Harmonias & Ruídos

  • Por: Beatriz Mesquita
  • Categoria: Originais
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  • Capítulos: 2 | ver todos

Sinopse: Viver com a sua melhor amiga de infância deveria ser o sonho de qualquer pessoa, mas para você é quase um pesadelo. Desde pequena, você e o irmão gêmeo de sua amiga trocam farpas no que pode ser considerada uma guerra mundial para todos que estão ao redor. A rivalidade é conhecida nos corredores do colégio e até no bairro. No seu último ano, tudo o que você deseja é passar para a faculdade de dança em Nova Iorque e para isso, você vai precisar conseguir créditos ajudando a tradicional peça de final de ano do colégio. O que você não esperava era que a peça seria um musical e que o irmão de sua amiga – popular por ter uma banda de rock – seria o encarregado da trilha sonora do espetáculo. Trabalhar juntos nunca foi uma opção até que tudo vira de cabeça para baixo e sua única chance de entrar na faculdade é confiar na única pessoa que você não confiaria o seu fio de cabelo sem medo de terminar careca.

Categoria: Originais
Gênero: Comédia romântica
Classificação: +12
Restrição: Alguns personagens são fixos.
Beta: Bridget Jones

Capítulos:

01. APOSTAS DA MADRUGADA
— Juro por tudo que, se você não parar de passar essa colher na panela, eu te mato, . – Encarei com um olhar fulminante, conseguindo apenas um longo e duradouro barulho irritante e um sorriso cínico. – Vou matar seu irmão. – Avisei para minha amiga que estava ao meu lado. Ela deu de ombros, sem tirar sua atenção do filme.

— Ok, ok. Eu parei. – Assim que levantei para ir em direção a sua poltrona, ele largou a colher e levantou as mãos em um claro sinal de rendição.

Não fazia sequer quinze minutos completos que o filme havia começavo, mas aquela já era a terceira ameaça de morte que eu lhe havia proferido. A primeira foi quando ele decidiu se jogar no sofá, ao meu lado, enquanto estava na cozinha terminando a pipoca. Não parou de me encarar com um sorriso idiota até que eu ameaçasse acabar com todos os seus dentes. Depois disso, não passaram nem cinco minutos e ele já estava mandando áudio para Logan, falando sobre alguma festa. Mais uma ameaça de que ele ficaria sem suas cordas vocais caso não calasse a boca. Aquela havia sido a última. sabia que eu odiava o barulho da colher raspando no fundo da panela e não se cansou até que, mais uma vez, eu gritasse com ele. , por outro lado, sequer olhar para o seu irmão. Segundo ela, o ideal era não dar atenção, mas sinceramente eu tinha pouquíssimos pontos fracos. Meu pai sempre disse que eu havia puxado a frieza de minha mãe em momentos de estresse e meus professores sempre elogiaram minha postura, mas provavelmente nunca me viram por muito tempo ao lado de , o irmão gêmeo da minha melhor amiga.

— Por que você não matou seu irmão enquanto estavam no útero da sua mãe? – Perguntei, me jogando na poltrona que estava à direita do sofá. já tinha decidido que treze minutos era o suficiente para permanecer na mesma sala que nós.

— Impossibilidades biológicas de gêmeos bivitelinos. – Respondeu sem nenhuma emoção, ainda prestando atenção na televisão. – Agora esquece isso e assiste o filme. – Disse pela primeira vez, levando seu olhar até mim.

Quando decidi retornar à minha cidade natal para concluir o Ensino Médio, tive que me instalar no quarto de bagunça do . Meus pais não podiam voltar por causa de seus respectivos empregos e, apesar de confiarem em mim o suficiente para saber que me cuidaria bem sem eles ao meu redor, tive que vir morar na casa da minha amiga de infância.

Quando cheguei não foi muito fácil me adaptar a saudades ou ao fato de ter que dividir o banheiro com todos os dias, mas por outro lado, morar com a minha melhor amiga tinha pontos positivos. Foi necessário um ano para que eu conseguisse um emprego de meio período como professora de dança na primeira academia que frequentei. O combinado para que eu não tivesse que voltar para Nova Jersey foi o de que mantivesse as notas altas e eu estava me saindo bem em meu plano.

Aquele seria meu último ano no Ensino Médio e tudo que eu precisava fazer era continuar mantendo as notas altas e ganhar créditos para conseguir uma bolsa na Universidade de Dança, em Nova Iorque. Não podia mentir que já tinha, pelo menos, uns dez contatos de pequenos apartamentos para alugar, todos circulados no jornal. Tudo estava perfeitamente planejado e, por mais que achasse que às vezes eu exagerava com tanto planejamento, ou que achasse enlouquecedora a minha agenda de compromissos programados para daqui alguns meses, eu não poderia ser alguém diferente.

Nada podia dar errado, e realmente não daria. Festas, amor, namoro, garotos ou qualquer coisa desse tipo ficariam para depois. Afinal, a convivência com me ensinara que minha paciência é muito mais curta com meninos da minha idade. Para ser bem sincera, já havia me esquecido de como era conversar com alguém do sexo oposto sem querer revirar os olhos ou bocejar de impaciência. E tinha uma grande parcela de culpa nisso.

Eu me lembrava de todas as vezes que ele havia jogado algum bichinho de jardim na minha cama quando éramos menores. Na escola, ele inventou umas dez vezes que eu tinha piolho, mesmo que ninguém acreditasse mais. Bastava perguntar qualquer coisa que ele diria “ está com piolho”. Quando eu tinha ido embora, nada mudou. Nos três aniversários que passei longe, ele me mandava uma caixa com todas as coisas que eu odiava. Sempre havia um CD demo de sua banda e chocolate crocante. O garoto me conhecia, eu tinha que assumir.

Mas eu não deixava tão fácil para ele. Escondia todas as suas paletas e desafinava seus instrumentos todos os dias. Assumo que fiz aulas de educação sexual apenas para poder inventar que ele tinha doenças sexualmente transmissíveis, para que pudesse casualmente contar às meninas que ficavam com ele. E o meu favorito, mas ainda assim vergonhoso plano: eu havia perdido dez minutos da minha vida apenas para criar uma página no facebook de ódio puro e genuíno para criticar todas as suas músicas. Admito que isso é um pouco infantil e nada a minha cara, mas era exatamente isso que tornava tudo genial, pois ele realmente não pensaria que era eu quem fazia algo tão idiota.

— Vou sair com Logan. Se nossos pais perguntarem, falem que estou ensaiando na casa dele. – disse, chamando nossa atenção enquanto descia as escadas e passava por nós. Revirei meus olhos assim que percebi sua jaqueta jeans e os óculos escuros. O típico visual de adolescente roqueiro e revoltado.

— Foda-se, . – comentou, levantando apenas a mão para que o irmão pudesse ver seu dedo do meio levantado enquanto passava por trás do sofá. – Dez dólares que a garota de hoje vai ser loira. – Assim que ouviu a porta da frente bater, ela se sentou rapidamente e me encarou sorrindo.

— Não. Foi uma loira semana passada. Aposto vinte dólares que hoje a menina vai ter algum cabelo colorido. – Aquele era quase um ritual entre nós duas. Todas as vezes que saía Sexta à noite com seu amigo era um sinal de que sozinho não voltava. Depois de anos, nós resolvemos lucrar em cima disso. – E piercing na língua.

— Ah, qual é! Isso significa que vamos ter que ficar acordadas esperando, apenas para ter certeza. – Resmungou .

— Eu estou sem sono e quero uns trinta dólares hoje. – Sorri animada e apertamos as mãos. Eram dez da noite ainda e voltaria lá pelas três da manhã. – Então que tal uma maratona framboesa de ouro?

***
Eram quatro e meia da manhã quando ouvi a porta bater e risos abafados ecoarem pela sala. já tinha desistido da prova de resistência, que era sobreviver aos piores filmes enquanto esperávamos seu irmão chegar em casa, e já estava em seu quarto, dormindo há horas. Eu, por outro lado, era muito competitiva para perder alguma coisa. E, acima de tudo, queria provar que era pateticamente previsível. Coloquei meu Kindle na mesinha de centro e não me surpreendi quando ele e uma garota de mechas rosa seguiram em direção às escadas.

— Ei, pombinhos! – Chamei, ganhando reações distintas. levantou a cabeça como se não pudesse acreditar que eu ainda estava ali, atrapalhando uma foda mágica que ele teria. O que era muito nojento se parasse para pensar. A menina ao seu lado parecia apenas assustada por ter sido pega no flagra. – Ei, você tem piercing? – Perguntei antes que fosse tarde demais.

— Que? – A garota me encarou com um olhar confuso. tentou puxá-la para começar andar. Eu tinha certeza que ele estava pensando que eu iria falar alguma coisa que pudesse estragar sua noite.

— Você tem algum piercing? Só responde logo, porque eu quero dormir. 一 A menina ao seu lado o encarou, buscando algum tipo de resposta, mas quando não conseguiu voltou seu olhar até mim.

— Ah, sim. Eu tenho dois. Só isso? – Respondeu meio incerta.

— Sim, só isso. – Sorri largamente. – Ah, aliás. Eu não sei se ele te contou, mas tem andado com um sério problema de herpes. – Comentei, rapidamente voltando a pegar meu Kindle na mesa para terminar aquele capítulo, sem me importar com os palavrões que soltava enquanto puxava a menina para cima. Talvez nós dois fossemos previsíveis ao final de tudo.

***
— Você precisa transar, . – comentou assim que entrou na cozinha e me viu tomando café da manhã. Ele estava com um péssimo humor e eu sabia que tinha total parcela de culpa por isso.

— Bom, pelo visto você também. – Sorri sem mostrar os dentes, mastigando lentamente a comida na boca enquanto encarava o garoto sentado na minha frente. Só havíamos nós dois na mesa. continuava dormindo. Ela era sempre a última acordar. O senhor e a senhora cuidavam de afazeres no jardim. Aquela cozinha tinha se tornado o epicentro de uma nova grande guerra.

— Graças a você, não é? – Disse lançando um sorriso claramente falso. – Herpes? Jura? Achei que seria mais criativa.

— Bom, não precisei né? – Levei a xícara de café até meus lábios, sem desviar o contato dos olhos azuis raivosos de . – Além disso, eu estava particularmente cansada demais para ser criativa.

— Você é uma merdinha. – ele nem se preocupou em saber se o café estava muito quente ou a torrada muito seca, pois engolia tudo rapidamente. Levantei a xícara, brindando com o ar. Eu tinha certeza de que já estava ganhando em nosso placar imaginário. – Agora eu entendo porque seus pais te jogaram para o outro lado do país. –Comentou ainda com a boca cheia. Fiz uma careta ao encarar seu rosto. Ele era nojento em todos os sentidos e eu realmente nunca entenderia como todo final de semana uma garota diferente ia para sua cama. Antes que pudesse responder à altura, a senhora , que tinha acabado de entrar na cozinha pela porta dos fundos, bateu na cabeça dele, que resmungou.

— Não fale assim com , . – Rapidamente me endireitei na cadeira, lançando-lhe um sorriso agradecido. Aquela era outra regra clara do nosso jogo: se queríamos pessoas ao nosso lado durante aquela guerra, precisaríamos ser completamente amáveis quando não estávamos sozinhos. Eu já tinha conquistado a sua família como grandes aliados, era quase como uma filha para eles e sabia disso. Por outro, ele tinha toda a escola do seu lado. Cada um havia conquistado alianças diferentes. Consegui ouvi-lo resmungar enquanto passava geleia em sua torrada. – ainda está dormindo, minha querida?

— Sim. Ficamos vendo filme até tarde ontem. – Encarei a mulher de meia idade que possuía o cabelo tão loiro quanto o do filho. Ela era quase uma mãe para mim, além de ser uma grande advogada, assim como seu marido. Mesmo de manhã já parecia impecável com seu vestido até o joelho e os cabelos arrumados em um coque.

— Ah, bom. Eu ia pedir para vocês duas irem ao supermercado comprar algumas coisinhas para o almoço de hoje. – e eu rapidamente nos encaramos, já sabendo onde aquilo ia parar. O garoto começou a limpar suas mãos e se levantar.

— Bom, eu combinei de me encontrar com Logan e Trevor hoje… – Antes que pudesse ficar completamente em pé, sua mãe colocou as mãos em seu ombro e o fez permanecer sentado.

— Acho que vocês conseguem fazer isso sem se matarem. 一 e eu compartilhamos um olhar de desespero. Afinal, a única coisa que tínhamos em comum era esse sentimento puro e genuíno de querer ficar o mais distante possível um do outro. – Eu já tenho uma lista aqui. São pouquinhas coisas, mas é muito para apenas um de vocês. – Sem tirar seu apoio do ombro do filho, usou apenas uma mão para pegar o pedaço de papel que estava na bancada atrás de si, o colocando na mesa.

— Mãe, eu realmente combinei de ensaiar com os meninos hoje. – Tentou inutilmente argumentar. Ok. Era horrível a ideia de passar a manhã ao lado dele e a comida já começava a se revirar em meu estômago com essa possibilidade, mas ao mesmo tempo deveria estar tendo o pior início de dia em algumas semanas. Então, no fundo, bem lá no fundo, eu não poderia esperar para infernizar ainda mais a sua vida pelas próximas horas.

— Ah! Pelo amor de Deus, . Se você se preocupasse com suas notas o tanto que se importa com essa brincadeira de banda não estaria tão mal no colégio. – Sua mãe disse impaciente e ele bufou. Eu sabia que aquele sonho que ele tinha de ser músico era um problema para sua família. Odiava estar presente naqueles momentos em que discutiam sobre isso porque, naquelas vezes, eu até conseguia sentir alguma coisa diferente de ódio por ele. – Vão logo antes que eu coloque os dois de castigo juntos em um quarto.

— É pra já, senhora . – Levantei rapidamente pegando a lista na mesa e puxando pela manga da camisa. – Vamos logo. Quanto mais rápido a gente fizer, mais rápido vou poder ficar longe de você. – Sussurrei entre um sorriso, para que ninguém além dele pudesse ouvir.

— Se quisesse ficar longe de mim não teria vindo morar aqui, . – O jeito arrastado que meu nome soou nos lábios de fez com que eu revirasse meus olhos e o empurrasse de maneira nem um pouco gentil em direção ao carro. Qualquer rápida simpatia que pudesse sentir já tinha sumido tão rápido quanto apareceu.

 

Nota da autora: Oi, gente, tudo bem com vocês? Espero que sim. Eu sei que é um capítulo curtinho, mas espero que vocês gostem e logo mais eu estou enviando os outros capítulos. Se por um acaso você chegou até aqui, por favor, sinta-se livre para me contar o que achou. Beijinhos e fiquem bem.

02. O DIA ANTES DE UM DESASTRE
Eu me lembrava exatamente da primeira vez que tinha visto com seus cabelos loiros arrepiados e seus olhos azuis desafiadores. Havia acabado de me mudar para a rua e já estava muito animada em fazer novos amigos. Meu sonho nessa época era apenas que meus novos vizinhos tivessem filhos para que eu pudesse brincar. Obviamente, tudo deu errado. De fato, o vizinho tinha dois filhos, mas apenas um deles parecia um humano decente.

Quando encontrei no meio da rua pela primeira vez, realmente me pareceu uma boa ideia me aproximar. Ele estava usando um rádio de comunicação e parecia estar se divertindo, então não era como se eu soubesse o que aconteceria. Acho que ninguém poderia imaginar, na verdade. Foi quando toquei em seu ombro para chamar sua atenção que eu percebi: tinha iniciado a Terceira Guerra Mundial. Ele me encarou com seus olhos azuis semicerrados e eu tentei sorrir da maneira mais amigável possível, era uma criança adorável, mas tudo aconteceu muito rápido.
Ele aproximou o rádio da boca dizendo para seu amigo Logan, que eu teria o desprazer de conhecer semanas depois, sobre alguma invasão no território e antes que eu pudesse perguntar seu nome, senti um impacto e a metade de baixo do meu corpo molhada. Olhei assustada para todos os lados, procurando de onde aquilo tinha vindo, mas logo ele disse para atacarem e bexigas de água vieram em minha direção. Corri o máximo que pude até estar em segurança, em casa. Meus pais perguntaram, preocupados, o que havia acontecido e eu contei tudo, esperando que eles fossem até lá e brigassem com aquele garoto, mas tudo que eu ganhei foi uma risada e “é apenas uma brincadeira de criança, , logo ele vem pedir desculpas”.
nunca pediu. E não faltaram oportunidades.

Eu tinha apenas sete anos quando percebi que tinha um novo objetivo de vida. Quando os adultos me perguntavam o que queria ser quando crescesse, definitivamente bailarina não era mais a primeira resposta que pairava pela minha mente. A única coisa que eu pensava era “destruir ”, e quando conheci , finalmente tinha conseguido uma aliada para os meus planos.
Meu encontro com a irmã dele foi muito mais agradável. Alguns dias após aquele incidente, sempre avistava correndo pela rua com seus amigos, eu gostava de observá-lo brincando. Para uma criança, assumo que talvez fosse um pouco assustador, mas ao mesmo tempo era divertido ter um arqui-inimigo naquela época.
Em uma dessas vezes eu estava sentada na frente de casa quando o vi brigando com uma menina tão jovem e loira quanto ele. Na hora eu não imaginei que eles pudessem ser irmãos, apenas pensei que ele tinha feito mais uma vítima inocente. Os dois pareciam discutir algo muito sério para crianças e eu não me lembro de pensar muito antes de correr até eles e derrubar todo o meu sorvete na cabeça de , apenas para defender a menina. Lembro-me do olhar matador que ele me deu, a risada distante de seus amigos ao ver a cena e de como me senti bem o vendo ficar furioso. Ele não saiu correndo e chorou como eu fiz, o pequeno garoto apenas deu as costas e começou a andar até seus amigos. não me agradeceu verbalmente, ela só estendeu a mão e eu a apertei com força. Nós selamos nossa aliança naquele momento.
Uma semana depois, pedimos rádios para conversar e eu tive o prazer de jogar balões de tinta no , como um claro sinal de que aquela guerra tinha acabado de começar. E ela durava até então.


— Fica com essa parte. Quem terminar primeiro volta e espera no carro. – Assim que o veículo parou no estacionamento peguei a lista do bolso e rasguei na metade. Durante toda a viagem até o mercado disputamos ferozmente o domínio do rádio, assim que colocava alguma música de seu gosto eu rapidamente desligava. Não trocamos nenhuma palavra além de olhares raivosos.

— É algum tipo de competição? – Desviou seu olhar para o pedaço de papel.

— Claro que não, seu idiota. Eu só não quero ficar por aí fazendo comprinhas com você. – Tirei o cinto e saí do carro sem olhar para trás. – Mas se fosse eu ganharia de qualquer jeito. – Virei-me rapidamente e disse pela janela meio aberta.

Como era de se suspeitar, apesar de não ser declaradamente algum tipo de competição, brigamos antes mesmo de entrar no mercado. Se não fosse uma mulher aleatória pegar o nosso carrinho acho que ficaríamos parados discutindo sobre quem o achou primeiro pelas próximas horas. Que fique bem claro que sim, eu achei o carrinho primeiro.
Quando conseguimos nos dividir não foi muito diferente, eu mesma tinha dito que aquilo não era uma competição, mas toda vez que passava por ele pelos corredores e via que já tinha muita coisa em seu carrinho, apertava o passo para que pudesse acabar antes. O mundo me achava muito madura para minha idade, mas perto de eu costumava agir como se tivesse metade dos anos que realmente tinha. Era como se estivéssemos na nossa eterna disputa pelo espaço na casa da árvore que usávamos para brincar na infância, mas agora tudo era a casa da árvore: a escola, sua casa, o carrinho de supermercado… Absolutamente tudo.

— Parece que temos um vencedor. – Fingiu levantar um troféu, acenando para pessoas imaginárias assim que cheguei para ficar atrás dele na fila. Apenas revirei os olhos, tentando ignorá-lo. – Achei que você usaria sua enorme inteligência para me vencer nessa.

, você definitivamente me deixa mais burra que o normal. – Murmurei muito mais para mim do que como uma resposta para ele. O garoto realmente trazia à tona o pior da minha personalidade.

— Sim, muitas meninas dizem que esse é o efeito que eu causo nelas. – Ele me encarou, claramente se divertindo.

— Você é nojento. – Fiz uma careta.

— Elas dizem isso também. 一 Ele sorriu. O sorriso mais que ele poderia dar para mim.

Era aquele sorriso que ele usava quando queria conquistar as garotas no corredor ou as meninas da festa. Aquilo só conseguia fazer com que eu quisesse vomitar e bater até que aquele rosto tão injustamente perfeito ficasse da pior maneira possível. O garoto era bonito, eu não podia negar isso por mais que quisesse ou tentasse, Deus tinha sido muito injusto nesse jogo. Os cabelos arrepiados da infância tinham dado lugar a uma coisa mais despojada e menos roqueiro de banda de garagem, os olhos pareciam ficar cada vez mais claros com o passar dos anos e sem contar aquele piercing idiota no lábio inferior que ele colocou no último verão, sua mãe quase teve um troço quando apareceu daquele jeito. Foi engraçado na época, mas agora vendo o resultado era como se ele soubesse que ficaria muito mais poderoso.

e juntos em uma fila? – Ouvi uma voz lenta dizer atrás de mim, interrompendo qualquer briga que pudesse iniciar naquele momento. Não precisei me virar para saber que era minha outra melhor amiga , provavelmente parada nos encarando sorridente. – Realmente talvez comece a chover hoje.

— Acho que cheguei no purgatório mais cedo, – disse de maneira exageradamente dramática, me virando para encará-la. Como sempre seu cabelo cacheado estava em uma trança de lado, quase que desfeita completamente. Em suas mãos, ela segurava suas batatinhas favoritas.

— Ah, não seja tão exagerada, . – Sorriu e eu bufei. Ela não era tão participativa naquela nossa disputa, era a própria bandeira branca toda vez que estava com a gente. Quase uma enviada da ONU para impedir qualquer uma explosão nuclear. – Tudo bem com você, ? Ouvi a nova música de vocês, ela é muito boa. – Coloquei um dedo na boca fingindo uma ânsia de vômito ao observar os dois.

— Valeu, , a gente está pensando em colocar no novo álbum… – Seus olhos praticamente brilhavam quando falava sobre música, até parecia um humano minimamente decente quando conversava com . Resolvi encarar o rótulo da caixa de cereais no carrinho para tentar não me matar assistindo aquela cena. Eles realmente não se odiavam e provavelmente era minha única amiga que ele não odiava ou fazia questão de perturbar. Não era tão difícil, já que era apenas ela ou sua irmã. – Vamos tocar em uma festa amanhã, você pode ir se quiser.

— Ah, valeu, mas não quero ser um peso para Logan. – Pela primeira vez desde que aquela troca de elogios tinha começado, olhei por cima dos ombros para ver ainda sorrindo, mas dessa vez não tão feliz quanto antes. não era a única com problemas com o irmão.

— Eu não ia deixá-lo ser babaca com você. – sorriu. Empurrei-o com o carrinho para que ele andasse mais para perto do caixa e tirasse aquele sorriso do rosto. Nem por um decreto ele ia jogar charme para minha melhor amiga, já não bastava eu ter que conviver com ele no mesmo teto.

, não caia nesse papinho, por favor – falei me voltando para ela, evitando qualquer tipo de contato com o garoto. — é tão babaca quanto seu irmão, talvez mais.

— Logan é definitivamente mais babaca que eu… – Ouvi ele murmurar atrás de mim e apenas gesticulei para que ficasse quieto.

— Aliás, você tem planos comigo amanhã. – A lembrei.

— Eu sei, . Não me esqueci disso. – Falou visivelmente mais desanimada que antes.
Eu conseguia perceber que ela queria ir naquele show idiota, mas também sabia que ela nunca iria sozinha. Sempre achei a relação dela com o irmão muito mais estranha do que a de e . era adotada e talvez Logan nunca tenha aceitado muito bem isso, o que nunca entendi. A garota era um anjo praticamente, sempre amável com todo mundo, sorrindo e tentando fazer todos ficarem confortáveis mesmo que ela não estivesse. Mas ainda assim Logan era um babaca completo com ela, ignorava-a completamente.

Me lembro de conhecê-la no aniversário de dez anos de , era um ano mais nova que eu e tinha acabado de ser adotada. Estava sentada sozinha em um banco afastada, Logan sequer a encarava, então eu e decidimos ter mais uma aliada nessa guerra contra seu irmão e melhor amigo, mas assim que a conhecemos percebemos que seria muito mais aquela que iria querer distribuir rosas para o inimigo do que bombas. E, vendo-a daquele jeito, percebi que aquele era um momento de hastear a bandeira branca.

— Estaremos lá, . – Voltei para encará-lo e ele, que já estava entregando as coisas para a atendente, parou surpreso.

— Eu não me lembro de ter convidado você. – Continuou pegando as coisas do carrinho, voltando a agir normalmente. – Mas você é bem-vinda, . – Olhou por cima dos meus ombros, para minha amiga.

, você definitivamente não precisa fazer isso. – Ela tentou argumentar, mas eu já sentia uma animação na sua voz.

— Realmente. Você definitivamente não precisa fazer isso. – Disse sério, jogando as coisas na esteira sem nenhum cuidado.

O fato dele não me querer lá estava fazendo com que eu ficasse muito mais animada com a ideia de ir.

— Estaremos na primeira fila, . – Sorri empurrando-o completamente, para passar minhas coisas. – É tudo junto. – Avisei a moça que trabalhava e parecia muito focada no seu trabalho para sequer notar qualquer briga que estivesse acontecendo.

— Você é a melhor amiga de todas. – Senti me abraçar por trás. enfiava as compras na sacola da maneira mais desorganizada e irritada possível, sua testa estava franzida e ele não parava de resmungar sobre alguma coisa. – Não avise para o Logan, , eu realmente não quero discutir com ele de novo hoje. – O garoto levantou o olhar apenas para assentir e voltou a focar no que estava fazendo. Estávamos agora em um claro sinal de ignorar um ao outro e por mim estava tudo bem.

— Eu realmente acho que você deveria falar para os seus pais sobre isso, . – Falei baixo para que apenas ela pudesse ouvir, sempre tínhamos aquela conversa. Eu odiava com todas as forças o relacionamento conturbado que ela tinha com o irmão, quase me fazia querer dar uma trégua com e iniciar uma Quarta Guerra muito pior com Logan. Sempre o achei muito estranho, não tinha a língua afiada ou o sorriso cínico de , muito pelo contrário, era bem mais calado que o amigo, só falava se fosse chamado e não parecia gostar tanto do exército de fãs no colégio porque nunca havia o visto com alguma daquelas garotas. Sempre chegava sem ninguém enquanto tinha uma de cada lado. As únicas vezes que conversamos foi para que eu pudesse gritar com ele por causa de . – O que ele te disse dessa vez?

— Ah, o de sempre… – Deu de ombros. – Acho que nossos pais nos compararam de novo.

— Tá, mas e daí? Só por causa disso ele tem que ser um babaca com você? Ninguém tem culpa dele ser tão estranho. – já deveria estar nos esperando no carro porque suas sacolas não estavam mais lá. Comecei a empacotar minhas coisas enquanto pagava pelos biscoitos.

— Eu sei, . – Suspirou derrotada, indo me ajudar a terminar mais rápido. – Eu não o odeio como deveria.

— Tudo bem. Eu e podemos odiá-lo por você. – A empurrei com os ombros, tentando arrancar um sorriso. – Você quer que eu jogue ovo nele no show? – Perguntei como se não fosse nada demais e ela riu.

— Claro que não. Além disso, eles realmente são bons. – Revirei meus olhos como resposta. – É sério, você deveria dar uma chance.

— Eu tenho uma página de ódio para manter. – Respondi séria. – Além do mais, sei bem porque você gosta tanto da banda. – Comentei apenas para irritá-la.

— Pelo amor de Deus, fica quieta. – Agarrou meu braço para que parássemos de andar até o carro. Já podia ver nos esperando encostado no capô com uma cara nada boa e os braços cruzados. – É tão óbvio assim? – Murmurou parecendo realmente preocupada. – Será que Trevor já percebeu?

— Duvido muito. Ele é amigo do então claramente inteligência não é algo que ele tenha muito. – Voltamos a andar e entrou no carro sem sequer se despedir de . – Vou tentar convencer a para irmos juntas amanhã.

— Você é a melhor amiga do mundo. Sabe disso, né? – Sorriu enquanto eu puxava a porta do carro para entrar.

— Você está me devendo uma das grandes, . – Antes que pudesse sentar, a garota me puxou para um desengonçado e rápido abraço. Ela sempre quis ir em um show da banda do irmão, mas sem companhia apenas restava ouvir os comentários no corredor do colégio. – Envio uma mensagem depois caso eu sobreviva a fúria de . – Ela acenou e fechou a porta assim que me sentei. não disse uma palavra, apenas ligou o carro e nós voltamos em completo silêncio para casa.

***
— Nem em um milhão de anos, . – afirmou pela quinta vez desde que eu havia contado sobre o show. Estávamos em seu quarto e eu estava na beirada da cama, observando-a andar de um lado para o outro, furiosa.

— É pela . Você sabe que ela sempre quis ver essa coisa que seu irmão chama de banda, ao vivo. – não possuía um coração de pedra maior do que o meu, ela se importava com , mas ser parte do público de seu irmão? Fora de cogitação. Assim como seus pais, ela odiava a ideia do irmão continuar com o sonho de se tornar músico. Nunca tinha dito para ela, mas aquela era uma das poucas coisas que eu discordava sobre ele. – Qual é, podemos até vaiar ele. – Tentei argumentar.

— Ele vai usar essa cartada para sempre. – Parou e me encarou com a testa franzida. – Como se fôssemos fã dele ou algo assim. – Seu rosto agora era de nojo.

— Ele sabe que é por causa da . Foi ele quem a convidou. – Seus passos pelo quarto voltaram a todo vapor.

— Nem me fala disso, eu vou explodir a cabeça dele se ficar dando em cima de . Era só que o me faltava mesmo.

— Ela gosta do Trevor. – A lembrei, ganhando um riso irônico.

— Como se isso fosse melhor. – A olhei com uma das sobrancelhas erguidas. – Ok, ele é melhor, mas não é difícil ser melhor do que . – Assenti. – É bom que ela não se acostume com isso – disse após um tempo em silêncio.

— É um sim, então? – Perguntei prestes a ligar para e dar a notícia.

— O que não faço pela embaixadora da ONU? – Sorriu pela primeira vez desde que eu tinha tocado no assunto. – Vamos ter uma trégua por um dia e na segunda furamos o pneu dele para compensar. – Bati palmas, animada. Muito mais ansiosa pela segunda do que pelo show.

Naquela tarde, passamos todo o tempo no quarto conversando sobre o que esperávamos para o último ano. estava empenhada em seguir a carreira dos pais e se tornar mais uma advogada na família . Ainda assim, quanto mais falava sobre isso, menos eu achava que aquilo era o que ela realmente queria fazer, mas mesmo sendo sua amiga há anos, sabia até onde podia perguntar. tinha limites que ninguém conseguia ultrapassar, o completo oposto de , que parecia desconhecer essa palavra. E como se pudesse adivinhar, ele estava parado na porta de seu quarto como se soubesse a hora exata que eu sairia do quarto da sua irmã.

— Sem festas hoje, ? – Perguntei sem querer realmente iniciar alguma conversa. Fechei a porta atrás de mim e, assim que comecei a andar até meu quarto do outro lado corredor, ele parou na minha frente.

— Sabe que você está quebrando as regras, certo? – Seus braços cruzados e sua sobrancelha levantada era um claro sinal de ameaça.

— Eu não precisaria fazer isso se você não tivesse dado em cima da . – Sorri ironicamente e andei para o lado, tentando voltar a andar, mas rapidamente ele acompanhou meus movimentos e me impediu mais uma vez.

— Não precisa ficar com ciúmes, . – Sorriu e por pouco eu não vomitei.

— Você é muito idiota. – ainda estava parado na minha frente. A nossa distância era grande o suficiente para que eu não pudesse acertá-lo no meio das pernas com meu joelho, um bom limite que coloquei depois dele me irritar em uma noite.

Senti seus olhos vasculhando meu rosto, buscando qualquer sinal de desistência, mas nada que ele fizesse me faria deixar para lá aquela nossa briga. Era quase irracional o quanto eu o odiava. Passei por ele batendo em seus ombros e fui em direção ao meu quarto. Se ele tinha uma resposta engraçadinha foi inteligente e resolveu não usar. Fechei a porta com força e comecei a me preparar mentalmente para o dia seguinte, o provável pior dia da minha vida.

 

Nota da autora: Oi, gente. Eu sei que esses capítulos ainda estão meio paradinhos, mas prometo que no próximo já teremos bastante confusão de jovens adolescentes em crise (aquele clichê que nós amamos). Espero que gostem e nos vemos em breve! Fiquem bem <3