Tastes Like Love

Tastes Like Love

Sinopse: A parte mais difícil de qualquer mudança é a adaptação ao novo. Fazer com que seu corpo e mente abracem e aceitem as diferenças como uma forma de evoluir, tornando mais fácil a adequação. Sem dúvidas, tudo se torna menos assustador quando se tem as quantidades exatas dos ingredientes necessários para uma receita de sucesso. Quem dera fosse tão fácil encontrar essas proporções na vida quanto na cozinha! Essa é uma história para quem busca o verdadeiro sabor do amor (que com certeza é doce).
Gênero: Romance.
Classificação: 16 anos.
Restrição: Insinuações de sexo.
Beta: Thomasin.

Capítulos:

 

Capítulo 1

A parte mais difícil de toda mudança é a adaptação ao novo. Fazer com que seu corpo e mente passem a abraçar e aceitar as diferenças como uma forma de evoluir e tornar mais fácil a vivência. Para , isso era bem claro. Seriam passos que ela teria que seguir até se encontrar naquela nova realidade. Ela repetia em sua cabeça como um mantra essa sequência para evitar que toda a sua ansiedade e hesitação se mostrassem nas primeiras horas que pisasse na nova cidade (e na nova vida) que ela se deparava.
Afinal, havia sido ideia única e exclusivamente dela essa reviravolta na sua não tão pacata existência. Trocar sua cidade natal que abrigava praticamente toda a sua história e as pessoas que amavam por uma que não possuía um shopping seria desafiador – e assustador – se fosse admitir para si mesma no fundo da sua mente. Sua amada Nova Iorque era o oposto de Hanover, conhecida por seus famosos concursos de bolos e por sua vida tranquila, da forma mais interiorana possível nos Estados Unidos. Mas era o que ela precisava para colocar sua vida e seus pensamentos em ordem.
Durante todo o seu percurso de quase quatro horas dentro de seu carro, tentou se lembrar de todos os pontos positivos da sua jornada. Ela iria, finalmente, abrir a sua própria doceria e poderia fazer tudo o que sempre sonhou. Iria se tornar uma mulher independente financeiramente, enfrentaria os desafios da vida adulta sem a ajuda de seus pais e faria sua tia orgulhosa por investir sua herança no que elas sempre quiseram. E, de quebra, ainda poderia participar de um dos maiores concursos do país para alcançar o sucesso como confeiteira. O medo, a ansiedade, o nervosismo e até o pessimismo, não teriam vez contra essas constatações tão óbvias.
Por isso, quando saltou de seu carro e respirou o ar de Hanover pela primeira vez (que para ela muito se assemelhavam ao cheiro da cozinha depois de um bolo de laranja), ela pôde finalmente vislumbrar sua nova vida e sentiu no fundo do seu coração a faísca de que aquilo poderia sim dar certo. Trancou a porta do carro e se encaminhou, calmamente, para o estabelecimento que possuía uma placa de “Aluga-se” na sua fachada pouco convidativa. Sendo bem sincera, não era lá o que ela esperava pelo o que viu nas fotos e nos anúncios da internet, mas sabia que não podia esperar muito pelo preço que estava pagando.
De longe, conseguiu avistar um homem encostado em um dos postes com uma postura claramente exausta e que carregava um molho de chaves em sua mão. Aproximou-se devagar, sem querer demonstrar a tamanha inquietação para finalmente vislumbrar aquilo que seria seu negócio. Além disso, queria se mostrar uma pessoa centrada e confiável. Ao perceber que o homem não notara sua presença, deu um pequeno pigarro, apenas para chamar a atenção daquele que seria o seu próximo senhorio por doze meses (com a possibilidade de extensão de contrato, caso tudo ocorresse da forma que planejara).
Assim que ele notou sua presença, curvou seu corpo de forma a dar meia volta e para ficar de frente para aquela que seria a sua nova inquilina. Pelas poucas (e evasivas) descrições que seu irmão tinha lhe dado sobre a mulher que encontraria naquela sexta feira, não esperava que fosse encontrar quem encontrou. Veja bem, ainda que estereótipos não estejam mais na moda, quando se tem notícia de uma nova iorquina de 24 anos com dinheiro o suficiente para seu próprio negócio, as expectativas são bem baixas para quem tanto ama a vida do interior. Por isso, a surpresa. A mulher que se encontrava na sua frente não aparentava nenhum tipo de superioridade ou boçalidade tão típica das pessoas da cidade. Na verdade, apenas pela sua postura e a forma que seu sorriu se abriu, conseguia sentir que existia tão mais ali do que ele esperava.
Talvez pela forma como o olhou com uma intensidade poucas vezes vista por ele ou pelo brilho no olhar que não era comum por ali, ele sentiu um fascínio inexplicável por ela. Ainda que já tivesse tido sua parte de mulheres na vida, hesitou um pouco pelo deslumbramento. Era quase como se cada parte do corpo dela estivesse em sincronia, suas curvas, seus cabelos e até mesmo o seu rosto. Não que ele fosse um apreciador ou conhecedor de arte como desejava ser, mas ainda assim, era como se a mulher à sua frente fosse uma relíquia de tão precisas que eram suas formas. Decerto, a pausa que ele fez antes de se recompor e se apresentar tinham a ver com isso, apesar de ele não admitir a si mesmo.
– Hãn… Dereck, eu suponho? – perguntou, quebrando o silêncio que havia se instaurado entre os dois. Ela torcia para que não ficasse claro na sua voz o deslumbramento que sentia. Não se considerava como uma mulher que se impressionava fácil com a beleza de outro ser, afinal, morar em Nova York era o mesmo que encontrar um galã de Hollywood semanalmente. Porém, a forma como as linhas se encaixavam no rosto do rapaz quase como houvesse sido esculpido eram de fato uma afronta a qualquer um. O seu maxilar desenhava sua face de forma magnifica, impondo de forma esplendorosa a sua presença. Além disso, seus olhos eram de um tom nunca antes visto por ela, mas ainda assim tão familiares e acolhedores que era um privilegio ser encarada por eles.
– Na verdade, esse é o meu irmão. – Ele finalmente se pronunciou e Diana teve certeza de que era quase como se a voz dele fosse certa para todas as melodias que existiam, tão grave e tão suave ao mesmo tempo que parecia um ultraje ouvir qualquer outra coisa. – Meu nome é . Derek cuida dos negócios e eu geralmente cuido da parte física dos empreendimentos.
– Entendi. – Assentiu. – Então, , prazer. Me chamo . – ela estendeu sua mão para cumprimentá-lo, e, ainda que possa parecer o modo mais clichê possível de descrever o toque entre dois corpos vivos, apenas uma corrente que conduz de forma tão enérgica o pequeno gesto parece apropriada. Obviamente, a interação era bilateral.
– É… Então, bem vinda à Hanover. Vamos entrar para que eu te mostre tudo? – ela acenou em concordância e mais uma vez volveu seus olhos para a fachada daquele lugar que seria o seu novo trabalho. Sentia seu coração palpitar mais forte e, de forma automática, respirou fundo como se estivesse se preparando para adentrar num terreno de guerra. achou engraçado e soltou um riso quase que inaudível. – Vem, dentro é muito melhor do que fora.
Ao ser conduzida para dentro depois que ele destrancou a grande e imponente porta branca que a separava do seu futuro, constatou que realmente era muito melhor. Apesar da fachada sofrida pelas intemperes do tempo, o local que se encontrava tinha seu charme e suas qualidades. Suas paredes estavam intactas, sem fissuras e infiltrações aparentes, e estariam ainda melhores com uma simples pincelada. As mesas e cadeiras, que apesar de serem claramente do século passado, aparentavam segurança e graciosidade. Além disso, as portas e janelas bem conservadas. Suspirou aliviada e agradeceu mentalmente a si mesma por não ter caído em uma roubada, tão temida por si mesma e seus pais. Existia, sim, um grande trabalho a ser feito – isso não se pode negar -, mas reconstruir era muito mais fácil e barato que construir do zero. É, aparentemente, o sentimento dentro do seu peito era de que as coisas dariam certo.
– Pois é, muito melhor. – seu sorriso aliviado deixou claro seu contentamento. – Inclusive muito daqui tem potencial para continuar onde está. – Ela olhou para ele e sorriu, enquanto passava a mão pelas mobílias que se encontravam no salão, tentando sentir e absorver tudo o que estava ao seu alcance.
– Meu irmão comentou que você pretende transformar isso em uma doceria, não é mesmo? – perguntou ao mesmo tempo que puxava uma cadeira que estava no caminho de enquanto ela se movimenta para trás sem perceber. Assim que ela percebeu, lhe sorriu agradecida.
– Isso, essa é a ideia. – Mas no momento, sabia que já havia deixado de ser uma ideia e se tornado realidade. Ela já conseguia vislumbrar as cadeiras tom de dourado que se espalhariam pelo salão, as cortinas brancas devidamente amarradas nas janelas, a cozinha industrial que via em revistas de culinária e bancada com todas as suas obras para serem expostas. Estava tão perto que bastava um pequeno esforço para ouvir o barulho do timer de seu forno ou o cheiro de seus cupcakes.
– Hanover é bem conhecida por seus bolos e seus cozinheiros. – falou enquanto acompanhava concentrar toda a sua atenção na bancada, como se ela estivesse visualizando algo que ainda não era visível para meros olhos humanos. Quando ela voltou sua atenção para ele, ergueu sua sobrancelha.
– Deveria me sentir assustada com a concorrência? – ela desafiou.
– Concorrência nenhuma afasta o cliente do que é realmente bom. – completou, como quem aceitava desafio erguendo suas mãos e mantendo o contato visual. – Bom, deixa eu continuar a te mostrar o local.
E eles continuaram a se movimentar no empreendimento, passando pela cozinha, banheiros e depósito. se surpreendeu com a agilidade com a qual ela retirou de sua bolsa um bloco de anotações e passou a fazer observações sobre medidas, cores, formatos e até mesmo relíquias que existiam ali. Além de divertido, era fascinante a forma como ela se movia e prendia a atenção nos detalhes. Talvez por isso, não viu que o tempo que ele tinha já havia passado e que estaria atrasado caso não saísse dali.
– Hm, ? – Ele chamou e recebeu sua atenção confusa no mesmo instante, como se por um momento (longo, diga se de passagem) ela houvesse esquecido que existia mais alguém ali além dela e de todos os seus sonhos. – Eu tenho que ir, mas vou deixar com você as chaves, certo? – Ela acenou em concordância e voltou-se às paredes. – Como eu tinha dito, meu irmão já cuidou dos negócios, minha função é basicamente te apresentar o lugar. Toda a questão de eletricidade, água e gás foi resolvida.
– Ah, tudo bem. – Ela sussurrou, talvez um pouco desapontada com a saída repentina dele, ainda sem entender muito bem o que significaria aquilo. – Qualquer coisa eu entro em contato com ele, já tenho o número. – Ao ouvir o que ela falou, coçou confuso a parte de trás de seu cabelo, ao tempo em que o assanhava involuntariamente. , ao contrário dele, não deixou de perceber o quanto aquilo era charmoso.
– Na verdade, você pode entrar em contato comigo para problemas no espaço físico. – Ele pausou. – É complicado, mas o Dereck cuida da parte financeiro e eu da estrutura, ok? Caso você precise de ajuda na instalação ou algo do gênero, pode falar comigo que eu resolvo. – E ele deu um sorriso de lado, quase como se tivesse tirando sarro de si mesmo. – Ou arranjo alguém para resolver, já que trabalhos braçais não são minhas especialidades. – O que para pareceu ser uma mentira deslavada, já que não pôde deixar de notar o porte físico dele. possuía músculos que sobressaltavam um pouco sua camisa social branca a marcando sublimemente, além de uma altura que ultrapassava a de em cerca de quinze centímetros. Ele poderia não executar tão bem trabalhos braçais, mas seu porte era de alguém que era incrivelmente capaz. Por razões que preferia não remexer no momento, desejou vislumbrar como seria sem toda a roupagem que o escondia. – Vou deixar aqui em cima meu número de celular, tudo bem?
– Certo, eu agradeço bastante.
hesitou novamente e completou:
– Na verdade, só para esclarecer: aqui em Hanover a gente não se liga muito, sabe? – Riu envergonhado e capturou novamente esse momento em sua mente. – É mais fácil você bater na minha porta e me pedir um favor do que eu atender o celular. – Ele falou. – Todo mundo se conhece por aqui, basta virar duas ruas à esquerda daqui que você verá uma casa branca com uma grande roseira na frente. É mais efetivo. – não se conteve e riu. Não tinha como não achar aquilo engraçado. Realmente, uma cidade de vinte mil habitantes tinha seus costumes.
– Entendido.
– Quando você pretende inaugurar? – Ele perguntou, ainda que sem saber que inconscientemente queria estender aquela conversa e desvendar um pouco mais da nova habitante da cidade.
– Pelo o que eu estou vendo por aqui – e mais uma vez, passou o olhar por toda a extensão da loja – acredito que em duas semanas consigo colocar em ordem. Um pouco de pintura, uma adição na mobília e a instalação de equipamentos conseguem transformar esse local.
– Esperarei ansioso para ver o que você fará com esse lugar. – Ele concluiu e entregou na mão dela o molho de chaves que carregava consigo. – Espero que se adapte à cidade e que a Sra. McDonell te receba bem no condomínio.
Antes que ele pudesse sair, uma confusa e absorta em duvidas questionou-o.
– Como você sabe onde eu vou morar?
E ali, pôde ver mais um sorriso de . Dessa vez, ele sorria travesso e esperto.
– As notícias correm rápido em uma cidade como essa, . – e saiu fechando a porta e se afastando enquanto olhava sua sombra pelas janelas cobertas pelas finas cortinas brancas. Suspirou mais uma vez e se voltou para a loja. Agora, com toda a sua concentração focada em desbravar toda a extensão dos cem metros quadrados que eram dela, mergulhou no seu novo mundo.
Tal mergulho havia sido tão profundo que quando se deu por si, já haviam passado quatro horas desde o encontro com e sua barriga protestava com fome. Resolveu que aquela seria a hora de começar mais uma nova aventura – a de desbravar a nova cidade e descobrir quais seriam seus locais preferidos para refeições. Descobertas que ela amava, por falar nisso.
Hanover não era tão difícil assim de se andar e ao fechar a porta de seu estabelecimento, conseguiu ver uma praça com alguns restaurantes a circundando. Era o clichê de toda a cidade de interior: uma grande praça, em que as crianças brincavam, as idosas fofocavam, os idosos jogavam e a vida acontecia. Sorriu internamente com esse pensamento. Era bom saber que existia um lugar assim na sua nova casa, ainda mais que era tão bonito. A praça tinha um formato circular com tulipas brancas a circundando e possuía bancos brancos em toda a sua extensão. Em seu centro, contava com uma abóbada que parecia ser datada de séculos passados. Era um cenário perfeito, podendo até ser descrito como imaculado de tão preservado que se mostrava.
Dentre as opções que encontrou, escolheu o restaurantes de cinco mesas com o nome “O’Neills” pendurado de modo precário na parede externa. Aparentava ser um ambiente familiar, principalmente pela figura da senhora que prostrava do lado de fora. Além disso, tinha uma vantagem em relação ao outros: não havia movimento algum de clientes. Enquanto se locomovia pela cidade, ela podia sentir olhares questionadores e curiosos sobre si, trazendo recordações de seu ensino médio, dessa vez sem seus melhores amigos ao seu lado para lhe fortalecer. Não que fosse uma mulher extremamente insegura. Mas ser o centro das atenções nunca a fascinou tanto. Preferia passar desapercebida enquanto não inaugurava sua loja, apesar de ter recebidos conselhos totalmente diferentes de seus familiares. Sua mãe constantemente a alertava da necessidade de divulgar a novidade antes mesmo dela existir, apenas para despertar o interesse.
Escolheu a única mesa externa, que dava a oportunidade de olhar sua loja e também o caminho de flores recém podado. Era uma vista tão agradável que não percebeu quando a senhora que estava na porta chegou ao seu lado com uma comanda na mão. Ela trazia um sorriso acolhedor e uma familiaridade dignas de avós. Foi involuntário o aperto no peito que sentiu ao lembrar de toda a sua família, que agora se encontrava há quilômetros de distância.
– Muito bem, minha querida. Boa noite! Sou Nora O’Neill, mas todos me chamam de senhora Neill. – sorriu ao terminar a frase. – O que posso te servir? – ela questionou com uma voz doce.
– Meu nome é , muito prazer. – Ela estendeu a mão inutilmente pois no segundo seguinte sentiu a mulher a abraçar de forma engraçada e desajustada já que ela estava sentada.
– Aqui a gente abraça, minha querida. – Nora alertou e no próximo minuto, já puxava uma cadeira pra sentar na mesma mesa que a nova moradora da cidade. achou engraçada a recepção. – Certo, aqui está o cardápio desse restaurante, mas como eu sou a dona e a cozinheira, posso te afirmar que a melhor escolha é minha massa aos quatro queijos. O resto você pode experimentar nas outras vezes que vier aqui, mas preciso te deixar de queixo caído na sua primeira impressão.
– Eu aceito a sua escolha, então. – não viu como discordar.
– Certo, vou fazer a sua comida e assim que terminar volto para você me contar todos os seus planos sobre sua doceria. – E piscou um olho enquanto se levantava da cadeira e deixava sozinha com uma constatação. A cidade inteira já sabia sobre ela. A cidade inteira já sabia sobre ela e a sua doceria. A cidade, a essa altura, já deveria até saber quando seria a inauguração. Só esperava que isso fosse ajudá-la.
Ao ser servida, concordou com Nora que aquele realmente era um prato para deixar os consumidores de queixo caído. Durante o jantar, contou com a presença agradável – e extremamente curiosa – da senhora O’Neill. Era como se ela quisesse extrair todos os segredos de , não de forma maldosa, mas sim para descobrir o que havia levado a garota até aquela pequena cidade de vinte mil habitantes. A verdade é que nem seus pais entendiam direito essa necessidade de de transformar sua vida assim, de uma hora para outra. Há cerca de um ano, quando ela se formou em Gastronomia, ela havia deixado clara a sua vontade de abrir seu próprio negócio com enfoque em doces, porém seu cargo relativamente reconhecido num restaurante de Nova York suspendeu qualquer conversa que sobre o assunto.
Só depois que sua tia Grace faleceu, deixando uma quantia considerável de dinheiro para a sobrinha investir em si mesma, que não hesitou em mergulhar de cabeça na ideia. Porém, o acontecimento completava apenas dois meses e o que aparentava era que ela já tinha tudo orquestrado para se mudar rapidamente. Deveras, o planejamento já existia e Hanover fazia parte de seus sonhos há tempos por suas tão conhecidas competições de bolos. Entretanto, um término traumático de relacionamento aliado à promoção injusta de um colega de trabalho foram combustíveis essenciais (mas ela não se permitiria admitir isso).
Grace sempre foi uma mulher inteligente que conseguia desvendar a sobrinha mais do que ela mesma, estando a postos para fazer qualquer coisa para protegê-la. Por isso, quando recebeu a notícia de sua morte próxima, não hesitou em fazer tudo o que estava em seu alcance para realizar o sonho de . Juntou as economias que possuía e inflamou os sonhos da garota que amava como filha, pois tinha certeza de que o futuro que a esperava era tão doce quanto o que produzia. E devia isso a tia.
Por isso, assim que saiu de seu velório, prostrou-se em seu quarto pelos quatro dias que se seguiram, organizando da forma mais rápida e efetiva possível a sua mudança. Agradecia pela existência do computador e da internet, pois não precisou envolver mais ninguém até que tudo estivesse acertado – ela sempre fora do tipo pessimista, que acreditava que as coisas não aconteceriam caso ditas antes de serem feitas. Agora, se encontrava ali. E em seu peito, entre tantos outros sentimentos, estava repleto de gratidão pela oportunidade. Iria fazer aquilo acontecer, iria fazer a sua tia orgulhosa.
Depois de pagar a conta e de se despedir de Nora, voltou ao seu carro e seguiu em direção ao condomínio da família McDonell que a recebeu calorosamente (e curiosamente). Havia alugado uma casa relativamente grande para somente ela, mas acreditava que utilizaria os espaços vazios para estocar o que precisasse da sua loja e também, não existiam tantas possibilidades para aluguel naquela cidade. Não era como se as pessoas construíssem propriedades pensando no turismo dali, uma vez que a cidade só ficava cheia uma vez no ano: dali a dez meses, na competição de bolos. Já devidamente alocada em seu quarto, fechou os olhos e se permitiu sorrir. Era real. Estava acontecendo. Era real. Ela tinha dado o próximo passo.
Após uma noite de sono incrivelmente tranquila, enquanto se preparava para começar o seu primeiro dia de trabalho, teve uma péssima recordação de seu pai. Durante o mês anterior a sua mudança, ele havia alertado inúmeras vezes a filha sobre a necessidade da revisão do carro. Mas veja bem, existiam outras prioridades para a garota, tais quais como decoração, compras e até mesmo mobílias. Tal detalhe poderia facilmente ser postergado enquanto resolvia outros assuntos. Ou assim acreditava ela, até se encontrar frustrada com um carro que não ligava.
– Meu Deus, por que meu pai tem que estar sempre certo??? – bufou, enquanto tentava mais uma vez inutilmente ligar o carro.
Após uma série de xingamentos que fariam sua mãe a repreender por vários minutos, analisou suas opções. Depois de ter calculado todas as possibilidades em sua mente, se deu por vencida. Precisaria recorrer à ajuda da única pessoa que conhecia que poderia salvá-la naquele momento. Depois de se localizar, passou a caminhar em direção à casa branca com rosas no jardim da frente. Respirou fundo três vezes antes de apertar a campainha. Não imaginava que qualquer ar que havia inspirado fugiria de seus pulmões quando colocasse os olhos no homem à sua frente. Sem camisa. Com apenas uma bermuda. Sem camisa. Com os cabelos bagunçados. E sem camisa. por pouco não perdeu a sua fala, mas conseguiu se expressar (de forma extremamente descompensada, vale ressaltar):
– Err, … Eu preciso da sua ajuda. – e sorriu amarelo.

 

 

Capítulo 2

Demorou cerca de dez segundos – que mais se pareceram minutos – para que entendesse o que estava acontecendo ali.
– Ah, claro. – e ele coçou o cabelo confuso. reparou que aquele deveria ser um hábito dele. – O que você precisa a essa hora da manhã?
– Então, meu carro pifou. – ela se explicou, envergonhada. – E você é a única pessoa que eu pensei que poderia me ajudar com isso. Ou com um número de uma oficina. Ou com direções de onde posso encontrar uma. – falou exasperada. Só não tinha certeza se era devido a sua pressa ou o simples fato de todo o abdômen de estar exposto. Por algum tempo ela tentou se recordar das suas aulas de biologia – não era possível que existissem tantos músculos assim. Ainda mais tão definidos!
– Hã… Eu posso tentar dar uma olhada. Caso eu não consiga resolver, a gente chama o Bob. Pode ser? – ela acenou sem pronunciar a concordância. Não sabia se conseguiria formular uma frase que fosse inteligente o suficiente enquanto encarava a obra de arte à sua frente. Quando ouviu um riso quase inaudível vindo do homem, ela percebeu que estava tempo demais admirando. E suas bochechas coraram o suficiente para ela entender que não tinha sido nada discreta.
, depois de aproveitar um pouco da diversão oferecida, fechou a porta atrás de si e rumou em direção a casa dela. acharia cômico o fato dele não ter se importado de estar sem camisa enquanto andava pela cidade se não estivesse tão mortificada. Por Deus, parecia que nunca tinha visto um homem na vida. Sacudiu a cabeça como forma de espantar seus pensamentos assim que chegaram à casa dela. Precisava se recompor. Não demorou mais do que cinco minutos de análise para concluir que se tratava de um problema de troca de óleo.
– Há quanto tempo você não troca o óleo do seu carro? – ele indagou. parou um pouco para refletir e fazer as contas na sua cabeça.
– Talvez… um mês? – ele arqueou uma sobrancelha de forma irônica, deixando bem claro que não acreditava nas palavras dela. – Com mais uns dez antes? – admitiu, envergonhada enquanto via ele sorrir.
– Olha, não vou te dar um sermão por isso, mas deveria. Esse carro podia ter te deixado na mão.
– É, eu sei. Talvez meu pai tenha me alertado sobre isso…
– Pois é… – ele riu divertido. – Felizmente, não é um grande problema. Bob consegue te entregar o carro em algumas horas.
bufou irritada. Não era o que ela queria ouvir e com certeza não estava nos seus planos de primeiro dia de trabalho perfeito. Seu carro estava repleto de materiais que ela precisava levar para a doceria e não conseguiria carregar tudo sem ele. Estava tão ansiosa para finalmente começar a deixar o local com sua nova cara. Seu descontentamento ficou visível para que a observava. E ele não pode deixar de notar o quão expressivos seus olhos conseguiam ser.
– Você tem algo urgente para resolver? Se precisar, pode pegar meu carro. – ofereceu tentando se mostrar o mais solicito possível, mesmo que sem entender o porquê dessa necessidade.
– Não, não é nada tão urgente assim. – ela sorriu agradecida. – Eu só ia começar a descarregar algumas coisas na doceria, mas acho que posso adiar isso um pouco.
Ele saiu da frente do capô do carro e desviou para a janela dianteira, tentando enxergar o que estava dentro dele. Achou que foi bastante contida quando disse que iria descarregar algumas coisas… O carro estava lotado de caixas, dos mais variados tamanhos.
– Não sei se você já notou, mas estamos em uma cidade relativamente pequena. – ela lhe lançou um olhar confuso. – A oficina do Bob é na mesma rua da sua doceria… Você ainda consegue fazer essa mudança.
– É claro que é! – disse verdadeiramente aliviada. – Agora só preciso mover esse carro até lá. Alguma ideia? – perguntou brincalhona e viu um traço de suas covinhas aparecerem no rosto dela chamando sua atenção – e admiração.
– Deixa comigo que eu falo com o Bob. Espera um pouco. – e saiu rumo à praça.
Enquanto toda a logística do carro tentava ser resolvida por , percebeu a quantidade de curiosos que a cidade tinha. Não sabia se era por causa dela, por causa do homem (que ainda estava sem camisa) ou por causa do conjunto dos dois envolvendo o carro. Só sabia que se sentia observada.
De longe, conseguiu ver trazendo um homem baixinho ao seu encalço. Ele deveria ter no máximo um metro e sessenta, mas sua barriga contribuía para que parecesse maior do que realmente era. Possuía o seu grande bigode, e, juntamente dos seus óculos com armação redonda, ajudava a transforma-lo no maior dos clichês mecânicos. É claro que Hanover teria alguém assim. Não tinha como esperar algo diferente!
– Então quer dizer que a cozinheira está com problemas no carro? – o homem que presumiu ser Bob a perguntou, com um sorriso estampado no rosto. Ele também já sabia quem ela era.
– Pois é… Algo como um óleo que precisa ser trocado. – respondeu mortificada. Mais uma vez, se repreendeu por não ter ouvido o seu pai.
– Não é nada, criança. Deixa comigo que hoje mesmo eu resolvo! – falou de um jeito terno. Ela sorriu agradecida (e se deu conta que fez isso diversas vezes em apenas 24 horas na cidade) e deixou que ele cuidasse da locomoção do carro.
Quando já estavam na oficina (que era incrivelmente limpa e lustrada com uma grande decoração em tons de amarelo), ela percebeu que não estava de brincadeira. Realmente, a cidade era pequena. A praça parecia ser o centro e todo o resto se desenvolvia a partir de lá. Conseguia ver sua loja relativamente perto de onde estava. Teria que fazer um esforço maior para mover as caixas, mas não seria impossível. Já estava segurando a primeira caixa quando sentiu uma mão tocando-lhe o ombro. Foi instantâneo o arrepio que percorreu o seu corpo e se odiou por isso. Oras, parecia uma adolescente no auge de sua puberdade!
– Precisa de ajuda com isso ai? – questionou.
– Não, não! Eu não quero te atrapalhar! – respondeu prontamente, se sentindo constrangida por parecer tão desesperada.
– Que nada! Minha manhã está livre. Posso te ajudar por mais algumas horas. – e deu uma piscadela enquanto a empurrava com delicadeza para longe da porta do carro, pegando três caixas de uma só vez. Ela mais uma vez bufou olhando para suas mãos. Não queria depender de ninguém, mas sabia que uma ajuda seria extremamente bem vinda. Agradeceu-o sem saber direito se ele tinha escutado, já que ele já se encontrava muito à sua frente rumo à loja.
Demorou cerca de uma hora – muito menos que tinha imaginado inicialmente se tivesse feito sozinha – para descarregar todo o seu carro e colocar dentro da loja, que agora se encontrava repleta de caixas e sacos. Quando entrou com a última em sua mão, prontamente o recebeu e colocou-a em cima da mesa. Se antes ela havia ficado maravilhada com seu físico, agora, que ele estava à sua frente com alguns filetes de suor escorrendo por seu corpo, ela não conseguia parar de olhar. E admirar.
Buscando recuperar seu autocontrole e o resto da sua dignidade, ela pigarreou e volveu seus olhos para o encarar. Afinal, ele merecia um pouco de respeito. Entretanto, aquela atitude com certeza não tornaria mais fácil sua compostura. No mesmo instante em que o seu olhar encontrou o de , sentiu-se fraquejar. Ele parecia penetrar dentro dela, resgatando os mais escondidos segredos que ela ousara esconder, como se pudesse absorver tudo o que era em um só segundo. Sentiu-se exposta e, ao mesmo tempo, acolhida. Era como se ela quisesse que ele a desvendasse.
A palavra desconcertante só não se encaixaria no momento porque o ato não era unilateral. A mesma intensidade de olhar era devolvida por ela. sentiu-se desprotegido, porém extremamente satisfeito. Não conseguia entender direito o que estava acontecendo. Nunca tivera uma experiência tão banal e singular ao mesmo tempo. A atmosfera ao redor deles era tão complexa que parecia contribuir para que ele desviasse seus olhos e contemplasse a boca da mulher diante dele. Ela, que não deixou passar despercebido tal gesto, passou a focar nos seus lábios. Contudo, talvez por mero entretenimento do próprio destino – que é conhecido por gostar de brincar com tais momentos -, a porta da loja foi aberta e a voz abafada de Bob dissolveu a tensão entre eles, na mesma velocidade em que fora construída.
– Querida! – proclamou às pressas. – Nora mandou lhe chamar para almoçar em nossa casa enquanto seu carro não fica pronto. – ele falou, totalmente alheio ao que quase acontecera minutos atrás no ambiente.
– Hã? – perguntou, confusa demais para exigir que seus neurônios completassem as sinapses necessárias para dar sentido à frase que ouviu.
– Minha mulher, Nora! Você foi ao nosso restaurante ontem, lembra?
– Ah sim, a senhora O’Neill. Não sabia que vocês eram casados!
– Há mais de 40 anos, minha querida! – ele completou, orgulhoso. – Por isso que já deveria saber que ela me daria uma bronca quando eu contasse que estava ajeitando seu carro sem lhe convidar para um almoço. – sorriu envergonhado, como se fosse realmente uma falta de educação ter deixado passar esse ato.
– Ah… Eu agradeço bastante o convite, de verdade! Mas eu tenho alguns planos para executar na loja hoje. Que tal remarcarmos? – ela pediu esperançosa, sem querer que ele achasse que estava fazendo pouco caso de seu convite. Mas a verdade é que não podia conter a ansiedade de rasgar suas caixas e começar a decorar o lugar.
– Tudo bem então, você vai se entender com ela. – riu, um pouco desapontado mas sem demonstrar sinais de chateação. – Diga a ela que eu tentei! – estendeu as mão pra cima em sinal de rendição. – Venho lhe avisar quando seu carro estiver pronto.
E saiu, assim como entrou. De forma espalhafatosa e sem prévio anúncio. Mal sabia Bob que interrompera um momento tão intimo.
? – perguntou, enquanto desviava sua atenção para um ponto da sala que não tinha nada de interessante para ser olhado com tanto vigor. Ele só estava tentando formular direito as próximas palavras. – Eu tenho que ir até a cidade para buscar minha guitarra e já estou atrasado.
– Claro, claro! Eu não queria prendê-lo aqui. Você tem suas obrigações. – desculpou-se enquanto batia na própria testa. – Agradeço demais a sua ajuda, !
.
– Hã?
– Ah, você me chamou de … E bem, as pessoas costumam me chamar de por aqui. – explicou-se, um pouco desconcertado.
– Tudo bem, então, . Muito obrigada.
– Fiz o mesmo que qualquer pessoa da cidade faria. Caso precise de alguma coisa a mais, pode falar. – ele concluiu, afastando-se da mesa e indo em direção à porta. – Ou bater na minha porta, parece que você já conhece o endereço. – ela acenou com a cabeça e sorriu envergonhada.
– Bom, ainda assim… – falava enquanto se virava para colocar outra caixa em cima do balcão. Quando voltou a sua posição inicial, percebeu que ele já se afastava. Por isso, apressou o passo e chamou-o. – , calma! Como posso te retribuir?
Ele parou um instante e a encarou. E então soltou um dos sorrisos mais lindos que já havia visto – tanto dele, quanto de qualquer outra pessoa.
– Eu tenho uma queda por chocolate. – e saiu em direção à sua casa, com as mãos no bolso exibindo todo o seu físico. se permitiu olhar por mais alguns segundos antes de retornar ao estabelecimento.
Devidamente acomodada no chão da loja (ela tinha uma mania de sentar-se no chão desde pequena), passou a desempacotar os diversos itens que havia trazido. Marcara com o pintor para os próximos três dias e acreditava que durante esse tempo poderia reformar as relíquias que já estavam ali. Com a mente divagando por diversos locais (mais precisamente, diversas partes do corpo de ), começou a trabalhar e sorriu satisfeita por estar se sentindo acolhida onde estava. O convite de Bob e a oferta de um apelido já soavam como se ela estivesse se dando bem na cidade.
Depois de longas horas de trabalho e alguns lanches nos petiscos que havia levado em sua bolsa, considerou que poderia declarar seu expediente como encerrado pelo dia. Sentia-se orgulhosa, como poucas vezes na vida.
Talvez como um sinal de que o universo estivesse finalmente conspirando ao seu favor, ou apenas mais um acaso, viu que Bob se aproximava da sua loja com seu carro. Agradeceu mentalmente por ele estar funcionando sem maiores problemas – ela bem sabia o discurso que escutaria de seu pai caso fosse algo mais complicado. Organizou mais caixas apenas para liberar a passagem e saiu da doceria, trancando a porta ao ouvir os passos de Bob.
– Já decidiu como vai se chamar? – ele apontou para cima, onde existia um suporte para uma placa que não estava lá.
– Sim! O nome é Sweet Grace.
– Não te classificaria como uma mulher tão religiosa assim, . – ele disse. Quando percebeu que ela o encarou de forma questionadora, ele tratou de se desculpar. – Claro que não estou colocando rótulos em como as pessoas devem ser, não, que Deus me perdoe! Eu não quis insinuar nada…
Antes que ele se embaralhasse mais nas palavras, ela o interrompeu.
– Não, tudo bem. Entendo a sua dúvida. Na verdade, é uma homenagem a minha tia. O nome dela era Grace e ela é basicamente a responsável por tudo isso aqui.
– Ah, mas que bela homenagem! – expirou aliviado por ter sido tirado de sua confusão. – O máximo que meus filhos fariam por mim seria apelidar o cachorro deles. – riu, enquanto ele respondia um sorrindo verdadeiramente. – Coisa que meus netos já fizeram.
– Não me diga! – ela gargalhou.
– Sim, sim. São muitas as peculiaridades dessa cidadezinha. – completou, durante o tempo em que focava a abobada da praça que estava na frente deles. – Pois bem, aqui está a sua chave. O seu carro está pronto! – e entregou as chaves na mão da mulher.
– Muito obrigada, de verdade. Quanto te devo?
– Digamos que essa foi por conta da casa.
– Não, de jeito nenhum! Não quero que você ache que estou me aproveitando da sua boa vontade. – apressou-se a dizer enquanto remexia sua bolsa em busca de sua carteira.
– Claro que eu não acho isso, querida. Não seja boba. – ele riu colocando as mãos na barriga. E, mais uma vez, foi invadida por sentimentos de saudade de casa. Seu avô tinha os mesmos hábitos que Bob. – Só não acho que devo te extorquir no primeiro problema que você tem aqui.
– Tem certeza? – perguntou apreensiva. Nunca soube lidar muito bem com generosidade e presentes. Tinha a impressão que isso se tornaria comum em Harnove.
– Claro! Só apareça para nosso almoço que tudo fica acertado. – e a abraçou. Ela teve que admitir que não esperava por isso, mas não se sentiu nem um pouco invadida ou envergonhada. Retribuiu o abraço e agradeceu mentalmente por ele ter tomado um banho depois de ter trabalhado em seu carro. Não que ela negaria caso ele estivesse sujo, mas bem… É melhor quando as coisas são mais fáceis.
– Pode deixar! Bob, só me tira uma dúvida! Qual o seu sabor de bolo preferido?
– Querida, você acha que se eu só tivesse um sabor de bolo preferido eu estaria assim? – e apontou para a sua própria barriga dando uma piscadela. – Sendo doce, eu como.
– Tudo bem! Mais uma vez, muito obrigada.
Agradeceu novamente e conseguiu ver Bob rindo e balançando a cabeça falando algo sobre “o pessoal da cidade grande”. Era bem óbvio que ela não estava tão acostumada com gentilezas assim.
Sentou-se em seu carro e partiu em direção a algum mercado, com uma ideia germinando a sua cabeça. Ela finalmente iria cozinhar! Para , fazer doces era uma terapia. Todo o processo, desde a mistura dos ingredientes, passando pelo mexer da massa (que ela fazia questão de fazer manualmente, sem utilizar a batedeira), o cozimento e a decoração a fascinava. Desde muito nova via na cozinha o seu ateliê de arte em que ela poderia simplesmente criar e ousar livremente. Por isso, quando considerou as cidades para abrir a doceria, sabia que Hanover seria especial. O fascínio da cidade por bolos, o concurso nacional e a seriedade com qual eles tratavam seus cozinheiros eram ideais.
Sem muita demora, ao chegar em casa se prostrou na sua nova cozinha e só saiu de lá depois de ter em sua vista dois bolos muito bem preparados. O primeiro, sua receita mais tradicional e gostosa, de chocolate. Há algum tempo ela havia aprendido com sua tia Grace sobre a melhor forma de prepará-lo e sempre se sentia orgulhosa do resultado. O segundo era red velvet, uma receita um pouco mais elaborada, mas que ela tinha certeza que iria satisfazer quem quer que fosse comer. Sorriu para as obras que observava.
Depois de jantar, tomar um banho demorado e vestir uma roupa mais informal, voltou a fazer o caminho que fez pela manhã rumo à casa branca. Dessa vez, estava com uma bandeja com um bolo em sua mão. Apesar de um pouco receosa, sabia que não existiria melhor forma de agradecer a alguém do que com um bolo de chocolate. Ainda mais alguém que já tinha deixado claro suas preferências.
Apertou a campainha e no fundo do seu ser desejou que a porta fosse atendida da mesma forma que foi recebida pela manhã. Com sem camisa.
Porém, para a sua surpresa – e se me permite dizer, seu descontentamento -, quem atendeu a porta não foi quem ela esperava. Na verdade, quem a recebeu foi uma mulher que aparentava ter seus 20 e poucos anos (não conseguia estimar a idade correta devido à quantidade de piercings que ela tinha em um lado da orelha).
– Boa noite? – a mulher loira perguntou, enquanto alternava seu olhar para para o bolo.
Totalmente desconcertada, tentou se expressar de forma a não deixar clara sua surpresa e desapontamento. Não pensou que outra pessoa fosse atendê-la, muito menos que teria que explicar o motivo de estar ali.
– Boa noite! Er… O está em casa? – sentiu-se extremamente idiota utilizando o apelido que ele tinha dito mais cedo. Como se tivesse ultrapassado um limite que não estava claro para outras pessoas.
– Está sim, espera só um minuto. – a loira saiu em direção a casa gritando em busca dele. odiou-se por dentro. É claro que haveria uma mulher na casa! É claro que ele não estaria sozinho esperando por um bolo! É claro que ela faria papel de boba. Antes de completar sua linha de raciocínio, ele apareceu na porta. Infelizmente, dessa vez, estava sim usando camisa. Porém, continuava incrivelmente lindo com seus cabelos bagunçados e molhados, que provavelmente tinham sido lavados há poucos instantes.
? – ele perguntou, surpreso. – No que você se meteu dessa vez?
– Nada, juro. Só vim te agradecer propriamente por hoje, sabe. – ela disse, visivelmente envergonhada. Não sabia muito bem o porquê da ideia do bolo de chocolate e uma visita a noite ter parecido tão boa há dois minutos. – E trouxe um bolo de chocolate. – estendeu a bandeja em sua direção, inconscientemente criando uma barreira entre os dois. Antes que ele pudesse ao menos falar foi interrompido.
– Tá esperando o que, ? Bota ela para dentro, junto com esse bolo que está com uma cara incrível. – a mulher que atendeu a porta disse, fazendo com que percebesse que ela estava no encalço de desde que ele aparecera. Se ele não fosse tão… Admirável, por assim dizer, teria percebido antes que eles não estavam sozinhos.
– Claro… , você quer entrar?
, na verdade. Pode me chamar de . – ela disse, enquanto o via sorrir cúmplice. – E não sei se é uma boa ideia, eu só vim agradecer mesmo, já está de noite e…
Antes mesmo de conseguir terminar a frase sentiu seus pulsos serem envolvidos pelas mãos da loira, sendo puxada para dentro com cuidado, claramente devido ao bolo que segurava.
– Que isso! Aqui a gente come o bolo junto do cozinheiro. – Não teve como contestar, pois no momento seguinte, já estava na casa com os olhos curiosos da loira a encarando. No que havia se metido?

 

Capítulo 3

tentava absorver o mais rápido possível a casa diante dos seus olhos enquanto era puxada para dentro pela mulher. A sala de estar para onde fora conduzida possuía dois grandes sofás brancos e uma televisão enorme num home theater. Conseguir ver também alguns poucos porta-retratos com sorrisos de pessoas que ela não conseguia reconhecer – apenas de e da loira que o acompanhava. Em alguns deles, os dois estavam juntos de uma criança também loira. Sua mente trabalhava a mil tentando ligar os pontos da forma mais inteligível que conseguia. A constatação que chegou, no entanto, não a agradava. Evitou pensar muito mais sobre isso e volveu seus olhos para o resto do cômodo.
Percebeu que a sala possuía uma quantidade exagerada de rosas em diversos locais. No arranjo da mesa de centro, em vasos espalhados pelos móveis e também desenhadas em um quadro pregado na parede central.
– Então, você é a famosa ? – a mulher desconhecida perguntou arqueando a sobrancelha.
– Não sei se famosa… – respondeu acanhada – mas sim, essa sou eu.
– Que bom… Eu estava mesmo precisando falar com você. – e a encarou de uma forma questionadora. sentiu o sangue fugir de seu corpo e se depositar unicamente em suas bochechas.
– Claire, pare com isso! Vai assustar a menina. – nesse mesmo instante, para a sorte da cozinheira, voltava à sala trazendo três pratos e os colocando em cima da mesa ao redor do bolo. – Não tenha medo dela, .
– Dependendo das intenções dela, ela tem que ter medo sim… – Claire completou divertida.
, não se importe com isso. – ele respondeu, preocupado que a mulher pudesse realmente se assustar com a recepção… Calorosa que recebera. – Essa é Claire, ela é minha…
– Prima, irmã, ex-cunhada, melhor amiga, mãe do afilhado dele… Não dá para me definir em apenas uma palavra, . E você bem sabe disso. – finalizou dando uma piscadela.
– Eca, Claire. Pare com isso. Você e Dereck deram um beijo, quando tinham 15 anos! Seria estranho dizer que minha prima já foi minha cunhada. – completou enquanto a olhava enojado. ainda estava tentando entender a dinâmica do que acontecia naquele momento. – E, além disso, eu ia te apresentar como a fofoqueira da cidade, sua melhor qualidade.
– Fofoqueira, nada! Eu sou jornalista, querido. É minha função manter os moradores de Hanover informados… E eu enxergo uma ótima matéria assim que coloco os olhos nela. – falou enquanto analisava de cima a baixo. – Prazer, ! Meu nome é Claire. Não se prenda a detalhes, só o que você precisa saber é que eu sou a pessoa mais divertida dessa cidade. – e abraçou sem nenhum tipo de aviso prévio. As pessoas de Hanover eram bem mais calorosas do que ela estava acostumada.
O abraço foi retribuído de forma desajeitada enquanto organizava seus pensamentos. Constatou que a mulher na casa de não era sua namorada. Respirou aliviada com essa informação. Porém, quando se deu conta do que tinha ouvido, precisou questionar.
– Prazer, . – apresentou-se com seu apelido de forma inútil, já que Claire o havia utilizado antes mesmo dela dizer. – E o que exatamente você precisava falar comigo?
– Você quer a verdade ou que eu te convença a conversar comigo antes?
– Você vai assustá-la com a verdade, Cla. – falou rindo, aparentemente se divertindo com a situação.
– Que verdade assustadora é essa? Pode falar, eu acho que aguento…
– Tudo bem, então… Você que pediu. Eu quero saber basicamente tudo. Quem é você, quais suas ambições, seus desejos, suas motivações para se mudar para cá, seu novo negócio… Talvez até sua vida amorosa. – Listava em seus dedos à medida que falava, mas ao citar o último tópico voltou sua atenção a , que revirava os olhos. – Vou te tornar a minha próxima capa!
– Você acha mesmo que o Sr. Brown vai deixar você escolher uma capa que não seja sobre os novos ingredientes para um bolo perfeito?
– Ai , não corta meu barato. Eu vou unir bolos perfeitos e fofocas perfeitas. A tem cara de quem tem muito a nos contar… E eu consigo convencer ele, isso não é problema.
– Como exatamente você o convenceria?
– Ai, , você bem sabe que eu vou te oferecer para fazer algum serviço parado por lá e ele não vai ter como me agradecer a não ser me dando essa matéria.
– Gente? – por fim se pronunciou, claramente abismada e confusa com o diálogo que acontecia. – Calma, que eu não estou conseguindo seguir a linha de raciocínio de vocês… Capa de que? Quem é Sr. Brown? E porque isso seria uma fofoca?
– Sinceramente, ! Você já encontrou a mulher duas vezes e não teve a capacidade de falar nada de importante. – Claire o repreendeu e pegou nas mãos de enquanto a olhava fixamente, preparando-se para explicar coisas óbvias. – , você tem muito a aprender sobre essa cidade… Mas vamos lá. Eu escrevo para o Jornal de Hanover e você será a nova capa. Preciso fazer uma matéria sobre o novo empreendimento da cidade. E é aí que você entra. Vamos misturar a história da sua doceria com a sua história. Hanover vai te conhecer, querida!
– Antes de insinuar qualquer coisa, Claire, ela primeiro tem que aceitar ser sua isca, né?
, não fale desse jeito. Onde já se viu? Isca coisa nenhuma, é uma honra ser entrevistada por mim. – Claire falou sem demonstrar o menor tipo de preocupação.
– Eu ainda continuo aqui, tá gente? E continuo perdida. Claire, eu agradeço bastante a sua oferta, mas não sei se estou preparada para tamanha exposição. Ainda mais uma capa de um jornal que todo mundo vai ler.
– Como assim? – a loira perguntou, visivelmente ofendida. – Olha, eu não quis te assustar, era só uma brincadeira sobre seus segredos. Mas eu realmente gostaria de fazer uma matéria sobre sua doceria.
– E qual a chance você fazer isso sem ter que fazer uma matéria sobre mim também?
– Eu posso me esforçar, sabe? Eu sou uma boa jornalista, sério. Se você quiser impessoal, vai ser impessoal.
– A primeira parte é verdade, ela realmente é uma ótima jornalista. – falou dando um pouco de apoio moral. – Já a segunda parte… Cla tem um dom de te fazer revelar segredos sem que perceba.
– A segunda parte eu já não tenho como controlar, mas eu vou tentar!
suspirou exacerbadamente. Claire sorria para ela de forma esperançosa e tinha um sorriso de lado.
– Tudo bem, eu aceito. Desde que seja sobre doces e não sobre mim. – declarou decidida.
– Incrível! – Claire bateu palmas visivelmente satisfeita. – Daqui a dois dias eu passo na sua loja! – depois de firmar o compromisso se dirigiu a mesa, de forma tão confortável que se surpreendeu. Claire era extremamente simpática e excêntrica. – E agora vamos comer esse bolo que eu tenho pouco tempo até buscar Jimmy na casa de Lucy.
– Você podia ter deixado meu afilhado aqui, sabe, Cla? Eu não me importaria de cuidar dele.
, eu não vou ter essa discussão de novo com você. Você precisa viver a sua vida. – declarou com um olhar acusador. – Ele é meio viciado em ajudar as pessoas, . Pode ir se acostumando. – mais uma vez rolou os olhos e puxou uma cadeira para se sentar. Ela agradeceu com um sorriso.
Quando já estavam todos sentados ao redor da mesa e devidamente servidos com seus pedaços de bolo, não pode conter seu nervosismo e ansiedade para descobrir o que eles acharam. Desde muito cedo criara uma insegurança dentro de si em relação ao que cozinhava – apesar de nunca ter ouvido uma só reclamação. Mas ainda assim, eram seus primeiros potenciais clientes! Precisava impressionar, ainda mais que Claire seria responsável por escrever uma matéria sobre ela, mesmo que ainda não soubesse qual seria o atingimento.
– Quando eu disse que tinha uma queda por chocolate eu fui bem contido… – o homem pronunciou depois de três garfadas.
– Foi mesmo. é a maior formiguinha que você pode encontrar por ai, sempre comendo um doce. – Cla disse. – É a maior injustiça do mundo que ele tenha esse corpo comendo a quantidade calorias que ele come. – não pode deixar de concordar.
– Continuando… – revirou os olhos mais uma vez. – Eu já provei muitos doces, mas preciso dizer, esse bolo com certeza entra no meu top 5.
soltou o ar que nem sabia que estava prendendo quando o ouviu pronunciar aquelas palavras. Durante sua vida já recebera muitos elogios e aprendeu a lidar com os que se relacionavam ao seu talento na cozinha – os que faziam referência a sua aparência física, porém, ela apenas ignorava e mudava de assunto. Sorriu orgulhosa.
– Isso sim vai dar uma ótima matéria! – Claire falou enquanto acenava em concordância. – Estava com medo de não gostar e ter que mentir para meus leitores.
E em meio a risadas e mais algumas constatações de Claire, um terço do bolo foi devorado pelo trio. Ela ouvia mais alguns elogios enquanto ele era devorado e os aceitava de bom grado.
Depois de pouco mais de trinta minutos desde a chegada de , a jornalista excêntrica pronunciou a sua saída.
– Eu realmente preciso ir. Jimmy já deve ter acabado com toda a paciência que existe em Lucy.
– Quantas vezes eu vou precisar dizer que não é nenhum favor quando você o deixa comigo? – respondeu.
– Quantas você quiser, eu vou continuar ignorando. – falou sorrindo. A loira levantou-se da cadeira e virou para . – , foi um prazer. Quinta após o almoço eu passo na sua loja. – concluiu enquanto a abraçava. Dessa vez, não fora pega de surpresa e conseguiu retribuir sem se sentir extremamente desconcertada.
– Combinado. Vou te esperar. – e a cozinheira sorriu simpática firmando o encontro.
– Espero que com mais um bolo desses! – riu divertida. Foi o bastante para ver revirando os olhos e gentilmente a levando para a porta de sua casa. achou interessante a dinâmica da amizade dos dois. Não precisou de muito tempo para entender o quanto de história existia ali e sentir a atmosfera de família que exalavam. Era quase palpável.
– Seja mais educada, por Deus! – dizia enquanto destrancava a porta. – E diga ao meu afilhado que eu tenho um presente para ele.
– Você vai estragar esse menino, ! – a loira bufou. – Tchau, até amanhã!
Depois que ela seguiu para a direita, se deu conta que estava novamente sozinha com . Felizmente (ou infelizmente, se ela fosse ser sincera consigo mesma), dessa vez ele usava blusa e ela não agiria como uma adolescente. Ou assim esperava.
– Ah, eu posso te ajudar com esses pratos! – disse a primeira coisa que veio a sua mente, numa tentativa de evitar que um silêncio constrangedor preenchesse o local.
– Claro que não! Você é visita. Minha avó me mataria se soubesse disso. – se não estivesse tão concentrada no homem a sua frente, não notaria a forma como o olhar dele se transformou quando concluiu sua fala. Nada muito alarmante ou claro, mas era possível ver que uma tristeza havia se instalado ali. Angustiada para mudar o rumo da conversa e tirar da bolha que ele tinha entrado, ela se pronunciou.
– Nada disso. É o mínimo depois de toda a ajuda de hoje.
– Eu achava que o bolo tinha sido a forma de agradecimento. – ele sorriu de lado.
– Ele também. Por favor, deixe-me ajudar.
– Tudo bem… Mas só porque eu realmente odeio lavar os pratos. – e aquilo era verdade. não era o melhor nos serviços domésticos, mas conseguia manter o ambiente de sua casa limpo sem ajuda. Entretanto, lavar os pratos era sempre um pesadelo para ele. Talvez por associar à brigas com Dereck na sua infância ou porque aquilo era uma lembrança constante de que sua avó já não estava mais por perto, a atividade não entrava na lista das suas favoritas. Antes que sucumbisse à tristeza que ameaçava o invadir pela enxurrada de lembranças que estavam por vir, equilibrou os três pratos em uma mão e seguiu para a cozinha ouvindo o acompanhar.
Enquanto lavava, enxugava num ritmo coordenado. notou que ele executava sua tarefa cantarolando baixinho alguma canção que ela não conseguira identificar. Achava que nem ele mesmo se dera conta que estava fazendo isso, porém concluiu que era mais prudente não comentar sobre. Em menos de cinco minutos eles já tinham terminado de lavar e enxugar os pratos e por algum motivo – ainda seria misterioso e confuso para os dois -, sentiram se insatisfeitos com a pequena duração da tarefa. Sem saber o que dizer, mas querendo prolongar a interação, se pronunciou.
– Então, como foi o seu primeiro dia na loja?
– Bom, o inicio você já sabe né? – sorriu divertida lembrando da pequena confusão da manhã. – Mas quando eu finalmente pude me concentrar no trabalho, as coisas fluíram bem demais. Tenho a impressão de que vai ficar do jeito que sonhei.
– Fico feliz por isso. Aquele lugar estava precisando de uma nova cara, sabe? Estava abandonado por muito tempo.
– Jura? Eu percebi que deveria existir algum empreendimento ali, provavelmente um restaurante.
– Bem, era sim um restaurante. Mas já faz algum tempo que a dona teve que fechar e bom… – ele pausou por alguns segundos, como se estivesse perdido em memórias. – Nunca mais foi aberto. – completou e sentiu que aquilo era uma conclusão. Não arriscaria tentar tirar mais alguma informação naquele momento.
– Entendi… Bom, eu consegui utilizar algumas das coisas que sobraram por lá.
– Tenho certeza que fará bom uso delas. – e a encarou sorrindo sincero. gostava daquilo, da forma como ele constantemente sorria. Sorrisos divertidos, sinceros, espertos e alguns deles presunçosos. Com certeza, aquele rosto tinha sido feito para sorrir. Não tinha como não retribuir e seus lábios logo o acompanharam.
– Obrigada, de verdade.
Tentando continuar o assunto, logo lembrou-se de comentar com ele sobre Claire.
– E ah, obrigada por me apresentar Claire. Ela aparenta ser incrível.
– Ela é sim! Não se deixe levar pela impulsividade dela que você encontrará uma amiga de verdade. Claire está na minha vida desde que me conheço por gente, mas sei o quanto ela pode ser… Enxerida. – disse a ultima palavra com certa cautela, sem saber bem como expressar o que achava sem ofender a amiga.
– Deve ser coisa de jornalista.
– Ou talvez ela tenha se tornado jornalista apenas por isso. – deu uma piscadela esperta. – Acho que é algo que nunca vamos saber.
– Espero não me arrepender dessa entrevista, hein?
– Não vai não. Se achar que ela está passando dos limites, é só falar. Ela é relutante, mas não invasiva.
– Obrigada pela dica. – agradeceu mais uma vez. – Eu acho que você é a pessoa que eu mais agradeci num tão curto intervalo de tempo.
mexeu em seus cabelos claramente desconcertado.
– Ah, eu gosto de me sentir útil. Se tiver qualquer coisa que você precisar de ajuda, basta me chamar. – e no fundo do seu ser, desejava bastante que aquilo acontecesse o mais rápido possível.
– Eu me recuso a agradecer mais uma vez, porém estou grata. – riu divertida. não conseguiu desviar os olhos do momento. Ela tinha uma risada linda. Na verdade, não só a risada. Desde que ela havia chegado a sua casa, ele refletiu sobre como tudo que ela fazia tinha certo encanto. Observar era interessante. Por isso, sustentou a troca de olhares por mais algum tempo.
Entretanto, parecia loucura tentar descrever a atmosfera que os envolvia durante o gesto. Aquela realmente não era uma simples troca de olhares e isso estava claro. não deixara de notar que estava naquela situação pela segunda vez no mesmo dia, com a mesma mulher. O olhar de o penetrava e, por mais ridículo que possa parecer, o desbravava cada segundo mais. Será que toda vez que eles se encarassem seria assim?
Porém, antes que pudesse chegar a qualquer explicação lógica ou que ela percebesse que ele tinha desviado seus olhos alguns centímetros abaixo, foram interrompidos por um barulho irritante. Podia ser até um mero devaneio, no entanto, alegaria que o som se tornou uma barreira física entre os dois. Só depois de alguns instantes que se deu conta que aquilo tratava-se da sua campainha. Amaldiçoou-a, sem saber nem o motivo. O que ele também não sabia era que fez a mesma coisa em sua mente.

 

Capítulo 4

Ouviu de longe um barulho irritante que parecia aos poucos dominar todo o quarto e o ambiente que a cercava. Alguns instantes depois percebeu que se tratava de seu despertador anunciando a hora de levantar. Apesar de extremamente tentada a permanecer na posição horizontal e em sua cama, ela despertou. Repetiu a mesma rotina do dia anterior: higiene matinal, café da manhã improvisado e sem muita dificuldade (péssimo hábito para uma cozinheira, diga-se de passagem) e rumou em direção a sua loja. Planejava manter essa rotina durante as próximas duas semanas, seguindo milimetricamente seu cronograma para garantir que tudo corresse da forma que pretendiam.
Já era quinta feira e seria o dia em que Claire faria uma visita durante à tarde para a tão temida entrevista. Desde que ela e haviam sido interrompidos por uma campainha e uma visita de uma senhora dois dias atrás, quando tirava seu foco da reforma, seus pensamentos se concentravam apenas naquelas duas coisas: a perigosa entrevista com Claire e o momento com . Não sabia o quanto do que lembrava tinha sido real e o quanto havia sido fruto de sua fértil imaginação, já que por vezes temia estar imaginando cenários e sensações. Afinal, conhecia o rapaz há menos de 48 horas e já estava supondo que ele queria beijá-la?
Balançou a cabeça em busca de se livrar dos pensamentos e seguiu um caminho facilmente decorado por ela, avistando de longe a fachada de sua loja. Apressou-se um pouco ao ver que pintor que já a esperava. Os moradores de Hanover eram incrivelmente pontuais, pelo visto. No dia anterior ele também estava esperando na porta do estabelecimento.
– Bom dia, Isaac! – ofereceu um sorriso ao senhor encostado na parede, tratando de abrir a porta e dar passagem para ele.
– Bom dia, senhorita ! Que lindo dia, não é mesmo? – ele retribuiu o sorriso enquanto olhava para o céu. O clima estava ameno e livre de nuvens. encarou aquilo como um bom sinal.
– Sim, sim!
– Bom, então vou iniciar logo meus serviços. Quanto antes terminar, mais cedo posso voltar para casa. – e rumou para dentro da cozinha sem prolongar sua conversa (o que era bastante incomum para aquela cidade), cômodo que ele havia escolhido para iniciar seus trabalhos. não deixou de se impressionar com a relativa rapidez com que ele trabalhava. Isaac deveria ter cerca de 50 anos, mas seus movimentos eram ágeis e precisos. Pelos seus cálculos, ela acreditava que em menos de três dias ele finalizaria toda a pintura. O que era bom, uma vez que a ansiedade dentro da cozinheira para inaugurar seu comércio a consumia durante as noites (e os dias também).
Enquanto Isaac realizava seus afazeres, tratou de receber algumas novas encomendas que haviam chegado – utensílios de cozinha, eletrodomésticos e decorações que encontrara online. Assim como no dia anterior, perdeu noção do tempo durante seus ajustes no local e só percebeu que o horário do almoço havia chegado quando o pintor apareceu para avisar que se ausentaria.
Depois de agradecê-lo, resolveu seguir os mesmos passos que ele: ir atrás de uma refeição que fosse completa, já que seu café da manhã não era mais o bastante para sustentá-la. Analisando suas opções, decidiu que iria novamente ao O’Neills, pois sabia que a comida era apetitosa e a companhia de Nora não seria de todo o mal. Rumou em direção ao restaurante e conseguiu ver que dessa vez contava com vários clientes, diferente do primeiro dia que visitou o lugar. Sentiu-se sortuda ao ver que ainda havia uma mesa vazia no lado de fora. Queria aproveitar a hora do almoço para tomar um ar e relaxar um pouco depois de tantas horas dentro do estabelecimento com a mente a mil por hora.
Puxou a cadeira e assim que fez menção de se sentar, percebeu outra mão segurando a cadeira oposta. Desorientada, volveu os olhos para a pessoa com quem disputava a mesa e deu de encontro com igualmente confuso.
– Ah, desculpe. Achava que essa mesa estava vazia. – ela pronunciou rapidamente.
– E eu pensei o mesmo. – ele sorriu atrapalhado. – Pode se sentar, , eu procuro um lugar dentro do restaurante.
– Claro que não, ! Pode ficar com a mesa, você deve ter chegado antes, eu que não percebi.
Antes que ele tivesse tempo de responder – ou, no caso, discordar da afirmação dela -, Nora apareceu com um sorriso no rosto.
– Oh, que bela surpresa. – sorriu enquanto olhava para os dois. – E que ótimo que decidiram sentar juntos, essa é a última mesa! O dia hoje está intenso! Volto em instantes para anotar os pedidos de vocês. – e saiu esbaforida rumo ao estabelecimento depois de ter feito algumas conclusões precipitadas. não deixou de perceber o quanto o jeito dela parecia com o de seu marido.
Prevendo que a situação poderia se tornar vergonhosa devido à confusão da mulher, se prontificou a falar.
, não tem problema, eu posso comer na doceria. Eu peço para viagem.
– Ah, , deixe de besteira. Juro que não sou uma companhia tão ruim assim para um almoço. – disse exibindo um sorriso convencido e não duvidou daquilo nem por um segundo. Ele deu a volta na mesa para terminar de puxar a cadeira dela de forma cavalheira, ajudando-a a se sentar.
– Tudo bem, então. Obrigada, . – sorriu envergonhada e aceitou o gesto. não pôde deixar de notar o quanto gostava de seu apelido sendo dito por ela. Quando os dois estavam devidamente sentados, soltou a primeira pergunta que veio a sua mente quando viu que estava vestido com certa formalidade. Não deixou de notar também o quanto lhe caia bem os trajes, mas resolveu deixar essa parte de fora da conversa. – Você trabalha em um escritório aqui perto?
– Hã, sim. – ele bagunçou os cabelos de forma confusa. – Na verdade, é complicado. Mas sim, eu trabalho no escritório da prefeitura também.
Antes que ela pudesse estender a conversa e questionar o porquê da complicação, Nora surgiu com um pequeno bloquinho em suas mãos, pronta para anotar os pedidos dos dois, mais rápido do que esperavam.
– Então, o que desejam? – perguntou exasperada. – Sou suspeita para falar, mas o especial do dia está fazendo muito sucesso hoje. Quase todas as mesas estão pedindo meu risoto.
– Por mim, tudo bem. – falou e voltou seu olhar para . – E você, ? Já sabe o que quer?
– Vou confiar novamente no seu julgamento, senhora Niell. O especial do dia, por favor.
– Ótimo, ótimo! Consigo fazer mais rápido uma grande porção. – Nora respondeu, mais para si do que para os dois que estavam sentados à mesa. Ela estava um pouco eufórica com o movimento em plena quinta feira à tarde. Havia se esquecido do feriado na sexta feira e não se preparou antecipadamente. Claramente um descuido que não era comum para uma mulher com tantos anos de experiência. Despediu-se apressadamente do casal e rumou novamente para a cozinha.
– As coisas estão agitadas por aqui, hein?
– Ah, sim. Sexta e sábado teremos uma pequena celebração na praça devido ao feriado e a cidade costuma se agitar. Nada com que você não acostume.
– Feriado? – questionou, revirando sua mente em busca de uma lembrança de algum feriado em seu calendário. Não conseguia se recordar de nenhuma data comemorativa no meio de agosto.
– Não é bem um feriado, é mais uma tradição da cidade. – riu enquanto explicava para a moça. – Na verdade, é uma tradição bem… Espirituosa, se assim posso dizer.
– Eu estou oficialmente curiosa. – revelou enquanto seus olhos ganhavam um brilho questionador. não entendeu o porquê de ter notado aquilo.
– Antes de tudo, você tem que entender que Hanover é uma cidade bem tradicional, certo? Nada de rir dos nossos costumes pouco… Nova-iorquinos. – ele provocou antes de continuar.
– Claro que não, eu não ousaria. Não quando vocês me receberam tão bem… – disse sincera, esboçando um sorriso.
– Bom, lá vai… Cerca de trinta anos atrás, os Silvers, uma família bem antiga e tradicional daqui tiveram um pequeno problema na fazenda deles. E bem, durante essa confusão, que mais se tratava de uma discussão entre marido e mulher, alguns animais deles acabaram escapando da fazenda pelo portão aberto.
– Certo… – a mulher acompanhava atenta.
– E você sabe como animais ficam quando fogem, certo? – assentiu, mesmo sem ter a menor ideia do que ele estava se referindo. percebeu que aquilo não fazia parte da vida dela e complementou. – Eles ficam agitados, alvoroçados ou qualquer outro adjetivo que se queira dar para um verdadeiro caos. E alguns deles conseguiram fugir para a cidade. Imagine só, a praça da cidade repleta de porcos, vacas e galinhas. – ele riu como se estivesse realmente se divertindo com aquilo. – Durante essa fuga desgovernada, a cidade ficou num caos. A propriedade deles ficava muito perto da praça, então você pode imaginar que num sábado estava bem cheia, não é? Pois bem, o alvoroço foi grande que até a policia entrou no meio para resgatar os pobres animais e evitar que alguém se machucasse. Porém, apesar de divertida, a história poderia ter acabado muito mal, pois um porco atravessava a rua bem no momento que o ônibus da escola retornava de uma viagem cheio crianças.
– E ai? – A cozinheira perguntou visivelmente curiosa quando fez uma pausa dramática e ensaiada. Era bem provável que a história fosse contada da mesma forma todas as vezes.
– Antes que acontecesse um acidente, o policial Galbert conseguiu deter o porco se jogando contra ele. No meio desse desmantelo ele acabou quebrando os dois braços e uma perna, mas o porco e as crianças ficaram a salvo. Alguns dizem que ele tropeçou, outros dizem que o ônibus chegou a atropelar o pobre homem. Enfim, não se sabe ao certo, o que se sabe é que ele virou um herói na cidade. Afinal, ele salvou mais de trinta crianças.
Quando o homem parou de falar, estava ainda mais curiosa.
– E é isso? Porque é feriado? O que aconteceu com o policial depois? E com o porco? – soltou de uma só vez todos os questionamentos que passavam por sua mente.
– Calma, calma, essa é a melhor parte. – complementou se divertindo. – Bom, passado o sufoco, a prefeitura resolveu fazer uma homenagem ao Galbert por ter salvado tantas pessoas e… bichos. Quando ele estava totalmente curado e retornou ao trabalho, cerca de um ano depois do incidente, resolveram fazer uma cerimônia. Como foi um marco para toda Hanover, decretou-se algo como um “feriado” popular. – ele fez aspas com os dedos ao se referir ao feriado. – E aí que entra a parte boa. Entre as festividades e honras, inauguraram o concurso de caça aos porcos.
– Caça aos porcos? – a mulher perguntou chocada e surpresa.
– Sim, isso mesmo. No sentido mais literal da palavra. Na sexta feira, temos uma feira durante a noite vendendo apenas carne de porco, galinha e vaca. O que é bem macabro, se você quer saber a minha opinião. A feira continua durante todo o final de semana. E no sábado à tarde, existe uma espécie de competição de caça aos porcos. Constroem uma estrutura aqui perto da praça e soltam os porcos e as pessoas. É bem óbvio o que acontece numa caça aos porcos, né? E aí, a primeira pessoa a capturar um porco ganha um prêmio.
– Não me diga que o prêmio é o porco! – disse entre risadas.
– Não, não! O prêmio trata-se de uma visita na fazenda dos Silvers, que é realmente fascinante, com uma cachoeira praticamente inexplorada. Além disso, alguns souvenirs que quase sempre remetem aos bolos de Hanover e um jantar no restaurante da família.
– E você alguma vez já esteve lá? Digo, na fazenda? – a parte da cachoeira realmente a fascinou. Nunca havia visitado uma, apenas visto fotos de algumas aventuras de amigas durante as férias.
– Eu só participei do concurso uma vez, aos 11 anos. Meus pais não eram muito… Tolerantes com esse desafio. Não consegui pegar nenhum porco e fiquei em ultimo lugar. A humilhação foi tanta para a pobre criança que nunca mais tentei. E agora seria um pouco estranho.
– Com um prêmio desses, não sei se julgaria… – disse, visivelmente se divertindo.
– Ei, você falou que não iria rir da tradição, hein?
– Não estou rindo! Achei extremamente singular, na verdade. Nunca tinha ouvido falar disso, nem nas pesquisas que fiz antes de me mudar.
– A tradição é mantida pelas pessoas mais antigas da cidade e elas não são muito ligadas nas redes sociais. – ele disse. – Na verdade, a cidade como um todo não é muito ligada. – complementou.
– Não acho que seja uma coisa ruim, sabe? Em Nova York eu constantemente me via cercada de informações. É bom estar num lugar tranquilo.
– Se você considera tranquila uma caça aos porcos… – ele riu.
– Ah, mas isso eu preciso ver. Não posso perder esse evento. – ela sorriu animada e até um pouco ansiosa.
– Jura? – questionou surpreso. Quando ela assentiu, ele voltou a falar. – Certo, se você insiste tanto, eu te acompanho nessa aventura singular. – disse colocando as mãos para cima, fingindo rendição.
, não foi isso que eu quis dizer. – respondeu, contrangida e atrapalhada. – Eu não quis dizer que você tem que ir, eu posso passar pela praça e acompanhar sem problemas.
– Quer dizer que você não quer minha companhia? – ele perguntou, fingindo estar ofendido.
– Não, não é isso… Eu quis dizer que…
– Relaxa, ! Eu estou brincando. Eu já viria ao festival de qualquer jeito, gostaria de te acompanhar caso queira.
– Claro que eu quero. – respondeu mais rápido do que desejara. Agradeceu aos céus quando Nora chegou à mesa com os pratos e os talheres evitando que continuasse olhando divertido para ela.
– Aqui está, queridos! Espero que tenham uma ótima refeição. Avisem se precisarem de algo, mas, por favor, não precisem. O meu projeto de garçom me deixou na mão.
– A gente se vira por aqui, senhora O’Neill. Muito obrigada. – complementou oferecendo a ela um sorriso.
Desfrutaram da refeição discutindo um pouco mais sobre a tradição que deixara a doceira fascinada que ela nem se deu conta de como o tempo passou rápido. Só percebeu que deveria voltar ao trabalho quando viu Isaac atravessando a rua em direção à loja. também percebeu.
– Soube que Isaac está te ajudando com a pintura. Como está indo a evolução? – perguntou evidentemente interessado.
– Está indo bem rápido, para falar a verdade. Ele é bem mais ágil do que prometera. Acho que terminaremos um dia antes do planejado.
– Que ótimo, estou ansioso para conhecer o local.
– Você será convidado de honra para a inauguração, pode deixar.
– Calma ai, . Já não basta um almoço e um encontro na feira, já está me oferecendo um terceiro compromisso?
quase engasga com o refrigerante que estava bebendo. Quando estava prestes a se defender da confusão e resgatar um pouco de sua dignidade perdida, percebeu o sorriso zombeteiro no rosto de . Jogou o guardanapo nele e revirou os olhos sorrindo.
– Se você puder me dar à honra, seria ótimo. Afinal, o terreno continua sendo seu e você vem sido de bastante ajuda.
– Não será por isso que irei comparecer. – arqueou uma sobrancelha de forma esperta. – Eu acho que o senhor Isaac está um pouco apressado. – ele constatou após observar o homem andando apressadamente na frente da doceria.
– Eu preciso correr. Tenho uma entrevista com Claire e ainda tenho algumas coisas para organizar antes disso. Obrigada pelo almoço, .
– Eu disse que seria uma boa companhia.
– Não necessariamente uma humilde, né? – disse enquanto colocava uma parte do dinheiro da conta em cima da mesa para pegar. – Tchau, .
– Boa sorte com Claire. Mas não tanta porque até eu quero saber alguns dos seus segredos.
– Boa sorte com isso amanhã na feira, então. – completou se levantando da mesa e fazendo o caminho de volta para sua loja. Porém, dessa vez, um sorriso insistia em preencher seu rosto depois do almoço que teve.
Talvez, se ela tivesse parado um pouco para olhar para trás, poderia constatar que se encontrava da mesma forma na mesa que ela antes sentava. Com um sorriso nos lábios.

 

 

Capítulo 5

soube que Claire havia chegado quando ouviu as altas risadas da loira rompendo a porta de entrada. Ela só não esperava que ela estivesse acompanhada. E de alguém tão lindo e fofo quanto o menino que estava no seu encalço. A criança batia era um pouco mais alta do que os joelhos de Cla e corria os olhos curiosos por todo o local. Seu cabelo loiro estava bagunçado, deixando bem claro que ele estava correndo há poucos minutos.
, boa tarde! Tudo bem? – Claire falou enquanto tentava inutilmente segurar no colo a criança que estava com ela. O menino correu da mãe e ficou em frente à . – Ah, esse é o Jimmy, meu filho.
– Oi, Cla! – ela disse feliz pela chegada da jornalista. – E oi para você também, Jimmy. Eu sou a . – sorriu para ele. Durante alguns segundos foi encarada de volta de forma curiosa por dois grandes olhos azuis.
– Eu sou o Jimmy. Você é a moça do bolo? – ele perguntou com sua voz soando um pouco baixa, como se estivesse descobrindo um segredo.
– Hã, acredito que sim… Eu faço bolos sim. – respondeu um pouco incerta.
– Foi você que fez o bolo de chocolate da casa do tio ?
– Sim, fui eu sim. Você gostou?
Ele soltou um sorriso alargado e pareceu quebrar qualquer que fosse a barreira de desconfiança que havia criado anteriormente.
– Gostei sim! Mamãe até disse que se eu me comportasse, eu poderia comer duas fatias inteiras hoje. Você está com elas ai? – olhou esperançoso.
– Ai, , desculpe por isso. Tive um pequeno probleminha de logística e tive que trazer o Jimmy junto para a entrevista. Seu bolo me serviu como suborno. – admitiu com um sorriso um pouco envergonhado. – Mas como eu disse, filho, o bolo vem depois do trabalho da mamãe.
– Ah… – ele falou baixando os olhos e se mostrando decepcionado. não conseguiu não se comover e prontamente falou com ele.
– Jimmy, eu não tenho as fatias aqui, mas tenho algo muito melhor… Eu vou te dar um bolo inteiro se você se comportar.
podia jurar que os olhos do menino se abriram mais do que ela acreditava que era possível. A excitação tomou conta de todo o seu rosto.
– Um bolo inteiro? – ele perguntou abrindo a boca numa expressão de surpresa. A cozinheira assentiu com a cabeça. – Só para mim?
– Sim, um bolo inteiro. Só para você.
– E qual o tamanho bolo? – ele questionou colocando as mãos no quadril como se a analisasse.
– Meu Deus, Jimmy! Não seja mal educado! – Claire correu em busca do filho, apressando-se para pegá-lo em seu colo. Porém ele foi mais rápido e se prostrou atrás de . Jimmy era inteligente, isso não dava para negar.
– Não tem problema, Cla. Jimmy, prometo que vou fazer a minha maior forma para você, certo? Mas você tem que dividir com sua mãe.
– Tudo bem, eu aceito. – e estendeu a mão para ela, como se firmasse um acordo. riu impressionada com a maturidade da criança.
– Ah, pronto, mais uma pessoa para fazer as vontades dele. Já não basta , agora você.
– O tio diz que eu sou irresis…timel? – ele falou para orgulhoso, porém meio incerto e sem conseguir pronunciar direito a palavra.
– Irresistível filho. E você é mesmo. – Cla apertou as bochechas dele sob seus protestos.
– Tenho que concordar com seu tio, Jimmy. – completou.
– Filho, senta ali e se comporta direitinho enquanto mamãe e a tia conversam, tá? – ela falou, mas antes mesmo de completar a sentença percebeu que ele já havia se distraído com o caminhão de brinquedo que tinha em suas mãos. Mais um presente do padrinho. Ela não cansava de dizer o quanto mimava aquela criança.
puxou uma segunda cadeira para a mesa que estava sentada (imaginou que Claire não partilhasse das mesmas preferências pelo chão como ela) e ela prontamente a tomou.
– Bom, tentarei deixar a entrevista o mais profissional possível, , mas o sr. Brown realmente quer uma matéria que fale um pouco sobre você. Nada muito invasivo, mas as pessoas precisam te conhecer.
– Tudo bem. – suspirou derrotada. – Eu sei que as pessoas da cidade esperam um pouco de reconhecimento para começar a frequentar meu negócio.
– É exatamente isso. Somos uma cidade pequena, todo mundo se conhece e todo mundo se apoia, sabe? Vai ajudar bastante se eles conhecerem sua história. – sorriu encorajando a mulher à sua frente. – E isso me leva a primeira perguntar: Quem é ?
– Essa pergunta dá espaço para muitas suposições… – falou e viu um sorriso travesso tomar conta do rosto de Claire. – Mas claro que você já sabe disso. Bom, eu tenho 24 anos e sou chef de cozinha. Terminei a faculdade de Gastronomia em Nova York cerca de um ano atrás, mas sempre tive vontade de abrir meu próprio negócio. Mais especificamente, minha própria doceria. E não existe lugar melhor no mundo para fazer isso do que Hanover, a capital do maior concurso de bolo do país. – completou.
– Ok, ok, essa parte eu já sabia… Você vai ter que me dar um pouco mais para trabalhar do que apenas isso. – não pode deixar de notar que Claire assumira uma postura extremamente profissional, com seu caderninho a postos e um gravador no centro da mesa. – Vamos lá, porque agora, depois de um ano, você decidiu que seria o melhor momento?
– Certo, como eu disse, eu sempre tive vontade de abrir meu próprio negócio. Mas quando eu finalmente me formei, eu ainda era muito inexperiente, sabe? Comecei a trabalhar em um restaurante relativamente prestigiado em Nova York quando ainda era estagiária e assim que recebi meu diploma, me tornei chef de cozinha nesse mesmo lugar. Entretanto, não era exatamente o que eu queria fazer e eu sabia o quanto aquilo poderia me deixar frustrada. E acho no momento que ficou visível que seria impossível trabalhar sem prejudicar meus colegas ou o resultado final, eu decidi me afastar.
, eu preciso que você seja mais especifica, sabe? Tenho certeza que tem um ponto em que a chave virou.
– E tem sim… – ela falou encarando um ponto fixo na mesa, sem voltar seu olhar para a jornalista. – Eu comecei a me interessar muito cedo pela cozinha por influência direta da minha tia, Grace . Ela sempre me auxiliava nas receitas e na faculdade. Ouso dizer que foi a minha maior fã. – um sorriso triste brotou em seu rosto. – Pouco antes de eu terminar a faculdade ela foi diagnosticada com câncer. E infelizmente já era tarde demais. O tratamento era mais paliativo do que propriamente uma cura. – sentiu um gosto amargo em sua boca ao relembrar de todos esses acontecimentos. Claramente ela ainda não havia lidado muito bem com tudo o que acontecera. – Menos de três meses atrás, ela faleceu. E minha tia sempre foi uma mulher de surpresas. Ela me apoiava em toda e qualquer coisa que eu me propunha a fazer e era minha confidente quanto aos meus sonhos de um empreendimento próprio.
Antes de continuar, se permitiu sentir tudo o que podia quando se lembrava da tia. Era um misto de gratidão, carinho, felicidade e muita, muita saudade. Sabia que a tia ficaria extremamente decepcionada se a visse debruçada em tristeza ou lágrimas ao lembrar-se dela, mas não podia conter a emoção.
– E quando ela se foi, deixou uma quantia considerável de dinheiro para mim. Eu nem precisava ler seu testamento para saber o que ela queria que eu fizesse com o dinheiro. Muitas noites nós lemos sobre Hanover, sobre o concurso e sobre o respeito da cidade com seus cozinheiros. Parecia tudo muito certo. No momento que eu saí do enterro, eu soube o que devia fazer. Como se tudo estivesse conspirando para isso, meu chefe acabou promovendo outra pessoa e ficou insuportável continuar onde estava. – deixara de fora, propositalmente, que a outra pessoa que se referia era seu ex namorado. Confiava em Claire, mas se fosse para contar essa parte da história, que fosse enquanto amiga e não jornalista. – Foi ai que comecei a minha preparação para a mudança. E dois meses depois, aqui estou eu.
– Ah, , que história linda! – Cla falou com pequenas lágrimas se formando em seus olhos. – Eu tenho certeza que seu lugar é aqui! Em pouco tempo você vai se adaptar e sua doceria estará repleta de clientes, tão ansiosos quanto Jimmy por seu bolo de chocolate.
Como se soubesse que sua mãe estava falando dele, Jimmy as encarou enquanto levantava a mão em um pequeno joinha, concordando com as palavras dela. reparou o quão fofo aquilo era.
– É tudo o que eu mais quero. – confessou, deixando a ansiedade, a vergonha e o nervosismo de lado. Era, realmente, tudo o que ela queria: ser aceita e se sentir parte dali.
A entrevista seguiu com perguntas mais profissionais e voltadas para detalhes técnicos por mais uma hora. , mais uma vez, concluiu que conversar com Claire era muito fácil. Ela era realmente uma jornalista fantástica. Mas também aparentava ser uma pessoa incrível. Sabia que a entrevista chegara ao fim quando Jimmy começou a rodar a mesa, claramente impaciente. Ele também sentia que a mãe já tinha tudo o que precisava para escrever.
– Acho que é isso. Tá vendo, não foi tão difícil assim, foi?
– Não, não foi. E agradeço pela oportunidade, Cla. Acho que vai ser muito bom para os negócios.
– Eu que agradeço, ! Estava precisando me sentir jornalista novamente.
– Vocês terminaram? – Jimmy perguntou enquanto alternava o olhar para mãe e para a mulher que ele havia conhecido naquela tarde.
– Sim, filho, a mamãe já terminou.
– Ótimo, agora cadê meu bolo? – ele questionou estendendo as mãos na frente do seu corpo, simulando uma bandeja. riu da expressão mortificada que tomou conta do rosto de Claire.
– Por Deus, Jimmy! O que eu vou fazer com você?
– Me dar bolo, mamãe. – ele respondeu como se fosse à coisa mais óbvia a se fazer. gargalhou e ouviu um risinho vindo de Isaac também. Ele estava organizando seus materiais na porta da cozinha e conseguiu ouvir bem o impasse entre os dois.
– Jimmy, a tia vai fazer bolo assim que chegar em casa e te dou, pode ser?
– Tudo bem, desde que não seja depois da minha hora de dormir, senão a mamãe fica muito brava.
– Ai meu Deus! – Claire disse, exasperada. – Onde estão seus modos? A vai deixar o bolo assim que ela puder, filho. A gente não pode fazer exigências do que é presente. Talvez só com seu padrinho , mas ai é uma história totalmente diferente.
– Ah, Cla, não tem problema. O Jimmy está certo. Que tal assim: vocês vão lá para minha casa para um jantar e depois eu te dou seu bolo? – ela sugeriu enquanto fazia sua mente raciocinar qual seria a melhor escolha para o jantar e como teria que se organizar para conseguir fazer tudo o que queria.
– A gente aceita. – o menino sorriu, mais uma vez estendendo a sua mão como forma de firmar um acordo. achou aquilo hilário.
– Nem olhe para mim, ele aprendeu de tanto ver o com as pessoas da cidade. Qualquer negociação que esse gêniozinho faz, ele sela com um aperto de mãos.
Ela estendeu sua mão de volta e firmou o pacto com ele.
– Fechado, Jimmy! Hoje, às 19 horas, lá em casa. Eu estarei esperando com seu bolo.
– Posso levar o tio ? Ele também adorou o seu bolo. – não precisou olhar para Claire para saber que ela colocava a mão na testa enquanto suspirava. Imaginava que Jimmy devia ser muito inteligente e com uma vontade própria.
– Pode sim, pequeno. Eu vou fazer comida para um batalhão. – respondeu divertida. No fundo de sua mente, porém, sua diversão era devido a outro motivo: ela encontraria novamente. – Por falar nisso, que tipo de comida você gosta?
– Batata frita! – ele disse prontamente, sem nem ao mesmo titubear. agradeceu aos céus por ser algo tão prático que não tomaria seu tempo e a deixaria confortável para preparar mais um bolo.
– Combinado. Eu também amo batata frita. – piscou para ele, sendo cúmplice de seu plano. Claire se limitou a revirar os olhos. Era só mais uma caindo nos encantos do filho.
Claire se despediu de enquanto tentava acalmar um Jimmy extremamente agitado com a ideia de um bolo de chocolate e de um jantar exclusivo.
Depois que o relógio marcou cinco horas, a cozinheira se apressou em fechar o estabelecimento e dispensar o pintor antes que ele pedisse. Já tinha segurado o homem por mais tempo que deveria durante o almoço, não queria que ele achasse que ela estava abusando de sua boa vontade.
– Isaac, você já fez o bastante por hoje. Muito obrigada, de verdade. Está ficando incrível! – Ela disse enquanto encarava as paredes com o novo papel de parede em tons pastel que o homem havia colocado. Cada vez mais perto de seu sonho. – Acho que conseguiremos inaugurar na data prevista.
– Que isso, senhorita . É apenas meu trabalho. – disse tímido, mas esboçando um sorriso de orgulho. – E a senhorita já pensou em como será a inauguração?
– Eu pretendo colocar a maior quantidade de gente possível aqui. – ela respondeu risonha.
– Então a senhorita deveria chamar o seu para cantar. Qualquer bar que ele canta lota.
encarou o homem surpresa. Será que ele estava falando de quem ela pensava?
? O dono desse terreno?
– Sim, o próprio. Muito se fala da voz dele.
– Eu não sabia que ele era cantor… Eu achava que ele trabalhava na prefeitura. – ela disse franzindo o cenho.
– Mas ele também trabalha. O seu é muitas coisas… É complicado. – ele sorriu desconcertado, claramente tentando se livrar do assunto.
apenas concordou e não alongou a conversa. Entendera sua deixa quando o pintor se mostrou desconfortável. Não deixou de notar, porém, que aquela era a segunda vez no dia que “complicado” era usado para descrever o que fazia. A curiosidade a corroía, por mais que tentasse negar. Buscando otimizar seu tempo e fazer com que tudo corresse da forma correta, despediu-se de Isaac e foi em direção ao seu carro.
Passou no mercado comprando o que precisaria para elaborar o jantar que surgira de forma espontânea e se apressou para que tudo ficasse pronto no pequeno intervalo de tempo que tinha. Não podia deixar de se sentir feliz por Claire ter aceitado seu convite. Ela sabia muito bem que precisaria de amigas na cidade e a mulher parecia uma das melhores pessoas para se ter por perto. Não que tivesse conhecido pessoas desagradáveis, mas bem, Claire era de sua idade e aparentemente também ansiava por aquela amizade.
Quando já estava com tudo pronto e arrumado – incluindo ela mesma -, ouviu o barulho de sua campainha ressoando pela casa. Conferiu o relógio e ainda faltavam quinze minutos para o horário acordado. Talvez os moradores de Hanover não fossem só pontuais, mas também adiantados.
Tamanha fora a surpresa que ela teve quando abriu a porta e encontrou . Tentou se recompor depois de ter soltado um suspiro admirado quando o vira. Ele vestia uma blusa branca de manga curta e uma calça jeans, porém parecia ainda mais bonito. praguejou baixinho por se mostrar tão deslumbrada toda vez que o encontrava.
? – ela checou o relógio em seu pulso novamente. – Você está um pouco adiantado para o jantar, mas eu posso começar a fritar as batatas agora mesmo. – ela apontou para dentro casa, como se mostrasse que a cozinha estava a sua espera. Porém, não era possível ver nada além da sala que estava atrás dela.
– É sobre o jantar mesmo que eu queria falar. – ele se explicou. – Jimmy me avisou muito em cima da hora e eu já tinha um… Compromisso marcado. – fez uma pausa antes de definir o que seria exatamente o que o impedia de desfrutar da companhia dela. Ainda que tentasse mentir, não conseguiria esconder o desapontamento que sentira. Ele também partilhava do mesmo sentimento.
– Ah, não tem problema. Foi muito em cima da hora mesmo.
– Tem problema porque eu queria comparecer. – ele disse esboçando um rosto um pouco infeliz. – Mas eu compensarei amanhã, pode ser?
– Pode sim. – ela sorriu verdadeiramente.
E assim voltaram a se encarar. Desesperada para continuar a conversa, o questionou o que estava a importunando.
? – ele prontamente assentiu. – E você veio até aqui só para dizer que não vai poder comparecer ao jantar?
– Sim. – ele respondeu como se fosse óbvio. – Eu não tenho seu número e a gente mora tão perto que não fazia sentido eu mandar um recado por Claire.
– Eu ainda não estou acostumada com esse raciocínio. Eu esperaria uma mensagem ou uma ligação, não uma visita.
– Pode se acostumar, . As coisas funcionam assim por aqui.
Antes que ela pudesse responder, viu um carro estacionando na frente de sua casa. Só de ouvir um grito de “BOLO!” vindo do veículo ela soube que se tratava de Jimmy e de Claire. O menino parecia ansioso para se livrar de seu cinto e cadeirinha para correr rumo à frente da casa. Assim que Claire o libertou, ele foi em direção à , que o agarrou com uma familiaridade que comoveu o coração de .
– Tio, eu achava que você não vinha! – Jimmy falou, daquele jeito tão encantador que tinha.
– Infelizmente eu não vou ficar, só vim falar com a . Mas quero que me prometa que vai comer todas as batatinhas por mim!
– Pode deixar. Eu nem lanchei à tarde só esperando por isso! – ele falou enquanto passava as mãos na barriga.
– Jimmy, pelo amor de Deus, não mate sua mãe de vergonha tão cedo. Você não quis lanchar, mas comeu todo o seu biscoito, tá lembrado? – Claire disse enquanto se encaminha para a porta da casa, num ritmo muito mais lento e controlado do que seu filho.
– Achava que você não tinha visto, mamãe. – ele disse sapeca. – Mas tio, amanhã a gente se encontra para as aulas, não é?
– Aulas? – perguntou.
– Sim, aulas de violão. Um dia eu vou ser que nem o tio . – sorriu orgulhoso e notou que o homem que o segurava também sorria.
– Não sabia que você era professor, .
– Não sou. Na verdade, não deveria ser, mas é compli…
– Complicado, sei. – ela respondeu divertida, sabendo como aquilo terminaria.
Depois que todos se cumprimentaram, colocou Jimmy no chão e começou a se despedir.
– Eu já vou indo, , mas muito obrigada pelo convite.
– Que isso! Só esperava que você pudesse ficar…
– Pois é, eu também. Mas amanhã a gente se vê.
– O que tem amanhã? – Claire perguntou curiosa.
– Ah, vou levar a para conhecer a feira dos Silvers. Ela se mostrou bastante interessada na nossa tradição. – falou divertido.
– Hm… Entendi. – Claire olhou para os dois divertida e resolveu não comentar mais nada. Porém em sua mente já existiam diversas suposições.
Quando finalmente foi embora, os convidados entraram na casa. estava ansiosa para mostrar para o garoto o que havia preparado para ele – hambúrguer caseiro feito no forno e batatas fritas (da forma mais saudável que conseguira improvisar). Mas não pôde deixar de sentir um descontentamento por não ter mais uma companhia naquela noite.
Mal sabia ela, mas ao deixar a casa, se sentiu da mesma forma.

 

 

Capítulo 6

A sexta feira chegou e se comportava da forma mais previsível possível: arrastando-se. checou o relógio mais vezes do que gostaria de admitir no período da tarde sem entender o porquê de lentidão dos ponteiros. Tentava se convencer que o motivo daquela pressa era a finalização de uma semana de trabalho, mas no fundo de sua mente sabia muito bem que a ansiedade que lhe corroía ia além da sua própria loja.
A ideia de uma noite movimentada na cidade deixava-a bastante entusiasmada, ainda mais depois que Isaac fez questão de detalhar algumas outras tradições da feira. Ela descobrira que além da tão atípica caça aos porcos e barraquinhas de comida, ainda existiam jogos e shows ao vivo na praça. Parecia um cenário perfeito para finalizar sua primeira semana de trabalho. E, de quebra, ainda teria uma companhia bastante apreciável.
Depois do almoço recebeu uma visita (rápida demais, se pudesse opinar) de confirmando o horário em que eles iriam para a feira. novamente constatou que o celular não era muito utilizado por ali, mas o fato não a desagradou. Pelo contrário, tornara-se ainda mais fã da espontaneidade. E claro, não reclamou de o ver mais uma vez, ainda que brevemente. De novo, ele estava munido de um sorriso que combinava bastante com seu rosto.
Quando o relógio resolveu, finalmente, dar-lhe uma trégua e se mover de forma mais apropriada, decretou fim do expediente. Agradecendo pelo trabalho de Isaac e combinando que o último dia seria na segunda-feira, fechou as portas da loja se sentindo satisfeita. Ela estava adiantada em relação ao seu planejamento, o que significava que poderia adicionar testar novas receitas no final de semana e gastar mais tempo nas decorações elaboradas.
Fez o caminho para casa com seu carro e pôde ter a certeza que ele realmente estava sendo pouquíssimo útil para sua função quando ela já tinha terminado de mover todas as caixas que precisava. Além de destoar um pouco da imagem da cidade, a distância da sua casa era percorrida em quatro minutos dentro do automóvel. Caso optasse por ir a pé, demoraria aproximadamente o dobro daquilo. Não parecia ser uma ideia tão ruim assim caminhar pela cidade e conhecer mais alguns dos moradores de lá. Isso porque, tinha certeza que seria parada por eles na rua – assim como acontecera outra vez na semana.
Pouco tempo depois de terminar de se arrumar, constatou que ainda tinha cerca de trinta minutos até o horário marcado. Impediu qualquer tipo de pensamento de que estava adiantada por causa da ansiedade para o “encontro” – que nem sabia se poderia chamar assim – e aproveitou para conversar com seus pais sobre como foram os últimos dias. Através de uma ligação de vídeo contou-lhes sobre as tradições, a simpatia das pessoas que havia conhecido e também sobre o quão pequena a cidade era, da forma mais positiva que poderia ser. Seu coração foi preenchido de gratidão pela forma como eles receberam as notícias. Sabia o quanto eles estavam ansiosos para que o sonho dela se tornasse realidade e o quanto a apoiavam.
No momento em que seus pais se despediram ouviu a campainha de sua casa tocar. Tentou não se apressar tanto para abrir a porta, mas foi traída por si mesma e em poucos segundos já estava encarando . Assim como em todas as outras vezes que pousara os olhos nele e como previra, ele estava lindo. Apesar de estar vestido de forma comum, com uma camisa branca e uma calça jeans preta, parecia quase uma afronta alguém ser tão bonito assim. Entretanto, no momento que a viu, ela percebeu que o rosto dele se iluminou mais ainda. Apesar de ter passado despercebido por , o motivo disso era que o encanto era bilateral. a analisava com o mesmo deslumbramento. Talvez por isso o silêncio entre os dois demorou um pouco mais do que o normal para ser quebrado.
– Oi! – falou a primeira coisa que veio a sua cabeça e no segundo seguinte se arrependeu. De onde ele tinha tirado “oi!”?
– Oi, ! – ela respondeu tão enérgica quanto. Ao deixar de encarar os olhos do homem a sua frente e observar com maior clareza, conseguiu perceber que ele carregava em suas mãos uma espécie de brinquedo. Antes que ela pudesse questionar, entretanto, ele pronunciou:
– Ah, eu trouxe isso para você. – estendeu a mão que segurava o objeto. – É uma espécie de bingo em que marcamos as barraquinhas que visitamos. Basta colocar o pino que você recebe quando compra em alguma delas aqui. – ele explicou enquanto mostrava o pequeno porquinho em suas mãos que estava repleto de furos na parte de cima.
– E são tantas assim? – questionou ao observar que existiam muitos furos.
– Ah, nem tanto. É meio que uma relíquia que você guarda, sabe? A cada ano você vai complementando seu porquinho com as novas barraquinhas que surgem. E como é a sua primeira vez aqui, nada mais do que justo do que fazer do jeito correto. – completou estendendo o presente para ela.
– Ai, que incrível! Muito obrigada, . De verdade. Não precisava ter tido o trabalho.
– Que isso… Eu já tinha que comprar outro de qualquer jeito. Eu dei o meu para o Jimmy ano passado e digamos que ele não sobreviveu o último dia do feriado. Aproveitei para comprar um para você.
– Ainda assim… Obrigada! – ela disse verdadeiramente agradecida. Muito a agradava a ideia que ela não havia sido a única que tinha pensado sobre o encontro durante o dia. – Então vamos lá, estou cada vez mais ansiosa para conhecer essa feira. E faminta também.
Enquanto ela fechava a porta de sua casa, colocou suas mãos no bolso impedindo qualquer impulso de tentar entrelaça-las às de . Como esperado, eles caminharam em direção à praça já que havia fechado alguns dos cruzamentos devido à aglomeração. Além disso, não fazia o menor sentido utilizar o carro. A distância era pequena e a cidade parecia clamar por reconhecimento. Durante o caminho ela notou que parou em frente a uma casa com um jardim de rosas, assim como o dele. Não durou muito tempo, mas foi o suficiente para que ela percebesse um sorriso de lado no rosto dele. Fotografou em sua mente aquele momento.
Andando um pouco mais, percebeu que a além do cheiro característico de Hanover (o de bolo de laranja recém saído do forno), existia no ar um forte aroma de… Carne de porco. É claro!
– Eu consigo sentir daqui o cheiro das comidas.
– Eu te falei que achava super macabra essa história de comer o porco na sexta e depois caçar no sábado, né? Além de ter o animal como símbolo da festa. – ele disse mostrando uma certa indignação.
, eu acho que eles não pensaram muito a fundo nisso quando criaram a festa.
– Na verdade, eu tenho certeza disso. – ele respondeu resoluto. – Mas tudo bem, depois de vinte e seis anos de festival, aprendi a lidar com isso. – completou e viu a mulher concordar.
Quando chegaram à praça, conseguiu ver uma imensidão de cores e barulhos que não estavam tão visíveis durante o período da tarde.
– Como colocaram tudo isso em tão pouco tempo? Tem duas horas que eu saí da doceria e isso tudo com certeza não estava ai. – perguntou surpresa.
– Você pode se surpreender com a agilidade que os moradores daqui se movem quando o assunto é o feriado. – respondeu rindo demonstrando orgulho. – Mas vamos começar a sua aventura, ok?
– Ok! Estou preparada!
– Certo, é o seguinte: quando eu era mais novo, bolei com Dereck e Cla a melhor forma de se aproveitar. Por isso, temos que seguir um roteiro para que você desfrute o máximo. E ah, consiga preencher esse porquinho com o melhor que Hanover tem a oferecer.
– Você bolou um roteiro? – ela riu enquanto arqueava uma sobrancelha.
– Ei, não vale rir. Eu tinha 13 anos e na minha cabeça fazia muito sentido. Afinal, é o melhor evento da cidade! – ele estendeu as mãos como se apresentasse para ela toda a extensão da praça. – Primeiro, vamos passar na barraquinha dos McDonells.
– Os donos do condomínio que eu moro? – perguntou surpresa.
– Os próprios. Vem, o tempo já está contando. – e assim, agora que tinha uma desculpa que era no mínimo razoável, pôde finalmente entrelaçar seus dedos ao dela. O ato banal, entretanto, não passou despercebido por , que foi inundada por uma sensação de felicidade. Clichês a parte, pensou que não existia um melhor lugar para a sua mão naquele momento. Seguiu o homem que a guiava rindo do foco dele para cumprir o roteiro. Não deixou de notar a semelhança com ela mesma em busca de um cumprimento de cronograma.
A primeira parada deles foi numa barraquinha que vendia uma espécie de espeto de linguiça. Kristen McDonell estampava um sorriso no rosto recolhendo o dinheiro dos clientes ao mesmo tempo que seu marido estava disposto em frente a uma chapa cuidando do cozimento dos espetos.
! Ainda bem que veio à feira. Você vai adorar. – a senhora disse.
– Já estou adorando. – respondeu retribuindo o sorriso. – E por falar nisso, estou ansiosa para provar esse espeto, hein? – disse acrescentando seu pedido.
– Claro, claro. Chace, capricha nesses pedidos que temos entre nós uma chef de cozinha.
– Não precisa disso tudo, juro. Meu paladar é bem simples.
– Nada disso. – Kristen negou. – Essa experiência tem que ser única.
não conseguiu discordar. Realmente, as pessoas levavam aquilo bastante a sério. Enquanto esperavam o pedido ficar pronto, explicou um pouco mais sobre como funcionava a venda das comidas. Basicamente todo ano havia cerca de três novas iguarias e todo o lucro era revertido para a escola estadual.
– Quem sabe, próximo ano, você não tem a sua própria barraquinha? Doces são bem vistos por aqui. – ele disse arqueando a sobrancelha demonstrando esperteza.
– Um passo de cada vez, . Primeiro preciso que gostem dos que eu cozinho. – ela respondeu e ele pode perceber a apreensão em sua voz, que também ficou notável pela forma como ela mordeu seu lábio inferior. Uma bela visão, caso perguntassem sua opinião.
, se seus doces forem parecidos com aquele bolo de chocolate, posso te garantir que a cidade vai se apaixonar por você em menos tempo do que você espera.
– A Cla me falou algo bem parecido com isso. – respondeu sorrindo. – Será que é assim tão óbvio meu nervosismo?
– Eu entendo o quanto a aceitação pode te assustar, mas você começou da melhor forma possível. – ele sorriu ao terminar a frase.
– E que forma foi essa?
– Pela barriga, ué. Essa é a melhor forma de ganhar qualquer um daqui. – completou esperto e ela sorriu satisfeita. Cada vez parecia mais fácil acreditar que daria certo.
Pouco tempo depois, foram servidos por Kirsten que não saiu de perto até que ela provasse – e aprovasse – o espeto que lhe era oferecido. Achou graciosa a forma como a mulher se importava com a opinião dela.
Entre algumas risadas, terminaram a pequena refeição e percebeu que já estava afoito a espera de continuar o tour. Após coletar o primeiro pino da sua coleção (que contava com uma pequena bandeira com o nome McDonell e o ano atual), eles foram em direção à segunda barraquinha. Dessa vez, tratava-se de uma espécie de nuggets mais aprimorados.
Assim como na primeira vez, foi recebida com extrema simpatia pelos donos. Não conhecia quem eram, mas logo foi apresentada aos Browns, um casal formado por Harlan e Sidney. Os dois eram opostos no quesito físico, mas se moviam com tanta graça e sincronia no preparo de seus produtos que ficou impressionada. Constatou que deviam se completar de forma magnifica.
Seu segundo pino constava com uma bandeira do arco íris que logo foi colocada no porquinho. Agora, que tinha dois pinos, sentiu crescer em si uma vontade de coletar o máximo possível. Essa necessidade não passou batida por , que logo a alertou.
– Isso se torna viciante, . Cuidado. – falou enquanto ria.
– Agora eu entendo a necessidade de um roteiro. Vamos logo. – dessa vez, ela tomou a frente e segurou a mão do homem. Quando se tocou que não conhecia qual seria o próximo destino, sorriu envergonhada de volta para ele. Entendendo a deixa, ele a conduziu para o terceiro alvo da noite.
Cinco barraquinhas depois e mais algumas iguarias, encontrava-se com um ardor em sua boca. Havia subestimado o poder do molho picante oferecido pela última comida e agora se xingava mentalmente pelo descuido. percebeu o desconforto dela ao notar que suas bochechas estavam um pouco mais coradas do que no inicio da noite, mas não encarava aquilo de maneira ruim. De alguma forma, ela conseguia ficar ainda mais bonita.
Tentando fazer-se útil e em busca de acabar com a pequena angustia de , ele sugeriu um pequeno desvio no roteiro para alguma barraquinha que oferecesse um doce ou algo que cortasse o efeito da pimenta.
– A gente pode pular as próximas duas barraquinhas e ir direto para a sobremesa. – sugeriu.
– Mas eu preciso encher meu porquinho. – disse enquanto o mostrava preenchido com sete bandeiras diferentes. É, realmente, ela estava bem envolvida com a tradição.
, fala sério. Você ainda conseguiria comer mais alguma coisa além de sobremesa?
– Se eu realmente me esforçasse, eu conseguiria. – disse enquanto usava uma das mãos para se abanar e tentar diminuir o calor que se instalara em seu rosto.
– Eu tinha 13 anos quando criei esse roteiro e era uma criança faminta. Acho que não considerei isso quando o sugeri para o dia de hoje.
Antes que a mulher tivesse chance de contestar, ele completou.
– E vamos logo comprar um chocolate pra ajudar sua situação.
Rumaram em direção a um dos poucos quiosques que vendiam sobremesas. fez o pedido optando por uma fatia de brownie com sorvete, pois em algum lugar de sua mente a informação de que leite ajudava a cortar o efeito da pimenta piscava.
Dessa vez, eles optaram por se sentar em umas das mesas dispostas ao redor da praça. Assim que o desconforto de pareceu ser quase nulo, ele retomou a conversa.
– Depois de oito experiências gastronômicas, qual a sua opinião de chef de cozinha?
– A minha opinião de chef de cozinha é a mesma opinião de uma pessoa normal. Como eu nunca tinha ouvido falar disso antes? É simplesmente incrível! Além de comidas maravilhosas, os donos dos quiosques são simpáticos e todo mundo parece se divertir demais. – disse isso ao mesmo tempo que volvia os olhos ao redor do ambiente em que estavam. Conseguia ouvir ao fundo a risada de crianças e alguma cantora ressoava nas caixas de som dispostas em toda a extensão da praça. Existiam também alguns brinquedos (em escala reduzida) e havia visto pelo menos três barraquinhas com tiro ao alvo e brincadeiras do gênero.
– Fico feliz que gostou. – ele sorriu aliviado. – Pode parecer uma tradição besta, mas a cidade realmente se empenha. É uma das nossas melhores qualidades.
– Não posso discordar disso. – e retribuiu o sorriso.
Era impressionante o quanto a conversa entre os dois fluía de forma natural. Mais de uma hora havia se passado desde que se sentaram na mesa. Falavam principalmente sobre a cidade e complementava com algumas memórias de sua infância. Estavam tão focados e imersos um no outro que quando uma folha de dimensões quase diminutas pousou sobre a bochecha da mulher, não hesitou em levar as mãos a ela para retirar o ser intruso. A interrupção do diálogo, entretanto, foi recebida com um suspiro vindo da mulher.
Não seria justo dizer que o ato casual passara batido por eles. Ali, enquanto segurava o rosto de em uma de suas mãos, sentiu-se transportado. Não existiam ruídos, luzes, sabores… Nada além do olhar dela. E ele conseguiu perceber que não havia deixado o centro da terra sozinho. Ela o acompanhava. E parecia pronta para embarcar em qualquer que fosse a aventura que ele se prestasse a conduzir.
Como uma brincadeira chata do universo, ou apenas uma forma do destino de mexer os pauzinhos de forma frustrante, a bolha em que estavam emersos foi rapidamente penetrada. Novamente. Dessa vez, por uma voz bastante familiar para o homem. O dono dessa voz era seu afilhado.
– Tio ! Tio ! Sua apresentação vai começar daqui a pouco! – o menino loiro falou enquanto corria de encontro para os braços dele. Obviamente, não percebeu que havia algo acontecendo poucos segundos atrás. Essa percepção, porém, atingiu Claire em cheio que ria discreta.
– Apresentação? – perguntou confusa.
– É… – bagunçou os cabelos de forma tímida. Ainda estava processando o que quase acontecera segundos atrás. – Eu me esqueci de te falar, mas um cantor desmarcou hoje de tarde com os organizadores e me pediram para cantar algumas músicas…
– E ele obviamente aceitou, porque o não sabe dizer “não” para ninguém da cidade. – Claire completou antes que ele tivesse tempo de terminar a frase.
– Ele é demais, tia ! Você vai ver a banda que a gente forma. – o menino falou enquanto a encarava sorrindo. não duvidou do que ele disse nem por um instante.
– Não é bem assim, Cla. – revirou os olhos. – , eu acabei esquecendo de comentar isso com você. Desculpa…
– E acabou esquecendo de checar o horário também, né? – Cla disse esperta. – Já está quase na hora.
– Vem tio, a gente vai arrasar! – Jimmy disse enquanto puxava a mão de seu padrinho, claramente ansioso e impaciente.
, tem algum problema por você? – perguntou já de pé. – São poucas músicas e a Cla pode te fazer companhia. – tentava explicar deixando claro em seu rosto o descontentamento de ter que deixá-la de lado.
– Problema algum, ! O Isaac comentou mesmo que você era cantor e eu fiquei extremamente curiosa sobre isso. – respondeu sorrindo.
– Não me classificaria como cantor… Mas isso depois eu te explico. É um pouco complicado.
– Imaginei. – disse sorrindo. Estava cada vez mais curiosa para descobrir o que era tão complicado assim.
– Ele fala isso, mas canta como um anjo, sabe? – Cla disse ao mesmo tempo em que se sentava na cadeira anteriormente ocupada por . – Eles vão tocar no palco principal, então a gente consegue ver daqui. – disse apontando para a pequena estrutura montada no centro da praça.
– O que o Jimmy toca?
– Violão. – Claire respondeu rápido, mas logo completou. – Na verdade, ele não toca tão bem ainda. Cerca de uns 8 meses atrás, no aniversário de 6 anos do Jimmy, deu para ele um violão. Desde então, ele tem o ensinado algumas músicas. Na maioria das vezes as aulas se resumem a eles fazendo um barulhão lá em casa, mas quando se concentram e o canta, é de amolecer o coração. Quase me faz perdoar o por comprar um instrumento musical para meu filho extremamente hiperativo.
sorriu em direção a ela e Claire contou um pouco mais sobre as aventuras dos dois com a tal banda. Apresentaram-se a primeira vez na escola do Jimmy em algum show de talentos e foram convidados de ultima hora para ajudar no entretenimento da feira.
Quando eles se posicionaram no palco, não conseguiu desviar seu olhar do homem por trás do microfone. Logo nos primeiros acordes da música ela sentiu um arrepio percorrer no seu corpo. Se Claire classificava a voz de como a de anjo, ela estava sendo extremamente coerente. Assim como quando ele falava, era possível reconhecer o tom macio acompanhado de uma rouquidão natural. Apesar de a melodia ser desconhecida por ela, parecia até uma ofensa que ouvir qualquer outra coisa que não fosse cantando. Ele conseguia encaixar os tons de forma tão sublime que ela não entendia como aquilo era considerado amador. Seu corpo correspondia a cada nota, como se clamasse em êxtase.
Além disso, Jimmy fazia seu papel de dupla de forma tão esplendorosa e orgulhosa que qualquer erro cometido por ele podia ser facilmente ignorado. Com todo o seu coração, sentia-se privilegiada por assistir o espetáculo a sua frente. Podia sentir seus olhos estatelados, querendo absorver o máximo possível daquela cena.
O fascínio seguiu por todas as dez músicas que eles cantaram (ela fez questão de contar pois só conhecia uma delas, apesar de toda a cidade parecer cantar junto a eles na maioria delas). O pequeno show terminou mais rápido que ela gostaria, entretanto. Concluiu para si mesma que ouviria por horas cantando. E a quantidade de aplausos que eles receberam depois de agradecer deixavam claros que boa parte da cidade pensava do mesmo jeito.
A dupla retornou para a mesa que estavam antes sendo recebidos com mais aplausos.
– Eu estou impressionada, ! Eu nunca imaginaria que você cantava assim… – tentava organizar os elogios de uma forma que fizesse jus ao espetáculo que assistira, mas as palavras pareciam fugir dela.
– Assim como?
– Tão bem! – ela disse, mas logo tratou de se corrigir. – Quer dizer, melhor do que bem. Você tem uma voz maravilhosa.
– Então quer dizer que você duvidava da minha capacidade? – ele disse fingindo estar ofendido. Antes que ela tivesse chance de se defender, porém, ele completou. – Brincadeira, ! Eu agradeço o elogio. Cantar faz parte de mim.
– E você não deixou a desejar, hein, pequeno Jimmy? – ela virou para a criança ao seu lado e bagunçou seus cabelos. – Você tinha razão quando disse que a banda arrasava.
– Espera só ate eu começar a tocar bateria. – ele respondeu enquanto fazia gestos no ar de baterista.
– Ela vai ter que esperar muito, filho. Não tenho preparação para dar conta de você e uma bateria na minha casa. – Claire disse enquanto o puxava para o seu colo e plantava um beijo em sua bochecha. – E vocês arrasaram mesmo, estou orgulhosa.
O resto da noite seguiu de forma leve, na presença de Claire e Jimmy que também compartilhavam suas memórias com . A conversa fluiu tão fácil e tão animada, que só notaram que estava tarde quando os olhos de Jimmy começaram a lutar para ficar abertos.
Percebendo sua deixa, Claire anunciou sua saída.
– Gente, eu tenho que levar esse anjinho para casa. Foi um ótimo primeiro dia de festival.
– E amanhã tem mais. – Jimmy completou com uma voz sonolenta e fechando de vez seus olhos. Os três adultos assistiram a cena rindo e impressionados pelo garoto.
– Cla, eu te acompanho até em casa. Já está tarde. – logo se prontificou.
– Claro que não. Você está com a , . – ela tentou negar.
– Não tem problema, Cla. Acho que a gente também já deveria ir, as barraquinhas começaram a fechar. – respondeu observando que o movimento da praça havia diminuído bastante.
– E a casa da é perto da sua. Eu já ia por esse caminho mesmo. – ele completou e não deu espaço para que ela pudesse negar novamente, recolhendo todo o lixo que eles haviam deixado em cima da mesa e depositando num lixeiro ali perto.
Os três rumaram na direção da casa da cozinheira, conversando um pouco mais baixo do que o normal para não perturbar o sono do garoto no colo da loira. Pela primeira vez naquela semana, não gostou tanto do fato de sua casa ser tão perto da praça. Queria estender a conversa por muito tempo.
O aborrecimento com a distância era partilhado por , que sentiu que o tempo passou rápido demais durante a noite. Depois de plantar um beijo nas bochechas de Jimmy e Claire, afastou-se com para a porta de sua casa.
– Espero que você tenha gostado da sua primeira noite como uma moradora oficial de Hanover.
– Eu adorei, . – ela disse verdadeiramente feliz. – E mal posso esperar pelo resto do feriado. – deixou de fora, entretanto, que sua animação também era devido ao fato de tê-lo como companhia.
– Eu também. Você vai se apaixonar pela cidade.
– Acredito cada vez mais nisso. – sorriu.
Sem muito o que acrescentar, passou a encará-la pela milésima vez na noite. Ainda era impressionante o modo como tudo nela parecia estar em harmonia. Estar assim, tão próximo dela o deixava por vezes desnorteado. Como se quisesse lhe dizer tudo ao mesmo tempo, mas simplesmente não encontrava as falas corretas. Uma sensação desconhecida por ele. Em busca de evitar que o clima ficasse desconfortável entre eles, despediu-se.
– Acho que é isso, então… Até amanhã, . – exibiu seu sorriso apesar de não estar particularmente feliz por terminar a noite. – Passo aqui pela hora do almoço, ok? – ela acenou em concordância.
– Até amanhã, . – respondeu. Dessa vez, ela tomou a iniciativa de oferecer um abraço que era tão comum por ali. Percebeu que pegou o homem de surpresa, mas que ele logo tratou de a receber em seus braços. Acolhedor seria uma boa forma de descrever aquele gesto.
Sem mais desculpas para estender a interação, abriu a porta de sua casa e acenou em despedida para ele. Ao vê-lo se distanciando de sua casa e seguindo o rumo para algumas casas à frente, desejou que o dia de sábado chegasse o mais rápido possível.

 

Capítulo 7

abriu os olhos tentando se acostumar com a claridade do quarto. Por algum motivo tolo havia esquecido de fechar as cortinas ao deitar-se na noite anterior. Na verdade, o motivo tinha um nome e ele sabia bem qual era. Estava tão anestesiado quando chegou em casa que nem ao menos lembrou do gesto.
Pelo menos a luz do dia significava que sábado havia chegado e por mais idiota que poderia parecer naquele momento, ficou feliz por faltar tão pouco tempo para iniciar a aventura que o esperava. Controlou-se o máximo que pode evitando apressar as coisas, mas não podia negar o quanto tinha apreciado os momentos que partilhou com a nova moradora da cidade e o quanto estava ansiosa para novos.
Assim como todos os dias, levantou-se da cama e preparou seu café da manhã preguiçosamente acompanhado de uma xícara de café. Como era sábado, podia aproveitar a manhã sem compromissos e realizar uma corrida matinal sem o tempo cronometrado. Colocou uma roupa apropriada para o exercício e calçou seus tênis. Pouco tempo depois já se encontrava na porta de casa alongando-se para iniciar a corrida.
Seguiu o mesmo percurso de sempre, acenando para os mesmos moradores e desviando das pequenas barreiras que haviam no caminho (todas elas feitas pelos filhos dos Harrisons, que enfeitava a cidade com suas novas descobertas de marceneiro mirim). Entretanto, naquela manhã diminuiu seu passo ao passar pela casa de porta branca no condomínio dos McDonell. O sorriso que se formou em seu rosto foi involuntário imaginando dentro da casa. Sacudiu a cabeça sem entender muito bem o motivo dos pensamentos e voltou ao seu ritmo normal de corrida.
O que ele não percebeu, porém, foi que a dona da casa estava posicionada na janela da sala e o observou com vislumbre à medida que ele fazia sua passagem pela rua. Assim como ele, ela sorriu involuntariamente. Dentro de si, ansiava que a hora do almoço chegasse logo.
Conspirando em favor disso, o universo – ou assim acreditava – resolveu que as horas da manhã passariam rapidamente e quando ela terminava de amarrar seus tênis, ouviu a campainha de sua porta tocar. Assim como no dia anterior, não demorou muito tempo para abrir a porta e contemplar a imagem do homem à sua frente. Diferente do dia anterior, agora vestia uma bermuda, propícia para o clima ameno e o dia de sol.
– Oi, ! – ela disse sorrindo, Checou seu relógio e viu que ele sinalizava meio dia. – Pontual, hein?
– Boa tarde, ! – ele respondeu sorrindo. – Pois é, mais uma das qualidades. – resolveu brincar, deixando de fora a parte de que estava pronto há algum tempo só esperando o bendito relógio marcar doze horas para não parecer tão desesperado chegando antes do que o combinado. – Pronta para mais um dia de aventura?
– Sim. Só preciso pegar minha bolsa e meu porquinho que estarei pronta. – ela respondeu e entrou na casa, saindo alguns instantes depois com o porquinho nas mãos e uma bolsa atravessada em seu busto. tentou não deixar tão claro que ele havia notado aquilo e tratou de dirigir seus olhos novamente para o rosto dela. sorriu de forma zombeteira sabendo exatamente o que se passava na cabeça dele. Novamente, fizeram o caminho para praça conversando sobre frivolidades. Era tão fácil manter uma comunicação.
Ela percebeu que ao seguirem pelas mesmas ruas, o homem repetiu o ato de apreciação das rosas do dia anterior.
? – perguntou.
– Hum?
– Qual a história das rosas?
– Como assim? – ele questionou confuso, sem entender a pergunta.
– Ah, é que eu já te vi olhar duas vezes para essas rosas. – ela respondeu envergonhada, se repreendendo por ter perguntado. – E bom, você tem um jardim delas na frente da sua casa. E não pude deixar de notar quando estive lá que você tem rosas nos quadros e jarros. – completou tentando melhorar sua explicação, mas na sua cabeça soou ainda mais estranha. Ela não queria deixar transparecer que havia observado tanto.
– Ah, é meio involuntário. Às vezes eu nem percebo que estou fazendo isso com outra pessoa ao redor. – ele bagunçou os cabelos com uma de suas mãos. – Minha avó se chamava Rose. Ela praticamente me criou junto dos meus pais, sabe? Da melhor forma possível. Ela era o tipo mais clássico de avó que existia: comprava todos os brinquedos, fazia minhas vontades e me apoiava em todas as decisões. Há alguns meses ela faleceu depois de lutar bravamente contra o câncer.
– Sinto muito, . – falou quando percebeu que ele fez uma pausa para respirar.
– Obrigada, . Eu sou muito grato por todo o tempo que tive com ela e tudo o que fez por mim. Mas ainda assim, sinto muito a falta dela. – fez uma pausa em busca de ordenar melhor suas palavras. – Um pouco antes dela ir, ela fez uma brincadeira e me disse que eu poderia sempre procura-las nas rosas. E por mais que isso possa parecer idiota ou inacreditável para um homem de vinte e seis anos, eu me sinto próximo dela quando encontro uma rosa pelo caminho. Talvez por isso eu me cerque tanto delas. Seja no jardim ou dentro da casa que um dia foi dela.
– Eu não acho nada idiota, . – respondeu e colocou sua mão no braço dele oferecendo um apoio. – Tive uma tia, a responsável pela minha doceria, mais precisamente, que era exatamente isso que você descreveu. Nossa ligação era através dos doces e mesmo ela tendo falecido há alguns meses, ainda me sento próxima dela quando cozinho. No meu coração, eu sei que ela me acompanha nesses momentos.
assentiu sentindo-se grato pela compreensão dela. Era ótimo compartilhar seus sentimentos sem precisar de amarras. No resto do caminho, aprofundou-se na história de sua tia Grace e em como tudo se orquestrou para que ela chegasse a Hanover.
– Acho que eu tenho que agradecê-la, então. Ela te trouxe até aqui. – ele disse sem notar o impacto que aquilo tinha provocado na mulher que sorria agradecida.
Ao chegarem à praça, logo a conduziu para uma nova barraquinha. Dessa vez os donos eram os O’Neills e eles serviam uma espécie de massa acompanhada de frango. Nora parecia trabalhar a todo vapor enquanto Bob se mostrava agitado com tanto movimento. Porém, assim que os viu, abriu um sorriso para o casal.
! ! Sejam bem vindos ao O’Neills compacto. – o homem disse rindo. Parecia estar divertindo-se verdadeiramente com a ideia de apresentar o restaurante “compacto”. – Nora, querida, veja quem está aqui.
– Oh, se não é a fada dos bolos. – Nora disse encantada. – Querida, que bolo maravilhoso que você nos deu. Por pouco não causa uma briga de casal pela última fatia.
– Fico feliz que vocês gostaram. – respondeu sorrindo grato. Estava orgulhosa por eles terem gostado do bolo que ela havia dado em forma de agradecimento para Bob. – Mas não precisa brigar, é só pedir que eu faço mais.
– Menina, eu estou cada vez mais ansioso pela abertura da sua doceria.
– Bob, eu não vou nem começar a falar do seu colesterol… – Nora o respondeu prontamente. e ouviram ele murmurar algum tipo de reclamação e soltaram risos baixinhos. – Crianças, já sirvo vocês, tudo bem? – ela disse e se virou para a barraquinha buscando preparar o pedido. achou engraçada a forma como ela se referiu a eles como criança, mas entendia que tinha tudo a ver com o fato de ter visto crescer. Ele havia partilhado algumas histórias de sua infância na noite anterior.
, está vendo só o que eu disse? Você já conquistou mais pessoas com seus dotes culinários. É questão de tempo até as filas se formarem na sua loja. – ele falou a encorajando.
– Você vai me deixar convencida, hein?
– É apenas a verdade. – respondeu.
Como no dia anterior, comeram o que lhes foi oferecido e só partiram em direção à segunda barraquinha depois de conseguir um novo pino. Na bandeira dos O’Neills, tinha uma representação do casal e um pequeno cachorrinho. viu que ela encarava o desenho e se pronunciou.
– Antes eles colocavam toda a família, mas depois de 7 filhos e alguns netos, passaram a representar apenas os dois e o cachorro. O nome é dele é…
– Bob! – disse quanto ria e arqueou a sobrancelha surpreso que ela sabia da informação. – Ele comentou sobre isso quando me ajudava com o carro.
Passaram por um novo quiosque que oferecia um tipo de cachorro quente e dessa vez não subestimou o molho apimentado que era oferecido. sorriu quando percebeu isso. Demoraram um pouco mais no local e não puderam seguir para a terceira barraquinha, pois os sons da praça foram invadidos por uma voz afinada.
– Boa tarde, Hanover! – uma mulher que aparentava ter 60 anos falava ao microfone no palco que estava no centro da praça. – Como vocês sabem, hoje é o dia na nossa famosa caça aos porcos.
riu ao perceber que a cidade gritou em comemoração ao que foi dito.
– E como nesse ano comemoramos 30 anos de tradição, resolvemos fazer uma edição especial do concurso! – todos exclamaram comentários de surpresa. – Dessa vez, teremos o desafio em dupla. E não se trata apenas de capturar o porco, mas sim de colocar a faixa de 30 anos nele. – ela disse enquanto balançava uma faixa em suas mãos. – E o prêmio dessa vez é ainda melhor. Além da visita á nossa cachoeira, os ganhadores terão direito a um jantar exclusivo no restaurante da família localizado na capital e um par de ingressos para o novo parque aquático que abriu em Brounon. – ao final da sentença, percebeu que aquela deveria se tratar da senhora Silver. Lembrava-se também de ter visto uma placa da cidade de Brounon no caminho para Hanover.
Os aplausos romperam pela praça, seguidos de gritos animados. A mulher se viu comemorando junto mesmo sem entender direito o que acontecia. Porém, antes mesmo que pudesse comentar algo com , viu a cabeleira loira de Jimmy correr ao encontro deles.
– Tio! Tia! Vocês ouviram? Ingressos para o parque aquático. – ele falou enquanto pulava com seus orgulhos repletos de admiração.
– Eu ouvi sim, Jimmy! – respondeu bagunçando os cabelos do pequeno que agora já estava ao seu lado.
– Tio, não tem nenhum jeito de eu participar? – ele perguntou enquanto seus lábios formavam um bico adorável.
– Jimmy, a gente já falou sobre isso. Eles só aceitam crianças a partir de 10 anos, amor. – a mãe do garoto disse quando finalmente os alcançou. Ofereceu um abraço ao casal.
– Mas mamãe, eu queria tanto ir para o parque…
– Os ingressos estão esgotados pelos próximos 6 meses, bebê. Mas eu já reservei para a primeira data possível – ela disse tentando acalmar os ânimos do seu filho.
– Porque você e o Tio não participam da caça? – ele perguntou emburrado.
– A mamãe tem que trabalhar, filho. Preciso tirar fotos e fazer algumas entrevistas. Eu te disse isso mais cedo.
– Jimmy, o que você acha de eu participar no lugar da sua mãe? – perguntou atraindo a curiosidade dos três pares de olhos ao redor dela.
– Você… Quer participar da caça? – perguntou gargalhando.
– Ah, qual o problema? Tudo para colocar um sorriso nesse rostinho. – ela disse enquanto segurava o queixo de Jimmy com uma de suas mãos. Recebeu um sorriso gigante em retorno.
– Ah não, você não vai cair nos encantos do meu filho. – Cla disse. – Não posso permitir que você participe de um concurso desses só para conseguir ingressos.
– Cla, eu realmente estou curiosa sobre esse concurso. Agora eu só vou ter um motivo concreto para participar.
– Eu poderia discordar desse concreto, viu? – disse. – Mas como você quer ir, eu não me oponho. Vamos ganhar esse prêmio pra você, Jimmy! – concluiu ao fazer um cumprimento de mãos com o afilhado. De canto de olho, viu Claire revirar os olhos e colocar a mão na testa. Ela ainda se surpreendia com as pequenas “manipulações” do filho.
, o concurso começa em uns 30 minutos. Eu vou nos inscrever, mas acho melhor você colocar uma roupa mais… Adequada. – falou ao encarar novamente a mulher a sua frente. Ela usava um vestido branco soltinho, extremamente adequado para a feira, mas não para uma caça aos porcos. Não podia acreditar que depois de tanto tempo ele voltaria ao desafio. E dessa vez com uma mulher tão encantadora ao seu lado.
Seguindo a dica, voltou para sua casa e trocou seus trajes por algo mais apropriado para exercícios. Vestida com uma legging, tênis de corrida e uma regata, retornou ao encontro das 3 pessoas que a esperavam.
– Tá, não tem muito o que explicar, mas basicamente é assim que funciona: todas as duplas vão estar posicionadas ali – apontou para um extremo de um grande campo que aparentava ser de futebol. – Daquele outro lado, eles soltam os porcos. A “torcida” fica ao redor dessa grade para que os porquinhos não escapem.
– Ok, não parece ser tão difícil. – ela respondeu tentando se convencer.
– Ah, minha querida, não se deixe enganar… Eles são bem rápidos. E ainda temos que colocar uma faixa neles.
– Então qual vai ser a nossa estratégia? – ela perguntou erguendo uma sobrancelha.
– Correr o mais rápido possível. – ele disse e a ouviu gargalhar. O som de sua risada tinha tudo para se tornar um dos preferidos dele. – Não disse que era boa. – defendeu-se.
– Eu tenho certeza que vocês vão ganhar! – Jimmy disse em apoio. – Vou torcer o mais alto para ajudar.
– E eu vou ficar ainda mais feliz por cobrir esse momento. – Cla completou levantando a câmera que estava em suas mãos.
Se parasse para pensar no que acontecia acharia no mínimo inacreditável a situação que se encontrava. Porém, naquele momento, não havia nenhum outro lugar que preferia estar. Parecia tão certo.
– Hanover, chegou a hora mais esperada do ano! – novamente a voz aguda da senhora Silver invadiu as caixas de som da cidade. – Duplas, dirijam-se ao lado direito do campo. Vocês irão receber uma numeração. Quando meu marido soltar os fogos, significa que vocês podem iniciar a caça.
Assentindo com a cabeça as informações, e se dirigiram ao local indicado. Nesse meio tempo, ele fez questão de perguntar novamente se ela estava realmente de acordo com aquilo. A sua empolgação e espontaneidade eram impressionantes, mas ele temia que ela estivesse desconfortável.
– Eu estou ótima, , pode acreditar.
?
– Vi que Claire te chamou assim quando quis ser séria. Achei que seria uma ótima forma de demonstrar a minha seriedade sobre isso. – ela disse apontado para si mesma e para o colete com o número 8 que usava. – E por falar nisso, eu sou bem competitiva, tá?
– Você não é nada do que eu esperava – ele respondeu rindo e balançando a cabeça. Antes que ela pudesse questionar o que exatamente ele esperava, ouviu a contagem regressiva iniciar e em poucos segundos os fogos foram acionados. Sentiu a mão de agarrar a sua e passou a correr apressada, coisa que há tempos não fazia.
A dupla conseguiu certa vantagem em relação às outras, principalmente devido ao porte atlético de e escolheram um porquinho para perseguir. Entre gargalhadas e gritos que vinham de todos os lados do campo, assim como da torcida, eles tentaram capturar o animal. Depois de algumas tentativas mal sucedidas de segurá-lo que resultaram em duas quedas desajeitadas e hilárias por parte de , resolveram repassar uma estratégia que realmente desse resultado. O fato de que os dois constantemente tinham crises de riso e precisavam se recuperar antes de voltar ao jogo também era responsável por retardá-los. Mas era impossível não se divertir com aquilo. O sol brilhava, as pessoas sorriam e a sensação de felicidade os inundava.
– A gente vai ter que se separar, . – ela disse apoiando as mãos no joelho descansando. – Você vai por trás e eu vou pela frente e a gente encurrala o bicho.
– Não me oponho a isso. – ele disse. – Vem, temos um prêmio para ganhar.
Dessa vez, os dois passaram a realmente focar naquilo. Na segunda tentativa, conseguiu finalmente segurar o pequeno animal com gentileza, mas forte o bastante para que pudesse colocar uma faixa de vencedor nele. Quando ergueu orgulhosamente o porquinho com a faixa, ouviu os aplausos e o grito da torcia que também se divertia muito com o que via. Era bem claro que aquele concurso era aproveitado por todos. O animal foi colocado no chão depois de alguns segundos, mas ela não teve muito tempo para reagir ou permitir que seus neurônios completassem as sinapses esperadas, pois no instante seguinte foi levantada por que a abraçava gargalhando.
, eu não acredito! Eu não acredito que eu participei disso e que ainda por cima, eu ganhei! O de 11 anos está muito satisfeito.
– Pois saiba que a de 24 está tão satisfeita quanto. – ela respondeu olhando nos olhos dele. Da forma como estavam, existiam menos de cinco centímetros afastando as bocas dos dois. E eles bem conheciam as sensações que essa proximidade poderia causar em ambos. Sem que pudesse pensar muito sobre essa informação, sentiram um flash estourado em direção a eles. Claire tirava uma foto do exato momento da comemoração.
– Não acredito que o flash dessa coisa ligou sozinho de novo! – ela disse irritada. – Um momento, fiquem nessa exata posição para eu tirar a foto certa agora.
Nenhum dos dois se opôs ao que foram instruídos, mantendo a ligação de olhares que agora eram acompanhados de sorrisos.
– Pronto, ficou ótima! Agora corram para pegar os prêmios de vocês.
gentilmente colocou no chão e subitamente sentiu falta de o corpo dela em suas mãos.
– Jimmy, você vem com a gente. Metade do prêmio é seu. – disse oferecendo a mão para a criança que os observava sorrindo.
Receberam todos os prêmios: os pares de ingressos, as cortesias do jantar, um cartão com o número de telefone para marcar a visita na cachoeira e um brinde que foi muito mais interessante para : um pino com uma bandeirinha de vencedora do concurso. Sentiu-se orgulhosa.
Assim como toda comemoração, tiveram que tirar algumas fotos segurando os prêmios junto com os organizadores. foi apresentada ao casal Silver, responsáveis por tudo aquilo. Como aconteceu outras vezes, eles também já sabiam quem ela era e perguntaram pela inauguração de sua loja. Ficou ainda mais animada e ansiosa para finalizar tudo.
A cozinheira assistiu Jimmy se fascinar com os ingressos e correr de volta para mãe, ostentando-os de forma orgulhosa.
– Sabe, eu poderia dizer que eu fiz uma boa ação no dia de hoje… – iniciou. – Mas eu estaria mentindo. Eu me diverti tanto que não tem como dizer que só fiz isso por Jimmy.
– E eu concordo com você. – disse enquanto trombava no braço dele de forma carinhosa. – Não sabia que precisava tanto disso até agora.
– Quando você me intimou para isso no almoço, eu não imaginava que seria desse jeito.
, você bem sabe que eu não te convidei… – ela riu rolando os olhos.
– Cada um tem sua percepção das coisas, . – ele piscou para ela passando os braços ao redor de seus ombros. – Mas de verdade, foi incrível.
– Foi incrível mesmo. – ela suspirou. – Mas agora eu preciso de um banho e um pouco de descanso seria bem vindo.
– Digo o mesmo. Infelizmente, a parte do descanso não vai ser possível para mim. – falou demonstrando descontentamento. – Tenho que tocar na cidade hoje, não consegui desmarcar.
– Eu achava que você só ia se apresentar ontem na praça. – ela falou confusa.
– Eu me refiro a Brounon, não Hanover. A gente fala “cidade” porque é relativamente maior que Hanover e fica há menos de 30 minutos de carro. – explicou. – Meu amigo tem um bar lá e às vezes eu toco.
– Ah, eu lembro que vi a entrada dela quando estava me mudando. Ainda não conheço.
– Se eu te convidasse para conhecer o bar, você ficaria assustada? – ele perguntou envergonhado. – Sabe, não quero te pressionar com uma overdose de . – ele disse totalmente alheio ao fato de que talvez uma overdose de fosse exatamente o que ela precisava.
– Eu aceitaria… – ela falou e logo seu rosto se transformou numa espécie de careta que ele achou adorável. – Mas eu prometi que ligaria para meus avós hoje à noite. Eles tem me encurralado a semana toda sobre a mudança. E eles são do tipo que passam 3 horas na chamada de vídeo.
– Longe de mim ser o cara que faz a garota desmarcar compromissos de família. – ele disse erguendo as mãos no ar e rindo.
– Mas eu mal posso esperar para te ver cantando de novo, .
– A oportunidade vai aparecer. – ele respondeu decidido. Ainda que não aparecesse, tinha certeza que ele arranjaria mais uma desculpa para passar mais tempo ainda com ela.
Atendendo o desejo de por um banho, eles rumaram em direção a casa dela. O sol estava começando a se pôr a medida em que eles faziam o caminho. Dessa vez, o trajeto foi feito de forma lenta aproveitando o silencio confortável entre dois, que só era interrompido quando se encaravam e riam abertamente. Com certeza, as lembranças que foram criadas naquele dia não seriam facilmente esquecidas.
Chegaram à frente da casa dela e apressou um pouco a despedida. Todas as outras vezes que tinha ficado sozinho com a mulher a atmosfera que os embalava era tão propícia para um beijo que temeu avançar rápido demais. Relembrou a si mesmo a promessa de não apressar as coisas e a ofereceu um abraço.
– Tchau, ! – sua voz saiu um pouco abafada por estar com a boca próxima demais dos cabelos dela, que impressionantemente ainda estavam extremamente cheirosos.
sussurrou uma despedida enquanto se acomodava nos braços dele. Apesar de sujos e suados, não havia nenhum outro lugar que os dois desejavam estar naquele momento.

 

Capítulo 8

encarava a parede a sua frente há cerca de cinco minutos. Em alguns momentos franzia o cenho e logo depois o relaxava, como se ela mesma tivesse respondido a pergunta que lhe deixara confusa. Soltou um suspiro que pôde ser ouvido por Isaac, que aproveitou a oportunidade para questionar a mulher.
– Não está como você queria? – era possível notar a apreensão em sua voz. Havia se dedicado bastante àquilo nos últimos cinco dias. Esperava não ter decepcionado a cliente.
– Não, não… – ela iniciou. – Está exatamente como eu queria. – completou confusa. – Eu nem sabia que era possível ficar assim tão… Como eu sonhei. Obrigada, Isaac! – e finalmente voltou seu olhar para ele, oferecendo um sorriso agradecido. O homem soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.
– Então você gostou? – quis confirmar já que não entendia muito bem as reações da cozinheira,
– Eu amei. Amei tanto que nem consigo acreditar que está pronto! – sua voz demonstrava uma emoção que ela estava tentando conter enquanto existia outra pessoa no recinto.
Ela estava sendo verdadeira quando dizia que não conseguia acreditar que estava pronto. Pela sua programação, só conseguiria ver o resultado quase final de sua loja na sexta feira. Talvez por isso, o impacto naquela quinta feira de manhã tenha sido gigante. Não conseguia nem começar a descrever o que sentia por estar ali, de pé, encarando a objetificação do seu maior sonho. Fez um giro lento pelo ambiente, permitindo aos seus olhos capturar todos os detalhes que a cercavam. Tentava absorver o máximo que podia enquanto se mantinha de pé.
– Eu estou falando sério, Isaac! – ela sorriu para o homem que ainda a encarava estranho. – Só estou impactada, digamos assim. Não esperava que ficasse tão lindo e em tão pouco tempo.
Ele retribuiu o sorriso e passou a organizar suas coisas.
– Tudo bem, então. Amanhã eu volto para terminar de colocar as estantes que faltam, ok? – e despediu-se indo em direção à porta do estabelecimento. Algo dentro de si dizia que a mulher precisava de um momento sozinha. E estava certo.
sentiu algumas lágrimas brotarem de seus olhos, mas não fez nenhuma menção de tentar impedi-las. Quando saiu de casa naquela manhã de não imaginava que encontraria o que encontrou. Sua doceria estava praticamente pronta. Isaac tinha sido extremamente ágil ao terminar a pintura (de tons pastel que alternavam entre rosa e bege) e colocação dos papeis de parede na segunda feira. Por isso, se dispôs a ajudá-la na montagem dos móveis e prateleiras que ela havia encomendado no resto da semana.
Aparentemente, o trabalho não exigia tanto tempo assim e na quinta feira já dava para ter uma visão de como o local iria ficar. E como aquilo a agradava! Quando sonhara com seu próprio negócio, imaginava alguns itens essenciais: uma bancada branca grande o suficiente para expor pelo menos oito tipos diferentes de bolos. Um papel de parede clássico com pequenas gravuras. Uma cozinha industrial com todos os eletrodomésticos necessários para facilitar sua vida na hora de cozinhar. E, claro, quadros com ilustrações de suas melhores criações na cozinha.
Por isso, a surpresa. O que via ali era tão fiel ao seu sonho que a emoção a atingira em cheio. Faltavam sim alguns detalhes, como estantes no depósito para facilitar a organização e os conjuntos de mesa que seriam usados pelos clientes, mas a maior parte já estava pronta. E naquele momento podia sentir o orgulho que daria para sua tia.
Ao se mudar para Hanover trazia junto a ela uma série de dúvidas, questionamentos e incertezas que ficavam ainda maiores quando deitava sua cabeça no travesseiro. Ela iria se adaptar? A cidade aceitaria seu novo negócio? Conseguiria se manter pelo tempo que desejava?
Naquele momento, encavara a resposta para todas aquelas perguntas. Era como uma resposta divina de que não precisava se preocupar tanto assim. Tudo estava encaminhado e tudo corria bem. Depois de mais alguns minutos absorvendo o máximo que conseguia, pegou seu celular e começou a tirar diversas fotos para enviar aos familiares e amigos.
Como a inauguração seria na segunda feira, grande parte deles não poderia comparecer, apenas seus pais. Mas estava tão orgulhosa do que havia feito que seu peito ansiava em divulgar e mostrar para todos que amava seu futuro.
Por estar tão imersa em sensações e emoções, teve um sobressalto acompanhado de um pequeno grito quando ouviu a porta da sua loja abrir novamente. E a visão que lhe foi oferecida não a ajudava em nada em conter as emoções. estampava um sorriso caloroso em seu rosto e a observava profundamente.
! Passei aqui para te mostrar a entrevista e… – falava enquanto mexia o jornal em suas mãos, mas parou no momento que teve a visão local. – Uau! Esse lugar está incrível.
– Está, não está? – perguntou orgulhosa.
– Eu nem acredito que você conseguiu fazer isso em tão pouco tempo. – disse verdadeiramente surpreso. Menos de duas semanas atrás entregava um local para a mulher que não se parecia em nada com o que via naquele momento. – Eu nunca pensei que veria esse lugar assim de novo. – era possível perceber um tom saudoso em sua voz.
– Bom, eu tive uma grande ajuda do Isaac para isso tudo e…
– Nem vem, ! Todos os dias que eu passava por aqui eu te via tão focada no trabalho e na arrumação que nem tive coragem de interromper.
– Você passou por aqui esses dias?
– Tá vendo o que eu disse? – Agora já estava do lado dela aproveitou para dar-lhe um pequeno empurrão no ombro, caçoando-a. – Você estava tão imersa no trabalho que nem percebeu.
– Mas você não falou nada, .
– Ah, eu ia te chamar para almoçar, mas vi que você estava ocupada. – deu de ombros e se amaldiçoou por não ter percebido. Desde o final de semana passado ela buscava por mais alguns momentos com ele. – Acho que fiz a escolha certa. A felicidade que você está estampando combina bastante contigo. – a sinceridade das palavras dele junto com a compreensão que ele aparentava fizeram o corpo de se agitar. Além disso, fizeram-na corar.
Claramente envergonhada e buscando mudar o assunto da conversa, ela se prendeu à primeira coisa que ele tinha dito quando entrou no estabelecimento.
– Você disse algo sobre a entrevista? – e apontou para o jornal que estava nas mãos dele.
– Ah sim, é isso mesmo! A entrevista que a Claire fez contigo saiu no jornal. E olha, está realmente incrível.
– Isso eu preciso ver. – ela fez menção de pegar o jornal que estava nas mãos dele, mas rapidamente se esquivou.
– E você verá. Mas antes, eu queria saber se você gostaria de me acompanhar para o almoço. Estou um pouco curioso com algumas das respostas que vi aqui.
– E o que aconteceu com me deixar trabalhar? – ela ergueu uma das sobrancelhas.
– Eu acho que você merece um descanso. Quer dizer, olha esse lugar. Ele está praticamente pronto. E eu não vejo nenhum sinal de almoço seu aqui perto. – olhou novamente para o local apenas para se certificar do que dizia. Tinha reunido coragem o suficiente para convidá-la para o almoço e esperava muito que sua resposta fosse positiva. Nem entendia porque aquilo o empolgava, no entanto.
– Você venceu. Eu aceito esse almoço. Mas só porque estou curiosa com a entrevista. – ela disse sorrindo enquanto se encaminhava para o outro lado da loja. percebeu que ela recolhia seus pertences e colocava na bolsa. Assim que terminou, retornou para onde estavam. – Vamos?
– Vamos! – ele disse e se encaminhou para a porta da doceria com ao seu lado. – Pode ser O’Neills de novo?
– Eu acho uma ótima opção.
Optaram pela mesa externa do restaurante, apesar do clima do dia dar sinais de uma possível chuva. Assim que sentaram, entregou a o jornal que segurava. Ela teve um sobressalto ao ver uma foto sua sorrindo acompanhada da entrevista.
– Eu nem sabia da existência dessa foto. – disse ao apontar para a foto sorrindo estampada no jornal. Aparentemente, a foto havia sido tirada no sábado durante o campeonato. Nela, segurava o troféu e sorria divertida. Poucas vezes na vida tinha visto uma foto sua tão verdadeira.
– A Claire tem essa mania. – ele respondeu. – Tenho um acervo de fotos minhas espontâneas. Mas essa combinou bastante com a ideia da reportagem. Além disso, você está linda.
Antes que pudesse se envergonhar com o comentário, a mulher passou a ler o jornal a sua frente. Realmente, Claire tinha bastante talento como jornalista. Ela conseguiu condensar a história contada por da melhor forma possível, deixando extremamente profissionais os detalhes que ela havia compartilhado e ainda havia colocado um adendo sobre a sua participação nas tradições da cidade. Elogiava o talento da cozinheira exaltando seu bolo de chocolate e deixava uma sensação de curiosidade para quem lesse. Nem ela sabia que era tão interessante assim!
– Eu não acredito que ela conseguiu me deixar interessante. – disse ao finalizar de ler.
– Mas você é, . – respondeu prontamente ainda a encarando. – E bom, acredito que a cidade vai querer conhecer um pouco mais sobre você agora.
No momento que iria agradecer, Nora chegou à mesa. Incrivelmente, ela não estava tão afobada como sempre. Deveria ser um dia calmo, então.
– Queridos! Que maravilha recebê-los aqui! E dessa vez sem toda a confusão da semana passada. – disse enquanto entregava os cardápios aos dois.
– Pois é, a cidade estava bem animada, né?
– A feira faz isso com as pessoas, criança. E por falar nisso, eu vi que você também foi rendida. Não tive tempo de parabenizá-la pelo prêmio na caça aos porcos, mas as risadas que vocês dois proporcionaram para nós foram maravilhosas!
Foi a vez dos dois ficarem com vergonha. tinha refletido durante a semana sobre aquilo. Claramente iriam comentar sobre os únicos dois adultos que tinham participado do concurso por pura e espontânea vontade. A maioria participava por causa de seus filhos e nenhum deles se divertia tanto quanto eles se divertiram.
– Ela precisava de uma experiência completa, senhora Neill.
– E você não podia perder a oportunidade, né ? – ela disse sorrindo esperta. – Pelo menos se redimiu pelo desastre que foi sua primeira vez no concurso. Eu e sua avó costumávamos rir bastante quando nos lembrávamos. – enquanto falava parecia se transportar no tempo pelas suas lembranças.
– Ela me dizia que ninguém se lembrava disso! – ele disse indignado.
– Ah, meu querido. As coisas que uma avó fala para o neto em busca de levantar a sua moral… – balançou a cabeça rindo. – De qualquer forma, eu adorei que vocês participaram. Os prêmios são muito bons, apesar do restaurante deles não chegar aos pés do meu.
– Realmente, senhora Neill… Para superar o seu tempero, tem que se esforçar muito. – disse se inserindo na conversando.
– Tudo bem, apesar de eu adorar levantar minha autoestima, estou aqui para anotar o pedido de vocês. O que irão querer hoje?
– Confio na sua escolha. – disse entregando o cardápio de volta para a mulher.
– Eu também. – copiou o gesto da doceira no momento seguinte.
Quando Nora retornou ao restaurante, ele se voltou para .
– Então, como você pretende fazer a inauguração?
– Ah, era sobre isso mesmo que eu queria falar com você, .
– Comigo? O que você precisa? – respondeu demonstrando preocupação.
– Eu pensei em fazer uma espécie de degustação antes de começar a vender, sabe? Algo como uma amostra do que vou vender.
– Ah, eu posso te ajudar a montar isso. – considerou.
– Não, não é nada disso. – explicou. – Na verdade, eu queria te contratar como cantor. Não como um show, mais como uma música ambiente. Isaac disse que você consegue atrair um público grande. E bom, eu preciso da maior quantidade de pessoas possível.
– É claro que eu posso fazer isso, ! Seria uma honra.
– Ótimo. Muito obrigada, . De verdade. A gente pode falar sobre valores e…
– Você acha mesmo que eu vou cobrar de você? – ele a interrompeu rindo.
– O que essa cidade tem contra o meu dinheiro? – perguntou exausta. Em alguns dias ali, já havia recebido muitos favores.
– Não é contra o seu dinheiro, . – explicou. – Nós somos uma comunidade. Aqui a gente se ajuda na maior parte do tempo.
– Mas você não pode fazer isso de graça por mim, !
, eu vou fazer porque eu quero. – e a encarou tentando transmitir através do seu olhar que falava sério sobre aquilo. – E de qualquer jeito, você já tinha me intimado para a inauguração.
… – ela disse sorrindo. Adorava forma como ele tornava as coisas mais leves, porém por vezes vergonhosas para ela.
– Depois me passa direito a questão do horário e o que você pensou. Tenho certeza que vai ser muito movimentado. – falou oferecendo confiança para ela.
Continuaram a conversar sobre a inauguração e a entrevista, deixando claro para qualquer um que observasse a cena por algum tempo o quanto estavam confortáveis um com o outro. Os sorrisos pareciam ter clamado os rostos dos dois, pois não eram deixados de lado em momento algum, constantemente acompanhados de alguma risada. Era leve.
Ao serem servidos por Nora, foram surpreendidos pela escolha dela. Dessa vez, o prato contava com um salmão e algumas batatas cozidas. O gosto estava tão bom quanto à aparência e a refeição foi devorada por eles. confirmava mais uma vez para si mesma que já havia encontrado seu restaurante preferido de Hanover. Levaram um tempo maior para comer por estarem entretidos na conversa.
Cerca de uma hora depois da chegada do casal, eles pagavam a conta levada por Nora. Houve uma certa discussão sobre quem pagaria a conta, uma vez que havia convidado para o momento, mas que logo foi resolvida quando os dois resolveram que seria mais prudente dividir o valor. A mulher não se sentia confortável em ter sua refeição paga por ele depois dele ter concordado em tocar na sua inauguração. Ainda mais de graça!
Quando já estavam se despedindo, Nora se pronunciou:
, meu querido, espero que você esteja ajudando a nas coisas da loja. – disse e o ofereceu um olhar de acusação, como se estivesse o educando. – Ele é ótimo contador, . Meu negócio está vivo por causa dele!
– Posso discordar disso, senhora Neill. Seu negócio está vivo pelo seu dom de cozinhar.
– Vamos concordar que é um pouco dos dois, não é? – piscou. – , converse com ele sobre isso. – disse divertida e deu as costas ao casal, seguindo para atender outra mesa.
– Contador? Mas eu achava que você era cantor. Ou trabalhava na prefeitura. Ou era professor de música… – disse confusa enquanto listava todas as ideias de profissões que tinha de .
– Bom, eu sou, mas é que… – no momento que ele começou a explicar, entretanto, sentiu alguns respingos de chuva cair em seu rosto.
Esses pequenos respingos logo se tornaram mais fortes e frequentes. Percebeu, então, que se tratava de uma chuva forte. Apressadamente, colocou-se de pé e passou o braço por cima dos ombros de . E antes que ela pudesse se dar conta, já estava correndo ao lado dele em direção à doceria em busca de abrigo. A distância não era grande, questão de metros, mas foi o suficiente para que os dois ficassem ofegantes e molhados pelo tempo de exposição e pela corrida inesperada.
Ao chegar ao local desejado, rapidamente abriu a porta e entraram apressados. Era possível ouvir a respiração pesada dos dois, já que o percurso que normalmente era feito em minutos foi transformado em segundos. Enquanto tentava recuperar o ar, fitou . Aquela atitude, entretanto, tinha sido extremamente impensada por ele. Não tinha como recuperar o ar facilmente se a encarava. Seus cabelos molhados estavam colados ao seu rosto e ela mantinha a boca entreaberta em busca de controlar a respiração.
Algo em seu corpo pareceu alertá-la e rapidamente imitou o gesto do homem, o encarando de volta com a mesma intensidade. Em questão de segundos foi criada uma tensão entre os dois que poderia ser descrita até como palpável. Deixou um suspiro escapar de seus lábios e manteve o contato visual. Desde o encontro dos dois no sábado ela se via constantemente pensando nele. Claro, não podia mentir que estivera bastante atarefada durante a semana e focava na evolução do trabalho. Mas não podia negar que qualquer oportunidade que sua mente tinha de fugir de realidade, seus pensamentos eram direcionados à . Não entendia como em tão pouco tempo tinha sentido uma ligação tão forte com ele.
Conversavam com tanta facilidade, comunicavam-se com tanta familiaridade, que o tempo parecia ser muito maior do que realmente era. E ansiava por tão mais que aquilo a confundia. Não sabia como expressar, mas sentia uma grande vontade de estar perto dele. E conseguia sentir que o sentimento era mútuo. Ali, enquanto a encarava, ela podia ver que ele pensava a mesma coisa.
Talvez não fosse tão óbvio para ele o porquê de seus pensamentos estarem sendo direcionados para com tanta rapidez nos últimos dias, mas deu ouvido a eles quando passara em frente à loja dela nos dias anteriores. Entretanto, não fizera nada mais além de observar. Primeiro porque via o quanto ela estava empenhada e concentrada. E segundo porque não queria se mostrar tão desesperado assim. Afinal, ela tinha tão pouco tempo na cidade e eles já haviam se encontrado bastantes vezes.
Tudo isso parecia contribuir e pesar na atmosfera que os envolvia. sabia bem qual seria seu próximo movimento e parecia que também sabia. E concordava com aquilo. Entretanto, quando deu seu primeiro passo em busca de diminuir a distância entre os dois, ouviu a porta da frente ser escancarada por um homem que carregava caixas na frente de seu corpo.
Só depois de alguns instantes entendeu que era Jaffe, o carteiro da cidade. Suspirou frustrado.
– Senhorita , essas encomendas chegaram hoje! – ele disse ao mesmo tempo em que adentrava o estabelecimento.
Qualquer atmosfera que havia ali antes havia sido invadida. De novo.