NEBRASKA

  • Por: Priusk
  • Categoria: Originais
  • Palavras: 580
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  • Capítulos: 3 | ver todos

Sinopse: Ao ser intimada a voltar para Nebraska para o aniversário de 90 anos da avó, Alice Cromwell recebeu a notícia de que seu primeiro e único amor está de casamento marcado. Enquanto faz as malas para voltar a cidadezinha de Ogallala, ela se vê imersa em recordações sobre o início, meio e aparente fim da sua história com Jack Wash, um barman caipira metido a badboy com o coração mais doce que ela já conheceu. Ela conquistou a carreira dos sonhos: é dona de um currículo invejável, fluente em quatro idiomas, passaporte carimbado e diretora da própria revista de moda, mas, ainda assim, descobriu da pior forma possível que nenhuma dessas coisas pode substituir o vazio deixado por seu garoto de Nebraska e ela está mais do que determinada a tê-lo de volta.
Gênero: Romance
Classificação: 12 anos
Restrição: Essa história é inspirada na música “You and I” de Lady Gaga
Beta: Brooke Davis

Capítulos:

 

PRÓLOGO
MAGAZINE
 

Intimidades
 

Especial dia dos namorados por
 

2018
Apesar da correria que enfrento todos os dias, você deve pensar que a minha vida é perfeita ou pelo menos perto disso.

Vamos para o que já sabe a meu respeito: , vinte e sete anos, reside em um apartamento de três quartos em Manhattan, viajou para vinte e dois países, fluente em quatro idiomas e diretora da própria revista de moda, a Magazine.

“Bem sucedida é apelido.”

E mesmo com esse currículo exemplar – eu nem falei ainda sobre meu estágio na Vogue ou meu intercâmbio na França – o questionamento que muitos de vocês devem se fazer e que eu já vi rondando a meu respeito em algumas colunas sociais é: como essa mulher tem tempo para relacionamentos? Em todo esse tempo, com todas essas viagens, todos esses compromissos e correria que demanda uma vida tão agitada de empreendedora, como consegue conciliar os negócios com os assuntos do coração? Ela sequer tem um coração?

Durante muito tempo, até mesmo as pessoas mais próximas a mim disseram que esse assunto era um caso perdido. É claro que verbalizei aos quatro cantos para quem quisesse – ou não – escutar a respeito dos infortúnios da vida amorosa, que eu nunca mais iria amar alguém de novo na vida. Sim, já amei. E sim, quantas vezes você lembra de já ter escutado essa mesma frase antes em vozes diferentes? Pois é. Acho que ao longo da vida todos nós tivemos aquele amor que nos deixa assim… Desiludidos e desesperançosos. Aquele frenesi intenso e avassalador que é capaz de despertar até mesmo os sentimentos que nem conhecíamos.

Neste dia tão especial, farei uma exceção. Entre desfiles, lançamentos e últimas novidades da alta costura, irei fazer o que quase nunca faço publicamente.

Irei abrir o meu coração.

Deixe-me lhes contar uma história. Uma história sórdida e tão cheia de idas e vindas que somente os habitantes de Ogallala conhecem – e não aguentam mais ouvir falar sobre. Deixe-me lhes contar sobre aquele bar sujo e maltrapilho e do inesquecível verão de 2010. Deixe-me lhes falar sobre o improvável e ao mesmo tempo tão certo romance entre uma garota nova iorquina cheia de sonhos e ambições e o jovem barman de Nebraska.

Vamos deixar os editoriais de moda e as tendências da alta costura de lado por alguns instantes e vamos mergulhar na bonita e triste história da menina irreverente e arredia que costumava se derreter ao ser chamada de bonequinha pelo caipira que passava horas coberto de suor e feno revezando seu trabalho da fazenda para o bar.

Essa história tem cheiro de cigarro, gosto de uísque, som de motores de carros antigos e motocicletas de uma gangue local. Ela é regada a rock clássico com uma pitada de humor. Talvez lágrimas, algumas minhas, muitas dele.

Venha comigo, deixe-me lhes falar sobre o meu garoto descolado de Nebraska e mostrar um lado meu que poucas pessoas conhecem.

 

 

PARTE I
A Magazine foi fundada com muito suor e muito trabalho da minha parte, mas não tenho pretensão de fingir que não fui uma mulher privilegiada que recebeu investimento dos pais e, ao invés disso, construiu tudo sozinha por “mérito”, não, não, jamais. Posso ser considerada como uma patricinha narcisista, mas pelo menos tenho um pouco de consciência, o que não me isenta de ter tido um trabalho danado para conquistar tudo que conquistei. Foi necessário foco, planejamento, força de vontade e, muitas vezes, uma racionalidade que beirava a insensibilidade, com os meus sentimentos, com os dos outros… Sei que essa insensibilidade não está correta, juro que estou melhorando nisso, mas infelizmente faz parte da construção de tudo que posso chamar de meu e, caramba, se posso me orgulhar de algo nessa vida, é de ter construído minha própria revista de moda.

Minha rotina não costuma ser fácil, são tantas pautas para aprovar, contas para administrar, funcionários para gerir, campanhas para idealizar, editoriais para produzir… Amo toda essa correria, mas a maioria dos meus dias se passa de maneira tão rápida que muitas vezes me sinto imersa em demandas, confusa se sou uma humana ou máquina. Não que eu vá reclamar, uma vida ocupada era tudo o que eu precisava para não ter tempo de sofrer e, sabia que se fosse remexer demais em minha vida, poderia acabar imersa em dramas demais. Literalmente sem tempo para isso.

Toda essa contextualização talvez desnecessária é para dizer que nossa história começa a partir de um dos dias mais corridos que já tive que passar na Magazine. Uma manhã de janeiro em 2018, mês de preparar o editorial do dia dos namorados, tanta coisa sobre casamento e meu humor já não estava dos melhores. Todos os funcionários evitavam deliberadamente sequer olhar na direção da minha mesa – não que eu fosse uma carrasca, adorava comer rosquinhas nos intervalos para o café e colocar as fofocas em dias, mas, naquele em especial, todos sabiam que para manter a boa convivência era melhor não me tirar de foco.

O que, é claro, acabou acontecendo… E foi a partir daí que as coisas começaram a mudar.

Estava concentrada em finalizar e entregar minha última pauta do dia quando fui interrompida pela irritante vibração do meu celular, que mais parecia uma britadeira em cima da mesa. Que inferno, se fosse outra operadora telefônica oferecendo promoções eu mandaria a secretária eletrônica tomar bem naquele lugar. Apressada, bufei um pouco enraivada e atendi antes mesmo de ler no visor de quem se tratava.

Meu coração dói só de lembrar dessa ligação.

— Quem me incomoda? — Perguntei azeda ainda sem tirar os olhos do documento que digitava freneticamente há horas. Precisava mesmo entregar aquela pauta e não tinha nem ideia do que era um bloqueio criativo até aquele momento. As palavras simplesmente não surgiam na minha cabeça.

— Seu pai — Uma voz grave e familiar ecoou risonha do outro lado da ligação e arfei surpresa.

— Paps, me desculpe! — Me apressei em falar, mas meu pai estava rindo despreocupadamente.
A cena pareceu surgir completa na minha mente: Bruce sorrindo e revirando os olhos da minha rabugice. Bom, ele conhece a filha que tem. E eu o conheço a ponto de saber suas exatas expressões só pelo tom de sua voz mesmo há quilômetros de distância.

— Tudo bem, . Sei que deve estar ocupada… Essa sua correria toda e etcetera e tal — Meu pai falou e eu pude perceber uma leve insinuação naquela sentença. Deixei passar a provocação em silêncio, não estava com tempo para me desculpar por minha rotina. Estava ocupada demais cumprindo prazos para ela.

— E então, o que manda? — Perguntei equilibrando meu celular entre a orelha e o ombro, voltando a digitar.

— Vou ser bem breve — Paps respondeu e eu agradeci mentalmente por isso — Sua avó vai completar noventa anos e iremos fazer uma festa para ela no próximo final de semana, sua presença não é opcional, estaremos te esperando com seu quarto arrumado e um bolo de chocolate que você tanto gosta.

Ficamos aproximadamente vinte e três segundos em silêncio depois que ele disse tudo de uma só vez. O único indício de que ainda estávamos em ligação era o som ruidoso de nossas respirações em contraste com o tec tec do meu teclado. Papai esperou pacientemente, podia jurar que o semblante dele traduzia o cinismo “eu tenho o dia todo, querida”, e foi justamente pensando nisso que eu suspirei, finalmente parando de digitar para me encostar na cadeira encarando o teto derrotada.

— Eu não vou, pai.

— Não foi um pedido, , você sabe disso. Não existe contestação. — Meu pai respondeu taxativo, embora seu timbre fosse sereno. Ele não estava brigando comigo, estava apenas me mostrando, do jeito mais amável possível, que eu não tinha nenhuma forma de driblar aquela imposição.

Fiquei em silêncio mais alguns segundos pensando no que eu poderia fazer para reivindicar meu direito de ir e vir sem soar como uma vaca egocêntrica e infelizmente não encontrei nenhuma alternativa. Eu não tinha mesmo nenhuma justificativa que fosse plausível o suficiente para me abster do nonagésimo aniversário da minha avó e, vamos ser francos, aquele poderia ser o último. Sabia que toda a família estaria presente, seria um evento de grande porte naquela cidade pequena e já podia imaginar as notas impressas nos jornais locais e o falatório quando soubessem que não comparecera no aniversário da própria avó. Não que eles fossem ficar surpresos, de mim, todos esperavam qualquer façanha. Quanto mais egoísta, imprudente, rebelde e injustificável, mais aceitável para o meu padrão. Infelizmente, a minha fama falava por mim.

— Paaps — Entoei numa voz arrastada e manhosa só por autopiedade, eu sabia que meu drama não adiantaria de nada.

— Estamos todos te esperando, raio de sol, sua avó ficará muito feliz em saber que você vem — Meu pai respondeu em advertência e eu sabia que aquela era uma batalha perdida. Já começava a hiperventilar só de pensar na possibilidade de estar em Nebraska na semana que se seguia.

— Está na hora de voltar para casa, filha — Ele disse depois do meu silêncio e eu suspirei mais uma vez.

— Eu estou em casa, pai. Nova Iorque é minha casa — Frisei como sempre fazia quando falávamos sobre aquele assunto. E como toda vez que eu dizia isso, meu pai se limitou a responder:

— Ok, ok, que seja.

— Emma está por aí? — Perguntei resignada girando a cadeira de um lado para o outro, tentando manter meu coração comportado.

— Está sim, vou passar para ela. Um beijo querida, nos vemos semana que vem — Meu pai respondeu antes de chamar minha irmã. Esperei alguns segundos até que ela estivesse na linha, tentava respirar e contar de um até dez, evitando a tremedeira que estava começando a me invadir. Era ridículo como eu conseguia me sentir assim com a simples menção de voltar para aquela cidade, ridículo como eu ainda me sentia assim mesmo depois de dois anos sem saber dele.

Sim, sou uma empreendedora de sucesso, mas ridiculamente previsível a ponto de ser mal resolvida com assuntos do coração. Quem diria? Um clichê digno de comédia romântica… Ou talvez esteja mais voltada para o melodrama.

— Ei, ! Nos vemos na sexta, então? — Emma perguntou assim que atendeu o telefone.

— Parece que sim, não tenho jeito. — Respondi amargamente. Inspirei profundamente mais uma vez e resolvi acabar com aquilo logo, sem enrolação — Ei, escuta, já que eu tô indo eu preciso saber, preciso me preparar… Ele ainda está por aí, né?

Minha irmã ficou em silêncio pelos cinco segundos mais longos da minha vida. Ela sabia o tópico da conversa no momento em que papai passou o telefone para ela comigo na linha. Emma me conhecia o suficiente para saber exatamente qual era o meu interesse naquilo. Logo eu, que por tanto tempo me recusei a sequer tocar naquele assunto.

— Está sim… — Ela respondeu evasivamente e eu prendi a respiração.

— Como ele está? — Perguntei sentindo cada uma das minhas terminações nervosas ativadas.

— Você tem certeza que quer saber disso, ?

— Tenho. Eu preciso. Se vou voltar para Ogallala eu preciso mesmo saber como ele está, tenho que me preparar. — Respondi decidida, embora com o coração acelerado.

Eu não tinha certeza porra nenhuma, ainda mais porque eu definitivamente não estava pronta para a resposta dela.

Emma inspirou profundamente antes de me responder de uma só vez.

— Ele está noivo… Seu garoto de Nebraska vai casar, .

É… Bom, o que dizer? Fodeu.

E lá vamos nós.

 

 

Capítulo 1
 

INVERNO DE 2018
Enquanto dirigia, inevitavelmente um sorriso brotou nos meus lábios com a recordação daquela noite estrelada em meados de julho, noite em que conheci . É engraçado pensar em como algumas pessoas entram em nossas vidas e num piscar de olhos mudam a nossa percepção sobre tudo, bagunçam nossa mente, mexem com nosso coração e mudam o curso da nossa vida. Eu não poderia prever que, ao entrar naquele bar, toda minha vida mudaria pelo simples fato de conhecer aquele barman.

Desliguei o som do carro ao estacionar na garagem do edifício e depois de subir preguiçosamente até o meu andar, entrei no apartamento praticamente me arrastando, tamanho o meu desânimo. Morava num confortável loft no centro de Manhattan e havia decorado tudo exatamente do jeito que sempre quis. Morava sozinha e amava aquilo com todas as minhas forças. Mas naquela noite em particular, detestei a solidão.

Deixei as chaves no balcão que ligava a sala a cozinha, larguei minha bolsa no sofá, me desfiz do casaco e dos sapatos e rumei até meu quarto colocando meu cabelo num rabo de cavalo. Acendi a luz e fiquei um tempo parada em frente ao meu armário pensando se realmente faria aquilo.

Eu não vou, pai.

Não foi um pedido, , você sabe disso. Não existe contestação.

Num bufo enraivado, abri meu guarda roupa retirando algumas peças dos cabides e jogando de qualquer jeito na cama.

Fazer as malas, então.

VERÃO DE 2010
e eu trocamos nossos números de telefone, mas não nos beijamos na primeira noite. Ele só não nos levou em casa como o perfeito acompanhante que era, porque meu avô prometeu nos buscar e fazia questão disso. Na saída da festa, se despediu de mim com um beijo no canto da minha boca. Se afastou com um sorriso torto fechado e disse que a hora que eu quisesse diversão poderia procurá-lo no Old Town Bar.

— Prazer te conhecer, bonequinha de Nova Iorque — Ele dissera.

— O prazer foi todo meu, Nebraska. — Respondi.

Lembro de ter passado o dia inteiro me perguntando se deveria ou não ir ao bar na noite seguinte, não queria parecer muito desesperada por ele. Meu celular não tinha vibrado com nenhum torpedo ou ligação e por isso me mantive firme. Mas isso não durou muito.

Na segunda-feira nos vimos de novo. Não precisei ir atrás dele, nem ele me procurou também. Não diretamente, pelo menos. É que além de barman, durante o dia também trabalhava para o meu avô na fazenda. E foi tomando café da manhã, completamente descabelada, remelenta e cheia de olheiras que eu descobri essa proeza.

, você vai comer esse bolo? — Charlie me perguntou com o olho gordo.

— Cai fora, pirralho.

— Nossa, qual a necessidade desse mau humor, hein? Estamos em Ogallala e de férias, dá pra você aquietar? — Emma criticou minha rabugice. Dei de ombros.

— É segunda-feira. Meu cérebro está programado para odiar segundas-feiras independente de estarmos nas férias ou não.

— Emma, você vai comer esse b…

— Bom dia, Srª — Uma voz grave, rouca e arrastada ecoou na cozinha e eu senti todos os pelos do meu corpo se eriçarem com o arrepio que percorreu minha nuca, e me fez engolir uma porção generosa do café quente, que desceu queimando minha garganta.

— Bom dia, ! Venha tomar café conosco, quero que conheça meus netos — Minha vó respondeu ao visitante com uma voz amável e afetuosa.

Charlie, Emma e eu nos entreolhamos cúmplices e em um milésimo de segundo tratei de limpar meus olhos e passar a mão rapidamente pelos cabelos.

— Queridos, esse é o . Ele trabalha com o avô de vocês dando uma ajuda aqui na fazenda. , esses são meus netos…

— Emma, Charlie e… complementou antes que vovó pudesse fazer isso, um sorriso divertido brincando em seus lábios no momento que pronunciou meu nome, demorando seu olhar sob o meu.

— Oh, você já os conhece? — Vovó perguntou surpresa quando se aproximou para nos cumprimentar com afinidade. Deu um aperto de mão em Charlie, bagunçou os cabelos de Emma e beijou o topo da minha cabeça.

— Eu os conheci no b…

— Na festa da igreja! — Apressei em responder, antes que denunciasse nossa pequena farrinha no bar. Mesmo que não estivéssemos bebendo, vovó não iria gostar de saber que desvirtuei meus irmãos num lugar que certamente não aprovaria.

percebeu ter dito algo inapropriado e sorriu.

— E então, você está me perseguindo? — Perguntei baixinho enquanto ela fritava alguns ovos para o recém chegado.

— Não seja tão convencida, bonequinha. Eu não sabia que você era a . , apenas .

Eu sorri deixando passar.

— Você não me ligou — Deixei escapar sem querer. Não queria que o tom tivesse sido de acusação, mas foi. sorriu e reprimiu uma risada nasalada particularmente fofa.

— E você não apareceu no bar.

— E, no entanto, você está na cozinha da minha avó.

— Na cozinha de Molly corrigiu.

— E cá estamos nós — Pontuei.

— Cá estamos nós — Ele repetiu sorrindo para mim.

— Ei, Emma, desculpe atrapalhar, mas… posso comer seu bolo? — Charlie interrompeu nosso contato visual.

Ter trabalhando na fazenda de vovó fez com que nos aproximássemos numa velocidade impressionante. Principalmente pelo fato de que era muito difícil de me concentrar em qualquer coisa que fosse vendo-o andar pra cima e para baixo com uma camiseta branca grudada de suor e feno. Enquanto tentava ler meu livro embaixo da árvore, ele passava serrando madeira. Enquanto eu tentava me concentrar no jogo de cartas com meus irmãos, me distraia olhando pela janela trabalhar na garagem. E num desses momentos em que ele se isolava na garagem, nos aproximamos.

— Minha meta de vida é namorar com alguém que me olhe do jeito que você olha para esse carro — Eu disse certa tarde enquanto observava trabalhando no motor de um carro antigo.

— No dia que isso acontecer, você saberá que encontrou a pessoa certa. Essa belezurinha aqui é um Mustang de 1969 — me respondeu erguendo a cabeça com um sorriso, limpando um filete de suor que escorria da testa.

— Isso supostamente deveria significar alguma coisa para mim? — Perguntei com as sobrancelhas arqueadas em deboche, me aproximando.

— Você entende de moda não é mesmo? — perguntou sorrindo, a língua presa entre os dentes. Afirmei com a cabeça, me sentando no banco ao lado do carro.

— Bom, imagine que esse carro é tipo um Chanel edição limitada — deu de ombros e voltou a mexer no motor enquanto eu ria.

— Então você é fissurado em carros e em rock n’ roll. — Comentei analisando os braços largos de enquanto trabalhava no motor do carro.

— E a senhorita em moda e… — ergueu a cabeça novamente, soprando para cima retirando uma mecha de cabelo do olho. — E em que mais? Me fale sobre você.

— Cosmopolitans — Murmurei baixinho e reprimi uma risada quando me encarou de cenho franzido. — É um drink.

— Eu sei o que é cosmopolitan, bonequinha. Sou um barman, posso ser um caipira, mas não quer dizer que sou tão desinformado assim. — ironizou e eu me permiti rir.

— Séries de TV — Respondi dando de ombros — Sou fissurada em séries de TV. Desperate Housewives, Grey’s Anatomy, Friends e principalmente Sex and the City.

— Nossa, eu não faço a menor ideia do que você está falando — disse e rimos juntos. — E bandas? O que você curte ouvir?

— Não tenho um gênero específico, ouço de tudo um pouco. Basta a música ser melodiosa e eu tô escutando. — E você?

— Várias. Elvis Presley, Jimi Hendrix, Led Zeppelin… — Os olhos de brilhavam e eu me controlei para não rir. Não de deboche, mas porque realmente achei fofo. Ele percebeu — O que foi?

— Nada, se eu disser que só conheço Elvis você vai me achar patricinha demais, não é?

— Provavelmente — rolou os olhos e riu — Mas isso também não tem muita importância agora.

Franzi o cenho e joguei a cabeça para o lado, sem entender.

— O que quis dizer com isso?

— Bom, é um pouco óbvio, não é? Isso aqui — sinalizou com o dedo indicador apontando dele para mim — Não pode acontecer.

— Você está me dando um fora? — Tentei não colocar tanto ultraje na voz, mas foi em vão.

— Nem se eu quisesse. Mas você é neta do meu patrão, não sei muito bem se me sentiria confortável com isso. Ou se seus avós iriam achar interessante. — ponderou.

— Para o inferno o que meus avós acham. Eu te conheci antes de saber que você trabalhava aqui. — Respondi taxativa e sorriu. Na tentativa de tirar o cabelo do rosto mais uma vez, passou o dorso da mão na bochecha deixando um rastro de suor e graxa no local. Ele parecia mais sujo do que nunca e, no entanto, mais atraente do que em qualquer outro momento.

— Falou bonito, bonequinha.

— Você vai me levar para sair, Nebraska — Eu disse imperativa e ergueu as sobrancelhas com ar de riso, embora aparentemente satisfeito com minha atitude.

— Vou? — Ele desafiou.

— Vai sim — Balancei a cabeça afirmativamente.

— E para onde eu vou te levar?

— Para beber — Eu disse batendo nas minhas pernas antes de me levantar, um sorriso malicioso brincando em meus lábios — Vou provar a você que não sou a bonequinha que pensa que sou.

*
— Quem virar primeiro vence, ok? — Billy explicou enquanto apontava para os copos de shot de tequila na nossa frente.

— Ok! — Dissemos em uníssono.

— Vocês estão prontos? — Nathan perguntou.

— Nasci pronta! — Respondi animadamente.

— Não exagera muito, bonequinha. me alertou e eu sorri travessa, mostrando-lhe a língua.

— Não enche o saco, Nebraska.

— Um, dois….

Assim que Bill terminou de fazer a contagem, revirei num só gole todo o shot de tequila. Lambi um pouco do sal no dorso da minha mão e suguei o sumo ácido do limão fazendo uma careta ao sentir o álcool descer rasgando por minha garganta.

— E a vencedora é… ! — Bill anunciou em meio as gargalhadas e protestos dos outros. Com um sorriso de rasgar o rosto, me virei de frente para e soltei um berro de ferir os tímpanos. Ele fechou os olhos numa careta e riu da minha atitude, segurando meus pulsos.

— QUEM É A BONEQUINHA AGORA, HEIN? — Zombei, já um pouco alterada. Era o quarto shot seguido que eu virava primeiro do que todo mundo.

— Tudo bem, tudo bem, , você venceu! — me respondeu risonho segurando meus pulsos. Ele separou meus braços e os colocou em volta do seu próprio pescoço me trazendo para perto.

Deixei que me afastasse dos outros que agora aplaudiam e assobiavam em meu apoio e fingi uma reverência enquanto era guiada para a pista de dança. A banda cover qual ele havia me levado para assistir tocava uma música particularmente animada de Elvis Presley e antes que eu pudesse perceber, estava me movimentando com , fazendo passinhos engraçados e desengonçados pela quantidade de álcool que já tínhamos ingerido.

— Você está bem? — perguntou depois de me fazer dar um rodopio particularmente longo que nos levou as gargalhadas e também quase me levou ao chão.

— Estou ótima! — Respondi sincera, sem nem me dar ao trabalho de arrumar meu cabelo — Não me divirto assim há tanto tempo…

— Aposto como você pensou que suas férias em Ogallala seriam tediosas. Não é nenhuma Nova Iorque, mas sabemos como nos divertir aqui também — respondeu colocando uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha, fazendo um carinho gostoso com sua mão grossa na minha bochecha.

— Que bom que me trouxe aqui. Adorei conhecer seus amigos, são todos divertidos — Respondi movimentando meus ombros no ritmo da música enquanto voltava a me segurar confortavelmente em volta do pescoço de . Ele havia me levado para um bar diferente do qual trabalhava, o Rhoades que era de longe muito mais underground do que o Old Town Bar. Menos adolescentes, mais adultos e muita música.

Diferente de qualquer encontro convencional, me levou para um bar de gangue de motociclistas e não para um restaurante romântico. Eu queria beber, mas ao invés de me levar para um bistrô com queijos e vinhos, me levou para onde a cerveja era barata e shots de uísque e tequila estavam na promoção. Ao invés de sairmos sozinhos para nos conhecermos melhor, na metade do nosso encontro ele chamou os três amigos queridos, Nathan, Bill e Rose.

Eu não me importei. Em diversos aspectos aquele tinha sido o melhor primeiro encontro da minha vida. Era muito fácil ficar perto de . Muito fácil manter uma conversa com ele. Enquanto os amigos não estavam por lá, antes da banda começar a tocar, sentamos numa das mesas reservadas e demos boas risadas observando as pessoas do local. Do contrário do que imaginei, eram gentis, receptivas e pareciam achar hilário que eu fosse a única do local com salto alto e não coturnos.

Conversamos sobre nossas vidas. Expliquei minha trajetória no jornalismo e na moda, me explicou sobre sua vida em Ogallala. Descobri que sua família era muito humilde: ele nunca havia conhecido o pai que tinha abandonado a mãe grávida. Constatei que a relação dele com a mãe era linda só por observar o brilho que ele tinha nos olhos ao falar dela. Conversamos sobre músicas, filmes, e rimos ao constatar como parecíamos extremos opostos em quase tudo.

Quando saímos da cerveja para os destilados, confessou que preferia uísque em contradição a minha tequila. Bebemos shots diferentes e brindamos a isso. E ali, nos braços de , dançando em passos esquisitos e embriagada de tequila, eu estava me divertindo como nunca. Me aproximei um pouco mais, deixando meu rosto colado com a curva do pescoço dele, sorrindo ao constatar como havia se arrepiado ao sentir meu nariz roçar em sua pele. Inspirei profundamente sentindo-me inebriada com seu perfume almiscarado e depositei um beijo molhado no pescoço dele e alarguei meu sorriso ao senti-lo ronronar baixinho.

— Você é tão cheiroso. — Eu disse com a voz manhosa, me abraçando mais a ele.

— Diga isso quando eu estiver na garagem do seu avô e talvez você conquiste meu coração — brincou e eu não pude evitar uma risada. Me afastei o suficiente para olhar nos olhos dele e senti meu próprio coração acelerar ao notar a expressão doce e serena em seu rosto ao me contemplar.

— Homens suados e fedidos a graxa têm lá seu charme — Eu disse num tom sapeca mordendo meu lábio inferior e me deliciei ao ver gargalhar jogando a cabeça para trás. Ele voltou a me encarar e o riso foi cessando aos poucos. Ele acariciou meu rosto novamente, um sorriso singelo brincando em seus lábios.

— Você é muito linda, . — disse com aquela voz rouca e sedosa, arrepiando cada fio de cabelo meu.

Instintivamente passei a língua por meus lábios, umedecendo-os, com a plena consciência de que estava sendo milimetricamente observada por , que encarava minha boca com fascínio. Entrelacei meus dedos na nuca dele, brincando com seu cabelo rebelde, sorrindo internamente ao vê-lo se aproximar de mim lentamente, segurando meu rosto com uma precisão que me derreteu por completo. entrelaçou seus dedos na minha nuca e me trouxe para perto, finalmente acabando com a distância entre nossas bocas que estavam sedentas por um beijo.

A boca dele era macia, úmida e quente. Quando nossos lábios se encontraram, senti o gosto de uísque contrastar com a tequila e minhas entranhas fervilharam de um jeito bom. me abraçava de um jeito que nunca tinha sido abraçada antes. Seus braços largos me prendiam num aperto quente e gostoso. Uma de suas mãos estava repousada na base das minhas costas, unindo nossos corpos numa fricção que me causou arrepios involuntários. Sua outra mão continuava na minha nuca, puxando meus cabelos com uma força mínima, mas o suficiente para pesar minha calcinha.

Eu estava vergonhosamente excitada. Como nunca havia me sentindo na vida. Por um cara que eu tinha conhecido há menos de uma semana. Por um barman de Ogallala, por um caipira qualquer. Um caipira do beijo bom. Um caipira do melhor beijo da minha vida.

INVERNO DE 2018
Era vergonhoso constatar como depois de oito anos eu ainda conseguia pensar sobre aquele beijo e sentir todas as sensações exatamente como naquela noite. O beijo de tinha um sabor de uísque tão viciante que foi difícil me manter longe dos lábios dele por muito tempo. Nos beijamos a noite inteira, lembro de ter tido uma crise de risos no banheiro de casa ao checar a situação da minha boca vermelha, inchada e com marcas das mordidas dele.

Apesar de ter sido incrivelmente bom ficar com , eu adotei uma política de certa distância nos dias seguintes. Pensando nisso agora parece engraçado, porque não adiantou de absolutamente nada. Ele estava na casa dos meus avós durante o dia e trabalhava no bar que meus irmãos insistiam em ir durante a noite. A cidade era pequena então vez ou outra nos esbarrávamos na rua e eu me mantinha com cara de paisagem propositalmente.

Eu estava de férias, não queria nada sério. Minha estadia em Ogallala tinha prazo de validade e hoje eu compreendo que a essência do meu distanciamento se dava por puro medo. me mandava alguns torpedos, tentava alguma comunicação quando ia trabalhar na fazenda, mas despistei bancando a desinteressada. Embora cheia de atitude nos nossos primeiros encontros, fiz vários joguinhos e banquei a difícil depois de conseguir o que eu queria. O propósito disso? Não sei. Vai ver eu era mesmo a menina mimada que ele me julgava ser. Eu era mesmo uma bonequinha boba.

era um rapaz bondoso e extremamente paciente. Paciente para aguentar meus dramas, minhas birras e meus joguinhos bobos. Enquanto eu me fingia de desinteressada, ele estava ali me oferecendo sorrisos no café da manhã, preparando cavalos para me fazer montar e me mandando torpedos me chamando para sair ou fazer qualquer outra coisa. Mas eu não ligava muito, ou, pelo menos, fingia não ligar. Quando me era conveniente, entrava na garagem, batia papo com ele por alguns minutos, dava uns beijos e depois saia sorrateira como se nada tivesse acontecido.

Remexi meu guarda roupa tomada por uma sensação esquisita no meu estômago. Um nó engolfava minha garganta e eu sentia um gosto estranho na boca. Um gosto amargo. Separei sem empolgação alguma um vestido qualquer para o aniversário da minha avó e mais algumas outras mudas de roupa para a viagem que eu torcia que fosse curta o suficiente para nem ao menos dar tempo de me encontrar com ele.

Ei, escuta, já que eu tô indo eu preciso saber, preciso me preparar… Ele ainda está por aí, né?

Está sim…

Suspirei, resignando-me em ter que voltar para Ogallala depois de dois anos sem pisar os pés naquela cidade.

Enquanto separava as mudas de roupa e arrumava as malas para encarar meu passado, aos poucos, percebia meus esforços para esquecer sendo arruinados pelas memórias involuntárias de tudo que eu havia jurado superar. Oito anos haviam se passado desde que nos conhecemos naquele verão, sendo que seis desses anos foram marcados por idas e vindas das minhas férias para Ogallala e dois anos de completo silêncio e suposto fim.

Ali, arrumando as malas, encarando os fantasmas do meu passado, percebi que não estava pronta para dar um ponto final naquela história. Eu ainda o amava, independentemente de tudo que havia acontecido para nos distanciar. E cada memória era um golpe desferido contra meu coração que parecia nunca se recuperar da perda. <br

Das perdas.

Vasculhando o guarda roupa, encontrei uma peça que fez minha pulsação acelerar consideravelmente. Uma jaqueta de couro com o brasão bordado em vermelho com a escritura “The Bloods”. Por quanto tempo aquela jaqueta tinha ficado esquecida no meio daquele monte de roupa? Tentei vesti-la e quase ri em pensar como meu corpo tinha mudado e agora ela não me cabia mais tão confortavelmente. A lembrança do dia que ela veio parar em minhas mãos ainda era nítida em minha mente.