O que (não) me resta

Sinopse: É a última vez, as palavras se repetiram de novo e de novo, como ecos em um espaço vazio, ainda que eu tentasse ignorá-las uma vez após a outra. Mas não conseguia. Porque os ecos eram a verdade, e eu era o espaço vazio. Eu jamais a teria.
Essa seria a última vez.
Gênero: Romance, Drama
Classificação: 12
Restrição: Conteúdo sexual leve e heterossexualidade
Beta: Brooke Davis

O que (não) me resta
É a última vez, a voz dela se repetiu em minha mente. Eu me esforcei para ignorá-la, e voltei a beijar a boca de , sentindo as pontas dos dedos dela arranhando minhas costas, dedilhando meus músculos como teclas de um piano. Deixei que ela me abraçasse de novo e a apertei com mais força contra mim, meus dedos se estreitando ao redor de sua cintura, seus pelos se arrepiando contra o meu toque.

Fechei os olhos com força.

Sua respiração bateu contra meu pescoço, acelerada e entrecortada e arrastei meus lábios por sua pele, sentindo sua textura, sentindo seu gosto, querendo mantê-la perto de mim para sempre.

Eu a queria para sempre.

Suas pernas se fecharam ao redor da minha cintura, seu quadril forçou-se ainda mais contra o meu. Sua boca procurou a minha e o que restava da minha sanidade se desvaneceu como fumaça.

É a última vez, as palavras se repetiram de novo e de novo, como ecos em um espaço vazio, ainda que eu tentasse ignorá-las uma vez após a outra. Mas não conseguia. Porque os ecos eram a verdade, e eu era o espaço vazio.

Eu jamais a teria.

Essa seria a última vez.

+++
Algumas horas antes…

— Olá! — gritou em meu ouvido, quase me fazendo sair rolando pela escada.

Divertida com o susto que me deu, ela passou seus braços pelos meus ombros e me abraçou, gargalhando junto de nossos amigos.

— Quer me matar? — Eu virei minha cabeça sobre o ombro para poder vê-la parcialmente. — É isso que está tentando fazer?

— Vamos, não seja um pé no saco, . — Ela se esgueirou para sentar-se ao meu lado nos degraus e estralou um beijo em minha bochecha.

Na bochecha. Ela jamais me beijava na boca na presença de outras pessoas.

Retribui um sorriso para ela que na verdade não era sincero, mas seus olhos já não estavam mais em mim para perceber isso.

— Mika e Hiro — Ela virou-se para os outros dois presentes. —, como estão vocês?

O garoto e a garota deram de ombros, mas uma longa conversa começou a se desenrolar entre eles. Eu não consegui prestar atenção.

O casal era mais amigo dela do que meu, de forma que eu não fazia parte do diálogo como um todo. Contudo, eu não me incomodava com a falta de participação, era fácil para mim me desligar do ambiente. Bastava olhar para por um segundo que fosse e estava feito.

Exatamente como acontecia agora.

Era uma tarde comum de sábado com o clima clássico de início de outono, nem muito frio, nem muito quente. Sentados na escada que levava ao acesso principal da casa de , um edifício de dois andares e fachada de tijolos à vista, os raios de sol batiam amenos contra nós. Fazia apenas alguns dias que eu não a via, mas a luz a deixava mais especial do que nunca. Deixava a pele dela radiante e os cabelos escuros brilhantes, cheios de vida. Ela parecia mais cheia de vida.

O vento que parecia aos poucos se intensificar, carregava consigo sempre um punhado de folhas coloridas, tons terrosos e opacos, que se acumulavam na entrada da casa dela, numa bagunça quase organizada que podia muito bem ter sido colocada ali propositalmente.

Eu gostaria de poder fotografá-la agora. combinava com o outono, e estava tão linda rindo que eu poderia eternizar aquele momento em uma imagem.

Mas ela me abominaria se eu fizesse isso na frente de outras pessoas.

? — Ela estralou os dedos na frente do meu rosto. Aturdido, eu precisei balançar a cabeça algumas vezes para me recompor. — Planeta Terra chamando !

— O que foi?

— Eu disse para nos levantarmos. — Ela me explicou. — Vamos andando até a lanchonete.

— É agora que você vai contar essa tal novidade? — Perguntei provocativo. — Ou vai continuar mais com o suspense?

— Vou continuar com o suspense. — Ela me respondeu com uma careta e estendeu a mão para me ajudar a levantar. — Mas vai ser por pouco tempo, pode acreditar. Eu não sou assim tão cruel.

Ela abriu um sorriso para mim, um sorriso que chegava até seus olhos os transformando em duas meias-luas. Não pude recusar sua mão estendida.

De pé, eu desejei que pudéssemos manter o toque sutil, que pudéssemos entrelaçar os dedos e continuar caminhando. Mas ela afastou seu corpo do meu antes mesmo de eu completar o pensamento.

Ela também não andava de mãos dadas comigo na presença de outras pessoas.

— Vamos. — Ela voltou a dizer, me olhando de cima a baixo, percebendo o resquício de uma leve mágoa. — Eu estou doida para contar a vocês.

Eu a segui sem pestanejar, com Hiro e Mika logo atrás de nós.

Algumas horas antes havia me ligado, tão animada que senti vontade de rir sem motivo pelo resto do dia apenas com a ideia de vê-la feliz. Ela havia dito que tinha grandes novidades, mas não podia dizer nada por telefone. Precisava ser pessoalmente.

Eu não negaria um pedido de encontrá-la, fosse como ou quando fosse, eu não conseguiria. Nunca neguei nada a . Não seria agora que eu o faria.

Às vezes eu achava que ela sabia disso. Que poderia pedir qualquer coisa para mim que eu daria um jeito de conseguir, de fazer para ela. E às vezes eu também achava que deveria me importar com isso, me incomodar com o fato e talvez colocar algum limite para não me sentir usado por ela tantas e tantas vezes, como normalmente ela fazia. Mas a verdade era que eu gostava disso, de saber que ela precisava de mim para qualquer coisa, por menor e mais insignificante que fosse. Ao menos eu estaria com ela.

Era isso o que eu queria.

Por pior que às vezes ela fizesse eu me sentir, como recusar um contato meu simplesmente por existirem outras pessoas conosco. Exatamente como o que ela havia feito pouco antes.

Não sei muito bem quanto tempo levou para chegarmos à lanchonete, eu estava absorto demais para prestar atenção nisso ou no que Mika contava a . Mas foi entre uma frase e outra trocada entre as duas que chegamos ao local escolhido.

Eu conhecia aquele lugar desde que me entendia por gente. Desde que e eu nos tornamos amigos, ainda na infância, quando mal conseguíamos montar frases completas que fizessem sentido.

Ela escolheu a mesa de sempre, do lado da janela, para observar o movimento da rua. Eu me sentei ao seu lado, dispensando o cardápio, assim como , pois nossos pedidos já eram decorados. Tradição.

Mais uma coisa dentre tantas que com o tempo se tornaram hábitos nossos. Costumes mútuos.
Eu a observei novamente, com atenção. Seus olhos, naturalmente puxados graças a sua descendência oriental, assim como a minha, pareciam ainda menores que o costume. Brilhavam sem motivo como se ela estivesse contendo o tempo todo uma felicidade que não cabia dentro de si. Seus dedos inquietos dedilhavam a mesa como se o piano que ela tanto amava estivesse ali e ela lesse uma de suas partituras favoritas.

Eu queria poder beijá-la agora mais do que nunca.

— E então? — Mika se debruçou sobre a mesa, de frente para , a olhando com expectativa. — Por favor, desembuche logo o que você tanto está guardando!

— Mika vai surtar se você não contar logo. — Garantiu Hiro, um pouco sem graça ao lado de sua namorada.

— Eu também estou ansioso para saber do que se trata. — Me virei para ela, vendo-a tomar outro gole do seu milk-shake de morango.

Ela abriu um amplo sorriso que contagiou a todos nós, e então respirou fundo.

— Bem — Ela começou. —, como vocês sabem eu fiz vários testes durante o verão para várias universidades de música.

— Você passou na Juilliard? — Mika arregalou os olhos o máximo que conseguiu, praticamente pulando sobre a mesa, em cima da . — Não me diga que você conseguiu isso?!

— Não! — tratou de cortá-la, parecia um pouco decepcionada, ainda que mantivesse o sorriso no rosto. — Não passei na Juilliard. Agora me deixe falar, por favor?

Nós apenas assentimos, deixando que o silêncio servisse como um incentivo para ela contar o que fosse de uma vez.

— Como eu ia dizendo, durante o último verão eu fiz várias audições e várias provas para muitas escolas de música. — Repetiu. — Infelizmente eu não passei para a The Juilliard School. Vocês sabem que lá era meu sonho, mas talvez eu não tenha estudado o suficiente. Não sei.

— Não cobre tanto de si mesma. — Eu falei, repetindo algo que eu já havia dito para ela pelo menos um milhão de vezes nos anos anteriores, quando a via com câimbra nos dedos de tanto treinar no fim do dia, a cabeça doendo de forçar a vista para tocar partituras e mais partituras que acabavam espalhadas por todo o chão do seu quarto, graças a frustração causada pela cobrança infinita da família, que não aceitava ela estar em nenhum outro, senão o primeiro lugar.

Eu sabia, melhor que ninguém, o quanto ela tinha se esforçado. Dizer que ela não havia feito suficiente não era justo.

— Tudo bem, . — Ela estendeu a mão em minha direção e por um instante eu achei que ela me tocaria, mas interrompeu o gesto no meio do caminho, se detendo na batata frita a minha frente, roubando uma para ela. — Na verdade eu não estou chateada, porque no fim, consegui o que queria. Eu passei na Berklee College of Music, em Boston, e também na Royal Academy of Music, em Londres. Consegui uma bolsa de estudos integral até o fim do curso.

Por um momento eu fiquei sem palavras, apenas a encarando, completamente embasbacado. Eu jamais havia duvidado do talento de . Mas saber que ela ainda continuaria estudando a poucas horas de onde morávamos era um alívio tão grande que eu mal conseguia guardar somente para mim.

Eu a puxei para perto, abraçando-a com força sem sequer me preocupar com a presença de Hiro e Mika bem a nossa frente nos encarando, ainda que soubesse que provavelmente reclamaria sobre esse contato repentino mais tarde.

— Quando recebeu a notícia? Quando você começa as aulas?

As perguntas foram despejadas pela boca de Mika. Eu me afastei de , um pouco a contragosto, mas sorria para ela com orgulho.

— Há alguns dias. — Ela disse, mexendo em seus longos cabelos lisos, desviando sua atenção de mim, disfarçando suas bochechas levemente coradas. — E na verdade eu já estou atrasada. As aulas começaram logo após o fim do verão, mas a reitoria me isentou das faltas, porque a bolsa demorou a sair. Eu passei os últimos dias empacotando minhas coisas e arrumando as malas. Eu vou embora amanhã logo após o almoço, e pensei que podíamos aproveitar esse último dia juntos.

Houve um curto espaço de tempo em que todos nós comemorávamos as boas notícias, mas eu não me contive em ficar calado por muito tempo.

— Pelo menos não vai ser uma longa viagem. — Falei. — Afinal, Boston é aqui do lado, apenas algumas horas. Terá tempo de sobra para terminar de arrumar suas coisas, e o que faltar levar, eu posso te ajudar depois. Pego meu carro e te encontro lá em algum fim de semana qualquer. Quando você quiser.

Talvez eu tenha dito algo errado, ou deixado passar algum detalhe importante. Não entendi muito bem, mas enquanto eu ia falando, a animação até então constante de foi desaparecendo até ser substituída completamente por um desconforto palpável, onde ela trocava olhares entre Mika, Hiro e eu, sem saber para onde exatamente olhar.

— Talvez eu não tenha sido clara o suficiente. — Ela pigarreou e afastou o copo pela metade para longe de si.

Eu não precisei observá-la por muito tempo para entender que havia algo errado.

— O que quer dizer? — Foi Hiro quem perguntou, e perdeu um instante respirando fundo e arrumando a postura na cadeira.

— Eu disse que eu passei na Berklee College of Music. — Sua voz transbordava um tipo de calma ensaiada, como aquela que ela usava todas as vezes antes de fazer algum recital. — Mas não disse que vou para lá.

Não demorou mais que alguns segundos para nós entendermos onde ela queria chegar.

Hiro e Mika comemoraram a escolha. Eu, entretanto, não consegui compartilhar dessa felicidade.

— Mas… — Eu precisei limpar a garganta para impedir minha voz de falar. — Boston é mais perto, Boston é… praticamente aqui.

— Eu sei. — Ela me respondeu como se falasse com uma criança de cinco anos e temesse que eu não compreendesse suas palavras. — Mas eu escolhi ir para Londres. É lá que ganhei a bolsa.
Eu não consegui aceitar aquela resposta simplesmente, não depois de tudo o que ela me prometera ao passar dos anos, não depois de tudo o que eu fiz, tudo pelo que eu abri mão para estar com ela.

— Ella — Imperceptivelmente eu usei seu apelido de infância, o apelido que teoricamente era proibido de ser usado na frente das pessoas. —, está brincando? Londres fica na Europa, do outro lado do Atlântico!

— Fico feliz que você conheça a geografia. — Ela tentou brincar, mas não foi bem sucedida com isso, eu não consegui mudar minha expressão tomada pelo quase desespero. — Mas sim, . Eu vou para a Europa.

Senti como se o chão sob meus pés tivesse aberto de súbito e eu caísse por entre um penhasco sem fim.

Eu não conseguia mais ficar ali. Olhá-la agora doía, machucava.

Era muito para eu absorver.

Me levantei em um único movimento. Hiro e Mika me encaravam sem entender minha atitude. Eu não ligava para o que eles estavam pensando.

, sente-se. — pediu. — Por favor, vamos conversar. !

Mas eu já estava longe, distante demais para ouvir sua voz chamar meu nome de novo.

Eu refazia todo o caminho até minha casa, impondo uma distância entre nós que na verdade eu não desejava que existisse. Contudo, isso não importava. estava indo embora.

Era ela que estava me deixando para trás.

+++
Sentado em minha cama, eu encarava meu mural de fotos na parede oposta. Era difícil fazer isso agora, uma vez que estava presente em boa parte delas. Na maioria, para ser sincero. Ela era uma constante em minha vida, em todos os treze anos que passamos juntos, desde que eu me entendia por gente. Além da minha família, era a única que esteve sempre presente em todos os momentos que importaram.

Mas nada dura para sempre, diria meu pai. Isso também estava prestes a acabar.

A contragosto eu me levantei e parei de pé, de frente para todas aquelas imagens. Eu gostava demais de todas elas. Mas gostava ainda mais de poder dizer aos outros que fora eu quem as tinha tirado durante o passar dos anos.

gostava delas tanto quanto eu. Dizia que era quase uma linha do tempo da evolução do meu talento. Minha maneira de ver o mundo perfeito.

Eu não me lembrava quando de fato comecei a tirar minhas próprias fotografias, ou quando isso deixou de ser um hobbie para se tornar a carreira que eu queria seguir, apenas me lembrava de segurar uma câmera nas mãos e de repente entender que, se eu quisesse, podia eternizar um momento com apenas um apertar de um botão.

Contudo, pela primeira vez desde que eu tinha feito aquele mural, desejei que ele não representasse tanto para mim. Queria poder arrancá-lo, foto por foto, até não sobrar nada, porque talvez estivesse certa. As fotos eram sim minha maneira de ver um mundo perfeito. Porém, ela era esse mundo. Formava a maior parte dele. E infelizmente agora, já não importava mais.

Não sei quanto tempo permaneci olhando para cada uma daquelas imagens, contudo, em algum momento, três batidas em minha porta tornaram-se audíveis e eu precisei me desligar de meu devaneio.

Eu não queria conversar, preferia ficar sozinho e em silêncio por mais algum tempo. Mas as coisas não funcionavam assim na minha casa. Outras batidas, essas um pouco mais fortes que as anteriores, então a maçaneta girou e a porta foi aberta.

Quando o rosto dela entrou em meu campo de visão, fiquei preso entre a vontade de abraçá-la ou fechar a porta em sua cara.

, sua mãe deixou que eu subisse. — me disse, a voz não mais alta que um sussurro. — Falou também que você parecia um pouco… atordoado.

Eu apenas a encarei de cima a baixo. Claro que minha mãe a deixaria subir sem me perguntar antes. Eu nunca tinha impedido de entrar em minha casa. Por que agora seria diferente?, ela deve ter se perguntado.

Segui de volta para minha cama e me sentei ali, prendendo minha atenção o máximo que podia nas fotografias coladas a minha frente. Queria poder ser capaz de ignorar a presença de .
Entretanto, ela entendeu meu gesto como um convite e sentou-se ao meu lado na cama, perto o suficiente para que seu braço se esbarrasse no meu e ela tivesse a chance de deitar a cabeça no meu ombro se quisesse, como costumava fazer quando estávamos a sós.

— Lembra-se daquela foto? — Ela apontou para o canto superior esquerdo. Quis conter um sorriso, mas não consegui, e os cantos da minha boca se ergueram por vontade própria. Era nossa primeira foto juntos, o dia em que nos conhecemos. — Quantos anos nós tínhamos? — Ela continuou o monólogo. — Cinco? Seis? Eu me lembro quase como se fosse ontem.

— Eu também. — Precisei admitir.

— Você se lembra por que ríamos tanto?

— Tínhamos caído no chão. — Respondi. — A gente se atrapalhou enquanto corria e caímos um sobre o outro, minha mãe tirou a foto de nós dois enquanto ainda nos recuperávamos, e, depois, tirei aquela sua sozinha, perto da árvore. Você estava feliz.

— Sim. — sorriu para o mural. Eu podia sentir muito bem a nostalgia transbordando dela. — Mas eu me lembro desse dia por outro motivo também.

— Qual? — Eu me esforcei para perguntar.

— Foi a primeira vez que você me chamou de Ella. — Sua mão procurou a minha, seus dedos se entrelaçaram nos meus num calor familiar que de repente machucava sentir. — Lembra como aconteceu?

Eu me lembrava sim, com uma saudade crescente, o que tinha acontecido. Para duas crianças, parecia um assunto muito sério. Hoje, porém, era completamente bobo. E ainda assim eu não o deixava ser esquecido. Aparentemente, ela também não.

— Você perguntou meu nome, e quando eu disse, você não concordou.

— Não. — Eu respondi, recordava-me muito bem desse dia. Ella, eu havia dito para . Você devia se chamar Ella. — Ainda acho que combina mais com você que seu próprio nome.

— Nunca mais parou de me chamar assim desde então.

— Isso até você me proibir. — O sorriso dela se desmanchou e por um curto espaço de tempo, manteve o silêncio existente no quarto.

Não me chame assim perto dos outros, ela me repreendera certo dia, quando estávamos entre os doze ou treze anos, saindo da escola, vindo para casa. Quero que esse apelido fique apenas entre a gente. É algo infantil demais que os outros não vão entender, vão rir da nossa cara.

Eu não tinha entendido o motivo de imediato, mas havia respeitado seu pedido. Sempre respeitava o que ela pedia.

Há muito tempo ela vinha controlando tudo o que acontecia entre a gente. Como acontecia. Mesmo quando tentei um dia, anos mais tarde, abraçá-la em público e roubar um beijo no canto da sua boca, havia me afastado e resmungado em meu ouvido “eles vão pensar que somos um casal, ! Não faça isso”. A mensagem era clara: o que acontecia entre a gente, ficava somente entre a gente.

Ela tinha me afastado dela, e eu, respeitado seu espaço. O que tem de errado eles pensarem isso?, eu me lembro de ter perguntado em seguida. Mas então ela sorriu a contragosto e simplesmente respondeu “só não faça de novo”, e saiu andando para longe de mim.

Outra vez, ainda que eu estivesse magoado, havia respeitado sua escolha.

— Mas, além disso, fizemos uma promessa naquele dia, lembra? — Ela virou seu rosto na minha direção, tentando mudar o rumo da conversa, e meus pensamentos, até então claros como cristal, começaram a embaçar. — Um juramento de mindinho.

Eu lembrava. Como poderia me esquecer?

— Lembra, ? — Ela insistiu, nada satisfeita com meu silêncio. — “Quero você para sempre ao meu lado. Vamos ser melhores amigos”, você disse. Eu concordei com você, contanto que jurasse o mesmo. Precisa saber que isso não vai mudar agora, não importa quão grande seja a distância entre nós dois.

Eu fechei os olhos e meus lábios pressionaram-se um contra o outro, numa linha fina, a raiva preenchendo meus sentidos.

— Não diga essas palavras para mim. — Afastei-me de . — Nunca mais.

— Mas,

— Para você talvez isso possa soar ok — Eu a interrompi. Frustrado e magoado demais para deixar que ela continuasse com sua história de amizade. —, mas para mim elas pesam como um saco com mil pedras nas costas. Eu não posso suportar!

— Somos amigos! — Ela disse ofendida, se colocando de pé. — Como pode dizer que isso pesa para você?

— Porque você sabe que somos muito mais que isso.

— Claro que não somos, , desde quando…

— Desde quando amigos se beijam? — Eu novamente a impedi de falar, perdendo todo o autocontrole que eu tanto presava. — Desde quando amigos transam?

O silêncio recaiu sobre eu e ela. se sentou na cama, como se aquilo a tivesse atingido de verdade, e eu levantei, andei para o lado oposto, as mãos em minha cabeça, puxando meus cabelos, respirando fundo para não gritar.

— Está fazendo isso de propósito, não está, Ella? Está me punindo por ter sido sincero com você. Quando disse tudo o que eu sentia, como eu me sentia.

— Não seja bobo…

— Bobo? — Eu acabei por soltar um riso seco, completamente decepcionado. — Ella, eu desisti de tanta coisa por você. Fiz tudo o que você queria! Cada coisa que me pediu, eu nunca disse não. Mesmo escolher estudar aqui em Nova York para ficarmos juntos, eu dei um jeito, eu consegui. E então, na primeira oportunidade que teve, você escolheu partir.

Ela levantou-se num impulso repentino e parou a poucos centímetros de mim.

— Eu jamais pedi para que você desistisse de nada por mim!

— Como pode dizer isso? — Minha voz subiu algumas oitavas. — Como pode afirmar uma coisa dessas? E todos aqueles dias que você vinha chorando me procurar dizendo que não tinha mais ninguém para conversar, que só podia confiar em mim? E todas aquelas vezes que você me ligava porque simplesmente queria ouvir minha voz, dizendo que eu era parte da essência que não te fazia desistir? As coisas que você dizia, que ainda diz quando está só comigo. Os planos que tínhamos feito juntos para a universidade. Todas aquelas conversas que tivemos ao passar dos anos, as nossas descobertas um com o outro. Nada disso foi um pedido? Vai dizer que em nenhuma dessas vezes você pediu, direta ou indiretamente, que eu permanecesse com você independente do que acontecesse?

Eu via seu tórax subir e descer rápido demais, mas em nenhum momento ela fez menção de dizer alguma coisa.

— Me responda, Ella! Pelo amor de Deus, me responda! — Eu a segurei pelos ombros, minha voz se quebrando junto com meu coração.

— Não, . — Ela respondeu, a voz tremendo enquanto os olhos se enchiam de lágrimas. — Eu nunca pedi nada disso. Nunca quis que você me colocasse em primeiro lugar. Você fez isso de livre e espontânea vontade.

Eu me afastei, sentindo suas palavras surtirem o mesmo efeito que tapas em meu rosto. Cada uma delas.

— Você me manipulou desde o começo e agora me descarta como se eu não fosse nada.

Ela sacudiu a cabeça para o lado com tanta pressa que seus cabelos acompanharam os movimentos. Ela veio em minha direção, a menção de tocar meus braços e então retrocedendo o caminho de sua mão para a lateral do seu corpo, hesitando.

— Não. — Ela me disse, a voz suave, tão machucada quanto a minha. — Eu nunca fiz isso, .

— Não? — Eu me sentia indignado. — , tudo sempre funcionou exatamente da maneira que você quis. Sem tirar nem pôr.

— Você fez de mim uma prioridade. — Ela respondeu.

— E você se aproveitou disso.

se virou de costas para mim e voltou até a cama, sentando-se nela com a cabeça baixa e olhar perdido. Eu conseguia me sentir ainda pior em vê-la sofrer dessa maneira.

— Você precisa entender, , que tudo o que fiz com você, tudo o que fizemos juntos e compartilhamos… — Me falou, procurando meus olhos com os seus, buscando uma conexão para mostrar que dizia a verdade. – Eu não mudaria nada. Nem como, nem quando, nem com quem, porque eu queria que fosse com você. Eu escolhi que fosse com você.

— Então por que está fazendo isso agora? — Eu perguntei, sentindo minha visão se tornar turva e minha raiva se transformar em tristeza. — Por que está fazendo isso comigo?

— Porque eu não posso continuar com isso! — disse, a voz carregada em aflição. — Não posso deixar você se apaixonar por mim cada vez mais sabendo que eu não posso e não consigo retribuir, . Você não pode se prender a mim dessa forma, precisa entender isso antes que te destrua!

— Você está me destruindo! — Acabei gritando de volta, percebendo que minha garganta se fechava com a angústia que tomava meu peito, conforme o entendimento das palavras dela começavam a fazer sentido em minha cabeça. — Você não me ama… nunca me amou. Apenas me iludiu para conseguir tudo o que queria, para… Você me usou como alguém usa um pedaço de papel para testar uma caneta, como alguém que…

— Pare com isso! — Ela gritou, as mãos tapando os ouvidos como se o gesto infantil talvez pudesse fazê-la parar de ouvir. — Pare de dizer essas coisas, você não sabe…

— Diga que sente muito! — Eu a interrompi. — Diga que sente muito por tudo o que está me causando, diga…

— Eu não posso. — Foi a vez dela de me cortar. — Não posso dizer isso.

Minhas costas foram de encontro a parede e ela envolveu o rosto com as mãos, as lágrimas caindo por entre seus dedos. No chão, eu abracei minhas próprias pernas e deixei o silêncio embalar o ambiente. Eu não conseguia formular frases ou ao menos raciocinar direito.

De longe, ela me olhava, também com a respiração acelerada, os olhos vermelhos. Eu me sentia machucado de muitas maneiras, mas eu olhava para , e a expressão do rosto dela parecia dizer que ela também estava. E eu me sentia culpado por saber que parte daquilo, quem causava, era eu.

Ela abriu e fechou a boca algumas vezes, tentando inutilmente se recompor e dizer algo. Por fim tomou coragem para falar, a voz ainda embargada e fraca:

— Eu vou te amar para sempre, como amiga.

Eu queria chorar. De verdade, como talvez nunca tenha querido em toda minha vida. Era como se ela destruísse tudo aquilo que eu um dia achei ser verdadeiro.

Também sentia uma vontade quase incontrolável de jogar as coisas para o alto, esvaziar a escrivaninha com um único gesto esperando que isso pudesse diminuir minha raiva.

— Sabe quantas vezes eu voltei atrás pensando em você? — Eu disse para ela, percebendo tarde demais, minha voz falhar debilmente a cada palavra. — Sabe quantas vezes eu esperei por você?

— Não diga isso. — Ela pediu. Mas eu também tinha pedidos a fazer para ela.

— Eu te imploro, Ella. — Pisquei os olhos com rapidez impedindo as lágrimas de caírem. — Como pode me deixar? Como você pode ir embora depois de dizer essas palavras? É cruel demais até para você.

Ela levantou-se e ajoelhou-se ao meu lado. Eu devia impedir, impor uma distância segura, mas não era capaz. Quando ela segurou meu rosto entre suas mãos, quando apoiou seu rosto no meu ombro, eu não pude impedir.

Ela era o que me causava dor, mas era também o que anestesiava tudo.

— Você acha que isso está sendo fácil para mim? — Ela perguntou num sussurro frágil, quebradiço. — Se coloque no meu lugar, ! Eu estou deixando o lugar onde eu cresci com todos que conheço para enfrentar algo completamente desconhecido. E você fica me acusando desse jeito. Acha que não estou assustada como você sobre isso tudo? Eu estou! Mas nesse momento eu estou colocando meus sonhos na frente de qualquer coisa. Você sempre disse para eu fazer isso, ! Será que se esqueceu disso agora?

Não, eu não tinha esquecido. Queria dizer isso a , mas não conseguia. Eu passei meus braços ao redor do seu tronco e a abracei mais forte do que nunca tinha feito. Um soluço escapou da minha garganta.

— O que eu vou fazer sem você aqui, Ella?

Eu podia ver como meu sofrimento magoava ela. Mas já tinha tomado sua decisão, e eu sabia, porque a conhecia bem demais, que ela jamais voltaria atrás.

— Muita coisa. — Ela respondeu e beijou minha bochecha, acariciou meus cabelos, não me afastou do seu toque por um segundo. — Vai fazer o que ama, conhecer novas pessoas, novos lugares, vai fotografar cada instante importante que vier a acontecer, e vai falar comigo, vai me contar todas as histórias, porque vou sentir falta do meu melhor amigo. Todos os dias, ainda que você não acredite nisso.

— Eu posso esperar por você, te dar mais espaço. — Falei aflito. — Posso fazer o que você quiser! De novo, de novo e de novo, . Eu posso!

— Mas eu não quero. — Ela sorriu para mim. Cruelmente me dizendo adeus com seus olhos sorridentes. — Nunca quis isso, . Eu não quero você amarrado a mim. Você não pertence a mim, da mesma maneira que eu não pertenço a você.

Não é justo, queria gritar para ela. A agonia e aflição tomando conta de todo o meu corpo. Minha respiração parou um instante, aquele momento parecia estar me matando. Talvez eu preferisse morrer.

— Não me abandone. — Minha voz saiu como um sussurro contra o ouvido dela. — Por favor, não me abandone.

Eu a abracei com mais força, como se isso pudesse impedi-la de me deixar.

Incrivelmente, Ella retribuiu o aperto e então colou sua testa na minha. Eu não queria, mas abri os olhos para olhá-la. Sua boca tão próxima da minha, sua respiração batendo contra meus lábios entreabertos. Nossos tórax colados, subindo e descendo num ritmo acelerado. Eu a queria tanto que tinha medo de não me conter. Minhas mãos começaram a subir e descer por suas costas. Essa era a pior das torturas.

— Eu preciso de você. — Foi a última coisa que consegui dizer. E então os olhos dela abriam e me encararam.

Eu conhecia aquele olhar. Já o havia presenciado tantas vezes que não poderia arriscar uma estimativa. Conhecia seu significado. Eu sempre o retribuíra.

desceu suas mãos por meu pescoço, meus ombros e então meu peito.

— Eu também preciso. — Ela sussurrou. Suas palmas descendo por minha barriga, alcançando a barra da minha blusa e entrando por debaixo dela. Meus músculos contraíram ao seu toque. — Sempre vou precisar, . Mas você precisa saber, essa vai ser a última vez.

Sua boca encontrou a minha, o encaixe perfeito como sempre havia sido. Eu sucumbia a ela por tão pouco. Mas na verdade era muito para mim. Mais do que eu era capaz resistir.

Seu corpo se impulsionou contra o meu, tão junto que sequer o oxigênio conseguia se interpor entre nós.

Foi ela quem tomou a iniciativa e tirou seu casaco. Depois sua blusa, a minha, seguindo para nossas calças e por fim as peças íntimas. Os beijos distribuídos tornavam-se cada vez mais urgentes, mais quentes, indescritíveis. Parecia um pedaço do paraíso na Terra. Ela era meu paraíso.

Mas a verdade é que isso não se passava de uma despedida.

Com dor no meu coração e com medo de acabar com aquilo rápido demais, eu desacelerei tudo o que podia a nossa volta e segurei seu rosto entre minhas mãos.

Seus lábios entreabertos, os olhos brilhando em completo desejo, a respiração acelerada. Eu a beijei novamente, como talvez eu nunca tenha feito.

, minha Ella.

Essa seria a última vez.

+++
No dia seguinte, eu acordei com a cama ao meu lado vazia e fria. Todo o quarto parecia dessa maneira, como se algo essencial estivesse faltando. De fato, estava. Eu mesmo me sentia completamente oco.

A luz vinda da janela parecia sem forças, as nuvens cinzas escondendo o sol, como se o próprio clima correspondesse ao que eu sentia.

Eu sabia que ela teria partido quando eu acordasse, que teria me deixado em algum momento entre nossos últimos abraços pela madrugada e os primeiros raios de sol da manhã, ainda que eu tivesse me mantido acordado o quanto consegui apenas para olhá-la algumas últimas vezes. Contudo, eu ainda desejava que tivesse sido diferente. Que eu pudesse tê-la feito mudar de ideia.

Não fazia diferença, de qualquer forma. Ela não me queria. Nunca quis.

Com um longo suspiro eu me apoiei sobre meus cotovelos, meu corpo pesado pela tristeza e pela mágoa. Não adiantava sequer eu olhar o relógio. Há uma altura dessas ela já estaria longe. Não esperaria por mim mesmo se tivesse tempo.

Amaldiçoei-me por um instante. Quis ter tido a iniciativa de correr atrás dela, de tentar impedi-la uma última vez, mas não consegui. Não depois de tudo o que ela havia me dito na noite anterior.

Com o peito apertado, sentindo como se parte de mim tivesse sido levada contra minha vontade e o resto que sobrava ainda lutava para não se despedaçar, eu virei minha cabeça para o lado, buscando o mural cheio de fotos dela e minha, numa tentativa falha de amenizar a saudade precoce que começava a se manifestar.

Mas eu não encontrei o que procurava. Os locais que antes estavam repletos de fotografias de , agora estavam vazios, como os buracos que eu sentia se formarem em mim mesmo.

Apressado eu levantei e parei de frente para o mural, tentando entender o que tinha acontecido, porque todas aquelas fotos tinham sumido. Eu não podia deixar que elas se perdessem. Se aquilo seria a única coisa que restaria entre eu e , eu não podia deixar isso acontecer.

Foi então que eu vi, em meio ao meu desespero, em cima da escrivaninha, várias imagens empilhadas uma em cima da outra, formando diversas pilhas pequenas lado a lado. Eu não as via de fato, apenas o verso do papel. Mas sabia que eram as fotografias faltando, pois as datas estavam escritas atrás, manualmente, com minha letra.

Antes que eu pudesse sentir o mínimo de um alívio e começasse a recolocá-las no lugar, eu encontrei um bilhete ao lado delas. Era simples, apenas uma frase, mas a letra de era inconfundível. Meu coração acelerou, perdendo uma batida.

Não pare sua vida por minha causa, dizia. Recomece.

Com uma mão trêmula eu o peguei, e com a outra, virei as fotos para cima, observando-as uma a uma por um longo instante.

Olhei para o que restava do mural com os olhos ardendo e então os virei de volta para as fotos sobre a superfície de madeira. Reli o bilhete mais uma porção de vezes ainda que a vista estivesse embaçada, tentando clarear meus pensamentos.

Em um ímpeto, eu segurei as fotografias fora do lugar com força, mas me detive no meio do caminho entre a escrivaninha e o mural.

Pela primeira vez desde sempre a dúvida surgiu em minha cabeça e eu hesitei, olhando o bilhete preso firmemente pelas pontas dos meus dedos.

É isso o que resta, depois de tudo, me lembrei.

Mas o papel parecia queimar em meus dedos. Como eu poderia fazer isso que ela pedia? Como eu seria capaz de fazer o que escreveu?

Eu deixei que minhas mãos caíssem na lateral do meu tronco. Respirei fundo algumas vezes.

Será que eu conseguiria?

Fim.

Nota da autora: Oi oi, leitores! Obrigada por chegarem até aqui! Espero que tenham gostado dessa história tanto quanto eu gostei de escrevê-la. O conto foi inspirado na música do Kim Jonghyun – Hyeya (y si fuera ella), que faz parte da 9ª Temporada do Desafio Songfic lançado pelo site Espaço Criativo em Agosto de 2018.
E, caso você tenha gostado do que leu, fique à vontade para ver alguma outra de minhas fanfics!

Dear Diary
That’s Enough
Uptown Girl

Beijos e até a próxima 🙂