriu. — Eu sei que não está bem desde aquele dia, eu conheço minha esposa. Vá vê-los. Você precisa aprender a lidar com isso e só pode fazer isso sozinha. — Eu sorri.
— Eu vou pensar, está bem? — Ele sorriu e me deu um beijo.
Uma hora depois que saiu, eu já estava no carro. Havia passado em uma floricultura e comprado flores para e Ted. Não foi preciso pensar muito, era óbvio que eu queria ficar do lado dele até ele partir, se fosse o caso, o que eu rezava para não ser. E se tinha alguma intenção em me curar dessa paixão doentia, eu devia enfrentar tudo, como me aconselharia se soubesse da história toda. E eu tinha que seguir o conselho de e visitar Ted, tentar me redimir pelo menos um pouco, apesar de que esse tipo de coisa depois que alguém morre já não importa ou significa nada.
Fui rápido até o túmulo de Ted.
— Como vai, Ted? Desculpe o show dramático da última vez que estive aqui. Você sabe como sou emotiva as vezes. — Ri fraco. — Sei que estou em falta com você, mas Oliver me deu um conselho para me ajudar a me redimir. Eu sei que você preferiria alguma bebida alcoólica, mas, na atual situação, flores caem melhor. — Uma brisa suave balançou meu cabelo de repente. — Que bom que gostou. — Sorri.
Depois de algum tempo contando coisas da minha vida para a lápide de Ted, resolvi que era hora de seguir para minha epopeia. Segui a pé até o hospital. Quando cheguei ao quarto dele, as janelas e cortinas estavam fechadas e ele mantinha o olhar fixo no teto, imóvel. Estava ainda mais esquelético do que no último dia, se isso fosse possível.
— Bom dia! — Disse, sorrindo. — Acho que esse quarto talvez precise de um pouco de luz. — Seu olhar continuava no teto, até o momento em que eu abri as cortinas, talvez a claridade tenha incomodado seus olhos, e ele passou a me encarar.
Coloquei as flores em cima de uma espécie de mesa de cabeceira hospitalar, eram tulipas brancas, minhas favoritas.
— São tulipas. — Disse, mostrando as flores para ele. — São minhas favoritas. — Ele continuava me encarando. Ele devia me achar completamente louca.
— Claro que você está pensando “quem é essa maluca que está aqui?”. Eu pensaria também. Meu nome é . Você não me conhece, mas eu conheço você. — Ri sem graça, encarando o chão enquanto girava minha aliança no dedo. — Você deve conhecer talvez meu irmão, Charlie , ou Oliver . Talvez uns amigos, Jared Mills, Caroline Spilner. — Será que ele me entendia? — Eu não sou nenhuma psicopata, sério. Estudei gastronomia em New York e a possibilidades de gastrônomos serem psicopatas é bem pequena. Talvez eu seja meio louca, segundo meu pai, mas nada muito sério.
Ele continuava me olhando, seu olhar parecia incerto, mas não conseguia saber se ele estava são ou não. Depois de alguns minutos em silêncio, ele voltou seu olhar para o teto novamente. Depois do surto que eu havia visto e do que o médico disse, eu realmente achava que ele estava fora de suas faculdades mentais. Além disso, ele também não se mexia e tinha o corpo franzino cheio de fios e agulhas, os olhos azuis estavam fundos e ele tinha grandes olheiras roxas. Nunca tinha tido o prazer de chegar perto dele o suficiente para sentir seu perfume, mas agora ele tinha o cheiro característico que idosos acamados tinham. Eu não sabia o que falar, estava perdida. Esperei tanto aquele momento, ficar tão perto dele, e agora não sabia o que fazer.
? — Chamei, incerta, e ele voltou seu olhar para mim, talvez tivesse entendido o que eu dissera, o que me fez feliz. — Há, você está aí. — Ele revirou os olhos.
Tudo bem, ele estava ali, estava são e já me achava um saco. Como eu podia ser tão estúpida?
— Desculpe se estou soando muito idiota. É que eu nunca sei lidar com pessoas doentes. Uma vez eu quase afoguei meu irmão mais velho com sopa quente quando ele pegou gripe. Em minha defesa, ele é o Charlie, então muita gente daria tudo para fazer o mesmo. — Eu disse, e ri, ele fixou seus olhos em mim. — Eu posso ficar te fazendo companhia, sabe? — Seu olhar estava mais suave, eu não sabia como sabia disso, mas estava.
Meu telefone tocou de repente, devia ser se certificando que eu estava viva ou checando se eu não havia me atirado na baía, mas era o número de casa. Não tinha problema atender o celular na frente dele, não é?
Alô.
— Mãe. — Era o .
— Oi, meu bem. Está tudo certo?
— Sim. Eu queria saber se eu posso ir jogar vídeo game na casa do Tyler.
— Quem é esse? — Às vezes ser mãe não dá uma folga.
— A mãe dele se chama Caroline, ela disse que você deveria ir também.
— Que Caroline?
— Ela disse alguma coisa do tipo Carol língua grande. — Ele disse, sem jeito. — Mas eu juro que foi ela que disse, não eu. — Eu ri.
— Claro, querido. Divirta-se!

Era espantoso como Caroline não desaparecia, era como se ela estivesse em todos os lugares. ainda me encarava e parecia curioso, mas era um chute.
— Era o meu filho. Ele tem doze anos. Nos mudamos para cá há algumas semanas, ele está se adaptando. Eu morei aqui minha vida toda, então, quinze anos atrás, resolvi ir para New York e agora voltamos. A história parece se repetir, já que ele está indo brincar com o filho da Carol Língua Grande. — Disse, e ri fraco. Eu podia jurar que ele também havia achado graça, seu olhar mudou, mas ele voltou a encarar o teto.
Depois de alguns minutos sem ter noção do que falar, eu percebi que o quarto tinha uma TV e percebi que eu adoraria ligá-la, na intenção de quebrar aquele silêncio constrangedor.
— Eu acho que vou ligar a TV. — Disse, incerta. — Espero que não se importe, .
Ele continuou imóvel. Na TV, estava passando uma reprise de um programa culinário. Talvez ele odiasse, mas acho que, depois de tudo, ver um programa que não gosta deveria ser o menor dos problemas.
— Nossa, ele não colocou os ovos. Isso vai ficar horrível. Intragável. — Eu disse, totalmente concentrada na massa que o participante fazia. Tão concentrada que nem percebi que ele me encarava. — Opa. — Ele não se virou quando eu o flagrei. — Eu sei que deve ser bizarro. Um belo dia uma completa estranha entra no seu quarto e anuncia que vai te fazer companhia. Eu entendo que é loucura. Às vezes eu acho loucura. Fico pensando no que estou fazendo e só consigo achar que eu sou uma incrível pé no saco. — Eu ri fraco. — Um amigo meu, que infelizmente não está mais entre nós, sempre disse que eu consigo ser a pessoa mais chata que existe quando eu quero. — Ted sempre dizia isso. — Mas eu juro que agora eu não quero. — piscou algumas vezes e estreitou o olhar.
Passaram algumas horas e eu já não prestava atenção na TV. Tudo que eu perdi apagando minha cidade do mapa por quinze anos flutuava pela minha mente. Lembrava dos casais, dos amigos, de quando saíamos para ver filmes, dos filmes românticos que assistíamos e como sempre brigávamos porque Charlie queria ver filmes dramáticos. Até que uma ideia surgiu de repente e eu agradeci de coração o fato do meu irmão ter me feito ver aqueles filmes idiotas.
. — Falei, tão de repente que ele se assustou. — Eu tive uma ideia maluca, mas eu acho que pode dar certo. Então… — Ele mantinha o olhar em mim. — Você consegue controlar quando pisca? — Ele revirou os olhos. — Isso não foi gentil da sua parte. Enfim, se você conseguir, podemos criar um tipo de código. Sabe, como uma piscada para sim e duas para não, piscar só um olho para talvez. — Eu acabei rindo de mim mesma. Parecia uma ideia muito infantil. — Se quiser se comunicar, é claro. E então, o que acha de tentarmos? — Ele ainda me encarava. — Você quer tentar? — Ele demorou a piscar, talvez não tivesse entendido nada, então piscou uma vez. — Ótimo! — Talvez tenha deixado minha alegria transparecer demais.
Com essa comunicação estabelecida, ou o que eu achava ser uma comunicação, talvez fosse o caso de fazer a pergunta que eu não queria saber a resposta. Mas eu precisava, pelo menos para me certificar que não estava sendo egoísta como sempre impondo minha presença a ele.
, você quer que eu vá? — Ele havia voltado o olhar para o teto novamente e, quando me ouviu, olhou para mim e, diferente da primeira vez, piscou rápido duas vezes. Eu sorri. — Como queira.

Era muito estranho, para mim, estar ali, o vendo pela segunda vez e falando como uma criança curiosa no auge de seus quatro anos. Mas era como se fosse o normal, como se eu soubesse tudo sobre ele e de fato eu sabia. Estava uns quinze anos desatualizada, mas sabia. Diferente de quando o vi no hospital pela primeira vez, quando fiquei apenas segurando sua mão e o olhando, agora já havia até estabelecido um tipo de contato. As coisas estavam indo rápido demais, o que era estranho, mas ao mesmo tempo incrível.
Eu havia prometido não deixar que aquele amor voltasse ou acontecesse novamente, mas quando ele me deixou entender que não queria que eu fosse, eu apenas quebrei de vez todas as promessas e tudo que havia passado. Só queria ficar ali até que mundo acabasse. Agora eu sentia, de uma forma torta, que tudo estava bem e ao mesmo tempo que tudo estava mal, devido à doença dele. Eu estava completamente feliz, secretamente triste e em negação quanto à possível morte iminente.



Capítulo 4

Os dias passaram rápido. Sem perceber, já estávamos na antiga cidade há um mês. estava ótimo no trabalho, estava no time e muito animado com a escola. Eu estava perto de quem realmente importava para mim.
Os dias eram sempre os mesmos. Eu fazia o café da manhã, e saíam, eu cuidava dos afazeres domésticos, almoçava sozinha, visitava Ted e depois passava a tarde com , estávamos ficando cada vez melhores na nossa comunicação. Às vezes eu perguntava se ele queria ouvir sobre certo assunto ou se queria que ligasse ou desligasse a TV. Ele revirava menos os olhos e nunca mais teve uma crise como a primeira que eu presenciei. Oliver e Carol estavam cada vez mais presentes nas nossas vidas. saía com Oliver e para pescar, jogar futebol e meu irmão normalmente jantava conosco. Caroline havia se tornado uma amiga e, aparentemente, agora ela não fazia mais jus ao apelido língua grande.
Como em mais uma tarde normal, eu fui ao hospital para vê-lo, mas Dr. Rafael me parou no corredor.
— Senhora . É bom vê-la. — Ele sorriu.
— Olá. — Respondi, desconfiada.
— Eu queria conversar com você sobre o caso do nosso amigo . — Rafael tinha a estranha mania de chamar todos os seus pacientes de amigos.
— Claro. Algum problema? Ele está bem? — Perguntei, com o coração apertado.
— Sim. Está tudo ótimo. É exatamente sobre isso que quero falar. — Talvez ele tenha percebido meu olhar de extrema confusão. — Bom, como você é a pessoa que mais o visita, acredito que seja do seu interesse saber que a doença regrediu.
— Desculpe? Eu acho que não entendi. — Eu havia entendido, só não sabia como reagir à notícia.
— Lembra de quando nós nos conhecemos? Quando o quadro dele estava no grau oito da síndrome e evoluindo para o nove? — O interrompi.
— Você não me disse que ele estava evoluindo para o nove. — Disse, séria, talvez áspera e brava.
— Isso não faz diferença, já que fizemos mais alguns exames ontem, quando percebemos que ele não estava tendo mais crises. E com o resultado deles, nós refizemos todos os outros e pudemos concluir que a síndrome regrediu. Se é que podemos usar esse termo. — Ele disse, mais para si do que para mim. — Enfim, ele passou de grau oito para grau seis.
— Seis? E o que isso significa? — Perguntei, ansiosa.
— Bom, segundo o que sabemos, alguém com grau seis não precisa se alimentar por sonda e nem precisa respirar por aparelhos também. As funções motoras ainda estão comprometidas e não sabemos se ele consegue falar, primeiro porque a laringe, faringe, pregas vocais e vestibulares ainda estão machucadas devido ao uso de sondas e o comprometimento muscular. — A minha cara devia estar expressando meu nível de confusão, mas eu esperava que ele não notasse, porque não queria uma explicação. — Então, resumindo, a qualidade de vida dele é melhor e, como não sabemos sobre sequelas, ele fará tratamento com Terapeuta Ocupacional e Fisioterapeuta, assim como com a fonoaudióloga, para que, se existir, essa sequela traga o menor dano possível.
Era muita coisa para filtrar e entender.
— Ele já sabe? — Perguntei.
— Ele está dormindo, mas pode contar a ele quando acordar. Talvez com a regressão ele consiga compreender. — Rafael acenou e começou a caminhar pelo corredor.
— Rafael. — Chamei, e ele se virou. — Isso significa que a doença vai parar? Ou que ela vai regredir mais? — Rafael sorriu docemente.
— Acho que testemunhamos uma espécie de milagre aqui, não é? Quem sabe o raio caia no mesmo lugar duas vezes? — Rafael disse, e antes de sumir no corredor eu o chamei novamente.
— Ei, Doutor Rafael! — Ele se virou. — Ele sempre entendeu o que diziam para ele. — Rafael manteve uma expressão confusa no rosto, enquanto eu seguia para o quarto do .
Eu estava perplexa quando entrei no quarto. As janelas estavam abertas, uma brisa fresca balançava as cortinas. Ele estava lá, deitado, dormindo. E poderia ser coisa da minha cabeça, mas eu podia jurar que ele já parecia melhor. Me sentei na cadeira perto da cama e fiquei pelo que pareceram horas, pensando no que o médico havia me dito. Eu ainda não sabia como agir, nem o que pensar. Só estava feliz, uma pura e resplandecente felicidade.
Depois de algum tempo, como ainda não havia acordado, pensei em ir comer alguma coisa. Estava fechando a porta do quarto atrás de mim, quando me choquei levemente com um homem. Ele era alto, tinha olhos castanhos brilhosos e pele negra. Era um homem realmente bonito e aparentava ter a minha idade.
— Oi. Desculpe. — Ele hesitou. — Eu estou procurando o quarto do , mas acho que me mandaram para o lugar errado.
— Na verdade, não. — Sorri sem graça. — Esse é o quarto do . — O homem me olhou confuso. — Eu tenho ficado aqui para fazer companhia a ele durante as tardes.
— Ah, sim. — Era visível que ele ainda estava receoso. — E ele pode receber visitas?
— Claro. — Disse, rápido. — Ele só está dormindo agora.
— Tudo bem. — O homem encarou o chão por alguns instantes. — E como ele está?
Eu não sabia se deveria contar a ele sobre o que o médico havia me dito. Mas ao mesmo tempo, que mal faria? Conduzi o novo visitante até o final do corredor, que ficava a cerca de um metro da porta do quarto dele, onde teria um pouco mais de privacidade para falar e que parecia um lugar agradável, devido à grande janela que tinha vista para a baía.
— Eu nunca me dei conta de como senti falta desse lugar. — Disse, olhando para a baía.
— O que disse? — Ele perguntou, confuso.
— Ah, desculpe. É que fiquei muito tempo fora da cidade, estou me acostumando. — Eu ri fraco. — Eu me mudei daqui para New York há uns quinze anos. Então retornei. — O homem permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— Por isso eu te acho familiar. — Ele riu. — Eu só sei de uma pessoa que foi para New York. — Ele abaixou as sobrancelhas, formando uma ruga entre ela, franziu os lábios e deixou a cabeça cair levemente para a esquerda. — Você não seria a , seria? — Agora ele estava mais para incrédulo e eu sorri, confirmando sua suspeita. — Não lembra de mim? Matt Shay!
— Oh, meu Deus! Matt. — Meu Deus, era Matt Shay. — Eu não acredito que é você. — Disse, sorrindo e abraçando-o.
— É. Sou eu. Você está cada vez mais idêntica ao Oliver. Parece ele com cabelo. — Ele disse, ainda me abraçando. — Como você está? Se casou? Teve filhos?
— Sim para as duas perguntas. Eu me casei e tenho um lindo garoto de doze anos. — Matt riu e se escorou no parapeito da janela.
— Que coisa. Tantos lugares para a gente se reencontrar e olha só! Bem aqui no hospital. — Matt riu. — Mas eu não me lembro de você com ele. Vocês já se conheciam naquela época?
— Na verdade, não. — Sorri sem graça.
— Que bom que ainda existem pessoas boas no mundo. — Matt disse, calmo. — Depois que aquela mulher o deixou, piorou bem mais. — Ele disse, triste.
— Eu soube. — Concordei, encarando o chão.
Matt Shay era do time de futebol, junto a Ted e Oliver. havia se formado no ano em que eu fui para o ensino Médio, mas Matt chegou a jogar com ele, por Matt ser dois anos mais novo que . Havia ido a algumas festas com Matt e os outros do time enquanto estava na escola, mas não éramos melhores amigos, só amigos de festa.

Flashback
— Ela disse que faz meu trabalho de física se eu a ajudar a ficar com você. — Disse, para Oliver, que riu debochando.
— Por que as mulheres dessa escola só se interessam pelos ? — Ted disse, jogando a bola em Oliver.
— Isso só se aplica com os homens da família, porque os homens da escola não ligam muito para as mulheres . — Eu disse, me sentando perto do meu irmão.
— Você não tem todos os caras aqui atrás de você porque não quer. — Oliver disse, olhando para mim.
— Até parece. — Disse, cruzando os braços. — Eu quero, eles que não vêm até mim. Caroline sempre tem companhia. Use ela como exemplo.
— Você estava com Matt na última festa, lembra? — Caroline alfinetou. — E eu estava sozinha.
— Só porque não conseguiu quem queria. — Disse, arqueando uma sobrancelha e fazendo os meninos me encararem.
— Caroline ainda não superou o Oliver? — Ted riu alto.
— Idiota. — Ela disse, e saiu de perto de nós enquanto os meninos riam, inclusive Oliver.
— Coitada, gente. — Eu disse, e ri.
— Acabou a diversão, o pai chegou. — Ted disse, se referindo a Charlie, que se aproximava do grupo. — E aí, Charlie? Já veio buscar seus bebês? Já está na hora do banho? Ou você veio nos dizer que já ganhou seu Nobel? — Ted riu e fez os outros rirem.
— Quando você vai crescer, Ted? — Charlie perguntou, mal-humorado.
— Não fica bravo, não, filho. — Ted disse, colocando o braço no ombro de Charlie. — Eu não quero que você se estresse. Eu quero ser seu amigo, porque talvez com você eu arrume mais mulheres do que andando com seu irmão. — Todos riram.
— Eu sou o irmão descolado, que joga futebol. O Charlie é o inteligente. — Oliver disse, alegre. — Temos para todos os públicos, Ted. Sinto muito, mas você vai ter que ficar com a Natalie, a estranha. — Oliver disse, e Ted mostrou o dedo do meio.
— Nossa, vocês são cruéis. — Disse.
Flashback’s end

? — Matt me despertou da minha rápida viagem ao passado.
— Sim, desculpe. Eu estou meio cansada. — Ri fraco e ele sorriu.
— Então, como está o ? — Ele perguntou.
— Bom, você chegou num bom dia. — Sorri, verdadeiramente feliz. — Então, não sei o quanto você está sabendo. Quando eu comecei a visitá-lo, eu soube que ele estava no grau oito dessa doença horrível e evoluindo para o nove, segundo o médico.
— Isso é ruim, não é? — Perguntou, ansioso.
— Bom, quando eu cheguei aqui, ele estava tendo uma crise horrível. — Matt me olhava com pena, não de mim, mas de . — Depois disso, eu o acompanhei aqui e ainda estou. — Sorri. — Hoje eu tive boas notícias. Aparentemente, tivemos nosso milagre de natal fora de época. — Matt me interrompeu.
— Como assim? — Ele estava confuso.
— Segundo o médico dele, Dr.Rafael, a síndrome dele só evoluía, não regredia. E, aparentemente, ela regrediu de oito para seis. — Disse, sorrindo.
— Seis? Mas isso é ótimo, não é? — Ele perguntou, animado, e eu assenti. — Isso é ótimo. Ele fala? Como ele está? Me fala tudo, rápido!
— Calma, Matt. — Ri de seu desespero. — Ele vai começar a ser tratar com uma equipe mais especializada, pelo que eu entendi, que não foi muito. Ele não fala, mas nós conseguimos nos comunicar através de piscadas de olho. Uma para sim e duas para não.
— Isso é inacreditável. — Ele estava visivelmente feliz.
— É bom que você tenha vindo hoje, aliás. — Suspirei. — Eu não sei a quem contar. Quer dizer, não sei como contar à família e não sei se o hospital avisaria.
. — Matt fechou os olhos por alguns instantes, riu sem humor e segurou com delicadeza minha mão. — É porque não tem para quem contar. Eu falo com os amigos. Fora isso, além de mim, você e mais umas cinco pessoas, não tem ninguém.
Era algo duro, triste. Não se ter a quem contar uma notícia dessas. Perceber o óbvio, que não tinha quase ninguém por ele, foi um baque que me deixou surda e tonta por algum tempo.
— Será que ele acordou? — Matt perguntou, tentando mudar o clima.
— Talvez sim, por que não vai lá ver? Eu vou tomar um café e já encontro vocês. — Sorri e começamos a caminhar em direção à porta. — Bata antes de entrar, ele não gosta que entrem sem bater. — Ele sorriu. — E conte a novidade a ele, eu ainda não tive tempo e acho que ele vai gostar de saber. Além de ficar feliz em receber outra visita que não seja a minha.
Eu sorri e ele entrou no quarto, gritando algo como “E aí, minha loira!”, ignorando a minha recomendação. Deixei-os lá e fui até a cafeteria.
Depois de enrolar por mais de meia hora na lanchonete do hospital, resolvi voltar para o quarto de . Não por estar curiosa sobre a visita de Matt, mas por saudades. Meu estômago ainda revirava todas as vezes que eu pensava que ele estava só a alguns andares de distância.
Quando cheguei perto da porta, que estava entreaberta, pude ouvir um pouco da conversa e, percebendo que se tratava de mim, a curiosidade me fez parar e escutar um pouco.
— Então. — Matt suspirou, depois de uma longa risada. — Nem aqui você sossega, não é? Sério que a está aqui te fazendo companhia? — Matt riu. — Eu achei que com você sem poder ver muitas mulheres eu teria mais chances.
— É sério. — Matt continuou. — Ela continua bem bonita. Você a conhecia? — Não pude ver a resposta de . — Essa mulher era terrível, meu amigo. Chave de cadeia. Impulsiva, sem juízo, fazia só o que tinha vontade. Até hoje eu não sei por que ela saiu da cidade. — Matt pareceu ponderar. — Mas também eu duvido que ela ficaria aqui de qualquer jeito, mesmo se tivesse ficado na faculdade. O Oliver também não ficou. — Matt riu novamente. — O que importa é que ela está aqui te fazendo companhia. Cara, você é impossível. — Matt riu alto e olhou em direção à porta, me pegando de surpresa. — Olha ela aí! — Gritou, e eu sorri sem graça entrando no quarto. — A gente estava falando de você.
— É mesmo? — Disse, como se não tivesse escutado tudo. Estava ficando boa em mentir.
— É, falando da escola e de garotas. — Ele disse, me abraçando de lado e rindo. me encarava, mas sua boca estava levemente curvada em um pequeno sorriso. Ou eu estava imaginando coisas. — Você sabia que sua bela acompanhante fazia racha, ? — Eu encarei Matt com os olhos arregalados e ele ainda sorria. arqueou as sobrancelhas também, talvez estivesse surpreso.
— Não. Quer dizer… — Minhas inconsequências na juventude não era algo que gostava de lembrar. — Não era assim também. — Desdenhei.
— Ah! Claro que era. — Matt colocou as mãos na cintura. — Lembra aquela vez que você ganhou aquele carro numa corrida com aquele cara da gangue? E seu pai te fez devolver? — Matt lembrou.
— Eu não devolvi. Vendi o carro. — Disse, sem perceber, e quando me dei conta era tarde demais.
— Essa eu não sabia. — Matt deu uma risada alta e escandalosa. — O que acha de a gente correr um pouco uma hora dessas? Eu, você e o ligeirinho. Sabia que o também corria? Ele era muito bom. Só não melhor que eu. — Matt disse, e revirou os olhos.
— Todo mundo era melhor que você. Você só tinha papo. — Disse, olhando para ele.
— Há, há, há. Até parece. — Ironizou.
pareceu sorrir de novo, talvez fosse algo relacionado à sua melhora. E com certeza era a coisa mais bonita que eu já havia visto. Então ele olhou para mim, continuou com seu quase sorriso e piscou. Não como um sim ou não. Piscou apenas um olho, como se fosse um sinal de cumplicidade, ou eu estava vendo coisas de novo.
— Vamos ver isso então. Eu, você e o . Vamos correr e eu vou te ensinar a não cantar vitória antes do tempo. — Eu olhei para , que piscou como sim e encarei Matt.
— Eu não corro mais, Matt. — Disse, ajeitando o cobertor de . — Tenho um filho agora, o que me fez assinar o pacote de ser bom exemplo.
— Só vai ser mau exemplo se perder. — Ele riu.
— Eu não quero que o seja inconsequente como eu era. E irresponsável. E as outras coisas. — Disse, pensativa.
— Não acredito que você vai amarelar. — Matt disse, olhando nos meus olhos. Ele sabia como me manipular.
— Eu não acredito que você está apelando desde jeito. — Olhei-o com os olhos em fenda.
— Eu vou começar a movimentar essa parada. — Matt disse, e riu alto. — Bom, já que você está em mãos mais macias agora. — Ele disse, encarando . — Vou ter que te deixar. Mas não chora não, eu volto.
Matt sorriu, apertou sem jeito a mão de , me abraçou e nos deixou.



Capítulo 5

Mesmo depois que ele saiu do quarto, a atmosfera continuava a mesma de quando ele estava ali. Alegre e levemente constrangedora.
Encarei , que agora estava com os olhos fechados. Ele estava mais corado, havia engordado um pouco. Seu rosto agora não tinha mais aquele aspecto esquelético de antes, não tinha mais fundas olheiras. Segundo a equipe médica, agora ele dormia bem todas as noites. Estava visivelmente melhor. Possivelmente, era devido à regressão da doença, mas às vezes, antes de dormir ou quando me distraía pensando nele durante o dia, passava pela minha cabeça que talvez a melhora fosse por minha causa. Porém logo a razão chegava, me mostrando que isso era no mínimo impossível.
Estava o observando atentamente, cabelo, rosto, ombros, peito, braços, mãos. Observando cada detalhe, como estava acostumada a fazer, tão concentrada que nem percebi quando ele abriu os olhos e começou a me encarar. Me pegando totalmente de surpresa e me deixando vermelha de vergonha.
— Por que você está me encarando? — Perguntei, sorrindo e ele sorriu de lado. Aquilo com certeza era um sorriso. Meu coração parecia uma fogueira.
Saí de perto dele e fui ajeitar as cortinas, trocar a água dos vasos de plantas, deixar o quarto apresentável. Sentia que me seguia com os olhos, o que já estava me deixando envergonhada. Resolvi pegar um livro que sempre deixava lá e fazer o que sempre fazia: me sentar na poltrona ao seu lado e ler para passar o tempo. Mas continuava me encarando.
— O que foi? — Perguntei, olhando para ele.
arqueou as sobrancelhas, como se me encorajasse a dizer algo. Ah, é claro. Ele era o mais interessado na notícia e eu sequer tinha comentado.
— O Matt falou alguma coisa com você sobre o que o médico disse? — arqueou uma sobrancelha e fechou um dos olhos. Aquilo significava “tem certeza?” ou “Não foi suficiente”. Pelo meu entendimento no nosso idioma, aquilo devia ser a segunda opção.
— Não sei até onde você está ciente do seu estado. — Eu cocei a garganta, em uma tentativa falha de deixar minha voz mais firme e clara, e juntou as sobrancelhas, concentrado. — Essa sua síndrome é dividida em graus. Explicando porcamente e ignorando o fato de que você provavelmente já sabe isso tudo, bom, nesses graus, vamos focar neles. Quando eu cheguei, você estava no oito, evoluindo para o nove, pelo que eu soube. Mas o seu médico, Rafael, resolveu refazer os exames depois que notou sua melhora e hoje, quando eu cheguei, ele me disse que você regrediu do grau oito para o seis. — piscou algumas vezes, aparentemente atordoado. — Isso é muito bom, sabe? Significa que você está melhor. Ele não sabe se a doença vai parar aí ou se vai continuar regredindo, mas de qualquer forma isso é muito bom? Não acha? — Segurei a mão de , na tentativa de demonstrar algum apoio.
olhava fixamente para mim, mas era claro que ele estava confuso. Então sorriu levemente de novo e apertou minha mão. Meus olhos se voltaram para nossas mãos e depois aos seus olhos. Eu o teria beijado naquele instante, mas não podia, não sabia nem se ele queria. me olhava com o pequeno sorriso no rosto e a mão grande e quente ainda apertando a minha. Ficamos naquela posição por muito tempo. Eu não queria sair dali e aparentemente ele não tinha intenção de fazer algo diferente.
— Parece que o Matt não te explicou muito bem. — Sussurrei, depois de algum tempo, e piscou um sim. — Eu queria saber o que você está pensando. — Disse, e ele revirou os olhos. — O quê? É uma notícia boa e eu sou curiosa.
Passamos o resto do tempo olhando um para o outro, até que precisei ir. Já estava tarde demais e eu tinha uma família me esperando em casa.
Quando me despedi, achei que era a hora de passar de fase, me arriscar um pouco mais, e deixei um beijo na testa de . Foi tudo muito rápido. Não queria ver qual expressão ele teria no rosto quando eu abrisse os olhos, eu morreria se visse algo como uma recusa ou coisa do tipo. Então resolvi sair bem rápido do hospital.
Em casa, tudo correu normalmente. comeu e foi para o quarto jogar vídeo games, foi ler alguma coisa e eu fui tomar um banho longo e quente. Já era bem tarde quando terminei, então resolvi olhar e me deitar.
— Já está na hora de dormir. — Disse, escorada no batente da porta do quarto dele.
— Eu vou. Só vou terminar essa partida. É um jogo online. — Ele disse, sem me encarar.
— Está tudo bem? — Perguntei, percebendo a bagunça em seu quarto, o que não era habitual, mesmo se tratando de um pré-adolescente.
— Sim. — Respondeu.
— Eu vou me deitar, estou cansada. — Disse, e caminhei até ele para deixar um beijo.
— Também, só fica no hospital. — Paralisei no meio do caminho, quando entendi o que ele disse.
— Eu fico fazendo companhia para um amigo doente enquanto você e seu pai não estão em casa, . Poderia ser qualquer um de nós, abandonados, sozinhos em um hospital. E eu não sei você, mas eu iria querer que um amigo me fizesse companhia. — Disse, séria e um pouco magoada. não respondeu. — Para a cama, agora.
— Mãe, eu não posso, é um jogo… — Ele choramingou e eu o cortei.
— Online, eu sei. E não me interessa. Vá agora, vou esperar aqui. — Disse, cruzando os braços.
desligou tudo bruscamente e saiu chutando fios e cadeiras. Puxei-o pela camiseta e dei um beijo em sua cabeça.
— Tenha um boa noite. — Disse, e respirei fundo. — Eu sinto muito se você está sentindo minha falta aqui, é só me dizer o que eu posso fazer para te compensar. Tudo bem? — Disse, e ele apenas acenou com a cabeça e foi escovar os dentes. — Venho aqui em trinta minutos checar se você já dormiu.
Não era como se eu estivesse passando dias no hospital. Enquanto todos estariam ocupados cuidando de suas vidas e eu estaria ociosa em casa, adoecendo ou tendo ideias ruins, estava fazendo algo bom, estava com , mesmo que fosse mais por mim do que por ele. Fui desperta dos meus pensamentos com me cutucando.
— O que aconteceu? — Ele perguntou, enquanto adentrávamos nosso quarto.
— Como assim?
— Você está com essa cara. A cara confusa, mas irritada. — Ele disse, incerto, como se tivesse medo da minha reação.
— Não, é que… — Ele me conhecia bem. Suspirei. — . Ele parece contrariado por eu passar minhas tardes no hospital. — Disse, e suspirei. fez uma pausa longa demais, sugestiva demais. — O que foi, ?
— Você realmente tem passado muito tempo lá. E quando não está de corpo, está com a mente, planejando algo, pensando sobre ou até falando sobre lá. Eu não fiz psicologia, mas eu acho que ele tem sentido a sua falta. Ele vê mais o Oliver e a Caroline do que você. E vocês eram tão próximos em New York, talvez ele só esteja com ciúmes. — explicou, encarando a janela.
— Eu só estou tentando fazer uma coisa boa, uma boa ação. O que vocês querem? Alguém disponível em tempo integral para perguntar como foi o dia de vocês? — Disse, irritada.
— Não foi isso que eu disse. — Como não? Pensei. — Eu só estou tentando dizer que nem eu e nem ele somos daqui. — se aproximou e colocou as duas mãos no meu ombro. — Ele às vezes se sente sozinho e eu também. E nós dois nem sabemos quem é esse cara com quem você tem passado as tardes. Antes que você comece, eu não me oponho a você ir. Só pensa no que eu estou dizendo. Talvez, só talvez, o consiga ficar uma tarde sozinho, ou até uns dias para você aproveitar com sua família. Ele sobreviveu até nós chegarmos sem você, acredite, ele dá conta.
Não concordava muito com o que dizia, mas uma parte minha, a parte madura e centrada, sabia que ele estava certo. Eu não poderia simplesmente abandonar tudo por Ele, eu tinha um filho que precisava de mim, da minha atenção, um marido bacana e eu não estava sendo nem um terço do que ele merecia como esposa. Tinha a minha família, eu teria que me colocar alguns limites, logo.
A noite que seguiu foi a segunda mais longa desde que havia retornado a Paradise, a primeira era a noite seguinte ao dia que reencontrei . Me levantei mais cedo do que de costume e, quando e acordaram, a mesa já estava posta.
— Nossa, que mesa bonita. Você acordou inspirada. — disse, sorrindo e se sentando à mesa, junto a .
O café passou rápido enquanto falava algo sobre um jogo que iria acontecer e que levaria para assistir, mas tudo que rodava minha mente era como eu iria me afastar de , como iria me distanciar se tudo que eu mais queria era ficar o mais próximo possível, por mais tempo possível. Era terça-feira, e chovia, provavelmente teria trânsito e se atrasaria para o trabalho, então caberia a mim levar ao colégio. Enquanto ele terminava de se arrumar, se aproximou e disse:
— Sobre o que eu falei ontem, vamos fazer uma coisa. Me deixa falar, depois você questiona. — Disse, sério, me olhando nos olhos. — Não vá ao hospital hoje. Vá buscar o depois do treino, nas quintas ele sai mais cedo. Você adora esse clima, aproveita e vá ver uns filmes com ele, vocês faziam tanto isso antes. Ele vai gostar, vai surpreendê-lo. — O olhar de não me encorajava a dizer não. Ele tinha um jeito doce e sútil de fazer com que eu fizesse o que ele queria. E, naquela situação, não tinha argumentos para recorrer.
— Certo. Eu vou fazer isso. — Sorri.
Enquanto caminhava até a garagem, me arrependi e me convenci de que estava tomando a decisão certa mais de vinte vezes. Ser mãe era uma tarefa em tempo integral que eu não poderia deixar de lado porque supostamente estou novamente apaixonada por um cara que não quer nada comigo. Somando ao meu breve surto de imaturidade materna e ao fato de que eu pensava mais em do que no meu próprio marido, eu me sentia abominável. Droga de cidade. Sempre despertando o pior.



Capítulo 6

O trajeto até a escola fora silencioso. Talvez fosse mais uma coisa em que se parecia comigo, eu odiava conversas no carro e, ou ele também compartilhava o sentimento, ou fazia silêncio em respeito a mim.
Eu precisava ocupar meu tempo com alguma coisa para vencer o impulso de correr até o hospital. Foi assim que decidi ir até a casa onde eu cresci, talvez me encontrando com as memórias daquela Olívia, conseguisse esquecer por algumas horas.
Bater na porta esverdeada da grande casa branca sempre era difícil. Quando eu era adolescente e chegava muito tarde em casa, ou até mesmo agora, quando minha consciência dizia que estava errando compulsoriamente.
— Oi, mãe. — Disse, e tentei sorrir.
— Olívia! Que bom que veio. — Mamãe disse, e me envolveu num abraço sufocante. Pareceu muito feliz em me ver. — Olhe só quem chegou, Charlie. — Gritou, chamando meu irmão.
Definitivamente, encontrar com meu irmão não era esperado. As pessoas não trabalham mais nessa cidade?
Charlie, Oliver e eu compartilhamos muitas coisas durante a vida. Biscoitos, na fase ruim, o mesmo quarto, às vezes algumas roupas. Mas nunca fomos parecidos. Charlie sempre foi o que meus pais chamavam de sensato e responsável, meu pai sempre disse que sabia que poderia contar com Charlie. Até onde eu sei, ele era o único que sempre os visitava, sempre ligava e estava por perto, mais que Oliver, que teoricamente ainda morava com eles. Quando se é o filho favorito e não é cravejado de críticas somente por existir, é realmente fácil aparecer sempre. Charlie era mais velho, três anos mais velho que eu e Oliver. Era alto, cabelo castanho, sempre impecavelmente penteado para trás, sempre com seu melhor terno, que na maior parte das vezes só salientava seu corpo franzino. Ele era branco, quase pálido, vivia doente, tinha crises de ansiedade semanais e asma, por isso nunca fazia as mesmas coisas que nós, preferindo sempre ficar em casa, estudando ou pintando. Charlie fazia belíssimas pinturas a óleo. Era a personificação de filho perfeito, frágil e gentil.
Oliver e eu, mesmo sendo gêmeos, não éramos muito parecidos. Oliver era alto, tinha olhos verdes brilhantes e cabelo ruivo. Oliver sempre foi livre. Me lembro de ouvir nossos pais o criticando desde o dia em que nascemos, mas para ele não surtia efeito algum, parecia que ele sequer estava compreendendo o que diziam. Oliver sempre quis viajar, conhecer o mundo. E ele fez, logo que terminou a escola, saiu pelo mundo, trabalhando em hostels para pagar sua estadia, até criar um site de dicas de viagem e ser patrocinado para isso. Oliver era o irmão legal, se precisasse de uma carona, uma festa para ir, ou encher a cara em um bar, era sempre o Oliver. Para ele, a vida era uma festa e você devia aproveitar, não precisava se apegar a nada, pois tudo passava. Isso explica o porquê dele nunca nos ter visitado em New York, mesmo tendo passado longas férias na cidade. Oliver era um espírito livre e não existia pessoa no mundo capaz de prendê-lo.
, oi. — Charlie disse, e me abraçou. — Eu soube que você havia se mudado, eu fui até sua casa, mas acho que não tinha ninguém. — Disse, tentando parecer simpático. Maquiavélico.
— Eu andei ocupada. — Expliquei, e ele acenou.
— Entre, eu fiz um chá para o seu irmão. A tosse dele voltou. — Mamãe disse, rápido, enquanto eu me sentava na sala.
Sala esta que agora estava moderna, com uma TV gigante e várias outras coisas tecnológicas, assim como a cozinha, pelo que se podia ver pela porta.
— As coisas aqui já não são mais como eu me lembrava. — Comentei. — O que houve, aqui?
— Você está falando da TV, não é? — Mamãe gritou, da cozinha. — Foi seu irmão. Não é ótima? Eu consigo ver todos os canais que eu quero agora. Antes nós não conseguíamos ver nem os noticiários. Ele me deu várias coisas, presentes de natal e aniversário. — Disse, enquanto servia chá para mim e falava desesperadamente das coisas que meu bondoso irmão tinha comprado, enquanto Charlie fingia estar distraído no celular. — E seu pai? Precisa ver como ele está feliz com o colchão massageador.
— Nossa, realmente. E o que Charlie tem feito para comprar todas essas coisas? Assalto à banco? — Ironizei.
— Não. — Charlie respondeu, confuso. — É que eu estou com um cliente importante agora. Recebi muitas comissões. Você lembra de como o papai reclamava das hérnias de disco.
Eu sempre me choquei com o potencial que Charlie tinha para me irritar.
— Como vai o ? — Charlie perguntou, rápido.
— Bem, está na escola agora. Entrou para o time. — Disse, sem muito ânimo.
— Que bom! Isso é ótimo, o Jack também está. Não sei se você sabe, Sue e eu somos padrinhos dele. Ele praticamente mora com a gente. — Disse, feliz.
— Ted convidou você para ser padrinho do filho dele? — Perguntei, incrédula. Não fazia sentido, Ted não gostava de Charlie.
— Sim. — Charlie disse. — E, sabe, Jack tem se saído muito…
— Ted não gostava de você, por que ele te convidaria? — Interrompi, bruscamente.
— Eu… — Meu irmão abriu a boca algumas vezes, sem dizer nada.
— Porque depois da faculdade eles trabalharam juntos, . E as birras de escola desapareceram. — Mamãe respondeu, séria.
— Nós pescávamos juntos todo fim de semana. Sue e Natalie trabalhavam na mesma escola, Natalie era professora. — Charlie explicou, sem graça.
Quando tudo parou de fazer sentido? A vida de todo mundo tinha andado, menos a minha. Eu me sentia estagnada, como se vivesse em duas linhas temporais diferentes. Como se eu tivesse pausado uma quando saí da cidade e agora retomado de onde eu parei. Mas as vidas de todos haviam andado, só a minha que não. Era como, de repente, acordar tendo quinze anos de novo e ver todos os seus amigos adultos, casados e você parada. Estagnada. Presa.
Depois de praticamente meia hora em silêncio sepulcral, meus impulsos adolescentes resolveram desabrochar novamente e atacar gratuitamente meu irmão, que agora se divertia com uma revista de palavras cruzadas.
— E a Carly, Charlie? — Perguntei, sugestivamente, e arqueei uma sobrancelha.
— Sim, a Carly. — Ele voltou a olhar para mim, como quem explica algo para uma criança. — Mas não a chame mais assim, ela prefere Jack.
— O quê? — Quase todo chá que havia tomado quis sair de uma vez só. Não era possível que ele reagiria assim.
— Pois é, ela decidiu que queria fazer a transição um ano depois de se formar na escola. Foi muito difícil, a cidade toda criticou o processo. Os únicos lugares que ela podia ir sem ser julgada ou atormentada era a sua própria casa e aqui. — Explicou ele.
— É, coitado. Foi difícil mesmo. — Minha mãe completou. — E como ele está, tem notícias?
— Ah sim, eu conversei com ele semana passada, mãe. Disse que está tudo indo bem. Agora ele conseguiu um emprego, mas disse que foi bem difícil. — Charlie contou.

Então Charlie não só havia reagido bem a tudo, como também ajudou Carly no processo? Eu não entendia, o Charlie que eu tinha em mente a teria julgado, se afastado. Não que ele já houvesse feito isso alguma vez na vida, mas pelo menos era o que eu esperava. Eu amava criticar meu irmão, apontar os erros numa criação perfeita era saboroso. Era como seu meus pais fossem Deus, Charlie a humanidade e eu Lúcifer, criticando e mostrando o quanto Charlie era imperfeito. Enquanto isso, os outros anjos e Oliver viviam suas vidas cantando e desfrutando de todo lugar que poderiam ir com ajuda de suas asas. A humanidade não poderia fazer algo bom, Charlie não poderia fazer algo bom.
— Acho que é melhor eu ir, prometi que almoçaria em casa hoje. — Charlie disse, enquanto se espreguiçava e se preparava para sair. — Foi bom te ver, . Vamos marcar alguma coisa, talvez um jantar. Estou muito ansioso para provar sua comida. — Disse, sorrindo.
Acenei e dei o melhor de mim para tentar sorrir. Mamãe levou Charlie até a porta, fazendo mil recomendações quanto à sua saúde. Me juntei a ela no batente da porta, enquanto observávamos meu irmão entrar no carro, acenar e buzinar antes de sair.
— Não deixe de marcar esse jantar. Charlie está muito animado com a sua volta. — Mamãe disse, me encarando. Nessas horas, sua pouca altura não fazia muita diferença, ela sempre parecia ameaçadora.
— Charlie? Animado por minha causa? — Ri fraco.
, ele falou com seu pai sobre sua carreira, sabia? Explicou para ele como era sério, porque depois do jantar seu pai só sabia remoer essa história. — Contou, levemente indignada. — Charlie pelo menos tem tentado. E você? Vai esperar eu e seu pai morrermos para fazer as pazes com seu irmão? Francamente, era só o que me faltava. Eu não tenho um minuto de paz e sossego nessa vida. — Mamãe finalizou seu ato dramático e entrou para dentro de casa novamente para recolher a louça do chá. — Eu peço todos os dias para você e Oliver tomarem jeito. Eu até tive um sonho, sabia?
— Mãe, por favor, pare. Não precisa disso. — Repreendi.
, a pressão alta do seu pai. Só a misericórdia de Deus para nos ajudar. Eu orei e eu sonhei que um homem loiro entrava na sua vida e ia te mostrar o caminho da paz, do amor, da família. — Mamãe sempre fora o tipo beata. Às vezes, com a distância, eu quase me esquecia disso.
— Eu já encontrei, mãe. Eu me casei. — Disse, entediada, e levantei a mão para que ela tivesse uma boa visão da aliança.
— Pois bem, e ele te trouxe aqui. é mesmo um santo, eu disse isso a ele. Agora nós só precisamos arrumar uma esposa para o seu irmão.
— Mamãe. — Ri alto, deixando-a confusa. — Até parece que não conhece seu próprio filho. — Eu tenho que ir.
— Se você ficar mais de uma semana sem aparecer aqui, eu vou chamar a polícia. Não estou brincando, Olívia. — Mamãe disse, séria.
— Tudo bem, vou tentar. — Sorri e mamãe me repreendeu com o olhar. Depois me abraçou e me deixou ir.

Mamãe era uma imigrante italiana, brava e alegre, que se casou com um francês alto e sério. Eles sempre foram muito próximos e muito religiosos. Uma belíssima família tradicional. Todos os nossos encontros eram assim e mesmo depois de mais de quinze anos sem pisar naquela casa, logo na primeira visita, já recebia um sermão de como eu deveria tomar jeito. Mamãe não se importava se eu passei anos sem vê-la, ou se eu já era uma mulher feita. Para ela, quando saí de seu ventre dei plenos poderes a ela sobre minha vida e assim ela poderia me repreender sempre que achasse necessário.
Mas, ao contrário do normal, dessa vez eu não me estressei com suas críticas, vi graça em toda aquela situação. Não me irritei ou xinguei Charlie mentalmente por ser tão perfeito. Só achei graça e percebi que, no final das contas, eu sentia falta do drama e até das críticas. Eu não entendia por que, nem como isso havia mudado em tão pouco tempo, mas algo diferente estava no ar, estava no meu coração. Diferente da primeira vez em que encontrei meus pais desde que voltei para essa terrível e irônica cidade.



Capítulo 07

— O que aconteceu? — perguntou, alarmado, assim que atravessou os portões da escola e me viu encostada no carro.
— Nada, só vim te pegar. — Expliquei. — Por quê?
— Você nunca vem me pegar. Tem certeza de que não aconteceu nada? — ainda duvidava e estava desconfiado.
— Eu preciso de uma explicação para te buscar na escola desde quando, garoto? — Brinquei, e ele ficou ainda mais desconfiado.
! — Uma voz distante chamou. — Querida, quanto tempo. — A voz distante já estava próxima demais do meu rosto.
— Carol, que surpresa. — Boa ou não, não deixava de ser uma surpresa. Eu sentia falta da individualidade fria de New York.
— É mesmo, não é? Tem tantos dias que não nos vemos. — Ela era sempre muito simpática e resplandecente. Muito mesmo.
— É, muitos dias. — Enfatizei, tentando cortar o assunto.
— Acho que você tem outra companhia agora, . — Ela sorriu. — Nos vemos depois, querido. — Carol disse, se despediu de e acenou para mim.
— O que ela quis dizer? — Perguntei, confusa, e entrou no carro.
— Ela me leva para casa todas as quintas. — explicou, depois que eu entrei no carro.
— E ninguém achou que eu deveria saber desse detalhe? — Perguntei, chateada.
— Meu pai sabe. Você nunca está em casa, nem deve perceber se eu chego em casa mais cedo ou mais tarde. — reclamou.
Abri a boca algumas vezes, na tentativa de dizer algo, mas ele tinha razão. Estava ficando tão pouco tempo em casa que não sabia nem os horários do meu filho, não sabia de mais nada. E o pior de tudo era que todos sabiam disso, Carol sabia que eu não pegava meu filho na escola e eu nem queria imaginar o que mais ela sabia e podia espalhar por aí.
Eu estava sendo idiota mais uma vez. Talvez a Carol não soubesse de nada se eu estivesse fazendo o mínimo que uma mãe deve fazer. A culpa não era da Carol, , , mesmo que eu quisesse muito bater nele por não me contar das caronas, ou de . A culpa era minha. não me pediu para ir para o hospital, nem nunca controlou meus horários, ninguém além de mim tinha esse poder.
Nem terceirizar mais a minha culpa eu conseguia. Talvez o erro fosse grande demais até para eu relativizar.
— Me desculpe. — Disse, por fim, ligando o carro. não respondeu.

Depois de tomar um banho, foi até a cozinha e pareceu surpreso com a quantidade de pipoca que eu estava fazendo.
— O que é tudo isso?
— Pipoca. Quer escolher um filme? — ainda estava desconfiado. — Ou eu escolho, tudo bem. — Resolvi.
— O que eu fiz? Você quer conversar, não é? O que te falaram, mãe? — começou a perguntar, sem pausas.
— Nada, eu só queria ver um filme com você. Mas já que insiste, o que você fez? — Me sentei no sofá e o encarei por um tempo.
— Nada. — Desconversou. — É que você não faz muito isso mais. Está estranha.
— É, eu sei. É bandeira branca. — Sorri. — Vamos voltar ao normal agora. Vamos ver filmes com pipoca nos dias chuvosos, tomar banho de chuva quando estiver quente e todas as outras coisas que fazíamos antes.
— Você não vai para o hospital hoje? — perguntou, ainda estava desconfiado. Talvez ele tivesse sentido mais falta da mãe do que eu imaginava.
— Não, hoje eu vou ficar no sofá, e você?
— Tá. — riu e se jogou no sofá.
Nos últimos dias, eu estive tão presa no passado e em que quase me esqueci do quanto sentia falta desses momentos. De ficar em paz com e , sem me preocupar com nada, apenas me divertindo. Em algum momento, a tinha se dividido em duas, a do presente tinha ficado em New York e para Paradise apenas a adolescente tinha voltado. Eu precisava resolver, tinha muito em jogo para ter uma crise de identidade. Precisava juntar as duas metades que me formavam, só assim eu conseguiria minimamente dar conta dos meus problemas.
No meio do segundo filme, adormeceu, chegou sorrateiro e ficou nos observando da porta.
— Olha quem já voltou. — Disse, quando percebi sua presença.
— Que bom ver isso, estava com saudades. — disse, e me deu um beijo.
— Acho que todos estamos precisando de coisas assim.
— Que bom que me ouviu. O que ele achou? — perguntou, enquanto acariciava o rosto de .
— Ele se assustou, depois ficou desconfiado, duvidou das minhas intenções puras, mas não conseguiu resistir por muito tempo. — Contei, e riu.
— Ele está grande demais. — comentou, com um sorriso no rosto.
— Nem me fale disso. Eu já estou sentindo alguns sintomas daquela síndrome, como se chama mesmo? A que sua mãe teve?
— Síndrome do ninho vazio. — completou. — Você já sente, é? — Sorriu e me deu um beijo.
— Acredita que ele ainda dorme com massagem nos pés? — Contei.
— Ah, eu também quero. — pediu, e cruzou os braços.
— Quer uma massagem nos pés? — Brinquei, me levantando do sofá e o abraçando.
— Pode ser mais que isso. Um pouquinho mais. — piscou.
— Só um pouquinho. — Eu ri e puxei para o corredor, nessas horas a porta do quarto parecia distante demais.

— Que horas são? — perguntou. Ele estava com os cabelos bagunçados e o rosto amassado.
— Sete e vinte. Você estava na sala? Achei que fosse parte do sofá novo. — implicou.
Era a primeira vez que cozinhávamos juntos desde que nos mudamos para Paradise. Depois de matar a saudade no final da tarde, precisávamos matar também a fome. Era irônico como nos momentos mais relaxados é que eu percebia o quanto era bonito, o quanto ele era engraçado. se juntou a nós depois do banho e parecíamos a velha família perfeita de New York. Rindo de uma frase confusa que havia dito, implicando com por algo do passado dele, sendo felizes, puramente felizes.
estava lavando a louça, picava frutas para a salada e eu estava checando a lasanha no forno. A conversa era sobre como falava, enquanto e eu o imitávamos, deixando-o irritado.
— Eu não falo assim. — disse, tentando engrossar a voz, enquanto nós riamos.
— Você fala, pode negar, mas sabe que é verdade. — Eu disse.
— Pelo menos eu tenho sotaque, tenho identidade, estilo. Não sou duplicado igual vocês. — se defendeu.
— Quem ele está chamando de duplicado, ? — Perguntei, tentando parecer brava. — Você e o são as mesmas pessoas em tamanhos diferentes. Versão de bolso e GG.
— Ei! — protestou. — Eu tenho um metro e cinquenta e cinco. Não sou de bolso.
— Ainda consigo guardar você no armário da cozinha, quer tentar? — propôs, empolgado. — Vamos ver se você ainda cabe.
— De jeito nenhum! — Adverti. — Ninguém vai entrar no meu armário. Que ideia.

Quando era pequeno, nós medíamos seu crescimento o colocando dentro de coisas. Caixa de sapatos, gavetas, baús, armários e todo espaço em que ele coubesse. Tudo começou no primeiro mês, quando eu cheguei em casa e flagrei tirando fotos enquanto estava dentro de uma caixa de sapatos.
— Pai, nós ainda vamos viajar no seu aniversário? — perguntou, de repente.
— No meu aniversário? — pareceu confuso sobre seu aniversário e sobre promessas que poderia ter feito.
— Sim, seu aniversário. É domingo, não é? — quis saber. — É que a gente sempre viaja no seu aniversário.
— Bom, eu não tinha pensado. Na verdade, até esqueci que meu aniversário estava para chegar. — confessou.
— Isso é um reflexo da idade. Os trinta e oito anos estão aí. Você está velho, querido. — Impliquei.
— Muito engraçada. — riu sem humor. — Acho que seria bom uma viagem, só nós três. — disse, sugestivamente, me olhando.
— Que legal! — comemorou. — A gente pode ir para um lugar que dê para pescar, você pode me ensinar a pescar com rede, como o tio Oliver fez. — ficou muito animado, eu nem tanto. Deixar por um dia não tinha sido tão ruim, mas deixá-lo um fim de semana inteiro?
— Calma, não é assim também. — o acalmou. — Será que a sua mãe topou?
— Mãe, por favor. Viagem. Aceita. — suplicou.
— Eu não sei. Não preparamos nada. — Tentei pensar numa desculpa.
— Eu tenho umas folgas pendentes, consigo ir. E podemos fazer as malas depois do jantar e sair amanhã de manhã. — planejou.
— Ir para onde, ? — Questionei, torcendo para que ele não tivesse uma resposta.
— Deixe isso comigo, só se preocupe em fazer as malas.
— Mãe, e então. Nós vamos, não é? — quis saber.
tinha aquele olhar, o olhar de “diga que sim’’. E eu queria viajar, o dia tinha sido tão agradável, eu sentia falta das nossas viagens, queria ir. Mas tinha o , como eu poderia deixá-lo assim? Sem nem avisar para onde eu ia?
— O que acha, ? Não precisa se preocupar, tudo vai estar no mesmo lugar quando você voltar. — comentou, ele sabia o motivo da minha indecisão.
— Você pode ir ao hospital outro dia, mãe. Mas viajar no aniversário do meu pai é só uma vez por ano. — afirmou.
— Tudo bem, então nós vamos viajar. — Concordei, vencida por minhas vozes interiores.

Dizem que ser mãe é padecer no paraíso. Eu entendia sobre o que essa frase se tratava. Eu queria ficar, passaria o fim de semana inteiro no hospital se dependesse de mim. Mas havia pedido e eu não negaria isso a ele, não depois de ver sua animação e de ter percebido o quanto ele havia sentido minha falta. Na tentativa de me unir à minha versão adulta, eu devia fazer escolhas que não era as mais atrativas, pelo menos não para mim. Meu filho queria viajar, então eu viajaria, era o certo a se fazer e eu estava cansada de errar com essas duas pessoas.

Quase junto ao sol nós nos levantamos, iriamos para um chalé na cidade vizinha. organizou tudo numa velocidade invejável e quase não dormiu na véspera. Eu não dormi também, mas o motivo era outro. Estava preocupada demais em como ficaria, se ele sentiria minha falta, se ele pensaria que eu o abandonei. Não consegui parar de pensar nisso, de me questionar e de ter medo. No fundo, eu até queria que sentisse minha falta, significaria que ele se importava, que eu fazia diferença.
O chalé ficava no alto de uma montanha, junto a mais outros três, rodeados por árvores muito altas. O acesso era por uma estrada de terra esburacada que, com toda certeza, se chovesse, ficaríamos atolados. Dois quilômetros antes dos chalés, ficava um lago grande e mais acima uma cachoeira, mas o frio de maio não nos permitiria aproveitar muito.
— Sabe, eu acho que vi um lugar parecido com esse em um filme uma vez. — Comentei.
— Sério? Qual era? — perguntou, animado.
— Não sei, acho que foi em sexta-feira treze ou em o chamado. Não, espere, acabei de me lembrar, foi em a morte do demônio. — Debochei.
— Nossa, você é muito engraçada. — disse, ranzinza. — Não é tão ruim.
, quatro chalés no meio do nada. Sério, você nunca viu nenhum filme de terror? Para que você acha que eles são usados? — As férias da família : uma comédia pastelão ou um filme de terror de péssimo gosto?
— É isolado para fugir do caos da cidade, por isso. — defendeu.
— Querido, nós moramos em Paradise. Última vez que tivemos um caos na cidade, foi no bingo da igreja, valendo dois frangos assados, em oitenta e dois. — Eu ri.
— O que aconteceu? — perguntou.
— Tiveram dois ganhadores e os idosos da igreja começaram uma briga generalizada, dois foram presos. — Me virei para o banco de trás. — Aliás, seu bisavô foi preso. Meu pai teve que ir a várias audiências acompanhando-o depois. Vovô não podia ficar a menos de quinze metros de um outro idoso.
— Você está brincando. — duvidou.
— Não, eu juro. Pode perguntar. — Assegurei, e e riram. Tínhamos muitas histórias de brigas na família, geralmente eram histórias engraçadas.
— Chegamos. — anunciou.
— Olha, pai. Tem mais gente aqui. — avisou.
Frente ao outro chalé, estava uma SUV preta, parecia ter acabado de sair da loja. Com o barulho da nossa chegada, um casal surgiu na porta do chalé e depois uma criança.
— Quem são eles? — Questionei.
— Não faço ideia. Não sabia que teria mais pessoas aqui. — disse.
— Quais as chances de eles serem sequestradores e terem sequestrado aquele menino? — Não custava nada me preparar para eventuais problemas.
— Eu conheço ele de algum lugar. — Ponderou .
— Ela é bonita, ele também. Mas ele é mais. — Observei.
— Achou ele bonito? — quis saber. — O que mais achou dele?
— Sem ciúmes. — Ri e baguncei seu cabelo. — Vamos socializar, vai ficar estranho se ficarmos aqui no carro encarando.
estacionou e nós tentamos fingir alguma normalidade, estávamos todos envergonhados demais. Aparentemente, ninguém esperava encontrar outra família, ou possíveis criminosos.
— Olá. — O homem cumprimentou.
— Como vai? Acho que seremos vizinhos esse fim de semana. — observou.
— É, parece que sim. — O homem riu, tinha um sorriso bonito, do tipo que ilumina qualquer ambiente. — Eu sou Tony, essa é minha esposa Louise e nosso garoto, Alex. — Se apresentou, e a esposa e o filho acenaram. Isso se realmente fossem esposa e filho.
— Eu não acredito. — começou a rir alto, nos deixando confusos.
, por favor. Não nos envergonhe. — Disse, entredentes.
— Eu pensei que te conhecia de algum lugar, mas a última pessoa que pensei encontrar aqui era você. — ainda sorria como um bobo e foi até Tony para apertar sua mão. — Tony é piloto de fórmula um, amor. — explicou.
Certas coisas só aconteciam comigo.
— Olá! — Cumprimentei, sem graça, também correu ao encontro de Tony.
— Nossa, eu nem acredito que isso está acontecendo. — sempre gostou de esportes de velocidade, com certeza aquele seria o melhor aniversário de todos para ele.
, porque não me ajuda com as malas. — Sugeri. — Deixe Tony descansar, sem assédio de fãs.
— Ah, claro. — assentiu, ainda estava empolgado demais.
— Tudo bem, não é incômodo. — Tony falou, gentilmente.
— Vamos, . , por favor. — Chamei.
Depois de apertar as mãos de Tony mais duas vezes, e cederam e deixaram a família famosa em paz. Quando pensei em um fim de semana nas montanhas, não imaginei, nem em meus melhores sonhos, encontrar alguém famoso. Eu nem tinha roupa para a ocasião.
— Eu não acredito. — parecia uma criança depois de tomar refrigerante demais, olhando a cada cinco minutos pela janela. — Você viu como ele é simpático?
, se você ficar os assediando, daqui a pouco vão embora. Dê um tempo. — Pedi. — Além do mais, vocês não iam pescar?
— É, mas a gente pesca depois. É o Tony Render. — A última vez que esteve assim, foi quando nasceu.
— Pai, depois do almoço nós vamos pescar? — perguntou.
— E se a gente chamasse o Tony? — pensou alto.
, você não vai chamar ninguém. Ele não te conhece, ser famoso não o torna seu amigo. — O repreendi.
— Mas a gente devia socializar com eles. — disse.
— Eu acho que eles não querem socializar. — Disse, me aproximando da janela em que observava o movimento do outro chalé.
— Por quê?
— Porque ninguém que queira socializar vem para um lugar como esse. — Disse, e fechei a cortina, encerrando a carreira de voyeur de .
Depois do almoço, conseguimos tirar do chalé e ele enfim aceitou ir pescar com . Ficar sozinha era sempre bom, mesmo num lugar assustador como aquele e tendo vizinhos famosos, mas eu não deixaria de aproveitar o silêncio. Abri uma cerveja e me sentei na pequena varanda que o chalé tinha. De onde eu estava, só conseguia ver os carros e as árvores, nada mais.
A nova vizinha famosa teve a mesma ideia, mas ela tomava algo quente numa caneca maior que a lata de cerveja que eu tinha. Ao me ver, ela sorriu e mostrou a caneca e eu a lata.
— Às vezes é preciso algo mais forte. — Eu disse.
— Por isso, eu prefiro o chá escocês. — Ela apontou para a caneca e sorriu marota. — Isso está cheio de uísque. — E riu alto.
— Mulher! — Eu ri. — Você precisa me passar a receita.
Ela era boa, Louise era o tipo de mulher que te surpreendia. Ela parecia ser séria e calada à primeira vista, mas depois se mostrava espirituosa, gentil e dócil. Já havia horas que estávamos tomando chá escocês e falando mal dos chalés, mas pareciam minutos.
— Eu não tenho problema com lugares simples, mas eu juro, quis matar Tony quando chegamos. — Contou. Louise tinha um sotaque francês delicioso de se ouvir.
— Não parece que aquele filme, sexta-feira treze, foi feito aqui? — Perguntei.
— Eu tenho total certeza, Olívia. Tony disse que aqui pelo menos teríamos paz, mas claro, só os caça fantasmas viriam para um lugar como esse. — Louise zombou.
— Desculpe por invadir seu espaço. — Brinquei.
— Imagine, se eu não tivesse alguém para tomar uísque comigo, acho que eu mesma me tornaria a entidade. — Rimos.
— Estão casados há quanto tempo? — Perguntei, já estávamos levemente embriagadas.
— Tem uns seis anos?
— Se você não sabe… — Louise riu alto.
— Eu sempre sou desligada com esses detalhes. Tony sabe até os meses, experimente perguntar para ele depois. — Louise disse, finalizando outra caneca.
— Sorte para você. Nem eu nem somos bons com datas. — Assumi.
— Vocês têm quanto tempo de casamento? — Quis saber a outra.
— Já são quase treze anos. Espero não ter entregue minha idade. — Brinquei.
— Nossa, é bastante tempo. Como é estar casada há tanto tempo? — Louise perguntou.
— Bom… — Eu não sabia o que dizer. Como era estar casada há tanto tempo e continuar apaixonada? Eu queria perguntar a ela. — Às vezes parece que somos mais amigos do que cônjuges. — Respondi, um pouco sem graça. — E vocês?
— Uma loucura. — Ela riu. — Tony e eu somos pessoas muito diferentes. Ele é simpático, extrovertido, tem milhões de amigos, faz piada de tudo. Eu sou mais quieta, mais tímida, achei que nunca daria certo, eu confesso. Mas temos feito coisas lindas juntos e eu nem estou falando do nosso filho. — Louise riu. — Eu tenho aquela mesma sensação de frio na barriga que tive quando o vi pela primeira vez. — Confessou. — Acho que temos muito chão até chegar ao estágio em que você e estão.
— Como vocês se conheceram? — Não queria que o assunto fosse meu casamento, nem eu entendia como ele estava, como funcionava. Por mais que Louise fosse simpática, não queria contar a ela sobre meu fracasso como esposa.
— Eu o vi numa corrida, mas ele não me notou. Tempos depois, eu escrevi uma matéria para um jornal detonando ele. — Louise sorriu de canto. — E ele veio me questionar, todo cheio de razão. Então resolvi dar uma chance e fazer uma entrevista para tentar ajudá-lo. Na época, ele era muito cobrado. Eu e outros jornalistas falávamos muito mal dele, com razão. — Louise encheu a caneca com mais uísque e sorriu, a lembrança devia ser boa, ela não conseguia parar de sorrir. — Ele era estressado, queria se provar, viver no limite. E aí, nós nos conhecemos.
— Você não consegue disfarçar a carinha de apaixonada, Louise. — Impliquei.
— É porque eu sou. — Ela riu. — Quando eu vi aquele homem lindo, batendo na porta da minha sala, querendo falar comigo, querendo brigar comigo, eu me apaixonei. Já achava ele lindo, mas aquele dia… — Louise suspirou. — Eu poderia falar do Anthony o dia todo sem me cansar.
A atmosfera ao redor de Louise era aconchegante e romântica, quase conseguia ver os corações subindo enquanto ela falava. Eu não era assim, nunca fui. Talvez aquele amor adolescente dos filmes fosse mesmo real, ou talvez Louise só estivesse iludida, vivendo uma paixão, paixões são assim. Por outro lado, estavam casados, com filho, quase seis anos de casamento. Não era qualquer coisa. Eu estava tocada pela emoção que Louise emanava, confusa e talvez, bem no fundo, com um pouco de inveja.
— Oi, passarinho. — A repentina chegada de Tony com o filho me despertou. Louise abraçou o menino e afastou a caneca com uísque.
— Louise, não acredito que você está dando uísque para a nossa vizinha. — Tony a repreendeu. — O que vão pensar de nós?
— Ela que começou, ela tinha cerveja. — Louise se defendeu e riu.
— Nós precisamos conversar. — Tony disse, se dirigindo a mim. — Eu tenho um carregamento de uísque, mas minha esposa não lembrou de trazer nenhuma cerveja, será que eu poderia fazer uma troca?
— Feito. Posso colocar gim nisso? fica muito hiperativo quando toma. — Negociei com Tony.
— Ah, esse é o segredo dele. — Tony entendeu. — Eu o vi agora, nadando no rio. Quantos graus fazem, doze? — Tony estava incrédulo.
— O que esse homem não faz por um peixe. Parece mentira. — Falei. — Por isso eu sempre ando com álcool.
— Você não quis experimentar a água, Render? — Louise indagou.
— Ainda não estou maluco. Eu gosto de fogo, de coisas quentes, deixe a água fria para o . Ele parece ser uma dessas pessoas que gostam de extremos, eu estou muito bem em cima do muro. — Tony brincou.
— Vamos tomar um banho, garotinho. — Louise falou.
— Você está falando comigo ou com ele? — Tony perguntou.
— Com os dois. — Louise se levantou. — Por que você está com esse cheiro horrível?
— É uma longa história. — Tony disse, abaixando o queixo e fazendo bico.
— Eu não quero nem imaginar. — Louise balançou a cabeça em negação. — Nos vemos depois, . Eu preciso cuidar das crianças agora.
Louise e Anthony fecharam a porta e e surgiram na clareira dos chalés. estava completamente molhado, o peitoral definido marcava a blusa cinza, o casaco estava nas mãos, o cabelo pingava. Era incrível como aquele homem sempre parecia estar saindo de um ensaio fotográfico em uma revista de homens lindos. estava mais atrás, segurando um peixe quase do seu tamanho, seu sorriso enchia o rosto de orelha a orelha.
— Mas o que é que aconteceu? — Perguntei, surpresa e animada.
— Ah, mas você não vai imaginar. — disse, orgulhoso.

A manhã de sábado estava um pouco mais quente, segundo , o domingo seria ensolarado. e Tony resolveram fazer hambúrgueres. experimentou toda roupa que tinha trazido, até achar alguma que ele considerasse decente. Alex estava conosco, passou a manhã ajudando e com a lenha para uma fogueira, Tony e Louise deviam estar se divertindo.
Quando enfim chegaram até os fundos do nosso chalé, já passava das treze da tarde. Tony estava animado e Louise resplandecendo elegância e gentileza, como no outro dia.
— Eu vim pela cerveja, . — Tony confessou.
— Quantos eu consigo ganhar se eu vender o segredo da sua fraqueza para os concorrentes? — Provoquei Tony.
— Que horror. É com esse tipo de pessoa que você se relaciona, ? — Questionou, beliscando um pedaço de carne e se sentando.
— Aqui. — Disse, abrindo a garrafa com a quina da mesa e a servindo a Tony.
— Não. — Anthony disse, chocado. — Olha o que essa mulher fez. Está vendo, Louise, é isso que eu sempre te digo, não se vê coisa assim na França. — Garantiu.
— A primeira vez que eu vi essa mulher, ela abriu uma cerveja com o cotovelo. — contou, enquanto acendia a churrasqueira.
— Você precisa me ensinar. — Tony pediu, colocando as mãos na cintura.
Tony e Louise eram o tipo de casal que contagiava qualquer ambiente. Estavam felizes, leves, rindo, brincando. Tony não deixava de olhá-la, o tempo todo, mesmo que ela estivesse de costas ou que estivesse fazendo outra coisa, seus olhos sempre a seguiam. Louise também não ficava atrás, antes que Anthony dissesse algo, ela já sabia. Antes que ele pedisse uma cerveja, ela já estava com uma para servi-lo, eles se comunicavam com o olhar, o tipo de coisa que você só vê em filme. Mas por mais que fossem famosos, ricos, era real. O sentimento do casal era palpável, daqueles que te faz querer ter um igual, sentir as mesmas coisas, viver a mesma coisa. Talvez aquele amor arrebatador realmente existisse, mas fosse para poucos, isso explicaria tudo. Talvez eu só não havia sido contemplada.
Sendo sincera, não podia reclamar. Tinha um casamento feliz e estável, um marido de beleza estonteante, segundo minha opinião, e um filho maravilhoso. Não era igual, o sentimento entre nós não era como o do casal famoso, mas também tinha seu valor, não tinha?
— Então, . disse que você era chef em New York. — Louise disse, me despertando.
— Pois é, eu trabalhei com isso por uns dez anos. Logo que terminei as especializações, nasceu. Sabe como funcionam essas coisas, precisei parar. — Contei. — fez a parte dele como pai, obviamente, mas não foi suficiente.
— Mas, no final, quem amamenta somos nós. — Louise completou, e riu. — Tony também foi muito presente e, para minha sorte, meu trabalho me ajudou. Podia escrever em casa.
— Eu treinei bastante, consegui criar receitas novas, mas foi só. Só consegui voltar depois, quando estava com quase três anos. Mas tive que mudar meu horário, não podia ficar tanto tempo fora trabalhando, como é o normal. — Eu disse., e Louise assentiu. — Na verdade, acho que trabalhar com isso, na cozinha, e ser mãe não são coisas muito possíveis. Não se eu quiser colocar a mão na massa. — Confidenciei a ela.
— Eu escrevi um artigo para uma revista quando Alex nasceu. Era sobre mães no esporte, é chocante como é uma batalha para elas. Para todas nós, para ser sincera. Ser mulher não é fácil, ser mãe é ainda menos. Elas não recebem os direitos, são afastadas e não conseguem voltar, tem que reduzir o tempo de trabalho e uma série de coisas. E os maridos seguem a vida, como se nada tivesse acontecido. — Louise falou. — E sabe a melhor parte disso? Pelo menos é a parte que eu mais gosto. — Sorriu.
— Qual é? — Perguntei, tomando um pouco de cerveja.
— Nenhuma delas, absolutamente nenhuma, se arrepende ou preferia não ter tido filhos. — Louise revelou.
— É, isso. É como dizem, ser mãe é padecer no paraíso. — Eu disse, sorrindo.
— Um brinde à maternidade e a padecer no paraíso. — Louise e eu erguemos os copos. — Eu vou usar essa frase.
— Fique à vontade.
Se me contassem que voltando para Paradise eu reencontraria , me aproximaria dele, conheceria um casal famoso, comeria hambúrgueres caseiros com eles, eu jamais acreditaria. É sobre aquilo, as voltas que a vida dá. É quase impossível prever e geralmente é bem melhor do que imaginamos. Essa é a beleza de se estar vivo, as surpresas cotidianas. Nossas vidas são sempre atravessadas por outras pessoas, pelas escolhas de outras pessoas.
Quando voltei, sequer conseguia ouvir o nome do meu irmão sem vomitar, ou nem me passava pela cabeça frequentar a casa dos meus pais, estava conformada com meu casamento amistoso e bem com quem eu era. Hoje eu estava questionando minhas escolhas, me achando uma pessoa vazia e incomodada com meu casamento, me fazendo vinte críticas por minuto, pensando em contar aos meus pais sobre Louise e Tony, e pensando até em causar inveja no meu irmão contando a ele como Tony era simpático. Era um furacão.
. — Louise chamou. — Você estava em que mundo?
— Você me chamou? Desculpe. — Disse, sem graça. — Pensando na vida.
— Entendo. — Ela riu. — Eu te perguntei, o que você tem feito agora? Se pretende voltar a cozinhar.
— Desculpe, eu nem escutei. — Me desculpei novamente. — Eu ainda não sei. Na verdade, quando eu voltei para minha antiga cidade, eu pensei nisso. Mas muita coisa aconteceu e eu acabei deixando isso um pouco de lado. — Expliquei.
— O que você tem feito? — Louise insistiu. — Desculpe, a jornalista em mim não dá trégua. — Disse, envergonhada.
— Tudo bem, não é sempre que sou entrevistada por uma jornalista de verdade. — Brinquei. — Eu não tenho tido tempo nem para pensar sobre, acho que eu cuido deles e fico no hospital a maior parte do tempo. — Assumi. — Tem uma pessoa, um antigo conhecido, quando voltei à cidade, descobri que ele estava doente. E agora eu tenho ficado com ele no hospital, de companhia. — Contei a Louise.
— Que pena, eu sinto muito. — Lamentou.
— Eu também. — Sorri triste. — Ele não tem família, ninguém vivo pelo menos. Acho que é mínimo que eu posso fazer, ficar ao lado dele.
— E é grave? — Questionou a outra.
— Sim, pelo que eu sei, sim. — Suspirei e tomei mais um pouco de cerveja. — É difícil, ele era um homem livre, cheio de vida, é difícil vê-lo daquele jeito, no hospital, fragilizado, sem expectativas.
— Eu imagino que sim. — Louise sorriu dócil. — Vocês se conhecem desde quando?
— Desde que eu tinha uns treze anos. — A lembrança me fez sorrir. — Ele é mais velho que eu, me lembro de vê-lo na praia, e com meu irmão, algumas vezes. Ele tinha um sorriso lindo, ainda tem, mas hoje em dia quase não sorri. — Tomei mais um pouco de cerveja. — Ele é aquele tipo de pessoa que te contagia, se ele está feliz, todo mundo fica, ele tem isso. E é tão gentil e sempre estava ajudando alguém, ele era voluntário em vários lugares. — Sorri me, lembrando das coisas que fazia antes, ou pelo menos das coisas que eu me lembrava que ele fazia.
— Parece alguém verdadeiramente bom. — Louise comentou, enquanto abria outra cerveja.
— Ele é. Quando eu o reencontrei, ele não estava mais falando, agora ainda não fala, mas nós temos um código. Eu tirei de um filme que vi, ele pisca uma vez para sim, e pisca duas para não. Nos comunicamos assim, eu sempre sei o que ele quer dizer só com o olhar. Na primeira vez que ele me respondeu assim, piscando, eu quase tive um ataque, meu coração quase saiu pela boca, eu fico arrepiada só com a lembrança. — Mostrei meu braço a Louise, e ela sorriu grande.
— Você também fala de mim assim quando eu não estou perto, Louise? — Tony questionou, de repente, ao surgir atrás de Louise e ela me lançou um olhar furtivo.
Não entendi o que ela quis dizer com aquele olhar.

— Essa é a melhor viagem da minha vida inteira. — falou, enquanto se deitava.
— Que bom que está feliz. — Respondi, distraída.
— Amanhã, se o sol aparecer, vamos todos à cachoeira. E depois comer o meu bolo, e vamos fazer outro churrasco. — contou seus planos.
— Vamos sim.
— O que foi? — Perguntou, se virando para mim. — Você está estranha desde que Tony e Louise foram embora.
— O que você acha deles como casal?
— O que você quer dizer? — perguntou, confuso.
— Como casal, marido e mulher. A relação deles, o casamento, o que você acha?
— Ah, . — se ajeitou na cama e ponderou um pouco. — Eles são bonitos juntos, combinam. Parecem felizes, Tony fala o tempo todo dela.
— Ela também fala muito dele. — Observei.
— Então, eles estão apaixonados, é bonitinho de ver. Não sabia que ele era assim, família. Só aumentou a admiração. — falou. — Mas por que seu interesse nisso? Alguém falou alguma coisa?
— Não, eu só não estou acostumada a ver casais assim. — Comentei.
— Famosos? — Apaixonados, pensei. — Nem eu estou, acho que ninguém está. — riu, me deu um beijo e virou para o lado.

O domingo estava quente e ensolarado, perpetuando a tradição de que todos aniversários de eram ensolarados. Como programado por ele, estávamos todos na cachoeira. estava na água com , e Tony, Louise e Alex sentados nas pedras comigo. Estávamos fofocando sobre famosos e tirando algumas fotos.
— Diga a verdade, . — Tony pediu. — Quantas horas ele passa na academia? — Tony se referia a , que estava sem camisa, com água na altura da cintura, exibindo um físico invejável.
— Por incrível que pareça, ele corre duas vezes por semana e faz musculação três. — Contei. — Ele é assim desde que o conheci, fazia natação também.
— Eu tinha um segurança que me colocava medo. Ele era enorme, um trator. E ele ficaria pequeno perto do . — Tony disse, fingindo estar chocado.
— Não exagere. — Louise piscou. — Não é assim. Aquele segurança tinha quase o mesmo tamanho que ele.
— Me deixe elogiar o homem, Louise. — Pediu, fingindo estar contrariado.
Aparentemente, a viagem estava servindo para me mostrar que não estava apaixonada pelo meu marido e que, ao mesmo tempo, ele era o homem mais bonito do planeta. Enquanto e se divertiam, minha cabeça reprisava todos os momentos da nossa união, tentando lembrar se alguma vez eu o tinha olhado da mesma forma que Louise olhava para o marido, ou alguma vez que tivesse sorrido para mim da mesma forma que Anthony sorria para a esposa.
— Mãe, meu pai disse que dá para pular daquela pedra. Eu posso? — perguntou, inocente, quando eu entrei na água.
— Obviamente, não. Não escute seu pai, nunca. — O repreendi, e ele deu de ombros.
— Água boa, não é? — perguntou, me abraçando por trás.
— Você disse ao que daria para pular daquela pedra? — Questionei.
— Eu disse que é possível. — Respondeu, enfatizando a última palavra. — Ele está se divertindo, disse que quer voltar no próximo ano. Poderíamos combinar com o Tony.
— É, talvez eles consigam vir. — Concordei. Realmente, era uma boa ideia, afinal, quem não quer férias anuais com Louise e Tony Render?
— E você, se divertindo? — Perguntou.
— Eu estou. — Disse, e me virei para encará-lo. — Tem sido um bom fim de semana. Louise é uma companhia agradável, parece que nos conhecemos desde sempre. Tony é um doce, Alex é muito educado e gentil. E eu senti falta de viajar com vocês, mesmo que todas as atenções estejam com Tony e não em mim. — Impliquei, fingindo estar enciumada.
— Querida, prioridades. — disse. — Ganhe um grande prêmio, depois nos falamos.
— Que idiota! — Disse, e bati de leve em seu peito, fingindo estar muito magoada, gargalhou.
— Você acredita nisso? Bem ali, o Tony Render. Será que se eles postarem alguma foto, vão aparecer fotógrafos na nossa casa?
— Eu acho bom que não. — Disse.
— Você não quer ser famosa, Liv? Pensa no que o Charlie diria.
— É, pensando assim… — A ideia era boa.

— Meus parabéns, . — Tony falou, enquanto o abraçava. — Qual o sabor de suplemento que tem no bolo? Chocolate ou morango? — Zombou.
— Nenhum, o bolo é falso. Vamos comer ovos cozidos e suco detox. — entrou na brincadeira. — Não achou que teria bolo, não é?
— Não acredito que você seria capaz dessa atrocidade. — Tony fingiu estar chocado, colocou uma mão no peito e se escorou na parede.
, os ovos. Pode pegar. — Ordenou .
— Você está expulso do fã-clube, ! — Tony exclamou.
— Eles vão ficar nisso até ano que vem. — Louise disse. — Eu conheço bem.
— Acho que devíamos cortar o bolo, então. — Eu sugeri.
— Vamos deixá-los aí falando sozinhos e entrar. — propôs.
— Se você esconder o bolo do Tony, aí sim, ele vai subir pelas paredes. — Louise contou, e nós rimos.
— Ninguém na escola vai acreditar que eu conheci o Tony. — disse, quando Louise se afastou de nós.
— Que sorte, não é? Termos vindo para cá justo nesse fim de semana. Você tirou fotos com ele?
— Sim, tirei várias. Tia Louise disse que vai escrever uma matéria sobre esse fim de semana. — Contou.
— Tia Louise?
— Ela que disse, mãe. — se explicou, e eu ri. — Podemos chamá-los para o meu aniversário?
— Querido, podemos tentar. Mas eles moram muito longe e são muito ocupados. — Expliquei. — Mas quem sabe…

Depois do bolo, Tony e Louise anunciaram que estariam indo. O mundo de e desabou. Depois de trocarmos contatos, de abraços, recomendações sobre a viagem e sobre as competições, eles estavam prontos para partir.
, eu espero que aquela pessoa, de quem falamos, fique bem. — Disse, sorrindo, enquanto segurava minha mão. — Vou te dizer algo que eu demorei para entender, mas quando consegui, mudou minha vida. Pare de se esconder da vida, viva. — Ela enfatizou.
— Eu vou me lembrar disso. — Assim que entender o que quis dizer, pensei.
— Aí, eu acho que vou chorar. — disse, assim que a família entrou no carro.
— Segura sua onda, Rambo. — Brinquei, acariciando os cabelos de .

— Enfim em casa. — suspirou. — Se tivesse que dirigir por mais meia hora, eu acho que dormiria no volante.
— Eu disse para me deixar trazer o carro, mas você é teimoso demais. — Falei.
— Eu disse que dormiria, não que dormi. Eu não tive culpa, o trânsito estava ruim. E você sabe que eu sempre fico com sono quando pegamos trânsito. — se explicou. Era a quinta vez que ele se explicava desde que saímos do chalé.
— Se você não tivesse saído tão tarde, não teríamos pegado trânsito. — Resmunguei.
— Será que o Tony pegou trânsito? — perguntou, e eu revirei os olhos.

A viagem de volta sempre era mais longa que a ida. tinha tido a brilhante ideia de viajar à noite para fugir dos engarrafamentos e acabamos pegando um de mais de dois quilômetros. nos ajudou com as malas e enfim íamos todos dormir. Não conseguia me lembrar da última vez que fiquei tão cansada com uma viagem, meus desejos eram apenas um banho fervendo e uma cama quente.
, veja se tem alguma ligação perdida ou coisa assim. — pediu, e foi conferir. — Acho que ninguém vai querer jantar. — Comentou.
— Eu me demiti, estou indo dormir. — Falei, antes que tivessem a brilhante ideia de sentir fome. — Algum recado, querido? — Perguntei a .
— Não, mãe. — Afirmou.
— Então, boa noite. — Beijei seu rosto. — Não me acordem amanhã. Nem se a casa estiver pegando fogo. — Avisei, um pouco ameaçadora.



Capítulo 08

Não acordei tão tarde quanto gostaria, mas tarde o suficiente para quase perder a hora do almoço. Uma das coisas que eu mais sentia falta da juventude era dormir sem ter hora para acordar. Uma liberdade boa, não ter rotina, não ter horários. Sendo uma mulher casada e mãe, agora eu tinha responsabilidades mais urgentes, como preparar o almoço dez minutos depois de acordar.
A campainha avisou que eu teria alguma visita indesejada. Estava de pijamas, cozinhando várias coisas ao mesmo tempo. Meus planos eram terminar o almoço, tomar um banho e me preparar para fingir ter acordado às sete da manhã.
— Você. Oi. — Descobri Charlie sorrindo e animado do outro lado da porta. De todas os possíveis visitantes, eis o pior.
— Oi. Não vi mais você, resolvi aparecer. — Ele explicou, estava alegre. — Posso entrar?
— É, entra. — Respondi, sorrindo amarelo.
— Eu estive aqui no sábado. — Charlie contou. — A casa é ótima. Tem quintal atrás? — Perguntou, enquanto passeava pela sala e corredor.
— Nós viajamos, foi aniversário do . Sim, temos quintal. Alguma outra pergunta? — Não que eu fosse uma pessoa tão desagradável, é só que eu só sabia lidar assim com meu irmão, era assim desde que me lembro.
— Desculpa a entrevista. — Charlie riu. Aparentemente, ele ignorava minha grosseria. — É uma casa bonita, de qualquer jeito. Parece bem grande, deve gostar. Ele está na escola?
— Sim, e no trabalho. É, ele gosta, mas não aproveita muito, fica mais jogando ou na televisão. — Expliquei, me atendo às panelas, Charlie se aproximou da ilha da cozinha e ficou ali me observando cozinhar.
— É a geração. Acho que todos são assim, Jack, pelo menos, é. Nós lutamos para ele ir para fora. — Charlie contou. — Quantos anos fez? Devíamos sair para beber, comemorar. — Sugeriu.
— Trinta e oito. Fale com ele, ele disse que queria sair para jogar sinuca, ele vai gostar da ideia. — Garanti.
— Devíamos marcar um jantar, um almoço. Todo mundo. — Charlie estava realmente focado em socializar.
— Quem sabe. — Eu não tinha o mesmo espírito, nem estava com ânimo para aturar a família toda reunida.
— Não é porque você se isolou em New York que temos que continuar assim. — Não acreditava que ele estava fazendo aquele drama todo. — Nós somos só três. E não precisamos esperar alguém morrer para pararmos com essas brigas de criança.
— Quem você está chamando de criança? — Indaguei, o encarando, tinha na mão direita a faca que cortava as cebolas.
— Você nem está olhando para mim quando eu falo com você, . — Charlie falou. — Eu percebi, aquele dia, que você ficou me provocando o tempo todo, falando da Carly e de tudo.
— Eu? — Desconversei. — Eu só falei o óbvio. Mas, como sempre, tudo é sobre você, não é?
— Por favor, você sumiu do mapa e se achou no direito de ficar brava porque eu e Susan somos os padrinhos de Jack e não você. — Ah, então era sobre isso.
— Charlie, todo mundo está cansado de saber que você faz de tudo para chamar atenção. Dos nossos pais, de todo mundo. Nem amigo do Ted você era e aí se torna padrinho do filho dele? Por favor. — Estávamos tendo uma briga?
— Você não muda, não é? — Charlie disse, depois de um longo suspiro. — Continua egoísta. Você realmente acha que a vida de todo mundo continuou do mesmo jeito, só a sua que mudou. Que você ainda é mais legal ou melhor que todo mundo, mesmo sendo uma babaca. — Charlie falou, seu tom era duro, austero.
— Você só quer isso, marcar coisas, para mostrar o quão bom você é. Para ficarmos todos te aplaudindo e babando. Por isso, eu e Oliver nunca estamos perto. — Expliquei, enquanto fazia a melhor cara de nojo que conseguia.
— Ah, não. Acorde, . Você nunca está por perto porque só pensa em você e nas coisas que quer. Oliver também, ou nunca notou. — Charlie questionou. — Oliver morou em New York por quase um ano. Quantas vezes ele foi visitar a irmã querida e o sobrinho? — O tom de voz e as perguntas de Charlie cortavam tanto quanto uma faca quente na manteiga gelada.
— Ele não morou em New York, só ficou um tempo lá. — Expliquei, tentando justificar meu irmão.
— É, ele ficou um tempo lá, quase um ano. Sabia que ele tem um apartamento lá? — Charlie indagou, depois se sentou em uma cadeira, apoiou o rosto nas mãos, os cotovelos na ilha e ficou me encarando.
— O que Oliver faz não é da minha conta. Por que você insiste em tentar jogá-lo contra mim? — Perguntei, magoada.
— É simples, eu não tento jogar ninguém contra ninguém. Eu gosto de apresentar os fatos e você faz o julgamento. — Charlie parecia estar empenhado demais em queimar o filme de Oliver. — Você não estava aqui, nunca esteve. Pegou suas coisas e sumiu. Nunca mandou um oi para ninguém. O máximo que eu soube de você, foram mensagens que alguns anos você mandava nos aniversários. Eu me casei, Ted e Natalie se casaram, tiveram o Jack, morreram e você sempre era a pessoa importante demais para se incomodar com o resto do mundo, com as pessoas daqui. E o Oliver a mesma coisa. Oliver fez o que quis, sempre. Ele viajou o mundo todo. Só voltava para a casa da minha mãe quando ficava sem grana, inclusive era por isso que ele estava aqui. — Charlie sempre se achava o dono da razão, sempre o mais certo, o que devia ser ouvido. Ele adorava jogar as verdades sobre os outros, nunca as sobre ele. Geralmente, com intuito de magoar, e às vezes ele conseguia o que queria.
— Oliver vai embora? — Perguntei, confusa.
— Não sabia? Ele vai no final do mês. Bangladesh. — Charlie disse, vitorioso. — Está vendo? É disso que eu estou falando. A diferença entre você e ele, é que ele não cobra nada de ninguém. Ele sabe bem o que é e o que faz. — Charlie falava, alto, e tinha as mãos espalmadas sobre a ilha, como se fosse se levantar a qualquer momento. — O problema não é você sumir, cuidar da sua vida. O problema é você voltar se achando superior a todo mundo, você nunca fez nada para ajudar ninguém, não tem direito nenhum de cobrar coisa nenhuma.
— Escuta, Charlie. Se você acha que pode vir até a minha casa e, sem motivo, ficar falando essas coisas para mim… — A chegada repentina de interrompeu minha resposta.
— Oi. — cumprimentou, pela sua expressão confusa, devia ter escutado algo.
— Oi, . Como está? — Charlie se levantou e o abraçou.
— Oi, tio. — e Charlie pareciam ter uma certa familiaridade da qual eu não estava ciente. — Nós fomos viajar. O Tony Render estava lá, meu pai me ensinou a pescar com rede, eu tentei fazer como você. Com a vara é bem mais fácil. Meu pai pegou um peixe enorme com as mãos e o Tony fez hambúrgueres com a gente.
— Quem? — Charlie perguntou, e sorriu. — Você tem que contar uma coisa de cada vez.
— Você vai ficar para almoçar, não é? Eu te conto tudo. — perguntou. Ele estava empolgado?
— Oi, . Também estou bem, obrigada por perguntar. Banho, agora. — Ordenei, enciumada.
cumprimentou Charlie mais uma vez, com um toque especial, e nos deixou.
— Mas o que é isso? — Questionei.
— Nós saímos algumas vezes. Eu, , Oliver e . — Charlie explicou.
— E por que eu não sabia disso?
— Se seu marido não contou, é porque sabe que você faria cena, do mesmo jeito que está fazendo agora. — Charlie esclareceu.
— Em menos de uma hora, você já me chamou de imatura, insensível, egoísta, mimada, dramática. Já é o suficiente por hoje. — Disse, apagando as chamas e finalizando o almoço. — Você não tem um trabalho?
— Tio, você tem que ver as fotos que nós tiramos. Tem o Tony no aniversário do meu pai, tem a gente na cachoeira… — contou, animado, de volta à cozinha.
— Vamos marcar um dia, eu quero que você me mostre tudo e me explique que história é essa com Tony Render, . — Charlie se levantou e se espreguiçou lentamente. — Eu não trabalho hoje, . Tirei o dia para fazer visitas. Fui à minha mãe, aqui e agora vou para o hospital. — Explicou.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
— Vou ver um amigo, me ligaram do hospital hoje. — Charlie explicou, triste.
A palavra “hospital” e “” começaram a piscar na minha mente de repente. Como eu poderia ter esquecido? Deveria aproveitar e acompanhar meu dócil irmão até o hospital. Mas deixaria sozinho em casa?
— Não ligaram para você, ? — Charlie perguntou, docemente.
— Para mim? — Como assim? Pensei. — Por que me ligariam?
— Soube que você tem o visitado, me disse. Achei que tivessem te avisado.

Era um pesadelo.
Só poderia ser um pesadelo. Eu saía por um fim de semana e, de repente, tudo mudava. O chão sumiu, estava flutuando, insegura, prestes a cair. Meu estômago era um buraco negro que me sugava à medida que eu respirava. O ar se tornou tóxico, a cozinha insuportavelmente fria, tudo à minha volta era como um filme antigo, mudo e cinza.
— Ninguém me avisou. — Disse, tão baixo que duvidei que Charlie tivesse escutado.
me olhava assustado, Charlie caminhou até mim e segurou minhas mãos.
— Você está bem? Está gelada. — Constatou. — , pegue um pouco de água.
— Por que ninguém me avisou que ele estava mal? — Indaguei, ainda tonta.
— Talvez tenham ligado no fim de semana. — Ponderou Charlie. — Me deixe ver.
parecia estar assustado, talvez pelo meu estado. Quando me entregou o copo com água, estava quase tão transparente quanto o líquido.
— Aqui, tem umas cinco ligações do hospital. — Charlie contou. — Desde sexta.
… — Eu entendia a reação dele. Não era por minha causa, pelo menos não pelo meu estado atual. — Posso ir para o hospital com você? — Perguntei.

A viagem até o hospital durava cerca de quinze minutos, mas pareciam quinze anos. A culpa era minha, eu não deveria ter deixado sozinho. não entendia, não entendia o que estava acontecendo, eu não devia ter dado ouvidos a ele. Tive a chance de ficar com , ele estava até melhor, e então eu estraguei tudo. As palavras de Charlie também ecoavam na minha cabeça. Egoísta. Eu fui egoísta, não é? Deixei sem nem ao menos me despedir.
Eu estava prestes a vomitar, minha cabeça doía, não tinha ar suficiente para respirar. estava no banco de trás e eu ao lado do meu irmão. Charlie me observava preocupado, seus ombros estavam tensionados, mandíbula travada.
Quando enfim foi possível enxergar a fachada do hospital, parecia que o banco do carro estava completamente eletrificado. Eu sentia o choque por todo meu corpo, sendo mais um estímulo para que eu corresse para dentro do hospital. Saí do carro sem sequer olhar onde pisava, nem para os lados ao atravessar a rua. Levei apenas alguns segundos para chegar até a porta do quarto e mais tempo que o normal para conseguir girar a maçaneta.
Me lembrava do último dia que o havia visto, o beijo em seu rosto, a notícia da melhora. Me lembrei também de quando o reencontrei. O desespero, o cheiro do quarto, o estado que ele estava, sua aparência. Talvez agora, ao abrir aquela terrível porta, eu me deparasse com ele do mesmo jeito que encontrei, caminhando para a morte.
Era demais para mim, demais para segurar. As lágrimas surgiram da mesma forma que a água quando uma barragem se rompia. Sem fim, fortes, incontroláveis, doloridas. Doía em mim a dor que ele poderia estar sentindo, doía a dor que eu poderia ter causado, a dor que eu sentia, o medo de perdê-lo mais uma vez. Os sentimentos que eu carregava desde o primeiro dia, mas que ainda não tinha externalizado, agora se tornavam pesados demais.
Encostei na parede frente à porta e me deixei dissolver até o chão. Dissolver como as minhas lágrimas, dissolver junto com tudo que eu achei saber e ser, e que se mostravam máscaras e mentiras. As palavras de meu irmão, a culpa, o medo, a negação. Estava apavorada.
e Charlie chegaram ao corredor e foram ao meu encontro. se abaixou e ficou em silêncio, ao meu lado. Charlie, na minha frente, tentava me acalmar acariciando meus ombros e cabeça. Ninguém disse nada, meu irmão não me julgou, meu filho não me culpou, só me acolheram.
Depois de quase uma hora chorando, consegui me recompor minimamente. O médico, Rafael, também notou nossa presença e teve a sensibilidade de me dar um tempo antes de aparecer.
— Doutor. — Charlie cumprimentou o médico.
— Boa tarde. Vocês precisam de algo? — Rafael perguntou, ele tinha um olhar terno e parecia preocupado com nosso estado. Eu estava péssima, visivelmente assustado e Charlie também não estava nos seus melhores momentos.
— Nós viemos pelo . Soubemos que ele não está bem. — Explicou Charlie.
— Eu estava viajando, não sabia. Por isso não apareci antes, eu … — Tentei me explicar e recebi um olhar compreensivo e doce como resposta por parte do médico.
— Bom, houve uma piora importante. Não sabemos ainda do que se trata. Pode ser algum tipo de agravo da síndrome, nós não entendemos bem como ela funciona. Pode ser uma pneumonia, alguma falência sistêmica, ou sepse. Ainda estamos investigando. — Rafael relatou.
— Se você puder ser mais claro, doutor. — Charlie pediu.
— Não sabemos ainda do que se trata, pode ser algo simples, ou não. É só isso que temos por enquanto. — Rafael parecia agora tão triste quanto eu.
— Nós podemos vê-lo? — Perguntei, impaciente e ansiosa.
— Um de cada vez e por pouco tempo. O quadro é delicado, não podemos estressar muito o nosso amigo. — Orientou.
— Pode ir primeiro, Liv. Eu fico aqui com . — Meu irmão cedeu e eu aceitei.
Talvez Rafael soubesse da minha falta de coragem para abrir a porta, ele mesmo resolveu fazer isso, praticamente me empurrando para dentro do quarto. não estava acordado, tinha fios presos ao corpo, mas não estava mais tão esquelético quanto antes. O quarto tinha um cheiro diferente, mas não era o mesmo do primeiro dia. Provavelmente, as lágrimas já estivessem marcando o chão no lugar que estava parada. Era difícil vê-lo naquela situação. Novamente.
— Oi. — Disse, entre soluços, e me aproximei do leito. — Me desculpe. Eu não podia ter deixado você. Eu sinto muito. — Talvez eu estivesse chorando mais num dia do que havia chorado a vida inteira.
Me sentei na cadeira de sempre e apoiei a testa no colchão. Não conseguia nem mesmo olhá-lo ali, tão frágil. Não era assim que eu o havia deixado, mas considerando que eu nem deveria ter ido, não podia reclamar. O que eu deveria ter feito? Dizer a e a que não podia viajar? De qualquer forma, eu teria feito alguém sofrer. Todas as minhas escolhas davam em um beco sem saída, eu não conseguia tomar nenhuma decisão sem magoar alguém.
Ao voltar meus olhos para seu rosto, me assustei com um acordado e me encarando. Seu olhar era confuso e existia um quê de ressentimento, eu conseguia sentir.
— Eu sinto muito. — Continuei, entre soluços. — Eu não devia ter ido, ou pelo menos devia ter te avisado. Eu sinto muito. — respirava com dificuldade, seus pulmões chiavam tanto que era possível ouvi-los de onde eu estava.
me observava sem piscar e, talvez pela primeira vez, eu não pudesse entender o que seus olhos queriam me dizer. Era como se ele estivesse com dor, agonia, sofrendo. Talvez sua piora fosse maior do que estavam prevendo. não mexia um músculo, estava imóvel. Uma estátua, com olhos bem vivos, encarando minha alma.
— Eu não vou sair daqui. — Assegurei, segurando suas mãos. — Não vou nunca mais sair do seu lado, eu prometo. Não vou deixar você sozinho, nunca mais. — Prometi.

Charlie bateu à porta e a abriu, dizendo que eu deveria deixar descansar, ele também queria vê-lo um pouco.

— Eu tenho que ir agora. Mas eu volto amanhã para ficar com você. — Prometi, e piscou uma vez. — Descanse, fique bem. — Disse, e beijei sua testa.
No último encontro, um beijo semelhante foi dado por motivos bem diferentes e gerou reações bem distintas. Desta vez, era como se ao mesmo tempo que eu lhe assegurava que estaria com ele, também me certificasse de que se algo pior acontecesse, teríamos nos despedido. Foi talvez o beijo mais demorado e dolorido que havia dado em toda vida.
Quando saí do quarto, novamente a tormenta de lágrimas surgiu e eu só queria desaparecer. Deixei meu irmão, e o médico no corredor e tentei correr para longe de mim, longe dos meus pensamentos.
O jardim do hospital era um dos poucos espaços vazio àquela hora. A água esverdeada do lago refletia as árvores e o sol da tarde, alguns pássaros cantavam longe e era possível ouvir algumas vozes. Não era o melhor lugar para chorar, mas eu estava confusa e triste demais para me preocupar em ter dignidade. Estava com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos no rosto, sentada no banco mais distante do hospital e mais próximo da margem do lago. Entremeio aos meus soluços, pude ouvir alguém se aproximando. O médico. Com certeza Rafael estava ali para me repreender e dizer o quanto eu fui imprudente e relapsa em ter abandonado . Mas ele se aproximou, se sentou ao meu lado e ficou em silêncio por muito tempo, até que eu ficasse incomodada e resolvesse falar alguma coisa.
— Precisa de alguma coisa? — Perguntei, ríspida.
— Você precisa de alguma coisa? — Repetiu, e eu ri sem humor e voltei a encarar meus joelhos.
O médico continuou sentado em completo silêncio, apenas observando o lago e os patos dentro dele.
— O que está te machucando? — Doutor Rafael perguntou, depois de uma eternidade de silêncio.
— Por que acha que estou machucada? — Perguntei, sem olhá-lo.
— Meus professores sempre disseram que um bom médico precisa saber reconhecer a dor, mesmo quando seu paciente não for capaz. — Explicou.
— Foi por minha causa, não é? piorou por minha causa? Porque eu o deixei. — Indaguei, tentando intercalar os soluços com as frases.
— Às vezes nós não estamos preparados para certas mudanças. Às vezes achamos que tudo dura para sempre, sem mudança, no nosso controle, que nada mais influencia. Uma visão no mínimo equivocada. — Falou o médico.
— O quê? — Questionei, confusa. — Por que está falando assim? É só dizer que foi minha culpa e pronto. Dizer que eu não deveria ter saído do lado dele, porque o precisava de mim. — Me virei para encará-lo.
— Nem tudo é tão simples. e a saúde dele também não são coisas simples, não dependem de você. Não é sobre você. — Rafael explicou.
— Como não? — Doutor Rafael geralmente era estranho, mas estava passando dos limites. — Ele estava melhorando e eu fui embora, ele piorou por isso. Eu não podia ter ido. Mas eu não vou mais sair desse hospital, eu juro. — Eu disse, nervosa, enquanto tentava secar algumas lágrimas.
, não é uma pessoa tão frágil quanto pensa. Ele já passou por muita coisa, ele sobrevive a isso também. E você, pelo que eu vi, tem uma família, um filho. Você não pode se culpar por ter uma vida. — Esse médico era mesmo uma pessoa estranha. Eu não consegui me conter enquanto o médico falava e desabei novamente, mas agora ele resolveu me dar um pouco de apoio, colocando uma das mãos nas minhas costas.
— Eu não entendo. — Disse, sem olhá-lo, tentando evitar que ele me visse chorando. — Eu estou tão perdida. Eu não posso escolher. Eu tenho meu filho, meu marido, mas eu não posso deixar o . Eu sempre faço tudo errado. Se eu não tivesse vindo aqui, eu não saberia dele, ele não me conheceria e isso não teria acontecido. Eu nunca devia ter voltado para essa cidade. — Eu falava e chorava alto, qualquer pessoa que estivesse a dois metros de nós poderia me ouvir. — Mas eu nunca saberia sobre Ted e Natalie. Eu nunca deveria ter saído da cidade. Eu conheceria o filho do Ted, talvez ele não morresse e eu poderia estar casada com , porque ele está solteiro. Eu não devia ter fugido, se eu tivesse ficado, tudo seria tão diferente. — Lamentei, encarando Rafael, que acompanhava tudo com paciência e empatia. — Mas eu não teria meu filho. Eu só fiz escolhas ruins a minha vida toda e continuo fazendo. Por que eu sou assim? Magoo todos à minha volta. Eu magoo meu filho e marido por ficar tanto tempo no hospital, magoo por abandoná-lo sem razão, magoo meus pais por nunca ir vê-los, nunca ligar. Meu irmão, ele está aqui comigo, mas está magoado porque queria que nós nos aproximássemos e em vez disso nós brigamos, eu acho que tenho muita inveja dele e de como ele consegue ser uma boa pessoa, um bom filho e amigo e fazer tudo parecer tão fácil. Eu não sei fazer isso, não sei o que fazer. — Desabafei.
Todas aquelas coisas estavam se passando dentro de mim, algumas desde que cheguei à cidade, outras nas últimas horas. Eu não tinha amigos na cidade, não mais. Pelo menos não o tipo de amigos que eu poderia desabafar assim, dizer das minhas inseguranças, dizer de tudo que eu sentia. E, mesmo assim, disse tudo para alguém que eu vi apenas algumas vezes na vida, alguém que eu sequer conhecia direito. Rafael pareceu absorver tudo o que eu disse e pensava em algo para falar, eu já me sentia melhor só por ter dito tudo.
— Sabe, eu sempre admirei as rosas. O perfume singelo, a beleza, a forma. Acho que não tem ninguém no mundo que não goste. — Rafael comentou, e eu comecei a observá-lo. — As rosas, assim como outras flores, são coisas bem curiosas. Nem sempre que elas desabrocham elas saem perfeitas, exuberantes e lindas como estamos acostumados a ver. Algumas vezes, elas saem defeituosas, o mesmo galho é capaz de gerar flores perfeitas numa floração e flores defeituosas na outra. E quando isso acontece, ninguém arranca a roseira, só fazem a poda, do mesmo jeito que fazem quando ela produz uma flor perfeita. E então se espera até a próxima floração. — Rafael sorriu, me olhou nos olhos e continuou. — É simples. Todas as vezes a roseira tem a mesma oportunidade de desabrochar uma rosa perfeita ou não, e ela segue tentando. Estação após estação.
— Eu não entendo de rosas, doutor. — Disse, confusa. — Nem entendi muito o que você quis dizer. — O médico riu.
— Todos os dias, todas as horas do dia, você pode voltar atrás e tentar desabrochar uma rosa perfeita. Você tem a chance de recomeçar todos os dias enquanto estiver viva. — Rafael esclareceu.
— Mas eu sempre faço a coisa errada, não sei se ter uma chance todo dia mudaria isso. — Expliquei, chateada.
— Se você já sabe o que não fazer, só falta aprender o que fazer. — O médico disse. — E sobre as plantas, você pode agradar as plantas com sol e com a chuva quase na mesma medida. Mas sol demais faz as plantas secarem e chuva demais as afoga. — Ele se levantou.
— Doutor, eu não entendi. Eu estou dando sol demais para alguém? Ou eu deveria intercalar sol e chuva com , sendo o sol a minha presença e a chuva a ausência? — Indaguei, confusa, e Rafael riu.
— Por que você só enxerga dois caminhos? Nem tudo é tão prático. — Ele disse.
— As plantas não vivem só com sol, ou só com chuva. — Afirmei, parecia estar entendendo. — Quer dizer que eu tenho que criar uma escala?
— Acho que é melhor nós conversamos em outro dia, você está cansada. — Rafael riu. — Aliás, sobre mudanças: além das chances de mudar que temos todos os dias, às vezes a vida nos oferece uma chance especial de reescrever a nossa história. Essas chances não aparecem todo dia, .
Dizendo isso, o médico simplesmente deu as costas e foi para dentro do hospital. Ele era um homem estranho, mas, mesmo assim, era como se tivessem tirado uma tonelada das minhas costas. Uma chance todos os dias, sol e chuva, plantas. Eu devia fazer o quê? Fazer uma escala de visitas? Mudar quem eu era? Ignorar tudo e reescrever? Ou revisar o livro da minha vida até agora e tentar corrigir os erros?
Sequei os olhos pela quinta vez no dia. Nunca tinha sido alguém do tipo que fica chorando e se lamentando, não começaria agora. E se fosse para chorar, pelo menos seria pelo motivo certo.


Capítulo 09

Às vezes eu me perguntava de onde meu irmão tirava as coisas que pensava sobre mim. Por muito tempo pensei que fossem delírios de uma mente ciumenta e recalcada. Sempre pensei que devia me valorizar, me pôr em primeira opção, ninguém faria isso por mim se eu não fizesse primeiro, eu precisava reconhecer meu lugar no mundo. Mas quando nasceu, aprendi que eu já não era suficiente como prioridade e tudo se voltou para ele. A vida ensina, o mundo ensina, meu filho e meu casamento me ensinaram muitas coisas sobre narcisismo, autocrítica e amor.
Mas talvez tudo tenha sido superficial demais para fazer sentido, para me atravessar. Eu nunca havia repensado minha adolescência e juventude, sempre achei que tinha feito o melhor que podia, mas isso era apenas um jeito covarde de ignorar qualquer culpa ou erros que tivesse cometido. Nunca parei para racionalizar minha relação com meus irmãos, continuava enxergando Oliver como o irmão legal e Charlie como o chato ranzinza que sempre aparecia para receber todas atenções e dar lições de moral. Mas eu não tinha mais dezessete anos, tinha mais de trinta, tinha que agir como tal.
Charlie estava certo, eu era egoísta e sempre fazia tudo errado. Me lembro de quando nós ainda morávamos com nossos pais, depois de infernizar a família toda para que não fôssemos viajar e eu pudesse ir a uma festa, tivemos a pior briga. Charlie dizia que eu só me importava comigo mesma, que provavelmente não sabia amar ou ter empatia por alguém. Talvez ele estivesse certo, talvez eu só tivesse essa obsessão por por nunca poder tê-lo. Nunca soube amar alguém, por isso estava casada com um homem por quem não era apaixonada.
Mas eu tinha empatia, não era uma psicopata. Eu me importava com , , com meus pais, Oliver e até com Carol e Charlie. Me importava com eles, com o que pensavam. Não era o tipo megera que está casada com alguém enquanto pensa no amante, por mais que as vezes soasse assim. e eu tínhamos uma espécie de acordo silencioso, um trato nunca dito. Nós sabíamos que não éramos os grandes amores de nossas vidas, sabíamos que nosso relacionamento estava mais para uma amizade colorida do que uma paixão avassaladora.
Ele sabia disso, eu sabia disso. Era um acordo mútuo onde não nos preocupávamos com esses detalhes, mas sim com o bem-estar da nossa família, do nosso filho. Éramos parceiros de vida, amigos e será que isso era tão ruim?
Mas, mesmo assim, não conseguia me sentir confortável com a situação. Era como se eu estivesse traindo todas as vezes que ia ao hospital, mesmo que os sentimentos fossem absolutamente platônicos e internalizados, eles ainda existiam. Eu estava confusa, triste, preocupada, com medo, tudo de uma vez só. Desde a piora de , visitá-lo no hospital havia se tornado uma interminável sessão de terapia.
Eu chegava pela manhã, me sentava o mais longe possível dele, longe do alcance dos seus olhos e pensava. O silêncio do quarto me ajudava a clarear a mente enquanto buscava uma saída para meus problemas. Depois de passar o dia todo mergulhada no meu caos, eu pegava na escola e íamos para casa. Pelo menos em partes eu tinha conseguido encontrar uma solução. e não reclamavam mais da minha ausência e eu fingia estar feliz e presente quando estávamos juntos. Quando estava com , eu não sentia necessidade de fingir, eu apenas me permitia ficar triste, encarando o nada e contemplando a face da minha existência vazia.
No primeiro dia em que fui vê-lo, após meu colapso emocional e a viagem, me encarou por todos os segundos em que estive no quarto, seu olhar me atravessava. No segundo dia, ele parecia ressentido, passou a maior parte do dia de olhos fechados ou encarando o teto. Nas poucas vezes que se voltou para mim, eu fui incapaz de decifrar o que queria dizer. No terceiro dia, parecia refletir meu olhar triste, confuso e vazio. Ele me olhava, mas na maior parte do tempo parecia estar olhando para dentro de si mesmo, como se eu nem estivesse ali, e assim ele se comportou até o final da semana.
Em nenhum daqueles dias eu tive coragem de encará-lo. Estava envergonhada, triste, decepcionada. Não queria saber o que ele pensava ou como ele agiria se eu tentasse me aproximar.
— Eu estou indo — avisei, depois de verificar as horas. — Boa noite — disse sem encará-lo, enquanto pendurava a alça da minha bolsa no ombro.

Não o olhei, mas de soslaio pude ver que ele me encarava. Eu não fazia ideia do que era pior, saber o que ele estava pensando ou continuar com aquela incógnita.

Nas sextas, costumávamos ter visitas para o jantar. Ora meus pais, ora Oliver. E como o dia da viagem de Oliver se aproximava, a noite seria dele. Depois de pegar na escola e fazer compras, teria que cozinhar para recepcionar meu irmão, que não dava as caras desde antes do fatídico fim de semana.
O jantar fora completamente voltado para nossa viagem e nossa companhia famosa. e já haviam contado todos os detalhes de cada um dos dias da viagem pelo menos três vezes. Oliver achava tudo muito engraçado, sua personalidade leve e fluída era capaz de tornar qualquer momento tedioso em uma festa animada, mas dessa vez eu não conseguia acompanhar. Se o plano de Charlie era me jogar contra meu irmão gêmeo, eu poderia dar-lhe os parabéns, ele havia conseguido.
— Você está em qual mundo hoje? — Oliver perguntou, trazendo mais pratos para a cozinha depois do jantar.
— Em nenhum, só estou cansada — respondi sem encará-lo.
— Você está diferente. — Oliver reparou.
— Ah, você acha mesmo? — questionei irônica.
— Já sei, aconteceu alguma coisa. Me conte — pediu, se recostando na pia.
— Por que nunca me disse que morou em New York? Por que nunca foi nos visitar lá nem uma vez? — indaguei ressentida.
— Porque eu não tinha tempo. — Oliver deu de ombros.
— Não tinha tempo? É sério? — questionei indignada.
, eu tinha a minha vida, tinha meus compromissos, minhas viagens. E você também nunca me visitou — se explicou.
— Eu nem sabia que você morava lá! — esbravejei.
— Tudo bem, não sabia. Mas, , eu estava lá. Se tivesse acontecido algo, eu iria até você — Oliver disse.
— Você não podia ceder vinte minutos do seu precioso tempo para visitar sua família? Francamente… — não acreditava no que estava prestes a dizer, mas não existia resposta melhor — Charlie estava certo sobre você — completei.
— Oi? Charlie? Desde quando vocês se falam? — Oliver perguntou, rindo confuso.
— Não importa, não mude de assunto — o cortei séria. — Você morou na mesma cidade que eu e nunca se deu o trabalho de me visitar, nunca nem me falou sobre isso.
— É, isso aconteceu, mas e daí? Já foi, . Eu visito vocês agora — falou.
— É, mas eu precisei saber pelo Charlie que você estava saindo do país — desabafei chateada.
— O Charlie tem se saído um belo fofoqueiro. O que mais ele disse sobre mim?
— Nada. Fofoqueiro ou não, ele está certo. Certo sobre você e provavelmente certo sobre mim — falei, voltando minha atenção para a louça na pia. — Talvez nós dois sejamos egoístas, péssimas pessoas, incapazes de amar.
— Por que você está fazendo tanto drama com isso? — Oliver questionou. — Nós fizemos escolhas, . Eu, você e o Charlie. Eu escolhi ser livre, viajar por aí, você escolheu se afastar e ser a tia rica que liga no natal e o Charlie escolheu ficar e manter o legado da família na cidade, cuidar dos nossos pais — disse com simplicidade. — Também acho que no fundo ele tenha razão. Se eu pensasse como ele, também nos acharia muito egoístas por termos saído pelo mundo e deixado ele sozinho aqui.
— Você concorda e admite? — perguntei chocada.
— Mas é a verdade. Eu não deixaria de fazer o que eu gosto por nada, mas fico feliz que alguém tenha ficado e que cuide dos nossos pais. Se eu sou egoísta por não querer me prender, por ser livre, então que seja. Eu sei dormir com isso, não me atrapalha em nada — confessou sorrindo.
— Como você consegue? — indaguei, pasma.
, você nunca se importou muito com o que as outras pessoas pensavam, por que começar agora? Geralmente, com a idade o processo é o oposto — Oliver brincou.
— Eu não quero ser assim, ser essa pessoa que não liga para ninguém, que não se importa com ninguém, que só vive para si — admiti.
— Você não é assim, eu sou, um pouco — Oliver brincou. — Não pode se culpar por ter feito o que queria fazer e Charlie não pode te culpar por ele ter feito o que precisava fazer. Acho que vocês complicam demais.
Oliver riu e deixou a cozinha.
Era isso? Simplesmente aceitar que se é um cretino? Não pensar nas consequências ou nas pessoas que sofreram com isso? Pela primeira vez em toda minha vida eu começava a entender o que Charlie dizia e a pior parte era que ele tinha razão.
Os últimos meses tinham sido tão confusos, não compreendia o que estava acontecendo comigo. Tudo que eu entendia e acreditava parecia se modificar, nada fazia mais sentido como antes. A pessoa que eu amava e reconhecia quando olhava no espelho já não era mais tão agradável, nem tão conhecida. Parecia alguém diferente, alguém de quem eu não sabia ainda se gostava ou não.

Nos sábados, eu não ia mais ao hospital, só se e não estivessem em casa. Os sábados eram voltados para eles, uma meta que eu havia estabelecido comigo mesma para tentar equilibrar as coisas. Eu estava no quintal, tomando um pouco de sol, e estavam no mercado e eu tentava manter minha mente em casa quando Charlie resolveu fazer uma visita surpresa.
— Não nos falamos mais depois daquele dia, queria saber se você está bem? — ele se explicou, sentando-se ao me lado nas cadeiras do quintal.
— Na verdade, não — assumi, encolhendo os ombros.
— Eu não sabia que você era tão próxima ao — Charlie comentou, inclinando a cabeça para me olhar melhor e eu o respondi com uma risada amarga. — O médico disse que suas visitas têm feito bem a ele, que ele melhorou — contou.
— É, a síndrome regrediu. — Me recostei na cadeira, encarando o céu. — Mas agora ele piorou e não sei se minha presença realmente tem sido interessante.
— Não foi sua culpa, ele teve uma dessas coisas que pessoas que ficam hospitalizadas muito tempo tem. — Charlie tentou me acalentar. — Não olhe isso, olhe a melhora dele. Ele estava cada vez pior, então você começa a vê-lo e ele começa a ficar bom. — Meu irmão sorriu e tocou meu braço.
— Eu não sei, eu nem consigo encará-lo. — Remexi minha aliança e encarei o chão, tristonha. — Nem consigo olhar para ele.
— Por quê? — Charlie questionou, franzindo o cenho.
— Não sei, acho que ele pode estar desapontado comigo. Decepcionado por eu não ter avisado, ter sumido — expliquei.
. — Meu irmão riu entredentes. — O não é uma criança frágil e que precisa de atenção o tempo todo. Ele é adulto, ele sabe que você tem a sua vida, sua família. Ele deve ter ficado preocupado com você, no máximo. — Ele piscou.
— Sei lá. — Dei de ombros.
— Por que você faz isso, visita ele? — Charlie indagou, arqueando uma sobrancelha.
— Não posso ser a boa samaritana? — Ri e o cutuquei.
— Pode, só fiquei curioso. Quer dizer, você tinha uma queda por ele antes, mas não sabia que ainda se lembrava. — Charlie ajeitou a camisa e eu congelei.
— Eu nunca tive uma queda por ele — disse na defensiva, engolindo em seco.
— Por favor, quem você acha que engana? — Ele soltou um riso nasalado. — Eu me lembro de você perguntando dele, aparecendo magicamente nos lugares que nós estávamos. Inventando desculpas para que eu o chamasse para nossa casa, espionando nossas conversas pelo telefone.
— Que absurdo, isso é mentira — neguei depressa e senti o rosto esquentar.
, por favor. Não negue. — Charlie sorriu e cruzou os braços atrás da nuca. — Se lembra quando fomos para a praia e ele sorriu para você, te cumprimentou? Você ficou congelada na areia, com os olhos arregalados. — Charlie gargalhou.
— Para com isso, Charlie. Não tem graça — pedi, tentando me manter séria e disfarçar o desespero.
— Claro que tem — falou voltando-se para mim e fazendo cosquinhas. — Você tinha aquelas paixões platônicas por ele. Todo mundo sabia, você não engana ninguém.
— Como assim todo mundo sabia? — questionei chocada, com os olhos arregalados.
— Todo mundo sabia, ué. — Charlie deu de ombros.
— Charlie — chamei sua atenção, endireitei a coluna e arqueei uma sobrancelha, encorajando-o a continuar.
— Todo mundo sabia que você tinha uma queda pelo . Eu sabia, Oliver, … — O interrompi.
— O quê? — perguntei e provavelmente estava mais branca que uma vela. — sabia? sabe? — Estava nervosa com a ideia de que não era tão desconhecida assim para ele.
— Claro, ele percebia. Você nunca foi muito sutil. Às vezes ele implicava comigo, falando que seria meu cunhado. — Charlie riu com a lembrança.
— Como assim? Me conta isso direito, Charlie. — Funguei e Charlie riu torto.
— Aí, você é tão previsível. — Ele riu alto. — Uma vez alguém perguntou se ele não tinha interesse em você, já que você nitidamente era fã número um dele. E aí ele começou a brincar com isso, que ele estava trabalhando para virar meu cunhado. Implicava comigo, perguntando de você, se você estava em casa, se você também sairia com a gente — contou.
— E você nunca pensou em me falar? — perguntei revoltada.
— Não, era brincadeira. E você não era uma boa companhia para ele. — Charlie riu e deu de ombros.
— Idiota — xinguei e ri. — Não acredito que ele sabia quem eu era…
— Você achava mesmo que ele não te conhecia? — Me encarou surpreso.
— Ele nunca falou comigo, nunca me notou. — Ri sem humor e sacudi a cabeça.
— Que mentira, é claro que ele notava. é tímido e você é você. Você sempre foi muito espalhafatosa, chamava atenção das pessoas, era popular. Ele sempre ficou na dele, depois ele começou a namorar — Charlie explicou.
— É, eu me lembro disso — falei ressentida.
— Ele perguntou de você quando se mudou e depois que adoeceu — Charlie assumiu.
— Como é que é? — perguntei, inclinando-me para frente.
— Ele perguntou por onde você andava, o que tinha acontecido com você. Quando eu contei que você tinha se casado, ele disse que ainda não tinha desistido, hora ou outra ele ia ser meu cunhado. — Charlie riu saudoso. — Foi a última vez que eu ouvi sua voz. Depois ele piorou e a vida aconteceu. Não conseguia visitá-lo com a mesma frequência e nem queria vê-lo naquela situação também. — Ele sorriu triste.
— Eu não sabia de nada disso, não fazia ideia — comentei, tocando levemente seu braço. — Eu não devia ter saído da cidade, devia ter ficado aqui. Tudo seria diferente. — Suspirei.
— Você não teria se casado com . — Charlie assentiu.
— Não, não teria.
Eu não me lembrava da última vez que tinha conversado com meu irmão, acho até que nunca tinha tido um momento assim, conversando sinceramente sobre qualquer coisa. A de alguns meses atrás teria preferido morrer a ter essa conversa, mas agora algo tinha mudado em mim, na forma com que eu entendia as ações do meu irmão. Ou eu estava maluca ou Charlie era sensato, agradável e simpático?
Talvez fosse algo no cabelo preto milimetricamente arrumado e penteado para trás, talvez a camisa polo, cheirando a amaciante de roupas. Ou talvez as informações sobre , saber que ele me conhecia fazia sentido, explicava porque ele não se assustou muito com a minha chegada.
— Me responda uma coisa, com toda sinceridade do mundo. — Charlie pediu, me distraindo dos meus pensamentos. — Você ainda gosta dele?
— O quê? Que pergunta ridícula. — Balancei a cabeça e desviei o olhar.
— É sério, . — Charlie tocou o queixo. — Isso explica muita coisa. Você ainda gosta dele, não é? Por isso ficou tão abalada quando ele piorou — Charlie anunciou atônito.
— Que coisa patética — disse zangada. — Eu sou casada, não estou apaixonada por ninguém. Estou casada, Charlie. Me respeite.
— Tudo bem, tudo bem. — Charlie se rendeu, levantando as mãos. — Se você diz, eu acredito.

Nunca havia passado pela minha cabeça que alguém tivesse percebido qualquer sentimento platônico meu por . Eu não sabia se estava mais chocada por isso ou pela insinuação de Charlie sobre eu ainda estar apaixonada. Era ridículo. Eu não era apaixonada por , mesmo o amando, isso era fato. Mas estar apaixonada por era diferente, era loucura, não podia acontecer. Principalmente se eu considerasse a variável de sua saúde frágil.
Não consegui me desligar das revelações de Charlie. sempre soube quem eu era, sempre soube de mim. Se eu soubesse que ele me notava, que sabia quem eu era, tudo seria diferente. Talvez eu tivesse me declarado, talvez nunca deixasse a cidade, talvez estivesse por perto quando ele adoeceu, talvez ele nunca tivesse ficado noivo ou até mesmo adoecido. Pensar em todos os “se tivesse…” e “talvez fosse…” era tortura. Tudo podia ser tão diferente. Era como se nós estivéssemos destinados a não ficarmos juntos, como se não fosse para ser. Por isso o destino havia se encarregado de fazer meu irmão nunca me contar sobre as brincadeiras, se encarregado de nunca me deixar criar coragem para me declarar, de eu ter saído da cidade e me casado com outra pessoa.
Talvez e não fosse para ser.

O resto do fim de semana levou anos para passar. Eu estava completamente ansiosa para ver , precisava falar com ele. Precisava perguntar, contar que eu sabia sobre suas brincadeiras, que ele me conhecia. Ensaiei minhas falas o suficiente para que meu discurso se tornasse mecânico e prático. Seria a primeira vez que eu falaria com depois de tudo, meu estômago estava tão revirado que era como se eu fosse vê-lo pela primeira vez.
Eu devia levar para o colégio, depois iria para o hospital resolver o que tanto me perturbava.
estava ansioso, inquieto, como se algo o estivesse incomodando, totalmente alheio e distante de nós. Ele permaneceu toda a viagem até a escola em completo silêncio, com os olhos vidrados na rua, sem fones. Quando estacionei perto do portão do colégio, respirou fundo, voltou seu corpo para mim e começou a falar:
— Você pode me pegar mais tarde hoje? — perguntou, me olhando por baixo de suas sobrancelhas.
— Por quê? O que tem hoje? — quis saber, desligando o carro e voltando minha atenção à . Ele balbuciou algo quase inaudível. — O que tem?
— Testedeteatro — falou rápido demais para alguém normal entender.
? — Arqueei uma sobrancelha.
— Teste de teatro — ele disse sem me encarar.
— Teatro? Não sabia que você teria teste hoje. Por que não nos contou? — Eu estava confusa, tinha medo de que por consequência do meu afastamento, minha relação com estivesse ainda mais estremecida.
— Eu não sei… sei lá, achei que iam rir de mim — ele disse, encarando o câmbio e coçando a cabeça.
— Rir? — Eu expirei. — Mas é claro que não. Seu tio Charlie era do teatro também — contei saudosa e de repente me dei conta de que talvez Charlie estivesse com um plano muito maléfico de conquistar aos poucos os corações de toda minha família. — A ideia foi dele, não é? Tio Charlie te convenceu? — perguntei sorrindo.
— Não, ele só me apoiou. Disse que eu devia tentar. — se recostou no banco do carona e apertou a mochila contra o corpo.
— Você está animado? Eu queria tanto assistir — falei, puxei uma de suas bochechas e tentou sem resultados se afastar das minhas mãos.
— Amém que não pode. Seria a maior vergonha do mundo — disse ranzinza. — Eu tô nervoso. — Ele riu e enrubesceu.
— Não acredito que teremos um Leo DiCaprio na família — brinquei. — Você vai se sair bem, se por acaso o nervosismo atrapalhar, pode pedir dicas ao Charlie. Ele vai adorar ministrar um curso intensivo de teatro só para você — eu sugeri.
— Não fala isso, mãe. Nem brincando. Quando eu contei que ia fazer o teste, ele começou a recitar umas coisas sem sentido. Ajoelhou no meio do supermercado e fingiu ser o Romeo — contou rindo. — Eu paguei o maior mico. E ele me manda mensagens toda hora falando de teatro.
— Faça como eu e o resto da família. Bloqueie ele — sugeri rindo. — Mas aí pode ser que ele queira aparecer em casa para te ajudar nas peças — eu ponderei e riu alto. — Alguém devia estudar o Charlie. — Balancei a cabeça, rindo abafado.
— Mãe — chamou, ficando sério de repente. — Desculpe não ter contado sobre a ligação do hospital. — Ele parecia envergonhado, estava ainda mais vermelho. Eu encarei o volante, a rua, respirei fundo e inclinei a cabeça para observar melhor meu filho.
— Por que você fez aquilo? — Fiz a pergunta que dançava em minha mente desde o fatídico dia.
— Eu não sei. Eu não queria que você fosse para o hospital. Queria que continuasse tudo como tinha sido na viagem — explicou com simplicidade e eu fiquei completamente sem argumentos.
— Você viu o ? Aquele dia? — perguntei, depois de alguns segundos.
— Só de longe — disse e encolheu os ombros.
está mal, acho que ninguém assim quer ficar sozinho. Eu não gostaria de ficar sozinha. — Eu suspirei. — E eu gosto muito dele, é muito importante. Mas você é meu filho, você sempre vai ser a pessoa mais importante da minha vida. Eu sei que sentiu minha falta, eu tô tentando consertar isso. — Tentei sorrir. — Mas não faça isso de novo, tá bem? Mentir, esconder, não são coisas que alguém digno faça. Por favor. — assentiu com a cabeça e sorriu sem mostrar os dentes. — Boa sorte no teste. — Eu desejei.
— Obrigada, mãe — agradeceu, me abraçou e saiu do carro. — Mãe, você vai ao hospital hoje? — quis saber, antes de fechar a porta do carro e eu ponderei um pouco para responder.
— Vou sim — disse num suspiro.
— Que bom. — sorriu. — Fala com que eu mandei um oi — disse sorrindo, fechou a porta e me deixou, quase que literalmente no chão.
Aquele era o sinal que eu precisava, a liberdade que eu precisava. Se para estava bem que eu fosse para o hospital, que eu ficasse com , então era o que eu faria. Parecia que estava esperando mil anos por aquelas palavras.

Estava decidida a pelo menos dizer uma frase para . Depois de tantos dias fugindo, agora que sabia de tudo, não poderia ficar em silêncio. Não que fosse conseguir, estava tão ansiosa que ficar calada não era uma das minhas opções.
Entrei no quarto e fui de pronto para o lado de seu leito, ele me encarou confuso. Ainda não conseguia olhá-lo nos olhos, estava muito envergonhada e toda coragem e o discurso que tinha ensaiado tinham desaparecido sem deixar rastros. Me recostei na lateral da cama, encarando a parede branca, rezando para me lembrar de tudo que havia planejado dizer.
— Oi. — Suspirei. — Eu queria dizer algumas coisas. Eu tinha pensado em algumas coisas, mas agora não sei mais o que dizer. — Soltei o ar que segurava sem perceber. — Na verdade, talvez não devesse dizer nada. — Apertei o colchão com força. — Eu estou com ainda mais vergonha, eu não sei o que você pode estar pensando, mas eu queria me desculpar. — Nos últimos dias, eu chorava todas as vezes que pensava no que tinha acontecido, agora não seria diferente. Tentei disfarçar, secando rapidamente algumas lágrimas que insistiam em cair.
— Me perdoe por ter sumido sem dar explicações. Eu sei que não foi muito tempo, mas, mesmo assim, não foi certo. Eu devia ter avisado. Imagino que você esteja decepcionado comigo, irritado ou talvez nem tenha percebido a minha ausência. De qualquer forma, eu estou envergonhada. — Sequei outra lágrima teimosa com as costas da mão. — Eu sinto muito.

(Dê play na música aqui — One Republic — (Say) All I Need)

segurou minha mão num rompante e a apertou, me fazendo voltar o olhar para ele. Não me lembrava de vê-lo fazer aquilo antes, talvez ele estivesse realmente melhorando, o que me deixou imediatamente feliz. Ele tinha as sobrancelhas franzidas e me olhava fixamente, sua boca era uma linha tensa. Quando se certificou que tinha minha atenção, ele arqueou levemente as sobrancelhas e eu poderia jurar senti-lo acariciar minha mão com o polegar.
Eu funguei, tentando engolir o choro. me olhava tão fixamente que era quase impossível desviar.
Eu queria beijá-lo.
Minha nossa, como eu queria. Estávamos próximos, como há muito tempo não estávamos, e me olhava tão profundamente que era como se pudesse enxergar minha alma, meus sentimentos e tudo que eu carregava dentro de mim. Ele piscou uma vez, se ele realmente estivesse lendo minha mente, aquele devia ser o sinal verde para que eu o beijasse. Eu não conseguia pensar muito, só sentir. Eu sentia próximo a mim, sua mão sobre a minha e enfim sentia seu toque e era quente como eu imaginava. Sentia seu olhar me atravessando e quase me deixando nua, uma nudez diferente. Seu olhar me fazia despir das máscaras, dos sentimentos falsos, das incertezas, como se pela primeira vez eu pudesse ser livre, ser eu mesma. Ser só a , sem fingimentos.
Meu coração estava tão acelerado e minha respiração tão descompassada que tive que respirar pela boca. Eu estava vendo coisas ou também estava do mesmo jeito? Tão ansioso quanto eu?
Sua boca também estava entreaberta e conforme eu me aproximava, podia sentir seu hálito quente. Eu estava vivendo um sonho, definitivamente. piscou mais uma vez e seu olhar passeou rapidamente dos meus olhos para minha boca, conforme eu diminuía a distância entre nós, estreitava o olhar. Quando já não estávamos a mais de dez centímetros um do outro, ele sorriu de canto.
E eu o beijei.
Eu não sabia até aquele momento, mas o beijo de era tudo que eu precisava para viver. Quando nossos lábios se tocaram, algo explodiu dentro de mim e então uma sensação de paz preencheu todo e qualquer espaço que eu pudesse ter vazio. Como se a função da minha existência fosse unicamente estar ali, beijando . Tudo fazia sentido agora, tudo estava no lugar. Os lábios de eram mais macios do que eu imaginava, eram confortáveis, tinham gosto de casa, gosto de lar.
Era como se nosso beijo tivesse parado o tempo, nada mais importava, só estar ali com . Quando enfim separamos nossos lábios, ele ainda mantinha o mesmo contato visual intenso. Eu conseguia com facilidade contar todos os tons de azul que formavam sua íris, podia perceber cada detalhe de seu rosto, sentir seu cheiro. Era como se meu propósito de vida fosse estar com ele, beijá-lo, senti-lo.
Mas então a realidade invadiu meu sonho. A imagem de ocupou minha mente e a culpa fez meu estômago revirar. Desviei o olhar e pisquei algumas vezes, atônita, tentando recobrar o controle sobre meu corpo, olhei nos olhos de mais uma vez e ele estava calmo, mas parecia curioso. Então me afastei num rompante, me voltei para ele mais uma vez, eu respirava com dificuldade e meu coração estava acelerado mais uma vez e então eu fugi.

Eu sempre imaginei como me sentiria depois de beijar . Desde a primeira vez que olhei para ele, eu imaginava como seria a sensação, como eu me sentiria, o que ele diria. E agora tinha acontecido. Eu o havia beijado e estava em pane. Tantas coisas aconteceram desde que voltamos para a cidade, mas isso era inimaginável.
Eu precisava contar para alguém, precisava conversar sobre aquele beijo, sobre tudo. Ted e seu sorriso grande preencheram minha mente, eu estava perto, o cemitério e o hospital eram vizinhos, eu só precisava cruzar a rua.
— Ted — cumprimentei, me sentando no chão para tentar recuperar o ritmo normal da minha respiração após correr por entre os túmulos. — Eu fiz uma coisa.
Eu geralmente contava tudo para ele, desabafava, pedia conselhos. Ted era o tipo de pessoa que fingia não se importar, só gostar de diversão, mas no fundo era doce e gentil. Se Oliver e eu ainda estávamos vivos, era graças aos seus conselhos.
— Se lembra do ? O bonito, amigo do Charlie — comecei a contar. — Eu o beijei. Nossa, eu nem acredito. Falando alto, desse jeito, parece ainda mais absurdo. — Eu ri. — Eu não sei o que fazer agora. Meu deus, eu beijei .

Uma voz ecoava em minha mente, até que demorou.

— Mas eu sou casada. — Me lembrei. — Eu acabei de trair meu marido. Meu Deus. — Percebi. — Eu faço tudo errado, não acredito. Eu não devia…

Mas você não gosta dele, a voz tornou a dizer.

— É, é verdade. Eu percebi que não sou apaixonada por ele, talvez nunca fui — confessei. — Mas isso não me dá motivos para trair meu marido. E, pior ainda, eu não sei nem se ele gostou do beijo, eu posso ter o beijado a força…

Você acha mesmo que ele não gostou, é sério? A voz indagou.

— É, ele estava me olhando estranho. — Eu sorri. — Talvez, no fundo, ele quisesse. Mas eu não sei, talvez. — Ri alto. — Mas o que eu faço? Quer dizer, eu sou casada. — Eu estava tão confusa.

Pense, pediu a voz.

— Eu acho que eu tenho algumas opções. Pense comigo, Ted — eu pedi. — Eu posso fingir que isso nunca aconteceu e continuar casada, posso largar tudo e esperar , posso ficar com os dois… — Um filme com imagens de e invadiu meus olhos. — Eu devia me separar, deixar livre, não é justo para ele ficar com alguém que não o ama de verdade. E talvez, se melhorar, podemos tentar conversar. Uma coisa não tem a ver com a outra, eu não posso mais ficar com de qualquer forma — concluí.

Já não era sem tempo, a voz concordou.

— Eu não sei como fazer isso, mas preciso fazer — disse, passando as mãos pelo cabelo. — Eu vou me separar de . — Sorri e respirei fundo, encarei o mar por alguns segundos e me lembrei dos olhos de . — Eu não acredito que beijei o .
Durante o resto do dia, eu não conseguia pensar em outra coisa. A sensação do beijo, o gosto, o cheiro dele, a pele, a vontade no olhar. Eu nunca esqueceria daquilo, nunca havia percebido quão incompleta eu era até estarmos conectados. Eu mal podia esperar para repetir aquilo, precisava sentir aquela sensação de novo, era como respirar.
Mas o acordo feito entre meu cérebro e meu coração era de que eu só o beijaria de novo depois de me separar de . Eu devia esperar, devia preparar o terreno, preparar . Me apertava o coração imaginar como ele reagiria, mas eu precisava escolher. Eu era mãe, mas tinha uma vida. Não me resumia a ser mãe de , eu era filha de alguém, esposa de alguém, uma mulher com vontades, sonhos, desejos.
O dia passou como um borrão, minha mente sempre vagava até o hospital, até aquele quarto, até onde ele estava. Será que ele estava acordado? Será que ele pensava em mim? Será que pensava sobre o beijo?

Eu me sentia uma adolescente de novo, ansiosa para encontrar o motivo dos meus sorrisos bobos e da minha falta de concentração. Tinha decidido levar para a escola, depois passaria no hospital. Eu precisava vê-lo, mesmo que estivesse prestes a vomitar de ansiedade e nervosismo.
— Você vai levar o de novo? — perguntou, ao me perceber trocar o pijama.
— É, vou sim — respondi distraída e ele veio até mim com a gravata em mãos, pedindo silenciosamente por ajuda.
disse que você foi ver o ontem — comentou, ele estava sentado na cama e olhava para cima enquanto eu ajeitava o nó de sua gravata.
— Eu fui — falei olhando em seus olhos. — Por quê?
— Nada. Você voltou feliz… Ai! — reclamou quando eu apertei o nó além do necessário.
— Desculpe. — Eu estava na defensiva, por razões óbvias.
— Eu gostaria de conhecê-lo. — Eu engoli em seco. Como eu apresentaria a o homem por quem eu estava apaixonada?
— Conhecer o ? Por quê? — perguntei nervosa.
— Porque é com ele que você passa a metade dos dias, porque ele é seu amigo, porque eu estou curioso. O que mais eu posso listar? — ironizou. — Por quê? Não quer que eu vá ao hospital?
— Não, claro que não — neguei rápido. — Você pode ir. Vá a hora que quiser.
— Que bom. — riu. — Por alguns segundos comecei a me preocupar. Talvez o hospital fosse só uma desculpa para você ir para outro lugar. Sei lá. — apertou minha bochecha e depositou um beijo rápido em minha testa.

Eu tinha que resolver aquilo, não fazia ideia de como, mas precisava resolver.

Depois de deixar no colégio e visitar Ted, era chegada a hora de vê-lo. Eu tinha impressão de que poderia vomitar a qualquer momento. Estava tão nervosa, eu conseguia sentir meu sangue percorrendo cada centímetro de minhas veias, sentia meu coração acelerado, as mãos suadas, a respiração descompassada. Era oficial, eu estava mesmo apaixonada por .
Abri a porta num rompante, não tinha a sutileza como hábito quando estava tão alegre. se exercitava, uma mulher de cabelos ruivos e rosto redondo estava com ele. Ao perceber minha chegada, ela sorriu simpática.
— Oi! — ela cumprimentou e eu sorri educada. — Acho que estávamos falando de você.
— Falando? — eu indaguei surpresa.
— É, eu quis saber a razão dele estar de bom humor hoje. Ele deixou escapar que era por causa de alguém especial. Suponho que seja você — ela contou. estava tão vermelho quanto um tomate maduro e tinha fechado os olhos.
— Quer dizer que você fica falando de mim por aí? — brinquei, provocando que abriu os olhos, bufou, revirou os olhos e olhou para o outro lado. — Eu me chamo . — Estendi a mão para cumprimentá-la.
— Joy. — Ela apertou minha mão e sorriu. — Eu sou a terapeuta ocupacional do .
— Claro — concordei. — O doutor Rafael disse que viria.
— Quem? — Joy questionou confusa, enquanto flexionava o joelho esquerdo de .
— Rafael, o sobrenome eu esqueci. Ele é o médico do , pelo menos é o que eu mais vejo aqui — expliquei.
— Eu não conheço nenhum médico com esse nome aqui. — Joy franziu o cenho e pareceu pensar por alguns instantes. — Eu devo conhecê-lo pelo sobrenome, então. — Sorriu e deu de ombros.
— E como nós estamos aqui? — Eu quis saber, enquanto tocava o ombro de para cumprimentá-lo. voltou rapidamente seu olhar para mim e eu sorri.
— Estamos indo bem. Já estamos juntos há algum tempo, mas com a melhora do quadro, resolvemos intensificar a reabilitação — Joy explicou. — Tem sido bom, estou avaliando a cada quinze dias e os resultados têm sido cada vez melhores.
— É estranho nós não termos nos conhecido ainda — comentei.
— A vida é cheia de encontros e desencontros. — Joy sorriu.

Joy repetiu mais algumas séries de exercícios, eu nunca havia acompanhado uma de suas sessões, não fazia ideia de como estava progredindo.

— Mais um pouco, mais um pouco — Joy pediu, enquanto incentivava a puxar uma tira elástica com mais força. Ele parecia extremamente cansado, suava um pouco e mordia o lábio, tencionando a mandíbula. — Ele tem que recuperar a força muscular, mas estamos fazendo aos poucos para não fadigar a musculatura. tinha um ótimo condicionamento físico antes de ficar doente, isso tem nos ajudado — Joy explicou.
— Ah. — Balancei a cabeça, concordando mesmo sem compreender uma palavra e Joy riu.
— Eu vou traduzir. — A terapeuta se voltou para mim e sorriu, debochando. — Ele era bem atlético antes, isso é bom. E agora estamos indo devagar, a pior fase já passou. A fonoaudiologia disse a mesma coisa, talvez em breve não precise de mais nenhum de nós.
— Eu espero que sim. — Sorri. — Nada pessoal.
— Por hoje é suficiente. Descanse e tente repetir aqueles outros exercícios que eu te ensinei, okay? — Joy pediu para ele. — Foi um prazer, . — Acenei e ela saiu do quarto.
— Você falou com ela do mesmo jeito que fala comigo ou está se comunicando por aí com outras pessoas pelas minhas costas? — perguntei fingindo estar indignada, sorriu e revirou os olhos.
— Eu devo entender isso como, exatamente? — o provoquei.

segurou uma de minhas mãos e a apertou levemente. Era a primeira vez que eu o via sentado, sozinho e ele parecia tão bem-disposto, feliz. Algumas mudanças em seu estado eram nítidas, não estava mais tão pálido, tinha o rosto mais cheio, havia engordado um pouco, os cabelos estavam maiores, os olhos mais vivos. Ele agora sorria para mim, sorrisos mais tímidos e fechados, mas ainda eram sorrisos dele. Ele conseguia se sentar sozinho e tinha alguma coordenação em suas mãos e braços, o que o permitia me tocar com alguma limitação.
Eu estava presa em meus pensamentos, em minhas análises sobre sua melhora quando percebi ser sutilmente puxada para mais perto. me encarava com os olhos em fenda e um sorriso de canto. Aquilo não significa o que eu achava que significava, não é? O que raios aquele homem queria? O que era aquele olhar?
— O que você quer? — perguntei ansiosa, inclinou a cabeça e sorriu piscando um olho.
— Você vai ter que ser mais claro. Tente uma mímica — eu provoquei e ele franziu o rosto numa careta.
— Então quer dizer que você fica falando de mim por aí? — quis saber. sorriu e piscou com um olho, aquilo significava um talvez ou nem tanto.
— Sua terapeuta te entregou. Você não consegue esconder muita coisa de mim. — Eu ri e me sentei em sua cama. me olhou e balançou a cabeça negativamente, devagar.
E eu sorri, talvez o maior sorriso que já havia dado na vida.

Eu estava novamente frente à casa branca de porta esverdeada. Da calçada, era possível ver o mar, alguns prédios do centro e um pequeno estádio de futebol. Paradise era uma cidade grande, mas seu Sul parecia ter parado no tempo. O maior prédio que tínhamos devia ter uns cinco andares, mas quanto mais ao norte você fosse, encontraria prédios cada vez mais altos. Pareciam duas cidades dentro de uma só, uma parte modernizada, agitada e populosa, outra parte calma, bucólica, praiana e tranquila.
A casa do senhor e senhora ficava em uma ladeira um pouco íngreme, com duas palmeiras em frente, grama bem cortada, flores vermelhas no jardim e cadeiras de balanço na varanda. Me lembrava bem das centenas de vezes que ficava ali, observando o mar e pensando na vida, sofrendo por algum dilema adolescente ou imaginando minha vida ao lado de .
Às vezes era como se tudo aquilo tivesse acontecido há milênios. Três vidas diferentes, a da juventude, de New York e a de hoje. Tudo ainda era tão confuso, eu não era mais a mesma pessoa que era quando deixei a cidade, nem a pessoa que voltou, era alguém diferente, estranha. O maior sinal daquela mudança era eu estar indo por vontade própria até a casa da minha família.
Já fazia cerca de dez minutos que estava parada, ainda dentro do carro, pensando se deveria mesmo entrar ou não. Eu nem sabia o que estava fazendo ali, não poderia contar aos meus pais sobre meus planos, nem pretendia contar a Oliver sobre.
— Vai ficar aí o dia todo ou vai entrar? — Meu pai me surpreendeu, batendo no vidro de repente.
— Oi, pai — cumprimentei. Não teria escolha, depois de ser vista teria que socializar com aquela espécie exótica. — Como o senhor está?
— Normal — ele respondeu, se sentando nas cadeiras da varanda. — Sua mãe saiu, eu estou preso do lado de fora — contou e eu ri.
— Não tem mais nenhuma chave reserva?
— Não, o Oliver perdeu, vive com a cabeça em outro mundo — meu pai disse ranzinza.
— Ele devia fazer outra cópia. Oliver não pode fazer isso, tem que ser mais responsável — falei, franzindo a boca e balançando a cabeça.
— Eu disse isso — meu pai concordou e eu me sentei ao seu lado, olhando o mar.
— Como está o ?
— Bem, ele fez um teste de teatro essa semana — disse.
— Ele não vai parar de crescer, vai ficar do tamanho do pai. Eu encontrei com ele no mercado no fim de semana — contou. — Um baita homem. Mas ele não parece ninguém da família.
— É, eu também acho. Disseram que ele se parece com Oliver, mas eu não acho — falei e meu pai concordou com um aceno.
— Te contaram que nós encontramos aquele piloto de Fórmula Um? Naquela viagem no aniversário do . — Eu não sabia por que estava contando aquilo, só que queria contar.
— Não, ninguém me fala nada. Eu nem sabia que viajaram — ele reclamou.
— Pai… foi só um fim de semana. Fomos para um chalé no aniversário do — expliquei.
— Quem vocês viram? — o pai perguntou mal-humorado.
— Tony Render, o piloto de Fórmula Um. Ele estava lá com a esposa e o filho. Ele é bem simpático — contei.
— Ele? — Meu pai arqueou as sobrancelhas, estava surpreso, porém não admitira e fingiria desdém.
— É, veja como são as coisas. — Eu ri. — e ficaram no pé dele o fim de semana inteiro. Tiraram milhões de fotos. Inclusive, tem o telefone dele agora.
— Ele vai correr esse fim de semana, avise para dizer que eu mandei um oi. — Ele deixou escapar. — Eu vi o tio dele correr, ele era bom, ganhava algumas, mas pulava de escuderia para escuderia. Sempre interessado nisso. — Meu pai esfregou o dedo indicador e o polegar, gesto que significava dinheiro em sua linguagem própria. — Mas o Tony, esse sim é um piloto de verdade. Ele não tem medo, ele entra com o carro em qualquer espaço, só enxerga a linha de chegada. Pode ser que ainda se mate numa pista, mas é bom piloto — ele expôs.
— Que horror, pai — eu o repreendi de pronto e dei três toques na madeira da cadeira. — Não fale assim.
— Mas é a verdade. Aposto com você que ele sabe disso. — Meu pai exalou. — Quando se dá o sangue por alguma coisa, tem que estar preparado para perdê-lo.
— Para! O Tony tem família. Não é bom falar isso, atrai coisas ruins — pedi.
— O que atraí coisas ruins é se enfiar com um carro entre dois carros — meu pai resmungou. — E o seu restaurante? — ele quis saber, me surpreendendo.
— Restaurante? — perguntei tonta pela mudança brusca de assunto.
— Você disse que ia abrir. Quando vai começar? — Meu pai se voltou para mim e passou a me encarar. — Você tem que ser independente, não é bom depender dos outros.
— Por que está dizendo isso? — perguntei confusa.
— Nada, só não é bom — ele disse e deu de ombros.
— Você está mais estranho que o normal hoje, pai. — Eu ri baixo.
— Você que está. — Meu pai acusou. — Tudo bem em casa?
— Você acha que eu vim aqui porque estou com algum problema em casa? — Exalei o ar, soltando um riso nasalado sem humor.
— Por que mais você viria aqui? Você não é como o Oliver, que vem sempre que precisa de dinheiro. Nem como o Charlie, que vem para ajudar. Você vem quando não quer estar em outro lugar, quando quer paz. Sempre foi assim — meu pai afirmou.
— Eu? Até parece. — Revirei os olhos e balancei a cabeça negativamente.
— Quando você tinha uns dez anos, no natal, o presente de vocês foi um cachorrinho. Cada um teve um cachorrinho. Charlie não podia, tinha saúde frágil, ganhou um peixe. Seu irmão e você viviam com os cachorrinhos — meu pai contava, saudoso.
— África e Rosquinha. Os nomes eram África e Rosquinha — contei, rindo com a lembrança.
— O seu irmão saía por aí com o cachorro, todo lugar que ele ia o cachorrinho ia também. Já você, ficava calada. Até que um dia chegou aqui com um gato cinza. Disse que tinha trocado, que o cachorrinho era agitado demais para brincar de escola, precisava ser um gato. — Meu pai riu alto. — Chamou ele de Salem. Você tinha dez anos, resolveu tudo sozinha. Não precisou de ajuda, não pediu. Naquela idade, Oliver ainda precisava de ajuda para amarrar os sapatos.
— Oliver sempre foi meio folgado — revelei. — Dois dias depois, o dono da loja de animais quis desfazer a troca, disse que o cachorrinho era muito bagunceiro. — Me lembrei.
— É, ele acabou ficando com Charlie. Ele ainda está lá, sabia? — meu pai contou.
— É sério? — perguntei chocada. — Quantos anos ele tem? Ele devia entrar para o livro dos recordes.
— Seu irmão deve estar cuidando disso. — Meu pai riu, depois respirou fundo, pareceu pensar um pouco. — Você é assim. Quando a gente menos espera, você aparece com algo pronto. Você não falava quando tinha um problema, ninguém nunca sabia. Mas você ficava aqui, sentada nessa cadeira. Ficava em silêncio e você não fica em silêncio quase nunca. — Ele riu e tocou meu joelho.
— Eu acho que continuo assim. — Respirei fundo. — Eu devia ter ficado aqui, não devia ter ido embora. Devia ter sido mais presente também. Eu me arrependo — confessei.
— A gente faz muita besteira quando é jovem. — Meu pai tentou me consolar. — Mas você casou, se formou, teve um filho, agora voltou para cá… — Papai pareceu ponderar. — Por que se arrepende? Não está feliz? — Ele me encarou e eu exalei pesadamente.
— A vida é complicada.
— É, ela é — ele disse e deu duas leves batidinhas em meu joelho.

Meu pai e eu nunca tínhamos conversas longas. Ele sempre era seco, austero, duro, mas tinha sua forma de amar. Suas gentilezas eram vistas no dia a dia, quando ele nos acordava todos os dias de manhã para irmos para o colégio. Quando nos levava e buscava de todos os lugares, quando insistia em trabalhar, mesmo doente porque nós precisávamos de roupas ou do que quer que fosse. Era um pai presente, não do tipo piadista ou carente de atenção. Ele era do tipo firme, severo e que, no final das contas, não importava para que fosse, mas você poderia contar com ele, ele estaria lá para qualquer coisa. Nós sabíamos, eu sabia, que sempre teria meu pai, que caso tudo desse errado, eu poderia chamá-lo e ele viria para salvar o mundo, me resgatar. Confiava nele.
Sentada ali, dividindo aquela varanda tão familiar, só conseguia pensar em como eu havia sido tola. A vida passa tão rápido, tudo é tão fluído. Ted nunca poderia ter um momento assim com seu filho e nunca mais teria com seu pai. Eu ainda podia, podia me sentar com meu pai, podia me sentar com meu filho, falar de banalidades, pedir colo.
— Você devia jantar lá em casa essa semana — eu disse num rompante. — Mas só se não for falar mal da minha comida — brinquei e ele riu.
— Mas para isso você vai ter que cozinhar bem — ele falou. — Será que você sabe fazer um Ratatouille que preste? — meu pai provocou.
— Eu faço simplesmente o melhor do mundo — falei, jogando o cabelo. — Mas, pensando bem, o senhor devia cozinhar. Um jantar francês, o que acha? — propus.
— Eu não vou cozinhar para você, não. — Meu pai cruzou os braços.
— Uma pena, eu tenho uma garrafa de vinho que ganhamos de presente de despedida, quando saímos de New York… adoraria abri-la. — Eu pisquei.
— Mas que diabos, com quem aprendeu a fazer isso? — ele brincou.
— Um homem não tem preço, a não ser que seja um francês. Esse você pode comprar com uma bela garrafa de vinho. — Repeti a frase que havia escutado durante toda minha infância.
Meu pai levantou o dedo indicador, balançou suavemente em minha direção e voltou seus olhos para o mar. Eu estava em casa, eu estava feliz.

Eu nunca gostei de hospitais. O cheiro incomodava, as pessoas de branco sempre me assustaram. Pensar em hospital era como pensar em morte e eu não gostava nem um pouco disso. Me lembrava da época em que vivíamos indo e voltando do hospital, nossa avó estava com câncer em estágio terminal. Toda semana nós íamos nos despedir, minha mãe quase não dormia em casa e meu pai não sabia bem explicar o que estava acontecendo.
Me lembro de uma tarde chuvosa, era páscoa, não tínhamos recebido chocolates nem tivemos um almoço satisfatório. Então eu pensei, pensei que se minha avó morresse tudo seria mais fácil. Eu devia ter uns seis anos, só queria minha mãe em casa, não ter mais que ir ao hospital e queria que minha avó voltasse a fazer biscoitos para mim. Na mesma tarde, minha avó faleceu. Eu fiquei tão aterrorizada, contei ao meu pai que era minha culpa, que eu havia pedido isso. Não quis ir ao funeral, estava envergonhada e com medo, pensando que todos brigariam comigo por ter matado a vovó.
Meu pai me pegou no colo, sentou ao meu lado na igreja e no final do dia olhou nos meus olhos e disse que tudo bem eu ter desejado isso. Que às vezes, quando se quer muito uma coisa, só pensamos no que atrapalha o caminho. Disse que minha avó sabia que eu a amava e que ela estava feliz em devolver minha mãe para nós.
Essa lembrança frequentemente passeava em minha mente. Talvez por causa da minha rotina no hospital, talvez porque eu tinha a mesma sensação sobre . Eu queria tanto resolver tudo, mas não sabia como. Torcia para que tudo magicamente desaparecesse e eu pudesse enfim ficar com , pudesse ter e comigo. Não queria que morresse, obviamente. Mas não queria ter que lidar com ele.
Viver daquele jeito estava cada vez mais angustiante. Eu pensava em todo o tempo em que estava com e pensava em em todos segundos que estava com . Eu enlouqueceria em breve. Precisava resolver aquilo, me separar, deixar livre e ficar livre, mas não sabia como fazê-lo. Não era uma conversa fácil, não era um namoro de alguns meses, era um casamento de mais de dez anos. Pensar no tempo me fazia repensar minha escolha. Será que era realmente a coisa certa a se fazer? Não estava sendo impulsiva?
Naquela tarde, surpreendentemente não estava em seu quarto, tinha ido ao jardim com alguém, segundo uma enfermeira. Eu estava ansiosamente preocupada para descobrir quem poderia ser o visitante misterioso.
Perto do lago, sentado em uma cadeira de rodas estavam , o sol brilhava em seus cabelos e pele, ele nunca esteve tão lindo. Ao seu lado, em pé, estava Matt Shay. Matt ria alto enquanto arremessava algumas pedras no lago.
— Então esse é o sequestrador? — perguntei os surpreendendo. Matt voltou-se para mim, sorrindo atônito e apenas me lançou um olhar curioso.
! — Matt cumprimentou com um abraço, animado. — Que bom te ver.
— É, bom te ver — assenti e toquei o ombro de , cumprimentando-o.
— Eu fiquei tão feliz em ver que ele está bem, que melhorou. Fiz até deixarem ele vir dar um passeio — contou animado e piscou uma vez.
— É uma boa ideia. Eu ainda não tinha pensado nisso. — Voltei meu olhar para . — Gostando do sol? — perguntei e ele piscou uma vez.
— Não vai demorar muito até ele vir aqui sozinho — Matt falou. — Até voltar a sair por aí, normalmente.
— Que os céus te ouçam. — Eu sorri e assentiu devagar com a cabeça.
— Mas e vocês, como estão? Ele não quis me falar muito, sabe como ele é. — Matt se sentou num banco e cruzou as pernas. — adora esconder o jogo.
— O que você quer saber? — questionei confusa e me sentei ao seu lado, de frente para , que nos observava atentamente.
— Sabe, vocês dois… — Matt apontou para mim e , depois sorriu tímido. — Eu fico curioso, ninguém me conta nada. Vocês estão… você sabe, juntos? — Eu engoli seco e engasguei, jogou a cabeça para trás e sorriu.
— Eu meio que tenho um marido, eu… eu sou casada. Eu… — Tentei soar firme. — Nós… eu…
— Ah… — Matt abriu a boca, parecia pensar em dizer algo, mas balançou a cabeça devagar em negação e piscou duas vezes. — Entendi. Maneiro. Casada. Legal. Acho que vou pegar um café. Quer um café? Vou trazer um café para você. — Matt se esquivou envergonhado e se levantou, indo praticamente correndo até a lanchonete do hospital.
— Pois é. — Balancei a cabeça e encarei o lago. — Que torta de climão.
olhava fixamente para o lago, ele parecia mais calado que o habitual. Não que ele falasse, não ainda. Mas pela convivência, seus gestos, trejeitos, expressões, mantínhamos sempre muitas conversas, ele era sempre tão expressivo e provocativo. Mas dessa vez estava sério, contemplativo, parecia um pouco incomodado.
— Está pensando em quê? — quis saber e ele voltou seu olhar rapidamente para mim e depois continuou a encarar o lago. — Tinha tempo que você não via isso, não é? Que não sentia o vento assim. — piscou uma vez.
— Você já pode escrever uma carta para o papai Noel, mas dessa vez agradecendo o presente de natal — brinquei e ele revirou os olhos. — Qual é? Você devia estar mais animado. — Dei-lhe um leve empurrão no ombro.
— Está melhorando, as coisas vão ficar bem. — se inclinou levemente em minha direção, tinha no rosto um olhar que denunciava sua incerteza. — Vai tudo ficar bem. Confie. — Eu sorri, balancei a cabeça e toquei sua mão. — Em breve você não vai precisar mais das minhas visitas.
piscou duas vezes e balançou a cabeça negativamente, depois abriu a boca. Meu coração deu um salto, cheio de expectativa e então Matt voltou.
— Você toma café com açúcar? Porque só tinha desse tipo — Matt anunciou, fechou a boca e voltou a encarar o lago e eu agradeci aos céus por meu autocontrole. Em outros tempos, Matt precisaria de um médico depois de interromper uma chance daquelas com .

Matt era um bom amigo, gentil e sem dúvidas animava . Fazia com que ele se lembrasse dos velhos tempos, isso era bom. Talvez fosse a motivação que ele precisava para continuar firme no tratamento e quem sabe se recuperar ainda mais.
A melhora de era nítida, eu não cabia em mim de felicidade e orgulho. A possibilidade de morte parecia estar cada vez mais distante, ele estava seguro, estava melhor. Tudo ficaria bem.
— Ele chamou os bombeiros e a polícia, tudo por causa de um banheiro químico que estava na janela dele. Nada por causa do barulho, tudo pelo banheiro — Matt terminou de contar e eu ri alto de sua história.
— Então é isso que vocês fazem na polícia de Paradise? Sempre achei que fosse mais perigoso, sabe? Mais adrenalina — brinquei, fingindo desdém.
— Ah, isso são só algumas coisas engraçadas. Mas o departamento de polícia de Paradise é o melhor do mundo. Sabia que mais de sessenta por cento dos polícias de Paradise são negros? Incluindo detetives, capitães, sargentos e comissários? — Matt revelou animado.
— Isso é por causa do prefeito? Bloom? — perguntei.
— Também. — Matt assentiu. — Começou com ele, Bloom abriu as portas. Eu trabalho com a filha dele, detetive Michaela Bloom. Ela coloca medo em qualquer um, esteve em combate e agora é detetive da homicídios. Trabalho com ela e com o parceiro, que é genro do prefeito Bloom — Matt contou.
— Achei que você odiasse politicagem — o provoquei. — Daqui a pouco teremos um Matt político.
— Que nada. — Ele riu. — Eu estou indo para a divisão de inteligência. A região das docas e do centro comercial de Paradise está perigosa demais. Quero voltar a morar nessa parte da cidade, mais calma, a praia é limpa — explicou.
— Você faz bem, eu demorei tanto para voltar. Acho que nunca mais saio daqui — confessei e Matt sorriu, inclinou a cabeça, estreitou o olhar e sorriu de canto.
— Que bom, preciso de alguém que saiba cozinhar bem na minha vida — Matt falou.
— Nem comece. — Empurrei Matt levemente e me levantei. — Preciso ir, nem vi a hora passar.
— É, verdade. Acho que já está na hora de levar o bebê para dentro — Matt zombou e revirou os olhos. — Deixa comigo. — Levantou-se e assumiu a direção da cadeira de .
— Você, se cuide. Boa noite, volto amanhã — me despedi, deixando um beijo na bochecha de . — Se cuide, Matt. Me ligue, vamos marcar alguma coisa. — Abracei-o e os deixei ir.

Eu sentia falta desse tipo de tarde, apenas conversando sobre a vida, trocando experiências e colocando o papo em dia. Isso era só uma das coisas que havia passado a valorizar nos últimos tempos.
— Doutor Rafael me chamou de repente.
— Doutor — cumprimentei com um aperto de mão.
— Como você está? — Rafael me olhava nos olhos, parecia genuinamente interessado.
— Bem, as coisas estão fluindo. Não totalmente como eu gostaria, mas estão. — Sorri fraco.
— Tudo tem seu tempo, as vezes você pode não entender na hora, mas as engrenagens da vida não falham. — Assenti enquanto me perguntava por que ele tinha que ser sempre tão excêntrico.
— A beleza da vida é o que nos guia nela, o segredo é escolher bem a bússola — Rafael continuou.
— Como eu faço isso? — Eu ri fraco. — Porque uma bússola agora seria providencial.
— Você pode escolher se quer o medo, o amor, a razão, o poder ou as outras várias possibilidades. São escolhas que só você pode fazer — me perguntei se por acaso ele havia visto o beijo em , meu coração parou quando considerei essa possibilidade.
— Mas você está falando de quê? Quer dizer, por acaso você viu algo? — perguntei tentando ser sutil e falhando terrivelmente.
— Tem coisas na vida que não é preciso ver, dá para apenas sentir. — Ele sorriu e eu tinha certeza de que ele sabia.
— Eu estou tentando resolver. Eu cometi um erro, um erro pequeno diante de todo o resto, mas eu estou resolvendo — tentei explicar.
— Certas coisas não precisam de conserto, só precisam de amor. — Rafael parou frente à entrada para o ambulatório e passou um pouco de álcool nas mãos. — Eu não gosto de me meter, nem de palpitar, mas às vezes acho que você precisa de uma luz para enxergar as coisas óbvias. — Ele sorriu e eu o encarei pasma. — Já faz tanto tempo… talvez seja uma boa escolha se deixar guiar pela bússola do amor. Ela cura tudo, ela vai te ajudar, só confie. — Rafael piscou e eu tive certeza de que ele não era alguém normal.
— Até mais, . — Rafael acenou.
— Doutor — chamei. — Eu conheci a terapeuta do , Joy, mas ela pareceu não te conhecer.
— Joy me conhece, mas de outra maneira. Se você perguntar para qualquer um nesse hospital, todos vão me chamar por nomes diferentes. — Rafael riu. — Você gostou dela?
— Da terapeuta? — indaguei confusa e ele assentiu. — É, ela parece ser boa. — Dei de ombros.
— Joy é uma boa moça, ela vai te ajudar muito ainda. — Rafael piscou. — Caso você ainda precise, é claro.
— Me ajudar? No quê? — eu quis saber.
— Libertação. — Rafael sorriu e desapareceu no corredor.

Cada vez que eu o encontrava tinha mais certeza, doutor Rafael não era desse planeta, quiçá deste universo. Eu precisaria de Joy para quê? Acaso sofreria algum acidente? Talvez ele se referisse a , ela era terapeuta dele, talvez ela o ajudaria a se libertar do hospital. Para mim, seria com toda certeza libertação.
Da primeira vez, o médico sugeriu que eu prestasse mais atenção em flores, agora me diz sobre engrenagens e bússolas. Já faz tanto tempo… ele se referiu ao meu casamento e tinha razão, fazia tanto tempo que estávamos juntos. Eu não era apaixonada por , mas o amava, sem sombras de dúvidas. Escolher com a bússola do amor seria isso? Escolher meu casamento, meu filho e o homem que eu amava em vez do que estava apaixonada?
Tudo bem que aquele era o conselho de um médico que sabia apenas metade da história. Mas talvez ele tivesse razão, talvez eu devesse escolher meu casamento. Meu filho não sofreria, não sofreria e para nada ia mudar. Quanto a mim, não importava, eu aguentava o tranco, já havia passado por isso antes.
Mas eu devia mesmo ouvir o médico?

, eu vou mesmo ter que pedir de novo? — chamou a atenção de , que estava assistindo TV.
— Eu já vou — ele avisou.
! — chamou, elevando mais a voz. — Caramba, cara. Por que você não pode obedecer de primeira?
Estávamos ajeitando tudo para o almoço. Charlie e sua família, Oliver e meus pais comeriam conosco. tentava acender a churrasqueira, eu estava cozinhando e preso na TV. não costumava se irritar ou perder a paciência facilmente, mas naquele momento, depois de pedir várias vezes para que o fizesse algo, ele saiu do sério.
— Eu já estava indo — se explicou quando se aproximou e desligou a TV.
— Meia hora. Meia hora. Eu estou te chamando lá fora e você está aqui na TV — ralhou, conduzindo para o quintal.
Eu sentiria falta disso, dessas situações do cotidiano. De assistir brigando com , de vê-los juntos assim. Claro que obviamente moraria comigo depois da separação, ele escolheria a mãe, não é? Eu ainda não havia ponderado acerca dessa possibilidade, era quase uma certeza para mim. escolheria a mãe, é claro…
Mas e se por uma trapaça do destino ele não quisesse viver comigo? E se ele escolhesse viver com o pai? Eu ficaria sozinha, completamente. Para onde eu iria quando me separasse? Voltaria para a casa dos meus pais? Faria sair de casa? Para onde ele iria? Eu não poderia pedir para sair, eu sairia. Mas para onde iria com ? E se ele não quisesse ir comigo?
A cada segundo a ideia da separação ficava mais complicada e mais difícil. Surgiam tantos pontos a serem pensados, tantas coisas para serem resolvidas…
— Eu já acendi a churrasqueira — avisou, entrando na cozinha. — Acho que vou esperar mais um pouco para colocar a carne.
— Certo — concordei sem encará-lo. se aproximou da pia e encostou na parede.
— Eu estava pensando, nosso aniversário está chegando. Podíamos fazer uma viagem, talvez New York ou outro lugar. Califórnia ou algo assim — sugeriu.
— Nossa, eu me esqueci completamente — assumi.
— Eu imaginei, por isso estou falando. — Ele beliscou um pedaço de palmito e começou a mastigar. — Esse palmito está ótimo. Eu falei com Tony, ele e Louise estão planejando ir para Los Angeles em breve, ele disse que seria bom se pudéssemos ir também.
— Tony nos convidou? — perguntei surpresa.
— Pois é, ele disse que devíamos ir. Sabe, as praias, gente rica, Tony Render. — sorriu e beliscou meu braço levemente.
— Você quer viajar para comemorar o aniversário de casamento ou para ver o Tony? — questionei áspera.
— Bom… — gaguejou. — É para comemorar o casamento, claro. Mas seria bom rever o Tony, a Louise — explicou.
— Para acontecer como no seu aniversário e você ficar atrás do Tony o tempo todo? Passo — cortei.
… — lançou um olhar sentido e ao mesmo tempo compreensivo. — É diferente. E naquele fim de semana todos ficamos com eles, não só eu — ele falou.
— Não vou viajar com você para ficar de escanteio. Se quiser, vá sozinho — disse seca, sem encará-lo.
— O que aconteceu? Eu fiz alguma coisa? Você parece chateada comigo — quis saber, tocando meu ombro de maneira delicada.
— Não, . Você nunca faz nada — respondi. Por que nem brigar poderia ser fácil com ? Pensei.
— Eu não sei o que aconteceu, de verdade. Mas me desculpe. — encarou o chão e pensou um pouco. — A gente pode ir para outro lugar, talvez um fim de semana em algum hotel bom. pode ficar com seus pais. Não precisamos ir para Los Angeles, nem nada disso. Ou podemos ficar aqui e só jantar. — me encarou e eu expirei pesadamente.

Não queria ser uma idiota com , não era justo tratá-lo mal, brigar com ele e fazê-lo se sentir mal. Mas ao mesmo tempo, por mais infantil que fosse, mostrá-lo que eu não era a pessoa certa para ele me parecia uma boa ideia. Talvez ele decidisse se separar, mas talvez só sofreria calado e tentaria me agradar…
Quando todos chegaram, tentei disfarçar minha chateação e também, embora não tenha conseguido muito. Quando perguntavam, ele respondia que a semana tinha sido difícil e sorria amarelo, típico de .
— Que vibe ruim é essa? — Oliver quis saber, se sentando perto de mim no quintal.
— Não tem vibe ruim nenhuma, deve ser só sua energia pesada — respondi ríspida.
— Nossa, você pegou pesado. Energia pesada? A minha? Justo a minha? — questionou, pousando a mão no peito, enfatizando seu choque.
— O que foi? — Charlie questionou, se sentando na outra cadeira vazia.
— O Oliver fazendo drama — falei sem olhá-lo.
— O que o tem? Ele está estranho, não falou nada sobre dietas, academia ou polo aquático até agora — Charlie contou, observando por cima dos ombros.
— Nada, não tem nada — respondi, tentando encerrar o assunto.
— Por que vocês brigaram? — Oliver perguntou.
— Nós não brigamos — falei.
— É tão óbvio que sim. Se você não tentasse disfarçar, acho que daria mais certo — Oliver comentou.
— É por causa do ? Ele não está feliz com você indo ao hospital? — Charlie quis saber e eu lancei a ele um olhar quase cortante.
— O que tem nisso? Por que ele implicaria? é a pessoa mais calma que eu conheço — Oliver observou.
— Ela ainda tem uma queda pelo — Charlie contou.
— Charlie! — eu o repreendi.
— Sério? — Oliver inclinou a cabeça, confuso. — Nossa, agora tudo faz sentido. Então é por isso que…
— Não, não tem nada a ver. Charlie enlouqueceu — o interrompi.
— Por que está brigando com seu marido bonitão, então? — Charlie indagou.
— Vocês dois podem fazer o favor de pararem de se meter na minha vida? — pedi.
— Tá bem. Não está mais aqui quem falou. — Charlie levantou as mãos rendido. — Só vou dizer mais uma coisa. — Eu revirei os olhos. — Você acha mesmo uma boa ideia comprar uma briga com seu marido pelo ? — Charlie questionou e arqueou uma sobrancelha.

Minha consciência, doutor Rafael, Charlie, todos diziam a mesma coisa, eu só precisava de coragem e maturidade para aceitar.
— Charlie. — Oliver chamou. — Você diria que eu tenho uma energia pesada?

— Isso sim é um almoço de família digno — mamãe disse, enquanto todos comiam.
— Por isso o próximo será na casa da senhora — brinquei.
— Devíamos mesmo fazer isso sempre. Nunca se sabe quando tudo pode mudar — Charlie comentou e me olhou sugestivamente. — Jack, pegue berinjela — meu irmão pediu ao afilhado.
— Aproveite a minha presença enquanto ainda estou aqui. — Oliver falou.
— É, só veremos Oliver de novo quando o dinheiro dele acabar — meu pai o provocou.
— Isso é que eu chamo de aproveitar a vida — Charlie retrucou e Oliver o cumprimentou com um toque de mãos.
— A vida passa muito rápido — Oliver comentou. — Temos que aproveitar esses momentos em família, isso que importa — completou e me encarou.
— Aos s! — Papai propôs um brinde.
— Aos s!

Quem te viu, quem te vê, .
Se me dissessem quando cheguei à cidade que eu participaria de uma cena dessas, um churrasco de domingo em família, com meus irmãos e meus pais…
Mas até que não era ruim, meus irmãos e eu nos dávamos bem, meus pais pareciam felizes com aquele acontecimento, estava animado e Jack também, representando Ted. Éramos uma família feliz e eu só conseguia pensar em como seriam os próximos almoços depois que eu anunciasse minha separação. Onde almoçaria nos domingos?
— Pessoal, um minuto da atenção de vocês. Tenho uma notícia muito boa para dar — Charlie anunciou, se levantando com um copo em mãos.
— Oliver conseguiu um emprego fixo? — meu pai perguntou.
resolveu abrir uma academia e deixar a construção civil? — Oliver chutou.
— Deixem ele falar — pedi, me recostando na cadeira e segurou minha mão.
— Minha mãe está grávida? — supôs ansioso e eu o olhei confusa.
— Acho que eu seria a primeira a saber, não é? — Balancei a cabeça e revirei os olhos, riu alto.
— Como vocês falam, meu Deus! — Charlie ralhou. — Eu estou tentando contar algo aqui.
— Ande logo com isso, Charlie — pediu.
— É com muita alegria que Susan e eu anunciamos que temos mais um a caminho. — Sorriu.
Mamãe colocou as mãos no rosto e abriu a boca, chocada, depois se levantou e correu para abraçar Charlie. Meu pai se levantou e seguiu o mesmo caminho. Jack disse algo para , provavelmente o garoto já sabia da novidade. Oliver bateu palmas e assoviou, se levantou e abraçou Charlie e Susan, seguido por mim.
— Que ótima notícia! — disse animado. — Parabéns, casal.
— Obrigada! — Susan agradeceu. — Tem mais uma coisa.
— Não me diga que são gêmeos? — Oliver perguntou desconfiado.
— Não. É algo melhor — Charlie contou. — Primeiro, nós já sabemos o sexo. Descobrimos a gravidez já um pouco adiantada, então já deu para ver — ele explicou.
— Bem que eu desconfiei — mamãe confessou e riu.
— Nós decidimos que ela vai se chamar Suzana, como a vovó — Charlie revelou e sorriu dócil para nossa mãe. — E nós queríamos muito que o , e o Oliver fossem os padrinhos.
— Uau! — expirou chocado.
— Três padrinhos? — papai questionou.
— Sabe, um casal de padrinho mais um — Charlie explicou. — E então, aceitam?
— Eu admiro sua coragem em me convidar — Oliver brincou enquanto se levantava para abraçar Charlie. — Claro que eu aceito. Sempre quis ser padrinho de alguém.
— Nós também. É claro — respondeu, depois de confirmar a resposta com um olhar furtivo. — Será uma honra.

Um bebê. Meu irmão teria um bebê. E o mais inimaginável, eu seria madrinha da criança. A vida adulta era isso então? Priorizar a família, o amor e deixar as rixas, as diferenças de lado?
e eu seriamos padrinhos da pequena Suzana, seria apenas mais uma coisa que nos ligaria. Mais uma coisa que poderia perder se nos separássemos. Há alguns dias eu tinha certeza de que o certo a fazer era me separar, que era o que eu mais queria no mundo, mas agora me parecia uma ideia muito, muito ruim. Me separar de parecia algo egoísta a se fazer, todos sofreriam mais uma vez por um capricho meu.
Ao mesmo tempo, eu estava apaixonada por , não era justo permanecer casada com alguém estando apaixonada por outro. Eu pensei que estivesse confusa antes, mas agora isso sim era confusão.
Ver Charlie e Susan ali, juntos, felizes, me fazia pensar se era assim que as pessoas viam a mim e também. Como um casal feliz e crescendo. A vida não era nada fácil e você sequer precisa de dramas mexicanos para isso, as escolhas mais simples eram as mais difíceis. Escolher entre o que eu queria e o que era melhor. Ah, como eu queria ter tido que escolher quinze anos atrás…

Estava me preparando para dormir, nossos convidados haviam ido embora depois das oito da noite. Eu estava cansada emocional e fisicamente, pareceu me evitar durante o resto do dia, mas quando saí do banho, ele já me esperava no quarto.
— Eu quero falar algumas coisas — ele anunciou e eu me sentei na cama. — Você me deixa confuso. Eu nunca sei o que esperar, isso já era comum, sempre foi. Mas agora eu estou perdido. Estamos bem e então de repente você fica distante, não se comunica, me afasta… eu não sei se fiz algo, mas se fiz, me diga — ele pediu. — Eu não entendi o que foi aquilo na cozinha hoje. Não tinha necessidade de uma discussão por aquele motivo.
— Eu não posso me chatear por você querer passar o aniversário de casamento com seu amigo? — questionei, estava acuada.
— Você pode, melhor, poderia. Se ligasse — falou ressentido.
— Se ligasse? — Voltei meu olhar para ele, abismada. — O que você quer dizer?
, você não se importa com isso. É nítido, você tem outras preocupações desde que chegou aqui. Sua família, seus amigos e eu entendo isso, de verdade. Você ficou anos fora, é normal querer se reaproximar — falou. — Eu não reclamei, aceitei tudo como você queria. Mas não vou aceitar você fingir que eu estou errado, sendo que não é verdade.
— Eu estou errada então? — questionei, me levantando.
— É isso que eu estou tentando dizer — falou e eu abri a boca tentando dizer algo a altura, mas não pude. — Eu sei como nós somos. Sempre fomos independentes, livres. Mas não somos como o Charlie e a Susan, por exemplo. Porém isso nunca foi um problema, sempre foi bom para nós dois. Eu te amo, você me ama e tem o . Eu sei que nunca fui sua primeira opção. — riu fraco e eu o direcionei um olhar triste. — Mas, sabe? — coçou a cabeça e se sentou na cama.
, eu… — tentei falar, mas não sabia o que dizer.
— Eu estou meio perdido aqui. Se você puder me dizer o que está acontecendo, o que está te incomodando… nós sempre fomos amigos, isso não mudou. Eu só preciso entender, entender se algo mudou…
— Eu sinto muito — disse, me ajoelhando em sua frente. — Às vezes eu faço coisas que não têm muito sentido. Eu estou tentando aprender, amadurecer e parar de magoar as pessoas que eu gosto. É difícil, mas eu juro que estou tentando. — segurou meu rosto e secou uma lágrima que escorreu solitária. — Eu não sei o que está acontecendo. Eu até sei, mas eu estou sentindo tantas coisas agora e eu não sei o que fazer com isso — assumi. — E mais uma vez eu estou deixando respingar em vocês…
— Me conta, eu posso ajudar. Divide comigo — pediu.
— Eu não posso, são… são coisas que eu preciso lidar. Sozinha. — Recostei a cabeça em seu peito. — Desde que eu voltei para essa cidade, parece que tudo que sabia sobre mim mudou, tudo está de cabeça para baixo. E eu não sei o que fazer, sinceramente. Eu só queria dormir e acordar sem nada disso, sem estar confusa ou sem saber quem eu sou de verdade — desabafei.
— Eu sei quem você é. Você é a . Você é uma mãe incrível, uma chef brilhante e a minha esposa, amiga, companheira. Você é engraçada, alegre, inteligente, tem um gosto muito caro e odeia acordar cedo. Odeia que mastiguem alto perto de você, pode ser extremamente mau humorada às vezes, mas isso eu sempre resolvo com uma massagem — contou e eu ri. — Você é a pessoa mais elegante que eu conheço, depois da Louise. — Dei um leve tapa em seu peito. — Você, , tem medo do que não conhece, mas não pensa duas vezes antes de defender qualquer um que ame. É intensa, forte, alegre e eu te amo.
, eu não mereço isso. Não mereço que você me ame, nem que você fale essas coisas para mim — confessei.
— Você não é perfeita, meu amor. Eu sei que é um baque ouvir isso, mas você não é. — Ele sorriu. — Você tem defeitos e erra assim como qualquer um, eu posso viver com isso. — Balancei a cabeça negativamente e me abraçou.

Abraçá-lo ali era como se abraçasse uma roseira. Eu podia sentir todos seus espinhos, sentia cada um deles furando minha pele e cortando minha carne. Eu não podia fazer aquilo, não podia enganá-lo, não podia fingir que estava tudo bem. Eu precisava me afastar, precisava sair dali, mas não tinha forças. me puxou para junto de si, me deitou na cama e me abraçou.
E por mais culpada que eu estivesse, por mais que seu toque me ferisse, eu me sentia segura, me sentia protegida de mim mesma. Como se, enquanto eu estivesse ali, não precisasse me preocupar com o que estava fazendo, por algum tempo, por apenas uma noite eu não precisasse me lembrar do que estava prestes a fazer, não precisava pensar no quanto sofreriam com as minhas escolhas.
Naquela noite, eu apenas choraria, me despediria do carinho de e viveria o luto. Talvez um dia ele me perdoasse quando se lembrasse de como eu estava triste antes de anunciar nossa separação. Talvez ele entendesse meus motivos. Eu precisava daquilo, precisava chorar o fim do meu casamento, tudo começou com nós dois, teria que terminar assim também.

Charlie tagarelava qualquer coisa sobre bebê e enjoos, eu não conseguia prestar atenção. Quando me ligou, naquela manhã, se oferecendo para me acompanhar na visita a , eu quase ajoelhei para agradecer aos céus. Eu precisava muito vê-lo uma última vez antes de sentenciar o fim de tudo. Precisava olhar em seus olhos para tomar a coragem que precisaria para mais tarde.
Com , mesmo com nossa relação, de certo modo, superficial, eu me sentia em casa, podia ser eu mesma. Estava confortável o suficiente para não fingir estar bem, só queria olhá-lo, respirar fundo e ter a conversa com de uma vez. Não podia passar daquela noite, não depois de tudo.
— E aí! — Charlie cumprimentou ao entrar no quarto e sorriu de canto. — Tudo certo? — piscou uma vez e então voltou seu olhar para mim, eu acenei com a cabeça e franziu o cenho.
— Eu tenho novidades para você — Charlie anunciou, animado. — Susan está grávida. — sorriu abafado e suspirou. — Pois é, é uma novidade e tanto. Eu estou tão feliz, já comprei vários livros sobre bebês e paternidade — Charlie contou. — Susan está bem, está brilhando, ela te mandou um beijo. — piscou uma vez, fez beicinho e sorriu.
— A e o marido vão ser os padrinhos, junto a Oliver — Charlie contou e senti o olhar de sobre mim, ele parecia tentar ler meu rosto, descobrir o que eu estava pensando. — Eu queria muito que você pudesse ir ao batizado, vou ficar torcendo. — Charlie tocou a perna de e a balançou suavemente.
— Charlie, vou pegar um café — disse de repente. — Não demoro. — Charlie assentiu e eu os deixei.

Tudo era incômodo. As luzes do hospital, o branco das paredes, as pessoas que pareciam olhar para mim, a calça jeans apertada, o salto alto, o casaco quente demais, me faltava ar. Era um daqueles momentos, daqueles que você quer desligar, quer sumir. Eu não devia estar ali, eu devia resolver tudo.
Pensava no compreensivo, solícito e gentil da noite anterior, pensava no curioso e confuso que estava no quarto. O denominador comum era eu, tudo se resumia a mim de alguma forma. Eu era o problema, sempre fui. Sabia o que queria, tinha certeza de que queria, mas não tinha mais certeza se era a melhor escolha ou a escolha certa.
Talvez nunca tenha tomado um café tão devagar no mundo, não que eu tivesse realmente tentado. O café tinha um gosto amargo e sem vida, bem como devia estar meu rosto naquele momento. Eu queria voltar, mas me sentia tão culpada por querer, eu era realmente um ser humano horrível.
Decidi acabar com a distância, já que estava ali, não era justo passar todo tempo encarando uma parede. Encontrei Charlie na porta do quarto de , ele estava tão distraído com o celular que nossos corpos se chocaram.
! É você. Que susto. — Charlie colocou a mão sobre o peito. — Eu estou indo, surgiu uma emergência no trabalho. Nos vemos depois?
— Claro — confirmei e meu irmão deixou um beijo em meu rosto e saiu apressado pelo corredor.
— cumprimentei, me sentando na beira de sua cama.
me fitava com o cenho franzido, como se quisesse perguntar o que havia comigo.
— Não me olhe assim. — Ri fraco. — Está tudo bem. — Eu o encarei e senti aquela coisa, a coisa que me conectava a como nunca havia conectado a mais ninguém.
— Eu estou dividida — assumi. — Eu quero muito uma coisa, acho que esperei a vida toda por isso. Mas acontece que agora eu não sei se é a coisa certa a se fazer, entende? — piscou uma vez e tentou alcançar minha mão, então eu apertei a dele. — Eu acho que sempre estrago tudo. Eu acabo magoando as pessoas, decepcionando todo mundo. Se eu fizer a escolha que quero agora, vou magoar muitas pessoas que amo. — Balancei a cabeça devagar e inclinou-se em minha direção. — Percebeu quantos vezes usei o eu nessas frases? Péssima, , péssima. — Ri fraco.
encostou sua testa na minha e me fitou, com a testa franzida e fechou os olhos. Depois de alguns segundos, ele voltou a me examinar, expirou com força e tentou se deitar, com alguma dificuldade. Com uma de suas mãos, me puxou levemente para perto de si e piscou uma vez. Eu estava sentada em sua cama, deixei meu corpo descansar e deitei-me ao seu lado, fechei os olhos e o abracei de lado. Quando o procurei, sua face havia se fechado, olhos estreitos e sobrancelhas franzidas, parecia preocupado, pensativo.
— Eu não sei o que fazer — assumi.
beijou-me suavemente o topo da cabeça e então não havia mais medo, confusão, dor, dúvida. Só a sua presença. preenchia todo o quarto, não havia espaço para mais nada, para nenhum sentimento ruim. Eu estava bem e sentia que independente do que fosse acontecer dali em diante, tudo ficaria bem se eu tivesse aquele abraço para me esconder.

Decidi voltar caminhando para a casa, não era longe e eu precisava pensar. Precisava decidir como contaria para , como diria que havia me apaixonado, que o amava, mas que não podia mais ficar com ele. Tinha que pensar em como contar para , não fazia ideia de como ele reagiria, precisava ter calma, ser paciente.
iria para casa de Carol depois da aula, por isso chegamos juntos em casa. Carol o havia acompanhado.
, quanto tempo — ela cumprimentou ainda no carro.
— É, já faz um tempinho. — Eu sorri.
— Está tudo bem?
— Vai ficar. — Eu acenei e ela se foi. — Vamos entrar? — chamei e depositei um beijo em seu rosto enquanto o abraçava de modo demorado.
— Mãe, tudo bem? — ele perguntou.
— Sim, querido. Tudo ótimo — falei, acariciando seus cabelos e ele me olhou desconfiado. — Eu amo você. — sorriu, assentiu e correu escada acima.
Devia preparar um bom jantar, cozinhar sempre me ajudava a pensar, mas dessa vez teria que ser um daqueles jantares de conforto. Algo para preencher os corações que ficariam quebrados depois daquela noite.
Pensar na reação de , imaginá-lo triste e sofrendo ainda me congelava. Rezava para ter coragem, para conseguir fazer o que tinha que fazer, mesmo não sendo exatamente a coisa mais certa para todos.
— Você não vai acreditar. — chegou de repente, como um furacão, rindo e falando alto. — Eu não acredito nisso. Isso é incrível!
— Talvez se você me contar, posso decidir se acredito ou não — falei confusa, saí da cozinha e fui até ele.
— Ela fez, ela escreveu. — festejou enquanto me mostrava a revista em suas mãos. — Uma das secretárias me parou hoje, pedindo para eu falar sobre o Tony Render. — Eu o encarei confusa. — Eu não tinha contando para quase ninguém sobre a viagem. Quando eu perguntei como ela sabia, ela me mostrou isso. Não é incrível?

O amor em tempos líquidos, por Louise Rousseau-Render. O título da matéria me fez recordar daquele fim de semana que tinha sido o estopim para tantas coisas. Louise havia escrito uma matéria sobre nossa viagem em família. Ela falava da necessidade de se distanciar para valorizar o que realmente nos importa, sobre parar o tempo e tentar aproveitar ao máximo a companhia de quem está ao nosso lado. Louise também narrava a história de uma adorável família que os havia acompanhado, uma família que a mostrou que o amor pode resistir às trivialidades cotidianas, que o casamento é muito mais que paixão incandescente.
A cada frase lida meu coração apertava. Aquela jornalista falava de nós, do nosso casamento e da nossa família de forma tão especial e esperançosa, enquanto eu, que devia defendê-lo, pensava em formas fáceis para acabar com tudo. Era vergonhoso, triste, eu era realmente uma péssima pessoa. Tinha traído meu marido e agora tramava deixá-lo.
Louise contava no texto o quanto nossa família a havia tocado, o quanto aquele fim de semana seria inesquecível para todos. Para ela, a atmosfera de companheirismo, amor e apoio mútuo que nos envolvia era fascinante. A francesa finalizou o texto fazendo reflexões sobre como nós abrimos mão de viver grandes amores assim, de viver o que realmente queremos por vontade de agradar e medo do desconhecido e enfatizou para que ninguém deixasse que um segundo sequer passasse sem dizer o que precisa dizer para quem amamos.
Nos últimos dias, me torturar era meu novo passatempo favorito. Me culpava por ter saído da cidade, por ter voltado, por ter visitado e por não o ter visitado. O novo arrependimento era o beijo e a grande nova dúvida era sobre o que fazer depois disso. Era uma verdade absoluta que beijar , estar com ele era a melhor coisa do mundo, mas tudo aquilo que Louise falava, tudo aquilo que vivi com . Eu não podia, não era certo com ninguém.
— Meu amor? — chamou e tocou levemente meu ombro. — Está chorando? — perguntou sorrindo docemente e inclinou a cabeça.
— Eu…— tentei me explicar.
— É bonito, não é? — Ele secou uma de minhas lágrimas com o polegar e me abraçou de lado. — Achei tão lindo a maneira com que ela nos referiu. Exemplo para novos casais. Eu estou tão feliz. Acha que o vai gostar? — perguntou e eu assenti com a cabeça e sorri fraco.
— Eu vou tomar um banho e depois mostramos ao , o que acha? — sugeriu. — Eu te amo — disse, segurou meu rosto e me deu um beijo.

Eu queria correr, era como se as paredes estivessem encolhendo, minhas roupas incomodavam, minha pele me causava incômodo. Eu estava tão angustiada, sufocada, era difícil respirar. Saí para o quintal, precisava de ar, precisava chorar.
Como eu poderia, como eu poderia deixá-lo? Como eu poderia me separar de e deixar todos os momentos, todos os anos juntos para trás? E tudo isso para seguir uma paixão adolescente? Paixão essa que eu nem sabia mais se era mesmo uma paixão ou apenas algo que eu não consegui e que precisava concretizar para amaciar meu ego, quem sabe fosse só fogo de palha, passageiro.
Eu não poderia deixar sozinho e simplesmente me separar, me jogar no desconhecido, enquanto torcia para que correspondesse meus sentimentos. Era loucura e era injusto. Eu havia passado tanto tempo com , não seria justo jogar tudo fora por algo repentino, inconstante, efêmero. No fundo, eu achava que não fosse passar, achava que nunca me esqueceria do sabor do beijo de , que nunca deixaria de sentir a dormência nos lábios depois de tê-lo beijado, nunca me sentiria segura como me sentia em sua presença. Mas, mesmo assim, não seria justo.
Tentei me lembrar de todos os momentos únicos com , nossas férias na praia, nossa viagem pela Europa com pouquíssimo dinheiro e que nos tinha rendido ótimas histórias e risadas. Da gravidez, das vezes que ele saía no meio da noite para procurar todos tipos de doces existentes que fossem a base de Kiwi, ou quando ele passava noites em claro, cuidando de , mesmo tendo que trabalhar no outro dia, para que eu descansasse. Todas as vezes que me apoiou nas minhas decisões, que sofremos juntos nossas perdas, que comemoramos nossas vitórias. Eu não podia deixá-lo. Não conseguia.
Talvez o amor fosse isso, se doar, abrir mão. Eu não era apaixonada por , mas éramos casados há tantos anos que devia ser normal, não é? Sentir amor e não paixão. Ele me amava, esteve comigo, tínhamos um filho e eu não tinha direito de traumatizar com um divórcio e nem de abandonar dessa forma.
Mas estava em meus pensamentos, eu precisava fazer alguma coisa. Eu tinha que fazer uma escolha e dessa vez precisava fazer a escolha certa. Era óbvio para mim, mas precisava ser feito da melhor forma, era necessário ser madura, responsável. E precisava ser feito logo.
Deixei um bilhete para sobre a ilha da cozinha e fui para o hospital, precisava fazer antes de perder a coragem.
Não era horário de visitas, mas as enfermeiras estavam tão habituadas à minha presença que já nem se importavam muito com a minha circulação ou talvez fosse Deus me ajudando a tomar a decisão certa. Congelei frente à porta do quarto de , aquilo separaria a adolescente da adulta, eu mataria parte de mim ali. Mataria uma parte inocente, infantil, sonhadora e junto a ela mataria qualquer sentimento por . Precisava ter coragem, precisava fazer o que tinha que fazer.

(Dê play na música aqui. Se necessário, coloque para repetir — The Fray — Never say never).

Quando enfim entrei no quarto, me encarou confuso e tentou sorrir. Eu pensei em desistir, devia pensar em mim primeiro e ficar com o homem que eu queria de uma vez por todas, mas não podia. Olhar para me faria desistir e eu não poderia me dar esse luxo. Me aproximei de seu leito e comecei a falar:
— Olá — cumprimentei, encarando o lençol. — Tem algo que eu preciso dizer, precisamos conversar. Eu tenho que te contar algumas coisas e preciso fazer de uma vez por todas. — Ri fraco e tentou tocar minha mão, mas eu a afastei. — Por favor, . Só me deixe falar, tá bem? — pedi e fechei os olhos com força. — Eu estou apaixonada por você, na verdade, eu acho que sou apaixonada por você desde que me lembro. Não consigo lembrar de viver sem estar apaixonada por você. Há alguns anos, eu daria qualquer coisa para estar vivendo o que estou agora, para ter a chance de ficar pelo menos perto de você de alguma forma. Não sei se alguma vez você notou isso, meu irmão diz que sim, mas eu não sei realmente até onde ele é confiável. — Respirei fundo, na tentativa de controlar o choro que insistia em aparecer.
— E então, quando eu percebi que não teria você, que… bem, sua vida estava seguindo, você ia se casar, eu me mudei e aí tudo desandou. Quando eu voltei, casada, jamais sonhei com essa possibilidade de encontrar você aqui, livre e diferente do que eu imaginava. Eu achei que te encontraria feliz, com uma esposa belíssima e com alguns filhos bonitos, uma família de comercial de TV. Eu tinha decidido arrancar esse sentimento, sufocá-lo até que ele deixasse de existir, mas quando eu te vi, quando eu pude olhar para você depois de todos esses anos… — Balancei a cabeça e continuei. — Eu percebi que nada mudou. Na verdade, eu demorei para aceitar isso. Demorei para entender tudo o que estava acontecendo, tudo pelo que eu estava passando. Percebi que não sou como imaginava e estar com você tem me ajudado nisso, tem me motivado a ser melhor, porque de alguma maneira eu desejo muito ser alguém melhor para você. Alguém melhor para te merecer. — me encarava, não conseguia traduzir seu olhar. — Mas parte de ser alguém melhor é começar a colocar os sentimentos das pessoas que eu amo acima das minhas vontades e é por isso que eu estou aqui. Eu estou apaixonada por você, , e talvez nunca sinta isso de novo na vida, mas eu não posso ficar com você. Eu não sei exatamente se ficar comigo é o que você quer. — Eu ri fraco e olhei para cima, tentando não chorar. — Eu sinto tanto por isso, lamento tanto. Mas eu tenho que ficar com a minha família, com meu marido e tentar fazer o máximo por eles, para o bem do meu filho. Eu sinto muito. — Sorri fraco, tentando ignorar algumas lágrimas teimosas que insistiam em cair e voltei rapidamente meu olhar para . Ele piscou duas vezes. — Eu não posso fazer isso com eles, não é certo. Por isso eu estou me afastando, continuar aqui com você, sentindo o que estou sentindo, seria como traí-los. Você merece alguém que possa estar com você por inteiro e merece a mesma coisa. Eu não sei se vou conseguir, mas… — eu disse e tentei sorrir de novo. — Eu queria que as coisas não fossem assim, queria poder ficar e você sabe… — Tentei dizer o que se passava pelo meu coração. — Eu sei que disse que não te deixaria mais, mas agora é a melhor coisa a se fazer, acredite, por nós três. E eu acho que nunca fiz nada tão difícil — confessei e olhei para cima de novo, tentando conter as lágrimas. — Eu preciso ir, preciso. — Suspirei, inclinando a cabeça para olhá-lo.
piscava duas vezes, repetidamente, tinha no rosto uma feição confusa, irritada, triste, frustrada. Era nítida sua angústia por não conseguir dizer nada, ele abria a boca, atônito e exalava o ar com força, como se tentasse desesperadamente produzir algum som. Ele enfim conseguiu tocar minha mão, tentou apertá-la com o máximo de sua força, que atualmente não era muita.
— Eu tenho que ir, você vai ficar bem. Vamos todos, vai ficar tudo bem. — Tentei dizer algo reconfortante para nós dois. — Nós não podemos… talvez seja coisa do destino, não era para ser. Eu preciso mesmo ir — disse, me afastando devagar.
balançava a cabeça negativamente e abria a boca, tentando dizer algo, também piscava os olhos, agitado. Era a pior cena que eu já tinha visto na vida, eu estava matando uma parte de mim, com certeza estava. Ele ainda segurava minha mão, aquela separação de peles seria a pior coisa que eu faria na vida. Tentei memorizar por alguns segundos como era o seu toque, como era sentir sua pele junto à minha e então comecei a me afastar, devagar. O olhar de era ainda mais ansioso, contrariado e, para minha surpresa, uma lágrima havia se formado e escorria pelo lado de seu rosto, seguida por outra e outra. Eu não tinha mais forças, ou iria embora naquele segundo, ou nunca mais iria. Respirei fundo e separei nossas mãos de uma vez, voltei meu olhar para uma última vez e o vislumbrei ferido, profundamente. Talvez fossem coisas da minha imaginação fértil. Andei de costas para a porta, devagar, tentando com todas minhas forças conter o choro.
Fechei a porta, selando aquela que seria a última vez em que eu o veria, desabei. Era como se meu corpo perdesse o contorno e eu dissolvesse ali, no chão, no corredor. Estava feito, era a coisa mais difícil que eu tinha feito na vida, mas precisava ser assim.
Precisava, não é? Eu precisava deixá-lo ir, precisava me libertar daquele amor para conseguir enfim viver livre e em paz.