Herdeira

  • Por: Lívia Velásquez
  • Categoria: Originais
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Sinopse: O luto pela morte de papai me corroía por dentro, mas eu sabia que não havia nada que papai fosse querer mais do que me ver tomar as decisões sobre o que eu sempre sonhei. E pensando nisso, ele me deixou em cargo do time de futebol que ele fundou, com a responsabilidade de seguir com o seu sonho quando não pudesse mais. Fundamos o time de futebol profissional feminino do Él Fénix e logo se tornou a maior conquista que o Uruguai já viu!
Gênero: Romance.
Classificação: Livre.
Restrição: 
Beta: Elena Alvarez.

— Este estádio. Um lindo estádio. Meu pai o deixou para mim e eu sei que de lá de cima, ele está feliz com cada decisão que eu tomei. – Iniciei da forma mais cortês que me fora possível, mas o bolo que se formava na minha garganta tornava cada palavra uma luta à parte. As memórias ainda estavam vívidas demais. — E é com muito orgulho que eu anuncio as categorias Profissionais e Base do time Feminino do El Fénix! – O estádio lotado vibrou como em uma final de Champions League e eu os agradeci com um sorriso que transbordava a gratidão, porque no meio do caos, sentir a vibração dos torcedores fazia meu coração acalentar. — !Vamos, El Fénix¡– Se era possível, a torcida festejou ainda mais, transformando minha última frase em um grito de guerra que era proferido repetidas vezes a plenos pulmões

Desci do palanque para cumprimentar o comitê do clube, que me acompanharam um tanto apartados. Um último ’tchau’ para a torcida e automaticamente me vi registrando mentalmente, no melhor lugar do meu cérebro e no mais nobre lugar do coração, cada segundo da sensação e da visão que eu tive, da minha segunda casa. Esgueirando-me entre os fotógrafos, atravessei a zona mista e consegui chegar até a entrada do túnel, atravessando os vestiários para sair dali. Senti uma mão apertar meu braço de forma que começava a machucar, puxando-me até a Sala de Árbitros e prensando-me na parede mais próxima, excedendo na violência com que bateu minhas costas contra a parede.

— O que pensa que está fazendo, ? – Ele perguntou entredentes, sem afrouxar a mão que me apertava.

— Estou assumindo o clube, irmãozinho. – Respondi calma e simplesmente, ouvindo-o bufar como resposta e desatar os dedos ao redor do meu braço.

— Isso é o que vamos ver. – Voltou a proferir entredentes e se era mesmo possível, poderia jurar tê-lo visto espumar. — Vou buscar o melhor advogado deste estado e acabar com esse seu reinado, porque eu duvido, que saiba o que é impedimento!

— Não pode reverter uma herança escrita, descrita e reescrita, Neto. – Suspirei, encarando ainda mais intensamente os olhos do meu meio-irmão. — Sabe onde eu me formei, e sabe também, que eu mesma, sou uma das melhores advogadas deste estado. Boa sorte. – Pisquei marota para ele, vendo-o permanecer parado enquanto eu seguia até o estacionamento.

Desde que sumira da cidade, minutos após o funeral de papai, Ernesto fora visto poucas vezes. Ocupado demais fazendo chuva de champanhe e cheirando carreiras de cocaína do corpo de prostitutas, porque, era assim que era flagrado por aí, em algum continente e não havia nada nem muito menos ninguém o tirasse das suas farras diárias.

A cidade, apesar de pequena, tem diversos comércios locais, estes, que muitas vezes passavam de geração em geração, mantendo as peculiaridades dos tempos primitivos. Tudo bem, não eram todos os estabelecimentos, mas o fato de ser a maioria deles fazia com que aquela cidade tivesse exatamente isso de tão especial: o calor, aconchego, sensação de lar. Via pela janela do carro, passar por meus olhos que, algumas casas, lojas e os poucos pontos turísticos, tinham a camisa preta do terceiro uniforme do time nas janelas e portas, como forma de manifestarem seu luto.

Cheguei em casa e tudo estava num imenso silêncio, e pensando com meus botões, não esperava nada diferente disso já que agora, apenas eu e mamãe ocupávamos a casa. Fui direto ao escritório -agora melancólico demais- de papai, trancando-me às sete chaves para aproveitar do cômodo que ainda tinha seu cheiro característico tão vivo. Às vezes, conseguia sentir o perfume natural de sua pele, como agora, e nesses momentos eu me sentia pequena e indefesa, como a criança que ele ensinara sobre a vida. Nas páginas amareladas que o homem tinha sempre à tira colo, havia contatos de confiança, peça chave para este momento. Agora, sem perder tempo, começaria as contratações técnicas e montagem de elenco para o time feminino e este era um dos motivos de me orgulhar de tomar a frente do clube: manter papai vivo em cada passo deste time e automaticamente, me obrigava a fazer disto um marco do nome da família. Juntei algumas pastas e tudo que me parecia viável, colocando-os embaixo do braço, voltando a descer as escadas rapidamente e já avistar Carlos abrir a porta do carro para mim, tomando seu assento e manobrando, para que fossemos para o Centro de Treinamentos, que por ser mais tranquilo, ancorava a administração do clube.

Apesar de ter me jogado na faculdade de Direito logo após ter terminado os estudos, não busquei especialização em tal, mas me joguei em outra formação acadêmica, exercendo o Direito no meio tempo para custear os estudos. Eu sabia, dentro de mim, que meus olhos brilhavam mesmo, era quando exercia o que amava e a Educação Física era o meu dever. Os trinta anos que logo bateram à porta não me assustaram porque eu sabia que estava exatamente onde deveria estar; ajudando quem eu deveria ajudar e mudando as vidas que eu estava destinada a mudar.

E agora, eu mudo da água para o vinho mais uma vez, mas exercer minhas paixões me deixavam mais nova do que a Vogue me dizia ser. O mais importante? Eu me sentia assim!

O prédio do Centro de Treinamentos ainda estava vazio, sem toda a staff que ocupavam os corredores geralmente, fazendo o eco dos meus saltos altos soarem como gritos pelos corredores enquanto me deslocava até a sala da presidência. Sinceramente? Eu poderia facilmente me acostumar com isso.

As paredes de vidro eram estrategicamente postas de forma que nos fosse possível apreciar a orla da praia de Buceo, às margens do Rio da Prata e que a essa hora, perto do anoitecer, o cômodo se tornasse alaranjado com os raios do sol que se punha. Do outro lado, as paredes deixavam à deriva os campos para treinos de forma que nos possibilitava assisti-los dali.

Me aconcheguei na poltrona e a senti abraçar meu corpo, liguei o computador e iniciei buscas sobre as jogadoras em alta, promessas e revelações mundiais e regionais. A Copa do Mundo Feminina da França nos abriu muitas portas e quebrou muitos tabus, então eu queria seguir a mesma linha: realizar sonhos de garotas que acharam que seu lugar não é com a bola no pé, até porque, apesar de optar por não seguir carreira, eu mesma senti isso e ter um dom sem ter onde explorar é a maior das prisões.

Rascunhos, contatos e pautas começavam se acumular de forma que tomavam boa parte da mesa, mas as pendências estavam, por hora, encerradas. Amanhã terei em mãos boa parte dos contratos e negociações, no entanto, os comunicados para o conselho poderiam se iniciar, os contratos engatarem e a bola rolar.

No que me pareceu minutos, a noite caíra e Carlos buzinara à frente do CT para que eu pudesse me dar conta das horas que eram, juntei o que precisava revisar para deixar o prédio e ir pra casa, onde logo na entrada, senti o cheiro forte de álcool. Mamãe estava estirada no meio da sala agarrada à sua melhor amiga dos últimos dias: vodca. Uma cena dessas se tornou comum quando Ernesto tomou o mesmo rumo da mãe, fazendo aparecer problemas e mais problemas para casa e esta era a forma mais fácil que Valeria encontrara de se refugiar deles, não esperava que agora, nesta altura do campeonato seria diferente. Não porque papai morreu, longe disso, até porque a mulher adorava gritar pelas janelas que o odiava e o motivo de ter se mantido ao lado dele, era a forma com que ele providenciava o estilo de vida que gostava de ostentar. O real motivo era o filho protegido estar sem guardião.

Fui até ela e tirei os saltos dos seus pés, largando-os ali mesmo, tirando dos seus braços a garrafa de vodca junto das pequenas doses de tequila e outro par de garrafas, ali também.

— Deix… – Tentou proferir de voz embargada, soluçando em seguida. — Deixe as bebidas aqui.

— Vou levá-las pra cozinha. – Senti suas mãos agarrarem meus pés como se me impedisse, ficando de bruços de forma que começou tossir repetidas vezes e a ajudei a se sentar.

— Não precisa agarrá-las tão forte… Elas não são os bens do seu papai! – Proferiu com dificuldade, mas ainda sóbria o bastante para soltar sua risada irônica que me enojou mais que o normal. A ignorei e retornei as garrafas para onde estavam, ao lado da mulher, que na pressa de pegá-las permitiu que a outra se derramasse. Limitei-me a olhá-la com escárnio e seguir o caminho até meu quarto, ouvindo vidros se estilhaçarem e empregadas correrem corredores afora para ajudá-la. Eu não me daria o trabalho.

Eu sabia que boa parte dos motivos pelos quais papai fundara e se empenhara tanto no clube, fora também, para se manter o mais longe possível do caos que está casa se tornara. A boa notícia é que o time havia vingado, seu sonho de menino fora realizado e hoje, eu sou a responsável de mantê-lo ativo.

Valeria não é minha mãe biológica e apesar da falta de uma, eu deveras, nunca quis que a mulher interpretasse tal papel, contudo o motivo de chamá-la assim fora o pedido que papai me fizera na adolescência, e pelo homem doce que era não havia nada que eu pudesse negar. Valeria me criara junto de Ernesto, mas completamente diferentes porque, ele sim, era o filho legítimo dos dois e me apertava o coração lembrar das fotos da mulher jovem e linda demais que meu pai me mostrava, mas que não resistiu ao meu parto.

Como em um loop infinito… Hoje sou eu quem comando o time, também para me manter longe de casa.

No meio de tantos devaneios, não demorei para cair no sono, o cansaço me derrubou.

Acordei ouvindo a porta do meu quarto ser esmurrada sem piedade, me obrigando a me levantar preguiçosa para abri-la.

— Estou indo para a Espanha. – Ernesto comunicou esnobe como de costume e eu encostei-me ao batente, esperando que ele continuasse, porque até então, nada em sua frase me interessava. — Até o final do dia terá uma surpresa. – Exibindo o tom sarcástico que herdara de sua mãe, ele proferiu, se retirando, mais uma vez, sem mais explicações. Ignorei sabendo que isso ocorreria frequentemente, até que Neto aceitasse que o clube é meu.

— Como presidente, vou cortar gastos temporários do time masculino em 60% para custear as necessidades primárias das categorias femininas. – Esclareci ao comitê à minha frente reunido, sem esperar resmungos porque eu estava certa de não voltar atrás, dando continuidade e diminuindo a minha lista de temas a serem discutidos. — Ah! Isso incluí os apitos de ouro do Joel. Serão derretidos e vendidos. – Pigarreei, riscando os temas já abordados, chegando ao próximo. — Ernesto tem usado o jatinho do Él Fénix, e vamos restringir a usos emergenciais do comitê. Quanto às contratações do profissional feminino: algumas atletas estarão aqui até o fim da semana e se apresentarão, seguindo para os exames e lidando com parte do Mídia Day. A categoria de base tem sido divulgada e esperamos abrir a academia em breve. – Suspirei, ajeitando os óculos de grau em meu rosto. — Dúvidas? – O silêncio dos mais velhos na sala continuou, e não insisti, juntei os papeis espalhados na minha frente e os dispensei, saindo da sala de reuniões para a da presidência.

Nos próximos dias me especializaria em cursos da área, já que a graduação não bastava e eu estava ansiosa para cada etapa concluída, porque isso significava êxito em manter o sonho do meu pai vivo. Algumas surpresas no elenco estavam pra chegar e faria tudo valer à pena, em dobro.

Uma vídeo-chamada bastou para que fechássemos com triunfo o contrato de material desportivo e no meio de uma correria, amanhã na reunião da sede da marca, decidiremos os três uniformes oficiais do feminino, incluindo os de treino.

Conferi as reformas do CT para comportar às acomodações dos times femininos e não havia nada que substituísse com tanta notoriedade a forma como sentia meu coração acalentar. Era única a sensação de lar que o local emanava porque com tudo isso, estamos prontas para realizar sonhos e fazer memórias inesquecíveis.

Na saída do CT, verifiquei meu celular e tendo como notificação as chamadas perdidas de Neto, várias delas aliás, mas nenhuma delas eu retornaria tendo em vista que sua voz ainda reverberava em minha cabeça com a surpresa que prometera. Coisa boa não havia de ser, das piores possíveis até.

O Centro de Treinamentos se localizava no bairro de Buceo, vizinho de Pocitos ao leste então, em poucos minutos já pude atravessar as portas de casa, encontrando Neto ao fundo, aconchegado na mesa de jantar e apreciando uma taça de vinho branco.

— Não precisa se sentar. – Ele puxou a cadeira novamente assim que mencionei me sentar. — A surpresa é que vou revogar sua herança, porque estou com o melhor advogado do estado, alegando sua incapacidade mental de administrar a herança. – Suspirou, bebericando seu vinho e por alguns instantes, a respiração me faltou. — Valeria não é sua mãe biológica, papai a sete palmos do chão, nenhum outro irmão, mas você não está sozinha, hermanita… Eu sou o seu tutor mais próximo. – Gargalhou alto e diabólico, fazendo automaticamente minhas mãos se fecharem em punhos. Minha vontade era atacá-lo e desfigurar seu rosto da melhor forma possível, e talvez, isso fosse parte do seu plano, já que um exame de corpo de delito provaria os machucados e aumentariam as suspeitas da minha suposta instabilidade mental.

— Você. É. Doente. Ernesto. – Proferi entredentes, sem tempo para muito enquanto ouvia a voz de Valeria ao fundo, se aproximar, animada demais conversando com alguém.

! Que coincidência! – Valeria se pronunciou, com voz estridente e mais sorridente que o normal, como se não a tivesse visto noite passada. Puxou seu convidado pela mão, apresentando-o.

Aquilo só poderia ser um circo e eu era a atração principal. Castillo.

— Passaram anos, . – Ele se aproximou um tanto acanhado com as mãos nervosas que ele não sabia se as afundava nos bolsos da calça, ou se as me ofereciam em um cumprimento.

— Você não está representando o Ernesto… – Suspirei, tomando fôlego para uma resposta que já me parecia óbvio. — Está? – Ele nada respondeu, mas o silêncio falava demais por si só, e ao fundo via Valeria entornar uma taça de vinho na tentativa de esconder o sorriso vitorioso que queria lhe saltar afora.

Montevidéu nunca foi uma megalópole, mas agora me fazia sentir presa dentro de um ovo de tão pequena, e eu não tinha para onde correr. Peguei o envelope que Neto me ofereceu com os detalhes do processo e aquilo queimava em meus dedos quando lhes dei as costas, ouvindo risinhos conforme os passos que dava até a porta mais uma vez. Desta vez, não esperei por Carlos abrir a porta do carro ou manobrar, apenas me joguei em frente ao volante, ligando-o de imediato. Eu precisava sair dali e respirar um ar que não fosse compartilhado com eles. Joguei a bolsa que estava no meu ombro e os papeis no banco traseiro, ouvindo batidinhas no vidro. O encarei e céus! Ele estava com os mesmos defeitos e qualidades físicas de anos atrás, a diferença é que agora, todos os seus defeitos cabiam em um terno.

— Já esperava que tentasse se explicar, mas isso foi tempo recorde. – Disse irônica, abaixando o vidro do banco do passageiro para que ele me ouvisse.

— Eu não imaginava que fosse você, a tal , talvez uma namorada do seu pai! Não me passou pela cabeça que ele faria isso com a irmã! – Tentou se explicar, atropelando algumas palavras. Ao ver que após engolir em seco eu não responderia nada, destravou a porta do carro pelo vidro aberto, sentando ao meu lado.

— O que pensa que está fazendo, Castillo?

— Nós precisamos conversar. – Suspirou, recobrando parte da respiração que se ofegou na corrida dele até o carro. — Em anos, você não me mandou sequer um SMS, .

— Não me chame de .

— Te liguei todas as semanas. – disse quase em um sussurro.

— Troquei de número.

— Peguei com a assessoria do seu pai. – Pigarreou. — Estávamos noivos, … E até hoje eu não sei o que aconteceu.

— Eu precisava fazer faculdade.

— Poderíamos ter ido cursar juntos se esse fosse o real problema. Fazia minha pós, e você cursaria Educação Física. Sempre arranjamos um jeito pra tudo. – Ele encostou sua mão na minha na mínima menção de juntá-las e em um lapso, as afastei.

— Antes de qualquer coisa, eu precisava me afastar daqui. – Confessei quase apenas para mim mesma. — Você viu… As pessoas, as chantagens, as armações…

— Não posso sequer imaginar como é pra você viver aqui, mas a gente ainda poderia ter resolvido. – disse calmamente, e eu ri incrédula.

— Até porque, você está resolvendo tudo agora, não é? – Completei irônica, engolindo em seco e abrindo a porta do veículo ao seu lado, em um sinal claro, que ele captou, ainda que me encarasse incrédulo.

Não sabia para onde dirigir, mas sabia que era pra algum lugar longe dali porque a única pessoa que eu queria ver agora, não morava mais ali e eu não poderia mais vê-la, só me restava ouvir o reverberar de sua voz grave na minha cabeça junto das suas palavras doces no meu coração.

Carlos dirigia em direção ao centro da cidade para o prédio comercial de maior predomínio e prestígio do estado e este, era sinônimo de mais um grande passo para as mulheres que representarão o Él Fénix. A sala principal de reuniões estava pronta para nós e eu tomei meu lugar à mesa, esperando que os representantes se pronunciassem. A reunião começou e inúmeras pastas foram postas à mesa, como parte da materialização dos custos de material desportivo para as novas categorias, assim como croquis dos três uniformes oficiais. Um frio me subiu pela espinha assim que tive em mãos o contrato oficial que não enrolei para assiná-lo de uma vez, sentindo a liberdade que me atingiu após o fazer. Assinei como proprietária do clube e como advogada do mesmo, deixando que Mark Parker, CEO da Nike, assinasse no que lhe era exigido, esperando que o advogado da marca se apresentasse e finalizasse os termos de conclusão. Os termos de confidencialidade também chegaram e junto deles o advogado representante adjunto que me causou tamanhos arrepios como na noite passada, e em como anos atrás. Castillo e eu trocamos olhares que me pareceu poucos segundos, mas para os demais, foram longos até que ouvíssemos pigarros que chamassem a nossa atenção.

A semana acabou e com ela os prazos que prometi ao comitê com tudo em seus conformes faltando o principal grand finale. Com o time principal completo e o Midia Day concluído, era hora de termos nosso primeiro dia de treino, e para este, até o Conselho do clube precisava se apresentar.

Precisávamos de uma capitã para o time e com o treino livre de hoje, determinaríamos as posições que mais iam de acordo com as qualidades individuais e as características ofensivas do time. As zagueiras pareciam serem amigas de infância tamanha era sua afinidade; as laterais um tanto perdidas precisavam de encaixe; volante e meias deixavam que pouco trabalho chegasse até a zaga e até então, era a posição mais coerente do time principal em tão pouco tempo; as atacantes precisavam de entrosamento, vez ou outra uma ponta do 4-3-3 se tornava fominha demais para deixar que as outras sequer tentassem um passe.

Saímos do CT para fazer o reconhecimento do gramado do estádio próprio do clube e elas aproveitaram para trocar pontos de vistas diferentes do treinamento, procurando preencher os buracos na formação por si próprias.

Nos gramados da casa, as meninas se entrosaram melhor e se conversavam mais, cobrando e instruindo umas às outras.

Os sorrisos estampados nos rostos das garotas eram orgulhosos e um bocado, ambiciosos quando adentramos os vestiários para acertos das últimas contas.

— Iniciaremos a pré-temporada em duas semanas e o treino de hoje foi muito revelador. Nos mostrou como se saem em formações diferentes e parte do condicionamento físico de vocês, que pretendemos potencializar.

— Zona Mista e Coletiva de Imprensa só depois dos sete primeiros jogos? – Perguntou a zagueira Roberta, loira e alta, mas uma das mais novas.

— Sim, primeiro vamos nos acostumar ao sensacionalismo jornalístico e aprender lidar com ele, ok? – Respondi calmamente.

— Vamos começar a temporada com Jogadora-Técnica? – Ángel se pronunciou acanhada, contrariando sua posição imponente de volante em campo.

— Não. A Técnica de vocês chegou e sou eu! – Comuniquei confiante, sentindo um sorriso se descontrolar em meu rosto e outros se formarem entre o meu time.

O comitê confrontou a minha decisão de treinar o clube principalmente em frente ao processo de posse que Ernesto abrira, mas, ironicamente os cursos que precisei fazer até estar apta e ter as licenças técnicas, demonstrava toda a estabilidade mental que tinha e as usei como álibi, anulando o processo antes mesmo que ele homologasse. O tiro saiu pela culatra. Ernesto se bandeara por algum continente mais uma vez, e as coisas estavam andando conforme me parecia o certo, fazendo-me sentir a presença orgulhosa papai cada vez mais frequentemente.

Até que me visse em paz à frente do time mais uma vez, tivemos o início de temporada e o time principal se entrosava cada vez melhor, porque, neste momento, o que buscávamos de imediato era entrosamento e comunicação, o placar ficava em segundo plano. Mesmo assim, abrimos o placar contra o time da terceira divisão do Uruguay Montevideo Football Club na casa delas, deixando um gosto doce se espalhar por minha boca.

Logo, o time era assunto constante na cidade e com as vitórias, dominamos o estado e logo viajávamos o país devorando as tabelas dos campeonatos para subir de divisão. Tudo passara rápido demais, e claro, fomos muito bem aceitas pelo calor do povo uruguaio que marcava presença nos jogos e alguns treinos.

A maior surpresa fora, com o passar dos meses, o time principal feminino do Él Fénix ser indicado em três categorias do Prêmio CONMEBOL com Fair Play, Clube de Revelações e Técnica Revelação.

Conquistamos o troféu Aníbal Z. Falco assim que subimos a primeira divisão, carregando o brasão prateado de “campeãs uruguaias”, usado na parte frontal da camisa.

Junto das meninas que confiaram em si mesmas e em mim, conquistamos muito do que quisemos, mas ainda estamos no caminho de conquistar o que merecemos. Muito cedo para alguns e tempo certo para outros. Meu maior prêmio, no entanto, fora ter em minhas mãos um time que sabia o que queria e queria pra já!

Progredimos com o apoio do atacante Edinson Cavani como embaixador do clube e torcedor árduo, abrindo as portas das mídias mundiais para nós. Logo, os troféus do Prêmio CONMEBOL descansavam na estante do Centro de Treinamentos, como forma de incentivo e orgulho a relembrar. As categorias de Base e SUB-15 cresciam a cada dia e abriam meus olhos para as revelações de cada subdivisão chamando a atenção de olheiros internacionais.

O Él Fénix é tudo o que eu tenho, e tudo que eu preciso ter. É o meu trabalho e o meu dever; Minha herança e meu paládio.

Na última rodada do mês, enfrentamos o Club Nacional de Football na nossa casa e terminamos os primeiros 45 minutos com o placar zerado, enquanto as adversárias nos derrotava por dois gols, sem contar a forma como as concorrentes furavam sem dificuldade as zagueiras, dominando as estatísticas de finalizações e chutes à gol.

Durante o intervalo o vestiário permaneceu agitado e os quinze minutos voaram após os mapas de zona quente que explicamos à elas, fazendo o primeiro gol sair nos 10 minutos que sinalizavam a segunda parte do jogo. A casa estava lotada, quase em sua capacidade máxima e todos torciam energéticos de forma que as meninas sentiam no gramado, reproduzindo com a bola no pé.

Cármen, a atacante ágil e sagaz cobria Florinda de falso 9, e sabia que no momento que recebesse, poderia correr para o abraço. Dito e feito! Florinda limpou na pequena área e lançou para Cármen na direita, que chutou confiante de voleio, balançando o véu da noiva e empatando em Montevidéu.

Faltavam 10 minutos mais acréscimos para o apito final e o jogo estava de igual para igual, até mesmo a posse de bola, tornando tudo mais complexo.

A ponta-esquerda Rosalía tentava quebrar a zaga das montevideanas do norte, mas os cartões amarelos para as adversárias não as assustavam mais e muitas faltas passavam em branco, porque nenhum árbitro auxiliar queria se dar ao trabalho. Gritei na beirada no campo, orientando nova forma de ataque na formação e me assustava sempre que checava o relógio. Mais dois minutos de acréscimo e Rosalía mal passava do meio campo, a pequena área estava às moscas.

Cristina triangulou entre a capitã Lais e a atacante Cármen, subindo e ganhando espaço com a jogada que iniciara, levando as duas consigo até a área. Cristina abriu na direita para Cármen que lançou para Lais que estava na cara do gol, fazendo um belíssimo gol de bicicleta.

Que jogo, meus amigos! Que virada… Em casa!

Um doce 3×2 com gosto de 4×0!

Voltamos para o meio campo e tocamos a bola sem pressa, ouvindo o apito final.

O time completo do Él Fénix correu até o mais próximo possível da torcida, porque com essa vitória suada, nós conquistamos pela primeira vez a liderança do campeonato feminino e não havia sensação no universo que chegasse perto do que eu sinto agora. O time era puro êxtase! E com razão!

Fora por elas que fiz tudo que estava ao meu alcance e o que não estava, também. Fora por papai e por mim também, já que não havia nada que valesse mais do que este clube que és inteiramente meu!

Na Zona Mista uma verdadeira festa à parte, então me desviei até o túnel porque em pouco tempo lidaria com uma coletiva de imprensa, inclusive, a 1ª na liderança do campeonato.

— Parabéns, .

— Cacete! Quer me matar do coração? – Respirei fundo recobrando o fôlego. — Pensei que havia voltado para a Espanha, .

— Preferi assistir cada jogo seu, cada treino. – Castillo se aproximou, falando calmamente, abusando da sua voz um pouco rouca. — Cada segundo te assistindo realizar seu sonho, valeu à pena.

— Sabe que não pode voltar com meia-dúzia de palavras bonitas. – Semicerrei os olhos, cruzando os braços e observando-o.

— Não tenho pra onde voltar quando eu sequer saí. Você sabe que eu te esperei, . – Colocou, delicadamente, uma mecha solta do meu cabelo para trás da orelha.

— Eu estava confusa.

— Não há motivo de estar,minha . – Castillo se aproximou um pouco mais, de forma que me fez sentir sua respiração quente bater em meu rosto e automaticamente, abracei seus ombros. Não havia a quem enganar, porque eu sentia saudade tanto quanto ele e queríamos àquilo igual. Era um sentimento que não perdeu com o tempo e aparentava ter crescido ainda mais. Nossos lábios se roçaram enquanto a ponta de nosso narizes se tocavam e eu sorri, porque esta, era a realização plena de uma mulher que não sabia que poderia ser sortuda à este ponto, de ter tudo que sempre sonhou alegrando o coração todos os dias.