Futuro de Estocolmo

  • Por: Joice Muniz
  • Categoria: Originais
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Sinopse: Hoje, se o Príncipe pudesse escolher entre apenas se casar ou apenas ser Rei, sem sombra de dúvidas escolheria a segunda opção.
Escrita do ponto de vista dele, O futuro de Estocolmo conta a história de um homem que, mesmo gostando de fazer parte da monarquia sueca, sendo grato a isso e tendo a melhor das intenções em continuar com a linhagem de sua família no trono, nunca sentira a vontade de encontrar alguém que estivesse disposto a acompanha-lo nessa jornada, por mais que encontrasse beleza e competência em princesas de outros países, como por exemplo a Princesa Albanis Hidalgo da Espanha e a Princesa Anelise Van School da Holanda, e, por isso, comprometia a continuidade desse reinado.
Gênero: Drama. Romance.
Classificação: 14 anos
Restrição: Pode conter agressão e linguagem imprópria. Pode ser lida com qualquer, repito, qualquer pessoa, até mesmo famoso, desde que esteja disposta a vê-lo em um ambiente totalmente diferente. Os sobrenomes são fixos por serem europeus. Os personagens Carl Philip, Sílvia, Victoria, Daniel, Estelle e Óscar existem na vida real e foram usados único e exclusivamente para dar mais realidade a história. Os nomes Albanis, Anelise, Solverg (ou Gustaf) e Birgitta estão sendo ou serão usados.
Beta: Natasha Romanoff

Capítulos:

INTRODUÇÃO

A Suécia é um país localizado ao nordeste do Reino Unido e faz fronteira com a Noruega e com a Finlândia, sendo marítima com a última. Sua capital é Estocolmo, que também é a cidade mais populosa do país. Por muito tempo, o país foi governado por uma monarquia constitucional, conquistada em 1809. A monarquia constitucional consiste no que se pode chamar de divisão de tarefas, em que o Rei é o Chefe de Estado, podendo ser considerado o representante público mais elevado de um Estado-nação, e o Primeiro Ministro (nomeado pelo monarca após deliberação dos membros do parlamento, que gira em torno de 300 pessoas) é o chefe de Governo, a figura principal da política do país e o principal articulador das vontades da população.
Com a abdicação do Rei Carl XVI Philip ao trono, em 2017, a sua filha e sucessora Princesa Victoria da Suécia ocupou o seu lugar, acompanhada do marido, o Príncipe Daniel, Duque da Gotalândia Ocidental. O casal tinha dois filhos, Estelle e Óscar, a Duquesa da Gotalândia Oriental e o Duque da Escânia, respectivamente. A princesa Victoria só poderia se tornar rainha devido à aprovação, em 1980, da primogenitura igual, o que significava que o filho mais velho se tornaria sucessor ao trono, independentemente de seu sexo.
Mas muita coisa mudou desde então.
Aquele que, em 2002, era o personal trainner pessoal da princesa herdeira do trono da Suécia, após várias suposições de anorexia, e passou a ser seu namorado em um romance até então proibido; em 2009, conquistou o Rei após passar por aulas de inglês, conhecer todos os protocolos reais e aprender a fazer belos discursos, para, só então, poder firmar o noivado; em 2010, se casou na presença de aproximadamente 1200 convidados, entre eles os representantes de grandes monarquias mundiais; e em 2020, traiu não só os Reis Carl XVI Philip e Sílvia (que, só por curiosidade, tem descendência brasileira), mas toda uma nação.
Daniel, o Duque da Gotalândia Ocidental, aplicou o maior golpe de Estado que o mundo poderia ver.
Daniel acompanhou e ajudou durante 3 longos anos a esposa a comandar o país e, em um momento de fragilidade deste, jogou na mesa um documento de 778 laudas com todos os motivos que, para ele, tornava a monarquia constitucional, conquistada em 1809, inconstitucional. Que coisa, hein! Entretanto, apenas descolar um documento desses não era o suficiente. Ele obrigou a Rainha Victoria, sua esposa, e o então Primeiro Ministro a ler e assinar o documento, como se estivessem atestando sua veracidade. O Primeiro Ministro foi designado, assim, a apresentar trechos do documento ao mundo e então consagrar a coroa a quem até então era, apenas, o marido da Rainha, o braço direito dela.
Renascia, assim, a monarquia absolutista que o país lutou tantos anos para derrubar.
A Rainha Victoria passou a ser uma sombra do marido. Seus filhos cresceram vendo a desgraça crescer em torno de seus pais e o problema só não foi maior porque o Rei Daniel Westling Olländer da Suécia não conseguiu alterar ou, pior, derrubar a escritura que derrubou as castas em 1546.

Flashback, Setembro de 2064.

– Curve-se, Victoria! – gritou o Rei, ao ver que sua esposa relutar mais uma vez. – Abgail merece mais respeito do que você.
Ela o fez, desistindo de brigar mais uma vez sobre o mesmo assunto. Acontece que, desde que Daniel tomou o trono e se tornou Rei, passou a trair a esposa e a impor diversas regras a ela, entre elas a de se curvar para as próprias amantes do marido.
– Agora vá preparar a banheira dela. Vá! – deu as costas para sua própria esposa, se dirigindo à biblioteca, deixando-a com a amante.
– Olha, querida, não tenho todo o tempo desse mundo. Vá logo!
Para Victoria, poderia se passar 100 anos e ela nunca se acostumaria àquela tortura. Sabendo que não poderia fazer absolutamente nada sobre, deu às costas a Abgail e seguiu para aquele que foi o seu banheiro 30 anos atrás. Pelo menos o Rei usava o quarto destinado à Princesa para cometer suas traições.
Com a intenção de tornar tudo o que ela passava um pouco mais fácil, convenceu os filhos a se casarem – trazendo assim, também, grandes aliados – e abdicarem à coroa, intencionada a vê-los longe de todo tormento. Estelle se casou com o Príncipe herdeiro dos Países Baixos, Jepherson Allark, e Óscar, com a Princesa herdeira da Espanha, América Bertalli. Tinha contato com eles quando ocorria bailes em seu Palácio ou quando a convidavam para passar alguns dias em suas companhias.
A sociedade civil, as pessoas fora do Palácio de Drottningholm, não conheciam vinte por cento dos fatos da dura realidade vivida pela rainha…

Atualmente, maio de 2102.

A monarquia absolutista ganhou força no país com a morte do Rei Daniel Westling, em 2072, quando seu irmão mais novo, Gustaf, foi coroado Rei, após uma carta magna deixada pelo falecido Daniel, reforçando a abdicação dos seus filhos à coroa e com instruções aleatórias sobre a tramitação do poder. O nome real de Gustaf passou a ser Solverg I Westling Olländer da Suécia. Casado com a princesa condecorada Rainha consorte, Birgitta van Enx Olländer da Suécia, tem apenas um filho: o príncipe herdeiro, Westling Olländer da Suécia, hoje no auge de seus 26 anos.

CAPÍTULO I

Estar na aula de Economia Internacional poderia ser maravilhoso se, para o futuro herdeiro da coroa sueca, cursar Economia fosse tão bom assim. Para quem sempre se interessou por assuntos como a História Antiga, o descobrimento da América, as guerras mundiais, migrar dessa forma era um salto e tanto; foi a vida – lê-se o pai – que o fez seguir o caminho contrário ao que desejava. Em sua cabeça, o príncipe criava as mais diversas justificativas para o pai insistir tanto que ele cursasse Economia: se afeiçoar aos números, conhecer as economias estrangeiras para poder saber como jogar em caso de novas crises, saber como trabalhar com os relatórios ministeriais e até mesmo para fazer com que desapegasse da ideia de conhecer e apreciar o passado das monarquias mundiais, inclusive a dele. Mas ele sempre dizia “você precisa conhecer e entender como funciona o seu país, ou você acabará com ele quando tiver a oportunidade”.
Assim que o tutor deu a aula por encerrada, o Príncipe ainda não tinha terminado de anotar todas as informações dispostas na lousa. Nunca havia sido tão afeiçoado pela tecnologia como as outras pessoas de sua classe e preferia anotar tudo à mão. Não tinha mais ninguém no anfiteatro da universidade quando terminou de guardar todos os seus pertences e saiu do local. Seu guarda particular já o esperava do lado de fora.
Para as pessoas, todas as pessoas, já tinha se tornado comum ver o futuro Rei da Suécia andando pelos corredores da Universidade, inclusive quando tinha um guarda do palácio em seu encalço. Mas também, quem pudera, o Príncipe já estava no fim do terceiro ano. As pessoas não olhavam para ele como se fosse alguém intocável e alguns até arriscavam cumprimentos informais, até porque ele havia aberto mão de usar as roupas formais da família real na universidade justamente por isso. Todos os dias, ia para a aula usando algum tipo de suéter, calças jeans e sapatos sociais. Já até tinha se arriscado usar aquelas famosas e antigas chinelas Crocs.
– Alteza.
Era o zelador do prédio. Ele sempre o saudava com uma reverência, mesmo depois de meses de insistência de de que aquilo não se fazia necessário. Não o tempo inteiro.
riu.
– Carl. – esperou o senhor se endireitar para lhe oferecer a mão, como cumprimento. – Como passou a manhã?
– Muito bem. E a Vossa Alteza? – ele retribuiu o gesto.
– Muito bem, obrigado. Espero que passe o restante do dia da mesma forma. – acenou. – Até amanhã!
Seguiu os passos sabendo que tinha recebido outra saudosa reverência.
O Príncipe , em poucas vezes que fez aparições em público acompanhado de outros membros da família real, sentiu na pele o peso da rejeição. Em certo evento, tiveram que abandonar o palanque devido à revolta da população, que demonstrou isso com alimentos podres, dos mais diversos tipos, em suas direções. Por isso, não gostava de ficar chamando atenção por onde passava.

– Bom dia, mamãe. – beijou a testa dela. – Como foi passar mais uma manhã sem minha presença?
– Olha, meu querido, venho me acostumando a cada dia, mas continua sendo muito ruim. – ela ainda se sentia solitária, mesmo tanto tempo após o filho dar entrada na Stockholms universitet (em português, Universidade de Estocolmo). – Almoce conosco hoje, por favor.
– Faço questão. Até porque sei que ficarei trancafiado a tarde inteira naquele escritório com o Rei da Suécia. – ela riu. – Desço em alguns minutos, prometo.
Engana-se quem acha que fez menção a seu pai com o coração cheio de amor. Sempre foi muito apegado aos pais, a monarquia, e todas aquelas regalias que vinham na bagagem – um privilégio que ele reconhecia ser de poucos. Mas ser apegado, gostar daquilo, não queria dizer que aprovava o modo com o próprio pai coordenava toda aquela nação. Geralmente, sua voz era nula em meio de tantos conselheiros treinados o bastante para agradar os ouvidos do soberano. Ou tinha ideias muitos ruins ou tolas, ou suas leituras de guerra e treinamento de combatentes estavam um pouco ultrapassadas, ou os estudos dos dados orçamentários, coisa que se aprendia na universidade, estavam incorretos. Mas, como sua mãe sempre dizia: aos poucos, ele aprenderia a remar.
Ela, a mãe dele, sempre foi uma pessoa admirável. Desde a beleza, até o modo como ela se portava diante de tudo. Desde os seus 14 anos, quando finalmente começou a entender as coisas à sua volta, passou a observá-la com mais afinco. As únicas vezes em que a viu ficar irritada de verdade foi quando uma de suas irmãs mais nova fora vista em momentos íntimos com um dos guardas do palácio e a outra fora com um dos sobrinhos, que acabou por quebrar a coroa preferida dela. Mas, com toda certeza, imaginava que a Rainha Birgitta era bem mais frágil e só não demonstrava, principalmente perto do Rei.
E, para finalizar tudo isso, a estrutura da monarquia absolutista concentrava todos os três poderes na mão dele. Na mão de seu pai!
Ao chegar ao seu quarto, observou a realidade perfeitamente vestida em um manequim próximo da cama. Um terno de cor azul marinho, muito bem cortado, estruturado e bem passado, que acompanhava uma camisa social branca e uma gravata – o Príncipe usava coletes apenas em eventos de grande visibilidade pública. E ele sabia que deveria dar graças a Deus por ter um empregado tão bom como o que tinha, já que nem todo mundo tinha aquela oportunidade. Ver que Freja preparava silenciosamente seu banho e nem tinha notado sua chegada o fez tomar notas mentais para agradecer ao homem acerca de seu trabalho apenas mais tarde. Freja era como se fosse o seu melhor amigo, ele apenas não sabia disso.
– Obrigado, Freja. Acho que consigo continuar sozinho daqui. – disse, dando o melhor sorriso. Algumas aulas tinham o poder de sugar toda sua alegria.
– Ao seu dispor, Alteza. – e saiu após o saudar.
Se despiu e adentrou a banheira, que Freja tinha deixado na temperatura ideal para aquele dia ameno. Poucas pessoas teriam a competência de preparar um banho como aquele, se não fosse o próprio Freja.

Beijou a testa de sua mãe e apertou o ombro do pai antes de se sentar à esquerda dele. A mesa já estava posta e sempre achava desnecessário tanta comida para três pessoas e ficava se perguntando se, de alguma forma, aquilo que eles não comiam era reaproveitado.
Comeram em silêncio, como sempre faziam, sendo interrompidos apenas quando alguns empregados do palácio vinham na direção de seu pai para trazer informações que ele consideraria importantes. Em umas dessas, o Rei se levantou depressa e se desculpou com a esposa antes de deixar o salão. Observou em silêncio o olhar apreensivo e triste dela ao perceber que, mais uma vez, a família não completaria uma refeição juntos. Os dois se levantaram apenas quando terminou seu pedaço generoso de torta de maçã, ao contrário da mãe, que comeu uma mísera fatia.
, meu querido, pode ficar no quarto, se quiser, até seu pai retornar. – ela permitiu. – Eu vou precisar resolver algumas pendências relacionadas à visita de suas tias.
– Vou ficar no escritório, será melhor. Quando ele chegar, estarei esperando. – beijou mais uma vez a cabeça dela. Era um gesto que gostava sempre de repetir. – Boa sorte…
sempre soube do temperamento extravagante de suas tias, tanto de parte de pai como de parte de mãe. Gostavam de bailes bem elaborados, decorados, com muita música e, claro, alguns belos homens para poderem dançar. Esses homens, geralmente, eram os guardas do palácio, que tinham aulas das mais diversas atividades (tiro, natação, arco e flecha e alguns treinamentos para situações de ataque eram obrigatórios; dança e inglês, opcionais), uma conquista da sua mãe.
A Rainha Birgitta tinha muitos planos, a maioria deles já escritos em um papel, para melhorar a vida daqueles que trabalhavam tanto dentro como fora do palácio, o problema era que nenhum deles parecia ser bom o bastante para que o Rei Solverg desse uma chance, então permaneciam guardados no fundo da gaveta esperando a oportunidade.
Entrou rapidamente em seus aposentos, afim de resgatar apenas alguns materiais, e desceu os lances de escadas até o escritório.
Após fechar a grande porta atrás de si, observou mais uma vez aquela enorme sala. Com estantes repletas de livros, dos mais diversos assuntos, e alguns que nunca ousaria tocar, que ocupavam todas as paredes, com exceção de uma, que continha uma janela ocupando toda a extensão e que dava uma belíssima visão para as águas que corriam em direção ao Oceano Báltico, acompanhada de uma cortina de cor escura, quase marrom. Em frente à janela, tinha uma mesa bem grande, que, pelo menos para ele, era impossível dizer de qual tipo de madeira era feita. Um pouco mais afastado da janela e mais próximo de uma das estantes, se encontrava uma mesa menor, de cantos arredondados, e uma cadeira tão confortável quanto a de seu pai. Era a que tinha como sua. Não poderia desconsiderar a iluminação esplendorosa que entrava no ambiente. Ao observar as duas mesas, ele conseguia notar duas grandes diferenças: o tamanho e a bagunça – a do seu pai, por maior que fosse, raramente estava organizada.
Não demorou muito até que seus pensamentos fossem colocados em segundo plano pelas vozes vindas do corredor. Olhou para o relógio portátil em sua mesa, já se preparando para as maravilhosas horas que seguiriam arrastando dali a frente. Eram os conselheiros que trabalhavam com o pai e raramente via um deles trabalhando na ausência do Rei. Um deles parou abruptamente ao ver o Príncipe, na esperança de encontrar outra pessoa ali.
– Ham… Alteza. – um deles olhou para os lados, após a reverência, a procura do dito cujo.
– Ele saiu ainda durando o almoço, mas creio que não demorará. – se apressou em oferecer explicações. – Creio também ser bastante útil em algo na ausência dele.
Eles o olharam como se ponderassem a situação e, dando de ombros, um deles lhe entregou uma cópia de cada um dos relatórios que carregava. Ao todo eram sete. Um desses brilharam os olhos de : a pesquisa de satisfação da população, feita a cada três meses. Como, geralmente, não participava veementemente das reuniões ministeriais, não tinha acesso livre a documentos como aqueles, então seu pai apenas lhe contava por cima. Entretanto, provavelmente o Rei se esquecia de que o filho tinha acesso livre à vida fora das fronteiras do palácio.
– Um desses fala sobre os gastos orçamentários previstos para o próximos semestre. – apontou para os relatórios em minha mão. – Estão grifados de amarelos aqueles que podem ser discutidos, tanto para melhor quanto para pior.
deu de ombros.
– Certo. Creio que sobre isso terá que tratar diretamente com ele. – ele riu. – Não tenho soberania suficiente para dizer que devemos investir mais na saúde ao invés de trocar as vidraças.
Quando os conselheiros chegaram, o príncipe havia percebido que estavam em cinco, mas agora apenas um falava com ele. Os outros se reuniam na mesa de seu pai, provavelmente na intenção de se organizarem para a próxima reunião.
Continuou:
– Ainda assim, gostaria de ficar com todos eles. Acho até que poderíamos discutir algumas ideias. – apontou para os outros quatro.
Durante as horas que se passaram, foi discutido sobre alguns gastos que ele não via extrema necessidade de serem realizados, pelo menos não naquele momento. Havia sim algumas janelas apresentando defeitos, não poderia negar, mas trocar as vidraças deveria ser última coisa a se pensar quando os números da saúde e educação pediam atenção. O país, ele acreditava que por um privilégio devido à sua localização, não sofria com tantos problemas como a grande maioria dos países desenvolvidos do globo, só que ele também tinha a impressão que quanto mais se esforçavam, mais as coisas pareciam dar errado.
Um dos conselheiros manteve a expressão suave enquanto explanou o seu ponto de vista, enquanto os outros, era perceptível, achavam seus ideias um tanto quanto mirabolantes.
– Agora, me bateu a curiosidade – passou a mão no rosto, um tanto quanto cansado. – Qual o motivo para que os números da popularidade da monarquia estejam diminuindo?
Sua pergunta havia surtido efeito de choque nas pessoas à sua frente, que ficaram sérios com a sua pergunta, mas não poderia deixar algo do tipo passar despercebido. Não quando o resultado da pesquisa clamava por atenção. Como todo o resto, pensou. Para o alívio dos homens, o Rei Solverg entrou na sala.
– Majestade. – uma reverência rápida, que passou batida.
– Boa tarde. Onde estavam?
O Rei era um homem que emanava um pouco mais de autoritarismo do que o necessário e ele compreendia que às vezes poderia fazer parte do posto que ocupava, mas, de qualquer forma, para era impressionante como o pai sempre conseguia transmitir uma calma desconhecida até para sua mãe em alguns momentos. Os 30 anos no poder o tornaram tudo ao mesmo tempo, desde cansado a enfurecido. aprendera a lidar com a mudança repentina de humor com o tempo.
havia perguntado sobre os resultados da pesquisa de satisfação. Vossa majestade chegou no exato momento. – cuspiu as palavras sobre a mesa. Pareceu que aqueles homens realmente davam graças a Deus por não ser um deles a responder àquela pergunta.
– Acho que estão esperando que você arrume logo uma esposa, . – falou, sem pestanejar.
– Mas eu não quero me casar! – retrucou. – Pode não parecer, mas sou muito capaz de governar esse país sozinho.
Então era isso que aqueles homens tinha receio de lhe contar? O Rei voltou a falar:
– Antes que fale mais alguma coisa, tem no relatório as perguntas feitas à parte da população juntamente às porcentagens. – agarrou o relatório da mão do filho. – É a forma deles de mostrar a indignação em você continuar sozinho e nem se dar o trabalho de procurar alguém, . Você já tem vinte e seis anos e as pessoas gostam de você. E o principal, você é o meu sucessor e sabe que eu não poderei assumir esse cargo se não tiver… – ele fechou os olhos e contorceu o rosto, parando de falar por alguns segundos. O Príncipe não sabia o que era aquilo, mas não era a primeira vez que viu o pai naquela situação.
Uma mulher, esposa, uma princesa. Sempre soube da necessidade que o país tinha em saber que ele finalmente havia encontrado alguém para ocupar o posto mais imponente e honroso na vida da monarquia. Também da grande importância que isso tinha, tanto em sua vida como na de todos os homens que estavam ali.
carregava consigo que nem sempre tudo o que era preciso fazer era o que realmente ele queria. E por não querer, não faria.
O Rei acenou e, em um piscar de olhos, um dos guardas que estavam do lado externo da sala parou ao seu lado.
– Me traga um papel timbrado. Vou enviar uma carta à biblioteca!
Um de seus conselheiros entranhou sua atitude repentina, mas não ousou perguntar o motivo. sabia que, por mais receio que se tinha de perguntar as coisas para o pai, às vezes era necessário.
– Biblioteca? Mas por qual motivo temos que envolver a…
– Já está passando da hora de você ter acesso a alguns documentos. – ele agarrou o papel da mão do homem. – E tudo, exatamente tudo o que ler, tem que ir para o túmulo com você!

CAPÍTULO II

A carta que o pai escrevia, diga-se de passagem com muita atenção, já tinha ultrapassado as barreiras do formal: tinha se tornado uma tarefa exclusiva da pessoa que recebesse aquele pedido. Ele pediu duas antigas constituições do país, a de 1809 e a de 1974, o atual Código de Leis Suecas e a escritura que derrubou a monarquia constitucional em 2020. Sobre essa última, por ser considerado um documento secreto, conhecia pouco, porém muito mais do que a maioria da população do país
Ao terminar de escrever, o Rei Solverg entregou-a para um guarda e exigiu o cumprimento daquela solicitação ainda naquele dia. O Príncipe observava a feição dos conselheiros do pai e em nenhum deles conseguiu a resposta que queria para aquele pedido inesperado, mas sentia que todos eles sabiam o motivo daquilo estar acontecendo.
, enderecei a entrega para você. Espere por eles ainda hoje. – explicou, jogando a caneta em cima da mesa. – E continuamos a discutir isso amanhã.
– Certo, vem para mim. – ele cruzou os braços acima da mesa. – Mas eu ainda não consigo entender onde me encaixo nisso…
– Quando você os tiver em mãos, entenderá. – e antes que pudesse falar algo, o Rei frisou. – E, por esse país, mantenha a boca fechada!
Dito isso, ele simplesmente levantou e saiu, deixando sem saber o que fazer ou como agir na companhia dos cinco conselheiros. E, sem motivos para continuar ali, decidiu por se levantar e fazer outra coisa, esperando o carregamento desconhecido que chegaria mais tarde. Ele acreditava que já se passava das cinco horas da tarde, quando observou o guarda deixar o palácio carregando a carta.
A cabeça pipocava de justificativas para que aquilo estivesse acontecendo, mas, para ele, nada fazia o menor sentido. Seu pai acabou de colocar na palma de sua mão um documento que justificava a queda da monarquia constitucional e algumas leis que hoje não têm efeito algum, nem sobre a população e muito menos sobre eles – como monarquia –, e ele não conseguia simplesmente acreditar que fosse por mera conveniência. “Ah, gente, só me deu vontade de mostrar a verdade pro menino!”, mesmo assim ele conseguia ouvir a voz do pai ao pensar nessas palavras.
Na intenção de espairecer, decidiu caminhar pelo jardim que sua mãe mantinha com tanto carinho. A cada quinze dias, os arbustos passavam por uma poda e as flores eram colhidas com frequência para decorar todos os jarros do palácio. A floresta densa vinda da lateral esquerda do palácio quebrava todo o ar romântico que o jardim passava com todos os seus bancos brancos, as fontes, a pista de golfe, onde ele viu o pai jogar muitas vezes durante a infância, além do lago Mälaren. Tinha até um espaço reservado para treino de arco e flecha e tiro ao alvo. Sinceramente, um máximo!, pensou. Seu pai mantinha um haras com seus cavalos de porte esplendoroso, só que nada comparado ao jardim.
Gostava de ir àquele lugar, o jardim, sempre que sentia a necessidade de ficar sozinho. Na maioria das vezes em que estava ali, se pegava olhando em direção ao portão que limitava a propriedade pertencente ao palácio e pensava em como havia conseguido passar tantos anos preso ali dentro, raramente saindo para eventos reais que envolvessem os seus súditos ou para visitar outros países – com a intenção de criar laços políticos e não simplesmente passear. Isso estava fora de questão. O fato do Rei Solverg I ser tão inseguro com o próprio filho tinha uma razão e sabia disso: ele não sabia guardar tão bem os segredos. E vez ou outra deixava escapar assuntos que não tinha, e nunca teriam, conhecimento público. Foi muito complicado para o Príncipe conseguir a autorização do pai e daqueles que trabalhavam com ele para ingressar no curso superior.
Já estava ficando escuro, por volta de oito da noite, quando decidiu que estava na hora de voltar para dentro. Vivia em um país seguro e as pessoas raramente demonstravam revolta, mas prezar pela própria segurança nunca era demais, até porque o Palácio de Drottningholm era um ponto turístico muito visitado em qualquer época do ano. Adentrando as grandes portas, subiu as escadas em direção ao quarto no terceiro andar. Por inúmeras vezes, cogitou a ideia de dar uma modernizada no palácio e colocar uns elevadores, subir essas escadas o tempo inteiro poderia cansar até os mais atléticos.
– Alteza. – ouviu a voz de um guarda e virou em direção à ela. – Tem uma senhorita que se diz ser da biblioteca no portão.
Já era a hora!
– Certo. Deixe-a entrar e peça que me espere no Grande Salão. – voltou a subir as escadas, agora mais rápido. – Ofereça algo. Não demoro!
O Grande Salão era a área de convivência comum do palácio, qualquer um poderia entrar ali a hora que desejasse. Era como se fossem várias salas de convivência em um único ambiente: conjuntos de estofados faziam par com tapetes e poltronas das mais variadas qualidades. Algumas TV’s também compunham o ambiente. Havia também um espaço para jogos de tabuleiro e cartas, além de uma mesa grande para reuniões informais. gostava daquele lugar por ser o mais descolado dentro do prédio.
Não havia algo que precisasse realmente fazer no andar de cima, a não ser usar um banheiro. Só que banheiro existia em qualquer esquina daquele lugar. Aproveitou o seu próprio atraso e passou no quarto só para deixar o paletó. Se tinha algo que ele não gostava de forma alguma, era de ver as roupas amarrotadas e, por isso, sempre preferia colocá-las em um local seguro. Era menos trabalho para Freja também. Borrifou um pouco de perfume antes de sair de lá novamente.
Ao chegar ao Grande Salão, encontrou uma senhora que aparentava o dobro de sua idade sentada em um dos sofás com uma xícara na mão. Quando o guarda disse ser uma senhorita, achou que poderia acreditar que o homem se referia a uma mulher de sua idade. Bom, ele pensou, se ela não fosse casada, teoricamente ainda era um senhorita. Ela tinha uma bolsa no colo e uma maleta próxima aos pés. Estava tão concentrada observando os detalhes que não percebeu quando o Príncipe se aproximou dela.
– Espero não ter demorado. – usou um tom baixo, afim de não assustá-la.
Em vão, já que mesmo assim ela se assustou, olhando-o com certo espanto. Ela tratou de se levantar com um pouco de pressa para fazer uma reverência, que o Príncipe aceitou de bom grado.
– Alteza, acredito que tenha o direito de demorar o tempo que for necessário. – ela falou.
– Não costumo fazer isso, de qualquer forma. – retrucou, mesmo sabendo que ela falava com sinceridade. – Desculpe, qual o seu nome?
A mulher se sentou após lhe oferecer o lugar novamente.
– Àgda, Alteza. Àgda Nilsson.
Ela bebeu o último gole de café da xícara e, como o Príncipe estava para se servir, serviu-a também. Para , empregados não se faziam necessários em cem por cento do tempo, ainda mais quando se era possível servir uma xícara sozinho. Seus biscoitos amanteigados prediletos acompanhavam o café.
– Receio estar esperando os documentos. – ela começou a falar, após um gole, devolvendo a xícara para a mesa e sacando uma pasta de sua mochila. – Vou precisar apenas da sua assinatura no formulário de recebimento. Meras formalidades da Biblioteca.
– Ah, claro. Tem caneta?
Ele não esperava ter que assinar alguma coisa. Afinal, ele era o príncipe. Acreditava estar sempre isento àquele tipo de situação. Ela lhe entregou formulário e caneta, ao passo que ele leu e assinou, enquanto ela acabava com o líquido da xícara mais uma vez. Ou Àgda gostou muito ou não bebia café com frequência.
– Uma via é sua e a outra da biblioteca, Alteza. – devolveu um dos papeis ao perceber que ele tinha lhe entregado duas folhas.
– Claro.
Àgda tinha olhos bem grandes, coloridos com um azul bem intenso e para era impossível não reparar neles. Os cabelos dela estavam um tanto quanto rebeldes, e ele acreditava que o motivo era ter trabalhado o dia inteiro. Vestia calças jeans e o uniforme da Biblioteca. Um cardigã completava o visual. Ele riu. Jamais imaginaria reparar tanto em uma mulher que possivelmente poderia ser sua mãe. Desviou a atenção de seus pensamentos quando percebeu que, por fazer parte das meras formalidades, a mulher abria a maleta.
– Tem uma carta com instruções caso queira devolver ou solicitar documentos complementares a esses. E, por mais que todos esses documentos pertençam à monarquia, a gente sempre reforça os cuidados que é preciso ter: sem alimentos por perto, sem rasuras e, principalmente, sem rasgar. Se precisar fazer cópias de algum deles, peço que nos solicite. É muito importante que tenhamos o controle sobre a geração de cópias, ainda mais de documentos como esses. – ela fechou a maleta e entregou a . – E creio que seja isso, Alteza.
Ela fez menção a se levantar, dando um sinal de que iriam embora, mas foi mais rápido.
– Perdão pela intromissão, mas em qual bairro a senhorita mora? – questionou.
– Bromma, Alteza, não fica muito longe daqui. – ela respondeu, e era notável o rubor em seu rosto.
– De certa forma, está bastante tarde para ficar andando sozinha pelas ruas. E, até mesmo por ser aqui do lado, pedirei para que um motorista a leve em casa. – ele disse, acenando para um guarda, que já sabia como proceder. – Peço desculpas, mas receio estar atrasado para o jantar. – sinalizou para que ela voltasse a se sentar quando se ele levantou. – Com licença, tenha uma boa noite.
– Muito obrigada. Boa noite, Alteza.
Antes de sair do Grande Salão às pressas, tomou sua mão para um último e educado cumprimento. Imaginando que seus pais já estivessem no meio de suas refeições. caminhou um pouco mais depressa do que o habitual para um membro da corte, entretanto, quando entrou no Salão de Jantar, a mesa não estava posta e eles não estavam lá.

– Você sabe, Bengt, me responder como eu ainda estou aqui, firme e forte, há seis semestres? – questionou, ao colega sentado ao seu lado, sem tirar a atenção do professor, que explicava alguma coisa sobre o Direito de Consumidor do país.
Bengt era, para , um dos poucos, senão o único, colega que havia feito dentro do ambiente da Universidade, e infelizmente os dois só tinham aquela aula juntos. Se deram bem logo no início porque o dito colega era um dos poucos que não faziam ideia de quem era nos primeiros dias de aula. Ou pelo menos fingiu, pensou o Príncipe. Muito bem, aliás. Durante a primeira semana de aula, todas as matérias tiveram suas aulas iniciais chatas e monogâmicas trocadas por algo muito pior: assistir palestras sobre a Universidade, sobre o curso e participar de debates sobre o futuro da profissão. Todo esse tempo, Bengt sempre se sentava ao seu lado e puxava assunto, evitando que o futuro monarca perdesse o precioso tempo pensando em como teria sido bom ter negado a condição dada pelo pai de se formar, exclusivamente, em Economia.

– Acho que seria muito mais prático se pulassem isso tudo e fôssemos direto ao momento em que aprendemos a realizar operações matemáticas. – Bengt ironizou, alguns minutos após se sentar próximo de .
– Pode ter certeza que você perdeu muita coisa chegando vinte minutos atrasado. – o Príncipe contou, apontando para o centro do auditório. – Consegue imaginar aquele Senhor fazendo uma dancinha às oito da manhã? – o garoto riu ao seu lado. – Pois é…
Era a última palestra da semana e não perdia por esperar o momento que aquilo acabasse e as aulas realmente começassem. Estava cansado daquilo e se recusava a acreditar que em todas as Universidade aquela tortura pudesse acontecer. Faltava aproximadamente trinta minutos para que tudo fosse finalizado, quando um dos guardas do palácio parou ao seu lado, descaracterizado. O Rei Solverg tinha imposto que pelo menos um guarda o acompanharia nas aulas e o Príncipe pediu que, pelo menos nas primeiras semanas, a pessoa fosse sem o uniforme para não gerar nenhum pânico nas pessoas.
– Alteza, com licença. – sussurrou, tirando a atenção de da conversa com Bengt.
– Alteza? – foi o que conseguiu dizer.
– O próprio, Bengt. – o Príncipe riu da cara desesperada que o colega fez, logo dando atenção ao homem parado ao seu lado.
– Seu pai solicitou sua presença no Palácio. Imediatamente!
– Certo. – acenou com a cabeça. – Só me dê dois minutos!
Quando voltou a olhar para Bengt, encontrou o mesmo com uma feição que variava entre choque, medo e admiração e não pode deixar de rir disso.
– Pensei que tivesse notado. Pelo nome. – o príncipe deu de ombros. – E estava sendo legal comigo, já que, como você pode perceber – olhou para o restante do auditório, lotado. – As pessoas têm medo de serem jogadas nas masmorras. E nem existe uma!
– Todo mundo pode ter o nome igual ao seu, Alteza.
– Não, Bengt. – passou a ficar sério. – Sem formalidades, está ótimo assim! – balançou a cabeça, em negação, repetidas vezes. – Sem tratamentos formais, sem reverências, sem vergonha.
– Posso tentar, não prometo nada. – concluiu, rindo.
– Já é um bom começo! – se levantou. – Preciso ir.
E, com um cumprimento rápido, o Príncipe se despediu de Bengt, que se viu forçado a prestar atenção à palestra pela primeira vez no dia.

O homem parou de digitar no que estava trabalhando e voltou sua atenção à .
– Eu pensei que não aguentaria um semestre, para falar a verdade. – revelou. – Mas não acho que você estaria melhor em outro lugar. Isso, querendo ou não, é a sua praia.
Aquilo ele não poderia negar: trabalhava com aquilo o tempo inteiro e até nos momentos em que tirava um descanso dos números e dos boletins, eles insistiam em acompanhar .
– Sim, eu sei. – relaxou os ombros. – É que eu estive pensando nisso há um tempo e não consegui me responder.
– É como eu disse, já faz parte de você. – Bengt disse, voltando a digitar. – Não há muito o que possa fazer.
Não demorou muito para que a aula chegasse ao fim e os dois seguissem rumo à saída do prédio. Em pouco tempo, o motorista de estava fazendo um desvio para levar Bengt em casa, como fazia toda semana, principalmente quando haviam pendências a serem resolvidas sobre seminários e provas.
Chegando à casa, se deu conta de que faltavam apenas três dias para a chegada das suas tias ao Palácio e, por isso, tudo estava uma correria. Mulheres, literalmente, corriam de um lado para o outro, carregando bandejas e pedaços de tecido. Os guardas, a cada dia, surgiam com um uniforme diferente para a aprovação do Rei e não sabia se queria se imaginar na posição do seu pai, escolhendo uniformes, um dia. Aliás, muito provavelmente, a tarefa de fazer essas escolhas teriam sido repassadas a ele se, durante os quatro últimos dias, não estivesse lendo e relendo o documento misterioso que levou a queda da monarquia constitucional. Caso ele não estivesse com o documento original em mãos, muito provável que nunca acreditaria em nada que lhe dissessem.
ouvia até hoje na capital, principalmente no campus da universidade, que o Rei Carl XVI Philip, pai de Victoria, prometeu a coroa ainda em 2002 para Daniel. Tudo dava a entender que o Rei tinha a ideia de que a herdeira do trono não tinha capacidade suficiente para aquele cargo. Ele achava engraçado como as pessoas não se importavam de discutir sobre esse tipo de assunto perto dele. Pensar nisso o fez refletir que talvez algumas das teorias que ele já havia escutado poderiam, no final, estarem certas.
Decidiu largar um pouco toda essa história e espairecer a cabeça no Grande Salão, afim de jogar xadrez sozinho, só não esperava o encontrar amarrotado de gente. A Rainha Birgitta estava experimentando e decidindo o cardápio da comemoração de boas-vindas que logo mais aconteceria. Encontrou-a rodeada de empregados, que anotavam tudo o que ela dizia e a observou por alguns instantes enquanto ela dizia tudo com toda calma e acenava para que trocassem os pratos.
– Oi, meu querido, o que acha de se juntar a mim e me ajudar nisso? – ela falou, com calma, quando viu o filho, mas havia súplica em seu olhos.
– Fique com os tecidos que eu decido as sobremesas e os doces, tudo bem? – ofereceu, sabendo que qualquer coisa que fizesse já seria de grande ajuda para a mãe.
– Com certeza. – ela sorriu em agradecimento. – O que esteve fazendo que mal lhe vi hoje?
– Lendo, mamãe. – respondeu, se esforçando não falar demais devido à quantidade de pessoas presentes. – Estou até gostando.
– Que bom, meu bem. – ela desviou o olhar para a moça em pé ao seu lado. – Gostei da seda, mas prefiro o outro tecido sem sombra de dúvidas.
Durante toda a manhã e parte da tarde, ele havia se ocupado lendo, precisava se divertir com alguma coisa. Um segundo após se sentar à mesa, se observou a dança de pés e braços dos empregados para lhe levar pratos, guardanapos e os famosos doces. Nesse tempo, percebeu que não conhecia nem dez por cento das pessoas que trabalhavam no palácio e não achava que aquilo era um bom sinal, ou algo que um bom moço faria.
comeu bastante e repetiu tudo, apenas por brincadeira, para aprovar as famosas kanelbulles e semla para o café da manhã. Além disso, para ele, era impossível realizar qualquer festividade em seu país sem colocar no cardápio as famosas chokladbolls e as godis, mas havia tentado incrementar com alguns doces finos que não eram muito do seu gosto. Olhando o resultado final de suas escolhas, poderia dizer que a mãe ficaria orgulhosa de ver o menino dela engordando tanto em uma única noite. Ela estava terminando de decidir sobre as cores das cortinas, quando dava o veredito final aos chefes responsáveis pelas sobremesas. E a Rainha estava tão cansada que decidiu que o jantar seria servido no quarto aquela noite. Poucas pessoas notavam, incluindo o Rei, mas ele tinha pleno conhecimento de todo o esforço que a mãe fazia para que tudo que estivesse em seu alcance fosse feito da melhor maneira possível.
Já no quarto, enquanto esperava Freja preparar seu banho, havia decidido responder um e-mail enviado pela Princesa da Espanha, Albanis, uma das poucas referências femininas que tinha. odiava e-mails e preferia mil vezes poder escrever algo a próprio punho, tinha a impressão de que as palavras escritas em um papel pudessem transmitir verdadeiramente o que estivesse sentindo. Porém cartas demoravam muito mais para serem entregues. Ele digitava e digitava, mas as palavras simplesmente não fluíam. Desistiu com o texto pela metade, quando Freja anunciou que o banho estava pronto e que desceria para buscar o jantar para o Príncipe.

Querida Albanis,
Já estava ficando com saudades de ler qualquer coisa que viesse de você. Há tanto tempo não nos falamos ou nos vemos que estou perdendo totalmente a prática disso. E você sabe como não suporto a ideia de escrever e-mails!
Aqui em Estocolmo as coisas estão, como sempre, tranquilas. Às vezes ocorrem aqueles protestos de sempre nos presídios e até mesmo nas ruas, mas nada difícil para ser controlado. Meu pai está tentando…

Não, não se sentia atraído pela moça de cabelos e olhos castanhos, que estava a milhas e milhas de distância. Ele só não conseguia tratá-la de maneira diferente daquela, tinha se tornado um hábito. Muito ruim, talvez.
Quarenta minutos mais tarde, ele já havia tomado banho e se alimentado. E, afim de terminar o dia sem nenhuma preocupação, decidiu consigo mesmo que seria uma boa pegar algum livro na biblioteca que o pudesse esfriar a cabeça. precisaria estar muito em paz para os próximos dias. Ao chegar ao corredor do térreo, que dava acesso ao escritório do pai, já conseguia ouvir a voz do homem alterada. imaginou que estaria conversando com algum dos guardas até chegar um pouco mais perto e ouvir a voz tranquila da mãe. Um dos homens parados do lado de fora da sala pediu para que ele se retirasse do local. ainda conseguiu ouvir a mãe dizer “Você sabe, Gustaf, que precisa resolver isso logo de uma vez”.