We Could’ve Fallen In Love

  • Por: Milena
  • Categoria: Originais
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Sinopse: Mesmo após um ano separados, as lembranças daquele natal em Paris foram o suficiente para não serem esquecidas nunca. Agora você volta para sua rotina em Los Angeles, mas o amor da sua vida continua a um oceano de distância. Uma atitude repentina e corajosa faz com que ele vença o orgulho bobo para reconquistar o seu amor. Ele te mostrou a cidade luz, chegou a sua vez de apresentar um pouco da cidade dos anjos. Está fanfic é uma continuação de “La Vie En Rose”
Gênero: Romance
Classificação: 18 anos
Restrição: Sem restrições
Beta: Regina George

Parte I
Nossa vida é marcada por diversas cores, e podemos representá-las como pessoas que passaram em nossas vidas. Algumas mais suaves, sem muito destaque, que com o tempo perdem a força até sumirem por completo. Outras são tão intensas que por mais que os dias, meses ou anos passem, elas permanecem intactas trazendo boas ou más lembranças.

Desde dezembro de 2019, as cores de marcaram a vida de e vice-versa. E mesmo após um ano distantes, as lembranças daquele natal em Paris foram o suficiente para não serem esquecidas nunca, mas trouxeram algumas consequências.

fechou seu coração por completo para qualquer tipo de relacionamento. Decidiu focar no sucesso do seu restaurante e dedicou seu tempo livre a alguns projetos sociais. Entretanto seus pais notaram sua distância e, principalmente, sua frieza. Uma característica que nunca pertenceu a ela.

havia se perdido e tinha dificuldade de se encontrar novamente. Faltava a sua parte que ele nem ao menos sabia que precisava, a parte que tinha endereço definido e infelizmente estava a muitas milhas de distância. Suas noites eram desinteressantes, assim como suas companhias, e ele passava dia após dia buscando alguém para ocupar sua mente que jamais seria preenchida.

As estações iam passando e agora, justo quando as esperanças pareciam ter se perdido… algo havia mudado. Talvez não seja tarde demais para se apaixonar novamente.

~ POV

‘Everydays feels like monday, there is no escaping from the heartache…’

27 de Março, 2021

Um ano e três meses. Esse é o período exato durante o qual meus dias passam de forma borrada e passageira, ao mesmo tempo que se arrastam e não possuem um pingo de emoção. Esse também é o período em que embarcou no avião de volta para Los Angeles e desde então, não trocamos uma só palavra.

O momento em que a ficha de que eu perdi a oportunidade da minha vida cai, talvez seja o mais doloroso de todos. Quando discutimos, com a cabeça fervendo e as emoções afloradas, não consegui enxergar quão idiota eu tinha sido naquele dia. Hoje é quase impossível não lembrar dos seus olhos brilhantes me encarando com curiosidade e diversão, como quando nos conhecemos enquanto eu tocava City Of Stars, e depois da decepção evidente quando fui um idiota no nosso último encontro. A saudade apertou mais forte.

O pior de tudo foi ver que não fui o único a sofrer com sua ausência. Consegui por alguns dias disfarçar meu semblante triste para Grace, mas não foi preciso muito tempo para que ela entendesse o que havia acontecido. , mesmo na América, não quis perder contato e continuou a ajudar o orfanato da maneira que pôde. Trocava e-mails e mensagens pelo celular com Grace semanalmente, e Aisha sempre que podia estava em uma chamada de vídeo ou ligação com a , praticando seu pouco inglês e mostrando sua coleção interminável de desenhos. A distância não foi o suficiente para separar a conexão entre as duas, e eu me sentia feliz por isso.

Recebi alguns puxões de orelha e sermões da senhora que também se apaixonou pela minha menina. Mas não demorou muito para que as palavras de Grace ficassem mais doces e suaves, alguns incentivos de que tudo daria certo no final e um abraço caloroso de mãe que me fazia enxergar uma pequena luz no fim do túnel.

O mais estranho é toda essa intensidade de sentimentos, quer dizer… nós apenas conversamos e nos aproximamos durante o mês de dezembro, teoricamente é um curto período para estar em um sofrimento tão grande. Mas só eu e ela sabemos quão profundos foram as nossas troca de olhares, nossos segredos, nossas conversas que duravam o dia e até mesmo a madrugada inteira, relembrando os momentos de alegria, de saudade, de dor. Nos abrimos um para o outro e conhecemos a fundo cada ferida que não estava completamente curada.

E é por isso que sua decepção era visível aquele dia.

Agora, praticamente um ano e meio depois, todos os dias eu sinto como se fosse segunda-feira. E eu acho que todos sabemos qual é a sensação. Quando acordamos menos dispostos, desanimados, querendo ficar apenas deitados para que termine o pior dia da semana. O problema é que ele nunca acaba, apenas se repete, com meu coração doendo da mesma forma desde que ela me deixou.

Hoje eu ando com a minha moto mais uma vez pelas margens do Rio Sena para mais um dia de trabalho. Tocar músicas românticas à noite ou fazer um ensaio fotográfico de casais apaixonados com certeza é uma forma de castigo bem cruel que o destino me preparou.

Bonjour Francis…— Cumprimento meu colega de trabalho.

Bonjour , continua com a mesma cara empolgante de sempre — Seu tom irônico é incrivelmente a única coisa que consegue arrancar um sorriso do meu rosto. — Preparado para tocar hoje?

— Se eu não estiver, morro de fome… aqui é o meu ganha pão, lembra? — Pego um prato na cozinha e sirvo meu jantar. Uma das partes boas de trabalhar com restaurante com certeza são as refeições grátis.

Eu chego por volta das seis horas e apenas às sete e meia me sento no piano para começar o pequeno show para os clientes. Essa uma hora e meia livre servia para que eu refletisse sobre a minha vida e bebesse uma taça de vinho ou uma dose de whisky puro para relaxar antes do ‘show’.

Ando pelo salão lotado de turistas e passo a deslizar meus dedos pelas teclas. A música é uma espécie de calmante para a minha alma, e de certa forma me faz conectar com ela. Mesmo a quilômetros de distância eu espero que possa ao menos ouvir algumas das minhas canções favoritas.

Uma coisa que aprendi como artista de bar é que alguns pedidos não mudam. Sempre tem alguma pessoa que levanta a mão e sugere She Will Be Loved, Easy Like Sunday Morning, Your Song e outros clássicos da música. Essa também é uma parte divertida, ver os clientes bêbados cantando pelo restaurante como se fossem verdadeiros artistas.

Je voulais une chanson … She Loves You des Beatles (Queria pedir uma canção… She Loves You dos Beatles).

É difícil receber pedidos no final do expediente, mas nunca recuso já que é meu salário em jogo. Olho em direção da voz e engulo seco. Eu sabia que conhecia aquelas pessoas desde que chegaram ao restaurante. Mas agora observando melhor, posso ter a certeza.

Pierre e estão em uma mesa mais distante, terminaram seu jantar e agora me encaram. Suas expressões suaves demonstram o oposto do que eu esperava, afinal na minha cabeça eu sou odiado por toda a família .

— Bien sûr monsieur (É claro senhor) — Murmuro baixo, mais para mim mesmo do que para o resto da minha plateia.

Presto atenção na letra dos gênios Paul McCartney e John Lennon. Essa é uma das mais famosas da banda britânica e tudo o que ela diz me faz refletir.

Será que ela me ama? Mesmo depois de tudo? Não acho que tenha sido coincidência eles aparecerem no meu trabalho e pedir justo por essa música. Os Beatles sempre foram incrivelmente inteligentes, uma música de 1964 fazer sentido hoje, e ainda se encaixar perfeitamente com a minha história? Sim Paul… ’With a love like that you know you should be glad’. Eu deveria ter dado valor para o amor que eu tinha.

Ao final da execução da música, Pierre faz um sinal com a cabeça, apontando para saída. Eles querem conversar comigo. Fecho a tampa do piano e vou me encontrar com o casal do lado de fora do restaurante. A brisa fresca na cidade é acolhedora, um clima ideal para a primavera parisiense. Nem tão quente nem tão frio, então não me preocupo em vestir meu casaco para enfim conversar com eles.

— Finalmente nos reencontramos rapaz…— Pierre sorri de lado e estende o braço para apertar minha mão, olho desconfiado — Não somos inimigos , não precisa ter medo.

— Se fosse eu a te estender a mão, aí sim você deveria ter cuidado, — Dona fala mais dura. Era incrível como tinha os mesmos traços de sua mãe, a voz forte, o sorriso irônico e o olhar doce. Como eu sinto falta dela.

— E-eu sinto muito, senhora.

— Meu bem, o pedido de desculpas tem que ser para , não para mim ou para Pierre — Realmente, teve a quem puxar.

— Não fale assim, ma chérie — Pierre interrompe — Viemos aqui ver seu trabalho na música, rapaz. Já faz um tempo que não nos vemos.

— Ah, claro — Coço a cabeça sem graça. A última vez foi em dezembro de 2019, quando eu e estávamos passeando pela galeria da sua mãe, organizando a nova exposição — Espero que tenham gostado do show de hoje… e que eu tenha feito jus ao talento dos Beatles — Sorrio de lado, ainda um pouco sem graça pela abordagem inesperada.

— Você é talentoso, . Não só para artes visuais, como também para a música — agora diz mais suave e lança um sorriso quase maternal em minha direção — E é sobre isso que queríamos falar com você na verdade…

— Lembra quando fizemos um convite para que você colocasse suas fotos no ateliê de ? — Pierre diz e eu concordo — Bem… abriu um espaço para agosto. Queremos saber se você tem interesse em expor conosco.

— Nossa… e-eu não sei se-

! — me interrompe. — Sei que você e tiveram seus problemas, mas se passou um longo tempo e nós queremos tratar de negócios — Ela me passa um cartão de visita — Acho que podemos começar com o pé direito dessa vez. Estou disposta a te dar mais uma chance.

Observo o cartão mais atentamente e vejo os números impressos na parte de trás. Aquele telefone…

— Sim — Pierre parece ler meus pensamentos — Ai tem o telefone dela. é responsável por fazer a curadoria das obras dos nossos artistas e organizar as exposições. Fale com ela.

O problema é que eu já havia tentado falar. Muitas e muitas vezes. Depois de um tempo tomei coragem e mandei a primeira mensagem. Obviamente fui ignorado. Em seguida, tomei uma dose de coragem, mais conhecida como whisky puro e alguns shots de tequila, e arrisquei um telefonema. Não sei quão miserável foi toda a situação, porque ela não apenas ignorava minhas chamadas, como também as rejeitava. Ou seja, ela sabia que eu estava tentando e mesmo assim preferiu me deixar de lado. Não posso culpá-la no fim de tudo.

Cheguei a pensar que ela tinha mudado de telefone, mas ela ainda respondia Grace quando necessário. Fiz mais algumas tentativas, porém depois entendi o recado perfeitamente e com o passar dos meses nunca mais tentei fazer contato.

— Acho que ela não quer falar comigo, senhor Pierre — Ri sem humor algum. — Obrigado pelo convite, mas vou ter que recusar.

…— segura na manga do meu casaco, impedindo que eu saia de perto deles — Sei que parece estranho estarmos aqui falando sobre a minha filha — Ela respira fundo — Vocês se desentenderam e não vou mentir que suas palavras magoaram muito a minha menininha… mas eu não estaria te entregando isso se não confiasse em você. passou por um relacionamento muito conturbado, mas, mesmo com tão pouco tempo, eu pude vê-la sorrindo, sendo ela mesma e buscando seu sonho pela primeira vez em muito tempo. Sem ter uma voz que dissesse onde ela deveria estar, mas sim com uma pessoa que a apoiasse em cada decisão — Ela pisca os olhos mais rapidamente, segurando as lágrimas que ameaçavam cair a todo instante — Ela ainda te ama. Com um pouco de persistência e paciência, tudo vai valer a pena no final. Você sabe como ela é teimosa, mas o coração é sensível.

— Se ela ainda assim relutar em te atender, acho que você sabe o que fazer, garoto… até a próxima — Pierre aperta meu ombro se despedindo enquanto apenas sorri levemente.

Observo os dois andarem pelas ruas e pego o cartão novamente, lendo com mais calma as informações nele. Havia dois endereços, um conhecido por mim, aqui em Paris, onde o ateliê ficava, e o outro um pouco mais distante. Califórnia. Nunca havia colocado meus pés lá e confesso que, mesmo implicando com a nacionalidade americana, passei a ter curiosidade de conhecer todo o calor e certo glamour hollywoodiano que o estado carrega.

, consegue me dar uma carona até o metrô? Estou um pouco cansado… No que você tá pensando? Quem eram aqueles? — Francis aparece do meu lado, encarando o casal que se afasta aos poucos de nós.

— Eles são… meus conhecidos — Encaro mais uma vez o pequeno cartão nos meus dedos.

— Conhecidos… sei — o garçom pega no capacete e sobe em minha moto — São os pais da tal garota americana?

— Eles mesmos…— dou a partida na moto — Achei estranho os dois estarem aqui depois de tanto tempo. Pensei que fossem me evitar apesar de tudo — Começo a andar devagar entre as ruas ainda movimentadas, porém não tão rápido para que o vento não atrapalhasse nosso diálogo.

— Você não é tão ruim quanto pensa, . Se fosse, eles não estariam procurando por você — Francis fala alto para que eu pudesse ouvir.

— Mas ela não quer mais me ouvir, ignorou meus e-mails, minhas mensagens, minhas ligações….— Estaciono ao lado do metrô enquanto meu colega se arruma para voltar para casa.

— Você não acha que ela vale a pena? Tome o risco e vá com tudo para reconquistá-la!

Penso por alguns segundos e uma ideia absurda passa pela minha cabeça. Talvez essa seja a minha primeira e última chance.

— Francis… acho que estou prestes a cometer uma loucura — Aperto meus olhos em direção ao meu amigo.

— Você sempre foi maluco, … te vejo amanhã?

— Acho que vamos demorar a nos encontrar novamente, vou tirar umas férias. As minhas já estão vencendo mesmo.

— E pra onde vai?

— Já esteve em Los Angeles antes?

Francis ri enquanto balança a cabeça. Despede-se com um aceno distante e me deseja boa sorte. Talvez eu precisasse de muita sorte mesmo, porém antes tarde do que nunca.


‘Wishing I could be in California…’

30 de Março, 2021

Foi uma decisão repentina, irresponsável e completamente insana, mas assim que cheguei em casa depois do trabalho, mandei uma mensagem ao meu chefe avisando que iria tirar minhas férias. Um pouco depois, já olhava as passagens para Los Angeles e mesmo pagando (MUITO) caro, consegui um assento para um voo no domingo de manhã.

Com as passagens compradas, precisava de um lugar para me hospedar. Minha sorte é que eu tenho um amigo, Jake, morando na Califórnia há três anos. Foi uma surpresa para ele quando disse que estava indo para os Estados Unidos e precisava da sua ajuda por alguns dias, mas ele me esperou pacientemente no aeroporto com uma placa ridícula, ‘Bem-vindo aos Estados Unidos ’, balões e um sorriso de escárnio, fazendo-me passar vergonha no hall do LAX.

Agora eu estou em seu pequeno apartamento, procurando pelo endereço impresso no cartão de visita que Pierre e me deram. Hidden Hills é uma das cidades mais ricas e bem frequentadas do condado de Los Angeles, apenas a alta sociedade californiana mora ali. Pelo o que me lembro das histórias que contava, ela se mudou para lá após terminar seu noivado.

— Fica a uma hora de distância. Só seguir a estrada principal e ficar de olho nas saídas. As placas são auto explicativas — Jake serve uma caneca de café e apoia as mãos na mesa — Pega meu carro que rapidinho você chega lá.

Bebo um gole da bebida quente e meu estômago agita. A ansiedade me faz perder completamente o apetite, mas meu amigo insiste que eu não posso fazer a viagem de estômago vazio e força para que eu morda nem que seja uma torrada.

— Parece que eu tenho 15 anos e estou indo no meu primeiro encontro…— Falo baixo, enquanto coloco o endereço no celular e busco pela chave do carro.

— Primeiro encontro e 15 anos eu não sei, mas você está indo ver a mulher que você magoou, te deixou apaixonado e louco por decidir de última hora atravessar o oceano só pra pedir desculpas — Jake fala, me lançando um sorriso reconfortante.

●●●

Existe um contraste muito grande entre andar pelas ruas calorosas e movimentadas de Los Angeles e andar pela Champs-Élysées. Definitivamente tudo é igualmente luxuoso e a quantidade absurda de dólares e euros gastos nos dois ambientes chega a ser equivalente. Cada uma tem seu charme, seu encanto e suas particularidades. Possuem coisas em comum e ainda assim são realidades bem distantes.

Eu moro em Paris há oito anos, então acabei me acostumando com a frieza europeia e a prepotência francesa. Chegar nos Estados Unidos e ver que ali também te encaram de cima a baixo para medir se o tempo gasto valeria a pena e se eu tinha contatos importantes a oferecer aos seus negócios, foi um choque. O engraçado, entretanto, era que parecia que eles ainda tentavam demonstrar se importar com você… um misto de falsidade e simpatia que me dava nos nervos.

Agora eu entendo pelo que passou. Todos ali pareciam querer te usar de escada para conquistar o sucesso.

Estaciono o velho Honda do meu amigo na ladeira que fica a um quarteirão de distância do Le Petit , o restaurante que tanto ouvi falar e também escritório pessoal de . Ando devagar pelas ruas e aos poucos sinto o nervosismo tomar conta do meu corpo. Depois de um ano vamos nos reencontrar e eu mal sei o que falar. Será que ela vai se recusar a me receber? Irá me xingar e me bater na frente de todos? Ou até mesmo pior, tratar com indiferença a minha presença?

Coração acelerado, pernas bambas, mãos suadas. Ouvi falar sobre o restaurante famoso e renomado de , mas nunca tive a oportunidade de estar aqui. A fachada clara e iluminada deixam o local com um ar ainda mais sofisticado, entretanto acolhedor. Do lado de dentro, a luz ambiente baixa, algumas velas espalhadas, o teto de vidro e todo o conjunto de cores parece ter sido pensado para me transportar à Europa num piscar de olhos. Cores quentes de tons terrosos misturado às flores vibrantes e plantas nas paredes davam um toque romântico a todo o espaço. O piso era de pedra, imitando as antigas vielas do Sul da França, se eu fosse me arriscar a dizer. Os móveis eram um mix de madeira e ferro, o bruto com o delicado, o contraste perfeito para fazer seus clientes se sentirem à vontade. Eu podia dizer que havia o dedo da em tudo ali, em cada detalhe, para conseguir encantar seus clientes e fazer com que eles sempre queiram estar ali.

Ainda absorto em pensamentos, noto uma mulher alta e loira caminhar na minha direção. Pelo crachá eu já conseguia identificar que se tratava da gerente. Tive sorte de não precisar falar com ela de primeira, mas eu espero que dessa vez eu não estrague tudo.

— Seja bem-vindo ao Le Petit ! Meu nome é Joana, sou a gerente do local e vou acompanhá-lo até a sua mesa, senhor — A mulher fala com maestria impecável e seus olhos são simpáticos ao me encarar — Você está esperando por mais alguém?

— Na verdade eu… eu estou procurando por uma pessoa. Sabe me dizer se a dona está? — A loira ergueu as sobrancelhas — certo? Ela não é a dona desse lugar?

— Ah, claro! Normalmente não procuram a no restaurante, vão direto ao seu escritório. A entrada fica na rua ao lado — Ela agora me encara curiosa — Eu posso te ajudar com algo? Qual o seu nome?

— Me chamo , eu sou amig- — Parou a frase no meio e me corrijo o quanto antes. — Sou conhecido da , vim dar um oi já que estou aqui em Los Angeles.

— Então você é o …— Joana me mede dos pés à cabeça e sorri irônica — O que você quer? está ocupada e não pode atender agora…— Ela cruza os braços e continua falar agora no tom mais raivoso — E provavelmente nem vai querer te ver.

— Eu vou tratar de assuntos pessoais e profissionais com ela — Reviro os olhos e mostro o cartão de visita — Não que isso te interesse, mas a me mandou aqui.

— Não é muito difícil achar o endereço daqui e fingir que a mãe dela te deu alguma coisa — Ela pega o cartão, analisando cada ponto, e me encara mais uma vez desconfiada — Mesmo assim, ela não está. Hoje é a folga dela. Venha outro dia, mas ligue se quiser saber se ela vai te receber.

— E você sabe me dizer qual o horário que ela fica por aqui?

— A partir das dez da manhã. Antes do restaurante abrir para o almoço — Aceno com a cabeça e me viro para tomar meu rumo — Você é corajoso de vir até aqui, sabe disso não sabe? — Sua voz me interrompe no meio do caminho.

— Corajoso, imprudente… e provavelmente burro também — Falo sem olhar para trás. Não tinha tempo para alguém tirar com a minha cara e me deixar mais ansioso do que eu já estou.

gosta desse tipo de atitude. Não é uma coisa que a gente espera de qualquer homem…—

— Vale a pena cruzar a Europa e os Estados Unidos por ela… nem que seja pra pôr um fim na nossa história, e pelo menos ter a chance de vê-la uma última vez —

— Se quiser conhecer um pouco de Hidden Hills… sei que a fama é de que a vizinhança é de ricos esnobes que não ligam para nada além do próprio umbigo. Mas nas ruas de cima tem alguns lugares interessantes — Ela fala mais alto e acaba chamando minha atenção por alguns segundos — Por que você não dá uma passadinha por lá? — Ela pisca um olho e logo vira as costas para dar atenção a um garçom, deixando-me com um enorme ponto de interrogação na mente.

O que ela quis dizer com isso? Será que ela estava insinuando que queria dormir comigo? Joana não parecia ser desse tipo de pessoa… mas eu nem ao menos a conhecia e não tinha interesse em fazê-lo.

Entro no carro de Jake e suspiro cansado. Uma viagem até Hidden Hills totalmente em vão, não consegui encontrar e teria que tentar outro dia, se quisesse ter sucesso. Descanso minha testa no volante e fecho os olhos. Eu estava cansado de esperar, eu não aguento… preciso falar com ela.

Resolvo dar ouvidos ao que Joana disse e dou algumas voltas nas ruas iluminadas pelo fim da tarde. Os feixes de sol alaranjados são reconfortantes, acho que é a primeira vez que eu prefiro estar na Califórnia ao estar na minha conhecida Paris. O sol é realmente mais bonito desse lado do mundo.

Uma praça com o ambiente familiar me chama a atenção então resolvo parar o carro e aproveitar um pouco do calor e do clima fresco. Joana tinha razão, daquele lado da cidade tudo é menos extravagante. As pessoas são ricas, de fato, mas as famílias com seus filhos pequenos fazem parecer um local mais acolhedor.

Uma pequena fila se forma do lado de um galpão movimentado, e posso ver que as pessoas ali não parecem ser cheias da grana, mas humildes que saem do local com sacolas de papel cheias de mantimentos.

Voluntários andam de um lado para o outro com luvas, toucas descartáveis e aventais, oferecendo não apenas as mercadorias, como sorrisos sinceros e cheios de esperança. Mais à frente, um grupo oferece roupas para a doação e no final duas pessoas distribuem quentinhas, para que eles possam se alimentar.

É então que eu a vejo.

Os cabelos presos em um coque alto e volumoso, com alguns cachos soltos emoldurando seu rosto bronzeado. serve as pessoas com um sorriso iluminado, conversando com eles na fila como se fossem velhos amigos e abraçando alguns que se mostravam entusiasmados em vê-la.

Meu coração volta a disparar e a boca seca. Ela está linda, simples, modesta e natural. Parece mais leve, sem carregar o peso de ser uma pessoa que passa a imagem perfeita (ainda que ela realmente seja), não havia a pressão de que ela sempre reclamou comigo.

Ando apressado, chegando cada vez mais para perto e quando ela termina de atender a última pessoa, vê-me a alguns metros. Seus olhos arregalam de surpresa e o que antes transmitia felicidade, agora muda por completo para a tristeza. Sinto meu estômago afundar.

…eu-

— Josh, você consegue acabar aqui sozinho? Preciso ir agora — Ela fala com o colega ao lado e, sem nem me dar ouvidos, apenas pega sua bolsa e caminha para longe.

— Vai fingir que não me conhece, ? Sério? — Apresso o passo para alcançá-la e encosto no seu braço de leve — Eu vou te seguir até a sua casa falando tudo o que eu preciso, e você pode tentar ignorar, mas vai ouvir.

— Merda, esqueci meu fone! — Ela para no ponto de táxi, enquanto procura na bolsa pelo seu celular, como se ainda estivesse sozinha e não com um louco ao seu lado, tagarelando.

— Bom, você não é de gostar de monólogos, então em algum momento vai me interromp-

— O que você tá fazendo aqui, ? — fala cansada e me olha, pela primeira vez em muito tempo, diretamente nos olhos.

— E-eu…— Perco a fala por um segundo — Antes de qualquer coisa, eu acho que te devo um pedido de desculpas…

— Você acha? — Sua risada sem humor algum me atinge — Você é um babaca, , do pior tipo!

— Eu mereço isso, eu sei… eu fui muito cruel com tudo, falei muita merda, não pensei em como você se sentiria…

— Você foi egoísta. Depois de tudo o que eu abri pra você, no final recebi um punhal nas costas e uma decepção maior do que com qualquer outra pessoa.

— Desculpas não são o suficiente pra tudo o que vivemos, mas eu precisava pelo menos tentar! Você nem ao menos me atendia!

— E você quer que eu te atenda, como se nada tivesse acontecido? Como se não me magoasse o suficiente te ver agora, te ouvir e perceber que ainda não superei como eu pensei que havia superado? — Uma lágrima acaba escapando dos seus olhos e prendo a respiração.

— E-eu não queria que fosse desse jeito, … eu me arrependi logo depois que você foi embora…

— Então por que não foi atrás de mim ? — Sua voz era fria e vazia, mas eu conseguia enxergar nos seus olhos toda a emoção contida naquelas palavras.

Tento falar, explicar-me, dizer o que se passou pela minha cabeça… mas a verdade é que nem eu saberia dizer o porquê. Abro e fecho a boca várias vezes. Nada. Respiro fundo e olho para o céu, buscando ajuda para aquela situação.

— Eu esperei por você — Escuto sua voz frágil e baixa — Pensei que você iria me impedir, iria até o apartamento dos meus pais, ou até mesmo no aeroporto me ver…— Ela ri sem humor e move seus ombros para cima, um sinal claro de indiferença e desistência — E foi aí que eu percebi que atitudes como aquela, falam mais do que mil palavras — Não há mais lágrimas nos seus olhos agora. Ela apenas está séria.

— Eu fui um covarde. Não sabia como chegar e falar com você…

— Eu sei disso, mas ainda assim eu esperava que o menino bonito de olhos fosse ser diferente de todos — ela suspira no fim — Isso me ajudou a perceber que eu não preciso de um homem ao meu lado pra me ajudar nas minhas conquistas. Posso fazer tudo sozinha, posso ter o que eu quero do meu jeito — Ela sorri no fim e inevitavelmente sorrio junto. Ela não deixava de ser linda, mesmo destruindo o meu coração.

— Eu esperava te ver uma última vez e até mesmo terminar o que nós tivemos. Pelo menos tive uma resposta — Começo a caminhar pela calçada e me acompanha nos passos lentos, sem pressa de acabar nosso encontro. Nossa conversa, apesar de melancólica, dissipou um pouco a tensão do encontro.

— Eu estava com planos de voltar a Paris esse ano, não sei em qual data… pensei que Grace comentaria com você — Ela solta no ar.

— Como assim?

— Ah… você sabe que eu tive uma conexão muito forte com Aisha, desde o primeiro encontro — Suas bochechas coram de leve e agora sinto o clima pesado voltar a conversa. — Eu falo com ela toda semana. Não tem um dia em que não fazemos uma chamada de vídeo, nos ligamos ou mando um áudio de boa noite para ela.

— Grace comentou que vocês continuam próximas, isso é muito legal da sua parte — Sorrio, mas ela desvia o olhar e acho sua reação estranha.

— Sim, não tenho como sair da vida dela depois de tudo… E foi por isso que eu conversei com Grace sobre adoção — Um estalo passa pela minha mente e fico chocado com a informação — Temos esse laço tão forte. Já que ela não tem mãe e eu não tenho mais a minha família aqui, procurei um advogado e estamos ajeitando a documentação para formalizar tudo.

— Você quer levar a Aisha? — Interrompo sua fala com a voz mais alta — Você vai realmente tirá-la do orfanato, onde ela conhece a todos e trazer pra cá? — Falo com desdém.

, qual é o seu problema? — Ela me olha furiosa.

, por mais que eu ame o fato de você querer dar a Aisha a chance de ter uma família, você não sabe o que acontece no orfanato — Eu viro irritado em sua direção — Quando você foi embora, eu fiquei com ela, eu estive lá dando apoio e me aproximei de todos que perguntavam da senhorita …— Ajeito a postura e faço uma imitação horrível de uma voz infantil — Où est miss ? (Onde está a senhorita ?), Sera-t-elle de retour bientôt? (Ela vai voltar logo?) — Meu sangue ferve em lembrar do rosto triste de cada um deles — Eu estive lá com Aisha e sei o quanto ela te ama e sente a sua falta, sei que ela me ama também. E agora…

— Não trate isso como se fosse minha culpa! Eu quero trazê-la pra mais perto de mim! Quero dar a chance de ela ter uma família comigo — soa desesperada, mas seu foco parece ir para o outro lado da rua e o sangue some de seu rosto — Só me faltava essa agora…— Diz um tanto quanto cansada e desesperada.

, é você? — Um homem alto, moreno e de olhos azuis se aproxima de mãos dadas com uma jovem ruiva — Minha nossa, quanto tempo!

Quem é ele?

— Daniel… e Sophia — ela apenas sorri para os dois que se aproximam a cada passo.

— Que bom rever você, faz tanto tempo que não nos vemos! — O tom de voz de Daniel é de escárnio e eu logo decido que não gosto dele.

— E eu esperava não ver vocês tão cedo, para ser bem sincera…— diz passiva, porém com um tom ácido que me faz rir de leve, ainda que eu não entenda o que está acontecendo.

— Não seja assim, . São tempos de mudança, águas passadas. Todos nós merecemos seguir em frente com quem queremos, não é mesmo? — A mulher, Sophia, diz com o nariz empinado e olhando para minha menina, como se fosse superior. Nem se ela tentasse mil vezes chegaria aos pés de .

— Tem razão, Sophia, certas coisas merecem ser deixadas no passado para dar oportunidade a coisas melhores.

Abafo uma risada e desvio o olhar do rosto ultrajado da mulher. Reviro a memória pelos dias em que me contou de sua vida, e finalmente reconheço o tal cara. Ele é seu ex-noivo, Daniel, que a traiu com a colega de trabalho, Sophia, na própria cama deles.

— Não precisa ser tão arisca, . O que faz por esses lados de Hidden Hills? Seu restaurante fica um pouco longe daqui — Daniel fala, enquanto olha de cima a baixo a ao meu lado — Você agora faz caridade? — Seu tom é de puro desdém e não consigo entender como uma pessoa como pôde ficar com esse cara por tanto tempo.

— Sou voluntária no abrigo que fica próximo à praça — Ela responde com orgulho.

— Isso é no mínimo… diferente — A ruiva fala — , a renomada chef de cozinha francesa, aclamada pela crítica e mega requisitada nas festas da alta sociedade californiana, agora serve quentinha para os pobres coitados da cidade — Sua risada é aguda e machuca meus ouvidos — Quer comprar seu lugar no céu com boas ações?

— Sophia, meu amor, não fale assim…— Daniel ajeita uma mecha atrás da orelha da mulher — Quando temos tempo de sobra e não precisamos nos preocupar com nossos negócios, vida social ou um relacionamento, é normal querer fazer algo inesperado e se misturar com outras pessoas.

É então que eu percebo que teve sorte em se livrar daquele homem, porque aqueles dois foram feitos um para o outro. Sophia gosta de atacar com palavras, sem hesitar e pensar no que poderia causar nas pessoas. Já Daniel é mais traiçoeiro, vindo com palavras camufladas, não parece querer atacar, mas no fundo é perceptível a sua tentativa de menosprezar as escolhas que fez.

A mulher forte e cheia de atitude parece murchar ao meu lado, e isso me entristece. Ver alguém que fez parte da sua vida diminuindo suas conquistas, por mais simples que sejam, faz nosso coração pesar e algumas dúvidas surgirem em nossa mente.

O mais engraçado é que em momento algum Daniel ou Sophia se dirigem a mim, nem ao menos me olham, ainda que eu esteja ao lado de e que claramente estávamos conversando antes da chegada tempestuosa dos dois. Eu me sinto insignificante, como se a minha presença ali fosse dispensável.

— Sabe, , Kourtney sente sua falta durante as reuniões na casa dela. Claro que ela sabe que nós não estamos mais juntos — Ele dá de ombros — Ela lamenta pelo nosso término.

— Pode deixar que eu digo a ela que estou melhor agora — Essa é a minha garota.

— Sabe, amor, acho que deveríamos chamar a para a reunião na nossa casa — Sophia se vira para o namorado e alisa o peito dele, deixando à mostra um anel com uma pedra absurdamente grande e brilhante em seu dedo — No fim do mês vamos trazer todos os seus antigos amigos, , eles sentem tanto a sua falta…— Ela suspira — Mas não sei se você vai querer, não é mesmo, querida? Deve ser muito chato chegar sozinha, sem ninguém pra te acompanhar ou ficar com você.

abaixa o rosto respirando profundamente. Ela fecha os olhos e me sinto sem saber o que fazer. Devo me meter no assunto do seu passado e correr o risco de afastá-la ainda mais? Fico quieto e posso ser acusado de não defender quando ela precisou?

Decido por algo simples. Estendo minha mão, até segurar de leve seus dedos trêmulos e gelados. Ela ergue seus olhos em minha direção e vejo um pequeno lampejo de surpresa cruzar seu rosto.

— Na verdade, eu aceito o convite — Ela sorri de forma genuína — E pelo contrário, Sophia, vou estar muito bem acompanhada — Sinto sua mão entrelaçar a minha e ela me puxa mais para frente, convidando-me a participar da roda que acabaram formando — Este é , um amigo que conheci em Paris.

Arqueio as sobrancelhas e vejo o casal finalmente se dirigir a mim, com desprezo evidente no olhar.

— Érr…. olá? — Digo um tanto sem graça, parece que fui jogado de bandeja em meio aos lobos, prestes a me devorarem.

— Meu Deus, , esse tempo que você esteve longe da alta sociedade te deixou com um gosto peculiar — Sophia solta e não posso deixar que uma risada debochada saia por entre meus lábios. Impressionante como eles julgam sem ao menos me conhecer.

— Realmente, eu posso te garantir que o gosto dela é espetacular — engasga ao meu lado, enquanto os dois se mostram alarmados com o duplo sentido da frase. Bom, eu não estava mentindo. Olho de esguelha para minha garota e ela parece pedir ajuda — Eu vou ficar aqui por um tempo pra resolver umas questões de trabalho, então também aceito o convite, obrigado — Encerro com o meu melhor tom cínico e satisfeito por pelo menos ter deixado os dois, e até mesmo , envergonhados.

— Vai ser ótimo receber vocês. Acho que será uma ótima surpresa — Daniel fala grosso e olha para o relógio em seu pulso — Eu e Sophia precisamos ir pra casa. Depois eu passo os detalhes para vocês. Até mais, e…

O filho da puta ainda finge não lembrar o meu nome. Como eles ficaram juntos por tanto tempo?

, meu nome é .

— Isso… até mais, — Os dois seguem seu caminho. Eu continuo rindo da situação e noto que estava mais aliviada, ainda que tenha se mantido muda.

— Eu acho que preciso te pedir desculpas por essa cena e te meter nessa mentira — fala — Agora você entende a minha angústia por não querer fazer parte desse mundo. Isso…— Ela aponta para os dois que entravam no carro — Não sou eu — Um Porsche prateado, incrivelmente caro, que era capaz de arrancar os poucos dólares que eu tinha no meu bolso se eu apenas andasse perto — Eles não ligam para nada além de trabalho, reuniões ou festas com gente importante. E se você não for útil, é descartado como se fosse um lixo.

— Não precisa me pedir desculpas, eu sei que você é completamente diferente deles — Sorrio acolhedor e ela assente.

— E você não precisa estar lá. Nossa conversa já foi estranha o suficiente, agora estarmos juntos num lugar como aquele…

— Não vai ser incômodo algum estar lá com você, além do mais, acho que você não pode dar esse gostinho para eles — Arrisco segurar sua mão e atraio sua atenção para mim — Vai ser um prazer te acompanhar. Ademais, não foi mentira quando eu disse que vou estar aqui até o fim do mês, e à trabalho — Minha mente dá um estalo e junto o útil ao agradável — Inclusive, como vou estar te ajudando com essa tal reunião de amigos, você poderia me ajudar com esse trabalho. Vou expor algumas das minhas fotografias e o conceito que eu escolhi foi a paisagem de Los Angeles.

— Você só pode estar de brincadeira — me olha desconfiada — , eu quero distância! Como eu vou te ajudar nesse trabalho e, principalmente, por que eu iria querer te ajudar?

— Bom, porque a exposição é para o ateliê da sua mãe — Ela arregala os olhos, surpresa — E para melhorar sua situação, foi ela quem me mandou vir até aqui te encontrar, já que é você quem fica à frente das negociações com os artistas e não quer atender minhas ligações — dou de ombros e caminho devagar de volta para o carro de Jake.

— Pera aí, ei… VOLTA AQUI! — Ela se apressa pra me acompanhar e puxa meu braço para trás — Como assim minha mãe tá por trás disso? Ela não seria capaz, ela queria te matar! Eu não acredito em nada do que você diz — cruza os braços.

— Bom, eu não vim para Los Angeles à toa — Tiro as chaves do carro e a encaro por fim — Eu sei que é suspeito eu estar aqui e vir falar com você. A verdade é que eu tô aproveitando pra também pedir perdão por tudo, mas eu só vim a trabalho, se achar que estou mentindo, pergunte a sua mãe — Aperto um botão no chaveiro e destravo o carro. — Entra aí, vou te deixar em casa.

— Eu não vou entrar no carro. Você nem ao menos sabe o meu endereço — Teimosia era uma das coisas que me irritavam em .

, o céu já escureceu, está tarde e eu tô hospedado um pouco longe daqui. Eu posso não conhecer nada, mas prefiro me perder nessa cidade do que deixar você voltar sozinha de táxi — Abro a porta para ela e falo mais duramente — Agora entra no carro e vai me guiando.

pensa algumas vezes antes de me responder, mas acaba cedendo. A viagem foi silenciosa, apenas com o som das nossas respirações, ela me indicando o caminho e o rádio tocando música para não ficar um clima ainda mais pesado. Em poucos minutos, estaciono ao lado de sua casa.

— Eu ainda não acredito em você — Sua voz baixa sobressai a música e eu respiro fundo — Não depois de tudo.

— Eu só peço que você me dê essa chance — Digo por fim — Ligue para a dona , veja se estou mentindo e se você quiser ou não me ajudar…— Prendo seu olhar no meu e vejo que lágrimas ameaçam cair por seu rosto — Só me avisa que eu vejo uma forma de voltar a Paris o mais rápido possível.

Ela não me responde. Sussurra um obrigada e bate à porta do carro, entrando de vez em casa, sem olhar para trás. Tudo o que eu peço agora é que ela não me rejeite, eu estou próximo de talvez consertar o meu futuro. Falta muito pouco e eu me agarro à esperança de conseguir fazer dar certo dessa vez.

~ Narrador

— MÃE, COMO ASSIM VOCÊ CONCORDOU COM ISSO? — fala exasperada, após constatar que não havia mentido — Você tem noção de como foi difícil vê-lo chegando aqui de surpresa?

Nove horas de diferença, em Los Angeles é o começo da madrugada enquanto Paris começa a amanhecer. É assim que elas conseguem conversar, e mesmo assim não se importam. Esse tempo é valioso, e é assim que conseguiam conversar e desabafar, além de matar a saudade.

— Meu amor, ele tentou te ligar antes e não conseguia — A voz de vem do telefone de , que pediu pra fazer uma vídeo chamada com a mãe, depois de algumas horas e várias taças de vinho — Eu sei que vocês não terminaram bem…

— Nem começamos direito, mãe, ele foi completamente incompreensivo com a minha situação! — Ela corta a mais velha, que apenas suspira, vendo sua filha à distância.

— O erro de vocês dois foi serem imprudentes demais, rápidos demais nisso — toma um gole de café, para então continuar — Foi tudo intenso e muito bonito, mas não dá pra brincar com o amor desse jeito … uma hora podemos dizer o que não queremos e magoar o outro.

— E agora você decide não me dar escapatória, mandando-o direto pra porta do meu trabalho?

— Eu realmente quero as fotos dele expostas aí. Mas vou deixar nas suas mãos a decisão, porque você sabe o trabalho que dá a curadoria. Só espero que você seja madura com o que for decidir e que não se arrependa — A mulher ergue as sobrancelhas e sorri ao notar a expressão cansada da filha.

boceja e olha para o relógio, meia noite. Ela precisa dormir pois amanhã terá um longo dia no trabalho.

— Mãe, vou desligar. Eu preciso acordar cedo pra ver algumas coisas do restaurante — Ela sorri para a câmera — Mande um beijo para Pierre, sinto falta dele.

— Ele está ansioso para você voltar a nos visitar! — seca algumas lágrimas que escapam — Eu te amo, minha princesa, sinto sua falta todos os dias.

— Eu também te amo, mãe, para todo o sempre — Ela deixa as lágrimas solitárias rolarem pelo rosto — Mãe…— Ela chama antes que a mais velha desligue a ligação — E se eu tomar a decisão errada?

— Eu e Pierre vamos te apoiar sempre. Você não está sozinha, querida.

suspira e pensa nas palavras de sua mãe. Ser madura o suficiente para entender que a relação dela e havia acabado, mas que isso não deveria afetar o trabalho dos dois. Porém, ainda assim é arriscado, porque tudo nele é completamente encantador. Passou muito tempo desde a última vez que o vira e ele continua com o mesmo charme sedutor que sua mente traiçoeira ainda lembrava. Como ela queria ter certeza do que fazer.

Mas não agora, e não hoje. Um dia de cada vez para não atropelar suas decisões.

●●●
A semana passa se arrastando e na sexta se encontra inquieto, andando de um lado para o outro, numa tentativa frustrada de ocupar sua mente com qualquer coisa.

Ele está esperando por uma resposta de . Resposta essa que ainda não havia sido enviada. jura que se ela resolver lhe dar o pé na bunda, irá gastar todo o resto do seu dinheiro para embarcar no primeiro voo de volta à França.

— Você tá começando a me irritar. Para de ficar olhando esse celular de cinco em cinco minutos — Jake revira os olhos — Quando ela falar com você, vai subir um troço na sua tela chamado notificação. Sossega.

— Desculpa, cara, não tô conseguindo relaxar desde às oito horas da manhã — Ele vai até a pequena cozinha e arruma toda a louça suja — Ela já podia ter me ligado — Ele fala para si mesmo e começa a pensar nas possibilidades acerca do que ele faria dali para a frente. Definitivamente iria ter de seguir em frente e não olhar para trás.

— Aproveita as suas férias e curte um pouco da cidade dos anjos com o seu velho amigo aqui- — Jake é interrompido pelo som estridente do telefone do amigo — Ora, ora, ora, ela finalmente apareceu… OPA DEIXA EU VER PRA VOCÊ — As mãos rápidas e sinuosas alcançam o celular antes que o faça. Smith passa a rir enquanto encara a tela do telefone e foge do menino de olhos —O que será que essa respondeu ao meu amigo aqui?

— Me dá essa merda de celular, Jake — está furioso e ansioso ao mesmo tempo.

— Sabe o que seria muito divertido? Eu ler a mensagem, saber o que ela te falou e apagar logo em seguida — Um sorriso presunçoso surge nos lábios dele, mas logo trata de arrancar o telefone da mão do amigo, socando seu ombro com uma força considerável — Seu babaca, filho da puta! Eu tava brincando!

— Foda-se — Murmura irritado, desbloqueando o aparelho. Aos poucos sua feição muda e o semblante calmo domina seu rosto.

~ De:

Amanhã de manhã você vai me encontrar no escritório. 9h sem atraso.

O sorriso bobo parece não querer desaparecer dos seus lábios, mas não está se importando muito. Ela deu uma chance.

— Parece que a sua Julieta resolveu voltar atrás é? — Jake tira sarro da cara do amigo, depois de ler por cima do ombro a mensagem de — E qual é o seu plano?

— Meu plano é não estragar tudo dessa vez e ver se o destino me ajuda a reconquistá-la — Ele dá de ombros — Não quero parecer precipitado e acabar metendo os pés pelas mãos de novo, essa pode ser a minha última oportunidade.

— Acho bonito isso de deixar na mão do destino, mas também é um pouco covarde, na minha opinião — Ele diz de forma sincera — Você pode agir pra consegui-la de novo, mas seja discreto e fale um pouco menos. Tem menos chance de você falar merda.

— E o que você sugere que eu faça, Smith?

— É você que tem que pensar na parte difícil, , mas vou te dar uma dica porque sou seu amigo: o que você faria pra surpreendê-la antes de voltar para França?

se mantém pensativo por alguns minutos. De fato, ele não iria insistir em chamar para voltar com ele para França e abandonar tudo. Da última vez foi completamente desastroso.

Seus olhos pousam em sua câmera sobre a mesa de jantar, e instantaneamente sua mente estala com uma ideia. Ele teria que agir com rapidez para não perder tempo, e ser cauteloso para não atropelar a mulher com todas as suas emoções. Que Deus o ajude nessa missão quase impossível.


Manhã – 9 de abril, 2021

O clima fresco e primaveril da Califórnia é extremamente reconfortante. chega 10 minutos adiantado e espera pacientemente por ao lado de fora do local, já que está tudo fechado e aparentemente não há nenhum funcionário que possa abrir para ele.

Sentado no banco, balança a sua perna conforme a música que soa no seu fone de ouvido. A voz rouca de Anthony Kieds consegue dissipar, pelo menos um pouco, o nervosismo que se forma em seu estômago. O álbum Californication é, na sua nada humilde opinião, uma obra prima criada pela sua banda favorita.

Nos últimos acordes de Scar Tissue, um táxi para em sua frente e logo depois desce do carro. Seu estilo é completamente despojado. Uma calça preta colada em suas pernas, camiseta branca, blusa jeans com as mangas enroladas até o cotovelo e tênis esportivo. Não era o tipo de traje que as pessoas iriam esperar de uma chefe de cozinha dona de restaurante incrivelmente rica.

Mas para , ela sempre seria apenas a sua . Perfeita e impecável.

— Você está aqui há muito tempo? Espero não ter demorado, mas acabei me atrasando ao sair de casa — Ela anda até a porta, já com as chaves na mão, e libera a passagem para os dois — Pode entrar e, ér- — Ela mexe nos fios soltos em seus ombros, uma mania nervosa que sempre reparou e amou nela — Quer alguma coisa pra comer? Eu ainda não tomei café, posso fazer para nós dois…— Sua voz é baixa e suave, com um leve toque de vergonha.

— Eu aceito um café, obrigado! — O sorriso de faz estremecer e suas bochechas coram.

— Pode se sentar na sala de reunião, é a segunda à esquerda, não tem erro — Ela aponta para o corredor à frente e some na porta atrás de si. Deve ser uma espécie de copa ou cozinha, pensa.

Não demora muito para que o aroma agradável de café, baunilha e chocolate invada todo o ambiente. sorri e sente-se estranhamente em casa, mesmo nunca tendo pisado ali antes.

— Trouxe também uns biscoitos amanteigados e de chocolate. Sei que você gosta deles, então…— Ela pousa uma bandeja na mesa — Sempre uso de desculpa uma reunião para lanchar. Sem comida não tem como fazer um bom negócio.

— Vou começar a adotar isso nas minhas reuniões, é uma ótima ideia — Os dois riem em conjunto e são fisgados pelo estranho sentimento da nostalgia. Com os olhos conectados e a pouca distância entre eles, a necessidade de suprir a saudade se tornou ainda mais urgente, deixando ambos ansiosos.

— Bom, vamos começar? — interrompe o momento e passa a tagarelar sobre a proposta que seria feita para a exposição.

Basicamente terá liberdade para escolher sua temática e conceito fotográfico, desde que não viole a moral ou a privacidade das pessoas. As peças ficarão expostas por uma temporada em Los Angeles, passando depois por Paris e tinha planos de apresentar não só ele, como outros artistas, aos seus amigos da Alemanha, de Portugal, da Holanda e da Itália, dando assim bastante visibilidade ao trabalho deles. O ateliê ficará com 40% dos lucros, pois eles vão arcar com toda a produção das peças, e o artista ganhará uma imensa vantagem expandido seu network pelo mundo das artes.

— Nossa, isso é muito mais do que eu poderia pensar em ganhar — O homem diz surpreso com o que explica — Não sei nem como agradecer pela oportunidade. Obrigado, .

— Você pode agradecer à minha mãe, , ela quem te enviou aqui, lembra? — Ela fala com a voz monótona — Mas não posso negar que você tem um portfólio incrível, já era de se esperar que fosse trabalhar com a gente, mesmo depois de tudo.

— Bom, ér- — engasga e tenta mudar de assunto — São 20 fotos editadas pra apresentar a você ao fim do mês e depois…

— Depois de eu aprovar, já mandamos fazer as versões impressas, caso algum cliente tenha interesse em levar para casa — Ela dá de ombros — Você vai fotografar Los Angeles, certo? Já tem um nome em mente para entrar na divulgação?

— Ainda estou pensando sobre isso. Inclusive, vou adicionar uma pequena ‘cláusula’ ao nosso contrato, que não precisa estar impressa no papel — o encara em dúvida, do que ele está falando? — Esqueceu que eu vou te ajudar com o probleminha chamado Daniel e você vai virar minha guia turística pra ajudar nas fotos?

— Você não vai desistir mesmo, né? — Ela ri inconformada com a cara de pau do homem.

— Vamos lá, pela nossa nova paz estabelecida e pelo tempo que passamos juntos — Sua voz fica mais baixa e levemente aveludada — Eu te apresentei à minha cidade, Paris, agora é sua vez de me mostrar um pouco da sua Los Angeles.

A verdade é que está nervosa com os rumos que esses pequenos encontros poderiam tomar, mas sentir novamente as famosas borboletas no estômago é prazerosamente assustador. Ela não quer admitir, mas está amando voltar aos pequenos jogos de sedução que abandonou há tanto tempo.

— Você já conheceu Hollywood Boulevard¹, ?

— Não fui a lugar nenhum até hoje, apenas para a vizinhança do apartamento do meu amigo

— Sua sorte é que o dia hoje não está tão corrido. Depois do almoço você vai entender porque chamam Los Angeles de cidade das estrelas — Ela lança um sorriso sincero na direção do rapaz e confere o relógio — Podemos sair durante o almoço, por volta das 14h, vamos conhecer uma das avenidas mais abarrotadas de turistas e gente bizarra que você já viu.

— Devo agradecer meu subconsciente por me mandar trazer minha câmera?

Com certeza, ele deve.

¹ Avenida localizada no bairro de Hollywood, onde os visitantes podem encontrar diversos pontos turísticos

Parte II
Tarde – 9 de abril, 2021

— Então, essa é a tão conhecida Walk of Fame¹? diz, um pouco surpreso com o movimento constante de pessoas andando de um lado para o outro.

— A própria — coloca seus óculos escuros para proteger os olhos do sol quente. — Aqui você vai encontrar o nome de mais de 2600 homenageados numa calçada de 1,6 km de comprimento.

— Você se arrisca a dizer qual é a estrela mais disputada por uma foto? — monta sua câmera com rapidez e agilidade, trocando as lentes e se posicionando da melhor forma em busca da foto perfeita.

— Sem sombra de dúvidas são as dos Reis do Pop e do Rock — ri e aponta para um pequeno grupo que se formava na frente deles — Veja, eles montam uma fila e ficam de 15 a 20 minutos pra tirar foto do pedaço do chão.

— Ah vai, é um lugar único e é a chance deles de estarem próximos dos ídolos que não estão nem vivos — aponta a câmera para os mesmos e captura as expressões felizes de cada pessoa.

Passam em frente a uma pequena aglomeração que se forma em volta de um grupo de dança. Três artistas se movem em sincronia com a batida animada de algum Hip Hop dos anos 00’. A plateia começa a bater palmas ritmadas, enquanto eles se movem dando piruetas, cambalhotas e equilibrando o corpo nas mãos como uma forma de entreter o público animado.

Em um determinado momento, a música muda e se transforma em uma melodia conhecida, levando todos a se agitarem e gritarem entusiasmados. Os dançarinos vestem seus paletós, trocam os bonés por chapéus mais elegantes, no melhor estilo máfia italiana, e os acordes inconfundíveis de Smooth Criminal passam a embalar as ruas de Hollywood.

Muitas pessoas corajosas vão à frente e imitam as coreografias do clipe de Michael Jackson. e apenas riam um pouco mais afastados da aglomeração, quando, de repente, um dos dançarinos chega perto deles sorrateiramente e puxa a mulher pela mão para participar da grande roda.

— Não! Eu não danço — Ela tenta se esquivar do homem.

— Estamos em Hollywood, senhorita! Todos merecemos uma chance de brilhar na calçada mais famosa do mundo.

, me salva! — Ela sussurra para , que tenta inutilmente esconder o riso solto — Pare de rir, seu miserável! — Ela o repreende, porém também se pega sorrindo diante da cena cômica dela e de muitas outros fãs de Michael Jackson dançando sem ritmo algum.

— Boa sorte, , essas cenas vão ficar pra história…— Ele aponta a câmera para a que fica vermelha no mesmo momento e tenta esconder seu rosto a todo custo. Sem perceber, deixa escapar um sorriso apaixonado. É impossível não ficar encantado vendo a sua menina tão leve e feliz. Durante o tempo que ficaram afastados, ele ficou com a imagem clara, revelada em foto, de como era ver a felicidade no rosto de , mas nada se compara à realidade. O ao vivo é mil vezes mais radiante e deslumbrante.

— Ok, chega! Não vou continuar fazendo esse papel de palhaça — Ela respira com dificuldade após o esforço — Espero não ter nenhum registro disso na sua câmera, , senão eu invoco a Britney Spears de 2007 e quebro isso ai em pedacinhos.

— Vou proteger esse tesouro com toda a minha vida — Ele ri escondendo a câmera no casaco, arrancando uma gargalhada da . — Podemos agora visitar o Teatro Chinês?

— Impossível vir em LA e não tirar pelo menos uma foto no famoso TCL, sua sorte é que tudo aqui fica poucos passos de distância.

Alguns metros depois os dois chegam em frente ao grandioso TCL Chinese Theatre². A entrada monumental, com colunas vermelhas, holofotes brilhantes e detalhes orientais em dourado definitivamente tiram o fôlego de qualquer um.

— Aqui no pátio você vai ver as mãos e pegadas de muitos famosos — fala e aponta para os pedaços de concreto fixados no chão para atrair mais e mais turistas — O TCL já foi palco de três cerimônias do Oscar, além de ser famoso pelos lançamentos de filmes que foram sucesso de bilheteria ao redor do mundo.

— Será que a gente consegue entrar lá? — fala distraidamente, enquanto tira algumas fotos do lugar.

— Se quer uma boa dica: melhor do que visitar o teatro é assistir a um filme lá dentro — A mulher pisca um olho — Experiência completa e mais em conta. Pelo letreiro, hoje é dia de clássicos dos anos 80 e- — arregala os olhos em surpresa — , eu sei que tô te devendo um favor, mas eu imploro: vamos assistir a sessão das oito horas? Por favor? — Ela implora com um olhar de cachorro abandonado que era impossível dizer não.

— Tá. O que você quer ver então? — olha para os filmes em cartaz e solta uma risada ao ver o que estava marcado para aquele horário.

De Volta Para o Futuro. é fã da trilogia desde a infância, mesmo em Paris ela contou em segredo que perdeu as contas de quantas vezes assistiu as aventuras de Marty McFly e Doctor Brown, ao ponto de saber as exatas falas dos três filmes.

— Sua sorte é que eu sou tão legal, que vou até comprar os nossos ingressos — Ele lança um sorriso sedutor, no qual nem ao menos presta atenção, apenas lança seus braços ao redor do rapaz alto que fica sem reação por alguns segundos, mas logo envolve o corpo dela no calor do seu abraço.

Ali são apenas os dois, matando a saudade da presença um do outro. Poderiam se transportar para Paris há um ano e meio, quando não havia dor, tristeza, angústia e decepção.

Aos poucos toma consciência do que estão fazendo e se afasta com as bochechas coradas pela vergonha. Como ela pôde perder a cabeça tão facilmente? Por uma coisa tão simples?

Ok. Não é algo simples, envolve o melhor filme já lançado na história.

— É… eu v-vou…— Ela gagueja, desviando os olhos para longe e dando passos cada vez mais distantes — Vou comprar pipoca e refrigerante, você quer mais alguma coisa?

‘Eu quero você!’ quer gritar, mas apenas balança a cabeça em uma negativa e sorri fechado. ‘Calma , não se apresse’ ele pensa ao entrar na pequena fila para comprar os bilhetes.

A sala está incrivelmente vazia, apenas algumas pessoas curiosas, que se sentam distanciadas umas das outras. e buscam se sentar no meio da sala para terem a melhor visão da tela.

As luzes baixam e logo o filme se inicia. A fica vidrada em cada cena, ainda que seja, provavelmente, a centésima vez que assiste a obra prima de Steven Spielberg. , pelo contrário, tem toda a sua atenção concentrada na menina ao seu lado. Fascinado pelas suas caras e bocas, arrepiando-se a cada toque ou palavra sussurrada em que lhe conta alguma curiosidade das gravações.

Uma hora e 56 minutos depois, os dois caminham de volta para seus respectivos carros, que estão estacionados algumas ruas adiante.

— Todo mundo sabe como começa e termina o filme, mas eu não consigo evitar! Fico arrepiada até os últimos segundos — parece uma criança feliz após ver seu desenho favorito — Sabia que eu tive um golden e coloquei o nome de McFLY? Ele foi meu primeiro animal de estimação e eu não podia perder a oportunidade de dar esse nome! — Ela suspira feliz — Obrigada por hoje, , fazia um bom tempo que eu não dava uma folga a mim mesma e saía pra me distrair. Prometo recompensar o resto dos passeios, já que você perdeu seu tempo vendo esse filme antigo.

— Não existe forma melhor de eu aproveitar o meu tempo — sorri envergonhado — Mal posso esperar para o que você tem a me mostrar da cidade das estrelas.

aperta os lábios em uma linha fina para não deixar escapar o sorriso bobo que insiste em aparecer no seu rosto. Os dois se despedem em silêncio e voltam para suas casas com a sensação familiar e deliciosa de estar em uma boa companhia.

No sábado, dia seguinte, sugere que os dois visitem os estúdios da Universal ou Warner Bros, mas diz que tem um compromisso que tomará boa parte do seu dia, então pergunta se eles podem se encontrar apenas na parte da tarde para ter uma visão panorâmica de Los Angeles.

O rapaz aceita a proposta e diz que não tem problema algum. Para não ficar ainda mais à mercê de , avisa que vai aproveitar o dia livre para dar continuidade às fotos do projeto e também tentar entrar em algum dos muitos estúdios da região.

Caminhando pelas ruas ensolaradas e quentes da Califórnia, avista famílias locais ou visitantes muito sorridentes. Sua paixão pela arte, em especial a fotografia, é o registro instantâneo das emoções dos ‘modelos’. A forma como cada pessoa consegue transmitir as mesmas emoções, porém com o seu toque singular, fascina o artista.

Talvez uma das partes mais difíceis de toda a viagem seja avistar alguns olhares apaixonados que os casais trocavam. Não importa a idade, gênero ou tempo da relação, cada pessoa possui um olhar característico distinto de devoção, adoração e respeito pelo parceiro. E isso é o que mais sente falta de receber de .

Estar com sua menina é incrível, mas não poder tocá-la como desejava, beijar, abraçar e sussurrar todas as coisas que ele gostaria de fazer com ela o matava a cada instante. É um preço duro a ser pago.

O tempo corre, e não muito depois seu relógio bate às cinco da tarde. espera com o carro no ponto morto no local que havia falado. Um táxi se aproxima e ela logo desce parando a sua frente.

— Ok, estou certa de que a minha Los Angeles não chega nem perto da visão incrível de Paris — Ela sorri com a lembrança — Mas, eu quero que você veja perfeitamente como é o caos e a beleza da cidade.

— Vai me levar ao letreiro de Hollywood? — O homem dá a partida no carro. enquanto segue as coordenadas do GPS fixado no painel.

— Na verdade, existe um lugar muito melhor que conseguimos ver tudo, inclusive o letreiro Griffith Observatory³ — Ela diz com um ar satisfeito — Ali também é um planetário para os amantes das estrelas e do universo, mas hoje ele fecha mais cedo. Vale a pena visitar depois, se estiver com tempo.

— Você escolheu esse horário de propósito para ficar menos tempo comigo ou…— diz desconfiado. Ele sabe que hoje é a folga dela e que provavelmente têm mais tempo para se encontrar, mas ao entardecer é quase impossível visitar alguns pontos turísticos se você deseja comprar os bilhetes de última hora. Ou você agenda com antecedência, ou chega cedo para aproveitar o lugar.

— Apesar de tudo, , não fiz isso pra me livrar de você — Ela revira os olhos impaciente — Eu tenho o trabalho voluntário no abrigo e hoje foi dia de distribuição de doações — Ela o olha de canto — E existe certo charme na paisagem de Los Angeles, que torna tudo ainda melhor com o pôr do sol so fundo. Vai ajudar no seu tema.

O homem fica impressionado com as respostas incrivelmente rápidas e sem desculpas esfarrapadas que a lhe dá. Ele confia no que ela disse, afinal não teria porque mentir sobre tal situação.

Chegando ao topo da pequena colina, já é possível avistar a cúpula do observatório e o chafariz centralizado no caminho. O local está um tanto quanto abarrotado de visitantes em busca da foto perfeita.

— Aqui foi uma das locações de La La Land, né?

— Isso mesmo. Já era bem conhecido antes, mas depois de ganhar vários prêmios e da gafe na premiação, muita gente vem aqui pra recriar as cenas de Mia e Sebastian — dá de ombros — Mas não vamos ficar aqui junto com as pessoas. Claro que você pode tirar a foto na frente do observatório, mas quero te levar num lugar mais reservado — Seu tom é misterioso e brincalhão, como se estivesse contando um segredo do universo.

estaciona o carro e os dois caminham entre as pessoas. Não demora muito para a mulher escutar o barulho dos clicks e ver o homem apontando a lente não apenas para as pessoas, mas também para ela mesma.

— Ei! Você não ia tirar foto da paisagem? — Ela inclina a cabeça para a frente, criando uma cortina com seu cabelo volumoso para tentar esconder suas bochechas coradas.

— Encontrei algo mais bonito e interessante pra ter nas minhas fotos — A voz baixa e sedutora de envia arrepios por todo seu corpo. Ela fica completamente sem graça.

— É… v-vamos logo, pra não perder o pôr do sol — Ela aponta para um caminho mais distante das pessoas. A pequena trilha leva ao espaço reservado que dá uma visão completa da cidade.

A luz do sol desce no horizonte, pintando o céu de uma mistura linda de laranja, rosa e roxo. Esse tipo de visão nunca seria possível de ocorrer em Paris. Certas situações precisam ser apreciadas de outros lugares para podermos entender o verdadeiro valor do momento.

— Nossa, aqui é-

— Lindo! — corta a fala de , mas completa o final da frase. Seus olhos brilham intensamente ao observar, aos poucos, a escuridão tomando conta de Los Angeles e as luzes das casas começando a pintar as ruas e avenidas.

Por mais que tente focar em tirar fotos do lugar, seus olhos estão colados na figura hipnotizada de ao seu lado. fecha os olhos e inspira profundamente, levanta seus braços no ar e aproveita a brisa fresca em seu corpo e rosto, bagunçando seus fios soltos ao redor de si.

Naquele momento, percebe que não há mais volta, ele está perdidamente apaixonado por cada detalhe da menina de cabelos , olhar firme e sorriso doce. Sente vontade de viver intensamente aquele momento só deles.

Tomado pela emoção, deixa sua câmera de lado e puxa pelo braço para uma dança sem música, apenas os dois se balançando conforme o próprio ritmo. É como se existisse uma força gravitacional muito forte que puxa ambos corpos para nunca se separarem. Ela descansa a cabeça no peito do rapaz e sorri quando reconhece que ele sussurra a letra de uma música da sua banda favorita.

So wouldn’t you like to come with me?
(Então, você não gostaria de vir comigo?)

Go surfing the sun as it starts to rise
(Surfar o sol enquanto ele começa a nascer)

Woah your gravity’s make me dizzy
(Woah, sua gravidade está me deixando tonto)

Ela abre os olhos e encara o rosto de cada vez mais próximo ao seu. As respirações ficam descompassadas, o ar parece rarefeito e ambos acabam sorrindo. A tensão do momento faz a boca secar, os olhos pesarem e a pele se arrepiar com o mínimo dos toques.

Mas tudo dura poucos segundos. A mente sempre alerta de pisca em um claro sinal de perigo. Surpresa ela se afasta, respirando ofegante e tremendo por quase deixar que o menino de olhos destrua os muros que ela tanto demorou para construir.

, por favor, não faça isso — A voz embarga — Ainda é muito difícil pra mim. Eu não quero, não mais.

Ele respira profundamente, e assente em silêncio. Por pouco, ele teria o gosto dela em seus lábios novamente. Por muito pouco, ele iria sentir com mais firmeza as curvas do corpo feminino se moldando ao seu. Mas como a própria havia dito, é preciso de calma e paciência quando o assunto é .

— Me desculpe, eu acabei me excedendo — A voz rouca entrega que ele a deseja ardentemente — Acho melhor voltarmos, para não pegar as ruas muito escuras e vazias.

sente a inconveniente e confortável distância entre eles aumentar. O melhor a se fazer é deixar as regras de convivência bem claras. Nada de ultrapassar barreiras, eles são apenas colegas saindo por uma causa profissional.

Mas então, por que ela sente seu coração doer ao ver o semblante triste tomar conta do rosto dele?

¹ Hollywood Walk of Fame: é constituída por mais de 2.000 lajes com estrelas, fazendo menção a celebridades honradas pela Câmara do Comércio de Hollywood pelas suas contribuições para a indústria do entretenimento.
² O TLC Chinese Theater Imax: é um cinema localizado na Hollywood Boulevard. Ao longo de sua fachada situa-se a histórica “Forecourt of the Stars”
³ Griffith Observatory: localizado no Parque Griffith e é uma atração turística que explora o espaço. O observatório têm o total de 12.200 metros quadrados, território esse que foi doado pelo coronel Griffith em 16 de dezembro de 1896.


10 de abril, 2021
— Ele dançou com você sob o pôr do sol, e você ainda me pergunta porque eu te chamo de burra? — Joana diz, enquanto arruma a mesa do restaurante, antes que os clientes ocupem os lugares.

— Não é assim tão fácil, Jo — suspira e refaz o nó do seu avental de chef de cozinha — Eu e temos uma história muito complicada e-

— E ele te magoou, você esperou que ele fosse atrás de você, mas ele preferiu sumir e desde então tem problema pra confiar nos homens — Joana interrompe sua amiga e revira os olhos — Já sei disso. Mas ainda assim, eu acho que ele merece uma segunda chance. , abra o seu coração! Não é qualquer pessoa que cruza um continente pra reconquistar uma pessoa que ama!

— Ele é muito cabeça dura! Um idiota que não dá o braço a torcer e que usa aquele charme imbecil pra ter o que quer a qualquer custo!

— Você ainda está falando dele ou acabou de se descrever?

— Eu deveria te demitir só por fazer esse tipo de piada, sua ingrata — acerta com o guardanapo o rosto da amiga, que ri da própria piada.

— É sério, amiga. Você e são muito parecidos, desde as coisas ruins, como a ironia e a teimosia — espera que eu ainda não terminei de falar — Ela levanta o dedo quando percebe que a está prestes a interromper — Até as coisas boas! Os dois pensam muito no bem das pessoas, estão dispostos a ajudar quem precisa, além de serem intensos e apaixonados pelo que amam.

— Eu sei que somos iguais. E é por isso que não deu certo antes e não vai dar certo agora — Ela dá de ombros — Eu agradeço a ele por me apresentar à minha versão de hoje, de me fazer correr atrás dos meus sonhos e também por me decepcionar ao ponto de perceber que estou melhor sozinha e não preciso de mais ninguém.

— Será que está mesmo, ? — Joana a encara carinhosa e percebe a leve confusão em seu rosto — Sei que você lida bem com as coisas sem precisar de alguém ao seu lado, mas lá no fundo você quer dividir esses momentos com uma pessoa especial. Talvez essa pessoa seja o homem charmoso que está buscando se redimir, e eu tenho certeza de que se você perdê-lo agora, nunca mais vai se perdoar.

A respira fundo e toma as palavras de Joana para refletir. Claro que ela está receosa de permitir que volte para a sua vida, ele foi o primeiro para quem ela abriu seus sonhos mais profundos. É difícil assimilar a ideia de tê-lo novamente, por mais que todo o seu corpo implorasse pelos abraços e beijos trocados há tanto tempo.

Do outro lado da cidade, está dedilhando uma música no violão, ainda muito absorto em seus pensamentos e completamente frustrado com a sua vida. Ele nunca quis dizer tais coisas para sua menina naquele natal. É difícil de esquecer todos os erros, mas ele só precisa de uma oportunidade para mostrar que estava arrependido verdadeiramente.

Ele sabe por que o deixou, ela teve suas razões. Mas também é nítido que agora, aqui em Los Angeles, ele está invadindo novamente os seus segredos, ficando perigosamente perto do coração da , mas ela apenas o afastava quando ele desejava entrar. O que ele está prestes a descobrir após um ano e meio de distância? Quais as dores que ela teve e sofreu sozinha, sem a família, sem ele por perto? Acho que ele nunca saberá.

Larga o instrumento de lado e pega sua câmera para analisar as fotos feitas nos dois dias em que estiveram juntos. São tão verdadeiras e espontâneas que chegam a arrancar o sorriso de qualquer um que observe por muito tempo.

Distraído, vendo cada imagem registrada, não repara quando o celular vibra e dá o sinal de que uma mensagem havia chegado. Mesmo sem vontade, olha o aparelho e vê a notificação de saltar com um convite.

~ De:

Amanhã podemos continuar os passeios, o que acha de visitar o LACMA¹?

está cansado de tudo e acaba não respondendo de imediato. Poderia pensar por um tempo e fazer certo suspense, mas ele sabia que no final do dia estará correndo na direção que o levará direto para .

●●●
passa a tagarelar, enquanto caminham pelas ruas, como uma forma de preencher o vazio que se instalou entre os dois. É estranho estar na companhia dele e não receber nem mesmo uma resposta curta, uma cantada de última hora, um sorriso simples. Hoje está incrivelmente quieto e não parece disposto a trocar nenhuma palavra com ela.

E isso a incomoda profundamente. Ela não está acostumada com o seu silêncio, é perturbador demais. Não é comum nele.

— Sabe, tem uma pequena exposição em frente ao museu, que fica mais bonita à noite, quer dar uma olhada?

— Mas isso vai me ajudar de alguma forma com o projeto das fotos? — O tom de voz masculino ainda é distante e vazio. Ele parece ter perdido a esperança.

— Na verdade, essa foi a minha desculpa pra falar com você. Esquecer um pouco essa histórias das fotos, vamos conversar só nós dois. Acho que precisamos disso no fim das contas — Ela suspira cansada e o encara, na expectativa.

é pego de surpresa. Não esperava que ela fosse pedir por isso já que procurava deixar sempre bem claro que os encontros eram profissionais. Ele assente e os dois caminham para a frente do LACMA, um pouco mais afastados de todos, sentando em um banco na praça central. Os dois permanecem em silêncio por alguns minutos, encarando os carros se movendo na rua. não sabe por onde começar, o assunto é antigo e traz diversas emoções, porém não há mais para onde fugir. Agora que começa precisa terminar.

— Você anda mais distante que o normal, e eu não posso te culpar, depois que fugi no dia do observatório — Ela suspira — Mas, , é complicado demais. Eu não sou mais a pessoa que você conheceu em Paris. Lá eu estava vulnerável, depois de um término conturbado. Agora eu finalmente consegui me encontrar!

— Eu sei disso, , desde que te encontrei pude perceber que você mudou para melhor e fico feliz por você, de verdade.

— Sabe, minha mãe sempre me avisou que eu preencho o meu vazio com relacionamentos. Acho que esse é o maior tempo que passei sem ninguém ao meu lado — Ela dá de ombros — Sempre vivi em função dos outros, dos meus namorados, meus amigos, da minha família, mas agora sou apenas eu e é confortável não precisar contar com ninguém — ela sente o bolo se formar na garganta e sua voz embarga — M-mas depois que você voltou e eu sinto que nos distanciamos é como se-

— Faltasse uma parte sua — completa e assente — Eu fiquei com medo de ir rápido demais e ter o efeito oposto, que seria você se afastar cada vez mais de mim e é isso que tá acontecendo! — Ele segura o rosto da para que ela o encare nos olhos — Me dói estar aqui e ver que você ainda tem receio de mim, com medo do que eu posso te causar. Sinceramente, se for pra ser assim, prefiro desistir desses encontros e só conviver quando for necessário.

Ela sente seu peito apertar e a respiração travar. Não é isso que ela deseja, longe disso.

— Mas eu quero você, — Ela sussurra e o coração de dispara, enlouquecido — Só quero que você… não desista. Podemos ir devagar e ver aonde isso chega. Me ensina a confiar em você novamente, por favor.

O homem parece estar vivendo um sonho distante. Não imagina que o momento finalmente havia chego e não evita sorrir carinhosamente para sua menina. Segura sua mão com delicadeza e planta um leve beijo no dorso da mesma.

— Vai ser a melhor e mais prazerosa aula que eu poderia te dar, pode ter certeza.

deixa escapar uma lágrima, mas rapidamente a seca e sorri satisfeita. Não há motivo para choro, muito menos para tristeza. Ela finalmente está disposta a seguir em frente, deixar as mágoas do passado para trás e dar uma segunda chance. Seus olhos se prendem na câmera, que estava apoiada na bolsa do rapaz, e logo a pega em suas mãos, mexendo nos botões que há muito tempo ele já havia lhe ensinado como manusear.

— Que tal fazer uma troca por algumas horas? — Ela ergue as sobrancelhas — Eu finjo que não vejo, mas reparo você tirando fotos minhas nesse tempo em que estamos andando juntos e nem tente negar! — Agora o encara de maneira desafiadora — Hoje, até o final do dia, a sua câmera fica comigo, e você vai ser meu modelo. Afinal, não pode vir para Los Angeles e só ter fotos de uma menina sem graça que não cala a boca por um segundo — ri divertida e acompanha a melodia suave que era sua risada.

— Então, minha cara artista, o que eu devo fazer pra você começar seu trabalho?

Os dois passam a caminhar na frente do Los Angeles County Museum of Arts e posar para diversas fotos, que serviram para render muitas gargalhadas no fim do dia. faz caretas e tenta imitar as expressões mais sérias que as modelos famosas faziam nas capas de revista, o que deixa a barriga de doendo de tanto rir.

Com o passar dos minutos, as luzes da Urban Lights vão se acendendo e chamam a atenção dos turistas, que não perdem a oportunidade de tirar uma foto na cidade das estrelas.

— Nunca entendi o que tem de tão interessante nesses postes. Vocês americanos são loucos — fala sarcástico.

— Ei! Isso é arte urbana e conceitual! São os postes de Los Angeles dos anos 20 e 30 recuperados pra formar a exposição — diz ultrajada pela falta de sensibilidade artística. Ela havia esquecido como ele não perdia a oportunidade de implicar com a sua nacionalidade.

— Eu vim do país dos museus pra chegar aqui e ver… isso — tira sarro da situação e acaba recebendo um tapa no ombro como resposta. — Eu tô brincando, , tenha mais senso de humor.

— Você é a pessoa mais alternativa que eu conheço, , o verdadeiro hipster aponta a câmera para o rosto do menino que sorri como resposta — Faça um favor a si mesmo e a mim, vá ali no meio dos postes, que eu tenho a visão perfeita de como vai ficar a sua foto.

caminha lentamente até o local que a mulher indica. Faz diversas palhaçadas se escondendo entre os postes, fazendo a clássica pose de ‘Dançando na Chuva’ e lançando sorrisos maliciosos na direção da sua fotógrafa. Por fim, atende ao pedido da e apoia o corpo de um lado, os pés no outro e sorri em direção ao céu, dando a a foto que tanto quer.

Depois de muitos risos, decidem ir até uma pequena feira de food trucks estacionada no parque mais à frente. está tão aéreo que nem percebe seu movimento automático de abraçar os ombros da menina com um dos braços. por sua vez não resiste e entrelaça uma das mãos na dele, como se fossem um perfeito casal, curtindo um dia romântico da primavera.

Aos poucos, tudo se encaixa e volta à normalidade, do jeito que deveria ter sido desde dezembro de 2019.

¹ Los Angeles County Museum (LACMA): É o maior museu do oeste dos Estados Unidos. Seu acervo possui seções da arqueologia assíria, egípcia, grega e romana, obras da Europa e uma das maiores coleções de arte latino-americana.

~ POV

17 de abril, 2021
A previsão do tempo é algo fascinante e intrigante de se acompanhar. É também irritante e imprevisível, principalmente quando dependemos dela para fazer nossos planos da semana. Eu e nos encontramos praticamente todos os dias, planejando qual seria o dia ideal para visitar a praia. Queríamos sol e calor, para pelo menos conseguirmos entrar no mar. De acordo com o meteorologista, isso era exatamente o que iríamos receber nesta minha folga de sábado.

Mas basta eu abrir os olhos e encarar a minha janela que percebo, com pesar, a nuvem encobrindo toda a minha promessa de céu azul. Maldito dia nublado e cinzento. Ligo para e digo que poderíamos esperar pelo próximo dia ensolarado, mas ele fala que não há problema em ter algumas nuvens, já que ele já está familiarizado com elas, por causa de Paris, e que não quer perder um dia sem me ver.

Você deve pensar que eu já me acostumei com as tiradas do , estando constantemente com a sua presença ao meu redor, mas é impossível não corar e sorrir feito uma apaixonada quando ele solta suas cantadas baratas. A sorte é que ninguém me observa e eu posso admitir em segredo que amo seu jeito bobo.

Agora nós dois estamos a caminho da tão famosa praia de Santa Monica. está incrivelmente lindo com sua calça escura e camiseta branca, eu escolhi vir de short jeans e uma blusa amarela sem mangas. Viemos no carro do seu amigo, então o trajeto de 30 minutos até a praia é embalado por muita conversa e cantorias, desafinadas pela minha parte e perfeitamente harmoniosas com sua voz de anjo.

A estrada está vazia, viajamos com as janelas do carro abertas e me permito brincar com o vento, desenhando ondas, conforme o carro alcança velocidade. As rajadas do lado de fora rapidamente perdem meu interesse e uma ideia me vem na cabeça. Um hábito que eu sempre gostei foi de observar seu rosto concentrado enquanto ele dirige. Sua expressão séria, o olhar relaxado e as mãos que apertam o volante com mais força, fazendo suas veias saltarem dos seus braços, deixam-me hipnotizada. Coloco os óculos escuros para disfarçar a minha intenção, mas pelo canto do olho, vejo que seu rosto vira de tempos em tempos para encarar o meu perfil com um leve sorriso nos lábios.

— Posso saber o que você faz com os olhos em mim ao invés da estrada, ?

— Eu estou aqui pensando sozinho e quero que saiba, , que te dou a plena certeza de que você é a garota mais linda que eu tive o prazer de conhecer. Que sorte a minha poder ter você ao meu lado.

— Não jogue essa cantada pra cima de mim, , não sou fácil como suas conquistas — Digo brincalhona, ainda que meu coração bata a mil por hora.

— Não é cantada, , é a mais pura verdade — Pisca o olho na minha direção — Você é deslumbrante em todos os sentidos — Sinto sua mão buscar pela minha e deixo nossos dedos brincarem um com o outro por todo o caminho.

O tempo fechado espanta os visitantes, então é fácil encontrar uma vaga próxima à orla. Apesar das nuvens, o clima é quente e um tanto quanto abafado. Tiramos os nossos sapatos, antes de seguirmos nosso caminho pela areia, aproveitando ainda mais o momento. Sentindo os pequenos grãos entre os nossos dedos dos pés e a água morna do mar encharcar nossos tornozelos, andamos lado a lado com nossas mãos conectadas. Não há outro lugar em que eu gostaria de estar, senão na sua companhia.

— O que você fez quando eu fui embora?

— Fiquei num processo maluco de negação, rejeição, dor e aceitação — diz de forma suave — Neguei que tudo aquilo que vivemos foi realmente tão intenso e importante pra mim. Rejeitei a ideia de ter estragado tudo e tentei te culpar. Senti a dor forte no peito por ver como fui um idiota e aceitei que tinha te perdido — Ele dá de ombros — Foi um ano de merda, nunca fui dependente de uma pessoa como eu sou seu. Eu perdi o rumo de tudo e tentei ao máximo te esquecer da forma que fosse possível, com quem quer que aparecesse.

— Deve ter tido muitos encontros, então…— Tento não soar tão desesperada quanto eu realmente estou. É óbvio que ele não me esperou, eu mesma não esperei por ele de fato. Mas a curiosidade de saber quem passou por sua cama acaba falando mais alto.

— Tive alguns, mas todas elas tinham pontos em comum com você — Ele olha para o horizonte — Ou elas tinham a exata cor dos seus cabelos, o sorriso malicioso, o olhar quase inocente…— Ele cutuca a minha cintura e acabo rindo por conta das cócegas — Porém por mais parecidas que elas fossem, elas não são o conjunto completo da obra. Não possuem a sua essência. Então era só o efeito do álcool passar e eu voltava ao meu estado miserável e triste. Ninguém estava completamente disposto a me consertar ou a curar as minhas dores do passado.

— Enquanto você me buscava em outras, eu procurei qualquer um que não chegasse perto de lembrar você — Admito pela primeira vez na minha vida — Qualquer um com olhos , alto e humor sarcástico que aparecesse, eu estava pulando fora. Já bastava a minha mente me traindo várias vezes, fazendo-me sonhar com você por muito tempo.

para no caminho e pega uma concha perdida em meio à areia.

— Sabe de uma coisa? O mar sempre vai me lembrar você no fim das contas — Ele brinca com o pequeno objeto nas mãos, é colorido com listras laranjas e arroxeadas — Um oceano separa nossos continentes, sua cidade é cheia de praias famosas — Ele lança a concha de volta ao seu lugar de origem — Você é como o mar: calmo e tranquilizante em uns dias, tempestuoso e agitado nos outros.

— Você é como a lua pra mim — solto sem pensar — Sempre presente nas noites mais sombrias. Tem suas fases mais distantes, tem seus momentos mais brilhantes, que iluminam tudo ao seu redor — Engulo seco — Todo esse tempo que passamos juntos até agora, eu podia tentar negar antes, mas eu sei que você faz a diferença. Há meses eu não saio e visito alguns dos meus lugares favoritos na cidade. Podemos ter começado esses encontros por causa do nosso acordo, mas já não faz mais sentido fingir que estou aqui por obrigação.

— Fico feliz em saber disso — me observa e seus olhos vão direto ao meu colo. Suas mãos pegam a pequena corrente que descansava no meu pescoço e brinca com o pingente nos dedos — Você ainda tem a Torre Eiffel que eu te dei.

— É o pedacinho da França que vou sempre carregar comigo, lembra? Não importa a distância, você sempre vai estar perto de mim — Sorrio com o significado daquele presente, mas ao sentir sua aproximação e notar o semblante tenso e sério no seu rosto, meus sentidos somem por completo.

— Você não imagina o esforço que estou fazendo pra não te beijar aqui e agora — A voz rouca e sensual sussurra no meu ouvido e preciso me controlar para não agarrar seu cabelo e grudar nossos lábios.

— Por que não faz, então? — Falo em um suspiro baixo e noto todos os seus pelos se arrepiarem com o sopro da minha respiração.

me olha com um misto de carinho e ansiedade, umedece os lábios e se aproxima devagar. Meu coração passa a bater freneticamente e fecho os olhos como uma alternativa de tentar me acalmar e não deixar o nervosismo estragar tudo. Os segundos passam lentamente e eu espero pelo próximo passo. Não muito depois sinto seus lábios serem pressionados na minha testa, apoiando sua cabeça na minha logo em seguida.

— Nosso reencontro merece algo mais emocionante — Ele envolve seus braços ao meu redor, trazendo-me mais para perto do seu calor — Já que vamos começar de novo, quero que saia tudo perfeito.

— Um verdadeiro clichê romântico de cinema?

— Quer algo mais clichê do que começar um romance em Paris? — Sinto seu peito vibrar com uma risada e afundo meu nariz no seu peito para sentir seu perfume refrescante.

— Já esperamos tanto tempo, precisa mesmo ficar mais emocionante que isso?

— Cada segundo perdido vai valer a pena — Sinto-o me puxar novamente — Agora, eu quero saber se você tem medo de altura, — Aponta para frente, indicando o Pacific Park¹ — Ou eu vou ter que fazer pose de durão e proteger a donzela medrosa?

— Você que ama desvendar meus segredos, , anota aí mais um: eu simplesmente AMO montanhas russas — Corro em direção à calçada e não tardamos em calçar nossos sapatos para aproveitar o dia, como as verdadeiras crianças que nós somos.

¹ Parque de diversões à beira-mar localizado no píer de Santa Monica, Califórnia

~ Narrador

23 de abril, 2021
A imagem que encara no espelho é uma lembrança constante do seu passado, que ela gostaria de esquecer. Maquiagem um pouco mais pesada que o normal, cabelo preso em um coque elegante, saltos incrivelmente altos, vestido branco fino e leve. Tudo de marca e uma enorme quantidade de dinheiro gasta, que poderia ser usado para outras finalidades.

Essa era a que conheceu Daniel. A namorada perfeita que exibia suas roupas caras em cada encontro da high society californiana.

Um suspiro nervoso escapa dos lábios e ela alisa o tecido perfeitamente passado, um claro sinal de nervosismo. Há muito tempo não frequenta os mesmo lugares que seus antigos ‘amigos’, entretanto não sente falta deles nem por um segundo. Quando as traições de seu ex vieram à tona, nenhum daqueles, que diziam ser confiáveis, deram as caras, apenas reforçaram os sussurros pelos cantos e riram pelas suas costas.

Voltar àquele ambiente, que pensou ser o certo para a sua vida, agora lhe dá náuseas. A falsidade das pessoas sempre lhe surpreendeu, mas como nunca foi alvo das fofocas maldosas, não tinha imaginado que seria tão difícil.

fecha os olhos e, em uma oração silenciosa, pede a Deus que consiga sair daquele local inteira, sem derramar uma lágrima. Nenhum deles, muito menos Daniel e Sophia, merecem ver de perto o desconforto de estar ali.

Não muito depois a campainha toca. corre para pegar sua bolsa e abre a porta para encontrar seu acompanhante. está impecável com uma calça social preta e blusa de botões dobrada até os cotovelos. Seu cabelo está propositalmente bagunçado, deixando afastado os fios do seu belo rosto. A mulher precisa segurar o impulso de se jogar nos braços dele e implorar para que abandonem aquele jantar ridículo, assim ele estaria livre para fazer o que quisesse com seu corpo ali e agora.

— Uau, você está…— ri e sente as bochechas esquentarem — Fica difícil de achar uma palavra boa o suficiente pra te descrever — Ele pega uma das mãos da e beija suavemente — Você é a mulher mais deslumbrante de toda Los Angeles, senhorita — O sorriso charmoso e o olhar sobre os cílios longos fazem respirar com certa dificuldade — Fico me perguntando se estou ao seu nível para te acompanhar na noite de hoje.

— Não existe melhor companhia do que você, — Ela se aproxima e o abraça pelo pescoço — Melhor irmos para não nos atrasarmos ainda mais.

é um perfeito cavalheiro do começo ao fim do trajeto no carro. Ele percebe que a está nervosa para seu ‘retorno’ e trata de fazer brincadeiras e palhaçadas para aliviar a tensão, arrancando gargalhadas que chegam a doer a barriga. seria eternamente grata por esses pequenos detalhes que ele nota e a fazem se sentir mais à vontade na sua presença.

O trajeto até o condomínio luxuoso é rápido. Em menos de 15 minutos, passa pelas ruas com mansões extravagantes, cada uma maior que a outra, e por incrível que pareça, a de Daniel é a mais requintada e sofisticada do espaço.

Ele então engole a seco. Aquela já tinha sido a realidade da mulher sentada ao seu lado. Em um universo paralelo distante, talvez esse teria sido um jantar organizado pela própria , que estaria nesse momento ao lado de Daniel, exibindo um sorriso esnobe e carregando uma pedra de diamante gigante no dedo anelar. Essa nunca iria reparar em , o artista fracassado. Desdenharia dele e da sua música. Para quê olhar para ele, um cara tão simples, se estaria vivendo um romance perfeito com o príncipe encantado, que poderia dar a ela tudo o que ela quisesse?

Enquanto sua mente trai sua confiança e desenha diversas situações que poderiam ter acontecido, ele sente o conforto da mão de segurando a sua e sorri. Nada disso é possível, porque no final das contas, aquela imagem borrada dela, não condiz com a realidade. A sua está ali ao seu lado.

entrega as chaves na mão do manobrista e caminha com uma mão apoiada na cintura da sua menina. Os dois têm a postura ereta e dura, como se qualquer passo em falso pudesse destinar ambos ao fracasso.

— Sou só eu ou as pessoas estão nos encarando fixamente? — Ele sussurra ao pé do ouvido de , que ri nervosa pela situação.

— Acho que ainda podemos correr para o lado de fora e voltar pra casa antes que alguém venha falar conosco — Ela responde baixo.

— Me sinto como um animal no zoológico — desabotoa mais um pouco sua camisa, deixando seu peitoral à mostra — Como esses homens não se sentem sufocados com essas blusas apertadas? — Mexe no colarinho desconfortavelmente.

— Vamos ficar juntos o tempo todo, e logo logo esse pesadelo termina — Ela aperta sua mão com mais força — Agora devemos fazer igual aos pinguins de Madagascar, sorrir e acenar como se não houvesse nada de errado — Ela congela um sorriso robótico no rosto e acaba rindo — Ah não, Kourtney está vindo em nossa direção — avisa e rouba duas taças de champanhe da bandeja do garçom para entregar a .

— E quem é ela?

— Foi uma amiga minha — Ela bebe um longo gole da bebida espumante — A mesma amiga que fez o favor de atualizar às pessoas de que Daniel me meteu um par de chifres.

— Ah…

— Querida, ! Há eras não te vejo, como você está? — Uma loira extravagante, com o rosto repuxado de botox se aproxima e abraça a como se ainda tivesse intimidade.

— Estou melhor do que nunca, Kourtney — O sorriso amargo e sem graça toma seu rosto.

— Quando Sophia me contou que você viria, não consegui acreditar! Não sabe o quanto senti sua falta, as coisas ficaram muito paradas desde que você se afastou — A voz irritante e anasalada não para de tagarelar — Soube que está se envolvendo com projetos sociais, isso é ótimo para os negócios! Já falei com Stuart que a moda agora é o politicamente correto e medidas socioambientais para a empresa ser bem vista pelas pessoas, mais uma forma de ganhar mais dinheiro e-

— Na verdade, eu sou apenas voluntária no projeto para pessoas desabrigadas em Los Angeles — corta a fala de Kourtney — Faço doações e meto a mão na massa, mas prefiro manter o anonimato.

— Querida, mas isso seria um conteúdo valioso para o seu marketing! Como não vai divulgar para a mídia? — A loira diz surpresa, parece que naquele lugar tudo o que realmente importa é dinheiro e sucesso.

— Existe uma causa maior por trás disso — dá um sorriso suave em direção à sua não tão amiga. — Além de ser um desejo antigo que nunca pude realizar.

— Não seja tola, , ninguém vive de boas ações, não no nosso meio — Depois de mais algumas falas infelizes da mulher, não pode evitar de revirar os olhos enquanto leva a taça até sua boca. Infelizmente o movimento não passa despercebido pela rica esnobe, que gruda os olhos azuis na figura ao lado de — Veja só, você não perdeu tempo em arranjar alguém — um sorriso malicioso brota nos lábios dela — E qual é o seu nome?

— Ele oferece um sorriso fechado e desvia os olhos para longe. Seria mais fácil conviver com essas pessoas se elas simplesmente ignorassem a sua existência. — Estou acompanhando a hoje.

— Ah, então vocês não estão juntos de fato…— Ela alisa o braço do homem e levanta as sobrancelhas, que mulher atirada!

— E como está seu marido, o Stuart? — A pega nas mãos de e o traz mais para perto, marcando seu território. Kourtney é conhecida por pular a cerca do seu casamento com homens mais jovens, mas não vai o seu homem que ela vai levar para a cama.

— Ele está muito bem, viajando como sempre — E mais uma vez não para de falar sobre assuntos desinteressantes e fúteis.

gosta de ver como tem o sentimento de posse sobre ele, por mais que os dois ainda não estivessem juntos oficialmente. É bom sentir que no meio de toda aquela cilada em que haviam se metido, permanecem em sintonia.

Kourtney não dá trégua ou uma brecha para que o casal consiga se afastar, então inventa uma desculpa qualquer para ir até o bar buscar uma bebida. Antes de sair, recebe um olhar assassino da , que sibila um ‘Não me deixe aqui sozinha’ e pragueja silenciosamente quando apenas move os lábios sussurrando um ‘Desculpe!’, fugindo o mais rápido possível.

Encostado no balcão, segura um drink exótico que o barman havia indicado. Fire Breathing Dragon, uma mistura de rum, frutas vermelhas e xarope picante tailandês. O gosto adocicado e levemente picante traz uma sensação boa na língua, aguçando suas papilas gustativas. Apenas com uma bebida para aguentar estar num ambiente como aquele.

A casa por dentro é ainda mais encantadora e sofisticada, se é que isso é possível. O que parece ser a sala de estar, está livre de móveis, para que as pessoas possam circular à vontade, enquanto a área externa é coberta por flores brancas e luzes suspensas para criar um clima romântico, onde os casais dançavam ao lado da banda ao vivo.

Mas isso não é uma simples reunião entre amigos? Os encontros de consistiam em alguns petiscos, vinho e assistir filmes na Netflix, sentados no chão da sua sala.

— Vocês realmente tiveram coragem de aparecer aqui — Daniel surge ao seu lado e o pega de surpresa — Pensei que aquele dia na rua tivesse sido humilhante o suficiente para a pobre .

— O que você considera humilhação, eu vejo como coragem — responde prontamente. — não tem o que temer aqui, na verdade, isso tudo só mostra que ela está indo pelo caminho certo.

— E você acha que é a solução de tudo pra ela? — O anfitrião desdenha — Você não passa de uma distração passageira, uma aventura. Essa foi a vida dela por anos, e ela amou cada segundo. Podemos não estar juntos agora, mas eu a conheço bem o suficiente pra saber que essa fase, assim como você, vai passar.”

respira fundo e sente o impacto das duras palavras. Ele atingiu em cheio seu ponto fraco. Ele sempre temeu não ser bom o bastante para .

— E como você tem tanta certeza de que eu não consigo dar tudo o que ela precisa?

— A preza pela segurança acima de tudo, e isso é a única coisa que você não pode dar — Daniel ri convencido — Você foi a diversão que ela precisava ter na vida. Um bonito, engraçadinho, charmoso que sabe falar a língua do amor, foi tudo o que ela precisou pra perceber que a vida dela é essa aqui — Daniel bate a taça na de — Aceite os fatos, mulheres como não ficam com caras como você.

— Talvez você não a conheça tão bem quanto pensa — Ele diz, entretanto soa incerto e abalado.

— Será mesmo? — O tom de desafio é evidente — Se pergunte novamente, quem passou quatro anos convivendo diariamente com ela? Dividindo a mesma cama?

O clima pesado parece se instaurar entre eles, mas não dura muito, já que a presença alegre de surge após breves segundos.

— Ah, achei você, ! — Ela chega com um sorriso brilhante — Consegui escapar de Kourtney só agora, ela parece não saber a hora de ficar quieta” ri de leve — E você já encontrou o Daniel…— Desgosto e decepção são as palavras perfeitas para descrever a expressão da no momento que encara seu ex-noivo.

— Você poderia fingir alguma educação, , e pelo menos me desejar uma boa noite — Ele diz presunçoso.

— Boa noite, Daniel, bela festa. Agora, pode me dar licença para que eu possa curtir a presença do meu acompanhante? — Ela levanta uma das sobrancelhas, mas não espera por uma resposta, apenas puxa pelo braço em direção à pista de dança.

— Obrigado por me salvar, aquele idiota estava me dando nos nervos! Era capaz de eu sair daqui algemado por dar um soco nele.

— Bom, algum de nós precisava salvar o outro, já que você me abandonou com a Kourtney — soca o braço de leve e faz uma cara brava.

— Me perdoa! Acabei sendo sequestrado pelo seu tão adorável ex.

— Infelizmente os erros do passado continuam me rondando — Ela faz uma cara teatral — Mas eu quero viver o agora, e só com você”

Ela envolve os braços ao redor do pescoço masculino, enquanto ele apoia as mãos em sua cintura de forma protetora. Uma balada lenta é tocada pela banda e os dois se balançam conforme a melodia delicada soa. Não há outro casal que arrisque alguns passos na pista, apenas os dois, e isso faz com que se aventure com alguns passos um pouco desajeitados para tentar impressionar sua menina, enquanto ela apenas ri. rodopia e seu vestido esvoaçante gira ao seu redor. Tudo está perfeito e nada poderia estragar o momento.

A não ser um casal desagradável.

— Senhoras e senhores, peço um minuto da atenção de vocês — A música termina de imediato, para que Daniel e Sophia subam no palco — Quero primeiramente agradecer à presença de cada um aqui, sei que todos estão muito ocupados, mas é bom separar um tempo para celebrar a vida, e hoje em especial, a vida da minha noiva — Os convidados dão uma salva de palmas para o casal, enquanto e apenas trocam olhares cúmplices e evitam rir no momento errado.

— Vemos muitos rostos conhecidos e que nos acompanharam ao longo dos anos — Sophia acena para alguém dentro da casa, porém seu olhar maldoso logo encara a figura de — Mas também recebemos alguns sumidos, não é mesmo, ?

— E ela não veio só, seu acompanhante é . Ele é um fotógrafo….— Daniel torce o nariz em desgosto — Mas nas suas horas vagas, que devem ser muitas, também é músico. E hoje vai prestar uma homenagem para nós. Por que não sobe aqui e nos mostra seu talento? — Um sorriso cruel surge em seu rosto e fica sem reação. Não havia combinado coisa alguma com ele.

— Você não precisa ir, ele só está te provocando — sussurra em seu ouvido.

— Não tem problema, amour — ele beija seu rosto e sorri de leve. — O palco é a minha segunda casa, lembra?

Em silêncio, sobe no palco e se posiciona atrás do teclado. Seus colegas de profissão ajustam a altura do microfone e desejam boa sorte. começa a pensar em qual música poderia apresentar para o público, mas basta seus olhos se fixarem em , que oferece um sorriso gentil e encorajador como resposta, que seus dedos encontram as teclas e a melodia que representa sua vida amorosa com a soe por todo o ambiente.

We were so beautiful we were so tragic
(Nós éramos tão lindos, nós éramos tão trágicos)
No other magic could ever compare
(Nenhuma magia poderia se comparar)
Lost myself, seventeen
(Me perdi, dezessete anos)
Then you came found me
(Então você veio e me achou)
No other magic could ever compare
(Nenhuma magia poderia se comparar)

A voz rouca e macia como veludo de canta cada palavra com paixão e emoção. Essa música é a que ele mais escutou, desde que ele e se desentenderam e a menina embarcou de volta para Los Angeles. Ele pensou ser apenas uma paixão ardente e passageira, foi egoísta e não deu abertura para viver um amor verdadeiro. Trágico e lindo mas só eles entendem.

There’s a room
(Tem um quarto)
In my heart with the memories we made
(No meu coração com as memórias do que fizemos)
Took em down but they’re still in their frames
(Escondi-as, mas elas ainda estão frescas)
There’s no way I could ever forget
(Não tem como eu esquecer)

Esse tempo que passaram juntos tinha sido especial. aprendeu a respeitar . Amá-la não exige esforço, é fácil. Eles poderiam ter percebido isto antes, se apaixonado lá atrás, mas tudo o que restou foi a fotografia que ela deu de presente de natal junto às lembranças marcantes da noite que estiveram juntos.

For as long as I live and as long as I love
(Enquanto eu viver e enquanto eu amar)
I will never not think about you, you, hmm
(Eu nunca não vou pensar em você)
I will never not think about you
(Eu nunca não vou pensar em você)
Toda a plateia está maravilhada com sua voz perfeita, mas basta ele levantar seu rosto e encarar sua menina que o mundo inteiro se resume à ela. Com os olhos marejados e palpitações que pareciam estar audíveis para todos ao redor, entende a mensagem e as lágrimas aos poucos descem por sua bochecha. Elas não são de tristeza, mas da compreensão de que não está só no sentimento de amar alguém e finalmente é correspondida.

What we had only comes
(O que nós tínhamos só se tem)
Once in a lifetime
(Uma vez na vida)
For the rest of mine
(Para o resto da minha)
I’ll always compare
(Eu sempre vou comparar)
To the room
(Com o quarto)
In my heart with the memories we made
(No meu coração com as memórias do que fizemos)
Nights on 5th, in between b and a
(Noite do dia 5, entre b e a)
There’s no way I could ever forget
(Não tem como eu esquecer)
A música se encaminha para os últimos acordes, e no fim é ovacionado por todos. Ele agradece em silêncio, sempre muito humilde. Logo o corpo de atinge o seu em um abraço apertado e caloroso. Ele respira o perfume dos seus cabelos e sorri em resposta.

— Você não faz ideia de quantas vezes eu tentei não pensar em você, mas é impossível — confessa com um sussurro — Você é inesquecível, .

— Acho que podemos ir embora agora. Daniel e Sophia não parecem muito felizes por não serem mais o centro das atenções da própria festa. E eu quero te mostrar uma coisa. Nossa noite ainda não acabou — Ele aperta a cintura da , que se arrepia sob o seu toque.

Os dois não perdem tempo e correm em direção aos carros, ambos na expectativa do que viria pelo resto da noite. preparou uma surpresa para a menina e espera que com a carta final, reconquistará seu amor para todo o sempre.

A familiaridade das ruas e construções deixam levemente confusa.

— Para onde estamos indo? Aqui é perto do Le Petit ? — Ela pergunta e recebe a afirmação do companheiro.

— Nosso destino final é exatamente lá — Ele sorri para a — Ouvi dizer que a noite de hoje está extremamente agradável para um encontro ao ar livre. Estou contando com a previsão do tempo e espero não falhar dessa vez.

Chegam ao local e misteriosamente, possui a chave do seu escritório. está um tanto quanto surpresa, mas ele apenas responde com um levantar de ombros e a guia pelas escadas que os levarão até o terraço do prédio antigo.

Ao abrir a porta, suspira forte e fica encantada com o que encontra.

havia transformado o pequeno espaço abandonado em um local privativo para o jantar romântico. A iluminação é feita com velas espalhadas, não há mesa ou cadeiras, mas almofadas e cobertores cobrem o chão de maneira que permita que eles se sentem confortavelmente. Uma cesta com comida e uma garrafa de vinho fica posicionada ao lado, assim como um projetor que aponta para a única parede vazia do local.

— C-como você fez-

— Joana foi minha pequena cúmplice nessa tarefa — Ele responde um tanto sem jeito — Precisava do apoio de alguém próximo pra construir tudo isso.

está encantada. Ninguém jamais havia feito tal coisa por ela.

— Você não cansa de ser uma caixinha de surpresas, não é mesmo? — Ela o abraça pelo pescoço e deposita um leve beijo no local.

— Farei tudo o que estiver ao meu alcance para te surpreender. Isso aqui não é nada além do que você merece.

Ela enfim sela os lábios nos do rapaz e é como se nunca estivessem separados antes. É a sensação de casa, de conforto, de abrigo que não pode ser encontrado em mais ninguém, apenas entre eles. As línguas dançam em sincronia e a paixão, antes ardente, dá lugar ao carinho e o amor que sempre esteve lá, mas floresceu junto ao tempo.

— Desejei isso por eras, e nossa — rouba um selinho de , que apenas ri apaixonada — Nada se compara a você.

— Quero passar a minha vida com você, sempre ao seu lado, sem mentiras, sem medos.

— Preciso então me desfazer da minha última mentira — Ele diz brincalhão e ela o encara assustada — Calma! É uma pequena mentirinha, precisei fazer isso pra planejar o dia de hoje. Espero que não se importe — caminha até o projetor e liga o aparelho, que passa a exibir as imagens na parede.

São as fotos que tirou enquanto estiveram juntos. Reconhece a paisagem icônica de Los Angeles, que logo iriam para sua exposição. Passam vários pontos turísticos com pessoas ao fundo. Entretanto algo chama sua atenção. Sorrisos, olhares, mãos dadas, silhueta feminina…

Todas as imagens tinham algo em comum. Em todas elas, sem excluir uma sequer, ela está lá. O sorriso de , os olhares que ela lançava, as poses espontâneas e distraídas que ela fazia quando estava concentrada em algo. Provavelmente ninguém iria reconhecer a verdadeira identidade da modelo, mas ela consegue se reconhecer em tudo ali, ainda que não mostre o seu rosto por completo.

— As paisagens de Los Angeles são realmente lindas e únicas, mas elas não prendem a minha atenção — soa indiferente — Nada aqui realmente me interessa. Eu poderia encontrar lugares pela Europa mais atraentes para fotografar se eu quisesse — Ele abraça o corpo dela por trás e sussurra as últimas palavras — Mas nada nunca vai me prender mais a atenção do que você. Paris é linda e o local ideal para a minha arte, mas foi aqui em LA que eu encontrei a minha verdadeira obra prima. Eu te amo, .

— Se quer me fazer chorar a noite inteira, está conseguindo — ri sem graça — Eu te amo, .

A presença um do outro é o suficiente para embalar a noite cheia de saudade, que é suprida com o passar das horas. Nada poderia separá-los novamente. A cada suspiro, a cada respiração o ar fica mais quente e sensual. aperta a cintura da , que suspira e desabotoa sua camisa lentamente. Seus beijos descem para o pescoço desnudo e ela aproveitava cada centímetro de pele, saboreando o tempo perdido.

fecha os olhos, mas tem medo de se perder e acordar de mais um de seus sonhos eróticos, que a sempre protagoniza. Seu membro já dá sinais de sua excitação e um gemido rouco escapa de sua garganta, quando sente os dedos acariciarem por cima do tecido.

— A realidade não se compara com a minha imaginação — Sua voz soa grossa e ele passa as mãos pelos cabelos soltos de — Minha menina sempre sabe me surpreender, não é mesmo?

— Certas coisas nunca mudam, , mas algumas memórias não são tão frescas como eu gostaria que fossem — Ela beija a linha marcada do quadril e se diverte ao sentir que se arrepia com seu toque — Sabe, por sua causa eu me tornei bastante fluente em francês — Um sorriso malicioso brota entre eles, enquanto se coloca de joelhos. — Mon professeur m’a appris la façon dont il l’aime quand je le fais (Meu professor me ensinou o jeito que ele gosta quando eu faço).

En plein air? (Ao ar livre?) pergunta com um sorriso safado em seu rosto, enquanto acaricia sua bochecha suavemente — Mon petit me satisfera toujours bien. (Minha pequena sempre vai me satisfazer muito bem).

Ao fechar os olhos para aproveitar melhor a sensação de prazer, arrepios invadem todo o seu corpo. Em um misto de gemidos, apertos, beijos e investidas aquela seria a noite que marcaria para sempre a história deles.

Je t’aime… — Ele sussurra rouco e baixo no ouvido da , que apenas sorri em resposta ao sentir que seu corpo seria marcado pelos lábios, dentes e mãos do mais velho. Mas ela não se importava, sua vida já pertencia a ele por completo.

●●●

‘Wishin’ I could be with you, and to share the view…’


Os dias se passam. A exposição de é um sucesso em Los Angeles, conseguem arrecadar uma boa quantia de dinheiro e ele fica famoso entre os amantes das artes contemporâneas da Califórnia.

Ele e conseguem aproveitar o restante da semana juntos como o casal que nasceram pra ser. Têm seus encontros românticos, trocam intimidades caseiras. Parecem recém casados que vivem os primeiros anos da união com afeto, devoção e principalmente noites ardentes de prazer embaladas nos lençóis.

Mas infelizmente tudo aquilo precisa terminar. Suas férias terminam em três dias e ele tem seu emprego na França. Por mais que finalmente estivesse vivendo seu conto de fadas ideal ao lado da sua amada, toda história precisa do seu fim.

— Valeu a pena conviver com a loucura americana durante esse mês? — diz divertida enquanto caminha ao lado de para o portão de embarque internacional.

— Analisando o fato de que vim pra cá sem nada, sem planos e, principalmente, esperança de que teria você de volta, acho que estou com saldo positivo —Ele deposita um selinho em seus lábios e sorri.

— Você acha, é?

— Seria melhor se eu conseguisse traçar uma atriz de Hollywood, aí sim eu teria do que me gabar!

— Você é ridículo, ! — desfere tapas em seu peitoral enquanto ele desvia, rindo.

— Sou ridiculamente apaixonado por você.

— Como faremos daqui pra frente? — assume um tom de voz mais sério e triste.

, não fale disso agora-

— Evitamos falar disso por esses dias, mas não dá pra ignorar! Você precisa entrar em menos de 10 minutos! — Ela seca uma lágrima solitária que escapa de seus olhos — Eu não posso abandonar minhas coisas aqui e você não pode deixar sua vida em Paris, como faremos?

— Daremos um jeito nisso, confia em mim? — Ele estende a mão e olha em súplica para a .

— Somos uma tragédia, , se fosse outra pessoa eu já estaria correndo para bem longe.

— Somos a tragédia perfeita, lembra?

Atenção passageiros do voo 7481 com destino a Paris. Última chamada no portão de embarque — A voz mecânica do aeroporto soa pelos alto falantes e se agarra com mais força ao corpo alto de .

— Eu te amo pra todo o sempre. Vamos fazer isso dar certo.

— Já deu certo, mon amour, logo vamos estar juntos de novo. Eu prometo.

Com um beijo apaixonado e salgado, pelas lágrimas que corriam livremente e sem vergonha pelo rosto de , eles se despedem. A mulher vê entrar para seu destino e sente o coração apertar com a dor profunda da perda. As muralhas que construiu em torno do seu coração se desfizeram como pó, desde que o viu um mês atrás. entrou em sua vida e tomou conta de cada espaço que, na verdade, sempre pertenceu a ele. Como iria sobreviver sem a sua presença agora?

O celular dela apita e revela que uma mensagem havia acabado de ser entregue.

~ De:

Queria poder dividir a visão do pôr do sol de Los Angeles com você agora. Em pouco tempo vamos nos ver de novo, não se preocupe.

sorri ao sentir que aos poucos a dor e as dúvidas em seu coração desaparecem. No final ela tinha o mais importante. O amor e a certeza de que o seu verdadeiro final era com .

EPÍLOGO
~ POV

‘Everyday should be a new day, to make you smile and find a new way, Of falling in love…’

01 de Junho, 2023
É engraçado como o tempo voa quando tudo parece certo de novo. Olho para o horizonte e é como se um filme passasse na minha mente. Dois anos atrás, quando eu e nos reconciliamos oficialmente, tentamos experimentar o tão temido relacionamento à distância. Entre chamadas semanais, mensagens de texto, feriados prolongados e diversas pontes aéreas realizadas, demos um jeito de nos adaptar às milhas que nos separavam, assim como os fusos horários tão distintos.

Mamãe e Pierre quando descobriram que havíamos reatado quase soltaram fogos de artifício e anunciaram para todos os familiares que seu plano mirabolante havia dado certo. Eu já desconfiava que o papo furado que tiveram com não havia sido tão inocente assim. Suas intenções de nos reunir, para que fizéssemos as pazes sempre foram o verdadeiro objetivo de tudo.

Assim como qualquer casal normal, tivemos nossas discussões. Mas incrivelmente conseguíamos chegar em um consenso, cedendo quando necessário, para estar no ponto em que estamos.

Fecho os olhos e aproveito a brisa fresca e o sol que beija o meu rosto de forma sutil, quase envergonhada. Finalmente eu havia conseguido passagens para chegar em Paris na época que eu mais desejava: a primavera. Já fazia um tempo que eu estava na cidade e pude acompanhar, aos poucos, as árvores ganhando cores vivas, os jardins cheios de flores perfumando o ar parisiense e o romance alcançar até os mais gelados corações. Estava de volta à cidade luz para contar a Grace sobre as novidades do projeto social meu e de , em que ensinamos as pessoas a descobrirem seus dons, seja na arte ou na culinária, para iniciar uma carreira, dessa vez longe das ruas.

Mas essa viagem em especial também tem um objetivo diferente de todas as outras. Durante esse tempo com , a necessidade de tornar algo oficial crescia em meu peito. E quanto mais o tempo passava, mais eu sentia necessidade de concretizar o meu sonho mais antigo.

Olho para a minha mão direita e encaro a aliança fina e delicada, com uma pequena pedra brilhante, que reluzia sob os raios de sol. Ele me ama o suficiente para partilhar todos os meus sonhos e realizar cada um deles. O peso de carregar um anel de compromisso, que outrora foi um fardo difícil e até mesmo um trauma doloroso, agora é motivo da minha segunda maior alegria.

A primeira tem nome, e agora também sobrenome.

— Mamãe, o que está fazendo aqui sozinha? — Um ser saltitante senta ao meu lado com suas pequenas tranças pretas balançando ao seu redor.

— Estou observando a paisagem, Aisha, você sabe como eu gosto de ver a Torre Eiffel, seja manhã ou noite — Trago seu corpo para mais perto do meu e abraço de lado.

A menina havia aprendido a falar francês e inglês, agora pode ser considerada uma nativa, com um vocabulário extenso e completo. Afinal, ela tem dois professores particulares dentro de casa.

— Vim só te perguntar qual sabor de sorvete você quer, papai está comprando casquinhas para nós três e pediu para vir avisar — Seus olhos brilham de felicidade. A menina é uma formiguinha, sempre atrás de doces e guloseimas.

— Pode falar a ele que quero o de sempre. Duas bolas, uma de flocos e outra de creme de avelã… Ah! Não se esqueçam de trazer guardanapos, vocês dois sempre se lambuzam e sujam a roupa inteira.

— Como se você também não se sujasse — A menina revira os olhos e me lança um sorriso irônico, uma mania que acabou pegando de mim e de — Já volto com o papai e os sorvetes!

Olho para trás acompanhando sua corrida até o homem alto parado na barraquinha. me encara com o mesmo olhar apaixonado que me derrete inteira e pisca o olho, enquanto dá atenção para a pequena Aisha , nossa filha.

Uma lição que aprendi com meu atual noivo e futuro marido foi que todos os dias devemos achar uma nova forma de fazer quem nós mais amamos sorrir, de surpreendê-los e nos apaixonar cada vez mais. E eu tenho certeza de que meu amor por hoje é maior que ontem e menor que amanhã.

O sonho de ter a minha família está se completando. Eu não estou sozinha nesse mundo. Eu posso contar com o meu verdadeiro amor em todas as circunstâncias.

FIM