NEBRASKA

  • Por: Priusk
  • Categoria: Originais
  • Palavras: 580
  • Visualizações: 523
  • Capítulos: 4 | ver todos

Sinopse: Ao ser intimada a voltar para Nebraska para o aniversário de 90 anos da avó, Alice Cromwell recebeu a notícia de que seu primeiro e único amor está de casamento marcado. Enquanto faz as malas para voltar a cidadezinha de Ogallala, ela se vê imersa em recordações sobre o início, meio e aparente fim da sua história com Jack Wash, um barman caipira metido a badboy com o coração mais doce que ela já conheceu. Ela conquistou a carreira dos sonhos: é dona de um currículo invejável, fluente em quatro idiomas, passaporte carimbado e diretora da própria revista de moda, mas, ainda assim, descobriu da pior forma possível que nenhuma dessas coisas pode substituir o vazio deixado por seu garoto de Nebraska e ela está mais do que determinada a tê-lo de volta.
Gênero: Romance
Classificação: 12 anos
Restrição: Essa história é inspirada na música “You and I” de Lady Gaga
Beta: Brooke Davis

Capítulos:

 

PRÓLOGO
MAGAZINE
 

Intimidades
 

Especial dia dos namorados por
 

2018
Apesar da correria que enfrento todos os dias, você deve pensar que a minha vida é perfeita ou pelo menos perto disso.

Vamos para o que já sabe a meu respeito: , vinte e sete anos, reside em um apartamento de três quartos em Manhattan, viajou para vinte e dois países, fluente em quatro idiomas e diretora da própria revista de moda, a Magazine.

“Bem sucedida é apelido.”

E mesmo com esse currículo exemplar – eu nem falei ainda sobre meu estágio na Vogue ou meu intercâmbio na França – o questionamento que muitos de vocês devem se fazer e que eu já vi rondando a meu respeito em algumas colunas sociais é: como essa mulher tem tempo para relacionamentos? Em todo esse tempo, com todas essas viagens, todos esses compromissos e correria que demanda uma vida tão agitada de empreendedora, como consegue conciliar os negócios com os assuntos do coração? Ela sequer tem um coração?

Durante muito tempo, até mesmo as pessoas mais próximas a mim disseram que esse assunto era um caso perdido. É claro que verbalizei aos quatro cantos para quem quisesse – ou não – escutar a respeito dos infortúnios da vida amorosa, que eu nunca mais iria amar alguém de novo na vida. Sim, já amei. E sim, quantas vezes você lembra de já ter escutado essa mesma frase antes em vozes diferentes? Pois é. Acho que ao longo da vida todos nós tivemos aquele amor que nos deixa assim… Desiludidos e desesperançosos. Aquele frenesi intenso e avassalador que é capaz de despertar até mesmo os sentimentos que nem conhecíamos.

Neste dia tão especial, farei uma exceção. Entre desfiles, lançamentos e últimas novidades da alta costura, irei fazer o que quase nunca faço publicamente.

Irei abrir o meu coração.

Deixe-me lhes contar uma história. Uma história sórdida e tão cheia de idas e vindas que somente os habitantes de Ogallala conhecem – e não aguentam mais ouvir falar sobre. Deixe-me lhes contar sobre aquele bar sujo e maltrapilho e do inesquecível verão de 2010. Deixe-me lhes falar sobre o improvável e ao mesmo tempo tão certo romance entre uma garota nova iorquina cheia de sonhos e ambições e o jovem barman de Nebraska.

Vamos deixar os editoriais de moda e as tendências da alta costura de lado por alguns instantes e vamos mergulhar na bonita e triste história da menina irreverente e arredia que costumava se derreter ao ser chamada de bonequinha pelo caipira que passava horas coberto de suor e feno revezando seu trabalho da fazenda para o bar.

Essa história tem cheiro de cigarro, gosto de uísque, som de motores de carros antigos e motocicletas de uma gangue local. Ela é regada a rock clássico com uma pitada de humor. Talvez lágrimas, algumas minhas, muitas dele.

Venha comigo, deixe-me lhes falar sobre o meu garoto descolado de Nebraska e mostrar um lado meu que poucas pessoas conhecem.

 

 

PARTE I
A Magazine foi fundada com muito suor e muito trabalho da minha parte, mas não tenho pretensão de fingir que não fui uma mulher privilegiada que recebeu investimento dos pais e, ao invés disso, construiu tudo sozinha por “mérito”, não, não, jamais. Posso ser considerada como uma patricinha narcisista, mas pelo menos tenho um pouco de consciência, o que não me isenta de ter tido um trabalho danado para conquistar tudo que conquistei. Foi necessário foco, planejamento, força de vontade e, muitas vezes, uma racionalidade que beirava a insensibilidade, com os meus sentimentos, com os dos outros… Sei que essa insensibilidade não está correta, juro que estou melhorando nisso, mas infelizmente faz parte da construção de tudo que posso chamar de meu e, caramba, se posso me orgulhar de algo nessa vida, é de ter construído minha própria revista de moda.

Minha rotina não costuma ser fácil, são tantas pautas para aprovar, contas para administrar, funcionários para gerir, campanhas para idealizar, editoriais para produzir… Amo toda essa correria, mas a maioria dos meus dias se passa de maneira tão rápida que muitas vezes me sinto imersa em demandas, confusa se sou uma humana ou máquina. Não que eu vá reclamar, uma vida ocupada era tudo o que eu precisava para não ter tempo de sofrer e, sabia que se fosse remexer demais em minha vida, poderia acabar imersa em dramas demais. Literalmente sem tempo para isso.

Toda essa contextualização talvez desnecessária é para dizer que nossa história começa a partir de um dos dias mais corridos que já tive que passar na Magazine. Uma manhã de janeiro em 2018, mês de preparar o editorial do dia dos namorados, tanta coisa sobre casamento e meu humor já não estava dos melhores. Todos os funcionários evitavam deliberadamente sequer olhar na direção da minha mesa – não que eu fosse uma carrasca, adorava comer rosquinhas nos intervalos para o café e colocar as fofocas em dias, mas, naquele em especial, todos sabiam que para manter a boa convivência era melhor não me tirar de foco.

O que, é claro, acabou acontecendo… E foi a partir daí que as coisas começaram a mudar.

Estava concentrada em finalizar e entregar minha última pauta do dia quando fui interrompida pela irritante vibração do meu celular, que mais parecia uma britadeira em cima da mesa. Que inferno, se fosse outra operadora telefônica oferecendo promoções eu mandaria a secretária eletrônica tomar bem naquele lugar. Apressada, bufei um pouco enraivada e atendi antes mesmo de ler no visor de quem se tratava.

Meu coração dói só de lembrar dessa ligação.

— Quem me incomoda? — Perguntei azeda ainda sem tirar os olhos do documento que digitava freneticamente há horas. Precisava mesmo entregar aquela pauta e não tinha nem ideia do que era um bloqueio criativo até aquele momento. As palavras simplesmente não surgiam na minha cabeça.

— Seu pai — Uma voz grave e familiar ecoou risonha do outro lado da ligação e arfei surpresa.

— Paps, me desculpe! — Me apressei em falar, mas meu pai estava rindo despreocupadamente.
A cena pareceu surgir completa na minha mente: Bruce sorrindo e revirando os olhos da minha rabugice. Bom, ele conhece a filha que tem. E eu o conheço a ponto de saber suas exatas expressões só pelo tom de sua voz mesmo há quilômetros de distância.

— Tudo bem, . Sei que deve estar ocupada… Essa sua correria toda e etcetera e tal — Meu pai falou e eu pude perceber uma leve insinuação naquela sentença. Deixei passar a provocação em silêncio, não estava com tempo para me desculpar por minha rotina. Estava ocupada demais cumprindo prazos para ela.

— E então, o que manda? — Perguntei equilibrando meu celular entre a orelha e o ombro, voltando a digitar.

— Vou ser bem breve — Paps respondeu e eu agradeci mentalmente por isso — Sua avó vai completar noventa anos e iremos fazer uma festa para ela no próximo final de semana, sua presença não é opcional, estaremos te esperando com seu quarto arrumado e um bolo de chocolate que você tanto gosta.

Ficamos aproximadamente vinte e três segundos em silêncio depois que ele disse tudo de uma só vez. O único indício de que ainda estávamos em ligação era o som ruidoso de nossas respirações em contraste com o tec tec do meu teclado. Papai esperou pacientemente, podia jurar que o semblante dele traduzia o cinismo “eu tenho o dia todo, querida”, e foi justamente pensando nisso que eu suspirei, finalmente parando de digitar para me encostar na cadeira encarando o teto derrotada.

— Eu não vou, pai.

— Não foi um pedido, , você sabe disso. Não existe contestação. — Meu pai respondeu taxativo, embora seu timbre fosse sereno. Ele não estava brigando comigo, estava apenas me mostrando, do jeito mais amável possível, que eu não tinha nenhuma forma de driblar aquela imposição.

Fiquei em silêncio mais alguns segundos pensando no que eu poderia fazer para reivindicar meu direito de ir e vir sem soar como uma vaca egocêntrica e infelizmente não encontrei nenhuma alternativa. Eu não tinha mesmo nenhuma justificativa que fosse plausível o suficiente para me abster do nonagésimo aniversário da minha avó e, vamos ser francos, aquele poderia ser o último. Sabia que toda a família estaria presente, seria um evento de grande porte naquela cidade pequena e já podia imaginar as notas impressas nos jornais locais e o falatório quando soubessem que não comparecera no aniversário da própria avó. Não que eles fossem ficar surpresos, de mim, todos esperavam qualquer façanha. Quanto mais egoísta, imprudente, rebelde e injustificável, mais aceitável para o meu padrão. Infelizmente, a minha fama falava por mim.

— Paaps — Entoei numa voz arrastada e manhosa só por autopiedade, eu sabia que meu drama não adiantaria de nada.

— Estamos todos te esperando, raio de sol, sua avó ficará muito feliz em saber que você vem — Meu pai respondeu em advertência e eu sabia que aquela era uma batalha perdida. Já começava a hiperventilar só de pensar na possibilidade de estar em Nebraska na semana que se seguia.

— Está na hora de voltar para casa, filha — Ele disse depois do meu silêncio e eu suspirei mais uma vez.

— Eu estou em casa, pai. Nova Iorque é minha casa — Frisei como sempre fazia quando falávamos sobre aquele assunto. E como toda vez que eu dizia isso, meu pai se limitou a responder:

— Ok, ok, que seja.

— Emma está por aí? — Perguntei resignada girando a cadeira de um lado para o outro, tentando manter meu coração comportado.

— Está sim, vou passar para ela. Um beijo querida, nos vemos semana que vem — Meu pai respondeu antes de chamar minha irmã. Esperei alguns segundos até que ela estivesse na linha, tentava respirar e contar de um até dez, evitando a tremedeira que estava começando a me invadir. Era ridículo como eu conseguia me sentir assim com a simples menção de voltar para aquela cidade, ridículo como eu ainda me sentia assim mesmo depois de dois anos sem saber dele.

Sim, sou uma empreendedora de sucesso, mas ridiculamente previsível a ponto de ser mal resolvida com assuntos do coração. Quem diria? Um clichê digno de comédia romântica… Ou talvez esteja mais voltada para o melodrama.

— Ei, ! Nos vemos na sexta, então? — Emma perguntou assim que atendeu o telefone.

— Parece que sim, não tenho jeito. — Respondi amargamente. Inspirei profundamente mais uma vez e resolvi acabar com aquilo logo, sem enrolação — Ei, escuta, já que eu tô indo eu preciso saber, preciso me preparar… Ele ainda está por aí, né?

Minha irmã ficou em silêncio pelos cinco segundos mais longos da minha vida. Ela sabia o tópico da conversa no momento em que papai passou o telefone para ela comigo na linha. Emma me conhecia o suficiente para saber exatamente qual era o meu interesse naquilo. Logo eu, que por tanto tempo me recusei a sequer tocar naquele assunto.

— Está sim… — Ela respondeu evasivamente e eu prendi a respiração.

— Como ele está? — Perguntei sentindo cada uma das minhas terminações nervosas ativadas.

— Você tem certeza que quer saber disso, ?

— Tenho. Eu preciso. Se vou voltar para Ogallala eu preciso mesmo saber como ele está, tenho que me preparar. — Respondi decidida, embora com o coração acelerado.

Eu não tinha certeza porra nenhuma, ainda mais porque eu definitivamente não estava pronta para a resposta dela.

Emma inspirou profundamente antes de me responder de uma só vez.

— Ele está noivo… Seu garoto de Nebraska vai casar, .

É… Bom, o que dizer? Fodeu.

E lá vamos nós.

 

 

Capítulo 1
 

INVERNO DE 2018
Enquanto dirigia, inevitavelmente um sorriso brotou nos meus lábios com a recordação daquela noite estrelada em meados de julho, noite em que conheci . É engraçado pensar em como algumas pessoas entram em nossas vidas e num piscar de olhos mudam a nossa percepção sobre tudo, bagunçam nossa mente, mexem com nosso coração e mudam o curso da nossa vida. Eu não poderia prever que, ao entrar naquele bar, toda minha vida mudaria pelo simples fato de conhecer aquele barman.

Desliguei o som do carro ao estacionar na garagem do edifício e depois de subir preguiçosamente até o meu andar, entrei no apartamento praticamente me arrastando, tamanho o meu desânimo. Morava num confortável loft no centro de Manhattan e havia decorado tudo exatamente do jeito que sempre quis. Morava sozinha e amava aquilo com todas as minhas forças. Mas naquela noite em particular, detestei a solidão.

Deixei as chaves no balcão que ligava a sala a cozinha, larguei minha bolsa no sofá, me desfiz do casaco e dos sapatos e rumei até meu quarto colocando meu cabelo num rabo de cavalo. Acendi a luz e fiquei um tempo parada em frente ao meu armário pensando se realmente faria aquilo.

Eu não vou, pai.

Não foi um pedido, , você sabe disso. Não existe contestação.

Num bufo enraivado, abri meu guarda roupa retirando algumas peças dos cabides e jogando de qualquer jeito na cama.

Fazer as malas, então.

VERÃO DE 2010
e eu trocamos nossos números de telefone, mas não nos beijamos na primeira noite. Ele só não nos levou em casa como o perfeito acompanhante que era, porque meu avô prometeu nos buscar e fazia questão disso. Na saída da festa, se despediu de mim com um beijo no canto da minha boca. Se afastou com um sorriso torto fechado e disse que a hora que eu quisesse diversão poderia procurá-lo no Old Town Bar.

— Prazer te conhecer, bonequinha de Nova Iorque — Ele dissera.

— O prazer foi todo meu, Nebraska. — Respondi.

Lembro de ter passado o dia inteiro me perguntando se deveria ou não ir ao bar na noite seguinte, não queria parecer muito desesperada por ele. Meu celular não tinha vibrado com nenhum torpedo ou ligação e por isso me mantive firme. Mas isso não durou muito.

Na segunda-feira nos vimos de novo. Não precisei ir atrás dele, nem ele me procurou também. Não diretamente, pelo menos. É que além de barman, durante o dia também trabalhava para o meu avô na fazenda. E foi tomando café da manhã, completamente descabelada, remelenta e cheia de olheiras que eu descobri essa proeza.

, você vai comer esse bolo? — Charlie me perguntou com o olho gordo.

— Cai fora, pirralho.

— Nossa, qual a necessidade desse mau humor, hein? Estamos em Ogallala e de férias, dá pra você aquietar? — Emma criticou minha rabugice. Dei de ombros.

— É segunda-feira. Meu cérebro está programado para odiar segundas-feiras independente de estarmos nas férias ou não.

— Emma, você vai comer esse b…

— Bom dia, Srª — Uma voz grave, rouca e arrastada ecoou na cozinha e eu senti todos os pelos do meu corpo se eriçarem com o arrepio que percorreu minha nuca, e me fez engolir uma porção generosa do café quente, que desceu queimando minha garganta.

— Bom dia, ! Venha tomar café conosco, quero que conheça meus netos — Minha vó respondeu ao visitante com uma voz amável e afetuosa.

Charlie, Emma e eu nos entreolhamos cúmplices e em um milésimo de segundo tratei de limpar meus olhos e passar a mão rapidamente pelos cabelos.

— Queridos, esse é o . Ele trabalha com o avô de vocês dando uma ajuda aqui na fazenda. , esses são meus netos…

— Emma, Charlie e… complementou antes que vovó pudesse fazer isso, um sorriso divertido brincando em seus lábios no momento que pronunciou meu nome, demorando seu olhar sob o meu.

— Oh, você já os conhece? — Vovó perguntou surpresa quando se aproximou para nos cumprimentar com afinidade. Deu um aperto de mão em Charlie, bagunçou os cabelos de Emma e beijou o topo da minha cabeça.

— Eu os conheci no b…

— Na festa da igreja! — Apressei em responder, antes que denunciasse nossa pequena farrinha no bar. Mesmo que não estivéssemos bebendo, vovó não iria gostar de saber que desvirtuei meus irmãos num lugar que certamente não aprovaria.

percebeu ter dito algo inapropriado e sorriu.

— E então, você está me perseguindo? — Perguntei baixinho enquanto ela fritava alguns ovos para o recém chegado.

— Não seja tão convencida, bonequinha. Eu não sabia que você era a . , apenas .

Eu sorri deixando passar.

— Você não me ligou — Deixei escapar sem querer. Não queria que o tom tivesse sido de acusação, mas foi. sorriu e reprimiu uma risada nasalada particularmente fofa.

— E você não apareceu no bar.

— E, no entanto, você está na cozinha da minha avó.

— Na cozinha de Molly corrigiu.

— E cá estamos nós — Pontuei.

— Cá estamos nós — Ele repetiu sorrindo para mim.

— Ei, Emma, desculpe atrapalhar, mas… posso comer seu bolo? — Charlie interrompeu nosso contato visual.

Ter trabalhando na fazenda de vovó fez com que nos aproximássemos numa velocidade impressionante. Principalmente pelo fato de que era muito difícil de me concentrar em qualquer coisa que fosse vendo-o andar pra cima e para baixo com uma camiseta branca grudada de suor e feno. Enquanto tentava ler meu livro embaixo da árvore, ele passava serrando madeira. Enquanto eu tentava me concentrar no jogo de cartas com meus irmãos, me distraia olhando pela janela trabalhar na garagem. E num desses momentos em que ele se isolava na garagem, nos aproximamos.

— Minha meta de vida é namorar com alguém que me olhe do jeito que você olha para esse carro — Eu disse certa tarde enquanto observava trabalhando no motor de um carro antigo.

— No dia que isso acontecer, você saberá que encontrou a pessoa certa. Essa belezurinha aqui é um Mustang de 1969 — me respondeu erguendo a cabeça com um sorriso, limpando um filete de suor que escorria da testa.

— Isso supostamente deveria significar alguma coisa para mim? — Perguntei com as sobrancelhas arqueadas em deboche, me aproximando.

— Você entende de moda não é mesmo? — perguntou sorrindo, a língua presa entre os dentes. Afirmei com a cabeça, me sentando no banco ao lado do carro.

— Bom, imagine que esse carro é tipo um Chanel edição limitada — deu de ombros e voltou a mexer no motor enquanto eu ria.

— Então você é fissurado em carros e em rock n’ roll. — Comentei analisando os braços largos de enquanto trabalhava no motor do carro.

— E a senhorita em moda e… — ergueu a cabeça novamente, soprando para cima retirando uma mecha de cabelo do olho. — E em que mais? Me fale sobre você.

— Cosmopolitans — Murmurei baixinho e reprimi uma risada quando me encarou de cenho franzido. — É um drink.

— Eu sei o que é cosmopolitan, bonequinha. Sou um barman, posso ser um caipira, mas não quer dizer que sou tão desinformado assim. — ironizou e eu me permiti rir.

— Séries de TV — Respondi dando de ombros — Sou fissurada em séries de TV. Desperate Housewives, Grey’s Anatomy, Friends e principalmente Sex and the City.

— Nossa, eu não faço a menor ideia do que você está falando — disse e rimos juntos. — E bandas? O que você curte ouvir?

— Não tenho um gênero específico, ouço de tudo um pouco. Basta a música ser melodiosa e eu tô escutando. — E você?

— Várias. Elvis Presley, Jimi Hendrix, Led Zeppelin… — Os olhos de brilhavam e eu me controlei para não rir. Não de deboche, mas porque realmente achei fofo. Ele percebeu — O que foi?

— Nada, se eu disser que só conheço Elvis você vai me achar patricinha demais, não é?

— Provavelmente — rolou os olhos e riu — Mas isso também não tem muita importância agora.

Franzi o cenho e joguei a cabeça para o lado, sem entender.

— O que quis dizer com isso?

— Bom, é um pouco óbvio, não é? Isso aqui — sinalizou com o dedo indicador apontando dele para mim — Não pode acontecer.

— Você está me dando um fora? — Tentei não colocar tanto ultraje na voz, mas foi em vão.

— Nem se eu quisesse. Mas você é neta do meu patrão, não sei muito bem se me sentiria confortável com isso. Ou se seus avós iriam achar interessante. — ponderou.

— Para o inferno o que meus avós acham. Eu te conheci antes de saber que você trabalhava aqui. — Respondi taxativa e sorriu. Na tentativa de tirar o cabelo do rosto mais uma vez, passou o dorso da mão na bochecha deixando um rastro de suor e graxa no local. Ele parecia mais sujo do que nunca e, no entanto, mais atraente do que em qualquer outro momento.

— Falou bonito, bonequinha.

— Você vai me levar para sair, Nebraska — Eu disse imperativa e ergueu as sobrancelhas com ar de riso, embora aparentemente satisfeito com minha atitude.

— Vou? — Ele desafiou.

— Vai sim — Balancei a cabeça afirmativamente.

— E para onde eu vou te levar?

— Para beber — Eu disse batendo nas minhas pernas antes de me levantar, um sorriso malicioso brincando em meus lábios — Vou provar a você que não sou a bonequinha que pensa que sou.

*
— Quem virar primeiro vence, ok? — Billy explicou enquanto apontava para os copos de shot de tequila na nossa frente.

— Ok! — Dissemos em uníssono.

— Vocês estão prontos? — Nathan perguntou.

— Nasci pronta! — Respondi animadamente.

— Não exagera muito, bonequinha. me alertou e eu sorri travessa, mostrando-lhe a língua.

— Não enche o saco, Nebraska.

— Um, dois….

Assim que Bill terminou de fazer a contagem, revirei num só gole todo o shot de tequila. Lambi um pouco do sal no dorso da minha mão e suguei o sumo ácido do limão fazendo uma careta ao sentir o álcool descer rasgando por minha garganta.

— E a vencedora é… ! — Bill anunciou em meio as gargalhadas e protestos dos outros. Com um sorriso de rasgar o rosto, me virei de frente para e soltei um berro de ferir os tímpanos. Ele fechou os olhos numa careta e riu da minha atitude, segurando meus pulsos.

— QUEM É A BONEQUINHA AGORA, HEIN? — Zombei, já um pouco alterada. Era o quarto shot seguido que eu virava primeiro do que todo mundo.

— Tudo bem, tudo bem, , você venceu! — me respondeu risonho segurando meus pulsos. Ele separou meus braços e os colocou em volta do seu próprio pescoço me trazendo para perto.

Deixei que me afastasse dos outros que agora aplaudiam e assobiavam em meu apoio e fingi uma reverência enquanto era guiada para a pista de dança. A banda cover qual ele havia me levado para assistir tocava uma música particularmente animada de Elvis Presley e antes que eu pudesse perceber, estava me movimentando com , fazendo passinhos engraçados e desengonçados pela quantidade de álcool que já tínhamos ingerido.

— Você está bem? — perguntou depois de me fazer dar um rodopio particularmente longo que nos levou as gargalhadas e também quase me levou ao chão.

— Estou ótima! — Respondi sincera, sem nem me dar ao trabalho de arrumar meu cabelo — Não me divirto assim há tanto tempo…

— Aposto como você pensou que suas férias em Ogallala seriam tediosas. Não é nenhuma Nova Iorque, mas sabemos como nos divertir aqui também — respondeu colocando uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha, fazendo um carinho gostoso com sua mão grossa na minha bochecha.

— Que bom que me trouxe aqui. Adorei conhecer seus amigos, são todos divertidos — Respondi movimentando meus ombros no ritmo da música enquanto voltava a me segurar confortavelmente em volta do pescoço de . Ele havia me levado para um bar diferente do qual trabalhava, o Rhoades que era de longe muito mais underground do que o Old Town Bar. Menos adolescentes, mais adultos e muita música.

Diferente de qualquer encontro convencional, me levou para um bar de gangue de motociclistas e não para um restaurante romântico. Eu queria beber, mas ao invés de me levar para um bistrô com queijos e vinhos, me levou para onde a cerveja era barata e shots de uísque e tequila estavam na promoção. Ao invés de sairmos sozinhos para nos conhecermos melhor, na metade do nosso encontro ele chamou os três amigos queridos, Nathan, Bill e Rose.

Eu não me importei. Em diversos aspectos aquele tinha sido o melhor primeiro encontro da minha vida. Era muito fácil ficar perto de . Muito fácil manter uma conversa com ele. Enquanto os amigos não estavam por lá, antes da banda começar a tocar, sentamos numa das mesas reservadas e demos boas risadas observando as pessoas do local. Do contrário do que imaginei, eram gentis, receptivas e pareciam achar hilário que eu fosse a única do local com salto alto e não coturnos.

Conversamos sobre nossas vidas. Expliquei minha trajetória no jornalismo e na moda, me explicou sobre sua vida em Ogallala. Descobri que sua família era muito humilde: ele nunca havia conhecido o pai que tinha abandonado a mãe grávida. Constatei que a relação dele com a mãe era linda só por observar o brilho que ele tinha nos olhos ao falar dela. Conversamos sobre músicas, filmes, e rimos ao constatar como parecíamos extremos opostos em quase tudo.

Quando saímos da cerveja para os destilados, confessou que preferia uísque em contradição a minha tequila. Bebemos shots diferentes e brindamos a isso. E ali, nos braços de , dançando em passos esquisitos e embriagada de tequila, eu estava me divertindo como nunca. Me aproximei um pouco mais, deixando meu rosto colado com a curva do pescoço dele, sorrindo ao constatar como havia se arrepiado ao sentir meu nariz roçar em sua pele. Inspirei profundamente sentindo-me inebriada com seu perfume almiscarado e depositei um beijo molhado no pescoço dele e alarguei meu sorriso ao senti-lo ronronar baixinho.

— Você é tão cheiroso. — Eu disse com a voz manhosa, me abraçando mais a ele.

— Diga isso quando eu estiver na garagem do seu avô e talvez você conquiste meu coração — brincou e eu não pude evitar uma risada. Me afastei o suficiente para olhar nos olhos dele e senti meu próprio coração acelerar ao notar a expressão doce e serena em seu rosto ao me contemplar.

— Homens suados e fedidos a graxa têm lá seu charme — Eu disse num tom sapeca mordendo meu lábio inferior e me deliciei ao ver gargalhar jogando a cabeça para trás. Ele voltou a me encarar e o riso foi cessando aos poucos. Ele acariciou meu rosto novamente, um sorriso singelo brincando em seus lábios.

— Você é muito linda, . — disse com aquela voz rouca e sedosa, arrepiando cada fio de cabelo meu.

Instintivamente passei a língua por meus lábios, umedecendo-os, com a plena consciência de que estava sendo milimetricamente observada por , que encarava minha boca com fascínio. Entrelacei meus dedos na nuca dele, brincando com seu cabelo rebelde, sorrindo internamente ao vê-lo se aproximar de mim lentamente, segurando meu rosto com uma precisão que me derreteu por completo. entrelaçou seus dedos na minha nuca e me trouxe para perto, finalmente acabando com a distância entre nossas bocas que estavam sedentas por um beijo.

A boca dele era macia, úmida e quente. Quando nossos lábios se encontraram, senti o gosto de uísque contrastar com a tequila e minhas entranhas fervilharam de um jeito bom. me abraçava de um jeito que nunca tinha sido abraçada antes. Seus braços largos me prendiam num aperto quente e gostoso. Uma de suas mãos estava repousada na base das minhas costas, unindo nossos corpos numa fricção que me causou arrepios involuntários. Sua outra mão continuava na minha nuca, puxando meus cabelos com uma força mínima, mas o suficiente para pesar minha calcinha.

Eu estava vergonhosamente excitada. Como nunca havia me sentindo na vida. Por um cara que eu tinha conhecido há menos de uma semana. Por um barman de Ogallala, por um caipira qualquer. Um caipira do beijo bom. Um caipira do melhor beijo da minha vida.

INVERNO DE 2018
Era vergonhoso constatar como depois de oito anos eu ainda conseguia pensar sobre aquele beijo e sentir todas as sensações exatamente como naquela noite. O beijo de tinha um sabor de uísque tão viciante que foi difícil me manter longe dos lábios dele por muito tempo. Nos beijamos a noite inteira, lembro de ter tido uma crise de risos no banheiro de casa ao checar a situação da minha boca vermelha, inchada e com marcas das mordidas dele.

Apesar de ter sido incrivelmente bom ficar com , eu adotei uma política de certa distância nos dias seguintes. Pensando nisso agora parece engraçado, porque não adiantou de absolutamente nada. Ele estava na casa dos meus avós durante o dia e trabalhava no bar que meus irmãos insistiam em ir durante a noite. A cidade era pequena então vez ou outra nos esbarrávamos na rua e eu me mantinha com cara de paisagem propositalmente.

Eu estava de férias, não queria nada sério. Minha estadia em Ogallala tinha prazo de validade e hoje eu compreendo que a essência do meu distanciamento se dava por puro medo. me mandava alguns torpedos, tentava alguma comunicação quando ia trabalhar na fazenda, mas despistei bancando a desinteressada. Embora cheia de atitude nos nossos primeiros encontros, fiz vários joguinhos e banquei a difícil depois de conseguir o que eu queria. O propósito disso? Não sei. Vai ver eu era mesmo a menina mimada que ele me julgava ser. Eu era mesmo uma bonequinha boba.

era um rapaz bondoso e extremamente paciente. Paciente para aguentar meus dramas, minhas birras e meus joguinhos bobos. Enquanto eu me fingia de desinteressada, ele estava ali me oferecendo sorrisos no café da manhã, preparando cavalos para me fazer montar e me mandando torpedos me chamando para sair ou fazer qualquer outra coisa. Mas eu não ligava muito, ou, pelo menos, fingia não ligar. Quando me era conveniente, entrava na garagem, batia papo com ele por alguns minutos, dava uns beijos e depois saia sorrateira como se nada tivesse acontecido.

Remexi meu guarda roupa tomada por uma sensação esquisita no meu estômago. Um nó engolfava minha garganta e eu sentia um gosto estranho na boca. Um gosto amargo. Separei sem empolgação alguma um vestido qualquer para o aniversário da minha avó e mais algumas outras mudas de roupa para a viagem que eu torcia que fosse curta o suficiente para nem ao menos dar tempo de me encontrar com ele.

Ei, escuta, já que eu tô indo eu preciso saber, preciso me preparar… Ele ainda está por aí, né?

Está sim…

Suspirei, resignando-me em ter que voltar para Ogallala depois de dois anos sem pisar os pés naquela cidade.

Enquanto separava as mudas de roupa e arrumava as malas para encarar meu passado, aos poucos, percebia meus esforços para esquecer sendo arruinados pelas memórias involuntárias de tudo que eu havia jurado superar. Oito anos haviam se passado desde que nos conhecemos naquele verão, sendo que seis desses anos foram marcados por idas e vindas das minhas férias para Ogallala e dois anos de completo silêncio e suposto fim.

Ali, arrumando as malas, encarando os fantasmas do meu passado, percebi que não estava pronta para dar um ponto final naquela história. Eu ainda o amava, independentemente de tudo que havia acontecido para nos distanciar. E cada memória era um golpe desferido contra meu coração que parecia nunca se recuperar da perda. <br

Das perdas.

Vasculhando o guarda roupa, encontrei uma peça que fez minha pulsação acelerar consideravelmente. Uma jaqueta de couro com o brasão bordado em vermelho com a escritura “The Bloods”. Por quanto tempo aquela jaqueta tinha ficado esquecida no meio daquele monte de roupa? Tentei vesti-la e quase ri em pensar como meu corpo tinha mudado e agora ela não me cabia mais tão confortavelmente. A lembrança do dia que ela veio parar em minhas mãos ainda era nítida em minha mente.

 


Capítulo 2

VERÃO DE 2010

— Vamos sair hoje? — Emma perguntou deitando-se na beirada da minha cama. Dei um pequeno chute para que ela se levantasse — Outch, sua má!

— Sai da minha frente, Emma, eu tô vendo TV — Reclamei.

— Como você não cansa, ? Você já assistiu esse episódio no mínimo umas dez vezes — Charlie protestou da sua cama. Estava concentrado jogando Doodle Jump.

— Não cansando. Cala a boca e me deixa assistir.

— Por que você anda tão amarga assim? Não ‘tá mais dando uns beijinhos no caipira? — Emma perguntou num tom de malicia e eu revirei os olhos, mordendo um sorriso. Não daria a minha irmã o gostinho de saber que mais cedo naquela mesma tarde beijei até perder o fôlego no celeiro.

— Isso é porque ela é orgulhosa o suficiente pra não dar o braço a torcer que ‘tá gostando dele. — Charlie disse ainda com a cara grudada no celular. Lancei uma almofada nele e sorri com satisfação ao ver o celular bater com força na sua testa. — AI, ! Eu estava batendo meu recorde!

— Caguei.

— É sério, , me deixa entender o que você tá fazendo. Você tem um caipira GATO daqueles te dando o maior mole e você tá se fazendo de difícil por quê? — Emma perguntou. Às vezes eu odiava aquela menina e sua habilidade em ser insistente.

— Você fala isso como se fosse o maior orgulho da minha vida conquistar um cara. Eu também sou o máximo, ok? Não se esqueça disso.

— Eu não teria tanta certeza. Eu realmente não sei o que ele viu em você. De que adianta ser bonita se é uma megera, vadia e sem coração? — Charlie disse com todo despeito do mundo e eu fui obrigada a tirar atenção da minha série para olhá-lo com ultraje. Ele não se importou, apenas deu de ombros — É verdade.

— Vocês são ridículos. — Me limitei a dizer porque não tinha mesmo outros argumentos. Emma continuou tagarelando mais alguma coisa sobre como eu deveria aproveitar as chances que a vida me dava, mas não prestei atenção. Nesse momento meu celular vibrou indicando que havia recebido uma mensagem de .

: Ei, bonequinha, o que tá fazendo agora?

Disfarcei um sorriso e me apressei em responder, não dando a mínima para o que Charlie e Emma falavam.

: Hey, Nebraska xD Assistindo Sex and the City, e vc?

Assim como eu, ele respondeu em menos de um minuto. Minhas entranhas reviravam dançando uma conga, mas eu não admitiria.

: Tá a fim de largar essa programação chata e sair comigo para uma diversão de verdade?

Dei um sorrisinho a contragosto e, assim que percebi o silêncio dos meus irmãos ergui o rosto.

— Hm? — Perguntei me fazendo de desentendida sob os olhares divertidos de Emma e Charlie. Era como se dissessem “descarada” só com o olhar.

— Esse sorrisinho é porque recebeu mensagem do macho, né? — Charlie disse e eu joguei outra almofada nele. Dessa vez ele conseguiu desviar.

— Não enche meu saco. — Eu respondi antes de voltar a dar atenção ao celular.

: Sex and the City nunca é uma programação chata, cowboy.

— Meu Deus, , sério? Tipo SÉRIO? — Emma exclamou do meu lado e eu me inclinei para retirar o celular das vistas dela.

— Licença? — Eu pedi indignada, pois não tinha percebido a proximidade dela.

— Caramba, o cara tá te chamando para sair e você diz que Sex and the City nunca é uma programação chata? Meu Deus, o que ele viu em você?

Emma continuou reclamando, mas novamente perdeu minha atenção. já havia me respondido. E parecia tão indignado quanto minha irmã.

: Sério que você vai me trocar por uma série que você já assistiu mil vezes? Sou tão ruim assim, bonequinha?

Soltei uma risada nasalada e percebi que meus dois irmãos me cercavam feito papagaios de pirata, sentados do meu lado na cama. Estava tão compenetrada que nem percebi como isso aconteceu.

— Meu Deus que saco vocês dois! Querem parar com esse fã clube chato do ? Caralho… — Bradei, mas não foi com sinceridade.

— Cara, ele tá tão na sua… — Charlie disse com o queixo grudado no meu ombro — Por favor não dê outro fora nele.

: Me convença do contrário, Nebraska.

— Você é tão metida, ! — Emma me deu um tapa no braço e eu ri mordendo o lábio inferior em expectativa.

: E eu preciso? Basta dizer que se você vier comigo hoje, vai ter muito mais daquilo que você provou mais cedo no celeiro…

— Do que você provou mais cedo no ce…. O QUE VOCÊS ANDARAM FAZENDO NO CELEIRO HOJE, ? — Charlie, a discrição em pessoa, berrou, quase me deixando surda.

— Ai, cala boca, garoto! Não fizemos nada demais, só demos uns beijos, só isso!

— Vocês estão ficando as escondidas? Nem nos disse nada, sua vaca! — Emma reclamou.

— Eu não estou ficando escondida de ninguém. Só nos beijamos às vezes, casualmente… Nada demais. — Me defendi, tamborilando os dedos sob os teclados pensando no que responder.

: Muito persuasivo, Nebraska. Você ganhou. Para onde vamos?

: Você verá. Diversão de verdade. Passo para te buscar em vinte minutos. Não use salto.

— “Não use salto”? — Emma repetiu me olhando sugestivamente. — O que você vai fazer?

Dei de ombros, me levantando da cama rumando até o armário que vovó tinha liberado para colocarmos nossas roupas durante as férias.

— Vou de salto, ué. Ele não manda em mim.

Cerca de vinte e três minutos depois – sim, eu contei – ouvi o ronco de uma moto do lado de fora e a julgar pelo gritinho empolgado de Emma, constatei que havia chegado.

— Como estou? — Dei uma voltinha me exibindo para meus irmãos que estavam sentados no parapeito da janela.

Havia escolhido uma calça estilo legging de couro, uma T-shirt básica branca e a mesma bota preta de salto agulha. Meus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo e meus lábios preenchidos por um batom vermelho que contrastava bem com o delineador de gatinho que realçava meus olhos.

— Gostosa — Emma aprovou empolgada, Charlie apenas revirou os olhos.

Desci as escadas já escutando as vozes de vovó e no andar de baixo. Pelo que eu conseguia entender, ela estava tentando convencê-lo a comer um pedaço de bolo antes de sair. Eu estava contendo uma risada nasalada quando entrei na cozinha chamando a atenção de ambos. , que estava rindo da demasiada atenção de vovó, engasgou com um pouco da água que bebia no momento em que me viu. Ele tentou disfarçar com um uma tosse, mas seu rosto ruborizado denunciou. E por isso, me senti quente por dentro.

— Boa noite — Eu disse no melhor tom prepotente que podia, deliciando-me em contentar o vergonhoso constrangimento que em que ele se encontrava depois de esquadrinhar meu corpo daquela forma.

Não que ele estivesse menos atraente. Pelo contrário. Despojado como sempre, estava recostado na bancada da pia, as pernas cruzadas sob um jeans apertado e botas de cano curto. Os cabelos bagunçados combinavam perfeitamente bem com uma enorme jaqueta de couro que lhe davam um ar de badboy irresistível. Tão previsível por fora, tão encantador por dentro. Era assim que ele era.

— Quer comer alguma coisa antes de sair, filha? — Vovó me perguntou zelosa, mas eu sabia que era só um pretexto para dar tempo de se recompor com dignidade. Eu admirava a educação dela.

— Não, vó. E por favor, não precisa ficar me esperando acordada, tudo bem?

— Mas não tratem de chegar muito tarde…. Ouviu, bem, ? Olhe lá onde você vai levar minha neta. — Vovó virou-se para , que a essa altura já tinha abandonado o copo e permanecia impassível, embora uma veia estivesse mais acentuada em sua têmpora.

Eu estava me divertindo tanto.

— Fique tranquila, Sra disse perfeitamente polido na sua voz arrastada e melodiosa e eu senti um arrepio percorrer minha espinha.

Vovó cumprimentou , me deu um beijo na bochecha e se retirou da cozinha me deixando a sós com meu caipira favorito. Ele estendeu a mão e eu a aceitei deixando que ele entrelaçasse nossos dedos. Ele ergueu nossas mãos e beijou o dorso da minha, sem quebrar o contato visual.

— Você está linda. — Ele disse naquela voz rouca e suave, quase num ronronar delicioso que estremecia as paredes da cozinha… e minhas pernas.

— Obrigada. Você também não está nada mal, Nebraska. — Eu respondi com um sorriso.

me olhou de cima a baixo, o tipo de olhar que ele não se atreveria a me direcionar na presença da minha avó. Seus olhos selvagens que perfuravam os meus com tanta profundidade esquadrinharam meu rosto, desceram por meu pescoço, meu busto, minha barriga, minha cintura, minhas pernas e se demorou nos meus pés. Ele deixou uma risadinha debochada brincar em seus lábios transformando-se no sorriso torto que eu tanto gostava.

— De salto, bonequinha? — Ele zombou e eu dei de ombros, livrando minha mão da dele.

— Você não manda em mim — Eu respondi com um tom superior e ele ergueu a sobrancelha sondando meu comportamento.

— Eu não estava mandando. Estava sugerindo, o lugar para onde vamos…. — Então, de repente, ele parou de falar. Suspirou fundo e deixou o sorriso se alastrar pelo rosto, parecia estar se divertindo com algo dentro da sua própria cabeça. — Bom, vamos?

Eu quis perguntar mais sobre o lugar para onde estávamos indo, mas antes que eu pudesse verbalizar qualquer indagação, já tinha aberto a porta e fazia sinal para que eu saísse. Eu o acompanhei ainda desconfiada, mas sem pestanejar.

Estacionada no portão de casa, estava uma motocicleta vermelha que eu não saberia descrever corretamente, visto que pouco me importo com os modelos. pegou o capacete branco e ofereceu para mim enquanto abria o compartimento de trás e procurava alguma coisa enquanto eu me batia com correias e fechos para colocar aquele capacete na minha cabeça.

— Aqui — Ele pediu, estendendo a mão para que eu devolvesse o capacete para ele. Ele o colocou no banco da moto e virou-se para mim novamente estendendo uma jaqueta preta idêntica a dele só que em tamanho menor.

— O que é isso? — Perguntei debilmente e sorriu daquele jeito calmo e gentil.

— É um presente para você. Para combinar com o que vamos fazer hoje.

Eu me virei de costas e deixei que ele vestisse a jaqueta em mim. me abraçou por trás e aplicou um beijo delicado na minha bochecha, me fazendo arrepiar ao inspirar profundamente no meu pescoço. Quando me virei de frente novamente, ele me ofereceu um sorriso largo, aprovando meu traje.

— Você está perfeita.

— Obrigada, eu acho… — Agradeci incerta, observando o brasão estampado no braço direito da jaqueta — The Bloods…?

— Bom, quando você disse membro da gangue… Você não estava tão errada assim — sorriu enviesado e meu queixo caiu.

— O QU… — Minha exclamação foi abafada pelo capacete que já colocava em mim, afivelando habilmente com tranquilidade. Levantei a viseira encarando-o chocada e ele apenas riu.

— Sobe na garupa, bonequinha. Espero que esse seu salto não te incomode hoje.

XxX

O ronco do motor me assustou antes mesmo que pudesse dar partida na moto. Me agarrei as suas costas e deixei que nossos corpos ficassem colados. Não que isso fosse uma dificuldade para mim, mas aquela adrenalina era muito mais do que eu estava esperando. Assim que ele pisou no acelerador senti meu sangue ferver, minhas terminações nervosas já ativadas.

— Pronta para um pouco de ação, bonequinha? — Consegui ouvir a voz dele embora estivesse abafada pelo capacete que usávamos.

Tentei responder, mas não encontrei minha voz, meu corpo tremia por completo. Ao invés disso, me agarrei ainda mais a ele, sentindo que a qualquer momento meu coração iria saltar pela boca.

Quando acelerou, senti nosso corpo ser içado para trás antes de pegar o impulso suficiente para frente e isso fez com que meu estômago borbulhasse de nervoso. Com as mãos cravadas em seu peitoral, eu tive certeza que ele conseguiria sentir as batidas frenéticas do meu coração nas suas costas e por um momento pensei ter sentido uma vibração do seu corpo indicando que ele estava rindo.

— Não vai aliviar só por causa da patricinha, hein, ? — Ouvi Jimmy gritar do outro lado, mas não ousei mover minha cabeça para olhá-lo. Apenas soube que ele já tinha ultrapassado pelo rastro de poeira que deixou para trás quando passou em disparada. riu novamente.

— Não feche os olhos senão você vai ficar enjoada — disse e eu me atrevi a abrir os olhos e percebi que ele me encarava pelo retrovisor com um olhar zeloso. Não fui capaz de responder, apenas assenti positivamente.

— Está tudo bem? Se não estiver eu posso parar — Ele continuou olhando diretamente para mim. Aquilo me deu um pouco de aflição, se ele continuasse tão concentrado em mim, iria se distrair da pista. Só de pensar naquela possibilidade fui invadida por um pânico.

— Está tudo bem! — Gritei com o máximo de dignidade que consegui reunir — Acaba com eles, Nebraska!

riu gostosamente e abriu a viseira, deixando seus olhos livres para pista. Num surto de coragem, fiz o mesmo e instantaneamente me senti melhor.

Embora precisasse ficar com os olhos semicerrados para me proteger da poeira, a sensação de liberdade me invadiu em um segundo ao sentir o vento rajando contra meu rosto, bagunçando minha franja bem alinhada.

— Ei! — gritou e dessa vez tive coragem de virar minha cabeça para o outro lado, observando a traseira da moto de Jimmy ficar mais próxima — Tá a fim de comer um pouco de poeira? — provocou e acelerou de um jeito que me fez cravar ainda mais as unhas em seu peitoral, apertando-o tanto que tinha certeza que o deixaria sem ar.

fez duas curvas particularmente apertadas que me fizeram fechar os olhos por instinto e acelerou tanto que fui obrigada a abaixar a viseira novamente. Conseguia apenas distinguir alguns rastros da pista desértica por onde passávamos.

Eu não sabia se ainda estávamos dentro dos limites de Ogallala, pelo tanto que nos distanciávamos da rodovia principal, mas, naquele momento, eu não estava me importando. Depois que o choque de estar numa corrida de moto com membros da The Bloods passou, posso dizer que estava até começando a gostar da sensação de adrenalina que aquilo que estava me proporcionando.

O banco abaixo de mim estava quente e emitia uma vibração que correspondia ao ronco do motor. Eu podia sentir o perfume almiscarado de se misturar com o cheiro do couro das nossas jaquetas, bem como o do cigarro que ele havia fumado mais cedo naquela noite e, por alguma razão, aquele cheiro me agradou. Sentir seu coração pulsar por baixo das minhas mãos e a tensão que emanava dos nossos corpos tão grudados me relaxou o suficiente para apreciar o momento.

Aos poucos, percebi o medo se esvair e a adrenalina dar lugar a uma outra sensação que seria igualmente capaz de arrepiar meus cabelos e causar borboletas no meu estômago.

Ali, empinada na traseira da moto de , usando jaquetas de couro e tendo meu corpo colado ao dele, sentindo o cheiro do seu perfume e a vibração do ronco daquele motor nas minhas partes íntimas, eu me senti verdadeiramente excitada. Vergonhosamente excitada.

Sentir o peitoral másculo dele subindo e descendo conforme sua respiração descompassava sob minhas mãos era indescritível. Toda aquela velocidade que esvoaçava os nossos cabelos, nossas roupas e ainda assim nos mantinha grudados na garupa de uma moto a todo vapor, me despertou coisas que eu não sabia que era capaz de sentir. Havia algo de selvagem no modo como eu cravava minhas unhas nele e acho que sentiu, porque vez ou outra, seu corpo emitia uma vibração que me indicava que ele estava rugindo em aprovação.

O que ele estava fazendo comigo?

fez mais uma curva e acelerou a moto, dessa vez com mais pressa e confiança, provavelmente sentindo que eu não iria desmanchar de medo a qualquer segundo. Eu já conseguia enxergar as luzes da cidade novamente e reconheci a rua do bar de onde partimos. Ele foi desacelerando a moto aos poucos, até chegar na linha de chegada onde algumas pessoas já nos esperavam rindo e batendo palmas.

Quando ele freou a moto no meio de uma curva brusca levantando poeira por todos os lados, eu agradeci mentalmente por ter abaixado a viseira. Ainda estava tomada pela adrenalina quando senti descendo da moto e só tive tempo de segurar nos seus ombros para evitar cair de cara no chão, momentaneamente me esquecendo como me mover sozinha. Com o coração acelerado e tremendo da cabeça aos pés, aceitei a ajuda para descer da moto e fiz sinal com as mãos para que ele tirasse aquele capacete de mim. Assim que ele o fez, pude ver seus olhos zelosos me analisando, suas mãos seguravam meu rosto protetoramente e para mim, aquilo foi o suficiente.

Havia algo na minha expressão séria que intrigava , mas eu não estava com humor para rir. Simplesmente parti para cima dele e taquei-lhe um beijo na boca com toda intensidade que eu podia, quase derrubando-nos em cima da moto.

— Ei, o que foi isso? — disse num misto de incredulidade com diversão assim que partiu o beijo.

Não o respondi, apenas voltei a me inclinar sobre ele para outro beijo tão intenso quanto o primeiro. Eu não sabia o que tinha dado em mim, eu simplesmente sentia uma vontade incontrolável daquele beijo, daquele cheiro, daquele corpo no meu. Quase esqueci que estávamos em público.

Quase.

— Patricinha maluca essa que você foi arranjar, hein, ? — Pude ouvir a voz de Jimmy ecoar próxima e deixei que nos distanciássemos apenas o suficiente para partir o beijo, sorrindo satisfeita ao sentir o braço de passando por meus ombros despreocupadamente, me guiando para dentro do bar. Vê-lo com cabelos bagunçados e com boca manchada do meu batom foi tão prazeroso quanto correr ao seu lado.

Assim como no nosso primeiro encontro, tinha sido completamente inusitado na programação. Já traçando um pouco da sua personalidade descolada, imaginei que teríamos uma outra rodada de drinks e alguns passos de dança, mas ele me surpreendeu pela segunda vez. Tinha me levado para uma espécie de reunião da The Bloods.

Nessa noite, em especial, fariam uma corrida com as respectivas parceiras. Algo que pelo que fiquei sabendo, era comum entre eles, uma espécie de iniciação para todas as vezes que encontravam uma namorada nova, mas não uma qualquer… Uma mulher que fosse especial, especial a ponto de levá-la até o The Bloods… E a partir daquele momento, eu me tornaria uma deles. A patricinha doida de Nova Iorque… A bonequinha do .

Naquela ocasião eu ainda não sabia, mas já estava completamente apaixonado por mim.

INVERNO DE 2018

Eu sorri para a jaqueta, mas eu não precisava me encarar no espelho para saber que aquele sorriso não tinha atingido meus olhos. Por um momento, quis colocá-la novamente no fundo do meu guarda-roupa, ignorar todas aquelas memórias e me concentrar na difícil tarefa de arrumar minhas malas. Mas, ao invés disso, dobrei delicadamente aquela peça de roupa como se fosse a coisa mais frágil e importante do mundo e coloquei-a ao lado da pilha de combinações que escolhia para minha breve viagem a Ogallala.

Separei alguns vestidos floridos e soltos, algumas camisetas básicas, shorts e calças jeans e abri o maleiro em busca de uma mala qualquer. Nunca estive tão desanimada para arrumar minhas coisas para uma viagem antes. Eu normalmente me divertia separando meus looks de acordo com ocasiões para cada dia que fosse ficar fora, mas, naquele momento, eu só conseguia pensar no quanto nem queria estar indo, para início de conversa.

Enquanto separava as roupas na mala e organizava meus utensílios de maquiagem, higiene pessoal e lingeries em necessaires, tentava controlar aquele alvoroço de pensamentos e lembranças que estava minha mente. Desde o momento que meu pai me ligara para falar do aniversário da minha avó, eu tinha encontrado uma dificuldade para me concentrar em qualquer tarefa que fosse pelo simples motivo de que aparentemente não queria deixar minha mente um só segundo.

Não que eu não pensasse nele com frequência, porque infelizmente ainda pensava.

Contra minha vontade, é claro. Faziam dois anos que tínhamos nos visto pela última vez, em uma situação completamente angustiante e que me partiu o coração em mil pedaços. Desde então, não tivemos contato e eu procurei bloquear qualquer coisa que me remetesse a ele.

Às vezes era muito estranho pensar que algo tão bonito, tão leve e tão suave havia terminado de modo tão trágico. Quem poderia dizer, naquelas férias quando nos conhecemos, que o nosso rumo seria tão tortuoso? Quem poderia dizer que eu bloquearia toda e qualquer recordação dele? Que seria doloroso demais para sequer pronunciar o nome em voz alta?

. Meu garoto descolado de Nebraska.

Queria poderia dizer?

Terminei de arrumar minha mala e deixei todas as coisas prontas na porta de casa. Estava tão cansada que nem sequer chequei meus e-mails ou fiz esforços para ser presente nas redes sociais. Normalmente gostava de usar minha visibilidade para dar dicas para jovens empreendedoras ou para produzir conteúdo referente a minha marca, mas os estresses do dia tinham me sugado de uma forma tão absurda que me permiti ir até a adega do meu loft em busca de uma garrafa de vinho, porque só ela poderia me acalmar.

Antes que eu pudesse selecionar um especial, no entanto, meu olhar captou uma garrafa com líquido cor âmbar que parecia ainda mais atraente do que nunca. Um Jack Daniels que ganhei no trabalho e nunca me atrevi a abrir porque não conseguiria lidar com as memórias que aquela bebida traria ao rasgar por minha garganta.

Mas ali, naquele momento, as memórias já tinham aparecido sem o menor convite e eu já estava nostálgica. Que pelo menos pudesse ficar nostálgica bêbada.

Aquele gosto me lembrava o dia que transei com pela primeira vez.

Também conhecido como o dia que perdi minha virgindade.