Open Roads

  • Por: Thamires Alcantara
  • Categoria: Originais
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Sinopse: Descrição: Nos conhecemos quando ainda eramos jovens adultos, um sentimento inexplicavel cresceu dentro de nós em tão pouco tempo.
Tantos anos se passaram, tanta coisa mudou mas a única certeza que tínhamos durante todo aquele tempo era o amor que nos ligava e o destino que sempre seria capaz de nos unir.
Nem sempre levamos em consideração o que está bem na nossa frente, nem sempre enxergamos o que está de baixo dos nossos narizes, as vezes temos medo de nos entregar, de nos apaixonar, de nos permitir… e nem sempre teremos tempo de corrigir nossos erros.
A vida é um sopro, hoje estamos aqui e amanhã podemos não estar.
Quem vai entender os planos superiores para as nossas vidas? Nos resta viver o agora, dar valor, amar, se arriscar e o resto… bom, o resto é história.
Gênero: Romance, Drama.
Classificação: Livre.
Restrição: Sem restrições.
Beta: Natasha Romanoff.

Conheci quando éramos ainda dois jovens cheios de hormônios exalando pelos nossos poros, em um momento dificílimo da minha vida, onde tudo o que eu mais queria era me divertir sem pensar nas consequências.
Ele era o típico garoto quietinho, fofinho, romântico, que sempre tentava me encontrar e elevar minha autoestima de alguma forma. Já eu, era a garota que fingia ser carente para ter toda atenção necessária que eu queria.

Capítulo único
Não lembro exatamente como tudo começou, mas foi após um término que me levou a uma depressão profunda que eu decidi acatar as ideias das minhas amigas e voltar para um aplicativo de encontros no celular, onde na verdade tinha conhecido meu ex namorado há alguns anos. Sabia que era possível conhecer gente divertida e que atendesse minhas necessidades sexuais e sentimentais.
Passava horas do meu dia falando com garotos aleatórios, o que na maioria das vezes acabava logo depois de alguns minutos, mas também tinha aqueles que se empenhavam em me conhecer e aquilo soava como música para meus ouvidos. Posso contar nos dedos quantos desses meninos realmente interessados eu tive coragem de me relacionar.
Coragem no sentido de que eu estava passando por muitas coisas e eu tinha preguiça até mesmo de pentear os cabelos, quem dirá sair para um encontro “às escuras” com um desconhecido. Então eu apenas enrolava esses caras, criava sentimentos por eles e tudo não passava de flertes desconexos que perduravam por meses e até anos.
Foi aí que ele apareceu na minha vida.
.
Ele era exatamente o que eu procurava naquele aplicativo: bonito, tinha um papo legal, me fazia rir desconsertadamente, se preocupava comigo e nunca, nunca, insistiu para que nos víssemos quando eu usava todas as desculpas mais incabíveis da face da terra. sempre dizia que sabia esperar e que sabia que mais cedo ou mais tarde nosso momento chegaria.
Eu era uma vadia sem limites quando superei a depressão pós término, vivia em todas as baladas mais populares da minha cidade, aumentando minha lista de conquistas a cada final de semana. E quando chegava em casa, depois de uma noitada regada a álcool e sexo, era ele a primeira pessoa em quem eu pensava em mandar uma mensagem.
O maior problema entre nós era a distância. Ele morava há oitenta quilômetros da minha casa, bem no centro da cidade, eu morava no interior e era acomodada demais para me deslocar e medrosa demais para que ele viesse até mim, o medo maior era de que ele se arrependesse de todo nosso rolo quando nos víssemos e eu não queria que ele gastasse tempo e dinheiro para me encontrar. É louco, eu sei, mas quem pode julgar os pensamentos de uma pessoa totalmente instável?
Em uma dessas noitadas, eu conheci um cara, Luke, que trabalhava em uma cidade ainda mais distante, porém morava na minha cidade, então todo final de semana estávamos juntos. Aos poucos, meus sentimentos por ele iam crescendo e de pouquinho em pouquinho eu deixei de lado, que continuava um perfeito cavalheiro comigo, apesar do meu afastamento repentino sem nenhuma explicação. Meu caso com Luke perdurou meses afora, eu parei de sair, deletei o aplicativo de encontros e todos os garotos que eram uma tentação no meu possível relacionamento com Luke, menos , ele era precioso demais para que eu cortasse qualquer vínculo que havíamos criado. Eu ainda esperava poder dar nele um abraço forte e quentinho que tanto falávamos nas noites em que passávamos acordados ao telefone.
sabia do meu novo “relacionamento”, que até então não era nada sério, mas que eu esperava fielmente que as coisas mudassem gradativamente. Não perdemos contato absoluto, mas as coisas esfriaram entre nós, restando apenas uma pequena faísca de amizade que ele fazia questão de manter acesa.
Foi então no começo de dois mil e quinze que novamente minha vida deu uma reviravolta. Luke me deixou esperando sozinha em um restaurante, no dia do meu aniversário, e nunca me deu uma explicação cabível pela sua atitude. Eu estava arrasada, haviam quebrado meu coração mais uma vez em menos de dois anos e tudo o que eu precisava era ser a velha e boa novamente. Saindo sem rumo pela noite, transando e despedaçando corações por onde passava.
E foi em uma dessas noites que o inexplicável aconteceu. Havia viajado com algumas amigas para um evento famoso que acontecia em uma cidade vizinha, onde eu poderia encontrar qualquer pessoa do mundo a qualquer momento, já que era a atração mais esperada do ano no nosso estado. Já havia perdido a conta de quantos drinks tinha bebido, de quantas bocas tinha beijado e de quantos números de telefone tinha trocado.
Minhas amigas e eu formávamos uma pequena rodinha em um canto próximo ao palco, ríamos e enchíamos nossos copos de vodka, brindando à graça da vida e a todos os garotos que nos fariam nos sentir péssimas na manhã seguinte.
, não olha agora, mas tem um garoto um pouco mais atrás de você que não para de te olhar e, sinceramente, ele é bem gato! — Carol me alertou com um pouco de dificuldade, por conta do álcool e da música alta que exalava àquele lugar.
— Meu Deus, e como ele é? — perguntei, dando alguns pulinhos ansiosa para ver o rosto que tanto me encarava por trás.
Antes de ouvir minha amiga dar detalhes sobre o misterioso garoto atrás de mim, senti meu celular vibrar em minha mão e, como num impulso, chequei a notificação.

: Você está simplesmente maravilhosa nesse vestidinho preto.

Parece que todo álcool que consumia meu corpo naquele momento tinha evaporado. Me virei rapidamente e o vi ali parado com o telefone nas mãos, me encarando e sorrindo de uma forma meiga, deixando expostas as covinhas que eu tanto amava por foto e vídeos chamadas, ele era ainda mais lindo pessoalmente.
Corri em sua direção, não dando ouvido ao que minhas amigas diziam e, com um sorriso de orelha a orelha, me joguei em seus braços e senti pela primeira vez aquele abraço que tanto almejávamos durante quase um ano de conversas por de trás das telinhas.
— Meu Deus, como você me achou no meio dessa multidão? — perguntei assim que ele me depositou no chão. tinha um metro e noventa, seus cabelos eram lisos e mantinham um corte padrão, seus olhos eram hipnotizantes e suas covinhas formavam o conjunto perfeito da obra.
— Eu vi que você postou uma foto mais cedo quando chegou aqui, eu comecei a procurar a garota mais linda do mundo em um vestido preto e aqui estamos nós. — Ele sorriu e eu senti o chão se abrindo sob meus pés. — Mas, da próxima vez, tente usar alguma roupa que seja mais fácil de te achar. Sabe quantas garotas de vestido preto tem aqui hoje?
— Você é um idiota. — Sorri, dando um soquinho fraco em seu ombro.
Em questão de segundos, fui rodeada novamente pelas minhas amigas, que alegaram que tinham uma emergência e que precisávamos ir embora.
— Tudo bem, , ainda terão outros dias de festival. Se você quiser, podemos nos encontrar uma outra hora.
— Seria incrível! Eu te ligo, pode ser? — Ele concordou e me abraçou mais uma vez. Eu parecia uma miniatura de algum filhotinho perto dele, meus um metro e cinquenta e seis não eram nada perto daquele armário em forma de Deus grego.
Saí do local suspirando fundo, com a cabeça nas nuvens, pensando que eu tinha sido uma tola em não encontrar com aquele cara antes por medo, receio, timidez… por todas as menores coisas do mundo enquanto ele enxergava em mim a perfeição da natureza.
Sorria enquanto caminhava um pouco mais afastada das minhas amigas, imaginando como teria sido caso não tivéssemos que ir embora às pressas porque uma das meninas viu o ex com uma garota qualquer, teve uma crise de choro forte e quis ir embora.
Na minha cabeça, eu acreditava que o destino poderia novamente nos colocar no mesmo lugar pelos próximos dias e que dessa vez seria tudo perfeito.
Sim, seria tudo perfeito se eu tivesse ligado para no dia seguinte, o que não foi possível de ser feito graças a um grupo de garotos bêbados que roubaram a mim e às minhas amigas logo depois que saímos da casa de show.
Quatro meninas há mais de cem quilômetros de casa, sem telefone, sem dinheiro, sem documento e sem cartão de crédito. Por sorte, a chave do carro de Alice tinha ficado no hotel então poderíamos voltar para casa no dia seguinte, após fazer o boletim de ocorrência, sem mais problemas.
Eu estava uma pilha de nervos, pensando em todas as merdas que tinha feito em minha vida para merecer todo aquele castigo.
Alguns dias se passaram e eu não procurei , estava estressada demais com tudo que vinha acontecendo na minha vida e eu precisava de um momento só meu para pôr minhas ideias no lugar. Ele havia me mandado mensagem em algumas redes sociais tentando entender se havia acontecido algo de ruim, já que eu tinha “sumido” e tudo o que eu respondia era que quando eu estivesse pronta eu entraria em contato com ele.
Todos os episódios de depressão voltaram a se apossar de mim.
Tranquei a faculdade, quis dar férias para mim mesma dentro de casa, quis cuidar de mim, do meu físico, do meu psicológico e aí sim ter condições de ser boa para alguém.
Fiquei meses afastada do mundo virtual, não fiz nem questão de comprar um telefone novo e o pouco que eu fazia era dar algumas notícias para algumas pessoas mais próximas.

: Oi, , já se passaram alguns meses desde que nos vimos pela última, e primeira, vez. Risos.
Bom, eu quis te contar antes, mas parece que você não estava bem, então eu preferi te dar o espaço que você precisava.
Mas eu estou me mudando para a Austrália. Consegui um estágio maravilhoso lá e vai ser muito bom para meu currículo, vou ficar um ano nas terras do canguru.
Queria te dizer também que eu entendo perfeitamente que você não tenha gostado do que viu naquele dia e por isso decidiu se afastar, é seu direito e tudo bem, mas eu sinto sua falta, a sua amizade me faz falta. Independentemente de qualquer laço que criamos antes, eu realmente não queria te perder por completo. Você é muito importante para mim.
Ahhh e não se esqueça nunca do quanto você é especial, do quanto você é linda e merece as melhores coisas desse mundo. Não se deixe abater por quem não te merece, você é melhor do que você pensa.
Vou sentir saudades.
Com amor, .

Eu li e reli no mínimo dez vezes aquele e-mail. Primeiro eu me perguntava quem mandava e-mail para se despedir de alguém nos dias atuais, segundo que eu estava digerindo aquele pequeno texto que havia me causado sensações estranhas que eu nunca tinha sentido antes.
não só estava se mudando para outro país como estava indo embora com o pensamento que eu não tinha gostado dele, que eu me afastei por uma razão supérflua e mesquinha. Não, não, não!
Chequei a data do e-mail e era de uma semana atrás, talvez fosse tarde demais para tentar explicá-lo o vendaval que minha vida tinha se tornado nos últimos tempos.
A verdade era que eu era covarde demais para correr atrás de uma das únicas pessoas que me faziam sentir bem na minha vida, ele era bom demais para mim e eu era uma constante confusão ambulante. Respirei fundo e fechei a aba do e-mail, segurando as lágrimas e desejando que ele pudesse ser feliz com alguém que o merecesse. Longe ou perto, eu pensaria nele por todos os dias da minha vida.
Acompanhava todo seu trajeto pelas redes sociais, todas as fotos, os sorrisos sinceros, aquelas covinhas que me deixavam boquiaberta, a felicidade estampada naqueles olhos que tiravam meu sono e eu não podia estar mais feliz por ele.
Nossa amizade foi aos poucos se deteriorando e aquela pequena faísca finalmente foi apagada pela enxurrada de acontecimentos que vinham acontecendo em nossas vidas.
Eu voltei para a faculdade, finalizei com mérito meu curso e nunca mais voltou para perto de mim. Algumas vezes nos falávamos justamente por ter comentado alguma foto um do outro, ou por ter lembrado de alguma coisa que gostávamos, mas era só isso, não passava de poucas palavras jogadas ao vento.
Parece que com os anos e toda a distância que existia entre nós, um sentimento ainda maior cresceu dentro de mim e eu me proibia de fazê-lo voltar atrás de suas decisões com toda minha confusão de feelings estagnados em meu peito.
Eu vi quando ele se apaixonou por uma australiana chamada Mary, inclusive fez questão de nos apresentar em uma vídeo chamada aleatória, onde eu tentava manter a postura quando as lágrimas começavam a queimar meus olhos.
A garota loira, alta e com uma pele bronzeada de dar inveja parecia fazê-lo feliz de uma forma que eu jamais poderia fazer um dia e apesar de toda tristeza por ter perdido o cara que poderia ter sido o homem da minha vida, eu almejava felicidades e emanava pensamentos positivos para a vida do casal.
“Essa é minha amiga, ”, “ e eu nos conhecemos há alguns anos e eu não poderia ter uma amiga melhor que ela”, “Eu adoro a , sério, ela sempre soube como me fazer me sentir melhor quando eu estava na pior”, dizia para a namorada enquanto eu estava ali sendo apresentada como uma “melhor amiga”. Certamente ele não havia contado tudo o que realmente aconteceu, mas eu aceitava o fato de ter perdido a minha chance e que eu não teria nada mais além da sua amizade distante e fria.

Muitos anos se passaram, e eu perdemos completamente o contato em algum momento perdido no tempo, eu havia guardado bem no fundo do meu coração aquele sentimento que eu continuava nutrindo por ele e resolvi que eu também deveria seguir em frente.
Eu amadureci, cresci pessoal e profissionalmente, tinha um emprego estável que havia me permitido comprar um apartamento pequeno, mas bem confortável, no centro da cidade, próximo ao trabalho e próximo a tudo o que eu precisava. Conheci um cara, Tom, que em poucos meses decidiu que era a hora de morarmos juntos e que teríamos uma vida maravilhosa pela frente. Coloquei meu apartamento para alugar e fui morar com meu então namorado, um pouco mais afastada do centro.
Era a manhã de uma sexta-feira, eu estava no escritório cheia de coisas para resolver quando ouvi meu telefone tocar ininterruptamente por longos minutos. Desliguei o aparelho e o deixei dentro da gaveta, quem quer que fosse poderia esperar a hora do almoço.
Esqueci completamente da existência dele até o fim do meu expediente, quando Tom foi anunciado pelo porteiro e subiu.
— Eu te liguei o dia todo, aconteceu alguma coisa? — Ele adentrou meu escritório, já autoritário.
— Eu desliguei o telefone de manhã e acabei me esquecendo. Estou cheia de coisas para fazer, não acho que vou poder ir embora agora.
— Tudo bem, eu só queria te dizer que entraram em contato comigo sobre o apartamento. — Ele sorriu e se aproximou de mim. — Parece que agora podemos finalmente começar a planejar nosso futuro. — Tentei me esquivar por entre as pilhas de papeis amontoados sobre minha mesa e dei um sorriso amarelo em resposta ao rapaz.
Tom era um bom namorado. Era atencioso, carinhoso, parceiro, amigo, mas não existia em mim aquela necessidade de dividir minha vida com ele, a paixão já tinha se esfriado e não existia nenhum vestígio de amor.
Eu era uma mulher de vinte e sete anos com medo de morrer sozinha e aceitava qualquer migalha que a vida me dava, então eu ficaria com alguém que eu não amava para poder suprir meu medo de ficar no esquecimento? A resposta era: absolutamente sim.
Consegui fazê-lo ir embora e me esperar em casa, eu retornaria as ligações do futuro inquilino do meu apartamento no dia seguinte.
Naquela noite em especial, depois de muito tempo, pensei muito sobre e sobre como seria se eu não tivesse sido tão babaca. Esperei que Tom fosse dormir para poder ver suas redes sociais e acabei caindo no chat das nossas conversas de cinco anos trás, onde ele demonstrava todo carinho e interesse que tinha por mim e eu apenas me esquivava por ser uma filha da puta escrota e egoísta.
Meu coração batia rápido, minha vontade era de escrevê-lo, saber como ele estava, como andava sua vida, seu namoro, tudo, mas eu apagava cada letra que meus dedos insistiam em digitar, ignorando totalmente os comandos do meu cérebro dizendo que aquilo não era certo.
Como se ele estivesse sentindo toda essa minha angústia, um e-mail chegou para mim. havia acabado de me enviar um e-mail e eu esqueci completamente do que era certo ou do que era errado, eu queria falar com ele e não deixaria mais uma vez minha insegurança me pregar peças. Contrariada, resolvi não ler o bendito e-mail àquela hora da noite, tomei um calmante e fui dormir esperando que toda aquela confusão saísse do meu coração na manhã seguinte.
É claro que não foi bem assim que aconteceu, liguei para o número desconhecido que havia me ligado dezenas de vezes no dia anterior e marquei um encontro com o rapaz que estava interessado para mostrá-lo o apartamento e conhecer melhor a pessoa a quem eu estaria confiando meu patrimônio.
Cheguei mais cedo no prédio e, apesar de ser sábado, tudo se encontrava na maior calmaria. Avisei ao porteiro que um jovem rapaz passaria para ver o apartamento e que ele poderia autorizar sua subida, foi quando percebi que eu não havia nem mesmo perguntado o nome da pessoa, tamanha era minha ansiedade e nervosismo por conta do e-mail que havia recebido na noite anterior.
Preparei um café e organizei algumas coisas que estavam fora do lugar, começava a ficar nervosa e checava o celular a cada minuto passado, tendo uma luta interna comigo mesma sobre abrir ou não aquele e-mail.
A campainha tocou e agradeci aos céus pela chegada do novo futuro morador. Ajeitei meus cabelos rapidamente e fui em direção à porta.
Eu esperava qualquer pessoa ali, até mesmo o Papa ou a rainha Elisabeth, mas eu não esperava de jeito nenhum aquele par de olhos capaz de desestabilizar minhas estruturas.
? — Foi tudo o que eu consegui dizer naquela hora.
? Meu Deus, ? — Ele parecia mais assustado do que eu.
continuava lindo, seus cabelos agora tinham um caimento mais moderno e um pouco acima dos ombros, os alargadores davam espaço para um único e pequeno brinco de argolinha. Tatuagens e mais tatuagens se escondiam por debaixo de suas roupas, deixando em evidência pequenos fragmentos de tinta sobre as porções de pele que estavam visíveis.
— Você é a do anúncio?
— E me parece que você é o interessado. — Sorrimos sem graça e dei espaço para que ele pudesse entrar.
— Uau, isso tudo parece uma piada de mau gosto — comentou , antes de parar no meio da sala e se virar para mim.
— Eu poderia perguntar o motivo de você achar isso, mas eu tenho que concordar, não parece nem verdade.
— Eu te mandei um e-mail ontem, inclusive, dizendo que tinha chegado à cidade e que alugaria um apartamento no centro, que a proprietária se chamava e que eu me lembrei de você e, inclusive, imaginei como seria se a fosse você.
— E o que você imaginou? — perguntei sorrindo.
— Nada do que eu imaginei se aplica a esse momento, sério, eu imaginei, mas não podia ser verdade. Qual é! Qual a probabilidade de isso acontecer?
— Eu não li seu e-mail, mas vi quando chegou, eu estava relendo nossas conversas antigas. Me bateu uma saudade estranha ontem — confessei.
— Parece que os anos podem passar, podemos seguir por caminhos diferentes, podemos nem reconhecer mais nossas vozes ao telefone, mas o destino vai sempre dar um jeitinho de nos juntar em algum lugar.
— Eu concordo plenamente com você. — Senti borboletas no estômago ao vê-lo ali parado na minha frente. Tão lindo, tão maduro, tão perto de mim que eu só queria recuperar o tempo que havíamos perdido no passado.
Mostrei todo o apartamento para nos mínimos detalhes, querendo aproveitar cada segundo da sua presença.
Sentamos para tomar um café logo após fazermos o pequeno tour pelo imóvel. O silêncio era constrangedor, uma tensão repentina tomou conta do ambiente e não parecíamos mais aqueles dois amigos — virtuais — que estavam sempre dispostos a manter acesa a chama da amizade.
— Bom, foi muito bom te rever, , mas eu preciso ir. — se levantou e esperou que eu fizesse o mesmo para acompanhá-lo até a porta.
— Claro, tudo bem. — O segui, sentindo minhas pernas bambearem. — Foi muito bom te ver de novo, . Me mantenha informada sobre o apartamento, vou fechar as visitas até você se decidir.
— Obrigada, nos vemos por aí. — Ele se aproximou e me abraçou, aquele abraço caloroso, cheio de carinho que ele havia me dado anos atrás naquela festa. Parecia que um flash de memórias começava a me dominar e eu só pensava que não queria sair nunca mais daquele aconchego.
Ele se afastou e se virou, caminhando até o elevador sem olhar para trás. Continuei parada na porta, esperando alguma reação de sua parte, mas quando as portas se abriram ele apenas se foi.
Deitei no sofá frustrada, bufando, nervosa, irritada… tínhamos muitas coisas pendentes para serem pontuadas, muitos assuntos inacabados e explicações a serem dadas.

Passei os próximos dias apenas esperando uma mensagem, uma ligação, qualquer coisa que pudesse acalentar meu coração.
Já não conseguia ficar tão perto de Tom, já que meu corpo só desejava uma pessoa e meu cérebro começava a pregar peças em meu coração. Eu acordava e dormia pensando em e nas sensações que ele me causava toda vez que aparecia na minha vida.
Reli mais uma vez todas as nossas conversas e percebi que aquela poderia ser minha chance de concertar as coisas e dar o primeiro passo.

3:53pm: Oi, , tudo bem? Queria saber se você gostou do apartamento, se tem alguma dúvida ou alguma posição para me dar.

Usar o apartamento como desculpa me parecia relevante. Bloqueei o telefone e passei o resto da tarde no escritório esperando qualquer sinal do rapaz.
Os minutos viravam horas, as horas me pareciam eternas, já que já se passavam das dez da noite e minha mensagem não tinha sido nem mesmo visualizada.
Respirei fundo e senti algumas lágrimas começando a cair, eu merecia aquilo de qualquer forma, fui eu quem o fiz se afastar, não poderia esperar que depois de anos ele voltaria para a cidade e correria diretamente para meus braços.
Mais uma vez, reli nossas conversas antes de dormir e tive um dos sonhos mais acolhedores que eu já havia tido nos últimos anos.
Mais uma sexta-feira cheia de trabalho e reuniões me esperava no escritório, minha válvula de escape de casa e de Tom. Eu começava a pensar seriamente em voltar para meu apartamento e esquecer toda essa história de morar junto e me desfazer do meu patrimônio. Mas aí todo aquele medo da solidão voltava a me atormentar e eu me retraía.
Ouvi o celular apitar dentro da gaveta e uma pontada de esperança me atingiu.

4:47pm: Oi, , desculpe a demora, estive muito ocupado esses dias. Podemos nos ver mais tarde para conversarmos sobre o apartamento?

Bingo!
Onde estava meu amor próprio eu não fazia ideia, eu queria encontrar aquele cara e queria conversar não apenas sobre o apartamento, queria abrir meu coração e deixar claro que eu sempre o quis, que não foi nada do que ele fez ou disse que me afastou dele.

5:00pm: Por mim está ótimo, eu saio às seis.

5:01pm: Perfeito, passo para te buscar e vamos jantar.

Era mais do que eu esperava, mas era a oportunidade perfeita que eu tinha.
Avisei a Tom que ficaria até mais tarde no escritório e que talvez ficasse pelo meu apartamento mesmo, já que era um pouco mais perto e eu estava cansada.
Tive que lidar não apenas com o nervosismo, mas também com o ataque de Tom do porquê eu não queria voltar para casa. Tive que explicar detalhadamente quanta coisa eu estava fazendo, mandei várias fotos da minha mesa e simplesmente disse que desligaria o celular depois do meu expediente, pois não queria ser interrompida.

5:55pm: Cheguei!

Meu coração estava disparado, parecia uma adolescente indo pela primeira vez a um encontro.
Me levantei rapidamente e corri para o banheiro, ajeitei meus cabelos, retoquei a maquiagem, escovei os dentes e borrifei um pouco de perfume que andava sempre comigo.
Respirei fundo, desliguei o computador, peguei algumas pastas e fui em direção ao elevador para encontrar com o cara que girava meu mundo de cabeça para baixo.
estava encostado em um carro preto mexendo no celular, com um jeans escuro e uma camisa xadrez verde escura com as mangas dobradas para cima que deixavam à mostra as tatuagens que fechavam completamente um dos seus braços.
Mordi os lábios, imaginando até onde a tatuagem que cobria seu peito chegava, se ele também tinha algumas nas partes inferiores do seu corpo e um calor subiu por toda minha espinha.
Caminhei em passos lentos até ele, tentando esconder o nervosismo e a ansiedade de vê-lo ali.
Assim que ele notou minha presença se aproximando, colocou o celular no bolso e abriu aquele sorriso que era capaz de iluminar o bairro todo em um blackout.
— Você está linda, . — Me puxou para um abraço e sussurrou em meu ouvido, me fazendo corar e sorrir abobalhada.
— Obrigada, você também. — O examinei de cima a baixo e ele fez uma cara engraçada. — Meu Deus, olha para você, nem parece aquele garoto que eu conheci tantos anos atrás.
— Muita coisa mudou nesses anos, mas te garanto que eu sou a mesma pessoa de antes.
— Disso eu não tenho dúvida — respondi quando o vi abrir a porta do carro para que eu pudesse me acomodar.
Nos atualizamos mais ou menos sobre nossas vidas, no que trabalhávamos, em planos para o futuro e tudo mais, parando apenas quando estacionou o carro em um restaurante há alguns quilômetros de onde estávamos.
— Você sabe que eu morava aqui perto antes de ir para a Austrália, certo? — perguntou quando saímos do carro.
— É claro que eu sei. Eu me lembro das coisas, . — Sorri sem graça.
— Então você lembra que eu sempre disse que queria te levar a um dos restaurantes mais caros da cidade?
— Meu Deus, sim! — Rimos em uníssono com minha empolgação. — Mas, além da distância, não tínhamos dinheiro na época para bancar tal luxo.
— Então, depois de meia década, estou cumprindo minha promessa.
— Não precisava, é sério.
— Eu esperei esses anos todos por esse momento, não estrague isso — retrucou divertido e eu apenas assenti o acompanhando.
Nos sentamos em uma das mesas mais reservadas do restaurante e pediu uma garrafa de vinho. Ele ainda lembrava dos meus gostos por bebida e inclusive a linhagem de vinho que eu sempre falava.
— Não muito seco, não muito suave. Frisante. Acertei?
— Você não poderia estar mais certo — respondi, levantando minha taça e propondo um brinde mudo entre nós.
— Então, , o que você tem para me contar sobre sua vida atualmente?
— Bom, não muito, não fui eu quem saiu do país e viveu uma vida completamente diferente. — Ri, bebericando um pouco do líquido branco. — Eu terminei a faculdade, tenho meu próprio escritório, sou feliz na minha vida profissional e é isso.
— Só isso? Você me resumiu cinco anos em uma frase de um minuto?
— O que você quer que eu diga? Minha vida não é tão interessante assim. — Dei de ombros.
— Você sempre foi bem reservada. — levantou uma das sobrancelhas e se acomodou mais confortavelmente na cadeira. — E eu sempre gostei disso. — Piscou.
— E você sempre foi muito engraçado.
— Você foi a única mulher que não conquistei com meu senso de humor.
— Para com isso…
— Enfim, sobre o apartamento…
— Não, espera. Eu não quero falar do apartamento agora.
— Decidiu me contar sobre sua misteriosa vida?
— Não, eu quero te falar uma coisa que eu guardei durante todos esses anos.
— Parece interessante… continue. — se mexeu novamente na cadeira e me encarou com seriedade.
— Primeiro, eu queria te pedir desculpas por como eu me comportei com você, por não ter atendido suas expectativas, por não ter sido uma boa amiga quando você era a melhor pessoa que eu tive na minha vida até hoje.
, nós somos pessoas diferentes. Eu entendo você não ter tido vontade de seguir em frente comigo quando tivemos a chance, mas tudo bem, eu só fiquei muito triste de ter te perdido completamente. Sua amizade era importante para mim.
— Para de dizer que eu não quis você ou que eu não gostei daquilo que vi. Você acha que se fosse isso eu estaria aqui agora depois desse tempo todo?
— Eu não sei o que pensar. Eu tentei me reaproximar de você tantas vezes nesses anos e você sempre virou as costas para mim, então eu sinceramente estou no escuro, .
— Você me faz tão bem que me dá medo. Meu coração acelera quando eu falo contigo, seja por mensagem, por telefone ou aqui agora frente a frente. — Tomei coragem para desabafar tudo aquilo que eu vinha guardando durante todo o tempo que tive em minha vida. — E eu te falei isso, eu reli todos os dias antes de dormir nossas conversas de anos, eu vi o quanto eu não merecia uma pessoa maravilhosa como você na minha vida.
, as coisas mudaram, mas meu carinho por você continua o mesmo. Eu não tenho que te desculpar, você estava perdida e eu lembro disso. Fico feliz que hoje nós possamos conversar sem mais problemas e sermos sinceros um com o outro.
— Você sempre me fez feliz, , mesmo sem ter você por perto. É algo inexplicável e eu tinha medo dessa felicidade, eu queria correr disso e você era o obstáculo mais difícil de ser superado.
— Está tudo bem, pequena, nós podemos voltar a ser o que éramos antes e recuperar o tempo perdido. Eu quero te conhecer de novo, quero saber tudo sobre você, quero ter você na minha vida de alguma forma, .
Eu praticamente estava me jogando para cima daquele homem, mas essa era a coisa mais fofa sobre : ele era inocente demais, bom demais para captar os sinais que eu estava claramente emitindo para ele.
O jantar ocorreu sem mais delongas, não tocamos mais no assunto “passado” e estávamos dispostos a conhecer nossos novos “eu”.
— Mas e então, como vão as coisas com a Mary? — perguntei curiosa, queria saber se aquele romancezinho tinha vingado. era reservado sobre relacionamentos nas redes sociais, então era a única coisa que eu não sabia sobre ele ainda.
— Bom, direi que estamos bem. — Uma resposta monótona e seca que caiu como um balde de água fria sobre meus sentimentos quentes por .
— Fico feliz por vocês. — Menti. — Então você vai voltar em breve para a Austrália?
— Na verdade, estou procurando um apartamento para nós.
— Uau. — Foi tudo o que consegui dizer.
— Mary está se mudando para cá. Fiquei ocupado esses dias justamente por isso. Você sabe como é toda a burocracia de casamento com estrangeiro e tudo mais…
— Você vai se casar? — O interrompi, não pude mais ouvir nem digerir mais nenhuma palavra. Meu estava prestes a se casar e eu o perderia para sempre dessa vez.
— É, sim. Eu queria ter te contado antes, mas eu sabia que isso formaria uma tensão estranha entre nós.
— Está brincando? Eu não posso estar mais feliz por você! — retruquei da forma mais animada que eu podia, quando na verdade meu interior estava desmoronando.
— Sério? Nossa… então, um brinde ao meu casamento, ao meu mais novo apartamento e à nossa velha atual amizade. — levantou a taça e eu o segui, mandei para dentro todo o líquido de uma só vez, fazendo o rapaz rir e pedir mais uma garrafa de vinho para nós.
Não sei bem quando tudo começou a girar ao meu redor, nossas risadas escandalosas tomavam conta do local refinado e fomos convidados, gentilmente, a nos retirar.
— Então, aonde iremos dar continuidade à minha despedida de solteiro?
— Eu não vou com você até um strip club, pode desistir.
— Não quero que você vá comigo a um lugar desses, por Deus, . Parece que você não me conhece — ele dizia com a fala afetada, me fazendo rir ainda mais alto.
Realmente, meu jamais se sujeitaria a tal coisa, mas esse novo eu não sabia, eu não o conhecia mais.
— Então o que você tem em mente? — perguntei, me encostando no carro e lançando um olhar um pouco pervertido em sua direção.
— Para de me olhar assim. Quando se trata de você, meu corpo não responde aos meus comandos.
— Então por que você não deixa seu corpo falar mais alto dessa vez?
— Porque eu estou noivo da Mary, eu a amo e ela não merece isso, , você sabe que eu não compactuo com traição.
— Você é certinho demais, é por isso que eu gosto de você. — Sorri, me aproximando mais dele. — Você é um perigo para meu coração, , eu sempre te falei isso. — Passei meus braços sobre seus ombros com uma certa dificuldade devido a nossas alturas completamente desproporcionais.
Ele se abaixou um pouco e uniu seu nariz no meu, por um minuto parecia que não existia mais nada ao nosso redor, apenas dois corpos relutando em ter a única coisa que mais desejavam naquele momento.
Suspiros altos de tensão e frustração eram os únicos rumores que podíamos ouvir e, por um segundo, eu pensei que ele se entregaria àquela vontade.
— Eu não posso fazer isso, , me desculpe. — Ele se afastou delicadamente e caminhou até o carro, abrindo a porta para mim em um convite silencioso para que eu entrasse no veículo.
Me acomodei sem delongas e sem questionamentos. Eu sabia que era incapaz de trair ou ser mau caráter com alguém, no fundo, ele ainda era o mesmo cara pelo qual eu nutria sentimentos confusos e intensos dentro de mim.
Fomos em silêncio até o prédio em que, futuramente, ele moraria com a esposa e o ouvi bufando alto ao meu lado antes de desligar o carro e se virar para mim.
— Você é como uma história incompleta na minha vida, . Eu não entendo os sentimentos que eu tenho por você, mas eu sei que eles são fortes demais e que, se eu me deixar levar, eu não saberia como me livrar deles mais uma vez.
— Eu sinto muito por ter feito você pensar que eu não queria estar ao seu lado. Eu espero que possamos ainda conversar sobre isso algum dia.
— Quando você quiser, você tem meu telefone. — sorriu e piscou. Me aproximei cautelosamente dele e o abracei mais uma vez, me despedindo e saindo do veículo.

Ao ligar o telefone, após um banho gelado, dezenas de ligações e mensagens de Tom me fizeram voltar para a realidade.
Me recompus rapidamente antes de retornar e dar sinal de vida para o cara que, até então, seria a pessoa que eu dividiria minha vida a partir de alguns dias.
Nos falamos rapidamente com a desculpa de que eu estava muito cansada e que precisava descansar, que nos veríamos no dia seguinte assim que eu acabasse de ajeitar algumas coisas no meu apartamento e fosse para sua casa.
Mais uma vez, eu me peguei lendo aquelas conversas que acalentavam meu coração. Já tinha quase que decorado cada frase contida ali, com um sorriso bobo no rosto a cada palavra de carinho que trocávamos.

11:45pm: Foi muito bom ter te reencontrado. Você é uma das pessoas mais importantes da minha vida e eu não quero nunca mais perder esse contato com você.
Espero de verdade que você e Mary sejam muito felizes. Vou estar sempre torcendo pela sua felicidade.
Boa noite, nos vemos em breve.

11:49pm: Eu acabei de pegar o celular para te mandar uma mensagem. Eu também reli nossas conversas e, meu Deus, como eu era louco por você…

11:51pm: Eu também era louca por você, , só não soube enxergar isso quando eu ainda estava em tempo. Me desculpe mais uma vez por tudo que eu causei.

11:53pm: Já te pedi para parar de se desculpar. Você só fez o que o seu coração mandou, eu não guardo mágoa ou rancor, você estava confusa e tudo bem. Não querer se envolver comigo era um direito teu.

11:57pm: Eu queria me explicar, queria te fazer entender que o que eu vi naquele dia em que nos encontramos nunca foi o real problema pelo qual eu me afastei. Você era tudo o que eu precisava naquele momento, mas eu tinha medo demais, eu tinha medo de te machucar caso me envolvesse com você, eu quis te proteger, sabe? Eu também sofri e ainda sofro por conta disso.

12:03am: Tudo bem, pequena, não precisa se explicar agora depois de todos esses anos. O importante é que o sentimento ainda está aqui dentro e que nossa amizade não precisa ter um ponto final.

12:10am: Se ser sua amiga é tudo o que eu vou conseguir, eu entendo. Você vai ter cinco anos para me desprezar e aí quando estivermos páreo podemos conversar e quem sabe dar uma chance para nós. =P

12:12am: Você não deveria estar brincando com isso… Você não sabe a confusão que causa dentro de mim.

12:15am: Se for a mesma confusão que você me causa, então eu sei sim.

12:20am: Às vezes eu penso que se a gente se desse uma chance, poderíamos perceber que não é isso tudo que temos em mente e que ficaria por isso mesmo.

12:21am: Se você quiser tentar, eu estou à sua disposição. 😉

12:23am: Se não fosse pela Mary ou pelo seu namorado, que até agora não entendi bem o que vocês são, eu estaria aí agora para saciar todo esse desejo encubado dentro de nós.

12:25am: Eu não quero te forçar a nada, mas eu estive pensando…

12:26am: ???
12:30am: ?
12:35am: Porra, você ainda brinca comigo depois disso tudo?

12:36am: Calma, apressadinho.
12:37am: Acabei de colocar uma garrafa de vinho na geladeira, você tem uma hora para chegar aqui.

12:38am: Você sabe que isso não seria justo, não sabe?

12:39am: Se você vier, nós vamos nos sentar na varanda olhando para o céu, com uma taça de vinho nas mãos e conversar sobre coisas que nunca falamos antes um para o outro, exatamente como a gente sempre quis fazer e nunca tivemos chance.

12:41am: Isso é tão errado…

12:42am: Se somos apenas amigos, saberemos controlar nossos desejos.
12:43am: E aí, o que você acha?

12:45am: Eu acho que em algum momento um silêncio constrangedor vai se apossar entre nós e eu vou acabar cedendo à minha louca vontade de te beijar.
12:46am: Mas vou levar alguns frios para acompanhar o vinho. Se vamos fazer isso, então faremos do jeito certo. =P

Meu coração disparava a cada minuto que se passava, esperando que a campainha tocasse e que ele estivesse ali parado, tão lindo como sempre, disposto a me ouvir e me trazer paz.
Tomei um banho rápido, coloquei uma roupa confortável qualquer que achei no fundo de uma das gavetas quase vazias do armário e esperei que o momento da minha vida chegasse.
Não demorou muito para que eu ouvisse o temido som agudo ecoando pelo apartamento, indicando que meu hóspede acabara de chegar.
Sorri ao abrir a porta e me deparar com aqueles um metro e noventa de pura tentação parado bem na minha frente, com uma bandejinha de frios e algumas sacolinhas para incrementar nosso aperitivo noturno.
Dei espaço para que ele pudesse ir diretamente até a cozinha depositar todos aqueles objetos, pegando a garrafa de vinho e me seguindo em direção à varanda aconchegante que nos dava uma visão privilegiada do céu, que naquele dia estava repleto de estrelas. Parecia que o universo estava conspirando para fazer cada detalhe daquela noite ser perfeito, exatamente como sempre desejamos.
— Então, o que temos para conversar? — quebrou o silêncio, se sentando na pequena poltrona de pallets que decorava o local e me encarando intensamente.
— Eu só queria passar mais algum tempo com você antes de, você sabe, te perder para sempre.
— Você acaba comigo quando fala essas coisas, .
— O que eu posso fazer se eu sempre fui apaixonada por um cara que eu mal conhecia e que sempre me trouxe sentimentos tão bons? — Soltei de uma só vez enquanto sorria de canto. Se estava na chuva, então eu iria me molhar.
— Por que você nunca me falou isso antes? Você sabe que poderia ser tudo diferente.
— Quando Luke me abandonou sozinha naquele bar, eu precisava de um tempo sozinha. Isso não quis dizer que eu não gostava de você ou que eu não tinha criado um vínculo mais forte sobre nós, eu simplesmente não sabia como reagir e tinha medo de te machucar de alguma forma. Foi um período muito difícil pra mim. — Comecei a me explicar. — E então eu te vi naquela festa e eu fiquei ainda mais louca por você, eu queria te reencontrar no dia seguinte, mas me assaltaram, tive que voltar para casa e não queria estragar seu final de semana.
— Eu sempre achei que você não tivesse gostado de mim quando me viu pessoalmente. — Sorriu.
— Você está brincando? Eu amei o que eu vi e o que eu estou vendo agora. — Rimos juntos e ele corava levemente. — Eu só era tóxica demais e eu entendi todo aquele drama que vivíamos como um sinal para me afastar de você.
— Eu lembro de uma noite que eu estava na casa do Phillip, um dos meus amigos de infância, e você me ligou chorando porque sua cachorra estava internada e você não sabia para quem ligar.
— Nossa, é verdade, me lembro como se fosse ontem. Você era a única pessoa que eu queria ouvir naquele momento, porque você me fazia me sentir melhor.
— Então naquela conversa eu lembro que você falou exatamente assim: “Você é bom demais pra mim, eu não mereço uma pessoa como você.” — bebericou um pouco de vinho e balançou a cabeça em negação, com um pequeno sorriso de decepção nos lábios. — Mas sabe o que foi o pior? Você nunca se permitiu sentir. Você nunca se permitiu que eu te fizesse cem por cento bem, você simplesmente virou as costas para alguém que só queria te ver feliz.
— Você acha que eu me sinto como por ter feito todas essas escolhas erradas? Quando eu li seu e-mail dizendo que você se mudaria, eu quis te ligar na mesma hora e te pedir para ficar, te pedir para me deixar corrigir as coisas, sabe? Mas quanto isso seria injusto? Olha só para você! você está melhor do que nunca, cresceu na sua vida profissional, terminou sua faculdade em outro país, conheceu o amor da sua vida… — Uma pontada no meu peito me fez parar ali, ouvir em voz alta que ele estava feliz com outra pessoa me destruía por dentro, as lágrimas começavam a se formar e eu tive que virar o rosto por alguns segundos para disfarçar o brilho dos meus olhos.
— Isso não quer dizer nada, . O que eu sentia por você era forte demais, é até impossível de explicar o quanto eu gostava de uma pessoa que eu tinha visto apenas uma vez na minha vida e eu faria dar certo mesmo que há milhões de milhas de distância.
— E para você esse sentimento ficou no passado?
— Não, não ficou no passado. Caso contrário, eu não estaria aqui agora me abrindo para você mais uma vez. Eu sempre deixei isso claro, você que nunca quis enxergar.
— Eu me sinto péssima, de verdade, espero que um dia você possa me entender e me perdoar.
— Não precisa se sentir péssima. Isso tudo que aconteceu foi bom para nosso amadurecimento.
— Toda vez que a gente se falava, era como se minha vida virasse de cabeça pra baixo e eu queria pegar o primeiro avião para Austrália para te encontrar.
— Só eu sei quantas noites eu passei acordado pensando no que tinha feito de errado, no porque você começou a me ignorar e ignorar tudo o que a gente “sentia”, mas hoje eu consigo tirar algo positivo disso. Estar aqui agora, esclarecendo todos esses pontos de interrogação que me assombraram por anos é como respirar aliviado, sabe?
, você acha que algum dia a gente vai poder ficar bem de verdade?
— Mas nós estamos bem, pequena. Eu amo a sua amizade e poder reacender essa chama me deixa muito feliz.
— Eu não quero ter só sua amizade, eu não quero ter que sofrer todo dia falando com você sabendo que você está com outra pessoa e que eu estou prestes a cometer um dos maiores erros da minha vida.
— Você sabe que traição para mim é uma coisa muito delicada. Eu estou com a Mary e eu sempre acreditei que não a decepcionaria desse jeito — falava pacientemente, como se eu não estivesse me declarando para ele naquele momento. — Mas aí você aparece do nada, me fala todas essas coisas, eu nunca estive tão confuso assim em toda minha vida.
— Eu também estou em um relacionamento e desde que eu te vi aqui naquele dia eu não paro de pensar em você e imaginar o que poderia ter sido de nós.
— Às vezes eu acho que toda essa nossa vontade incubada vai passar assim que a gente se beijar. Acho que vamos nos dar conta de que nossos sentimentos não passam de vontades carnais.
— Eu já pensei isso diversas vezes, que talvez a gente esteja criando tanta expectativa que vamos nos arrepender logo em seguida. — Rimos juntos e bebericamos mais um pouco do líquido gelado que descia queimando minha garganta.
Após longos minutos de silêncio, me olhou pesaroso, seus lábios formavam uma linha fina e sua expressão era de tensão total. Ele se levantou e se sentou ao meu lado, passando um de seus braços sobre meus ombros e, com a mão livre, acariciou delicadamente meu semblante, colocando alguns fios dos meus cabelos para atrás da minha orelha.
— Sabe quando te falei sobre o silêncio e minha imensa vontade de te beijar?
— Uhum. — Foi tudo o que consegui responder devido ao choque de tê-lo tão perto, meus olhos fechados indicavam o contentamento de sentir aquele toque leve.
— Acho que pela primeira vez na minha vida eu vou passar por cima dos meus princípios porque eu não aguento mais controlar essa vontade de te sentir.
Nossos narizes se encostaram e pude sentir ainda mais perto aquele cheiro amadeirado que exalava de seu corpo, arrepios passavam por toda minha coluna vertebral até os primeiros fios de cabelo da minha nuca.
Sentia um calor incontrolável entre minhas pernas, sentia minha intimidade pulsando apenas com o tocar de nossos narizes. Não pude mais esperar. Em um ato impensado, selei nossos lábios em um selinho comportado, que logo se transformou em mordidas atrevidas antes do tão esperado encontro entre nossas línguas.
Em toda minha vida, acredito nunca ter beijado alguém daquela forma tão calma e tão excitante. O beijo comportado me fazia querer mais, queria saber como seria o final daquela cena, sem mãos bobas sobre nossos corpos e tudo o que eu queria era sentir seus dedos dedilhando cada centímetro da minha pele.
Tão lento começou, lento terminou. Com um selinho longo e tranquilo, separou nossos lábios e deixou a testa apoiada na minha, nossas respirações descompensadas deixavam claro nossa real intenção.
Algumas risadinhas tímidas foram emitidas de nossas bocas, que a segundos atrás estavam se conhecendo e que agora pareciam tão distantes que eu já começava a sentir falta.
— Não esperava que você beijasse assim tão bem. — Ele quebrou o silêncio em meio a um sorriso bobo.
— Então quer dizer que você quer outro? Porque se for, eu só estou esperando o seu consentimento. — Ele soltou uma gargalhada abafada e balançou a cabeça.
— Eu sei que o arrependimento vai valer a pena — retrucou antes de selar novamente nossos lábios com mais intensidade.
Nossas mãos, antes comportadas, começaram a explorar mais nossos corpos sedentos por contato físico.
Em uma fração de segundos, me peguei subindo em seu colo, cruzando as pernas em torno de sua cintura. apertava firmemente meus quadris e suas mãos deslizavam por toda a extensão das minhas pernas antes de subirem de novo até minha nuca, puxando levemente alguns fios de cabelo soltos por ali.
Comecei a desabotoar calmamente sua camisa sem separar nossas bocas, eu sentia sua excitação sob mim e eu sabia que ele queria tanto quanto eu.
, é melhor a gente parar por aqui. — quebrou nosso beijo e segurou minhas mãos, que já chegavam perto de seu umbigo.
Com um suspiro frustrado, apenas concordei com a cabeça e me posicionei novamente ao seu lado, virando todo o vinho contido dentro da minha taça e olhando para a rua, a fim de não encontrar aquele par de olhos .
— Não fique brava comigo, eu não sei o que deu em mim. Você me faz ter essas atitudes impulsivas e não é certo conosco e muito menos com a Mary.
— Não te culpo, . Eu não deveria ter te chamado para vir até aqui, eu sabia onde isso nos levaria.
— Você não me obrigou, eu vim porque eu quis — retrucou. — Apenas fizemos o que tivemos vontade. Quando se trata de nós, parece que tem um imã que insiste em nos aproximar de alguma forma.
— Eu sei que nada disso é certo, eu sei que você é certinho demais para ir à diante, mas nós estamos aqui, nós estamos descobrindo algo que nunca tivemos a chance antes… que mal tem?
— Por que você tem que ser sempre tão má influência assim, ? — perguntou divertido e rimos em uníssono.
— Eu só quero ter certeza de que eu não sinto nada além de tesão por você.
— Quando você ficou tão atirada assim? — Outra gargalhada alta, seguida de um silêncio incômodo.
— Quando eu caí na real que eu sempre te quis e que eu nunca mais vou poder te ter. — Finalmente tomei coragem de dizer, abaixando a cabeça logo em seguida, sentindo as lágrimas molhando meu rosto. Aqueles sentimentos não podiam ser apenas tensão sexual, era muito mais forte do que isso, mas eu só precisava ter certeza.
Os arrepios que ele me causava a cada toque singelo, o bem estar que eu sentia quando tínhamos um momento só nosso, mesmo que por mensagens ou ligações que pareciam ser infinitas durante alguma madrugada de solidão. Nunca tinha sentido borboletas no estômago em apenas olhar para alguém, mas me proporcionava tudo aquilo. Eu precisei de cinco anos para estar frente a frente a ele e entender que tudo aquilo era simplesmente real.
— Eu corri atrás de você durante tanto tempo. Eu te quis tanto, . — Ele deu um suspiro profundo antes de continuar, com aquele olhar vazio que trazia toda a incerteza daquele momento. — Eu sofri quando fui embora e demorou meses para que pudéssemos nos falar novamente. Eu pensei em você todos os dias até conhecer a Mary e mesmo depois dela eu continuava pensando em você quando ela adormecia do meu lado, eu só pensava o quanto eu queria que fosse você ali… você me traz esse misto de confusão que dói, sabe? Quando eu for embora e você perceber que era “só tesão”, eu vou sofrer de novo, eu vou chorar de novo e vou ter que me acostumar de novo a não ter você na minha cama todas as noites.
— Mas e se não for assim, ? E se isso aqui for o certo? A gente vai perder mais uma chance de descobrir e eu não quero perder isso de novo, eu não quero mais seguir pelo caminho errado.
— Eu acho que agora é tarde demais, pequena. — Ele se levantou, dando um beijo estalado em minha testa e caminhou para dentro do apartamento, visivelmente desestruturado.
Me entreguei às lágrimas que já rolavam discretamente pelo meu rosto antes, sem nenhum receio ou pudor. Eu precisava colocar para fora aquele sentimento de fracasso, tristeza e decepção.
Ouvi a porta sendo fechada e um silêncio cadavérico se apossou do recinto. Eu já deveria ter me acostumado com a solidão, foi o que eu sempre plantei na minha vida, então nada mais justo estar colhendo os frutos das minhas escolhas.
Adormeci ali mesmo, onde o perfume de continuava impregnado nas almofadas, parecia que ele ainda estava ali. Algo na minha mente implorava para que quando eu abrisse os olhos eu o encontrasse ainda sentado naquela pequena poltrona e que os últimos minutos tivessem sido apenas um sonho estranho daqueles que fazemos acordados.

Passei semanas sem notícias do garoto que vinha atormentando meus pensamentos há cinco anos, tentando levar uma vida normal e aceitando o fato de que eu havia perdido para sempre a chance de ser feliz ao lado de quem eu realmente gostava.
A única coisa positiva que consegui tirar de tudo aquilo foi a decisão de interromper o relacionamento fracassado em que eu estava me metendo ao lado de Tom. Foi complicado tentar explicar para o rapaz que eu não estava com cabeça para aquilo e que estávamos indo rápido demais.
Voltei para meu apartamento e as lembranças daquela última noite que havia passado ali continuavam martelando meus pensamentos, me fazendo questionar onde estaria , se ele já havia se casado, se teria voltado para a Austrália… Parecia que minha vida se resumia em me martirizar.
Estava terminando de guardar minhas roupas de volta no armário, quando ouvi o interfone tocar, o porteiro informava que um rapaz estava na portaria pedindo para subir.
estava ali depois de dias sem dar notícias.
Milhares de coisas passavam pela minha cabeça enquanto eu desligava o interfone e ia abrir a porta, um misto de nervosismo e alívio, não saberia como descrever.
passou pela porta sem mais delongas e me envolveu pela cintura sem nem mesmo dizer o real motivo pelo qual estava ali, me levantando do chão e enterrando seu rosto na dobra do meu pescoço. Sentia seu peito subir e descer descompassadamente, saltando a cada soluço abafado que ele emitia bem próximo aos meus ouvidos.
? O que aconteceu? — Tentava obter alguma resposta enquanto afagava suas costas em uma tentativa falha de acalmá-lo.
— Eu pensei muito, . Eu pensei se seria certo ou não, se daria certo ou não, se o que eu estava fazendo da minha vida era o justo a ser feito… E eu cheguei à conclusão de que eu não sei de mais nada, eu estou perdido, confuso, com medo e eu só queria poder te ver e saber que você estaria aqui pra mim quando eu precisasse.
— Eu sempre vou estar aqui para você, é isso que os amigos fazem uns pelos outros.
— Eu vim aqui todos os dias, o porteiro sempre dizia que você não estava em casa, eu pensei por um momento que você mandou que ele dissesse aquilo caso eu aparecesse e mesmo assim eu vim todos os dias tentando te encontrar. Então hoje ele disse que interfonaria para saber se você autorizava minha entrada e, bom, eu nem sei por que eu estou aqui, , eu só precisava te abraçar, te sentir e entender o que eu sinto por você — ele dizia rápido demais enquanto me depositava novamente no chão. Tentava assimilar suas palavras, mas era tudo confuso demais, até mesmo para mim.
— Tudo bem, eu estou aqui, não estou? — perguntei retoricamente, o puxando para o sofá e passando minhas mãos sobre seus cabelos lisos.
— Eu não posso continuar minha vida sem saber como teria sido com você.
— Eu terminei com o Tom, . Eu não conseguia mais ficar com ele sabendo que meu coração pertence a você.
— Eu não terminei com a Mary, ela chega em dois dias e isso está me enlouquecendo porque eu só penso em você vinte e quatro horas por dia. Chega a ser doentio!
— Não sei o que te falar, não sei como te ajudar, não sei o que você quer e… — Fui surpreendida por um beijo intenso e cheio de significado, que logo aqueceu o cômodo naquela noite chuvosa e gelada.
Nossas roupas foram parar em qualquer canto aleatório do apartamento e finalmente nos entregamos ao nosso desejo mais profundo.
Parecia que havíamos ensaiado cada movimento executado naquelas horas em que nos amamos em cada pequeno espaço do imóvel. me fez sentir coisas que eu nunca havia sentido em todos os anos em que eu saía pela noite em busca de alguém para levar para casa e saciar meus desejos.
Seus toques firmes, porém, delicados, demonstravam todo o cuidado e carinho que ele tinha por mim. Seu olhar intenso sobre meu corpo e meus movimentos chegavam a me deixar constrangida, me davam choques elétricos por toda minha coluna vertebral.
Mas foi quando chegamos aos nossos limites que eu senti que eu era realmente amada e apreciada por aquele homem.
Todo seu cuidado em me envolver cuidadosamente em seus braços, o cafuné, os pequenos círculos invisíveis que ele traçava pela minha pele desnuda, os olhares de cumplicidade, os sorrisos bobos… Eu sabia que não era apenas carnal. Havia sentimentos a serem explorados entre nós.
Adormeci me sentindo a mulher mais sortuda da face da terra, desejando que aquele momento nunca chegasse ao fim.

Na manhã seguinte, ao acordar, tateei o lado oposto em que eu dormia e encontrei um vazio enorme, como se eu estivesse dormido sozinha e tudo não tivesse passado de um sonho erótico com , mas eu estava nua e sentia os efeitos da noite anterior latejando pelo meu corpo. Sorri abobalhada, relembrando a intimidade que trocamos depois de tanto tempo em que a vontade chegava a dar murros em nossas caras.
Um barulho de folha me fez me virar e olhar para o espaço que antes era preenchido pelo dono do meu coração.

, a noite passada foi incrível e realmente não foi nada do que eu esperava: foi muito melhor.
Então minha teoria de que nos decepcionaríamos falhou.
Tive que sair às pressas porque tenho um compromisso cedo, te ligo mais tarde.
Com amor, .”

Gargalhei ao lembrar do que ele havia dito nas mensagens semanas atrás e meu coração se aqueceu, um sorriso bobo tomava conta de mim e um bom humor alucinante me dominou durante todo aquele dia, nem mesmo os problemas no escritório puderam me abater.
Voltei para o apartamento radiando felicidade por onde passava, cumprimentando cada pessoa que passava por mim do escritório até o prédio em que morava, planejando cada momento que viveria com daquele dia em diante. Apesar de não ter tido notícias suas, imaginava a correria que ele devia estar enfrentando para resolver tudo que deveria ser resolvido, então decidi dar a ele o espaço necessário para que ele viesse para mim quando estivesse pronto.
Passei pelo porteiro desejando-lhe uma boa noite e estava prestes a entrar no elevador quando ele me chamou, com um envelope na mão, dizendo que o rapaz da noite anterior havia passado e pedido para que aquele envelope chegasse até mim em mãos.
O agradeci e subi para meu apartamento, despreocupada, tomando um banho quente e comendo algo antes de abrir o misterioso pedaço de papel.
Antes não tivesse feito.

“Não sei como começar ou como te falar isso. Pensei em te ligar, mas nada do que eu pensava em te falar me parecia bom o bastante.
Hoje, um pouco depois de sair do seu apartamento, recebi uma mensagem de Mary dizendo que precisava falar comigo urgentemente.
Parecia que ela sabia que algo tinha acontecido, eu estava a caminho do aeroporto. Queria pegar o primeiro voo para a Austrália e pôr um fim na nossa relação pessoalmente, não deixando que ela viesse para cá e sofresse sozinha sem apoio da família. Assim eu poderia voltar para você e poderíamos começar do zero.
Preocupado, liguei para ela ainda no caminho e eu recebi uma notícia maravilhosa, que mudará minha vida, e nossas vidas, para sempre.
Eu vou ser pai, .
Mary está grávida de três meses. Ela já desconfiava, mas preferiu esperar os exames ficarem prontos para ter certeza antes de me contar. Você tinha que ouvir a felicidade dela gritando para os sete ventos que nos tornaríamos uma família.
Meu mundo desabou ali. Eu tinha acabado de trair a mãe do meu filho com a mulher que eu gostaria de estar tendo esse momento futuramente.
Enfim.
Essa não é uma carta de despedida, é um até breve.
Estou voltando para a Austrália com o intuito que apoiá-la e achar uma forma de dizer a ela que não podemos mais ficar juntos. Será tudo mais difícil com um filho no meio, mas eu tenho certeza de que saberemos lidar com isso.
Esse momento é muito delicado, então eu entrarei em contato quando for a hora. Peço que você possa compreender e não crie histórias na sua cabeça achando que essa carta é mais do que realmente é (te conheço melhor do que você possa imaginar, risos).
Eu te prometo, , que NÓS seremos o casal mais feliz do mundo, nem que isso leve ainda mais algum tempo.
Não vou pedir para que você me espere, mas eu vou torcer para que quando a hora certa chegar nós possamos finalmente nos livrar de todos os rótulos e status e sermos apenas e : o romance inapropriado, improvável e verdadeiro.
Você me deu os melhores sentimentos que eu já senti em toda minha vida, a noite de ontem foi mágica e eu não vejo a hora de poder revivê-la mais mil vezes ao seu lado.

Remember It’s me learning to be lost on open roads.*

Com todo amor, .”

Eu esperei por dias, semanas, meses… algum contato, alguma mensagem, qualquer coisa e a cada dia que passava eu me conformava que aquele era o nosso fim.
Precisava seguir em frente, não poderia passar dias incertos esperando alguém que talvez nunca mais fosse voltar.
Eu estava cada vez mais inerte na minha bolha, onde eu saía apenas para trabalhar e voltava para casa, esperando que eu pudesse ter qualquer tipo de sinal do que fazer da minha vida com ou sem .
Um ano havia se passado sem notícias, não o encontrava mais nas redes sociais e seu número havia sido trocado. Minhas amigas estavam cansadas de me ver na fossa e arrumaram um encontro às escuras para mim e, depois de muito me lamentar, resolvi aceitar.
Joseph era um perfeito cavalheiro, me lembrava um pouco como pessoa, era divertido, alto, comportado, me fazia me sentir bem apesar dos apesares.
Antes de qualquer tipo de relacionamento, construímos um laço de amizade maravilhoso. Joseph sabia do meu amor pelo rapaz que havia sumido há um ano sem vestígios, sabia toda nossa história e sabia que meu coração sempre teria aquele espaço vazio. Mesmo assim, ele foi paciente em esperar, em me conhecer e só então resolveu dar um passo a diante.
Me sentia completa e realizada ao lado de Joseph. Além de namorado, era meu melhor amigo e acho que isso era uma coisa que eu sempre fiz questão de ter. Diferentemente de Tom, que nunca consegui criar esse laço, com Joseph eu sabia que poderia ser eu mesma sem medo de sofrer represálias.
De vez em quando, ele me perguntava se eu havia tido alguma notícia de e frisava que gostaria de saber caso tal coisa acontecesse.
Foi justamente quando completamos um ano de namoro e mais de dois anos sem notícias do misterioso garoto desaparecido, que uma carta chegou para mim no meu escritório.
Sem remetente, apenas o meu nome estava escrito do lado de fora do envelope, em uma caligrafia perfeita que eu conhecia muito bem.

“Oi, , já faz algum tempo que não nos falamos, me desculpe por isso.
Não teve um dia nesses anos que eu não tenha pensado em você e em te procurar, mas eu simplesmente não pude.
Não sei como está sua vida, mas eu gostaria muito de te encontrar brevemente. Infelizmente, eu não posso sair agora da Austrália, mas espero que você possa vir me visitar. Uma pessoa entrará em contato com você nos próximos dias.
Eu espero, de todo coração, que você aceite, mas caso não, tudo bem e é seu direito.
Só gostaria de poder te ver mais uma vez.

Com amor, .”

Mostrei o pequeno bilhete a Joseph assim que ele chegou ao apartamento. Foram mais de dois anos sem notícias e quando finalmente ele resolve aparecer, era para fazer um mistério. Típico .
Conversei com meu namorado sobre o que fazer, algo me martelava por dentro e me dizia que eu deveria ir, senti que tinha muito mais por detrás daquele pequeno recado.
Joseph apoiou instantaneamente que eu fosse visitar o — ex— amor da minha vida e me desejou sorte quando me levou até o aeroporto três dias depois da ligação de um rapaz me dizendo que, caso eu aceitasse, ele emitiria as passagens o mais rápido possível.
E foi depois de uma longa viagem que eu cheguei até Darwin, uma pequena cidade ao Norte da Austrália, onde um jovem rapaz me esperava com uma placa com meu nome.
Me apresentei e ele me ajudou com a mala, dizendo que me levaria até .
Era tudo tão estranho que eu parei de tentar questionar Sebastian, o tal rapaz que me buscou no aeroporto e que só me dizia que eu teria a chance de conversar com e obter todas as respostas que eu precisava.
Sebastian era irmão de Mary, o que deixava claro que o casal ainda permanecia junto e feliz enquanto eu esperava por ele durante um ano da minha vida.

O carro foi estacionado em uma espécie de fazenda, com vários cavalos ao redor do campo, muitos cachorros e uma horta maravilhosa.
Caminhei lado a lado do homem que me guiou até a entrada da casa, dizendo que ele ficaria por ali e que nos veríamos mais tarde.
Dei de ombros, tocando a campainha e sendo recebida por ninguém mais ninguém menos que Mary, com uma criança no colo, que parecia desesperada e cansada.

— Oi, você deve ser a . Fico muito feliz de finalmente poder te conhecer — ela disse assim que pairou seus olhos sobre mim. Seu sorriso era gentil e doce, me fez sentir pena por saber das reais intenções que teve um dia em relação a ela.
— Muito prazer Mary. — Estendi minha mão livre em sua direção e ela a apertou levemente, sempre com um sorrio estampado no rosto.
— Esse é o pequeno Steve, ele tem quase um ano e meio. — Ela apresentou o pequeno garotinho que, olhando bem, era a réplica perfeita de , até as covinhas ao sorrir eram iguais às do pai.
Meu coração se apertou por um segundo vendo aquela família linda que eu um dia pensei em destruir.
— Entre, está no quarto, ele está ansioso para te ver. — Ela deu passagem para que eu pudesse entrar e eu apenas me perguntei a razão pelo qual ele me esperaria no quarto.
A segui pelo estreito corredor repleto de portas até a última porta de madeira branca à esquerda.
Mary deu duas batidinhas de leve e a abriu, anunciando que eu havia chegado.
Meu coração disparava e alguma parte de mim esperava que ele saísse do cômodo e viesse me receber na sala de estar, por exemplo, mas foi quando ela se virou para mim e sorriu triste, abrindo a porta atrás de si, que eu tive a pior visão que eu poderia ter sobre o cara que eu amava.
se encontrava magro, seus cabelos lisos e longos agora davam espaço ao couro cabeludo pálido e sem vida, sua pele amarelada e profundas olheiras sob seus olhos indicavam que ele estava em uma situação delicada.
, entre! — ele exclamou com um pouco de dificuldade. Meus olhos não seguraram mais as lágrimas que queimavam meu globo ocular e em segundos corri até sua cama e me ajoelhei ao seu lado, pegando uma de suas mãos e apoiando minha testa sobre ela, deixando que as lágrimas pudessem limpar minha alma de alguma forma ao vê-lo naquele estado.
— Vou deixá-los sozinhos. Se precisarem de alguma coisa, eu estarei na cozinha. — Mary sorriu mais uma vez e fechou a porta, deixando apenas o barulho do meu choro tomar conta do lugar.
, meu Deus, o que aconteceu com você?
— Pequena, eu tenho tanta coisa para te falar… — Ele tocou minha bochecha com as costas de sua mão, limpando as grossas lágrimas que escorriam naquela região. — Não chora, por favor.
— Como você pode me pedir para não chorar? Eu fiquei dois anos sem notícias suas, , e agora, quando finalmente eu pude te ver novamente, te encontro em uma cama sem nem saber o que está acontecendo, só minha cabeça criando teorias e mais teorias.
— Eu vou te contar tudo, só me dê um abraço primeiro, por favor, eu senti tanto a sua falta. — Me levantei e me debrucei levemente sobre seu corpo frágil, sem depositar meu peso, e senti sua respiração fraca perto dos meus ouvidos.
Ficamos naquela posição por alguns minutos, apenas sentindo o toque um do outro, nossas respirações e nossos corações batendo no mesmo ritmo frenético.
— Eu queria que tudo tivesse sido diferente. — Ele quebrou o silêncio quando me sentei em uma pequena poltrona depositada do lado da cama. — Eu vim para cá no intuito de terminar com a Mary e, também, apoiá-la durante a gravidez. Eu procurei formas de te trazer para cá, procurei até mesmo alguns empregos para você. — Ele sorriu fraco. — Eu contei tudo para ela, , falei sobre como nos conhecemos, toda nossa história confusa e que havíamos dormido juntos uma noite antes da minha vinda, que eu vim na total intenção de terminar com ela e poder viver ao lado da pessoa que eu mais amei em toda minha vida — ele dizia com certa dificuldade, baixo e com os olhos fechados. — Ela ficou arrasada, chorou muito, mas entendeu. Disse até que sempre soube que meu coração pertencia a você, você acredita nisso? — Ele abriu os olhos com certa dificuldade e me lançou aquele sorriso que me fazia perder o fôlego. Rimos juntos da forma que ele falou aquela última frase, como se não fosse óbvio o amor que sentíamos um pelo outro.
— E então eu achei um apartamento, comecei a me mudar e estava prestes a te procurar, te pedir para vir ficar aqui comigo, pois eu queria estar perto do meu filho também. — Ele fez uma pausa para respirar e me pediu um pouco de água. — Você teria vindo?
— É claro que eu teria vindo, . Eu nunca falei mais sério em toda minha vida quando eu disse que queria ficar com você.
— Essa é minha garota, parece que o tempo fez bem para você — brincou e eu dei uma risadinha abafada.
— E então, o que aconteceu? O que você tem?
— Mas a sua paciência parece ter ficado ainda lá atrás, né, pequena? — Ele riu e me fez gargalhar ouvindo o som da sua risada seguida daquela piada idiota.
— Vai, me conta logo!
— Então… um dia eu acompanhei Mary para fazer uma ultra e comecei a suar descompassadamente, pensei que fosse nervosismo porque era o dia de saber o sexo do bebê e isso é a última coisa que eu lembro. Quando acordei, eu estava em um leito do hospital, com fios pendurados em todo meu corpo e uma equipe médica entrando no quarto para me dar a notícia que eu tinha acabado de acordar de um coma induzido de doze dias.
— Meu Deus!
— Eu vinha sentindo alguns sintomas da doença, mas eu pensava que era estresse ou mesmo nervoso por conta de toda situação entre nós, Mary e meu futuro filho. Então eu simplesmente ignorei os sinais. Fui diagnosticado com linfoma de Hodgkin já avançado, a doença se espalhou rapidamente e os médicos haviam me dado apenas alguns meses de vida, mas com a quimioterapia e os remédios adequados eu consegui ver o nascimento do pequeno Steve e ainda lutei firmemente para poder te ver mais uma vez. — sorria de canto enquanto me olhava e piscava calmamente.
— Por que você não me contou antes? Eu poderia ter vindo para cá e ter ajudado, eu poderia ter passado mais tempo com você, e-eu…
, eu não queria que você me visse nesse estado, eu tinha certeza de que eu conseguiria vencer a doença e eu estava quase lá. — Suspirou. — Mas um belo dia eu comecei a passar mal e tive que ligar para Sebastian, pois estava sozinho no meu apartamento, que me levou correndo para o hospital e lá detectaram que a doença estava avançando novamente e tomando conta de outras partes do meu corpo, que não teria quimio nesse mundo que me tirasse dessa. — Eu chorava sem me preocupar com os soluços altos que Mary devia estar ouvindo saindo da minha boca.
— Quer dizer que então não podemos fazer mais nada? — perguntei e ele apenas sorriu.
— Eu queria te ver mais uma vez e te dizer que eu estava louco para voltar para seus braços, , que você me fez o cara mais feliz do mundo quando disse que queria ficar comigo e eu tinha esperado tantos anos para ouvir isso de você que as vezes acho que isso que está acontecendo comigo é um castigo por ter insistido tanto. — Ele soltou uma gargalhada, mas logo se recompôs ao ver que eu o repreendia com o olhar. — Desculpa, não consegui me conter.
— Você é um idiota!
— E você me ama mesmo assim.
— Você tem razão, eu te amo, eu sou completamente apaixonada por você, eu sempre fui! Eu sempre te amei, sempre te quis, eu sempre fui sua, . Me perdoe por ter levado tanto tempo para perceber isso.
— Eu tenho certeza de que eu vou ser pra sempre seu, pequena. Ninguém nunca conseguiu preencher minha vida como você preenche e, quando eu for embora, eu vou embora feliz, sabendo que você foi meu primeiro e último amor.

Naquela noite, jantamos juntos ao redor da mesa: , Mary, Sebastian, o pequeno Steve e eu.
Mary se demonstrou madura e uma mulher incrível ao me receber em sua casa, fazendo questão que eu passasse, não só a noite, mas toda minha estadia ali junto deles, que eu era parte da família de tanto quanto ela. Conheci também os pais do rapaz, que estavam instalados em um pequeno chalé ainda dentro do rancho e que estavam ali também para dar todo o suporte necessário ao filho, ao neto e ao casal de irmãos que tinham feito tanto pelo filho deles.
pediu ajuda para poder se sentar um pouco na varanda com o pequeno Steve nos braços. Nos sentamos todos em uma pequena roda em torno a uma fogueira, que foi ideia de Sebastian, e ali ouvimos diversas histórias sobre a vida de , histórias contadas por ele, por Mary, por seus pais… eu me limitei em ouvir e guardava cada pequena informação sobre ele.
As horas iam se passando e um por um se despediram do garoto antes de irem para suas acomodações, restando apenas nós dois no frio gélido daquela noite de outono, sentados em volta à uma fogueira, sob o céu mais estrelado que eu tinha visto em toda minha vida. Entrei rapidamente para pegar uma colcha e me sentei ao lado de , nos cobrindo e tentando o maior contato físico que poderíamos ter.
Nossos braços entrelaçados, os pés se tocando e minha cabeça apoiada em um de seus ombros.
acariciava com dificuldade meus cabelos com sua mão livre e novamente as lágrimas me inundavam.
— Shhh, está tudo bem, pequena. Obrigada por estar aqui hoje.
— Eu não quero te perder, por favor, não me deixe.
— Eu jamais vou te deixar, . Quando você olhar para o céu, lá da varanda do seu apartamento, sente-se naquela poltrona que eu me sentei naquele dia, pegue uma garrafa de vinho e espere que a primeira estrela aponte no meio da escuridão, aquele será meu sinal dizendo que eu estou perto de alguma forma.
— Eu te amo tanto, eu te amo tanto, ! — Foi tudo o que eu consegui dizer em meio às lágrimas que rolavam sem dó nem piedade sobre minhas bochechas. Me aproximei devagar e depositei um selinho calmo sobre seus lábios.
Apesar de toda dificuldade, se esforçou para poder me dar um beijo digno de filme de Hollywood. Seus lábios, antes macios, estavam ressecados e sem cor e ficaram feridos após separarmos nossas bocas, já que a pele fina se abriu com o esforço, nos fazendo rir em uníssono.
— Valeu a pena só por ter tido esse beijo que eu estava morrendo de saudade — ele disse enquanto pressionava um pedaço de guardanapo na boca.
— Ainda terão muitos outros, você pode ter certeza — respondi, encostando levemente nossas testas e roçando meu nariz no dele. Ele sorriu e balançou a cabeça.
— Me ajuda a ir para dentro? Estou começando a sentir muito frio — pediu e percebi que ele começava a tremer disfarçadamente.
Me levantei e empurrei a cadeira de rodas até o quarto, onde o ajudei a se deitar e a se acomodar melhor na cama.
— Boa noite, nos vemos amanhã. — Me aproximei, depositando um beijo no topo de sua cabeça e senti uma de suas mãos segurando meu pulso.
— Se não nos vermos mais, pequena, eu te amo! Obrigado por esses momentos, você é a pessoa mais importante da minha vida — confessou em meio à discretas lágrimas.
— Eu também te amo. Agora trate de dormir e melhorar logo. Amanhã venho buscá-lo para darmos uma volta pela fazenda.
Ele concordou, me lançou um sorriso doce e fechou os olhos para dormir.

Aquela foi a última vez que eu ouvi sua voz, que eu vi seu sorriso e que senti o seu toque suave sobre minha pele.
Eu passei tantos anos para perceber que o amor da minha vida sempre esteve ali do meu lado e eu sempre fechei os olhos para ele.
Os meses que passaram depois da morte de foram essenciais para meu crescimento e amadurecimento. Eu prometi a mim e a ele que eu nunca mais deixaria de viver nada na minha vida por medo e que se esse medo chegasse para me bloquear, ele estaria ao meu lado para me dar forças para ultrapassar cada obstáculo.
Me lembrei a cada dia da minha vida o quanto ele me agradeceu por ter ensinado a ele a se permitir também, a viver como um rapaz jovem de vinte e poucos anos e não um velho de meia idade cheio de princípios moralistas.
Me lembrei das noites que passávamos acordados ao telefone e dos sentimentos de paz que aquilo me passava, ouvia todas as noites antes de dormir sua voz em uma mensagem na minha caixa postal de quando ele ligou pela primeira vez para ver o apartamento e não fazia ideia de que eu era a proprietária do imóvel.

“Bom dia, me chamo e estou interessado no apartamento, espero seu retorno.”

Poucas palavras e tantos sentimentos. Nunca havia escutado aquela mensagem perdida até o dia em que fui procurar tudo relacionado a ele no meu celular.
Imprimi as poucas fotos que havíamos feito juntos nos poucos dias que estivemos lado a lado, inclusive a última foto que fizemos na sala de jantar de Mary e Sebastian.
Todos os bilhetes, cartas e e-mails… tudo arquivado a sete chaves, em uma caixinha no fundo do armário que me acompanhou lado a lado todos os dias da minha vida.

Sessenta anos se passaram e eu ainda sinto viva dentro de mim a chama de amor que despertou em meu coração.
Uma vez por semana eu costumava ir até o cemitério trocar suas flores e conversar um pouco com ele, depois passei a fazer uma vez por mês, a cada três meses, uma vez por ano…
Quando conseguia.
Joseph me deixou há dois anos e sempre esteve comigo nos dias em que eu chorava de saudades pelo amor que eu havia perdido tão nova. Ele me apoiou e me consolou durante todas as noites em que acordava por ter tido pesadelos com .
Ele segurou minhas mãos quando tivemos nossa primeira e única filha, Zoe, assim que nos casamos.
Zoe e Steven ficaram muito amigos. Apesar dos seis anos de diferença de idade, por conta da minha história com , a amizade deles floresceu tanto que se apaixonaram e se casaram assim que se formaram na faculdade e foram morar no apartamento que foi o grande cúmplice da curta história de amor entre e eu.
Me deram um casal de netinhos que eles fizeram questão de chamar e , como uma homenagem a mim e ao grande amor da minha vida.
Depois que Joseph nos deixou, voltei para meu antigo apartamento para morar com minha Zoe, Steven e meus netos e toda vez que me sentava naquela varanda que foi palco do primeiro beijo entre e eu, eu sentia sua presença como se ele ainda estivesse sentado onde aquela velha poltrona de pallets um dia fez parte da decoração. Muitas vezes eu conseguia até mesmo sentir o cheiro amadeirado do seu perfume impregnando o lugar.
Tenho certeza de que Steven se sentia como eu, já que muitas vezes o pegava chorando ao me olhar sentada do lado de fora e vinha até a mim, me abraçando, sendo seguido pelos gêmeos, que por muitas vezes nos assustavam dizendo que tinham visto o vovô sentado do meu lado na varanda, que ele sentia muito a nossa falta e que ele estava sempre ali nos protegendo.
Era reconfortante, eu sabia que ele nunca havia nos deixado de verdade, que mesmo de tão longe ele cuidava de nós.
Que ele seria para sempre o primeiro e último amor da minha vida.

FIM
*Trecho da música “Open Roads, de Dillon James”

 

Outras fics:
My paper heart — Longfic/Restrita/Bandas