Operação Bebê

Operação Bebê

  • Por: Aurora
  • Categoria: Originais
  • Palavras: 1227
  • Visualizações: 254
  • Capítulos: 6 | ver todos

Sinopse: Uma missão que tinha tudo para seguir com a captura de um dos maiores assassinos, acaba virando uma missão de resgate.
Vários tiros. Uma mulher morta. Um bebê inocente.
A agente achava que nunca tinha nada para piorar quando presenciou a mãe do bebê morrer bem na sua frente e ficar com a responsabilidade de proteger uma criança que nunca viu na vida.
Quem era ela? E por que queriam assassinar um bebê inocente?
Embarcando nessa missão não-oficial sem informações, ela arrasta seu parceiro para uma jornada em busca de resposta.
E a promessa de proteger uma criança se torna muito mais quando todos os segredos vêm à tona. Principalmente quando envolve os dois agentes.
Categoria: Original
Gênero: Aventura
Classificação: +14
Restrição: Violência
Beta: Olívia W. Z.

Capítulos:

Prólogo

Ser uma agente disfarçada não era o meu maior problema. Fingir ser outra pessoa tinha um ar de liberdade que eu não me dava o luxo de aproveitar muito ou seria um ciclo vicioso que eu dificilmente me libertaria. Eu gostava dos joguinhos de ter nomes falsos, criar uma personalidade compatível, decidir os gostos e que tipos de coisas eu deveria odiar. Meu problema era estar enfiada nesse caso há dois meses e eu sequer sabia o que era ter uma boa noite de sono, um descanso digno de um ser humano, uma comida feita sem pressa. Philippe deveria estar muito mal humorado quando decidiu que eu seria uma peça importante para fechar aquele caso. Era um inferno. Doze vítimas em dois meses e cada vez que estávamos mais perto de pegar o assassino, ele se mostrava sempre um passo adiante na nossa direção e isso era outro problema. O estresse, a tensão que me acompanhava dia e noite, enquanto eu tentava não desistir em deixar a minha aparência desleixada e as olheiras à mostra. Eu ainda tinha alguma dignidade. Estar em casos de perseguição de assassinos em série não era exatamente o meu trabalho. Eu era mais especializada em espionagem e tudo o que envolvia esse meio, então naquela manhã, quando meu parceiro me ligou avisando que tínhamos uma localização do assassino, eu me permiti respirar um pouco aliviada. Eu não teria feito isso se eu soubesse como tudo iria acabar, claro. Também não teria reclamado tanto do trabalho no caso, quando ser fugitiva e precisar fugir dos assassinos ao invés de prendê-los era muito pior.
.
Aquela voz irritante ecoou no meu ouvido através da escuta que eu usava. Não respondi por pura implicância, já que aquele idiota sabia que eu odiava que me chamassem assim e eu insistia que ele deveria mudar, mas ele gostava de causar esse efeito sobre mim. A velocidade do metrô diminuiu um pouco e o vagão que eu estava começava a se esvaziar. Olhando ao redor só havia um grupo de pessoas e mais para o fundo, uma mulher com uma criança no colo que não parava de chorar. Respirei fundo pensando comigo mesma que eu só precisava ficar ali até avançar as duas estações seguintes, onde finalmente o assassino entraria e então eu pudesse prendê-lo para acabar com os meus tormentos de noites mal dormidas. Talvez eu até aproveitasse a banheira nova do apartamento que eu mandei colocar. Sim, um banho quente parecia relaxante o suficiente para me acalmar.
. – a voz de insistiu e eu revirei os olhos, ajeitando a minha postura no banco.
– Eu te odeio – murmurei e ele riu, um riso de escárnio e convencido. – Está tudo bem.
Assim que informei, um tiro ecoou através das janelas no momento exato em que o metrô parou na estação seguinte. O choro da criança se intensificou e por puro instinto, eu tinha me abaixado no chão e retirado a minha arma das costas, onde havia ficado escondida. Quando olhei ao redor, tentando ver se não havia ninguém machucado, dois homens passaram pelas portas abertas, ambos armados. A pequena multidão se desesperou quando ele apontou na direção de todo mundo.
continuava me chamando pela escuta, mas eu não estava concentrada para responder e simplesmente retirei-a do meu ouvido. Quando o primeiro homem fez menção de atirar, eu fui mais rápida e mirei certeiro em seu peito, não perdendo tempo em atirar no outro e observando quando os dois estavam caídos ensanguentados no chão.
– Saiam! – ordenei para os passageiros, que não hesitaram nem mais um minuto e se dispersaram para fora do vagão.
Mas a mulher e o bebê permaneceram.
Eu ainda estava tentando entender o que diabos tinha acabado de acontecer, mas nada fazia sentido. O metrô ainda estava parado e me certificando que estava seguro, eu me levantei do chão e caminhei na direção da mulher.
– Senhora? – chamei.
Ela parecia assustada e segurava a menina com firmeza em seus braços, sussurrando algo que eu não entendia, embora a menina só chorasse mais e mais.
– Não posso protegê-la. – a mulher murmurou.
– O que disse? – perguntei.
Eu tinha entendido o que ela disse perfeitamente, eu só não sabia porque ela disse isso. A mulher olhou para mim e assentiu, mas nada nela parecia normal e nem fazer algum sentido.
– Quem é você? – ela devolveu a pergunta.
– Sou a Agente Especial… – tentei dizer, mas ela me interrompeu antes que eu completasse a apresentação.
– Então você pode protegê-la.
Fiquei ainda mais confusa, mas o choro da menina tinha diminuído, com a mulher balançando-a em seu colo. Coloquei a escuta de volta, no momento exato em que me pedia a minha localização, mas não era essa a informação que eu passei.
– Tem algo errado, .
Ele soltou um palavrão baixinho de alívio. Não prestei muita atenção, porque a mulher continuou a falar e era como se eu precisasse decifrar enigmas. E só para um esclarecimento, eu não era boa nisso.
– Por favor, vão vir mais. – disse. – Esse inferno não passa, vão sempre vir mais e…
Ela me entregou a criança e eu peguei sem jeito, surpresa. Precisei deixar minha arma cair no chão para conseguir segurar a menina direito em meus braços, mas eu também não tinha me preparado para o que aconteceu logo a seguir.
Outro tiro ecoou, os estilhaços de vidro caídos no chão, acertando a mulher bem no meio da testa e ela estava morta no mesmo segundo. Eu tinha me abaixado de novo, procurando a minha arma, olhando na direção de onde o tiro veio, mas não consegui uma boa visão.
Dando uma última olhada para a mulher, ouvindo a menina começar a chorar de novo, como se tivesse entendido que a mãe havia acabado de morrer, eu peguei a minha arma e saí do metrô, que ainda estava parado e com as portas abertas; porquê? Eu não sabia.
Eu só passei a andar na multidão, com pressa demais, tentando não derrubar a criança dos meus braços, porque eu era desastrada demais para aquilo. A Estação estava ficando cada vez mais cheia, a multidão sendo atraída pela curiosidade do que tinha acabado de acontecer e quando me chamou mais uma vez, eu respondi.
– Eu não sei o que acabou de acontecer, , mas não vai ser hoje que eu vou prender aquele desgraçado.
Porque, aparentemente, tinha um bebê em perigo.

Capítulo 1 – Zune

Ela dormia como um anjo. Meu corpo inteiro implorava por um descanso como o dela; a cama sussurrava o meu nome e eu estava tentada a me deitar ao lado daquele pequeno ser humano e me afundar em um sono tão profundo quanto. Mas abriu a porta, educado como era, sempre entrando sem bater ou anunciar a sua presença, e era só por isso que eu nem me dava o trabalho de me virar para saber que era ele entrando.
– O que você está pensando? – ele me questionou.
Me virei de frente para ele, parando de observar a menina dormindo e vendo-o colocar algumas sacolas em cima da mesinha improvisada que eu tinha. Meu apartamento não era um luxo; eu só precisava de uma cama, uma cozinha, banheiro, uma TV, e eu tinha todas essas coisas, então para mim bastava.
– Em como eu também queria ser um bebê no momento. – respondi, o desânimo correndo pela minha voz demonstrando o meu cansaço.
Meu parceiro riu, tirando uma barra de chocolate da sacola e veio até mim, me entregando. Não hesitei em abrir e começar a morder as barrinhas pequenas, sentindo até meu corpo relaxar um pouquinho quando senti o gosto do chocolate derreter na minha língua e eu mal me dei conta de que tinha parado atrás de mim e começou a fazer massagem nos meus ombros.
Ele sempre fazia isso e eu nunca reclamava. Não dormíamos juntos, como a maioria dos nossos colegas pensavam, nem sequer éramos envolvidos romanticamente, nós simplesmente tínhamos aquele tipo de intimidade o suficiente para eu permitir que ele me tocasse de modo muito íntimo às vezes.
– Um pouco mais embaixo – pedi, sentindo suas mãos pararem no meio das minhas costas e pressionar a minha pele. – O que descobriu?
– Ainda estão analisando as digitais – me respondeu, um tom de voz baixo demais, mas que eu conseguia entender perfeitamente, uma vez que estávamos muitos próximos. – Sei tanto quanto você.
– Ou seja, nada. – completei, mordendo a barra de chocolate, e me sentindo sonolenta, mas eu não podia dormir agora. Mesmo se eu pudesse, desconfiava que eu não conseguiria. – Você acha que estão atrás dela?
A menina ainda dormia. Não sabíamos nada sobre ela. Seu nome, sua idade, nem se tinha família viva. Depois do ocorrido, encontrei no lugar marcado e contei tudo o que havia acontecido. Mandamos uma equipe de legistas e investigadores para analisar a cena e tentar entender o que aconteceu.
Como a única família da criança tinha acabado de ser morta antes de me passar qualquer informação coerente, optei por trazê-la até o meu apartamento e esperar os resultados das digitais e Philippe decidir o que deveríamos fazer. Ele dava as ordens, eu só as seguia.
– Não tenho como ter certeza – me respondeu. – Do jeito que você falou sobre a mãe, ela parece estar em perigo.
Relaxei com a massagem do meu parceiro e bati nas suas mãos para que ele parasse de me tocar. Estava bom o suficiente e eu estaria bem mais satisfeita se eu conseguisse um banho quente nos próximos minutos antes que eu precisasse resolver alguma coisa nova.
Eu não podia fazer muita coisa senão esperar os resultados preliminares das investigações, mas estava demorando muito e geralmente não demorava tanto assim, mas eu estava cansada demais para questionar alguma coisa. Coloquei o restante da barra do chocolate em cima da mesinha, junto as outras sacolas.
– E o assassino? – questionei.
deu de ombros, sentando-se na beira da cama com cuidado. Eu o bateria se ele acordasse a menina e eu precisasse lidar mais uma vez com ela chorando. Foi difícil o suficiente conseguir acalmá-la.
– O caso foi passado ao FBI.
– Não acredito que eu fracassei a esse ponto – comentei, me sentindo inútil pela primeira vez em muito tempo.
Mas por outro lado, eu tinha me livrado daquele fardo. Torcia para que o FBI tivesse resultados melhores em conseguir captar aquele desgraçado infeliz que sempre escapava pelos meus dedos como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
– Você se importa se eu dormir um pouco? – ele me perguntou.
Mordi meu lábio, encarando-o como se estivesse analisando a pergunta, mas no fim, acabei dando de ombros. Ele já tinha se deitado ao lado da menina, mas virado de lado oposto, ficando de costas para ela.
– Não. – respondi, mesmo que eu não precisasse mais. – Porque você não vai conseguir mesmo.
Ele me mostrou o dedo do meio e eu sorri, aproveitando a deixa para seguir até o banheiro. A banheira estava lá, vazia, e eu liguei a torneira, deixando-a encher com a água morna. Enquanto isso, fui me despindo devagar, sentindo cada parte do meu corpo doer com o meu esforço. Amarrei o meu cabelo em um coque firme e senti o alívio me atingir; encostei a cabeça na beira da banheira, fechando os olhos por um momento, tentando relaxar. Talvez eu conseguisse cochilar por alguns minutos, apesar da minha dificuldade para dormir nos últimos dias. Eu andava muito tensa, mesmo. Todo o caso tinha me levado ao limite do estresse e eu ainda não tinha encontrado uma forma de me aliviar, mesmo minha médica receitando alguns remédios, eu não gostava de recorrer a eles se eu tivesse alguma outra opção antes. Todo dia, antes do meu horário de trabalho, eu passava na sala de treino e tentava extravasar. E ajudou, por um tempo. Não percebi que eu tinha mesmo cochilado, quando acordei de repente, ouvindo um choro infantil e uns bipes irritantes soar do quarto. Terminei o meu banho o mais rápido que eu podia, saindo da banheira enrolada na toalha e esfreguei o meu rosto com as mãos agressivamente, na tentativa de me despertar.
estava em pé, com a menina no colo, andando de um lado para o outro, como se quisesse fazer ela parar de chorar. Não estava funcionando.
– O que aconteceu? – perguntei.
Andei até os nossos celulares, vendo que os bipes eram as mensagens de urgência que a Agência nos mandava e silenciei sem ler nada. Eu tinha tempo para isso.
– Eu não sei – ele respondeu. – Ela acordou chorando.
Olhei o relógio, percebendo que já era noite e que estava ficando tarde. Eu não tinha dormido tanto assim, não teria conseguido, mas pelo menos serviu para me deixar um pouco mais desperta do que sonolenta, porque eu consegui raciocinar sem nenhuma dificuldade o motivo da garota estar chorando tanto.
– Ela está com fome.
parou de andar, encarando a menina nos próprios braços, sua expressão reflexiva, e então seus olhos espertos voltaram para mim.
– Eu não tinha pensado nisso – admitiu.
– Como se eu estivesse surpresa – murmurei.
– Eu ouvi.
Dei de ombros e fui até o mini guarda-roupa que eu tinha, puxando uma calcinha e vestindo-a por debaixo da toalha. Em seguida, puxei uma calça e uma camisa, vestindo-a e joguei a toalha em um canto qualquer, pegando o meu celular em seguida.
Verifiquei todas as notificações, ainda ouvindo o choro da criança. Abri a primeira mensagem mais importante.
– Estão com os resultados – informei ao meu parceiro. – Precisamos ir para a Agência.
– Podemos resolver esse problema aqui primeiro? – ele apontou com o queixo para a menina no braço e eu revirei os olhos, guardando o celular na calça.
Andei até a porta, abrindo-a e tinha certeza que ele não sabia o que eu estava fazendo e muito provavelmente pensasse que eu estava fugindo, mas a minha vizinha da porta da frente tinha duas crianças pequenas, então deduzi que ela sabia certamente como alimentar um bebê com fome. Dei duas batidinhas na porta, ouvindo o som distante do choro da menina nos braços de e não demorou um minuto inteiro para que a porta fosse aberta, revelando uma mulher que claramente estava cansada.
– Oi, Cris – murmurei, com um sorriso gentil, me compadecendo do seu cansaço. Não era pelo mesmo motivo, mas cansaço é cansaço, certo? – Eu queria te pedir um favor.
Contei a ela bem por cima o que tinha acontecido para explicar porquê eu tinha um bebê com fome no meu apartamento e tive que esperar ela fazer uma mamadeira de leite morno para eu entregar à . No meio tempo esperando, me certifiquei de ficar bem longe das duas crianças dela, que estavam destruindo toda a casa brincando. Eu não odiava crianças. Gostava delas. Mas não achava que eu tinha um jeito certo de lidar com elas. Meu instinto maternal nunca apareceu e eu esperava que continuasse assim. Lidar com o trabalho que eu tinha e com uma criança no mundo era até demais. Quando Cris apareceu com a mamadeira de leite, eu agradeci, aliviada. Voltei para o meu apartamento, mas estranhamente tinha conseguido acalmar a menina e agora ele estava sentado na cama, com ela deitada no seu colo e eu via a baba dela escorrendo do sorriso.
Pigarreei, atrapalhando o que quer que ele estivesse fazendo. Ele levantou os olhos na minha direção e encarou a mamadeira que eu o mostrava. Andei até ele e entreguei, para que ele alimentasse a menina logo e fôssemos para a Agência antes que ficasse tarde demais. Eu ainda queria estar de volta antes da madrugada.
– Não achei mesmo que fosse insensível a ponto de deixar a Zune com fome.
Estreitei os olhos para o que ele tinha dito e me perguntei se eu tinha ouvido certo as suas palavras.
– chamei, um tom sério e controlado de voz. A menina parecia estar satisfeita por estar sendo alimentada. – Você acabou de dar um nome para ela?
Meu parceiro me olhou de novo. Ele segurava a mamadeira da menina, enquanto ela tomava todo o leite tranquilamente e me encarou por alguns segundos, enquanto eu esperava a resposta da minha pergunta.
– Eu não aguentava mais ela sem um nome. – se justificou.
– Zune?
– Não é bonito?
, eu vou te bater – ameacei, mas como ele estava com uma criança no colo, desisti. – Você não pode se apegar à ela. Provavelmente, ela será mandada para alguém ainda hoje.
– Eu não estou apegado – se defendeu.
– Você é um mentiroso.
Deixei meus ombros caírem, afastando a irritação que eu tinha adquirido nesse meio tempo. Eu queria muito não me estressar de novo e só queria uma solução para aquele caso que parecia ser mais um que me tiraria o sono. Eu precisava de um descanso, pelo amor de Deus.
– Temos que ir.
Peguei o celular dele e a chave e fiz menção para ele se levantar logo. segurou a menina com jeito e passou pela porta primeiro e eu fui em seguida, trancando-a. O elevador não demorou muito para chegar no meu andar, então entramos em silêncio, enquanto eu sentia meu celular vibrando no bolso. Apertei o botão do térreo e esperei chegar. Assim que as portas do elevador se abriram e nós três saímos, eu olhei para a portaria, onde havia três homens discutindo com o porteiro. Teria sido uma cena normal, se eu não tivesse notado que os três, sem exceção, estavam armados.
– chamei, fazendo ele parar de andar e apontei com a cabeça para onde eu estava olhando.
respirou fundo.
– Escada de emergência?
– Por aqui. – me virei, andando na frente para que ele pudesse me seguir.
Mas eu devia estar com algum tipo de má sorte, porque esbarrei com uma mulher que estava segurando taças de vidro e como consequência, todas se espatifaram no chão. Soltei um xingamento baixinho.
– Mil desculpas! – a mulher exclamou.
Neguei com a cabeça rapidamente, indicando que estava tudo bem e que na verdade a culpa tinha sido minha e por mais que eu apressasse para que ela me deixasse ir embora, ela continuava pedindo desculpas.
. – chamou.
Quando olhei para trás, os três homens tinham notado a gente estavam vindo na nossa direção, apesar dos protestos do porteiro.
Puxei meu parceiro na direção das escadas no momento em que o primeiro tiro foi dado e a gritaria tinha começado. Empurrei a porta de emergência, deixando descer na frente, já que estava com a menina, que tinha recomeçado a chorar. Passei a mão na minhas costas, onde eu geralmente guardava a minha arma, mas percebi que tinha esquecido.
– Você trouxe a sua arma? – perguntei.
Continuamos correndo, descendo as escadas com o máximo de cuidado que podíamos. Eu podia ouvir os passos e as vozes dos homens que estavam atrás de nós e quando me estendeu a sua arma, peguei sem hesitar.
Não demorou muito para que chegássemos ao estacionamento. Mas quando começamos a correr no meio da pista, procurando o carro do meu parceiro, eles passaram pela porta.
– Ligue o carro! – gritei para .
Ele segurou Zune com mais firmeza nos braços, mesmo que ela estivesse ainda chorando e eu tentei mirar nos homens. Eles atiraram primeiro e fui pega de surpresa quando o tiro atingiu a minha perna e eu gemi de dor. Me escondi atrás de um carro, tentando dar cobertura para que encontrasse o seu carro e o ligasse de uma vez. Minha perna doía e eu sentia o sangue escorrer, mas consegui acertar um deles, agora caído no chão. Ouvi me chamando e tentei abrir caminho até ele, conseguindo desviar de outro tiro que foi disparado. Quando corri até o meu parceiro, acertei mais um no caminho, deixando somente um para me livrar. Cheguei até o carro que ele estava e já estava lá dentro com a Zune, no banco passageiro. Entrei do outro lado, girando a chave e ligando o carro, apertando no acelerador e dando partida. O filho da puta lá atrás ainda tentou atirar, quebrando o vidro da parte de trás, mas consegui ser rápida o suficiente em sair do estacionamento. Fui dirigindo em uma velocidade alta até eu ter certeza que não estávamos sendo seguidos e diminuir.
– Você está machucada. – ouvi a voz de dizer e quando ele tocou na minha perna, soltei um gemido de dor.
Notei que Zune tinha parado de chorar e estava com a cabeça deitada no ombro de .
– Vou sobreviver. – respondi.
Meu parceiro me encarou, como se estivesse pronto para dizer algo, mas abriu a boca e fechou logo em seguida. Aparentemente, o que quer que ele fosse dizer, tinha desistido. Ele soltou um suspiro e eu joguei a arma para o banco traseiro, de repente me dando conta de uma coisa.
– Para onde nós vamos? – questionei, mantendo meus olhos na estrada.
Mesmo que eu não o olhasse, sabia que sua testa se franziu em confusão.
– Não podemos ir para a Agência. Se eles encontraram onde eu morava, vão nos encontrar lá também – respondi, antes que ele falasse.
não respondeu. Ficou em silêncio por alguns segundos.
Eu podia ir para a Agência e deixar que outros resolvessem aquele caso. Podia pedir férias adiantadas porque eu estava mesmo precisando descansar. Mas agora eu estava intrigada o suficiente para surgir em mim a necessidade de proteger aquela menina. E a julgar pelo silêncio do meu parceiro, soube que ele tinha chegado à mesma conclusão.
– Eu tenho um lugar.

Nota da autora: Olá para você que deu uma chance a essa história! Espero que tenha curtido, porque eu estou muito empolgada em voltar para esse mundo da escrita.
Qualquer coisa você pode entrar em contato comigo pelo twitter: @aurocarstairs.

 

Capítulo 2 – Fugitivos

Não consegui dirigir a noite toda. Em algum momento, eu e trocamos de lugar, e eu fiquei segurando a menina com cuidado, enquanto ela dormia nos meus braços. Tivemos que fazer uma parada forçada em uma farmácia e meu parceiro comprou os itens necessários para conseguir fazer um curativo que pelo menos estancasse o sangue, já que eu estava quase perdendo a consciência por estar me sentindo fraca demais. Ele tinha insistido para me levar a um hospital, mas teriam perguntas demais e seríamos facilmente localizados, então eu recusei. Com o curativo feito em minha perna e um cochilo de algumas horas, fui acordada com cutucadas leves e percebi que já tinha amanhecido e ele tinha estacionado em frente a uma casa, cujo jardim era enorme.
– Onde estamos? – questionei, mas ele não me respondeu.
Só abriu a porta do carro e saiu do banco do motorista, me deixando falando sozinha. Resmunguei contrariada com tamanha má educação da parte dele, mas saí do carro também e com o movimento, Zune também acordou.
já estava na porta da casa e eu só vi uma mulher parada, abraçada a ele em seguida e eu me movi lentamente até eles, já que fazer esforço aumentava a dor da minha perna cinco vezes mais. Quando soltou a mulher, ele veio até mim, que já estava perto e tirou Zune dos meus braços. Não expressei o meu alívio por isso, mas sem o peso de um bebê nos braços, eu consegui não colocar tanta força na perna esquerda, onde estava o ferimento.
, essa é a Laila – ele me apresentou e eu tentei sorrir para a mulher, porque ela tinha um sorriso simpático e caloroso na minha direção e quando fez menção de me abraçar, impediu. – Ela está machucada.
Laila notou o ferimento da minha perna e fez uma expressão de horror.
– O que aconteceu? – questionou. A pergunta não foi especificamente para mim ou para , mas nenhum de nós respondeu e ela bufou. – Entrem logo.
Agradeci baixinho e entrei sem cerimônia nenhuma. Eu não sabia quem era aquela mulher ainda, mas eu não era tão burra a ponto de não notar a semelhança entre eles e era notório que eram irmãos. Embora eu não soubesse que meu parceiro tinha uma irmã.
– Eu vou colocá-la com Annabelle. E você – me virei na direção dela, vendo-a apontar para mim com Zune nos braços. Não percebi o momento em que ela a pegou a menina de . – Sente-se no sofá que eu vou limpar isso.
Apontou para o sofá e em seguida para o meu ferimento, sumindo pelas escadas em seguida. Meu parceiro me encarou e eu me sentia tonta, mas mesmo assim, segui para o sofá, onde me sentei com o maior prazer, já que ficar em pé estava exigindo de mim um esforço enorme.
– Ela é enfermeira. – me informou e eu assenti, sentindo-o se sentar ao meu lado.
Não era a primeira vez que eu tinha levado um tiro, mas cada vez era pior que a outra.
Senti segurar a minha mão e tocar a minha testa, verificando que eu estava suando frio. Provavelmente eu também estava quente, o que era normal considerando a gravidade do meu ferimento e que eu ainda estava com a bala dentro da minha pele. Era a parte que eu mais odiava do trabalho.
– Laila vai cuidar de você. Depois vamos descansar um pouco e decidimos o que fazer depois, ok? – ele me apresentou as opções.
– Ela sabe? – perguntei, com a voz baixa.
– Que nós temos um caso? – brincou, o seu sorriso tentando amenizar a situação e eu revirei os olhos. – Claro que não.
– Continue tentando.
Ele gargalhou e eu me senti melhor ao ouvir o som da sua risada. passava por muita coisa, e algumas delas eu não entendia, mas ficava aliviada quando ele demonstrava aqueles pequenos sinais de que estava indo tudo bem. Nossa parceria tinha sido a melhor coisa que aconteceu para mim. Eu estava prestes a fechar os olhos quando ouvi a voz de Laila, mas a aquela altura, eu não estava entendendo muita coisa com sentido. Eu só me sentia cada vez mais tonta e mole, os dedos de apertando os meus, mas eu não tinha força para devolver o gesto. Por fim, eu acabei desmaiando antes mesmo da irmã dele aplicar a anestesia.

***

Abri meus olhos devagar e gemi involuntariamente quando mexi a minha perna sem querer. Quando pareci mais desperta, olhei ao redor, notando que eu estava sozinha e tentei me levantar, com uma careta expressando o quanto aquilo estava sendo desconfortável, mas consegui me manter sentada, com as costas apoiada na parede da cama. O quarto tinha uma decoração simples e eu não conseguia adivinhar de quem era. Talvez fosse simplesmente um quarto de hóspede.
– Que bom que acordou.
entrou no quarto e eu o recebi com um sorriso ao perceber que ele vinha carregando uma bandeja de comida e eu não tinha notado até agora o quanto eu estava com fome. Não tinha comido a noite inteira e isso me fez pensar na Zune, que era a mais importante em ser alimentada. Eu ia abrir a boca para perguntar, mas não precisei, porque Laila entrou em seguida com as duas mãos na cintura, uma expressão séria. Lembrava a minha mãe quando estava prestes a me dar uma bronca.
– Vocês não alimentam essa menina? – ela perguntou, adivinhando o que eu estava pensando.
– A culpa é dela. – não hesitou em apontar para mim e eu estreitei os olhos na direção dele, indignada pela traição.
– Canalha – murmurei. Voltei a olhar para Laila e encolhi os ombros, como se eu fosse mesmo a culpada. – Eu sinto muito. Nós esquecemos. Estávamos fugindo de…
Ela nem mesmo me deixou terminar.
– Não me importa de quem é a culpa. Ela precisa comer pelo menos de 4 em 4 horas. – reclamou. – Estamos entendidos?
Olhou de para mim e quando assentimos, ela descruzou os braços da cintura e deu um sorriso simpático para mim.
– Que bom que está bem, querida. – assenti, acenando em agradecimento mudo.
Ela olhou feio para o irmão e saiu logo em seguida. revirou os olhos e caminhou até mim, se sentando na cama o mais próximo que podia, por causa da minha perna. Não doía tanto quanto antes agora, mas ainda latejava.
– Enquanto você dormia, eu tentei cozinhar a sua coisa favorita. – ele disse, colocando a bandeja com cuidado do meu lado.
Observei as opções. Tinha um copo de suco de laranja, um cacho de uva e brownie de doce de leite. Minha comida favorita.
– Experimente. – ele pediu.
Fiquei com água na boca e não hesitei em atender o seu pedido. Peguei o pedaço de brownie e mordi um pouco, mastigando, mas engoli com uma careta desgostosa e devolvi o resto do brownie à bandeja.
– Meu Deus, – soltei uma risada, limpando a minha boca. – Isso está péssimo.
Ele me olhou com uma expressão ofendida.
– Não posso ter ficado duas horas na cozinha para nada, mulher.
– Bom, então experimente você.
Ele me olhou desconfiado, mas como eu tinha praticamente o desafiado, ele pegou um pedaço e mordeu também. Sua careta me comprovou que eu estava certa.
– Um dia eu acerto.
Balancei a cabeça, rindo. Ele era simplesmente péssimo na cozinha, mas eu sempre lhe dava o benefício da dúvida toda vez que ele preparava algo na esperança que ele pudesse ter melhorado. Infelizmente, suas tentativas pareciam piorar a cada vez que ele decidia cozinhar.
– De qualquer forma, obrigada. – olhei-o com carinho e recebi um aperto na minha perna boa.
me ofereceu o copo de suco e eu aceitei, bebendo até a metade. Ouvi os apitos dos nossos celulares e observei ele se levantar para ir pegar. Eu tinha até esquecido que tinha conseguido resgatar os nossos aparelhos, mas esqueci de muita coisa durante a noite inteira.
– Que horas são? – perguntei.
Quando um agente sumia, a ASME tinha a regra de esperar 24h por um contato e se depois disso não surgisse nada, eles eram obrigados a nos contatar e rastrear.
– Fim de tarde.
Meu parceiro me entregou o meu celular e quando abri a barra de notificações, estava cheio de mensagens de diversos destinatários, mas me concentrei nas mensagens importantes que envolvia a Agência.
– Ainda não deu vinte e quatro horas – comentei, me sentindo agitada. As mensagens nada mais indicavam sobre os resultados das investigações, mas não era isso que estava me chamando a atenção, era eles estarem vindo até nós sem que eu ou iniciasse o protocolo de resgate. – Por que eles estão vindo até nós?
– Eu não sei – ele me respondeu.
levantou, indo até a janela, observando algo. Engoli a seco ao notar a sua expressão. Não deveria ser uma coisa ruim eles estarem vindo, mas eu não estava com uma sensação boa. E geralmente, não gostava de ignorar a minha intuição.
– Eles não estão vindo – disse. – , eles já estão aqui.
– Quantos?
Me forcei a levantar da cama, aliviada que eu me sentia melhor e mais forte do que eu estava antes, mas não conseguia andar completamente ainda. Eu precisava ser cuidadosa se eu não quisesse que o esforço fizesse minha perna voltar a sangrar e eu fosse precisar ser medicada de novo. Já foi sorte o suficiente a irmã de ser enfermeira e eu não ser forçada a ir para um hospital, onde eu seria coberta de perguntas e atrairia atenção indesejada. Meu parceiro balançou a cabeça, indicando que não conseguia saber quantos dele estavam ali na frente da casa. Calcei os meus sapatos, notando que eu estava com um vestido e imediatamente soube que era de Laila.
– Vá atendê-los – falei. – Eu vou atrás da sua irmã.
Ele assentiu.
– Terceiro quarto à esquerda.
E saiu do quarto. Eu fui logo em seguida, andando até o terceiro quarto que ele tinha indicado e quando entrei no mesmo, tinha uma garota de mais ou menos cinco anos de idade, ajoelhada no chão perto da cama, enquanto Laila segurava Zune deitada nas pernas e ela sorria.
– Desculpa atrapalhar – murmurei, indicando a minha presença e Laila levantou os olhos na minha direção. – Acredito que eu e precisamos ir.
Seu olhar tinha perguntas, mas por algum motivo, ela não os fez. Simplesmente fez um aceno de cabeça para a mais velha, que levantou do chão e pegou uma bolsa do outro lado do cômodo. Laila levantou com Zune nos braços e entregou-a para mim. Em seguida, me estendeu uma bolsa grande.
– Eu tinha roupas guardadas da Annabelle quando era pequena e coloquei para ela – indicou a Zune com um sorriso. – Tem tudo o que ela precisa e mamadeiras prontas para quando ela estiver com fome.
Assenti.
– Obrigada, Laila.
– Não por isso – seu sorriso foi gentil. – Se cuidem.
Eu estava prestes a responder, quando um barulho de algo caindo chamou a nossa atenção. Laila pediu que Annabelle se escondesse e eu peguei a bolsa, colocando-a sobre o meu ombro e segurei Zune com força demais, caminhando com cautela e descendo as escadas com Laila atrás de mim. Quando cheguei na sala, tinha dois homens caídos no chão e estava com um machucado no rosto, segurando a arma de um deles.
? – foi Laila quem chamou.
– Estão só desmaiados – ele respondeu, mas olhou para mim. – , eles querem levar a menina.
– Eu entendo isso, mas…
Ele não me deixou completar.
– Não, você não entendeu – apressou-se em dizer, indo até a janela e olhando escondido para o que quer que fosse lá fora. – Tem algo errado.
Pisquei meus olhos, tentando compreender se eu estava mesmo certa em ter a sensação ruim sobre aquela situação.
olhou para mim e apontou para um dos homens desacordados no chão.
– Esse é Ryke Folk. E caso isso não refresque a sua memória, ele é um dos contatos anônimos de Philippe.
Puxei a respiração, distraída por mãos pequenas tocando as minhas bochechas. Alguém queria brincar aqui, mas eu não tinha tempo.
– Ele só é contatado quando precisa limpar alguma sujeira que a Agência não pode lidar – continuou a explicar. – Seja lá para quê querem a menina, , não é para proteger.
Barulhos do lado de fora nos deixou despertos. se aproximou de onde eu e sua irmã estávamos e eu desviei das mãozinhas da Zune.
– Laila, tem algum jeito de sairmos daqui? – ele perguntou, com pressa.
Ela balançou a cabeça ligeiramente.
– Há um carro na garagem. – respondeu. Observei ela se afastar e voltar com uma chave. – Aqui está. Podem sair por trás.
Deixei eles se despedirem, agradecendo mais uma vez pelos cuidados e a hospitalidade e fui na frente, entrando na cozinha e acessando a porta que levava à garagem. Havia um porsche preto estacionado e eu fui direto para o banco passageiro, colocando o cinto e a bolsa no banco de trás, tentando deixar a menina segura em meus braços também. Não demorou muito para que meu parceiro entrasse no banco ao meu lado e ligasse o carro rapidamente. Quando olhei pelo retrovisor, Laila estava lá, apertando algum botão que abriu a porta da garagem, nos deixando pronto para sair.
– Seu celular? – perguntei, já que eu tinha esquecido o meu.
Ele tirou o aparelho do bolso e me entregou e eu joguei pela janela. respirou pesado e pisou no acelerador, dirigindo como um louco.
– Tudo bem, Zune. – murmurei, abraçando-a. – Está tudo bem.
Mas estranhamente, ela estava calma e soltou uma risadinha. Eu sabia que ela não entendia o que estava acontecendo, mas não imaginava que ela fosse ficar tão calma.
O vidro da parte de trás do carro se estilhaçou e eu protegi a menina com meu abraço, escutando vários tiros ecoarem, enquanto tentava despistá-los. Quando parecíamos estar longe e me certificando que não estávamos sendo seguidos, endireitei minha postura sobre o banco. Zune ainda estava calma, para o meu alívio.
– Vá para casa do Simon – falei para , minha respiração desregulada. – Precisamos retirar o nosso rastreador, ou vão nos encontrar novamente.
Ele assentiu.
E agora eu estava mais do que disposta em descobrir para onde ou o quê todo aquele caso me levava e porque um bebê era o centro disso tudo.

Nota da autora: Oi, oi! Espero que estejam curtindo a história! Está sendo ótimo escrever ela e me distrair nessa quarentena. Não esqueça de comentar, não leva nem dois minutinhos! Qualquer coisa, você pode entrar em contato comigo pelo twitter: @aurocarstairs. Um beijo!

 

Capítulo 3 – Simon


Doeu pra caralho retirar os rastreadores. Eu tinha parado na farmácia para comprar os itens que precisávamos para conseguir tirar, mas não tinha morfina. Primeiro eu deixei que fizesse o corte no meu braço e retirasse o mini chip que havia dentro, fazendo um curativo logo em seguida. Cortar a pele doía e enfiar os dedos para encontrar aquela porra de rastreador era uma tortura pior ainda. Nós ficamos estacionados de frente para um bar falido qualquer, e deixamos Zune no banco de trás com o cinto de segurança, impedindo que ela caísse. E então foi a minha vez de cortar a pele do braço da minha parceira e quando eu via suas caretas de dores, tentando não gritar tão alto pelo desconforto, eu decidi que se algum dia nós voltássemos para aquela Agência, não iriam colocar aquilo dentro de nós de novo. Terminei o curativo nela e encarei os bancos e o chão do carro manchados de sangue.
– Vamos arranjar outro carro.
Ela concordou com um aceno de cabeça e abri a porta, saindo. Peguei a menina no banco de trás, enquanto ela pegava a bolsa e caminhamos em busca de um outro transporte, porque aquele já estava comprometido, uma vez que fomos vistos sair. E agora que tínhamos nos livrado do rastreador e não tínhamos celular, só precisamos dar um jeito de conseguir chegar até Simon. Sem um meio de nos encontrar, teríamos um tempo para seguir a nossa própria investigação.
– Ah, minha nossa – abanei o ar na minha frente, sentindo o mau cheiro invadir a minha narina.
– O quê? – perguntou, parando de andar e se virando para mim.
Apontei para Zune e para a fralda dela e vi o sorriso nascer nos lábios da minha parceira e eu soube o que significava. Tinha sobrado para mim, claro.
– Devíamos nos revezar, sabia? – retruquei, apontando um dedo em riste para ela.
– Não conte comigo.
Fingi que não ouvi a sua falta de colaboração e olhei ao redor. Nossa melhor chance de trocar a fralda de uma criança era entrar naquele bar, que parecia entregue às moscas. fez uma careta, mas deixou claro que não tínhamos muita escolha, então entramos juntos. Estava quase vazio, exceto por dois homens que, a julgar pela aparência desleixada, não viam banho ou sol há muito tempo.
– Esse fim de mundo tem banheiro? – minha parceira questionou e eu engasguei um riso.
! – ralhei com a voz baixa e ela me lançou a melhor expressão de “O quê?!” que ela sempre fazia quando sabia que estava aprontando, mas não conseguia controlar.
– Desculpem pela minha parceira, ela queria ter sido mais educada – cutuquei as costas dela para que ela ficasse quieta assim que eu a vi abrir a boca para me retrucar. – Nós podemos usar o banheiro?
O mau cheiro só piorava e eu estava torcendo que eles permitissem, porque eu não aguentaria Zune muito tempo nos braços com a fralda suja. Seria um castigo sem tamanho.
Os dois homens deram de ombros depois de trocarem um olhar e apontaram para os fundos, voltando a fazer sei lá o quê. Caminhei com ao meu lado e eu não sabia o que era pior. O mau cheiro do banheiro ou o da Zune.
– Céus – minha parceira murmurou. – Vou querer uma indenização psicológica quando tudo isso acabar.
Soltei uma risada, empurrando a porta. Era um banheiro minúsculo. Havia um batente pequeno o suficiente para caber a menina deitada, enquanto eu a limpasse.
– Você não pode deitá-la nessa sujeira – disse.
– Eu sei. Segure ela – entreguei a menina para os braços dela, que segurou.
Tirei a minha camisa, colocando em cima do pequeno batente e peguei Zune de volta, deitando-a somente em cima da camisa, impedindo que ela tivesse contato com a sujeira de fora. se afastou, e estranhamente, eu sentia o seu olhar em mim, mas ignorei. Só me concentrei em limpar a menina, que parecia mais agitada que o normal, balbuciando coisas sem sentidos e fui instruindo para que minha parceira retirasse somente o que eu precisasse da bolsa. Joguei a fralda suja no lixo com uma careta e coloquei outra limpa nela, ajeitando o seu vestido. Não demorou mais do que cinco minutos em que ficamos presos ali. Agradecendo aos dois homens, nós saímos do bar. Andamos um pouco até um estacionamento pequeno de um supermercado.
– Não tem câmeras. – constatou.
Olhei ao redor, observando que o movimento estava fraco também. Exceto por um casal logo à frente, não seríamos pegos se fôssemos rápidos.
Quando procurei a minha parceira com os olhos, ela já tinha sido mais rápida do que eu e quebrado a janela de um carro, que a julgar pela sua escolha, chamaria menos atenção. Assim que ela conseguiu abrir a porta, e por algum milagre, o carro não soou o alarme, esperei para ver se ela conseguiria ligar o carro através dos fios.
– Entre logo. – ela mandou.
Abri a porta do passageiro e entrei com Zune nos braços, que lambia a própria mãozinha pequena e babava na minha pele exposta. Eu tinha jogado a camisa fora, resolvendo não arriscar em pegar doenças desconhecidas depois de ter usado para forrar aquela bancada suja. não perdeu tempo em dar partida e logo estávamos na estrada.
O silêncio recaiu sobre nós, exceto pelo barulho que a menina fazia com a boca. Eu me sentia exausto, mas toda vez que pensava em dormir, eu lembrava dos pesadelos que tinha e às vezes preferia não ceder à tentação de um bom sono. Eu também sabia que tinha percebido isso, mas não sabia porque ela não tinha tocado no assunto ainda. Parecia um código entre nós não tocar em assunto pessoal um do outro. E enquanto ela não fazia isso comigo, eu não fazia com ela.
– Você tinha me perguntado se a Laila sabe. – comecei a falar, vendo ela assentir devagar. – Ela não sabe tudo, todos os detalhes. Ela sabe que é perigoso, mas mesmo assim, não pergunta.
continuou mantendo os olhos na estrada.
– Você pediu que ocultasse que você tem família? – me questionou.
– No começo, não. – respondi, depois de alguns segundos de silêncio.
Eu não sabia se ela tinha conhecimento de que eu já fui casado. Nunca tinha contado, mas era fácil descobrir sobre alguém dentro da Agência, se fizesse as perguntas certas.
– O que aconteceu?
desviou os olhos para me olhar por um momento. A estrada estava calma e não estávamos muito longe da localização de Simon.
– Pessoas erradas.
Foi tudo o que eu respondi. Não me sentia preparado para conversar sobre isso ainda, não com ela. E talvez, não com ninguém. Era uma dor que eu levava sozinho, com mais maturidade agora, mas não queria compartilhar e relembrar de tudo.
– Você não tem família? – tentei mudar de assunto.
Zune balbuciou de novo no momento em que ela me encarou. Um sorriso pequeno surgiu no canto dos seus lábios. Talvez fosse impressão, mas era um sorriso melancólico, embora sincero.
– Eu tenho você.
Duas horas depois, ela estacionou o carro duas quadras antes da casa de Simon. Achamos mais seguro nos livrar do automóvel antes que alguém se desse conta que foi roubado e os agentes chegassem até nós novamente. Eu ainda tentava juntar as peças. Não fazia sentido nenhum eles terem sido mandados para nos atacar. Queríamos a mesma coisa, não era?
– Eu estou morrendo de fome. – reclamou. Continuei andando ao seu lado, só mais uma quadra. Zune resmungou algo inaudível e minha parceira olhou para ela. – Ah, meu Deus. Você também.
Droga. Tínhamos esquecido de alimentar a coitada de novo e ainda bem que Laila não estava aqui, ou eu seria obrigado a escutar um esporro de mãe preocupada. Tudo estava uma bagunça tão grande que lembrar de alimentar um bebê de poucos meses parecia um grande esforço. tirou da bolsa uma mamadeira com leite pronto, agitando no ar, vendo Zune quase pular do meu braço para agarrar o seu alimento.
– Já estamos chegando, Zune. – ela murmurou.
Encarei-a.
– O que você disse?
– Que já estamos chegando.
– Não isso – neguei. – Você a chamou pelo nome. Você reclamou comigo por isso e agora está chamando-a pelo nome?
Ela mexeu os lábios de um modo sedutor. Bom, sedutor para mim, porque com certeza ela não tinha consciência disso. Atravessamos a última rua e entramos em um bairro que parecia quase deserto e era justamente por isso que Simon tinha se enfiado ali. Quase no fim do mundo.
– Eu achei que teríamos que entregar ela na mesma noite – se defendeu, dando de ombros para demonstrar o seu descaso com o meu argumento. – E Zune é um nome muito… apropriado.
Soltei uma risada, beliscando a sua cintura, recebendo um olhar de reprovação e eu me afastei.
– Viu, Zune? – conversei com a menina, que me olhou na menção do nome. – Parece que alguém está se apegando a você também.
– Não seja idiota. – ela murmurou.
Paramos em frente a uma casa grande, com decoração simples e jardim descuidado. Balancei a cabeça e acompanhei , que foi logo na frente, batendo três vezes na porta sem perder tempo. Em menos de um minuto, Simon apareceu. Ele abriu a boca e sua expressão irritada se suavizou ao perceber que éramos nós parados ali.
– Você viu um fantasma? – o chutou.
Ele resmungou um “ai”, seguido de um “bruta” e logo a abraçou, dando espaço para que ela entrasse primeiro.
– Por que você está com um bebê nos braços e sem camisa? – me questionou, os olhos levemente curiosos. Ele ajeitou o óculos no rosto e se afastou para me dar espaço e eu entrei.
– Longa história.
– Eu tenho tempo. – Simon disse.
Ele trancou a porta atrás de si. Aproveitei que a minha parceira tinha se sentado no sofá e andei até ela, entregando Zune no seu colo, indicando a mamadeira que ela segurava. Não dei brecha para ela reclamar, então ela revirou os olhos, ajeitou a menina no colo e colocou a mamadeira na boca dela, alimentando-a.
– Vocês já se livraram da tensão sexual? – Simon perguntou, apontando para nós dois descaradamente.
– Você já deixou de ser inconveniente? – retrucou, arrancando uma risada dele.
– Então? – ele tentou, se virando para mim.
– Não. – respondi.
Era uma pergunta simples, com uma resposta simples. Eu e também nunca tocamos nesse assunto. Ela continuou calada, fingindo que eu não respondi nada e alternou a sua atenção para a menina em seu colo, de repente, achando-a bastante interessante de observar.
– Simon, precisamos de uma ajuda – usei um tom de voz sério e ele me observou dos pés a cabeça, parando por alguns segundos no curativo em meu braço e em seguida, observou , também parando no curativo do braço e da perna dela.
– O que aconteceu?
E contamos a história toda. Ele ouviu tudo em silêncio, pedindo que eu me sentasse do outro lado do sofá, enquanto ele sentou-se na poltrona menor. Vez ou outra, ele fazia uma careta ou ajeitava o óculos sobre o rosto de novo, alternando o olhar entre eu e – Zune, que agora dormia. Não percebi o quanto eu estava cansado até ter terminado de contar tudo.
– Certo. – Simon disse. – Isso é péssimo.
– Não me diga. – ironia escorreu no tom de voz da minha parceira e nosso amigo a ignorou.
– Vocês querem me fazer invadir um servidor e acessar informações secretas?
– Sim – respondi. – Tenho certeza que bloquearam o nosso acesso.
Simon era um hacker habilidoso. Ele conseguia hackear qualquer coisa sem ser pego por isso, e era a nossa melhor opção no momento. Invadir o servidor da Agência era a única maneira de eu e conseguir o acesso aos arquivos da investigação sobre Zune. E descobrir o que eles sabiam.
– Vai levar um tempo. – Simon aceitou.
Olhei para e assenti, concordando.
– Nós esperamos. – falei. – Podemos descansar?
Simon levantou-se da poltrona, ajeitando o óculos mais uma vez.
– Qualquer quarto lá em cima está livre. – ele informou. – Vou pedir algo para comer.
foi a próxima a se levantar e eu a acompanhei.
– Obrigada, Simon – ela disse, dando um sorriso cansado ao garoto. – Senti sua falta.
Ele balançou a cabeça e deixou ela subir as escadas com a menina dormindo em seu braço. Peguei a bolsa que ela deixou no sofá e caminhei, parando na frente de Simon antes de seguir as escadas.
– É importante que não saibam que estamos aqui.
– Não se preocupe. – ele deu um tapa leve no meu ombro, tranquilizador. – Não podem rastrear o meu servidor.
– Obrigado.
Ele dispensou o meu agradecimento com um aceno e eu subi, procurando qual foi o quarto que escolheu. Andei até o último do corredor, vendo a porta entreaberta. Ela tinha colocado Zune na cama e estava sentada, olhando-a dormir. Deixei a bolsa em uma poltrona pequena que tinha ali e andei até a minha parceira, minhas mãos pousando em seus ombros e costas, iniciando uma massagem. Uma mania que eu gostava de ter e que ela nunca reclamava.
– Tensão sexual?! – ouvi ela perguntar, com um ultraje na voz e eu tentei não rir muito alto.
Apertei os ombros dela com um pouco de força, olhando Zune dormir.
– Ele percebe as coisas. – respondi, provocando.
Ela beliscou a pele da minha mão.
– Não há tensão sexual.
Abaixei a minha cabeça perto o suficiente de seu rosto. Beijei a sua bochecha delicadamente, por pura provocação e em seguida, desci o beijo pelo seu pescoço exposto, vendo ela pular de surpresa.
– Continue se enganando.
Me afastei dela, pronto para ir direto ao banheiro e finalmente ter o prazer de um banho morno. Precisava relaxar e afastar a ideia de que eu não podia alimentar seja lá o que houvesse entre nós. Tocar me deixava quente de um jeito que eu não ficava há tempos e eu não tinha pensado sobre tensão sexual nenhuma até Simon ser inconveniente o suficiente para me lembrar.
Eu não achava que havia tensão sexual também. Não da forma como uma deveria parecer.
Era algo mais.
– Eu te odeio.
Ouvi ela murmurar e sorri.
Era sempre algo mais.

Nota da autora: Oi, oi! Quero agradecer pelo carinho a você que ta lendo e acompanhando OB. Fico muito contente que estejam gostando da história, porque eu amo demais escrever ela e amo mais ainda os personagens. Até a próxima!
Você pode entrar em contato comigo pelo twitter: @aurocarstairs

 

Capítulo 4 – A investigação

Acordei com mãos pequenas tocando o meu rosto. Eu não percebi o momento em que eu tinha dormido, o que mostrava que eu não tinha ideia do quanto eu estava cansada. Quando olhei para o lado, Zune estava sentada, me olhando com um sorriso de bebê, baba escorrendo pelos seus lábios e eu fiz uma careta, o que a fez sorrir mais ainda. Ainda sonolenta, cocei os meus olhos, vendo ainda dormindo do outro lado e me coloquei sentada na cama.
– Está com fome?
Zune engatinhou até mim. Suas mãos pousaram em meu colo e eu demorei para perceber que ela estava tentando se manter em pé. Com um bocejo, desejando ter dormido muito mais, segurei-a pelos braços, fazendo com que ela ficasse em pé com a minha ajuda e seus olhos piscaram para mim, seu rosto alegre.
– É, eu acho que você está com fome – murmurei, sentindo a minha própria barriga reclamar.
Eu não tinha ideia de que horas eram. Nem por quanto tempo dormi, mas estava me sentindo mais descansada do que antes, o que melhorou um pouco o meu humor. Zune tentou pular na cama e eu me sentia estranha. Aquela situação não era uma coisa comum que eu me imaginava fazendo. Geralmente, eu tinha muito mais prazer em fugir de bebês e crianças do que cuidar deles, mas não era como se eu tivesse exatamente uma escolha. Até descobrir o que diabos estava acontecendo, eu podia lidar com isso.
– Bom dia? – murmurou, incerto.
Não notei o momento que ele também tinha acordado, mas quando Zune percebeu, se jogou contra a cama, fazendo com que eu a soltasse e deixei que ela engatinhasse até o meu parceiro, que pegou-a, parecendo muito mais desperto do que eu e aproveitei o momento para me levantar de uma vez da cama, seguindo para o banheiro. Liguei a torneira da pia, enchendo as minhas mãos de água, lavando o rosto. Estava meio gelada, mas serviu para me despertar. Quando olhei no espelho, não gostei do reflexo que eu encontrei. Eu estava ficando com olheiras, e embora eu me sentisse muito mais descansada, minha expressão ainda indicava o meu cansaço. Cada vez mais eu achava ótima a ideia de pedir férias depois que tudo isso acabasse. Talvez eu comprasse uma passagem para algum lugar e passasse os dias hibernando, mas eu também sabia que aquilo não iria acontecer. Por mais que eu quisesse, não conseguiria dormir tanto sem ajuda de remédios e eu não estava tão ruim a ponto disso. Fiz minha higiene matinal, bocejando mais uma vez ao sair do banheiro. Eu usava nada mais do que uma camisa masculina do Simon já que ele não tinha roupas femininas.
– Atrapalho? – o dono da casa colocou a cabeça entre a fresta da porta aberta e eu respondi que não.
Ele entrou com duas sacolas na mão e se sentou na cama, com Zune em seu colo.
– Consegui algumas roupas para você – estendeu as sacolas para mim e eu aceitei, espiando rapidamente antes de voltar a atenção para ele.
– Obrigada – ele acenou. – Alguma novidade?
Não gostei nenhum pouco do suspiro que ele soltou e nem a forma que ele olhou para mim e . Meu parceiro me encarou em silêncio, voltando a olhar para Simon.
– Você pode dizer logo? – apressou.
Zune deu um gritinho que nos distraiu por um momento.
– Eu reuni alguns arquivos. – Simon disse – É melhor vocês verem.
E no minuto seguinte, todos nós estávamos no andar de baixo, especificamente no porão, onde havia todos os tipos de equipamentos tecnológicos que ele precisava. Como eu não entendia nada sobre aquilo, esperei que ele fosse direto ao assunto de nosso interesse. Simon pegou uma pasta, facilmente confundida com um dossiê. passou a menina para ele, que pegou totalmente sem jeito e surpreso e veio para o meu lado.
– Como eu disse antes, demorou um pouco – o hacker disse. – Mas quando eu consegui… era muita coisa.
Andando para perto de uma mesinha improvisada que tinha ali, abri a pasta e retirei as folhas de dentro. Eram relatório de legistas, resultados de testes e relatórios de campo. Tantas informações que eu nem sabia por onde começar, mas decidiu primeiro.
– O nome dela é Liz Walker – ele leu e eu entendi que ele estava falando da Zune. – Nasceu há oito meses no hospital de Toronto. O nome da mãe era Clarissa Pierre e o pai Tony Walker.
Olhei para Zune nos braços de Simon. Ela ainda parecia agitada e alegre e engoli a seco, tentando não pensar sobre sua mãe morta e que ela não tinha ideia disso.
– Ela tem parente vivo? – perguntei.
assentiu.
– Duas irmãs mais velhas – ele respondeu, me informando. – Suzie e Tatiana Walker. Ao que tudo indica, as duas não têm contato e cresceram separadas. Mas a mãe da Zune trabalhava para Tatiana.
– Tatiana está desaparecida há dois dias – Simon falou, chamando a nossa atenção. – As autoridades foram informadas ontem, mas ainda não tem nenhuma pista do paradeiro dela.
– Dois dias? – perguntei e ele assentiu. – Isso foi quando…
Quando houve o tiroteio e eu peguei Zune. Quando a sua mãe morreu protegendo-a.
– E a Suzie? – meu parceiro questionou.
– É rica, mas difícil de encontrar – Simon respondeu. – Aparentemente, ninguém sabe o fruto de sua riqueza, uma vez que ela não consta como herdeira no testamento do pai.
– Ele está morto?
– Há três meses – continuou. – Infarto, segundo a autópsia.
Toda a situação era estranha. Quanto mais eu tentava entender, mais peças pareciam faltar e o quebra-cabeça ficava incompleto.
– Você não consegue rastreá-la? – perguntei para Simon.
– Tenho algo para mostrar.
Ele veio até mim, me devolvendo a menina. Segurei-a no braço, dando espaço para ele ficar entre eu e e mostrasse o que queria. Eu não estava exatamente ansiosa para as próximas descobertas, mas qualquer coisa que colocasse um fim naquele pesadelo era bem-vindo.
– Quando eu estava tentando acessar os arquivos que vocês queriam, me deparei com alguns obstáculos – ele começou a falar, pegando a pasta da mão de e passando as folhas, parecendo procurar algo específico. – Geralmente, eram pastas bloqueadas. E eu tentei rastrear essa Suzie, mas um nome sempre aparecia ocultando as buscas dela.
– Que nome? – foi quem perguntou primeiro, me poupando de formular a pergunta.
Simon finalmente encontrou o papel e entregou ao meu parceiro. soltou um xingamento baixinho e levantou os olhos na minha direção. Zune escondeu o rosto no meu ombro, agitada demais nos meus braços, como se estivesse pedindo que eu descesse-a para o chão. Não ia rolar.
– É o Philippe.
Eu não estava esperando aquela resposta, então o ar que eu soltei foi totalmente de surpresa. Por que o nosso chefe ocultaria as buscas por aquela mulher? Como ele era ligado à ela? E, pelos deuses, eu não queria pensar no pior e questionar se tinha sido ele a mandar mesmo os homens atrás de nós. A agência deveria proteger todos os seus e não matá-los em uma conspiração que eu não entendia que estava fazendo parte.
– Simon, você conseguiu rastreá-la ou não? – perguntei, o tom de voz elevando a impaciência.
Não queria ser impaciente com ele ou com qualquer um. Mas era difícil controlar o estresse a tensão que tudo aquilo estava me dando.
– Ah – ele respondeu. – Ela usou um cartão de crédito em um hotel de luxo. Fica do outro lado da cidade.
– Obrigada – me esforcei e ele sorriu, ajeitando o óculos. – Você poderia dar a mamadeira a ela e nos deixar a sós? – perguntei.
Eu sabia qual seria a resposta dele, mas entreguei Zune a ele antes que ele abrisse a boca e a menina riu. Queria ter apreciado a sua risada, mas minha cabeça estava longe de distração e eu observei quando ele respirou fundo, se dando por vencido e em seguida, me deixou sozinha com .
Ele estava calado desde que me disse sobre nosso chefe.
– Você está tensa. – ele observou, colocando o papel de volta na mesa.
Encarei-o, soltando um suspiro desanimado e andei até ele, ficando de costa para que ele tocasse seus dedos mágicos em uma massagem. Eu nem precisei abrir a boca para dizer o que eu queria, sentindo as suas mãos pousarem nos meus ombros, começando a apertá-los levemente.
– Eu não estou entendendo nada – confessei, frustrada. Olhei para a mesa e espalhei as folhas. – Todas essas informações… E nada se encaixa.
aumentou a intensidade da massagem. O porão era meio escuro, exceto pela luz que entrava pela fresta pequena da janela quebrada – o que me indicava que já era fim de tarde e perdi total a noção do tempo -, e uma lâmpada com a luz fraca, iluminando o suficiente para que a gente tivesse enxergado o que estava escrito nos papéis.
– Não consigo entender qual o papel de Philippe nisso – meu parceiro murmurou, me deixando mais relaxada com as suas mãos apertando a minha pele. – Eu sabia que um dos homens era ligado a ele, mas eu não tinha ideia…
Odiei admitir que perdi a linha de raciocínio quando ele desceu mais as suas mãos para o meio das minhas costas. Seu toque era delicado, mas firme ao mesmo tempo e não tinha sido isso que me deixou desorientada por alguns segundos. Foi o meu impulso de ter empurrado o meu corpo para trás, em busca do dele. Eu senti o calor quando permitiu que meu corpo encostasse no seu peito, agora coberto com aquela camisa fina. Minhas pernas roçaram uma na outra e a tensão que eu sentia parecia aumentar cada vez mais. Eu não soube em que momento ele percebeu a minha desatenção, mas suas mãos me seguraram pelos braços, acariciando a minha pele, sua boca descendo até o meu pescoço.
– Tensão sexual?
– Odeio como você quebra o clima – bufei, me afastando dele.
Ele riu. Tentei me recompor, mas não consegui.
Ele tinha razão. Havia a porra de uma tensão sexual que eu não sabia como consegui reprimir desde muito tempo. Simon tinha libertado algo que estava quieto e como eu não estava disposta a dar o braço a torcer no momento e nem nada, eu engoli a seco, juntei os papéis dentro da pasta e deixei aquele idiota sozinho.
Encarei o quadro enorme na minha frente, afastando uns passos para que eu pudesse enxergar melhor e cruzei os braços. Todas as informações que Simon tinha conseguido e o pouco – quase nada -, que eu sabia, eu juntei tudo naquele quadro. O piloto em vermelho se destacava com as informações mais importantes e havia sinal de interrogação em outras, mostrando que era algo que eu precisava investigar mais para ter uma resposta definitiva. Havia fotos também. Do que parecia ser a família de Zune, embora eu não conhecesse ninguém.
Ouvi a porta ser aberta e entrar por ela com a menina em seus braços. Estreitei os olhos para a roupa que ela estava vestida e dei um meio sorriso, fazendo uma expressão confusa para o meu parceiro.
– Foi o Simon.
Descruzei os braços, vendo Zune começar a bater palminhas e me aproximei dos dois, observando como ela estava fofa vestida com um macacão de abelhinha. Provavelmente tinha sido uma das roupas que a irmã de colocou na bolsa.
– Ei – toquei a bochecha dela, fazendo-a olhar para mim com um sorriso. Sua atenção voltou para o nada rapidamente. me encarou e eu ajeitei a minha postura. Eu ainda sentia o fantasma do seu toque nas minhas costas, mas agora parecia por causa de outra coisa. Depois que eu o deixei sozinho lá embaixo, eu pedi que Simon preparasse para que eu e fôssemos para o hotel onde a suspeita estava hospedada e me enfiei naquele quarto, onde tinha estado desde então.
– Simon disse que em meia hora podemos sair – ele avisou e assenti.
Queria poder responder mais do que isso, mas meus pensamentos estavam indo muito longe com ele por perto daquela maneira. O que era estranho, visto que eu nunca tinha tido problemas com a presença de . Eu conseguia ser bastante concentrada com ele por perto.
– Acho que devo me arrumar então – falei.
Fui pega de surpresa quando Zune deu um impulso nos braços de , esticando os bracinhos pequenos para mim. Eu não tinha entendido o que ela queria de início, mas quando meu parceiro colocou ela nos meus braços, compreendi. Eu não sabia lidar ainda com ela. Não tinha esse instinto maternal em mim que dizia como eu deveria agir quando uma criança pede o seu colo, mas segurei ela nos meus braços mesmo assim e ela me surpreendeu mais uma vez quando deitou a sua cabeça em meu ombro, se aninhando em meus braços.
– Parece que alguém também está se apegando – me provocou.
Estreitei os meus olhos na direção dele, impossibilitada de querer me arrumar naquele momento. Mas como ela estava quieta demais, deduzi que era só esperar mais um pouco para que ela dormisse no meu colo. Eu só precisei ficar andando de um lado para o outro por alguns minutos até perceber que ela tinha caído no sono e que tinha me deixado sozinha. Coloquei Zune na cama que tinha ali e peguei a primeira sacola que Simon tinha me entregado. Havia três vestidos diferentes e eu optei por um vermelho simples e justo. Tomei um banho rápido, coloquei o vestido e amarrei o cabelo em um coque bem feito. Calcei o único salto pequeno que tinha ali e desci para a sala. Encontrei deitado no sofá e Simon em pé. Ambos me olharam quando eu parei bem no centro da sala, anunciando que eu já estava pronta.
, por que você perde tanto tempo? – Simon desviou os olhos de mim e encarou meu parceiro com diversão.
– Simon, cale a boca – mandei, revirando os olhos.
Eu não precisava que ele alimentasse mais ainda o que já estava ficando um pouco estranho entre e eu. Precisei de um minuto a mais no banho para parar de esfregar as minhas coxas uma na outra pensando nele. Eu sabia do que eu precisava.
– Está bem – ele respondeu, indignado. – Mas ainda acho que vocês deveriam…
– Simon. – disse e se levantou do sofá. Seus olhos me encararam por um breve momento antes de se voltar para o garoto entre nós. – Foco.
– Irritantes – Simon murmurou. – Consegui reservar um quarto para vocês um andar abaixo de onde Suzie Walker está. Eu tentei o mesmo andar, mas não há vagas, então é melhor do que nada.
Ele me estendeu uma identidade com o nome de Sam Hoskly e outra para , cujo nome eu não fazia ideia de qual era.
– Vocês são casados e o quarto é de casal – ele informou e eu percebi o sorriso pilantra em seu rosto, mas preferi não comentar que ele tinha feito tudo de propósito. – Para disfarçar, vão levar essa mala quase vazia, exceto por alguns equipamentos que vocês podem precisar.
A mala estava no canto da sala, por isso eu não tinha notado de imediato e também não quis saber quais eram os equipamentos e como ele as conseguiu. Quanto menos eu soubesse, melhor.
– Quando estiverem no quarto, coloquem essa escuta – ele nos deu um dispositivo quase transparente e saiu do sofá e ficou ao meu lado. – Vou hackear as câmeras e guiar vocês pelo caminho mais seguro sem derramamento de sangue.
– Você está tirando a minha diversão – murmurei, com um bico nos lábios.
– Sua diversão está ao seu lado – ele retrucou, apontando para . – É só sentar no pau dele.
riu e eu fechei a cara.
Comentários como esse não me envergonhava, mas às vezes era inevitável não sentir a imensa necessidade de que Simon merecia um soco.
– E a Zune? – mudei de assunto.
fez menção de segurar a minha cintura, mas dei um tapa na sua mão e ele afastou, ainda rindo. Pelo amor de Deus, eu estava com os nervos à flor da pele, tensa pra porra e agora tinha que lidar com ele me provocando daquela maneira porque Simon não podia ficar com a porra da boca calada.
– Vai ficar aqui comigo – ele respondeu. – Talvez eu chame uma babá e…
– Nada de babá – cortei-o. – Você não vai deixar ninguém entrar aqui e tocar na menina, entendeu?
Ele assentiu.
– Simon – meu parceiro chamou. – Se algo acontecer com aquela garotinha, eu vou descontar em você.
Meus lábios se abriram em um sorriso com a ameaça, enquanto Simon engolia a seco.
Uma buzina nos chamou atenção e eu e ficamos alertas, até Simon informar que era só o táxi. Estava ficando difícil ser uma mulher relaxada, quando eu mais do que nunca precisava ficar em estado de alerta o tempo todo agora. Pelo menos, até a conclusão daquele caso.
pegou a mala e eu o acompanhei até a porta. Me virei para encontrar Simon nos observando.
– Voltem vivos – ele pediu. – O táxi já está pago.
Sorri para ele, balançando a cabeça. Dei um peteleco de leve no seu nariz e beijei a sua bochecha sob protesto.
– Cuide dela. – sussurrei.
E andei até , que já estava dentro do táxi, no banco de trás e eu entrei também, pedindo que o motorista nos levasse ao nosso destino. Enquanto ele dava partida e cada vez mais nós íamos nos distanciando da casa de Simon, olhei através da janela de trás, meio apreensiva por deixar Zune sozinha. Meu parceiro apertou uma mão na minha coxa ao seu lado e eu resmunguei algo.
– Ela vai ficar bem, .
– Nós vamos conseguir? – a pergunta saiu em um fio de sussurro, um momento de dúvida e insegurança que eu me permiti ter. Perder um assassino ok, mas uma criança inocente?
Eu me odiaria.
Senti um beijo estalado na minha bochecha e um tapa leve na minha coxa, um toque tão carinhoso que eu me surpreendi.
Olhei para ao meu lado, tão perto. Seu sorriso me tranquilizou.
– Nós vamos conseguir.

 

Capítulo 5 – Tensão sexual

Simon não estava brincando quando disse que aquela mulher era rica. O hotel inteiro cheirava a luxo e era o mais puro luxo que eu já frequentei em toda minha vida. Assim que saímos do táxi, que já estava pago, pegou a mala quase vazia e segurou a minha mão, incorporando a ideia de que éramos um casal e eu sabia que ele estava gostando daquilo. Por pura provocação, apertei os meus dedos contra os dele, caminhando ao seu lado até a recepção. A coisa toda foi muito burocrática, mas também rápida. Segurei a chave com a minha mão livre e entramos no elevador, que nos levou até o décimo segundo andar, quarto 508.
Só o tamanho do quarto era a porra do meu apartamento inteiro. Olhei ao redor, admirando a decoração. Não que eu fosse fascinada por isso, mas eu gostava de como a cor caía em contraste com todo o ambiente em si. Havia um pequeno sofá bem de frente para a cama enorme, um pouco mais afastado. Tinha um closet disponível em um lado e a porta para o banheiro do outro. Eu estava bem tentada a entrar naquele cômodo e aproveitar a luxuosa banheira que eu sabia que tinha, mas eu tinha trabalho a fazer.
– Simon? – ouvi chamar e quando o olhei, vi que ele estava com a escuta, que eu tinha esquecido totalmente.
Suspirei, massageando o meu pescoço e retirei a escuta do meu decote, onde estava escondido esse tempo todo e coloquei no ouvido bem na hora que Simon respondeu .
– Você pode agilizar isso tudo? – questionei.
Eu estava infeliz com a ideia dele nos livrar de certos obstáculos, porque eu achava de verdade que eu podia me livrar da tensão e do estresse se eu socasse alguns babacas. A sala de treinamento me fazia uma falta enorme.
Não vai dar, pombinhos – Simon disse. – Infelizmente, ela está no quarto agora mesmo.
Meu parceiro soltou um xingamento baixinho e eu tirei o salto dos meus pés.
– Simon, dentro de uma hora nós entramos em contato de novo – falei.
Mas ela pode sair exatamente um segundo depois e…
– Dentro de uma hora, Simon. – repeti, retirando a escuta e colocando em cima da escrivaninha pequena e simples que havia ali.
riu, provavelmente de algo que nosso amigo em comum disse e também retirou a sua escuta.
– Então, Sam… – arqueei as sobrancelhas para o meu parceiro quando ele frisou o meu nome falso e se levantou da cama, que antes estava sentado. – Quer aproveitar a cama comigo?
Abri um sorriso.
, você precisa parar de escutar o Simon – ele riu, balançando a cabeça concordando e levantou as duas mãos, como se estivesse se rendendo.
Havia um sorriso de humor nos seus lábios e eu desejei saber quanto daquilo tudo era realmente verdade. Ele me provocava na maior parte simplesmente por me provocar – e para me irritar -, mas ultimamente isso só me deixava ainda mais tensa, implorando por um alívio que não viria. Não das mãos dele. Sem perceber, eu esfreguei minhas coxas uma na outra.
– ele estreitou os olhos na minha direção e eu respirei fundo. – Você está se esfregando?
Mantive as minhas pernas quietas e encarei aquele homem na minha frente. Ele me encarava com a mesma intensidade e eu mordi o meu lábio por ter sido pega, o que só me deixava duas vezes mais frustrada em achar que talvez Simon estivesse certo e eu vinha reprimindo os meus desejos sexuais por ele esse tempo todo. Dar o braço a torcer era a parte mais difícil.
– Não pode me culpar, – me rendi, deixando os meus ombros caírem, desolada. Meu Deus, eu precisava de um alívio urgente. – Estou longe do Victor e você fica me provocando.
Não achei que ele tivesse gostado da menção de Victor, que era um dos agentes que eu tinha alguns sexos casuais que eu chamava de conveniente, tanto para mim quanto para ele. Se estivéssemos na Agência, eu com certeza já teria transado com ele.
– Você está dizendo que eu não dou conta? – ele murmurou, os olhos ainda apertados na minha direção.
– Eu não disse isso, seu idiota – revirei os olhos, dando as costas para ele e andei até o espelho pregado na parede que tinha ao lado do enorme closet. – Eu quis dizer que não temos isso.
Encarei a mim mesma no espelho. Levantei os braços para ajeitar o meu cabelo e amarrei em um rabo de cavalo, mas alguns fios ainda ficavam soltos e eu tentava não encarar o meu parceiro atrás de mim. Essa era uma conversa que eu jamais imaginei ter com ele. Talvez uma parte de mim quisesse que ele continuasse ignorando a linha invisível que nos tocava para nos tornarmos algo a mais.
– Você quer que tenhamos isso, ? – ele perguntou.
A pergunta me pegou de surpresa. Olhei para ele através do espelho, engolindo a seco, a resposta na ponta da minha língua, mas eu sabia que não estava pensando direito. Qualquer coisa que saísse da minha boca naquele momento seria unicamente guiado com a tensão sexual que eu estava sentindo. Então, não respondi.
balançou a cabeça, frustrado, seus dedos enfiados nos fios do cabelo bagunçados e me deu as costas. Mas o que diabos eu deveria dizer? Eu gostava do que tinha com Victor porque eu sabia que entre nós seria somente sexo e nem éramos amigos, então não havia nada para arriscar. Mas , além de amigo, também era meu parceiro. Existia um risco enorme de estragar a intimidade e relação entre nós se eu começasse a envolver sexo na coisa toda. E eu não queria perder a sua parceria e nem a sua amizade. Me adaptar a outro parceiro no campo de trabalho estava fora de cogitação. Então não, eu não poderia responder a pergunta dele.
… – chamei, suspirando.
Me afastei do espelho e me virei na direção dele.
– Tudo bem – ele murmurou, sem me olhar. – Você se importa se eu dormir um pouco?
Encarei-o, embora ele não me olhasse em nenhum momento. Deixei meus ombros caírem cansados e desisti de transformar aquilo em uma discussão desnecessária sobre nossa relação.
– Não – respondi. – Não me importo.
Quase uma hora depois, ainda dormia. Eu estava esperando o momento em que eu deveria entrar em contato com Simon e o tempo todo, depois de dar uma olhada inteira pelo quarto, fiquei na varanda, no sofá confortável que havia ali, tomando o ar gélido e olhando as estrelas. Eu não entendia nada sobre elas e nem era o tipo de pessoa que gostava dessas coisas de observar o céu e etc, mas pela primeira vez, fazer aquilo tinha me acalmado. Não havia bebê, perseguição, gente querendo nos matar. Não havia segredos, mentiras e nem mistérios. Havia somente eu ali, o silêncio e os meus pensamentos confusos. Não tinha parado de pensar em e em como eu estava me sentindo estúpida em rejeitá-lo tão claramente, quando eu sabia que queria tanto quanto ele. Mas desde quando aquilo vinha acontecendo? Em que momento eu desejei tanto ultrapassar aquela barreira profissional e de amizade que nós tínhamos? Quando eu passei a desejá-lo tão desesperadamente?
Suspirei, esfregando o rosto com as minhas mãos, me sentindo mais cansada ainda e duas vezes mais frustrada. Eu estava tão perdida em mim mesma que me assustei quando ouvi um grito vindo do quarto, de onde estava dormindo e me levantei tão rápido que fiquei tonta. Corri até a cama, vendo que ele ainda estava dormindo, mas sua expressão era agonizante e eu soube que ele estava tendo mais um dos seus pesadelos constantes.
Não tinha sido constantes por um tempo. Às vezes, ele tinha pesadelos demais e por isso sempre dormia de menos. Eu conseguia o acalmar na maioria das vezes, mas fazia um tempo que ele não tinha um pesadelo como aquele. Gritos também eram constantes e murmúrios sem sentidos, como se ele estivesse implorando por alguém, mas eu não entendia uma palavra do que era dita. Relaxei o meu corpo, sentindo meu coração pequeno por vê-lo daquela forma e me aproximei da cama, tocando-o levemente no ombro.
. – tentei chamá-lo, minha voz saindo firme.
Ele começou a se contorcer, murmurando vários “não”. Aumentei o meu tom de voz, chamando-o pelo nome, mas não estava funcionando. Quando chacoalhei o seu ombro com agressividade, sua mão segurou meu pulso com firmeza, me puxando para si.
!
Caí de joelhos ao lado da cama, tentando puxar o meu pulso do seu aperto. Ele não tinha consciência do que estava fazendo e eu sabia disso. Me levantei, conseguindo me livrar do seu aperto e subi um pouco o vestido, sentando em cima do seu corpo, as pernas um de cada lado, prendendo-o abaixo de mim.
, acorde! – exclamei, sendo eu dessa vez a segurar as suas mãos. – É só um pesadelo, acorde!
Gritei por ele, minha respiração desregulada, o peito subindo e descendo rapidamente. Ele parou de se debater e eu esperei por alguns segundos até soltar os seus braços, encarando a sua expressão se suavizar, me deixando mais tranquila.
? – chamei, quase um sussurro, vendo-o abrir os olhos devagar.
?
Saí de cima dele, me jogando ao seu lado sentada, suspirando o mais forte que eu podia, aliviada.
– Estou aqui – respondi.
Meu parceiro começou a se levantar aos poucos, um pouco mais desperto do que estava antes e se colocou sentado ao meu lado, esfregando o rosto com força, como se ainda precisasse acordar com mais afinco. Eu tinha certeza que as imagens do pesadelo, seja lá o que fosse, ainda estavam vívidas em sua mente. nunca tinha compartilhado comigo o porquê disso acontecer e quais eram os monstros de seus pesadelos, embora eu tenha perguntado uma vez. Ele preferia ser reservado quanto a isso, então eu nunca mais questionei.
– Desculpe por isso – ele pediu, como todas as outras vezes.
– Você sabe que… – tentei começar a falar, mas ele já sabia o que ia dizer, então me interrompeu.
.
– Que droga, – reclamei, claramente preocupada com o seu estado. – Você sabe que precisa de ajuda. Procurar terapia não vai te fazer mal.
– Estou bem – afirmou, com uma certeza na voz que eu não acreditei. Era impossível. – Não preciso disso.
– Não posso trabalhar em estado de alerta com você o tempo todo – confessei, balançando a cabeça negativamente, saindo da cama e me mantendo em pé. – Estou avisando.
Recebi como resposta um suspiro pesado dele. Disposta a não prolongar aquela discussão que nos levaria a lugar nenhum, peguei a escuta, colocando-o no ouvido.
– Simon? – chamei, esperando uma resposta.
Demorou alguns segundos até que ele respondesse.
Estou aqui – disse. – Espere um pouco.
Cocei a minha nuca, observando levantar. Ele veio até mim, segurando levemente o pulso que antes ele tinha puxado com tanta força. Só notei que estava machucado quando ele notou.
– Eu fiz isso? – me perguntou, o tom de voz infeliz.
Pisquei meus olhos, olhando rapidamente para o meu pulso, vendo uma mancha roxa começando a formar o desenho dos seus dedos na minha pele.
– Eu estou bem, .
Ele soltou o meu braço e não gostei da sua expressão de tormento. Eu queria tanto saber o que o incomodava a aquele ponto.
, eu sinto muito – ele insistiu. – Queria ser o último homem que pensaria em te machucar dessa forma.
– Ei – me aproximei dele, segurando-o pelo queixo, obrigando-o a olhar para mim. – Não foi você. , não foi você, está bem? – seus olhos não acreditavam em mim, mas eu não o culpava e era importante que ele soubesse disso. – Por favor, converse com alguém. Estou implorando.
Meus lábios tremeram e ele me encarou, assentindo depois de alguns segundos do meu pedido. Soltei o seu queixo e me permiti ser puxada para o seu abraço rapidamente, selando o acordo silencioso entre nós.
Atrapalho? – Simon resmungou no meu ouvido e eu revirei os olhos, me afastando do meu parceiro.
– Diga, Simon.
apontou que iria no banheiro e eu assenti.
O caminho está livre, mas vocês só têm vinte minutos – ele começou a instruir. – Depois disso, vão precisar evitar as câmeras. Por favor, usem os equipamentos. Equipamentos eu digo armas e etc, que está na mala que eu dei. Não tenho como saber se algo espera vocês lá dentro, mas não há seguranças na parte de fora. E fiquem com a escuta para facilitar a nossa comunicação.
– Tudo bem. – concordei.
Andei até a mala, que aparentemente era vazia, e abri-a em cima da cama, encontrando duas armas e diversos cartuchos para carregar. Havia frascos de coisas que eu não tinha ideia do que eram, mas usar aquelas armas seria suficiente, pelo menos naquele momento. Tinha também silenciadores, o que eu achei bastante útil, já que a última coisa que eu queria era chamar a atenção do hotel inteiro, caso houvesse uma troca de tiros. Carreguei as armas e fechei a mala, não sem antes pegar o coldre e colocar sobre a minha coxa por baixo do vestido, prendendo a arma ali. Quando voltou, estendi a dele para ele, que aceitou, escondendo-a atrás do corpo.
– Temos vinte minutos ou vamos ter problemas com as câmeras – expliquei a ele, que assentiu e apontou para que eu fosse primeiro.
Ele pegou a sua escuta, colocando-a no ouvido somente para ouvir uma gracinha de Simon, me fazendo sorrir sem que os dois percebessem. Saí primeiro que ele, deixando-o fechar a porta atrás de si.
– Agora, Simon – informei a nossa saída.
Ele chiou alguma coisa e e eu seguimos direto para as escadas. Esperar o elevador era perder o tempo que já não tínhamos. Simon nos guiava pelo caminho até a porta do quarto que a suspeita estava hospedada. Para abrir a porta, precisávamos do cartão, mas antes que eu questionasse sobre o problema, a porta se abriu sozinha.
Tinha me esquecido como isso pode ser divertido – Simon disse.
Não respondi nada e entrei na frente de . O lugar era tão enorme quanto o quarto que estávamos hospedados, exceto que aquele estava uma bagunça. Havia coisas espalhadas pelo chão, como se uma briga tivesse ocorrido ali. O closet estava aberto, mostrando diversos vestidos de todas as cores, enquanto a outra parte estava fechada. caminhava em silêncio, analisando os objetos jogados pelo chão.
– Alguma coisa? – ele me perguntou.
A varanda estava fechada. Nenhum ar gélido entrava por ali.
– Ainda não – respondi.
Andei até o banheiro, que também estava uma bagunça. Era um banheiro bastante espaçoso e havia rastro de pingos de sangue no chão, que ia até a banheira. Exceto por água, não havia mais nada lá dentro. Voltei ao quarto, encontrando com papéis nas mãos, seus olhos estreitados com atenção.
– Há sangue aqui – apontei para o banheiro, vendo meu parceiro levantar os olhos na minha direção.
– Parece uma cena de crime, não é? – ele observou ao redor. – Não temos como coletar e nem analisar o sangue.
– Eu sei – suspirei derrotada com aquela impossibilidade. Saber de quem era o sangue ajudaria bastante a avançar com a investigação. – O que é isso?
Apontei para as folhas que ele segurava. veio até mim, parando ao meu lado e eu me estiquei para olhar o que tinha naqueles papéis.
– Parece informações desconexas sobre entrada e saída de alguma entrega – ele explicou, mas algumas partes do texto estavam rabiscadas ou apagadas, deixando tudo incompleto. – Afinal de contas, quem é essa mulher?
– Simon, você não consegue invadir o celular dela? – perguntei, através da escuta.
Isso é crime, sabia? – ele respondeu, com humor.
– Não sabemos nada sobre isso – respondeu, soltando as folhas no mesmo lugar que ele as encontrou.
Infelizmente, ela só está fazendo uso de pré-pagos.
– Isso é uma grande merda – murmurei, insatisfeita.
abriu a boca para dizer algo, mas um barulho do outro lado nos deixou em estado de alerta.
– Simon? – murmurei, baixinho.
Meu parceiro colocou o indicador nos lábios, pedindo que eu ficasse em silêncio. O som de passos ecoava por ali, mas não parecia estar vindo do lado de fora.
Merda – Simon murmurou. – Três homens estão voltando para o quarto. Vocês precisam se esconder.
não perdeu tempo em me puxar em direção a porta, mas o barulho da maçaneta sendo aberta impediu que nossa fuga fosse realizada. Eu só me senti sendo puxada novamente, dessa vez para dentro de um closet. Fechei a porta no exato momento em que a figura de um homem apareceu no quarto. Não dava para observar muito bem, já que as frestas eram pequenas e nem dava para ouvir as coisas com tanta clareza.
Pressionei a escuta contra o meu ouvido. Sussurrei o nome de Simon, enquanto se remexia com cuidado atrás de mim. Nenhum chiado. Nenhuma resposta.
O sinal tinha sido cortado.
Estávamos sozinhos.