Quando o inverno chegar

  • Por: Milene
  • Categoria: Originais
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Sinopse: “Sentado na cama olhando as folhas das árvores caírem no gramado, crianças pulavam sobre os montes os montes formados.
Tentava me concentrar, mas só conseguia prestar atenção no barulho dos ponteiros do relógio que agora pareciam estar absurdamente lentos.
Tudo começou a girar, o relógio parou e foi como se tudo ao meu redor estivesse parando também, minhas mãos suavam e eu não sabia o motivo, meu peito doía aquela sensação ruim já consumia todo meu corpo e eu estava me sentindo tão sufocado.
E tudo piorou quando bateram à minha porta…”
Gênero: Romance, suspense, drama e ficção
Classificação: 16
Restrição: Sem restrição
Betas: Bridget Jones

Essa história é totalmente fictícia sem o intuito de prejudicar ou ofender alguém.

Spring

“Sim, aah… O seu cheiro é doce como a primavera… E seu toque, macio como as flores…”
– Henry vamos tirar uma foto ali?
– Lohan, não podemos tirar em uma outra hora? Desse jeito chegaremos atrasados e…
– E você deveria parar de reclamar e tirar logo a foto. Já teríamos chego se reclamasse menos!- Henry faz uma cara emburrada e então vou até ele.
– Ei, não fica assim, amor. Você sabe que te amo. – Aproximo-me e dou lhe um beijo na bochecha.
– Olha, eu sei, mas é que eu quero muito ir a este festival. Não é sempre que estou aqui com você e esse ano quero aproveitar tudo já que estou de “férias”.
Henry havia chego à duas semanas e, como ele mesmo disse, queria aproveitar tudo enquanto estava ali.
Antes que pudesse responder algo, somos interrompidos pelos fogos de artifício que indicavam que o festival estava prestes a começar.
– Oh! Meu Deus, Lohan, que lindo! Vamos, depressa!
Para mim é como todos os outros festivais e, aliás, já estava acostumado com isso todos os anos, porém, ele nunca havia visto aquilo antes por conta do trabalho.
Henry trabalha fora no Brasil e vinha sempre que podia ou quando o davam férias, mas nunca ficava por muito tempo. Porém, a empresa onde trabalhava estava em reforma e não se sabia quando ficaria pronta. Henry me disse que o chefe os deu um tempinho para “descansarem” e eu sei que é mentira, porque na verdade ele tem que enviar vários formulários todos os dias para seu chefe através do computador. Como ele tem que enviar esses tais formulários de qualquer maneira, porque não enviar de outro lugar como minha casa? Henry não gostava muito desse serviço, mas só estava lá por conta de seu pai que não aprovava nossa relação e então propôs que ele trabalhasse lá caso quisesse continuar a ficar comigo. Claro que seu pai era um grande amigo do dono da empresa, então foi fácil para Henry ser contratado.
Quanto a mim, moro em Ithaca, uma cidadezinha bem no interior de Nova York, mas antes de vir pra cá morava no Rio de Janeiro localizado no Brasil com os meus avós. Após suas mortes eu me mudei, mas foi lá que conheci meu verdadeiro amor.
O festival para qual Henry estava tão ansioso era o famoso Garden City, bastante conhecido na cidade onde moro e acontecia todos os anos quando a primavera chegava.
A cidade ficava enfeitada com flores e plantas bem como se é enfeitado em véspera de natal e o principal objetivo do festival era escolher o ganhador ou ganhadora que tivesse a melhor flor ou planta. A mais bem cultivada, bonita e que se destacasse mais era a ganhadora e os jurados eram quem decidia isso.
Eu e Henry estamos juntos à dois anos, porém não casamos ainda. Decidimos que ainda é muito cedo e, de fato, o pai dele nos mataria. Não que ele precisasse saber, mas casamento à distância… Acho que não rola. Se namorando já é o maior sofrimento, imagina casados?
– Hen, vamos sentar um pouquinho? Estou meio cansado de tanto andar. Henry?
Olho para os lados e não o encontro. Onde ele se enfiou, meu Deus?
Começo a andar desesperadamente atrás de Henry, mas tudo que consigo ver era um monte de gente gritando, conversando e rindo.
De repente sinto uma mão tocando meus ombros lentamente.
– Está perdido, senhor?
– HENRY QUE SUSTO!
Ele estava rindo e segurando um buquê de flores maravilhoso em sua frente.
– Onde você estava?
– Fui pegar esse buquê para você ali na barraquinha, amor. Eu te vi andando que nem um maluco para lá e para cá e te chamei, mas você estava muito distraído e não me ouviu.
– Ah. Tudo bem, amor, só poderia ter me avisado. Fiquei preocupado – Dou um beijo nele.
– AI!
Alguém esbarrou em mim, fazendo com que Henry cortasse minha boca sem querer.
– Oh, meu Deus, me perdoem caras. Eu não… O QUÊ? VOCÊS SÃO GAYS!? QUE NOJO! Deus, por favor, me diga quando esse mundo vai mudar. Sai da minha frente! – Dito isso, o adolescente me empurra sobre uma barraquinha que estava bem próxima dali.
– EI, NÃO ENCOSTE NELE! – Henry disse empurrando o garoto.
– ORA, ORA, RESOLVEU VIRAR HOMEM ENTÃO? PODE VIR, VALENTÃO!
– SOME DAQUI…
– Ou? Vai fazer o quê? – O adolescente ria debochadamente.
Num piscar de olhos Henry avança sobre o garoto, socando-o várias vezes sem parar.
– HENRY, PARA!! – Entro em desespero.
Ele continuava a socar o garoto mesmo eu insistindo para parar, até que vejo as pessoas conversando entre si e olhando para o que estava acontecendo.
– POR FAVOR, CHEGA! – Digo puxando-o de cima do garoto.
Ambos já haviam caído no chão, o que dificultou um pouco para tira-lo de lá já que Henry é bem mais forte que eu.
– Me perdoa, meu amor. Eu odeio isso e não me controlo quando coisas desse tipo acontecem e não é feito nada. Eu odeio!
– Calma, calma, já passou. Você está bem? Se machucou? – Digo tentando acalmá-lo. Estava muito ofegante e agitado.
– HEY, MARICAS! VAI TER VOLTA, SEUS MERDAS! EU VOU MATAR VOCÊ! – Ele aponta para mim e sai correndo logo em seguida, desaparecendo no meio da multidão.
– AH ESSE FILH…
Passo a mão em seu rosto, acalmando-o novamente
– Pelo menos o buquê sobreviveu.
– Sim, verdade. – Rimos – Ah, e a propósito… Obrigado pelo buquê. – Faço um coraçãozinho com a mão e ele me abraça. – Eca, sua mão está cheia de sangue, me solta!
– Ah vai, nem é tanto assim. Vamos limpar logo isso – Ele ri.
Entramos dentro de um banheiro público que havia ali e, bom, o próprio nome já diz. “Público”. O que não podia faltar eram rabiscos, portas e janelas quebradas.
– Nossa, quanto zelo – Digo.
– Pois é.
Enquanto Harry se limpava, eu observava os rabiscos e desenhos feitos. Tenho que admitir que haviam uns bem bonitos.
– Tem alguma caneta aí? – Pergunto.
– Eu não, ué. Para que você quer uma caneta, Loh?
– Por nada não. – Sorrio.
– Vamos, então? – Entrelaçando nossos braços, saímos do banheiro.
Aproveitamos o resto do festival juntinhos e no final quem acabou ganhando foi uma senhora que cultivava uma pequena flor rara em seu quintal.
Já se passaram duas semanas que havíamos ido ao festival, mas para Henry parecia que fomos ontem, pois não parava de falar sobre o assunto.
– Eu filmei tudo, Lohan, exatamente tudo! O desfile das flores mais bonitas, os ganhadores, o povo gritando…
– É, eu sei, Henry. Você até se meteu em uma briga, se lembra?
– Me perdoa por isso, mas fora esse episódio, eu gostei bastante. Na minha cidade não tem essas coisas, você sabe.
– Ah eu sei, amor, mas não se empolga não. Vai que você tem um infarto e morre. Com quem eu iria aos outros festivais?
– EXISTEM MAIS FESTIVAIS COMO ESSE!?
– Sim, meu amor, tem muitos outros festivais, mas só iremos se você se comportar e não ficar falando as mesmas coisas toda hora. Até parece que eu não existo! – Cruzo os braços olhando para Henry, esperando alguma reação.
– Certo, certo. – Ele direciona sua mão ao queixo, como se estivesse pensando.
– E então, Henry? Não se esqueça da parte do comportamento – digo ainda com os braços cruzados.
– Fechado! E sobre o comportamento… Já não posso prometer nada, babe – diz sussurrando em meu ouvido.
– Eu ainda pego ele de jeito. – Penso, porém, alto demais.
– Não é isso que acontece a noite, não é mesmo, Loh? Sabemos quem pega quem aqui, acho que você trocou os papéis! – diz gritando da cozinha.
– Toma. Eu não sei se queria, mas fiz mesmo assim. – Ele me faz sair dos meus pensamentos e me entrega um potinho com alguns morangos.
– Loh, vamos assistir um filme, amor? – Ele se acomoda no sofá.
– Claro! Qual? – Sento-me ao seu lado.
– Flipped?
– Se eu falar que nunca assisti você vai me bater? – O vejo fazer uma cara surpresa quando digo isso.
– Como você nunca assistiu a esse filme? Não creio, Lohan! – Ele me encara surpreso. – Logo você que é tão… Dramático e chora com tudo. – Começa a rir.
– Pronto, agora virou lei assistir esse filme?
– Para os dramáticos, sim – Continua rindo.
– Não sou dramático! – Cruzo os braços e fico o observando – Não choro com tudo, também… Para de rir!
– Essa foi boa, mas me promete que você não vai dormir?
– Prometo… Se você retirar o que disse.
– Jamais. – Ele volta a gargalhar e dou alguns tapas em seu braço.
– Tá bom, tá bom. Eu retiro o que disse. Agora vamos assistir o filme e não durma! Se não vai ter que me obedecer por uma semana.
– Vai nessa.
Alguns minutos de filme se passaram e eu simplesmente adormeci.

Naquela mesma madrugada, Henry solta uma risada baixa e abafada ao notar a cena ao seu lado. Lohan havia apagado totalmente.
– Eu ganhei, docinho – sussurra.
Se levanta lentamente do sofá e decide levar o adormecido para a cama. Não queria que o mesmo acordasse com dores pela manhã.
Assim que volta, Henry pega seu Notebook e, como de costume, estava pronto para enviar seu formulário, mas assim que liga logo aparece várias notificações de Apps no qual nem usava mais, até que se depara com um uma notificação em específico.

COMUNICADO URGENTE!
Prezados,
Como todos já sabem a nossa empresa está passando por reformas devido à meu pedido por questões de segurança para a nossa melhoria e desenvolvimento.
Peço a compreensão de todos, pois quero que vocês voltem urgentemente. A empresa caiu muito desde que vocês saíram.
Estávamos em segundo lugar de melhor empresa, e caímos para a quinta colocação. Vocês sabem que nosso objetivo é ser melhor do que nossos concorrentes e eu sei que estavam enviando seus relatórios para eu analisar, porém, como podem mandar sendo que nem estão na empresa para controlar a evolução e observar o desenvolvimento desse patrimônio?
Estava ficando muito confuso tudo isso. Eu sei, podemos trabalhar pela internet e sermos iguais aos outros perdedores, mas é isso que queremos?
Então eu conversei com um de nossos colaboradores e eles conseguiram um local para que possamos trabalhar juntos, lado a lado, como sempre fizemos. Não se esqueçam do nosso lema: “Se for preciso, venderemos a alma pra vencer! Empresa Discovery, sempre com você!”
Portanto, sem mais delongas, preciso que voltem ou estão demitidos!
Att,
Lakã Collins Godoy
Chefe da empresa de contabilidade Discovery.

– Droga!

Acordo com os raios de sol que atravessam a janela do meu quarto. O que não acontece com frequência, pois sempre fecho a cortina justamente por conta disso. Volto meus pensamentos para o colchão ao meu lado, todo arrumado, e me surpreendo porque Henry não é desses que se importa se as coisas estão organizadas.
Desço as escadas enquanto me lembro da noite passada com ele, assistindo àquele filme do qual já esqueci o nome. Chego a cozinha, pego uma xícara de café e paro no mesmo instante antes mesmo de leva-lá a boca. Me sinto estranho com o silêncio na casa, então deixo a xícara na pia e vou para a sala. Olho não redor e tudo que vejo são papéis no centro da mesinha.
– Ele foi embora – digo com os olhos lacrimejando, pronto para chorar. Um grande nó estava se formando na minha garganta, me impedindo de dizer tais palavras. – Henry foi embora e nem se despediu de mim!

Caio de joelhos no tapete da sala e desabo em lágrimas, desacreditado. Me agarro à uma almofada e abraço a mesma com força, os choros aumentam e logo em seguida vem os soluços. Já posso sentir a enxaqueca que isso tudo vai me causar. Eu simplesmente estava destruído, não tinha forças para mais nada, só queria ficar ali chorando para sempre. Devia estar bravo, mas não consigo, simplesmente não consigo. Me sinto abandonado, como se algo fosse tirado de mim e eu não pude fazer nada.
Horas haviam se passado, o sol já estava se escondendo e o relógio marcava 18:00. Eu ainda estava na sala, mas agora “assistindo” à TV, só que não estava prestando atenção em nada do que a mulher do outro lado da tela falava. Só queria ver aquele bolo que estava fazendo pronto logo. Pisco meus olhos algumas vezes, que insistiam em fechar a cada segundo.
“Bichinha.”
“Só entra na brincadeira quem não é bichinha, ha ha ha.”
”Vai chorar? Vira homem!”
“Filho, que machucados são esses!?”
“O QUE? ESTOU INDO LÁ AGORA!”
“Não, mãe. Não, por favor…”
“Ela estava muito rápida, infelizmente perdeu o controle e bateu contra o poste. Sinto muito.”

“Vocês são os avós da criança? Tenho que informar que a partir de hoje ele terá que ficar com vocês…”
Acordo assustado com a campainha, que tocava repetidamente, e corro para a porta, atendo-a.
– Lohan! Amor, eu estava quase ligando para a polícia! O que aconteceu com você? Por que está com essa cara? Está tudo bem!?
Olho para Henry, que segurava várias sacolas de supermercado e sua expressão era de assustado. Ele entra, coloca as sacolas em cima do balcão e volta a atenção para mim, que estava no sofá novamente.
– Lohan, o que você tem, meu bem?
– E-eu pensei que você ti-tinha me abandonado. – Volto a chorar.
– Oh não. Shhh… passou, já passou. Estou aqui, meu amor, calma. – Ele me abraça, aninhando-me ao seu peito enquanto fazia cafuné em minha cabeça até eu me acalmar. – Meu amor, uma pergunta: você chegou a essa conclusão como? Não viu minhas coisas lá em cima e meu notebook aqui?
– Suas coisas não estão lá em cima…
– Como não? Só as coloquei no armário, mas ainda estão lá. – E o notebook estava aqui… Bem, quero dizer, era só você tirar essas papeladas daqui e pronto.
Penso desacreditado no tanto que fui precipitado. Não me dei o trabalho de procurar e tudo que fiz foi abrir meu bocão como se fosse uma criança e chorar… Que vergonha.
– Ok, eu sou dramático, admito. – Ainda agarrados, rimos juntos.
– Eu sei. Já te disse isso. E, senhor Lohan, alguém perdeu a aposta ontem – diz fazendo cócegas em mim.
– Tá bom, chega. Agora para! Vou fazer xixi na calças!
– Agora você vai ter que me obedecer.
– Chato – digo saindo de seus braços.
Indo em direção a cozinha, abro as sacolas e pergunto.
– Para que são todas essas coisas que você comprou?
– É uma surpresa. Quer tentar adivinhar?
– Não.
– Grosso. Ok, então. Preparado… Você vai cozinhar para a gente!
– Hã?
– Nem reclama. Você vai me obedecer, lembra? E também porque você cozinha muito bem, amor.
– Tá certo, mas você vai me ajudar. Vem logo!
As horas voaram enquanto estávamos cozinhando. Na verdade enquanto EU estava, porque Henry havia desistido após derrubar três ovos no chão e quase se queimar no fogão, passando apenas a me observar da bancada, atento a tudo que fazia.
Os barulhos na cozinha eram apenas os da fritura na panela. Eu estava começando a ficar angustiado.
– Esse é meu novo hobby favorito. – Henry diz quebrando o que seria minha angústia.
– O quê?
– Ver você cozinhando, ora! É como um ASMR para meus ouvidos… Uma pena que eu não saiba fazer nada disso.
– Hahaha. Tenho que concordar. Realmente é muito bom cozinhar é até relaxante, mas quando se sabe o que está fazendo, se não tudo pode virar uma bagunça e isso pode irritar e muito. Mas então, voltando. Já que está parado, eu iria arrumando a mesa em vez de se lamentar sua inexperiência com comida. E rápido, porque já está quase pronta.
– Nossa! Não precisa ser tão mandão. E não se esqueça que quem manda sou eu! – Ele pisca e sai em direção a mesa.
– Quantas vezes vai dizer isso? Só para saber.
– Até você aprender.
Reviro os olhos, ignorando sua fala. Com a mesa pronta, levo a janta e me sento.
– O que nosso chefe preparou para a gente hoje? Que cheiro bom!
– Um simples strogonoff de carne. E obrigado, meu amor.
Henry se levanta, sorri e vai em direção a cozinha, trazendo duas taças e um vinho.
– Para acompanhar – diz e logo nos serve.
Rimos, comemos e conversamos bastante.
– Lohan uma pergunta: esse strogonoff está muito bom e idêntico ao do Brasil, mas de carne eu nunca havia comido, apenas o de frango. Onde aprendeu?
– Ah deixa disso, é uma longa história. Vamos apenas comer.
– Lohan, eu insisto, adoro histórias longas. Ande, me conte. Se você não se importar, claro. Dizem que um chefe nunca revela seus truques.
– Um mágico nunca revela seus truques, você trocou. – Rio com seu comentário.
– Tá. Dá na mesma. Agora me conte!
– Ok, mas já vou adiantando que é uma história um pouco triste. Poderia dizer que foi pela internet que aprendi de tão perfeito que ficou, mas não.
– Tá se gabando já.
– Você quer ouvir ou não, Henry?
– Hahaha claro. Conte, conte.
– Bom, aprendi com minha avó, ela era brasileira e tinha um livro de receitas com pratos diferentes de cada país. Sempre que era domingo ela fazia um prato bem elaborado, dizia que os domingos eram de família e devíamos celebrar esse momento juntos. Era onde a gente se reunia e conversávamos no almoço e eu, claro, ficava brincando com as outras crianças da família. Isso até o trágico dia do acidente da minha mãe, Meus avós passaram a cuidar de mim, pagar meus estudos… enfim, no dia seguinte ao acidente era domingo então ela fez esse prato. Claro que eu adorei e falei isso, então ela arrancou essa receita do livro e me deu. Desde então eu tenho guardado comigo.
Era perceptível a cara triste que Henry fez e para não tornar o clima mais tenso disse:
– Mas isso já se fazem anos, as letras já estavam quase bem apagadas. Algumas coisas eu pesquisei no Google e… Tenho certeza que ela deve estar bem feliz por ter te contado. Sei disso pois ela me disse pra fazer essa receita quando fosse um dia especial para mim e esse dia é hoje com você, Henry. Todos os dias são especiais quando estou com você mesmo que à distância. Mas hoje eu selo aqui o total amor que tenho por você e espero que nunca acabe.
– Pois então vamos brindar a esse momento, Lohan.
Brindamos e admito que fiquei bem incomodado pelo fato de Henry não ter dito nada mais do que apenas propor um brinde.

Após a janta deixamos tudo na pia e subimos pro quarto. Agora estávamos deitados na cama olhando pro teto, Henry envolvia seus braços à minha volta me abraçando e o quarto estava totalmente escuro.
– Qual seu maior medo, Lohan?
– Essa pergunta do nada?
– Sim, me veio na cabeça. Meu maior medo é do escuro sabia? Tenho medo das coisas que podem se esconder quando as luzes são apagadas, minha mente não consegue pensar em outra coisa a não ser nas ruins…
– Quer que eu acenda a luz?
– Calma, deixa eu terminar. Esse medo desaparece aqui com você, não sinto medo de nada. Você é minha luz, sempre estará iluminando meus pensamentos e isso faz com que eu não tenha medo de nada, nem mesmo do escuro.
– Ah que lindo. Sério, amor, obrigado de verdade. Acabo de confirmar mais uma vez em minha cabeça que você realmente é minha metade.
Na escuridão tento encontrar seus lábios e os beijo em meio às lágrimas que escorriam pelo meu rosto. Naquele momento estávamos no espaço, éramos apenas duas estrelinhas perdidas nas constelações junto com o mais profundo vazio escuro daquela dimensão. Era como se fosse nosso primeiro, único e último beijo.
– Lohan, eu preciso te dizer algo.
– Diga, meu amor.
– Voltarei ao Brasil amanhã.
Desci a milhões por hora do espaço e voltei a minha realidade cruel no Planeta Terra.

Summer

“Oh verão… será você capaz de unir nossos corpos novamente?
Como naquela noite, estávamos incontroláveis pedindo por prazer, pobres corpos suados e quentes.
Onde delírios de amor foram ditos como… te amo, sou seu pra sempre!”

– Amor? Está calado a muito tempo por favor não fique triste… Eu sei que é pedir demais, porém espero que entenda. Se você me deixar explicar…
– Henry, agora tudo faz sentido, não? Compreendo. Você comprou essas coisas porque era uma despedida, não é? Estive pensando e sei que é porque te conheço. Sempre que faz algo de errado tenta reparar isso com algo que lhe agrade para tentar amenizar os “danos”.
– Ei, calma. Vai jogar tudo na cara? Você sabe que uma hora ou outra eu teria que voltar.
– Mas não esperava que fosse tão cedo. Sei lá, esperava que ficasse pelo menos até o final desse verão, afinal, a empresa não está em reforma? – pergunto indignado e com certa raiva.
– Sinto muito por isso, você acha que eu queria ter que voltar agora? Claro que não! E bem… Parece que meu chefe conseguiu um lugar para trabalharmos… – Ele fala passando a mão em seu rosto, devia estar mais nervoso do que eu.
Ouvi atentamente toda a explicação de Henry. Ele gesticulava com as mãos enquanto falava, como se estivesse representando algo. Claro que eu estava muito triste por essa notícia tão repentina, me pegou de surpresa.
– Bom, e seu chefe deu algum prazo para voltarem? – pergunto.
– Não exatamente. Ele disse que precisava que a gente voltasse logo, se não iria nos demitir.
– Que simpático. – Fico em silêncio.
E esse silêncio se instaura naquele quarto escuro. Voltarei a passar meus dias sozinhos até Henry voltar? Isso vai demorar demais… Mas estou me conformando, penso.
– Você vai quando? – pergunto.
– Amanhã, pela manhã. Eu sei que não vai adiantar pedir para que você não fique triste, mas prometo que faremos ligações quando der.
– Então tenho algum tempo com você. Me beije.
– O quê!? – Ele fica surpreso, pois não esperava essa atitude.
– Henry, já que não teremos mais tempo para isso eu quero fazer amor com você agora, então me beije, fresco. Me deixe marcado a ponto que eu me lembre de você todos os dias quando me olhar no espelho. Se você quiser, sabe. Não quero desperdiçar o resto de tempo que temos… Então venha, não posso dormir até sentir seu toque.
Ele me agarra, começamos com carícias, sua mão percorrendo todo meu corpo e arrepiando cada parte que passava, parando em meu ponto mais fraco entre as pernas. Iniciamos um beijo desesperado e longo, como se realmente estivéssemos nos conhecendo pela primeira vez. Já empolgados, Henry retorna sua mão a minha blusa, tira nossas roupas e rapidamente fica sobre mim.
Nesse momento, a música blinding lights do The Weekend começava a tocar na minha cabeça. Estávamos totalmente em êxtase, o calor aumentava junto com mordidas ao lóbulo orelha e sussurros. Com Henry no comando, continuou com seus beijos descendo cada vez mais até minha excitação, beijando entre minhas pernas. Podia sentir o calor pressionando aquela área e isso me torturava, o prazer cada vez mais aumentava e eu podia sentir que isso estava pra melhorar quando ele subiu, começando a se movimentar. Estávamos em delírios, a cada toque, a cada beijo a cada movimento nos debulhávamos em prazer. Nada, nem mesmo o ar abafado daquele quarto, iria nos atrapalhar.
“Aguente, Lohan. Estou quase lá”
“Você está incrível assim. Continue amor, continue!”
Assim, voltei ao espaço novamente… Mesmo que por um breve momento.

No dia seguinte.
10:00 AM

– Então acho que é isso, né?
– Sim. É agora que nos despedimos – Henry diz e me abraça.
Já estávamos no aeroporto e claro que não seguro as lágrimas. Abracei-o com mais vontade, queria ficar ali para sempre junto dele.
– Lohan, preciso ir agora. – Ele me beija e se despede com um sorriso simples e lindo – Saiba que te amo muito. Esses dias aqui foram incríveis, todos nossos momentos são incríveis mesmo que à distância. Obrigado, Lohan. Se cuida.
Dito isso, ele se vira e o vejo caminhar em direção ao seu destino. Ele se vira pela última vez, acena e vai embora pra sempre.
Em casa já corro para o celular procurando mandar mensagem mesmo sabendo que ele não me responderia, pelo menos não agora que está no avião.

12:00 – Loh: Vida, me manda mensagem quando chegar, ok? Te amo.

Deixo o celular de lado e me jogo na cama. Estou completamente sem fome e tentarei dormir.
Enquanto tento, penso no que fazer a partir de hoje. Digo, o que farei de novo? Antes de Henry vir eu não fazia nada. Quero algo novo para ocupar minha mente.
Acordo no outro dia. Levantei ontem apenas para ir ao banheiro e fiquei mexendo a tarde inteira no celular. Reparo que há novas mensagens nele e umas delas era de Henry.

Yen: Cheguei vida, ‘tô no aeroporto.
Loh: Que bom! Como foi sua noite sem mim? (^^)
Yen: Fácil. Até dormi melhor hahaha
Loh: Vou te bloquear por mentiras!
Yen: Você não aguentaria um dia sem falar comigo hahaha, mas voltando à sua pergunta, foi triste sem você aqui.
Loh: Hum, vou aceitar isso como uma desculpa, ok? Te amo, se cuida e vai descansar agora.
Yen: Hahah obrigado, te amo também, viu? Vou para casa agora, mais tarde nos falamos. Beijos.

Tenho que admitir que antes, quando Henry ficava fora, era muito mais tranquilo de suportar. O fato dele ter chegado aqui no fim do mês passado e ter ido embora tão rápido foi decepcionante e eu sei que a culpa não é dele, mas isso me trouxe à tona um sentimento ruim e agoniante que jamais havia sentido. Foi um sentimento de quando eu era criança e mamãe me deixava no parquinho, eu chorava achando que nunca mais a veria e ficaria ali preso pra sempre, como se ela estivesse me abandonando.

Dois longos dias angustiantes se passaram. Eu conversava com Henry por vídeo chamada, era diferente o ver pela tela e não poder tocá-lo, mas ainda assim pelo menos mantíamos contato, ainda que essas chamadas estivessem ocorrendo com menos frequência. Ele estava sempre muito atarefado no serviço e chegava tarde, ficava sem tempo para mim.
Hoje se iniciava o Summer fest, onde todos compartilhavam fotos suas no verão desse ano, porém tinha que ser em um lugar aqui dentro da cidade, não valiam fotos tiradas no mesmo lugar e elas tinham que ser desse ano. Eram sempre poucas pessoas que participavam desse evento pois era muito difícil ganhar sem que mais ninguém tivesse tirado uma foto no mesmo lugar, mas ouvi boatos de que existem lugares aqui que ninguém nunca ouvir falar e só os mais velhos sabem onde é.
E também era mais fácil para avaliar, o juiz ia junto ao local que a pessoa tiraria a foto para garantir que foi tirada nesse ano, mas o objetivo principal era o sol. Se alguém conseguisse tirar uma foto em um lugar que ninguém mais tirou e com o sol de fundo ganhava um vale para comer o quanto quiser em um restaurante, podendo trazer um companheiro. Imagino que se Henry estivesse aqui, por acaso toparia participar comigo? Será que ganharíamos? Provavelmente não. Ambos não teríamos criatividade, mas com certeza a gente iria se divertir muito.
Essas imaginações têm me assombrado ultimamente e, assim como qualquer outro ser humano podia ter, eu também tinha a famosa ansiedade. Anseio por minha solidão, por medo de me sentir sozinho sem ninguém.
Resolvi ir à psicóloga e ela me confirmou esse Transtorno, deu dicas e até remédio para que eu melhorasse porque, segundo ela, eu tinha altos riscos de ficar com depressão. E justo hoje meus trastornos vieram a tona junto com meu nervosismo, eles resolveram me atacar. Era sábado e o sol estava marcando sua presença mesmo que coberto por algumas nuvens. Eu poderia ir nas cachoeiras que tem aqui perto, mas planejava isso com Henry e só de pensar isso me deixa frustado, então não irei e ficarei mais um dia dentro de casa.
Mais tarde, naquele dia, recebi uma ligação.

Vídeo chamada de yen:
– Oi vida, como você está? – ele diz com um tom cansado, como se tivesse acabado de fazer um trabalho difícil. Sua aparência tão aflita…
– Estou bem – respondo. – Quero dizer, ‘tô tentando sobreviver. Os dias sem você aqui não têm sido muito bons, me sinto deprimido, sabe? Não só porque você se foi, mas acho que me dei conta do quão sozinho eu estou. Eu fui na psico e…
– Ah sim, Lohan, entendo. Tenho algo para te dizer, é muito importante e preciso que você me escute agora.
– Nossa, eu digo que estou para baixo e você diz que tenho que te escutar agora? Como assim? Meus sentimentos não são sempre prioridades para você, mas como namorado pensei que entenderia! – digo indignado e um tanto com raiva por sua resposta.
– Lohan, eu realmente estou sem tempo para seus dramas. Agora eu preci…
– Então por que você me ligou? Se foi pra falar que meu “drama” te atrapalha e o que eu sinto não é tão importante, repito: por que me ligou!? – Altero minha voz, me descontrolando totalmente.
– Lohan, não grite! Você está passando dos limites com suas neuroses!
– Não, Henry, não estou, mas quer saber? Cansei! Você me trata como se fosse criança, podia pensar antes de falar tudo. Você acha que é drama, que estou brincando, que eu estou feliz, mas sabe? – continuo – Você acha que eu sempre aceitei isso numa boa. Não dá, não posso, é sufocante viver assim! – Meus olhos se enchem de lágrimas e começo a chorar.
– O quê? Lohan, eu queria levar numa boa isso, mas é sufocante? Você está chorando que nem uma criança agora! E como sempre, eu vou lá e te perdoo. Também é cansativo brincar de “mamãe e filhinho”. Vê se cresce, Lohan. Eu te ligo para a gente conversar porque estou com problemas e você vem com essa estupidez para cima de mim?
Silêncio, soluços e choros.
– Não está fácil para os dois… Também sinto dor, então o mundo não é só seu! – Ele continua. – Desculpe se eu estou te sufocando, vou deixar você respirar então, assim você pensa melhor. Não sei, talvez devêssemos dar um tempo, mas é melhor você pensar bem, quem sabe assim paro de te “sufocar”, mas dessa vez pode ser pra sempre…
Vídeo chamada encerrada.

Depois daquela ligação de semana passada passei meus dias pensando em cada frase que Henry me disse naquela noite. Não o julgo, falamos a verdade sobre o outro e foi uma discussão que nunca tivemos antes. Percebi que nem sempre fomos tão almas gêmeas assim, somos diferentes e bastou um pouco de faísca para que as verdades nunca ditas fossem reveladas.
Será que devemos terminar? Sim, terminar, porque não existe “dar um tempo”. Se algo não está dando certo no relacionamento, para que prolongar a dor? Penso nisso todos os dias, além do mais a decisão ficou pra mim. “Dessa vez pode ser pra sempre…”. No mesmo instante me vem a música can I call you tonight? do cantor dayglow.
Entro no Instagram e claro, vou direto ao perfil do Henry ver se há algo de novo já que não estamos nos falando.
Me deparo com uma foto da empresa onde ele é marcado, porém não aparece. Na foto há apenas seu pai e alguns outros funcionários, na legenda diz “A família está de volta!”
Por que Henry não estava na foto? Fico curioso pensando, devia ser folga dele nesse dia? Será que devo perguntar? Vai ser uma boa desculpa para voltarmos a conversar já que estamos a semanas sem nos falar. Temos que resolver logo isso e eu vou antes que o outono chegue. Quero aproveitar minha estação favorita livre desses pensamentos que ficam martelando em minha cabeça.
Pego o telefone e ligo para Henry.
– Oi!…
– Henry, eu…
– Aqui é o Henry. Quem é você, estranho? Se eu não atendi é porque estou trabalhando. Deixa seu recado na caixa de mensagens. Tchau.
Ótimo! Essa foi boa Henry. Acho que ele só não quer falar comigo, mesmo. Disso eu tenho certeza, porque hoje é domingo e eles não trabalham.

Era noite e estava ventando tão forte que dentro de casa podia-se ouvir o barulho das rajadas de vento. O tempo parecia estar mudando para chuva e essa mudança se deve à nova estação que estava por vir.
Após a janta tomo meu remédio e vou para sala. Antes que pudesse ligar a TV meu celular toca, era Henry.
– Sim? – respondo.
– Oi, Lohan, não é? Então, aqui é o pai do Henry, se lembra de mim? Sr. André. Enfim, não quero gastar meu tempo com gente que nem vocês, só queria dizer para deixar meu filho em paz. Por sua culpa e insinuações meu filho não têm sido ele mesmo.
– Desculpe, senhor. Como assim insinuações?
– Sim, isso mesmo que você entendeu. Meu filho era homem de verdade antes de conhecer você e agora ele está voltando a ser como antes! Digo, eu sei que ele foi viajar pra te ver. Eu descobri, dei uma surra nele. Isso deve ter o ajudado voltar ao normal.
– Você fez o quê!? Não pode fazer isso, que tipo de ser humano, que tipo de pai é você? Pais de verdade amam, cuidam e apoiam seus filhos independentemente de qualquer coisa. Você não é pai, é um monstro, um lixo! Onde ele está?
– Eu juro, Lohan, se eu soubesse onde você mora ia agora mesmo te dar uma surra, também. Eu sou pai e sei o que estou fazendo, dando a disciplina certa para o meu filho, o fazendo se tornar uma pessoa melhor. É uma pena você não morar mais aqui no Brasil, poderia te ajudar também.
– Maldito! O que você fez com ele!? – Minha ansiedade aumenta, comecei a chorar e agora efeito de remédio nenhum podia melhorar isto.
– Veja, meu bem. Eu sei que vocês terminaram, se é que isso pode ser chamado de relacionamento. Tentei fazer ele me dizer onde você morava para poder conversarmos, mas claro que o idiota ainda sente algo por você, então além da surra que o concertou dei outra que o fez faltar alguns dias no trabalho Hahah. Nada que umas palmadas não funcione… Agora vou quebrar esse celular e se for preciso mudo de endereço para que você não volte para nossas vidas nunca mais!
Estava em choque, não sabia o que fazer e não sabia se Henry estava bem, não sabia o que aconteceria depois. Não sabia de nada, Me encontrava tremendo e desesperado, esperando que alguma luz pudesse aparecer ou que eu apenas acordasse e tudo isso não passasse de um pesadelo. Estou sonhando? Isso realmente aconteceu? Tudo embaça, me lembro apenas de ter digitado algo, mas já não me lembro.
No dia seguinte, acordo com algumas dores no corpo e com a cabeça como se estivesse prestes a explodir. Levanto e percebo que havia adormecido no chão da sala, me lembrando do ocorrido de ontem. Coloco a mão em minha cabeça.
– Eu sonhei? – Me questiono.
Me sinto acabado e totalmente deslocado, então surpreso me espanto:
– Henry!
Tento ligar para seu número, mas cai na caixa postal.
E têm sido assim todos os dias. Ligo inúmeras vezes para ele, mas sem sinal algum. Ando de um lado para o outro dentro de casa pensando se ele está bem e o que aconteceu. Às vezes me pego perguntando se isso realmente é minha culpa. Não tenho me alimento bem, parei de ir à psicóloga e tudo que penso é em como está Henry.
E cada vez que penso mais me afundo, sempre mais e mais… Não está fácil suportar esse sentimento de culpa, esse vazio no meu peito. Não me sinto bem e nem quero estar bem, só queria acordar e perceber que tudo não passou de um mero sonho, que tudo tenha sido efeito do remédio. Ah, o remédio… O único capaz de acabar com meu sofrimento.
Um momento de adrenalina percorre meu corpo. Em movimentos rápidos e desesperados subo os degraus da escada e vou em direção ao meu quarto e abro a gaveta. Era como se alguém estivesse me controlando como um bonequinho e, naquele momento, o bonequinho procurava se soltar das cordas que o prendiam, mas não conseguia. Quem quer que estivesse o controlando queria vê-lo perdido, totalmente sem falas e incapaz de se mover.
Reviro a gaveta à procura da caixinha que me mantém vivo, sem achar-lá desço apressado e vou para a cozinha e lá está. Pego-a de cima do balcão, tiro todas as cartelas e empurro todos os comprimidos para fora, os amontoo e vou em busca de um copo d’água.
Um único sentimento, uma única ação e o bonequinho estava prestes a terminar a apresentação.
Tremendo, levo lentamente o que cabe em minhas mãos em direção à boca, as pílulas balançam entre os dedos e algumas até caíam.
(TIM DIM!)
Paro o movimento. Há alguém em minha porta. Devo abrir? E se for o pai de Henry? Não importa, não mais. Já estou morto e não há mais nada em minha vida que me faça temer a morte. Em passos lentos vou até a porta e atendo.
Antes das cortinas de fecharem uma mão surge do céus e liberta o bonequinho de suas cordas.
– Lohan? Está tudo bem? Por Deus, sua cara está horrível!
Corro para um abraço, era tudo o que eu tinha. Então aperto mais forte, prolongando aquele momento. Quando finalmente nos separamos começo a chorar.
– Ainda bem que está aqui – digo entre soluços – Eu estava prestes a tentar tirar minha vida.
– Oh Lohan, não. Cheguei em um bom momento, não é?
– Sim, Mya, por favor, entre.
Mya era minha psicóloga. Em um momento como este certamente foi enviada pelos anjos.
– Me conte, Lohan, por que queria fazer isso, meu bem?
– Mya, eu não tenho mais ninguém a não ser você. Supostamente terminei com Henry e acho que tudo foi por minha culpa. O pai dele o bateu, me ameaçou e pediu que nunca mais os procurasse porque ele estava bem sem mim. Eu não sei o que fazer!
– Lohan, se acalme. Estou aqui como sua amiga agora, como prometido, lembra? Não se preocupe, eu vou te ajudar.
– Me lembrar? Do que exatamente?
– Você me pediu para vir até aqui alguns dias atrás porque precisava de um amigo para converar. Eu disse que iria, mas estava ocupada com alguns pacientes e só poderia vir hoje. Lohan, tem tomado os remédios além da dosagem que eu recomendei?
– Talvez – respondo, mas o som quase não sai.
– Sabe que não permiti isso e pelo visto você pretendia tomar ainda mais. – Ela aponta para o balcão da cozinha. – Lohan, como sua amiga eu não quero que faça nada estúpido como o que estava prestes a fazer agora, ok? E sobre Henry… bom, eu aconselho que você espere as coisas se acalmarem e use esse tempo para cuidar de você também.
– Como? Como posso fazer isso se nem notícias eu tenho dele?
E nesse momento foi como se minhas preces fossem atendidas, uma notificação em meu celular aparece sobre uma nova publicação que Henry fez.
– O quê!? – Levo as mãos em minha boca como espanto e mostro o celular para Mya.
– Não é por nada não, Lohan, mas como eu disse Henry me parece bem na foto. E você também deveria estar.
A foto mostrava Henry sorridente e com um copo na mão, conversando com várias pessoas que não conheço. Na legenda dizia “Quem é vivo sempre à casa retorna”.
– Mas que p**ra – digo frustado.
– Lohan, antes de pensar no Henry, pense em si. Poxa, você tentou se matar agora pouco, tem noção disso? Estava disposto a deixar tudo para trás por causa dele. Ele faria o mesmo por você? Você acredita que ele está bem e que vai ficar bem agora?
– Sabe, Mya – Respiro fundo. – Uma vez eu pensei que se um relacionamento não está indo bem não tem porque prolongar a dor se não terminar logo.
– Concordo, Lohan. Vocês são adultos e está na hora de você seguir em frente. Se é o que você realmete quer, sabe, não há nada de errado em ser “egoísta” as vezes. Você só está tirando um tempo para si. É até melhor, porque assim você se conhece mais, explora seus gostos.
– Tem razão. – seco algumas lágrimas. – Me parece que Henry realmente sabe se virar e que ele não se importa comigo. Ótimo, eu também! – Engulo em seco o que disse e, com muita vontade de chorar novamente. – Mya, não quero mais tomar esses remédios. Eles me fazem mal.
– Eu sei Lohan, mas enquanto essas suas crises não passarem, não tem jeito. Mas eu posso te ajudar a ir diminuindo até você parar. Vamos começar, me diga o que mais gosta de fazer.
– Estava tentando ocupar minha mente antes de te conhecer e depois dele partir, mas não consegui pensar em algo.
– Você me disse que gosta de cozinhar, não? – Mya dizia, pensativa.
– Sim, mas quando tenho para quem servir.
– E você terá, Lohan. Vamos arrumar um emprego para você, alguma cafeteria ou algum restaurante! O que me diz?
– Sim!

Fall
“É sobre deixar ir, assim como as folhas que caem e partem para o além. Que com elas possamos colocar nossas angústias para que voem pra longe, nosso passado, sentimentos ruins, mágoas, brigas… Sim, é a hora de deixar ir e encerrar ciclos como o nosso, que pode ser eterno, só que em outras vidas…
Meu amor.”

Andamos em todas as ruas possíveis, entramos em todos as cafeterias, lanchonetes e restaurantes. Agora que cheguei me encontro sentado no sofá. Foi um dia longo, todos os lugares disseram que entrariam em contato e é o que eu espero.
Mya havia partido enquanto procurávamos os lugares, ela dizia que tinha pacientes a atender e me mandou ficar calmo porque em breve eles me ligariam. Mal posso esperar para começar uma vida nova e poder melhorar minha saúde. Enfim, seguir em frente.
Antes ansiava por ter medo de ficar sozinho, mas Mya me fez perceber que ser sozinho não é algo ruim. Na verdade é um momento perfeito, onde posso me conhecer melhor, me conectar comigo mesmo. Ainda mas quando você leva um choque de realidade. Passar por aquela situação me fez perceber que já não tenho mais medo.
No outro dia, acordo um tanto quanto confiante. Me sentia uma pessoa diferente e pronta para o novo, sem medo do que o mundo tinha a me apresentar. Pego o celular e meu coração gela.

Cafeteria frosting: Olá, bom dia! Tudo bem? Foi você que veio aqui ontem atrás de um trabalho, certo? Venho para lhe dizer que estamos com vaga aberta. Se quiser participar, venha depois do almoço para uma entrevista. Você pode cozinhar para a gente?

De fato, talvez agora eu esteja sim com um pouco de medo.
Ligo rapidamente para Mya e lhe conto tudo o que aconteceu com extrema felicidade.
– Lohan, que oportunidade de ouro! Mas é claro que você tem que aceitar.
– Mya, mas estou com medo.
– Medo do que, Lohan? Você vai arrasar. Faça um prato para eles que os deixem sem fôlego, mas nem tanto hahaha.
– Não sei, Mya. Tenho medo de fracassar.
– Lohan, mesmo sabendo que você não vai fracassar, você ainda tem outras oportunidades, não se deixe abater assim.
– Ok, ok. Irei aceitar. Ore para que eu passe na entrevista e obrigado, você tem me ajudado de mais. Irei lhe retribuir isso.
– Não se preocupe com isso. Não preciso de nada, sua amizade já é o bastante para mim. Agora se arruma e arrasa.
Desligo o telefone e passo minha manhã inteira pensando no que faria para agradar o paladar deles. Não vem nada em minha mente e já são 12:30. Após trocar algumas mensagens com a cafeteria marcamos um horário às 13:00. Estou desesperado, não sei o que fazer, mas dentro do carro insisto para que minha mente pense em algo, porém, não consigo.
– Lohan, número 15!
Chegou minha hora da entrevista, o que vou fazer? Entro na cozinha e me direciono à mesa.
– Então, Lohan, o que você vai fazer para a gente hoje?
Fico em silêncio, fecho meus olhos e respiro fundo.
– Você me parece nervoso, Lohan – um dos jurados diz. – Não fique, somos bonzinhos. Tudo bem não saber o que fazer, apenas mostre para a gente seu talento. Vou ligar o rádio, quem sabe uma música possa te acalmar, pode ser?
– Ca-claro – respondo, mas sei que música nenhuma irá me ajudar agora.
Mas de repente toca aquela música, daquela noite. So can I call you tonight?
Vários pensamentos me vem na cabeça.
“Eu deveria ter insistido para ele ficar”.
“Se algo lhe tiver acontecido eu nunca mais me perdoarei”.
“Mas ele me parecia tão bem na foto, seu pai não havia quebrado o celular? Por que ele não veio conversar comigo depois que apanhou?”.
Todo esse sentimento vem a tona e, antes que pudesse derramar uma gota de lágrima, meu prato estava pronto e o rádio havia sido desligado.
– Muito bem! Falei que você conseguiria. Música sempre inspira as pessoas – o jurado principal dizia, desligando o rádio. – Hora de experimentar.
– O que você fez pra gente, Lohan?
– strogonoff de carne.
Eles avaliam, se entreolham e pedem para eu aguardar na sala junto com os outros que logo anunciariam o vencedor.
Horas se passaram e nada dos jurados aparecerem. Algumas pessoas que estavam lá foram embora e, por minha vez, estava quase a ir também.
– Dali e Lohan, por favor venham aqui. – Anunciam.
Vejo os outros participantes saírem da sala e irem em direção a porta de saída. Eu consegui!
– Era pra ser um vencedor só, mas o prato de vocês foram excelentes. Não dava para escolher um hahahah. Sejam bem-vindos! Meus parabéns.
A outra participante, agora funcionária, me abraça e eu retribuo. Estávamos muito felizes. No mesmo instante pego meu celular e vou correndo contar à Mya.
– Eu falei que você ia conseguir, Lohan! Eu te disse!
– Estou tão feliz, Mya. Obrigado pelo apoio!
– Já falei que não precisa agradecer. Estou indo agora para sua casa para a gente comemorar.
E assim foi feito. Mya veio e comemoramos muito meu novo emprego, comemos, cantamos e bebemos. Até demais.
– Sabe, Mya, hoje na entrevista eu lembrei de Henry de novo e percebi o quão duro fui com ele. Tipo, aquele dia na ligação ele estava tentando me dizer sobre seu pai e eu o ignorei.
– Sim, mas você estava com problemas também, lembra? Acho que os dois erraram, mas foi bom você ter reconhecido o seu erro.
– Sim. Ele está bem agora, mas deixa isso pra lá. Me fale de você, Mya!
– Bom, não quero estragar o momento, mas fui demitida.
– O quê? Por quê?
– Eles simplesmente não precisavam mais de mim. Estão cortando verba e, como já tinha bastante psicólogos no hospital, eu tive a sorte de ser escolhida.
– Poxa, sinto muito…
– Mas logo consigo outro lugar para trabalhar. Já estou vendo uma escola e me parece que vai dar certo.
– Lógico que vai!
Avanço para dar-lhe um abraço apertado, mas nossas testas se chocam antes, nos causando uma dor terrível.
– Ai! – dizemos juntos.
– Hahah nossa, vai ficar roxo! Parece que apanhei! – Ela diz rindo e com a mão na cabeça.
“Apanhei”
Por algum motivo essa palavra me serviu de gatilho e então começo a formar minhas teorias.
– Lohan, está tudo bem? – Ela diz, estalando os dedos na minha frente, me despertando.
– Mya, meu celular. Agora! Preciso ver a foto que o Henry postou!
– Não, Lohan. De no..
– É sério! Desculpe, Mya, preciso que você me ajude agora.
Pego meu celular e vou atrás da foto.
– Viu? – digo como tivesse desvendado o maior segredo da NASA.
– Lohan, não entendo. Ver o quê?
– Os roxos! Onde estão os roxos na cara de Henry? Se seu pai lhe bateu era para eles aparecerem, não?
– Não sei. Talvez ele tenha batido em outro lugar ou isso pode ser apenas Photoshop.
– Pode até ser, mas eu dúvido.