Little by Little

Sinopse: “Um passo de cada vez eles descobririam o amor que flutuou por muito tempo entre ambos, mas que havia se escondido em seus corações. No final das contas, tudo é sobre olhar mais de perto e dar os passos juntos em direção à promessa de amor que está sendo feita.”
Gênero: Romance.
Classificação: Livre.
Restrição: A estória se passa na Coreia do Sul e os personagens são nativos.
Beta: Alex Russo


Tulipa:


Essas flores significam o fervoroso amor. Enquanto que as vermelhas remetem ao amor duradouro e dedicado, as amarelas simbolizam um amor sem esperança.

Eu estava atrasada.
Eu já deveria saber que qualquer entrega no décimo quinto dia do mês que fosse feita após minha ida até a casa de chá dos Choi seria prejudicada.
Todo dia quinze eles solicitavam uma nova e enorme remessa de arranjos para a decoração do local, e mesmo que eu fosse até lá apenas como entregadora, a senhora Choi sempre reivindicava minha ajuda com a arrumação, pedindo dicas e opiniões sobre combinação de cores e aromas. Sempre amei ajudar e fico sempre muito agradecida com a generosa gorjeta que recebo, mas geralmente preciso lidar com o mau humor dos próximos clientes pelos atrasos.
Foi pensando nisso que estacionei a velha motocicleta em frente ao elegante edifício próximo a Praça Gwanghwamun e retirei o capacete às pressas, para em seguida cuidadosamente pegar os dois buquês de rosas que estavam amarrados na cesta. Um de rosas vermelhas, outro de brancas. O contraste era impressionante em sua beleza e os aromas me traziam um conforto gostoso no peito. Rosas eram sempre estonteantes, em qualquer cor, em botões ou desabrochadas. Era impossível não reparar em suas belezas, mesmo que trabalhasse com elas todos os dias.
– Com licença, Ahjusshi¹ – curvei-me ligeiramente após passar pelo hall do prédio comercial e me dirigir até o segurança na recepção –, tenho uma entrega para o setor de contabilidade em nome de Sra. Lee.
Após receber a autorização para subir, me dirigi até o elevador, indo até o local indicado e respirando fundo antes de adentrar o setor no quinto andar. Observei a enorme quantidade de mesas e o grande escritório ao fundo, por onde passavam pessoas apressadas e que pareciam estar arrumando alguma espécie de festa ou confraternização.
– Sra. Lee, sua entrega chegou!
Apertei os lábios após me anunciar e ver um olhar severo em minha direção. Ops. Era disso que eu falava. O olhar bravo e acusador de uma cliente corretamente irritada com o meu atraso de quase quinze minutos.
– Peço perdão pelo atraso! – curvei-me ao esticar os braços para entregar os dois buquês – Vamos recompensá-la com um generoso desconto em sua próxima encomenda.
A mulher alta e com uma feição impaciente tomou os dois arranjos de minhas mãos e admirou as flores, responsáveis por abrandarem sua expressão dura. Eu tinha sorte por trabalhar com algo que sempre seria responsável por melhorar ânimos.
– Só não me recuso a pagar porque a pessoa que irá receber esses arranjos está mais atrasada que você! – esticou as notas novinhas em minha direção e eu sorri aliviada.
Seria um problema se a senhora Boo precisasse novamente descontar do meu salário. Cada pequeno decréscimo em minha conta bancária era como ver meu sonho de entrar para a universidade se tornar ainda mais distante.
– Muito obrigada, senhora! – inclinei-me novamente, ainda sorrindo – Espero que sua homenageada goste.
Sem esperar que a cliente mudasse de ideia, lhe dei as costas e caminhei de volta para o elevador, contando o dinheiro antes de guardá-lo na bolsinha que levava comigo. Um bico se projetou em meus lábios ao notar que não havia gorjeta daquela vez, porém, conseguiria superar isso. Poderia ser pior.
Era primavera e o clima bom me abraçou quando eu deixei o prédio e as portas automáticas se fecharam atrás de mim. Afastei meus cabelos bagunçados pela brisa refrescante antes de checar meu relógio de pulso. Eu ainda tinha algumas horas até a próxima entrega e imaginei que a senhora Boo não fosse se importar se eu descansasse um pouco.
Atravessei a faixa de pedestres correndo, antes que o sinal fechasse para mim, e caminhei até o centro da Praça Gwanghwamun, sentando em um dos degraus que levavam até o grande espaço aberto, onde algumas pessoas caminhavam ou aproveitavam o dia. Ao longe e no alto, Rei Sejong de Joseon permanecia imponente no alto do monumento e baixei os olhos para meus sapatos gastos, pensando se em alguma vida passada fui alguma nobre palaciana.
A sorte na vida anterior talvez justificasse meu azar atual.
Com um suspiro cansado, puxei o celular do bolso do casaco, abrindo o aplicativo de notas, onde eu calculava o montante que precisava para a universidade e o que eu tinha até o momento. Dentro das minhas previsões, eu ainda precisaria trabalhar por um ano na floricultura e na loja de conveniência até ter a quantia necessária para me matricular. Isso se eu não gastasse um centavo dos dois pagamentos, o que, convenhamos, é completamente impossível. Nada, no entanto, me faria perder a determinação.
Levantei-me e segui até onde havia estacionado a motocicleta que usava para fazer as entregas e percorri as ruas do distrito de Jongnogu até adentrar o bairro de Insadong, onde morava e trabalhava. A floricultura da senhora Boo ficava em Isadonggil, a principal rua do bairro, famosa por seu comércio tradicional, que ia desde antigas casas de chá até grandiosas lojas de antiguidades.
– Você demorou, criança!
Senhora Boo tinha seus mais de sessenta anos e ainda fazia questão de cuidar pessoalmente do negócio que foi a principal renda de sua família desde o fim da ocupação japonesa. Era uma senhora adorável e eu me sentia sortuda por trabalhar com ela e aprender todos os dias.
– A senhora sabe… – peguei a cesta com lírios que ela carregava e levei até o balcão, onde ela começou a separá-los para os novos arranjos – Os Choi me amam!
Sua risada engraçada ecoou pelo lugar e eu a acompanhei.
– Está certo! – ela assentiu – Vá até o caixa e preste contas com o Jun e comece a organizar as tulipas que chegaram, por favor.
Assenti rapidamente e me dirigi ao andar de cima, mas parei no primeiro degrau quando a ouvi me chamar.
– ela sorriu ao acertar os óculos redondos no rosto fino –, não se esqueça de colocar aquelas suas músicas que os clientes gostam.
Ela piscou para mim e eu pisquei de volta.
– Pode deixar, senhora Boo!
Levantei os polegares em sua direção e segui para meus afazeres, não sem antes colocar a minha playlist favorita para tocar em nosso sistema de som embutido e sorrir ao ouvir Palette tomar todo o ambiente.

Eu estava limpando os galhos das flores, uma atividade cansativa, porém, automática, quando ouvi sua voz por cima da música baixa. O formigamento em minha nuca foi instantâneo e meu ventre se revirou igualmente em resposta ao som que eu conhecia de longe.
– Com licença, .
Levantei meu rosto para encarar o dele, comprido e bonito. Seu nariz fino e grande se projetava para frente dando à sua feição uma expressão sempre elegante e cortês. Seu sorriso largo era a combinação perfeita para todo o resto.
– Será que posso deixar meu violão aqui por alguns instantes? – ele deu alguns passos em minha direção e eu tirei as luvas, passando as mãos pelos meus cabelos bagunçados imediatamente, pensando em como ele sempre me via em meus piores momentos – O senhor Kang ainda não chegou e eu preciso retornar para abrir o bar e ensaiar. É só o tempo de ir até a casa dele, buscar as chaves das grades.
era músico no bar em frente à floricultura. Ele normalmente tocava de quinta a domingo para os clientes assíduos do senhor Kang e era o responsável por aumentar o movimento do local, já que era um cantor extremamente talentoso.
era também meu amor secreto.
– Claro, ! – respondi logo em seguida, sorrindo de forma mais contida – Pode deixar aqui atrás do balcão. – indiquei o local onde estava e o vi se aproximar mais, carregando o instrumento dentro da capa.
Cuidadosamente ele apoiou o violão e caixa com os cabos no canto esquerdo e enfiou as mãos no bolso do casaco antes de se curvar em minha direção, me fazendo corar.
– Obrigado, ! Espero que a senhora Boo não se importe! – ele sorriu novamente e eu não pude deixar de sorrir com ele.
– Você sabe que não há problema. Ela adora você.
Eu não conhecia ninguém que não gostasse de . Ele era lindo e talentoso, além de ser um rapaz bem comunicativo e gentil. era como as flores mais belas em um arranjo cuidadosamente bem feito, era impossível ficar impassível diante dele. Você era simplesmente atraído.
– Volto correndo! – ele anunciou e saiu apressado.
Mal notei o suspiro escapar de meus lábios e senti meu coração se apertar em seguida.
– Quando você vai criar coragem para dar o passo que quer, criança?
Assustei-me com a voz da senhora Boo, que descia lentamente as escadas. Balancei a cabeça para espantar de minha mente e vesti as luvas novamente.
– Do que a senhora está falando? – fiz-me de desentendida ao voltar para meu trabalho, mas logo seus olhos pequenos e assertivos estavam diante dos meus.
. Você está apaixonada há tanto tempo, … – antes que eu pudesse negar, ela levantou o indicador em minha direção – Não adianta fingir que não. Conheço você e quase posso ouvir seu coração acelerado daqui.
Abaixei a cabeça para esconder meu sorriso triste.
– Vai passar um dia.
Ouvi-a resmungar e colocar mais uma cesta de tulipas no balcão.
– Você quer simplesmente deixar passar ao invés de se aproximar dele?
Levantei o rosto para encarar o dela, que me encarava confusa. Dei de ombros.
– Por que ele olharia para mim agora, se não olhou há tanto tempo?
Ouvi seu riso e me encolhi um pouco, me sentindo insegura e pequena. Não era como eu gostaria de me sentir, mas não conseguia evitar.
– Você não tem como saber. Ele sempre foi muito atencioso com você, pelo que percebo.
– Isso é porque é assim com todos. Ele é um músico, sabe como capturar as pessoas com facilidade.
– Você está sendo pessimista, criança.
– Desculpe, senhora Boo. – soltei um suspiro frustrado – Não tenho muitos motivos para não ser.
Suas mãos quentes e enrugadas tocaram meu braço e eu a encarei novamente. Seu sorriso acolhedor tentava me passar um pouco de confiança e coragem, que tanto me faltavam.
Eu uma medrosa de carteirinha.
– Você deveria ser mais cuidadosa com seu olhar. Ao invés de espiar pelo vidro do bar quando ele não está vendo, experimente permanecer com os olhos nele quando ele tiver os olhos em você também.
– Não sei em como isso pode ajudar. – dei a ela mais um de meus sorrisos tristes – Meu amor por ele carrega o mesmo significado que o das tulipas amarelas.
Senhora Boo negou e afagou meu braço antes de se afastar.
– Ouça essa velha, criança! – ela riu – Você tem milhares de flores ao seu redor e pode encontrar outro significado.
Continuei meu trabalho assim que ela deixou o salão e mantive minha mente vazia, apesar de suas palavras, mas logo ele voltaria para romper meu silêncio interno, pois meu coração sempre se tornava barulhento quando ele estava por perto.
– Voltei! – apareceu na porta, parecendo ofegante pela corrida – Obrigado pela ajuda, .
Ele colocou o violão nas costas e segurou a caixa antes de se virar novamente para mim.
– Não foi nada… – sorri, abaixando meu rosto, mas logo pensei nas palavras da senhora Boo e o ergui novamente, encontrando os olhos de nos meus.
Eles eram tão lindos por entre as meia luas que suas pálpebras formavam quando ele sorria que eu podia jurar que brilhavam.
Ainda sorrindo, ele olhou ao redor e puxou uma tulipa vermelha de um dos vasos para exposição.
– Para a minha salvadora do dia! – ele ergueu a flor em minha direção e meu olhar assustado o fez rir – Aceite! – ele insistiu, me fazendo corar.
, não exagere… – ri sem jeito, pegando o galho que havia acabado de limpar.
– Diga para a senhora Boo colocar em minha conta! – ele gritou já da porta e eu ri abertamente.
Assisti-o atravessar a rua correndo e adentrar o local antes de voltar o meu olhar para o vermelho vibrante da tulipa. Suspirei sem conter o sorriso, que dessa vez não tinha nenhuma sombra de tristeza, muito pelo contrário, tinha o formato da esperança.
Sem saber, ou talvez sabendo, havia encontrado a flor com o significado que eu sonhava para nós.
Apertando a pequena tulipa contra meu peito, eu soube que a guardaria até que ela se desfizesse em pó.


Jasmim:


Sorte, doçura e alegria, estes são os significados dessas flores. Seu aroma marcante dificilmente passa despercebido.

– Seja bem vindo!
Saudei o cliente que adentrava a loja de conveniência sem levantar meu rosto para encarar a TV que transmitia as imagens das câmeras de segurança.
O movimento estava fraco e eu estava sonolenta enquanto lia um livro, mas já estava na mesma página há alguns minutos e não conseguia avançar, culpa do sono que começava a me abater.
– Cochilando no trabalho, hein!
Sobressaltei-me ao que mãos bateram no balcão do caixa e rolei os olhos ao encontrar rindo do outro lado.
– Que susto, seu ridículo! – fechei o livro e passei as mãos pelo rosto, enquanto meu amigo ainda ria de mim.
– Oi pra você também, . Estou ótimo, obrigado. E você?
era sempre muito engraçadinho e também era meu melhor amigo desde que havia me mudado para a capital. Minha melhor companhia nos melhores e nos piores dias, mesmo que amasse implicar comigo, como fazia no momento.
– Estou com sono e você me assustou! – resmunguei, coçando os olhos.
– Tadinha! – ele esticou uma das mãos para bagunçar meu cabelo – Vamos comer alguma coisa então. Eu pago, é claro.
Meu amigo se dirigiu até as prateleiras de ramen e eu apoiei o queixo nas mãos, o observando. Ele estava vestido no moletom de uniforme do time de natação da Universidade Nacional de Seul e pelo cabelo ainda molhado, imaginei que ele deveria estar treinando até tarde.
– Você já não deveria estar saindo? – ele perguntou, enquanto enchia a cestinha de plástico com potes de macarrão e leite em caixa.
Resmunguei antes de responder.
– Minha substituta teve um imprevisto com o filho e vai se atrasar um pouco.
– Que sorte a sua que eu cheguei então!
Faltou acrescentar presunçoso nas características de . Era um detalhe muito importante.
Meu amigo voltou até mim e eu rolei os olhos, o fazendo rir enquanto passava nosso jantar no leitor de códigos de barra e ele retirava a carteira do bolso para pagar.
– Treinando até tarde? – perguntei distraidamente ao receber seu pagamento.
– Você sabe, as competições de verão estão chegando. Preciso estar em minha melhor forma.
Contornei o balcão e fui até as mesas enquanto ele seguia até o microondas para preparar o ramen instantâneo.
– Você deveria comer algo mais saudável, não?
– Uma vez só não faz mal…– ele me olhou por cima do ombro, rindo.
O aroma do macarrão apimentado me fez perceber que estava faminta e começamos a comer logo em seguida, aproveitando o silêncio confortável que nos envolvia.
era barulhento e bagunceiro, mas sabia ser a melhor companhia em todos os momentos e eu era muito grata por sua amizade. Ele era para mim como os jasmins, me envolvendo sempre com alegria, sabendo ser doce quando eu estava frágil, mas acima de tudo, era meu medalhão de sorte. Alguém que colecionava vitórias como ele sempre tinha um pouco de sorte para distribuir com quem a tinha de menos.
– O bar do senhor Kang está lotado. – ele comentou enquanto soprava o macarrão – O seu amado faz um sucesso tremendo mesmo.
Às vezes eu me arrependia de ter contado a sobre o que sentia por . Ele sempre dava um jeito de tocar no assunto e tentar me encorajar a me aproximar dele. Como se meu amigo não me conhecesse o suficiente para saber que eu não era autoconfiante como ele era, mesmo que desejasse ser.
– Talvez a gente devesse dar uma passada lá quando sua substituta chegar.
Engasguei com o molho com sua proposta. Rindo, ele se inclinou por cima da mesa para dar algumas batidinhas em minhas costas.
– O que você quer fazer em um bar? – fiz uma careta ao perguntar – Você é um atleta. Não bebe.
– E daí? – ele deu de ombros – Posso tomar um suco. E comidas de bar costumam ser maravilhosas.
– Maluco! – não contive o riso – São comidas gordurosas demais pra você! Como vai manter esses músculos assim? – inclinei-me para cutucar seu bíceps.
– Não mude de assunto, ! – ele apontou o jeokkarak² em minha direção e eu logo estava sob seu olhar acusador, rindo nervosa – Que horas sua substituta chega?
Rolei os olhos diante de sua insistência.
– Deve estar vindo já, mas vamos para casa. Pare de inventar coisas!
– Qual é, ! – ele empurrou uma das minhas mãos sobre a mesa – Como vai ter qualquer chance se evita até estar no mesmo local que o ?
– Ele sequer vai me notar lá… – soltei baixinho, soando contrariada como uma criança.
costumava receber muita atenção quando cantava e eu certamente me sentiria ainda menor diante de todas as outras pessoas capazes de capturá-lo com elogios e congratulações.
– Como você pode saber? – insistiu – Você precisa parar de ser tão negativa sobre si mesma, ! – rolei os olhos novamente, mas ele não parou – Você é uma garota divertida, bonita, inteligente… Por que ele não te notaria?
– Você fala isso porque é meu amigo…
– Claro! Meu trabalho é levantar a sua moral!
Ri dele e balancei a cabeça, mas sequer pude respondê-lo porque minha substituta logo chegou, aproximando-se de nós e despejando suas inúmeras desculpas por se atrasar.
Após isso, não pude ir contra meu insistente amigo e logo estávamos caminhando até a rua debaixo, onde eu trabalhava durante a semana e onde tocava. Adentramos o bar e eu encolhi os ombros diante daquele monte de gente que lotava o lugar no sábado à noite.
me guiou até uma mesa na lateral esquerda do local e depois de sentada não pude desviar meu olhar do pequeno palco em minha frente.
As luzes estavam sobre ele, que baixava o violão na case ao seu lado, se preparando para começar a próxima canção. Uma melodia leve tomou o lugar, guiada pelo tecladista que o acompanhava.
Sua voz grave começou a cantar Say Yes e eu sorri por reconhecer a música que estava em minha playlist favorita. Pude jurar que em certos momentos ele olhava em minha direção, mas sequer pude ter certeza se ele me via. Aquilo era um detalhe diante do fato de como meu coração se sentia ao vê-lo e ouvi-lo cantar. Se eu não fosse completamente apaixonada pela versão original da música, eu poderia dizer que na voz dele ela ficara ainda mais linda.
Não havia como eu não ser completamente apaixonada por . Com um pouco de sorte, talvez um dia ele sentisse o mesmo.
Geudaeyeo say yes…³ – cantei junto com ele e senti um frio em meu ventre ao vê-lo sorrir em minha direção outra vez.
– Ele sequer vai me notar lá e blábláblá. – ouvi meu amigo me imitar ao meu lado, então soube que ele também percebera os olhares de , o que me deixou momentaneamente nervosa – Vou buscar algo pra beber e alguma comida gordurosa.
Ri brevemente e assenti, mas sem deixar meus olhos desviarem de por um segundo sequer.

e eu ficamos até o fim da apresentação de e estávamos caminhando para a rua quando o ouvi me chamar.
! – ele passou por entre as pessoas que o cumprimentavam e veio em nossa direção – , oi!
Seu sorriso tímido, que eu raramente havia visto, estava em seu rosto quando ele parou diante de mim.
– Oi, ! – ele cumprimentou meu amigo também, que levantou uma das mãos para acenar – Você… – ele se dirigiu a mim outra vez, fazendo meu estômago gelar – Eu nunca havia visto você aqui. Gostou da apresentação?
– Você foi ótimo! Amei que Say Yes está em seu repertório. – sorri sincera, querendo que ele soubesse que eu havia amado tudo.
– Sabia que você ia gostar. – ele disse e eu franzi a testa em confusão, ouvindo rir ao meu lado – Eu ouvi essa música pela primeira vez na floricultura. – confessou, levando uma das mãos para coçar a nuca, parecendo desconcertado – Foi você que a colocou para tocar, não?
Ri descrente e segurei a alça de minha bolsa ao assentir.
– A senhora Boo gosta que eu escolha as músicas. Ela diz que agrada os clientes.
– Ela tem razão. – ele foi rápido em responder – Você tem um excelente gosto.
Senti minhas bochechas esquentarem e sorri.
– A música ficou ótima na sua voz.
– Obrigado pela indicação, mesmo que involuntária. – ele sorriu e colocou as mãos nos bolsos e só eu sabia como meu coração estava agitado – Vocês já estão indo? – dirigiu seu olhar ao meu amigo depois de um tempo.
– Já está tarde. – respondeu – Vou levá-la para casa.
– Entendo… Fico feliz que tenham vindo! – ele sorriu novamente e eu acenei antes de me afastar um pouco.
– Parabéns pelo show!
Dei-lhe as costas depois de acenar e suspirei para acalmar meu coração. Ao meu lado, ria, murmurando de um jeito infantil, como se imitasse nossa conversa.
!
Virei-me em sua direção novamente, parando de andar.
– Já que você veio hoje… O próximo domingo é com o show especial do Festival de Primavera. – ele sorriu – Vou ficar feliz em vê-la na platéia.
Não consegui reagir diante de seu convite e do sorriso lindo que ele me dava. Por sorte, respondeu por mim enquanto eu ainda procurava minha voz.
– Ela virá.
assentiu e acenou, caminhando de volta para o bar e logo eu senti o braço de meu amigo em meus ombros, me guiando pela calçada novamente.
– Viu? – ele ria, parecendo ter a mesma feição de quando terminava um treino em primeiro lugar – Às vezes você só precisa de um empurrãozinho.
Sorri para ele e acabamos rindo juntos em seguida.
Talvez aquele fosse meu dia de sorte, ou talvez tivesse me ajudado a fazer a minha própria sorte.


Violeta:


Simbolizam a lealdade, a modéstia e a simplicidade. Em sua cor branca significa que uma promessa está sendo feita.

Aos domingos a Isadonggil era fechada para pedestres e durante a primavera o que se via na principal rua do bairro era um colorido de flores e gente estonteante.
Eu havia conseguido uma troca na escala de meu emprego na loja de conveniência para acompanhar o Festival, mas apesar de estar aproveitando as apresentações de rua e as comidas deliciosas das barraquinhas, que e eu devoramos com vigor, toda a minha ansiedade se voltava para esperar pelo momento em que eu veria chegar.
O bar do senhor Kang estava enfeitado com violetas de todas as cores, que ele havia comprado conosco e que eu mesma ajudara a ordenar em arranjos clássicos. Eram as flores preferidas de sua falecida esposa e era sua forma de homenageá-la naquele dia especial.
Quando o anoitecer caiu, nos dirigimos a uma mesa perto do pequeno palco onde se apresentaria e meu amigo rolou os olhos para como eu parecia ansiosa com o que seria uma apresentação como todas as outras que havíamos assistido durante o dia.
– Pare de tremer as pernas! – pôs uma das mãos em um de meus joelhos, soando irritado, porém, rindo – Eu deixei alguma coisa passar e algo vai acontecer essa noite? – encarei-o e o vi arquear uma sobrancelha em minha direção.
Dei de ombros, apertando os dedos uns nos outros.
– Não sei, eu só… – mordi os lábios, tentando fazê-lo entender a agitação em meu coração que quase parecia instinto – Sabe quando você sente as coisas diferentes? Quando sente que algo especial está vindo?
riu, negando com a cabeça.
Eu não o culpava. Não sabia colocar em palavras, mas eu sentia o amor que fluía em silêncio em meu coração há tanto tempo tomar o rumo para fora de mim, atingindo aquele que sempre foi o alvo de minhas melhores energias.
Quando as luzes baixaram, empurrou meu ombro com o seu, me fazendo rir nervosa e, como da primeira vez, toda a minha atenção estava nele.
– Boa noite a todos e todas! – seu sorriso largo brilhou para a platéia e ele arrumou o violão no colo ao que seu tecladista se posicionou ao seu lado – A primeira música de hoje é especial.
Involuntariamente apertei uma das mãos de meu melhor amigo ao meu lado, sentindo minhas palmas gelarem.
– Ela fala sobre a descoberta de um amor – continuou a sorrir e logo seus olhos estavam nos meus e aquele mesmo brilho estava lá, o mesmo brilho que eu perdi todas as vezes que desviei o olhar do seu –, sobre um sentimento que flutua oculto e se esconde no coração – engoli em seco e meu peito tremeu por antecipação –, mas que uma hora ou outra se cristaliza e se deixa verbalizar. Espero que você entenda a minha mensagem esta noite.
Na última frase, ele já não estava falando para o público em geral, mas para mim. Meu coração adiantou inúmeras batidas e eu apertei os lábios ao ouvir a introdução de Because of You. Mesmo já conhecendo a letra, ouvi atentamente como se fosse a primeira vez, como se quisesse capturar cada verso que saia de seus lábios diretamente para dentro de mim.
Mais do que qualquer outra coisa, meu coração capturou a última frase da canção, que fez questão de cantar olhando para mim com um carinho que eu nunca havia visto de seus olhos antes. Não com aquela intensidade.
A última frase da canção dizia eu te amo e eu só pude repeti-la para ele e repeti-la para mim mesma enquanto seguia com o repertório.

– Oi.
Sorri ao ouvir sua voz ao meu lado no momento em que uma brisa fria passou por mim. Eu estava do lado de fora do bar, sentada no murinho baixo de tijolos, esperando por ele.
– Parabéns pelo show! – saudei-o, genuinamente feliz pelo seu sucesso – Você foi incrível.
Olhei em seus olhos e o vi se aproximar com as mãos para trás, sem deixar de sorrir por um segundo sequer. Senti um frio gostoso rodopiar em meu ventre.
– Você gostou da primeira canção? – percebi que ele mordeu um riso e acabei deixando o meu escapar – Eu escolhi com muito cuidado para uma pessoa muito especial.
– Jura? – entrei em sua brincadeira e vi seus olhos brilharem, refletindo nos meus – É uma letra forte, espero que você tenha certeza dos seus sentimentos.
Apesar de manter o tom divertido, eu realmente esperava que ele tivesse ciência do que havia feito. Ele havia entrado em meu coração há muito tempo, mas ali, cantando versos tão carinhosos e intensos, ele havia deixado uma brecha para que eu entrasse no seu.
– Nunca estive tão certo antes e tenho estado por um tempo, mas eu estava sempre a um passo de você, .
Ri em descrença. No final das contas, a senhora Boo estava certa. Eu o olhava de longe sonhando em amá-lo de perto, mas levava meu olhar para longe do seu sempre que ele podia se aproximar.
– Por pouco – sorri –, por pouco teríamos dado os primeiros passos em direção um ao outro antes.
– Não tem problema em ser agora. – ele se apressou em dizer – Você deixa? – perguntou, caminhando um passo para mais perto de mim – Você me deixa dar esse passo, ?
Senti meu coração se expandir em meu peito, entre a alegria e o mais genuíno amor.
– Vamos dar esse passo juntos, que tal? – sorri para ele, que deu para mim o mais belo sorriso de volta.
Juntos, caminhamos um em direção ao outro até que nos pés se esbarrassem e nossos corpos estivessem bem próximos. Sentindo meu coração batendo na garganta, mas aliviada por sentir o dele tão acelerado quanto, fechei os olhos para sentir seus lábios nos meus por alguns poucos segundos, mas o suficiente para me fazer transbordar em êxtase.
– Juntos. – ele sussurrou bem perto e eu senti seus lábios se repuxarem sobre os meus.
– De agora em diante? – perguntei, olhando em seus olhos e o sentindo agarrar uma de minhas mãos.
– De agora em diante.
Após dizer isso, trouxe a mão que escondia atrás do corpo e colocou a violeta branca entre nós e eu a segurei junto dele.
– Você sabe o que essa flor quer dizer na cor branca, não sabe?
Ele sorriu e se sentou no murinho ao meu lado, deixando a delicada flor em minha mão, enquanto ainda segurava a outra com a sua.
– Eu sou bom em manter promessas, . – sorrindo, deitei minha cabeça em seu ombro, me sentindo plena como nunca – Especialmente as de amor.

¹Termo utilizado para se referir a homens mais velhos, na faixa do que chamamos de “meia idade” no ocidente.
²Jeokkarak são os “palitinhos” coreanos, tradicionalmente feitos de metal. Lê-se “Chôkarah”.
³Trecho da música Say Yes, do grupo SEVENTEEN. Em português, o trecho se traduz em “Você, diga sim”.

Nota da Autora: Essa pequena estória é inspirada na música A Little, que fez parte da trilha sonora original do drama sul-coreano Boys Over Flowers.
Espero que tenham gostado!
Para ouvir a playlist da protagonista, basta clicar aqui.
Para acompanhar meus escritos, é só participar do meu grupo no Facebook, clicando aqui.