RED

  • Por: Livia Velásquez
  • Categoria: Originais
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Sinopse: Uma vida cheia de perigos lhe cresceu aos olhos desde muito nova. Viu sangue ser derramado aqui e ali, alguns justos e outros injustos. Fez o que dizia ser justiça com as próprias mãos, até que se viu farta do mundo sujo do tráfico de armas e drogas. Pagou caro para sair do esquema e voltou para ter vingança, que fora doce como um pirulito no Dia das Bruxas. Viu a reviravolta acontecer e se reconhecer com sentimentos nobres e humanos pela primeira vez em sua vida.
Gênero: Drama, Ação, Romance e Aventura.
Classificação: 18 anos.
Restrição: Nomes John, Brian, Lee e Trevor fixos. Palavras de baixo calão e violência.
Beta: Elena Alvarez.

Londres, sexta-feira, 06h10 P.M. – Luxx Club London.

— Está vestida demais pra uma noite que sequer exige roupas, ! – Gritou Brian, engraçadinho como sempre, enquanto organizava as garrafas no bar do outro lado da boate. O encarei por alguns segundos, abrindo os primeiros botões do longo e negro sobretudo que me protegeu do típico frio londrino apenas para mostrar parte do meu colo nu.

— Eles gostam do mistério, honey! – Pisquei para ele, insinuativa e contribuindo para a piadinha infame do homem que soltou uma gargalhada alta, ecoando por ali.

Subi as escadas já tão conhecidas, sentindo a bolsa pesar em meu ombro. Algumas das meninas começavam se arrumar, as do bar principalmente, já que era ali, que boa parte das nossas gorjetas gordas vinham. Os decotes, bodys cavados, shorts curtos e justos, maquiagens pesadas compunham o look do dia e do resto da semana, porque esse sex appeal nos ajudavam a manter as contas em dia e ainda conseguir guardar uma parte. “Se vista mais e perca dinheiro” foi a frase de boas-vindas que ouvi ao pisar meus pés aqui, e agora, era a encarregada de proferi-la para as mais novas.

A casa noturna começava a lotar e já passara até mesmo a revista diária dos policiais da área para evitar que as gangues do bairro se encontrassem e abrissem fogo em plena boate. Mas, cá entre nós, sabemos que o verdadeiro motivo eram os batons vermelhos e cropped tops que chamavam a atenção de cada par de olhos, sem exceção.

Vi Ashley sair da frente do palco, atravessando lentamente a passarela até o camarim, ouvindo palavras sujas serem cada vez mais reforçadas à loira de quadris largos. Algumas notas de cinquenta e cem libras voavam conforme ela mandava beijos no ar, até que ela finalmente atravessasse as cortinas e pudesse descansar os pés das longas botas de saltos altíssimos.

Era a minha vez.

Os passos lentos no caminho até o palco fizeram os olhos famintos se virarem para mim e, da parte dos mais conhecidos da casa, já vi notas começarem a voar em minha direção. Abri um sorriso em direção a eles e abri o zíper lateral da saia de couro que usava, deixando-a deslizar sobre minhas pernas. Prendi a saia no chão com os saltos, impedindo que a pegassem e encarei o homem que não a soltou.

— Me dê motivos pra te deixar sair daqui com ela. – Me agachei e sussurrei à medida que me aproximava do rosto do homem para provocá-lo. Segurei gentilmente seu queixo, fazendo com que ele sentisse meu hálito quente bater em seus lábios. Sem conseguir se desviar do feitiço que meus lábios pintados de carmim o prenderam, ele abriu a carteira, tirando uma generosa quantia de notas e eu desacreditava que ele conseguiria sequer adivinhar quantas haviam, mas estava sedenta mesmo era para ver aquela quantia engordar meu saldo bancário. Soltei uma risada o mais próximo possível de sua boca e me levantei, soltando a saia e deixando que ele finalmente a tivesse.

A meia arrastão contrastava com o látex da calcinha preta que vestia e enquanto começava tocar uma música animada, cheguei até o pole dance. O segurei firmemente com apenas uma mão à medida que dava voltas lentas e deslizava a mão livre pelo meu corpo. Chamei as atenções para mim e ao refrão, embrenhei minhas pernas ao passo que sentia a música tomar conta de mim e influenciar na dança que fazia. Meu corpo se aderiu ao instrumento e tornava mais fácil os movimentos que gostava de fazer –e que eles gostavam de ver–. As meias-luzes do local colaboram na sensualidade por si só, mas para mim, isso não bastava, então, gostava de fazer o melhor possível, e não só pelo dinheiro, mas pelo meu ego que amava ser massageado vez ou outra.

Entre um movimento e outro mais lento, abusava do sorriso luxurioso que me favorecia em sentir toda e qualquer vibração que as músicas passavam. Encarava os que pagavam melhor, também, porque isso fazia com que eles pagassem ainda mais e ao fundo, sempre havia ele. Ele que nunca me pagou uma bebida, mas que sempre levantava sua dose de uísque para me cumprimentar antes que eu iniciasse minhas danças.

Dancei por mais alguns momentos e enquanto me parecia ter graça, porque a novata Leslie, precisava ter seu momento.

Atravessei a passarela que dava até os camarins, permitindo que as maiores notas pudessem ser colocadas no sutiã, para por fim, adentrar as cortinas. Suspirei e busquei por uma cerveja gelada, tomando com rapidez, suprindo a sede sem demora. Já nos vestiários, peguei um vestido vermelho e justo, que valorizava meu colo para passar pela segunda parte da noite, até o final do turno.

Comecei servir as mesas e ouvir as congratulações pelas danças, apesar de boa parte dos elogios terminarem em cantadas sem graça que faziam as cortesias irem por água abaixo. Eles não aprendiam nunca!

Durante a noite revezamos mais alguns postos e nas últimas horas de trabalho, fiquei encarregada de cuidar do bar, que, para mim, era a melhor hora para administrá-lo, já que, bêbados demais, se tornava mais fácil de tirar deles as bebidas mais caras e as gorjetas mais generosas.

— É um perigo deixarem, logo você, tomar conta do bar. – John proferiu do lado contrário da bancada do bar, após me ver servir algumas doses. O moreno havia raspado os cabelos desde a última vez que o vira, tempos atrás e finalmente, completou seu desejo de fechar os dois braços completos com tatuagens. Meu sorriso se abriu e pela distância, o abracei da melhor forma possível. — Pelo abraço, chuto que já tomou alguns Negronis pagos por esses otários! Eles ainda acham que tem alguma chance com você?

— Eles nunca vão desistir de mim. Olha esse corpo! – Entrei em sua brincadeira e empurrei dois shots de tequila em sua direção. Brindamos e viramos a dose, assistindo-o entornar a garrafa para nos servir mais um pouco. — Não sabia que haviam voltado pra Londres.

— Chegamos hoje à tarde. Lee quer terminar os assuntos pendentes aqui. Já finalizamos em Manchester. – Disse com tranquilidade. Ouvindo-o falar aquilo e saber o significado de cada coisa, me dava um frio na espinha que me fazia lembrar dos velhos tempos.

— O que Lee quer agora?

— O alvo gosta de derramar algumas notas por aqui.

— Aqui? – Proferi boquiaberta. — Lee quer abrir fogo, aqui?

— Porra, ! Não vamos abrir fogo! E não é como se você não soubesse como essas coisas acontecem, não é? – Viramos mais uma dose. — Estamos fazendo pressão, o cara é rico e não parece saber como as coisas são por aqui.

— Poderia ter me avisado antes que tem alguém rico aqui, quero ganhar o meu também! – Ri e esperei que ele me acompanhasse, mas não o fez. — O que está acontecendo, John?

— Trevor. – Suspirou. — Trevor ordenou que encurralássemos o cara. – Engoliu em seco. — E você é parte fundamental desse esquema.

— Eu não faço mais essas coisas, John. – Respondi simplesmente.

— Você não vai cavar a cova! – Revirou os olhos. — O cara vive de olho em você, então só vai trocar uma ideia e deixá-lo de quatro por você. Leva ele pra algum lugar e então nós o pegamos.

— Eu não vou sujar minhas mãos com o sangue que vocês estão derramando. Céus, John! Você me prometeu que ia sair desse esquema também!

— Agora eu não posso sair. – Coçou a nuca. — Aceite por mim, ou aceite à força por Trevor ou Lee. É você quem sabe!

Permaneci quieta e não o respondi, até porque não tive tempo para tal e logo o vi se levantar e retirar o maço de cigarros do bolso, indo em direção à saída alimentar seu vício. Engoli em seco apenas de pensar em ter que encarar Trevor mais uma vez. Ele comandava a “DeathGang” (como gostavam de ser chamados, por mais brega que soasse) na região de Londres e principalmente, na cidade, mas nada passava de um esquema de tráfico de drogas que começava á dar muita grana. Antes da melhor droga, era a melhor gangue àquela que mantinha a sete palmos do chão o maior número de otários que não pagavam suas dívidas ou que traficavam o que já foi traficado pela gangue de Trevor. Lee administrava tudo quando Trevor estava ocupado demais cobrindo rastos dos esquemas por toda a Inglaterra.

O movimento na boate começava à cessar e faltava mais uma hora para que o turno fechasse, me libertando para ir pra casa. Contei e dei baixa nas garrafas consumidas hoje, repondo as que me eram possíveis no momento, deixando em aberto os pedidos que precisavam ser feitos. Desde a conversa com John, entre um momento e outro ainda conseguia ouvir vividamente sua voz reverberar com o aviso apavorante que me dera. E como em um loop, consegui me ver mais uma vez, como anos atrás, de pernas bambas e vacilantes para bater de frente com Trevor e só eu sei, o quanto isso significou pra mim, mas também o quanto me custou.

Me encostei no balcão do bar, esperando os últimos minutos de turno e servindo as últimas doses do dia.

— Quanto você cobra? – Ouvi a voz baixinha e um pouco embargada de álcool se direcionar a mim. Apenas ignorei, porque aqui não é lugar disso e toda a Londres sabia. — Se você topar, posso te pagar o dobro de três meses de salário seu aqui. Por duas horas. – Piscou ridículo e empurrou o cheque em minha direção, com as luzes que piscavam vi de relance seu rosto com feições fortes e marcantes.

— Eu assumo daqui. – Amanda tomou a frente, fechando a caixa registradora e somando os lucros. Não olhei para trás quando tomei o rumo até o camarim pra buscar minhas coisas, porque era apenas isso que eu queria agora.

A água caía quente em meu rosto, tirando toda a maquiagem e dando espaço para a sensação de descanso que senti ao perceber os nós se desfazerem em meus ombros. Vesti uma camisola e logo me deitei, esperando que o sono batesse de vez enquanto respondia algumas mensagens no celular. O sol já começava a nascer quando senti meus olhos pesados se fecharem e meus músculos afrouxarem.

O celular despertou e demorei um bocado para achá-lo em meio aos lençóis, apenas para desligá-lo, porque dali à vinte minutos, despertaria mais uma vez. No segundo alarme, precisei me levantar e criar coragem para pôr em ordem as coisas naquela casa, porque há dias sequer um pano havia passado por ali. Fiz a higiene matinal e fui direto para a cozinha, liguei a cafeteira enquanto fritava ovos. Abri as cortinas do cômodo, me esticando para abrir as da sala também.

— Bom dia, . – A voz. Aquela voz. Que me atormentou até pouco tempo atrás.

— Por que eu não estou chocada que esteja aqui? – Me virei para ele, mantendo minha melhor pose. Ele se levantou e começou andar em minha direção, e eu também o fiz, recuando conforme se aproximava.

— Não precisa ter medo de mim. O que acha que vou fazer? Só vim esclarecer umas coisas, boneca. É pra isso que servem as amizades antigas. – Soltou uma gargalhada tão nojenta que chegava me dar náuseas instantâneas. De tanto recuar, já adentrava a cozinha e isso era bom, porque se eu deslizasse a mão por debaixo do balcão… — É essa arma que está procurando? – Sacou-a do cós da calça. — Depois de tantos anos, ainda tão previsível…

— Como pode ter tanta certeza que não tenho outra?

— Não. Você não tem outra arma, . E de quebra, também não tem saída. – A voz rouca e grave do homem saíra imponente como já vira inúmeras vezes antes, e sem que percebesse, ele me encurralou entre seu corpo e o balcão da cozinha. — Nós viemos observando aquele covil em que você trabalha há mais ou menos um mês. O mesmo cara vai até lá, pede a mesma bebida, paga da mesma forma e te faz a mesma proposta. Só que desta vez, você vai aceitar, porque é ele que queremos. – Segurou meu queixo com certa força, fazendo meus dentes rangerem involuntariamente e alguns gemidos de dor escaparem.

— Eu não vou fazer isso. – Disse da melhor forma que me fora possível e senti sua mão deslizar até meu pescoço, onde o apertou. Minha respiração era escassa e cada milésimo passado, era uma eternidade.

— Você. Vai. Fazer. Caso contrário, amanhã vai ter uma bala tão cravada no seu crânio que não há quem tire. Como em um suicídio, sem suspeitos. – Sussurrou ao pé do meu ouvido, apertando ainda mais a mão em meu pescoço. — Hoje, . Estaremos de olho. – Finalmente me soltou e meu baque no chão fora tão forte a ponto de me preocupar sobre as escoriações que poderia resultar. Trevor permaneceu alguns segundos parado, como se renovasse seu espírito assistir a forma como me via largada ao chão e pude ouvir outros passos se aproximarem. — Pegue essa arma e deixe na mão no Lee, essa vagabunda não vai precisar tão cedo. – Trevor se serviu de uma xícara de café, terminando-a rápido para enchê-la de novo, porém nada pude fazer ao ouvir o vidro da xícara se chocar com a parede mais próxima e ver o líquido manchar a parede e alguns móveis. — Limpe.

Ainda não consegui respondê-lo, contudo, ao recuperar boa parte da respiração, observei quem estava com ele e era John. O meu amigo de todos os momentos, John.

Cada segundo limpando as manchas de café e catando os cacos de vidro, pareciam repetir o filme de terror que fora ter Trevor e sua gangue em minha vida durante esses anos. Não é que ele me amedrontava, mas eu estava muito mais do que ciente de tudo que o homem era capaz, sem nem pestanejar. Quando achávamos que ele estava perdendo o poder nas redondezas de Londres, ele retomava seu posto e ainda mais forte. Para tirá-lo do poder, teriam que matá-lo, mas sabíamos que quem viesse, viria pior que ele, justamente para vingar a morte do chefe.

Eu sonhava em dizer que estava livre, mas foram apenas férias porque ele me acorrentava mais uma vez.

As horas passaram se arrastando, e quando adentrei a boate, senti um calafrio percorrer todo o meu corpo e algumas partes se retesarem e doerem, como se me lembrassem das ordens do homem mais cedo. “Amanhã vai ter uma bala tão cravada no seu crânio que não há quem tire” eu ouvia repetitivamente. Tomei alguns analgésicos para que aliviasse as dores e me empenhei em me arrumar, desta vez, começando mais cedo, para que não restassem dúvidas a partir do momento em que eu decidisse afetar o alvo. Ele cairia na minha lábia, sem pensar duas vezes.

Difícil era alguém não cair, não é mesmo?

Eu sabia quem era o cara e realmente, ele era um cliente regular, mas além da pergunta estúpida de todos os dias, não o via se manifestar. Combinei com Ashley de pegar a primeira dança da noite, e tendo em vista que ele já estava no seu lugar de sempre, a primeira dança eu devia á ele.

O homem levantou sua dose de uísque e me cumprimentou, deixando que um pequeno sorriso ladino tomasse conta dos seus lábios, que bebericavam a bebida sem deixar que nossos olhares se desencontrassem. Mais rápido do eu imaginei, ele entendeu que aquela dança era para ele.

Como na noite passada, me desfiz de uma parte da roupa e desta vez, puxei os botões centrais que fechavam o cropped, despindo-me e permanecendo com o sutiã. Desci as escadas laterais ao palco, aproveitando o embalo que a música me envolvia, andando até ele. Passei a mão por seus ombros enquanto o rodeava, vagarosamente, até que me posicionei a sua frente. Me agachei na altura dos seus joelhos, evidenciando meus seios e buscando por sua mão que segurava um bolo de notas altas, direcionando-a até o sutiã para encaixá-lo por ali. Não precisei de muito para que ele encaixasse as notas, porque assim o fez, e como agradecimento passou um dos seus dedos por meus lábios e os abri, deslizando a ponta da minha língua pelos dedos que me tocavam.

Me despedi com um sorriso largo e retornei ao pole dance, dançando por mais alguns minutos, me sentindo satisfeita com a tática implantada. O ego agradecia a cortesia, mas a consciência gritava e me alertava que era errado, e que eu estava retornando para aquilo que quase me matou.

Eu não tinha escolha. Era o sangue dele, ou o meu. Como John disse, não era como se eu não soubesse a forma que as coisas aconteciam.

A noite começava correr com as horas, que sempre passavam mais rápido que o normal e o bar, mais concorrido que o costume para o meio de semana não permitiu que eu mantivesse os olhos no alvo até que vi de relance, ele vestir seu paletó, sinal claro que iria embora. Mas não. Não agora. Busquei uma bandeja e preparei o mais rápido possível um uísque duplo, me dirigindo até ele, parando em sua frente e encarando seus olhos, que no escuro da boate pareciam brilhar mais que as poucas luzes do local, tonando-se impossível de desviar daquelas írises.

— Cortesia da casa.

— Hoje parece ser meu dia de sorte. – Se limitou, encarando-me da mesma forma que fizera na dança: intenso e sacana.

— Você não sabe o quanto. – Pisquei e o vi bebericar a bebida. Andei vagarosa e devassa até o bar, sentindo o olhar do homem queimar em minhas costas.

Pela proximidade, consegui apreciar seu perfume que dominou minha mente por alguns momentos em que não pude controlá-la. Seus lábios eram convidativos, assim como seu corpo nem tão cheio de músculos assim apesar da camisa social preta, estar com as mangas dobradas na altura do cotovelo, valorizando as veias saltadas que me hipnotizaram nos segundos que me foi permitido.

Em meio a visita diária nos policiais da região, Leslie fora agarrada por um bêbado qualquer e nem os seguranças foram capazes de tirá-lo de lá. A muvuca se intensificou quando um dos policiais precisou intervir e se engana quem pensava que era pela ordem e segurança dos londrinos, porque sabíamos distinguir quando era para salvar sua dançarina favorita. E este era um desses casos.

Após a confusão, boa parte do público da casa se retirou, tendo em vista que muitos –se não todos– dali tinham o rabo preso e à não ser que molhassem muito bem a mão dos dois oficiais, não sairiam sem precisar fazer as ligações de direito para os advogados.

Ele ficou.

Continuava sereno e misterioso como gostava de ser, satisfazendo-se com doses de uísque, charutos e olhares significativos.

Brian apareceu para fechar o bar e eu agradeci, o turno finalmente acabou. Mas, não acabou sem que o atiçasse mais.

O vi de costas e pousei gentilmente a mão livre em seu ombro, debruçando-me sobre ele e depositando mais uma dose à sua frente.

— Mais um agrado da casa? – Ele perguntou enquanto o servia, e da maneira que me posicionei, sua voz soou perto da minha nuca. Baixa e rouca que estava, fez alguns pelos da região se eriçarem.

— Ainda não é a última. – Respondi me igualando á proximidade dele que teve tantos efeitos em mim. Deslizei alguns dedos por seu pescoço e deixando que as unhas aproveitassem um pouco de sua carne também e o vi engolir em seco.

Recolhi os copos da mesa ao lado e lhe lancei um último olhar, o mais significativo que pude, de forma que as palavras faltariam para decifrá-lo.

As meninas já haviam ido embora quando adentrei os camarins para buscar minhas coisas, troquei a roupa de trabalho pelo vestido que teria usado se tivesse conseguido algum intervalo no bar, voltando para os saltos altos que me doíam, já que apenas o turno na boate havia terminado. Pelo meu próprio bem, precisava entregar o que Trevor pedira, sem ponderar.

Percebi Brian unir suas sobrancelhas, confuso ao me ver diferente das formas que terminava o turno e lhe mandei um beijo ar, sem dar tempo que perguntasse algo que pudesse fazer o plano ir por água abaixo. Se tudo ocorresse como o planejado, ele viria atrás de mim e o fato de não ter me proposto nada enquanto estava no bar me fazia pensar que estava certa. Parei em frente à boate, como quem esperava um táxi e aguardei os segundos que me separavam da certeza de um plano perfeito.

Dito e feito.

Seu perfume denunciou que parara atrás de mim, mas nada disse, apenas aproveitou os últimos tragos do charuto, lançando a fumaça em direção aos meus cabelos que caíam soltos nos ombros.

— Não finja querer pedir um táxi, quando você não quer sequer dar um passo pra fora daqui. – Ele passou a mão enlaçando minha cintura, afundando o rosto em meus cabelos para acabar com a distância entre nós.

— Eu nunca disse isso.

— Mas o seu corpo disse. – Soltei um risinho sacana e o vi se desfazer do charuto, virando-se e segurando meu queixo gentilmente, soltando a fumaça em meus lábios para que eu tragasse. — Boa menina. – Proferiu ainda sem soltar o enlaço em minha cintura, como se quisesse ter a certeza de que eu não iria a lugar algum. Com a mão livre, afastou os cabelos que cobriam parte do meu rosto, observando-me atento. Percebi seus olhos passearem curiosos pelos meus cabelos, boca, colo e por fim, minhas íris que o estudavam tão concentrada quanto ele. Da forma que fizera mais cedo, deslizou um dedo por cima dos meus lábios, mas não esperou que reagisse da mesma forma, mirando meu batom que pintara seu dedo, ele nada fez além de me perceber encarando sua boca, que agora mordera o lábio inferior. Os olhares se encontraram mais uma vez, decididos do que queriam e acatamos.

O braço que prendia minha cintura, me puxou com intensidade até que nossas bocas finalmente se uniram, com toda a potência que tínhamos direito.

O beijo não era calmo e eu não fazia questão que fosse, porque estava curiosa e queria sentir como era abusar de suas qualidades. E queria agora.

Ele me prensou contra a parede mais próxima e posicionou uma de suas pernas entre as minhas, me dando a oportunidade para enlaçar a perna nua em sua cintura. O vestido já não cobria tanto minhas pernas e ao constatar isso, sua mão desceu devassa pela minha coxa, deixando alguns apertões generosos ali.

Seus lábios correram até meu pescoço, distribuindo lambidas e mordidas, me deixando entorpecida com a forma que pressionava o seu corpo contra o meu, cada vez mais forte. Começou a beijar meu colo e com a mão que achava que não tinha percebido, tentou descer uma das alças do vestido então, apesar de me ouvir arfar, ele abusou do decote cavado para passear a língua quente entre meus seios. Se afastou por alguns poucos centímetros, o suficiente para ambos recobrarem a respiração, sem muito tempo para tal quando o puxei pela lapela do paletó, devolvendo a brutalidade com que chocara minhas costas contra a parede. Sua mão automaticamente tomou seu antigo posto na minha cintura, e agora mais calmos, nos beijamos mais uma vez.

Uma mão subiu pela minha nuca, encontrando um bocado de cabelos que fez questão de puxá-los fazendo minha cabeça pender para trás, concedendo mais espaço entre meu pescoço e queixo em que pudesse explorar. Mordi meu lábio contendo um gemido que sairia muito fácil desta vez, apenas por ter mordido meu lóbulo e ele percebeu, tentando mais uma vez.

— Não se prive das melhores sensações, querida.

— Esse é o seu melhor?

Limitou-se a uma risada nasalada até segurar meu queixo mais uma vez para um selinho demorado. Se afastou, ajeitando os cabelos e o paletó, sacando o celular do bolso dianteiro da calça e tomou certa distância para falar com alguém. Busquei por meu inseparável sobretudo e o vesti, sentindo uma garoa fina cair sobre nós, assistindo-o logo retornar.

— Onde vai?

— Para casa. – Respondi. Lhe pisquei marota e mandei um beijo no ar, caminhando para a calçada, me perguntando onde diabos Trevor haveria se metido.

— Você só quer me ouvir te pedindo pra ficar. Senão, não sairia rebolando assim. – Sua mão tomou meu braço, impedindo que continuasse meu caminho. E sinceramente? Eu adoraria vê-lo me pedindo pra ficar!

Watch me. – Soltei-me sem muito esforço e me empenhei em me rebolar o máximo possível para andar até o táxi que vi virar a esquina. O carro parou ao meu lado e eu embarquei, passando para o motorista as coordenadas do meu endereço até que o velho ao volante cismou não entrar no bairro em que eu morava, enumerando seus quinhentos motivos, me fazendo revirar os olhos em cada um deles. A porta do veículo, ao meu lado, se abriu e ele não esperou demais para soltar algumas notas no colo do velho motorista.

— Ela não vai. – O segui quando seus passos largos tomaram a frente, ouvindo o destrancar das portas do seu carro do outro lado da rua. Um belíssimo Chevelle 70. Clássico.

— Vou se me deixar pilotar essa belezinha aqui. – O desafiei, sem tempo para sentir a adrenalina da dúvida porque as chaves voaram em meus dedos segundos depois. Ele se virou para acender um cigarro e duvido que vira o sorriso que me contaminou. Um sorriso que dominou cada parte do meu rosto, porque, caralho! Aquele carro era um clássico supremo, sem defeitos!

Me aconcheguei no banco do piloto sentindo cada centímetro do carro estar banhado com o perfume daquele homem, e me chocava, que eu já estivesse acostumada com tal.

Separei alguns segundos para admirar as singularidades do veículo, e meu coração estava prestes a dar cambalhotas de felicidade. Desde muito pequena sonhava com a possibilidade de ter um daquelas apenas para mim, pronto para chamar de meu. Sentir o motor tremer e as mãos no volante sentirem as turbulências da potência. Era um pouco, que fazia me sentir inteira.

No retrovisor, um pequeno chaveiro, com a réplica de alguns prédios cravados e um nome atrás: Lennox.

— Ou , se você tiver uma queda por apelidos. – Puxou a porta do passageiro, se acomodando no banco ao meu lado. Nada respondi, continuava hipnotizada demais para sequer pensar em tirar os olhos da obra-prima que me demorei, ouvindo o roncar do motor assim que girei a chave.

Descansei as costas no banco macio e apertei os dedos em volta do volante, mordendo o lábio inferior para mascarar o sorriso que começava soar patético. Cantei pneu e fiz questão de repeti-lo na esquina mais próxima, me sentindo mais viva do que poderia sonhar, fazendo daquele, o som mais encantador que ouvira.

A potência do carro se distribuía em cada centímetro do meu corpo, me fazendo sentir tudo o que a máquina proporcionava, deixando alvoroçadas as borboletas no meu estômago.

Não era apenas Trevor que poderia se divertir, afinal.

Após as coordenadas -muito mal coordenadas, por sinal- de , chegamos ao bairro de Kensington, conhecido por ter celebridades como Kylie Minogue, David e Victoria Beckham sempre pelas redondezas enquanto compravam donuts. Os portões altos e largos se abriram nos proporcionando a visão de uma mansão que me fizera entender de imediato a forma como o homem não se hesitara com o carro em minhas mãos.

Também, não quis parar pra reparar nos detalhes quando o percebia se esforçar para cortarmos alguns caminhos na casa, para que, finalmente, pudéssemos chegar ao quarto. O homem dispensou as luzes fortes do cômodo, optando pelas meias-luzes intimistas, automaticamente acendendo uma faísca curiosa em mim. Por curiosidade dos seus jeitos e trejeitos, as manias, os defeitos e virtudes. Ah, principalmente as virtudes.

Sua mão enlaçou minha cintura de forma possessiva que não havia notado nele, até então, mas não que isso fosse uma reclamação. Andamos em passos cegos até a cama enquanto sentia a língua quente dele passear no meu pescoço, espalhando mordiscadas vez ou outra. Definitivamente: não era apenas Trevor que poderia se divertir, afinal.

se deitou por cima de mim quando caímos na cama e eu senti seu perfume se misturar com o meu, porém isso não era uma observação relevante para o momento, não quando minhas mãos agarraram a gola de sua camisa para puxá-la e arrebentar alguns botões.

— Dance pra mim. – Ele sussurrou sombrio, brecando minha mão que queria despi-lo.

— Isso não seria uma novidade pra você.

— Então, faça ser.

Invertemos as posições e como resposta, lhe soltei um sorriso ladino que não passou despercebido por ele. Me levantei lentamente, rebolando da melhor forma que sabia, bagunçando um pouco os cabelos e deslizando as mãos pelas curvas do meu corpo, vagarosamente, como se, silenciosamente, pedisse que fosse as mãos dele ali, deslizando em mim. Com os anos de experiência, a música se tornara apenas um detalhe quando dançávamos, porque, o melhor dos instrumentos, era o meu próprio corpo.

Aproveitei os minutos de dança particular para inflar meu ego da forma que senti falta hoje, vendo-o acender um cigarro, tragando lentamente e revezando com as mordidas no lábio inferior. O vestido que usava, tinham alças finas que realçavam meus seios e no fim do decote, o zíper que o fechava. Subi as mãos dos meus quadris até os seios, protagonizando a fartura da região e escorregando até o zíper mais abaixo. Os olhos dele seguiam fielmente cada mísero movimento meu e os vi mais atentos assim que agarrei o zíper, descendo poucos centímetros de forma que mostrava mais dos seios.

Sorri sacana ao ver que ele se levantara e seguia até mim, sem pressa alguma. O cigarro preso nos seus dedos fora posto entre meus lábios e com as duas mãos livres, abriu o zíper de uma só vez, apreciando meu corpo seminu coberto apenas por uma calcinha fina, deixando um tapa ardido em uma das minhas nádegas. Forte como eu gostava.

O homem ficou de frente para mim, tomando o cigarro que eu tragava e dando a última tragada para apagá-lo com a sola dos sapatos, sem desviar o olhar, um segundo sequer. Apalpou meus seios, gentilmente, esperando por minhas reações e eu nada fiz, até porque, sabia que ele era mais do que uma simples apalpada e eu estava ansiosa para isto. Parecendo ler meus pensamentos, ele me beijou, feroz e faminto, um tanto apressado também, fazendo com que pegasse impulso para enlaçar as pernas envolta da sua cintura. Com as mãos espalmadas nas minhas nádegas, alguns apertões foram distribuídos até que diferente do que imaginei, ele me deitou em uma mesa que sequer percebi no cômodo. Ficou por cima de mim, deleitando entre a forma que sugava e chupava meus mamilos, deixando-os eriçados. De uma vez por todas, puxei a camisa social com brutalidade, abrindo-a e ouvindo o tilintar dos botões que caíam no chão, assistindo-o levantar o olhar em meio aos meus seios e mordiscá-los como resposta, tornando impossível brecar o gemido agudo que proferira.

Retornei à enlaçar minhas pernas em sua cintura, desta vez com mais força, precisava mostrar alguma autoridade ali e ele levantou o olhar. Devido a impulso das pernas enlaçadas, nossas pélvis se roçaram e eu fiz questão de rebolar, deixando claro, o que eu realmente queria. À esta altura do campeonato Trevor era a última das minhas preocupações, eu queria mesmo era fazer esse esforço valer à pena. abriu o cinto da calça que vestia e o puxou para tirar dali.

— Junte as mãos. – Acatei ao homem, aproveitando a posição dos braços para espremer meus seios, deixando-os mais fartos. Uniu meus pulsos e passou o cinto entre eles, usando de algo que não me atentei para prender meus braços esticados acima da cabeça. — Não vai me tocar.

Soltei uma risada nasalada, assistindo-o abrir o zíper de sua calça e permitindo que elas caíssem pelos seus joelhos. Pousou uma mão em cada lateral da pequena roupa íntima que me cobria e assim como fiz com sua camisa, puxou-a com selvageria, separando-a em pedaços distintos. Tentei tirar um dos saltos com empurrão do outro pé, mas ele me impediu.

— Quero você com eles. – Ordenou.

se agachou entre minhas pernas, encarando meus olhos até quando lhe foi possível e dirigindo sua atenção à minha intimidade, onde deslizou apenas a ponta da língua por todo meu íntimo, fazendo minhas costas arquearem involuntariamente. Apertou as mãos que estavam espalmadas em minhas coxas e chupou meu clitóris, ágil e habilidoso, tornando os gemidos impossíveis de refrear.

Rebolei sobre sua língua até que me penetrou com a mesma, usando os dedos lubrificados com o líquido da região para masturbar o clitóris. Em pouco tempo inverteu as posições, lambendo o clitóris enquanto me masturbava em movimentos rápidos com dois dedos. Pressionei-o ali, como incentivo, sentindo meu útero aflorar nas sensações indescritíveis, mas ainda assim, tão únicas. Fechei meus olhos com força à medida que senti meu orgasmo se espalhar por cada centímetro do meu corpo e a respiração se tornar escassa.

Ele me beijou furioso, me dando o prazer de sentir meu próprio gosto misturado ao dele e eu poderia, facilmente, me acostumar com aquilo. Senti a cabeça do seu pênis ereto se posicionar na minha entrada e roçar na região, atiçando, então, forcei as pernas mais uma vez, prendendo-o o mais perto de mim possível, ansiosa para que o fizesse logo. E cacete! Ele parecia querer me ver implorar!

Me observou impulsionar-me sobre ele com certa dificuldade com um sorriso sujo em seus lábios, segurando na base do seu pau e esfregando-o mais um pouco. Caralho.

Me penetrou de uma só vez, fazendo um grito rasgar minha garganta à medida que senti seus centímetros, finalmente, dentro de mim. se movimentou devagar de início, adorando ver que me contorcia para que estocasse mais rápido. Aumentou a velocidade gradativamente, fazendo audível o gemido rouco que soltava e que apenas somou ao tesão que me causava. Procurou em minha cintura o impulso que carecia para estocar mais fundo e conseguiu. Os movimentos mais rápidos me fizeram esquecer dos gemidos que queria conter, permitindo que soassem livres enquanto uma camada fina de suor tomava nossos rostos. Os gemidos dele se tornaram mais altos e mais roucos, e os meus, mais incontroláveis do que há tempos não os ouvia para sentir que minhas pernas se enfraqueciam mais uma vez. Retirou seu pênis para despejar o líquido quente na minha barriga e não esperou até passar a língua por todo meu íntimo mais uma vez, enquanto me recuperava do último e recém orgasmo, fazendo meu corpo todo estremecer. Ele riu e se debruçou sobre mim para soltar meus braços, fazendo-o e segurando meu queixo suavemente, para depositar um selinho demorado. Levantou suas calças enquanto eu reunia forças apenas para manter meu dorso ereto, e sacou o maço de cigarros, acendendo-o mais uma vez.

Saiu do meu campo de visão por alguns instantes e não me importei, já que recuperar a respiração me parecia crucial no momento, no entanto, logo o vi retornar, com duas doses de uísque repletas de gelo, direcionando-me uma delas.

Se manteve quieto enquanto tragava seu cigarro e bebericava o uísque na varanda, e fiz o mesmo, esticando-me fogosa em sua kingsize.

O celular tocou irritante ao meu lado e sem abrir os olhos, tateei por ele, bufando por falhar em tão simples missão. Abri os olhos, preguiçosa sentindo a luz do sol arder meus globos, ouvindo o aparelho silenciar e despencando novamente em meio aos travesseiros. Meu corpo nu se retesou quando os lençóis foram puxados, sentindo o frio da cidade me atingir em cheio, obrigando-me a soltar alguns palavrões. Ouvi o baque da porta do quarto ao ser fechada e me levantei de vez, vendo-me sozinha ali e com uma bandeja de café da manhã ao lado.

Ah não…

Busquei incessante pelo meu celular, tornando a tarefa mais fácil quando tocou com o alarme, achando-o de imediato. Chequei mensagens, redes sociais e o caralho à quatro: nem sinal de Trevor. O cheiro gostoso de sabonete invadiu o quarto quando apareceu de cabelos molhados, dorso nu e toalha amarrada na cintura, catando as roupas do chão. O olhei como se não entendesse o que estava acontecendo e ele apenas piscou maroto, mas, céus! Ele poderia nem estar vivo à essas horas!

Mil pensamentos tomaram minha mente e eu imediatamente soube que coisa pior Trevor planejava.

se embrenhou em meio ao seu closet e aproveitei para procurar pelas minhas roupas da noite passada, vestindo-as rapidamente e caindo fora dali. Apertei o sobretudo em meu corpo já que o frio matutino na cidade parecia ser o pior do decorrer do dia, adentrando o beco que eu tinha certeza que conseguiria o que queria sem burocracias. Participar da gangue não fora de todo ruim –apesar de ter sido predominantemente ruim– porque se tivéssemos um problema, em cada esquina saberíamos de alguém que o resolvesse por um preço camarada. Em um envelope, coloquei as notas que ganhei na noite passada e empurrei por debaixo da porta, dando dois chutinhos como código para o que queria. Não demorou até que pelo mesmo envelope, visse a mercadoria ser empurrada pela caixinha de correspondências. Chequei e soltei um risinho, respondendo com mais dois chutinhos na porta, desta vez, como agradecimento.

Chegando em casa, tranquei-me à sete chaves por mais que soubesse não adiantar muita coisa e contei os minutos. Trevor bateria aqui em alguns momentos e o metal antes gelado, já não incomodava mais na minha cintura.

Preparei um café da manhã, já que permaneci faminta após recusar o de e não demorou até que eu ouvisse as batidas na porta. E desta vez sim, eu estava surpresa: batidas na porta? Corri para abri-la, me preparando psicologicamente para o pior, engolindo em seco.

— Você está louca? Onde se meteu ontem? – John entrou de supetão, batendo a porta assim que passou.

— Fiz o que pediram. Satisfeitos? – Proferi irônica, cruzando os braços.

— Cacete, ! Você sumiu e tornou as coisas muito piores. – John estava aflito e inquieto, coçando a barba e esfregando as mãos vez ou outra, ansioso.

— Eu saí com o , foi o que Trevor ordenou! Faltou vocês aparecerem para buscá-lo.

— Você… Você transou com ele! – Comentou dividido entre espanto e graça, devido alguns risos nervosos que soltava. — Trevor mandou um sobrinho dele ficar de olho em vocês e levar o cara até ele, mas, cabaço que é, perdeu vocês dois de vista e colocou a culpa em você. Dê um jeito de achar esse cara antes que o Trevor dê, e acabe com qualquer rastro de vocês juntos.

— Ele mora em Kensington. – Confessei quase em um sussurro, vendo John bater a mão espalmada na testa.

— Vou tentar desviá-los de lá, mas sabe que não consigo por muito tempo. – Explicou, encarando o relógio em seu pulso. — Tome a sua arma. Coloquei uma igual e travada no lugar. – Piscou maroto, passando-me o revólver que Trevor tomara no dia anterior.

Agradeci, assistindo John bater a porta de saída apressado mais uma vez. Sem delongas, escondi o revólver que John me devolvera no cano das botas que calçava e saí tão disparada quanto meu amigo há pouco. Em direção à Kensington. Novamente.

Pronunciei-me quando requerido na entrada da mansão, me coçando para não entrar da forma esgueirada que fazia nas correrias da gangue. Mudando o peso de uma perna para outra enquanto enrolavam, os portões altos da mansão se abriram e me apressei até a entrada, vendo uma espécie de governanta me esperar.

a aguarda no escritório. – Disse cortês, sem humor, conduzindo-me pela enorme casa.

Como na noite passada, ele estava escorado na varanda, fumando, desta vez, um charuto e com trajes de golfe. Agradeceu a governanta com um aceno de cabeça e ela fechou a porta atrás de si, deixando-nos a sós.

— Não levou seu cheque.

— Preciso que desconte na boate como gorjeta, agora, ou estou demitida.

— Você já deveria saber que isso não vai me fazer sentir dó. – Engoli em seco, sem conseguir raciocinar para manter a história, sabendo que Trevor estava para chegar. Pigarreei.

— Sua dívida com Trevor. Ele está vindo. – Confessei de uma vez. Não fazia mais parte da gangue, logo, nenhum esquema era segredo quando chegava em mim.

— Uma armadilha? – Comentou baixo, mais para si do que para mim, calmamente. Andando em círculos em meio ao escritório. — Foi uma boa jogada, . – Uni minhas sobrancelhas, confusa. — Oh! Esse é seu nome, não é? Já fui alertado sobre você. – Riu em escárnio.

— Meu pescoço está na linha também. Me ajude e eu te ajudo. – Ignorei seu discurso e proferi determinante, vendo-o pensativo.

— Do que precisa? – Apagou o charuto e eu disparei a explicá-lo. Pensando bem precisaríamos apagar as filmagens das câmeras de segurança de toda a casa da noite passada e encobrir os rastros… biológicos, que a transa rendeu. Com seus contatos, Trevor faria questão de invocar a milícia que tinha em mãos para ter toda e qualquer prova, mantendo-me presa à ele novamente.

Apagamos as filmagens gradativamente, dos últimos até os primeiros momentos, nos livrando dos mais denunciantes em primeira mão, no entanto, isso demorava mais do que imaginávamos, levando em consideração que cada minuto de gravação deletado exigia uma senha de acesso, atrasando todo o processo.

Ouvimos um grande estrondo e olhei em meio às cortinas do escritório: o portão de entrada havia sido arrombado.

Trevor chegou.

E não estava sozinho.

Tiros de fuzil eram disparados por dois capangas enquanto adentravam e dominavam o perímetro da residência. Trevor andava calmamente atrás deles enquanto Lee e John, guardavam suas costas, igualmente armados. Não pensei em um plano, apenas aproveitei a mão espalmada de para encaixar o revólver que John me devolvera, empunhando o que comprara mais cedo.

— Me ouça. Ele poderia estar mais armado, então, vamos encarar isso como uma fraqueza e chegar o mais perto possível da saída. – Ele concordou com a cabeça, carregando e empunhando o revólver. Corri até a porta, buscando pela chave para trancá-la por fora e esse era um dos truques para prender e distrair os capangas mais novos. Olhei para trás e vi tirando mais uma arma de trás de um quadro. Ele me ultrapassou e observou no começo do corredor, por onde Trevor começava à dominar e eu o segui, estudando um caminho alternativo. — Onde está o seu carro? – Sussurrei enquanto atravessávamos outro corredor, ouvindo vidros estilhaçarem no andar inferior.

— Depois do campo de golfe. – Encarei-o aguardando que indicasse a direção do campo e o fez, com a cabeça. — Mas, vamos precisar cruzar o campo. – Suspirei, adiando meu plano mental e arquitetando outro.

Puxei pela mão, entrando na dispensa e trancando-a. Vi os tubos de ventilação no teto e isso era a nossa salvação, com uma vassoura empurrei as grades e pulei, tomando impulso para alcançá-la. Com esforço consegui, livrando o estreito corredor de algumas ferramentas perdidas por ali, ouvindo os passos cada vez mais próximos da escada. destrancou a porta e se impulsou da forma que me viu fazer para adentrar o tubo de ventilação também. Permanecemos poucos segundos quietos até ouvirmos arrombarem com um chute a porta do cômodo em que estávamos e não podíamos nos mexer, para não causar nenhum barulho.

Não reconheci o rosto do capanga que entrou, talvez este fosse o sobrinho estúpido de Trevor e o vi rodear o pequeno quarto de mantimentos, procurando por rastros, esquecendo totalmente dos tubos de ar. Definitivamente o sobrinho de Trevor… Iniciante. Ele saiu, lentamente, empunhando o fuzil em suas mãos, correndo em direção contrária à que eu e deveríamos seguir.

Esperamos poucos minutos até ouvir os tiros serem disparados metros e metros á nossa frente, encarei o homem tão encurralado quanto eu, como se lhe perguntasse se ele estava pronto para isso e ele encarou tão decidido quanto me encontrara mais cedo, e eu tive a certeza, de que poderíamos sair dali. Fui a primeira a descer, abrindo a porta e checando as laterais, dando pequenos passos até a escada, que para nosso azar, era terrível de imensa.

Respirei fundo e desci a escada em disparada, cada segundo desfilando naqueles degraus poderiam ser o nosso último e cada um deles, demoravam uma eternidade. me indicou a direção da cozinha como atalho para o campo e mantivemos a velocidade dos passos. Os tiros cessaram e o encarei, era um verdadeiro campo minado. Qualquer milésimo contava. E era crucial.

Algumas portas dos corredores que cruzávamos até a saída já estavam trancadas, como forma de nos encurralarem caso tentássemos sair e era exatamente assim que nos sentíamos.

A tensão quadriplicou com o silêncio da gangue, porque os passos silenciosos eram a pior das armadilhas e minha respiração correspondia à tensão: acelerada e entrecortada. Olhos esbugalhados de atentos e dedo atento ao gatilho. Continuamos cruzando os corredores enquanto nos foi possível, eu atenta à frente e me cobria atrás.

Ao atravessar a porta vai-e-vem que nos apartava do início do campo de golfe, demos de cara com a culatra de um fuzil e eu nada fiz, além de engolir em seco.

— Eles estão lá em cima. Corram. – John abaixou a arma e eu levantei os olhos, vendo-o sozinho ali, reservando dois segundos para recobrar o ar que me faltara, tamanho o susto. O abracei desajeitada, puxando pela mão, correndo o máximo possível, e quando eu digo, o máximo possível, era o possível e impossível para cruzar o campo em poucos segundos.

Já conseguíamos ver o carro de ao fundo e corremos ainda mais, olhado para trás para ter a maior segurança de que nada nos pararia. Nem tão cedo. Ele sacou as chaves do bolso da calça e adentramos o veículo, custando a acertar a chave para ligar o carro. Tomei-a de sua mão, ligando o carro de uma vez, porque, porra! Custava a nossa vida! O erro fora cantar pneu ao sair, chamando a atenção da gangue que começava disparar em nossa direção.

As manobras do carro em zigue-zague os enganaram nos primeiros segundos, mas não por muito mais tempo. Logo, o sobrinho de Trevor aparecera na porta de entrada da casa enquanto cruzávamos o jardim para sair no mesmo portão que arrombaram. Sem tempo para formalidades –apesar do carro ser uma beleza–, quebrei o vidro em uma coronhada e coloquei meu tronco para fora, atirando em direção à ele, custando à atingir sua perna, vendo que Lee aparecera para cobrir o colega recém ferido. A munição da minha arma estava para acabar e estiquei a mão livre para dentro do veículo, esperando que entendesse o recado pra me passar a sua. Dito e feito. Troquei algumas balas com Lee, que tinha uma mira divina, devo admitir, causando alguns estragos no carro.

Tentando nos atingir, Lee perdera boa parte do seu tempo, buscando cobertura no mesmo carro em que chegaram, porque quando vi que estávamos próximos da saída, mirei os pneus do carro deles, acertando ao menos dois para atrasá-los.

Minha mira à longa distância e movimento, era algo à se treinar.

Atravessamos o portão destruído da mansão de uma vez por todas, vendo ao fundo, a gangue correr até o carro para nos alcançar, deixando o sobrinho do chefe para trás.

Voltei para dentro do carro, percebendo o rosto suado e apavorado de , queria lhe pedir calma, mas ouvimos um bip incessante e decrescente, como em uma contagem regressiva, demorando perceber à onde pertencia. Ainda dobrando o quarteirão que rondava a casa, demos de cara com um carro atravessado na rua, como forma de barricada e era dele que soavam os bips.

A lateral do carro, contrária à nós, estava repleta de minas de proximidade, diminuindo as nossas chances, já que, se déssemos meia volta, daríamos de cara com Trevor. Encarei o homem ao volante e suspirei. Era agora ou nunca. Literalmente.

À duas esquinas atrás, ouvíamos o cantar de pneus da gangue, que tinham claras dificuldades em manter o veículo estável devidos os pneus furados. Tomamos pouca distância, o suficiente para que o carro atingisse a velocidade que desejávamos que o fizesse. trocou a marcha e meteu o pé no acelerador, ativando todas as minas do carro-bomba. O estrondo da explosão destruíra os vidros do carro, voando estilhaços em nós, deixando alguns pontos de sangue e causando zumbidos em meus ouvidos, mas não era nada comparado ao alívio que nos tomou. Por pouco tempo. Aproveitando as bombas aniquiladas a gangue ultrapassou o carro que colocaram como barricada, diminuindo a distância entre nós e abrindo fogo mais uma vez.

As balas começavam a ficar contadas e nossos minutos com Trevor em nossa cola não parecia ter fim, o filho da puta não desistia!

parecia dirigir sem rumo, apenas tentando despistá-los. E me bateu a melhor ideia, no melhor momento.

— Siga pelo Hammersmith. Trevor não abre fogo lá, é o bairro da mãe dele. – Ordenei, vendo o homem seguir em direção indicada. Sentimos alguns tiros passarem rasteiros à nós e tranquilizar de imediato como eu pensei que iria.

Suspirei, permitindo que a cabeça pendesse para trás, enquanto a respiração regularizava. desacelerou um bocado enquanto ainda nos embrenhávamos no bairro, talvez tentando pôr a si próprio nos eixos.

Assim que pudemos, estacionamos em um GunPost fora da cidade para buscar por munições. O silêncio no carro dizia muito, por ambos. Não sabíamos se teríamos que viver assim para sempre, distribuindo balas em Trevor, ou se o pagamento da dívida bastava. Me tranquei no banheiro, encarando meu reflexo no espelho: olheiras gritantes, suor e incontáveis arranhões por todo o rosto, cabelos desgrenhados e o pavor, que era minha mais nova maquiagem. Joguei água gelada no rosto por diversas vezes, buscando a calma que só aquilo ali não oferecia, mas que eu queria à qualquer custo.

Vi em meus braços os rastros de sangue que os estilhaços de vidro causaram após as bombas e busquei por algo que me ajudasse com os ferimentos. Escolhendo nas prateleiras itens básicos de farmácia e retornando ao carro, vendo escorado no capô com seu inseparável cigarro nos lábios.

— Era a única bebida que tinham. – Indicou com a cabeça o banco do motorista, onde antes ocupava e agora tinha apenas uma garrafa de tequila, vendo-a, ri nasalado.

— Ajuda com alguns problemas, mas não com o principal.

— O que te preocupa? – O encarei incrédula.

— Não há nada que te preocupe, ? – Encostei no capô, ao seu lado, tirando um cigarro do maço. — Qual é a sua dívida com Trevor? – O vi suspirar.

— Trafiquei pelo triplo do que comprei dele. – Ri em escárnio. estava mais fodido do que eu imaginei.

— Ele te deu um preço? – Geralmente essas coisas aconteciam para que Trevor não matasse o bom amigo de algum ente querido seu. Quando estipulava o preço de uma dívida, geralmente era o equivalente à mansão de oito vezes, incluindo o campo de golfe. Quando não o fazia, era o aviso, de que nada pagaria a dívida, à não ser a cabeça do devedor em uma bandeja.

— Ele quer minha casa de campo e a de praia, fora do país, junto da coleção de carros nas duas.

— Está me dizendo que você poderia ter evitado tudo isso? – Perguntei entredentes.

— Não posso ficar sem nada, são herança de família.

— Se ele sabe que você herdou essas casas, então você já as perdeu. Tente morar nelas e mais cedo, ou mais tarde terá Trevor dividindo a mesa de jantar com você.

— Precisamos de um quarto.

— Hotéis são a 5km daqui.

— Pra te foder, o mais perto é aqui. – Sussurrou sujo, beneficiando-se da pequena distância entre nós.

— A maioria dos homens broxam depois de tamanha pressão. – Zombei, assistindo-o apagar nossos cigarros e tomar a frente enquanto andava pela lateral do estabelecimento, para achar o banheiro. Puxou-me pela mão até que adentrássemos.

— Você vai ter a melhor foda da sua vida, . – Conduziu-me até a pia, firmando minhas mãos ali e abaixando as calças que eu vestia. Levou seus dedos até a boca para umedecê-los, deslizando-os em minha intimidade e eu fechei os olhos, sentindo cada detalhe do seu toque. Me masturbou com um dedo enquanto dois da outra mão começavam me penetrar, rebolei sobre seus dedos, usando do reflexo do espelho em nossa frente para encarar nossos olhares. Ele me prensou entre seu corpo e a pia, fazendo nítida sua ereção, sentindo um bolo se formar em meu útero, pendi a cabeça para o lado, facilitando que distribuísse beijos entre pescoço e ombros, sentindo os lábios quentes e molhados de na região.

— Não, não, não. Ainda não. – Proferiu calmo enquanto me ouvia soltar resmungos. — Gosto quando de te ver rebolando, mas gosto mais ainda na minha língua. – Agachou-se e afastou minhas pernas, cuidadoso, se encaixando entre elas, abocanhando minha intimidade e chupando-a com a agilidade e destreza de um beijo, fazendo sentir-me tonta de prazer. Tentava conter meus gemidos porque não eram muitas as regras que podiam quebrar em um lugar que se vendiam armas, mas a habilidade de me fazia perder a cabeça e esquecer de tudo o que não era permitido.

Ele enchia as mãos nas minhas nádegas, apertando e batendo da forma que sabia me deixar sem ar, misturando os tapas ao sexo oral que me causavam ondas e mais ondas de prazer.

Meu joelho vacilou por um instante e precisei me segurar mais firme à pia, resmungando mais uma vez ao ver levantar-se.

— Você está estranhamente fraca, hoje.

— Apenas me foda, . – O interrompi, deixando claras as intenções que tinha em mente. Ele sorriu sombrio, mordiscando o lóbulo da minha orelha e posicionando-se atrás de mim. Fez poucos movimentos de vai-e-vem apenas até que a cabecinha encostasse na minha entrada, obrigando-me à empinar.

Estalou um tapa na minha bunda e enquanto sentia a pele aquecer e arder na região, ele me penetrou. Desta vez, calmo e lento, me torturando até que sentisse seu último centímetro dentro de mim, sem tirar os olhos de mim através do espelho. As estocadas eram repentinas e fundas, chocando nossos corpos e fazendo do barulho audível, um tesão irrefreável.

Tomou meus seios em suas mãos, ainda que cobertos pela blusa e se impulsionou mais forte e mais rápido. Fiz o impulso contrário para que o atrito fosse maior e ele afundou o rosto no emaranhado dos meus cabelos, gemendo alto. Puxando um punhado dos meus cabelos, ele gozou, fazendo com que eu sentisse minhas pernas bambas assim que atingi o ápice também.

Saímos apressados do banheiro ao som de gritos esganiçados de quem aguardava que desocupássemos, ouvindo bons bocados quando saímos. Adentramos o carro, provando da tequila e depois de tudo que acontecera, sentimos ela doce como um chocolate quente. Sabíamos do perigo de estarmos parados ali ainda tão perto da cidade, apenas um pouco afastados do perigo, mas o corpo começava a agradecer a forma que começava a descansar.

Dividimos um quarto no hotel nem tão próximo assim que escolhemos e não buscamos nada, além de cair e dormir, um pouco inseguros sobre o dia seguinte e com as armas carregadas embaixo dos travesseiros, mas, ainda assim, aliviados de termos conseguido sobreviver, um pelo outro.

Duas semanas se passaram, mudando todos os dias de hotel, às vezes dormindo no carro, para economizar dinheiro, tendo que exercer em uma cidade ou outra as danças exóticas pra manter a barriga forrada já que se sacássemos dinheiro, rastreariam os extratos bancários. Eu nem era o bandido, mas estava fugindo.

Tinha vontade de ligar para John e saber como está, se já sabe uma forma de largar o bando ou alguma forma de tirar o nosso pescoço, enrolado, da linha. Queria o fim, mas ainda estava presa no começo da guerra.

consertava uns carros vez ou outra, ou ficava de segurança em boates pequenas quando eu dançava. Sentia falta da forma que me cumprimentava com o uísque já que a maioria das nossas noites terminam da forma como terminou a nossa primeira noite, onde também, tudo isso começou.

E apenas mais duas semanas foram necessárias até que víssemos nossa luz no fim do túnel.

Em Southampton teríamos o nosso veredito. Bom ou não, tinha seu preço a pagar.

Como o recomendado, sacamos dinheiro, de quantias semelhantes, mas no mesmo dia e no mesmo horário, aguardando a magia acontecer e se bem o conhecia, estaria aqui em algumas horas.

Eu iria enfrentar Trevor.

Talvez me custasse mais caro do que eu imaginei.

Talvez mais caro do que custou para que eu me afastasse da gangue.

Talvez mais caro do que eu já o vi cobrar.

Ou talvez não.

Não sabia pelo quê, mas sim, por quem eu aguardava e estava ansiosa pelo acerto de contas.

Estava fora do combinado, mas carreguei as armas e uma já tomava lugar na minha cintura enquanto a outra estava na cintura de .

Eu iria enfrentar Trevor.

No final da tarde, comecei contar os minutos.

A noite começara a cair.

E ele chegou.

Trevor, Lee e John. Três batidinhas na porta e a melhor cara de espanto que eu poderia encenar.

— Seu erro, boneca, foi achar que desistimos de vocês. – Ele fora o primeiro a adentrar o quarto, seguido dos outros dois. — Uma hora precisariam de dinheiro. Demorou, mas chegou. – Sacou a arma do cós da calça e a apontou para mim. — Prostituta sabe rezar? Eu espero que sim. John, reviste ela. – John logo retirou a arma em minha cintura e tateou algumas partes do meu corpo. Lee, vasculhou o quarto, sem encontrar .

Como o combinado, a maçaneta girou e apareceu, com as roupas de corrida, fones de ouvido, cantarolando alto como avulso à situação.

— Chegou a melhor parte do prêmio. – Trevor voltou a rir, com puro escárnio, me causando até náuseas. Encostou o revólver abaixo do queixo de , intimidando-o. — Ao lado da sua namoradinha, rezando. Porque eu quero gastar uma bala só, com os dois.

Lee trancou a porta do quarto de hotel e se posicionou ao lado da janela, como quem observa o movimento, por precaução.

— Uma vez eu te disse… – Trevor recomeçou, andando em círculos entre mim e Marc, ainda com a arma empunhada. — Que cravaria uma bala no seu crânio, que jamais, ninguém tiraria. Mas, nesse caso, em quem a bala cravar, eu vou querer tirar. Pra quando eu olhar, lembrar de quem eu matei. E o mais importante: Por que.

Não tinha controle do meu corpo, não quando subiu um frio pela espinha ao ouvir pronunciar suas palavras.

— Não se preocupem… No inferno também há espaço para prostitutas e playboys drogados. E a passagem de vocês, já foi comprada. – Disse frio e impiedoso, encostando o cano frio do revólver na minha testa.

O corpo de Lee caíra estirado no chão, jorrando sangue com a bala que atravessara a janela e atingira seu pescoço, e de relance vi John empurrar em minha direção a arma que tomara de mim há pouco.

Agora, eu era quem apontava o revólver na cabeça de Trevor.

Eu estava cega de ódio. E queria dormir coberta pelo seu sangue.

— Você matou o meu irmão. – Tentei proferir segura, mas a bolo que formara em minha garganta não permitiu. — Fez da minha vida um inferno… Tentou me transformar em alguém tão doente quanto você. – Confessei ríspida. Forcei mais um pouco o revólver em sua testa, respirando fundo. Este fora o momento pelo qual eu esperei minha vida toda.

… – John me chamou, cauteloso.

. – , que estava ao meu lado, deslizou sua mão até a minha, na tentativa de me fazer soltar a arma.

Sequei grosseiramente as lágrimas que molhavam meu rosto e embaçavam minha visão.

— Não se preocupe… No inferno também há espaço pra ratos nojentos. E a sua passagem já foi comprada. – Encostei o revólver nos lábios de Trevor e ele abriu a boca para que eu colocasse o cano do revólver ali e não hesitei. — Eu. Odeio. Você. – Sussurrei pausadamente as suas últimas palavras, ouvindo o estouro que não soara do revólver em minha mão, mas sim da porta do quarto posta abaixo.

— Trevor McCaullyn, você está preso pela acusação de oitenta e seis mortes. Tem o direito de permanecer calado, caso contrário, tudo o que disser, pode e será usado contra você nos tribunais. – Olhei para o delegado que não esboçou reação, mas com todo o ódio que me consumia, virei o braço em uma coronhada que fez o corpo de Trevor cair no chão, batendo a cabeça com a queda e deixando-o desacordado. O observei daquela maneira e desejei ter visto mais do que isso, e ter dado mais que uma coronhada.

John me abraçou, fazendo inúmeras perguntas desconexas e abafadas pelo carinho.

— Eu estava tão preocupada com você. – Foi a única coisa que consegui dizer, ainda sem soltar do homem.

— Havia uma policial infiltrada na gangue, me prometeu alguns acordos pra que eu responda em liberdade e por isso, não pude largar a gangue antes. – Explicou afoito, atropelando algumas palavras. — Vou falar com o delegado, antes que ele me jogue em perpétua. Ajeite seus assuntos por aqui! – Piscou bem-humorado, indicando atrás de mim.

— No final tudo acabou bem. – se limitou, colocando as mãos nos bolsos dianteiros da calça de moletom que vestia.

— Foi um caminho torto, mas que deu certo.

— Foi certo exatamente onde deveria ser. – Tomou minha mão, enlaçando à sua na medida em que se aproximava. — E sem você, nem vivo eu estaria. Obrigado por não desistir do playboy infame. – Suspirou. — Espero não ter decidido desistir de nós.

— Eu nunca, sequer cogitei, desistir de nós. – Enlacei minha mão livre à sua, puxando-o para o mais próximo possível de mim. Iniciando um beijo calmo, que nunca fora testado por nós e isso provava o quanto mudamos, e principalmente, o quê cresceu em nós. Porque além de um sentimento, depois do teste hoje de manhã, dois risquinhos me indicaram outro crescimento para nós.

 

Here in this ghost town you’re watching your back

(E aqui, nesta cidade fantasma, você anda olhando para trás)

Keep eyes on your shadow in fear of attack

(Fica de olho na sua sombra, temendo o ataque)

Hearts feel rejected with love they both fled

(Corações se sentem rejeitados pelo amor que ambos abandonaram)

They lit up the night and the colour was red

(Eles acenderam a noite e a cor era vermelho)