Hey Look Ma, I Made It

  • Por: Frankie S Kemper
  • Categoria: Originais
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Sinopse: Você já foi chamado de louco por insistir em um sonho? Já sentiu como se o mundo todo torcesse contra você, te julgasse por não ser de acordo com o que é considerado padrão?
Essa é a história de uma garota que tinha tudo para desistir do que sonhava desde criança. Que viu o mundo dar as costas a ela e gritar que ela não era capaz.
Mas quando você nasce para ser uma estrela, não há noite escura que seja capaz de apagar seu brilho.
Gênero: Romance
Classificação: Livre
Restrição: A personagem principal pode ter características diferentes das suas.
Beta: Thalia Grace

A música exprime a mais alta filosofia
numa linguagem que a razão não compreende.
– Arthur Schopenhauer.

— Essa sua ideia foi ridiculamente estúpida, . Se eu morrer ali, vou te matar. — Olhei para ele, sentindo meu corpo inteirinho tremer feito gelatina.

— Você vai ver que isso é humanamente impossível, . — Ele respondeu, rindo da minha cara.

— Palhaço! Humanamente é, mas eu vou voltar como assombração só pra acabar contigo. — queria eu ter falado tudo aquilo num tom bem ameaçador, mas não dava, o ar chegava quase faltar de tão nervosa que eu estava.

— Respira, . — parou de rir e de repente eu senti sua mão segurar a minha, apertando-a com gentileza.

… — Comecei, mas me perdi nas palavras quando os olhos dele se fixaram nos meus.

— Você consegue e sabe disso. Você soube no momento em que nasceu. — Acenei afirmativamente, sabendo que tudo o que ele estava dizendo era verdade, forçando meu cérebro a entender aquelas palavras para que eu não falhasse logo agora.

— Sim. Eu sei. — Concordei em voz alta.

— Eu estarei bem aqui esperando por você independente do resultado, mas eu acredito em você. Desde quando nos conhecemos eu acredito. Agora suba naquele palco, faça aquilo que você sabe que faz como ninguém e arrase. Nem o céu é limite para você.

Senti os lábios dele tocarem minha bochecha e o olhei uma última vez quando se afastou.

Me preparei para ouvir meu nome ser chamado e continuei repetindo as palavras dele em minha mente, enquanto um filme de tudo o que eu tinha passado para chegar até ali se passava em borrões.

Encarava meu reflexo no espelho ao escovar meus cabelos enquanto me preparava para mais um dia de trabalho. Prestava atenção em cada detalhe mínimo de minha aparência e deixei um sorriso se formar em meu rosto quando me dei conta do quanto eu me amava.

Mas nem sempre havia sido dessa forma, eu havia aprendido aos poucos a apreciar minhas características físicas. Perdi as contas de quantos alisamentos eu havia tentado para assentar meus cabelos encaracolados e cheios, milhares de dietas haviam me feito passar uma fome danada para que eu atingisse aquela meta de perder no mínimo uns vinte e cinco quilos e eu recebia diversos olhares de repulsa nas ruas pelo tom de minha pele.

Pelo que eu ouvia dizer desde menina, era completamente fora dos padrões de beleza e isso me incomodou por quase toda a minha adolescência, quando as garotas usavam disso para me humilhar, mas então eu me vi farta daquilo tudo e resolvi dar um basta, começando a mudança por mim mesma e aceitando quem eu era.

Talvez eu fosse mesmo fora dos padrões adorados pela sociedade, mas isso não me tornava feia ou inferior a ninguém, muito pelo contrário. Me olhando bem no espelho, eu sou uma gorda maravilhosa, negra com muito orgulho.

Depois que eu fiz isso, serviu como um degrau para que eu conseguisse tomar coragem e ir em busca de meus sonhos. Desde muito pequena, o anjo da música me cercava como um protetor e um bálsamo para levar toda a tristeza e outros sentimentos ruins embora.

Eu só dormia ao ouvir canções de ninar, havia memorizado minhas primeiras letras com elas sendo entoadas para mim e eu sempre sentava com admiração para assistir meu adorado avô tocar sua viola, a mesma que eu acabei herdando quando ele se foi.
Assim que aprendi a falar, eu também comecei a cantar. Às vezes eu suspeitava até que na verdade havia sido o contrário. Cantar estava impregnado em minha natureza e para tudo o que eu fazia minha voz saía entoando pelos lugares.

De início, minha mãe havia achado fofo e me incentivava a cantar na frente das amigas dela, mas com o passar dos anos ela passou a me recriminar, porque ela não queria que eu me envolvesse com música a ponto de ser uma inútil como vivia dizendo que meu avô havia sido.

Sentia uma tremenda falta do velho e me entristecia saber que eu não tinha o apoio de minha mãe naquilo que eu almejava desde novinha. Eu tentava sempre deixar isso para lá, manter minha cabeça erguida e acreditar fielmente que de onde estivesse meu avô estaria sempre cuidando de mim e me guiando. Eu o amava tanto que sempre me pegava chorando de saudades agarrada em sua velha viola.

Lancei um olhar saudoso ao instrumento descansando no apoio.

, você vai se atrasar para o trabalho, minha filha. Quer ser demitida? — Dona Lúcia apareceu na porta de meu quarto, colocando suas mãos na cintura enquanto me lançava um olhar indignado por eu ainda estar parada na frente do espelho. — Para um pouco de sonhar e acorda para a nossa realidade. Se você perder esse emprego, não vai conseguir fazer sua faculdade, é isso que quer?

Minha mãe sabia ser tagarela e exagerada quando queria.

— Caramba, mãe! Eu só estava arrumando meus cabelos. — Reclamei, largando minha escova de volta à cômoda com meus pertences, então me aproximei de Bianca, minha irmã mais nova, para lhe dar um beijo na testa.

— Pelo jeito vai sair sem comer! — Ouvi minha mãe resmungar novamente e revirei meus olhos sem que ela notasse.

— Pegando a bolsa e eu vou comer sim. Saco vazio não para em pé, não era assim que o vovô dizia? — Vi ela fechar a cara e então dar as costas para mim, me fazendo suspirar e segui-la até a cozinha.

Minha mãe sempre reagia dessa forma quando eu mencionava meu avô e eu sabia que ela não o odiava e muito menos achava mesmo que ele era inútil, na verdade ela apenas sentia falta demais dele. Eu a entendia, porque o considerava como meu pai, já que meu progenitor havia sumido no mundo e abandonado minha mãe grávida.
Cada pessoa tem sua forma de lidar com as perdas, a de minha mãe era culpá-lo por partir antes que pudesse me ver crescida e bem formada.

— Mãe, o que você acha de intercâmbio? — Perguntei a ela assim que nos sentamos para tomar o café da manhã.

— O quê? — Ela questionou, um tanto confusa, talvez porquê estivesse perdida em seus próprios pensamentos.

— Intercâmbio, mãe. Estudar fora do Brasil. — Expliquei pacientemente, enquanto pegava um pãozinho e o enchia de manteiga.

— Acho que nós não temos dinheiro pra isso, . Mal dou conta de alimentar você e sua irmã — Ela respondeu, o que não era mentira porque nós realmente não tínhamos como pagar uma experiência como aquelas.

— Mas e se de repente eu conseguisse uma bolsa de estudos? O que a senhora acharia disso? — Insisti no assunto, me sentindo meio ansiosa pelo que dona Lúcia responderia.

— Bolsa de estudos para estudar o que, ? — Me encarou desconfiada, ela me conhecia demais para o meu bem.

— Música… — Respondi, sentindo minha voz falhar quando sua expressão ficou um tanto raivosa.

— Você enlouqueceu? Desperdiçar uma bolsa de estudos no exterior para estudar música? Você só pode ter perdido o juízo, menina! — Praguejou, como se eu tivesse acabado de dizer que havia atirado em alguém.
— E qual é o problema de estudar música, mãe? Música é o que eu gosto, nenhuma das outras profissões vai me fazer feliz. — Soltei com sinceridade e escutei minha mãe bufar.

— Tenho certeza de que você vai ser bem feliz com sua barriga cheia. Música não dá dinheiro, menina. Você vai gastar anos estudando para acabar servindo de empregada para os outros se insistir nessa ideia. — Fechei minha cara com todas as palavras de minha mãe, me sentindo bem irritada por ela pensar tão fechado.

— É só nisso que a senhora pensa, não é? Em dinheiro! Pois fique com ele. Eu vou trabalhar — Me levantei sem terminar meu café e peguei minha bolsa, disparando até a porta ainda incrédula por ouvir as coisas que ela havia dito. — E saiba que não há indignidade alguma em trabalhar como empregada! — Então saí sem nem me despedir dela, mesmo odiando fazer isso. Depois que meu avô se foi, eu tinha em mente que você nunca sabe quando vai ver alguém pela última vez, então nunca deixava de dar tchau a ela e dizer sempre que eu a amo.

Respirei fundo diversas vezes enquanto caminhava até o ponto de ônibus e dei graças a Deus quando o vi chegar com poucas pessoas porque eu iria odiar ter que ficar em pé depois de uma discussão daquelas, mas aquilo era um caso raro. Alguma coisa tinha que dar certo pra mim, não é?

No fundo, eu sabia que minha mãe apenas estava preocupada como meu futuro, mas eu queria sinceramente que ela me deixasse fazer minhas escolhas sem ficar enchendo o saco o tempo todo. Pior do que quebrar a cara é lutar sem ter ninguém acreditando em você.

Encarei os prédios passando rapidamente conforme o ônibus se movimentava e tentei a todo custo afastar meus pensamentos daquela discussão, mas eu não conseguia.
Na noite anterior, eu havia pesquisado sobre bolsas de intercâmbio e havia descoberto uma com inscrições abertas em uma Universidade em New Orleans, no estado de Louisiana. Era preciso enviar uma fita, que contaria como uma audição e eu me sentia extremamente tentada a me inscrever.

Era a chance que eu havia esperado a minha vida inteira e eu sempre fui apaixonada pela cidade.

— Estudar música nos Estados Unidos? Você é maluca, ? Música não dá dinheiro não. — Bufei ao ouvir Kamila, minha colega de trabalho, repetir exatamente as palavras de minha mãe.

— Será que dá pra parar de repetir isso? Eu sei muito bem como é arriscada a carreira de músico, não sou ignorante. — Protestei, encarando-a com irritação.

— Ainda mais para alguém como você, amiga. Acha que tem realmente chances de ser famosa desse jeito? — Eu daria tudo para não ter escutado aquilo, mas eu sabia que não estava delirando.
— Alguém como eu? Você realmente tá tentando me dizer que eu não tenho chances de ser famosa por causa da minha aparência? — Senti minhas mãos coçarem para socar a cara daquela maldita.

— Eu não quero que você se ofenda, . Mas você sabe como é a televisão. Pessoas gordas só fazem sucesso quando emagrecem. — E aquilo havia sido o meu basta.

Avancei na desgraçada e lhe enchi de porrada.

Ou pelo menos eu me imaginei fazendo isso e contei cem mil vezes antes de não lhe responder e sair de perto dela. Ignorar era melhor do que partir para a violência quando o assunto era gente preconceituosa, fora que até eu conseguir o intercâmbio eu não podia perder aquele emprego. Eu trabalhava com a ideia de juntar dinheiro pra pagar a faculdade ou mesmo um cursinho pré-vestibular, mas a realidade era bem diferente e meu salário sempre acabava complementando as despesas de casa. Não me importava em ajudar, eu sabia o quanto minha mãe se sacrificava.

Não voltei a falar com Kamila por meses. Nem quando eu decidi mandar a inscrição para a universidade e estava morrendo de vontade de compartilhar aquilo com alguém.

Tampouco contei para minha mãe sobre o que eu havia feito. Sabia bem como ela reagiria, então preferi deixar as coisas por baixo dos panos até ver no que ia dar. Eu não precisava de ninguém me xingando e dizendo que aquilo não daria em nada. Foi difícil me manter quieta porque eu gostava de compartilhar da minha vida, mas mentalizei que o esforço valeria a pena.

E valeu. Já fazia um tempão que eu tinha mandado minha fita. Estava até pensando que não havia dado certo mesmo e começava a me conformar quando abri o meu e-mail e recebi minha aprovação.

Eu até sonhei com uma carta vindo pelos correios, mas eu não estava nos Estados Unidos ainda e demoraria séculos para chegar à minha casa. O correio sempre estava em greve.

A emoção de saber que eu havia sido aprovada não tinha comparação. Era o primeiro tapa na cara que eu daria em quem achava que eu não conseguiria e eu nem tentei conter minha gritaria.

— Jesus Cristo, Maria e José! — Minha mãe apareceu com a mão sob o peito. Certeza que tinha vindo correndo e agora queria me pegar pelo pescoço. — Eu jurava que estavam te estuprando aqui dentro, garota!

— Os três reis magos e tudo. Feliz natal! — Soltei uma gargalhada e ergui uma sobrancelha para mamãe. — E o que a senhora ia fazer se fosse isso mesmo? — Aí ela me mostrou a colher de pau da cozinha e eu gargalhei mais. — Você não existe, dona Lúcia.

— Vai desembuchar logo o que deu em você ou vou ter que te surrar? — Estreitou os olhos pra mim e eu balancei a cabeça em negação, agitada até demais.

— EU CONSEGUI, MÃE! — Gritei, sem conseguir me controlar e pulei nela, a abraçando e pulando. Sem entender nada ela primeiro arriscou uns dois pulinhos, depois me afastou.

— Você é doida, menina. Conseguiu o quê?

— O intercâmbio, mãe. Eu consegu!i — Tentei me acalmar, mas eu estava feliz demais.

— De novo você com essa história de intercâmbio, ? A gente cheia de conta pra pagar e você insiste nisso? — Bufou, relaxando os ombros e até se virando para sair do meu quarto.

— Não, mãe. Você não entendeu. Eu consegui o intercâmbio! Bolsa integral até com a moradia incluída. O tanto que eu juntei vai dar pra passagem de ida e o visto. EU CONSEGUI, DONA LÚCIA! — Voltei a gritar, sentindo até caírem lágrimas por minha bochecha. Nem percebi que tava chorando de alegria.

— Como assim bolsa? Quando foi que você se inscreveu? Eu não acredito que fez isso pelas minhas costas, ! — O olhar de minha mãe acabou cortando a minha onda de animação. Ela não tinha gostado, era isso?

— Mãe? — Soltei, confusa.

— Você me desaponta, . Não acredito nisso! Eu não acredito nisso! Você perdeu completamente a noção de realidade. Vai jogar a vida todinha no lixo. — Quem não conseguia acreditar que estava ouvindo aquilo era eu.

— Mas, mãe…

— Sem “mas”, . Estou completamente decepcionada com você. — E sem me deixar dizer mais nenhuma palavra, dona Lúcia saiu pela porta do quarto, me deixando sozinha, com uma dor chata no coração despedaçado.

Sentei sob minha cama, porque até minhas pernas amoleceram e senti meu peito estremecer quando caí no choro.

Mesmo eu passando no intercâmbio, ela ainda não acreditava em mim.
Logo ela.

Nossa despedida não foi fácil. Dona Lúcia passou semanas sem falar direito comigo e não quis saber de nenhum detalhe sobre o processo até o dia em que eu embarcaria no avião.

Quando a data estava mais próxima, ela partiu para a chantagem emocional. Chorava pelos cantos e em algumas de nossas conversas tocava na ferida de que ela poderia morrer enquanto eu estivesse fora.

— O que vai ser da Bianca sem mim? Seremos só eu e ela, já que você vai para longe.

Pelo menos Bianca estava o oposto dela. Na verdade, minha irmã caçula era a única pessoa apoiando minha empreitada.

Pedir demissão foi mais difícil do que eu esperava. Eu era atendente de telemarketing e quando disse que queria sair, meu chefe prometeu até aumentar meu salário se eu ficasse.

Seria tentador, se meu sonho não fosse mais importante.

No aeroporto, meu coração parecia que saltaria pela boca e enquanto eu olhava para a sala de embarque e escutava o som dos aviões decolando, senti um medo absurdo do que vinha pela frente.

Não era para menos, eu estava me lançando na cara e na coragem em uma realidade completamente diferente. Lá nos Estados Unidos não teria minha mãe para fazer minha comida ou me trazer chá quando eu ficava doente.

Um nó se formou na minha garganta quando olhei para Dona Lúcia e vendo as lágrimas nas bochechas dela, eu me peguei chorando também, feito uma manteiga derretida.

— Você vai ver, mãe. Eu vou conquistar todo esse mundão, vou ficar bem rica e aí mando meu jatinho te buscar. — Prometi pra ela, puxando-a para um abraço.

— Não quero nenhum jatinho, . Seu lugar é comigo. Não vá não, minha filha. — Me olhou com uma expressão doída que fez meu coraçãozinho se apertar.

— Eu não posso fazer isso, mamãe. É o meu sonho. Me deixe lutar por ele. — Supliquei, então beijei sua testa e me voltei para Bianca, iniciando mais uma onda de choradeira.

— Cuida da mamãe e não se meta em encrencas. Vejo você no Skype.

— A mamãe pode não querer o jatinho, mas eu quero. — Ela só me respondeu isso, me fazendo rir entre as lágrimas e hesitar em me separar dela.

Enquanto eu caminhava para longe de minha família, o nó se apertou mais, porém respirei fundo e mandei bala. Eu ia arrasar, não aceitava menos que isso.

— Eu falo sério, . Você devia tentar uma audição quando abrirem as inscrições. — Ergui uma sobrancelha para , rindo de novo porque aquilo só podia ser uma das piadas dele.

— Pare de brincar com isso! Uma hora eu vou acreditar que sou isso tudo. — Brinquei de volta com ele, que negou com a cabeça.

— Mas você é. Cadê a garota confiante que me disse que seria uma cantora mundialmente conhecida?

— Ela está bem aqui, se borrando de medo. — Confessei, fazendo ele rir.

— Não tem motivo algum pra ter medo. Se tem alguém capaz do que quiser aqui, esse alguém é você, .

Olhei nos olhos de e foi incrível o quanto eu consegui ver a verdade neles. O jeito que ele dizia meu nome completo era a coisa mais fofa do mundo e eu ficava bem boba quando ele levantava meu ego daquele jeito, porém eu precisava manter meus pés no chão ou estaria ferrada.

Desde que nos conhecemos, no primeiro semestre da faculdade, eu e éramos bons amigos e nada mais do que isso. Nós morávamos no mesmo housing e éramos vizinhos de quarto, então basicamente um passava bastante tempo junto com o outro.

Minha roommate, que era uma chinesa super simpática chamada Cho, dizia que ele gostava de mim e não era como amigo, mas eu não acreditava naquilo. nunca tinha me dado sinal algum de interesse e por mais que eu quisesse mesmo que fosse verdade, acabei deixando para lá.

— Vai ficar olhando pra mim com essa cara por quanto tempo? — Despertei com a voz de , vendo ele rir da minha cara.

— É a cara que eu tenho, seu folgado. — Joguei uma pipoca na direção dele e a chamada do The Voice começou, anunciando que o intervalo tinha acabado.

Uma coisa sobre comerciais nos Estados Unidos: eles eram muitos e eram um dos motivos de eu ter engordado mais um pouco. Nunca vi aparecer tanta comida gostosa na televisão.

Estava na semana das battles e eu estava ansiosa para ver cantar uma garota com quem eu havia simpatizado. De cara eu quis torcer por ela, que era Team Adam. Na verdade, eu sempre acabava torcendo para os times dele. Como não morrer por aquele homem, afinal?

Ele tinha escolhido Just Give Me a Reason da P!nk para a dupla e quando a melodia começou a cantar eu já senti meu corpo arrepiar todinho.
Eu era louca por aquela música, louca mesmo. P!nk era um dos meus ícones inspiradores. Eita mulherão da porra!

Considerava um artista incrível quando ele era capaz de me causar uma emoção tão grande que eu sentia vontade de chorar só de ouvir sua voz. E era assim que eu me sentia quando Tinah Andrews abria a boca.

Não me surpreendi nem um pouco em estar enxugando as lágrimas quando a performance terminou.

Senti uma movimentação ao meu lado e quando percebi, colocava seu braço em volta de mim, me abraçando. Estávamos os dois sentados sob minha cama diante da TV.

— Já te falaram que você é uma chorona? — O encarei ao ouvir sua voz próxima ao meu ouvido, então soltei uma risada de suas palavras.

— Ninguém precisou. Eu já nasci botando a goela no mundo. — Dei de ombros.

— Mas aposto que ninguém disse que você é incrível até assim. — Fiquei sem jeito ouvindo aquilo e até engoli em seco.

não podia fazer aquelas coisas, eu tremia na base e precisava ficar repetindo que aquilo era coisa de amigo.

— E você é um bobo! — Dei língua para ele e voltei a olhar pra tela.

— Lembra o que você me contou sobre quem mostra a língua né? —Provocou, me fazendo rir.

— Cala a boca, . Vai começar outra battle.

— Um dia desses vai ser você ali, mas eu não vou assistir pela TV, não. Vou estar ali na plateia berrando seu nome.

— Como eu disse, um bobo.

Todas as vezes em que eu me fechava no estúdio e praticava com a velha viola de meu avô, sentia uma paz que chegava a ser inexplicável. Era a melhor terapia de todas e tudo o que eu precisava para acalmar meu coração dolorido de saudades de casa.
Tinha falado com mamãe e Bianca há poucos minutos via Skype e a choradeira da dona

Lúcia quase me deu vontade de voltar, mas eu seguiria em frente.

Ia fazer um ano que eu estava em New Orleans e se dizem que dá pra se acostumar com a saudade, isso é uma mentira deslavada.

Fui dedilhando a viola aleatoriamente e parando para anotar quando algo que eu tocava me agradava. Havia planejado trabalhar em minhas composições naquele dia, por isso tinha reservado o estúdio, mas não estava obtendo tanto sucesso, então resolvi só brincar.

Fiquei imersa nas notas musicais, perdendo completamente a noção do tempo quando de repente senti que estava sendo observada.

Quando levantei meus olhos para o vidro, notei que estava parado ali, segurando um papel com a mão espalmada.

Levantei com curiosidade, estreitando meus olhos para enxergar melhor então congelei.

Ele tinha me inscrito no The Voice e eu havia sido selecionada para uma audição.
Quando ele tinha feito aquilo? Como ele tinha conseguido material meu pra enviar a eles?
O sorriso esperto de só mostrava que para ele havia sido bem fácil cada resposta para minhas perguntas.

Você consegue, .

Respirei bem fundo e peguei o microfone que me entregaram.

!

Eu quase ri do jeito engraçado que disseram o meu nome, então adentrei o palco, vendo as quatro cadeiras viradas de costas para mim e várias pessoas me encarando da plateia.

Parei no centro e quando os toques de Fuckin’ Perfect da P!nk iniciaram, de repente eu me senti em paz. Era isso, eu estava no lugar ao qual pertencia.

Made a wrong turn once or twice
Dug my way out, blood and fire
Bad decisions, that’s alright
Welcome to my silly life

Mistreated, misplaced, misunderstood
Miss No Way It’s All Good
It didn’t slow me down
Mistaken, always second guessing
Underestimated, look, I’m still around

Deixei a emoção me dominar, conseguindo sentir cada palavra da música contando minha própria história. Tudo o que eu havia passado para chegar até ali, todas as pessoas que não acreditavam que eu conseguiria.
Eram todas tolas porque eu era perfeita e eu sabia disso, na mudaria isso em mim.

Pretty, pretty please don’t you ever, ever feel
Like you’re less than fucking perfect
Pretty, pretty please if you ever, ever feel
Like you’re nothing, you’re fucking perfect to me

Conseguia ouvir minha voz controlada do jeito que eu havia treinado milhares de vezes e eu não sentia mais medo de falhar, porque eu sabia que ia conseguir. Eu sabia que ao menos um deles se viraria pra mim. Eu havia nascido para aquilo.

You’re so mean when you talk
About yourself, you are wrong
Change the voices in your head
Make them like you instead
So complicated, look how big we all make it
Filled with so much hatred, such a tired game
It’s enough, I’ve done all I can think of
Chased down all my demons, I’ve seen you do the same, oh, oh

Imaginei em cada um daqueles rostos os rostos das pessoas que me humilharam, que me faziam de chacota por causa da minha aparência, que diziam que pessoas gordas não faziam sucesso, que o meu lugar era na cozinha.

Minha voz entoava calando a boca de cada um deles e respondendo que eu podia sim, que eu era capaz sim e que o meu lugar era onde eu quisesse.

Pretty, pretty please don’t you ever, ever feel
Like you’re less than fucking perfect
Pretty, pretty please if you ever, ever feel
Like you’re nothing, you’re fucking perfect to me

Então, de repente, me veio a imagem de , que não estava na plateia, mas estava me assistindo.

Meu coração se aqueceu todinho e eu conseguia lembrar e sentir cada palavra de incentivo dele, querendo correr na direção daquele homem lindo e abraçá-lo, aperta-lo contra mim até não poder mais.

Ele havia acreditado em mim quando ninguém mais acreditava. Havia me apoiado e continuava me apoiando. Se não fosse ele, talvez eu nem estivesse ali.
Seria até capaz de beija-lo naquele momento.

You’re perfect, you’re perfect to me
Pretty, pretty please if you ever, ever feel
Like you’re nothing, you’re fucking perfect to me

Então a música foi terminando e quando entoei a nota final, consegui ouvir uma enorme ovação.
As palmas foram ensurdecedoras, mas não foi isso que mais chamou a minha atenção, já que essa foi completamente roubada quando notei as quatro cadeiras viradas para mim.

As quatro.

Todos eles haviam me escolhido.

O qual insano era aquilo?

Nem conseguia raciocinar direito de tão estupidamente feliz que eu estava e…
Adam Levine tinha levantado para me aplaudir?

Socorro?

— Como você se chama? — Olhei para Blake, que falava comigo.

— Respondi, com um sorrisão que não cabia em mim.

— De onde você é, ? — Olhei para a maravilhosa Gwen Stefani.

— Sou brasileira, com orgulho! — Mal conseguia acreditar que estava mesmo conversando com eles.

— Uou uou uou! — Ri ao ouvir Adam e me controlei pra não babar ali mesmo. Ele era mais lindo ainda pessoalmente. — , você tem um dom celestial, mas eu tenho certeza que você sabe muito bem disso. E está claro que por isso a escolha mais sábia é vir para o meu time!

— Lembre-se de quantos venceram no meu time, . Você vai ser uma estrela mundial — Blake retrucou, me fazendo sorrir mais. Eu queria gritar por vê-los me disputando.

— Não, ela não vai ser. Ela já é uma estrela. Eu to arrepiado até agora com a voz dessa mulher — E um elogio daquele vindo de Pharrell era O elogio.

— De diva para diva, . Nós nos entendemos muito bem. Eu sei exatamente o que fazer pra te levar onde você quer. — Gwen sorria pra mim e de repente eu me senti totalmente confusa entre aqueles quatro.

Eu era louca pelo Adam, mas todos eles eram incríveis e eu sabia que eles me ajudariam e muito a conseguir chegar lá.

Olhei de um para outro, mas não podia enrolar demais na minha escolha, então segui o que o coração mandava.

— É um sonho muito louco estar aqui hoje. E antes de mais nada eu queria mandar um beijo para todas as pessoas que não acreditaram em mim. — Ouvi várias pessoas gritando quando pisquei e joguei um beijo para uma das câmeras. — Vou seguir o que o coração tá mandando e, Adam, ele é todinho seu.

— Venha comigo então, minha deusa.

Eu me derreti toda, ouvindo Blake gritar protestando.
Gargalhei de alegria e me aproximei de Adam, o abraçando ainda sem acreditar que estava mesmo vivendo aquele sonho.

— O seu nome vai chegar exatamente onde sempre sonhou. Estou aqui pra te ajudar nisso, . — Ele disse, então nos afastamos do abraço e eu o encarei agradecida.

— Sim. Nós vamos vencer. — Soltei, confiante.

Passei por cada um dos outros três e os abracei rapidamente antes de voltar aos bastidores, onde um me aguardava sorrindo de orelha a orelha.

— EU TE DISSE! EU TE DISSE! — Só conseguia ouvir ele repetindo e corri para os braços dele, o abraçando e chorando que nem uma maluca.

— Você disse! TEAM ADAM! — Gritei, o apertando bem forte e quando o soltei só um pouquinho para olhar bem nos seus olhos, não me aguentei e lhe tasquei um beijo na boca.

retribuiu, soltando uma risadinha entre o beijo e me enchendo de selinhos quando nos afastamos porque não dava pra ficar se agarrando ali.

— Eu amo você, . — Fiquei pasma em ouvir aquilo dele, mas estava explodindo demais de felicidade para congelar naquela hora.

— Eu também te amo, .

E abraçada com ele, saímos logo dali.

Assisti ansiosa o jatinho pousar, apertando a mão de toda agoniada quando as portas se abriram e dona Lúcia saiu de lá com Bianca em seu encalço.

Soltei e saí correndo na direção delas, as abraçando bem forte e estalando beijos em suas bochechas.

— Viu só, mãe? Eu consegui! Te trouxe de jatinho! — Pulei com ela, que riu gostoso.

— Você é uma atentada, minha filha. Me perdoe por não ter colocado fé em ti. — Os olhos dela estavam marejados.

— Não importa, mãe. O que importa é que eu consegui e estou com a agenda lotada para essa primeira turnê. Não é fácil ser a primeira brasileira a vencer o The Voice USA.

FIM

Nota da autora: Eu amei escrever cada pedacinho dessa fic. Espero que vocês tenham gostado também! Deixem seu comentários, eles são importantes demais, e se quiserem saber mais sobre minhas histórias, entrem no meu grupo, o link está ali embaixo!
xx Frankie.

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