I’ll Be Your Baby Tonight

I’ll Be Your Baby Tonight

Sinopse: “1969. O regime militar no Brasil fazia suas perseguições a todos aqueles que ousavam enfrentar suas políticas ditatoriais e entre as marchas, as reuniões clandestinas e a rede de luta e solidariedade que se formava e se fortalecia entre os opositores dos militares, alguns ainda contavam com a sorte de ter o amor como ferramenta de defesa.”
Gênero: Drama/Romance.
Classificação: Livre.
Restrição: Sem restrições.
Beta: Alex Russo

 

“Close your eyes, close the door
(Feche os olhos, feche a porta)
You don’t have to worry anymore
(Você não tem mais que se preocupar)
I’ll be your baby tonight
(Serei o seu bebê esta noite)”

Março, 1969
A temperatura em Punta Arenas era bem menor do que estava acostumada. Ainda que estivessem em pleno verão, a máxima na pequena cidade portuária ao extremo sul do Chile sequer atingia os 15ºC e a obrigava a vestir duas blusas por baixo do grosso casaco de lã. Os ventos eram ferozes naquela época do ano e traziam todo o aroma salgado do mar do Pacífico para dentro do sótão, onde a mulher se encolhia diante da janela, empenhada em continuar a observar o anoitecer da região mesmo que suas bochechas estivessem congelando e mal conseguisse sentir a ponta de seu nariz.
Conforme o céu de um cinza constante se tornava cada vez mais escuro, as luzes das casas e dos barcos atracados no porto se acendiam e davam à capital da Província de Magalhães um visual ainda mais adorável, digno de uma pintura. Vindo de uma cidade grande e irregular como São Paulo, não deixava de admirar a aura amena da cidade que lhe acolhia: as ruas eram estreitas, as casinhas pareciam de brinquedo quando se olhava do alto e a visão dos vales congelados ao longe, em oposição ao mar em sua frente, era como o último trunfo de beleza.
Ainda que a paisagem fosse uma das mais bonitas que tivera a sorte de capturar em seus quase trinta anos, nada parecia capaz de fazer desaparecer o nó em sua garganta e a constante vontade de chorar. Quando uma rajada mais forte de vento lhe atingiu e seus olhos se fecharam por impulso, se viu novamente encolhida em meio a caixas de suco de laranja, na caçamba coberta de um caminhão que fazia seu trajeto até a Argentina, de onde partiria em um ônibus para o Chile. Com os braços firmes ao redor das pernas e a força descomunal que fazia para vencer o enjôo causado pelo sacolejar do veículo que a transportava clandestinamente, aquele havia sido o mais humilhante trajeto que fora obrigada a fazer para que continuasse viva e de certa forma, livre.
A instauração do regime militar no Brasil colocou a jovem jornalista na contracorrente desde o seu início, há quase quatro anos. Seu trabalho como redatora na sede paulista de O Semanário – um dos poucos veículos de imprensa a formalmente se opor ao golpe de Estado –, lhe conferia uma responsabilidade enorme em continuar a informar a população brasileira sobre os perigos da anti-democracia e sobre os excessos do governo militar. Tamanha responsabilidade foi, no entanto, se tornando arriscada conforme o regime se tornava cada vez mais duro e perseguidor para com seus opositores. As prisões negligentes, os desaparecimentos criminosos e as perseguições – estas que geralmente envolviam cartas com ameaças e invasões às casas – de seus colegas de profissão e companheiros de resistência ao golpe, a alarmaram para quando sua vez chegaria.
Após as invasões das redações em São Paulo e no Rio de Janeiro de O Semanário, que culminaram no fechamento do jornal, na prisão e na perseguição de alguns de seus jornalistas mais importantes, foi convidada para escrever uma coluna fixa em O Pasquim¹ – semanário alternativo que ficou amplamente conhecido no cenário de contracultura e contestação ao golpe –, e foi a partir de então que as investidas contra ela se tornaram diretas e mais assustadoras.
Na semana da emissão do Ato Institucional Nº5 – o mais rigoroso e duro decreto até então, que entre outras coisas dava ao presidente Costa e Silva autoridade para fechar o Congresso Nacional e as Assembléias Legislativas, institucionalizava a censura prévia e a tortura – recebeu uma visita indesejada no apartamento que dividia com duas amigas e igualmente jornalistas. Policiais sem mandado invadiram sua casa a procura de documentos que pudessem ligá-la a partidos de esquerda que estavam na ilegalidade ou que pudessem provar sua participação em reuniões políticas de oposição, que estavam proibidas após o AI-5. Por conta de sua não resistência à invasão e graças aos muitos vizinhos curiosos que testemunharam a entrada dos agentes do governo, nada de mais grave ocorrera, mas ela sabia que aquilo não era o fim e que as perseguições estavam apenas começando.
Sua primeira medida havia sido mandar os pais e o irmão adolescente para o interior do estado, onde seriam abrigados por sua tia-avó e poderiam se manter longe das investidas mais fortes da opressão. Em seguida, a mulher começou a participar ativamente do movimento de resistência ao regime não apenas como opositora dentro do que lhe cabia com a profissão de jornalista, mas de corpo e alma, sabendo que se calar ou se aliar aos jornais que cobriam o obscurantismo do governo – como fizeram muitos de seus colegas, alguns sem saída – jamais pararia os ataques a inocentes ou demais pessoas que acreditavam na liberdade do povo e na democracia.
O percurso vinha sendo exaustivo para a jovem mulher. Estar longe da família, obrigada a se mudar de tempos em tempos e cultivando um medo quase paranóico de ser capturada por acreditar que cabia ao povo todos os seus direitos à vida e à liberdade, estava esgotando suas energias, mas sabia que precisava seguir firme na luta e a história se encarregaria de curar suas dores de batalha. A vida, porém, se encarregara de lhe agraciar com uma força extra, um combustível inesperado, mas que tornara tudo bem mais fácil de suportar.
Fora assim que conhecera , um inspirador acadêmico de Geografia que fazia os mais belos discursos nas reuniões de quintas-feiras. O rapaz, cinco anos mais jovem do que a mulher, tinha os mais belos e brilhantes olhos que já pudera fitar e seu sorriso franco e doce sempre a fazia sorrir de volta. Ainda que os tempos fossem sombrios e que as narrativas de horror só se multiplicassem conforme o governo ditatorial mantinha a população sob sua custódia com toques de recolher e histórias fantasiosas sobre perigos que vinham de Cuba ou da União Soviética, uma alternativa se apresentou diante dos dois e não foi como se pudessem evitar que um encontrasse no outro um suspiro de esperança e amor compartilhado em meio ao caos e ao medo. Era como se corações revoltados e resistentes buscassem um pelo outro para caminharem juntos e não havia melhor arma de combate para eles do que o amor.
Tornaram-se companheiros de clandestinidade quando mandados de prisão foram emitidos para quase todos os colaboradores de O Pasquim e experimentou ser uma fugitiva política, categoria a que já era incluído desde a metade de 1968, por associação partidária à esquerda. Com o cerco se fechando em torno deles e temendo por suas integridades físicas e liberdades, a fuga pareceu inevitável. Naqueles tempos, resistir muito facilmente se confundia com fugir, por que seus ideais poderiam matá-los ou encarcerá-los e manter ideias e esperanças livres era o que faziam quando corriam para longe de seus algozes. O exílio político já era uma realidade para muitos opositores do regime e o afastamento forçado seria a única alternativa para eles, caso quisessem se manter longe das prisões militares onde a tortura era livre.
Deixar sua casa após a invasão já havia sido dolorido o suficiente, mas ser obrigada a deixar o país e em condições tão precárias havia quebrado em muitos pedaços. A dor e a revolta eram suas companheiras diárias. Pelos amigos presos, aqueles dos quais ela não sabia o paradeiro, pelos companheiros feridos em atentados e em confrontos diretos com a polícia, pelos colegas de trabalho de quem a ditadura tirava todos os dias a única ferramenta que tinham: as palavras, a informação, a verdade. Ser tirada de seu país, ser tirada do campo onde poderia contribuir para a derrubada do regime, lhe deixava depressiva.
Era por isso que seus olhos ardiam enquanto ela se mantinha encolhida no chão do sótão em que estava abrigada. Pensava em seus pais e em seu irmão. Desejava que eles estivessem bem e que aquele pesadelo passasse em breve para que pudesse voltar. Piscou algumas vezes quando as lágrimas quentes desceram sobre sua pele gélida e suspirou para espantar o soluço do choro mais vigoroso. Seus olhos caíram novamente sobre a cidade abaixo de si e contemplou a noite alta e fria, quase silenciosa, tão diferente do que estava acostumada antes.
Quando os passos na escada foram ouvidos, a mulher se apressou em secar as lágrimas e em normalizar a respiração. Precisava ser forte e para sua sorte podia contar com o melhor parceiro de todos. Foi ele quem os passos anunciaram e logo seu corpo magro apareceu quando a porta se abriu, fazendo com que ela se virasse em sua direção e fosse agraciada pelo seu sorriso doce e encantador. Seus próprios lábios se repuxaram levemente em resposta involuntária, já que era impossível não sorrir diante dele e de quão carinhosas todas as suas ações pareciam.
passou pela porta e a fechou em seguida, trancando-a com as chaves que recebera de sua senhoria, uma mulher de meia-idade que se chamava Hortensia e era viúva de um imigrante croata, de quem herdara a grande propriedade que vivia e que transformara em pousada. O quartinho pequeno no sótão e sem banheiro dentro era o poderiam pagar, já que precisavam reter dinheiro até conseguirem asilo político em algum país europeu, mas a chilena foi simpática o suficiente para lhes oferecer o café da manhã de graça e lhes emprestar alguns cobertores, que estavam nos braços do rapaz quando ele entrou.
Em Punta Arenas, e eram Carmen e Virgílio, nomes que constavam em suas identidades e passaportes falsos, que foram feitos pelos colegas envolvidos no roubo de papéis virgens para documentos em um instituto do governo no início daquele ano. Todo o material do roubo havia servido para manter anônimos e em segurança alguns dos nomes mais procurados pelos militares naqueles anos. Assim sendo, a história de Carmen e Virgílio era bem simples e por isso se justificava sem grandes desconfianças ou questionamentos. Eram apaixonados, mas a família de Virgílio, religiosa e conservadora, não aceitava seu relacionamento com uma mulher mais velha, por isso os dois resolveram recomeçar a vida em outro lugar, onde pudessem viver seu amor sem repressões. Ao contarem a narrativa ensaiada para Hortensia, a jovem senhora não hesitou em lhes dedicar apoio, dizendo que ajudaria no que fosse possível para que a breve estadia deles na cidade, antes de partirem para Santiago, fosse como uma lua de mel.
– Boas notícias! – o rapaz anunciou depois de deixar os cobertores sobre a cama e se aproximar da mulher ainda sentada diante da janela, onde ficava parcialmente iluminada pela lua que começava a ficar mais alta no céu – Hortensia estava contando sobre um vizinho que faz viagens periódicas a Santiago. Disse que vai perguntar a ele se é possível uma carona no final do mês. Se der tudo certo, vai ser uma forma bem mais segura de ir à capital, não acha? – ele perguntou, sentando-se ao lado dela e passando os braços ao redor de seu corpo para abraçá-la.
o olhou sorrindo ao assentir. Seus olhos tão ainda tinham um brilho tão lindo e era admirável que isso não mudasse mesmo com toda a situação ao redor. Por entre seus cílios grossos ainda cintilava um colorido que a fazia acreditar que dias melhores eram sim possíveis. sorriu e aproximou-se ainda mais dela, deslizando seu nariz no da mulher, fazendo-a soltar um suspiro cansado sobre sua pele.
A ida para Santiago era o que lhes permitiria a segurança de um asilo político em outro país. Com uma onda conservadora também surgindo no Chile, não era seguro que ficassem por ali, por isso tentariam abrigo nas embaixadas da Suécia ou da França que ficavam na capital, para que então pudessem ir legalmente para um dos países, onde tentariam tocar a vida até que a situação no Brasil melhorasse e que os militares fossem destituídos do poder que usurparam. Só desejavam que não demorasse tanto e nem que muitas vidas fossem perdidas em prol desse objetivo.
– Isso é um alívio – beijou carinhosamente a bochecha dele depois de responder, voltando para olhá-lo nos olhos e lhe dando um sorriso pequeno em seguida –, porque sendo alguém que faz esse caminho sempre, qualquer fiscalização que possa ter nas estradas deve ser algo com que ele deve estar acostumado a lidar ou até mesmo passe sem maiores problemas. Estaremos bem mais seguros. – soltou um suspiro no fim, deixando a tensão de dissipar um pouco e relaxando os ombros.
balançou a cabeça concordando e passou seus braços ao redor dela, trazendo-a para mais perto e apertando-a mais em seu abraço quentinho, que a fazia se sentir no calor de casa e lhe deixava sempre bem mais tranquila.
– Devemos muito a Hortensia – o rapaz voltou a falar, deixando os olhos caírem para a paisagem da cidade para onde a mulher olhava antes, admirando o cenário que começava a adormecer –, ela está sendo quase uma camarada, não? – riu, fazendo com que sua risada contagiasse um pouco , que deixou um riso leve escapar ao ouvi-lo se referir a sua senhoria da mesma forma como que se referiam aos companheiros de esquerda comunistas.
– Tivemos sorte de encontrá-la – suspirou em resposta, abraçando-se a ele igualmente e apoiando sua cabeça em seu ombro, voltando a olhar para a cidade abaixo de si –, só espero não ter esgotado toda nossa sorte aqui.
os afastou um pouco para que pudesse olhá-la nos olhos. Seu rosto denunciava o choro recente, mas aquilo não era nenhuma novidade, infelizmente. Por isso, com carinho, passou suas mãos pelas bochechas geladas dela, deslizando os polegares com delicadeza para tentar deixá-la mais relaxada com um pouco de afeto. Seu amor era sua arma de cura, seu escudo e sua tônica de força e naquele momento era tudo o que poderia dar para ela, ainda que desejasse lhe dar muito mais. Olhando ao redor, no entanto, não havia restado muita coisa, então um ao outro era tudo o que tinham e precisavam sobreviver assim.
– Vai dar tudo certo, ok? Veja pelo lado bom, sempre quis conhecer a Europa… – brincou, sorrindo, e soltou um riso fraco, mexendo um pouco a cabeça, se perguntando como ele conseguia ser tão forte e manter o bom humor, como se estivesse de fato falando de uma viagem de férias ao outro lado do Atlântico – Vamos nos virar, minha vida. Somos duros na queda, não é? Não vou largar suas mãos no caminho.
sentiu seu coração dar um salto pela forma como ele falara.
– Eu sei que não – sorriu, levando suas mãos gélidas para o rosto dele, passando os dedos por sua barba antes de afastar os cachos rebeldes de sua testa –, confio em você. Só estou com um pouquinho de medo – fez careta, encolhendo os ombros –, mas só um pouquinho mesmo.
riu mais abertamente e isso fez com que o coração de desse outro pulo. Era tão gostoso ouvir sua risada porque ela parecia reverberar em seu peito feito cócegas.
– Vou confessar que me sinto um pouco igual – ele deu de ombros antes de pegar sua mão e beijar sua palma para só depois continuar –, mas só um pouquinho. Um tiquinho de nada!
Conseguir arrancar uma risada dela era o que o rapaz mais queria. Segurou em suas mãos e a olhou mais seriamente depois, querendo transmitir para a mulher que amava um pouco de confiança. É claro que sentia medo. Havia tanto para se preocupar. Não podiam ficar em Punta Arenas para sempre, o dinheiro que tinham não os sustentariam por muito mais tempo, o asilo político era incerto, mas por nada disso deixariam de tentar, porque aquela luta não era só deles e seria sobrevivendo que venceriam, especialmente quando seus opositores os queriam mortos e sem história para ser contada.
– Sentir medo é normal na situação que estamos – ele continuou, olhando-a nos olhos com ternura –, mas se o medo não nos parou antes, não vai nos parar agora, certo? – respirou fundo antes de assentir – Vamos pra Paris ou Estocolmo ou aonde quer que nos queiram e vamos sobreviver pra contar toda essa história e olha só que sorte – sorriu para ela, aproximando seu rosto para mais perto da mulher –, essa também é uma história de amor.
sorriu abertamente e só percebeu que estava chorando emocionada quando secou as lágrimas que escorreram por suas bochechas, mas ainda assim a mulher não deixou de sorrir, porque olhando para aqueles olhos só conseguia se sentir segura e tão, mas tão amada, que parecia absurdo que ele fosse mais novo que ela naquela coisa toda de amor. a amava como se tivesse feito aquilo por muitas vidas e conhecendo a forma tão apaixonada como ele vivia, sabia que aquilo só podia vir mesmo de tantas outras vidas.
Que sorte a sua que nessa ele havia esbarrado justo em seu ombro para falar sobre o Manifesto do Partido Comunista.
– Eu te amo, sabia? – respondeu com a pergunta retórica em um sopro, adiantando-se para tocar os lábios dele, um pouco ressecados pelo frio, mas não menos doces e carinhosos – Te amo tanto!
Aproximou-se e deixou que lhe beijasse devagar, envolvendo seu corpo com a sensação já conhecida, mas que desconfiaria que jamais deixaria de ser tão única e de ser capaz de fazer rodopiar por seu ventre um frio gostoso que espalhava arrepios por toda a sua pele. Sentiu-o espalmar as mãos em suas costas e se agarrou a ele ainda mais, como esmagasse no meio deles todo o medo, a angústia e raiva que sentia apenas por um momento para que pudesse aliviar seu coração com amor.
cessou o beijo apenas para que pudesse deslizar seu lábios por todo o rosto dela, contornando seu maxilar enquanto a encaixava sentada em seu colo. suspirou quando seus corpos, velhos conhecidos naquela arte, deram os sinais de que tanto se queriam e sorriu enquanto ele trilhava o caminho para a curva de seu pescoço sem deixar que nenhum pedacinho de pele ficasse sem seus beijos quentes.
– Tudo bem se resolvermos esquecer que o mundo lá fora não é o queremos, apenas por essa noite? – sussurrou entre os beijos, sentindo-a se arrepiar sobre o seu toque – Tudo bem se fingirmos que não existem preocupações? – continuou, fazendo-a se encolher em seu colo – Tudo bem se nos fecharmos aqui apenas para que eu ame você com tudo o que tenho?
Não era como se pudesse controlar, mas a vontade de chorar voltou em , misturando-se em sua garganta com os inúmeros sentimentos que se emaranhavam em seu interior. Aqueles tão ruins que a deixavam ininterruptamente em alerta e melancólica e aqueles a mantinham viva, lutando e respirando com uma vontade de quem tinha o mundo inteiro para ganhar. Naquele momento, inclusive, sentia que podia ganhar tudo. Sentia as preocupações sendo levadas pelos ventos frios de Punta Arenas, carregadas para o alto Pacífico, onde seriam enterradas no mais profundo mar enquanto a tocava com carinho e sanava seu frio e suas dores.
– Acho que ninguém no mundo poderia fazer isso melhor que você… – respondeu, suspirando para espantar as lágrimas, beijando os ombros dele em seguida para depois voltar a olhar em seus olhos – Me amar como tanto desejo e me fazer esquecer o que preciso. – sorriu antes de concluir – Faça sua mágica, meu amor.
sorriu e seus olhos cintilaram sob a luz da lua, fazendo-o parecer ainda mais lindo e sereno. Seu rosto se aproximou do dela com um ar divertido e jovial e por tudo o que fosse mais sagrado no planeta e para toda e qualquer existência humana, como amava aquilo com todo o seu ser. A aura viva que tanto a inspirava, o sorriso janota que a fazia suspirar e o toque que parecia combinar com tudo aquilo, porque era veloz como se esperaria de alguém no auge de sua juventude e era desbravador como de um malandro em busca de novos caminhos para diversão. Era seu , seu amor rebelde e sua fonte de vida revolucionária em um cenário tão sombrio.
O rapaz a pegou no colo e com facilidade a deixou na cama de solteiro que tinham no quarto pequeno iluminado apenas pela luz da lua, já alta no céu escuro da cidade. Deitou-a com cuidado, retirando seus sapatos para se deitar junto dela, subindo pelo colchão para pairar sobre seu corpo, admirando cada pedacinho dela sem deixar de sorrir, pronto para despi-la e não deixar que nenhuma parte sua fosse deixada sem os carinhos de seus lábios.
Tinham muitas batalhas pela frente, mas não venceriam nenhuma delas se não pudessem viver o amor e fazê-lo sempre que seus corpos pedissem por ele. Ainda que os poderosos e usurpadores de poder quissessem arrancar seus ideais, fazê-los recuar e desistir daquela luta por liberdade, jamais poderiam levar dele o que tinha de mais precioso: seu amor infinito por . Ele seria dela e somente dela durante todo o caminho que precisassem percorrer, por mais difícil que fosse, e seria meu mais bravo companheiro de marcha e de fuga pelos mais perigosos caminhos da Terra. Daria seu amor para ela naquela noite enquanto não podia lhe dar a revolução.
– Você não precisa se preocupar com nada mais agora – beijou-a nos lábios delicadamente, afastando seus cabelos do rosto com uma das mãos –, porque estou aqui e sou seu essa noite. Todo seu. – beijou-a novamente, fazendo-a sorrir enquanto enfiava os dedos por seus cachinhos, tirando-os de sua testa – Serei seu bebê esta noite e por todas as noites em que você ainda me quiser.
riu, colocando suas mãos espalmadas nas bochechas dele antes de se inclinar para beijá-lo rapidamente.
– Então se prepare, meu amor – seu sorriso iluminado pela lua era a obra de arte mais linda que já vira –, porque serão muitas noites.

“Well, that mockingbird’s gonna sail away
(Bem, aquele pássaro vai voar para longe)
We’re gonna forget it
(Nós vamos esquecer dele)”

¹A primeira edição de O Pasquim circulou apenas em Junho de 1969 e a mudança na realidade histórica foi feita apenas para se encaixar ao enredo.

Nota da Autora:
Essa estória nasceu depois que li “O que é isso, companheiro?”, do jornalista Fernando Gabeira, e foi minha forma de homenagear os corações corajosos que lutaram por liberdade nesse momento nebuloso da história do Brasil. É a segunda fanfic pra minha Decades Series e foi fortemente inspirada e embalada pela música Bob Dylan que me deu o título perfeito.
Espero que tenham gostado e obrigada pela leitura!
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