Talvez Não Seja Uma História de Amor

  • Por: Juliana
  • Categoria: Originais
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Sinopse: Ela já foi a vilã que tentou separar o casal principal por solidão e falta de amor. Ela já foi traída pelo casal principal que eram vizinhos e se apaixonaram perdidamente. Ela já foi a amiga parceira da mocinha nerd que se apaixonou pelo popular. Ela já abriu mão de seus romances tantas vezes que até perdera a conta. Agora ela já não tinha o altruísmo de Éponine de Os Miseráveis, nem o sangue frio e a força de Inaura de Lisbela e o Prisioneiro.
Ela, que sempre fora apenas uma linha a mais no romance alheio, uma pedra no caminho do casal principal, agora era uma das partes do casal principal, agora ela é quem sofria possibilidades de ser separada. Ela, que nunca tinha sido a protagonista, chegando aos 26 anos e com apenas um relacionamento duradouro no currículo, não se importa mais em ter uma história de amor.
Bom, não se importava. Até ele chegar.
Gênero: Comédia romântica
Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos.
Restrição: .
Beta: Bridget Jones

Capítulos:

 

Prólogo – As histórias de amor que ela não vivia.

Antes de começar meu – nem tão triste, mas – injusto solilóquio, queria deixar claro que essa não é uma história feliz, mas também não é triste. É apenas uma coletânea de acontecimentos que, eventualmente, surgirão na sua vida também e, quando acontecer, provavelmente nem perceberá. Você vai até se identificar. Todo mundo, em algum momento da vida, acaba identificando-se com a solidão.
Não se preocupe. Eu não vou morrer em um acidente de carro, ou adquirir câncer. Nem mesmo o cara que eu amei morre no final. Também não vou perder a memória ou esbarrar contra um cara super gato em um corredor, apesar de ter conhecido alguns. É possível que você até dê umas risadas, mas não prometo nada. Eu não sou a pessoa mais indicada para falar sobre risos e piadas, visto que meu humor é um pouco… inexistente. Não sou mal-humorada, só não sou o tipo de garota que sai por aí sorrindo para as árvores e dando bom dia ao sol.
Eram dez horas da manhã de uma quinta-feira, quando uma aglomeração no meio da redação do jornal, à beira da falência, em que eu trabalhava acabou tirando minha atenção dos documentos (provavelmente) ilegais que estava lendo. Rian e Lana estavam no centro do local e falavam alto, gesticulando excessivamente. Todos em volta, sedentos por uma fofoca, pararam para vê-los.
A história era a seguinte: Lana, uma das melhores colunistas do Daily, havia aceitado um emprego em outro país, mas também tinha acabado de se entender com Rian após muitos anos de atração, amizade colorida e negação de ambas as partes. Agora, Rian estava no meio de todas as mesas do jornal, fazendo um discurso patético sobre como havia passado por situações mais patéticas ainda para chegar até ali, implorando para que ela ficasse no país, pois ele a amava. Eu não sabia qual merda ele executara, mas sabia que tinha feito alguma coisa e também como iria terminar.
Depois de fazer o famoso “doce”, falando que eles nunca dariam certo, que eram muito diferentes e blá blá blá, ela pularia nos braços dele. Depois trocariam juras de amor, dariam um beijo apaixonado, todos bateriam palmas e eles terminariam juntos, casados e felizes para sempre. Essa é a verdade sobre histórias de amor. Elas existem, não são inventadas em filmes ou livros de Nicholas Sparks, porém, nem sempre existe um “felizes para sempre”.
O que existe é um “felizes até os primeiros seis meses”. No meio do caminho acontece a complicação e pronto, fim do amor eterno. Aí vêm os dois meses de fossa e, então, já é o tempo de sua próxima história de amor começar.
É claro que não quero generalizar. Não quero dizer que o que digo é lei, apenas falo por experiências reais e pessoais. As pessoas têm tendência a achar que histórias de amor são de duas pessoas que vão ficar juntas para sempre, quando na verdade, todos vão ter pelo menos quatro ou cinco histórias de amor na vida, contando com as “não-românticas”.
Dei uma risada de escárnio quando vi Lana pular no colo de Rian, beijando-o, e juntei-me aos colegas do estágio nas palmas.
Eu sabia que ia acabar assim. Estava familiarizada com grandes cenas de demonstração de afeto em público, pois estive presente em algumas delas. Não por acontecerem comigo (nunca aconteceu), mas sim porque eu conhecia pessoas que tinham ótimas histórias de amor.
Eu sempre fui a garota ao lado, a amiga, a conhecida e, pasmem! Já fui até a vilã.
Por onde começar?
Barbara. Era uma garotinha de cabelos loiros que adorava roubar as brincadeiras que eu inventava na pré-escola e fingia que a criação era dela. O garotinho pelo qual eu tinha uma paixonite, cujo nome eu não faço ideia, amava minhas brincadeiras, mas a tal da Barbara acabava levando todo o crédito já que eu era tímida o suficiente para não explanar minhas ideias para os coleguinhas.
E então, para o desespero do meu coração de cinco anos de idade, Barb e o garotinho brincavam juntos de gangorra e também sentavam perto um do outro. Eles também dividiram seus lanches até o oitavo ano.
Pode parecer estúpido, mas essa foi a primeira vez que me senti irrelevante e descartável, mesmo que ainda não soubesse o que essas palavras significavam. E eu me lembro perfeitamente do que senti. Claro que os esqueci uns dias depois e já estava concentrada em algum outro livro inadequado para minha idade ou uma brincadeira de rua perigosa demais, mas eu me lembro.
Amanda foi uma das minhas melhores amigas na escola, estudamos juntas desde o pré. Ela conhecia Barbara, inclusive. Eu devia perguntar a ela sobre o garotinho. Se ela lembrasse nome o dele, bastava uma pesquisa no Facebook para eu descobrir se era o amor da minha vida ou não. Amanda costumava ser bobinha e boazinha demais para seu próprio bem, então acho que eu fui sua única amiga por um bom tempo. Sempre tive um fraco pelos desajustados e oprimidos, afinal.
Eu sempre gostei de estudar, mas não era classificada como nerd. Nos rótulos idiotas que nos eram dados na escola, eu nem era classificada. Sempre fui o tipo de garota que ninguém presta muita atenção e, se for na reunião da turma daqui a alguns anos, provavelmente não vão me deixar entrar por não lembrarem de mim. Talvez nem me convidem.
Aí apareceu Gaston, o garoto popular e boa pinta que todos da escola gostavam e queriam por perto. Ele jogava futebol, tocava violão, tinha um belo corpo e era simpático com todos. Um dia, eles foram obrigados a fazer um trabalho juntos e acabaram se conhecendo melhor. Amanda, óbvio, se apaixonou. Mas Gaston não a via com esses olhos e ela, já apaixonada e querendo impressionar, pediu minha ajuda para mudar o visual e seu jeito meio… Recluso e estranho de ser.
Eu não sou nenhuma profissional de moda, sendo bem adepta ao “confortável antes do agradável”, mas eu sabia que usar saia abaixo dos joelhos com tênis de corrida nunca foram boa opção. Eu também era o que se pode chamar de uma garota com muita atitude. Porém, era tímida demais para que os outros notassem minha irreverência.
Mudança de atitude aqui, roupas melhores ali, bum! Gaston estava apaixonado. Hoje em dia sou profundamente contra alguém mudar seu jeito de ser por outra pessoa mas, naquela situação, eu entendo que foi um pouco necessário. Gaston nunca perceberia que Amanda era mais que notas altas e um cabelo encharcado de creme se ela não se fizesse notável.
A nerd e o popular. Eles formaram um bom casal, um nojo de tão fofos. Eu acabei perdendo o contato com ambos depois que concluímos o colegial, então não sei o que aconteceu para o término deles.
Bom, também houve Peter, meu primeiro namoradinho sério. Eu e Peter vivemos um grande amor, do tipo que me fez pensar que ele seria ‘o cara’, apesar de termos apenas 16 anos. Éramos um ótimo casal, todos tinham inveja de nós. Eu ainda lembro do dia em que ele conheceu Ila. Eles esbarraram-se no corredor da agência de viagens da mãe de Peter.
Bolsa, papéis, celulares, todos voaram pelo ar e as chaves dele acabaram ficando no meio das coisas dela. Lembro dele me contando o acontecido, do pequeno e passageiro aperto que senti em meu peito. Eles acabaram combinando de se encontrar para devolver as chaves e o acaso fez seu trabalho, fazendo-os se encontrarem mais algumas vezes e bum! Adivinha só? Peter estava apaixonado.
Até hoje eu não sei o que aconteceu entre eles dois nessa época, só sei que logo eu fiquei solteira.
Não aceitei bem e fui muito imatura em relação a isso, confesso. Mas como eu disse, só tinha 16 anos e nunca havia gostado tanto de uma pessoa. Tinha quase certeza que Peter era o meu “meant to be” e, desde Amanda (que para mim teve um final feliz, mesmo que hoje ela namore um figurão do ramo farmacêutico), eu estava querendo mesmo ter minha própria história de amor. Então, comecei a fazê-los passar por alguns… Probleminhas. Fiz aquilo que uma vilã de 16 anos de uma novelinha bem ruim pode fazer: beijei Peter quando sabia que Ila estava olhando.
(Um breve parênteses se faz necessário. O plano não teria dado certo se Peter não me beijasse de volta. E ele beijou, então ponto pra mim.)
Foi uma cena e tanto, típica de novela mexicana. Ila chorando e gritando, Peter desesperado, tentando explicar que não era aquilo que ela estava pensando. Aconteceram várias coisas nesse meio tempo, mas no final de tudo, Peter fez uma puta serenata para Ila, com flashmob e tudo, mobilizando quase a cidade inteira. Eu lembro de ver tudo no canto, sentindo-me um lixo. Essa vai ser uma cena recorrente, aliás.
Foi uma época estranha e eu ainda me questiono como fui capaz de fazer tudo isso. Eu não estava pensando muito bem e sinto (muita!) vergonha até hoje. Fiquei enciumada pelo fato de Peter e Ila terem uma história de amor bem legal para contar. Peter foi o primeiro menino de quem eu gostei de verdade e eu não possuía muita facilidade em gostar de pessoas.
Nessa mesma época, minha irmã entrou em um relacionamento com uma garota que costumava odiar e isso me deixou ainda mais chateada. Eu não entendia porque diabos todo mundo possuía uma história de amor ridiculamente clichê e bonita. Não que eu fosse o tipo de garota irrevogavelmente romântica, pois chegava até a ser o contrário, mas eu também não era contra um “amorzinho”.
Eu tenho minhas próprias teorias sobre amor e suas histórias, e acredito veemente nelas.
Porém, ainda não era o fim. Tive um segundo “namorado”, Tom. Quase namorado na verdade, porque nós só ficamos juntos por um tempo, sem realmente termos rotulado algum tipo de relacionamento. Ele era um cara legal, mas não era como se eu fosse louca por ele. Ficamos por alguns meses, até uma garota loira se mudar para casa ao lado da dele. No início, ele reclamava muito dela e vice-versa, mas eles começaram a conversar, se vendo com outros olhos e adivinha? Apaixonados, é claro! Numa noite chuvosa e sem energia, Tom e a garota acabaram beijando-se e dormiram juntos. Alguns dias depois, Tom me contou e disse que não podia mais sair comigo. Sem surpresas, sem mágoa nenhuma. Eu sabia que ele estava gostando dela, percebi assim que começou a falar dela de um jeito diferente.
Atualmente, Tom e a garota moram juntos, têm um cachorro e um Instagram de dar inveja em qualquer solitário.
Carol era uma grande amiga minha da faculdade, eu e ela sempre fazíamos trabalhos juntas. Num dia qualquer, Joseph – um cara lindo demais pra ser real – a chamou para sair. Ele era o cara perfeito com ela, um verdadeiro príncipe e eu, invejosa que sou, comecei a sair com o melhor amigo dele. Nós quatro sempre saímos juntos, até o dia que Carol descobriu, junto com toda a universidade, que Joseph tinha feito uma aposta de que conseguiria pegar a garota que era bonita demais para ser tão quietinha. Você já deve imaginar que, a essa altura do campeonato, Joe já estava perdidamente apaixonado. Ele e Carol enrolaram por um tempo, mas eu já sabia que isso ia acabar em algum discurso público e apaixonado.
Eles completam três anos de namoro na semana que vem. Estou ajudando-a a organizar uma viagem romântica para o Caribe.
Você já assistiu Crazy, Stupid, Love? Sabe a cena em que a Emma Stone entra no bar procurando pelo Ryan Gosling? Ninguém percebe, mas antes dela roubar toda a atenção e beijar o cara, Gosling estava acompanhado de uma garota loira. Ele estava jogando todo o charme Gosling, que eu não sei de onde vem, e simplesmente vai embora com a Stone, sem nem olhar para trás. Na vida, eu sou aquela garota. Tipo, literalmente. Algo semelhante aconteceu comigo. Eu estava em um bar, conversando com um cara e, antes de acontecer qualquer coisa entre nós, antes mesmo dele me pagar uma segunda bebida, uma garota entrou e se declarou para ele em cima de uma mesa, ignorando-me completamente. Todos bateram palmas, alguns filmaram e eu tomei um dos maiores porres da minha vida.
Não era possível! Essa seria a minha sina? Terminar sozinha, sem uma história legal e bonitinha para contar? Talvez.
Haniel.
Haniel foi diferente. Eu o conhecia a muito tempo e nós sempre fomos muito apaixonados um pelo outro. Depois de alguns anos de pura teimosia minha, finalmente ficamos juntos. Ele foi o meu segundo e melhor namorado, até hoje acho que foi o grande amor da minha vida. Éramos muito parecidos e estar com ele sempre foi a melhor coisa do mundo para mim. Ninguém no mundo me conhecia como ele e nós éramos aquele casal que todo mundo deseja ser um dia.
Até que, em um churrasco de aniversário, ele conheceu a prima de um amigo nosso. Ana era o completo oposto de mim e totalmente diferente dele, também. Sorria demais, elitista demais, cabelo liso demais e dentes brancos demais.
É claro que eu, com meu manequim 44, só estou arrumando milhões de defeitos para aquela garota com a cintura fina demais e nariz perfeito. Na verdade, ela era a coisinha mais fofa.
Quando os vi juntos em uma praça da cidade, a nossa praça preferida, no dia do meu aniversário de 20 anos, engatando em uma conversa cheia de olhares prolongados e sorrisinhos tímidos, eu já sentia o que iria nos acontecer. Fechei os olhos e pedi para alguma força superior que ele ainda fosse minha história de amor eterno.
Não era.
Algumas semanas depois, Hani tornou-se distante e quase um desconhecido. Quando ele pediu para conversar, eu chorei como uma criança pois já sabia o que vinha a seguir. Conversamos no chão do meu quarto por horas. Ambos choramos muito nesse dia. Ele disse que sempre me amaria, mas não era mais apaixonado por mim e não se sentia mais confortável em manter um relacionamento comigo enquanto queria estar desesperadamente com outra pessoa.
Não fiquei com raiva dele. Realmente entendi o que ele estava sentindo e aceitei, mas isso não me impediu de passar a noite chorando no colo da minha mãe. Foi nesse dia em que eu aprendi, na prática, o que muita gente já havia dito: às vezes, apenas amor não é o suficiente.
Tinham se passado quase três anos desde meu término com Haniel. Todos nós temos aquela pessoa, que se dissesse “volta”, nós voltaríamos sem pensar duas vezes, certo? Ele era a minha. Sempre foi minha saudade mais doída e o maior amor que eu já senti por alguém que não fosse da minha família. Também foi o único cara para quem eu disse as três palavrinhas.
Desde então, minhas aventuras amorosas não passavam de alguns dias. Às vezes, apenas noites. Agora, a faculdade de jornalismo e o estágio em uma merda de jornal ocupavam a maior parte do meu tempo. As horas vagas, eu passava enlouquecendo com minha melhor amiga, Dana Tomanzio.
Entre toda a confusão que minha vida se tornava algumas vezes, todos os “vai e vens”, todas as pessoas e suas malditas histórias de amor, Dana (que eu chamava carinhosamente de Dizzy) foi a única que continuou ao meu lado.
Incondicionalmente.

 

Ato I – 1. Aquele onde tudo começou.
Março.

Você sabe qual é um dos maiores e mais grotescos erros que uma pessoa comete na vida? Desejar ser adulto enquanto se é criança. Eu fui uma criança “adulta” demais. Aprendi a ler aos três anos de idade, contrariando todas as expectativas. Com dez, já tinha lido e entendido (acho importante frisar isso) o livro Sofies Verden. Com doze anos, decidi o que queria ser quando crescesse. Aos trezes, minha vida inteira já havia sido planejada por mim mesma. Eu seria uma grande jornalista e iria trabalhar no jornal que meu pai costumava ler pela manhã. Eu almejei pela vida adulta.
Imaginava-me andando pelas metrópoles mais importantes, cheia de projetos e contatos, bem encaminhada profissionalmente, com um relacionamento amoroso saudável, cheia de amigos e com sapatos de salto alto. Entretanto, aqui estou eu. Aos vinte e cinco anos, não me considerando nem um pouco adulta, e sentindo como se o mundo inteiro conspirasse contra mim. Quase reprovando em várias matérias na faculdade, completamente perdida no meio de trabalhos e mais trabalhos, provas surpresas e professores indignados com minha falta de responsabilidade. Morava em uma cidade considerada pequena, não tinha nenhum projeto, solteira, apenas uma amiga de verdade e sapatilhas.
A mini-eu de treze anos de idade estaria bastante desapontada, porém, eu atribuo a culpa à Hollywood e seus filmes e séries, que me prepararam para o mundo de um jeito errôneo.
A única parte da minha ilusão de infância que poderia até ser considerada verdade era estar encaminhada na vida. Como eu disse, poderia ser verdade. Eu havia conseguido estágio no Daily, um jornal que recebia tantos empréstimos de políticos que era quase inteiramente financiado por um único partido. Ele era considerado um jornal tendencioso e quase falido.
Eu sobrevivia apenas na esperança de conseguir, algum dia, escrever em alguma coluna. Ir contra o sistema, sabe? Mas o número de decepções que eu tinha a cada reportagem enaltecendo políticos e suas corrupções só aumentava, enquanto minha vontade de ser jornalista e escrever só diminuía. Eles diziam ver grande potencial em mim, então me exploravam usando a desculpa de “me formar como profissional” e coisas do tipo. Eu sabia que estava sendo explorada e que estava sendo responsável por trabalhos variados que não deveriam ser meus, mas necessitava daquele estágio remunerado. Realmente precisava da experiência e, principalmente, do dinheiro. É claro que fui avisada de que as coisas no mercado do meio jornalístico eram meio alienadas e incoerentes, mas também tinha certeza de que o colunista das sextas-feiras pedir para eu aumentar meu decote para lhe dar “inspiração” DEFINITIVAMENTE não era certo.
A verdade é que, no momento, eu tinha mais responsabilidades e problemas que minha sanidade era capaz de aguentar e tudo o que eu queria era tomar uma cerveja. Foi assim, enlouquecendo entre um relatório desnecessário e as secretárias fofoqueiras do editor chefe, que resolvi aceitar o convite de Dizzy para tomar umas em um pequeno clube da cidade.
Dana era uma bela morena de cabelos longos que eu chamava de melhor amiga e apelidei-a de Dizzy. Nos tornamos amigas na escola. Até conhecê-la, nunca imaginei que uma pessoa como eu poderia ser amiga dela, mas também não entendo como não nos tornamos amigas antes. Eu não sei de onde surgiu o apelido. Provavelmente estava bêbada quando o inventei, pois ficava constantemente bêbada no meu último ano na escola. Não, eu não me orgulho disso, mas adolescência é uma fase estranha e as coisas que fazemos nela não podem definir a nossa vida inteira.
Ela era publicitária. Começou a faculdade antes de mim e acabou se formando antes, também. Trabalhava em uma agência publicitária, mas sua beleza, carisma e grande desenvoltura com as mídias a possibilitava a ter várias outras oportunidades de emprego, como trabalhar como modelo, se arriscar como atriz, dançarina. Enfim, Dana era aquela pessoa de mil e uma utilidades que a gente até odeia um pouco, por ser boa em tudo.
Não entendi a urgência dela ao me mandar cinco mensagens seguidas, mas devia imaginar que o final do mês estaria me deixando meio louca, mesmo. Avisou que estava no Carté com uns caras que conheceu e me mandou mais umas quatro mensagens, perguntando onde eu estava logo que confirmei minha presença. Respondi assim que vi o trânsito paralisar a minha frente.
Dana não costumava mais dirigir carros. Depois que bateu em um ciclista no estacionamento de um supermercado, ela ficou meio traumatizada. Vendeu seu carro para mim e comprou uma moto, que estava na avaliação, por isso deduzi que devia estar querendo carona. Só isso explicaria sua insistência.
Batuquei o início de To Love Somebody no volante enquanto olhava o céu chuvoso e nublado formando-se. Como diria minha mãe, estava “branco de chuva”. Suspirei fortemente. Pensar na minha mãe sempre causava um aperto no peito. Eu estava tão cansada e aquela maldita Janis Joplin tocando no rádio só estava me deixando mais deprimida, e minha cabeça parecia prestes a explodir. Passei a mão pelo rosto, pensando em maneiras de espantar a preguiça e a vontade de ir para casa, mas pensei que teria que arranjar um lugar para passar a noite caso Dizzy levasse alguém. Eu não gostava de ficar em casa quando ela fazia sacanagem no quarto ao lado. Quase nunca tínhamos conflitos sobre garotos em casa, até por que nossas vidas sexuais eram bem parecidas.
É claro que estou exagerando. A vida sexual dela definitivamente era mais agitada que a minha. Eu me trancava no quarto ou saía do apartamento quando ela estava com alguém e ela fez o mesmo nas poucas vezes em que eu voltei com alguém de alguma noitada. Dizzy e eu aproveitávamos a vida de jovens solteiras plenamente e, de vez em quando, até dividíamos alguns caras que topavam uma loucura.
Não tínhamos muitas regras sobre morarmos juntas, tudo sempre foi muito natural, na verdade. Dana sempre foi a melhor parte de mim e era muito fácil ser eu mesma com ela.
Nossos pais quase tiveram um ataque cardíaco em conjunto quando decidimos deixar Springfield (Não, não é a mesma dos Simpsons. Se você pesquisar, vai descobrir que existem mais de 100 cidades com o mesmo nome), a cidade que nascemos e fomos criadas, para tentar a vida em Hillswood*, cidade que mais cresceu economicamente nos últimos meses e que era o melhor lugar para se iniciar uma carreira, segundo estudos promovidos pela BBC.
Foi assim que eu decidi que devia ir e morar a quase 3700 km de distância da minha família. Eu e Dizzy já tínhamos tudo tão perfeitamente calculado e pronto que não teve como nossas famílias negarem. Na real, eu acho que estavam mesmo afim de se livrar de nós. Meus pais sempre foram muito conscientes das minhas vontades, que infelizmente não coincidiam com nossas condições. Eles sempre quiseram que eu estudasse em um lugar conceituado, porém, acho que estavam pensando em uma faculdade estadual mesmo, perto de casa. Os pais de Dana já não estavam mais aguentando suas aventuras desnecessárias.
Foi sofrido e doloroso, principalmente pra mim, deixar minha família, mas a necessidade faz a mulher e, nem toda a ansiedade e tristeza me fariam ficar em um lugar em que eu tinha 40% de perspectiva de vida.
Nosso apartamento era um pouco afastado do centro da cidade, localizado em um bairro considerado calmo e “jovial”. Ele tinha dois quartos com um banheiro cada, a sala e cozinha eram um só cômodo, divididos por um balcão, que costumava ser nossa mesa de jantar. A cozinha era pequena, de modo que não cabiam nem três pessoas lá, e a sala era até bem espaçosa, mas nossa mesinha de centro ocupava grande parte dela, o que demonstra que ela talvez não fosse tão espaçosa assim. Os banheiros eram minúsculos, não tínhamos água quente, nossos vizinhos eram meio estranhos, eu demorava 45 minutos para chegar relativamente perto da faculdade, mas era do jeito que eu e Dizzy gostamos e sempre desejamos.
A melhor parte eram as janelas de vidro, gigantes, que tínhamos na sala e que mostravam a vista maravilhosa do centro da cidade. Quando a noite chegava, as luzes dos prédios faziam tudo parecer bonito e calmo, o que nos relaxava quando estávamos enlouquecendo dentro do nosso pequeno universo.
Eu tinha vinte anos quando deixei Jeins, a periferia de Springfield, e me mudei para Hillswood. Não tinha dinheiro e nem esperanças, possuía apenas notas boas e financiamento universitário do governo. Ao contrário de mim, Dana sempre teve boas condições financeiras e, quando cheguei com a ideia de irmos viver em outra cidade, ela concordou em apenas dois minutos de argumentação. Disse que estava mesmo querendo viver uma grande aventura ou algo assim.
No dia eu ri, entretanto, não consegui não pensar que isso era coisa de gente rica, que faz o que quer, na hora que quer, porque tem dinheiro para isso.
Ao contrário do que parece, eu não sou (tão) amargurada, nem invejosa ou coisa assim. Dana também não é uma dondoca endinheirada e mimada. A família não era rica de berço, lutaram para conseguir um bom estilo de vida. Acho que por isso não tive problemas em aceitá-la como amiga, pois ela era uma garota pé no chão e humilde no meio de um bando de pessoas mesquinhas.
Estudei como bolsista em um colégio de classe média alta. Provavelmente era a única da turma que vinha do “lado ruim” da cidade. Eu ignorava quase todos, principalmente os que se achavam donos do mundo só porque tinham mais numerais nos bancos que a maioria. Não fazia questão de me encaixar socialmente, também. A minha meta era passar pelo ensino médio sem grandes emoções, sem grande loucuras e estresses, mas Dana apareceu. Eu não lembro como a gente começou a se falar, só me lembro que um dia éramos desconhecidas e no outro amigas inseparáveis.
Sem complicações ou explicações.
Quando cheguei em frente ao Carté, uma garoa fina já caia e o céu quase branco mostrava que ainda vinha muito água por aí. O Carté era um casarão que, por fora, parecia até abandonado. Mas, por dentro, os cômodos eram como pequenas boates e tocavam estilos diferentes de música. Tinham pequenos bares espalhados pelo local, que possuía uma ótima acústica. Era um lugar bem aconchegante para quem curtia dançar e se divertir sem ser de um jeito hardcore.
Na Garagem, que era literalmente uma garagem, tocavam bandas novas e alternativas, uma coisa mais pesada. Era tudo muito escuro e a maioria das pessoas iam lá para se pegar. E tinha o Pátio, que era onde Dana e os caras que ela tinha conhecido estavam. Haviam várias mesas espalhadas, metade coberta por uma lona e, a outra metade, por algumas árvores. No canto, tinha um pequeno bar, que dava um ar de pub inglês. Eu gostava muito de lá. Era bom, barato e muita gente não fazia ideia que, por trás daquela frente caída, existia um ambiente incrível e acolhedor.
Peguei minha carteira de dentro da mochila, meu celular e saí do carro. Atravessei a rua abraçando meu próprio corpo, me arrependendo de não ter trocado de roupa assim que bati o olho em algumas pessoas que estavam do lado de fora do local. Estava uma noite boa para conhecer alguém casualmente e meu vestidinho florido de algodão, meu casaco preto e aquelas sapatilhas não iriam me ajudar nisso.
Paguei minha entrada e parei em frente a um espelho antes de seguir para o Pátio. Eu estava até apresentável para uma pessoa que saiu de casa às 5h da manhã e almoçou numa barraca de hot dog. Passei a mão pelo rosto quase sem maquiagem, se não fosse pelo rímel que seguia presente, firme e forte. Meu cabelo, recém cortado na altura dos ombros, estava preso pela metade e com frizz, por conta da umidade, mas ainda agradável.
Adentrei o local, escutando a melodia marcante, que só podia ser The Cure, tocar mais ao fundo, que parecia quentinho de tão confortável. Não estava lotado, mas havia uma boa quantidade de pessoas nas mesas. Procurei rapidamente por Dana e ouvi sua risada numa das mesas do fundo, perto de uma pequena árvore. Fui até a mesa, sentindo meu coração dar um pulinho.
Ah, a inquietação de conhecer pessoas novas.
Avistei Dana sentada com três caras e quis dar um soco nela por não ter me falado nada por mensagem. Ela podia ao menos ter me avisado que um dos caras era o tal . É claro que eu o conhecia. Toda a cidade conhecia e eu, como uma boa cidadã, também tinha minhas curiosidades e vontades em relação a ele.
era um cara de quase 1,80m, que desafiavam os meus 1,56. Ele, com aquelas costas largas e sorriso de menino inocente, despertava o interesse de muita gente em Hillswood. Dana sabia minhas vontades, pois comentei sobre ele vez ou outra, enquanto stalkeava suas redes sociais, mas nunca pensei que ela iria aparecer com ele, ali. Nem sabia que ela o conhecia.
– Boa noite. – Cumprimentei, cordialmente, e vi todos virarem para me olhar, até mesmo .
– Finalmente! Achei que você tinha desistido. Senta aí. – Dizzy exclamou, animada. Apontou para a cadeira vazia entre os caras que eu ainda não conhecia e de frente para ele.
– Que tal me apresentar antes? – Eu disse, mas já sentando e colocando minha carteira em cima da mesa.
– Meninos, essa é a . , esses são , Jack e Cam. – Ela apontou para cada um deles e eu sorri tímida.
Eu não era tímida, mas vocês também ficariam se tivessem que sentar em uma mesa com quatro pessoas bem bonitas enquanto você parecia uma batata.
– Ouvimos Dana falar de você o caminho inteiro e já estávamos achando que você era invenção da cabeça dela. – Cam estendeu a mão para me cumprimentar, fazendo todos rirem também. Cameron usava óculos iguais aos meus, tinha o cabelo castanho e lembrava um pouco Dermot Mulroney jovem, só que britânico e negro.
– Seja lá o que ela tenha dito, é tudo mentira. – Eu apertei a mão dele, simpatizando logo de cara.
– Ela só disse coisas ruins. Se eu fosse você, me preocupava com essa amizade – riu, batendo no ombro de Dizzy com o próprio e estendendo a mão para mim. Eu ri e apertei firme, já sentindo minha confiança ir embora.
– Que mentiroso! Eu falei super bem de você. O quanto é legal e adorável. – Dizzy riu, me mandando uma piscadela.
– Então a mentira já começa aí. – Falei, enquanto cumprimentava Jack, que usava uma camisa com o perfil do Che Guevara, que me fez torcer o nariz, e todos riam.
– Falsa! Sou um amor e você só me destrata. – Dana falou com uma falsa tristeza e fazendo um biquinho.
Vi sorrir, parecendo encantado enquanto ela sorria para mim depois, e eu soube que iria entrar em uma batalha perdida. Cam me ofereceu uma cerveja e eu prontamente aceitei com um “amém”, fazendo-os rirem.
– Como foi o dia? – Dana bebericou sua própria cerveja.
– Difícil, mas estou viva apenas para tomar essa cerva bendita, que eu desejei durante o dia todo. – Dei uma golada longa no líquido gelado. Já que aparentemente estou fora do jogo, pelo menos ficarei bêbada enquanto vejo Dana se dando bem.
– Foi um desejo em comum. Eu também necessitava tomar umas hoje. – Jack concordou, esticando seu copo para brindar comigo. Ri e me desculpei por beber antes de brindar.
– Você pediu minha pizza? – Dirigi-me a Dana, que parecia cinco vezes mais bonita naquele dia.
– Pedi. Com mais coisas por cima possíveis. Imaginei que você estaria com um monstro aí dentro. – Apontou com a cabeça para minha barriga. Agradeci e senti meu corpo relaxar com o clima amigável na mesa. Todos estavam rindo e sendo bastantes simpáticos comigo, não dando brecha para que eu me sentisse desconfortável.
– Nós também pedimos uma pizza faz uns 20 minutos. – informou, olhando no relógio do celular. – Eu nunca vim aqui. Costuma demorar?
– Na verdade, não. – Dizzy respondeu e ele a olhou, sorrindo. Dei uma risada para o nada e enchi o copo novamente.
Perguntei como Dana tinha os conhecido e eles contaram que ela teve que fazer um trabalho com Cam, que era fotógrafo. Logo depois, também acabou por chegar no estúdio, já que também tinha uns trabalhos com Cam e eles eram muito amigos. Dana e Cam precisavam se reencontrar para finalizar algo do trabalho, então chegou Jack, que era DJ e ia tocar no Carté naquela noite. Dana, gente boa do jeito que era, já tinha intimidade o suficiente para ser convidada para ir junto com os rapazes até lá.
E minhas suspeitas de que queria Dana só se confirmaram ao longo da conversa.
O tempo todo ele era engraçado e gentil com ela, flertava de um jeito tímido e fofo, de forma que ela não se dava conta. Dizzy tinha esse jeito meigo e atencioso com todos, mas também não costumava prestar atenção nas coisas. Logo, ela nem sempre percebia quando alguém estava interessado. Simplesmente achava que ele era assim mesmo, e estava me segurando para não falar para ela beijá-lo ali mesmo. Eu reconhecia a derrota e já comemorava por ela. Se Dana iria ter a oportunidade de passar a mão naquele poço de gostosura, que fosse com louvor.
As coisas entre mim e Dana eram assim, simples. Nos conhecíamos bem demais, sabíamos demais uma da outra e também sabíamos o momento certo para tudo. E aquele sorriso do , lindo demais diga–se de passagem, era todo dela e para ela. Era explícita a admiração que ele sentia e eu não o culpava, de forma alguma.
Dana, com suas pernas longas, cabelos grandes e sedosos, além de um corpo escultural, parecia o tipo de garota que saía de um comercial de TV que personificava garotas perfeitas. E ela era, mesmo. Era doce, gentil, interessante, engraçada, carinhosa, curiosa e dona de um sorriso tão marcante e perfeito que só ela tinha. Eu era apaixonada por Dana de um jeito não sexual, por assim dizer. Amava e exaltava cada parte dela. Nós éramos completas e donas de si demais para invejas e competições.
Como eu disse, entendo a fascinação dele, mas não conseguia evitar sentir um pouquinho de ciúmes.
Quando as pessoas não conseguiam nada com a Dizzy ou qualquer outra amiga minha, eu estava ali de segunda opção. Eu era uma DUFF* assumida e todos sabiam disso. Foi-se o tempo que isso me incomodava. Eu era conformada. Sabia que não era feia e que minha personalidade ajudava muito na hora de conhecer alguém. Não era magra, mas até gostava de ter algumas curvas mais salientes. Sabia que não iria conseguir alguém por conta das minhas coxas grossas demais para o tamanho do meu quadril, nariz um pouco grande demais pro meu rosto, olhos pequenos demais e minha barriga, que não chegava perto de ser trincada como a de Dana.
Eu não era boa na parte da beleza, mas sabia manter uma conversa, fazer alguém ficar interessado, era boa no flerte e também tinha um ótimo senso de humor.
Meus pensamentos e a conversa na mesa foram interrompidos quando nossas pizzas chegaram e eu percebi o quanto estava esfomeada. Nem liguei para etiquetas, fui logo pegando a pizza com a mão, mesmo e sorri ao vê-lo fazendo o mesmo.
– Então, Jack? – Perguntei, meio em dúvida se aquele era mesmo o nome dele. – Você vai tocar hoje?
– Sim. É a primeira vez que toco aqui. Faço uns bicos às vezes, trabalho na casa de shows da sogra do Cam. Sou estudante de música. Sabe como é, a gente aceita qualquer coisa. – Ele deu de ombros, se empanturrando com a pizza.
– E você, ? Conta pra gente até quando vai se matar de trabalhar em algo que você nem gosta? – Dizzy sorriu, sarcástica. Revirei os olhos com sua alfinetada.
– Quem disse que eu não gosto do que eu faço?
– Você mesma. Três segundos atrás. – Cam deu uma mordida na pizza, olhando-me provocador, fazendo Dana rir.
– Só não é minha preferência. – Dei de ombros e voltei a me concentrar na minha pizza.
– Ela trabalha em um jornal que é tudo que ela luta contra desde a época da escola. – Dana explicou, ao notar a confusão dos rapazes.
– É difícil juntar algo que você gosta com o que você precisa fazer. – me olhou e deu um sorrisinho de lado. Não sorri de volta, pois estava com a boca cheia e já meio irritada com Dana. – Eu te entendo.
– Por que você se mata de trabalhar se nem gosta? – Jack perguntou e me passou outra fatia de pizza quando percebeu que eu precisava de mais, porém estava com vergonha de pedir a do sabor deles.
– Reconhecimento. Se me esforçar e for boa em algo que eu não gosto, irão perceber que posso ser melhor no que gosto. Ficou confuso? – Tentei explicar o mais breve possível. Não queria ter que explicar toda a burocracia em volta do que eu fazia. Ou do que eu achava que fazia.
– Eu concordo plenamente, por isso eu toco até em bar mitzvá. – Jack fez todos rirem com sua declaração. – é o sortudo aqui.
– Não sou sortudo. Lutei pelo que queria, só isso. – assegurou, bebendo um gole de sua caneca e batucando a mesa com a outra mão, no ritmo da música que tocava.
era cantor, por isso sua fama na cidade. Eu nunca tinha visto ele cantar, logo não sabia se realmente ele era bom, mas já havia visto seu nome em algumas casas de show da cidade e sempre haviam filas nas portas. Talvez ele fosse só um rostinho bonito.
Forcei minha mente a descobrir qual música tocava no local, já que cantarolava livremente, quase nem prestando atenção na conversa na mesa. Prestando um pouco mais de atenção, identifiquei que era uma música cujo refrão era “no rest for the wicked”, que significava ‘não há descanso para os perversos’. Eu conhecia a frase, era de algum livro da Bíblia, mas não conhecia a música. Teria que pesquisar depois, já que ela estava sendo apropriada para o momento. A frase também poderia significar que você precisa trabalhar duro, mesmo que já esteja cansado.
Altamente apropriada.
– Eu também entendo. – Dana continuou, defendendo seu ponto de vista. – Mas acho que a . Seus olhos também me acharam e ele sorriu de lado.
– Money don't grow on trees. – Completou minha sentença com o que eu acreditava ser uma frase da música.
Forcei um contato visual constante e ele não desviou o olhar enquanto virava o copo dele, bebendo o resto de líquido que tinha ali. Aquilo alertou algo dentro de mim. Eu estava no jogo?
A pizza já havia acabado e agora já estávamos na cerveja de novo. Todos já estavam meio leves e alterados, e a chuva aumentando gradativamente. Enquanto Dana pedia mais uma rodada, Cam começou a se despedir de nós. Disse que tinha uma viagem à trabalho para fazer pela manhã e pediu desculpas a Jack por não poder ficar. Depois de um drama exagerado e engraçado de e Jack, Cam conseguiu deixar o local.
Ele pareceu realmente chateado de ter que ir. Abraçou–me e disse que tinha adorado me conhecer. Percebeu que eu era a mais sóbria entre eles e pediu para que eu tomasse cuidado com os garotos caso eles saíssem dali bêbados demais. Eu, claro, disse que sim. Jack iria começar a tocar às 1h da manhã, o que significava que eles ainda tinham uma hora para beber mais.
Todos já estavam soltos e parecia que nós éramos amigos de infância, cheios de risos e piadas internas. Comecei a dosar minha bebida já que iria dirigir e levar todos em casa. Geralmente, eu era forte para o álcool, mas não gostava de abusar da sorte. Também era contra beber e dirigir, mas eu quebrava a regra algumas vezes. Outra coisa da qual não me orgulho nenhum pouco.
Conversa vai, conversa vem. Por um momento, senti–me em um campo de batalha com Jack e jogando uns flertes pesados e disputando a bela Dana Tomazio. Eu me senti um pouco distanciada, mas não era do meu feitio deixar o jogo de cabeça baixa.
Se fosse pra morrer, eu morreria atirando.
– Então, você levou um chute nas costas e não fez nada? – Jack perguntou para Dana, meio surpreso. Nós estávamos falando sobre uma das nossas várias histórias da época de escola. Contamos do dia em que um simples interclasses tornou-se um ringue por culpa de Dana, que era muito boa no basquete e estávamos ganhando.
– Eu sou muito lerda! – Dizzy praguejou, batendo na própria testa ao lembrar do seu infortúnio. – Quando senti o chute, nem imaginei que tinha sido de propósito. Achei que nem era pra mim!
– Um chute certeiro nas costas não tem como não ter sido por querer, realmente. – Zombei do jeito leve e lerdo de Dana, fazendo todos rirem.
– Foi do nada. Em um minuto, estava quieta, nem parecia que estava prestando atenção ao que acontecia. E no outro, estava socando a cara da menina. Deu pena! A garota nem conseguia se defender. – Dana gargalhou e eu escondi meu rosto entre as mãos. Já tinha feito muitas besteiras na vida, coisas que nos dias atuais sou completamente contra.
Mas é aquela velha desculpa. Adolescência…
– Você é do tipo durona, então? – encarou–me com um sorrisinho de canto, sacana. Eu estava sentada de frente para ele. De vez em quando, meus pés batiam nos dele e nossos tornozelos se encontravam. Eu não sabia se era de propósito e isso estava me dando arrepios loucos. – Você sabe que não tem tamanho para isso, não é?
– Essa é minha vantagem. Quando você menos esperar, não vai nem saber o que o atingiu. – Retruquei. Ouvi Jack e Dana fazerem um "uooooo" e baterem na mesa. Ri enquanto tomava um gole de cerveja, olhando-o por cima do copo. Agora me olhava com os olhos que eu desejava.
– E contra mim? Eu tenho quase 1,80, sabia? – Ele me olhou com uma sobrancelha levantada, quase como quem me desafiava.
– Isso nunca me impediu de nada antes, big boy. – Ouvimos um outro "uooo" dos nossos amigos bêbados e riu, com os lábios apertados e os olhinhos fechados.
– Eu adoraria ver você tentar ter esse seu jeito comigo, , mas acho que seria covardia com você. – Proferiu, quase como se estivesse com piedade de mim.
– Você perderia feio, big boy.
– Você me chama de big boy e ainda nem viu a maior parte de mim. – Eu gargalhei, mas não deixei barato.
– Você diz que não me garanto, mas nunca nem tentou. – Expressei, abrindo os braços.
Jack e Dana batiam na mesa e gritavam com a nossa pequena disputa, como se estivessem assistindo a uma lucha libre, sem se importar em estarem chamando atenção das mesas ao lado. Nós ainda nos encaravámos, mesmo estando quase morrendo de rir.
– Ok, eu estou adorando isso, mas preciso tocar. Por favor, prometam que só vão continuar com essa batalha quando eu estiver por perto. – Jack nos interrompeu. Olhei para ele rindo, mas senti que os olhos de não abandonaram meu rosto.
Pegamos nossos copos e saímos da mesa, indo em direção a Casa. Minha movimentação fez com que o casaco deslizasse pelo meu ombro, deixando–me desprotegida do frio que fazia. Com as mãos ocupadas, já que meu celular e carteira estavam em uma mão e o copo na outra, mexi meu ombro de uma forma desengonçada, tentando pôr o casaco no lugar. Foi quando , que estava logo atrás de mim, resolveu intervir, colocando o pano no lugar. Seria ótimo e fofo, mas o jeito que ele o fez deixou-me tremendo na base. Ele subiu os dedos lentamente pela minha costa até chegar ao meu braço. Puxou o pano até meu ombro e, repousou sua mão ali. Simplesmente parou com a mão ali, no meu ombro.
Apenas respondi um "valeu" baixinho, como se não tivesse dado importância para o ato, quando na verdade eu daria muita coisa para ele naquele momento.
Jack avisou que ia subir e se preparar para ir ao salão principal, sugerindo que fôssemos curtir a festa enquanto ele não entrasse para tocar. E nós fomos. Entramos nos três ambientes, dançando como três jovens bêbados dançavam quando só queriam se divertir um pouco. O rock alternativo que tocava na Garagem não nos entreteve por mais de dois minutos.
Na segunda sala, tocava Young Folks e e Dana dançavam e pulavam de um jeito cômico. Eu apenas me balançava de um lado para o outro, pois não estava bêbada o suficiente pra mostrar minhas incríveis habilidades de dança. Logo passamos para o salão principal, local em que haviam mais pessoas e onde Jack iria tocar.
Algumas músicas pop antigas que faziam e Dana enlouquecerem soavam no ambiente. Eu não entendia muito bem de música pop, ou de música em geral, então apenas sentei no pequeno bar que tinha lá perto.
Estava traçando mentalmente algum plano para tentar chegar em , que apesar de ter me dado alguns sorrisos, ainda parecia inatingível. Eu havia decidido que o queria e não me importava de ser pega como prêmio de consolação, já que Dana aparentemente não estava querendo-o.
Eu era egoísta e auto depreciativa a esse nível.
Interrompendo minha divagação, um cara aproximou-se de mim. Perguntou o porquê de eu estar sozinha, querendo se aproximar. Ele não era de todo mal. Se fosse qualquer outra noite, eu o deixaria chegar em mim, mas estava seletiva. Não aceitaria nada menos que aqueles 1,80 de costas largas e braços fortes.
– Você é bonita para ficar só. – O gênio em minha frente ainda tentava.
Eu ficava puta com isso. Só porque eu estava sozinha isso significava que eu queria companhia? Minhas vertentes feministas esquentavam nessas horas, mas mantive a calma. Apesar da fama de ter cabeça quente, eu só arrumava confusão quando era estritamente necessário. Caso contrário, era totalmente a favor do "faça amor, não faça guerra".
– Hoje não. – Respondi seca, mantendo meu olhar na parede oposta, brincando com a bebida em minha garrafa, tentando fazer com que eu ficasse com a cara mais desinteressada do mundo.
– Mas você está sozinha aqui e...
– Hoje não, cara. – apareceu por trás do cara, dando uns tapinhas em seu ombro e sorrindo debochado.
Droga, ele parecia muito mais desejável com aquela luz ambiente verde escura sob seu rosto. O cara apenas levantou os braços em rendição e sumiu no meio das pessoas antes que pudesse olhá-lo novamente. Agradeci à . Eu não estava com paciência para gente que não sabe ouvir um “não”. Já é ridículo o suficiente que o nosso "não" nunca é o suficiente, eles precisam ver que tem um homem com você, para só assim te deixar em paz.
– Quer dizer que é difícil te deixar só? – brincou.
– Isso não acontece muito... – Disse tentando não parecer tão cabisbaixa quanto estava em dizer aquilo.
– Não acredito em você. Deve ser difícil ser seu namorado. – Eu realmente não sabia dizer se ele achava que eu tinha namorado ou só estava jogando verde. Ele mantinha uma expressão neutra o tempo todo.
– Talvez por isso ele seja inexistente. – Respondi.
– Eu achei que...
– Não. Namorados são sinônimos de problemas. – Interrompi-o, balançando as mãos.
– Eu já estava aqui, pensando em dez jeitos diferentes de te fazer deixar o seu suposto namorado para me dar uns beijos hoje.
Ele estava com a expressão calma, com as mãos nos bolsos e falou assim, calmamente, como se estivesse perguntando as horas. Fiz questão de olhá-lo da cabeça aos pés, como se estivesse analisando-o, e voltei a olhar em seus olhos, em um sinal claro de flerte.
– Me diz pelo menos dois deles e eu vejo se vale a pena deixar meu suposto namorado por esses lábios. – Repliquei sem titubear, enquanto encarava seus lábios, agora um tanto vermelhos de tanto ele morder.
– Te digo até cinco.
– Então, pode começar. – Informei risonha, achando engraçado a feição desafiadora dele.
– Número um. – Ele sentou ao meu lado no pequeno sofá que era grudado à parede, em um canto apertado.
O número de pessoas parecia aumentar cada vez mais, a música se tornava mais densa e aquele sentimento gostoso de conquista e paquera passava por nós. Seu braço estava em volta de mim, descansando em minha cintura. Ele estava meio inclinado sobre mim e eu sentia todo aquele cheiro maravilhoso de perfume masculino me envolver.
Eu não sabia onde a Dana estava, mas se ela voltasse agora, estaria muito, muito ferrada.
– Número um: Seus lábios são lindos, não consigo parar de olhar para eles e pensar no quanto deve ser boa de beijar. – Afirmou, olhando intensamente para minha boca.
– Argumento fraco. Você só me parece bêbado, mas prossiga. – Fiz sinal para ele continuar.
Estiquei-me para colocar a garrafa de água vazia que eu segurava em cima do balcão, mas estávamos tão próximos que quando levantei, seus lábios esbarraram em minha bochecha. Tentei voltar a sentar na posição anterior, mas ele aproveitou para me segurar ali, quase em cima dele.
– Número dois: você é linda, eu provavelmente passarei o final de semana inteiro me amaldiçoando por não ter te beijado antes. Isso é um problema meu, eu sei. Mas isso nos leva ao argumento número três: você quer me beijar tanto quanto eu quero te beijar. O que nos leva ao argumento número quatro: se você deixar eu te beijar, prometo que vou, pelo menos, tentar fazer sua noite valer a pena.
era a coisa mais adorável do mundo e eu provavelmente nunca tinha ficado com alguém tão fofo.
– Você esqueceu o número cinco. – Comentei, já meio perdida por conta da intensidade em seu olhar.
– O número cinco é baseado em tentativas.
Jack começou a tocar naquele momento e eu nem tinha percebido que ele já estava no palco. Todas as pessoas que estavam em nossa volta se viraram para o palco, aplaudindo, dançando e começando a gritar ao ouvir a introdução do set dele, que começava com uma série de músicas antigas. Quando fiz menção de levantar também, senti as mãos de me puxarem para baixo, pelo quadril. Ele colocou a mão no meu pescoço e roçou seus lábios nos meus, de leve. Agora eu entendi o que ele quis dizer com “tentativas”.
Eu estava toda arrepiada, nem acreditando que aquilo estava acontecendo. Cruzei minhas pernas e apoiei uma mão em sua coxa grossa para conseguir um apoio melhor. Não respondi, apenas estalei um beijo rápido em seus lábios, puxando-os um pouco. Já estava pronta para levantar, fazer um charme, deixá-lo na vontade mais um pouco, mas ele foi mais rápido e agarrou meu rosto com as mãos, beijando-me com vontade.
E quem sou eu pra entrar no caminho de um homem decidido, afinal?
Fazia tempo em que eu não me sentia tão bem e leve beijando alguém. beijava no tempo certo. Nem rápido, nem lento. Ele aproveitava o beijo e era carinhoso. Beijava com muita ternura para quem tinha me conhecido à algumas horas atrás. O tempo todo acariciando meu rosto e tomando cuidado quando sua mão ultrapassava alguns limites, que talvez ele achasse que fossem limites.
Nesse momento, eu já sabia que teria que tomar cuidado com aqueles lábios perigosos. Mais uma noite com ele e eu provavelmente estaria em apuros.
Ficamos mais alguns minutos nos beijando, até que meu celular vibrou em minhas pernas. O nome de Dizzy surgiu na tela, brilhante, e eu soube que teria que me separar dele para encontrá-la. Andamos entre as pessoas no salão com mantendo sua mão em minha cintura o tempo todo. Eu pareço adolescente novamente por fazer observações como essa. Quando achamos Dana, ela também procurava por nós.
– Preciso ir ao banheiro, vamos comigo? – Ela perguntou, depois que dançamos algumas músicas do set de Jack.
– Vou no bar, vocês querem mais? – perguntou. Dana pediu mais uma garrafa de cerveja e eu pedi mais uma garrafinha de água. Ele afagou meu pescoço quando Dizzy e eu saímos em direção ao banheiro.
– O que foi? O que eu perdi? – Dana perguntou quando já estávamos dentro do box no banheiro. Sim, nós entrávamos juntas.
Eu segurava suas pernas, oferecendo o apoio necessário para que ela não encostasse o traseiro no vaso sanitário. Acho que isso é uma regra internacional de todas as mulheres. Principalmente quando estamos falando de banheiros de bares, clubes, boates, dentre outros.
– Ele me beijou. – Contei, meio receosa. estava dando em cima dela no início da noite. Ao contrário do que eu pensava, ela pode ter percebido e poderia ficar chateada comigo.
– Ele te beijou? – Ela pareceu surpresa. Eu também ficaria.
– Sim. Ele chegou em mim, cheio das segundas intenções. Não tinha como dizer 'não'.
– Ah... Legal! – Dana não pareceu tão interessada no que eu tinha para contar, então reprimi minha vontade de comentar o episódio e logo me calei. – Me ajuda com a minha saia?
Assenti e puxei o zíper da saia azul que ela usava. Ficamos em silêncio enquanto eu urinava, usando o mesmo processo de não encostar no vaso.
– E aí? Você gostou? – Perguntou enquanto lavava as mãos.
– Do que?
. – Dana revirou os olhos com minha lerdeza.
– Acho que até demais.
Olhei-me no espelho. Meu cabelo estava bagunçado demais. Não acreditava que teve coragem de chegar em mim, assim. Ele já deve estar arrependido. Vendo minha insatisfação, Dizzy ofereceu-se para prender meu cabelo do jeito que estava antes e eu aproveitei para nos analisar de frente para o espelho.
Ela vestia uma saia jeans e uma blusa moderna demais para meu entendimento, o rosto ainda perfeitamente maquiado e o cabelo brilhante. E eu ali, com meus óculos embaçado e um vestido surrado. Dana podia ser facilmente o tipo de garota que só existe em TV. Você sabe de qual estou falando.
Aquelas que estão com o cabelo sempre no lugar, não têm mau hálito, que comem toda a gordura do mundo sem engordar um quilo e estão sempre sorrindo.
– Acho que já estou ficando meio bêbada. – Dana confessou depois de dar um beijo no meu rosto.
– Você já está bêbada.
– Verdade! – Dana disse gargalhando alto e me fazendo rir também. Ela tinha uma gargalhada engraçada e espontânea, que sempre me fazia rir.
Voltamos quase no final do set de Jack. Ele iria tocar por uma hora, apenas. e eu nos beijamos mais algumas vezes e foi uma delícia. Eu abraçava a cintura dele, dançando, e ele passava um braço pelo meu ombro. Ficava brincando com meus lábios, não deixando eu aprofundar o beijo. Eu passaria a noite assim, mas quando Jack finalizou seu trabalho e ganhou algumas doses de tequilas de graça, as coisas saíram um pouco do controle.
Eu me afastei por uns minutos para ir ajudar uma moça bêbada e quando voltei Dana dançava em cima de uma mesa, Jack entrou numa de dançar valsa com e eu fiquei apenas rindo de tudo a minha volta, deixando-os se divertirem do seu jeito estranho e irreverente.
Já eram quase cinco da manhã quando tive que arrastá-los para fora do Carté em direção ao meu carro. Quando anunciei que era hora de ir embora, foi o único que se recusou, queria ficar mais um pouco. Mas eu havia prometido a Cameron que todos chegariam em casa são e salvos, então puxei pelo braço e empurrei-o em direção ao meu carro. Ele ria e dava em cima de todas as pessoas que passavam por nós, com cantadas ridículas.
– Minha carteira e minhas chaves, vamos! – Passei a mão pelos bolsos da calça de , onde eu tinha colocado minhas coisas mais cedo, receando esquecê-las por cima de alguma mesa.
– A gente devia seguir o exemplo deles, olha! – riu e apontou para Dana e Jack se beijando sem pudor, encostados na porta traseira do meu carro.
– Que porra é essa? Quando isso aconteceu? – Gargalhei, incrédula com a cena ao meu lado. imprensou meu corpo na porta do motorista e tentou me beijar. – Você deu em cima de um monte de gente e agora quer me beijar. Que absurdo!
Comecei a rir, mas o beijei de volta, aproveitando para pôr a mão dentro do seu bolso traseiro, puxando minha carteira e minhas chaves dali. Ainda o beijando, fui empurrando ele em direção a porta, do outro lado, até arranjar uma forma de jogá-lo de qualquer jeito lá dentro. Ele reclamou, mas assim que se sentou direito, encostou a cabeça no banco e fechou os olhos. Fechei a porta do passageiro e ri ao ver Dana quase se prendendo na cintura de Jack.
– Ei, para dentro! A porta está aberta, vamos. Nada de fazer besteira aí atrás. – Dei um tapa na bunda de Jack. Eles riram e entraram no carro, voltando a se agarrar instantaneamente.
, o endereço. – Pedi, colocando a mão na coxa dele, balançando um pouco. Ele colocou a mão em cima da minha e respondeu que ficariam na rua 13.
– É o único condomínio que tem lá.
Enquanto eu dirigia, Jack e Dana colocaram Britney Spears para tocar. Segundo Jack, Spears era seu maior guilty pleasure*. Eu desconfiava que eles estavam até coreografando ao som de Baby One More Time. Pelo menos, eu torcia que a grande movimentação no banco de trás fosse apenas dança.
– Quero te ver de novo. – se inclinou em minha direção, deu um beijo rápido na minha bochecha e voltou à posição anterior.
Senti todo meu interior se aquecer, surpresa com seu ato. Até o álcool pareceu evaporar. Peguei meu celular, desbloqueei e joguei em seu colo. Ele prontamente pegou, colocando seu número.
– Vou me mandar uma mensagem. Não quero que você fuja de mim. – Ele avisou. Dei uma olhada rápida e ele realmente estava digitando alguma coisa.
– Tenho cara de quem foge?
– Parece ser aqueles tipos de garota que nós só vemos uma vez na vida. – Ele colocou o celular de volta nas minhas pernas e deixou a mão por ali mesmo.
Ah, essas mãos perigosas.
Andar pelas ruas do centro quando estavam vazias era uma das minhas coisas preferidas no mundo. O céu estava nublado, devido à chuva, mas estava muito bonito. Jack e Dana estavam dormindo um em cima do outro e provavelmente dormia também, com o rosto virado para o outro lado.
A mini-eu de dez anos sentia-se vibrante ao fim da noite.
Essa é a parte legal da vida adulta. A independência. O fato de você poder sair numa sexta-feira à noite, sem nenhuma expectativa de diversão e acabar tendo uma noite incrível, com direito a danças em cima da mesa, três novas amizades e um beijo que vai ser difícil de superar.
Apertei o ombro de , avisando que já tínhamos chegado. Ele abriu os olhos, olhando em volta, parecendo meio confuso. Sorri ao ver sua feição. O rosto vermelho e amassado me deixou agraciada. Encostei meus lábios nos dele, sentindo-o sugar meu lábio inferior. Sua língua brincou um pouco com a minha antes de nos separarmos com selinhos.
– Boa noite. – Ele desejou, com a voz rouca, me dando mais um selinho e virando para trás. Deu um tapa na perna de Jack, que levantou assustado. Jack deu um beijo na testa de Dizzy, que já estava completamente entregue, me fazendo pensar no desafio que seria para ela sair do carro. Jack me desejou bom dia e eu, particularmente, achava que ele ainda estava dormindo.
Ambos saíram do carro e se virou, sorrindo para mim de uma forma que me faria pensar naquele sorriso a noite inteira. Dei risada quando Jack virou para a direita, mas o puxou para a esquerda, guiando-o pelo ombro.
Cinco quadras antes de chegar ao nosso prédio, já comecei a cutucar Dana na intenção de acordá-la, mas ela estava certa que a ideia de dormir ali no carro era ótima, então tirá-la de lá foi difícil. Nós estávamos acostumadas a chegar cambaleantes em casa, mas quando só uma de nós estava bêbada, era um saco.
Assim que entramos no apartamento, eu imediatamente a levei para o banheiro. Ajudei Dana a tirar suas roupas e ela fez o resto sozinha. Fui para meu quarto, jogando minhas roupas pelo caminho. Tomei um banho rápido devido a água fria demais. Coloquei apenas uma camisa cinco números maior que o meu, deitei na minha cama, sentindo os músculos quase gritarem de alívio. Abri meu WhatsApp, silenciando todos os grupos e respondendo minha irmã. Abri minhas mensagens e lá estava a mensagem de .
"Mande um oi para o . Ele é um cara legal e beija bem."
Sorri. Era extremo pensar que nada no mundo que me faria apagar aquele número?
Em menos de dois minutos, Dizzy entrou no meu quarto com seu cobertor nos braços e os olhos fechados.
– Dana, não. – Eu previ sua ação. Dana gostava de dormir com companhia quando estava frágil, triste, bêbada ou com medo. E eu não era lá muito fã de dividir cama.
– Não pedi permissão, . Você nem vai me notar aqui. – Deu um beijinho no meu nariz e eu revirei os olhos. Muito cansada para iniciar uma discussão, só deixei que ela se aconchegasse no meu ombro e fechei os olhos.
Dormiria imediatamente, se não fosse e seus lábios perigosos rondando minha mente.

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* Hillswood: Cidade fictícia.
* D.U.F.F: É a sigla para "designated ugly fat friend", que significa amiga designada para ser feia e gorda. É o nome de um filme americano adolescente "D.U.F.F: você conhece, tem ou é".
* Ain't no rest for the wicked: Música de Cage The Elephant.
Tradução: There ain't no rest for the wicked.
Money don't grow on trees.

Não há descanso para os perversos.
Dinheiro não cresce em árvores.

2. Ficar ou ir?
Abril.

Já faziam cinco horas que eu estava sentada no chão da sala. O notebook aberto e alguns papéis espalhados na mesinha de centro davam um ar ainda mais desesperado a pequena sala. Estava digitando incansavelmente mais um trabalho atrasado. Os professores já estavam perdendo a paciência comigo e eu só torcia para que eles não parassem de me oferecer segundas chances. Continuava dizendo, no meu íntimo, que deveria me esforçar mais, que toda a aposta em mim valeria algo no futuro, mas era difícil manter a cabeça no lugar quando nem entendia mais o meu propósito.
Despertei de meus pensamentos conflituosos ao perceber que já eram quase 21h. Dana ainda não se encontrava em casa e eu estava faminta. Sem a menor vontade de cozinhar, mandei mensagem para ela, perguntando se iria dormir em casa. Também comentei que estava com preguiça de cozinhar e que pensava em pedir sushi. A resposta veio em cinco minutos.

DizzyD 😍 (21:19): pede uma barca. Eu ajudo a pagar!
Cam está comigo, estamos indo para casa
Veste uma roupa!!!

Dei uma risada porque realmente estava sem roupas. Sentei na cadeira alta da nossa bancada e peguei meu celular, ligando para nosso restaurante japonês preferido e pedindo uma barca de sushi e sashimi. Enrolei um pouco para voltar à frente do computar e escrever. Liguei a TV, arrumei a cozinha, vi todas as minhas redes sociais, conversei no WhatsApp, lixei minhas unhas e voltei às redes sociais. Aproveitei para arrumar a sala, tentando diminuir a poluição visual que meus papéis jogados estavam causando.
Procrastinação era um dos meus maiores defeitos e eu me sentia um lixo depois. Amava trabalhar, gostava de estudar, mas sempre deixava tudo para fazer cima da hora e demorava a terminar. Quando eu não conseguia finalizar o que tinha planejado por falta de organização, quase morria de frustração. Por conta disso, a alguns anos atrás, antes da faculdade, desenvolvi um grave transtorno de ansiedade e precisei até mesmo tomar remédios por algum tempo. Eu sempre me pressionava muito e quase nunca conseguia suprir minhas próprias expectativas, o que originava umas crises horríveis de vez em quando. Às vezes eu sofria um “blecaute” na minha mente. Era como se eu ficasse fora do ar por horas e, quando voltasse a funcionar, queria morrer por ter caído de novo.
Já tinha um tempo que não tinha nenhuma reação exagerada, até começar a trabalhar no jornal. Certo dia eu cheguei a passar 30 minutos paralisada dentro do meu carro, na frente do campus da universidade. Só de pensar no trabalho que eu iria entregar e na prova que tinha que fazer, meu corpo se recusou a se mover. Eu chorei um monte e acabei voltando para casa. Fiquei sem nota por conta disso e acabei tendo que implorar para o professor me dar a chance de fazer outra prova. Eu preferi não comentar nada com Dizzy sobre isso, porque ela ia falar por horas, me fazer ir ao médico, ligar para a minha mãe quando eu recusasse e não me deixaria em paz. Então, para promover a paz em minha vida, preferi me manter em silêncio sobre tudo.
Se passaram quase duas semanas desde aquele dia no Carté. Eu, Dana e os rapazes nos tornamos amigos quase que imediatamente. A rapidez com que nós criamos intimidade uns com os outros foi até engraçada. Na quarta-feira passada, nós acabamos almoçando juntos por acaso. Todos nós estávamos perto do mesmo restaurante e, por intermédio de Dana, acabamos nos encontrando. Foi ótimo para quebrar um pouco do constrangimento e timidez que ainda tínhamos entre nós. Cam descobriu que Jack e Dana tinham se beijado e, não deixou de implicar com os dois, que nem se lembravam muito bem do que tinha acontecido.
Eu quase não via Dana nos últimos dias. Quando saía de casa ela ainda estava dormindo e quando chegava, ela ainda estava na rua. Nossa rotina andava muito puxada e a gente acabava se desencontrando. Nos finais de semana, ficávamos tão cansadas que passávamos o dia trancadas no quarto dormindo ou, no caso dela, trabalhando mais ainda. Aos sábados nós bebíamos uma cerveja enquanto assistíamos séries, quando Dana não tinha o que fazer. De fato, ela andava trabalhando na agência mais como modelo do que publicitária.
Desde que Cam e Dana descobriram que formavam uma boa dupla de trabalho e que tinham vários contatos em comum, encheram-se de projetos em conjunto e se viam toda semana, o que acabou contribuindo para uma amizade e intimidade ainda maior entre todos.
Arrumei meus óculos e me forcei a voltar a escrever. Apenas dois parágrafos e eu poderia não me preocupar (tanto) pelo resto da noite. Antes de começar a escrever, meu celular vibrou mais uma vez e lá se foi toda a minha determinação em terminar aquilo.

DizzyD 😍 (21:29): também está indo aí, ele quer comer.

“tô aqui pra isso” Respondi, rindo com minha própria audácia.

DizzyD 😍 (21:29): VOCÊ É TERRÍVEL!!!
Ele quer comida chinesa, não garotas baixinhas comunistas.

“HAHAHAHA comunista! Essa é nova”

DizzyD 😍 (21:30): Pede comida chinesa. E PÕE UMA ROUPA. Estamos dobrando a esquina.

Antes que eu questionasse mais coisas, uma nova mensagem chegou. apareceu na tela e eu tive que respirar fundo para conter a vontade de gritar e jogar meu celular na parede.

(21:31): oi , é o .
Eu não tenho certeza se você salvou meu número… Estou indo pra sua casa também, Dana deve ter comentado.
Pede comida chinesa pra mim?

Como tinha o meu número? Eu, com certeza, tinha seu número salvo, mas nunca tive coragem para mandar uma mensagem para ele ou algo do tipo. Talvez Dana tivesse dado meu número, ou talvez Cam. Eu queria perguntar, mas preferi fingir ser normal e agir como se não fosse muita coisa o fato de ele ter algo meu consigo.

“O que você vai querer?” Perguntei, respondendo sem demoras.

(21:31): 4 rolinhos primavera, um frango crispy executivo e 4 gyozas.
Por favor.
E uma Pepsi.

“Só?”

(21:32): E um beijo seu, se for possível.

“Hahahahaha
Estou rindo, mas é de nervoso com a sua OUSADIA hahahahha”
.

Bloqueei o celular antes que ele respondesse e forcei minha mente a continuar escrevendo. Eu tinha dúvidas imensas em relação a e definitivamente não estava esperando por essas sensações precoces dando as caras. Quando nos encontramos no almoço da semana passada, ele foi muito cordial e tranquilo comigo, mas eu não tinha como saber se ele estava me tratando diferente, já que tratava todos assim. Porque ele tinha que ser tão legal com todo mundo?
Ele estava quase bêbado quando nos beijamos. Nossa situação poderia ser igual a de Jack e Dana, que decidiram rir sobre tudo e continuar amigos. Sem falar que o fato de termos nos beijado gerou uma reação diferenciada em todos. Com Jack e Dizzy, todos riram e fizeram brincadeiras sobre o beijo inesperado. Quando comentaram sobre nós, os meninos começaram a cumprimentar , deixando-o extremamente vermelho. E só. Nada mais foi comentado, inclusive por nós dois.
Também tinha o fato de Dana falar dele com empolgação a cada dois minutos. Não tive chances de falar sobre isso com ela. Como eu disse, quase não estava vendo-a naquela semana. Eu sabia que tinha se interessado, só não sabia se era recíproco.
– Chegamos, amorzinho! – Dana chegou em casa fazendo o maior barulho. Batendo portas, jogando chaves e gritando. Do jeitinho que eu gostava.
– Amorzinho? Vocês realmente são um casal. – Cam brincou, enquanto abria os braços em minha direção e eu pulei da cadeira, lhe dando um abraço forte. Dei um beijo no rosto dele e os ajudei com as bolsas que carregavam. Provavelmente estavam em algum ensaio fotográfico.
Eu gostava muito de Cameron. Ele era o tipo de cara que fazia piadas sujas o tempo todo, tinha um ar engraçado e sério que eu nunca tinha visto em ninguém, além de ser muito responsável e empenhado em tudo que fazia. Também era engraçado vê–lo tentando negar suas heranças britânicas, mas de vez em quando alguma fala sua acabava saindo com sotaque mais forte. O homem matava e morria por seus chás, reforçando estereótipos claros de ingleses.
– Ai, que saudades! – Dana me abraçou por trás enquanto eu voltava para a sala.
– Vocês moram juntas! – Cam falou com um tom de obviedade, jogando-se no nosso sofá e já zapeando pelos canais. A maioria das pessoas que Dana e eu recebíamos em casa sempre se sentiam muito a vontade. Eu ficava feliz com isso e atribuía a culpa ao lugar. Quando começamos a procurar apartamentos, aquele chamou nossa atenção justamente por ser aconchegante e confortável.
– Sim, mas parece que a gente não se vê faz uma vida. Andamos ocupadas demais. – Dana explicou, dando uma olhada rápida nos meus papéis reunidos no balcão. – O que é isso?
– Só estou terminando um trabalho e já desocupo aqui. Estou a quatro horas escrevendo e só empaquei no último parágrafo. – Revelei.
– Quer ajuda? – Apenas neguei com a cabeça, relendo minhas últimas linhas.
“Não é possível que não saia mais nada dessa cabeça, .” Resmunguei em pensamento, irritada com minha própria dispersão. O pensamento de que iria ver aquela noite também não me ajudava em nada.
– Aqui tem uma boa iluminação. A gente devia fazer algumas fotos aqui, Dizzy. Só para termos opção mesmo… – Cam sugeriu, olhando em volta do cômodo. Dana concordou, logo em seguida.
Aí uma coisa que eu queria para minha vida: Ser bonita ao ponto de ser possível fazer um ensaio fotográfico a qualquer momento.
Cam pegou sua câmera de dentro da mochila e engatou numa conversa com Dana, que já não me interessava mais, pois eu finalmente tinha conseguido digitar mais de duas palavras no arquivo. De vez em quando, desviava minha atenção do notebook para os dois artistas na minha sala.
Dana era simplesmente deslumbrante. Cam fotografava o perfil dela, com os prédios aparecendo pela janela no fundo. Eu sabia que as fotos ficariam bem modernas e conceituais. Os tijolos vermelhos de nossas paredes contrastavam com o vestido preto dela. Estava tão concentrada digitando que nem ao menos percebi quando Dana foi abrir a porta. Assustei-me, pulando no lugar, quando senti duas mãos na minha cintura e um beijo rápido em meu rosto.
– Calma, sou eu! – deu uma risada e empurrou meus óculos, que estava quase na ponta do meu nariz. – Caramba, você nem me viu entrar. – Murmurei um “desculpa”, puxei ele pelo braço para mais perto de mim e dei um beijo no rosto dele, rapidamente.
definitivamente era uma pessoa que poderia fazer um ensaio fotográfico em qualquer momento.
– Eu já tirei umas cinco fotos dela aí e ela nem percebeu. – Cam direcionou a câmera mais uma vez em minha direção. Arregalei os olhos, surpresa com sua afirmação.
– Você o que? Não! – Cobri meu próprio rosto com as mãos.
apoiou os cotovelos no balcão, ao meu lado, rindo. Dana foi até a geladeira e pegou três garrafas de cerveja, as distribuindo.
Eu nunca fui muito fã de fotos, nunca saía bem. As pessoas nunca conseguiam boas fotos minhas do jeito que eu conseguia para elas. Ou eu só conhecia gente que não sabia tirar uma foto, o que não era o caso, ou a câmera realmente me odiava.
– Uma de cada ângulo diferente. – Cam desdenhou, a câmera ainda apontada para mim, fazendo incansáveis “clicks”.
– Para com isso! – Joguei um lápis em direção a ele e o mesmo parou, guardando a câmera na bolsa novamente.
– Ela não gosta de ser fotografada. Eu tento mudar isso aos poucos, mas não é fácil fazê-la mudar de ideia sobre algo. – Dana deu um gole na sua cerveja e me ofereceu a garrafa. Balancei a cabeça, recusando. – Às vezes, nós nos aventuramos com a câmera. Não é, ?
– Sim, eu bato fotos suas pelo apartamento e só. – Expus.
– Duas garotas e uma câmera. Daria um bom pornô. – Cam finalizou sua cerveja em um gole. Eu e Dana nos entreolhamos, segurando o riso. Ela gargalhou, jogando a cabeça pra trás e batendo palminhas.
– Ah, meu Deus! Vocês fizeram um filme pornô! – parecia o mais entusiasmado com a possibilidade e todos nós rimos da sua euforia.
– Claro que não. A gente… Talvez, sei lá, nós tenhamos tirado umas fotos…
Tentei explicar de um jeito que não parecesse pura sacanagem, mas Dana amava fazer com que outras pessoas achassem que a gente fazia umas sacanagens. Não que nunca tenhamos feito, mas sempre envolvia uma terceira pessoa. E tequila. E uma vez envolveu uma câmera, mas isso é história para outro dia.
– Peladas.
– Dana! – Repreendi-a.
– O que? Foi mesmo! – Dana disse, desembaraçada, jogando o cabelo pra trás.
Ela estava passando por uma fase de negação com o próprio corpo, então sugeri que eu batesse algumas fotos dela pelo apartamento, sem maquiagem, sem nada, natural. Apenas nós duas, sem ninguém ditando o que ela deveria fazer ou como agir. Sem encolher barriga, sem corretivo. Assim, ela veria que era uma pessoa extremamente bonita e que não tinha motivos para insegurança. Ela topou, com a condição que eu também tirasse algumas fotos. Acabou tornando-se um ensaio muito bonito, artístico e, no final, tiramos algumas fotos juntas. Já tinha um tempo que nós queríamos bater umas fotos bonitas e mais elaboradas. Estarmos sem roupa fora apenas um bônus.
– A partir de hoje eu só tenho um objetivo na vida. – Cam expressou, batendo no próprio peito. – Ver essas fotos.
– Acho que eu até venho a óbito se um dia ver essas fotos. – suspirou, com um olhar longe, como se estivesse imaginando. Sua visão nos fez rir.
Chamei Dana e apontei sutilmente para a geladeira, onde estava exposta uma das fotos. Ela virou-se e pegou a foto que estava presa por um ímã.
– Aproveitem. Essa é a única que vocês verão! – Dana pegou uma das nossas fotos preferidas e estendeu aos dois.
A foto me expunha sentada na cama. De lado, eu segurava o lençol na frente do meu corpo com uma mão e, com a outra, me apoiava no colchão. O lençol não cobria minhas costas e deixava a lateral do meu corpo a mostra. Eu olhava com a expressão séria para Dana. Ela estava em pé, perto da janela, e também me olhava com a expressão séria. Dana estava completamente nua, mas como era uma foto escura, só dava para enxergar a silhueta curvilínea dela. Com um pequeno jogo de luz, consegui que apenas o rosto de Dizzy recebesse a mesma iluminação que tinha sobre mim. Nossos cabelos estavam diferentes. O meu estava grande e o de Dizzy estava curto.
Eu não sentia vergonha dessas fotos. Achava a coisa mais linda que já tinha feito. Mesmo assim, não consegui olhar para analisar sua reação.
– Uau! Quem tirou? – Cam analisou cada ângulo da foto.
. Ela é boa nisso! – Dana comentou.
– Você é mesmo. Fez algum curso? – Ele perguntou, ainda com a foto em mãos.
– Bom… – Dana gargalhou antes de eu começar a contar, me fazendo rir também.
– Uma vez, Dizzy ficou interessada em um professor de fotografia que pagou dois meses de aula para nós duas, só para vê-lo. Diferente dela, eu prestava atenção no que ele falava.
– Persistente. – pegou a cerveja da minha mão e olhou para Dana.
– Corro atrás do que quero. – Dana deu uma piscadinha, fazendo as bochechas dele corarem um pouco.
Eles se entreolharam e aquele sentimento de frustração passou por mim novamente. Eu precisava parar com isso agora mesmo. Precisava ser madura e aceitar os fatos que estavam a minha frente.
– A gente podia fazer umas fotos juntos, . Por favor!
– Eu não sou tão boa, Cam. – Retruquei.
Eu gostava de tirar fotos, só não era meu passatempo preferido. Trocar lentes e analisar ângulos me deixavam entediada e, às vezes, até irritada. Continuamos comentando sobre fotos e minha aversão a elas quando Cam informou.
– Jack não para de me mandar mensagens, fazendo um drama sem fim. Quer que eu vá buscá-lo. – Cam se afastou para procurar as chaves do carro.
– Vou com você. Acho que precisamos passar no mercado para comprar mais cerveja. – Dana deu uma olhada na nossa geladeira, para ter a confirmação. – Só tem mais quatro.
– Eu não vou. Preciso terminar isso. – Apontei para o notebook e meu trabalho inacabado.
– Eu fico também. Para esperar… A comida. – ainda estava do meu lado, apoiado na bancada. Falou lentamente, como se não tivesse certeza de sua própria justificativa.
Cam e Dana se olharam maliciosos e fizeram barulhos pornográficos com a boca. Revirei os olhos e ri, encantada com as bochechas rosadas de .
– O garoto vai esperar a comida, Cameron… – Dana emitiu, sarcástica.
– Será que ela sabe que é a comida? – Cam indagou, fingindo estar falando baixo no ouvido de Dana. Ele logo foi recriminado pelos gritos de repreensão meus e de .
– Paga a comida no seu cartão, depois te reembolso. – Dizzy pediu. – Ainda tem cerveja na geladeira, a comida deve chegar logo e tem uma caixa de camisinhas no banheiro. Não se animem muito, voltamos no máximo em vinte minutos. – Pegou sua bolsa de cima do sofá, dando instruções para nós como se falasse com duas crianças.
– Vinte minutos dá para fazer uns três filhos. – comentou, brincando.
– Você está é maluco! Não fala um negócio desses nem brincando! – Estapeei o braço dele e todos gargalharam com meu breve desespero.
– Se vocês pagarem a cerveja, eu pago a comida. – sugeriu e eu concordei que poderia pagar pela comida também.
Logo entramos numa pequena discussão de marca de cerveja e matemática. Cam também queria salgadinhos e se recusou a pagar sozinho. Segundo ele, “quando o salgadinho está na sua frente, você não pensa em nada, só come”. Depois de duas ligações de Jack, brigando com todo mundo, reclamando que não gostava de esperar, Cam e Dizzy saíram de casa. Deixando eu, , meu trabalho mal feito e uma puta tensão sexual.
questionou algumas coisas sobre meu trabalho no jornal enquanto eu finalizava o texto e salvava. Ele parecia genuinamente interessado, mas também não parecia entender muita coisa. Talvez eu também não estivesse conseguindo explicar muita coisa porque o jeito que ele estava jogado no sofá me dava ideias impuras.
– Então, é um estágio remunerado. Certo? – Perguntou. Concordei enquanto desligava o notebook. – Mas pelo que você falou, você não faz trabalho de estagiária.
– Sim, eles me usam com a desculpa de que veem potencial em mim. Falam que sou melhor que uma estudante qualquer pra fazer um trabalho de estagiária, mas para falar a verdade, eu acho que eles só sentem preguiça de fazer a parte chata do trabalho. Logo, eu estou ali.
– Isso não é ilegal? Não pode ser certo. – Ponderou, apoiando o rosto na mão.
– São negócios, . – Dei de ombros e recolhi os papéis da mesa.
– E você quer continuar trabalhando lá depois de se formar? Falta pouco?
– Faltam alguns semestres e… Bom, eu ainda não pensei muito sobre isso. As recomendações que posso ter são o que ainda me mantém lá. – Peguei meus papéis, notebook, toda a minha bagunça e levei para o quarto.
– Achei que você e Dizzy tinham terminado a escola juntas.
Ouvi a voz de bem baixinho, enquanto ajeitava meu cabelo no espelho. Não tinha muito o que fazer, pois não estava de todo mal. Eu não lavava meu cabelo faziam dois dias e uma das maiores injustiças do mundo é ter que lavar o cabelo quando ele está simplesmente deslumbrante. Pelo menos não estava fedendo.
– E terminamos, mas ela é mais velha e entrou na faculdade um ano antes. – Expliquei enquanto voltava pra sala. – E eu perdi um semestre, por isso sou atrasada.
Nós finalmente estávamos sozinhos. Não era possível que eu era a única sentindo a inquietação na sala. A hora da verdade era agora. Me deixe entender, . O que nós somos? Ironicamente, ele usava uma camisa preta com os dizeres “should I stay or should I go” da música do The Clash.
– E falta muito? – Ele perguntou.
Fiquei meio em dúvida do que fazer em seguida. Ele deve ter percebido que eu esperava por ele, pois puxou-me pela mão quando me aproximei e me sentou em seu colo. Colocou uma mão na minha cintura e levou a outra até meu queixo, trazendo-me para mais perto de si e depositando um selinho rápido nos meus lábios.
Ok, obrigado pela explicação. Stay.
– Cinco semestres. Se eu não enlouquecer, é claro. – Me dei liberdade para passar um braço pelo seu pescoço e apertei as bochechas dele, formando um biquinho. – Você quer o beijo antes ou depois do jantar?
– Você costuma ser prestativa assim? – Ergueu uma sobrancelha, apertando minha coxa de leve. Assenti, sorrindo de lado. – Isso é legal. O problema é que eu quero um beijo antes e outro depois do jantar.
– Vou ver o que posso fazer por você. – Ele sorriu e, sem mais delongas, beijou-me.
Eu gostava muito de beijar . Era o tipo de beijo completo, o pacote todo. Não era apenas lábios e língua, mas também a mão que não se decidia entre minha cintura e quadril. Aquela mão na minha nuca, o suspiro forte que ele dava quando nos afastávamos para respirar, o perfume forte que parecia gritar o nome dele. Ficamos nos beijando por uns bons 20 minutos. Eu acariciava a nuca dele e agora, com a posição e intimidade, ele tinha liberdade pra passar a mão por toda a minha coxa e assim o fez. subia e descia a mão da minha coxa até a cintura, por dentro da minha blusa.
Amaldiçoei até a quinta geração do entregador que tocou o interfone na hora exata em que a mão boba de finalmente chegou próxima ao meu seio. No prédio não tínhamos porteiros, então tínhamos que descer para pegar a comida ou deixar as pessoas subirem, mas eu não tinha essa coragem.
– A comida. – Avisei. Insatisfeito com meu afastamento, ele começou a descer os beijos até meu pescoço.
– Temos que descer? – Apenas assenti de olhos fechados, sentindo meu corpo se arrepiar com um beijo mais molhado que foi depositado em meu pescoço. Puxei o rosto dele em direção ao meu quando ia beijá-lo e o interfone tocou mais uma vez. Tive que levantar para atender. Xinguei o entregador e fui meio mal-educada com o coitado.
No elevador, amarrei meu cabelo em um coque, mas ele não sobreviveu por muito tempo. puxou a ponta do mesmo, me empurrando na parede e me beijando. era um cara alto, então eu tinha que ficar na ponta dos pés ou ele precisava se curvar, mas isso não era um problema. Enquanto pagávamos o japonês, a comida chinesa chegou. Os dois entregadores entreolharam-se entre risinhos e eu me perguntei como estava a nossa situação. Tinha certeza de que estava claro que estávamos em uma sessão de amassos no elevador.
Arrumei a barca em cima da nossa mesinha de centro, que era bem larga e tinha sido comprada por causa disso mesmo. Não tínhamos mesa de jantar, na maioria das vezes eu e Dana acabávamos comendo em frente à TV ou então na bancada, que era onde estava desempacotando sua própria comida. Mandei uma foto da comida para os outros e digitei uma mensagem para Dana trazer refrigerante pra mim.
Eu era absolutamente contra a ideia de comer sem um copo de Pepsi ao meu lado. Eu morreria antes dos 30, mas meu refrigerante era sagrado.
– Eu não gosto de comida japonesa. – fez careta para a comida no barco.
– Você não sabe o que está perdendo.
Joguei-me no sofá, sentindo minhas costas estralarem ao deitar, após passar horas sentada, tanto estudando quanto beijando o rapaz ao meu lado. Respondi Jack, que mandou a gente não comer enquanto não chegassem.
Também aproveitei para responder a mensagem de “boa noite” da minha mãe. sentou ao meu lado e eu joguei minhas pernas em cima das dele.
– Não vamos comer ainda? – Ele perguntou, se inclinando sobre mim e fazendo meu corpo ficar todo em alerta.
– Não. Jack pediu para esperar, mas se você quiser comer logo… – Bloqueei meu celular e o coloquei no chão. Não consegui ficar séria com o duplo sentido em minha frase, mas nem parecia ter notado, hipnotizado, com os olhos atentos em meus lábios.
– Tudo bem. É só você me distrair da fome.
Ele já estava quase deitado ao meu lado, se apoiando no cotovelo e brincando com a barra da minha camisa com sua outra mão. Eu nem quis pensar em alguma gracinha para falar, apenas puxei seu rosto para perto do meu e o beijei. Ele voltou a acariciar minha cintura por debaixo da blusa e eu já estava entregue facilmente.
O jeito como meu corpo respondia ao dele, que eu me arrepiava e como meu coração batia mais rápido quando estava ao seu lado me deixou curiosa. Eu não costumava sentir essas coisas por algum caso qualquer. Nem com qualquer outro caso sério que tenha tido na vida, exceto Haniel.
Mas Haniel era exceção de tudo na minha vida.
Dei uma tapinha no ombro dele quando ouvi o barulho da chave. Ele imediatamente se levantou, voltando a ficar sentado e eu continuei deitada, fingindo não estar com as pernas trêmulas e um calor intenso no meu ventre.
– Ah não, gente! Nós vamos comer aí. – Dana debochou quando nos viu no sofá.
– Estão vestidos? Podemos olhar? – Jack entrou, com a mão sobre os olhos.
– Eu nem cubro os olhos, quero mais é ver alguma coisa, mesmo. – Cam colocou as sacolas em cima do balcão, nos olhando fixamente.
Revirei os olhos, ignorando suas piadinhas e sentei no chão, pegando meus hashis e me preparando pra começar a comer. Estava morrendo de fome e não ia ficar esperando a boa vontade deles. Logo todos fizeram o mesmo e nos sentamos no chão em volta da mesa de centro, comendo como se não houvesse amanhã.
O filme na TV foi completamente ignorado por nós. Contamos sobre o nosso dia e percebi que minha vida comparada a deles era um completo tédio. Então, enquanto falavam sobre tudo o que estava acontecendo nas suas vidinhas perfeitas, apenas fiquei quietinha, comendo meu temaki. Era melhor do que ter que contar sobre meu belo dia de leitura de relatórios que não eram meus.
Percebi que , que estava sentado entre Dana e eu, ficou um tempo olhando para o ombro desnudo dela, provavelmente analisando a cicatriz vertical que tinha ali. Quando Dizzy percebeu, analisou o rosto dele por um tempo até ele perceber que ela também o analisava. Seus olhos encontraram-se e desviou o olhar, com suas bochechas adquirindo uma coloração rosada. Dei um sorrisinho de lado, balançando a cabeça negativamente.
Quando tinha 10 anos, havia um terreno baldio ao lado da casa da minha vó. Era cheio de mato e tinham dois porcos grandes de cor preta. Um dia, jogando travinha na rua durante a noite com os meus amigos, a bola caiu no fundo do terreno. Nós fizemos uma aposta para decidir quem ia pegar a bola e eu acabei perdendo e tive que ir. De noite, os porcos tornavam-se quase invisíveis e até eu conseguir chegar lá, o sentimento de que ia bater de frente com algo era forte e eu sentia um nervosismo gigante. Sabia o que tinha ali, mas não o quanto poderia me atingir. Também não sabia se valia a pena passar por aquele sufoco para conseguir a bola.
Quando olhava para Dana e , eu tinha a mesma sensação. A de que estava entrando naquele terreno baldio e escuro de novo.
– Ér… Como você conseguiu essa cicatriz? – perguntou, apontando para a cicatriz no ombro de Dizzy. Jack e Cam também se inclinaram um pouco para ver melhor.
– Caí em cima de uns vidros, eu acho. Até hoje não sei muito bem. – Dana respondeu.
– Foi por minha culpa, vocês já devem imaginar. – Declarei, ainda mastigando.
– Nós fomos em protesto contra a privatização do transporte escolar da nossa antiga cidade e estava tudo bem, até os policiais decidirem…
– Covardemente. – Eu interrompi, roubando um rolinho primavera da caixinha de . Ele bateu na minha mão, tentando pegar de volta, mas eu comi antes dele conseguir.
– Covardemente descer a porrada nos estudantes. No meio da correria, eu olhei para o lado e estava jogada no chão, com um cara cinco vezes maior que ela, tentando algemá-la.
– Seria legal… Em outra ocasião. – Eu disse e Cam riu, levantando a mão. Fizemos um ‘high five’.
– Enfim. Ele começou a bater nela com o cassetete e a imobilizou de um jeito nada legal, então fui até lá, mas alguém me chutou e um policial me empurrou. Acabei caindo em um monte de coisas quebradas. Foi uma confusão! Ignorei e fui ajudar . Demorei um monte para tirar ela das mãos dos policiais e o corte só aumentou. Por isso a cicatriz grande.
– Porra, não acredito que ele te bateu! – Jack ficou indignado.
– Ela não abaixou a cabeça em momento algum, por isso ele bateu. – Explicou. – Você sabe que se eu não chamasse atenção para a situação…
– Seria pior. – Completei. Dana concordou e nós nos olhamos, lembrando daquele dia. Ela passou a mão no rosto, provavelmente espantando as memórias daquele dia.
Dana nunca tinha se importado muito com questões sociais, mas assim que a levei na primeira reunião do movimento estudantil, ela adorou e quis ir toda semana. Esse protesto foi o último que eu e Dizzy fomos juntas antes de mudarmos de cidade. Havia sido a situação mais violenta que nós já tínhamos passado juntas, e o fato de eu ter sido agredida e Dizzy sair machucada só piorou as coisas.
– Você estava ali lutando pacificamente pelos seus direitos e… Argh! – Dana nunca tinha digerido essa história muito bem. Lembro que ela chorou de raiva ao ver meus hematomas no outro dia.
– Ai. Ver você falando assim, me dá um orgulho! – Coloquei a mão no peito, fingindo limpar uma lágrima.
– Eu era uma pessoa legal e avulsa até a me mostrar o movimento estudantil e as maravilhas da militância. – Contou Dana sobre sua vida privilegiada antes de me conhecer.
– Ok. Revolucionária, média A na faculdade, uma bunda legal, engajada socialmente… – enumerou no dedo as coisas que dizia.
, ele vai te pedir em casamento agora. Corre! – Jack gritou e todos nós rimos. Ele jogou uma bolinha de papel em , que revidou e logo começaram uma pequena luta idiota.
– Cada dia que passa eu gosto mais de você, pequena Jay. – Cam abaixou a cabeça, como se estivesse fazendo uma reverência.
– Cuidado. Ela destrói vidas. – Dizzy me lançou uma piscada. Eu ri e pisquei de volta para ela.
– E seus pais? – Jack quis saber. – Vocês eram quase crianças, eles devem ter enlouquecido.
Na época, os pais de Dana quiseram minha cabeça numa bandeja de prata, pois eu era a culpada por Dana estar enfiada numa manifestação. Os pais de Dizzy nunca foram muito a favor da filha frequentar organizações políticas ou conhecer realidades diferentes da sua. Foram tempos difíceis, mas também os mais memoráveis de nossas vidas.
– Os pais de adoram e encorajam qualquer protesto!
– Eles esperavam pela minha prisão por ativismo muito antes de eu ter sido concebida. – Brinquei com meus dedos, distraída.
Falar dos meus pais sempre me deixava mal. Saudade é uma coisa extremamente dolorida. Era bem verdade que eu nunca tive problemas familiares como os de Dizzy. Meus pais eram, acima de tudo, meus amigos. Tinham a mente jovem e eu sempre fui muito bem instruída e criada. Dana avisou que ia ao banheiro e eu levantei junto para pegar cerveja na geladeira.
Agora, eu já não era mais tão ativa socialmente. Principalmente porque na minha atual cidade não tinham muitos motivos para isso e, desde que apanhei injustamente das pessoas que deveriam estar ali para nos proteger, eu já não me sentia confortável para voltar a militância. Era até desconfortável pensar nisso. A lembrança que eu tinha daquele dia era de sufoco e agonia pura. Ainda tinha flashes do policial barbudo em cima de mim, empurrando meu rosto contra o chão. Eu ainda via o braço dele subindo e descendo, me acertando com força.
Fui puxada para longe de meus pensamentos por Dana, ao meu lado, com uma mão no meu ombro.
– Tudo bem? – Ela perguntou baixinho e eu assenti, a perguntando.
– Foi culpa minha, não foi? Você não ter ido direto para o hospital. Eu devia ter ficado quieta. Eu provoquei, você sabe…
– Não foi sua culpa! Eu não acredito que ainda pensa assim. – A voz de Dizzy subiu uma oitava e chamou atenção dos rapazes.
– Dana… – Ela me ignorou e foi em direção ao banheiro. Peguei outras quatro garrafas, sentindo o olhar dos meninos em mim. Distribui uma cerveja para cada e sentei ao lado de novamente, me encostando no sofá.
– Tudo bem? Ela está bem? – Jack perguntou, com o cenho franzido.
– Foi um dia difícil para a gente. – Às vezes, eu esquecia que Dana também era um ser humano. Um ser humano sensível e que também ficava abalada.
– E você? – passou um braço pelo meu ombro, dando um beijinho na minha cabeça.
Eu adorava o fato dele ser carinhoso comigo, mesmo que não tivéssemos nenhum tipo de relacionamento. Namorei alguns caras por meses e eles não eram carinhosos comigo do jeito que estava sendo. E era apenas a segunda vez que a gente se via.
– Me falem sobre vocês. Eu sinto que vocês sabem todos os nossos podres e piores momentos e vocês continuam aí, lindos e sem passado. – Reclamei, bebendo minha cerveja e sentando de pernas cruzadas.
continuou com o braço esquerdo sobre meu ombro, enquanto comia com a mão direita.
– A maior loucura que eu já fiz na vida foi ter matado aula para jogar videogame na casa de um amigo. – Jack contou.
– Jura? Com essa sua cara de delinquente juvenil? – Perguntei descrente, fazendo e Cam gargalharem.
– Eu também não acredito quando ele diz que era quieto. – riu, confidenciando.
– Do que estamos falando? – Dana voltou para a sala e sentou no chão, na ponta da mesa.
– Jack ser quieto na época de escola. – esclareceu o assunto para Dizzy.
– Aí uma coisa que eu não acredito. – Dana gargalhou, acariciando os cabelos de Jack.
– Gente, qual a dificuldade de acreditar? – Ele rolou os olhos, jogando os hashis para o alto e apanhando-os logo em seguida.
– Quando conhecer sua mãe, eu vou acreditar em você, bro. – Cam passou a mão pelo cabelo cacheado de Jack, também.
– E você, big boy?
Olhei para e sorri surpresa ao ver que ele já me olhava antes mesmo de eu começar a falar. Ele sorriu de volta, lindamente.
– Eu pesava 30 quilos, usava aparelho e não tirava nota maior que C. Não era quieto, mas também não era um pesadelo do tipo que Jack seria. – Relatou.
– Ei! – Jack reclamou. – Eu juro que era quieto. Passei meu baile de formatura inteiro na biblioteca da escola.
– Eu nem sequer fui ao meu baile! – Cam exclamou.
– Eu só peguei meu diploma e fui embora para festa na casa de praia da Milan, a garota mais cheia de plásticas e dinheiro que já conheci. – contou.
– Alguém perdeu meu diploma. Peguei três semanas depois. – Cam reclamou, revirando os olhos.
– Na nossa formatura, enquanto todos estavam sensíveis, chorando enquanto pegavam seus diplomas, a gente estava onde mesmo? – Dana apontou para mim, rindo alto.
– Na sala dos professores tomando Chandon. – Eu quase gritei de tão animada por lembrar de um dos melhores dias da minha vida. Eu e Dana batemos nossas mãos, fazendo um high five.
Eu e Dana nos afastamos para fofocar sobre alguma coisa que eu não lembro, mas quando passamos pela sala dos professores e vimos a mesa recheada de comida com três garrafas de Chandon, não pensamos duas vezes antes de entrar lá, roubar uma garrafa e uns salgadinhos.
– Fala sério! – Jack exclamou. – Que saco! A vida de vocês parece uma porra de uma sitcom.
– Nós também não acreditamos nos absurdos que acontecem com a gente…

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– Dizzy? – Chamei sua atenção. – É impressão minha ou nós temos amigos?
Dana e eu estávamos limpando nossa sala quando a questão das novas amizade pairou sobre minha mente. A mesa de centro estava lotada de caixas, garrafas e embalagens de comida. Geralmente, eu e Dana não produzíamos todo aquele lixo. Fomos comprar mais cerveja umas duas vezes, então resolveu colocar ordem na bagunça e lembrar a todos de seus respectivos empregos, considerando que ainda era quinta-feira.
– Sim, nós temos. Fazia tempo que isso não acontecia. – Dana sorriu, tomando um gole da última garrafa de cerveja que tinha em nossa geladeira. – Vamos mantê–los?
– Devemos. Jack já preencheu todos os nossos finais de semana até o final do mês. – Rimos juntas.
Nós estávamos cheias de planos, festas, bares e lugares que queríamos apresentar um ao outro. Eu sempre gostei de fazer novas amizades, mas aqueles garotos me faziam querer passar 24h grudada neles e eu sabia que não seria chato. Estava louca para que o tempo voasse, para que pudesse passar mais tempo com eles. Eu nem tinha dinheiro para sair no final de semana.
– Gosto deles. Então… – Dana comentou. Ela andou em volta da mesinha, recolhendo o lixo que estava lá em cima. Cerrei os olhos ao ver a expressão de Dana. Eu conhecia aquela expressão. – O quão sério é?
A expressão que ela usava quando queria parecer desinteressada.
– O que?
. – Ela deu de ombros, olhando tempo demais para a embalagem das batatas chips.
– Como assim? – Questionei, receosa em seu interesse pelo meu breve envolvimento.
– Você e ele.
– Não sei, Dana. É apenas a terceira ou quarta vez que nos vemos, não é como se fôssemos começar a namorar amanhã ou algo assim. – Franzi o cenho, não entendendo onde Dana queria chegar com todo aquele rodeio.
– Tudo bem. Apenas me deixe saber. – Ela passou por mim e foi destrancar a porta.
– Porquê? Algum problema? – Questionei, novamente.
– Nada, . Só me deixe por dentro da sua vida. – Ela deu uma risadinha e depositou um beijinho na ponta do meu nariz. – Coloquei as mãos na cintura, observando Dizzy sair do apartamento com as sacolas de lixo na mão.
Se está acontecendo o que eu acho que está acontecendo, as coisas estão prestes a ficarem estranhas.

 

3. O cara que ela imaginava quando era adolescente.
Maio.
Eu me arrependia amargamente de fazer faculdade em período vespertino porque isso significava que meu turno no Daily era sempre o matutino e o jornal pela manhã era um verdadeiro inferno. O meu trabalho era fazer tudo, sempre me colocavam para realizar várias coisas ao mesmo tempo: limpar almoxarifados, arrumar papéis, entregar notas, cobrar matérias, verificar as impressões do dia e entregar, pelo menos, cinco relatórios ao final do dia. Era exaustivo, eu odiava e ainda ganhava pouco. Porém, o núcleo universitário me forçava a crer que era sortuda e deveria agradecer por ao menos ter um estágio.
Para falar a verdade, já tinha um tempo que tinha dúvidas sobre ser jornalista. Eu gostava de escrever, me interessava pela área, sim, mas nunca fora minha paixão e quanto mais eu conhecia, menos eu me via fazendo aquilo no futuro. Nunca tinha conseguido me encaixar perfeitamente em qualquer profissão, nada parecia certo para mim. Muitas vezes pensava em desistir do jornalismo, mas desencadearia muitos problemas e complicações para mim, mais do que sou capaz de lidar. Gostava de escrever e informar, sim, mas a última coisa que me dera prazer de fazer foi trabalhar no Centro Comunitário durante as férias. Eu amava ir para aquele lugar, gostava de me sentir necessária, de ajudar e era boa nisso. Acho que fui influenciada pelo meio em que vivi durante toda a minha vida.
Jeins era um bairro perigoso e considerado como perdido por muitos. Eu gostava de lá, minha infância e adolescência no local foram marcantes, mas quando isso atrapalhou meu futuro, não pensei duas vezes antes de me mudar. Todo o bairro se conhecia e metade dos jovens de minha geração acabou entrando para o mundo do crime. Era uma das únicas do meu grupo de amigos de infância que almejava um futuro que não envolvia drogas ou prisão. Eles brincavam dizendo que eu era a salvação do grupo e no final, eu acho que acabei sendo mesmo, a maioria deles não tinha maldade alguma no coração, só eram muito influenciáveis.
Ironicamente, nunca consegui influenciá-los a mudar de vida.
Passei a manhã toda no jornal, pedi para sair mais cedo e recebi um belo “não” na cara. Eu tinha que estudar para a prova que teria no outro dia e agradeci mentalmente pelo professor Manuel ter adiado suas aulas do dia, então assim que saí do trabalho liguei para Bela, uma amiga de turma, pedindo para ela me encontrar na universidade. Eu e ela prometemos que não sairíamos da biblioteca enquanto não estivéssemos com pelo menos 70% da matéria fixada na memória. Éramos as únicas atrasadas da nossa sala, o que fazia com que tivéssemos fama de desesperadas.
Já eram quase 18h quando meu celular vibrou duas vezes em cima da mesa, tirando minha atenção do artigo de quase 40 páginas.

(17:48): Oi. Onde você tá?

E lá se vai todo o meu foco. “Faculdade“. Respondi, simplesmente. Eu definitivamente não curto isso de ficar nervosa mesmo que ele não estivesse presente.

(17:48): Muito ocupada?

“Só revisando algumas matérias.”

(17:49): Vai fazer o que depois? Queria te ver hoje…

A pergunta que eu estava esperando finalmente surgiu e acabei suspirando profundo demais, atraindo a atenção de Bela.
– Também não aguenta mais? Vamos parar por hoje? – Ela nem esperou minha resposta, já começou a fechar os livros e guardar suas coisas dentro da bolsa. – Vou devolver os livros.
– Leva os meus também, por favor? – Empurrei os livros na direção dela, vendo-a fazer um malabarismo para equilibrar os livros em seus braços finos. Meu celular vibrou novamente em minha mão.

(17:50): Posso?

“Você tirou minha concentração e da minha parceira de estudos também
Ou seja
Estou te esperando”

(17:50): Hahahaha não vou pedir desculpas por isso
Chego em 10 minutos!

Sorri com sua resposta bem humorada, guardando meus materiais dentro da bolsa. Assim que Bela voltou, fomos ao banheiro comentando sobre os assuntos que tínhamos estudado.
– Você está segura para a prova? – perguntei. Queria falar sobre qualquer outra coisa que tirasse minha atenção de . Eu já sentia meu coração bater descompassadamente só de pensar em vê-lo.
– Sim, depois que eu chegar em casa vou dar uma lida em uma coisa ou duas, mas estou bem e você? – Saí do box, indo lavar minha mãos.
Ela passava pó compacto no rosto, encarando-se no espelho manchado do lugar. Bela era irritantemente magra, tinha cabelos cacheados e tingidos de roxo, além de sempre estar maquiada e usando coturno. Era extremamente simpática e uma daquelas pessoas que chamavam atenção simplesmente por ser o que eram.
– Provavelmente vou fazer o mesmo. – Olhei para a pequena nécessaire de Bela, lotada de produtos de maquiagem, e me chequei no espelho. – Me empresta o rímel? O que geralmente fica na minha bolsa acabou.
– Procura aí. – Ela empurrou a bolsinha para mim com uma mão e com a outra continuou fazendo aqueles delineados dignos de tutoriais do youtube.
Coisa que parecia impossível para mim, mas ela fazia com apenas uma mão enquanto conversava comigo. Eu adorava assistir esses tutoriais na internet, mas se fosse tentar fazer algo provavelmente andaria igual uma palhaça na rua. Passei algumas camadas de rímel e um batom matte cor de pele, em um tom mais queimado que eu costumava usar no dia a dia. Nem me atrevi a tirar o cabelo do rabo de cavalo alto que usava, não estava de todo mal assim.
– Essa produção toda é para alguém? – Bela perguntou, com um sorrisinho irritante no rosto.
– Vou sair com um carinha, aí. – Devolvi o rímel e joguei meu batom dentro da bolsa. Não que houve muita coisa, mas não queria ter que explicar minha relação com .
– E você e o Mac? Ainda fingindo que esse negócio de amizade colorida dá certo? – Tentei ignorar a ansiedade que só aumentava, puxando outro assunto.
– Hoje nós vamos no jantar de aniversário da irmã dele – contou, mordendo o lábio inferior.
– Uh, vai conhecer a família? – provoquei.
Fomos andando em direção à saída do campus. Cumprimentei algumas pessoas pelo caminho, estranhando a grande quantidade de pessoas da minha turma por ali. Acho que eu e Bela não éramos as únicas inseguras com a prova, afinal.
– Como amigos, é claro. A irmã dele é bem legal, então imagino que toda a família deve ser. – Supôs.
– Prepare-se para voltar de lá apaixonada por ele.
Chegamos ao portão principal e dei uma olhada em volta. Aparentemente ainda não estava por ali. Tinham alguns grupos de estudantes por ali, mas não estava cheio. O horário em que aquilo lotava era depois das 19h quando todas as turmas já haviam sido liberadas.
– Está maluca? Como assim?
– Você vai ver ele com a família, sendo amável, todos vão chamar vocês de namorados, provavelmente vão ter um momento romântico no fim da noite e na próxima vez que se beijarem as coisas já vão estar diferentes. – Expliquei com toda a minha experiência em histórias de amor. Bela pareceu chocada por uns segundos e depois revirou os olhos.
– Você é maluca, ! Anda vendo muito filme de comédia romântica.
– Se você quiser apostar… – sugeri.
Eu já tinha acertado tantas vezes as minhas previsões que depois da quinta vez decidi começar a lucrar com elas. Eu não tinha uma história bonitinha, mas pelo menos ganhava dinheiro com isso.
– Vou ignorar isso apenas para dizer que acabou de descer de um táxi aqui na frente. O que será que ele veio fazer por aqui? – indagou, olhando para trás de mim com ar curioso.
? Você o conhece?
Vasculhei o local com os olhos, procurando por ele que estava parado na porta, parecendo fazer o mesmo. Incrivelmente, senti todo o nervosismo sumir assim que o vi.
estava lindo com sua jaqueta de couro marrom por cima da camisa cinza e a calça jeans preta. Queria gritar na cara de todas as meninas que estavam suspirando por ele que eu já tinha beijado aqueles lábios e que aquele olhar atento procurava por mim.
– Quem não conhece? Esse cara é um absurdo de lindo! – Bela me fez rir com seu comentário, mas eu super a entendia.
– É, eu concordo. Tenho que ir – falei, rapidamente arrumando a bolsa no ombro e agarrando minha pasta contra o peito.
– O quê? Já? – Bela refutou, me olhando confusa.
– É meu carinha – expliquei me afastando e saindo do lado dela, entrando no campo de visão de , que guardou o celular e me lançou um sorriso de menino que balançava o meu coração.
Ouvi Bela gritar um “me liga mais tarde”, meio alterada com minha revelação e ri balançando a cabeça negativamente. Ainda não havia decidido se me sentia lisonjeada ou magoada com a surpresa das pessoas ao descobrir minhas histórias com . Senti como se todos a nossa volta estivessem olhando e acho que estavam mesmo.
– Quando vai tomar vergonha na cara e comprar um carro? – Brinquei quando parei em sua frente.
– Quando eu sentir necessidade – ele respondeu, dando de ombros.
Fiquei em dúvida sobre como cumprimentar, mas como sempre foi mais rápido. Ele beijou meu rosto, mas logo se afastou. Peguei a chave do carro e o guiei até o estacionamento.
– Você quer sair para fazer alguma coisa? – Ele tirou a bolsa do meu ombro e pegou a pasta dos meus braços. Agradeci por seu cavalheirismo.
– Quero, mas você escolhe o lugar – sugeri, porque se dependesse de mim acabaríamos sem nunca decidir aonde iríamos.
– Tudo bem. Quer que eu dirija? – Ele se ofereceu quando me viu indo para o lado do motorista. Ergui uma sobrancelha com a nova informação, achava que era uma daquelas pessoas que nunca aprendera a dirigir e sobrevivia de táxi e caronas porque nem imaginava-o dentro de um ônibus.
– Então você dirige e só não quer ter um carro. – Cruzei os braços, semicerrando os olhos em sua direção. – Me parece preguiça.
– Se chama economia! – replicou e eu gargalhei.
– Você fica cada dia mais rico, . – Joguei as chaves do carro para ele enquanto trocávamos de posição pelo lado de fora do carro. Entramos no carro e joguei minha pasta no banco de trás, deixando minha bolsa nas pernas. – Admita sua preguiça.
– Admitir? Jamais. Eu cuido de meio ambiente! – Ele se inclinou e me deu um selinho rápido enquanto eu sorria por conta de sua resposta deslavada. – Posso te levar pra qualquer lugar?
Perguntou, fazendo a baliza quase perfeitamente. Eu não conseguia desviar o olhar dele, tinha uma tara enorme em ver homens dirigindo, porque até o cara menos viril do mundo conseguia parecer gostoso enquanto dirigia. Ou não, mas em minha cabeça funcionava assim.
– Depende. Quais são suas intenções para o dia de hoje comigo? – questionei, sinalizando a saída para ele.
– Comer, oras! – Deu de ombros e eu arregalei meus olhos, surpresa com sua sinceridade. O tom de voz que ele usava não me deixava identificar nem um tipo de brincadeira em sua voz. conseguia ser misterioso e transparente ao mesmo tempo. Virei meu corpo inteiro para encará-lo, tentando ver em seu rosto se ele falava sério ou se eu tinha uma mente muito suja. Olhou-me com um sorriso zombeteiro, rindo quase com deboche. – Eu estava pensando naqueles food trucks que tem na beira do rio, sabe? Mas se você tiver outra coisa em mente…
– Você é um idiota! – Resmunguei dando um beliscão de leve em seu braço, fazendo-o gargalhar com minha breve revolta. Tentei desviar o olhar do seu e sintonizar em alguma rádio boa.
perguntou como foi meu dia e logo comecei a reclamar do jornal e de como estava cansada de ter que trabalhar lá. Ele me contou das cidades que visitou nos últimos dias e sobre os lugares nos quais tinha cantado. Perguntei se já era famoso e ele apenas riu. Eu adorava que não era um falso modesto, realmente era simples e tranquilo demais. Geralmente se espera o contrário de um cantor em ascensão, costumam ser esnobes, arrogantes e nem tão talentosos assim. Esse talvez fosse o diferencial de e fosse por isso que ele crescia e se tornava melhor e mais conhecido a cada dia.
Chegamos no Takeo, uma área ampla e aberta que ficava nas margens do lago de mesmo nome, quase inteiramente rodeada por food trucks e várias mesas espalhadas pelo centro, um dos pontos mais frequentados da cidade. Ao fundo as águas do rio calmo refletiam as luzes dos carros que passavam na rodovia do outro lado e um sol tímido que já ia embora. Um píer longo e largo ia até o meio do lago, de onde saíam alguns pedalinhos.
e eu fomos andando pelos caminhões até decidirmos o que comer, que parecia ser uma tarefa impossível. Eu queria comer um pouco de tudo e partilhava do meu pensamento e a gente só não sabia por onde começar. Observei nosso reflexo em um caminhão espelhado enquanto ele lia o cardápio de comida japonesa.
Eu e tínhamos uma diferença de altura significativa e isso era engraçado. Ele era provavelmente o cara mais alto com quem eu já havia saído e o mais bonito também. O fato de estar andando com minha bolsa vermelha de modo transversal no corpo só tornava tudo ainda mais engraçado. era educado e cavalheiro sem parecer forçado. Acredito que fora criado assim e achava que isso era o que mais me encantava nele.
Tudo bem, eu ainda estava meio indecisa sobre o que eu mais gostava nele.
– Vamos de tacos. – Ele sugeriu enquanto a gente andava pelo local pela terceira vez, ainda indecisos.
– Não, eu queria provar aqueles mini hambúrgueres! – Retruquei, apontando para o caminhão que ficava do outro lado do local.
– Mas isso não enche! – Ele reclamou.
– E desde quando tacos enchem? – Retruquei.
Acabamos comprando beirutes. , por pura implicância, comprou os malditos tacos e então eu comprei meus mini hambúrgueres. Nos sentamos na mesa mais próxima do início do píer. Por ser uma quarta feira, o local não estava lotado como eu ouvi dizer que ficava aos fins de semana.
– Você é impossível! – Reclamou, dando uma mordida no seu taco.
– Prova um pedaço e diz que não é um presente dos deuses – Desafiei-o, colocando um mini hambúrguer na boca dele. Esperei enquanto ele mastigava, resmugando de boca cheia. – Então…?
– Odeio você. – Revirou os olhos e eu ri com sua negação.
– É uma delícia, não é?
– Cala a boca e come logo. – Ele reclamou, empurrando o beirute em minha direção, me fazendo rir mais ainda.
O céu já estava totalmente escuro quando notei que não sabia que horas eram exatamente, visto que nem olhara meu celular pelas últimas horas. O fluxo de carros do outro lado do rio já tinha diminuído bastante então eu presumi que já tinha se passado algum tempo desde o horário de pico. A conversa com era tão fácil e espontânea que até esqueci do mundo ao nosso redor. Contou-me sobre sua família, os pais separados e também sobre sua relação próxima com a irmã caçula.
Quando percebi já havia relatado minhas dúvidas em relação a faculdade, coisa que ainda nem tinha comentado com Dana. Ele foi compreensivo e realmente prestava atenção ao que eu falava, não me disse o que fazer e apenas deixou claro que eu deveria tomar uma decisão logo. Também disse que se eu precisasse de qualquer coisa ele estaria ali. Derreti um pouco, mas a gente ignora essa parte. Eu e levantamos da mesa depois de horas de conversa e fui comprar um milk-shake de morango, que acabamos dividindo. Em seguida fomos andando pelo píer, comentando sobre a cidade.
– O que tem para lá? – perguntei apoiando-me no parapeito, olhando para o lago iluminado pelas luzes do centro e seguindo até uma parte escura.
– Vai para a reserva ambiental – respondeu, inclinando-se por trás de mim para sugar o milk-shake que estava em minha mão.
– Aqui é bonito – comentei sentindo o corpo dele encostar-se ao meu.
– É, você precisa ver no inverno… É a primeira vez que te vejo de jeans – comentou cutucando meu quadril com um dedo para depois beijar meu ombro.
Mais uma vez me arrependi de não ter trocado de roupa, estava usando uma calça jeans azul skinny com uma camisa social branca e um cropped por baixo e sapatilhas. era um guerreiro por me querer mesmo nunca tendo me visto arrumada de verdade.
– É? – Virei de frente para ele, que apoiou os braços atrás de mim, deixando-me presa entre seu corpo e o parapeito da ponte.
– Sua bunda fica incrível. – Mais um beijo no pescoço, agora subindo pelo meu rosto.
– É? – Repeti, já desorientada.
– Você devia usar mais jeans. – Sugeriu, descendo as mãos para meus quadris e prensando-me mais contra a madeira da ponte.
– Eu uso, é você que não vê. – Informei. Pensando bem, em todas as vezes que havia me visto eu estava usando vestidos ou shorts de tecido. Sabia que minhas pernas ficavam incríveis quando usava jeans.
– Eu devia ver você mais vezes, então. – Encostou os lábios nos meus levemente e depois afastou-se. Analisou meu rosto por um tempo enquanto eu pensava no que dizer.
Por algum motivo, a história do terreno baldio veio em minha mente novamente.
– Nós nos vemos bastante, . – Assegurei, passando a mão pelo seu cabelo.
– Ainda não é o suficiente pra mim.
E beijou-me suavemente, sem pressa, como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Pousei uma mão no seu quadril, pois a outra ainda segurava o copo, e agradeço a mim mesma por ter comprado aquele milk-shake. Ele ainda estava com a língua e os lábios gelados por conta do último gole que deu, então quando sugava meu lábio inferior, parecia o paraíso.
Meu celular começou a tocar na bolsa e não pareceu se importar. Sem quebrar o beijo, abri a bolsa – que ele ainda usava – e tirei meu celular. Afastei-me dele ouvindo um resmungo e atendi sem olhar na tela de identificação. Ele pegou o copo da minha mão e foi levar até o lixo, me deixando parada ali, apoiada na ponte devido as pernas trêmulas.
? Onde você está? – Era Dana. A garota não me ligava ou mandava mensagem desde cedo, sendo aquela ligação a primeira vez que eu falava com ela no dia.
– Estou no Takeo, aquele lugar que a gente queria conhecer, lembra? – Expliquei.
– Sozinha? Poxa, você nem me esperou! – Reclamou.
– Estou com . – Informei, insegura se devia ter contado ou não.
? – Mais uma vez, a surpresa. Confirmei. – Tipo, um encontro? – Me assustei com a dúvida e a reação de Dizzy. Achei que ela gritaria do mesmo jeito que Bela, no mínimo.
– Eu não sei, na verdade. – Respondi, mordendo os lábios e observando o rapaz voltar para perto de mim, me questionando mais uma vez que tipo de relacionamento esperava ter. Ou se queria um relacionamento, já que não tinha tanta certeza se estava disposta a ter um.
– Ok, me conta tudo depois. – Ela tentou parecer empolgada, mas eu conhecia Dana bem demais para saber que ela só não queria me deixar chateada com sua falta de interesse. – Escuta, não vou dormir em casa hoje. Vou para casa da Vi e provavelmente vou ficar por lá.
– Dana, no meio da semana?! – Reclamei, resmungando.
Eu não suportava dormir sozinha no apartamento. Aos finais de semana, se Dana não passasse em casa eu daria um jeito de sair também, mas numa quarta feira ficava complicado e eu também não gostava muito da ideia de Dana farreando no meio da semana. Dizzy era um pouco dispersa e podia tornar-se até um pouco irresponsável se não tivesse alguém para mantê-la na linha. puxou-me pela mão e fomos andando em direção ao fim do píer. Senti a adolescente pulando dentro de mim.
– Eu sei, desculpa. – Dizzy lamentou e imaginei-a fazendo seu bico característico.
– Tudo bem, Dizzy. Se cuida e qualquer coisa me liga. – Dana desligou sem falar mais nada e eu estranhei. Encarei a tela do celular mostrando que a ligação havia sido encerrada e continuei olhando durante alguns segundos para ter certeza que ela e não eu havia desligado ou que a ligação tinha caído.
– O que foi? – perguntou.
– Dana não vai dormir em casa hoje. – Contei, guardando o celular na bolsa presa ao garoto.
– Ah! – Percebi suas bochechas ficando cada vez mais coradas a cada segundo em que seu pensamento se formava. Ele esperava que eu não visse seu rosto na escuridão do final do píer e eu esperava que ele não visse meu sorriso encantado. – Quer ficar lá em casa?
Entendi seu acanho quando emitiu a frase lotada de segundas, terceiras e quartas intenções. Fiquei imediatamente em alerta. Eu sou mulher que vai para casa com o cara no primeiro encontro?
Sou mesmo, ainda bem!

━━━━━━◇◆◇━━━━━━
– Está tudo bem para você?
– Estou quase totalmente nua em cima de você, . É claro que está tudo bem para mim.
Fomos para a casa de . Não me preocupei em passar em casa pois eu sempre levava roupas íntimas e outras coisas de emergência dentro da bolsa. Normalmente eu ficava muito tempo longe de casa e nunca sabia quando teria que dormir em outro lugar. O plano inicial era assistir filmes, reclamar da vida, ele ia responder alguns e-mails e eu revisaria a matéria da prova uma última vez, mas entre uma taça de vinho e outra, um beijo foi roubado, surgiu uma carícia na perna e quando minha mente clareou e eu parei para prestar atenção, já estava sentada no seu colo, apenas de calcinha.
– Você não precisa estudar para a prova de amanhã? – Desfez meu cabelo do coque, jogando-o para trás.
– Não… – Ele pareceu meio distante por alguns segundos, perdido entre meus fios de cabelo e eu fiquei imediatamente receosa. – , você quer parar? Está tudo bem se quiser. – Perguntei e afastei meu tronco do dele, mas sem sair de cima de suas pernas.
– Não! É só que… – Hesitou.
Olhou-me por alguns segundos, desviou o olhar para meus seios e depois encostou a testa no meu ombro direito. Fechei os olhos fortemente, sentindo a respiração ofegante dele no meu pescoço. Uma dose cavalar de insegurança e vergonha tomou conta do meu corpo imediatamente. Havia sido rápido demais? Ele não gostou do que viu por debaixo das minhas roupas? Talvez tivesse em mente algo melhor.
Ou alguém melhor.
– Você acha que não está com a pessoa certa? – Questionei, temerosa por sua resposta. Ele queria Dana no início, certo? Talvez estivesse arrependido ou confuso, e tinha todo o direito de estar.
– Como assim? Do que você está falando? – Levantou o rosto, encarando-me com o cenho franzido.
, você está me confundindo. – Acariciei os cabelos de sua nuca, sendo amável até demais. Geralmente eu não tinha paciência com pessoas indecisas, apesar de ser uma.
– Não… É só que… Eu não sei como você é… Entendeu?
Sua frase saiu cheia de pausas e hesitações, quase não entendi sua emissão. Ergui uma sobrancelha, sentindo-me levemente ofendida. Senti raiva dele por estar sendo prolixo e senti raiva de mim por ainda estar ali, sem roupa em cima dele, quando ele claramente não sabia o que queria.
– Não, não entendi. Quer saber? Acho melhor ir embora antes que você me ofenda ainda mais! – Irritei-me e tentei sair de cima dele, mas o mesmo segurou minha cintura com força, prendendo-me no lugar.
– Não, , estou me expressando errado. É que eu gostei de sair com você e queria te ver mais vezes, mas você parece ser o tipo de garota que não responde no dia seguinte.
Pensei um pouco em sua frase e em como eu deveria interpretá-la. Duas palavras fora do lugar e ele realmente estaria me ofendendo e eu precisaria sair dali o mais rápido possível. parecia estar constrangido e meândrico, então a frase finalmente fez sentido na minha cabeça. Meus lábios se abriram em entendimento.
– Oh! Você acha que eu vou transar com você e sumir?
Apertou os lábios, parecendo envergonhado com a própria insegurança e vulnerabilidade. Fiquei surpresa porque parecia estar sendo sincero e talvez aquele realmente fosse o motivo. Fiquei mais surpresa ainda por meus motivos estarem errados e meus pensamentos equivocados. Não vou negar que já havia sido realmente a garota que não atende as ligações do dia seguinte. Nos últimos tempos, principalmente.
Mas com as coisas eram, no mínimo, diferentes. Ele chamava minha atenção de todas as formas e eu me interessei por ele como nunca tinha me interessado por ninguém. Queria saber mais da sua personalidade seus gostos e odiar seus defeitos. Queria conhecer seu corpo e queria ele conhecesse a mim como ninguém mais conhecia. Eu o queria muito e talvez não soubesse lidar com a dimensão do meu anseio e cobiça.
Não sabia dizer o que rolava entre nós, também não sabia se sentia algo mais que uma atração intensa, quase imoral. Não queria aprofundar as coisas com ele sem ter certeza do que queria. Eu era uma puta de uma confusão e , até aquele momento, sempre pareceu tão certo de seus sentimentos e ações.
– Eu… – Percebeu minha confusão e diminuiu o aperto em minha cintura, como se estivesse me deixando livre para sair a hora que eu quisesse. – Não sei o que dizer para você.
– Vai sumir? – Questionou enrolando uma mecha do meu cabelo em seu dedo indicador.
– Não. – Respondi e estranhei a falta de hesitação.
– Então não precisa me dizer nada, nós resolvemos o resto depois… – Segurou meu rosto entre suas mãos, não me deixando pensar sobre mais nada que não fosse seus lábios sobre os meus.
Passar aquela noite em claro com não deixou nada explícito e compreensível para mim, até mesmo piorou minha situação. Eu era boa em manter as coisas casuais, sabia muito bem lidar com situações pós sexo para que não houvesse constrangimento de ambas as partes. Era muito boa em ser boa e era muito bom em ser bom. Nossa química era explosiva demais para o nosso bem. estava mostrando ser o tipo de cara que eu sempre quis, mas nunca achei que realmente existisse. Era calmo, gentil, ótimo em falar sacanagem, mas suas bochechas rosadas mostravam o menino dócil e respeitoso que era.
Nós não falamos sobre rótulos, mas na minha cabeça, era implícito que nós ficaríamos no bom e velho sexo casual. Mas sei lá, não dá para acreditar muito que as coisas vão permanecer casual quando você passa uma madrugada inteira deitada com uma pessoa assistindo documentários sobre arquitetura e urbanismo sem propriedade alguma no assunto e aquele acaba se tornando o seu melhor programa da semana.
Casual, hein? Vai ser bem complicado.

Junho.
Hillswood* é uma cidade de 200.000 habitantes conhecida por ser uma cidade universitária, ter um clima ameno e suas paisagens simples. Encarei a cidade imposta a minha frente pela janela da minha sala. Cheia de elevados, o sol de 17h se perdia entre os prédios e as luzes dos carros. O céu azulado e sem nuvens de junho me fazia sorrir mesmo com o calor suportável de 30º que fazia.
Era sexta-feira, o horário de pico se aproximava e pelo fato de meu apartamento ser afastado do centro eu conseguia vê-lo da minha janela. Gostava de ver os carros vindo de todas as direções e se aglomerando na avenida principal, o que mais tarde causaria um enorme congestionamento. As minhas aulas acabaram mais cedo, o que me livrou de estar nesse mesmo congestionamento. Eu passaria horas olhando a paisagem, apenas pensando. Gostava de criar histórias sobre as vidas das pessoas dentro daqueles carros, de onde vinham e para onde iam, coisa de gente meio distraída, que não tem muito que fazer.
Sorri de leve ao ver os carros se amontoando aos poucos, concretizando minhas previsões. A mobilidade social da cidade era algo que realmente deveria ser melhorado. Eu não os culpo pelas barbeiragens e atrocidades que cometiam no trânsito na ânsia de chegar logo ao seu destino. Era sexta-feira, afinal. Todo mundo estava ansioso para sair, encontrar alguém ou simplesmente ir para casa e dormir.
Por falar em curtir o fim de semana, Dana e Cam foram convidados para uma festa em um hotel no litoral de uma agência publicitária que estava de olho nos dois para algum novo trabalho. Claro que eles não perderiam a oportunidade de passar o final de semana em um hotel chique enquanto comiam canapés a beira da praia e isso só nos rendeu umas boas piadas sobre eles estarem transando escondido do resto de nós. Até nos convidaram, mas todos estavam ocupados demais para viajar. Eles voltariam para casa apenas na terça da outra semana e para mim isso significaria três dias de aula perdido. Eu estava bastante ocupada com a faculdade naqueles dias, mas também estava bem animada porque esse passe livre para ter a casa só para mim, renderia quatro dias de sexo da melhor qualidade com .
E nós já tínhamos começado.
Eu estava apenas de calcinha, mas ainda parecia que o diabo estava soprando em meu rosto, estava com fome, calor e preguiça. Tendo isso como motivação, fui até minha geladeira à procura de algo fácil e rápido de cozinhar no meio de toda a comida que Dana tinha estocado para mim. Eu gostava de cozinhar e era até boa nisso, mas só me via na obrigação de ir para a cozinha quando tinha que fazer comida para Dana também.
Portanto, quando ela não estava presente eu sobrevivia de comidas instantâneas e congelados. Achei uma caixa de lasanha à bolonhesa e coloquei-a no micro-ondas. Não era a minha preferência, mas era o que tinha. Deitei-me de bruços no sofá, esperando dar tempo da lasanha ficar bem aquecida.
Peguei meu celular, checando as últimas mensagens e me deparei com uma foto que Cam e Dizzy mandaram e que me fez rir. Ambos estavam com poses pomposas e de nariz empinado, bebiam champanhe numa piscina e a praia ao fundo deixou a foto, que deveria ter sido uma piada, realmente bonita. Eu até senti inveja, mas o sentimento durou três segundos apenas porque entrou na sala naquele instante. Com os cabelos bagunçados, bocejando e se espreguiçando, usando uma boxer vermelha que se destacava em seu corpo.
andando de cueca confortavelmente pela minha cozinha era definitivamente melhor que champanhe à beira da praia.
Uma mensagem de Jack tirou minha atenção do cara bonito abrindo minha geladeira. Comentou nas mensagens que faria um show no Domingo e ele preferia ir ao show do amigo do que ir à praia. Depois ele se desmentiu falando que preferia a praia mesmo, já que de todos nós ele era o que ia a quase todos os shows de . Seu comentário me fez perceber algo.
? – Ele respondeu com um murmúrio. – Eu nunca fui a um show seu.
– E daí? – Ele abriu o micro-ondas e tirou minha lasanha de lá, jogando em cima do balcão e olhando para os próprios dedos depois, provavelmente queimados.
– E daí que eu quero.
– Sério? – Ele pareceu nem acreditar, fazendo uma careta em seguida.
Eu já conhecia à quase quatro meses e o máximo que ouvia de sua voz era quando ele cantava no chuveiro e um vídeo de seis segundos no Instagram.
– Claro que sim, por que a surpresa? – questionei, sem entender seu espanto.
– Eu só achei que… – Titubeou, parecendo indeciso sobre o que falar, mas balançou a cabeça como se estivesse espantando as ideias. – Eu levo você no show de Domingo. Tudo bem? – Ele veio até mim e eu assenti sorrindo.
Senti meu corpo arrepiar-se completa e instantaneamente quando ele parou ao meu lado no sofá e seus olhos passearam pelo meu corpo estirado no sofá. Sentia-me ainda mais nua, se fosse possível.
– Algum problema? – perguntei e ergui uma sobrancelha ao perceber que seus olhos indecentes ainda percorriam meu corpo, totalmente sem vergonha de observar cada pedaço de pele exposto.
Sorriu travesso, quase beirando a lasciva e pegou-me de surpresa quando soltou um tapa em minha nádega direita. Meu corpo balanceou no sofá com o impacto da palma da sua mão e foi como se meu corpo tivesse entrado em chamas imediatamente. “Apressado!”, exclamei ao sentir suas mãos puxando as laterais da minha calcinha.
– Não vai nem me dar um beijinho? – Mesmo contrariada, levantei meu quadril para ajudá-lo no ato.
– Acordei sozinho e excitado. Não acho que você esteja merecendo beijinhos. – anunciou, intransigente.
– Eu só vim comer, baby. – Mordi os lábios quando senti seus beijos irem do início ao fim de minhas costas e tive que segurar-me para não arfar alto demais com o toque mínimo.
– Eu também vim comer, baby.
Depois de uma longa e torturante trilha de beijos pelas minhas costas, seus lábios (finalmente!) desceram até o meio das minhas pernas, fazendo-me jogar o celular em qualquer canto. Senti todo e qualquer vestígio da fome e preguiça sumirem, ficando apenas o calor.
Muito calor.

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– Eu chorei assistindo esse filme. – confidenciou enquanto zapeava pelos canais da TV. O filme em questão era Intocáveis e eu também já tinha assistido, mas não chorei. Eu era bem difícil de chorar com filmes, ou qualquer outra coisa.
Depois de transar em cada lugar da sala, e eu estávamos exaustos demais para mais uma rodada. Pelo menos, por enquanto. Depois de comermos a lasanha – que estava horrível, por sinal -, fomos para meu quarto e acabamos decidindo assistir alguma coisa, mas desde que nos deitamos a única coisa que não fizemos foi assistir TV. não achava nada bom o suficiente para prender sua atenção, já que a minha estava completamente desviada e muito entretida com o jogo de zumbis no celular dele.
– Eu não choro com filmes – contei, sem prestar muita atenção na nossa conversa. Minha mente estava toda voltada a passar de fase no joguinho dos zumbis, que era viciante demais.
– Nenhum? – duvidou, virando sua cabeça para me olhar de forma estranha já que eu estava deitada de lado e ele apoiando a cabeça nas minhas nádegas. Neguei com a cabeça para respondê-lo. – Marley e eu?
– Eu não gosto de cachorro. – Relembrei-o do fato. Já me disseram que quem não gosta de cachorros, boa pessoa não é. Eu concordo plenamente.
Não sou mesmo uma pessoa tão boa assim.
– Titanic? – Sugeriu mais uma vez.
– Não! – Gargalhei. – Não acredito que você chorou com Titanic!
– Só lacrimejei no final. Sua estranha! Você não chora nunca? – Quis saber, ainda olhando-me torto.
– É claro que eu choro, , só não com filmes. – Grunhi irritada por ter perdido no jogo e saí do aplicativo. Decidi entrar no Instagram de . Era legal entrar na rede social de alguém que todos conheciam, sempre tinha uma coisa nova para ver. desistiu de achar algo bom para assistir e desligou a TV. – Eu desconto minhas frustrações no boxe.
– Ah, é! Você faz boxe, eu sempre me esqueço disso – comentou. Virei o celular para mostrá-lo o que eu estava fazendo caso ele não quisesse que eu estivesse ali, mas ele apenas deu de ombros como das outras vezes que usei sua rede social para fofocar. – Por isso você é gostosa.
– Olha como você é maluco por dizer isso. – Rolei os olhos e mostrei a foto de uma garota linda e sarada que ele seguia e que apareceu no feed justamente na hora daquele comentário de para exemplificar.
– Ela fez lipoaspiração, . Tanto silicone que os peitos são duros como pedras. – me contou e fiz careta ao refletir em como ele sabia dos peitos.
– Você não se importa que eu seja… Um pouco mais gordinha? – perguntei franzindo os lábios, ainda rolando o feed pela tela do celular.
, você tem um corpo normal. Não tem nada de errado nisso. – Assegurou, fazendo-me sorrir. – E também não faria a menor diferença você sendo gorda, dura, magra. E-eu acho que eu ficaria com você de qualquer jeito.
Há um mês, eu reclamava que era prolixo, indeciso e não sabia explicar o que ele queria. Infelizmente o rapaz parecia ter aprendido muito bem como falar sobre seus sentimentos mesmo que sua voz gaguejada ainda demonstrasse um pouco da sua insegurança. Agora eu era a pessoa que não sabia lidar com e nem com as coisas que ele falava para mim. Sentou ao meu lado e puxou meu braço para me fazer sentar também, mas ignorei seu toque e me virei para deitar de bruços. Ao ponto que estávamos já conhecia cada ponto do meu corpo, cada passo da minha rotina e, por algum motivo desconhecido por mim, me incomodava quando ele começava a falar de sentimentos.
– Por que você fica falando coisas assim? Fica falando como se gostasse de mim? – Questionei, apoiando-me nos cotovelos, encarando meu travesseiro.
Toda vez que falava coisas assim eu sentia que ele estava me fazendo favores. A malvada que vivia dentro de mim fazia-me pensar que talvez ele só quisesse garantir uma foda legal, por isso falava algumas coisas bonitas para mim. É uma coisa horrível de se pensar, ainda mais de , que é o oposto do tipo de pessoa que faria isso, mas nunca se sabe. É impossível conhecer completamente e saber tudo sobre uma pessoa.
– Por que eu gosto, talvez? – Ele reuniu todo o desprezo em sua voz e eu ri do seu gracejo. Abracei o travesseiro quando ele não falou mais nada e apenas começou a dar umas tapinhas na minha bunda, formando um ritmo meio solto.
Ele já estava aprendendo a lidar comigo, já sabia que me ganhava muito no humor e esse era meu medo: Pessoas me conhecerem bem demais. O medo triplicava quando se tratava de algo (ou alguém) que poderia causar graves danos ao coração franzino de .
Fazia tempo desde a última vez que alguém gostara de mim. Eu andava com Dana quase sempre e quase todo mundo que a gente conhecia queria conversar e saber mais dela. Ninguém queria saber meus gostos e vontades quando Dizzy estava por perto. Tudo bem que eu não gostava muito de falar de mim mesma, sei que não sou a pessoa mais interessante do mundo e que a parte mais legal de mim é a Dana. Por isso, ter no quarto comigo naquela tarde em que ele poderia estar fazendo qualquer outra coisa, significava muito.
É até irritante o quanto eu sou triste e depreciativa, eu sei.
Reclamei quando ele soltou uma tapa um pouco mais forte no meu quadril. Ele fez um “shiu” para mim e eu me irritei, empurrando suas mãos e virando de lado, não o deixando continuar, mas ele me puxou de volta e me segurou com força no lugar, continuando a batucar.
, não faz shiu pra mim, para! – Tentei me mexer, mas ele me segurava com força. – Vou quebrar seu celular, sério.
– Sua retaguarda está desprotegida, não devia me ameaçar assim. – Ele me deu uma mordida de leve na nádega esquerda. Comecei a me remexer novamente e ele começou a rir. – Você é linda.
Calei-me com sua declaração e sorri esperando os batuques desorganizados darem lugar a um ritmo concreto, o que não demorou muito. Ele levantou e pegou um caderninho dentro do bolso do seu casaco, uma caneta que estava na minha estante e sentou na beira da cama. Ficou anotando alguma coisa, compenetrado demais para perceber que eu lhe observava.
– Então, você escreve. – Constatei, preocupada.
– Ultimamente, bem mais do que o normal. – Ele respondeu sem desviar sua atenção do papel.
Forcei minha mente a ir a outra direção, mas não consegui não pensar que sua inspiração poderia ser culpa minha.
– Li em algum lugar que se meter com caras que escrevem é perigoso. – Comentei, bloqueei seu celular e virei o corpo para vê-lo melhor e chegar próximo o suficiente para apoiar meus pés em suas costas.
– É? Por quê? – Ele perguntou com um sorrisinho de lado.
– Ah, eu não lembro muito bem, mas era algo que dizia para não se apaixonar por caras que escrevem, pois eles têm lábia, vão te romantizar, etc.
Enquanto a caneta em sua mão não parava, meus pés pequenos demais pareciam se perder em suas costas largas. Ele levantou a cabeça e olhou para o lado, sério demais de repente.
– Você já se apaixonou por um cara que escreve? – Ele perguntou e eu travei no lugar.
Eu não sabia se ele estava perguntando se eu estava apaixonada por ele ou se já tinha me apaixonado, mas sempre me deixava confusa com sua neutralidade e nebulosidade.
– Você quer a verdade? – Perguntei.
– Sempre, .
– Eu não faço ideia.
Eu realmente não sabia. Não sabia se estava apaixonada e, principalmente, temia estar. Ele assentiu para si mesmo e voltou a escrever no bloco. Não perguntou nada diretamente e eu também não respondi do melhor jeito, mas tudo entre nós sempre acabava subentendido.
– O que rima com confusão? – Perguntou, ainda rabiscando em seu pequeno bloco. Pensei por uns segundos, reunindo as rimas em minha mente, antes de responder.
– Emoção. Razão. Fusão. Desilusão. Eclosão. Combustão. Imaginação. – Citei algumas que vieram em minha mente.
Encarei o teto, pensando no significado de cada palavra e como poderia se aplicar em “confusão”. Também pensei que se ele estivesse escrevendo sobre mim a palavra “confusão” parecia muita correta de se usar. Meus pensamentos foram quebrados quando me deixou pensando em sua escolha de palavras.
– Atração ou paixão?
– Você está perguntando por…?
– O texto, . O que fica melhor com confusão? – Virou-se para mim completamente, sentando de pernas cruzadas e apoiando o bloco de notas na perna. Encarou-me com aqueles olhos cheios de neblina que não me deixavam ver nada além.
– No texto elas até ficam bonitinhas juntas. Na prática, talvez nem tanto. – Respondi, mordendo o lábio. – Lidar com uma atração confusa era mais simples do que ter lidar com uma paixão confusa.
E foi assim, sem falar exatamente o que pensava que eu soube qual era nossa situação, as quantas andavam nossa relação. Minhas palavras fizeram ainda mais sentido quando as apliquei ao nosso contexto.
– Toda paixão começa com uma confusão. – Ele deu de ombros, abaixando a cabeça e escrevendo novamente, só que dessa vez com mais afinco.
Como nunca percebi que era um cara que escrevia? O cara transpirava arte. Sempre havia um quê mais poético em suas frases, seu jeito misterioso de ser, mesmo que não fizesse questão de esconder nada que dizia respeito a ele.
– Sobre o que você está escrevendo, afinal? – Perguntei não entendendo mais o sentido de nada e morrendo de curiosidade.
– Sobre você. E de alguma forma, todas as palavras servem.
Fiquei calada, senti meu peito se aquecer de uma forma que a muito não aquecia. As batidas do meu coração se fizeram presentes, fiquei nervosa e agraciada com sua presença. Tive vontade de gritar, bater as pernas e comemorar pela cidade. Queria ir a cada esquina e contar que aquele garoto bonito estava escrevendo para mim, sobre mim.
– Até mesmo “combustão”? – perguntei com um sorriso que nem cabia em meus lábios.
– Principalmente combustão, linda. – Ele respondeu, balançando a cabeça.
– E desilusão? – Perguntei baixinho, com medo da resposta. Ele me olhou, mas não parecia estar me vendo, parecia estar com o pensamento a mil.
– É a palavra que a razão usa para me torturar.
Dito isso, levantei, tirei o bloco de suas mãos e sentei em seu colo com uma perna de cada lado do seu corpo, abraçando seu torso. Ele deu uma risada doce e me abraçou de volta. Acho que nunca tinha abraçado e isso só me deu mais certeza que estava no lugar certo.
– Eu vou te dizer algo agora e acho melhor você usar isso em alguma música e nunca, nunca esquecer. – Descolei meu corpo do dele, olhando-o nos olhos. Aqueles malditos olhos castanho-claro que não saiam da minha cabeça todos os dias, o dia inteiro. Ele assentiu, encarando-me com a mesma intensidade que eu o encarava. Respirei fundo e acariciei seus ombros. – Eu acho que você vai ser “o cara que escreve” por quem eu vou me apaixonar. Tudo bem para você?
sorriu lindamente, segurou meu rosto entre suas mãos e me beijou de um modo lento e apaixonante. O tipo de beijo que sempre antecede algum acontecimento e que vai ser lembrado por mim futuramente entre suspiros. Assim que seus lábios deixaram os meus e tocaram a pele fina do meu pescoço, a última frase do texto que li tempos atrás surgiu em minha mente, como se fosse uma placa com luzes neon e vibrantes.
“Não se apaixone por caras que escrevem. Ame-os”.
Eu só precisava descobrir se ele era minha atração, minha paixão ou minha confusão. Ainda que algo dentro de mim dissesse que ele poderia ser os três, porque já tinha esse poder.
De ser e significar várias coisas para mim.

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Eu era boa em ficar e ser sozinha, bem solitária. Porém, desde que apareceu em minha vida, eu já não era mais tão só assim e parecia que tinha desaprendido a ficar só. Cada momento meu e dele estava gravado em minha mente e tudo o que fazia me levava a ele de alguma forma.
O cinema, por exemplo. Toda vez que passava em frente ao cinema, me lembrava do dia em que nós dormimos no meio do filme e a lanterninha veio nos acordar quando as luzes acenderam. A gente tinha trabalhado o dia inteiro e estávamos exaustos, mas não queríamos ter que desmarcar um com o outro.
Eu e não éramos o casal chato que se excluía do grupo, mas houve um dia em que ignoramos as ligações do pessoal para sair porque a ideia de ter que levantar da cama dele era insuportável demais. Eu também adorava lembrar do dia em que fui assistir os vídeos dele cantando no YouTube, mas ele pegou o notebook e saiu correndo pela casa como uma criancinha, reclamando que sentia vergonha. Reclamei do fato dele cantar para centenas de pessoas toda noite e não sentir vergonha, mas quando ele respondeu: “Mas nenhuma daquelas pessoas significa tanto”, eu me calei, como sempre fazia quando demonstrava demais.
E também quando eu o vi cantar ao vivo pela primeira vez.
Ele fez um show no Unplugged, um pub famoso em Hillswood por promover shows acústicos e também ser demasiadamente caro. Cheguei atrasada – como sempre – e tinha uma grande fila na porta que tive dificuldade em driblar, mesmo com meu passe VIP. Quando entrei no local, já estava cantando fazia uns 20 minutos então achei melhor ficar ali pelos fundos mesmo e assistir o resto do show tranquila e sozinha, longe do amontoado de gente que se espremia em frente ao palco, onde Jack provavelmente estava.
E então eu vi cantar ao vivo pela primeira vez.
Não sei foi o cover de Hey Jude, o público cantando sincronizadamente, a camisa social cinza que o deixava irresistível, se os xacras haviam se alinhado ou seja lá o que caralhos aconteceu, mas eu estava extremamente encantada. Talvez encantada não seja a palavra certa, mas me recuso a aceitar a outra palavra. A voz rouca e rasgada de preencheu cada canto do lugar e deixava um rastro de serenidade em todos. Ele era bom, tinha presença de palco, seu baterista era bem bonito e era o sinônimo vivo de carisma. Era cativante, envolvente e apaixonante demais.
Um perigo real para a pobre , que já se encontrava sem defesas.
Quando finalmente consegui desviar o olhar de , já me sentindo idiota demais por estar quase babando por ele, percebi que não era a única. O número de meninas que tinha até me assustou. deu uma pausa no show para beber água e achei melhor procurar por Jack. Após alguns minutos de procura, encontrei-o quase na beirada do palco e aproximei-me dele, perguntando por que havia tantas mulheres ali.
– Groupies. – Jack murmurou no meu ouvido, como se fosse segredo.
– Groupies? tem groupies? – questionei sem acreditar.
– Sim, mas não se preocupe. Ele parou de aproveitar depois que te conheceu. – Jack deu de ombros.
Uma garota de vestido colado que ostentava um belo par de pernas e um busto farto passou por nós. Soltei um assobio, vendo tamanha exuberância.
– Tem certeza? – Gargalhei, apontando para a mulher com a cabeça, para que Jack olhasse também.
– É… A gente acha. – Jack pareceu tão em dúvida quanto eu. A mulher era linda mesmo, até eu a pegaria sem pensar duas vezes. – O que eu sei é que a gente aproveita tanto ou mais do que ele.
Jack apontou para trás de mim e eu vi John, um amigo em comum, de costas para o palco sem nem ligar para ali, falando algo no ouvido de alguma mulher. Gargalhei e olhei para o palco. voltava ao palco e anunciou que ia cantar uma música que eu não conhecia. Quando me viu ao lado de Jack, deu um sorriso infantil e divertido. Ri e lancei-lhe um beijinho.
Escorei-me em uma parede meio escondida ao lado do bar assim que encerrou o show e saiu do palco. Assisti Jack paquerar todas as pessoas do sexo feminino do recinto e , que cumprimentou cada uma das meninas na beira do palco, educadamente falou e bateu foto com todos que queriam falar com ele. Fiquei observando cada movimento seu, sentindo-me uma adolescente idiota, uma fã de 17 anos, principalmente por estar tocando uma sessão de indie rock antiga.
“Oh that boy’s a slag the best you ever had”.*
A frase que saiu na voz inconfundível de Alex Turner fez todo o sentido, pois foi o exato momento que veio em minha direção com sua jaqueta de couro, parecendo um sonho e fazendo meu coração pular uma batida. Aquele talvez não fosse o contexto correto exposto na música, faltava uma estrofe para complementar a frase, mas me fez questionar.
Teria sido ele o melhor que eu já tinha tido?
– Você viu? – Ele me deu um selinho e um beijo no pescoço, abraçando minha cintura assim que se aproximou. Assenti meio anestesiada com seus carinhos. – Então…?
– Bom, é uma opinião meio paradoxal. – Eu comecei e ele me encostou a parede novamente, apoiando um braço do lado da minha cabeça e me encarando de um jeito que me faria tirar as roupas para ele ali mesmo. – Eu queria e devia sair correndo daqui agora porque você cantando me deixou de um jeito que ninguém nunca deixou e isso me parece perigoso, mas também quero que você me leve pra sua casa hoje. Então, como eu disse, paradoxal.
– Você achou perigoso? Imagina como eu me senti quando fui subir no palco e só queria estar jogado na cama com você. E a coisa que eu mais gosto no mundo é cantar.
O sorriso dos meus lábios sumiu de imediato e o dele também. Ficamos nos encarando intensamente. O local parecia ter ficado pequeno e abafado com o peso de nossas palavras.
– Você precisa parar de me falar coisas assim – pedi fechando os olhos fortemente, temendo me perder em seus olhos, não suportando o peso de sua intensidade.
– Por quê? – Ele perguntou como se fosse um menino de sete anos. Abri os olhos, ainda tendo que lidar com os seus, que pareciam despir minha alma.
– O quanto eu vou ter que brigar com suas groupies por sair com você hoje? – Brinquei, ajeitando a gola de sua camisa. Ele deu um sorrisinho, parecendo chateado por eu ter mudado de assunto mais uma vez.
– Não vai precisar. Vem, quero te apresentar umas pessoas.
me apresentou para toda a sua equipe, alguns amigos, me olhou torto quando dei em cima do baterista descaradamente e, no fim da noite, acabamos sentados no banco de trás do meu carro, bebendo vinho e encarando um ao outro. Não trocamos muitas palavras naquela noite, apenas ficamos nos olhando e tentando entender o que era todo aquele sentimento, aquele choque que acontecia cada vez que nos víamos, aquela explosão que sentíamos toda vez que nossas peles se tocavam. Tentando entender toda essa dependência que estava tornando-se cada vez mais forte e agressiva.
Eu não sabia e principalmente, não queria mais ser só.

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* Hillswood: Cidade fictícia.
* That boy’s a slag
the best you ever had:

Fluorescent Adolescent, música do Artic Monkeys.
Tradução: “Aquele garoto é um cafajeste
o melhor que você já teve.”

 

 

4. Porque você é sexy, bonito e todo mundo quer um pedaço.
Julho.
Nós precisamos falar sobre ciúmes. É tóxico, feio, ruim e faz mal para qualquer um. Segundo a exata definição no dicionário, ciúmes é o “sentimento negativo provocado por receio ou suspeita de que a pessoa amada dedique seu interesse e/ou afeto a outra pessoa”, mas também é definido como “receio de perder algo”. É uma via de mãos duplas. Se você é como eu e tem consciência do quanto ciúme é ruim e ainda assim não consegue evitar, é muito fácil perder a cabeça e ficar confusa. E como qualquer sentimento, nós não conseguimos evitar, ele só vem. Avassalador e sutil, simultaneamente. Eu sempre fui uma pessoa que me orgulhava de não sentir ciúmes, mas não é segredo para ninguém que desde que entrou na minha vida, muitas coisas mudaram e infelizmente minha imunidade ao ciúme também acabou sendo inserida nessa lista. e eu entramos no mundo das brigas e discussões sem sentido e estava cada vez mais difícil sair.
Tudo começou quando eu faltei ao único show que ele faria na cidade naquele mês. Não foi justo perder o horário por conta da minha distração com a Netflix, porém, mais injusto ainda foi não ter aparecido no almoço que marcamos na semana seguinte. O que ele não sabia é que era meu aniversário e o almoço era o único horário disponível para todos. Brigamos mais uma vez, porém, eu estava com a razão dessa vez. Aí brigamos de novo porque eu estava com calor e ele com frio e tivemos uma pequena discussão por conta do Bob Dylan, novamente. Quase uma semana tinha se passado e nós ainda estávamos insuportáveis um com o outro. Nossos amigos até brincavam dizendo que nós estávamos de TPM conjunta devido ao nosso constante mal humor e impaciência, principalmente um com o outro. As coisas estavam tão sufocantes que até um prato sujo nos tirava do sério.
– Você estava com ela, ! – Esgoelei-me, quase esfregando o celular contra o rosto dele.
O motivo? Três semanas atrás saiu com uma tal de Rachel, uma groupie nova iorquina de peitos gigantes. Ela já era conhecida entre os rapazes por sempre estar rondando meu garoto. No dia eu não me importei, é solteiro e livre para fazer o que quiser, porém, quando fui vê-lo no dia seguinte ele estava com marcas vermelhas no pescoço. Então, mesmo que eu não admitisse, o monstrinho verde do ciúme me mordeu e eu dei uma surtada, confesso. Gritei bastante com ele, quase expulsei-o da própria casa e ele apenas ria de mim, disse que não ia mais vê-la, me comprou com sexo e então ficou tudo bem. Até que estávamos fazendo nossa inspeção matinal no Instagram – que consistia em falar mal e zoar todo mundo que aparecesse no feed enquanto tomávamos café da manhã – e chegamos a um stories que Jack postou.
E ali estavam Cameron e Jack de um lado. E do outro, , Rachel e seus peitos gigantes.
– Ela apareceu do nada! – tentou explicar-se, levantando as mãos. Eu não perguntava onde ele ia, nem com quem estava, não me importava se eram com garotas, mas aquela… Ah, aquela tinha alguma coisa que não me descia e não eram aquelas tetas enormes.
É claro que entrei no perfil da garota quando ele não estava por perto e dei de cara com uma linda universitária que estudava Direito, viajou para os lugares mais exóticos e se formou com honras na escola. E claro, tinha lindos e grandes peitos. Eu não tinha inteligência emocional alguma para ver lidando com pessoas mais bonitas e mais interessantes do que eu jamais seria.
– Do nada?! Qual é o seu problema? – Irritei-me mais ainda com a desculpa esfarrapada. Devido a diferença de altura entre nós, eu precisava ficar de pé na cama para conseguir encará-lo do jeito desafiador que pretendia. Se me aproximasse 1 cm, ia estapear seu corpo. Como se lesse meus pensamentos, saiu da minha frente e foi em direção ao seu banheiro. – Eu estou falando com você!
– Achei que você não se importasse que eu saísse com outras garotas, ué. – Voltou-se para mim com os braços cruzados e a expressão carrancuda.
– Saia com garotas feias, oras! – Olhei novamente para a foto da peituda na tela do meu celular. Que de feia, nada tinha. E vendo-os lado a lado, até faziam um belo casal. olhou-me meio incrédulo por uns segundos com minha sugestão antes de bufar.
– Você é louca! Ela apareceu no bar onde nós estávamos, bebemos alguns drinques e foi só. – Deu de ombros, ainda apoiado na porta do banheiro. Como se estivesse sentindo que não era seguro manter-se perto de mim.
– Puta que pariu! – Enfiei minhas mãos entre meus cabelos e os puxei para cima, tentando dar vazão a minha irritação. Conhecer uma garota em um bar, Cam e Jack, drinques. Parece familiar? Porque para mim, parecia muito a história de quando eu o conheci a quatro meses atrás. – , você transou com ela?
– O quê? Não surta, . – Franziu o cenho, encarando-me com desprezo, parecendo até ofendido com meu raciocínio.
… Puta merda, a gente transou sem camisinha na semana passada! – Coloquei as mãos no rosto, já desesperada.
– E o quê que tem? – Exclamou, já falando em tom mais alto.
– Não é o certo a se fazer se você tem outras parceiras. O que significa que não é seguro para mim se você vai sair por aí pegando qualquer uma!
Eu vi a expressão de mudar de desprezo para total irritação. Suas bochechas ficaram vermelhas e seus lábios se entreabriram, chocado com minhas palavras. Parecia totalmente desacreditado com minha fala.
, vai se fo… – Assustei-me quando ele quase gritou, perdendo o controle e a paciência, coisa que raramente acontecia.
Mas para o nosso azar, eu perdia o controle mais facilmente.
Imprudentemente, com a raiva cegando meus olhos, joguei em sua direção o que estava em minhas mãos antes que sua frase fosse completada. Ou seja, o barulho do meu celular espatifando-se no chão me despertou da ira recém provocada. Olhei para o meu celular destruído no chão, amaldiçoando minha péssima coordenação motora já que o aparelho passou pelo seu ombro, bateu na porta e caiu no chão. Encolhi-me quando subi meu olhar e avistei vir correndo até mim, vermelho de raiva por eu ter atirado um objeto nele. Tentei ir para o outro lado da cama, mas as mãos de foram mais rápidas e seguraram minhas pernas. Mexia meu corpo de forma que ele não conseguia me manter parada. sempre fazia isso quando nós brigávamos, segurava-me pelos ombros e me obrigava a olhar em seus olhos.
Eu sempre perdia quando ele o fazia e o garoto já tinha consciência disso.
– Não é como se eu fosse seu namorado para você me fazer cobranças assim!
Puxei um travesseiro acima de mim e comecei a acertá-lo com o mesmo. Xinguei, indignada com sua fala. Lutou contra mim e meu ataque de travesseiro, empurrando-me e tentando prender meus braços. O físico sempre acabava em nossas discussões quando o psicológico estava muito abalado. Mas se você estiver se perguntando se não era muita agressividade ou se já tinha sido um pouco mais “bruto” comigo, a resposta é não. Nossas brigas eram agitadas e energéticas, mas sabíamos respeitar nossos limites. nunca tinha levantado a mão para mim e eu nunca tinha tido um ímpeto de fúria contra ele. Até agora.
– Você faz questão de deixar claro que não sou seu namorado quando sai com aqueles babacas da sua faculdade! – Ele forçou meu corpo a deitar-se no colchão e sentou em cima de mim, tentando tirar o travesseiro de minhas mãos, mas eu o segurei como se estivesse segurando a última garrafa de cerveja da geladeira.
, se você transou com ela por vingança, apenas para me atingir, eu juro que…
– Eu não transei com ela! – Quase gritou novamente, ainda tentando tirar o travesseiro de meus braços.
– Quem me garante? – Eu usava o travesseiro para me proteger de suas investidas de segurar meu rosto entre suas mãos. – Jack e Cam, seus fiéis escudeiros? Rá! Bela garantia! – Soltei uma gargalhada sarcástica e vi a veia do pescoço de saltar.
– Você acha que é fácil para mim acreditar que você não tem nada com aqueles caras? Que não aconteceu nada naquele dia que você saiu com a Dizzy e ela voltou para casa e você não? – Meus braços enfraqueceram ao ouvi sua voz sentida. Ele aproveitou para tirar o travesseiro que estava entre nós. Segurou-me pelo queixo, encarando-me raivoso e eu soube que já tinha perdido a luta quando encarei seus olhos. – Não é. Mas se você diz que não fez eu preciso acreditar, porque a única coisa que tenho é você e sua palavra. Se você quer garantia maior, que tal começa a pensar na ideia de um relacionamento sé…
“Relacionamento sério”. Era o que ele ia dizer, mas antes que ele cometesse tal loucura, empurrei-o de cima de mim e levantei da cama, indo em direção aos pedaços do meu celular. Estava todo despedaçado e com a tela quebrada.
– Isso, foge! É o que você sempre faz! – Reclamou mais uma vez, deitando na cama e esticando os braços. Ignorei sua provocação, agachei-me pegar os restos do meu aparelho.
Eu gostava de , de verdade. Entretanto, tinha sérios problemas de confiança e não me sentia pronta para apostar em um novo relacionamento depois de uma onda de relacionamentos falhos. Tinha medo de namorar, principalmente com ele. era o tipo de cara que todo mundo queria, ele era demais e eu era… De menos. Encontrar uma Rachel por aí, mais legal e interessante que eu, não seria difícil para ele.
– Dana quer você lá. – Avisei, saindo do quarto e indo para a sala, pegando minha bolsa no sofá. O nosso breve embate havia me deixado suada e cansada.
– Pode, pelo menos, me dar uma carona? – gritou do quarto, a ironia transbordando em sua voz. Revirei os olhos como resposta e bati sua porta da frente com força.
Por culpa dele e de nossa discussão (a mais séria até então), acabei me tornando a pior pessoa no trânsito. Buzinei sem necessidade, fiz barbeiragem, cortei vários carros. Fiquei com raiva de mim mesma no segundo que deixei sua casa. Fui impulsiva, ciumenta e irracional além da conta, liberava as sensações mais estranhas em mim, sentimentos tipo ciúmes que eu não sentia antes e não sabia lidar. Não sabia como dizer que queria ficar com ele, mas não queria namorar, também não queria que ele ficasse com mais ninguém.
Está vendo? Confuso.
Cheguei no meu apartamento ainda liberando adrenalina da discussão anterior. Batendo a porta com força, jogando as chaves no sofá e tirando meus sapatos ferozmente. Era dessas pessoas que se estivesse com raiva, o mundo inteiro teria que perceber que eu estava puta. Dei de cara com Cameron cortando alguns temperos na bancada e usando apenas uma cueca preta.
– Por que você está na nu na minha cozinha? – Questionei, pendurando minha bolsa nos ganchos que ficavam atrás da porta.
– Não estou nu. – Apontou para a cueca e eu revirei os olhos, sem humor para o mal humor constante de Cam.
Dana entrou na sala, acenou com a cabeça para mim e jogou-se no sofá. Olhei para Cam de cueca, depois para Dana toda bagunçada e com os cabelos molhados.
– Vocês transaram? – Arqueei uma sobrancelha e ambos gargalharam com a minha dúvida.
– Caiu molho de tomate na minha roupa, . E além do mais, Dana está na semana vermelha. – Cam fez gracinha, mas me mantive séria. – Ok. Alguém está de mal humor.
– Deixe-me adivinhar… – Dana colocou a mão no queixo, fingindo estar pensativa. – ?
– Quem mais seria? – Abri a geladeira, servindo-me um copo de Pepsi, meu pior vício. Cam reclamou que não aguentava mais aquilo, começando a mexer no fogão.
– Eu estou adorando! – Dana veio sentar na bancada ao meu lado. – Mais uma briga e ele já pode ser meu?
Revirei os olhos e disse que o entregava a ela até pintado de ouro. Ela gargalhou e questionou qual foi a discussão do dia. Comentei superficialmente, porque um dos parceiros de crime de estava ali e nós também não costumávamos dar detalhes de nosso relacionamento para os outros. Cameron logo começou a defender o amigo, contando que o mesmo não tinha feito nada e que ele não tinha visto dar confiança a ela. Sabia que Cameron tinha ido embora cedo, deixando apenas Jack e . Encurralei-o, questionando se estava presente no resto da noite. Ele ficou em silêncio, sorrindo amarelo e causando gargalhadas em Dizzy em sua falha tentativa de ajudar o amigo.
Assim que a campainha tocou, bufei porque já sabia quem era. Amaldiçoei a mim mesma por ter dado uma chave ao rapaz e agora ele não precisava mais interfonar para subir. Aliás, todos nossos amigos agora tinham uma chave. Expliquei que nós não vivíamos em um episódio de Friends e que eles não poderiam entrar em nossa casa quando bem entendessem, que era apenas por precaução. Mas é claro que eu já havia encontrado Cam usando nossa cozinha ou Jack usufruindo de nossos canais pagos mais de uma vez. Quando entrou, parou na porta e fez a mesma pergunta que eu:
– Por que está nu? – Olhou com estranhamento para o torso nu de Cam.
– Não estou! – Cam jogou um pedaço de cenoura em direção a , que pegou-a no ar e colocou na boca.
– Obrigada pela carona! – sorriu irônico quando passou por mim e foi para o sofá.
– Você tem dinheiro, compra um carro. – Ordenei, brava.
– Você não me diz o que fazer, ! – jogou-se no sofá e apontou o dedo para mim.
Vê-lo bravo provocava em mim, no mínimo, seis reações diferentes. Ele ficava bem bonito, era engraçado, fofo, mas também um pouco assustador quando falava um pouco mais firme comigo, apesar de ter certeza que nunca me faria mal algum.
– Então não fala comigo! – Repliquei, batendo em minha própria testa com a mão, angustiada de ter que trazer essa discussão para frente dos nossos amigos.
– Faço o que eu quiser fazer! – Retrucou.
– Sabe qual o seu problema? Você é bonito, então ninguém nunca mandou você calar a porra da sua boca! – Exclamei, afetada com sua insistência em me irritar.
– Sabe o que é engraçado, baby? As pessoas me pagam para abrir a boca! – Rebateu, sem contestação alguma. Eu era ótima em discussões, respostas e deboche, entretanto, parecia ser o parceiro perfeito para me tirar do pódio.
– Eu adoro isso! – Dana soltou uma gargalhada alta, empolgada com nossa guerrinha. Acabou fazendo-nos rir também e amenizar o clima ruim que eu e tínhamos plantado na sala.
O celular de Dana vibrou na mesa e ela logo atendeu. Eu e continuamos nos encarando, mesmo que não estivéssemos mais soltando palavras raivosas um contra o outro. Se nossos olhos lançassem raios laser, aquele lugar já teria explodido. Estreitei meus olhos quando vi que não ia desviar o olhar. Ele cruzou os braços e eu quase me rendi a nossa pequena luta.
Fala sério, quem não perderia para de braços cruzados?
– Alô? E aí, lindão? Tudo bem? Ela está aqui, sim. Espera… – Dana interrompeu minha guerra de olhares com , entregando-me o celular. – , é o Pat.
– Oi, meu bem! – Atendi entusiasmada e mudando de feição imediatamente, o que fez Cam e Dana rirem e reprimir um sorrisinho.
– E aí? O que aconteceu com seu celular? – Ouvir a voz de Pat acalmou meu coração.
Quando eu saí de casa, Pat tinha a voz de um adolescente de 15, agora sua voz grossa e madura, me deixava até um pouco triste. Eu também evitava ver fotos dele nas redes sociais. Pode parecer besteira, mas me doía de verdade. Eu sei que ia um ser um choque quando fosse vê-lo novamente, mas não me importava. Eu era covarde demais para acompanhar a vida do garoto de longe.
Eu tinha esse problema com a distância, não sabia lidar com ela.
– Joguei em um idiota e ele quebrou. – Levantei meus olhos para encarar , que me olhou de volta com raiva ao perceber que eu falava dele. – Tudo bem?
– Estou com um problema. – Meu coração de irmã mais velha já estava pronto para entrar em colapso. – Um cara me chamou para sair.
– Não tem problema um cara ter te chamado para sair, ué! – Olhei para Dana e nós sorrimos uma pra outra. Ela fez “awn” e voltou a falar com . Era o sonho secreto meu e de Dizzy que nossos irmãos fossem gays e se casassem. Não por ser moderno e legal ter um irmão homossexual, porque isso não era nada demais aos nossos olhos. O sonho era haver um casamento e ela entraria para a minha família. Oficialmente.
– Eu não sei se curto caras e também estou saindo com uma garota.
– Fala para ele que você está comprometido, então. – Cam veio com um molho na colher para eu provar e neguei com a cabeça. Foi até e Dizzy, que já faziam careta antes de provar.
– Comprometido é uma palavra forte, . Estou pegando e só. – Pat falou, causando a abertura da minha boca ao ouvir tamanha ousadia.
– Pat! Se você engravidar alguém, arranco suas bolas. – Alertei-o, batendo minhas unhas no granito. – É preciso tomar cuidado! A gente nunca sabe com quem as pessoas transam por aí. – Encarei descaradamente, que forçou uma risada e depois me mostrou o dedo do meio.
– Você anda fazendo sexo por aí, provavelmente. Quem é? – Pat quis saber, mas eu não queria falar de e inevitavelmente enchê-lo de elogios estando na sua frente.
– Não é dá sua conta, bro!
– Ah, então você está transando!
– Pat, esquece minhas transas e me diz qual o problema.
– Estou sentindo sua falta, . – Aquilo definitivamente me pegou de surpresa. Senti meus olhos encherem-se de lágrimas e então desci do balcão antes que começasse a chorar na frente de todos. Fui direto para meu quarto, já sentindo as lágrimas fugirem dos meus olhos. – Eu sei que você não gosta que eu fale, nem te dê notícias do que está acontecendo aqui, mas… Eu preciso.
– Eles estão bem? – Perguntei, me referindo aos nossos pais, já ficando nervosa.
Eu quase não falava por telefone com minha mãe, apenas por mensagens. Com minha irmã, também. Com Pat, eu aceitava uma ligação ou duas, mas meu pai… Ah, o meu pai! Eu não falava com ele por nenhum meio. Quando o visse no próximo natal (já que no natal passado eu e Dizzy não pudemos ir para casa), eu me desmancharia de tanto chorar.
– Sim, eles estão ótimos, não se preocupe. – Suspirou fortemente antes de continuar: – É o Sun, . Eu juro que tentei de tudo.
Sun era um garoto que morava ao lado da minha casa no Jeins. Tínhamos quase a mesma idade, a diferença entre nós é que os pais do garoto sumiram no mundo assim que ele fez cinco anos. O serviço social nunca foi muito presente no meu antigo bairro, nunca atuou com regularidade por lá, então Sun atingiu a maioridade e o sistema nunca soube que ele morou a vida inteira sozinho e na rua. O menino só não morreu porque o bairro inteiro gostava dele e todos o ajudavam, principalmente minha família.
Ele vivia em uma casa minúscula ao lado da minha. Quando criança, sua alimentação era mantida por todos das redondezas, mas os outros preceitos básicos para se viver eram dados por meus pais. Eles o matricularam na escola pública, ajudavam de todas as formas que podiam. Quando chovia forte, ele dormia no sofá da minha casa. Nunca perguntei o porquê. Eu, Clarissa e Patrick sempre vimos o pequeno asiático como um irmão, já que fomos criados praticamente juntos.
O sistema de adoção e o serviço social, nunca se importaram com a situação de Sun. O menino viveu a vida inteira a própria sorte.
– Eu tinha tanta esperança nele. – Joguei-me na minha cama, descrente e triste. Pat nem precisou explicar nada, eu já sabia que Sun havia cedido as pressões da rua. A medida que foi crescendo, Sun foi distanciando-se de nós, cada vez mais inserido na realidade das ruas. Desistiu da escola após falhar em várias séries, deixou de dormir no sofá de casa quando chovia forte, entretanto, nunca nos desrespeitou, nunca deixou de ser um menino gentil. – O Agos tem algo a ver com isso? – Questionei, sentando na cama e abraçando minhas pernas.
Santiago também foi um garoto com quem eu brinquei a minha infância toda, mas ele sumiu da minha vida antes de nós completarmos 15 anos. Foi quando comecei a me interessar mais pelos meus estudos e Agos começou a se desinteressar de tudo. A última vez em que eu o vi, estava a caminho do aeroporto para vir para Hillswood de vez. Nos entreolhamos quando eu entrei no carro de Dana e ele já não parecia o mesmo.
– O que você acha? Por isso você precisa falar com ele! – Pat insistiu.
– Pat, não dá. Ele deve ter passado por uma lavagem cerebral com aqueles caras, nada do que eu fale vai mudar alguma coisa. – Expliquei, sentido meu peito doer quando ouvi o suspiro alto de Pat. – Eu queria ajudar, irmãozinho, mas não acho que seja algo que está ao meu alcance.
– Até nossa mãe já desistiu dele, . – Pat contou e eu fiquei até assustada. Minha mãe criou Sun como se fosse seu próprio filho, então era óbvio que ela tinha fé nele, fé que ele poderia tornar-se uma pessoa melhor. Nesse momento, entrou no meu quarto com algumas roupas nas mãos. Ele me olhou e balançou a cabeça como se estivesse perguntando se eu estava bem e eu assenti. – Ele anda fazendo muitas coisas erradas, ela é compreensiva até certo ponto.
– Eu não vou poder fazer nada até o dia em que possa vê-lo pessoalmente. – começou a se trocar em minha frente e eu sorri ao ver suas costas marcadas por mim. – Até lá, você vai precisar segurar as pontas.
– Tudo bem, . Só queria tentar mais alguma coisa antes de ter que desistir. – Sorri de lado. Patrick era um ótimo garoto, orgulhava-me muito tê-lo como irmão. – Ei, eu encontrei com Haniel na rua semana passada! – Pat contou empolgado e eu revirei os olhos, bufando. Hani foi o único namorado meu que minha família conheceu. Para o meu azar, eles gostavam mais dele que de mim.
Resmunguei um pouco sobre o assunto Haniel, comentamos sobre algumas coisas, fofocamos um pouco e logo nos despedimos. Limpei algumas lágrimas que se acumularam no canto do meu olho antes de virar para encarar .
– Dana imaginou que você ia ficar sensível e não veio atrás de você porque ia chorar se fosse ela. Então ela me mandou porque… Bom, você me odeia no momento. – Revirei os olhos com sua dramaticidade.
– Estou bem. – Disse simplesmente e deitei-me na cama, olhando para o teto cheio de infiltrações do meu quarto. Ficamos em silêncio por um tempo.
Toda vez que alguém do Jeins era citado, eu sentia como se fosse coisa de outra vida. Meu mundo agora era diferente do que costumava viver e era estranho pensar que a vida lá continuava, mesmo que eu não estivesse por perto. Ainda que parecesse que nada tenha alterado-se.
– Sabe, eu estava pensando… , eu mal te conheço. – Murmurou, como se estivesse com medo de expor suas ideias.
– Você sabe quase tudo sobre mim. – Retruquei, ainda sem olhá-lo, distraída. Seu resmungo bravo forçou-me a descer meu olhar até ele.
ia participar de um programa de TV em outra cidade e a única coisa que tinha a seu favor era o empresário e eu não tinha tanta certeza assim de que Tim sabia como combinar roupas. Sobrou para Dana e Cam cuidarem do vestuário dele. já tinha passado da fase de cantor de bar e todo mundo concordava que agora ele precisava de uma equipe.
– Quase tudo? Por favor! – Retrucou, sarcástico, experimentando a segunda camisa que Dizzy o entregou.
– Eu também não sei muito coisa sobre seu passado e aí é que está. É seu passado, , não me diz respeito. – Tentei explicar, tentei manter minha cabeça longe do que estava acontecendo no Jeins e focar em a minha frente, mas não funcionou muito bem.
– Eu não quero saber sobre seus ex-namorados ou sobre as coisas ruins que você já fez, . Eu só acho que deveria saber mais da sua origem, sua família.
– Por quê? – Questionei, mesmo que não estivesse prestando muita atenção na provável discussão que estava acontecendo ali.
– Por que eu não sei nada sobre você. Eu não sabia nem quando era seu aniversário, ! – Vociferou, jogando a camisa em cima da cama. E voltamos para o assunto da primeira discussão da semana.
– Eu também não sei muito sobre você. – Enunciei.
Uma simples menção ao Jeins e ao meu passado deixava-me como se um caminhão tivesse passado por cima de mim, causando em mim um cansaço quase físico, exausta demais para brigar com .
– Por que você não quer saber!
– Que mania absurda de achar que eu não quero saber de você, ! – Rolei os olhos sem muita paciência para o drama dele. Ao ver meu despeito e minha preguiça em relação àquela discussão, ele deu risada sem humor.
– Hoje está sendo um daqueles dias que eu fico em dúvida se vale a pena tentar. – Murmurou, vestindo a camisa inicial de volta, recolheu o resto das roupas e dirigiu-se a porta.
– Tentar o que? – Mesmo temerosa com sua resposta, questionei.
– Nós. – Respondeu, sem hesitação. – Há dias em que eu me pergunto se algo realmente importa para você ou esse “nós” é invenção da minha cabeça.
Dito isso, saiu do meu quarto, deixando-me com o coração na mão. Tentei chamá-lo, mas ele simplesmente me ignorou. Bufei, esfregando meu rosto com força. Eu era mesmo uma idiota. Tinha tanto medo de demonstrar meus sentimentos a que ele achava que eu não tinha nenhum. Queria levantar e ir atrás dele, mas sabia que nada seria resolvido agora. Se fosse até ele, só iriamos adicionar mais uma briga para nossa lista e suas palavras deixaram-me tão zonza e preocupada que outra briga era o que eu menos precisava.
Acabei passando a tarde inteira no meu quarto tentando conseguir algo com Sun, conversei com minha mãe, mas aparentemente ninguém queria mais tanto contato com o menino. E isso me fez questionar o que ele teria feito para conseguir tal proeza.
– Oi? – Dana adentrou meu quarto com uma bandeja em mãos. – Cam fez carpaccio. – Anunciou, apontando para o prato em sua mão.
– Ele desistiu do pesto? – Tirei meu notebook do colo e Dana me entregou a bandeja.
– Estava horrível! Reaproveitamos algumas coisas, mas jogamos fora a maioria. – Rimos com as tentativas constantes de Cam ser um bom cozinheiro. – Porém, o carpaccio está uma delícia!
– Está mesmo! – Respondi, já com a boca cheia.
– Então, você se trancou no quarto e saiu daqui pisando tão forte no chão que quase afundou nosso carpete. O quão sério foi? – Questionou e eu hesitei em responder.
– Ele reclamou que não sabe nada sobre mim. – Enchi minha boca para não ter que dar mais explicações.
– Oh… – Dana pegou uma fatia e mordeu, pensando antes de falar. – Ele está certo. – Rolei os olhos e resmunguei, não querendo ouvir nenhuma opinião a favor de . Como se já não bastasse minha própria mente gritando comigo por ser uma completa imbecil. – Qual é, ! Todos nós percebemos que você não o deixa chegar em você.
– Como assim? Eu o deixei chegar desde o primeiro dia. – Estranhei, buscando em minha mente alguma rejeição da minha parte.
– Não estou falando do físico, . Nós duas sabemos que as coisas com você, por algum motivo, são difíceis e complexas. Mostra para ele o caminho, você deixa o pobre coitado à deriva.
– Então devo assumir que ele estava certo? – Questionei, ainda me recusando a aceitar o que Dana tentava me falar. Ela assentiu, bagunçando meus cabelos. – E quando você vai assumir que está transando com Cameron? – Perguntei, despretensiosamente, jogando um cubinho de tomate na boca.
Os lábios de Dana abriram-se em choque e a mulher começou a deferir tapas no meu braço e ambas gargalhamos. Se Dizzy realmente estivesse transando com Cameron, seria engraçado e também diminuiria uma breve preocupação que existia na minha cabeça, mas que eu decidia ignorar toda vez que ela se fazia presente.

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Confirmando as suspeitas de que Hillswood era minha cidade, o clima mudou drasticamente da manhã para o fim da tarde. Como se refletisse meu estado atual de humor, o céu tornou-se nublado e cheio de nuvens carregadas de chuva. Abri a porta da casa de sem apertar a campainha, aproveitando-me do seu desleixo de só trancar a porta quando estava fora de casa. Pensei estar sendo muito invasiva em entrar sem permissão na sua residência após uma briga, mas sabia que a última coisa que faria era me expulsar.
Retirei minhas botas e alisei meu vestido várias vezes. Minhas mãos tremiam e não só por causa do súbito e inesperado frio que estava lá fora. Joguei meu casaco no sofá e comecei a procurar por pelos cômodos da sua casa. A casa de não era grande, mas era ampla. Minimalista, mas muito lindinha. Olhei pela janela da cozinha e vi sentando no seu pequeno quintal, coberto de roupas e um edredom, com o violão em mãos e fazendo anotações em seu pequeno caderno que eu já tinha visto antes.
Apenas conseguiria magoar o cara mais gentil e amável do mundo.
Abri a porta de vidro e fui em sua direção, meus pés incomodaram-se imediatamente com as pedrinhas geladas por entre meus dedos. franziu o cenho quando me viu em sua frente.
– Como você…? – Tirei o violão de suas mãos, coloquei apoiado ao lado dele e antes dele começar a resmungar, encostei meus lábios trêmulos nos seus lábios gelados. Ele tentou resistir, mas deve ter percebido que eu não desgrudaria meus lábios dos dele, então levou sua mão a minha nuca, deixando-me um tanto aliviada.
Não sei o que faria se um dia negasse-me um beijo.
Ele afastou-me, analisou meu rosto por um minuto inteiro. Deve ter visto em meu olhar o quanto precisava que ele me escutasse, então puxou-me para sentar em uma de suas pernas e respirei fundo antes de começar a falar.
– Eu tenho dois irmãos. Três, na verdade. Um é do primeiro casamento do meu pai. Quase não tenho contato com ele, mas ele foi em um aniversário meu a alguns anos atrás e é muito educado, tem uma namorada incrível. Minha irmã mais velha é a Clarissa, tem 30 anos e é o completo oposto de mim. Ela é loira, alta e extremamente inteligente. Saiu de casa aos 16 anos, o que foi um baque para minha mãe, mas não mudou muita coisa, ela ainda janta com eles quase todo os dias. Quer dizer, eu acho. E tem Patrick, meu irmão mais novo, ele tem 18 anos. Ele é novinho, mas é todo maduro. Sempre foi a frente a idade dele, mas ainda tem muitas inseguranças. Toda minha família é muito apegada e afetuosa, por isso eu não falo sobre eles. É muito doloroso para mim falar sobre eles serem a família perfeita quando eu estou longe. Me dá muitas saudades! Você nunca os viu porque eu não deixo fotos deles à vista… Lembrar que eu não estou com eles agora me dói mui…
O choro fez minha voz falhar e eu não consegui completar a frase. Eu nem havia notado que estava chorando, era oficialmente a primeira vez que chorava na frente de . O rapaz cobriu a nós dois com o edredom e beijou meu rosto ternamente.
– Eu não queria te deixar triste, baby. – Falou suavemente, ainda com os lábios encostados na minha pele.
– Me magoou muito você insinuar que eu não gosto tanto assim de você. – Confidenciei em um murmúrio abalado, limpando as lágrimas finas que desciam pelo meu rosto.
… – Sua voz saiu baixa e ele pareceu muito aborrecido consigo mesmo. Interrompi-o novamente, sem conseguir controlar o rio de palavras que saiam de mim.
– Você diz que não sabe nada sobre mim, mas você sabe. Você sempre pede Pepsi quando saímos para comer mesmo que prefira suco. Você sempre deixa meias na cama quando eu durmo aqui porque sabe que eu sinto frio nos pés. Você cobre meu rosto quando o sol invade seu quarto só para eu dormir mais um pouco. Você sabe o meu vinho preferido, sabe o que eu quero comer e quando quero comer. Você põe um travesseiro na minha bunda quando transamos porque sabe o que me incomoda. Você sabe o que importa, ! E agora eu estou chateada e com frio, só quero deitar na sua cama, me agarrar em você e não levantar tão cedo.
Ainda sem levantar a cabeça, como uma criança procurando por colo, passei meus braços em volta do seu pescoço. Senti seus braços apertarem minha cintura por baixo do vestido. Ele inclinou sua cabeça, passando seu nariz levemente pela curva do meu pescoço, causando-me arrepios incontroláveis. Aproveitei nossa sensibilidade e minha breve coragem para dizer:
– Porque é isso que você é para mim, . Meu aconchego, minha calma e meu caos, tudo ao mesmo tempo. E isso me deixa maluca…

 

 

Ato II – 5. A complicação.
Julho
Hillswood era uma cidade que não apresentava muitas variações climáticas. A temperatura era amena e estável quase sempre, sendo esse um dos motivos pela minha escolha de viver no lugar. Haviam dias que tinham picos de frio ou calor, mas eram casos isolados. Aquele final de semana em especial o calor resolveu aparecer, deixando a agradável HW em clima quase tropical. Os jornais argumentavam que o aquecimento global tinha uma parcela de culpa nisso, mas eu particularmente acreditava que era apenas uma forma do universo de agradecer e honrar o nascimento de . O rapaz nascera no primeiro dia do signo de leão, um dos signos de Fogo cujo Sol é o planeta regente. Por isso não fiquei surpresa ao dar de cara com temperaturas altas no final de semana que tínhamos planejado ir ao litoral para comemorar o aniversário do nosso pequeno astro em ascensão.
Eu não acreditava muito em astrologia e seus afins, mas recorria a qualquer coisa para obter explicações sobre e sua plenitude.
Eu deveria estar “de molho” em uma piscina, sentindo meus dedos enrugando-se a cada minuto. Eu poderia estar em uma praia, sentindo o sol degradando a minha pele. Poderia estar vendo Jack e fingindo que gostam de jogar futebol na areia (ou em qualquer lugar) e/ou ouvindo Camerom fazendo piadas sobre a falta de jeito dos mesmos com a bola ou inventando piadas sujas envolvendo o biquíni vermelho de Dana. Queria estar dentro do mar, sentindo as ondas me embalando e os lábios de tocando-me como se fosse o brinde perfeito. Entretanto, estava condenada a trabalhar até às cinco da tarde, presa em uma sala do tamanho de um elevador, com cheiro de queijo.
alugou uma casa na praia para comemorar seu aniversário e todos os garotos já estavam no lugar, exceto eu e Dana, por culpa minha. Eu teria que trabalhar e não poderia faltar, nem pedir folga. Dizzy falou que não iria sem mim e também não queria que eu fizesse uma viagem de três horas durante a noite sozinha. Então, ela decidiu que iria esperar até o final do meu expediente. Disse que iria ao shopping comprar um presente para o amigo e a ideia de ter que dar algo me deu arrepios. O que eu deveria fazer? Fingir um relacionamento, ser doce e legal? O que dar de presente para uma pessoa que é muito (muito!) mais que amigo e menos do que um namorado? Nós ainda estávamos meio estremecidos por conta das semanas tensas que tivemos. Não conversamos muito após a conversa que tivemos no quintal dele e ele preferiu deixar quieto tudo o que tinha se passado. Como não tocou mais no assunto, eu também me mantive calada sobre.
Quase chorei de felicidade quando finalmente fui liberada do jornal e corri em direção ao meu carro. O sol já se despedia e dava lugar a um céu azulado e alaranjado ao mesmo tempo. Praguejei alto pois o pôr do sol na praia devia estar incrível e eu estava vendo-o de uma avenida dentro de um carro.
Adentrei meu apartamento quase correndo e limpando a gotícula de suor que escorria pelo meu pescoço. Julho e Agosto costumavam ser os meses um pouco mais quentes e andar nas ruas de Hillswood nessa época era terrível, o calor deixava as pessoas irritadas e mal-humoradas. Eu estava irritada e mal-humorada. Tudo o que queria era estar na praia com meus amigos. Dei uma última olhada nas nossas malas em cima do sofá, já devidamente arrumadas e equipadas, joguei minha bolsa de qualquer jeito na sala e fui em busca de Dizzy.
– Dana? Vou tomar banho bem rápido. Se corrermos agora, chegamos antes das nove! – Gritei, indo para o meu quarto. Voltei ao corredor quando não obtive resposta da morena. Fui até o quarto em frente ao meu, para ter certeza que a mesma não estava no shopping, como tinha me avisado antes.
Bati duas vezes na porta entreaberta antes de entrar. Dizzy estava sentada no meio de sua cama, com as pernas cruzadas e o celular apoiado a sua frente em cima de uma almofada de panda. Assim que percebeu minha presença, chamou-me com a mão e colocou o celular no autofalante.
– Não estou entendendo esse seu surto, pai. Eu me formei, estou fazendo o que gosto, até me tornando conhecida no meio de trabalho. É algo que eu sempre quis e vocês me apoiaram. – Dana falava de um jeito choroso. – Não faz sentido me pedirem para voltar agora!
– Dana, te deixamos fazer o que queria. Você está morando em outra cidade, pelo amor de Deus! – Franzi o cenho ao reconhecer a voz forte de Balcio, o pai de Dana. – Não acha que já está na hora de nos agradecer?
Nunca vinham boas notícias ou coisas agradáveis quando alguém da família de Dana resolvia dar as caras.
– Agradecer largando a minha vida? – A voz da mulher já estava afetada, pelo tremor evidente, pude perceber o quanto ela estava segurando o choro. Sentei ao seu lado e puxei sua mão para mim, entrelaçando nossos dedos.
Balcio era o sinônimo de abusivo e desnecessário. Dana acumulava umas boas doses de ansiedade quando o homem resolvia lembrar que tinha uma filha e eu odiava o que eles faziam com ela. Por serem pais adotivos de Dana, achavam que tinha o poder de fazer com ela o que bem entendessem, e até um tempo atrás Dizzy concordava. Achava que deveria mostrar gratidão a eles de alguma forma e aceitar calada era a forma que ela achava o certo a se fazer. O abuso psicológico deixava marcas irreparáveis na garota. Eu moveria o mundo por Dana, voltaria no tempo, faria o que fosse possível para livrá-la daquela cambada de pessoas maldosas.
– Qual o problema? Você sempre gostou de ficar por dentro dos negócios da família, sempre gostou do conforto que nós te oferecemos. Estamos pedindo demais que você simplesmente volte para casa? Não sente nossa falta? – Revirei os olhos com a arrogância e a chantagem emocional que Balcio estava fazendo. Era típico.
– Claro que sinto, pai. O problema é…
– Você viver uma vida boêmia e sem grandes conquistas não é uma vida. Já é uma adulta. Não importa mais as baboseiras liberais que põe na sua mente! – Dana abriu a boca, indignada. Fiz uma careta e meus olhos quase explodiram de tanto que os revirei. O homem simplesmente não conseguia me esquecer e me culpava por seus fracassos como pai.
não tem nada a ver com isso, pai! – Gritou com o telefone e eu a repreendi. – Vocês sempre colocam no meio das nossas conversas! Ela não tem nada a ver com as minhas escolhas e vontades!
O pai de Dizzy nunca fora um exemplo de simpatia comigo. Odiava quando ela me defendia com unhas e dentes, quando ela acabava me colocando antes da própria família. Ele era um homem muito inteligente, habilidoso, mas não sabia lidar com sua própria fortuna, com sua família e principalmente com sua própria filha.
– Dana, eu só estou… – Tentou falar, mas foi interrompido por ela.
– Não! Pai, vê se entende isso: Eu gosto da minha vida, gosto do que eu faço. Mesmo que não estivesse satisfeita, preferiria qualquer coisa a ter que voltar para a vida padronizada que vocês insistem em ter. Eu prefiro qualquer coisa a ser um poço de amargura e arrogância! – Desligou o celular e jogou-se na cama de costas, bufando alto. – Argh!
– Dana! – Surpreendi-me quando ela desatou a falar, desafiando o pai.
Acho que Balcio não gostava de mim justamente por esse motivo. Eu despertava uma coragem em Dana que ela não costumava ter. Passei a influenciá-la a ser uma mulher forte e independente quando percebi que não fora criada para ser assim. Por muito tempo ele achou que eu e Dana tínhamos um caso e se revelou um cara homofóbico e intolerante.
– Não vou voltar, ! Eu gosto daqui, achei que já tivessem passado dessa fase de me querer perto. – Exprimiu, raivosa.
– São sua família, devem mesmo querer você por perto. – Tentei amenizar sua raiva e chateação, mas dessa vez ia ser difícil.
– Não, , sua família te quer por perto. Eu ainda não entendi exatamente o que a minha quer comigo. – Enrolou-se em seus travesseiros e puxando o lençol até sua cabeça, começando a choramingar. – Posso ficar em casa? Quero ficar e chorar a noite toda.
– Podemos arranjar uma desculpa e ficar. Se precisar se afastar, tudo bem, mas você sabe que eu sou sempre contra “choro a noite toda”. – Digo, limpando o rímel escorrido no belo rosto de Dizzy. – Veja pelo lado bom: nós temos a melhor oportunidade de fuga do mundo para hoje mesmo!
– Encher a cara com aqueles idiotas sempre é uma boa ideia. – Sorriu, porém, ainda tristonha. Senti meu celular vibrar no bolso traseiro da minha calça jeans. Sorri ao ver a foto de Jack segurando uma garrafa de tequila no visor do celular.
– E como Jack tem o melhor timing do mundo… – Deslizei o dedo pela tela, aceitando a ligação. – Jack Jack!
– Onde vocês estão? Essa casa está precisando de umas presenças femininas. – A voz grossa de Jack estourou. Olhei para Dana, que olhava para o teto, perdida em seus próprios pensamentos e questões. – Que horas vocês vêm?
– Eu não sei, Jack. – Joguei meus sapatos longe e aconcheguei o corpo de Dizzy no meu. Abraçou-me de volta imediatamente.
– Como assim “não sabe”? – Jack quase gritou. Um breve barulho surgiu, como se o celular estivesse passando de mão em mão.
– Como assim “não sabe”? É meu aniversário, ! – Ouvi a voz de e sorri automaticamente. Não fazia nem uma semana que ele estava longe e eu já estava com saudades dele. Maldito ! – A minha exigência do dia são vocês chegarem aqui ainda hoje!
– Estamos com uns problemas. – Comentei, passando as mãos nos cabelos de Dana. Olhou-me com os olhos cheios de lágrimas. Passei o dedo em suas pálpebras antes de dar chances às lágrimas caírem e encostei meu nariz no dela.
– Mas que porra! Eu vou pegar meu carro e vou aí pegar vocês agora! – Cameron falou pela primeira vez tão alto que Dizzy conseguiu escutar devido nossa proximidade. A voz alterada do inglês causou uma risadinha em Dana.
– Não precisa, nós vamos! – Sentando e limpando o próprio rosto, afirmou. – Nossas malas já estão prontas mesmo.
– Você tem certeza? – Questionei, preocupada. Não queria que ela se sentisse forçada a ir.
– É meu aniversário! – gritou, empolgado. Ele era daquelas pessoas que amava aniversários e parecia uma criança de cinco anos quando o assunto era o seu próprio.
– É aniversário dele! – Dana confirmou, falando em tom de obviedade.
Não demoramos muito a sair de casa após a ligação dos rapazes. Tomamos banho, arrumamos as coisas no carro e saímos. Após três horas de viagem, muitas lamentações, acessos de raiva de Dana por culpa de sua família complicada, cinco playlists no Spotify e muitas ligações de Jack, nós finalmente chegamos ao litoral.
A casa que alugara era bem simples, não muito grande. Tinha as paredes amarelas, dois quartos, dois banheiros, uma cozinha pequena e uma sala menor ainda, mas era extremamente aconchegante. Diferente da casa, o quintal era bem amplo, tinha um deck inteiro de madeira, uma piscina de sete metros e algumas espreguiçadeiras. A casa era em uma ladeira íngreme, não tinha muros e era possível ver a praia lá em baixo, por isso a escolheu. Talvez ela fosse a única em que nós conseguíamos ver a praia mesmo se estivéssemos sentados na cozinha. Chegamos antes das 22h devido à falta de trânsito no nosso caminho. Dana brigou várias vezes durante a viagem comigo e minha despreocupação com excessos de velocidade, mas não parecia brava agora que todos nós já estávamos jogados na piscina e bêbados devido a mistura de várias bebidas.
– Já sei! Eu nunca brinquei de verdade ou desafio! – compartilhou empolgado até demais. – É isso que vamos fazer!
, verdade ou desafio?
– Ah, sou eu! Calma, deixa eu pensar! – Gargalhei, assim como todos também riram. já não estava em suas plenas faculdades mentais e era sempre engraçado quando ele ficava mais bêbado que todo mundo. – Desafio!
– Sempre quis desafiar isso! – Dana confidenciou, gritando antes que alguém se pronunciasse. – Desafio você a beijar a pessoa mais bonita daqui!
Imediatamente minha mente criou a imagem de beijando Dana. Seria muita informação e sentimentos juntos, não sei o que eu faria se isso acontecesse, mas não aconteceu. pulou nos braços de Cameron, segurou seu rosto entre suas mãos e beijou os lábios do mesmo. Todos nós ficamos de boca aberta e começamos a gritar como um bando de loucos, surpresos com o ato inesperado de .
– Me senti pessoalmente ofendido, não vou negar! – Jack reclamou, jogando seu copo para fora da piscina. Eu era a única que estava sentada na borda, então aproveitei para me esticar e puxar o cooler para mais perto da piscina.
– Eu também! Você devia me beijar! – Dana esbravejou. Ainda bem que eu estava de costas para eles, assim ninguém viu minhas sobrancelhas se erguerem. Recriminei-me a sentir algo sobre isso. Estavam todos bêbados e brincando um com o outro, não haveria fundo de verdade algum nisso, certo?
Existe a paranoia e a intuição. A linha entre as duas é extremamente tênue, assim como seus lados. A intuição é sutil, mas ótima em trazer o caos. Intuição e paranoia também são boas em nos deixar alerta no que está acontecendo a nossa volta e pronta para algo que possa vir a acontecer. O lado ruim é justamente esse: diferente da paranoia (que é apenas paranoia), a intuição nos dá quase certeza que algo vai acontecer.
Tudo o que eu queria era estar sendo completamente paranoica.
– Invejosos! – Cam gritou enquanto comemorava e se gabava por ter sido a escolha de . Voltei ao meu lugar à beira da piscina e joguei minhas pernas na água, puxando o cooler para meu lado. Tudo o que eu queria era ingerir mais cinco litros de álcool para ignorar todos os pensamentos que pareciam errados demais.
– Eu não vou nem comentar. – Brinquei e comecei a encher os copos vazios.
– Desculpa, amor. Esse cara mexe comigo! – gracejou e fez um carinho na minha perna. Sorri pelo adjetivo que nunca tinha sido usado comigo antes.
– Você não tem critérios mesmo. – Dana brincou, balançando seus cabelos e esticando seu copo para que eu enchesse.
– Olha quem fala, você já pegou o Jack! – Cameron debochou, jogando água no rosto dela.
– Não fala assim, ele é lindo! – Ela defendeu o loiro, que se aconchegou nela como se fosse um gato, quase ronronando.
– Obrigada, Dana! – Jack agradeceu e jogou água no resto de nós. – Você é a única aqui que me respeita!
– Vamos ser sinceros. Todo mundo aqui beijaria o Cam! – declarou, bebendo um gole de sua bebida e colocando-se entre minhas pernas. Cameron era realmente a escolha mais óbvia. Os lábios inchados, aquele ar britânico e os olhos verdes o davam a vitória.
– Concordo! – Lembrei de uma conversa minha e de Dana a alguns meses atrás. Sabia que ela também lembraria, logo aproveitei a situação para ajudar a concretizar as vontades da minha garota. – Dizzy, verdade ou desafio?
Todos começaram a fazer um “Uh” prolongado enquanto ela pensava. Dizzy olhou em meus olhos por alguns segundos, como se estivesse tentando ler meus pensamentos. Dei uma risada e pisquei um olho para ela, que rapidamente entendeu o que ia acontecer.
– Desafio! – Respondeu e eu abri um sorriso malicioso.
– Beije a pessoa mais bonita daqui. – Ordenei, sem pestanejar. E ela, sem nem me dar tempo de terminar a frase, puxou Cam pelo braço e beijou-lhe.
Todos nós começamos a gritar e jogar nossas bebidas para cima, sem acreditar no que estávamos assistindo. Dana e Cameron se pegando bem em frente aos nossos olhos. Não era de hoje que Dana tinha vontade de dar uns beijos sem compromisso em Cam e eu vi a brincadeira como a oportunidade perfeita para ela. E também… Bom, não tinha mais como negar que Dana estava cultivando uma possível vontade de dar uns beijos em .
Eu só dei uma ajudinha para tirar o que era meu da reta.
– Que noite, meus amigos! Que noite! – ergueu seus braços para cima enquanto ria.
– Eu que o diga! – Cameron exclamou, com a feição abobalhada. Todos nós rimos e continuamos na brincadeira, que agora parecia divertida de verdade.
Cam teve que responder umas perguntas muito indelicadas de Jack, Dana teve que fumar um cigarro inteiro (ela odiava), eu tive que dar um beijo em Jack (sob protestos de e Dana) e o mesmo teve que ligar para a ex namorada, desafio sugerido por . Todos já tínhamos perguntado e desafiado uns aos outros, exceto…
– Ah, não! – Reclamei quando Cam apontou para mim e eu percebi que o único que ainda não tinha sugerido desafios para mim era ele. – Cam é pior que Jack, ainda mais se tratando de mim.
– Calma, pequena . Não sou tão terrível assim. – Afirmou, mas seu sorriso sarcástico só me deixou mais temerosa. Depois de ter beijado Jack, minha cota de desafios estava quase no fim.
– Eu só quero dizer uma coisa. – Dizzy levantou o braço, pedindo a fala. Puxei seu braço de volta. Certeza que Dana vinha com alguma coisa constrangedora como sugestão. – é boa em lap dance! – Alertou e todos começaram a rir. Joguei a cabeça para trás, cobrindo os olhos.
– Cameron, eu acho que não haverá prova de amizade maior que essa! – recomendou, deu um gole na sua bebida e um tapinha despretensioso no ombro de Cam.
– Eu te amo, cara! – Cam deu um beijo na testa de e virou-se para mim com o dedo apontado. Arregalei os olhos, ele ia cumprir o que estava prometendo. – , eu te desafio a dar uma lap dance para o aniversariante do dia, agora! – Decretou sob comemorações e bebidas sendo jogadas para cima.
– Você tinha que falar… – Reclamei com Dana, dando um gole na minha bebida. Apesar de que dançar em cima de não seria sacrifício algum, eu não era totalmente atrevida e sem-vergonha.
– Amiga, estou aqui pra enaltecer seus talentos! – Ela me puxou pela perna, me fazendo cair na piscina. Gargalhei com seu susto e sua tentativa de não me deixar afundar.
– Presente de aniversário, ué. – Jack sugeriu e foi como se uma lâmpada se acendesse em minha mente. Sexo, é claro! Eu finalmente havia achado o presente perfeito para .
– Mas na frente de todo mundo? – Protestei, jogando meus cabelos molhados para trás. – Vocês nunca nem viram a gente se beijando!
– Aceite o fato que você vai ter que rebolar essa bunda em mim, baby… – apontou para o seu próprio colo e eu cobri meu rosto com as mãos, envergonhada com sua escolha de palavras. Todos começaram a gritar e jogar água em nós.
Era engraçado quando falava assim comigo na frente dos outros porque geralmente nós não ficávamos exalando nossa relação e expondo nossa intimidade. Então, imagino que era um pouco surpreendente para nossos amigos nos enxergar como um casal.
– Ainda não é aniversário dele! – Relatei, usando isso como desculpa para não ter que cumprir o desafio.
– Sinto informar, , mas são exatamente 00:05. – Jack olhou em seu relógio e informou. Significava que já era 22 de julho, aniversário de . Dana berrou e jogou-se em cima de . Cameron fez o mesmo e logo em seguida, Jack e eu acabamos nos juntando ao abraço grupal em , que gritava sem parar que seu aniversário havia chegado, finalmente!
A partir desse momento, as coisas começaram a ficar nebulosas na minha mente. Foi o momento que nós abusamos da nossa juventude e ingerimos o máximo de álcool que nosso corpo foi capaz de aguentar. Sabe quando todos já estão muito bêbados, cantando as músicas antigas do N’Sync a plenos pulmões e você já está tão bêbada que fica em dúvida do lugar onde você se encontra? Geralmente essa era a hora em que eu começava a parar de beber. E aos poucos em que a sobriedade chegava, a divagação sobre tudo vinha junto.
Eu ficava bêbada e logo começava a me tornar super ciente de mim mesma e do que acontecia na minha vida. Notei que me sentia ansiosa e preocupada com os rumos que minha vida estava tomando. A minha grande indecisão em relação ao meu futuro profissional estava cada dia mais preocupante. Ainda assim, eu estava bem. Pela primeira vez, a minha vida pessoal estava completa.
A maioria das pessoas acha que tem amigos de verdade, acha que sabe o que isso significa, mas a verdade é que você só sabe o que é amizade depois de conhecer as pessoas certas. Eu olhava para Jack, Cameron e Dana e sentia meu coração preencher-se de carinho e afeição. Era até estranho confiar tanto em pessoas que você não conhece a vida toda e que não são da sua família. E existe aquele momento que todos estão correndo pela praia, provocando um ao outro e um abraço surge no meio do caminho, uma mão entrelaça na sua e o sentimento de amor profundo quase te engole e até assusta. Naquele momento, com a lua iluminando nossos caminhos pela areia branca, nada mais importava no mundo.
E … Ah, maldito .
Ele definitivamente era o maior causador das minhas dúvidas sobre mim mesma e tudo que eu acreditava, mas também era o maior causador da minha ambição. Era culpa dele meu estômago se revirar dentro de mim toda vez que ele me tocava. O causador dos meus suspiros. Eu sempre o queria. Queria tudo o que ele é, tudo o que poderia me oferecer, tudo o que não é. Queria ele de todas as formas possíveis e isso era assustador. Eu sentia urgência em tê-lo por perto e comigo, uma necessidade que nunca sentira com ninguém. E era ainda mais bizarro assistir à atração fatal que havia entre nós acontecendo.
Eu achava que estava obcecada por ele ser absurdamente legal e adorável, por ser tão ele. Achei que poderia ser por causa da sua beleza juvenil demais, que lembrava muito aqueles garotos bonitos que nós vemos na rua, mas parecem existir num mundo alheio ao nosso. Entretanto, afeiçoei-me até pelos seus defeitos, pelos seus erros e falhas. Comecei a dormir mal sem ele ao meu lado, logo eu que dormi sozinha a minha vida toda. Era assustador demais estar completamente completa, por mais redundante e pleonástico que isso seja.
Eram 5h da manhã quando nós percebemos que ninguém tinha condições nem de manter-se de pé, então decidimos ir dormir, planejando voltar para a praia no dia seguinte e ficar horas por lá. Gargalhei ao ver Dizzy e Cam tentando subir as escadas com Jack quase pendurado em seus ombros, tão bêbado que suas pernas não funcionavam. Ia segui-los, para ajudá-los a se acomodar nos quartos, mas percebi que não estava atrás de mim.
? – Chamei um pouco alto. Um “aqui” veio da cozinha. Fui até lá e encontrei sentado na pequena mesa de jantar que havia no meio do cômodo. Franzi o cenho e aproximei-me dele. – O que faz aqui?
– Tentando ficar sóbrio para não vomitar do seu lado. – Deu uma risadinha fofa e bebeu um gole de água. Não conseguia mais controlar meus suspiros e sorrisos perto dele.
– Vamos dormir juntos? – questionei. Posicionei-me entre suas pernas e espalmei minhas mãos em suas coxas. Desde que chegamos, ainda não tínhamos tido tempo de ser um casal, nem de se beijar apropriadamente. Eu estava sedenta por um tempo a sós com ele.
– Não imagino ficar na mesma casa que você e não dormir ao seu lado – confessou. Colocou as mãos em meu rosto e acariciou minhas bochechas. Fechei os olhos, agraciada com sua fala e seu carinho.
– Será que eles não ficam chateados com a gente? – Externei uma das minhas maiores dúvidas.
Eu tinha muito medo de nós sermos inconvenientes sem perceber, tinha receio de que nossos amigos ficassem desconfortáveis com a gente, mesmo que não déssemos tantos sinais de estar juntos.
– Não, eles já teriam dito algo se os incomodasse, você sabe. – Tentou me tranquilizar, acariciando meu ombro. Dei uma risada e acabei concordando.
A intimidade era tanta que nós não tínhamos mais reservas em falar coisas que não gostávamos um no outro. Semana passada, Dana e Jack entraram em guerra porque Jack reclamou do jeito que Dana desligava o celular na cara de todo mundo e ela falou do seu jeito desastrado de comer. E logo nós estávamos naquela cena de Friends, em que um aponta o defeito do outro, esquecendo do maior causador da discórdia, Chandler.
Cameron era o nosso Chandler.
– Você está com muito sono? – Perguntei.
– Nem um pouco, por quê? Vou ganhar minha lap dance agora? – Sorriu malicioso e empolgado, me puxando com as pernas para mais perto dele.
– Não! – Rolei os olhos, rindo. Com a posição em que estávamos, meu rosto estava quase encostado em seu peito. Nossos corpos tocando-se de uma forma sutil, mas eu já sentia nossa pele esquentar. – Assiste o nascer do sol comigo? Não falta muito…
– Claro, será um prazer. – Sorriu docemente e puxou meu lábio inferior com o polegar. – Vamos tirar essas roupas molhadas? Essa areia toda está me incomodando.
– Vamos, mas…Você pode me dar um beijo primeiro? – Pedi do jeito mais dócil e descarado que consegui. sorriu de lado e desceu da mesa, quase me devorando com os olhos.
– Não acho que seja possível recusar um beijo seu, .
Puxou-me pelo quadril e encostou seus lábios no meu. respirou forte e profundamente quando eu mexi meus lábios nos dele, matando toda aquela saudade que nós sentimos um do outro. Tentei falar, mas a boca dele grudada na minha, não deixou. Puxou meu corpo em direção a parede, deixando as mãos bem encaixadas nas minhas nádegas. Quando senti seus dedos no fio do meu biquíni, desamarrando-os sem dificuldade alguma, intervi de novo.
– O plano era só trocar de roupa, baby! Vamos… – Resmungou quando me desvencilhei dos seus braços e puxei-o pela mão em direção as escadas.
O barulho que vinha do quarto ao lado do nosso era composto por gritos de Cam e as gargalhadas de Dana. Eu até já sabia o que estava acontecendo lá. Jack provavelmente estava tão bêbado que não conseguia se mexer e Cam não tinha a menor paciência com ele. As gargalhadas de Dizzy só me confirmavam isso.
– Eu preciso ver o que eles estão fazendo! – Ri e fui em direção ao quarto, mas me puxou antes de eu entrar.
– Não, você precisa trocar de roupa, seu biquíni tá solto! – Articulou de um jeito arrastado e bêbado.
– Amarra pra mim, ent… – Antes que eu terminasse a sentença, puxou a outra cordinha do meu biquíni, fazendo com que a peça caísse no chão e meus seios ficassem expostos. – !
– Está vendo? Você precisa entrar no quarto agora. – Riu como se fosse um menino que tinha feito alguma traquinagem.
– Se você acha que vai transar agora, – Aproximei-me dele e fiz questão de tirar a parte de baixo do meu biquíni em sua frente, sem me importar se estávamos no meio do corredor. – Está muito enganado! – Corri para o banheiro antes que ele chegasse até mim. Se ele conseguisse me tocar, não sairíamos do quarto tão cedo e eu queria muito ver o nascer do sol para deixar que isso acontecesse.
Após tomar um banho cheio de mãos bobas e caricias mais elaboradas, saímos do quarto mais despertos e sóbrios. Colocar uma roupa mais adequada foi um sacrifício e eu quase desisti da ideia de ver o sol nascer. Estava tão cansada, só queria dormir, mas não me deixou nem chegar perto da cama. A casa inteira já estava em silêncio, fazendo-me crer que todos já dormiam, assim e eu poderíamos ser o casal mais grudento possível sem causar constrangimento ou estranhamento.
Sentamos no chão, perto da beirada da piscina, de onde tínhamos uma vista privilegiada da praia. O céu ainda estava escuro e o vento frio maltratava meus pés descalços. estava sentado bem em minha frente e não parava de me olhar nem por um segundo.
– Então… vinte e cinco anos. – Comentei, brincando com as pontas dos meus cabelos ainda molhados, desviando a todo custo do olhar intenso dele. Ele sorriu ao perceber meu acanhamento com seus olhos atentos. Encabulava-me quando ele me lançava olhares mais intensos e eu estava tão tímida que nem parecia que tínhamos tomado banho juntos a poucos minutos.
– Pois é, vinte e cinco anos de vida e você só apareceu nos últimos quatro meses. – Puxou-me para mais perto de si, fazendo minhas pernas ficarem cobertas pela sua calça de moletom grossa, me aquecendo um pouco contra o vento frio que vinha do mar.
– Ei, estamos no tempo certo. Se eu aparecesse na sua vida antes, seria apaixonada por outra pessoa, imagina só? – Sugeri, esticando meu braço e tocando em seu rosto.
– Isso quer dizer que você está apaixonada por alguém atualmente? – Indagou, sugestivo. – Algum cantor de beira de esquina, talvez?
Gargalhei, jogando minha cabeça para trás. Decidi abrir o jogo, pois estava cansada de fingir que não era louca por ele, fingir que não sentia trinta coisas diferentes toda vez que pensava nele e mais quarenta quando ele me tocava. Era exaustivo. Ou talvez eu só tenha decidido fazer isso porque meu teor alcoólico ainda estava alto e eu poderia culpar as bebidas no dia seguinte.
– Ele, na verdade, é um cantor profissional. É tão bom para mim que me faz até questionar se eu mereço. – Afirmei despretensiosamente, olhando para a lua nova destacando-se no céu azulado.
– Ei? – Murmurou, segurando minha nuca e mantendo meus olhos fixos nos dele. – Se vai dizer que está apaixonada por mim, fala olhando nos meus olhos.
– Estou apaixonada por você. – Declarei logo em seguida, vendo a surpresa em seu rosto. Analisei-o atentamente, sua feição suavizou e seus olhos se fecharam. Soltou a respiração, como se estivesse aliviado. Subi minhas mãos em seu rosto e acariciei cada pedaço do mesmo a cada palavra que eu proferia. – É até vergonhoso o quanto eu estou afim de você. Pode ser um erro, pode ser um acerto, mas eu não ligo. Eu só preciso que você saiba disso: eu estou apaixonada por você. Por cada pedaço teu, por cada lado e pelo que você é.
Expirei profundamente, sentindo-me meio tonta. Talvez por conta da bebida, talvez pela exposição intensa dos meus sentimentos que não costumava acontecer tanto. finalmente abriu seus olhos, encarando-me intensamente. Dei de ombros com um sorriso de lado, pouco me importando com consequências da minha impulsividade.
, você é… – , sorrindo, balançou a cabeça. Esfregou seu rosto com as mãos, bagunçou seus cabelos e olhou-me. Sorri pelo seu jeito doce e espontâneo de ser. – Tudo. Você consegue ser tudo. Eu nem consigo completar uma frase, . Você é…
Simplesmente desistiu de expressar seus sentimentos e beijou-me. Emocionei-me com a ideia de que , um compositor, ótimo com palavras e extremamente criativo, perdeu as palavras. Seus lábios eram urgentes sobre os meus e eu já sentia toda aquela saudade que tinha dele se dissipar. Inclinou-se sobre mim e quando eu percebi já estávamos deitados no deck de madeira, entrelaçados um no outro.
– Então, você vai querer sua lap dance agora? – Rimos entre os beijos.
– Põe na conta, eu cobro outro dia. – Puxou minhas pernas para prender na sua cintura e apoiou-se em seus cotovelos ao meu lado. Passei meus braços pelo seu pescoço, beijei seu queixo e fui dando selinhos até sua boca. – Hoje eu só preciso de você assim, comigo.
O nascer do sol daquele dia fora o mais bonito que eu já vi.

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A sede causada pela grande ingestão de bebidas alcoólicas já estava insuportável para Dana. Estava deitada não havia nem cinco minutos, seu porre ainda nem havia evaporado e já estava sedenta por um copo de água bem gelada. Com preguiça de levantar, ela olhou para os lados, pretendendo pedir para alguém ir até o andar de baixo por ela. Porém, aparentemente ela era a única que parecia estar em condições de se mover. Cam estava jogado ao seu lado na cama, roncava tão alto que ela se perguntou como conseguiria dormir ao seu lado por tanto tempo. Jack estava deitado no pequeno sofá que tinha no canto da suíte e ela riu da forma desajeitada que o mesmo estava deitado. O loiro sempre ficava com os piores lugares para dormir.
Tudo seria mais fácil se e não fossem um casal e não precisassem dormir juntos. Nenhum dos dois nunca exigiu nada. Pelo contrário, eles sempre insistiam para dormirem todos juntos. Mas era implícito, eram o único casal do grupo e precisavam de seus momentos. Era como se fosse um acordo silencioso entre todos os eles. e sempre ficariam no mesmo quarto. E era aniversário de . Dana tinha certeza que os dois estavam transando loucamente no quarto ao lado. Isso a incomodava. E ela odiava o quanto isso a incomodava.
As certezas de Dana foram por água abaixo quando ela chegou à cozinha e olhou pela pequena janela, que mostrava a parte de trás da casa e a praia.
e .
Estavam sentados à beira da piscina, um de frente para o outro e com as pernas entrelaçadas. Conversavam baixinho, quase ao pé do ouvido de tão próximos. As mãos dela subiam pelo seu pescoço até seu rosto, acariciava a pálpebra fechada dele com os polegares. Dana pegou-se querendo saber desesperadamente sobre o que falavam. O que ela estaria dizendo que causava tanta serenidade nele? Ele nem abria os olhos, parecia embebido pelas palavras que saiam da boca dela. E Dana não entendia nada daquilo. Não entendeu quando pareceu ter despertado e beijou de uma forma tão bonita e necessitada. Não entendia a urgência dos dois amigos um com o outro e aqueles sorrisos. Ela nunca tinha visto um sorriso daqueles em , nunca tinha visto a amiga passar tanto tempo com alguém e nem ser tão carinhosa com uma pessoa que não fosse ela.
Em meio a sentimentos tão conflitantes, dos quais ela não sabia diferenciar, havia um ali que fazia a sentir nervosa, ansiosa. Um que, estranhamente, só aparecia quando ela olhava para o belo rosto juvenil de .

 

 

6. Agosto é um mês diabólico.
Agosto.
Eu nunca tive certeza do que queria fazer profissionalmente. Por isso, quando tinha quinze anos, fui a uma feira de profissões que aconteceu no centro comunitário do Jeins, distrito onde eu morava. Toda vez que parava em um stand, saia de lá querendo seguir a profissão que me fora apresentada. Lembro que no stand de artes cênicas uma colega de turma falou que a função do ator é mentir bem. Eu mentia muito bem, logo, quis ser atriz. Hoje em dia, eu sei que foi até desrespeitoso o que Gina falou.
Sempre fui curiosa, gostava de aprender coisas novas, minha sede por saber era grande. Pela manhã tinha as maiores vontades do mundo, tipo fazer trabalho voluntário na África. Pela noite já possuía outras vontades ínfimas como aprender a fazer crochê. Eu tentei aprender a tocar piano, mas o tempo acabando rebaixando essa vontade ao esquecimento. Eu também queria fazer bordado e aprender a fazer torta de limão com merengue que dona Ana vendia na rua da minha casa aos domingos. Eu sempre fui o tipo de garota que queria muitas coisas até que algo triste aconteceu comigo. Talvez uma das coisas mais tristes que se pode acontecer com um ser humano.
Eu desisti.
Desisti de ser atriz, do bordado e da torta de limão quando percebi que não tinha amido de milho no armário. De repente, a vida se fez presente, o tempo parecia inexistente e todas as minhas vontades acabaram ficando para trás. Na ânsia de um futuro, a preocupação de ter um emprego, notas boas, uma vida social e todas essas aspirações que tentamos ter, as coisas que não eram essenciais e urgentes acabaram ficando na ilha do “quase”.
– Ele está usando o meu texto. Ele simplesmente copiou e colou o meu texto sobre a união europeia! – Expus o acontecimento ao meu chefe, irritada ao extremo. – Eu juro que deixei os papéis em cima do balcão e… – Senti todo o ar que existia no ambiente acumulando-se na minha garganta quando Ray simplesmente levantou uma mão, sinal claro que eu deveria parar de falar.
Ray, meu chefe, designou a mim a tarefa de entregar uma pasta especificamente nas mãos de Ronald Mayer, o babaca que pedia para ver meus peitos. Eu tinha quase certeza que algum político estava molhando a mão de Mayer para beneficiá-lo em suas matérias, mas tinha que ficar calada. Porém, quando fui entregar os papéis acabei vendo o meu texto sobre blocos econômicos em seu computador. O texto que eu tinha escrito a mão em 20 minutos após assistir uma reportagem da BBC e deixei em cima da mesa enquanto recebia uma entrega de tinta para impressão.
– Deixa eu te explicar uma coisa, . Você é uma porra de uma estagiária. Mayer trabalha aqui há quase 20 anos. Se ele quiser usar seu rascunho como base de texto, ele pode! E sabe o que você faz? Entrega a merda dos papéis e serve a porra do café na hora que eu mandar. – Gritava e apontava o dedo, quase tocando em meu rosto.
Tudo fica mil vezes pior quando você simplesmente não gosta mais do que faz. Eu escrevia textos que ninguém lia e trabalho que não deveria estar fazendo. Era assediada, explorada e agora plagiada. Não sabia que diabos eu estava fazendo com a minha vida. O jornalismo havia tornado-se um fardo pesado demais para mim. Sabia que não devia basear minha profissão inteira em um local de trabalho, que as coisas poderiam ser diferentes fora dali, mas o jornalismo nunca fora uma certeza e ultimamente não era nem mais uma vontade. Minhas frustrações estavam a mil. Eu não tinha uma boa noite de sono fazia semanas, minhas olheiras estavam tão profundas que passei a usar base e pó compacto nos dias de semana. Eu era uma pilha de nervos o tempo todo.
Á alguns dias atrás, me lembrei de meus tempos conturbados na faculdade e do remédio que fora receitado para mim com o objetivo de apaziguar minha situação. Eu fui burra o suficiente para achar que era boa ideia voltar a usar a medicação, com isso acabei tomando os benzodiazepínicos por alguns dias. A medicação causou-me uma intensa confusão mental e eu tenho quase certeza que fora por conta disso que perdi os malditos papéis. Eu não sabia exatamente o conteúdo que continha nele, mas a julgar pelo jeito que Ray tinha mobilizado o escritório inteiro na busca, devia ser coisa grande. Eu até tentei me envolver na busca dos papéis, mas Ray gritou comigo por mais uns 20 minutos e me mandou embora.
Encarei-me no espelho retrovisor do meu carro e desabei em prantos antes mesmo de conseguir sair da garagem do prédio. Exaltada e atormentada procurei em minha mente por respostas ao meu descontrole emocional. Não era TPM, não era estresse, eu estava tão desmotivada, que minha ansiedade e frustração estavam em níveis alarmantes. Eu nunca havia me sentido tão desnecessária, tão inútil quanto estava me sentindo nos últimos dias. Ter que acordar e sair de casa todos os dias era simplesmente difícil. Eu me odiava por isso, odiava me sentir tão fraca por coisas tão pequenas. A última vez que saí com meus amigos foi para um almoço em restaurante e eu só pude ficar por uns 30 minutos. A vida de todos parecia tão mais saudável e tranquila que a minha e eu odiava isso. Odiava vê-los tendo vidas normais e perfeitamente saudáveis.
É possível ser normal e saudável aos 25 anos?
Odiei ter que deixar o local atolada de trabalhos para fazer enquanto todos se divertiam e riam das últimas aventuras sexuais de Jack. Fazia tempo que Dana não tinha tempo para sentar e me perguntar como eu estava. Não que fosse culpa dela, eu também não estava sendo a pessoa mais fácil de lidar nos últimos tempos. Odiava agir assim, sentia-me a pessoa mais mimada e dramática do mundo. Quando me sentia frágil e exposta demais, tinha tendência a me afastar. Com , não foi diferente.
Após voltarmos da praia, acabamos vivendo uma semana de lua de mel, por assim dizer. Nós saíamos quase todos os dias da semana, a gente também transou muito e nunca sentamos para conversar sobre o status do nosso relacionamento. Aparentemente meu breve romantismo e minha doce declaração à beira da piscina fora o suficiente para ele. Tudo estava perfeitamente bem até ele viajar por duas semanas para outro estado. Quando voltou, teve que lidar com uma irritada, impaciente, nervosa e confusa. Eu sabia que ele não tinha obrigação nenhuma em ser legal comigo quando estava sendo uma vadia, então preferi me manter longe naqueles dias para que ele não desistisse de mim permanentemente.
Entretanto, o número dele foi o primeiro que procurei quando sai do Daily.
– Oi, baby. – atendeu no terceiro toque e suspirei quase aliviada só de ouvir sua voz, sempre tão atenciosa.
– Ei, está ocupado? – Limpei as lágrimas do meu rosto, forçando minha voz a voltar ao normal. Não queria que notasse algo de errado comigo.
– Só um pouquinho. Você está bem? – Questionou.
– Anh… Sim. Eu só queria… Sei lá, eu não tenho nada para fazer e preciso me distrair um pouco. – Desconcertada e encabulada, minhas palavras acabaram saindo de forma confusa.
– Agradeço a preferência! – Respondeu sarcástico e eu senti-me pior imediatamente.
– Não! Eu não quis… – Comecei a me retratar e pedir desculpas, mas a risada dele interrompeu meu pesar.
– Calma, , eu entendi! Você pode ir lá para casa. A chave reserva fica presa no interruptor da campainha. O interruptor é solto, você puxa pelo lado… – Parei de prestar atenção nas instruções dele e me perdi nos meus próprios pensamentos por um segundo. Não é possível que fosse tão legal assim. O cara estava ali, de braços abertos e me entregando a chave de sua casa quando eu ao menos perguntei como tinha sido a viagem. – ?
– Oi, estou aqui. Tem certeza que está tudo bem eu ir? – Procurei pela afirmação de que estava tudo certo entre nós.
– Claro que sim! Eu tenho que ir. Vejo você em casa, beijos! – E desligou. Encarei o celular, ainda meio atordoada e surpresa com a boa vontade de . Não estava acostumada com homens sendo bons comigo sem esperar nada em troca.
Dirigi meio desatenta, ainda pensando nas merdas gigantes que vinha protagonizando naqueles dias. A demissão era uma certeza. Na faculdade eu era financiada pelo governo, então não sabia como essa demissão iria ficar aos olhos deles. Mais uma incerteza. Eu nem queria começar a avaliar minhas relações pessoais se não minha cabeça iria explodir.
Quando entrei na casa de , um sentimento bom de acolhimento e saudade me atingiu. Sua casa ainda era a mesma de duas semanas atrás. A cada passo que dava, minha mente materializava as lembranças da última vez que estive no local. Andando de calcinha pela sua sala, pulando entre seus sofás e almofadas por conta de nossas brincadeiras idiotas, bagunçando sua cama da melhor maneira possível. Sorri quando cheguei a seu quarto e notei que ainda haviam malas jogadas pelo chão e que as portas do closet estavam abertas. Imaginei-o saindo de casa atrasado e deixando tudo pelo meio do caminho. Tirei minhas roupas e fui direto para o banheiro, desejando o chuveiro maravilhoso de .
Senti a água quente descer pelos meus ombros, falhando miseravelmente na missão de levar pelo ralo tudo o que me incomodava. Eu estava envergonhada, com raiva e chateada. Ainda sentia toda a angústia presa no meu peito e na minha mente, sentia cada célula do meu corpo constrangida de ter que estar no corpo de uma garota tão chata.
Quando saí do meu longo banho, procurei por uma camisa de dentro do armário e joguei-me em sua cama sem me importar com meus cabelos molhados em seu travesseiro. Era bom demais ficar ali, longe de tudo e de todos, imersa no cheiro dele. Já sentia um arrependimento muito grande de estar ali e não estudando ou fazendo algo produtivo, mas parecia impossível fazer outra coisa. Eu também não gostava de como estava lidando com meus problemas. Nunca gostei de me sentir frágil. O choro havia me deixado ainda mais sonolenta e cansada, logo dormi sem pensar muito no que tinha acontecido.
Senti que adormeci por poucos minutos e acordei com gesticulando a minha frente. Cansada e precisando desesperadamente dormir mais, ignorei-o e virei de costas para ele, voltando a fechar meus olhos e tentando me concentrar na realidade. Toda vez que despertava, ficava muito grogue e não me lembrava de quase nada dos primeiros minutos depois que acordava. Tudo isso fora causada pelo remédio e nas primeiras vezes que tive essa forte reação, decidi parar com o uso. Quando senti que estava sã o suficiente para lidar com outra pessoa, levantei da cama e fui em busca dele. estava deitado no sofá em sua sala e falava ao celular. Ele já olhava na direção da porta do quarto quando saí, como se estivesse esperando por mim.
Gesticulou com a mão, batendo no espaço ao seu lado. Não prestei atenção no que ele falava, apenas deitei ao seu lado, abraçando sua cintura. Ele deu uma risada provocativa quando desceu uma mão para minha bunda e sentiu que eu estava sem calcinha.
– Preciso ir. Eu passei o dia com você, Tom, eu não aguento mais escutar sua voz! – Reclamou, com a voz arrastada. Tomáz era o empresário e produtor de . Ele dizia que Tom era muito competente, mas que também tinham muitas divergências criativas. Eu ainda não o conhecia, mas Jack costumava dizer que o cara era tão chato quanto era bom em seu trabalho.
Comecei a distribuir beijos suaves pelo seu queixo, bochecha e descendo para seu pescoço sem pretensão alguma, apenas curtindo nossa proximidade. Ele fechou os olhos, aproveitando meu carinho e resmungando no telefone.
– Tom, é sério, tem uma garota tentando me beijar agora e você está atrapalhando! – Resmungou, após eu ter apenas encostado em seus lábios e afastei-me.
– É a tal da ? Fala sério, , se ela esperou você até agora, não vai morrer se esperar você resolver isso. – Ouvi a voz alta e ranzinza de Tom mesmo que a ligação não estivesse em autofalante. Levantei a cabeça, olhando para com uma sobrancelha erguida, sorrindo por saber que o empresário dele sabia quem eu era mesmo sem nunca termos sido apresentados. As maçãs do rosto de ficaram avermelhadas.
– Tomáz, boa noite! – Irritou-se, encerrando a ligação de uma vez. Dei risada da expressão emburrada do rapaz. Puxou meu corpo para cima do seu, deixando minhas pernas esticadas entre as dele, abraçou minha cintura com os dois braços e beijou-me lentamente.
– Não queria atrapalhar, desculpa. – Afastei-me e encostei meus lábios em seu pescoço.
– Não atrapalhou, ele só está nervoso com a viagem para Austin. – Puxou a camisa que eu usava um pouco para cima, posicionando suas mãos em minha cintura por baixo do tecido.
– É amanhã? – tinha um show marcado em Austin, no Texas. Todos estavam pirando porque iria ser o lugar mais longe onde iria se apresentar. Ele assentiu levemente. – Você está nervoso?
– Bastante, mas não posso pensar nisso ou então surtarei! – Balançou a cabeça, como se estivesse expulsando os pensamentos. – E você, sonâmbula? Como está?
– Sonâmbula? – Sua afirmação me fez franzir o cenho.
– Sim, fui acordar você hoje e parecia outra pessoa. Só ficou me encarando e voltou logo a dormir. Ou você é sonâmbula ou estava apenas sonhando.
– Ah, devo ser mesmo, não sei dizer. – Respondi confusa com seu relato. – Enfim… Você chegou rápido. Falamos no celular agora há pouco.
, – deu uma risadinha e apontou para a janela, onde o céu escuro mostrava claramente que já não era mais dia. – São quase dez horas da noite.
Fiz uma careta com sua constatação. Estava estranhando muito os novos efeitos colaterais do remédio que estavam aparecendo em mim. Eu tinha tomado apenas por alguns dias, já havia parado á dois, mas tudo ainda estava tão confuso. Eu me lembrava de ter me acordado, mas algo parecia me impedir de falar com ele. Eu o via na minha frente, sabia quem era, mas não conseguia entender o quanto ele era real e não fazia o menor sentido ele ali na minha frente. A ligação que tinha feito parecia ter sido há minutos atrás, quando na verdade já fazia onze horas desde que ela aconteceu.
– Ei, obrigado por me deixar ficar. – Dei um beijo no seu rosto em agradecimento, mudando de assunto logo, pois se pedisse explicações, eu não teria como dar uma.
– Não foi nada. Você me recebeu sem calcinha, . Já estamos quites! – Brincou, beliscando minha bunda. Gargalhei, dando um tapa na mão dele. – Ei? – Chamou, segurando meu queixo para que eu o olhasse. – Está tudo bem mesmo? – Assenti sorrindo e beijei-o mais uma vez.
Sempre que queria uma resposta verdadeira, me forçava a olhar em seus olhos. Aqueceu-me por dentro o fato de que ele realmente queria saber como eu estava.
Era segunda-feira e eu estava cheia de coisas para fazer em casa. Dana já tinha enviado várias mensagens querendo saber minha localização. Eu precisava voltar para casa, então avisei a que tinha que ir embora e ele insistiu em me levar.
– Sério, linda. Você não parece bem e eu ainda estou preocupado com esse seu sonambulismo recente. – Enunciou, enquanto vestia uma camisa. – Não vou deixar você dirigir assim.
– Como você sabe que é recente? – Cruzei os braços, questionando-o. Eu não quis colocar minhas roupas novamente, então coloquei um short que eu havia deixado na casa de , minhas meias e permaneci com sua camisa.
– Dormi com você nos últimos três meses e nunca tinha notado nada. Imagino que seja recente…
Espantei-me com sua fala. Três meses? Eu estava saindo com à três meses? Pode parecer pouco, mas para uma garota com o histórico como o meu, já era o suficiente. Fez-me pensar no meu último relacionamento sério e na sua duração.
Eu tinha namorado Haniel durante um ano, oito meses e cinco dias. Em comparação com o último (e único) relacionamento de Dizzy – que durou três anos –, parecia bem pouco. Mas algo nos meus três meses com parecia ser a mesma quantidade dos meus dias com Hani.
– Três meses? Jura? – Questionei ainda surpresa demais. Eu podia jurar que era menos. Entretanto, quando eu parava para pensar em nós, esperava que fosse muito mais.
– Você deve me achar um idiota por saber a quanto tempo nós estamos juntos, não é? – Indagou. Estava com o sorriso típico de . O rapaz tinha a ousadia de falar certas coisas, mas suas bochechas avermelhadas explanavam o cara doce e gentil que ele era.
– Estamos juntos? – Descruzei os braços e coloquei as mãos na cintura, com as sobrancelhas erguidas. Perguntei de novo, dessa vez apenas para perturbá-lo.
! – Exclamou, revirando os olhos quando percebeu que eu estava claramente o zombando.
– Me leva para casa, baby. – Ordenei, beijando seus lábios rapidamente e jogando as chaves do meu carro para ele.
– Você está bem mesmo? – Perguntou mais uma vez, parecendo genuinamente preocupado enquanto seguíamos para fora da casa.
– Só estou cansada, . – Garanti.
E eu estava mesmo. Fui o caminho inteiro deitada no banco de trás do meu carro e dormi de novo quase imediatamente. O dia inteiro tinha sido um borrão e agora eu estava ainda mais confusa em estar no meu quarto. Apertando meus olhos para ter a certeza que o cômodo em que eu estava era realmente meu quarto, passei a mão na testa, arrancando um post-it que estava preso lá.
“Você apagou de novo. Sério, estou preocupado. Estou escrevendo na sua testa e você nem se mexe. Me liga quando acordar.
.”
A caligrafia torta de fazia-me crer que ele realmente tinha escrito aquilo apoiado em mim e eu não senti nada. Procurei pelo meu celular e não achei. O relógio na minha parede mostrava que já era uma da manhã. Eu estava no meu quarto e definitivamente não me lembrava de ter vestido os meus pijamas. Será que me trouxera? Levantei, ignorando a dor de cabeça, e fui procurar Dizzy na esperança que ela pudesse me dizer o que estava acontecendo comigo, mas nem me atrevi a sair do quarto. Ignorei a sede, sentindo minha garganta ainda mais seca ao ver a cena a minha frente.
Eles estavam sentados um de frente para o outro. Separados pelo balcão da cozinha, inclinados na direção um do outro. Olhavam-se de um jeito diferente, eu não sabia explicar. Não falavam, apenas dividiam um pote de sorvete. Seria algo inocente, se não fosse pelos olhares compartilhados a cada colherada. O sentimento de deja-vú atacou-me ferozmente. Aquilo já tinha acontecido tantas vezes, toda vez parecia a mesma cena com pessoas diferentes.
Um movimento rápido me pegou desprevenida e, pelo olhar surpreso, fisgou também. Dana esticou o braço, limpando com o polegar um traço de sorvete que se acumulou no lábio inferior do cantor. Ela levou o dedo até a própria boca, sugando o liquido e abaixou o olhar para o pote de sorvete. Naturalmente. Como se fizessem isso todos os dias. Soube que eu precisava voltar ao quarto quando notei seus olhos se encontrando novamente.
Fechei a porta com cuidado, evitando fazer barulho para não ser notada. Eu piscava insistentemente, pois não podia chorar. Não ia chorar. Aquela tristeza conhecida instalava-se dentro de mim e mesmo parecendo ser uma velha amiga, eu não podia deixá-la fazer-se presente. Seria fatal para minha sanidade. Parte de mim queria ir até lá e quebrar todo aquele clima que tinha se instalado, mas a outra parte de mim (a parte boazinha) sabia que quando tinha que acontecer, até os ventos sopravam a favor.
Eu acabaria sendo mais uma peça descartável naquela história.
A noite fria e meu coração machucado fizerem encolher-me mais na cama, cobrindo-me quase que completamente. Queria sumir do mundo por alguns minutos. Estava magoada, triste, com raiva e com o ego ferido. E para piorar, o sono tinha se esvaído completamente. Justo agora que eu precisava ficar fora de ar por um tempo. Como queria voltar a dormir, procurei pelo antigo remédio, aquele que me fazia dormir instantaneamente. Engoli a cápsula sem nem tomar água e me joguei na cama.
Não conseguia entender como diabos eu tinha parado em outra história de amor que não era minha. Não entendia como eu tinha acabado presa em um escritório fazendo o que eu odiava. Não entendia minhas notas estarem cada vez mais baixas. Não estava entendendo como, em um minuto, eu estava na casa de , com ele inteiramente para mim. E no outro minuto, eu tinha voltado a ser uma garota solitária e bagunçada, a coadjuvante. Então, algo triste aconteceu: Eu desisti de novo.
Só que dessa vez de algo maior que uma simples vontade. Desistir de algo mais forte que eu seria fatigante.
No dia seguinte acordei grogue, tão zonza que devo ter passado quarenta minutos sentada na beira da cama tentando entender que eu era uma pessoa. Comecei a pensar em como o dia anterior tinha sido um grande borrão e sentia que tinha tido um pesadelo. Encarei a caixinha azul em meu criado mudo, a faixa preta em volta do medicamento quase gritava comigo. Bati a mão na testa várias vezes.
Burra, burra! Eu era uma garota estúpida! Preferia passar por maus bocados e prejudicar minha própria saúde do que lidar de forma racional e madura com meus problemas.
Eu tinha entrado em piloto automático. Com muita dificuldade, consegui tomar banho e arrumar-me para o trabalho. Passar o dia no jornal ouvindo o diretor gritar comigo por conta da perda de papéis do dia anterior fora mais fácil do que pensei. Os efeitos do remédio ainda estavam pelo meu corpo, deixando-me anestesiada. Perder aqueles malditos papéis acabou atrapalhando o trabalho de todo mundo e acabei sendo hostilizada e ignorada pelo resto do dia. Ainda tive que aguentar a arrogância e o desdém do babaca de Ronald Mayer.
Quase suspirei de alívio quando Ray me mandou ir embora mais cedo novamente, mas minha respiração travou e minha cabeça quase explodiu quando lembrei que teria que ir para a universidade lidar com o Conselho que queria minha cabeça numa bandeja e todo o dinheiro investido em mim de volta.
Acontece que a minha faculdade era patrocinada pelo governo e quando eu não atingi as médias altas, passei a ser uma perda de tempo para eles, desnecessária. O Conselho me pedia explicações do por que a queda no meu desempenho e eu não sabia como me defender, como dizer que eu não tinha mais interesses, motivos e vontades. Eu sentia meu estômago revirar, estava com muita ânsia, Minhas mãos tremiam e eu sentia como se tivessem pedras gigantes dentro dos meus bolsos. Tentei esperar minha respiração normalizar para ir, mas quando percebi que nada iria mudar, liguei o carro e saí mesmo assim.
No meio do caminho, eu vi meu pai. Gritava no banco de trás, mandando-me olhar para frente. Ao seu lado, minha mãe chorava e dizia que sentia minha falta. Quando virei para frente, subitamente, já não estava mais a avenida, apenas um policial covarde levantando a mão para me bater. A bofetada dele doeu pelo meu corpo inteiro, então entre a gravação da melodia de uma música inacabada de e alguma canção do Radiohead, senti minha cabeça pesar abruptamente. E eu apaguei.

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– Cameron, cadê você? – Dana gritou irritada e com razão. – Eu já liguei mais de dez vezes e você não me atendia!
Cameron e Dana decidiram ser parceiros em três projetos: dois fotográficos e um audiovisual. Os dois primeiros estavam quase prontos, o terceiro e mais complicado seria trabalhado naquela tarde mesmo, mas Cam estava quase uma hora atrasado e ele quase nunca se atrasava. Dana sabia que havia algo errado, mas não pôde evitar sentir raiva. Aquele dia já estava sendo infernal e mal havia começado.
– Eu sei, Dizzy. Mil desculpas, de verdade. Juro que explico tudo quando chegar. – Ele parecia mesmo estar chateado, então Dana achou melhor não duvidar.
– O estúdio está fechado, não tem como esperar você aqui! – Olhou em volta, vendo todos pegarem suas bolsas e saírem para o almoço mais cedo devido a uma manutenção interna.
– Tem como você ir para a minha casa? As fotos estão lá mesmo. – Sugeriu, quase arrancando seus próprios cabelos, vendo um trânsito infernal se formar na 10ª avenida.
Era quase horário de almoço e o acúmulo de carros naquele horário era normal, mas após perceber que nenhum carro havia se movido, Cam achou melhor olhar no celular para tentar entender o porquê do trânsito estar completamente parado. Segundo um aplicativo, havia acontecido um acidente de carro no início da 10ª, próximo de onde ele estava. Cameron suspirou e não pensou duas vezes antes de entrar em uma rua alternativa para tentar facilitar sua chegada em casa.
– Mas… – A morena tentou refutar, mas foi interrompida pela voz abatida de Cam.
– Eu já estou no caminho de casa, chego logo! – Cameron largou a mão na buzina quando um carro tentou cortá-lo. Já não bastava a noite terrível que tivera, agora tinha que lidar com babacas que claramente compraram a carteira de motorista.
– Tudo bem! – Cedeu, não tinha nada a perder. O dia não estava ruim apenas para Dana, ela notou. Todos estavam lidando com altas doses de estresse naquele dia. Eles só não sabiam que iria piorar. – Como eu vou entrar?
– Tem uma chave reserva debaixo do tapete da entrada. – Informou.
– Ok, você não tem cachorro? – Dana perguntou, preocupada.
– Não. Quer dizer, eu tenho o . – Respondeu rindo e fazendo-a rir também, mas ela sabia que estava longe de ser o tipo de cara que pode ser chamado de cachorro. Despediu-se de Cam e fez seu caminho até sua moto.
Já fazia um tempo que Dana vinha tendo a sensação que estava ocupando um espaço maior que o necessário em seus pensamentos. Desde então, sentia-se incomodada com ele. Exceto na noite passada.
Ela só estava tomando seu sorvete de chocolate tranquilamente, pensando em como o dia seguinte seria corrido, mas assim que ela o viu saindo sorrateiramente do quarto de , não conseguiu não fazer piada. Deveria ser só isso. Eles dariam umas risadas, desejariam boa noite e cada um para o seu canto. Certo? Por educação, ela ofereceu o sorvete. Talvez também por educação, ele aceitou. Após ficarem uns bons segundos em silêncio, iniciou-se uma conversa cheia de risos, intimidade e até alguns flertes. Era inevitável, era um cara lindo, agradável, engraçado e fazia tempo desde que Dizzy tivera uma conversa tão boa. Aquela conversa baixinha, sobre assuntos meio sérios, mas com algumas piadas. Conversa com compreensão.
Conversa olho no olho. Todos os caras que ela conversava nos últimos tempos pareciam tão superficiais, exceto . Agora ela sabia.
Geralmente era a única que Dana conseguia entrar nesse tipo de conversa profunda. Quis se estapear quando percebeu que estava dando em cima do cara que tinha acabado de sair de uma provável transa com sua melhor amiga. Em um dado momento ficaram em silêncio apenas se encarando ocasionalmente. E a gota de chocolate ali, pendurada no lábio dele. Dizzy não sabe o que deu nela para ter a coragem e audácia de limpá-lo e ainda levar seu dedo a própria boca. Fora o contato mais íntimo que tivera com o cantor, e ao notar o olhar surpreso dele e a dimensão do que estava fazendo, ficou nervosa. Desviou o olhar, tentou brincar, mas o estrago estava feito. Ela havia criado um clima. Deu a desculpa que já estava tarde e quase expulsou o coitado do apartamento. E ele, com toda sua educação e carisma, apenas sorriu em compreensão e deu-lhe um beijo na testa.
Seria tão melhor e mais fácil se ele fosse um babaca.
Precisava acabar com isso antes que sua impulsividade falasse mais alto. Era bem verdade que desde o aniversário de , Dana vinha olhando para o rapaz com outros olhos. Não sabia bem o que era, mas sempre queria estar perto dele, chamar sua atenção. Amava quando o rapaz lhe dava toda a atenção do mundo, como no dia na praia em que percebeu uma Dana mais quieta e parou de beber e conversar com todos para perguntar o que lhe afligia. Dana talvez ainda estivesse sentida por toda a discussão com o pai, mas a mão de no ombro dela, acariciando-a enquanto a garota desabafava, fez uma diferença e causou uma mudança de sentimentos inesperada nela.
Quando chegou até a casa de Cam, Tomanzio estava decidida a ignorar qualquer pseudossentimento que ela poderia estar tendo por . E seria até fácil, se o mesmo não estivesse deitado no sofá de Cameron, assistindo TV. Sem camisa. Rindo do Bob Esponja.
Ela pigarreou. Não para chamar atenção dele, mas porque sua garganta tinha ficado completamente seca naquele segundo. Ele a olhou, assustado por uns segundos, mas depois abriu um sorriso, aquele sorriso.
– Oi, Dizzy. – Sentou-se no sofá e diminuiu o volume da TV, olhando-a. – O que você está fazendo aqui?
– Eu vim… Trabalho. Cam. – Ele soltou uma risadinha e se sentiu estúpida por ter engasgado. Dana nunca engasgava, não gaguejava e não se sentia envergonhada. Ela odiou sentir isso, olhar para alguém e se sentir nervosa não era algo que ela queria. Devia ser o contrário. Era como sempre acontecia, afinal. – Ele não me disse que você estava aqui.
– Ele provavelmente acha que eu já não estou mais aqui. – Ela se aproximou e sentou no sofá, mesmo que seu inconsciente estivesse dizendo para não fazer isso.
– Ou ele disse e eu não entendi. – Riu, se lembrando de Cam falando sobre cachorros e citando . – Está fazendo o quê? Espera! Eu sei o que você está fazendo… Você entendeu. – Dana enrolou-se com suas próprias palavras, acabou ficando ainda mais envergonhada. Jogou a bolsa do seu lado e aproximou-se ainda mais de . Sua consciência parecia gritar “saia daí agora”.
Dana ignorou sua consciência.
– Cam tem pacote de canais infantis e eu não. Logo, aqui estou. – Apontou para a TV, onde ainda passava Bob Esponja. Dana achou fofo que ele parecia meio envergonhado. Ela só não sabia se era por causa do Bob Esponja ou por causa dela. Esperava que fosse por causa dela. Deu uma olhada rápida para a TV, mas não estava interessada na ganância de Seu Sirigueijo.
Ela tinha a própria ganância para lidar agora.
– Tudo bem? Como foi no trabalho hoje? – Perguntou, diminuindo o volume da TV e voltando toda a sua atenção a ela.
Dana ouviu fazer a mesma pergunta para há alguns dias atrás e até ousou pensar que ele poderia vê-la do mesmo jeito que via . Sua mente dizia que aquilo não era nada demais, que era apenas educado, mas o seu coração…
Não conseguiu evitar colocar-se no lugar de por alguns segundos, sua mente trabalhou rápido demais. E se fosse ela quem beijasse naquela noite no Carté? Ele a levaria para jantar na beira do rio?
Ficaria acariciando sua perna e colocaria o braço em seus ombros por puro costume? Será que a relação de e era real? Será que eles realmente se gostavam ou só gostavam de curtir um com o outro? Era uma das maiores curiosidade de Dana. Ela via os raros beijos que os dois compartilhavam quando não estavam sozinhos, eram leves e dóceis. Via o carinho que sentia por , via o cuidado que ele tinha com ela. Mas e quando estavam?
Quem eram e quando estavam sozinhos?
, sempre tão atencioso, devia escutar com prazer cada palavra que falava. Ou então , sempre tão carinhoso, também poderia ser o motivo de estarem sempre no quarto. Pedindo perdão pelo termo, senhoras e senhores, mas a curiosidade é foda. O problema é ainda maior quando a curiosidade e o desejo estão de mãos dadas.
Dizzy entrou em um grande conflito interno. A última vez que tinha ficado tão confusa foi com Mitch, o fotógrafo, seu último relacionamento sério. Razão e coração brigavam insistentemente.
O rapaz nunca tinha expressado segundas intenções com ela. Sempre fora respeitoso e gentil, talvez por isso ela estivesse confundindo as coisas. Ponto para a razão.
Mas ele a olhava de uma forma diferente. Toda mulher sente quando um homem a olha diferente. Ponto para o coração.
Ele tinha um relacionamento com a melhor amiga dela. Ponto para a razão.
Ele estava especialmente mais bonito naquele dia. Ponto para o coração. Ele correspondia seus olhares prolongados. Ponto para o coração.
– Me desculpa. – As palavras saíram da boca de Dana em um sopro.
Era isso. 3×2. Se a luta continuasse, a razão tinha mais chances de ganhar e Dana sabia disso, então decidiu parar com a luta enquanto seu time (o coração) estava ganhando.
– Ok… Pelo quê, exatamente? – Questionou, franzindo a testa.
– Pelo que vou fazer agora.
E então, com toda a impulsividade e atitude que só uma ariana pode ter, o beijou. Bom… Tentou. Encostou os lábios nos dele, apressada, mas sentiu o corpo dele se retrair e ela se afastou. A consciência gritava, o coração batia desenfreado. Os olhos confusos de encontraram os castanhos de Dana. Os olhos dele mudaram de direção e passou muito tempo olhando para os lábios dela e ela já estava enlouquecendo com as possibilidades. Ele a olhava muito. O que ela devia fazer? O beijava de novo? Deixava-o tomar alguma iniciativa? Pegava suas coisas e saia dali o mais rápido possível?
– Dana… – Ele iniciou, mas logo foi interrompido.
– Eu pedi desculpas! – Justificou-se antes de ouvir qualquer reclamação. – A gente pode ignorar o que aconteceu, se você quiser. Ou… Sei lá, tentar de novo… Se você quiser. – Já nem tinha mais consciência do que estava falando. Tudo que vinha em sua mente, logo era despejado por sua boca. Ele gaguejou. Também não parecia estar pensando muito bem, não conseguia parar de olhar para os lábios dela. Ela não sabia se estava hipnotizado com seus lábios ou indignado demais para se mexer. Ainda estavam tão próximos, por que não tentar de novo?
Então Dana, com toda sua confiança e atitude, tentou de novo.
Encostou os lábios nos dele de novo. Dessa vez, foi mais suave e durou três segundos. Foi o quanto custou a dignidade de Dana. Pouco para sentir mais dos lábios macios de , mas suficiente para bagunçar ainda mais a cabeça da garota. Também foi o suficiente para despertá-lo.
– Dizzy, espera… – A afastou gentilmente pelo ombro, completamente sem jeito. Suspeitava que seu rosto estivesse prestes a explodir devido a grande quantidade de sangue que estava concentrado lá.
– Ah, meu Deus! O que eu fiz? – A consciência decidiu sair para brincar, deixando-a imediata e irrevogavelmente envergonhada por suas atitudes.
– Calma. – Enunciou, porém, ele mesmo não parecia nem um pouco calmo. As bochechas estavam extremamente coradas e ele mexia incessantemente no próprio cabelo.
– Você deve estar achando que eu sou maluca. Deve achar que eu sou uma vadia, traidora, você…
– Dana, para! – Ele a interrompeu falando forte, quase como se estivesse ficando irritado. – O que foi isso? Por quê?
– E-eu… Eu não sei. Desculpa! – Ela sabia, mas desde que ele não a beijou de volta, achou melhor não compartilhar seus pensamentos. Não estava nem um pouco acostumada a lidar com rejeições.
– Eu estou com a . – não parecia muito certo do que estava falando, talvez nem ele soubesse o próprio status de relacionamento.
– Eu sei disso. – Dana choramingou, jogando todo o cabelo para trás, nervosa.
– Eu acho melhor a gente…
– Esquecer que isso aconteceu? – Ele apenas assentiu, mas como Dana poderia concordar com essa opção se ele não parava de olhar para os lábios dela?
Dana achava que estava confusa até ver que confusão mesmo era o que se passava nos olhos dele, pois ela sabia muito bem o que queria. Ele desviou o olhar, levou as mãos até o cabelo e o bagunçou. Dana se perguntou quantas vezes já tinha bagunçado aquele cabelo, se perguntou se ele já tinha recusado algum beijo dela.
, me desculpe de verdade. Se você quiser eu posso falar com a e dizer que eu fiz merda. – Sugeriu sentindo a adrenalina ir embora, dando lugar a mais pura vergonha. – “Posso”, não. Eu vou falar com ela!
Beijou o namorado (?) da sua melhor amiga. Ela nem tinha certeza dos sentimentos de , não sabia se quebraria sua cara ou simplesmente não ligaria. quase nunca demonstrava o que sentia e podia ser bem imprevisível quando queria, mas ela sabia que isso não era desculpa para nada. Tinha errado e feio! Sentia que tinha traído todos os seus amigos no momento que tinha dado a vitória ao seu inconsequente coração.
– Dizzy, eu… Preciso saber o porquê! – Expressou ainda nervoso com tudo o que havia acabado de acontecer.
– Isso é importante? – Perguntou. Ela sentiu o seu coração, abatido pela luta, acordar.
– Talvez… – Deu de ombros, desviando o olhar e apoiando o cotovelo nos joelhos.
O silêncio instalou-se na sala. Cada um com seus pensamentos e dúvidas. Dana não sabia como explicar algo que nem ela entendia e não entendia porque precisava entender alguma coisa. Ela sentia que seus corpos chamavam um pelo outro, mas toda a moralidade e circunstâncias não deixava que se aproximassem. Dana só queria que a beijasse do jeito que beijava . Queria que ele saísse do seu quarto no meio da madrugada, dormir na casa dele, ter aquela maldita troca de olhares que ele tinha com .
– Eu preciso ir. Não quero atrapalhar seu trabalho com Cam. – Ele nem deu tempo a ela de se manifestar. Saiu em disparada, subindo as escadas. Ela jogou-se no sofá, sem ligar para a postura. Esfregando o rosto com as mãos, pouco se importando de manchar a maquiagem.
“O que eu estou fazendo?” murmurou para si mesma. Ficou alguns minutos refletindo sobre o que tinha acabado de acontecer. Tudo aconteceu rápido, parecia um borrão em sua mente e se perguntou se estava fazendo o mesmo, já que ainda não tinha descido. Antes que pudesse entrar em pânico, a voz urgente de Cam pedindo desculpas tirou-a de suas análises e cismas contraditórias, fazendo-a perceber o rapaz entrando afobado pela porta da frente.
– Sem problemas. O que aconteceu? – Perguntou abatida, sem realmente querer saber a resposta. Só queria fazer seu trabalho e sair daquela casa. Queria se trancar em seu quarto e repassar cada detalhe do que tinha acontecido ali. Não queria esquecer o breve gosto dos lábios de , mas queria esquecer para sempre a rejeição dele.
– O estúdio da HN pegou fogo. – Contou, jogando sua mochila no sofá e dando-lhe um abraço rápido.
– O que? Você estava lá? – Perguntou preocupada e surpresa já que não vira nenhuma notícia sobre isso.
– Não! Não tinha ninguém, mas tinham coisas minhas lá. Aí eu tive que ir fazer milhões de backup, estava cheio de bombeiros, foi uma confusão. – Cam jogou-se no sofá, apoiando a cabeça no encosto do objeto. – Para piorar, o trânsito estava caótico!
– Caramba! Ninguém se machucou? – Questionou, pensando em alguns amigos que também trabalhavam no estúdio.
– Eu acho que não, foi no último andar. Ei, ainda está aqui? – Perguntou, apontando para a TV. Dana sorriu ao ver o Bob Esponja ainda na tela. Achava fofo que os amigos soubessem do guilty pleasure dele. Nunca mais conseguiria ver o desenho sem se lembrar de .
– Já estou de saída. – anunciou, descendo as escadas. Dana tentou ler sua expressão para saber se estava com raiva ou qualquer outra coisa, mas era pura neutralidade.
– Espera. Eu preciso contar uma coisa. – Cam avisou, mas não parecia feliz. – Eu e Nicole terminamos. Quer dizer, ela terminou comigo.
– Terminou? – indagou, surpreso. – A garota que quase te pediu em casamento uns meses atrás?
– Acho que ela está com outra pessoa. – Cam revelou, suspirando.
– Por que você acha isso? – Dana perguntou. Estava mesmo tentando prestar atenção na recente decepção amorosa do amigo, mas seus olhos a traiam e sempre procuravam por . Queria flagrá-lo olhando para ela, mas o olhar dele não abandonou o rosto de Cameron desde o inicio da conversa.
– Intuição. – Deu de ombros. Cam era extremamente observador e perspicaz, não foi difícil perceber quando a namorada começou a se distanciar dele e aproximar-se demais do celular. Das mensagens no Instagram, para ser mais exato. – E é ridículo, sabe? Se ela estava curtindo outra pessoa, porque não me falou logo?
Foi como se Cameron tivesse dando um soco em e Dana. As situações não eram similares, mas a escolha de palavra do rapaz deixou os dois amigos cobertos de vergonha e receio.
– Talvez não seja isso, talvez ela só não quisesse mais namorar. Ou só está confusa demais… – Dana tentou amenizar a raiva aparente de Cam. Queria fazê-lo entender que as coisas nem sempre saem como o planejado. – São anos de namoro, Cam. As coisas não podem acabar assim.
– A gente conversava sobre tudo, nunca tivemos reservas. Se ela fosse honesta, eu não ficaria com raiva. Pelo contrário, ficaria até mais satisfeito. – Explicou, sentindo toda a mágoa e chateação de volta. Quando Nicky pediu para conversar na noite passada, não foi difícil descobrir o que viria a seguir. – Significa que tudo o que vivemos tinha validade, sabe?
– Talvez ela não soubesse, Cam. As pessoas tem o direito de ficarem confusas, oras. – Dana tentou de novo, o rosto retorcido em uma careta.
O momento estava irônico demais e Dana já estava sentindo seu corpo tremer de nervoso. Esperou que comentasse algo para acalentar Cam, mas ele não falou nada. Apenas olhava o amigo com pesar e balançava a cabeça negativamente. A morena percebeu que queria falar algo sobre, mas não na frente dela. Talvez quisesse falar em particular com o amigo ou estava recriminando-a por tentar apaziguar as coisas.
– Eu não sei, ainda não tive tempo de analisar nada, nem sofrer. Eu nem sei se estou triste ou com raiva. Hoje o meu dia está uma bagunça! Eu preciso da , daquele saco de areia que ela tem e vodca, muita vodca. – A menção do nome de estremeceu e Dana. E ambos pensaram o mesmo.
Precisavam de .
Ficaram conversando por alguns minutos na sala. Dana incomodada, parecendo não ligar para nada que não fosse a história de Cameron e o mesmo falava pelos cotovelos. Até que o barulho estridente do celular de Dana os interrompeu. Procurou o celular na bolsa rapidamente e franziu a testa ao ver o nome e a foto de . Ela não costumava ligar, muito menos naquele horário. Mostrou a tela do celular para ambos, quase envergonhada. sentiu seu peito apertar e sorriu levemente quando viu a foto de na tela. A foto parecia antiga já que o cabelo dela não estava tão longo e escuro assim.
– Oi, Cam falou de você ainda agora mesmo, acredita?
Atendeu a ligação sorrindo, mas sentiu o mundo parar quando ouviu a voz de uma pessoa estranha perguntar se ela era Dana Tomanzio, o contato de emergência de .
– Sim, é ela. – A voz de Dana quase não saiu e ela repetiu para ter certeza que a voz do outro lado da linha tinha entendido. A feição séria e a fala da morena fizeram e Cameron atentarem-se a conversa imediatamente. As palavras que vieram a seguir fraquejaram as pernas de Dana, que instantânea e irracionalmente agarrou o braço de Cam, precisando apoiar-se em algo mesmo que estivesse sentada. Ouvia os dois amigos perguntarem o que tinha acontecido, parecendo tão preocupados quanto, mas agora ela já era outra pessoa. Já não era mais Dana cheia de malícia e vontades proibidas, agora ela era pura preocupação, arrependimento e apreensão. – Eu vou, e-estou indo agora. Ela está bem, não está? – Dana perguntou.
As lembranças do dia em que vira a amiga apanhando de um policial inundaram sua mente. Nunca se esquecera da cena e nem como se sentira ao vê-la sendo agredida. Não suportava ver sua amiga machucada, era pequena demais para lidar com toda a agressividade que o mundo a tratava. A pergunta de Dana deixou Cam e em alerta. Eles entreolharam-se, sabendo que nada de bom viria daquela ligação. A voz quase robótica, que Dana acreditou ser de algum socorrista, apenas pediu para ela dirigir-se até o Hospital Geral e desligou.
– O que aconteceu? – Cam perguntou apressado, mas não obteve resposta.
Dana estava concentrada em se manter calma. Não podia enlouquecer. Não agora que tinha que lidar com essa situação que mais parecia ter saído de uma telenovela mexicana. Beijou o namorado da melhor amiga e parece que o universo sabia exatamente como puni-la.
– Dana! O que aconteceu? Foi alguma coisa com a ? – perguntou, falando mais alto para tirar Dana do seu transe.
– Era de um hospital, eu acho. – Tentou responder, mas sentia-se atarantada. – Parece que sofreu um acidente de carro e eu preciso ir ao Hospital Geral.
– Puta merda! Vamos para lá agora! Ela está bem? Acordada? – Cameron puxava seus cabelos castanhos para trás, não acreditando que aquilo estava acontecendo. Sua mente trabalhou rapidamente, juntando todas as informações. Só conseguia pensar na probabilidade do acidente que ele tinha amaldiçoado naquele dia ter sido com . Dana fora bombardeada com perguntas, as mesmas que se fazia enquanto procurava as chaves da moto em sua bolsa.
O chão debaixo de parecia se mover e as paredes pareciam mais próximas, mas ele não se descontrolou. Simplesmente puxou as chaves do carro da mão de Cam e saiu da casa, deixando todos para trás.
– Espera… Eles não me falaram se ela está bem. Será que…? Eles falariam, não é? Se algo pior… – Dana não conseguia completar a frase, não conseguia se mover. Sabia que até alguns minutos atrás estava sendo uma filha da puta egoísta, mas a ideia de machucada a deixou sem chão, sentia que ia desmaiar a qualquer momento.
– Dizzy, olha pra mim! Não dá para surtar agora. – , que já estava quase no carro de Cam, voltou até a porta e segurou o rosto de Dana entre suas mãos, olhando nos olhos marejados dela. – Ela está bem. Tem que estar!
– Tem que estar! – Cameron aproximou-se, puxando Dizzy pela mão e guiando a garota até o carro. Dana assentiu, sentindo seu rosto ainda queimar com o toque de , mas seu interior explodir de preocupação.
Nunca sentiu tanta vergonha e raiva de si mesma. E a certeza que não devia ter saído da cama naquele dia. Dana não era egoísta, não era má. Estava apenas confusa. Nunca faria mal a conscientemente. Amava a garota. Dana costumava dizer que tinha problemas com seus progenitores, não com sua família. Porque era sua família. Ela era tudo o que importava para ela. Tudo o que aprendeu e a maioria de suas qualidades foram exaltadas e descobertas pela amiga. Ela nunca confiou em si mesma, achava-se a pessoa mais desnecessária do mundo até conhecer .
Só de pensar que podia magoá-la por conta de um ato impulsivo, causava-lhe uma dor quase física.

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Sabe quando você tem um sonho tão real que fica em dúvida do que realmente aconteceu quando acorda? Achava que nada do que tinha visto acontecer tinha realmente acontecido até ter ciência de que estava em um hospital. Aí comecei a questionar severamente minha sanidade e tudo que realmente tinha acontecido.
Pisquei várias vezes até sentir minha visão clarear. Era terrível acordar desorientada e em um lugar desconhecido. Sentia muita sede e agonia na minha mão direita. Procurei pela fonte da pulsação e ardência no meu membro e franzi o cenho ao encontrar minha mão completamente enfaixada e imobilizada. Olhei em volta de mim mesma. O branco intenso das paredes, os aparelhos de monitoramento, os leitos vazios ao meu lado e todo aquele clima hospitalar deixou-me apreensiva e logo minha visão começou a falhar novamente. Dessa vez, porém, eu sentia que eram apenas lágrimas. O cheiro de éter me dava vontade de espirrar, mas fazer isso parecia tão dolorido.
Eu só rezava para que não fosse um hospital psiquiátrico, porque sair de um era, no mínimo, difícil. Fiquei encarando o teto sem estar realmente pensando em algo. Minha mente era um emaranhado de confusão e se eu tentasse entender algo, provavelmente enlouqueceria.
? – Uma mulher de voz aveludada chamou-me suavemente. Atravessou o quarto até chegar ao lado da minha maca. Ela vestia um jaleco e estava com uma prancheta em mãos. Um homem de cabelos enrolados seguia atrás da mulher, entretanto suas vestimentas eram diferentes. Supus que ele era enfermeiro e ela devia ser médica. Eu não havia notado a presença deles até aquele momento. – Oi! Como você está se sentindo?
– Não c-onsig… – Tentei falar, mas a minha garganta seca não me possibilitou.
– Vou pegar um pouco de água para você. – O homem se prontificou.
, você está no Hospital Geral. Sofreu um acidente de carro, se lembra disso? – Assenti. Não lembrava, mas quando ela explicou pareceu fazer sentido. – Você está na UTI, mas ia ser transferida para um quarto na enfermaria nesse exato momento.
Tentei organizar minhas ideias enquanto o enfermeiro me dava água. Fora extremamente cuidadoso comigo, usou um canudinho e limpou minha boca quando eu perdi o controle e acabei me molhando.
– Obrigado, você é gentil. – Agradeci, forçando minha garganta.
– Ele é mesmo. – A mulher comentou de cabeça baixa, mas ainda era possível ver um leve sorriso, anotando algo na prancheta. Quando notou o silêncio levantou a cabeça, nos olhando. Eu e o enfermeiro ostentávamos sorrisos tortos por conta da sua sinceridade impulsiva. As bochechas dela adquiriram um tom rosado e ela pigarreou com força. – Pode ir levando-a para o quarto, eu termino as coisas por aqui.
Distanciou-se, parecendo envergonhada. Olhei para o homem ao meu lado que ainda a olhava. Não sorria, mas eu podia jurar que seus olhos estavam brilhando. Elas realmente estão em todos os lugares, as histórias de amor.
– Ela gosta de você – murmurei rouca.
– Você acha? – Olhou para mim, esperançoso. Ergui uma sobrancelha, achando uma graça sua insegurança. Lembrava-me . Pareceu ficar envergonhado e começou a mexer na maca e nos fios presos em mim. – Q-quer dizer, isso não é…
– Vocês ainda vão ficar juntos, relaxa – comentei. Começou a mover a maca pela porta a fora e eu fui ficando subitamente grogue e agoniada com os pontos doloridos no meu corpo.
– Como sabe? Você é um tipo de guru? – Brincou, dobrando em um corredor.
No corredor havia uma parede de vidro onde era possível que eu visse o outro lado da recepção. Vi Cameron, de pé. Falava no celular, parecendo frustrado. Seus olhos perceberam os meus e ele me olhou, sorrindo abertamente. Tentei sorrir de volta, mas meu rosto doeu demais e eu me perguntei como minha face estava. Olhei para o pequeno sofá ao lado da porta de um quarto onde Dana e estavam sentados. Ele estava com um braço em volta dela e ela estava com a cabeça baixa, apoiada na mão. Conversavam baixinho e pareciam amuados e próximos demais.
– Não… – Sentindo todo aquele desgosto de volta ao ver e Dana juntos, expirei fortemente. – Tenho experiência no assunto.
Cam exclamou algo que fez Dana e finalmente saírem de seu mundinho e perceberem que eu estava passando por ali.
Acompanharam o meu caminho pelo outro lado do vidro até chegarmos todos juntos em um pequeno quarto.
– Quase nos matou de preocupação! – Cameron foi o primeiro a se pronunciar. O enfermeiro terminou de me arrumar no leito, conectando acessos em mim e passando algumas informações.
! – Dana correu para o meu lado, segurando minha mão que não estava enfaixada, parecendo muito aflita. também veio para o meu lado e beijou minha bochecha demoradamente. Fechei os olhos, me lembrando da noite passada e isso fez com que eu me sentisse sozinha, me lembrou do quanto me senti sozinha no jornal, que eu havia perdido a reunião com o Conselho, me lembrou de todas as coisas erradas que tinha feito.
Logo eles começaram a perguntar várias coisas que eu não soube responder. Não me lembrava de muita coisa depois de ter saído de casa, porém, as lembranças de meus pais e do policial ainda eram reais e vivas demais em minha memória. Se não tivesse tanta certeza que estava sozinha naquele carro, provavelmente estaria com medo de estar perdendo minha sanidade.
Antes que eu abrisse a boca para responder algo, a médica entrou no quarto e se dirigiu até mim. Enquanto ela tentava chegar até mim, acabou esbarrando no enfermeiro – cujo nome eu ainda não sabia – e eles se entreolharam sorrindo, tímidos. Sorri de lado ao notar a situação em minha frente.
– Boa noite! – Ela cumprimentou as outras pessoas no quarto. Noite!? Há quanto tempo eu estava naquele hospital?
– Se você precisar de alguma coisa, qualquer coisa, pede para me chamarem. Ok, senhorita ? Meu nome é Ed. – O enfermeiro enunciou, sorrindo para mim. Ele realmente era um amor. Agradeci e trocamos uma piscadela quando ele passou pela médica e ela sorriu abertamente para ele.
– Desculpem por não ter vindo antes. – Ela se desculpou, verificando meu soro e anotando algo em sua prancheta.
– Pode nos explicar o que aconteceu? Ninguém nos disse nada desde tarde. – Dana reclamou por alto, aflita, sem se direcionar apenas a uma pessoa. – A última informação que tive foi o horário da cirurgia.
– Eu também ainda não sei o que aconteceu. – Admiti. Minha voz ainda rouca mostrou o quanto eu precisava de água.
Cirurgia?! Que grande merda eu havia me metido!
– Você bateu em um poste na décima avenida. O airbag do carro protegeu você de lesões maiores, porém, causou os hematomas e a dor que você provavelmente está sentindo no seu tronco. – Ela virou-se para mim, explicando tudo. – Foi preciso fazer uma pequena cirurgia na sua mão direita, como você já deve ter percebido. Você torceu a mão e houve fraturas expostas nos seus dedos mindinho, anelar e do meio.
“Você provavelmente vai ter que passar por algumas sessões de fisioterapia para recuperar 100% a mobilidade. Os ferimentos do seu rosto vão sumir logo e pode ser que você sinta dor no pescoço, mas apenas por conta do impacto”.
Assenti de leve. Tentei lidar com as várias informações que o médico me passava, mas só conseguia pensar se o meu seguro cobria a cirurgia que foi feita. Minhas preocupações financeiras ficaram para trás quando a médica chamou minha atenção de novo.
– Agora, , eu preciso que você seja sincera comigo. Tudo bem? Eu estou aqui para lhe ajudar. – Rolei os olhos, já sabendo o que a mulher loira iria falar. A minha vontade era expulsar todos do quarto. Não queria que ninguém soubesse de nada, mas sabia que ia ser inútil. – Nosso procedimento padrão é fazer alguns testes toxicológicos e você não tinha álcool no seu sangue. Em compensação, sua taxa de Metilfenidato está altíssima. Você toma algum remédio ou usa algum tipo de droga?
– Voltei a usar remédios nos últimos dias. Não entendo muito bem o que eles têm a ver com isso. Eu tomava antes normalmente. – Senti todos me encarando. Alguns curiosos, outros me encaravam ferozmente. Algo me diz que esse alguém era Dana.
Se antes eu não queria que a médica falasse na frente de todos, agora eu preferia que ela nunca saísse do quarto. Poucas coisas deixavam Dizzy tão enraivecida e indignada quanto esconder coisas dela.
– Às vezes acontece do remédio simplesmente não servir mais para você. Isso pode ter sido a causa da sua perda da direção, você talvez tenha desmaiado. Lembra-se de alguma coisa? – Explicou pacientemente, olhando-me com aqueles olhos piedosos como se eu fosse uma viciada. Neguei com a cabeça. – Algo como… Alucinações? – Questionou novamente e eu apenas confirmei com a cabeça, não querendo dar muitos detalhes.
Pela visão periférica, pude ver as feições de meus amigos. Cam e pareciam surpresos e preocupados enquanto Dana estava furiosa! Estava de braços cruzados, com a feição dura e respirava profundamente.
– Você vai ter que passar a noite aqui se desintoxicando mais um pouquinho, tudo bem? – Avisou e eu assenti. Mais uma vez, me questionei sobre meu seguro e como aquilo tudo estava sendo pago. – Não quero que você se preocupe, mas a polícia está aí querendo esclarecer algumas coisas com você e um agente de trânsito para saber do carro.
– Eu posso cuidar do carro para você. – Cam se ofereceu e eu agradeci. Nem sabia o que teria que fazer, só estava pensando em como meu carro estava e como eu iria pagar por tudo aquilo.
– E um psicólogo vem falar com você, também. Espero que entenda que isso é importante. – A médica exprimiu, lançando-me aquele olhar. O olhar que as pessoas te dão quando acham que você é doente, o olhar de pena que te dão quando acham que perdeu o controle de si mesmo. O olhar que eu esperava não encontrar em e Cameron.
O olhar que eu tinha certeza que não era o de Dizzy.
A médica logo se retirou após passar algumas informações para Dana, minha acompanhante oficial. Cam foi logo atrás, escutando as instruções da médica jovem demais, que aparentava não passar dos 40 anos. Quase agarrei no jaleco da loira e nos braços de Cam para impedi-los de sair. As chances de Dizzy me matar eram menores com eles estando no mesmo recinto.
– Por que não me disse que tinha voltado a tomar remédio, ? – Dana perguntou com a expressão dura e os braços cruzados.
– Não era nada demais, eu só precisava dormir um pouco. Quando tomava antes, ajudava a me manter calma. Foi idiotice não checar a dosagem, eu não sabia que me faria mal… – Tentei explicar.
– Meu quarto é ao lado do seu. Literalmente! Custava ter ido me falar que estava com problemas? – Ela interrompeu-me.
– Não estou com problemas. – Menti. Não queria piorar as coisas contando que já tinha passado por crises. – Foram só uns dias…
– Aquela porra é quase anfetamina, ! Você quase enlouqueceu da última vez que teve que tomar isso. Não é possível que não se lembre do quão estragada ficava com essa merda. Como pôde ser tão ingênua? Você poderia ter se matado! Você… Não é possível que você não tenha pensado nisso! – Dana falava alto e gesticulando exageradamente, coisa que ela fazia quando ficava muito irritada.
– Não pensei! – Fui sincera. Eu realmente não achei que tudo aquilo aconteceria.
– Você foi egoísta! – O grito de Dana assustou a mim e . Eu sabia que ela estava assustada, mas a reação dela fora mais alterada do que eu pensei que seria e do que era necessário. – Você sempre faz coisas assim, eu…
– Dana! Você precisa se acalmar. – interrompeu Dizzy. Deve ter percebido meus olhos se encherem de lágrimas e que Dana estava começando a ficar fora de si. – Por que não vai pegar um pouco de água? – Sugeriu, tentando manter a calma. Ela foi em direção à porta do quarto quase bufando, mas eu sabia que ela só iria chorar.
– Eu só precisava estudar. Que droga! – Reclamei, sentindo minha boca e garganta secas. Dana olhou-me com a expressão dura e saiu do quarto, batendo a porta do quarto com força. Olhei para , que me olhava com a expressão suave. – Vai brigar comigo também? Por que se for, acho melhor deixar para depois. – Negou com a cabeça e eu desviei o olhar, virando para o outro lado assim que senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
– Tem muita coisa que você vai ter que me contar, mas não agora. – Limpou as lágrimas do meu rosto e sentou ao meu lado. – Eu sabia que você não estava bem ontem.
– Que horas você precisa ir? – Perguntei sobre a viagem dele para Austin, ignorando sua última frase.
– Para onde?
– Austin. Achei que era hoje… – Recordei-me da conversa do dia anterior.
– Era. Três horas atrás! – Contou, como se não fosse algo importante.
– Você precisa ir, então? – Franzi o cenho, confusa.
– Não. Vou ficar aqui com você. – falou em um tom óbvio. Por favor, que ele não tenha feito o que eu acho que fez! – Cancelei o show. Não ia sair daqui enquanto você não acordasse.
– Você é maluco! – Exclamei, desacreditada que ele tenha feito algo assim por minha causa. – Eu acordei, já pode ir agora!
Cancelar uma viagem, um trabalho, um show só por minha causa? Se o tal Tom não gostava muito de mim antes, agora ele me odiaria! Parecia insano para mim ele ter feito aquilo. estava no início de sua carreira, não podia simplesmente cancelar shows assim.
– Agora não tem mais porque, . Eu só ia fazer um show lá e voltar! – Retrucou, sorrindo ao ver meu rosto confuso e indignado.
– E por que você não foi fazer o show e voltou? Eu ainda estaria aqui. – Ainda estava com um pouco de dificuldade para falar, sentia meu rosto tão inchado que mal conseguia abrir a boca.
, nada pode ser feito agora. Esquece isso, vai… – Deu de ombros. Circulou o inchaço em volta do meu olho esquerdo com o dedo indicador. – Parece que você tem um olho roxo!
– Tenho? – Tentei tocar, mas minhas mãos estavam impossibilitadas pelo gesso e pelo acesso venoso em minha outra mão.
– Sim. Está doendo? – Perguntou enquanto passeava com o dedo indicador pelas minhas maçãs do rosto.
– Você não faz ideia do quanto. – Fechei os olhos, aproveitando a paz que as mãos de se infiltrando entre meus cabelos causavam. Eu ainda estava com muito sono e minha mão incomodava muito, mas a presença dele parecia o suficiente para me fazer esquecer um pouco de tudo. Focar em seus olhos era mais cômodo e imediato do que apenas sentir a dor. – Obrigado por estar aqui.
– Eu nunca fiquei tão preocupado em toda a minha vida. Quer dizer, uma vez minha irmã caiu e quebrou o braço, mas nem se compara a hoje. – Confidenciou, falando baixo e aproximando-se mais de mim. – Senti que podia começar a chorar a qualquer momento.
– Ei, eu estou bem. – Sorri de leve. Tirei a mão dele dos meus cabelos e coloquei minha palma sobre a dele.
– Agora eu sei que está, mas teve um momento em que nós não tivemos notícias suas por quase uma hora. Foi assustador, eles só falavam “Ela está bem, já voltamos com mais notícias”. – não olhava em meu rosto, apenas brincava com minhas unhas. Parecia quase tímido ao falar. Sua voz vulnerável me deixou com vontade de chorar. – Você precisa me prometer que nunca mais vai me assustar assim.
Não respondi, pois eu não podia prometer nada.

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Dormi por três horas, que pareceram apenas 15 minutos. Meu quarto foi tomado por policiais querendo falar sobre o acidente quando eu nem tinha aberto os olhos. Também tive que passar uma hora tentando convencer o psicólogo que eu não era maluca, nem tinha tendências suicidas, só era uma garota meio idiota que ficava ansiosa e triste frequentemente e achou que tinha o corpo blindado contra drogas lícitas.
Os policiais logo me deixaram em paz, entenderam toda a situação e me desejaram melhoras, mas o psicólogo não ficou muito convencido de que eu estava em pleno uso de minhas faculdades mentais e exigiu que retornasse a minhas consultas, alegando que eu não conseguiria voltar a viver normalmente sem acompanhamento. Eu concordei plenamente com essa parte, então a ameaça do profissional dizendo que contataria a assistência social se eu não seguisse suas ordens foram desnecessárias.
Cameron foi quem cuidou do meu carro e toda a papelada do seguro. Ele contou que já tinha batido o carro várias vezes e sabia como lidar com essas coisas. Meu carro estava com a frente destruída e eu já estava lidando e aceitando a ideia de começar a andar de ônibus. Jack, que estava fora da cidade, não descansou enquanto não me viu (viva) por meio de uma chamada de vídeo. Dana não falou comigo pelo resto da noite, mas também não saiu do meu lado.
Os três acabaram dormindo no mesmo quarto que eu. Não sei como isso foi possível já que eu tinha quase certeza que a política do hospital não permitia. Insisti para que todos fossem para casa, mas fui completamente ignorada. Dana dormiu no sofá, Cam e dormiram no chão. jogou todo seu charme em cima da enfermeira para conseguir mais de um lençol. Para falar a verdade, ele passou mais tempo sentado ao meu lado do que dormindo.
Eu não estava nem ligando para a agulha enfiada no meu braço, do medicamento que passava nela que doía feito o inferno, não ligava se ia ser expulsa do hospital por causa dos três idiotas jogados no chão, se minha mão ia voltar a funcionar ou não. Agora só uma frase, dita por Cam, rodeava em minha cabeça:
“O cara do seguro disse que o carro está no nome do seu pai, ele já foi contatado”.
Eu não dava nem dois dias para que meus pais chegassem à cidade desesperados, achando que já estava falecida.
Eu não fazia ideia do que dizer para eles, nem se ia contar sobre os remédios. Minha mãe sempre foi muito preocupada com minha saúde mental, ia me fazer voltar a frequentar o psiquiatra, me levar à igreja e era capaz até de se mudar para morar comigo.
O segundo dia foi pior do que o primeiro. Eu estava ainda mais inchada, meu olho esquerdo estava quase fechado de tão inchado, parecia que todos os meus dedos tinham sido arrancados da minha mão e eu estava irritada demais por estar dependendo de Dana, e Cameron para tudo. Eles até criaram um sistema. Dana me ajudava no banho, me vestia e Cam me ajudava a comer, já que eu não tinha habilidade alguma com a mão esquerda.
Pela tarde, quando o celular de Dizzy tocou e ela fez uma careta estendendo-me o aparelho, eu sabia que eram meus pais. Tinha mandado uma mensagem para meu pai falando sobre o carro batido, mas Dana contou que eu estava no hospital. Claramente uma pequena vingança por ter escondido coisas dela. Fui bem sucinta na ligação e deixei claro que estava tudo bem, mas é claro que não adiantou de nada.
Quando contei como tinha acontecido, minha mãe gritou e eu ouvi uma breve discussão entre meus pais e meus irmãos. Não entendi muita coisa, mas acredito que eles estavam apenas tentando impedir minha mãe de sair e comprar uma passagem de ônibus já que ela não andava de avião.
Passei quase uma hora no telefone com cada um deles. Patrick só queria saber se o carro estava bem, Clarissa pediu uma foto de cada parte do meu corpo (e chorou quando viu os hematomas grandes e roxos no meu peito). Meu pai me pediu um bom motivo para impedir a mãe de vir até mim já que ele queria fazer o mesmo, mas era impossível, era início de semana, o dinheiro estava escasso, o semestre estava longe de acabar e tudo que eles menos precisavam era faltar no trabalho por causa de uns dedos quebrados.
Mamãe foi a parte mais difícil. Ela chorou, brigou, pediu para conversar com Dana e passou meia hora no telefone com ela. Falou com e Cam e para ter certeza e pediu foto deles também. Deu em cima de Cam descaradamente, falou com eles por mais 10 minutos, chorou mais uma vez, queria que eu prometesse que não ia morrer. Até que meu pai a fez desligar, pois a conta do telefone viria exorbitante.
Tive que insistir e implorar muito para os médicos do plantão, mas fui liberada do hospital um dia depois. No caminho de volta para casa, Dana me fez contar tudo o que tinha acontecido desde o primeiro dia em que eu voltei a tomar remédios, cada detalhe dos meus dias e sobre como eu me sentia em relação a tudo. E eu contei, já que ela não ia descansar enquanto não soubesse de absolutamente tudo. Apenas omiti a parte sobre ela e estarem de romance pelas minhas costas e isso me incomodar.
Ela ficou bastante chateada com a minha omissão das coisas, perguntou se eu não confiava mais nela e coisas do tipo. Fiquei extremamente chateada por tê-la deixado chateada. Pedimos desculpas uma para a outra apesar de ela parecer muito mais arrependida e culpada do que eu.
Desde que cheguei do hospital, passei o dia inteiro deitada no sofá. Dana preparou alguns lanches e eu insisti para que depois disso ela fosse descansar um pouco. Algumas horas depois, chegou. Ele me ajudou a comer e depois começamos a assistir séries. Deus abençoe a Netflix.
Bocejei. acariciava as minhas têmporas, causando-me mais sono. Despertei do meu quase início de sono quando Dana saiu do quarto. Ela pareceu confusa em seguir adiante ou voltar para o quarto assim que me viu deitada nas pernas de . Lançou-me um sorrisinho e foi em direção à geladeira, provavelmente indo preparar seu jantar.
Sou muito intuitiva em relação a absolutamente tudo na minha vida e não foi difícil sentir um clima diferente se instalar na sala.
– Ei, estamos vendo How I Met Your Mother! Aquele episódio que você gosta. – Comentei, apenas para quebrar o sentimento estranho que se instalou dentro de mim. Ela apenas sorriu e assentiu. Eu fiquei em alerta, pois Dana nunca fica calada quando o assunto é How I Met Your Mother, sempre tem algum comentário a fazer. Na verdade, Dana não fica calada nunca.
Voltei minha atenção a TV, quer dizer, apenas fingi que voltei. Meus olhos foram chamados para o reflexo de um porta-retrato que tinha ao lado da TV e assisti o momento em que mordeu os lábios apreensivo e virou o rosto para olhar Dizzy.
1 segundo e ele continua olhando. Na TV, Ted Mosby fala algo sobre sempre seguir sua intuição.
4 segundos e ainda vejo apenas o perfil do seu rosto pelo porta-retrato. Será que ela está olhando de volta? Eu sinto que está. Eles estão se encarando ou o que? Estão “conversando com o olhar”? O que aconteceu depois que eu apaguei? Ou foi antes? Será que aconteceu algo naquela noite?
5 segundos e ele volta a olhar para a TV.
Os trovões lá fora me assustam e eu aperto meus pés um contra o outro, sentindo o vento frio me atingir. Talvez não só o vento me atingiu. Eu não sinto raiva deles individualmente, sinto raiva da situação em si. Sinto raiva de sentir que algo aconteceu e não saber o que é. Sinto raiva por isso me atingir mais do que deveria. Sinto ciúmes, sim, mas quem não sentiria?
– Está com frio? – perguntou, tirando-me dos meus devaneios.
– Só um pouco.
– Posso pegar um cobertor, se você quiser… – Ofereceu solícito.
– Está tudo bem, . – Respondi meio impaciente. Não queria ser grosseira com ele, mas não entendia.
Se queria Dana, por que sempre fora tão carinhoso comigo? Por que ele simplesmente não parou de me ligar? Por que não a chamava para sair ao invés de mim? Será que eu preciso deixar claro para ele que tudo bem ele se interessar por outra pessoa? Entrei mais uma vez no dilema do “mocinho principal”. Eles sempre confundem tudo e demoram pra perceber o que realmente querem. Será que esse era o caso de ? Por que, cá entre nós, eu ainda não conseguia entender como ele ainda estava comigo. Eu era um verdadeiro desastre, não conseguia manter um relacionamento. Eu nem sabia se nós tínhamos um relacionamento. Só esperava que não ele estivesse comigo por pena. Ou talvez ele só quisesse uma foda fixa. Ou na melhor e pior das hipóteses, ele realmente gostava de mim.
A questão é que depois de passar três dias no hospital dormindo em uma cama insuportavelmente dura, eu só queria minha cama. Com nela, de preferência. Então resolvi que iria usar o cartão “sofri um acidente e estou frágil” naquela noite. Não hesitei em perguntar:
– Dorme aqui hoje? – E ele não hesitou ao responder.
– Você nem precisava pedir, eu ficaria de qualquer jeito.
Antes dele, eu nunca tinha chamado alguém pra dormir comigo em minha própria casa. Quase nunca tinha casos de uma noite para levar para o quarto e também não tive namorados nessa cidade. A minha parte maldosa esperava que Dana tivesse escutado, queria que ela tivesse consciência que ainda estava ali, que era para mim que ele havia dito “sim”, que era comigo que ele dormiria. Outra parte de mim gritava que eles iriam se agarrar pelo apartamento enquanto eu dormia. Outra parte de mim, uma bem pequena, queria que isso acontecesse mesmo porque assim acabava logo com essa angústia em mim.
Tinham tantas versões de mim mesma gritando dentro de mim e eu só desejava voltar a minha antiga medicação. De preferência, com a dosagem errada mesmo.