I Don’t Have To Try

Sinopse: Uma mulher nos anos de 1960. A esposa perfeita, com a vida perfeita. Até perceber as amarras que a prendiam e buscar sua liberdade. Porque uma mulher não precisa fazer ninguém entender que ela pode fazer o que quiser.
Gênero: Romance.
Classificação: Livre.
Beta: Regina George.

Capítulo Único

colocou a torta de maçã em cima do balcão. Soltou um suspiro alto, antes de se voltar para o balcão e iniciar a limpeza da cozinha. Ainda tinha que recolher todas as roupas, passar e guardá-las e iniciar o preparo do jantar. Tinha sorte por ainda não ter filhos, mesmo com quase dois anos de casada. Tinha muita sorte, pois ela realmente não saberia como iria lidar com todas as responsabilidades que acumulava durante o dia e cuidaria de uma criança.
e eram casados há quase dois anos. Ele era o único filho de Alexander , o banqueiro mais importante da Carolina do Norte. O pai de , e sendo ela filha única, era sócio de Alexander e desta forma, um casamento entre seus filhos era a solução mais eficaz para decidir quem seria o herdeiro do banco. Mas apesar de o casamento entre eles ter sido arranjado por seus pais, e eram apaixonados um pelo outro desde a infância. jamais aceitaria se casar com outra mulher e para , ter como seu marido, era o sonho de sua vida realizado.
Ela olhou para o relógio na parede e arregalou os olhos, percebendo que já estava atrasada em sua rotina. Atravessou a cozinha correndo, os saltos pequenos batendo contra o piso e recolheu as roupas do varal com rapidez. Subiu para o segundo andar da casa com o cesto de roupas limpas e passou com o ferro quente peça por peça, dobrando e guardando em seus devidos lugares. Já se sentia exausta quando ouviu o barulho da porta da frente e a voz de , seu marido, chamando-a com carinho. sorriu, terminando de guardar o restante das roupas limpas e correndo para o térreo, se jogando nos braços do amado e o beijando com entusiasmo.
– Como foi o seu dia, amor? – Ela questionou, entusiasmada. Ajudou o homem a tirar o paletó e guardar sua pasta e ambos seguiram para a cozinha, onde ela lhe serviu uma fatia de torta e recebeu um beijo na testa como agradecimento.
– Cansativo. – respondeu. – Meu pai está exigindo muito de mim e estou tentando fazer o meu melhor.
– Tenho certeza que sim, querido. – sorriu, afagando seu ombro. – Logo colherá os frutos de seu esforço e tudo ficará bem.
– Seu apoio é fundamental, . – agradeceu. – Não sei o que seria de mim sem você.
– Seria um pouco mais magro, talvez. – Ela brincou e cerrou os olhos em sua direção. – Por falar nisso, tens preferência para o jantar?
– Qualquer coisa que você cozinhar ficará incrível. – respondeu, puxando para seus braços e a beijando com suavidade. – Eu te amo. Não esqueça disso.
– Jamais. – Outro sorriso seguido de um beijo longo, antes de afrouxar a gravata e avisar que subiria para tomar um banho.
suspirou e limpou a bagunça que havia feito para servir a torta ao marido. Preparou o jantar, organizou a louça e então subiu para o quarto, para tomar seu almejado banho quente e cair na cama, com as costas doloridas e os pés inchados. A mulher se virou na cama em direção a , que dormia profundamente. Os cabelos revirados e a expressão serena que ela tanto amava complementavam seu sono. Ela perdeu minutos analisando o rosto de e pensando o que seria de sua vida sem aquele homem, que ela amava profundamente com todo o seu coração.
E para sua tristeza, a única resposta que vinha em sua mente era: nada. Ela não seria nada sem , porque ela era mulher. E uma mulher não era ninguém sem um marido.
***
Fazer comprar no supermercado era uma tarefa quase cotidiana para qualquer dona de casa. A maioria das mulheres costumava ir aos mercados no mesmo horário, e desta forma, acabavam por encontrar amigas e conhecidas pelos corredores dos estabelecimentos. não gostava de fazer compras. Não tinha talento para comparar preço e qualidade dos produtos e na maioria das vezes, pegava a primeira marca que via na prateleira. Ainda assim, se divertia naquela tarefa que detestava tanto. Sempre encontrava suas vizinhas e ficava a par das fofocas do bairro. Naquela manhã, por exemplo, Mary Alice contava sobre a briga de Joan com seu marido. Joan era a nova inquilina da casa em frente à de , e era uma mulher alta e de cabelos vermelhos, que esbanjava simpatia e distribuía tortas de limão pela rua.
– Fiquei sabendo que ela questionou as finanças de casa. – Mary Alice cochichou para as outras três mulheres, em um tom de voz julgador. logo se sentiu pesarosa por Joan.
– Ela está casada a pouco tempo. – Lorelai comentou. – Ainda não conhece todas as regras que um matrimônio impõe.
– Ouvi falar sobre divórcio. – Mary Alice disse por fim, causando a uma pequena histeria coletiva em suas vizinhas. Divórcio estava abaixo da morte para toda mulher casada, pois elas perdiam tudo: filhos, casa, status social, qualidade de vida… Muitas acabavam virando mulheres da vida e vendendo seu corpo em troca de dinheiro. Outras precisavam procurar empregos que proporcionassem em moradia e os salários eram muito baixos.
– Pobre Joan. – suspirou por fim, recebendo olhares atravessados de suas vizinhas.
– Foi escolha dela questionar a autoridade do marido. – Mary Alice condenou, recebendo acenos de cabeça em concordância das outras. – Não devemos sentir pena.
– Posso sentir pena de quem eu achar que devo, Mary Alice. – retrucou, com mal humor. – E vocês deveriam apoiar suas vizinhas e não as condenar por conta de um pequeno erro.
E com isso, deu as costas as vizinhas e terminou suas compras. Não havia muitas sacolas e optou por voltar para casa andando. Recolocou o chapéu e os óculos escuros. Na saída do supermercado, foi parada por um grupo de mulheres, que lhe entregaram um livro e alguns folhetos. Ela sorriu em agradecimento e guardou tudo dentro de sua bolsa, seguindo para casa em seguida.
Naquela noite, assou frango e batatas para , se encarregando da limpeza da cozinha como fazia todos os dias. já trabalhava fora e não deveria se preocupar com as tarefas domésticas. Aquele era um trabalho dela. preparou um chá e se pôs a ler o livro que havia recebido mais cedo naquele dia, enquanto o marido dormia tranquilamente no andar de cima. Usando uma camisola confortável e meias, se aconchegou em sua poltrona favorita e leu até sentir seus olhos pesarem. Foi para a cama cheia de pensamentos perturbadores devido à leitura que havia realizado e muitas questões nas quais nunca havia pensado.
Afinal, era aquilo que ela estava fazendo durante toda a sua vida, não era? Agindo no automático, como se não tivesse a capacidade de pensar por si mesma. Suspirando, ela se aconchegou nos braços de e sorriu, sentindo-se em casa. Nada poderia lhe afetar enquanto tivesse ao seu lado.
***
estava inquieta. Se sentia como uma criminosa, olhando para todos os lados e observando todos os rostos presentes naquela pequena sala de jantar. Algumas daquelas mulheres lhe eram conhecidas e aquilo lhe gerava um certo conforto. Não iria ser morta e ter seus órgãos vendidos no mercado ilícito e isso já era algo que a deixava aliviada. Mas ainda assim, sentia como se estivesse fazendo algo muito errado. Afinal de contas, ela deveria estar em casa, preparando um bolo de cenoura com cobertura de chocolate e pensando no que cozinhar para o jantar, ao invés de estar sentada na sala de jantar de uma desconhecida, graças a um folheto que ela recebera na porta do supermercado em um dia qualquer.
Ela havia lido todo o livro duas vezes. Havia destacado as partes que acharam mais importantes e, anotado comentários sobre suas conclusões após a leitura. Estava incomodada com a situação na qual se encontra a e jamais havia percebido. E por conta daquele incômodo e daquele sentimento perturbador, ela finalizara todas suas tarefas domésticas com rapidez e pegará um táxi até a casa de Helena Brown, que lhe oferecia cookies em um prato de porcelana. recusou com um aceno de cabeça e sorriu em agradecimento. Ajeitou o chapéu em sua cabeça e afrouxou o lenço no pescoço, se sentindo enforcar e quase rindo das lembranças de reclamando das gravatas que ele era obrigado a usar.
.
Pensar no marido quase a fez levantar e ir embora, pois o sentimento de o estar traindo quase a sufocou. Era aquilo que ela estava fazendo, não era? Questionando sua posição como mulher e esposa. Jogando fora todo o sacrifício que fazia por ela. Ela não deveria estar naquela casa é muito alto daquilo, não deveria se identificar com as ideias que Betty Friedan apontou em seu livro. Ela não era uma dona de casa insatisfeita. Ela não era, era?
– Senhoras, iremos começar. – Uma das mulheres presentes chamou a atenção das outras. novamente olhou para os lados, procurando uma rota de fuga.
– Sabemos que muitas de vocês estão com medo. Sabemos o quão difícil é admitir que estamos em desvantagem perante os homens. – Helena Brown falou, olhando para cada uma das mulheres presentes. Quando focou os olhos em , a mais nova engoliu em seco e baixou a cabeça, acuada. – Eu sei que vocês sentem culpa. Culpa por terem deixados seus lares e filhos. Culpa por questionar suas vidas, aparentemente, perfeitas. Culpa por estarem agindo as costas de seus maridos. Culpa por estarem pensando fora da caixa que lhes fora imposta desde o nascimento.
“Mas eu estou aqui para lhes garantir que não há motivo para tanta culpa. A culpa que sentimos, apenas existe porque a sociedade nos fez acreditar que nosso lugar é restrito ao âmbito familiar. Mas nós, mulheres, pertencemos ao mundo. Nós podemos muito mais do que aparentamos.”
Helena respirou fundo e deu um passo para trás, dando a fala para outra mulher, uma negra de cabelos trançados. Ela usava um vestido azul e sapatos pretos.
– Meu nome é Carmen Gonzales e eu preciso fazer uma pergunta: quantas de vocês votam? – Ela questionou e apenas cinco das vinte mulheres levantaram as mãos. – Muito bem. Estão mais à frente do que as outras. Alguma de vocês reconhece a importância do voto?
– Política é coisa de homem. – Uma mulher comentou, com uma careta de nojo.
– Política é para todos. Se não votarmos, como os políticos vão saber de nossa existência? Como criarão leis que nos favoreçam? – Carmem questionou. – Há muitos anos, mulheres lutaram pelo nosso direito de voto. Muitas morreram no percurso, mas o voto fora conquistado. E o que fizemos com esse direito? Muitas de nós nunca chegaram a cogitar a ideia de votar. Essa luta idealizava um mundo onde as mulheres teriam os mesmos direitos que os homens. Um mundo onde as políticas do Estado nos incluiriam. Um mundo onde fossemos respeitadas como pessoas. Mas nós nos acomodamos. Voltamos para nossos lares e deixamos o controle do mundo para os homens. E aqui estamos novamente, sendo inferiorizadas.
“Recebemos salários mais baixos, pelas mesmas tarefas. Cuidamos de nossas casas, filhos e maridos, sem pensarmos em fazer outra coisa. Renegados o estudo em prol de um bom e feliz casamento. Não temos controle sobre nossas finanças ou sequer, sobre nosso próprio corpo. Nossos maridos tomam todas as decisões, sobre nossas vidas, enquanto cozinhamos batatas para o jantar. Não somos nada, além de objetos de um determinado homem. Se vocês estão aqui hoje, é porque estão incomodadas. Se estão sentadas me ouvindo falar, é porque estão curiosas. Porque a ideia de um mundo, onde uma menina e um menino, tem a mesma chance na vida, é algo que nos agrada. Peço a vocês que pensem sobre as palavras que ouviram hoje. E se tiverem interesse, retornem. Sempre existe espaço para mais uma mulher pensante no mundo.”
***
estava com a cabeça deitada sob o peito de . Usava uma camisola branca e tinha uma das mãos envolvendo o tronco do marido. abraçava a esposa com um dos braços, enquanto com o outro, mantinha um livro aberto, ao qual lia algumas frases antes de retomar a conversa com a esposa.
Haviam se passado duas semanas desde a primeira vez que compareceu à reunião das Mulheres Unidas. Desde então, ela havia comparecido a mais duas reuniões, das quais sairá com tantos questionamentos e uma angústia, que mais tarde ela compreendeu como um sentimento de injustiça, que preferiu não comparecer à reunião marcada para a tarde daquele sábado. Ao invés disso, passou o dia com o marido no parque, conversando sobre trivialidades e se sentindo extremamente vazia. Afinal de contas, sua vida era baseada em torno de . Sem ele, ela não tinha e não era nada.
? – chamou, em um fiapo de voz. abaixou o livro e voltou o olhar para a esposa, a encarando com curiosidade. Ele havia notado algumas mudanças no comportamento da esposa, mas sentia que ela não estava preparada para compartilhar o que quer que fosse que a estava incomodando. E por mais que conhecesse seus direitos como marido, não gostava de impor nada a à .
– Sim, querida?
– Você já pensou em como será quando tivermos filhos? – A mulher questionou, pegando totalmente de surpresa. Ele realmente não esperava que aquela conversa tivesse aquele rumo.
– Algumas vezes. – Respondeu. – Por quê?
– Estive pensando nisso hoje. – suspirou. – Sei que não estamos prontos para isso e estamos tendo sorte por eu não ter engravidado ainda, pois já temos dois anos de casamento. Mas me pergunto se, quando tivermos filhos, em que tipo de mundo eles vão viver.
– Eu estou um pouco confuso, . – sorriu fraco. – Pode ser mais clara?
– Se tivermos um filho homem, ele vai para a faculdade, como você foi, certo? – questionou e assentiu em concordância. – Ele vai assumir os negócios da família e se tornar um homem respeitável. Mas e se tivermos uma filha? Qual será o destino dela?
– Iremos lhe arrumar um pretendente decente. – disse, de forma natural e aquilo assustou de forma considerável. Ele nem havia parado para pensar. Era simplesmente uma decisão já tomada. Não por ele, mas pela sociedade em si, que não destinava as mulheres para alguma vida que não fosse o casamento. – Ela irá se casar, ter uma casa bonita e terá filhos. Vai cozinhar tão bem quanto você é vai cuidar do marido dela tão bem quanto você cuida de mim. – sorriu, contente com a projeção de futuro que tinha em mente. Diferente do marido, não esboçou um sorriso. Ela manteve sua expressão fechada, olhando para um ponto além de , que logo percebeu a reação estranha da esposa. – ? O que foi?
– Eu… Só pensei que talvez nossa filha pudesse ter uma vida diferente. – Ela disse por fim, com um suspiro.
– Como o que? – debochou. – Assumir os negócios da família?
– Talvez. – deu de ombros.
– Você não está pensando com clareza, . Certamente não gostaria que nossa filha tivesse um futuro diferente do normal. – decidiu e se viu obrigada a sorrir fraco e assentir.
O homem a beijou na testa, apagando a luz do abajur em seguida e ajustando o corpo na cama para dormir. passou metade da noite em claro, chorando baixinho e questionando as escolhas que havia feito em sua vida. Assim como a filha que ainda não existia, ela não tinha tido oportunidades de ter ou sonhar com outra vida, se não aquela que vivia com . Ela amava o marido, sim. Mas não sabia se poderia viver daquela forma para o resto de sua vida. Ela poderia ser mais. Poderia fazer o que quisesse, sem precisar se explicar para ninguém.
***
estava atrasada. Havia ido a mais uma reunião das Mulheres Unidas e perdido o horário por conta de uma conversa com uma das palestrantes. Deveria estar em casa a mais de duas horas e segundo seus cálculos mentais, já estava em casa a meia hora.
E aquilo era péssimo, se levasse em consideração que o relacionamento deles estava sofrendo algumas mudanças bastante significativas. já não era mais a mesma pessoa com quem havia se casado e ambos sabiam daquilo. Ela estava mudando, se conhecendo e conhecendo a extensão de seu poder. Ela estava adquirindo sonhos, desejos, vontades, que não coincidiam com as vontades de . Eles já haviam discutido duas vezes em um período de três semanas e pressentia que naquele dia, teriam outra discussão. Agradeceu a uma das companheiras da UM que havia lhe oferecido carona e pediu desculpas por ter sido uma péssima companhia. Meredith apenas sorriu e respondeu que a entendia e que se ela precisasse de algo, poderia ligar para ela. agradeceu e saiu do carro, correndo até a porta de casa. Encontrou na cozinha e não gostou nada do que viu. O cômodo estava uma bagunça e estava sentado na bancada, um prato com macarrão a sua frente e o copo com whisky em suas mãos.
– Aonde você estava? – Ele questionou, sem nem a cumprimentar.
– O que aconteceu com a cozinha? Por que está essa bagunça? – indagou, deixando seu chapéu e sua bolsa em cima do balcão. Havia muita louça na pia, o chão estava sujo e os utensílios fora de seus lugares.
– Eu fiz o jantar. – respondeu simplesmente.
– E para fazer macarrão você precisava sujar tudo isso?
– Eu não precisaria ter feito o jantar se você estivesse em casa, como deveria estar. – retrucou. lhe lançou um olhar irritado, antes de suspirar e seguir para a porta.
– Você vai encontrar os produtos para limpar, no balcão da pia. – Ela disse, ouvindo a risada de em seguida.
– Eu não vou limpar. – Exclamou, com firmeza. Não olhou para em nenhum momento, como se a presença dela ali não fizesse diferença em sua vida.
– E você acha que eu vou? – questionou, incrédula. Voltou para dentro da cozinha e parou ao lado do marido, os braços cruzados em frente ao corpo. – Quando eu saí, estava tudo organizado! Tinha um prato de comida na geladeira e você precisava apenas aquecer! Não tinha necessidade de fazer tudo isso, .
– Se estivesse em casa…
– Mas eu não estava! – Ela alterou o tom de voz, finalmente conseguindo com que olhasse em seu rosto. E não gostou nada do que viu na expressão dele.
– O que está acontecendo com você? – Ele questionou, largando os talheres no prato e se virando para a esposa. – Não cozinha mais, a casa está sempre com a limpeza atrasada, as compras não estão sendo feitas… Sem falar que você sai quase todos os dias, sem permissão e sem me avisar para onde vai!
– Permissão? – A palavra saiu de seus lábios com raiva. – Por que eu deveria pedir permissão para fazer algo que não lhe diz respeito?
– Porque você é minha esposa! – exclamou, quase aos gritos.
– Eu sou sua esposa e não sua propriedade, ! – As lágrimas já se acumulavam nos cantos dos olhos de , mas ela se obrigou a não desmoronar na frente de . – Eu não estou fazendo nada de errado! A casa está sempre organizada e sempre tem uma refeição para você, mas não da mesma forma de antes. Porque agora eu tenho outras coisas para fazer e preciso administrar o meu tempo.
– Eu não tenho mais a minha esposa. – disse por fim. – Você mudou. E eu não entendo o porquê, se estávamos tão bem. Éramos felizes, .
– Eu era cega, . E agora eu sei que posso ser livre. E você não compreende isso. Para você, uma casa limpa e um jantar quente são o suficiente dentro de casa. Porque liberdade e poder, você tem fora daqui. E eu não tenho nada.
– Você tem a mim.
– Não tenho. Não com você tentando me controlar e simplificando a minha importância a afazeres domésticos. Você manda em tudo lá fora e espera ter controle sobre mim, também. – sacudiu a cabeça para os lados, dando dois passos para trás. – Mas eu não consigo fazer mais isso.
– O que quer dizer com isso? – perguntou, realmente assustado.
– Eu não vou ser a sua empregada, . Eu não preciso tentar ser ela, para que você fique comigo. Nós somos casados. Deveríamos ser companheiros e não viver nesse estado de submissão que você me impôs, mesmo sem perceber.
– Eu não estou compreendendo. – sussurrou. Se aproximou de , tentando puxá-la para um abraço e conseguiu apenas que ela se afastasse mais.
– Se você não compreende que as tarefas domésticas devem ser compartilhadas entre nós dois, que eu sou muito mais do que a pessoa que cuida de você e da casa e que eu posso fazer o que eu quiser, porque eu sou livre e sou dona de mim mesma, esse casamento está arruinado.
– Não, . Olha, eu posso contratar uma empregada, se as tarefas estão muito pesadas para você. Nós podemos resolver isso, amor. – sugeriu e riu baixo, sem acreditar.
– Você realmente não fez nem um esforço para me compreender. – Ela condenou. – Mas eu já esperava por isso. Você está acostumado com a porra do mundo girando em torno de você. Mas eu não faço mais parte disso. – deu as costas para , subindo para o segundo andar e procurando duas malas no closet. a seguiu instantes depois, com a expressão quase desesperada.
– Você vai embora? – Ele questionou, desacreditado. Jamais pensou que e ele fossem se separar.
– Vou. – Disse, com firmeza. Jogou peças aleatórias para dentro das malas, sem realmente prestar atenção no que fazia.
… Você está destruindo nosso casamento. – declarou. – Se você fizer isso, não terá mais volta.
– Já não tem mais volta, . Eu não tenho que tentar te fazer entender que eu posso fazer o que eu quiser.
– Eu te amo, . Mas eu não vou te aceitar de volta, se você sair por essa porta. – falou, assim que fechou as duas malas. A mulher o encarou brevemente, antes de assentir com a cabeça e arrastar as malas para fora do quarto.
– Você não me ama, . Você ama o ideal de mulher perfeita que eu fui. E quando eu finalmente fui eu mesma, você não gostou. Então não existe amor, aqui. – Ela suspirou. – Eu espero que algum dia, você compreenda os motivos pelos quais eu fiz isso.
– Não conte com isso. – retrucou, lançando um olhar frio para .
A mulher assentiu e deu as costas para ele. Desceu as escadas e andou até a porta. Pegou sua bolsa e o chapéu e saiu, batendo a porta da frente no instante seguinte. Suas vizinhas estavam bisbilhotando pela janela e sentiu o peso do julgamento delas sobre si, mas realmente não ligou.
Ela havia descoberto quem realmente era. Uma mulher livre, forte e que podia fazer qualquer coisa, sem precisar dar explicações para ninguém. Ela não se importava com os pensamentos ou as falas dos outros. Ela não se importava com mais nada, além dela mesma. Dali para frente, seria tudo sobre ela. E quando atravessou o jardim de sua antiga casa e seguiu pela calçada até o centro da cidade, ela soube que havia feito a escolha certa. Havia escolhido a si mesma. E não precisava tentar convencer ninguém de que aquilo era o melhor para ela. Ela sabia e não duvidava de si.

Fim.

Nota da autora: Já dizia Rihanna: mate um homi. Espero que tenham gostado e não deixem de comentar <3

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