Just One Yesterday

Just One Yesterday

Sinopse: Você sabia que tinha encontrado sua alma gêmea quando conseguia ver acima de sua cabeça quantos dias ela ainda tinha de vida.
Aos vinte e sente anos, ele achava que nunca encontraria sua alma gêmea.
Até o dia em que esbarrou nela.
Gênero: Drama
Classificação: 10 anos
Restrição: Morte de personagem principal
Beta: Natasha Romanoff

já tinha desistido de um dia encontrar sua alma gêmea. Por tudo que ele já conhecia, parecia uma péssima ideia, de qualquer maneira. Claro, sempre existiria aquela pessoa que conseguia enxergar um certo teor de beleza em toda tragédia, beleza o bastante para acabar misturando-a com romance. Pelo sim ou pelo não, encontrar a própria alma gêmea ainda parecia um tanto quanto trágico.
Ele ainda se lembrava de quando , seu melhor amigo, havia encontrado sua alma gêmea, . lembrava dos olhos brilhantes do amigo ao lhe contar que tinha conseguido ver os números brilhando em laranja acima da cabeça de uma pessoa, pela primeira vez em anos. 24.820. ainda teria longos 68 anos de vida pela frente.
Talvez fosse porque sua própria alma gêmea não existia ou porque era simplesmente realmente estranho, mas a ideia de poder ver quantos dias de vida seu suposto amor ainda tinha era simplesmente assustadora demais. E, se o relacionamento desse certo — e ele nunca tinha ouvido falar de almas gêmeas que não tinham se apaixonado e ficado juntas —, a cada novo dia você veria o número diminuir, sabendo que a vida da pessoa estava cada vez mais próxima do fim, e exatamente quantos dias ainda lhe restavam.
Algumas pessoas diziam que a beleza daquilo residia em poder aproveitar ainda mais cada dia, cada segundo ao lado da pessoa amada, vivendo-os ao máximo. Por um lado, fazia todo sentido. Por outro, pensava no desespero de quando os números começavam a ficar cada vez menores, quando as centenas se tornavam dezenas, e então unidades. E tudo chegava ao fim.
Era um jeito torturante de saber que ele amava alguém. Mas, segundo os românticos, talvez aquela tortura fosse parte de amar. E sabia que não descobriria tão cedo.

***
Alguns casais combinavam de nunca contar para a sua alma gêmea quantos dias eles ainda tinham de vida. Outros preferiam contar para que ambos estivessem preparados. Era uma coisa que ia de casal para casal, não existia uma regra. e tinham compartilhado a informação e pareciam felizes, obrigado. O mesmo poderia ser dito de outro casal de amigos, que tinham decidido manter em segredo. Casais diferentes funcionavam de maneiras diferentes, o importante era que funcionasse para ambas partes.
Às vezes se perguntava qual tipo de casal ele e sua alma gêmea seriam — se ele tivesse uma, claro. Provavelmente, iria querer saber seu tempo de vida, então nada mais justo que contar à outra pessoa o tempo de vida dela. E como eles seriam almas gêmeas, claro que a pessoa pensaria o mesmo. E eles provavelmente seriam felizes pelos dias contados, todos sempre eram.
Era estranho pensar que ele poderia se apaixonar perdidamente por alguém que nunca tinha visto em toda sua vida, uma pessoa em quem ele colocaria os olhos, veria os números no topo de sua cabeça e faria com que seu coração instantaneamente batesse mais rápido. Mas almas gêmeas eram exatamente isso. Duas pessoas destinadas a ficar juntas, não importa o que aconteça. estava destinado a e eles souberam disso no exato momento em que se viram no metrô pela primeira vez.
Talvez a alma gêmea de estivesse por aí, esperando um encontro aleatório, um momento de distração para que pudesse aparecer e iluminar seus dias, lhe provocar sorrisos bobos e fazer seu estômago gelar em momentos inoportunos. já tinha desistido de encontrar essa pessoa, mas todos os dias ele ainda sonhava com ela.

***
Aconteceu em uma cafeteria de esquina.
Eles se esbarraram quando estava entrando e ela estava saindo.
A mulher baixa, com cabelos soltos e moldando seu rosto em um corte moderno e divertido, literalmente trombou em e quase derrubou a própria bebida, como teria acontecido em qualquer filme clichê adolescente. Ele sabia que era sua alma gêmea pela maneira que a boca dela abriu quando ela olhou para o rosto de , o olhar fixo em um ponto acima de sua cabeça. Ela estava vendo os dias de vida que ainda tinha pela frente.
Mais do que isso, sabia que aquela mulher à sua frente era sua alma gêmea porque, acima de sua cabeça, ele conseguia ver nitidamente o brilhante número 5.

***
— Por favor, me fala que você também está vendo — a voz dela, sua alma gêmea, soava como o melhor som do mundo ao ouvido de . Ele sabia que com simples palavras aquela mulher seria capaz de lhe fazer a pessoa mais feliz de todo o universo. — Claro que ‘tá, olha o jeito que você tá me olhando — ela riu, uma melodia que fazia com que se sentisse um adolescente novamente, seu coração aquecido.
E mesmo que aquela fosse literalmente a primeira vez que via aquela mulher em sua vida, ele a abraçou, provavelmente com mais força do que deveria. Ela era relativamente menor que ele, o que a fazia se perder em seu corpo. Ela riu quando a apertou em seus braços, mas o abraço foi retribuído. Era a primeira vez que abraçava o amor de sua vida e agora ele entendia , seus amigos, todos. Não existia nada melhor do que ter a pessoa destinada a ele em seus braços.
— Ei, eu também estou muito feliz em finalmente te conhecer — a voz sussurrada da mulher causava arrepios por cada pequena parte do corpo de e era tudo o que ele queria ouvir para sempre. — Vamos sentar e conversar lá dentro, bonitão? Nós temos o resto de nossas vidas pela frente. Aliás, eu sou a , sua alma gêmea, aparentemente.
afastou o abraço, encarando-a. Ela era linda, perfeita, e sabia que já amava cada parte dela porque era isso que almas gêmeas faziam. Elas simplesmente se amavam. Era assim que tudo funcionava. Entãos os olhos dele se prenderam novamente no número acima da cabeça dela, o número 5 laranja e brilhante, gritando para que tudo o que sequer tinha começado estava prestes a acabar.
era sua alma gêmea e ela só tinha mais cinco dias vida.

***
Naquela noite, chorou.
Aquilo não era justo, nenhuma parte daquilo era justa. Por vinte e sete anos ele havia vivido com a certeza de que nunca conheceria sua alma gêmea simplesmente porque ela não existia, porque não tinha ninguém por aí com a alma conectada à dele. e tinham se conhecido com vinte e quatro anos, relativamente tarde para alguns, cedo para outros. A idade perfeita para eles, porque ambos ainda viveriam muitos e muitos anos.
Juntos.
Deitado em sua cama, tendo como únicos companheiros os lençóis verdes e o travesseiro já com grandes manchas uniformes de lágrimas, se lembrava do sorriso de , de sua voz durante a conversa que tiveram por toda a tarde, de como eles estavam se conhecendo, mesmo que ambos soubessem que eles ficariam juntos de qualquer maneira.
Era quase irônico como, por toda sua vida, teve certeza de que, quando conhecesse sua alma gêmea, iria querer contar quantos dias de vida ainda teriam lado a lado. Mas agora ele sabia que nunca seria capaz de contar para que ela tinha apenas cinco — quatro a essa altura — dias de vida.
Que o fim estava muito mais próximo que o começo.

***
O segundo encontro deles aconteceu já no dia seguinte porque tinha pressa. Ele viu e o número 4 brilhava forte. O coração de doeu, se contorceu, e parte dele quis gritar, chorar e amaldiçoar quem havia ousado lhe dar uma felicidade tão curta assim. Mas ele sorriu para a mulher porque ela também sorria.
Eles foram a um restaurante de comida internacional que não sabia qual era, mas era boa. Durante toda a refeição, falou sem parar e apenas a encarou com um gigantesco e doloroso sorriso.
imaginou o que ele e poderiam se tornar no futuro. Se imaginou casado com ela, vivendo uma vida conjunta. Eles brigariam, mas no fim se entenderiam, com certeza. Em três horas conversando com , já sabia que ela era completamente teimosa, talvez mais teimosa que ele mesmo.
Eles teriam uma criança. Talvez duas. Ou três, as coisas poderiam sair do controle. com certeza seria uma mãe incrível, conseguia sentir isso. E eles seriam aquele casal que se complementa a ponto de irritar os próprios filhos de um jeito quase adorável.
xingou internamente a injustiça do universo e como ele não merecia ter o mundo entregue a ele para ser tirado em tão pouco tempo.

***
— Será que esse é o momento de dizer que eu provavelmente tenho medo de altura? — perguntou, com os olhos presos no topo da roda-gigante.
— Provavelmente? — riu.
As mãos deles estavam unidas e o polegar de acariciou a mão de levemente. Ele a olhou de relance, vendo os olhos assustados de e o grande esforço que ela realizava para tentar parecer um pouco mais corajosa. No topo de sua cabeça, o número 3 brilhava mais forte do que nunca, sempre causando um leve arrepio na nuca de .
— Nada confirmado. — se virou para e sorriu, firmando mais o aperto na mão dele. — Mas não é agora que eu morro, é?
Era uma piada. Era óbvio que era, uma brincadeira boba que almas gêmeas faziam. Mas o número 3 laranja brilhando acima da cabeça de tornava difícil demais para que ele conseguisse sequer sorrir. Não era agora que ela morreria, mas era logo. Em pouco tempo, não poderia mais caminhar com , segurar sua mão, ver seu lindo sorriso. O calor que ele sentia em seu peito logo seria substituído apenas por gelo e novamente ele viveria a solidão.
Ei sussurrou, e se aproximou um pouco mais de , passando os braços pela cintura dele. — ‘Tá tudo bem, . Eu ‘tô aqui com você, não ‘tô?
abraçou com força, a prendendo contra seu corpo, sentindo o cheiro levemente floral que ela tinha. Ele amava e ainda não estava pronto para perdê-la.

***
puxou para seu colo e ignorou totalmente o número 2 que brilhava acima da cabeça dela. Ele beijou os lábios de com vontade, provando de sua boca como se sua vida dependesse disso, e de certa forma ele acreditava que de fato dependia.
Ele a segurava com firmeza, deixando que as pernas de contornassem sua cintura e suas intimidades de tocassem. suspirou contra o gemido da mulher, as respirações se encontrando e se perdendo, o desejo falando alto, mas nunca se sobrepondo ao amor que ambos sentiam.
Os corpos se unindo, quase como se desejassem tornar-se um, eram apenas mais uma prova do que sentiam um pelo outro. A maneira como chamava pelo nome de , ou como chamava pelo nome de . Tudo ali era puramente amor com aquela leve pitada de desejo, necessidade.
Quando os dois caíram no colchão, extasiados, sorrindo, se deixou perder nos olhos de , em sua pele, em cada pequeno detalhe de seu corpo que a tornava a mulher mais linda que ele já tinha visto em toda sua vida. sabia que perfeição não existia, mas parecia que tinha nascido para desafiar essa regra.
sabia que havia se apaixonado por porque ela era sua alma gêmea e era assim que o universo funcionava. Mas parte dele dizia que, não importava se aquilo era um trabalho do próprio destino: em qualquer situação, em qualquer universo, em qualquer vida, os dois sempre se apaixonariam perdidamente.

***
Quando abriu a porta para , ele simplesmente desabou.
tinha se prometido que não falaria nada, que não deixaria que soubesse, que agiria de maneira completamente natural. Mas agora o número 1 brilhava sobre a cabeça de e sabia, ele sabia o que vinha pela frente, sabia que aquele provavelmente era seu último dia com o amor de sua vida. Não existia nenhuma história sobre os números resetarem, não tinha a possibilidade de mudar aquele maldito destino.
Da mesma maneira que era certo que eles se apaixonariam, era certo que, ao fim da contagem, eles morreriam.
E aquilo quebrava , doía em cada fibra de seu corpo. Enquanto ele abraçava e a sentia levando-o para o quarto, deitando com ele e secando suas lágrimas, odiava o universo. sussurrava palavras de consolo, dizia que tudo ficaria bem, que ela estava ali. Mesmo assim, chorava, soluçava, sentia vontade de dormir e nunca mais acordar.
Ele queria que os números em sua cabeça também zerassem e ele não fosse obrigado a viver sem , não fosse obrigado a suportar uma realidade em que ele tinha tido apenas cinco dias ao lado do amor de sua vida.
O peito de doía, apertava, fazia sua respiração vacilar. Seus olhos ardiam, mas as lágrimas não paravam e ele só queria que tudo aquilo acabasse, que o sofrimento parasse e que aquela dor fosse embora, que os braços de ao seu redor durassem pelo resto de sua vida. Ele apertou os olhos, se encolheu mais contra , tentando se esconder em seu corpo, esperando pelo momento que a dor passaria.
Mas ela não passava.
daria qualquer coisa para o número 1 acima da cabeça de nunca apagasse.
trocaria todos os seus amanhãs por apenas mais um ontem.
Apenas mais um dia com .

***
Quando acordou, ele estava sozinho na cama.
Tinha dormido após tanto chorar, dormido nos braços de , sentindo o calor de seu corpo, o cheiro de flores, ouvindo sua voz lhe contar histórias mirabolantes. não conseguiu abrir os olhos, mas, mesmo assim, ele sentiu as lágrimas caindo. A sensação de vazio não estava apenas no colchão em que ele estava deitado.
não viu o momento em que o número 1 acima da cabeça de se tornou o número zero, mas ele sabia que tinha acontecido porque ele nunca tinha se sentido tão mal em toda sua vida. Ele queria parar de chorar, mas não parecia que era ele quem estava no controle.
chorava suas lágrimas e as lágrimas de .
Ele moveu o braço pelo colchão e pegou uma grande quantidade de lençol e um pedaço de papel.
Se ele levantasse, veria nos noticiários sobre o acidente que havia acontecido entre um ônibus e um caminhão, deixando dezenas de feridos e alguns mortos. Se ligasse a televisão, veria que, entre os nomes confirmados mortos, estava o de . veria a foto de sua alma gêmea sorrindo, porque foi isso que ela mais fez em vida. Ele veria imagens dos destroços, as pessoas chorando, alguns corpos ainda sendo encontrados.
Mas apenas se sentou na cama e pegou o pedaço de papel, guardando eternamente para si uma pequena carta, sua última conexão com .

,
Eu sei que meus dias já estão no fim. Eu percebi isso desde o dia em que nos conhecemos, a maneira como você pareceu estar sofrendo, como você sempre olhava para o número em minha cabeça.
Eu sinto muito por termos tido tão pouco tempo juntos, pela injustiça que isso representa. Pelo jeito que você apareceu em minha porta, como chorou por horas até simplesmente apagar, imagino que a minha hora enfim chegou.
Sei que ficamos juntos por pouco tempo e sei que pode ser a ligação de alma gêmea falando acima da razão, mas eu te amei por cada segundo. Eu te amo. Vou te amar por cada segundo que respirar — tá, talvez não seja muito a essa altura, mas…
Você ainda tem muitos anos de vida, meu amor. Viva cada um deles intensamente, seja feliz, não fique muito tempo chorando por mim. Nós vamos nos encontrar novamente, um dia, em outra vida. Somos almas gêmeas nesse universo e em todos os outros.
Obrigada por ter me amado nesses poucos e contados dias, e por ter me deixado te amar.
Para sempre sua,
.
FIM
NOTA DA AUTORA:
Essa fic era originalmente uma short Stony, porque eu amo sofrer pelos meus boiolas. Mas eu decidi deixar essa história hétera para vocês também poderem sofrer um pouco. Eu não sou de escrever drama, mas eu sonhei com essa história e precisei colocar no papel, então desculpa qualquer coisa.