Intersection Point

Intersection Point

  • Por: Tatye
  • Categoria: Originais
  • Palavras: 666
  • Visualizações: 912
  • Capítulos: 8 | ver todos

Sinopse: Olhos: órgão que proporciona o sentido da visão, além de embelezar o rosto de um ser humano. E que beleza! Aqueles olhos estavam me deixando desnorteado. Quem era aquela mulher e como eu ainda não tinha reparado nela dentro do hospital? Eu não acreditava na minha falta de sorte. Onde ela ia querer algo com um moleque feito eu. Mas eu podia tentar, certo? Nem que me chamassem de louco. Talvez eu estivesse mesmo, louco por aqueles olhos.
Gênero: Comédia Romantica
Classificação: 16 anos
Restrição: Sem restrições
Betas: Sharpay Evans

Capítulos:

Prologue


Eu parecia um palerma no meio do corredor daquele hospital, hipnotizado por ela. Mas sempre havia sido assim, desde que coloquei meu pé naquele lugar pra fazer minha residência a enfermeira de olhos castanhos cor de mel me hipnotizava sempre que dirigia o olhar a mim, sendo ele de repreensão por alguma merda dita, fosse em demonstração de orgulho por algo certo. Ela tinha um olhar pra tudo, exatamente tudo e para minha grande felicidade, eu conhecia todos eles como a palma da minha mão. Então, no momento, ela me olhava como se fosse me devorar com uma abocanhada só.
Entenderam porque eu estava feito um palerma no meio do corredor?
Porque aquela mulher me tirava do sério há uma boa porção de anos, mais precisamente, treze. Ainda mais quando caminhava lindamente na minha direção como se tudo que ela precisasse era que eu notasse sua presença. O que não era tão complicado quando era exatamente isso que acontecia quando ela estava perto de mim.
-Fecha a boca, você vai babar, querido. – Ela empurrou meu queixo com dois dedos e me fez rir. – Já foi buscar as meninas na creche? Hoje é o seu dia. – piscou, me tirando daquele transe maravilhoso que eu entrava sempre que a encontrava nos corredores e me roubou um sanduíche que pendia na mão. Pois é, a enfermeira de olhos castanhos cor de mel, era minha esposa, minha linda e brilhante esposa. – Nossa, sanduíche bom! – Ela disse de boca cheia me fazendo rir.
-Me dá um beijo. – Abracei-a pela cintura e ganhei um selinho rápido. – Um beijo, anjo! – Fiz a maior manha e ela não deu a mínima. – E não, ainda não fui buscar nosso trio na creche, mas aposto que a América e a Luna devem estar armando a revolução, enquanto a Tiana coordena. – Declarei a fazendo gargalhar escandalosamente, mas era uma gargalhada tão gostosa de ouvir que suspirei contente.
-Você é doido, doidinho! – Ela rodou o dedo em volta da orelha, enfiando o resto do meu sanduíche na boca. estava comendo demais, demais mesmo, pra caramba, mas felizmente estava tudo indo pra bunda. E que bunda. A bunda daquela mulher era linda.
-E você me ama! – Roubei-lhe um beijo. – E o Ben? – Perguntei com um sorriso imenso pelo nosso rapazote, lembrando do vídeo em que ele lia algo mirabolante para nossas meninas e minha esposa abriu um imenso sorriso.
-Já fui deixar no colégio e, assim que sair de lá, ele volta direto pra casa da sua mãe. – Ela piscou sorrindo e me roubou um outro beijo. – Embora eu tenha certeza que vamos precisar revezar no sono hoje, já que as trigêmeas devem estar elétricas por terem dormido a noite toda.
-A gente não pode deixar elas com a dona Louise? – Fiz um bico imenso, mas que foi beijado, então valeu a pena.

Dr. , compareça a emergência. Dr. , compareça a emergência.

A voz do anjo, como apelidamos o interfone, me chamou e na hora me dei conta de que deveria ter sido algo grave. Suspirei afrouxando os braços ao redor da minha enfermeira instrumentadora e ganhei o melhor dos beijos de boa sorte, por mais que ela soubesse que eu não operava sem ela. Eu nunca havia feito uma mísera cirurgia, depois que virei staff, sem instrumentando e sinceramente, eu nunca queria passar por aquilo. Era uma parceria de mais de sete anos. Juntos nós éramos um time, o melhor dos times.
-Eu pego as meninas. – Ela sorriu pra mim e caminhou na direção da creche, enquanto eu corria pra emergência.

THE YEAR THAT WE MET

Chapter 1


Parei a moto no estacionamento do Saint Paul, tirei o capacete e sacudi os cabelos vendo a manada de residentes e internos das mais diversas áreas saírem dos seus carros e motos para irem em direção a 30 horas de plantão. Vi meu grupo de residentes ao longe e acenei pra eles parecendo uma professora simpática. Aquele dia não tinha começado muito bem e eu contava com aquele trio de ouro pra me animar. Me estiquei colocando a bolsa a tiracolo e joguei as chaves da moto dentro, rezando para que o Robinson não viesse mais uma vez, me encher a porra da paciência pra instrumentar qualquer cirurgia dele. Quando o homem ia entender que dele eu só queria o casual?
Aproveitei para prender o meu cabelo antes de entrar no hospital e o arrumei todo pra cima, deixando boa parte dos cachos pendurados em um rabo de cavalo que iriam pra dentro de uma touca extra G dali alguns minutos. Eu simplesmente amava meu trabalho, ser enfermeira era algo incrivelmente maravilhoso que preenchia a minha vida. Era como se me renovasse a cada cirurgia instrumentada, a cada adrenalina dentro daquela sala e, principalmente, o respeito que todos ali nutriam por mim. Principalmente alguns dos cirurgiões arrogantes. Infelizmente, era algo recorrente na corja antiga, mas que estava mudando com a nova geração de residentes.
Acenei para mais algumas conhecidas minhas que, assim como eu, pegariam aquele plantão diurno e, sem querer, esbarrei em um garoto que tinha ao menos o dobro do meu tamanho em massa corporal. Do susto tentei me encolher, me segurar e me manter firme ao mesmo tempo, quando ele segurou meus ombros, tentando estabilizar meu péssimo equilíbrio matinal.
-Desculpa, moça! Não foi por querer. – O rapaz se desculpou desviando rápido o olhar para o grupo de amigos que não tinha deixado de seguir para esperá-lo e, por mais que a vontade dele fosse de seguir, ele ainda esperava que eu me pronunciasse.
-Tudo bem, sem problemas! – Respondi empática e me recompus, o fazendo me soltar e me lançar um sorriso disperso, depois correr na direção do grupinho mandando um tal de “” esperar. Aquele nome era diferente e, infelizmente, iria grudar na minha cabeça o dia inteiro até perder o sentido. Meu cérebro funcionava miseravelmente daquele jeito e era frustrante não poder se livrar de uma palavra qualquer.
Finalmente consegui entrar no hospital sem mais intercorrências e, após me trocar, dar tarefas ao meu trio de residentes mais foda daquele lugar, checar as eletivas do dia, ver direitinho o quadro e ver quanto tempo eu tinha até que pudesse orientar meus meninos, me apossei do balcão do posto da ala cirúrgica. Ali eu não podia tomar café, comer qualquer coisa ou fazer atividades suspeitas que viessem a contaminar, mas, ao menos, eu podia secar os médicos bonitões que passavam e atualizar a minha lista de sexo com homens bonitos, enquanto me perguntava porque não tinha ficado ainda com os que não eram casados. Mas muitos solteiros eu pegaria de novo, não era nada mal, na verdade.
E falando em médico bonitão, um certo cirurgião bonito pra caramba, mas que não valia uma lâmina 10, andava na minha direção com o maior jogo de cintura que eu já tinha visto naquele lugar. Definitivamente, Robinson era uma figura. O aspirante a neurologista chefe colocou um belo copo de café em cima do meu balcão e fiz uma careta.
-Já disse que nada de comida aqui, Robinson. – Tentei ser dura, mas saiu mais como um deboche o que o fez rir baixo.
-Por que não, Mills? Eu trouxe especialmente pra você. – Ele fez um bico e empurrei de leve o copo pra dentro do balcão. Jogar no lixo seria rude demais, ao menos na frente dele.
-Quer me comprar com café dessa vez? – Escorei na bancada com um lado do corpo e ele fez o mesmo, só que muito sinuosamente. Eu sabia que sempre, sempre que ele me trazia café, queria alguma coisa.
-Quer instrumentar uma cirurgia minha hoje? É rapidinha, não vai te atrapalhar em nada.
Respirei fundo. Santa insistência. Ele não era uma pessoa ruim, eu só realmente não levava meus relacionamentos casuais a nível profissional, então eu preferia nem me envolver com sala de cirurgia com o cara dentro. Fosse ele enfermeiro ou médico.
-Eu já te disse. – Ri baixo. – Eu não instrumento cirurgias de caras com quem saio e você sabe disso. Não gosto de misturar as duas coisas. – Fui clara e ele rolou os olhos como se quisesse me irritar ainda que na brincadeira. – Mas posso mandar um dos meus residentes, garanto que eles vão te deixar orgulhoso.
-Eu quero você. – Ele soprou em um convencimento que me causava ânsia. Céus como ainda saía com aquele homem? O sexo, , não tinha outra alternativa.
-Vai ficar querendo. – Pisquei ao falar vagarosamente. Felizmente, eu conseguia ser ainda mais convencida do que ele.
Ele soltou um suspiro impaciente e, quando eu achei que fosse por minha recusa, percebi que dois residentes o procuravam com uma prancheta em mãos. Peter virou para os dois rapazes com uma arrogância fora do normal e aquilo me remexeu do jeito errado. Ele não precisava ser tão babaca daquele jeito, com certeza um daqueles dois iria colocar ele no bolso em pouco tempo. Aquele era um dos males de ser arrogante, você não se recicla. Prestei atenção nos dois residentes prestando atenção no que ele dizia e as instruções que dava para uma possível cirurgia, que um deles mencionou o Antunes.
Aquilo foi o suficiente pra me fazer entender que era um caso gigante no qual eu estaria metida no meio, instrumentando o Antunes, não o Robinson. Harold Antunes era como um pai pra mim, portanto ele era um dos médicos no qual eu mais tinha respeito dentro daquele hospital e isso queria dizer que uma cirurgia dele sempre significava um sim. Óbvio que eram as mais legais, ele, definitivamente, era o traumatologista mais foda que eu havia conhecido na minha vida, mesmo que ela não fosse tão longa assim.
Continuei a prestar atenção naquela conversa dos três e me dei conta de que o residente maior era o que quase tinha me derrubado no estacionamento aquela manhã. Eu me sentia uma depravada em encarar o rapaz daquele jeito, principalmente quando ele não parecia ter mais de 23 anos, mas tinha um par de ombros de dar inveja a qualquer um.

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-Definitivamente, eu odeio esse cara. – Rolei os olhos quando estava indo com preparar o nosso caso para a cirurgia e meu amigo riu alto. – Como você aguenta?
-Sendo bem sincero? – me olhou com a maior cara de deboche me fazendo rir. – Nem eu sei, meu caro amigo, nem eu sei. Acho que é a vontade grande de aprender a consertar cérebros alheios.
-Você vai pro céu, . – Suspirei meio saturado, dando tapinhas no ombro do meu amigo e rimos dentro do elevador.
Peter Robinson era o tipo de cara que eu não queria ser, na verdade era o tipo de cara que eu estava tentando evitar depois de uma péssima noite. Eu não havia dormido direito e minha paciência estava do tamanho de uma ervilha para aguentar desaforos de certas pessoas, aquele cara era um escroto e eu não entendia como toda semana ele aparecia com uma mulher diferente no estacionamento do hospital. E o pior, além de serem bonitas, elas pareciam ser bem legais e bem sucedidas. Era isso que não justificava o fato de ficar com ele. Robinson era um idiota arrogante.
Eu e preparamos a paciente para a cirurgia e logo depois fomos nos vestir e nos lavar pra acompanhar o grande feito da medicina. A galeria estaria completamente cheia naquele dia e confesso que estava ansioso para conseguir ajudar em alguma coisa que fosse, assim como meu melhor amigo também estava. Ser residente era algo fora do comum de tão incrível, óbvio que só deveria perder pra ser um Staff, mas ao menos a gente tinha a chance de mostrar o que sabíamos e participar de cirurgias incríveis. Naquele momento eu queria muito que , minha irmã, já fosse residente que nem nós dois, mas, infelizmente, ela ainda era interna da outra turma.
Parei em frente a pia pra me lavar e a torneira que eu iria usar estava quebrada. riu da minha cara de cu e empurrei ele de lado, fazendo meu amigo rir ainda mais.
-Hoje não é seu dia! – O mais desnecessário que existia me zoou e rolei os olhos.
-Você não imagina o quanto. – Soltei uma risada mais do que frustrada e esperei meu amigo terminar de se lavar. – Acordei tarde, não comi direito, aguentei minha mãe reclamando três horas no meu ouvido porque eu tinha chegado de madrugada, quase derrubei uma moça no estacionamento e ainda tive que aguentar desaforos do seu professor. – Suspirei saturado e só ouvi ainda mais risadas. – Deixa de ser cuzão, ! – Bufei meio irritado, sabendo que nada daquilo tinha acabado com meu dia. Na verdade, a noite anterior tinha.
-Você sabe que tudo isso é por causa do fora que a Sâmires te deu ontem, né? – Meu amigo filho da puta jogou a verdade na minha cara e o puxei da pia, indo me lavar e querendo me afogar ali.
-A gente já tinha transado uma vez, como caralhos eu ia saber que ela não repetia transa. – Rolei os olhos com aquela regra meio sem sentido pra mim. Se você gostava de ter saído com uma pessoa, era lógico que você iria querer sair de novo.
Sacudi a cabeça mais magoado com ter sido rejeitado do que qualquer outra coisa. Não que eu fosse louco por ela, mas tomar um não na cara magoava qualquer ego masculino que fosse. Todo homem sabia disso e não era qualquer mentira, alguns aproveitavam isso pra tocar a vida, outros se aproveitavam de forma ruim. Eu estava bem encaixado na primeira opção. Se ela não queria, eu encontraria quem quisesse.
Entrei no centro cirúrgico, deslumbrado com a quantidade de cirurgião foda dentro daquela mesma sala e respirei fundo não acreditando que eu estava mesmo ali. Olhei pra do meu lado e sorrimos sentindo exatamente a mesma coisa, era maravilhoso demais poder participar, mesmo que assistindo, de uma puta cirurgia daquela que juntaria neurocirurgia, traumatologia e mais uma caralhada de especialidades se o negócio desse merda. Mirei meu olhar na galeria enquanto andava na direção dos técnicos que nos ajudariam a vestir o capote cirúrgico e senti meu corpo quase capotar por cima de outro.
-Qual o seu problema? – O grito esganiçado veio bem na minha cara e a única coisa que eu consegui focar foi nos olhos da mulher. Merda! Eu tinha contaminado nós dois.
Abri a boca pra tentar me desculpar, mas o que consegui foi um olhar fuzilante da médica, ou seria enfermeira? Eu não sabia, a única que eu conseguia processar era o quanto aquela mulher tinha olhos tão lindos e o quanto ela queria me matar, só pela força com que arrancou o capote cirúrgico do pescoço e saiu me xingando de interno.
-Eu sou residente! – Me prestei ao ridículo e a sala inteira caiu na gargalhada com minha passada de vergonha. Olhei pro Antunes e ele tentava parar de rir, mesmo que não conseguisse.
-Vá se lavar, Dr. . De novo! – o homem mandou ainda rindo e balançando a cabeça de forma negativa. – Só, por favor, dessa vez não contamine nossa instrumentadora. – Enfermeira, ela era enfermeira.
Eu tinha a sorte de ter um staff gente boa, porque se ali fosse o Robinson, a gente tinha saído no soco, principalmente, depois da cara que ele fez quando eu esbarrei na enfermeira. Quem era ele para me olhar daquele jeito?
Me lavei novamente e, ao entrar na sala, ouvi algumas risadinhas idiotas, aproveitei pra passar longe da mulher que me mataria com uma pinça se pudesse e me pus ao lado do Antunes, prestando atenção em tudo que ele se propunha a explicar pra mim e pro , por vezes sendo interrompido pelo Robinson com a mesma finalidade. A cirurgia começou divinamente bem, me fazendo desejar ter toda aquela prática e experiência um dia, tinha que confessar que os caras eram bons demais. Aquela senhora estava com a coluna praticamente aberta na mesa e por mais que o Antunes e o Robinson fossem completamente diferentes, eles tinham um sincronismo de dar inveja a qualquer um.
Por vezes, achei que a coisa iria dar merda quando as complicações apareceram, mas foram incrivelmente solucionadas com maestria, me fazendo entender que eu tinha muito, muito a aprender com aqueles caras, por mais que eu quisesse matar um deles.
Sabe aquela história de que você precisava fazer do seu trabalho o melhor do mundo? Eu via exatamente aquilo em meu professor, ele deixava a sala de cirurgia o mais familiar possível para ele, especificamente para ele. Então se você queria ouvir uma boa música enquanto operava, era com Harold Antunes. Ele tinha um gosto musical bem eclético, mas era muito fã do Queen, ou seja, vocês já tinham uma ideia do que tocava quando as cirurgias eram incrivelmente difíceis e no momento estava rodando “Another One Bites The Dust”. Ele não dançava, mas balançava a cabeça casualmente e me dava vontade de rir. Não era como se eu fosse ouvir música quando fosse mexer com a coluna de alguém, se você queria concentração, o silêncio era o melhor remédio. Coisa que mudou totalmente a minha concepção quando ouvi uma voz doce em meio aos bips, cantarolando a música.
Foquei minha visão na instrumentadora e ela balançava a cabeça por vezes, no ritmo da música e cantarolava junto parecendo checar as pinças que distribuía para a gente. Eu sei que deveria estar prestando atenção no andamento da cirurgia, mas alguma coisa nela me prendia sem eu entender porquê. Ri baixo com a encenação e de repente a vi me olhar como se eu fosse um louco, continuei a encarar aqueles olhos cor de mel e a mulher olhou para o Antunes como se indicasse alguma coisa, ou me avisasse que eu ia ser morto. Sacudi a cabeça de leve e ouvi o chamado.
-Dr. ? – O traumatologista me chamou e, finalmente, tomei fôlego do mar castanho que tinha me envolvido.
-Oi, oi. Doutor! – Pisquei acordando e meu professor riu. Desviei rapido o olhar pra ela e a vi rolar os olhos como se estivesse entediada.
-Podem finalizar pra mim? – Ele deu um leve passo pra trás na mesa, se referindo a mim e ao e eu senti meu coração e cabeça explodirem.
EU IA FINALIZAR A CIRURGIA, CARALHO!
Olhei pra e ele tinha a mesma expressão de alegria, satisfação e euforia no rosto. Era nossa, a gente ia dar os últimos pontos, fechar a cirurgia, acompanhar a paciente e, muito provavelmente, não dormir um pingo a noite. Mas nós dois, meros residentes, iriamos ter a honra de finalizar a cirurgia! Eu queria gritar, gritar!
-Claro! – Nossa resposta saiu exatamente na mesma hora, parecendo até coro, o fazendo rir.
-Você tem certeza, Harold? – Um doce para quem adivinhar quem era o escroto. – Eles são residentes.
-Mas é claro que tenho certeza. Eu confio nos meus residentes, Peter. Você não? – O traumatologista mais foda que eu tinha conhecido em toda a minha vida disse com uma segurança que destruiu o outro lá, o fazendo suspirar vencido e finalmente se afastar da maca.
Ali era o caminho para nossa ascensão na cadeia alimentar da medicina.

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Saí da sala sem pisar no chão de tão flutuante, do meu lado precisava de um grande peso de porta, ou sairia voando pelo teto do hospital até se perder no céu. Nós éramos ótimos futuros cirurgiões que conseguiriam tudo que quisesse no futuro, afinal começávamos de baixo, começávamos apenas com a finalização de uma cirurgia. Aquilo era um imenso sinal de confiança que nos enchia o ego.
-Cara! Você viu que incrível o que a gente fez? – soltou um grito esganiçado, quase me sacudindo e arregalei os olhos na mesma proporção. -Claro que eu vi! Foi foda demais, meu Deus! – Passei a mão pelo cabelo, completamente incrédulo. – Nós somos uma dupla muito foda, a gente ainda vai operar muito juntos, você vai ver!
-Vamos ser o Han Solo e o Chewbacca desse lugar! – Meu amigo disse rindo e me fez rir junto, quando a gente se abraçou mais do que feliz por ter conseguido fazer algo mais importante do que assistir. De repente todos os anos de estudo estavam realmente valendo a pena naquele lugar.
-Muito mais do que isso. A gente vai ser o Tico e Teco, sem dúvidas! – Tentei prender a risada, mas gargalhamos com a melhor lombra do mundo, a lombra da felicidade.
-Quantos anos você tem, ? – O grito do foi escandaloso me fazendo rir junto com ele. Nós éramos dois idiotas. – Tico e Teco?
-Timão e Pumba é melhor? – Perguntei ainda aos risos e me acompanhou. Eu não tinha culpa, se havíamos sido criados vendo Disney.
-Só se eu puder ser o Timão! – Meu amigo me empurrou de lado e fiz uma careta, eu não queria ser o Pumba. – Mas pensei em Chuck e Wilson! – Olhei pra ele e sacudimos a cabeça rindo.
-Ferris e Cameron, definitivamente. – Fechamos o selo com soquinho e continuamos rindo pelo corredor.
-Afinal é isso que a gente ta fazendo mesmo dentro desse hospital. Curtindo a vida adoidado. – Não me aguentei com a piada e o empurrei pelo ombro, fazendo meu amigo andar mais uns passos à frente.
Parei em frente ao quadro de cirurgias e logo ela me veio à cabeça. Quem era aquela mulher que quase tinha me matado, mas mesmo assim eu ainda estava encantado por ela?
-O que foi? – Ouvi o perguntar um pouco atrás de mim.
-Você sabe o nome da instrumentadora? – Fiz uma careta desgostosa por não ter nada de útil naquele quadro.
-A que você quase derrubou? – prendeu a risada e rolei os olhos.
-Sim! Ela, cara, você viu os olhos daquela mulher? Eu fiquei completamente preso e encantado. – Virei a atenção pra ele, recebendo um suspiro cansado. Ali vinha coisa.
-Jura? Sério mesmo? Você fez uma das coisas mais fodas do seu início de carreira hoje e tá preocupado com os olhos da enfermeira, ? Supera a Sâmires que nem gente normal. – Meu amigo rolou os olhos querendo me matar e com razão. Mas eu não tinha culpa, se só conseguia pensar nela, eu só... – Jura que você fechou a coluna da mulher e tá pensando na enfermeira instrumentadora? – parecia bem incrédulo com minha postura e na verdade, até eu estava. O que droga aquela mulher tinha feito comigo?
Meu amigo, que com certeza, iria pro céu por aguentar um neurologista tão arrogante, tirou o gorro da cabeça e jogou na minha cara com força, como se eu fosse um traidor. Aquilo me fez rir alto. Depois saiu sacudindo a cabeça e se eu o conhecia bem, ele estava me xingando por eu não ter jeito, mas era diferente àquela vez, eu juro que era.

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Vinte e quatro horas, já eram quase as 24 horas completas do caso em que eu e estávamos cuidando, eu tinha mandado meu amigo para o descanso e continuava a observar a senhora ainda em coma, me perguntando se ela voltaria a ser o que era antes do acidente. Se lembraria dos filhos, marido, ou até dos netos. Era estranhamente fascinante saber que tínhamos técnicas para mexer nos sistemas de uma pessoa e ainda a deixar viva e bem.
Suspirei largando meu livro um pouco de lado e passei os olhos em toda a monitoração que estava instalada na paciente, percebendo que há, pelo menos, uma hora, a alimentação enteral não tinha descido um centímetro. Aquilo estava errado, de forma alguma poderia estar certo. Levantei da poltrona e apertei um pouco o recipiente, na intenção de que a pasta descesse como nos havia sido ensinado, mas nada aconteceu. Estava obstruído. Cocei de leve a cabeça e decidi chamar a enfermeira do setor, as pessoas que mais salvavam a gente dentro daquele hospital.
Adentrei o posto, dando graças a Deus por ver uma delas atrás do balcão e me aproximei para pedir a ajuda, ansiando que não atrapalhasse qualquer coisa que ela estivesse fazendo. Pigarreei ao encostar na pedra de mármore e não vi qualquer sinal mostrando que ela tinha notado minha presença. Batuquei de leve o dedo na pedra e resolvi falar:
-Enfermeira! – Chamei-a ao olhar melhor o prontuário da paciente e ouvi sua resposta.
-Oi, doutor. – A voz dela se sobressaiu ao prontuário e continuei procurando quando aquela sonda tinha sido passada.
-Oi! – Respondi de forma simpática e continuei: – Eu tenho uma paciente no leito 6, que precisa troca da sonda nasoentérica. Você pode fazer agora, por favor? – Olhei-a rapidamente e percebi que ela tinha feito uma careta. Merda, eu tinha sido grosso?
-Obstruiu? Eu troquei essa manhã. – O tom confuso me pegou em cheio e acabei por questionar se estava mesmo obstruída. Mas sim, se a alimentação não se movimentava de jeito nenhum. – Você tentou desobstruir?
Fiz uma careta de derrota completa por não ter me ligado que ela poderia ser desobstruída.
-Nunca fez? – A mulher me perguntou novamente e finalmente pude ver seu rosto direito, enquanto ela prendia a risada. Ela era bem bonita.
-Não? Você pode fazer pra mim? – Mantive minha careta de dor e foi questão de segundos até que ela soltasse toda aquela risada presa, me deixando encantado em como o rosto dela me parecia familiar. As bochechas, a boca e os olhos, principalmente os olhos. Arregalei os meus, meio estacado no meio do posto e senti meu coração quase parar de tanto bater, era ela! Era a enfermeira que estava instrumentando o Antunes.
-Posso, posso sim. – A mulher levantou da cadeira em que estava sentada e pareceu olhar para algum canto do andar em busca de alguém, me dando ainda mais certeza de que era ela sim! – Deixa eu ver se tem algum residente por aqui, peço pra ele fazer.
-Ah meu Deus! – Foi tudo que saiu da minha boca, fazendo-a me olhar com uma grande interrogação na testa. – É você! – Tentei verbalizar o meu espanto, ganhando uma expressão ainda maior de interrogação, linda, porém.
-Sim, eu sou eu. – Ela vincou as sobrancelhas e eu riria se não estivesse tão empacado feito um mané. – Como eu não vi nenhum residente por aqui, eu faço. Quer aprender? – Observei enquanto a enfermeira ainda sem nome pra mim, recolhia o celular e o carimbo, os colocando nos bolsos do scrub vermelho escuro. – Dr. ? Você quer aprender a desobstruir a sonda?
Sacudi a cabeça com força e a ouvir rir, acompanhei-a.
-Quero, quero sim! – Coloquei a pasta em cima do balcão e a mulher recolheu para colocá-la na colmeia.
-Vamos! – Ela soltou sorridente e em poucos segundos já andava para o leito da paciente comigo ao encalço, tão rápido que quase tropecei nos meus próprios pés.
A enfermeira parou a beira do leito e ajeitou a máscara que eu nem havia visto-a colocar no rosto, mexeu na sonda nasogástrica com uma segurança enorme e me olhou quase com uma exclamação na cara.
-Obstruída. – Rimos. – Vamos lá, como se desobstrui alguma coisa? – Ela direcionou a pergunta a mim, como se fosse algum tipo de professora e por minutos infames, me peguei desejando que ela tivesse sido algo do tipo durante meu tempo de faculdade. Droga, ! Pare de ser sacana!
-Você faz uma pressão com possivelmente um embolo, que irá transferir o impulso até tirar do meio o que está atrapalhando. – Eu respondi um pouco óbvio, sem entender porque ela tinha me perguntado e a mulher abriu um sorriso de canto espertinho demais.
-Exatamente! É o mesmo princípio, mas com água destilada e uma seringa. – Ela foi clara como a água e me permiti rir um pouco vitorioso com aquilo, recebendo em mãos, um par de luvas de procedimento.
Eu estava bem satisfeito com a minha resposta e o fato de eu ter acertado algo bem simples, só não estava feliz era com minha falta de destreza bem repentina para calçar a luva. Inferno! Eu não era tão merda daquele jeito, era só uma luva que não estava entrando no caralho da minha mão suada. Vergonha, eu estava passando uma baita vergonha na frente dela.
-Doutor? – A voz calma soou pelo quarto e se ela queria me acalmar, lembrando meu cargo naquele lugar, estava fazendo o completo oposto. – É um procedimento simples, você fez algo mais complexo nessa mulher. – Céus, ela não precisava ter aquela voz tão doce. – Respire.
O foda era eu respirar e sentir o perfume dela, ficando ainda mais nervoso na presença da mulher. Droga, eu parecia a merda de um adolescente em crise, porque a vizinha gostosa estava falando comigo. Seja homem, seu idiota! Eu me odiava por estar prendendo minha atenção no corpo errado e da forma errada... Pensando coisas mais erradas ainda...
FINALMENTE! Luvas calçadas, dignidade perdida e a maior cara lisa do mundo.
-Consegue aspirar? – O tom veio trabalhado para tirar toda a tensão dali, me fazendo rir mais aliviado ao ver a ampola aberta e direcionada para mim. Ela era corajosa em ver meu fracasso com a luva e ainda esperar que eu aspirasse a água destilada com a agulha da seringa, enquanto ela segurava a ampola.
-Acho que sim! – Entrei na onda e aspirei três ampolas de 2mls com a ajuda dela.
-Não fui eu quem me embolei pra calçar a luva. – Ela arqueou a sobrancelha e rolei meus olhos, mesmo que estivesse rindo. Me preparei perante ao leito da paciente e ao desconectar a sonda da alimentação, conectei-a no bico da seringa já sem agulha. – O que vai desobstruir é a pressão que você vai colocar. – Prendi a respiração quando senti o corpo da mulher perto demais do meu. Eu sei que ela estava apenas com a intenção de me explicar, mas era questão de milímetros até que a gente se colasse. – Você vai fazer assim: encosta a palma da mão na base e pode empurrar com força. – A mulher movimentou minha mão para explicar a posição correta. – Entendeu? – Um sorriso bonito foi dado e eu quis morrer por estar sendo um idiota.
Afirmei com a cabeça e ouvi a ordem para que eu fizesse o procedimento ser dada. Empurrei o êmbolo com força, sentindo certa resistência e constatando que sim, ali havia uma obstrução que eu tinha tirado. Olhei-a na expectativa e sinalizando que eu havia acabado.
-Se você acha que foi, faça o teste. – Ela me estendeu o estetoscópio para que eu auscultasse o som que o ar injetado faria no estomago e pegou a sonda com a seringa engatada, logo desengatando e puxando uma quantidade considerável de ar, enquanto eu posicionava a campanha do aparelho abaixo do xifoide da paciente, ouvindo o claro e limpo borbulhar assim que ela injetou.
-Escutei! – Soltei um grito alguns decibéis a mais e ela riu com a minha animação, realmente sincera com minha felicidade em fazer algo certo. Eu também estava feliz!
-Tá vendo? Fácil, fácil! – ganhei um tapinha encorajador no ombro e uma piscada marota. Suspirei vendo-a recolher algumas das coisas que haviam sido usadas e destina-las de forma certa ao lixo. – Mais alguma coisa, Dr.? – A enfermeira perguntou ao tirar as luvas e jogá-las fora, me fazendo entender que aquela era a minha deixa.
Virei meu corpo completamente para ela e abri um sorriso de canto. Eu era abusado e não iria deixar de ser.
-Qual o seu nome? – Eu nem queria sorrir, mas só consegui deixa-lo maior ao ver que ela parecia ter gostado da pergunta só pelo jeito que rolou os olhos.
-. Mills.
-. – Repeti para gravar um nome que não sairia da minha cabeça.
-Isso, garoto desatento. – Eu não acreditava que ela estava me zoando pelos esbarrões. Nós rimos.
-! – pisquei.
-Dr. . – Ela piscou de volta querendo tirar meu barato e fiz um bico enorme. – Eu vou voltar pro posto, qualquer coisa, chama. – riu um tanto divertida e logo passou pela porta de vidro do leito.
-Eu ainda prefiro . – Gritei na tentativa de que ela escutasse, quando já estava virando rotina gritar as coisas quando ninguém estava perto.

Nota da Autora: Oi genteee! Mais uma história lindissima por aqui! Espero que gostem ❤️
Beijo da tia!

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Chapter 2


O sol quente batia na minha cara e nem o boné estava resolvendo. Já era quase meio dia de um domingo de folga, que eu e minha irmã milagrosamente tínhamos pegado juntos e estávamos no autódromo esperando o Chris. Ele era o cara mais incrível que eu tinha conhecido depois do meu pai, foi a pessoa que mais incentivou a a seguir sendo pilota reserva da Stock Car, além de sempre apoiar nossos estudos e ser uma puta presença paterna dentro daqueles dez anos sem o nosso pai. O Chris era como um segundo pai, só que claramente não daquele jeito com a minha mãe, ele era um dos nossos melhores amigos, ele e o Austin, seu filho.
Fiz uma careta, puxando a aba do boné pra trás, enquanto ajudava a trocar o pneu do Benny no Pit Stop e ouvi minha irmã reclamar mais uma vez pela demora do Christian. Céus, iria morrer de um infarto antes dos 30, se continuasse querendo que as coisas acontecem exatamente no tempo certo. Ela era perfeccionista e quem sabe fosse por isso que era a melhor pilota reserva da NASCAR Xfinity Series, mas não esperávamos a hora que ela fosse convidada para a divisão principal, junto com o Benny.
O Benny era o carro que havia sido do nosso pai, Benjamin, batizado em homenagem a ele e tão rápido quanto. Benjamin , o Grande B, era o melhor piloto de Stock Car do mundo, a NASCAR devia muito a ele pelas vitórias e estava seguindo no mesmo caminho, ela era meu orgulho na terra. Era quem me impulsionava a andar na linha e ser uma boa pessoa para que pudesse cobrar aquilo dela.
Talvez, só talvez, eu tivesse tomado pra mim uma responsabilidade paterna que não era, nem de longe, minha. Mas eu queria que nós dois seguíssemos no caminho certo e se eu podia ajudar minha irmã mais nova com aquilo, eu iria.
-A gente vai atrasar o treino de novo! – bufou impaciente e olhei pra ela fazendo uma careta, pelo sol que refletia de cheio em meus óculos. Possivelmente eu precisaria fazer outra consulta em alguns meses, só pra ter certeza que a merda da miopia tinha estabilizado e eu não ficaria mais cego ainda a cada nova consulta.
, ele tem trabalho. Ele vem pra cá na boa vontade. Para de ser chata! – Rolei os olhos e ela me chutou de leve, acabei caindo no chão. – A.I.! – Arregalei meus olhos e a vi rir com deboche. Idiota. Levantei sacudindo a poeira da calça e a empurrei apenas com o peso do corpo, vendo a chata da minha irmã dar um minipasso pra trás.
! – Ela gritou como se tivesse sendo agredida e logo ouvi o grito do Chris.
-SEM BRIGA! – Viramos de uma vez a tempo de vê-lo correndo na nossa direção com a maior cara de culpa por ter se atrasado. – Desculpa o atraso! Desculpa o atraso! O Austin quebrou o carro e precisei socorrer ele antes de vir. – O cara chegou perto da gente rindo e abraçou minha irmã primeiro, beijando a cabeça dela como se fosse mesmo sua filha. Ele me cumprimentou com um abraço apertado e logo deu um tapa no meu boné, me fazendo rir. – Tudo certo com o Benny?
-Sim, era só um pneu furado. Nada demais. – Dei de ombros e vi os dois estarem mais sorridentes no mundo.
-Pronta pra varar essas pistas, princesa? – Chris perguntou com os olhos arregalados e soltou um grito grosso em afirmação. Credo. Ri alto com a resposta dela e não precisou de muitos minutos pra minha irmã entrar no carro e sair dali como se o Benny fosse a Millennium Falcon.
Nossa, eu estava tão nerd quanto o !
Nós éramos apaixonados pela velocidade e adrenalina, ela amava ainda mais a velocidade e se sentia em casa quando estava dentro de um daqueles carros, principalmente o Benny. Por quê? Porque ele era a nossa lembrança mais marcante do pai, assim como outras pequenas coisas que haviam ficado. Ela com o Benny (um Chevrolet Sonic) e uma medalhinha, eu com o Mustang 74 e o boné preferido dele. Era nossa forma de manter Benjamin ainda mais próximo da gente. Mas diferente dela, minha adrenalina não estava só nas pistas, ela era desperta com algo bem diferente de velocidade, eu me sentia insano quando estava dentro das salas de cirurgia.
Sacudi a cabeça ao ouvir os gritos do Chris e logo o vi conversar com pelo fone, como se dissesse alguma instrução sobre ela não sair da pista. Voltei a aba do boné pra frente e suspirei cruzando os braços, enquanto via os outros pilotos Juniors, fossem garotas ou garotos, zunirem naquela pista como se suas vidas dependessem daquilo. Domingo sempre era um dos dias de treino mais movimentados dali.
-A Louise não veio? – Acordei dos pensamentos em ouvir a pergunta do Chris e soltei uma risada.
-Dona Louise tá toda entretida com um curso de confeitaria, que ela vai dar no instituto de gastronomia. – Abri um sorriso orgulhoso por minha mãe não ficar parada nenhum minuto e usar a energia pra passar coisas tão boas para outras pessoas. – Acho que as turmas começaram hoje!
-Eu sei! Eu estou na turma dela. – Christian definitivamente era o cara mais engraçado que eu conhecia na minha vida. Nós rimos alto com aquela notícia, mas eu sabia que ele falava sério, embora tivesse alma de velho. Economia doméstica?
-Cara, sério! – Soltei mais uma gargalhada descontrolada, o vendo rir igualmente vermelho. – Quando é o bingo?
-Vai procurar o que fazer, moleque! – Ele me empurrou de leve pelo ombro e sacudi a cabeça ao tentar parar de rir.

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Você não vai vir? – Meu avô perguntou até meio nervoso com a minha demora.
-Claro que eu vou, pai! – Respondi meio esganiçada, enquanto corria pelos corredores do hospital na intenção de saber logo o que o Antunes queria tanto, já que me chamava incessantemente. – Se o Antunes não me matar do coração daqui para o fim do meio plantão. Ele só sabe me chamar no susto!
Tenha respeito pelo seu tio, ! Ele só quer o seu bem. – Meu avô, que na verdade era meu pai presente, me ralhou e acabei rindo baixo. – A nossa abóbora está prontinha pra competição, ela é a mais linda e mais vistosa que eu já vi na vida!
Aquela contra argumentação me ganhava de uma forma encantadora. Soltei um gritinho animado com a menção da minha abóbora e o ouvi rir animado.
-É A MINHA?
A sua abóbora! A gente até colocou seu nome nela. Sua avó tá bem animada com a festa, achamos que podemos mesmo ganhar esse ano. – Eu amava o jeito que vovô falava de todas as coisas do rancho, me mostrava todo o amor que a gente precisava ter pelo nosso cantinho.
-Ai meu Deus, ela tem meu nome! – Fiz uma dancinha animada no meio do corredor e rimos, mesmo que ele não tivesse visto. – Eu não posso perder de jeito nenhum, prometo que assim que o plantão acabar eu vou direto pra aí. Não perco essa festa amanhã por nada, absolutamente nada!
Seu Jack riu de uma forma tão linda que eu queria derreter de amores por aqueles velhinhos lindos da minha vida. Eu amava os dois a um nível que eu não amaria mais ninguém daquele jeito na minha vida.
Você tá conseguindo viver direitinho, minha filha? – Ele perguntou com uma preocupação tão linda que eu queria gritar.
-Estou sim, pai! – Ri baixo e encantada. – Tá dando tempo de comer, dormir e trabalhar, eu prometo! – Terminei de falar assim que entrei na sala de exames, de onde Harold me chamava como se o mundo tivesse acabando.
-Manda um abraço pro tio Jack! – O idiota que era meu tio em uma linhagem mais distante de sangue abriu um sorriso meigo, ao deduzir que eu falava com o vovô e mostrei a língua.
-Harry tá mandando um abraço pra vocês. – Reproduzi as palavras e meu avô soltou uma risada animada. – Vou precisar desligar, tá bom?
Tudo bem, minha filha. Mande outro abraço pra ele e o convide pra vir junto. Amo você! – Seu Jack fez barulho de beijo e retribuí o carinho.
-Também amo vocês, pai! Diga a dona Rebecca que ela me ligue. – Sorri feliz e desligamos o telefone. O coloquei no bolso do scrub e fiz a maior careta ao ver os exames expostos ali. – Ele te mandou um abraço… – Disse pro Antunes, ainda vidrada naquele desastre que estavam os exames. – Caraca, o que foi isso?
-Esmagamento por bola de concreto. – O médico ao meu lado suspirou exausto e até derrotado, sabendo que muito provavelmente ali não tinha salvação. – Vai entrar nessa comigo, Mills? Não temos muitas esperanças, mas precisamos fazer o impossível.
-Claro que sim, Harry. – Fiz uma careta ao perceber o estado de espírito dele e o abracei de lado pra dar um pouco mais de conforto, sendo abraçada de volta. – Mas eu sou instrumentadora, não seu residente. – Tentei debochar pelo incessante chamado e o homem riu baixo, rolando os olhos.
-O moleque tá de folga hoje. – Ele suspirou frustrado, mas eu sabia que não era pela folga, era pela minúscula probabilidade de salvação do caso e a grande probabilidade de frustrar . – E você é minha sobrinha, quase filha. Tem obrigação de estar comigo em C.C.
-Eu sou é seu amuleto da sorte, isso sim! – Empinei o nariz, finalmente o fazendo rir espontâneo e o homem me empurrou de lado. Acabei rindo junto, abraçando uma das pessoas mais incríveis que eu conhecia. – Vai acontecer o que tiver que acontecer, você sabe. Vai salvar, se tiver salvação.
-Eu sei, Mills! – Ele suspirou frustrado e passou a mão pelos cabelos ainda escuros, mesmo o Antunes passando dos 50. – Vamos lá, a gente precisa se mexer.
Nos soltamos do abraço já no corredor e o empurrei, ouvindo meu quase pai rir de novo. Eu era o amuleto da sorte dele, eu sabia disso!
-Ah, a Nancy mandou te chamar pra ir jantar lá em casa hoje à noite. – Harry disse com um sorriso divertido e fiz a maior careta. – Ah qual é? Você pode dar toco em seus esquemas pra uma noite em família. Noite da pizza.
-Eu não vou sair com ninguém! – Abri minha boca bem indignada com aquela suposição. – Eu vou viajar pra casa dos meus pais! A minha abóbora está concorrendo a abóbora mais perfeita de North Saanich e ela é uma campeã. Eu não vou perder isso! – Cutuquei seu ombro, fazendo o velho rir e sacudir a cabeça.
-Tinha esquecido do concurso Miss abóbora! – Deboche! Aquele safado estava de deboche pro meu lado? Otário!
-Cadê a sua sensibilidade familiar? – Enruguei o nariz ao discordar do deboche. – Eles são importantes pra mim e enquanto eu puder, a felicidade deles é a minha. Então o Miss abóbora é mais importante do que tudo. – Percebi que tinha me referido ao concurso como Miss abóbora e soltamos gargalhadas estridentes. Eu só poderia estar perdida se começasse agir que nem o Antunes.

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Depois do treino da no autódromo, encontramos em um bar perto do hospital. Era perdido como sempre voltávamos ao mesmo local, por mais que tentássemos nos distanciar dali. Sempre, sempre voltaríamos ao pub mais frequentado por internos e residentes. Ali nós conhecíamos as maiores amizades, amores, inimigos que viravam melhores amigos de copo e as melhores histórias que um estudante poderia carregar.
Estávamos em uma mesa reclusa bem perto do alvo dos dardos, eu já tinha sentido uns dois cair em meu ombro com aquela bagunça, mas álcool era o melhor anestésico no fim das contas. ria com as piadas nerds do e eu me rendia as gargalhadas também. era meu melhor amigo desde o último ano de colegial, até na faculdade de medicina nós tínhamos entrado juntos, logo tinha entrado também e nos tornamos um trio e tanto. Ele era um dos caras mais simples que eu conhecia na vida, embora fosse um dos mais ricos. tinha tudo pra ser um almofadinha enjoado, que poderia passar o resto da vida coçando a bunda e não morreria de fome, mas o cara tinha escolhido a medicina pra amar e era incrível por isso!
Ele era o único cara que eu confiaria a de olhos fechados. Por quê? Porque era decente e não faria nada contra a vontade dela, então era mais seguro ter mais um protetor num hospital daquele cheio de urubus.
Senti um amendoim bem no meio da testa e fiz uma careta, estendendo a mão pra tentar beliscar , mas ela se esquivou rindo.
-Você tá muito aéreo hoje! – Ela esganiçou pra mim e sacudi a cabeça, bebendo o resto da cerveja na caneca.
-Tá pensando da na instrumentadora do Antunes. – soltou no meio da conversa como se fosse um tossido e arregalei os olhos pra ele. Inferno! não sabia daquilo.
! – Soltei um esganiço indignado com aquilo.
-MENTIRA! O bebêzinho lá de casa tá apaixonado? – Eu odiava a maneira que debochava de todas as coisas e me fazia rir, mesmo que eu fosse alvo do deboche.
-Vai a merda! – Passei a mão no rosto meio desesperado. – E eu não estou apaixonado, é tesão apenas. – Tentei cortar o assunto pela raiz, vendo minha irmã me olhar com asco e soltar a maior gargalhada duvidosa.
-Você fica ridículo falando isso. – A mais nova me repreendeu como se fosse minha mãe.
-Na boa, . Isso é assunto meu. – Rolei os olhos meio saturado com tanto enchimento de saco e bebi mais um grande gole da cerveja, pedindo outra a garçonete que passava por ali.
-Eu juro que não acredito nisso. – Ela ainda ria da minha cara de pateta. – Você tá obcecado por Mills. Idiota! – A gargalhada preencheu a cabine enfiei a cara no tampo da mesa, ouvindo meu melhor amigo rir junto e bater nas minhas costas. Por que eu não podia ser um cara normal e simplesmente não fixar em certas mulheres? Tudo bem que tinha… Espera, a pirralha conhecia .
-Você conhece ? – Meu esganiço tinha sido até vergonhoso.
-Ela é melhor amiga da Addie, tapado. É praticamente filha do seu professor. – Minha irmã mais nova arregalou os olhos com a obviedade das informações e me senti mais tapado ainda. Eu nunca tinha reparado nos olhos dela até aquele dia, sequer sabia seu nome, na verdade.
-Porra, ! – O deu high five com minha irmã antes de caírem em uma crise de riso ininterrupta, até que fomos salvos pelo bip do pager.
Talvez fosse cruel imaginar que tínhamos sido chamados pela desgraça de alguém, mas nada melhor do que uma grande carnificina em uma noite tranquila na semana. Talvez eu tivesse a chance de fazer algo realmente grandioso sozinho, parafusar alguns ossos quem sabe.
-Vamos! – Arrastei minha mochila do pé da mesa e vi quando minha irmã e meu amigo checavam os pagers deles, tão animados quanto eu.
Eu juro que queria ter sido o residente da naquele começo de internato, mas por alguma política anti-nepotismo do hospital, nosso sobrenome não encaixava junto. E embora ela estivesse sendo orientada pelo , eu ficava aliviado em saber que meu amigo era alguém com um puta futuro maravilhoso e tinha muito a ensinar a ela. Quem sabe até ela pendesse para o lado da neurologia também? Nunca se sabia o que poderia acontecer, mesmo quando ela tinha grudado no pé de Addison Montgomery. A neonatologista mais gata daquele hospital. O quê? Eu não estava morto, poderia e reparava em muitas coisas.
Voamos as pressas para os vestiários, fazendo qualquer lombra remanescente do álcool desaparecer sem precedentes. A emergência estava uma zona com gente pra todo lado, residente pra todo lado e os internos feito um punhado de baratas tontas. As macas chegavam de minutos em minutos, com gente chorando, gritando, desacordadas e por vezes, até em óbito. Me mexi com rapidez localizando os internos que estavam na minha responsabilidade naquele primeiro rodizio e fui ajudando como podia, do mesmo jeito que fazia com o grupo dele. Eu não estava tão seguro assim com aquele caos, óbvio que sabíamos ressorver várias coisas, mas saber que os staffs, grande maioria deles, não estava dentro daquele hospital, me apavorava um pouco mais.
Recebi um homem na faixa de uns 40 anos, politraumatizado com uma depressão craniana e duas fraturas expostas nos ossos do braço e da perna. Corri junto com o pra fazer a avaliação inicial enquanto mandava bipar qualquer staff.
-Alguém bipa o Antunes e o Robinson! – Pedi meio desesperado, à medida que via uma enfermeira tentando um acesso no nosso paciente desacordado.
-Paciente vítima de um engavetamento na avenida norte. – A paramédica começou dando as instruções para nós dois que provavelmente resolveríamos aquele caso. Ao menos por enquanto. – Encontramos ele desacordado, mas ainda com pulso e perdendo muito sangue.
Afirmei com um aceno e logo ouvimos o alarme da monitoração, um bipe chato, mas que indicava que tinha algo de errado ali. Olhei meio agoniado para o monitor, que graças aos céus, o tinha decifrado.
! Saturação tá baixando rápido demais, a gente vai precisar intubar! – falou já se movendo pra agir e passou a bola pra minha irmã. – Drª. , já intubou alguma vez?
IA INTUBAR?
Arregalei os olhos meio amedrontado com aquela situação. O cara estava quase morto e se ele viesse a óbito, aquilo ia marcar pro resto da vida. não poderia estar fazendo aquilo comigo, expor minha irmã à péssima situação de perder um paciente. Foi ali que eu percebi o quanto odiava meu melhor amigo e o porquê de eu não poder ser o residente da pirralha. Eu ia proteger ela de tudo que fosse ruim, mesmo que aquilo significasse me ferrar inteiro. não demorou muito pra pegar o laringoscópio do mesmo jeito que a gente tinha treinado inúmeras vezes, e começar seguir todas as ordens do . Visualizar cordas vocais. Não encostar nos dentes. Inserir o laringoscópio, a cânula e por fim inflar o caff.
Era uma pena não ser tão fácil assim nas primeiras vezes.
Uma. Duas. Três vezes. Eu já estava nervoso com a saturação do cara baixando e sem conseguir intubar o paciente. Impaciente, ao ponto de gritar, enquanto o só explicava encorajando e mandava ela fazer mais uma vez. Talvez ele fosse um melhor professor que eu, ou talvez eu ainda não estivesse preparado para o amadurecimento da . Suspirei aliviado quando ela soltou um gritinho dizendo que tinha conseguido e sorri imensamente orgulhoso da pirralha. Com certeza a gente ia ter história pra contar pelos próximos dias. Logo a saturação voltava a subir saudavelmente e voltamos a nos aproximar da maca. Comecei avaliar as fraturas expostas, à medida que cuidava do neurológico e ouvimos alguém chegar.
-Bom trabalho, Drª. ! – Eu não sabia se era Deus, mas a voz grave do Antunes ressoou na sala como se fosse, me fazendo ficar ainda mais aliviado em ele estar ali.
-Obrigada, Dr. Antunes! – parecia brilhar e sorri ainda mais orgulhoso dela.
-Me expliquem o que está acontecendo aqui! – Infelizmente o diabo também tinha sido convidado pra festa e eu percebi isso na hora que o Robinson entrou na sala, tomando o lugar como se ele fosse um Deus.
-Dois residentes salvando a vida de um homem! – TOUCHDOWN. Antunes era sim o melhor médico. – O Dr. , o Dr. e a Drª. estão fazendo um ótimo trabalho aqui.
-Espero que não tenham ferrado nada. – O entojo em forma de neurocirurgião parou perto do e começou perguntar como estava o estado neurológico do homem.
Expliquei minha avaliação ao Antunes, entendo as pequenas considerações feitas para que meu trabalho pudesse melhorar e levamos o paciente para a TC, constatando que a situação não era nada boa. Ele precisaria fazer primeiro a cirurgia para descompressão cerebral e depois repararíamos as fraturas junto com a ortopedia, mais uma vez eu e ficaríamos por conta de mais um caso, juntos. Dessa vez com a presença da , a maior intubadora de todos os tempos.
Ajudei o Harold em mais alguns casos na emergência, infelizmente não obtendo tanto sucesso como antes até que finalmente tinha chegado um caso cirúrgico em nossas mãos, já que o Mr. Harbore esperaria mais algumas horas antes da correção definitiva das fraturas em membros inferiores, já que a cirurgia neurológica tinha sido bem complexa, segundo o . Subimos pra nos lavar e eu não parava de falar em como aquele dia estava sendo louco, mas me calei de uma vez ao entender que o Antunes tinha deixado a família em uma tal de noite da pizza, pra ir socorrer os casos mais graves.
Será que algum dia eu também ia passar por aquilo? Eu sei que estava minutos antes bebendo com meu amigo e minha irmã, mas estava todos três ali no hospital, na maior vibe cirurgiã.
-Dr. , olhe quem irá nos instrumentar, por favor. – Meu professor pediu e automaticamente fiz uma careta. Não ia ser a ?
-Geralmente não é a ? – Soltei sem pensar muito e ele prendeu uma risada anasalada.
-A enfermeira Mills está de folga. – Antunes me corrigiu com toda a classe, embora eu não estivesse me contendo.
-Eu sei, mas foi um engavetamento gigante. Não era pra ela estar aqui?
-A Mills está de folga, . – Ele deu um tapinha de conforto em meu braço como se estivesse com pena de mim e suspirei frustrado. Eu era um bocó mesmo.

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Depois de uma negociação imensa pra voltar pra casa, consegui sair do rancho apenas de manhã com um carregamento de verduras, frutas, cereais, legumes, ovos, carne e doces para praticamente um ano. Eu acho que meus pais achavam que eu passava fome em Vancouver, sem mais. O banco traseiro do carro tinha feito o pequeno percurso de North Saanich até Vancouver, cheio das melhores e mais gostosas comidas e mantimentos do mundo. Eu tinha passado a melhor tarde do mundo no festival que os dois estavam tão empolgados e adivinhem, MINHA ABÓBORA TINHA GANHADO A COMPETIÇÃO. era mesmo a abóbora mais foda daquele lugarzinho. Mas mesmo assim, eu só tinha conseguido sair na madrugadinha porque os dois estavam com medo que eu me matasse na estrada.
Depois de chegar no apartamento, descarregar o carro com ajuda do porteiro e guardar tudo em casa, desci novamente já arrumada pro trabalho e com a bolsa cheia de doce da minha abóbora. Peguei a moto na minha segunda vaga e voei para o hospital antes que chegasse atrasada, precisava ver o Antunes antes que ele fosse embora, assim ficava mais fácil de dizer que ele também tinha ganhado um monte de coisa gostosas dos meus avós.
Estacionei a Harley perto de um Mustang dos anos 70 (eu tinha certeza, porque eu conhecia vários carros antigos, só era péssima em lembrar o ano exato), que eu avaliei desde os rodões até as cores. Ele era lindo, realmente lindo. Guardei o capacete no bagageiro e na visão periférica percebi o dono do carro se aproximar, destravando as portas.
-Bom dia! Noite difícil? – Cumprimentei o possível dono ou dona do carro, ansiando saber como seria meu dia de trabalho.
-Bom dia!!! – Um cumprimento animado vindo de uma voz maravilhosamente conhecida me fez virar e confirmar a presença do traumatinho. Ele passou as mãos pelos cabelos curtos e prendi um suspiro. parecia bem cansado, quase ativando meu instinto maternal que queria enche-lo de colo. – Olha, difícil foi bastante. Teve um engavetamento enorme e tá uma loucura nas UTIs.
-Dr. ! – Soltei um gritinho animado ao cumprimenta-lo e o vi abrir um sorriso bonito.
-Enfermeira Mills! – O garoto devolveu o meu deboche e acabamos rindo.
-O Antunes tá aí ainda? – Perguntei ao ajeitar a mochila pesada e cheia de doce no ombro. Eu só esperava que gostasse de doce de abóbora, porque quando eu tivesse uma brecha, eu ia enche-lo. – Eu quase voltava ontem, mas fui barrada. – Soltei rindo mesmo sem entender porque tinha dito aquilo e recebi um sorriso seguido de uma careta.
-Ele tá aí sim. – me respondeu sobre o Harry. – E não, não dava pra você voltar, era perigoso.
-Eu sei me cuidar, relaxa! No máximo eu ia ajudar com o socorro no meio da estrada. – Soltei um riso breve ao achar uma fofura a preocupação dele. – Eu vou escorraçar seu chefe pra casa! – Ameacei meu tio e vi o rapaz rir, mesmo que cansado. – Mas e você, como se sente?
Uma simples pergunta que desencadeou um dos sorrisos mais bonitos que eu tinha visto sendo esboçado por ele.
-Ótimo! Foi incrível poder ajudar tanto. – estava verdadeiramente feliz o com que tinha feito pra ajudar nos acontecidos da noite passada. Certeza que ele seria um ótimo cirurgião.
-Seja oficialmente, bem-vindo à Saúde! – Pisquei o encorajando e o sorriso engrandeceu ainda mais. – É assim que a gente trabalha, salvando vidas e histórias!
-Obrigado! – Ele inflou um pouco e tomou fôlego pra falar mais alguma coisa. – Sabe quem também entrou oficialmente na saúde noite passada?
-Quem? – Perguntei um pouco confusa com a animação e orgulho dele. Talvez fosse a namorada.
-Minha incrível irmã! – abriu um sorriso tão grande que fechava os olhos por causa das bochechas. E ao mesmo tempo que eu queria rir, eu queria aperta-las com força. – Ela entubou pela primeira vez! E ainda ganhou um elogio do Antunes! – Se existia um irmão mais orgulhoso do que , eu desconhecia. Que coisinha mais fofa!
-Você é o residente dela? – Ri baixo querendo saber se o sucesso era compartilhado e o rapaz negou com um aceno contido, mas ainda com as bochechas rosadas. – E mesmo assim dá pra ver você brilhando de orgulho! – Nós rimos. – Mas não fica chateado, às vezes, as relações familiares acabam atrapalhando um pouco.
-Eu sei, eu fiquei tão nervoso que achei que ia precisar de um tubo, também. – contou como se fosse um segredo e rimos com uma diversão imensa. Era bom encontrar alguém alto astral de manhã cedo, geralmente estão todos mal humorados.
-Eu queria poder ficar, mas estou um pouco atrasada já! – Arregalei de leve os olhos e mostrei o relógio de pulso. Ele deu de ombros como se dissesse que eu não tinha porquê me preocupar com aquilo. – Infelizmente eu ainda sou uma subordinada nesse hospital. O Doutorado não serviu de muita coisa se não pude ser chefe. – Fiz um bico desgostoso, mas que era até fingido. Eu amava a assistência.
soltou uma gargalhada contagiante e negou com um aceno de cabeça.
-Tem certeza que é? Você manda no Antunes! – O garoto me zoou na maior cara de pau e minha boca foi ao chão com o afronte.
-Ele me respeita, é diferente! – Apontei o fazendo rir. – Mas, você gosta de doce de abóbora? – Perguntei um tanto eufórica em saber se eu podia deixar metade do meu carregamento de doce com aquele rapaz e ele fez uma careta gigante. – Gosta ou não? – Perguntei mais uma vez, tentando ser séria enquanto prendia a risada.
-Doce de abóbora? – Ele franziu ainda mais a testa, sorrindo em seguida. – Gosto! Gosto!
Foi a minha deixa, abri um sorriso animado e abri o zíper da minha mochila, pegando vários pacotinhos com lacinhos bonitinhos para enchê-lo de doce. Minha avó sempre fazia e mandava que eu distribuísse aos meus amigos dentro do hospital e por algum motivo, ainda desconhecido por mim, estava merecendo mais doces de abóbora do que muito médico dentro daquele hospital.
-Receba com amor! – Entreguei muitos pacotinhos de doce, enchendo as mãos do garoto com o melhor doce do mundo. – Foi feito com mais amor do que abóbora. Depois você me diz se gostou!
-Pra mim? Sério! – O sorriso fofinho surgiu tão iluminado que me deu uma vontade imensa de morder . Foi inevitável não abrir um sorriso tão iluminado quanto.
-Pra você!
-Uau! Obrigado, ! – Aquela tinha sido a primeira vez que ele me chamava pelo apelido, mas bem diferente do que acontecia, eu não o repreendi. O rapaz estava tão animado com o doce que seria maldade minha. – Com certeza eu vou gostar, mas pode deixar que depois eu te conto.
-De nada! – Sorri encantada com a grande festa que ele estava fazendo por causa de um simples doce. – Minha vó quem fez! Ela sempre faz e me manda espalhar o amor pelo hospital! Estou começando pelo estacionamento!
-Começou muito bem! Agradece a ela por mim. – Ele piscou com um sorriso bonito e fechei a mochila, me aprontando pra se despedir.
-E eu vou. Mas preciso ir trabalhar! – Ajeitei a bolsa no ombro. – Foi bom te ver! – Eu nem queria sorrir como uma encantadora de rapazes, mas foi mais forte do que eu. Eu tinha cantado na maior cara de pau e espontaneidade e esperava que ele tivesse entendido.
-Com certeza, eu digo o mesmo. – TOUCHDOWN. Ponto pra você, !
Sorri ao acenar levemente com a mão e corri pelo estacionamento, antes que me atrasasse pra mais um longo, cansativo e incrível dia de trabalho.

Chapter 3

Empilhei as pranchetas com os prontuários diários na ponta do balcão e comecei checar quais seriam as eletivas daquele dia pra mim, rezando que não aparecesse qualquer emergência gigantesca naquele hospital, ou daríamos curto mais uma vez com tanta coisa pra lidar.
– Muita coisa pra hoje, Mills? – Ouvi Antunes me perguntar e ao mirar a imagem dele, vi que o traumatologista estava acabado. Um plantão difícil que nem o Queen resolveria.
– Os exames dos seus pós-operatórios já chegaram. Estão bem aqui! – Pisquei tentando fazer uma brincadeira qualquer, mas ele não riu. Poxa, Antunes, não seja tão insensível com quem quer te fazer rir. – O que foi? – Eu juro que não me aguentei ao ver a enorme careta de preocupação nele.
– Julian. – Um simples nome e uma esfregada de olhos bastaram pra que eu entendesse que o moleque estava dando trabalho. Harry tinha um filho de 18 anos e que já começava a querer curtir a vida de uma forma meio inconsequente, como todo adolescente. – Passou a noite fora, provavelmente em alguma festa e não avisou a mãe. A Nancy está uma arara! – Ele arregalou de leve os olhos e mordi de leve a boca pra prender a risada. Ah, qual é? Deixem o rapaz se divertir! – Você só me olha assim porque não é mãe! – Meu tio rolou os olhos e meu bico de riso aumentou.
– Então nada de Kart com o Juli? – Perguntei ainda tentando prender minha risada e meu tio bufou.
Eu tinha marcado o kart há, pelo menos, umas três semanas pra ir com o garoto. Julian era como um irmão mais novo e a gente adorava qualquer coisa referente a velocidade, mas se a Nancy estava possessa, nada de kart ou eu também ficaria de castigo.
– Prefiro não contrariar a Nancy, você conhece. – Antunes me deixou ainda mais convicta de que ele não mandava em nada ali. Ele suspirou meio frustrado e concentrou novamente: – Chame o e entregue os pós-operatórios. – Harry bateu de leve no balcão e deu um sorriso fechado e cansado, saindo antes que eu pudesse pedir que ele desse uma olhada em meus exames.
– Okay. – Falei pausadamente e sacudi de leve a cabeça com toda a situação. Se aquele era o ônus de ter filhos, que viesse com todo o prazer, não iam ser as preocupações pra derrubar meu sonho de ser mãe.
Acionei o pager do , digo, Dr. e puxei uma das cadeiras ali, ou minha coluna ficaria acabada antes que eu pudesse chegar à idade idosa. De uma forma bem esquisita, nós tínhamos nos falado bastante na última semana, um simples esbarrão no corredor dava margem pra uma conversa gigante e cheia de risadas, consequentemente perdendo a noção do tempo. Não era entendível como tínhamos uma conexão tão boa e fluida.
Ri baixo e enxerguei a imagem do descanso ou provável desleixo a minha frente, parecia ter saído de uma briga com um gato, ou ter sido acordado de um sono bom. Provavelmente a segunda opção, já que o garoto estava todo assanhado, com o rosto marcado do tecido e a maior cara de sono. Eu queria rir alto com aquele sorriso lerdo, mas preferi me manter no deboche.
– Boa noite, Dr. – Zoei pela provável hora que o rapaz tinha perdido e o tapado só me abriu mais o sorriso.
– Boa tarde, enfermeira! – O futuro cirurgião do trauma riu e se escorou no balcão do posto. – Que horas são? Eu estou perdido, acordei por causa do seu chamado.
– Agora? 2pm. – Sacudi de leve a cabeça. – Apto a voltar pro trabalho? Que cara de sono é essa, ? – Tentei uma repreensão bem frustrada e o vi sorrir divertido.
– Apto eu só estou a cair na cama! – Ele arregalou de leve os olhos, coçando a cabeça e arrumando o cabelo escuro em seguida. Ué, há quantas horas estava enfurnado dentro daquele hospital?
– Você tá há quanto tempo preso aqui? – Vinquei as sobrancelhas.
– 36 horas. – A resposta saiu tão baixa que precisei de um tempo pra raciocinar que ele já estava há mais de 30 horas ali. era louco?
– VOCÊ O QUÊ? – Não me importei em parecer escandalosa com o grito que o fez arregalar os olhos, muito provavelmente com medo de ser escorraçado dali a ponta pés pelo chefe Smith.
– Não grita! – Ele tentou reclamar, porém mais parecia uma súplica.
– Você é louco? O chefe sabe disso? – A lunática desenfreada que habitava em mim já estava gritando para o garoto como se nós dois fossemos incrivelmente íntimos àquele ponto. Tenha modos, !
Vi o garoto tomar uma postura completamente defensiva, o que me levava a observar ainda mais suas expressões corporais pra aquela resposta, já prevendo que ele iria mentir sobre estar autorizado a morar dentro do Saint Paul.
– Sabe… mas eu estou bem, tá tudo certo, eu só emendei o plantão!
NÃO DISSE? Inferno de garoto perfeitinho que nem mentir direito sabia. Bufei meio irritada com aquilo.
– Já era pra ter dado o fora daqui! – Soltei uma esganiçada apontando pra porta do elevador. – Então eu não vou acreditar nisso e nem você sabe mentir, olha os exames e vaza daqui! – Tentei a todo custo dar uma ralhada nele, mas o que recebi foi um sorriso que movia até suas bochechas.
– São meus exames? – Ele apontou para as pranchetas ainda com o sorriso de criança sapeca, me fazendo querer dar umas boas palmadas nele.
– Sim, são seus exames. – Estreitei os olhos com a maior carinha de pau em um ser humano de sorriso meigo, enquanto se esticava pra pegar os exames e eu escondia o meu, antes que ele visse. – Obrigado!
Continuei a encarar fazendo a linha malvada, e entre a concentração dele, consegui enxergar um meio sorriso maroto. Ele estava me desafiando? Ah, , você estava me desafiando? Eu ia te mostrar que não pode me desa…
– OPA! Tem uma coisa mais interessante aqui! – O médico deu um passo pra trás com um papel em mãos e automaticamente olhei pra bancada.
– MEU EXAME! – Gritei meio indignada com o abuso presente naquele sorriso cínico. – SAI! Solta meu exame! – Quase pulei a bancada pra pegar a folha, o vendo sorrir ainda mais debochado e dar um passo pra trás.
Céus que homem gostoso. Porra, ! Controle-se! Ele é um garoto, um rapaz de no máximo 23 anos, não seja tarada, sua tapada!
– Eu já li, tá tudo certo! – Tentei mais uma vez pegar meu exame depois de contornar o balcão. Embora estivesse brincando com a minha paciência, enquanto segurava os papéis no alto. Na verdade, era só o nível da cabeça dele, eu que era baixinha. – Meus exames estão bem, me devolve!
– Shiu, eu estou lendo! – estreitou os olhos por baixo dos óculos, mirando o papel e eu queria explodir como uma bomba e matar todo mundo ali.
– Por que você tá fazendo isso? Você é alto, sua peste! – Ajeitei o cós da minha calça tamanho 48 no corpo e pulei mais uma vez tentando pegar o exame e matar aquele doutorzinho sufocado.
– Pronto, tudo bem! – Aquela peste piscou com um sorrisinho de canto bem filho da puta e como se não bastasse, beijou a minha bochecha de surpresa, entregando as três folhas em minhas mãos. Confesso que fiquei sem reação com tamanha ousadia fofa.
– Eu não sou sua paciente. – Fiz uma careta fingida enrugando o nariz e ajeitei o scrub no meu corpo volumoso. Eu era gorda e nunca tinha negado aquilo, mas eu também era gostosa.
Mostrei a língua e rimos.
– Não é minha paciente, mas é minha amiga. E isso é bem mais do que paciente. – Foi inevitável não sorrir.
Mas quem diria, doutor . Já tinha escutado de tudo, mas me inserir no círculo de amizade pra conseguir transa era a primeira vez. Céus, o que estava acontecendo comigo? Nem todo mundo quer você, sua doida! Ele poderia não me querer, mas, ah, como eu queria aquele corpinho de ombros largos e volumosos em cima de mim.
– Mas me diz o porquê desse exame, enfermeira Mills. – se escorou na bancada com a lateral do corpo, me olhando com uma expressão bem atenciosa. – Tá sentindo alguma coisa?
Soltei uma risadinha bem maldosa e safada, mas só eu entendia a intenção dela. Eu acho.
– No momento? Só fome. – Disse fazendo careta e ele riu sacudindo de leve a cabeça. Embora minha vontade gritante fosse a de fazer altos reboliços com ele. Antunes ia me matar se eu pegasse o . – É exame de rotina. Eu refaço em um intervalo de 6 em 6 meses, porque como eu sou obesa grau I, não posso descuidar. Eu sou saudável, sem qualquer comorbidade*, mas eu gosto de monitorar direitinho. Tudo numa boa! – Sorri grande com meu estado de saúde mais do que estável e o vi fazer uma careta enorme e confusa. – E sou saudável, você não viu meus exames?
– Saudável sim. Aliás, mais do que saudável. Os meus devem estar bem piores. – Rimos dos péssimos hábitos do futuro traumato. – Mas… você ser obesa não é um problema. – Ele deu de ombros e fiquei parada, tentando entender onde ele queria chegar com aquilo. – Não pra mim. – Recebi uma piscada acompanhada de um sorriso sincero e bonito, me deixando apenas a opção de ficar na ponta dos pés e beija-lo de forma firme na bochecha. Eu tinha sido cantada por um moleque!
– Eu sou tranquila com isso! Me aceito de boa. – Pisquei bem agradecida pelo elogio, vendo o rapaz morder de leve o lábio com uma expressão de quem provavelmente estava pensando besteira.
– Eu sei bem o que é bom. – Eu juro como ele tinha desviado o olhar para a pilha de pranchetas, mas não precisava olhar pra mim, para que eu, a tarada, entendesse o que ele tinha a dizer.
, . – Censurei a frase completamente maliciosa e ouvi uma risada espontânea, me restando rir junto com ele. – Mas me diz, gostou do doce de abóbora? – Desviei totalmente do assunto sexual velado, ou eu findaria convidando o rapaz pra um drink aquela mesma noite e posteriormente ao meu apartamento.
– Nossa, sim! – Os olhos dele brilharam de um jeito diferente, na verdade parecia até algo infantil. Que amor! – Muito bom!
– Que ótimo! Vovó é maravilhosa. Quando eu for lá de novo te trago doces de mais sabores! – Eu estava orgulhosa da dona Rebecca, eu sempre estaria feliz em disseminar o amor em forma de doce!
– Eu aceito viu? – Ele apontou rindo. – Pode trazer vários potes de cada! – Nós rimos.
– Mais um viciado nos doces. Antunes foi na minha casa só buscar e quase levou os meus! – Fiz a indignada com o fato de quase ter ficado sem nada e rimos juntos. – Mas eu não esqueci que você já extrapolou seu horário dentro dessa instituição. Avalia esses exames e some daqui antes que eu te expulse desse bloco cirúrgico a pontapé! – Apontei o dedo em riste, sem saber de onde eu tinha tirado tanta autoridade sobre . Recebendo apenas um sorriso de canto bem malandro.
– Tudo bem, capitã! – O rapaz bateu continência e abri um sorriso superior, piscando ligeiramente pra ele. – Tchau! Bom trabalho.
– Tchau, obrigada e boa folga! – Acenei igualmente e me permiti sair do andar pra fazer qualquer coisa que não fosse olhar para aquele moleque gostoso que estava me tirando o juízo.
Ele é um menino, , apenas um menino!

*Doenças associadas, o que nesse caso podem ser: Diabetes Mellitus, Hipertensão Arterial, Dislipidemia, doenças circulatórias e várias outras

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Cheguei em casa estraçalhado dos dois plantões seguidos, sentindo uma imensa inveja de que provavelmente estaria acabando de acordar, quando eu mais queria cair na cama e dormir até meu corpo não aguentar mais. Deixei as bolsas dentro do carro e saí batendo a porta, almejando com todo o meu coração que estivesse tudo na maior calmaria, ou eu morreria estressado até conseguir matar meu cansaço. Entrei em casa dando de cara com o Chris sentado à mesa da cozinha, conversando com minha mãe que limpava os bicos de confeitar. Aqueles dois e a coisa com os cursos e culinária.
Escorei a beirada da porta, rindo com a conversa animada e bati de leve na parede em dois toques.
– Oi meu amor! – Minha mãe disse com um sorriso imenso, embora eu soubesse que seria zoado pelo Christian.
– Te expulsaram do hospital? – Ele virou quase todo o corpo pra me olhar com deboche e ri alto.
– Foi o que tentaram fazer! – Sacudi de leve a cabeça e minha mãe passou por mim com uma pequena caixa em mãos, me dando um beijo na bochecha. Acho que devia ser do curso de confeitaria. – Quer ajuda? – Saltei com a pergunta.
– Não, meu bem. Coma alguma coisa e vá dormir. – Dona Louise apontou pra mesa da cozinha e lhe dei um beijo na cabeça.
Suspirei um pouco cansado pela rotina que estava levando na residência e entrei de vez na cozinha, vendo Chris de boca cheia por comer alguma coisa. Guloso! Enchi um copo com água gelada e olhei com a maior cara de deboche para o treinador de , recebendo uma expressão confusa de volta.
– Come devagar, ou você engasga! – Apontei rindo e ele jogou um bolinho, sem confeito, em mim. Desviei, aumentando minhas gargalhadas e consequentemente fazendo o homem rir junto.
– O doce de abóbora ajudou a descer! – Ah não! Meu doce não! Era o doce que tinha me dado e eu não ia deixar que Christian comesse todo o meu estoque. Acho que me agoniei de forma tão visível, ao ponto de ele rir ainda mais de mim, porque provavelmente não tinha sequer chegado perto do meu doce. – Eu mal encostei nesse pote, moleque!
Eu não disse? Respirei fundo, sentindo meus ombros baixarem e rolei os olhos, mas me dei por vencido, começando a rir junto com o Chris. Ele não era tão péssimo assim e provavelmente era o único que me daria um bom conselho sobre a . Não que não fosse um bom amigo, ele era meu irmão, mas aquele cara sentado à mesa da minha casa tinha uma experiência bem mais grandiosa que a nossa e iria me aconselhar sobre como eu faria pra chamar pra sair e não passar vergonha.
– Hey, Chris. – Pigarreei chamando sua atenção pra mostrar que era um assunto sério e ganhei a atenção do meu amigo. Suspirei meio frustrado e sem a intenção de enrolar muito, puxei uma das cadeiras da mesa sentando em seguida. – Eu preciso de um conselho. Ajuda, na verdade. – Expus meu maior problema no momento e pude entender que seria efetivo quando ele me abriu um sorriso paternal.
– Claro! No que posso ser útil? – Ele se apoiou com os cotovelos na mesa. – Garotas? – O tom animado me fez rir, mas entregando todas as minhas intenções em procurar conselho.
– Basicamente. – Cocei a cabeça ao dar um sorriso trincado. – Eu quero chamar uma mulher pra sair. Mas eu não faço a mínima ideia de como! Já tentei pensar em algo decente, mas nada parece bom. – Suspirei frustrado e passei as mãos pelos cabelos.
– OPA! Opa, opa! Mulher? – O melhor amigo do meu pai arregalou os olhos como se aquele fosse o pronunciamento do século. Bem, talvez fosse. – Desde quando você saiu de garota pra mulher? Até a última vez que a gente conversou sobre isso, era uma garota!
– Isso! – Apontei como se o fato de ser uma mulher fosse explicação o bastante, ainda que eu soubesse que não era. Não para Christian, ele ia querer a ficha inteira dela. – E eu saí, desde que eu conheci !
– Agora nós temos um nome! – Meu amigo parecia uma criança animada e rimos alto. – Mas você tem convívio com ela? É uma das suas colegas da residência? – O homem arregalou de leve os olhos e me senti o Austin, como se realmente o Chris fosse meu pai.
– Ela é enfermeira chefe do Saint Paul. – Mordi a boca um tanto receoso com a informação. – Instrumentadora, na verdade. Das cirurgias do meu chefe! – Arregalei de leve os olhos.
– E você está caidinho por ela! – O sorriso vitorioso brotou no rosto do mais velho, me restando apenas suspirar derrotado e em confirmação.
– Total e completamente! – Declarei meu declínio, nos fazendo rir alto.
– Vocês ao menos são amigos? – Chris bateu de leve os dedos na mesa de madeira e encheu uma xícara com o café que estava no meio da mesa, acabei bocejando. – Ou isso é só fogo de palha? , , não magoe uma mulher. Ela manda te matar!
– Ela mesma me mata! – Soltei uma risada meio nervosa. – Mas sim, nós somos amigos, mesmo.
– Então isso já é um grande passo! – Ele se animou todo com a notícia, que talvez, só talvez, eu tivesse aumentado um pouco. – Você sabe do que ela gosta!
– É… mais ou menos. – Soltei uma risada anasalada.
– E por que mais ou menos? – Christian fez uma careta confusa e suspirei meio frustrado. – Se você já conhece ela, é mais fácil de bolar alguma coisa. – Ele deu de ombros como se aquilo fosse a coisa mais fácil do mundo.
– Ela é simples, é super simples. Mas tudo que eu já tentei na vida, não vai rolar. – Sacudi as mãos na intenção de mostrar a ele que nada que eu já tinha feito pra chamar uma garota pra sair, ia dar certo com . – Ela me chama de idiota e me manda pastar!
– Você não pode saber disso, se não tentar, ! – Chris soltou uma risada leve, tomando mais um gole do café e ponderei com um aceno de cabeça. – Chama pra almoçar, é certeiro! Mostra que você não quer só sexo, mostra que você quer um tempo legal com ela. Leva num restaurante simples e legal. Se ela for simples, vai cair por você! – O homem piscou como se aquela fosse a coisa mais fácil do mundo. – Você é um cara legal, já deve ter feito ela rir! É certeiro, se você fez ela rir, chama que dá certo. – Eu juro que queria ver aquele otimismo todo na situação, mas estava complicado.
– Se eu fizer a coisa errada ela vai me mandar pastar! E eu já fiz ela rir bem mais de mim do que comigo. – Soltei uma risada meio desesperada, o fazendo me acompanhar no gesto. – Eu só quero que dê certo, sabe? – Suspirei um tanto frustrado com a situação de inferioridade que eu tinha me colocado.
– Só vai começar dar certo se você chamar ela pra sair! – O melhor amigo do meu pai deu de ombros como se já não fosse óbvio. – Você é um homem ou um fedelho?
– Um fedelho! – Entrei na zoeira com a minha maior cara de pau.
– Então desiste! Mulheres não tem paciência pra fedelhos! – Ele meneou a mão como se eu fosse um caso perdido e soltei um alto grunhido de choro. O que eu não fazia por você, . – Seu pai estaria rindo da sua cara nesse exato momento!
– Não impede que ele esteja! – Apontei e ri junto. – Mas poxa, Chris, não é tão fácil assim!
– E com razão. Um homem desse tamanho com medo de mulher. – Ele teve a audácia de me zoar e me limitei a rolar os olhos, se eu fosse contestar, nós iriamos passar a tarde rebatendo o assunto até que ele ficasse bem cansativo e insuportável.
– Ok, Martin! Eu vou chamar ela pra um jantar!!! – Inflei bem mais do que eu queria, mas recebi uma advertência. – Sugestão de onde? – Perguntei me aproveitando claramente da experiência do mais velho ali. Ele tinha uma namorada e tinha usado alguma coisa pra conquistar ela, não custava muito me orientar.
Christian soltou uma risada alta com meu abuso e respirou fundo, pronto pra me responder.
– Almoço! – O grito veio quase como uma ralhada, me fazendo encolher. – Jantar vai tá escrito na sua testa que você só quer transar com ela! E sobre o lugar: não, ! Eu não tenho! – Ele riu mais uma vez da minha cara de pateta apaixonado. – Procura um lugar que você conheça e se sinta à vontade!
– Almoço! – Repeti pra minha cabeça impaciente. – Tá, tá. Almoço. Almoço, . – Respirei fundo internalizando as impressões do chamado. – Mas o que eu conheço, não serve pra levar ela. Eu vou ter que desenhar isso, Christian Martin? – Eu, infelizmente, estava nervoso demais pro meu gosto. Inferno. Você era uma piada, .
– Tá bom, nervosinho! – O que eu disse? Ia ser zoado até a minha morte. – Eu conheço um restaurante italiano no centro. É maravilhoso em todos os sentidos! A comida, o clima, o preço. Tudo! Eu garanto que esse restaurante é certeiro! Levei uma das mulheres mais importantes da minha vida lá. – Chris piscou mostrando que aquele era o lugar certo e suspirei meio aliviado, ainda que não soubesse como iria de fato, chamar .
– Certo, eu vou leva-la lá! – Mostrei convicção, ganhando um sorriso orgulhoso. – Mas me diz o que aconteceu depois do restaurante. – Me apoiei na mesa já pronto pra levantar e vi o pai do Austin abrir um dos sorrisos mais idiotas que eu já tinha visto em toda a minha vida. Se eu bem lembrava, eu só tinha visto uma coisa daquelas quando meu pai ainda era vivo.
– Ela aceitou namorar comigo! – Meu amigo só faltava explodir de tão feliz em me contar aquilo e sorri verdadeiramente feliz por ele. Era maravilhoso saber que Christian tinha conseguido retomar a vida depois da separação desastrosa.
– Fico feliz por você, cara! – O abracei de leve e ouvi uma risada divertida. – Obrigado mesmo pela conversa, ajudou bastante. E boa sorte com sua namorada!
– Eu estou aqui sempre que precisar, . Já disse isso! Muito obrigado pelas felicitações e muito boa sorte com a sua futura. – Ele levantou a mão pra high five, que eu completei prontamente e depois de um abraço frouxo, corri pelas escadas na intenção de dormir até entrar em coma.

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Finalmente sossego naquele posto depois de tanta correria. Escorei na cadeira, pedindo a Deus que mais ninguém aparecesse pra me encher o saco ou pedir qualquer coisa, incluindo que havia esquecido da existência de qualquer outra enfermeira naquele hospital. Eu juro como queria me esconder e dormir até matar todo o meu sono perdido noite passada com quem não valia a pena.
Suspirei um tanto farta e quando senti o estado de plenitude me atingir ao descanso, um jogado de prancheta no maior estilo Antunes, aconteceu. Se eu não amasse meu tio, eu matava ele com um desfibrilador. Abri os olhos vagarosamente e um sorriso meigo, completamente falso estava aberto na minha direção.
– Que foi? – Usei todo o meu abuso e findamos rindo assim que me ajeitei na cadeira, apoiando os cotovelos na bancada interna.
– Sua cara está péssima. – Harry deixou bem claro que eu estava feito um zumbi e meneei a mão, mostrando que não valia a pena falar daquilo. – Robinson? – O sussurro foi meio inaudível, até eu rolar os olhos.
– Infelizmente, mas larguei. – Bufei irritada com meu bom coração em ceder as insistências alheias. – Dessa vez é definitivo, não quero mais qualquer contato com aquele ser desprezível. – Falei baixo, sabendo que só o Harold entenderia e o vi afirmar, aliviado com a minha decisão.
– Ele te encheu o saco hoje? – Antunes mordeu a boca, tomando uma postura mais paterna do que qualquer outra coisa e soltei uma risada anasalada.
– Eu já resolvi! – Dei o assunto por encerrado e ele suspirou frustrado. – Mas me diz!
– Ok, é o seguinte. – Ele pontou para as pranchetas no balcão. – Meu residente vai ficar responsável por essa paciente hoje. E, muito provavelmente, vai precisar da sua ajuda para alguns procedimentos, não precisa estar direto com ele. É só dar suporte no que ele precisar, ok? – O traumatologista me explicou e afirmei com um sorriso meio desesperado.
– O seu residente que anda burlando as regras e emendando plantão? – Arqueei a sobrancelha e ganhei uma expressão de maior deboche, como se emendar milhões de plantões fosse a coisa mais normal do mundo. – Antunes, Antunes.
– Ah e agora você me censura? Mulher, você não tem moral pra isso.
– O quê? – Soltei um gritinho esganiçado que o fez rir alto. Era visível o quanto estava no meu pé nos últimos dias e a gente não tinha passado de qualquer ponto, era só… amizade. – Ele vai me chamar se o paciente soltar um pum, eu já sei! Mas é meu trabalho!
– É só não responder a todos os chamados. – Ele disse como se aquela fosse a coisa mais fácil do mundo e arqueei uma das sobrancelhas.
– Tão fácil como desviar dele dentro desse andar. – Eu não queria ser debochada, mas eu fui e acabamos rindo mais uma vez.
– O que você fez com meu residente, mulher? – O deboche em forma de um homem negro me atingiu em cheio.
– Até você com isso, Antunes? – Soltei meio indignada com aquela história e o empurrei de lado, o ouvindo rir. – Eu não fiz nada! Ele que tá no meu pé desde a cirurgia.
, . – O chefe da traumatologia me censurou como se eu fosse alguma criança teimosa, enquanto se afastava e lhe mostrei a língua, gesto que fez nós dois rirmos.
– Eu sou completamente inocente nessa história toda! – Alteei a voz ao ir para detrás do balcão e o vi sacudir a cabeça de forma negativa. – Ainda. – Completei apenas para meu subconsciente safado e ri levemente ao lembrar da obsessão do rapaz em fazer parecer que nossos encontros dentro daquele lugar eram meramente acaso.
– Lembrou de mim? – Ouvi uma das vozes que mais estava me irritando nas últimas semanas, principalmente na última noite, e rolei os olhos.
– Eu joguei pedra na cruz! – Resmunguei lhe dando as costas e o idiota da neurologia fez questão de mudar de local no balcão.
– Ah, ! – Ele usou de um tom manhosamente tosco. Eu seriamente queria mata-lo.
– Enfermeira Mills! – Corrigi ao dar uma imensa atenção as minhas fichas já preenchidas.
– Chegou ao ponto que eu queria. – Peter Robinson praticamente se debruçou em cima do balcão do posto. – Enfermeira. Uma enfermeira maravilhosa que instrumenta bem demais as cirurgias. Tenho uma craniotomia em paciente acordado, ainda não fechei a equipe. – Ele me olhou com aquele sorrisinho sujo que estava me dando náuseas. Credo, que homem idiota!
– Não, Robinson. Obrigada! – Sorri fechado na intenção de ser simpática apenas, e catei minhas pranchetas. Pronta pra dar o fora dali e passar o dia com o residente no meu pé. Bom, ao menos ele não falava de certos assuntos comigo e era bem gentil em tempo integral.
– O que é, Mills? Eu não sou bom o bastante pra você instrumentar uma cirurgia? – A arrogância na voz daquele homem fez minha cabeça doer, apertar e inchar de raiva.
– NÃO! VOCÊ NÃO É! – Eu juro que gritei sem ter a intenção de fazer isso, mas aquele filho da puta idiota estava me tirando do sério só em respirar o meu ar.
– Qual é o seu problema? – Ele parecia irritado. Mas uma novidade pra você, meu bem. Eu estava possessa, fumando numa quenga*, como já dizia vovó.
– Você! Qual a droga do seu problema mental, Robinson? – Céus, nunca havia saído tanto insulto da minha boca pra uma pessoa só. Tomei fôlego e continuei: – Você é surdo ou tem distúrbio cognitivo? Eu não instrumento cirurgias de caras com quem já transei! – Fui claríssima em minhas conclusões e saí de lá bufando, antes que eu mandasse um neurologista para o inferno. Embora eu suspeitasse que o capeta o mandaria de volta.
Eu tinha acabo de construir minha caveira na neurologia, definitivamente. Mas eu estava pouco me fodendo para o que aquele filho da mãe faria, ainda mais quando eu tinha toda traumatologia e neonato ao meu dispor.
Passei pelo corredor querendo matar qualquer um que invadisse minha frente e meu espaço. Dormir, eu precisava dormir. E as macas da doca eram minha melhor opção naquele momento, ir para o descanso era indício de que eu encontraria com algum médico ou enfermeiro babaca querendo saber o que tinha acontecido e eu não estava nenhum pouco a fim de conversar com ninguém.
– Enfermeira Mills? – Ouvi um chamado receoso e respirei fundo antes de parar no corredor, esperando que a pessoa me acompanhasse. – Eu sou a interna que está acompanhando a Dra. Montgomery hoje, e ela quer saber se você pode instrumentar a equipe. – A garota de cabelos escuros me perguntou com uma expectativa gigante. Ela me parecia bem familiar, embora soubesse que não tínhamos trocado uma mísera palavra antes.
– Posso, posso sim. – Sorri fechado, percebendo que ela tinha ficado bem aliviada com minha resposta positiva. – Vai ser agora?
– Não, não. Às 7pm. – A médica me informou com toda a prestatividade e afirmei com um aceno menos armado. – Eu estou com todas as informações do caso… – Ela insinuou e percebi que carregava uma prancheta em mãos, provavelmente estudando tudo que poderia sobre a cirurgia que ia acontecer.
– Tudo bem, eu vou resolver umas coisas agora, mas logo te procuro pra preparar melhor a sala. Tudo bem? – Perguntei rezando pra que ela dissesse que sim e eu pudesse dormir ao menos por uma hora, antes de ir instrumentar com a Addie.
– Tudo, tudo sim! Obrigada pela disponibilidade! – A moça me agradeceu com um sorriso e sorri de volta, grata em saber que tínhamos médicos decentes naquele andar.

*Ditado popular pra dizer que você tá muito puto

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Entrei no estacionamento do Saint Paul procurando com o olhar, já que nós tínhamos passado o dia entre encontros e desencontros, não dando tempo de eu dar uma palavra sobre chamá-la pra sair. Sorri involuntariamente ao ver a mochila que, com certeza, era a dela, pular toda vez que a mulher dava um passo. Inclinei de leve a cabeça, me praguejando por analisar a bunda dela redondinha na calça jeans, entendendo bem porque aquele mulherão era confiante. Mills era gostosa pra caralho e sabia muito bem disso, na verdade ela fazia questão de esfregar na cara de todos naquele hospital que seu peso a mais não era nada.
Sacudi a cabeça tirando aqueles pensamentos da cabeça e logo tratei de correr levemente.
– Oi! – Soltei animado ao acompanha-la nos passos rápidos.
– Oi, . – me lançou um sorriso fechado e continuou a olhar pra frente. O dia dela deveria ter sido bem duro e por mais que eu quisesse respeitar aquilo, eu precisava chama-la pra sair.
– Como foi seu dia? – Segurei as alças da minha mochila como se eu fosse uma criança no colégio. Percebendo parar de andar e suspirar frustrada, por certo por ter me respondido de forma seca.
Ela soltou uma risada baixa que se transformou em um sorriso muito bonito e me olhou, enquanto andava mais devagar.
– Um pouco cansativo. – Mills fez uma caretinha linda. – Mas legal, embora você tenha passado metade do plantão me chamando pra nada. E o seu? – Ela sorriu do jeito , mas logo olhou o celular, rolando os olhos e o enfiando novamente no bolso. Opa, ela iria me dar atenção exclusiva.
– Foi bom!! – Relevei a alfinetada, levando em consideração que nós dois estávamos cansados do plantão. – Tá indo pra casa? – Apertei de leve as alças da mochila, intencionado a oferecer carona.
– Finalmente! Meu único destino hoje é a minha casa! – Ela movimentou as mãos, cortando todo o meu barato e eu não entendia porque estava tão seca e dura daquele jeito. – Ainda bem que amanhã é folga.
Tapa na minha cara! Cocei a cabeça ainda determinado a convidá-la e suspirei pra começar do zero.
– Onde você mora? – Insisti novamente e soltou uma risada anasalada.
– Eu não preciso de carona, mas obrigada! – Ela mostrou um sorriso tão lindo e meu coração esquentou. Porra, ! – Mas isso foi muito fofo da sua parte, mesmo.
– Eu não me importo. De verdade! – Mordi a boca, ainda receoso com a resposta que ela daria.
, na boa. – suspirou de um jeito que me fez entender que sim, eu estava incomodando. – Eu não estou muito bem hoje. – Ela passou as mãos pelos cabelos encaracolados, parecendo querer sumir ao perceber que estava sendo rude comigo. Enquanto o palerma aqui estava estacado no meio do estacionamento sem saber nem respirar direito. Vire homem seu trouxa! – Desculpa, desculpa! – A mulher agarrou meu braço não querendo me deixar ir embora. – Não é nada com você, eu juro, é que discuti com um Staff hoje e ainda estou com ele entalado na garganta. Me perdoa!
– Eu quem peço desculpas por incomodar, . – Suspirei derrotado, mas a enfermeira não soltava meu braço por nada no mundo.
– Você não incomoda, para! – Eu acho que ela poderia chorar a qualquer momento, só por ter me respondido mal. – A culpa não é sua! Eu não costumo fazer isso, mas o Robinson comeu o meu juízo hoje. Ele não me deixou quieta um minuto e findamos discutindo no meio do bloco! – Ela esfregou os olhos meio saturada. – Então obrigada por me chamar, me ajudou a desviar dele.
– Robinson? – Senti a raiva se apossar do meu cérebro só em saber que aquele verme estava incomodando e ela se limitou a rolar os olhos tão lindos. Eu adorava aquela mulher! – Nesse caso, foi um prazer chamar. – Pisquei galante e ouvi uma das gargalhadas mais incríveis que eu já tinha escutado.
Nós dois estávamos aliviados, definitivamente.
– Eu realmente não quero falar disso. – A instrumentadora do meu chefe segurou as alças da própria mochila, como eu segurava as minhas.
– HÁ! Então você concorda que ele é um ranço? – Soltei astuto a fazendo rir novamente, lembrando perfeitamente do que o Martin tinha dito.
, ! – A mulher me censurou, mas eu sabia que ela concordava comigo. Ninguém gostava daquele cara. Dei de ombros como se não levasse a sério sua repreensão e suspirou de leve, à medida que chegávamos as nossas vagas, coincidentemente paralelas. – Mas onde estávamos?
– Sua folga! – Fui rápido ao me escorar no Mustang. – Um assunto maravilhoso, inclusive!
– Dois dias sem ver esse povo! – A mulher se esticou ao colocar a mochila no bagageiro da moto. – Não foi pessoal! – Ela se adiantou e rimos mais uma vez.
– Relaxa! Não levei pro pessoal! – Respirei a maior quantidade de ar possível, me largando ainda mais na lateral do carro. – ? – Chamei enquanto ela parecia entretida tirando o capacete do suporte, ganhando um olhar curioso que revirou meu peito. – Quer almoçar comigo amanhã? Conheço um restaurante italiano muito bom, e eu já notei que você gosta da culinária italiana. – Eu tinha me dado conta daquilo na hora do almoço quando ela comprou uma massa incrível e ainda se deu ao trabalho de dividir comigo.
Em contrapartida, a instrumentadora mais gata daquele hospital fez uma careta de sofrimento gigantesca.
– Por que você não me chama outro dia? – O bico que se formou nos lábios dela, me fez querer beijá-la até perder o fôlego. – Amanhã eu tenho um compromisso inadiável. – passou mais uma vez, a mão pelos cabelos e suspirei derrotado. Talvez, não fosse pra acontecer de qualquer forma. – Eu paguei caro pelo Kart no Vancouver Motorsport! A gente não pode remarcar esse almoço?
– Pode, pode sim. – Apertei um pouco mais os braços cruzados contra o corpo, mas não gostando nenhum pouco de saber que tinha furado com meu encontro. Sinceramente, um Kart era melhor do que almoçar comigo? – Espera… você disse Kart? – Me animei mais do que o previsto com a minha puta sorte.
– Sim. Por quê? – tinha um brilho lindo nos olhos ao mencionar o Kart, o que me deixou bem mais confortável ainda com meus planos.
Não me contive ao levantar as mãos pro céu escuro das noites de Vancouver e gritar um agradecimento bem zoeiro.
– Obrigado, Deus! – Meu alívio saiu tão desesperado que a fez rir alto. – É muita sorte pra pouco ! – Voltei a olhar para uma mulher linda, que ria tão espontaneamente. – O que você acha de ter companhia no kart? – Propus com um sorriso enorme e esperançoso, vendo aquele deboche maravilhoso dançar nos lábios dela.
– Eu sou competitiva, hein! – Os óculos de grau foram arrumados no rosto em um movimento muito envolvente. Mills, meus caros, Mills.
– Pois somos dois! – Pisquei entrando na mesma onda de sedução, mesmo sabendo que ela mandava muito melhor naquilo. – Minha irmã é piloto reserva da Stock Car, então a gente cresceu nesse meio.
– Mentira! – soltou um gritinho animado e afirmei com o peito estufado. – Que incrível! Médica e piloto! – Mills parecia mesmo muito impressionada e sorri bem orgulhoso. – Quem perder paga o almoço? Nesse tal restaurante que você conhece.
– Agora você tá falando a minha língua! – Eu estava feliz demais em ver que ela estava aceitando o meu convite.
Mas na mesma hora em que minha confiança alcançou altos níveis, ela desceu pelas pernas se esvaindo no chão quando aquela mulher maravilhosa colou o corpo no meu, puxando a malha da minha camiseta pra bem perto dela. Foi o que bastou pra me deixar tremendo as pernas com tanta atitude, não que eu não esperasse aquilo de , na verdade, eu esperava até mais, ela só me pegou desprevenido. Tão desprevenido que precisei concentrar pra não dar merda. Droga, !
– Às 9am. Não se atrase. Eu odeio atrasos. – Ela sussurrou com um sorriso malandro nos lábios, me mantendo completamente na palma das suas mãos. Afirmei com um aceno frenético de cabeça pra disfarçar minha mudez repentina. – Até amanhã então, big boy. – mordeu a própria boca e, em seguida, beijou minha bochecha com força.
Céus, eu ia morrer!
– A-até amanhã, . – Fui idiota ao ponto de responder apenas quando ela tinha se afastado.
A mulher piscou pra mim, sorriu largamente e subiu na moto, provavelmente tomando o rumo de casa enquanto eu praticamente derretia na lataria do carro, parecendo o palerma que eu já tinha sido um dia.

Chapter 4

Quando finalmente chegamos ao estacionamento, rezando pra que meu irmão não tivesse todo irritadinho com a demora. Me deparo com quase escorrendo pela lataria do Mustang que era do papai, assim como meu Benny já tinha sido. Era uma das imagens mais engraçadas ver aquele tapado com cara de lerdo pro nada, tão hilário que fez , andando ao meu lado, gargalhar até perder a voz.
-O que fizeram com seu irmão? – era um dos caras mais legais que eu conhecia, além de ser meu residente, melhor amigo do meu irmão e toda carga pesada que nos impedia de fazer qualquer coisa que fosse extra hospitalar. Ele era gato, não vou negar que pegaria, assim como já tinha pegado outros moços.
-Não faço a mínima ideia. Mas fizeram bem feito! – Mordi os lábios pra tentar não rir, mas era tarde demais, nós entramos em uma crise de riso. – Será que a Sâmires cedeu e beijou ele?
-Acho que ele só ficaria assim pela Mills. – sacudiu a cabeça e tentei me controlar nas risadas, ou ficaríamos sem carona.
-Esqueci que ele tava na dela. – Falei baixo só pro meu amigo escutar e finalmente chegamos onde o homem hipnotizado estava. Que desonra, !
-Demoramos? – O perguntou de uma vez, nos fazendo entender que a coisa era bem pior do que esperávamos. virou com o sorriso mais idiota do mundo, negando com um aceno lento de cabeça pra indicar que não tinha se incomodado com a demora.
-O que houve? Não vai entrar no carro? – Perguntei prendendo mais uma risada e vi meu irmão suspirar, quase enfiando a chave do Mustang no peito do .
-Dirige. Eu não posso! – se pronunciou pela primeira vez após termos chegado e soltei uma risada anasalada, enquanto nos acomodávamos no carro que tinha aceitado a direção de bom grado.
Céus, o que droga tinha feito com ? Se é que ela tinha feito algo, principalmente quando meu irmão era um palerma quando se tratava de garotas. Era sim legal o jeito que ele agia, mas o futuro traumatologista tendia a se apegar demais e aquilo me preocupava a um certo ponto, principalmente quando meu irmão parecia estar apaixonado a um mínimo contato.
-Você não vai me dizer o que aconteceu? – perguntou enquanto passávamos o cinto e me encarava pelo retrovisor, em uma conversa subliminar sobre a Mills ser a causadora daquilo tudo.
-Ah, cara. Eu tenho um encontro com a amanhã! – se largou de um jeito tão, mas tão engraçado que eu e explodimos em risada novamente, quando eu me pendurei na traseira do banco do passageiro, onde meu irmão estava.
-COMO ASSIM, ria junto com a gente da situação.
-NÃO ACREDITO! – O grito do nosso amigo foi imenso. – Caralho, que moleque insistente! – O sacudiu o braço do meu irmão e nós três rimos.
-Foi pura sorte! Foi pura sorte! - parecia inflado demais, mas ainda sorria muito fofo e confesso que fiquei feliz com aquilo, considerando que a Mills não parecia estar com um humor muito legal durante a tarde. - Gente, ela me beijou na bochecha e eu estou tremendo até agora. - A risada dele não poderia ser mais idiota. Eu e xingamos, mas ainda rindo.
-Você é uma desonra, homem! - Sacudi meu irmão, mesmo que feliz por ele e aquela história toda com a instrumentadora do Antunes.
-Que caso perdido, ! - xingou junto, parando na saída do estacionamento do hospital. - Tu é frouxo demais! Não queria tanto? Agora aguenta!
-Ah eu aguento, oh se aguento! - Eu não queria ter identificado tom tão malicioso e nojento na voz do meu irmão, mas infelizmente eu identifiquei. Me restando apenas estapeá-lo em repreensão àquilo.
-Credo, ! - Rolei os olhos, me recostando novamente ao banco de trás do carro, pronta pra mudar daquele assunto. Garanto que não estava preparada pra falar sobre sexo com meu irmão e destruir toda a fantasia dele, que achava que eu ainda era virgem e inocente. - Onde você vai levar ela?
-Então. - A voz dele saiu bem animada. - Eu convidei pra almoçar comigo amanhã em um restaurante italiano. Aquele que o Chris geralmente vai. - explicou e afirmamos com um aceno. - Mas aí ela me disse que amanhã tinha marcado Kart e não podia faltar, foi aí que a sorte caiu sobre mim e óbvio, eu sendo filho do melhor piloto do mundo, irmão da segunda melhor e criado dentro do Vancouver Motorsport, não poderia deixar de mostrar o quanto eu estou inserido nisso.
-É muita sorte pra pouco ! - Eu e falamos juntos e batemos um high five bem desajeitado.
-Mas o negócio é. - se virou completamente pra mim e confesso que bateu medo daquela carinha de psicopata. - Você liberaria o Benny pra mim? Eu não falei nada pra ela sobre isso, mas eu queria muito que fosse um momento legal pra não desistir de mim, sério. Eu preciso mesmo impressionar aquela mulher.
Meu coração encheu de orgulho ao ver tão empolgado com aquele encontro, entendendo que sim, Mills era mesmo importante para meu irmão. Ela não era só mais uma garota que ele queria algo passageiro, estava mesmo tentando prender a mulher com ele. Só me partia o coração lembrar que o Benny estava na assistência técnica por causa do freio e segundo o Chris, precisaríamos refazer toda a parte mecânica do carro pra garantir minha segurança.
-Que droga, . – Soltei um suspiro pesado. – O Chris levou ele pra dar uma olhada no freio, no último treino não estava legal e a gente ficou com medo, pior que eu não sei quando sai. – Me limitei a um muxoxo frustrado, sabendo bem que o Benny era o carro mais conhecido daquele autódromo. E embora quisesse morrer pelo palavrão que soltou, ele sabia que era o certo. – Não pensou no seu carro? – Perguntei sobre o carro que ele tinha treinado durante anos antes de largar tudo e se dedicar apenas a medicina.
-Na verdade, até que sim. – Meu irmão pareceu fazer uma pausa pra pensar sobre. – Mas achei que o Benny estava em melhor estado. – sorriu fechado pelo retrovisor e o abracei pelo banco mesmo, sentindo as mãos do futuro traumato segurar meus braços como se retribuísse o abraço apertado. – Realmente, tem o meu carro e eu acabo sabendo bem melhor com as manias dele. – Uma risada divertida finalmente apareceu, despertando em nós três uns gritinhos animados sobre o futuro encontro do .
Acho que eu e estávamos perdendo um parceiro de bebedeira, ou talvez ganhando mais alguém pro grupo. Eu não sabia, só sabia que amanhã nós precisávamos procurar algo pra fazer, enquanto conquistava sua provável futura esposa.

-x-x-x-
Parei em frente ao Vancouver Motorsport, procurando a entrada do estacionamento e ao mesmo tempo , que me disse que estaria me esperando. O rapaz tinha verdadeiramente me convencido sobre ter sido criado dentro do kart, só me restava tirar a prova quando a gente competisse naquele dia, principalmente porque aquele autódromo me trazia uma das melhores lembranças da minha infância, quando eu havia conhecido meu ídolo das pistas, o Grande B!
Estacionei a Harley em uma das vagas para motos, ajeitei a mochila nas costas e tirei direto para a entrada do lugar, quebrando a cabeça pra tentar entender como raios eu encontraria ali dentro, se não tínhamos sequer trocado o número de telefone. Suspirei colocando os óculos escuros no rosto e empinei o nariz ao perceber que tinha um homem escorado no batente da porta, rezando pra que ele não soltasse qualquer piada e eu não fosse obrigada a apagá-lo ali mesmo. Porque se tinha uma coisa que eu não ia, era levar desaforo pra casa.
-Nossa, não acredito que que você marcou comigo e vai passar reto! - Parei no meio do caminho onde eu estava e virei a cabeça vagarosamente para encontrar um homem e não um garoto, por mais que fosse . Meu Deus, de onde ele tinha saído daquele jeito?
-? – Tomei um gole tão grande de fôlego que meu peito inflou. O que raios tinha acontecido ao residente remelento? Desde quando Dr. parecia tão gostoso com aquele macacão desabotoado e pendendo na cintura? Céus, eu me sentia péssima por desejar tão terrivelmente aquele rapaz, mas se ele tinha me chamado pra um date, alguma coisa ele queria. – Não acredito que é você! – Soltei um gritinho esganiçado, despertando uma risada larga e uma envergadura maravilhosa de braços abertos.
-Claro que sou eu! – Um sorriso imenso se estendia naquelas bochechas vermelhinhas.
-Tudo certo? – Soltei uma risada anasalada e fiquei na ponta dos pés pra beijá-lo na bochecha em um cumprimento mais íntimo. Acabamos por nos abraçar um pouco de mal jeito, mas consegui dar o beijo.
-Melhor agora! – O rapagão piscou e me devolveu o beijo na bochecha, apoiando a mão em minhas costas, por certo pra me guiar lá dentro.
Mas eu não podia não comentar do macacão. Aquilo feria meus valores.
-E esse macacão todo aberto? – Segurei-o pelo cós, puxando o corpo dele pra choque com o meu e vi um par de lindos lábios serem mordidos, enquanto observava nosso tronco colado.
-Não dá pra vir pra pista sem macacão, me mataria! – Ele piscou em uma risada brincalhona, me fazendo achar graça junto.
-Não sei se precisamos de macacão pra correr no Kart, Dr. – Arqueei uma das minhas sobrancelhas, o vendo abrir um sorriso ainda mais brincalhão, que de uma forma que eu não entendia, remexia intensamente com meu interior.
-Por via das dúvidas, a gente não desobedece a pilota. – deu uma piscadinha bem misteriosa e estreitei os olhos, soltando-o do acocho.
-Nem conheço e já considero horrores. – Soltei uma risadinha malandra sobre a irmã dele, que eu sabia ser pilota reserva da NASCAR nas horas vagas. Será que os dois conheciam o Grande B? – Vamos! Eu trouxe um lanchinho na bolsa. – Sorri animada com o Kart. – E ainda precisamos falar com o Mr. Arnald pra ele ver as reservas e liberar os Karts.
-Opa! Comida? – Ele arregalou os olhos claros como se fosse uma criança ansiosa e aproveitou o desabraço pra jogar o braço sob meus ombros. – E eu já resolvi! – piscou com esperteza. QUE AMOR!
-Ai meu Deus, ele chegou antes da hora, me esperou e ainda resolveu a liberação dos Karts. – Soltei um gritinho animado, mas confesso que estava surpresa com a atitude dele em ter “preparado” tudo e forma antecipada. Ali eu entendi que queria dar um valor muito maior do que o normal àquele date.
-Tá vendo como eu presto? – Um sorriso de canto bem convencido se esticou entre aquelas bochechas lindinhas, enquanto andávamos pra algum lugar que eu não fazia ideia de onde era, só sabia que estava indo com ele.
-Sério? – Fiz uma careta imensa pra frase divertida. – Porque eu não presto nenhum pingo! – Abri um sorriso meio presunçoso até, mas, com certeza, tinha o pego de surpresa.
-Não parece um problema pra mim. – reagiu lindamente e quase soltei um gritinho! – Mas me diz, você trouxe comida? E a cantina do autódromo? – Doutor trocou de assunto em uma rapidez imensa.
-Sim, comida saudável! – Soltei uma risada, passando a encara-lo. – Não dá pra viver de salgado de autódromo. A idade não permite. – Fiz uma careta desgostosa, o abraçando também, só que pela cintura.
-Sem essa, . Nós somos novos, ainda dá. – O fofinho piscou. – Quando passar dos 30, a gente começa a pensar em ser saudável.
Oi? Como assim quando chegasse nos 30? realmente não sabia a minha idade. Prendi uma risada estrondosa pela vã fantasia do rapaz sobre eu ter apenas vinte e poucos anos, principalmente quando eu já havia inteirado os 30 anos de vida e já caminhava maravilhosamente para os 31.
-Você não vai ter esse tanquinho pra sempre, não. – Me permiti a liberdade de passar a mão no abdome dele por cima da camisa preta. Inclusive, quem havia dado autorização pra aquele garoto usar uma camiseta que o deixava tão maravilhoso? – Então é melhor cuidar de agora!
-Academia resolve! – A resposta veio tão rápida quanto o beijo que amassou minha bochecha gorda.
-Vamos? – O abracei com um pouco mais de força, feliz em ver a porta que dava para o pit stop do autódromo.
-Primeiro você precisa do macacão. – O rapaz me alertou novamente e o olhei como quem queria dizer que era apenas Kart. – O macacão, ! – A voz dele saiu firme e soltei um senhor suspiro. Que homem! – Eu não vou abrir mão disso!
O tom malicioso velado me fez soltar uma gargalhada estrondosa e estender minha mochila pra que ele segurasse.
-Onde eu me troco? – Me dei por vencida e o garoto comemorou com um punho erguido. – Espero que tenha um macacão que caiba em mim, hein ?
-Claro que tem um macacão pra essa maravilha toda! – Me choquei com a resposta do moleque esperto e deixei meu queixo pender pra baixo, o vendo rir largamente. – Vai lá, ! – apontou para o vestiário.
-Você não vem? – Testei o caráter do futuro traumatologista e ele se limitou a negar com um aceno bem fofo de cabeça.
Entrei no vestiário já bem feliz com o que estava acontecendo aquela manhã, ficando ainda mais feliz quando vi que tinham 3 macacões pendurados no cabide, esperando pra ver qual cabia no meu corpo. Ali eu entendi perfeitamente que não queria ser indelicado por causa do meu peso e estrutura corporal, mas nós dois sabíamos que o maior macacão dali era o que ia me servir. Dito e feito, minha bunda coube direitinho na roupa!
Deixei a calça dobrada em cima da dele e vesti o macacão milionário assim como o de , fechado até a braguilha, deixando as mangas soltas. Me olhei no espelho, encantada com o que eu estava vendo, eu realmente tinha gostado do resultado e queria vestir aquilo mais vezes.
-Deixei minha calça junto com a sua lá. Não tem problema né? – Perguntei ao chegar onde meu date estava, vendo o rapaz abrir a boca algumas vezes, enquanto olhava o resultado da roupa.
-Puta merda. – O xingamento saiu quase inaudível, ele pondo a mão no peito e me olhando dos pés a cabeça.
-Hm? – Olhei pra ele de vez, vendo só negar com um aceno bem rudimentar.
-Nada, nada não. – o suspirou rindo meio desesperado e me estendeu a mão.
-Sim, claro! – Sorri verdadeiramente feliz em poder estar vestindo um macacão daquele e ainda correr no Kart com o . – Mas você pode tirar uma foto minha? Meu avô vai ficar louco! Ele é apaixonado por corridas e... eu só queria uma foto mesmo. – Tentei cortar o assunto família pelo meio, principalmente quando eu não conhecia tanto o ao ponto de abrir minha vida pra ele.
-Claro que sim! – Ele abriu o sorriso muito bonito. – Me dá sua digital! – me estendeu a mão e entreguei a câmera, fazendo uma caretinha de euforia para o primeiro clique. Depois mais uma mostrando o macacão e aí mais outra como se eu estivesse surtando pelo acontecido. Seu Jack iria amar receber aquilo tudo quando eu revelasse e era sempre muito bom receber ligações dos meus velhinhos lindos. – Vem cá! – O garoto me chamou pra uma selfie bem zoeira com ele, resultando em alguns bicos e caretas que marcariam maravilhosamente aquele dia feliz.
-Vem! Eu quero correr! – Agarrei na mão do médico mais fofinho do Saint Paul.
-Calma! – parecia se divertir com minha ansiedade, ao passo que procurava alguém com o olhar. – AUSTIN! – Ele gritou por um rapaz que parecia ser tão novo quanto ele.
-Hey, ! – O rapaz o abraçou de lado, demonstrando que os dois eram amigos há, possivelmente, vários anos. – Bom dia! – Ele me cumprimentou com um sorriso.
-Bom dia! – Respondi ainda concentrada na conversa, percebendo que parecia empolgado e até misterioso.
-Tudo pronto? – Meu acompanhante perguntou, aposto que propositalmente para despertar em mim a mais pura curiosidade.
-Na mais perfeita ordem, Campeão! – O tal Austin piscou para . – O seu carro já está prontinho, espero que vocês não me façam perder o emprego! – O rapaz riu alto, enquanto eu sentia minha alma escapar do corpo, porque se eu bem sabia, a irmã do era piloto reserva da stock car. MAS COMO ASSIM, ELE TINHA UM CARRO? Ele pilotava? Não era um kart? Socorro, parecia ser uma mega máquina de velocidade.
-Ainda corremos o risco, mas vamos torcer pra que tenham misericórdia da sua alma! – Ele piscou pra mim, me apertando de lado no abraço e eu queria gritar, mas me contive. – Valeu, Austin! Dia perfeito!
-Com certeza! Espero vocês lá. – O outro moço também sorriu e após apertar a mão de , se retirou de onde estávamos, me restando apenas arregalar os olhos para o rapaz que me abraçava com tanto fervor.
-A sua irmã é piloto reserva da NASCAR, eu sei. Mas você... tem carro?
Eu juro que esperei a confirmação com meu coração parecendo um tambor de tanto bater forte.
-Tenho e é da Stock, eu treinei um tempo junto com ela, mas findei parando. – Uma piscadinha me fez soltar um grito desafinado. – Então tá disponível pra gente! – sorriu ansioso para provavelmente ver minha reação, que não foi das mais calmas mais uma vez. Eu não acreditava que iria correr em um carro da Stock nas pistas em que meu ÍDOLO de infância, tinha corrido.
Eu perguntava se ele conhecia o Grande B, ou não?
-AI MEU DEUS! – Cobri a boca com as mãos, incrédula com aquela notícia mais do que incrível. era incrível. – SOCORRO. VOCÊ VAI COLOCAR EM MINHAS MÃOS UMA SUPER MAQUINA DE VELOCIDADE!
-VOU! – O rapaz me abriu um sorriso tão iluminado e imenso que... eu suspirei pra não chorar na frente dele. Como infernos aquela criatura estava atingindo meu coração daquele jeito? Estar ali era a melhor coisa do mundo, me levava de volta a memórias maravilhosas da minha vida.
-O meu avô vai surtar! Surtar quando eu contar tudinho! – Tentei expressar minha emoção por meio daquele rolo de palavras desconexas, não me restando muita opção a não ser pular no pescoço dele, o abraçando com uma força e gratidão imensa. Em contra partida, soltou uma risada divertida e satisfeita, me abraçando com força de volta. – Obrigada! – Agradeci com todo o meu coração, enquanto enfiada no pescoço do garoto e na ponta dos pés, me fazendo pensar em como eu odiava que ele fosse tão alto, porém, dependia. – Definitivamente, . Você não existe! – Soltei um gritinho quando ele me tirou do chão. Confesso que não esperei aquilo, principalmente pelo meu peso bem mais elevado que a média.
Não esperei muito para aproveitar que estávamos no mesmo nível de altura e tascar o maior beijo no garoto. Segurei o rosto dele entre minhas mãos e sem pedir licença, puxei a cabeça do de encontro a minha, finalmente tendo espaço para beijar aqueles lábios convidativos que já vinham me instigando há um certo tempo. Ele pareceu meio estacado com minha atitude repentina, demorando alguns segundos pra devolver toda aquela volúpia com que o beijava, logo percebi um par de mãos grandes agarrar minha cintura com força, à medida que o rapaz inclinava o tronco sob o meu, tentando acabar com nossa diferença de altura. enfiou a língua na minha boca, enquanto nossos narizes pareciam procurar uma posição confortável que nos deixasse beijar em paz, embora isso tenha feito com o que o óculos escuro dele quase caísse. Aproveitei o momento que enfiava as mãos entre seus cabelos e o tirei de vez, dando mais espaço e liberdade pra que aproveitássemos cada pedacinho um da boca do outro.
O sol batia forte na nossa pele, esquentando ainda mais o ar de beijo no meio da pista do Vancouver Motorsport e algo no meu íntimo, no íntimo do meu cérebro, gritava que beijar alguém no meio de um autódromo não era algo que seria passageiro. Ou aquele garoto me daria muito trabalho, ou eu daria muito trabalho a ele. Restava-me saber em qual sentido.
-Obrigada. – Suspirei distribuindo beijinhos nos lábios dele, tentando respirar de forma decente. – De verdade! – Abri os olhos para ver que ele continuava com uma expressão engraçada de quem estava sonhando. Ai, , você me matava!
-Se eu soubesse que ia ganhar esse beijo... – abriu um sorriso idiota, enquanto mordia os próprios lábios. – Eu tinha te chamado pro autódromo bem antes! – O balançar de cabeça bem convicto, me fez soltar uma gargalhada estrondosa, sentindo mais uma vez, o apertar meu corpo contra o dele. Aproveitei para abraça-lo pelo pescoço de novo, rindo da carinha de lerdo.
-Talvez não. – Enruguei o nariz, fazendo uma careta de leve. – Ou talvez sim. – Pisquei e o beijei novamente, ainda com os braços ao redor do pescoço do . Era engraçado o jeito que ele reagia a cada aproximação do nosso corpo. Eu não queria rir, mas eu ri.
-Não ri, ! – O garoto reclamou, mas ria junto comigo e mantinha um dos sorrisos mais largos que eu já tinha visto na minha vida. Chegava a me ofuscar com os dentes claros. – Eu estou tremendo, cara! – Gargalhamos.
-Se eu soubesse que seu beijo era tão bom, eu tinha te beijado antes. – Saquei de forma astuta, o beijando mais uma vez e o rapaz suspirou contente.
-Você vai dirigir, eu não quero bater o carro. – beijou minha bochecha, deixando o nariz enfiado por lá alguns segundos e aproveitei para abraça-lo pela cintura, na intenção de esperar que o tal tremor fosse embora.
-Você vai ter coragem de entregar em minhas mãos? – Perguntei rindo ao sentir ele praticamente enfiar o rosto no meu, embora também tenha despertado a risada mais espontânea em , à medida que ele procurava minha mão com o óculos escuro.
-Sim! – O tom sapeca me atingiu de forma divertida e o sacolejei de leve ao ver tamanha atitude envolvente em pôr apenas um óculos no rosto.
Ri baixo e senti mais um beijo apertado na bochecha, o apertando com força entre meus braços. finalmente levantou a cabeça e sorriu após beijar a minha testa em um gesto que eu não esperava. Ele suspirou parecendo aliviado e jogou o braço sobre meus ombros, quando a gente começou andar para o pit stop da equipe.
-A gente pode dar uma volta pra eu conhecer a pista primeiro? Eu lembro que reformaram o autódromo há alguns meses.
-Claro. Como você quiser. – O garoto piscou com um sorriso bonito e me empolguei mais ainda. Eu ia pilotar um carro da Stock car, cara!
-Valeu, de novo! – Soltei mais um gritinho esganiçado. – Melhor folga eu não consigo imaginar! – Me agitei nas comemorações e ouvi uma risadinha marota por parte dele.
-Faltou uma parte do agradecimento. – piscou ao se referir ao beijo e repousei a mão no peito como se aquilo fosse um absurdo. Acabamos por achar graça.
-Eu não vou tomar as iniciativas sempre, moço! – Rebati a frase com um sorriso tão maroto quanto e rapidamente senti meu corpo ser suspenso no ar, à medida que mais um beijo glorioso tomava a minha boca.
Eu estava mole e sem qualquer ação para aquilo, no entanto, abracei mais uma vez o pescoço dele, sentindo as mãos de afundarem na minha cintura assim que fiquei novamente na postura ereta. O mordi de leve nos lábios, ouvindo um suspiro alto e de desespero.
-Na boa, . Vamos logo antes que você me mate. – O garoto suspirou derrotado e agarrou minha mão, enquanto andávamos apressados pela pista. Na verdade, eu poderia considerar aquilo como uma corrida que me deixaria cansada e ofegante. Santo sedentarismo!
O pit stop era o sonho real e possível na minha vida, que estava realizando. Eu nunca iria entender de fato a minha alucinação por corridas, mas ela vinha desde que o meu avô tinha me apresentado ao mundo dos carros e tratores quando eu tinha 4 anos. Eu era quase um moleque e grande parte da minha família acreditava que eu continuaria sendo até a idade adulta.
O local era simplesmente incrível e senti meu coração bater fora do ritmo ao ver o carro estacionado, ainda sem acreditar que eu entraria naquela máquina e ainda iria dirigir, segundo . Mordi a boca tentando conter minha euforia pra entrar nele e explorar o máximo que eu pudesse.
-Gostou? – A carinha ansiosa me fez quase agarra-lo novamente, embora eu prezasse pelo respeito a enorme equipe que estava ali.
-SE EU GOSTEI? – Meu desafino foi inevitável ao arregalar os olhos para o rapaz. Ele estava com um sorriso imensamente lindo e largo. – Eu estou vivendo um sonho, cara!
Não esperei muito pra soltar do e quase agarrar o carro no colo, eu parecia uma criança vendo um brinquedo que queria muito, muito, muito ao ver aquele Mitsubishi Lancer amarelo queimado com preto a minha frente. Soltei uma risada nervosa de imaginar que corria com ele e quase enfiei o rosto no vidro para ver o interior do carro, ouvindo a gargalhada animada do rapaz.
Sem mais demoras, entramos avidamente no carro e ele me cedeu o lado do motorista de muito bom grado, ainda que portasse uma expressão um pouco preocupada ou até receosa. Eu juro que não queria rir, mas acabei rindo enquanto me ajudava a afivelar um cinto que mais parecia de montanha russa, como se quisesse assegurar que eu estava bem firme e segura no banco. Aquele foi um dos tais momentos em que eu queria morder aquela criaturinha inteira, principalmente depois do sorrisinho varador de bochechas que o rapaz me lançou acompanhado de um beijo surpresa.
Algumas instruções sobre a direção, câmbio e os pedais me foram passadas, enquanto ouvia bem atenta tudinho que o futuro traumato tinha a me dizer me dando ainda mais certeza de que se ele tivesse continuado na corrida, seria um incrível piloto. Depois das instruções dadas e tão bem afivelado no banco quanto eu, a primeira volta foi uma das mais cheias de adrenalina da minha vida, não era possivel explicar aquela sensação que tomava todas as minhas células enquanto a gente soltava gritinhos a cada curva completada por mim. EU ESTAVA SEGURANDO AQUELE VOLANTE! Ainda que não usasse um terço da velocidade adequada para aquelas pistas. Mas confesso que a coisa mudou de figura assim que trocamos de lugar e o garoto tomou a direção de mim.
era insano nas pistas, ele era completamente louco a cada vez que pisava ainda mais no acelerador e eu só conseguia ver as arquibancadas como um borrão, meu coração estava quase saindo pela boca de tanta emoção no peito e a cada troca de macha, eu sentia aquele carro praticamente voar com nós dois dentro. O medo estava equiparado a minha alegria e confesso que entrei em uma crise de riso de desespero assim que ultrapassamos a marca de chegada em menos de um minuto.
Nem de longe eu ganharia aquela corrida de Kart!
-AI.MEU.DEUS! – Soltei um grito pausado e ofegante. – VOCÊ É LOUCO! – Arregalei ainda mais os olhos, ouvindo a gargalhada completamente satisfeita do , à medida que o semblante dele me dizia que aquilo não era nada perto do que costumava fazer. Eu poderia morrer de um infarto, mas estava eufórica com a imagem do perigo estampada na cara de um rapaz tão mais novo.
Ele soltou o próprio cinto e em um movimento rápido, virou o corpo contra o meu em um beijo despudorado que estava me fazendo entrar em desespero por não conseguir soltar a merda do cinto de segurança. Agarrei o rosto dele entre as mãos, à medida que se inclinava ainda mais para o meu lado do banco, se apoiando no pequeno espaço lateral do estofado e quase agarrando minha coxa pela proximidade. Não entendi porque ele não o fez, mas não contei conversa ao movimentar a mão dele e espalma-la na minha perna, finalmente ganhando o contato que eu queria quando encheu a mão para aperta-la. O que eu poderia fazer se a velocidade era excitante?

THE YEAR THAT WE FELL IN LOVE

Chapter 5


Já era mais de 5pm quando estávamos saindo do autódromo, eu em uma felicidade sem tamanho por um dia tão incrível e exatamente da mesma forma, algo que ela tinha me confidenciado mais cedo, enquanto comíamos uma das melhores massas daquele país. A mulher era realmente incrível em todos os sentidos, me deixando ansioso por viver mais momentos insanos ao lado dela, principalmente quando o dia não conseguia ser resumido em uma única expressão ou palavra. Você era um puta cara sortudo, !
– Você ressignificou a folga pra mim! – Ela abriu um sorriso imenso, à medida que jogava a chave da moto pra cima, me arrancando um sorriso bobalhão.
– Fico feliz, ! – Suspirei realmente contente com a declaração dela. – Próxima vez que as nossas folgas coincidirem, a gente pode marcar de novo! – Já garantindo o meu espaço mais uma vez, convidei-a novamente a voltar no Vancouver Motorsport.
– A gente pode vir aqui de novo? – Ela me arregalou os lindos olhos claros e acenei que sim. – Pois sem sombra de dúvidas, voltaremos! Eu voltei a minha infância! – soltou um gritinho animado e não me contive. Na verdade, eu não queria me conter. Abracei-a com força de lado, ganhando um par de braços me abraçando também. – Sabe outra coisa que eu amei de paixão?
– Eu? – Perguntei com o peito inflado e ainda que zoasse, queria que ela afirmasse. Minha resposta foi uma gargalhada estrondosa.
– O almoço! A comida mais precisamente…
– Aff, jurava que era eu! – Eu sei que fui mal educado em interromper a fala dela, mas não podia deixar a brincadeira passar despercebido. Ela riu! Ela tinha rido de uma forma linda e deixado meu coração batendo forte no peito. Nossa, !
– Eu sou uma boa amante de massas e do tempero italiano. Gostei muito da comida! – me soltou e parecia procurar a chave da moto dentro da mochila.
– Ponto pra mim! – Comemorei o fato de ela ter adorado tanto o almoço.
– Ponto pra você! – A mulher riu lindamente mais uma vez. – Vai marcando num caderninho! – tinha zoado com as minhas reações sem um pingo de vergonha na cara e, ao invés de eu rebater, apenas abri um sorriso culpado por aquela bobeira. Condenatório, eu diria! Experiência com relacionamentos não era exatamente o meu forte, mas parecia ser o dela. – Para com isso!
– Você me deixa nervoso, eu não tenho culpa. – Dei de ombros e enfiei as mãos nos bolsos frontais da calça. Não acreditava que aquele dia estava mesmo acabando.
– O que foi que eu fiz pra te deixar nervoso assim, menino? – Ela pendurou a mochila no guidão da Harley e achou graça da minha confissão em ficar nervoso perto dela. Embora eu não gostasse quando me chamava de garoto, menino, moleque e afins. Eu não era criança!
– Me agarrou, Mills! – O esganiço mais fingido saiu da minha boca, fazendo-a rir como se aquela fosse a acusação mais ousada e sem sentido do mundo. Eu adorava uma mulher. – Aquele carro nunca mais será o mesmo, minha cara, nunca mais! – Estiquei o indicador, ouvindo a risada satisfeita de quem adorava me ver perdido, sem jeito e vermelho perto dela, algo que tinha mais recorrência do que eu desejava.
– Velocidade! A velocidade me deixa assim! – Mills fez um bico de dengo gigantesco, me restando apenas segurar meus instintos e não a beijar desesperadamente ali.
– É ótimo saber disso! – Respirei fundo e cocei a cabeça, esperando que ela me desse mais um pé de conversa, ou chamasse pra tomar uma cerveja, sei lá. Me pedisse uma mísera carona. Eu só queria mais um tempo com aquela mulher maravilhosa e gritaria no meio da pista se fosse a condição pra conseguir.
– Preciso ir! – Eu acho que estava ficando louco, mas a expressão dela parecia meio desgostosa. se apoiou na minha cintura com as mãos pequenas, mostrando que queria ao menos um beijinho de despedida.
Não demorei muito pra abraça-la pela cintura com os dois braços, suspendendo aquele mulherão pra que eu pudesse beija-la de verdade. Um beijo marcado que a deixaria querendo mais, eu esperava que sim. Eu sei que eu já queria beijar ela mais e mais vezes, mas também pretendia deixar com aquela mesma vontade. Beijei sentindo os dedos dela se enfiarem nas minhas costas como se aquilo a fizesse tomar o controle da situação e pelo pouco que eu tinha visto, ela adorava estar no controle de todas as situações. Baixei a postura voltando a colocá-la de pés no chão e foi aí que senti as unhas curtas de se agarrarem aos cabelos da minha nuca, não restando opção a não ser aperta-la ainda mais contra meu corpo.
Segurei o rosto dela ao distribuir alguns beijinhos sugados e ouvi um suspiro satisfeito, combinado a uma expressão maravilhosa de satisfação. Eu nem queria, mas abri um sorriso imensamente largo e dei um beijinho perto da orelha dela, ouvindo uma risada espontânea.
– Gosto mais assim. – O sussurro veio sem demora bem rente ao meu ouvido e seguido de uma mordidinha bem filha da puta, me fazendo arrepiar inteiro. era mestre em revidar o que quer que eu fizesse.
– Fico bem dividido. – Soltei uma risada anasalada e beijamos mais uma vez, dessa com mais cara de despedida.
– Te vejo amanhã? – umedeceu os lábios e sorri sem nem me sentir, algo involuntário que estava tomando meu coração bobo.
– Você querendo, até hoje! – Pisquei ao tentar ser galante e a Mills me arqueou a sobrancelha.
– Acho que já te vi demais por hoje!
BOLA FORA, ! Mesmo que eu soubesse que era a mais pura zoeira pelo tom de voz divertido dela em querer cortar minhas asas.
– Isso mesmo, Mills. Desdenha! – Enfiei as mãos nos bolsos frontais da calça enquanto via a mulher subir na moto.
– Nunca ouviu o ditado? – Ela sorriu esperta e eu juro que inflei muito o peito e confesso que foi bem visível, porque ela notou. – Isso mesmo, ! Mata o menino inflado! – Nós dois rimos e me atrevi a beijá-la mais uma vez, uma despedida realmente. – Obrigada por hoje, . Foi realmente um dia muito incrível! – Eu juro que não queria ter sentido nada em ouvir ela me chamando pelo apelido, algo que pouca gente fazia, só quem tinha me visto crescer realmente, mas eu queria explodir com tanta intimidade. Eu nem sabia se era, mas queria mesmo assim! – Posso te chamar de , né?
– Claro, claro! Pode sim! – Mexi as mãos dentro dos bolsos, me impedindo de gritar ali mesmo. – Eu também adorei e agradeço a companhia! Já falei, quando quiser competir, é só me falar! – Pisquei e senti meu estômago revirar quando me dei conta que tinha trocado “repetir” por “competir”. Que droga, !
Ela soltou uma risada incrível, à medida que afivelava a mochila no corpo pra ela não cair enquanto pilotava a moto e me dei por vencido, rindo junto.
– Competir qual companhia agrada mais? – TOUCHDOWN, ! UM BELO TOUCHDOWN PRA VOCÊ GAROTO. – Ou nas pistas? Porque se for nas pistas eu vou comer poeira!
Claro que não ia, . Eu perderia qualquer corrida pra ganhar você!
– Que nada, mulher, eu te ensino! – Pisquei extremamente inflado com a conversa que pendia bem pro meu lado. – Ou melhor, a . Ela é quase profissional! – Exaltei a verdadeira pilota lá de casa e ganhei a maior cara de indignação que já tinha visto.
, você não tá muito longe disso. Você parece um corredor nato e eu só vi um cara assim na minha vida. – me ralhou como se eu fosse um moleque, mais uma vez naquele dia. Voltou à estaca zero, cara! Era assim que eu me sentia sempre que ela me chamava ou me tratava que nem um fedelho. Qual era o meu problema?
– Isso porque você não conhece ela ainda! – Insisti sobre toda a experiência de , que com certeza era bem maior e mais segura que a minha. Eu tendia a ser meio irresponsável quando pegava no volante da Stock e por causa daquilo, tinha realmente desistido pra me dedicar somente a medicina, deixando a direção com cautela pra .
– Tudo bem! – levantou as mãos em rendição e dei de ombros. – Já percebi que temos um fanboy da irmã por aqui!
– Número um! – Pisquei.
– Preciso ir. Bye! – Ela sorriu e me mandou um beijo alado, despertando em mim o mesmo reflexo de mandar beijo e logo a mulher varou o estacionamento, me deixando derretido, animado e eufórico ao mesmo tempo. Só queria poder gritar no meio daquele estacionamento que eu finalmente tinha conseguido segurar um encontro com uma mulher de verdade.
Na impossibilidade de berrar e passar vergonha, mandei mensagem de texto para meus fiéis escudeiros. SMS era realmente a melhor invenção da época, principalmente por ser uma forma melhor de se comunicar com as pessoas sem precisar estar ligando. Selecionei os dois números, da minha irmã e do , depois enviei uma mensagem.
Para: ;
O encontro foi um sucesso \õ/

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Cheguei em casa destruída depois de passar o dia na pista, tinha sido realmente incrível e divertido conhecer fora do hospital e do posto de garoto que não me deixava quieta. Ok, talvez eu tivesse sido cruel de início e ele era um cara legal, portanto não me arrependia de tê-lo beijado de uma vez, algo bem recorrente quando as personalidades se revelavam extremamente babacas.
Liguei meu micro system na estação de rádio que tocava os mais variados tipos de música e fui conferir se tinha alguma ligação na secretária eletrônica. Eu nem sei porque ainda mantinha um telefone fixo em casa se andava com um celular e um pager pra cima e pra baixo, lembrando bem que meus avós ainda não tinham aderido as novas tecnologias e sempre me ligavam no fixo. Porém, minha maior surpresa naquele dia foi ouvir uma gravação da Adrienne Di Angeli me xingando até a última geração por não ter atendido a ligação dela. Soltei uma gargalhada e tratei de retornar pelo celular mesmo.
– Onde você esteve o dia todo? – Ouvi a reclamação estridente de Adrie ao telefone e abri um sorriso trincado, mesmo que ela não pudesse ver.
– Desculpa, Adrie! – Me joguei na cama de casal, ouvindo minha melhor amiga bufar que eu não podia sumir desse jeito. – Eu passei o dia no Vancouver Motorsport, acabei nem dando atenção ao celular. Desculpa!
Você não pode fazer isso e me trocar por um cara qualquer, Mills! – A reclamação dela veio cheia de deboche e findamos rindo alto. – Antes que você se desespere, não aconteceu nada, eu só tinha ligado pra conversar mesmo. Aí você me desesperou por ter sumido.
Soltei uma risadinha de deboche e a ouvi bufar. Adrienne tinha ficado extremamente pegajosa depois de parir o Greg, se ela já achava que podia cuidar de mim como se fosse a Nora, naquele exato momento ela estava pior.
– Eu não te troquei por um cara qualquer! – Soltei em uma indignação bem construída. – Eu te troquei por um autódromo, é completamente diferente!
Vaca!
– Olha a boca suja perto da criança, Di Angeli! – Reclamei e só ouvi ela me xingar ainda mais. – QUE HORRÍVEL! Eu vou lavar sua boca com sabão se o Greg começar falar essas coisas horríveis, tenha modos!
Vai à merda! – Ela foi mais específica com o destino e rimos mais uma vez. – Mas me conta com quem você saiu dessa vez. Aquela criatura de novo?
Fiz uma careta de desgosto.
– O quê? Não, claro que não. Aquele lá eu larguei, nem o sexo estava me agradando mais. – Mordi a boca esperando que Adrienne entendesse de vez o meu ponto e a gargalhada quase me fez ficar surda, enquanto ela xingava o estorvo da neurocirurgia de broxa. Eu amava uma amiga!
Ele é amigo do Mario.
– Por isso não presta! – Soltei um berro estridente e a ouvi me chamar de idiota. Eu não podia fazer nada se amava a Adrie, mas o marido dela não me descia. Só que não era a mim quem ele precisava agradar, então eu me mantinha quieta em grande parte das vezes. – Eu estava com um residente.
PORRA, ! Você tá virando professora de creche agora? Saindo com garotos? Qual o seu problema? – Eu odiava quando Adrienne tinha razão, odiava tanto que me limitei a rir junto com ela.
– Ele estava no meu pé, eu não quis dizer um não! E você não tá numa situação muito diferente, querida amiga, se eu bem me lembro tinha um garoto de 17 anos apaixonado por você.
O que é totalmente diferente e até preocupante, sem falar que isso faz uns três anos. Eu não tive qualquer contato desse tipo com ele. Então reitero que a papa anjo daqui é você. – Bufei. Eu odiava ela. – Interno?
Ela perguntou sobre o e respirei fundo.
– Residente do segundo ano, acho. – Mordi a boca já esperando mais uma onda de zoações nas minhas costas, como aconteceu assim que fechei minha boca grande.
Seu residente? – Juro que a voz dela tinha um receio imenso como se eu tivesse me aproveitado sexualmente de alguém. Das duas uma, ou minha imagem estava realmente fodida na cabeça da Adrie, ou minha postura não era das melhores em relação a sexo.
– Claro que não, Adrie. Ele é residente do Antunes. – Bufei ponderando se realmente tinha sido a melhor escolha me envolver com . – E nem é tão novo assim e foi só uma tarde.
Eu não estou te censurando por isso, só não quero que você se meta em roubadas por causa do sonho de ser mãe. – Ela tomou fôlego e suspirei tentando concordar com aquilo, embora eu já estivesse passando do tempo de ter uma gravidez perfeita. – Você vai encontrar o momento certo pra isso e o cara certo também, seja físico ou por inseminação. Confia em mim!
– Eu sei, Adrie. – Ri baixo com a declaração dela, sabendo que de algum modo ela nunca iria entender toda minha frustração, ela era casada e tinha um filho lindo. Eu solteira, com uma fama enorme e sem um cara decente em vista. – Eu preciso arrumar a bagunça que tá meu apartamento, a gente se fala depois, pode ser? Dá um beijo no Greg por mim!
Claro, claro! Podemos sim e eu dou o beijo nele. – Minha amiga riu e nos despedimos com um barulho de beijo.
Larguei o telefone na cama e fiquei como uma estrela do mar, sem saber exatamente quando minha vida tomaria um rumo diferente daquele. Será que eu ia conseguir ser mãe antes de desistir do sonho?

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Já fazia quase uma semana que eu a estávamos saindo, ficando… na verdade, trocávamos mensagens mesmo que curtas ou zoando algo que tinha virado uma piada interna, nos víamos todo santo dia, mas sem tempo de ter qualquer contato que não fosse uns beijos bem mal dados. O que fodia ainda mais os nossos encontros era o fato de estarmos com plantões completamente contrários aquela semana, então quando ela estava entrando, eu estava saindo ou bem perto disso. Confesso que estava ficando louco por não ter um contato maior, um beijo mais intenso, um amasso ou qualquer coisa que fizesse a gente se encostar por mais de dois segundos.
Poderia ser loucura, mas eu daria um jeito naquilo e logo. Não aguentava mais ver exames, pacientes e pranchetas a minha frente quando sabia que meu sonho de adolescente estava com uma terrível cara de tédio atrás do balcão do bloco cirúrgico.
Não deixe a moça entediada, , tenha modos!
Era o que impulsionava a fazer o que tinha em mente.
Cheguei por trás de fininho, enquanto ela checava as evoluções, acho, e rapidamente coloquei a boca perto do ouvido da .
– Oi, linda! – Sussurrei ao me apoiar no balcão com ela entre meus braços e gloriosamente fiz a mulher bater com o corpo no meu, além da pele toda arrepiada no pescoço. BOA, ! Dei um beijinho embaixo da orelha e ouvi soltar uma risada satisfeita, virando o rosto pra me olhar.
– Hey, menino atrevido! – Ela fez questão de encostar ainda mais o corpo no meu, a bunda inclusive. E que bunda!
– Te vi tão mergulhada em tédio que me deu vontade de ajudar um pouquinho. – Esgueirei ainda mais o nariz no fim do pescoço dela, começando a entrar pela gola do scrub, ouvindo um suspiro em concordância.
-Aprecio muito sua prestatividade, sweet boy. – falou como se fosse melodia e mordeu de leve a minha bochecha. – Mas no meio do bloco não dá. Então sugiro que você vá trabalhar! – Ela piscou pra mim enquanto recolhia um envelope amarelo em cima da bancada. Parecia ser um daqueles que a gente recebe quando vai buscar as fotos reveladas. Será que eram as do sábado?
Trabalhar? Quê? Eu juro que não tinha entendido a situação. Ela parecia mesmo estar gostando, por que tinha me mandado trabalhar? Todo mundo se pegava dentro daquele hospital. O descanso parecia um motel, então por que eu tinha que ir trabalhar?
-Oi? – Dei um passo pra trás bem incrédulo com as atitudes dela. O que eu tinha feito de errado? Confuso, era o que eu estava, confuso pra caramba e me sentindo um imbecil por não conseguir decifrar o olhar óbvio da incrível mulher expressiva a minha frente. – E-eu fiz alguma coisa de errado? – arregalei de leve os olhos, prendendo o envelope dela no balcão antes que fosse embora.
-Trabalhar, . – Ela arregalou ainda mais os olhos cor de mel, mas daquela vez parecia querer me matar por ser burro, ou lerdo. Lerdo eu achava menos agressivo. – Você tem uma porrada de acesso central pra fazer nesse andar junto com seus internos. Precisamos pegar os pacotes! – piscou pra mim com um sorriso de canto dançando nos lábios e eu finalmente tinha entendido.
– Okay! Sim, claro! – Soltei de vez o envelope, sem acreditar no que a gente ia fazer. Você é um filho da puta sortudo, !
Puxei o fôlego assim que cruzei os braços na altura do peito, vendo aquela mulher maravilhosa praticamente pular indo em direção ao depósito. Por que eu não fui junto? Ela precisava ganhar tempo! Nós dois não podíamos entrar juntos no lugar. Ou podíamos? Droga, será que eu tinha feito bosta? Ela tinha entendido que eu ia né? Não contei conversa em me apressar pra acompanhar .
Quase tropecei nos próprios pés pra conseguir chegar onde ela estava, ainda correndo o risco de sermos pegos antes mesmo de começar a brincadeira. O depósito de materiais do bloco cirúrgico era disposto da seguinte forma: várias estantes de ferro faziam um cômodo gigantesco ficar dividido em vários corredores e categorias, de um lado vários materiais descartáveis, do outro os que passavam pela esterilização química, ionizante e a vapor, todos fechados em pacotes estéreis na mesma ala. Procurei com a vista, enquanto fechava a porta sem fazer o menor barulho e cocei a cabeça sem muita paciência ou tempo, principalmente quando poderiam nos bipar a qualquer momento e foder com nossa alegria.
? – Gritei meio sussurrado, esticando a cabeça pra ver melhor entre as prateleiras. Eu sentia o coração na mão e o estômago no chão, se eu não estivesse tão ferrado, vomitaria ali mesmo. Meti a mão no bolso e desliguei o pager, garantindo que não seria perturbado por ninguém e antes que eu pudesse procura-la mais uma vez, agarrou minha mão.
Não foi questão de minutos até estarmos agarrados em um dos cantos, enquanto eu prendia contra a parede e ajudando-a a se apoiar em um dos apoios que tinha ali. Não sei se era caixa, móvel ou equipamento, eu sei que estávamos prestes a derrubar as prateleiras de tanto desespero pra finalmente sentir um a língua do outro.
enfiou as mãos por dentro da camisa que eu usava por baixo do scrub e respirei fundo, tentado a fazer o mesmo com ela, porém receoso de ser repelido como se tivesse passando dos limites. Agarrei-a ainda mais pela cintura, quase ao ponto de conseguir enfiar os dedos através da blusa vinho e ouvi uma risada divertida. Ela estava rindo de mim? A mulher afastou um pouco a postura e capturou meu lábio inferior com os dentes, abrindo aquele sorriso sacana que eu só tinha visto no autódromo no outro dia. Das duas uma, ou ela ia me zoar, ou me fazer sofrer com aquela sensualidade toda.
-Tá com medo, ? – Ela apertou meus ombros com as unhas e esbocei toda a minha cara de pavor. Merda! Por que eu ficava feito um moleque virgem perto dela? Óbvio que virgem eu não era, mas aquela mulher despertava em mim o pior dos instintos pueris.
-O-oi? – Me praguejei por ter gaguejado e o sorriso dela brincou divertido. Óbvio, ela dizia que adorava me ver perdido. – M-medo? Claro que não!
-Pode tocar em mim, bobo? – mordeu os próprios lábios rentes aos meus e confesso que demorei uns segundos pra processar as informações. Meu Deus, ela queria que eu passasse a mão nela? Óbvio que queria, ! Vocês estão no maior amasso. – Você tá com medo de que? Eu não mordo… – Outro sorriso que me desmontava inteiro e me deixava potencialmente excitado. – Só se você deixar… – Ok, quem eu estava enganando? Ela me deixava louco.
-Eu-eu não quero passar dos limites, . Não quero que você ache que eu quero me aproveitar das situações e…
Eu fui calado com um beijo, um puta beijo gostoso e safado. Eu ia seriamente explodir dentro das calças e a culpa era dela, única e exclusivamente dela. Colei ainda mais nosso corpo naquele infeliz lugar apertado, enquanto sentia a sensação gostosa de proibido me fazer rendido àquela mulher incrível que parecia não querer sossegar até me ver em uma situação deplorável. Como se precisasse de mais do que aquilo pra isso! Senti uma das mãos dela subir por meu pescoço, algo que me eriçou inteiro e a outra descer na mesma delicadeza por meu braço, se eu não estava ficando louco, procurava minha mão que apertava a sua cintura.
Uma ansiedade gostosa se apossou de mim só em lembrar o que tinha acontecido dentro do meu carro de corrida no nosso último encontro. E a imagem de tê-la me fazendo tocar em seu corpo era algo que me excitava ainda mais, tanto que a vi soltar uma risadinha sacana por sentir. Boa, seu descontrolado! Eu era um tapado mesmo!
– Respira. – O sussurro surgiu rente aos meus lábios e instintivamente suspirei, enquanto ainda estávamos tão mais colados do que antes. Eu só queria sentir aqueles lábios nos meus de novo. – Eu vou te ensinar quais são meus limites. – encostou o nariz na minha bochecha e sem qualquer esforço, fez com que eu soltasse sua cintura.
A ansiedade que reinava em mim só diminuiu quando ela pousou minha mão em sua coxa, um território já bem conhecido. E junto com um beijo sugado no canto da minha boca, disse:
-Aqui você já conhece. Pode apertar! – O sopro quase me fez gemer ao fazer o que tinha sido me pedido. O descontrole me tomava ainda mais, principalmente quando apertava minha mão e me incentivava a aperta-la ainda mais. – É tão gostosinho te ver impactado assim!
Soltei uma risada desesperada e lambi de leve os lábios dela.
– Você que é gostosa, mulher! – Boa, !
– Obrigada! – A instrumentadora do meu chefe sorriu satisfeita e subiu ainda mais a minha mão, me deixando tatear toda a sua coxa grossa por cima da infeliz calça, mas ao menos era alguma coisa. Eu estava afobado demais em tentar entender onde aquela situação toda iria nos levar, até que entendi bem quando minha mão aberta não abarcou a bunda dela. Sinceramente? Eu estava completamente apaixonado por aquela mulher! Eu já sabia o que fazer, , não precisava segurar minha mão! – Essa é a minha bunda e você pode pôr a mão aí também! – Um sorrisinho divertido e provocador dançou nos lábios chamativos. Tomei a liberdade de apertar de leve e sentindo os dedos dela se entrelaçarem ainda mais na minha nuca, soltei um fio de gemido pela força que ela puxou meus cabelos. – Gostou né? – A risada sacana me fez rir junto e nos beijamos novamente, dessa vez bem mais cheios de mãos e apertos.
– Você tão escrachada assim? Me sinto privilegiado. – Sussurrei ao passar o nariz embaixo da orelha dela e quase vi estrelas quando a mulher apertou as pernas ao meu redor. Eu adorava , de verdade!
– Você vai ver agora o que é privilégio! – O tom usado foi bem safado e o suspiro que a mulher tinha soltado só confirmava ainda mais o meu pensamento de que ela sorria sapeca.
Logo minha mão foi guiada novamente em seu corpo, agora subindo as curvas mais volumosas e maravilhosas que eu já tinha visto, ou sentido, em toda a minha vida. Eu tinha um certo palpite de pra onde ela iria, mas estava amando descobrir e confirmar a cada vez que minha mão só subia mais.
– Pode se sentir privilegiado. – A resposta sapeca e o local que a minha mão estava me fez levantar a cabeça de uma vez só pra ter certeza. Puta que pariu, eu estava com a mão no seio dela. era louca, mas caralho, eu adorava ela!
Abri a boca mais de uma vez pra tentar responder, mas nada saía além do ar rarefeito de quem estava quase infartando com a atitude de uma das mulheres mais incríveis que eu tinha conhecido em toda a minha vida.
? – Uma voz grave até meio autoritária ressoou por dentro do depósito de materiais e se eu não tivesse certeza de que era o Antunes, eu não tinha largado dela. Mas o pulo que demos depois do chamado teria sido engraçado em outra ocasião. Ela passou a mão na roupa ajeitando a própria postura e enfiou um pacote estéril no meu peito, enquanto eu continuava parado feito um palerma sem saber exatamente como reagir. – Mills? Me disseram que você estava aqui!
-Aqui, Harry! – Ela andou na direção dele e quase a perdi de vista, tentando controlar minha respiração e o meu estado deplorável dentro das calças, ainda tremendo as mãos que seguravam miseravelmente o pacote estéril. – Peguei um pacote estéril de acesso central pro Dr. !
Céus, como ela conseguia mentir tão bem? E outra, como eu ia fazer pra não acabar com uma mentira tão perfeita? Eu era péssimo com mentiras, nunca tinha mentido na vida e não ia começar tão bem assim de uma hora pra outra.
– Pode preparar a sala 2 pra mim? – Ouvi a pergunta dele e me toquei que tinha desligado a porra do pager. Peguei no bolso e liguei, percebendo que tinha várias chamadas não atendidas. Droga, ! Droga! – Dr. ? – Senti o coração gelar, mas me obriguei a parar de tremer e sair de detrás das estantes.
– Oi? – Minha cara de pateta me dava ânsia de vômito, mas era o máximo que eu conseguia, então vamos lá. Ser cara de pau era um dom, então seriamos. – Precisa de mim, Antunes?
– Prepare o paciente. – Ele passou uma ordem mais maleável enquanto me olhava por cima das lentes dos óculos bem posto quase na ponta do nariz. MERDA! era quase filha dele e qualquer idiota percebia o que tinha acontecido ali. Meu professor ainda podia me sedar e remover meu bem mais precioso? Acho que sim.
– Ok! – Sorri fechado e apertei o pacote contra o peito. – Tchau, ! – Olhei pra ela com um sorriso bem idiota e ouvi a risada divertida.
– Tchau, . Te vejo na cirurgia! – Ela piscou pra mim e tratei de sair do cômodo, vendo a sobrancelha arqueada do Antunes pra mim como se eu fosse um moleque sem futuro.
O que eu podia fazer se ela tinha me dado bola? Baixei a cabeça prendendo uma risada e assim que passei pela porta, ouvi a pergunta esganiçada do Harry sobre eu e . Foi basicamente um “Você tá pegando o ?”, mas não me permiti ficar mais tempo pra ouvir a resposta.

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Balancei a cabeça mais uma vez, tentando absorver tudo que me explicava sobre a instrumentação cirúrgica nas cirurgias da Dra. Montgomery e por mais que fosse muita informação em uma enxurrada pra mim, eu agradecia por ter tutores muito bons. A próxima que eu ia acompanhar, que por sinal era a primeira efetiva, era um procedimento de altíssima complexidade e intrauterino, eu estava em estado de surto e animação com a oportunidade, por mais que eu fosse ficar só observando.
Afirmei mais uma vez com algo que falava sobre o tempo de esterilidade dos equipamentos e como fazer pra não contaminar uma cirurgia inteira, embora eu tivesse achando as explicações dela bem parecidas com tudo que meu irmão tinha me passado. Prestei atenção mesmo entendendo que tinha aprendido tudo com ela, mais uma explicação nunca era demais, principalmente quando aquele era o meu maior medo no procedimento, contaminar tudo e matar alguém na mesa.
– Você vai assistir ou participar? – perguntou com um sorriso divertido e tomei fôlego pra responder.
– Assistir! – Respondi na minha maior animação dentro daquele ano de internato. Eu queria mesmo seguir os passos da Dra. Montgomery, porque ela era a cirurgiã mais incrível do mundo. Quando eu não estivesse varando as pistas da Stock Car, claro!
– Olha, fica bem atenta, a Addie gosta de chamar os internos pra algo mais efetivo nos procedimentos! – Ela disse simpática e arregalei os olhos com a informação.
– Meu Deus! – O grito animado pulou da minha boca até meio esganiçado e a namoradinha do riu alto.
– Sem surto! – Ela apontou pra mim e mesmo que tivesse me zoando pelo grito, acabei rindo junto. era bem legal e de uma forma ou de outra, ela estava fazendo bem ao meu irmão. Só eu e sabíamos o jeito que tinha ficado depois do encontro. Flutuando!
– Estou bem! – Paguei de normal quando na verdade estava entrando em curto. Eu precisava contar aos meninos que possivelmente e muito remotamente eu participaria de uma cirurgia, mas era possível.
Suspirei contente em saber que eu poderia sim entrar nem que fosse pra segurar o aspirador, porque, sinceramente? Era melhor do que ficar vendo tudo da galeria enquanto outros enxeridos metiam a mão no meu paciente. Tomei fôlego pra iniciar uma série de perguntas sobre o instrumental e a vi me pedindo licença porque o telefone estava tocando. Afirmei com um sorriso amigável e, de forma inconsciente, comecei bater o pé no chão até ouvir o nome do meu irmão e entender que aquilo tinha aguçado lindamente a minha curiosidade.
-Oi … – O sussurro foi quase inaudível, mas ouvi bem o nome daquele tapado. – Não, agora eu não posso. Eu estou preparando uma sala pra uma cirurgia… Não é assim que funciona. – Fiz uma careta discreta. Credo! Meu irmão era um tapado. – Sim, eu vou instrumentar o Antunes, mas não é agora! Okay, tudo bem, eu almoço com você. Tchau! – Ela suspirou forte e prendi a risada ao ver que guardava o telefone e tentava não sorrir.
poderia ser um tapado. Mas era um tapado muito fofinho!
– Desculpa! – O pedido da minha provável futura cunhada me fez sorrir divertida e menear a mão, mostrando que não tinha problema algum. Até porque não tinha mesmo, algumas ligações a gente precisava atender mesmo.
– Sem problemas! – Mordi a boca pra conter minha curiosidade, mas a pequena pergunta escapuliu sem que eu pudesse conter. – É seu namorado?
Céus! Aquilo foi metido!
– Hm? – Ela me olhou como se não tivesse entendido a pergunta e me deu vontade de rir. Eu era terrível! Mas se o espalhava aos quatro ventos que tinha saído com Mills, alguma coisa tinha dado.
– A ligação… era seu namorado?
– Ah, não, não. – A enfermeira soltou uma risada fora de contexto. – Ainda, na verdade. A gente tá saindo e ele é um carinha legal! – deu de ombros e sorriu fechado, acredito que pra me afastar dos assuntos pessoais dela. Só era meio difícil quando meu irmão era o tal carinha legal e falava mais do que um rádio.
– É, eu sei! – Soltei uma risada baixa.
– Sabe? – me olhou mais do que confusa. Socorro, o que ela tinha pensado? Credo! – Você conhece o ?
! – Estiquei a mão só pra completar a cena e vi a enfermeira arregalar os olhos. Ela parecia bem animada, na verdade!
– Meu Deus! Você é a irmã pilota dele! – A mulher soltou um grito animado, realmente muito animado e parecia ser uma grande fã das corridas. ATÉ QUE ENFIM, !
– Eu mesma!
– Ele me falou horrores sobre você quando a gente saiu, disse que era a melhor piloto da categoria e uma ótima médica, também! Mas eu com meu pré-julgamento, achei que fosse pender pro lado do trauma. – Ela parecia uma matraquinha ambulante e bem animada em falar do .
– Trauma? – Soltei um grito meio esganiçado e até de repulsa fazendo nós duas rirmos alto. – Credo, não! Não é pra mim. Neonato é o amor da minha vida! – Abri um imenso sorriso sobre minha futura especialidade. – Trauma deixa pro mesmo, já é bem a cara dele.
– Concordo! – Ela riu. – O é um cara legal.
– Irritante na maior parte do tempo, mas legal! – Pontuei muito bem a definição de , ainda que esperasse que ela protestasse.
– Para! – soltou uma gargalhada. – Ele não é irritante! Só um pouco grudento, mas é um cara bem legal!
– Olha ela defendendo o paquerinha! – Soltei uma tossida fingida e ela riu alto, depois fez uma careta engraçada.
– Não me amola! – apontou com o indicador e levantei as mãos em rendição, mostrando que não a perturbaria mais com o assunto. – O que ele disse?
– Sobre o quê? – Fiz a despercebida com a pergunta curiosa.
– Você sabe bem! – Ela riu enquanto organizava a sala de cirurgia, procurando os melhores lugares para os instrumentos. – Mas tudo bem se você quer proteger seu irmão!
Eu? Proteger o ? Ah tá!
– Eu quero proteger você! – Arregalei de leve os olhos e de repente, caímos em uma crise de riso imensa, me fazendo perceber que ela parecia sim uma ótima pessoa. Uma amizade promissora pra zoar meu irmão mais velho e, quem sabe, comemorar todas as conquistas dele também.
– Coitado! – soltou um grito de horror com meu posicionamento. – Ele só é preocupado e gentil! É um amor de menino! – Ela disse com um sorriso comedido.
Ela gostava dele, o que era bem oposto ao cenário que estava pintado dentro daquele hospital quando o assunto era a instrumentador do quase chefe. gostava mesmo do meu irmão e não fazia qualquer mal ela saber que ele também estava caidinho por ela, mesmo! Eu iria dar um belo empurrão e que me agradecesse depois.
– Eu acho que ele gosta de você de verdade. – Cruzei os braços no peito e respirei pra continuar, caso ela não tivesse entendido que eu ia juntar os dois a qualquer custo. – Ele fala bastante sobre você, então dá pra ver que ele gosta!
– Eu percebi. – Ela riu baixo. – Eu também gosto dele, bastante! É algo puro. – Eu juro que identifiquei um sorriso mais apaixonado, mas eu também poderia estar ficando louca.
– O sentimento né? Porque ele não é. – Zoei o que ela tinha dito e ouvi uma risada.
– É, . O sentimento. – A enfermeira sacudiu a cabeça negativamente. – Ninguém continua puro depois de passar pela faculdade. Sem chance!
– Bem isso! – Apontei e a vi tomar fôlego pra falar mais alguma coisa. Parecia sério.
– Você é mulher e sabe que a gente consegue identificar essas coisas. – Afirmei, porque ela estava certa. Era um dom, mas a gente sabia bem quando um cara queria mais do que só diversão. – Mas não se preocupa com o que você já ouviu sobre minha péssima reputação dentro desse hospital. Se eu dei qualquer esperança ao , é porque sei que ele tá atolado até o pescoço. Eu não vou brincar com ele, prometo! – me pareceu bem sincera e eu fiquei feliz com aquilo.
Embora precisasse sempre me policiar pra não chamar ela de sem a permissão e parecer metida demais na vida alheia.
-Eu não tô preocupada com isso, , e sinceramente? Nem ele. – Dei de ombros. – Você era solteira, livre, desimpedida, podia fazer o que quisesse! Mas obrigada por se preocupar tanto com o meu irmão, já alivia meu coração! – Sorri agradecida por aquilo, vendo que ela também sorria grata por meu posicionamento.
-Eu não vou machucar um garoto tão doce, sem chance!
-Então tudo vai dar certo! – Falei igualzinha à minha mãe e contive a vontade imensa de rir com a minha pose mulher madura. morreria de rir se visse!
Rapidamente mudamos o foco da conversa e ela me explicou os motivos de as salas sempre parecerem a mesma coisa em todas as cirurgias, as preferências de cada cirurgião e qualquer coisa mais que viesse a ser importante no assunto. Sem dúvidas, todo médico que fosse instrumentado por ela, tinha o mínimo risco de erro em qualquer procedimento, afinal a mulher tinha completo conhecimento de causa de cada coisinha dentro daquela sala e ainda era dona do protocolo de cirurgia mais seguro do país. Acho que poderia me acostumar com uma cunhada muito inteligente!

Chapter 6


Juro que estava mais preocupado em mexer e contaminar tudo do que com a discussão mais sem noção entre o Antunes e a . Os dois pareciam bem empolgados em decidir qual música do Queen deveria tocar naquela droga de cirurgia difícil, enquanto eu só esperava a minha hora de entrar em ação, principalmente quando estava há eras esperando a oportunidade da solo e ela parecia correr de mim a cada mísero dia que passava. Eu me sentia preparado pra pegar um bisturi e explorar o corpo de alguém até que conseguisse salvar a sua vida, mas talvez não tivesse tão preparado assim. Ver a mulher sedada e esticada na maca esperando a boa vontade da equipe, que inclusive não decidia qual raio de música iria tocar, me fazia ter um frio horrível nas pernas que se misturava claramente a euforia de comandar algo tão grande.
-Antunes? – O anestesista chamou e finalmente meu chefe caiu em si, suspirou saturado com a e finalmente deixou que ela escolhesse aquela vez. O que realmente valeu a pena, pois o sorriso incrível nos lábios dela me fez sorrir feito um idiota e nem tinha sido direcionado a mim. Isso só para começo de história. Eu era mesmo um residente fodido por uma mulher incrível!
Os dois caminharam para as pias com aquele ar de amizade entre pais e filhos, algo que eu lembrava pouco de quando meu pai era vivo só pelo tempo que já tinha se passado, em alguns dias seria a comemoração do aniversário dele e teríamos uma grande corrida do Vancouver Motorsport e o Chris estava surtando tanto quanto . E ainda falando do Chris, eu conseguia sentir nele aquela amizade que via entre a e o Antunes, era incrível ter com quem compartilhar tantas coisas e ser entendido daquela forma.
Respirei fundo pela demora desnecessária e percebi que uma moça já toda esterilizada perto do instrumental parecia tão apavorada quanto eu pelo lembrete recorrente “não se contamine”, que ressoava gritante na nossa cabeça. Ela deveria ser residente da enfermagem cirúrgica, ou seja, da enfermeira mais incrível que eu estava tendo o prazer de conhecer. Mills.
Os dois finalmente se fizeram presentes na sala e Bohemian Rhapsody começou tocar, aquela música era a mais sugestiva pra se estar com uma vida em mãos na sala de cirurgia.
-Boa sorte, moleque! – Ouvi o sussurro extremamente satisfatório perto do meu ouvido e confesso que quis virar e beija-la, me impedindo apenas pelo quesito: “não se contamine na frente da mulher mais uma vez, !”.
Eu era um idiota por me derreter inteiro ao ser chamado de moleque, ainda que achasse uma falta de respeito para o homem que eu era. Acabei sorrindo largamente e nem a máscara escondeu, já que ela piscou pra mim e parecia sorrir igual, porém não se demorou muito no meu olhar, começando a explicar para a residente (que eu deduzi ser dela) algumas coisas sobre a cirurgia que iria acontecer. Me atentei ao ritual do Antunes pedindo proteção e discernimento ao deus que ele acreditava e acabei me perguntando se algum dia ia juntar ciência e espiritualidade em um momento só, como aquele. Não que eu fosse descrente ou desrespeitoso com a espiritualidade alheia, eu só… não tinha apego com aquelas coisas.
Começamos a cirurgia em tempo e não pude deixar de reparar no sincronismo que a gente tinha, sim eu falo sobre eu e , assumi alguns procedimentos e foi maravilhoso ser instrumentado por ela. Alguma coisa parecia diferente no nosso clima e olha que a gente nem tinha transado ainda, mas a ligação era surreal e o jeito que nos sentíamos confortáveis, mais ainda. Garanto que não precisou de uma palavra pra que ela soubesse exatamente o que orientar a sua residente pra me entregar, o que eu achei um absurdo porque queria a sensação de começar uma conversa com a instrumentadora tagarela no meio da cirurgia, como se eu fosse o staff ali e nós dois discutíssemos coisas banais do relacionamento, como o que faríamos a noite. Ok, eu já fantasiava um relacionamento com ela.

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Eu odiava passar mais de dez horas em pé, instrumentando uma cirurgia, sem saber exatamente se o paciente iria sair vivo daquela ou não. Era horrível ter um ponto de responsabilidade nas mãos e não conseguir arcar com ela, acredito que aquele peso horrível caía bem mais sobre o Antunes quando acontecia, mas eu ficava péssima igualmente. Felizmente o paciente tinha sobrevivido, porém ainda precisava de acompanhamento rigoroso nas próximas 24 horas.
Me larguei ainda mais na maca do corredor, esperando que ninguém do mundo externo tentasse manter contato e fui interrompida do meu momento com um pigarro. Se eu ficasse calada, será que o ser humano entenderia que eu não queria papo e iria logo embora? Preferi não arriscar.
– Estou cansada! – Tentei ser rude. – Só mantenho comunicação com o mundo exterior em uma hora. – Entrei no modo cadáver, sem nem se mexer na cama e ouvi uma risadinha, bem familiar, a propósito.
– Eu tenho café! – A voz de soou quase em cima de mim e senti um leve beijo no meu bico indignado. Tirei o braço do rosto de uma vez e encontrei um sorriso lindo, confesso. – Oi! – Ele não diminuiu o sorriso ao falar e aproveitei nossa proximidade pra segurar seu rosto e beijá-lo também.
– Hey, . – Roubei mais um selinho do moço sorridente. – Achei que você estava dormindo. – Ele sorriu ainda maior, suspirou e se largou ao meu lado na maca, me entregando o copinho fumegante. – Obrigada! – Agradeci.
– Que nada, meu cansaço tá tão grande que nem consigo dormir. – Até a voz de estava cansada. Tomamos um gole do café ao mesmo tempo e não pude deixar de notar que estava exatamente do jeitinho que eu mais gostava.
– Nem me diga. Eu não aguento meus pés e nem meus ombros. – Fizemos uma careta quase simultânea, os dois jogados atravessados na maca. Ele com os pés quase encostados no chão e eu com as minhas pernas balançando.
– Quer massagem? – O rapaz me perguntou com uma gentileza imensa na voz e sorri bem agradecida, o olhando com uma ternura que não cabia em mim. Aquele moleque tinha despertado um instinto bem estranho e louco na minha pessoa, eu só não entendia porquê e nem qual.
-Não, não. Você também tá destruído e eu não tenho forças pra retribuir qualquer coisa. – Inclinei de leve a cabeça pro lado, encostando na dele e senti um beijo espinhando no braço, só pelo vestígio de barba que insistia em crescer no queixo de .
– Eu não tava esperando retribuição. – O moço foi sincero e arqueei minha sobrancelha em astúcia.
– Mas eu sim. – Empinei o nariz. – Também quero poder ajudar. – Ele negou de leve e passou a mão pela nuca como se fizesse uma automassagem ali e resolvi testar minhas praticas em acupuntura. – Apertar alguns pontos da orelha ajuda com a tensão muscular. – Expliquei assim que capturei a orelha esquerda dele e me olhou curioso com o que eu ia fazer, fechando os olhos em deleite assim que eu comecei pressionar sua orelha. Era uma imagem muito bonita, confesso! – Eu odeio seu chefe. – Resmunguei pra instalar algum assunto ali antes que a gente se pegasse sem freio e desviei o foco da orelha.
– Entra na fila. – soltou uma risada espontânea e se ajeitou no colchão duro da maca, usando daquela desculpa pra jogar o braço direito por cima da minha perna com uma intimidade imensa. Como assim, querido?
– Eu sou a primeira da fila, porque convenhamos, ele não tem mais idade pra ficar em pé e com a mão enfiada nas entranhas de uma pessoa por mais de 10 horas seguidas. A pobre da Nanna passou mal e eu precisei assumir o resto da instrumentação. – Rolei os olhos com o complexo de super-homem do Harry e soltou uma gargalhada desafinada que me fez rir também.
– Nem eu tenho idade, , avalie ele! – O moleque soltou uma piadinha perversa e me permiti rir. – Meus pés parecem enormes batatas.
– Os meus estão inchados, mas o peso também ajuda. – Continuei explorando a orelha morna dele e suspirei com dó da posição desconfortável que estava. – Você consegue colocar seus pés pra cima? – Fiz uma leve careta pela altura dele. O moleque era um monstro de tão grande, não que eu fosse lá tão alta assim, mas ele deveria ter 1,90.
– Aí eu vou ter que deitar. Se eu deitar, eu desmaio! – me arregalou os olhos e soltei uma das risadas mais espontâneas em mim.
– E aí vamos perder o plantão, porque somos dois. – Suspirei cansada e ouvi uma risadinha anasalada do moleque. – Posso mexer no resto da sua orelha? – perguntei ao saber que certos pontos poderiam ser explosivos se não houvesse cuidado.
– Se você quiser… – deu de ombros e logo uma piscadinha que me incentivava a continuar mexendo, continuei.
– Se eu não amasse tanto o Harry, eu largava ele. – Joguei mais uma vez a tentativa de frustração, embora eu estivesse bem orgulhosa do meu amigo ter finalizado a cirurgia e com sucesso.
– Olha, se eu não quisesse ser ele futuramente, também largava. – me olhou de canto de olho, por certo, esperando que eu risse. Mas mudei a abordagem, fazendo a maior cara de nojo.
– Credo! Você quer ser ele?
– No campo da medicina, ! – O garoto soltou uma risada gostosa de ouvir.
-EEW! – Continuei com a minha pirraça como se tivesse a idade do filho da Adrie. – Por que você quer ser um velho rabugento e debochado? – Fiz uma careta pra combinar com a idade mental do meu deboche.
– Eu quero ser ele, só que mais legal e bonito! – O tentou mais uma vez, brincar com a situação e nós dois gargalhamos. Antunes e legal não cabiam na mesma frase. – Mas sério, do Antunes eu só quero a inteligência do cara, ele é muito foda no que faz e eu queria mesmo ser assim algum dia.
Confesso que era bem bonito da parte dele valorizar tanto o seu tutor. Sorri largamente e o rapaz se esticou pra beijar meu sorriso, com aquilo eu me dei conta que talvez, só talvez, as coisas tivessem ferrando pro meu lado.
– Quanto a isso. – Mordi a boca. – Ele ralou pra caramba pra chegar onde tá, sabe?
– Eu sei. – soltou uma risadinha anasalada. – Por isso eu vou aguentar as cirurgias de mil horas e tudo que ele jogar pra cima de mim. Pelo menos eu não sou o . – O moço deu de ombros e pude identificar todo o deboche acumulado em um homem tão grande. Confesso que era bastante.
– Esse é um ótimo argumento! – Apontei prendendo uma risada. – Seu amigo vai matar alguém qualquer dia desses! – Olhei despercebida pro corredor a nossa frente e parecia tão vazio.
– Se for o Robinson, eu até pago o advogado dele! – me olhou com a carinha sem vergonha de criança malvada, não me contive ao soltar uma gargalhada imensa, mas no momento, aproveitei pra tapar a boca dele também.
– Essas paredes têm ouvidos! – Arregalei de leve os olhos pra completar o sussurro e recebi um sorriso mais do que lindo, além de um beijinho na mão.
– Ele sabe que eu odeio ele. É recíproco! – O moço riu como se odiar alguém fosse algo bom e arqueei a sobrancelha.
– Tão novinho e já carrega ódio nesse coração? – Tomei a liberdade de mexer no cabelo dele que já estava desarrumado e o vi dar de ombros, as bochechas já meio infladas e provavelmente envergonhado pelo que eu disse.
– É a vida. – suspirou, enquanto mirava os pés no crocs.
Suspirei.
– Esquece que ele existe. – Mordi a boca ainda cutucando o cabelo dele. – Eu estou fazendo o mesmo, é melhor do que ficar alimentando sentimentos ruins.
– É mais fácil dizer, sabe ? – tinha um bico nos lábios que me dava vontade de morder. Ao invés disso, apertei seu braço com força o fazendo rir alto e me olhar sorrindo bem largo.
– Ignorar é mais fácil, coisa fofa! – Nós dois rimos e da apertada, acabei levantando um pouco a manga da camisa cirúrgica dele, vendo uma pontinha preta desenhada no braço, um pouco confuso o desenho. Estreitei os olhos meio confusa e decidi perguntar, afinal não ofendia ninguém. – O que é isso em seu braço?
– Hm? – gemeu ao olhar pra minha cara de dúvida, embora a dele estivesse bem maior. – Ah, é minha tatuagem! – O garoto riu e com ajuda da mão oposta, levantou mais a manga do pijama, me deixando ver a tatuagem cheia de linhas, folhas e algo que parecia ser um céu. Era bem bonito, na verdade!
– Não acredito que o traumatinho tem tatuagem! – Meu grito foi vergonhoso e o rapaz soltou uma das maiores gargalhadas que eu já tinha visto!
– Olha, se eu for o traumatinho. Sim! – Ele me roubou um beijo e eu até roubei outro enquanto a gente ria. – Aliás, porra Mills, traumatinho? Aí não, né! – reclamou do meu apelido bonitinho e eu só consegui rir do bico indignado na boca dele.
– Traumatinho! – Apontei. – Você tá em vias de virar traumato. Traumatinho! – Abri os braços como se aquela fosse a descoberta do século. Ele ainda me olhava mergulhado no tédio e eu só tinha mais vontade de rir.
– Traumato em formação é melhor! – finalmente se manifestou, mas pra infelicidade dele, eu continuaria o chamando de traumatinho.
– Traumatinho! – Abri um sorriso convencido que o fez entender a minha recusa, se dando por vencido. – O xodó das enfermeiras!
soltou uma risadinha que parecia debochada e se acomodou melhor ao meu lado, quase encostando o queixo em meu ombro. Aquilo me deixou ver melhor como o garoto era bonito, os olhos castanhos quase puxados pra um mel, as bochechas levemente róseas simplesmente por serem daquela cor, o nariz bem esculpido e a boca que combinava muito bem com a mandíbula marcada.
– Quando eu queria ser de apenas uma. – Eu juro como ele soltou aquilo enquanto me encarava bem descaradamente e, involuntariamente, quis me encolher como se fosse uma adolescente que nunca tinha beijado ninguém. Que merda, !
– E por que não é, moço? – Acreditem ou não, encarar era a minha forma de desviar de certas coisas.
– Ela só me ilude! – Ele parecia sofrido demais ao falar aquela mentira. – Levei ela no lugar que eu cresci, Mills. E ela não me quer! Pode isso?
– Ai não! – Entrei na zoeira de condenar a tal mulher que não queria ele. – Ela não fez isso! Poxa, . Como você leva uma mulher que acaba de conhecer em um lugar assim?
– Eu quero ela! – Tão rápido quanto ele respondeu, meu engasgo saiu. Era incontrolável o jeito que eu tossia e procurava ar ao mesmo tempo, me olhava assustado com o engasgo e parecia pronto pra fazer a manobra de Heimlich, até que consegui pigarrear.
– Depende de como, moleque! – Minha voz ainda estava ruim pela sessão de tosses, mas consegui verbalizar com certa clareza. Bebi um gole de café de uma vez pra ver se melhorava a garganta e só piorou pela quentura. – Ai tá quente! Droga!
– Eita! Espera, deixa eu ajudar! – segurou meu rosto com cuidado e eu só senti quando meu estômago embrulhou. Que bosta era aquela???
– Só desceu queimando. – Respirei fundo pra voltar ao meu normal, por mais que eu não soubesse mais que normal era esse.
– Tá tudo bem mesmo? – Ele estava preocupado com a minha reação nada amigável e ainda segurava meu rosto entre as mãos. Suspirei afirmando e me apoiei pra levantar da maca. Eu não queria fugir, mas era mais um mecanismo de defesa contra qualquer coisa que fizesse meu estômago embrulhar.
– Tudo sim. – Fui bem curta procurando um rumo pra sair dali, mas parei assim que percebi que o magoava de alguma forma. Respirei fundo.
– Sabe, você poderia começar mudar esse conceito aceitando sair comigo de novo. – mordeu a boca parecendo ansioso com a minha resposta. Eu queria sim sair com ele de novo, a última vez tinha sido tão bom!
– E onde você quer me levar dessa vez, criatura abusada? – Enfiei os pés no crocs confortável.
– Um barzinho legal. Música ao vivo, bebida boa…
O sorriso nos lábios do garoto era um dos mais bonitos que eu já tinha visto e ele parecia realmente disposto a desfrutar da minha companhia. Preciso confessar que eu também gostava da dele, era natural e confortável conversar com fosse qualquer assunto que entrasse em pauta, ainda mais quando ele decidia me fazer carinho enquanto a gente conversava. Cocei a cabeça um pouco impaciente por ele achar que eu estava o iludindo e decidi rebater.
– Para começo de conversa, eu não estou te iludindo. – Estiquei o indicador em riste. precisava entender aquilo de uma vez por todas. – Se eu não quisesse, eu não tinha te dado abertura e liberdade. Eu não gosto de iludir ninguém. – Falei como uma mãe raivosa e o garoto arregalou de leve os olhos claros, afirmando a todo custo com um aceno de cabeça que tinha entendido. – E depois, se você me prometer que vai ser legal. A gente pode tentar.
– Eu prometo que vai ser! – O sorriso esticado nas bochechas do quase fez meu coração palpitar, quase.
– Você me pega lá em casa. – Suspirei aliviada em termos encontrado um equilíbrio naquilo, me apoiei novamente na maca e lhe roubei um beijo, deixando-o ainda mais sorridente. – Obrigada pelo café! – Ele virou o ladrão de beijos e ri. – Não sei se vou ou se fico. Me ajuda!
– Não posso! – Ele parecia sofrer tanto quanto eu pela minha fuga. – Você sabe a minha resposta. – suspirou ao passar a mão pelo meu pescoço como se fosse acomoda-la em minha bochecha, o que me causou arrepios dos pés à cabeça.
– Verbaliza. – Mordi a boca em uma das minhas maiores expressões pidonas quase gritando pra que ele me tirasse daquele tédio pós-cirúrgico.
– Eu quero que você fique, ! – Senti os dedos dele se agarrar aos meus cabelos por baixo do coque, enquanto seus lábios tomavam os meus enlouquecidamente.
Onde raios, tinha aprendido aquilo? Céus! Acabei voltando a sentar na maca e passamos quase o resto do plantão todo ali, se escondendo da equipe, conversando e namorando entre os assuntos. Não sei exatamente se namorando era a palavra certa, mas confesso que a sensação de namoro me enchia quando eu estava junto com o .

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– Foi realmente incrível! – riu e parecia tão iluminada em falar que gostou de sair comigo que meu sorriso só se alargou no rosto.
Nós dois tínhamos ido em uma lanchonete que parecia um pub e comemos pra caramba, enquanto derrubávamos uma torre de chopp. Ela não tinha vergonha de comer, beber ou qualquer coisa daquelas e só conseguiu me fazer apaixonar ainda mais, até porque era incrivelmente gostoso me sentir tão à vontade com alguém que eu estava saindo. Confesso que fiquei realizado em vê-la feliz e parecendo uma matraquinha durante nosso encontro.
– Eu também achei, ! – Sacudi o cabelo pra ter o que fazer com a mão e não segurar a dela no impulso. – Espero que a gente possa sair mais e mais vezes, foi minha noite mais divertida de todos os tempos! – Confessei com um sorriso vergonhoso de tão imenso.
– Não queria encher muito a tua bola, mas a minha também! – A mulher mais linda que já havia entrado em meu carro disse ainda com aquele sorriso que me fazia ficar sem chão. Porra, , seja menos tapado! – Adorei derrubar aquela torre de chopp com você! – Rimos em concordância e não foi questão segundos pra ela se apoiar na minha coxa.
Primeiro fiquei até meio assustado em ter a mão dela ali tão perto, mas sabia o que estava fazendo e se ela sabia eu não ia surtar. Nós já tínhamos passado daquele ponto de “onde pegar” e confesso que ela tinha liberdade pra pegar onde quisesse, me tornando um tremendo pateta, mas ao menos eu era um pateta feliz. Infelizmente (me senti horrível por achar isso), a mulher apenas se apoiou pra me dar um beijo de despedida, segurei o rosto dela com delicadeza e logo estávamos em um desfrutar de gostos bem sincronizado. O escurinho da rua fora do prédio, a música baixinha na rádio local e o calor confortável que emanava do nosso corpo tomando o carro, fazia tudo ser ainda mais perfeito. Ela mordeu levemente meu lábio e sorrimos feito dois adolescentes apaixonados, mais eu do que ela.
Tomei fôlego pra agradecer a companhia e senti os lábios da mulher mais incrível do mundo, beijar minha bochecha com força. Soltei uma risada até meio infantil com o gesto, não esperando que ela fosse sorver meu pescoço com tanta vontade. Céus, iria me matar com aqueles beijos famintos e se ficasse um chupão ali, minha mãe me caparia com um alicate de unha. Soltei uma risadinha desesperada só pra livrar os pulmões de tanto ar acumulado e ela fez o mesmo, vibrando os lábios em meu pescoço. Confesso que precisei concentrar em qualquer coisa aleatória pra não passar de descontrolado na frente da mulher.
– Você quer subir? – Senti uma lambida bem dada no pescoço e juro que precisei segurar o moleque. Literalmente. Porra !
Eu era decente. Eu era decente. Eu era decente. Eu sou decente!
Respirei fundo e repeti mais umas três vezes na minha mente. Porque minha mãe tinha me ensinado a ser decente e eu era decente, por mais que tivesse uma mulher maravilhosa lambendo meu pescoço, eu ia continuar sendo decente.
– Acho melhor a gente deixar isso pra outro dia, não? – Fechei um dos olhos em uma careta de desespero da minha parte, mas ela deve ter achado bonita, pois sorriu.
E que sorriso, eu não conseguia entender e nem explicar aquele sorriso, mas ela parecia satisfeita com a minha recusa em subir pro seu apartamento. Eu também estava satisfeito, mas duvidava que fosse ter uma noite de sono tranquila.
-Amanhã o plantão começa cedo e se eu não dormir, vou acordar um lixo. – O meu maior sorriso amarelo foi dado. Que desculpinha mais merda, cara!
– Concordo com você. – Ela soltou uma risada linda. – Amanhã o dia vai ser longo e precisamos descansar. – Senti um beijo apertado na bochecha, embora bem mais cheio de carinho e admiração.
Segurei o rosto dela levemente e beijei-a nos lábios, tentando mostrar que ia acontecer, só não era naquele dia. A mulher acenou com um sorriso tímido, algo que eu nunca tinha visto nela e andou rapidamente pra dentro do prédio que morava, me deixando apavorado dentro do Mustang, com um problema que não seria tão fácil assim de resolver.

Nota da autora: Quem é viva sempre aparece! Eeeeeeh! Esse capítulo está a maior fofurinha na terra e ai, eu amo o jeitinho que o Phill olha pra Sid. Ela merece alguém assim, né non? Espero que vocês não tenham desistido de mim! Beijos da tia!

Chapter 7


Suspirei com força, sentindo aquela agonia estranha me atingir e se eu passasse mais alguns minutos pensando naquilo, iria chorar agarrado aos joelhos como um bebê. Eu sentia tanta saudade do pai e saber que eu não ia mais vê-lo, além das fotos, homenagens na TV e qualquer outra coisa que colocasse o Grande B em alta, me deixava ainda pior naquele dia tão importante. Mal tinha dormido e assim que abri os olhos, dei um beijo na minha mãe e corri pro autódromo sem mais explicações, nenhum de nós precisava, na verdade. Acabei passando na casa da de surpresa e confesso que esperava alguma desculpa em não poder ir comigo pro Vancouver Motorsport, mas a mulher me pediu alguns minutos pra se arrumar e embarcou naquela viagem comigo.
De uma forma estranha, ela me deixava seguro e me fazia bem demais, eu precisava daquela presença em um dia tão esquisito.
Porém, eu me sentia um merda por estar me escondendo na arquibancada e ter deixado-a nos cuidados do Austin pra conhecer melhor o pit stop, os boxes e o Benny. O carro da minha irmã, que antes tinha sido do meu pai, era a grande sensação daquela noite, assim como a corrida de apresentação da , ela tinha se revelado a grande aposta da NASCAR depois que entenderam que tinham me perdido pra medicina. Eu ainda corria, tinha até meu carro de treino, mas não tinha nervos pra competir profissionalmente, ou me mataria na primeira curva por pura falta de cautela.
Sorri triste ao olhar o boné surrado em minhas mãos, que um dia tinha sido do meu pai, e funguei tentando não chorar mais uma vez naquele dia. Sacudi a cabeça tentando mandar aquele sentimento de sufocamento pra bem longe de mim, quando percebi uma presença maravilhosa na ponta da fileira de cadeiras que eu estava jogado.
– Você me parece mais velho… olhando assim de longe, sabe? – Abri um sorriso satisfeito ao ouvir a voz de , chamando- a com a mão que estava esticada na direção dela.
– Pareço? – Soltei uma risadinha anasalada, vendo aquele mulherão andar na minha direção. – Olha, vou levar isso como uma coisa boa!
– Tem que levar mesmo, gostei da imagem! – Ela piscou, se apoiou na cadeira pra me dar um selinho e se jogou ao meu lado, botando uma lancheira térmica e cheia de desenhos, no colo. – Bom, mas eu estava procurando meu date pra dividir o sanduíche com ele. Porque, de repente o homem some, puffo! – movimentou a mão como se tentasse me encantar e sorri bobo, principalmente por ela ter me chamado de homem e não de moleque.
– Sumi nada, estava aqui o tempo todo. – Segurei o sorriso no canto dos lábios, enquanto sentia meu peito encher de vê-la usar todos aqueles incríveis olhares comigo. Os olhos de eram a porta de todo o ser dela e demonstravam qualquer coisa que ele quisesse mostrar. – Mas o sanduíche, eu quero! – Pisquei ao me tirar do poço de sentimentos que eu estava afundado.
– Não estava, não. – retrucou ao abrir a lancheira colorida. – Foi o Austin que me apresentou tudo aqui dentro e fez companhia!
– Toda de lancheirinha, ela! – Desviei do assunto principal e a mulher mais linda que eu conhecia rolou os olhos, mas mordia um sorriso incrível.
– É térmica! E foi um presente, presente não se recusa. – tentou se justificar, enquanto tirava um pote com sanduíches lá de dentro. Pude ver outro que tinha frutas em cubos e confirmei que ela era bem mais saudável do que eu. Recebi o sanduíche de bom grado e me estiquei pra beija-la levemente nos lábios.
– Obrigado! – Sorri.
– Você nem quis correr no Kart… e me prometeu. – Aquela mulher incrível fez um bico de criança levada, enquanto sacudia o indicador em riste. Ah eu me derreti, sentindo o peito inflar como nunca antes, além de confirmar internamente tudo que minha mãe dizia sobre eu estar apaixonado. – Cadê sua camisa xadrez? – Ela fez uma careta ao olhar pro meu peito coberto com a camisa branca surrada, fiz o mesmo.
– Tirei. – Sussurrei baixinho sem encará-la e suspirei.
A camisa branca era uma das únicas do pai que tinha sobrado depois de todas as doações feitas pela minha mãe, com a confirmação de que as memórias ficariam em nosso coração e que existiam pessoas que necessitavam demais daquelas roupas para simplesmente ficarem guardadas.
– Desculpa pelo kart, depois a gente vai, tá? – Senti uma mão envolver meu queixo com a barba bem rala e por fazer, depois levanta-lo delicadamente.
– Desculpo se você me explicar o que tá acontecendo. – Ela enrugou o nariz em uma caretinha perfeita, depois me fez ir ao céu quando encostou os lábios macios nos meus, ainda segurando meu queixo com toda aquela delicadeza. Soltei o ar dos meus pulmões em um suspiro.
– Eu estava só aqui pensando… no meu pai. Hoje é aniversário dele, sabia? – Abri um sorriso largo e singelo, sentindo a mão dela migrar pra fazer carinho na minha bochecha, embora parecesse meio transtornada com a ideia.
– Sério? E por que raios você marcou comigo hoje? Era pra você estar em casa com ele, hoje é sua folga! – esganiçou ao se dar conta da informação e prendi uma risada pelo desespero dela. – Ele merece a sua companhia, !
– Eu estou com ele aqui. – Pisquei ao pegar a mão dela e pôr em meu peito, vendo a exata hora em que a enfermeira mais incrível que eu conhecia, arregalou os olhos parecendo ter entendido o que eu queria dizer com aquilo. – Ele morreu, dez anos atrás. – Confirmei o que ela provavelmente pensava.
– Desculpa! – A palavra pulou desesperada da boca dela. – Eu não sou insensível, eu juro! Só não sabia que… – prendeu a respiração como se tentasse organizar as ideias. – Você quer ir pra casa? – Ela escondeu o rosto em uma das mãos e quis beija-la incansavelmente. – Céus, eu sou um desastre!
Soltei uma risada leve e baixinha, me ajeitei na cadeira da arquibancada e ainda com a mão dela em meu peito, depositei um beijinho na linha da mandíbula que não estava coberta por sua mão pequena.
, tá tudo bem! Você não sabia, não tinha como saber. E eu estou bem. Eu quero estar aqui. Eu me sinto mais perto dele aqui do que em qualquer lugar do mundo. – Foi minha vez de acariciar a bochecha dela, quando aquele mulherão incrível me olhou com uma expressão esperançosa.
– Eu achei que seu pai era o cara que estava aqui mais cedo quando a gente chegou. – Ela usou de uma sinceridade imensa que me fez sorrir, o Chris era mesmo como um pai pra gente.
– O Chris? Ele é um amigo. – Sorri. – Era o melhor amigo do meu pai e chefe da equipe dele. O cara é incrível!
– Ele é fofíssimo com vocês! – abriu um dos seus sorrisos mais lindos e me permiti fazer o mesmo. – Então você tem certeza que está bem com isso? – Os olhos engrandeceram e eu não sabia que eles podiam ficar ainda mais lindos.
– Absoluta! – Pisquei satisfeito em poder compartilhar aquilo sem sentir mais o aperto habitual no peito.
– Então temos sanduíche de aniversário? – A empolgação da mulher ao meu lado me fez entender de vez o que era empatia e carinho. Peguei meu sanduíche que tinha deixado de lado e levantei como se fossemos brindar.
– Temos sanduíche de aniversário! – Não contive o sorriso largo que tomava minhas bochechas. – A não é a única pilota da família, sabia? – Sincronizados na mordida e constatei que ela cozinhava bem, muito bem. O sanduíche natural estava delicioso. – Meu pai também era piloto e dos bons! Então é bom estar em um dos lugares preferidos dele.
sorriu com as bochechas cheias e beliscou minha bochecha, nos fazendo rir. Ora ela me tratava como um homem e ora como um moleque, maioria das vezes era a segunda opção. Levantei os óculos que escorregavam em meu nariz, ouvindo um risinho dela.
– Como era o nome dele? – O interesse me atingiu em cheio e inflei o peito pra falar do cara mais incrível do mundo.
– Ben. Benjamin. – O meu sorriso só se alargava ainda mais e mergulhado na felicidade. deixou as bochechas infladas ao ponto de esconder os olhos hipnotizantes.
– Uma pena não ser uma comida melhor, mas seu filho não me avisou nada, desculpa Benjamin! – A mulher levantou levemente o queixo, deixando o rosto em direção ao céu. Involuntariamente fiz o mesmo, percebendo como a imensidão azul estava limpa e perfeita, assim que caísse a noite as estrelas tomariam conta só pra ver a nossa grande corrida. O Grande B estaria lá junto com elas!
– Foi mal, pai. A moça é bonita demais, fica difícil pensar racionalmente! – Gritei para o céu e sabia que ele estava me ouvindo de algum lugar. Ouvi a risada da e me deixei levar pelo som, acabamos nos beijando levemente. Ela tomou fôlego pra me dizer alguma coisa, mas parou no meio do caminho com um vincar de sobrancelhas.
– Espera… – A mulher parou mais uma vez como se tentasse acreditar nos seus próprios pensamentos. – Benjamin ? O Grande B? – arregalou os olhos claros e prendi a respiração. ELA CONHECIA O MEU PAI?
– O GRANDE B! – Esganicei eufórico. – Você conhecia meu pai? – Me endireitei na cadeira desconfortável de plástico, ficando mais alto que ela mesmo sentado. – Mentira que você ouviu falar do meu pai? – Nervoso era como eu estava naquele exato momento. Como a enfermeira instrumentador mais perfeita do mundo conhecia meu pai?
– MAS É ÓBVIO! – desafinou e soltei uma risada animada. Ela conhecia meu pai! – Meu bem, eu não só ouvi falar, como eu tenho uma foto com ele de quando eu tinha 5 anos de idade. Eu e o meu avô! Foi a primeira vez que ele me trouxe em uma competição de Stock Car, bem aqui nessa arquibancada! – Ela contemplou o lugar ao redor, me fazendo perceber que amava aquele universo tanto quanto eu. – Eu parecia um molequinho na época! Meus avós achavam que eu ia ser real um projeto de homem! – Nós rimos alto com aquela afirmação e sacudi a cabeça negativamente. Tomei a liberdade e a beijei calmamente, sentindo os dedos de tomarem conta dos meus cabelos. – Meu Deus! Eu estou beijando o filho do Grande B. ALGUÉM ME AJUDA! – Achei desrespeitoso o jeito que ela cortou o beijo pra gritar.
– PAI, ESTOU BEIJANDO SUA FÃ! – Entrei na onda dos gritos, fazendo minha melhor cena ao se esticar na cadeira e recebi um tapa no braço. – Outch!
– Idiota! – Ela ficava linda me xingando.
– Você tem mesmo uma foto com meu pai?
– Mas é óbvio! Tenho várias, ele foi o melhor piloto da NASCAR e até hoje. – deu uma pausa dramática e esticou o dedo indicador. – Ninguém, repito, ninguém bateu Benjamin .
Não tinha como discordar, só acrescentar.
tá tentando fazer isso. – Sorri tão orgulhoso da minha irmã. Era incrível ver como ela se dedicava a toda aquela emoção das corridas, como era segura e decidida. Ela tinha herdado toda a essência e determinação do nosso pai. – Ela é igualzinha a ele! – Soltei um risinho anasalado.
– Meu avô é um dos maiores fãs do seu pai. – mordeu um sorriso enorme e fiquei quietinho esperando que ela me falasse mais um pouco, embora fosse bem fechada em relação a família, eu sabia que ela queria me contar mais um pouco sobre eles só pelo jeito que se deixou sorrir com as lembranças que aparentemente passavam por sua mente. – Ele vai entrar em espiral quando eu contar!
– E aí a gente traz ele aqui. – Fui sincero. O sorriso dela ganhou proporções astronômicas de tão lindo, não me contive e enlacei um dos braços na cintura de , abraçando- a com força e cuidado. Ganhei um beijinho estalado no meio dos lábios!
– Eu fui criada por eles, sabia? – Sorri com a informação e o jeitinho amoroso com que ela falava dos avós. – Meus pais são dois hippies doidos que me deixaram com seu Jack e dona Rebecca pra viajar o mundo e fazer coisas do tipo.
– Você… – Mordi a boca antes de perguntar, queria saber se aquele assunto era delicado ou não. – Sente falta deles? Dos seus pais? – Prendi de leve a respiração esperando que ela me respondesse da melhor maneira possível.
– Não. – deu de ombros com uma simplicidade bonita de ver e depois soltou uma risada angustiada. – Na verdade, eu fiquei magoada com eles durante um bom tempo, mas com o tempo eu aprendi a entender o lado deles e eu sempre ganho algum presente diferente das viagens. – Ela abriu um sorriso sincero. – Eu amo meus avós, eles me criaram do melhor jeito do mundo e como uma criança deve mesmo ser criada! Livre!
– Eu acho que a mágoa é normal. – Umedeci os lábios pra continuar e ganhei um carinho na bochecha com as pontas dos dedos dela. – Ainda mais quando criança… tipo, são seus pais. Mas você tem sorte de ter seus avós. Eles parecem incríveis! E de qualquer forma, você não está sozinha. – Beijei a palma de sua mão, abrindo um sorriso logo em seguida.
– Eu sei, ! – Ela expressou animada. – Já perdoei aquela dupla de pirados. E eu também sei que não estou sozinha. – O sorriso direcionado a mim foi contido, mas ela sabia mesmo que eu estava por ela, o Antunes estava e todas as pessoas que a amavam, também. – Assim como você também não está, moço que tá a cara do Spreengsteen. – Ganhei um beijinho estalado no meio dos lábios e só consegui rir com a referência dela.
– Eu estou a cara do meu pai, isso sim. – Estufei o peito em orgulho em parecer com o Grande B em vários aspectos, inclusive no caráter. – Quer ver?
– QUERO!
Não contei conversa pra tirar uma foto antiga do bolso, foi logo quando meu pai tinha ganhado o Benny da NASCAR e eu tinha no máximo, um ano, ele me segurava no colo e usávamos bonés bem parecidos. O sorriso na cara do Benjamin era um dos mais largos, enquanto o bebê em seu colo, brincava com a chave da máquina de velocidade.
– DEUS, QUE COISINHA GOSTOSINHA! – gritou sem controlar o volume e dei um pulo de susto, soltando uma risada bem pomposa em seguida. – Você era uma bolinha mais linda do mundo! – Ela pegou a foto das minhas mãos em uma euforia linda demais. – Meu Deus, , você é a cara do seu pai! A cara dele!
– Eu era gordo! – A risada tomou conta de nós dois. – Mas sim, eu me tornei meu pai. – Não contive a felicidade em saber daquilo com tanta clareza, enquanto a mulher estava presa na minha foto de criança.
– Olha essas bochechinhas mais fofinhas do mundo! – Ela soltou um grunhido daqueles que a fazia quando achava algo extremamente fofo. Eu juro que não consegui controlar o sangue que se acumulava nas minhas bochechas e com isso, ganhei mais uma série de beijos. – Olha você vermelho! – O gritinho animado da me fez corar ainda mais. – OBRIGADO, GRANDE B!
– AH NÃO! – Cobri o rosto com as mãos, ouvindo a risada encantadora dela e não tive outra escolha a não ser esconder meu rosto quente em seu braço. Na verdade, eu até tinha, só não queria. – Não ri do date, caramba! – Àquela altura eu já tinha começado a rir também e o primeiro zunido do treino cortou o silêncio da arquibancada. Apostava que era a e logo eu precisaria estar dentro de um carro também, embora fosse ouvir as broncas do Chris sobre minha imprudência.
– Não tem como. – sacudiu a cabeça e respirou fundo. – Você tá um pimentão e garanto que uma vergonha dessas, eu não passo!
– Eu te mostrei a foto de boa! Não era pra zoar. – Fiz um bico imenso e logo passou zunindo e atrapalhando o clima.
A enfermeira se projetou um pouco mais pra frente, tentando ver a próxima vez que o carro passasse ainda mais rápido na curva, à direita da nossa localização. Soltei uma risadinha anasalada pela empolgação dela e fiz o mesmo, encostando os cotovelos nos joelhos pra conseguir ver o quão iluminado seu rosto estava.
? – Afaguei o joelho dela, conseguindo sua atenção apenas quando cortou o vento em mais uma volta.
– É a ? – A curiosidade em seus olhos me fez sorrir largamente, afirmando com um aceno. – Wow! Ela é realmente foda nas pistas né? Me lembra o seu pai. – Senti o bolo na garganta vir, mas o impedi de ficar muito tempo.
– É sim, . – Beijei sua bochecha ao concordar com tudo que ela tinha dito. – Hoje é a corrida comemorativa do aniversário dele, então daqui a pouco eu vou precisar treinar um pouco pra não causar estrago na pista. – Nós dois rimos e ela passou a mão em meu cabelo. – Bom, também vai ter a apresentação dos novos pilotos da Sub-20 e eu queria saber se você quer ficar… assistir com a família e amigos lá do Pit Stop.
– VOCÊ TÁ FALANDO SÉRIO? – A mulher mais linda em todo o mundo se acendeu tão radiante que foi impossível não sorrir. Enfiei minha mão entre seus cabelos e ao segura-la pela nuca, beijei-a de surpresa, sentir sua língua na minha era uma das melhores sensações que eu já tinha experimentado na minha curta vida. me deu um selinho e abriu um sorriso comedido, mas extremamente vibrante.
– O Grande B. ia gostar. – Umedeci minha boca. – E o filho dele mais ainda. – Pisquei pra completar o que tinha dito e senti o impacto do corpo dela contra o meu em um abraço apertado, gostoso e cheio de gratidão. Circundei sua cintura com meus braços e me atrevi a acomodar o rosto no pescoço dela só pra sentir aquele cheiro delicioso que me entorpecia.
– Obrigada! Obrigada! Obrigada! – Vi seus olhos se encherem de algo desconhecido por mim e no reflexo fiz carinho em sua bochecha com meu polegar. E embora meu coração sacudisse feito louco no meu peito, tentei me manter estável. Aquela mulher me agitava mais do que as corridas com a . – Só me dizer onde eu fico, que fico quietinha. Prometo!
– Tem um espaço legal lá no Pit Stop, onde ficam os amigos e a família. – Beijei sua mão e ouvi um som nervoso sair da sua boca. Merda, ! Você está assustando a mulher, porra! Senti a garganta estreitar e me adiantei, antes que ela desistisse de ficar. – O vai estar aqui! – Saltei com o remendo e ela me pareceu ficar menos desconfortável. – Bom, você o conhece e não vai ficar tão desconfortável.
– Não conheço tanto assim, mas fico mais aliviada. – Ela soltou uma risadinha sem graça e mais uma vez eu quis me matar. – E o Austin? – Vi um lampejo de esperança surgir em seus olhos ao perguntar pelo filho do Chris. Soltei um gemido frustrado.
– Ele o líder da “minha equipe”. – Nós dois rimos com meu sarcasmo. – Na verdade, a equipe é da , mas ela me libera um número reduzido de pessoas anualmente. – Fiz uma careta desgostosa, ainda que fingida e ela sorriu. passou mais uma vez a mão pelos meus cabelos e eu já não sabia mais qual era a melhor sensação, se era a da sua língua na minha, ou da sua mão nos meus cabelos.
– Eu supero! – Ela se deu por vencida e foi inevitável soltar um grito escandaloso jogando os braços pra cima.
Eu era um idiota completamente apaixonado!
-x-x-x-


SURREAL. Era a única palavra pra descrever o misto de sentimentos que se acumulavam em meu peito ao estar dentro daquele Pit Stop eletrizante até o ultimo fio de cabelo. A família do estava acumulada no canto direito da largada a uns bons cinco metros de onde eu estava, principalmente quando decidi manter distância pra evitar certas especulações a minha relação com ele. Preferi ficar perto de onde Austin estava e o garoto fazia de tudo pra me explicar suas várias ações com a equipe, como organizava e juro que até do motor do carro ele falou, embora eu entendesse pouco sobre a mecânica de automóveis, eu sabia perfeitamente da mecânica que movia pessoas e sistemas corporais.
Os irmãos tinham ido se paramentar com o macacão milionário, assim que a mãe dos dois chegou dando várias recomendações sobre evitarem a corrida agressiva, provocações e mais uma porção de coisas que não consegui entender por evitar ficar encarando a família por muito tempo e ser pega no flagra. Só que os avisos da Mrs. não serviu de muita coisa, já que e saíram se empurrando como duas crianças, enquanto iam na direção dos vestiários. Aquela era a noite dos dois e o traumatinho parecia ainda mais radiante do que quando ele finalizou a cirurgia pelo Harry.
Senti o celular vibrar no bolso e tinha acabado de receber um SMS.
Antunes
Tá tudo dando certo? Precisa de um salvamento?
Se sim, Julian está disposto a sair de casa XD

Soltei uma baita de uma gargalhada com o fato de o Antunes começar usar emojis como todo mundo, principalmente quando eu imaginava ele imitando cada um deles antes de mandar, tentando testar a carinha e ver se ela se encaixava na conversa. Ele era meu salvador quando eu me mentia em encontros péssimos e terríveis, geralmente eu mandava mensagem e não demorava muito pra que meu pai de mentira ou o Ju, seu filho, aparecesse pra me buscar como uma bela desculpa na ponta da língua.
Mas aquele dia estava sendo tão diferente, estar com o era uma das coisas mais diferentes que eu tinha feito na vida. Eu não tinha vontade de ser resgatada ou tirada daquela realidade em que me sentia bem por receber uma atenção sincera, uma atenção que não parecia nem um pouco com “estou fazendo isso porque quero transar com você”. E talvez fosse até um pouco egoísta da minha parte usufruir da atenção dele, mesmo pensando assim. Mas o grande problema é que eu não conseguia me afastar, nem que eu quisesse.
Sacudi a cabeça depois de uma pergunta do Austin, ou seria um comentário qualquer? Bom, respondi genericamente e mandei uma mensagem de volta pro Antunes.
Para: Antunes
Estou muito bem, prometo!!!!
O PAI DO ERA O GRANDE B, VOCÊ TEM NOÇÃO? HAROLD, EU TO NUM PIT STOP NESSE EXATO MOMENTO.

Decidi ser franca sobre meus surtos internos e não demorou mais que segundos até que um jovem enorme – de ombros enormes, na verdade – tomasse a minha visão, já todo paramentado para entrar nas pistas. Ele já não usava mais os costumeiros óculos de grau bem grossos e parecia tão diferente, talvez estivesse com lentes de contato, ou… meu Deus santíssimo, aquele homem era lindo demais. Meu estômago remexeu com a visão de dentro daquele macacão e com um sorriso tão largo e brilhante, que encandeava qualquer um. As cores da equipe eram vermelho e branco, algo que me lembrava bem a Ferrari, se não fosse tão comum encontrar várias equipes com variações diferentes daquelas cores.
Diferente do futuro traumatologista, usava uma cor a mais no macacão e os desenhos dourados no dela, gritavam “CAMPEÔ, principalmente depois do treino que eu tinha visto durante a tarde. A garota era incrível!
Philllip também era uma máquina de velocidade nas pistas, mas não era um dos mais prudentes com a direção e pelo pouco tempo que o acompanhei no treino, não sabia se meu coração ia aguentar a corrida oficial.
Senti um reboliço apavorado na boca do estômago assim que vi aquele sorriso indescritível ser direcionado ao meu olhar incisivo. Queria que ele viesse até mim, queria que ele sorrisse pra mim, abraçasse minha cintura e me beijasse como se só existisse eu de mulher em todo o mundo. E por mais que minhas pernas não concordassem com a cabeça e começarem a tremer levemente, meu coração sacudindo na caixa torácica gritava “ ESTÁ VINDO PRA CÁ”.
Eu queria morrer com o jeito que aquele garoto mexia comigo! Ele só tinha 25 e me deixava toda tremida e por mais que o macacão lhe deixasse com um porte de quem era uns bons seis anos mais velho, eu não podia simplesmente surtar. Na verdade, eu podia sim e já estava surtando.
Não demorou muito até que ele tivesse segurado meu rosto pra um beijo rápido e foi inevitável ressaltar mais uma vez o quanto era alto. Eu tinha que ficar na ponta dos pés e ele ainda inclinava a cabeça pra conseguir me beijar direito, segurei nos passadores de cinto do macacão de tecido resistente pra não cair no chão. Minhas pernas estavam uma tremedeira só, por mais que meu cérebro mandasse ordens rudes e mandonas pra que o resto do meu corpo parasse de reagir daquela forma ao moleque.
– Beijo de boa sorte? –Apergunta dele vibrou contra meus lábios. Eu esperava que ninguém mais tivesse visto além do Austin que parecia não dar a mínima pro modo que estávamos nos beijando. – Gostei! – mordeu a minha boca e me deu mais um beijinho. Eu estava lenta demais pra tomar qualquer atitude.
– Você é tão convencido! – Soltei uma risada ainda trêmula e belisquei a bunda dele, vendo as bochechas lisas enrubescerem violentamente. AHÁ! Minha zona de conforto estava a salvo novamente. – Boa sorte na pista. Por favor, tente não se matar… ou o Antunes me mata. – Corrigi meu desespero por segurança e me senti uma idiota depois disso.
apareceu correndo feito um louco e salvando meu pescoço de ter que tentar não surtar ainda mais na presença do . Sinceramente, aquele tesão estava ficando incontrolável e eu precisava resolver logo, ou as coisas desandariam. Sacudi a cabeça pra espantar os pensamentos e vi que os dois residentes fofinhos conversavam animados e eufóricos sobre a corrida, pude ouvir um pedido de desculpas de pela demora, enquanto dava uma desculpa cheia de códigos que eu não fiz questão de entender. Logo fomos apresentados oficialmente e confesso que me senti à vontade na presença do residente do Robinson, diferente do que acontecia quando o neurologista metido a besta estava no recinto. O garoto era bem divertido e engraçado, além de demonstrar o quanto gostava da família , repetindo mais de 10 vezes como a Louise, mãe do , era incrível.
Será que ele achava que eu estava namorando o ? Ou melhor, será que o achava isso? Meu Deus!
– x-

Os novos pilotos da equipe júnior já tinham sido apresentados naquela noite emocionante, não contei quantas vezes engoli o bolo na garganta ao ouvir as mais lindas palavras sobre meu antigo ídolo das pistas. Nunca vou conseguir contar quantas aulas eu matei pra ver o Grande B treinar dentro do Vancouver Motorsport, o cara era uma lenda naquelas pistas e segundo o filho dele, não estava muito longe de conseguir o feito. Mordi mais uma vez o pedaço da unha curta do polegar e ouvi a risada anasalada do , que tinha insistido pra ser chamado assim, ao meu lado.
– Na primeira vez é sempre assim. – Ele soltou um comentário e vinquei as sobrancelhas, confusa com a frase. – Ver a corrida comemorativa de perto. Na primeira vez a gente SEMPRE morre de ansiedade, principalmente quando se está torcendo pro . Ele é doido!
– Você não está ajudando, ! – Ralhei já bem desesperada. Parecia que o moleque ia se pechar na primeira curva que visse. – Se quer me assustar, tá conseguindo! Ele já disse que não corre profissionalmente porque é imprudente. E você ainda me vem com isso?
A gargalhada dele foi estrondosa e depois de querer derrubá-lo do banco, percebi que era do Austin que estava rindo. A olhada do líder de equipe parecia uma piada interna que só o tinha entendido. Me senti de escanteio, mas não por muito tempo.
não aprende nunca? – O garoto com um imenso fone nos ouvidos, disse como se tivesse decepcionado. O médico deu de ombros. – Não é contando dessas paradas que se conquista alguém! – Aí eu me rendi as risadas, até ouvir a voz do traumatinho no interfone. Na verdade, a voz dele e a de , que já estavam dentro dos seus carros e prontos pra largada. Como eu tinha perdido aquilo?
Qual é a graça? Eu ouvi meu nome. – a voz dele fez meu coração sacudir e eu quis manda-lo parar com aquela putaria.
– Você dando mancada em contar pra que não é nada cauteloso. Depois de hoje, ela nunca mais quer saber de você! – Austin praguejou e eu quis protestar que eu não tinha dito nada daquilo, mas era demais pro ego do moleque. – Já comeu os dedos, porque unha não tem mais.
Eu já disse que você é idiota? Porque você é! – Aquela era a voz da , xingando o irmão e me fez rir. Chris e a equipe dela estavam a uns dois metros da gente, incluindo a mãe e alguns familiares. Era uma corrida comemorativa, então era basicamente o mesmo pit stop.
Calem a boca! – gritou e quase pude ver suas bochechas vermelhas. – Não escuta eles, ! São todos idiotas!
Eu e rimos.
– Chega de conversa fiada, pirralhos! – Chris. Era isso? Gritou do outro lado. – Façam bonito hoje à noite. Mostrem que são filhos do Grande B e o velho vai ficar imensamente feliz de onde estiver. – Juro que quis chorar, mas não me dei ao luxo. e a irmã afirmaram com a maior alegria do mundo. e Austin tinha sorrisos imensos no rosto.
Tentei me segurar e não olhar na direção da Louise, mas foi inevitável e perceber como ela parecia feliz com todo aquele tributo, fez meu coração encher e transbordar quentinho. Era a prova que o amor verdadeiro perdurava além da vida, mesmo que em forma de admiração genuína. Ela ainda amava o pai do , mas não era mais exatamente como alguém que deixaria de viver a vida por isso. Como percebi? Depois da troca de sorrisos entre ela e o Chris. Os dois pareciam mesmo se gostar, um carinho maior do que só amizade.
– Começando a checagem rápida. – O homem mais velho começou e Austin deu seguimento, fazendo uma série de perguntas sobre freio, marcha e direção, para logo depois começar com a contagem regressiva de cinco segundos. A cada número dito os motores aceleravam e as provocações entre os irmãos ficavam mais intensas, me deixando ainda mais nervosa.
Cinco.
-Você vai comer poeira, seu tapado. provocou o irmão mais velho.
Quatro. Três.
Eu vou é te mostrar porque não fui aceito na equipe! – Aquela ameaça dos infernos fez meu coração sacudir. Eu ia matar !
Dois. Um.
– Falem menos e corram mais! – Austin berrou antes do estampido do tiro de largada e a fumaça na pista foi a única coisa visível pra mim, além do som das arquibancadas lotadas e em puro delírio pela comemoração tão importante.
Onde inferno eu tinha me metido, papai do céu?
-x-x-x-

Eles chegaram exatamente ao mesmo tempo na linha de chegada e juraram que nunca tinha acontecido antes. Bom, eu duvidava. A comemoração foi ainda mais linda e cheia de gritos, abraços e lágrimas, além de dois pilotos no teto do carro, gritando para as arquibancadas entumecidas de gente, que Benjamin estava vivo. Aquela tinha sido uma das noites mais intensas da minha vida e uma das mais lindas também.
A festa começou forte no autódromo, incluindo as duas equipes e várias pessoas que eu não fazia a mínima ideia que os conheciam, a maioria daquelas pessoas eram os maiores líderes e patrocinadores das corridas e só aí me dei conta que era tolice minha em achar que eles não conheciam aquela gente toda. Ficamos mais um tempo no meio da comemoração, até que os boatos sobre a festa migrar pra casa de alguém rondaram e aí eu pedi ao pra me levar pra casa. Já estava deslocada demais pra ir em alguma festa privada.
No caminho passamos em um drive thru 24h e foi a coisa mais divertida ver o garoto tentando comer enquanto dirigia. Demos várias risadas com o mal jeito de abocanhar a comida, se sujar com o molho e fazer cara feia na impossibilidade de comer com tranquilidade. No fim, ele acabou desistindo e me pediu pra segurar o lanche até que ele pudesse estacionar na vaga dentro do prédio.
– Ainda temos o resto do seu sanduíche. – Estendi o pacote de papel, ainda rindo com a careta desgostosa do rapaz simpático. – Só consegui te dar as batatas enquanto você dirigia! – Fiz um bico e soltou um suspiro mais do que fingido.
– Ou eu dirijo, ou eu como. – Ele deu de ombros e soltou uma risada divertida. – Você quer? – O traumatinho me ofereceu o sanduíche antes de pegá-lo da minha mão.
– Não, não. Eu pedi porção extra de batata e comi demais. – Fiz uma leve careta por sentir o estomago meio cheio. Esperava muito que aquilo não me incomodasse o resto da noite.
soltou uma risada bonitinha e abocanhou o sanduíche, comendo quase metade do pedaço que restava, só com uma mordida. A boca dele era realmente enorme! E enquanto estava concentrado alimentando seu corpinho volumoso, pude perceber o quanto a beleza dele era algo puro, não tinha aquele ar pesado de arrogância ou de perca da inocência. Ele era alguém limpo, gentil, divertido e que esperava o melhor das pessoas, ele era a raridade que o mundo estava perdendo. Suas bochechas vermelhas se movimentavam do jeito mais bonitinho e eu tinha vontade de gritar sempre que elas ficavam evidentes.
Coloquei o copo com refrigerante entre suas pernas e recebi um sorriso agradecido em troca. Aquele momento de silêncio era um dos mais diferentes pra mim, principalmente pela velha generalização de sempre esperar o mesmo das coisas. Eu odiava estar em silêncio, pois minha cabeça barulhenta acabava ganhando a briga quando estava em ausência de som, mas aquele silêncio com era diferente. Era maravilhoso!
– A corrida foi incrível né? – Voltei a dar voz aos meus pensamentos e vi o sorriso largo varar as bochechas dele após terminar com o sanduíche.
– Foi! – soltou o ar dos pulmões em um suspiro aliviado, orgulhoso e feliz. – Eu me sinto vivo, . Essas corridas anuais me ajudam a nunca perder a conexão que tenho com o meu pai, sabe? – Ele encostou a cabeça no banco do carro e sorri largamente. Era tão lindo o jeito que ele se sentia ligado ao pai.
No impulso, minha mão foi atraída por seus cabelos escuros e eu fazia um cafuné por lá, embora fosse algo completamente fora dos meus planos, ele sorria ainda mais.
– Pelo visto, você não tem apenas um dom. também é um puta corredor! – Ouvi a risada espontânea dele, enquanto sacudia a cabeça que não. – Meu coração foi no chão, com toda aquela sua provocação com a antes da corrida.
– Ritual pra dar tudo certo. – Ele deu de ombros, como se não fosse nada demais, confirmei que o menino era modesto. – Mas eu tenho outros dons que você não conhece, moça! – deu uma piscadinha sem vergonha e soltei uma risada espontânea. Queria mesmo comprovar se ele tinha aquele dom!
– Safado! – Apontei. – Nunca pensou em correr profissionalmente? – Eu queria mesmo saber por qual motivo um corredor tão bom estava longe das pistas. Não que eu fosse expert em corridas, mas não precisava saber tanto assim pra ver o quanto era incrível nas pistas.
Pra minha surpresa, ele negou com a cabeça e pra completar ainda, sorria encantado com o que quer que fosse dizer.
– A sempre gostou bem mais do que eu. Meu negócio é ser médico mesmo, sabe ? – Afirmei enquanto umedecia a boca – Eu quero fazer o que não fizeram pelo meu pai. – Ele abriu um sorriso triste e afaguei seu ombro em solidariedade.
– Sinto muito por ele. – Falei baixinho antes de lhe dar um beijo calmo na bochecha. – Era um grande homem! E isso me faz ver que você é tão incrível quanto, o mundo precisa de mais Phillips. – Foi o suficiente para as bochechinhas vermelhas apertarem os olhos brilhantes do cara ao meu lado.
– Se todos eles encontrarem uma , tá valendo. – Ele disse com uma piscadela.
PUTA MERDA! AQUELA ERA UMA BELA DE UMA DECLARAÇÃO. Na qual eu não tive tempo de processar, porque a mão de tomou meu rosto e logo se espalhou por minha nuca embolada aos meus cabelos cacheados, enquanto seus lábios dominavam os meus de um jeito que eu não esperava. Aquele moleque beijava bem demais! Enfiei os dedos entre os cabelos curtos e senti a boca dele vibrar em um gemidinho gostoso quando fiz isso, não me contive e acabei lhe mordendo o lábio inferior, deixando- o todo animadinho ao ponto de soltar uma risadinha sacana. E mais uma vez fui pega de surpresa, mas dessa vez, estava com o rosto enfiado em meu pescoço beijando e chupando a pele quente, além de ter uma das suas mãos espalhada entre a minha coxa e a minha bunda.

– Hm? – Ele puxou meu corpo contra ele ao enlaçar o braço forte em minha cintura. Arfei.
– Você quer subir? – Puxei seus cabelos mais uma vez e no reflexo, ele mordeu meu pescoço. – No apartamento…
– E- eu… eu não sei, . – o traumatinho afastou o rosto do meu pescoço e ao vê-lo, entendi que ele não queria passar dos limites. – Tá um pouco tarde.
Soltei uma risada e apertei seu queixo entre os dedos.
– Moleque, larga de ser fofinho! Eu sei e você sabe, que a gente vai transar uma hora. Por que não hoje? – Pisquei ao abrir um sorriso safado, ele fez o mesmo. – Garanto que o apartamento tem mais espaço que o carro. – Nós dois rimos e ele não perdeu tempo pra desligar o carro e tirar a chave da ignição.
– Eu estava tentando parecer decente. – fingiu estar chateado e revirei os olhos. – E quando você vai parar de me chamar de moleque?
– Quando você me mostrar que não é um. – Mordi meu sorriso sacana e abri a porta do carro, esperando ansiosamente que àquela noite, ele me mostrasse que era um homem.

Nota da autora:
PARECE QUE ALGUÉM TA SE APAIXONANDO NÉ?
Ooooi gente, hoje trouxe esse capítulo mais lindinho do mundo, um dos mais emocionais até agora e mais fofinho né? Aqui a gente pode ver um pouco mais sobre a vida do Phill e como a Sid tá toda envolvida por ele né? ️
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