Lettres Roses

  • Por: Nic Bueno
  • Categoria: Originais
  • Palavras: 1802
  • Visualizações: 17
  • Capítulos: 3 | ver todos

Sinopse: Ela perdeu tudo o que tinha e se encontrou em cartas. Muitas cartas. Todas com remetente, mas sem destinatário — até chegar em suas mãos. Será que uma desconhecida do século XX seria quem a ajudaria a tomar as rédeas da sua vida?
Gênero: Drama
Classificação: 16
Restrição: Os personagens Rosa, Francis, Josh são fixos.
Beta: Natasha Romanoff

Capítulos:

 

Prólogo

“3 de outubro de 1921.
Ao longo desse ano, aprendi a não sentir. Vejo seu vulto me cercando depressa, sinto seu braço se erguer em minha direção, ouço o barulho do contato rígido da sua palma em minha pele, mas não sinto nada. Me olho no espelho, vejo as marcas e não consigo nem ao menos chorar. Não consigo denominar isso como força — aliás, essa é a última coisa que sinto ter dentro de mim. Ele me tornou oca. Suas agressões me tornaram uma pessoa vazia, livre de qualquer sentimento, qualquer dor. E isso pra mim não é força… É desistência. Desisti de viver. Apenas sobrevivo por meus filhos, para que eles nunca precisem passar o que eu passo.
Rosa”

Capítulo 1

— Happy hour hoje, galera? — ouviu gritar do outro lado do escritório. Era sexta-feira, fim de expediente. Ouviu 4 dos 5 funcionários que ainda restavam na empresa concordarem e sorriu triste. Seria mais uma confraternização que ela não participaria. Seu namorado, Josh, estava viajando a trabalho e não gostava quando ela saía com os amigos sozinha. Tinha ciúmes, era compreensível… Né? Ela gostava de pensar que sim. A última vez que tentou sair sem ele com seus amigos foi uma guerra e, desde então, fazia absolutamente tudo para evitar que se repetisse. Não custava esperar que ele retornasse.
— Eu passo dessa vez, falou, enquanto ajustava a alça da bolsa nos ombros e fechava seu notebook. — Hoje sou eu, um bom vinho e minhas séries.
— Dessa vez, ? — Riu irônico. — Dessa e todas as outras vezes. Que dia vou ter a honra de assistir Walsh sentada ao meu lado numa mesa de bar, tomando uma cerveja?
— Na próxima, prometo! — Ela deu um largo sorriso, que logo se desfez quando olhou para seu amigo, . Ele sabia por que não estava indo. Sabia por que evitava a todo custo qualquer evento social em que Josh não estivesse presente. E ele odiava Josh com todas as forças do seu ser.
— Na próxima, claro! — exclamou com ironia e bufou. Se não poderia contar com o apoio do melhor amigo nessa situação, estaria perdida.
— Vou indo, pessoal. Divirtam-se, bom final de semana! — E saiu apressada pela porta. Seu ônibus era pontual. Passava às 18h02 e vinte minutos depois estava no conforto de seu lar.
morava sozinha em uma casa próxima ao centro, herança da família que nunca conheceu. Ela e sua mãe eram sozinhas e esta nunca falou muito sobre seu passado ou qualquer parente vivo ou morto. O que já era solitário, ficou ainda mais quando sua mãe faleceu de câncer no último verão. Agora, a única lembrança ou laço que tinha com sua família era aquele velho imóvel. Talvez por isso fosse tão apegada. Talvez por isso já tivesse negado vendê-lo (por consideráveis quantias) todas as quatro vezes que um investidor bateu em sua porta. Se sentia segura ali, como se seus ancestrais, que nem ao menos conheceu, a protegessem de alguma forma.
Jogou sua bolsa de qualquer maneira no sofá e correu para tomar um banho. Mesmo triste de não comparecer ao happy hour do escritório, sabia valorizar esses momentos à sós consigo mesma. Adorava botar seu pijama, pedir uma pizza grande só para si e afundar no sofá confortável assistindo televisão com uma taça de vinho barato na mão sem ninguém para encher o seu saco.
Já estava no quarto episódio da nova temporada da série que assistia, quando sua mente deu um estalo.
— ROSA! — gritou empolgada, batendo palmas. Correu ao seu quarto, abriu o armário com uma alegria acima do considerado normal e de lá pegou um baú de madeira.
Tinha encontrado a caixa em uma das milhões de faxinas que passou a dar na casa desde que sua mãe faleceu. Aparentemente, uma música e uma vassoura acalmavam sua mente. Varrendo um cantinho de seu quarto, percebeu que a madeira do rodapé estava solta. Quando se abaixou para colocá-la no lugar, viu um buraco e, curiosa, colocou seu braço ali. Não pergunte por que, pois ela nunca vai saber explicar o que a levou a querer enfiar seu braço em um buraco desconhecido, no canto de um quarto em um apartamento velho. Mas nunca se arrependeu do feito! Encontrou escondido no rodapé esse baú empoeirado e correu para descobrir seu conteúdo.
Eram cartas… Inúmeras cartas. Lendo, descobriu que era quase como um diário. E essa passou a ser sua maior distração quando o ócio batia em sua porta. As cartas eram datadas da década de 1920 e assinadas por Rosa. Para que sua diversão não acabasse rápido, prometeu que leria no máximo uma por semana. Da descoberta até então, já tinham sido cerca de doze e ela já era completamente apaixonada por Rosa. Pela sua maneira de escrever, pela sua história de vida, por sua garra e seu amor aos filhos. Sentia-se até amiga, se Rosa permitisse, onde quer que ela estivesse, ser chamada assim. descobrira algumas coisas com a leitura: ela era casada, tinha três filhos e tinha como paixão cozinhar. Encontrou inclusive algumas receitas no meio de todas as folhas e já até se atrevera a replicar: o bolo de laranja da Rosa era o melhor!
Mas se sentia péssima por outro lado: Rosa era agredida constantemente por seu marido. Vivia em um relacionamento abusivo que já a fizera chorar 2 ou 3 vezes enquanto lia seus relatos. A sensação de impotência ao ler as cartas era absurda e a curiosidade só aumentava de descobrir quem era aquela mulher. Será que poderia ser da sua família?
Levou o baú para a sala e se sentou confortavelmente de novo. Apoiou a taça de vinho no braço do sofá e pegou, aleatoriamente, mais uma carta. Com a correria do dia a dia, tinha se esquecido de Rosa e aquela seria a primeira carta que leria em um mês. Rindo incrédula de pensar que conseguiu se afastar disso por longas quatro semanas, começou a leitura.

“9 de janeiro de 1921.
Miguel me pediu desculpas hoje. De joelhos! Com direito a lágrimas. Fiquei feliz. Acho que todo mundo tem direito de errar, não é? Eu o perdoei, é claro. Ele é pai dos meus filhos e não posso permitir que algo assim abale o nosso casamento. Preciso avisar Francis sobre isso.
Rosa”

suspirou. Não acreditava que tinha gastado sua carta da semana com um relato de 4 linhas. Não teria problema quebrar a regra dessa vez, certo? Quem era Francis? Quando levou a mão ao baú novamente, seu celular tocou. Salva pelo gongo, Rosa!
Sorriu ao olhar a tela do aparelho.
— Amor! — falou apaixonada, enquanto arrastava o baú para o lado com a perna e encostava o corpo no sofá. — Como você está? Que saudade!
— Oi, amor. Vou bem e você? — Josh respondeu desanimado. Qualquer um que não o conhecesse talvez achasse que toda aquela ligação fosse por completa obrigação. Mas não .
— Eu vou bem também. Hoje li mais uma das cartas que comentei com você aquela vez, lembra? — ela falava empolgada enquanto tomava um gole de vinho. — Josh, você não tem ideia! Fico cada dia mais curiosa com essa história toda. Hoje o marido da Rosa pediu perdão pra ela, você acredita? Aquele canalha. Tomara que um dia eu leia alguma carta em que ela conte que está saindo de casa.
— Ah, maneiro. Te liguei para dar boa noite mesmo. Vou sair com uns amigos hoje para comemorar o sucesso do projeto, então talvez você não consiga mais falar comigo. Conversamos depois, tudo bem?
— Ahn… ok… Divirta-se, eu acho.
— Obrigado. Tchau, !
— Boa noite, Josh. Eu te amo! — E não obteve resposta. Suspirou. Devia estar com pressa para sair.
Esse era um dos motivos de não gostar do namorado de . A via com frequência triste por atitudes de Josh e já tinha presenciado algumas atitudes grosseiras do homem com a amiga nas pouquíssimas vezes em que se viram. Tentou alertá-la várias vezes, mas a resposta de era sempre a mesma: “você não o conhece direito, nunca deu a oportunidade. Não tire conclusões sobre alguém com fatos isolados”. desistiu. Era aquele típico caso de ver com os próprios olhos para crer. Enquanto não enxergasse sozinha como o namorado era um lixo, de nada adiantaria.
A ligação fez com que esquecesse sua animação com o antigo baú de Rosa. Colocou sua taça quase vazia de vinho na mesa de centro e foi em direção ao seu quarto. Sentiu o peso em seus ombros quando deitou na cama e percebeu que estava realmente cansada. Se aconchegou em seus travesseiros e, antes que pudesse fechar os olhos, sentiu seu celular vibrar na mesinha de cabeceira. Sorriu esperançosa. Poderia ser Josh mandando alguma mensagem. Pegou o aparelho em um reflexo rápido e viu toda sua animação se esvair com a leitura de uma só frase: Nova notificação de Jones. Sabia o que era. E sabia que doeria, mesmo que gostasse de tentar se convencer que não. Ao abrir a conversa do amigo, viu o que esperava: uma foto com seus colegas de empresa, todos meio jogados em cima um dos outros, com grandes canecas de chopp na mão. Faziam caretas e sorriam. Na legenda da imagem, uma pequena mensagem: “Queríamos você aqui, . Na próxima, certo? Beijos”. Suspirou triste.
— Na próxima, .

 

Capítulo 2

— Olha se não é a certinha mais certinha desse mundo! — exclamou ao ver entrando no escritório na segunda de manhã. A garota recebera mais fotos, áudios e ligações (conforme o álcool ia entrando no organismo dos amigos) ao longo da madrugada. Sorriu.
— A certinha teve uma noite incrível de sono na sexta, obrigada! Eu estava precisando. — se sentou na cadeira vazia ao lado do colega e bebericou um pouco do café da xícara de .
— Hey! Já ouviu falar de educação? Pedir? — ele falou com um semblante sério que não enganaria o maior dos ingênuos.
— Já. Com quem merece. Mas você, sinto que é quase uma obrigação sua me fornecer café depois de me despertar do meu sono 56 vezes me mandando mensagens.
— Não seja injusta, não foram 56. Acredito que chegamos em 44, no máximo. — Ele riu. — Mas, … Sério agora. Vamos sair mais com a gente. Sentimos a sua falta.
— Obrigada, . — Ela sorriu sincera. — Na próxim…
— Na próxima você vai, eu sei. É sempre o mesmo discurso, Walsh. Posso ser sincero, então? Tentei apelar pra educação, mas acho que somos íntimos o suficiente.
— Ahn… Posso não querer sua sinceridade? — Ela sorriu nervosa, sabendo que não seria uma opção. Já tinha entendido tudo. Ela não estar presente + álcool no sangue do amigo era a receita perfeita pra desabafar tudo o que sentia para . Poderia apostar seu próprio fígado no mercado de órgãos.
— Não. — Ele ajustou a coluna e olhou para amiga. — Você tem medo do Josh, . Isso não é normal. Não é normal ele não deixar você beber uma cerveja com seus amigos numa sexta à noite. Ele nem na cidade estava, por Deus!
, não começa!
— Não, . Começo sim. Você acha mesmo, de verdade, que nessas viagens a trabalho ele não sai pra beber? Por que diabos ele pode e você não?
— Eu… — Ela não teria resposta pra essa pergunta. Lembrou da ligação que recebeu na sexta-feira… Josh havia realmente saído. Nunca tinha parado pra pensar, na verdade. Mas não era hora disso, estava passando dos limites. — Você está passando dos limites — repetiu a frase que ecoou em sua cabeça. — Josh é um ótimo namorado, só prefere que ele esteja ao meu lado quando saímos e não tem absolutamente nada de errado nisso. E, sinceramente? — Olhou o relógio e viu que já eram 8:10. — Estou dez minutos atrasada para bater o ponto. Bom trabalho, . — E saiu como um furacão para iniciar o seu dia. Dia esse que passou voando. era arquiteta em um escritório razoavelmente famoso na cidade e sempre que voltava de um fim de semana em que não levava trabalho pra casa, se atolava. Reunião para aprovação de projeto, reunião com novos clientes, detalhamento, visita em obra… Ela só queria chegar em casa. Pensar nisso lhe deu um quentinho no coração. Hoje era o dia que Josh retornava e ele iria direto ficar com ela. Como ela morava sozinha, seu namorado ficava constantemente em sua casa, viviam praticamente uma vida de casados e, sinceramente? Não era nada ruim!
Ao fim do dia, pegou o seu mesmo ônibus de sempre, mas, dessa vez, conseguindo um lugar para se sentar. O universo estava sendo muito generoso com ela! Aproveitou o conforto que só um banco vazio de ônibus no fim do expediente proporcionava e iniciou uma conversa com Josh:
“Hey, lindo. Ansiosa pra você chegar! Quer comer alguma coisa diferente?”
Apertou o enter e viu uma resposta chegar mais rápido que o normal.
“Não mais que eu! E adoraria comer o seu strogonoff. Se não estiver muito cansada para cozinhar, claro! Sei como seu trabalho é complicado.”
sorriu confusa. Não que ele a tratasse mal, longe disso, mas ele estava muito… Carinhoso? Não sabia nem como denominar, mas aproveitaria. Depois de um dia extremamente cansativo, um carinho do seu namorado era tudo que precisava.
“Nunca estou cansada para te agradar. Espere um strogonoff quentinho quando chegar! Te amo!”
Enviou a mensagem e nem esperou resposta. Se levantou, estava chegando em casa. Um sorriso moldava o seu rosto de orelha a orelha. Seus amigos definitivamente não conheciam Josh.

xx

já estava de banho tomado, dando os toques finais ao jantar que preparava para Josh, quando ouviu a campainha tocar. Correu para atender e nem deu espaço para seu namorado respirar ao abrir a porta. Enlaçou seus braços no pescoço do homem à sua frente e o beijou demoradamente.
— Saudade, . — Ela não gostava muito desse apelido, pra ser sincera. Preferia , como todos a chamavam, mas ele dizia que era mais bonito e exclusivo, porque só ele usava. Resolveu ignorar, afinal de contas, era só um apelido, não é?
— Eu também, amor. Entre, tome um banho… o jantar está quase pronto.
— Estou sentindo o cheirinho daqui! Não demoro, tudo bem? — E seguiu em direção ao banheiro. sorriu sozinha e foi para a sala preparar a mesa.
O jantar aconteceu sem problemas. estava pensando muito em tudo que e falaram pra ela e tentava enxergar cada palavra nas atitudes do namorado. Nada! A única coisa que via ali era um homem engraçado, carinhoso e entusiasmado contando sobre cada detalhe de sua viagem. Não conseguia entender qual era a dificuldade dos amigos de tentar dar uma chance a Josh. Mas ela ia tentar, ao menos. Iria fazer que os dois lados mais importantes da sua vida se dessem bem. Questão de honra!

xx

— E é isso. Não aceito não como resposta, tudo bem? — falava cada palavra como se tentasse explicar de onde os bebês vinham para crianças. Aquilo era importante pra ela e nada poderia dar errado.
— Por mim tudo bem, . Se vai te fazer feliz, eu topo — disse no seu já conhecido tom compreensivo. Ela não poderia desejar um amigo melhor.
— Não espere de mim a mesma animosidade do . Não gosto do Josh e não acho que sentarmos em uma mesa de bar vai mudar alguma coisa — dizia enquanto brincava com o canudinho de metal da sua bebida. Estavam os três na cozinha do escritório durante o horário de almoço.
— Pega leve, . Estamos fazendo isso pela , certo? — disse e quis apertar suas bochechas por isso. Ele não cansava de ser fofo?
— Tá, tá. Por você, certinha. E só por você. — Ele levantou, jogou fora a embalagem do seu almoço e se direcionou à porta. — É só me falar data e horário. Mas não espere muito de mim, tudo bem? — E saiu sem olhar pra trás.
— Pff… Já me arrependi e o encontro ainda nem aconteceu. Não sei mais o que fazer com o . — desabafou com o amigo, que continuava ao seu lado.
— Tente entender o lado dele também, . Ele se preocupa com você, assim como eu me preocupo.
— Vocês não têm nada com o que se preocupar gente, por Deus! Josh é uma ótima pessoa, só é diferente do que vocês estão acostumados. E isso não é uma coisa ruim — ela falou sem paciência, apoiando as mãos na mesa e erguendo o corpo para se levantar da cadeira, quando a interrompeu, pegando com calma em seu braço.
— Ei, não é pra ficar brava. — soltou o braço de quando viu que a amiga olhava diretamente para sua mão. Continuou, desconcertado. — Somos seus amigos e estamos aqui por você, tudo bem? Vai dar tudo certo.
— Obrigada, . Mesmo. — Saiu, não sem antes dar um beijo na bochecha do amigo. Tinha sorte em tê-los, apesar de tudo.
A semana passou rápido. O encontro entre os quatro aconteceria no sábado e não podia se conter de alegria. Josh estava com um ótimo humor desde que chegou da viagem e concordou com certa facilidade em sair com os amigos da namorada.
— Nos vemos amanhã, amor. Beijos! — desligou a ligação e seguiu para o sofá. Era sexta e ela estava novamente sozinha em casa, mas dessa vez era diferente. Era por escolha própria. Josh havia chamado para dormir em sua casa, mas ela negou. Hoje era um daqueles dias em que ela verdadeiramente queria sentar no sofá, curtir sua própria companhia e tomar um vinho. O baú já estava devidamente posicionado na sua frente e a taça ao seu lado. Era hora da Rosa!

“6 de abril de 1921
Precisei usar blusas longas hoje. Miguel já se desculpou, só que as marcas em meu braço não sumiram. Mas não deixaria de sair por isso. Ainda mais em um dia especial como hoje! Eu sempre amei as quermesses da cidade, não perderia por nada! Encontrei Francis já no centro, próximo à festa. Miguel não poderia sonhar que ele foi a minha companhia. Já não gostava que eu saísse sozinha, imagina com um homem.”

Parou a leitura por um segundo e prendeu o ar. Depois de pensar um pouco, balançou a cabeça e afastou os pensamentos. Rosa era fisicamente agredida, céus. Ela estava longe dessa realidade.

“Foi uma tarde bem agradável. Francis me contou um pouco mais sobre seu amor secreto pelo melhor amigo de seu pai, o que me causou gargalhadas. Aquela, claro, seria uma conversa que morreria ali. E eu sentia muito por Francis. Infelizmente, não vivemos em uma sociedade onde ele possa abrir esse sentimento dessa maneira. Pergunto-me se no futuro esse momento vai chegar. Espero que sim!
Enfim, estou indo dormir com o coração tranquilo. Foi um bom dia.
Rosa”

O coração de ficou igualmente sereno lendo aquela carta. A cada uma que lia, gostava mais de Rosa. Era uma mulher tão à frente de seu tempo, querida, carinhosa, dedicada aos filhos, talentosa… Como queria ter a conhecido. Quase quebrou sua regra com o baú, mas estava com tanto sono que conseguiu resistir. Guardou toda a pequena bagunça que fez na sala e foi se deitar. Amanhã seria o grande dia!


Capítulo 3

— Obrigada por estar fazendo isso por mim, Josh. É muito importante — falou enquanto folheava o cardápio. Já estavam no restaurante escolhido para o encontro, esperando e .
— Claro, . Sei que é importante para você e também gostaria de ser mais próximo dos seus amigos — Josh disse, tomando um gole de sua cerveja, com o olhar entediado. não percebeu, estava animada demais para isso.
— Ah, ali vem eles! Meninos! — acenou, alegre. Eles perceberam e vieram ao encontro dos dois.
— Boa tarde, casal — cumprimentou simpático e se sentou na cadeira em frente a .
— Tarde, ! — disse, dando um beijinho no rosto da amiga, percebendo olhares atravessados de Josh em sua direção. Que ele tirasse uma foto pra encarar e continuar com raiva mais tarde. Não deixaria de tratar como sempre tratava por seu namorado babaca. — Olá, Josh. — E se sentou ao lado de .
— Aceitam uma cerveja? — Josh disse, forçando uma educação que não lhe era tão comum e fez uma careta.
— Não combina com o meu humor hoje. Vou querer um cosmopolitan.
— Eu vou na sua, Josh! — sorriu, levantando o braço para chamar atenção do garçom. Fizeram seus pedidos enquanto conversavam trivialidades do trabalho.
— Mas, sinceramente, você pediu essa resposta dele, amigo! — disse com lágrimas nos olhos, enquanto ria alto de um caso que contava. Um Josh confuso olhava para os três.
— Calma aí… Você disse pro seu chefe que ele poderia te repreender se você fosse um garoto mau?
— Muito, muito mau — e falaram juntos e uma nova rodada de gargalhadas ecoou no restaurante. cerrou seus olhos, o rosto vermelho como seu cosmopolitan que acabara de chegar.
— Estávamos em tom descontraído na cozinha, ele quis se enturmar como um funcionário comum, o tratei como tal, ué — ele disse enquanto tomava um gole de seu drink. Riram e continuaram batendo papo e decidindo o que almoçar.
, a disse que você talvez trouxesse sua namorada… Não pôde vir? Ai, ! O que eu fiz? — Josh massageou sua costela, onde tinha acabado de receber uma cotovelada.
— Acredito que você foi levemente agredido porque o correto é namorado, querido Josh — ele disse cínico. — Não se preocupe, amiga. Mas não, ele não pôde vir — deu ênfase no pronome masculino.
— Você é gay? — Ele gargalhou e um silêncio se fez na mesa. não poderia estar mais envergonhada. — Eu estava preocupado à toa então!
— Você tem algum problema com isso, Josh? — o desafiou, olhando nos olhos do homem à sua frente.
— Não, de forma alguma. Só não esperava isso de você. Mas eu devia ter desconfiado quando você pediu essa bebida rosinha aí! — Ele riu e tomou um gole de sua cerveja.
— Josh, pelo amor de Deus! — falou sentida. — Me desculpa, , ele só está brincando.
— É cara, eu estou só brincando — falou rindo mais um pouco. — Você não, né, ? Com você então não posso baixar minha guarda.
— Minha opção sexual não interfere no meu caráter, fique tranquilo. — finalizou o assunto pela primeira vez com um semblante de poucos amigos. Havia uma linha bem tênue entre tentar agradar e aguentar esse tipo de conversa.
E ela sabia disso. Não poderia estar mais decepcionada. O almoço estava acabado antes mesmo de começar, sabia que não haveria como recuperar dali. A vontade real era de levantar e ir embora, mas já tinham feito seus pedidos, o que restava agora era tentar fazer com que os últimos minutos do trágico encontro não dessem ainda mais errado.
— A comida está com a cara deliciosa, não é? — disse com uma falsa esperança de melhorar o clima enquanto seus pratos eram servidos. viu nos seus olhos o desespero e teve pena. A amiga estava desesperada, tentando ajustar o que o namorado fez (mesmo ela não tendo culpa alguma) enquanto ele bebia sua cerveja despreocupadamente, sem se importar se magoou ou deixou de magoar alguém. Teria que concordar com : ele era um idiota que não merecia chance alguma. Mas com a sua amiga era diferente. Aquela ali merecia todas as chances e ajudas do mundo e não seria agora que ele a abandonaria.
— Sim, ! O cheiro também está delicioso, né, ? — Olhou direto para o amigo, que entendeu o recado.
— Sim, amiga, você escolheu perfeitamente o lugar. Vamos atacar, então? — completou, sorrindo verdadeiramente. Faria o seguinte: seguiria o almoço, fingindo que Josh não existia. era uma pessoa incrível que, infelizmente, estava cega de amores por um cara idiota. Faria isso por ela e rezaria todos os dias para que um dia ela enxergasse isso.
Com a decisão de e de ignorarem o namorado da amiga, o almoço seguiu tranquilo. Os três riam e conversavam o tempo inteiro enquanto Josh tomava sua vigésima caneca de cerveja, olhando para o jogo que passava na televisão. Quando o juiz apitou no fim do segundo tempo, ele se manifestou.
, vamos embora? Estou cansado.
— Ahn… vamos sim, amor. — Olhou para os amigos, que sorriram e assentiram. — Vamos pagar a conta.
— Paguei nossa parte quando fui ao banheiro. Vamos logo — disse, já se levantando. — Tchau, casal! — disse rindo e olhando para e , que não fizeram nenhum esforço para responder.
— Me desculpa — sussurrou para os amigos, apertando o passo para alcançar o namorado, que já estava próximo à porta.
— Você poderia ter fingido que tem educação, Josh — falou com raiva assim que passaram pela grande porta de vidro do restaurante.
— Ah para né, ? Seus amigos não aceitam brincadeira?
— E você realmente considera “brincadeira” falar dessa maneira da opção sexual de alguém que você está tentando conhecer melhor?
— Sim. Que frescura… — ele disse ríspido, se afastando um pouco ao acender um cigarro. — E, sinceramente, se não gostou, é só não voltarmos a nos encontrar. Não vai fazer falta alguma.
— Você realmente não se importa, não é, Josh? Comigo, com meus sentimentos? Você não percebe que isso era importante pra mim? — ela disse olhando pra ele, que não devolveu a cortesia. Continuou fumando seu cigarro observando o movimento dos carros em sua frente.
— E o que tem a ver seus sentimentos com isso tudo, ? O mundo não gira em torno da porra do seu umbigo. Eu tentei, com bastante esforço, me aproximar dos seus amigos. Mas, pelo visto, são uns imbecis que não aceitam uma brincadeirinha, francamente. Acho que você não vai morrer se a gente nunca mais se ver.
— É… Pensando melhor, você está certo — ela disse com raiva, usando toda a ironia que continha em seu corpo. — Vou embora sozinha, não se preocupe em me levar em casa — disse, dando as costas para o namorado.
— Quem você pensa que é para me dar as costas dessa maneira? — ele disse levantando um pouco a voz, puxando-a forte pelo braço para si. — Você não vai embora sem mim. Não vai me desrespeitar desse jeito no meio da rua.
— Você tá me machucando, solta! — ela falou já sentindo o olho arder. Mas não iria chorar, não ali na frente dele.
— Tá tudo bem, senhorita? — O segurança do restaurante saiu do seu posto e foi em direção a eles.
— Tá tudo ótimo. — Josh respondeu, com um sorriso forçado para o homem à sua frente.
— Eu não perguntei para você — ele disse, olhando fundo nos olhos de . — Senhorita, está tudo bem aqui? — reforçou a pergunta.
— Está tudo ótimo, moço, obrigada pela preocupação. — Ela aproveitou o momento para se soltar das mãos de Josh, que continuava apertando seu braço na mesma intensidade. — Já estamos indo embora.
— Eu disse — Josh falou, jogando seu cigarro no chão e pisando em cima. — Se me der licença… — E pegou as mãos da namorada, levando-a ao ponto de táxi localizado em frente ao estabelecimento.
O trajeto até em casa foi silencioso. começou a passar em sua cabeça cada vírgula da conversa com o namorado em frente ao restaurante e um frio desconhecido na espinha surgiu. Ele nunca tinha sido tão estúpido com ela em todo o tempo do relacionamento deles. Olhou para o braço em que ele agarrara mais cedo e viu uma tímida manchinha roxa começar a despontar ali. Respirou fundo, permitindo que algumas lágrimas teimosas caíssem enquanto ela olhava pela janela. O que estava acontecendo?


Nota da autora: Olá, minhas rosas!
Espero que estejam gostando da história. Tem muita coisa legal ainda por vir, prometo. Espero que se apaixonem pelos personagens assim como eu!
Qualquer dúvida ou se quiser bater um papo, podem me seguir no Instagram e Twitter: @nihbueno.
Beijos e até os próximos capítulos! xx