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West Coast

Sinopse: “Às vezes a vida prega peça nas pessoas. No meu caso, isso acontece o tempo todo. Quando deixei São Francisco e fui para Huntington Beach, em busca de uma realidade melhor e sem todos os problemas que a antiga me trazia, não imaginava que tudo aquilo iria acontecer. A confusão, afinal de contas, não dependia do lugar – estava dentro de mim. No meio de toda aquela inconstância, causada por meus pais, ainda tive que lidar com ele. Ele, que era o maior dos meus problemas. Ele, que se tornou a melhor das minhas soluções. Meus sentimentos nunca foram tão confusos e perigosos.
E a pior parte era saber que aquilo estava só começando.
Bem-vindos a loucura que se tornou minha vida.”

Gênero: Romance, drama.
Classificação: 14
Restrição: O nome James Follmann já está em uso.
Betas: Thalia Grace

Capítulos:

Capítulo 01

This world is so heavy, oh

Don’t know if I’m ready, oh

I can feel it like the waves crashing down

I know I need to reach up not to drown

Heavy – Emblem3

Encarei aquela imensidão azul como se fosse à última vez que veria aquilo e de certa forma, era. Parecia que eu não veria aquilo nem tão cedo. Não quando se tem pais beirando ao divórcio e sua última opção é escolher com qual dos dois irá ficar. Os últimos dias estavam sendo difíceis. Eu não conseguia olhar para minha mãe como antes, muito menos conseguia chamá-la assim. agia da mesma forma, mas com o nosso pai. Ele estava chateado por não ter o cara que havia se inspirado desde pequeno. Hector aparentava se sentir culpado por fazer nossa família chegar a esse ponto e sempre estava discutindo com Norah, nossa mãe, mas ela também não cooperava.

Eu sabia que tinha algo de errado desde então, mas tive certeza quando vi Norah chorando baixinho enquanto via um filme qualquer no sofá da sala. Eu tinha perdido o sono e até cheguei a perguntar o que tinha acontecido. Ela olhou para mim assustada e me mandou voltar a dormir, dizendo que eu não precisava me preocupar, mas eu me preocupei. E também.

Passamos alguns dias calados, em uma rotina monótona. Hector fazia hora extra a maior parte da semana e sabíamos que era para não ficar em casa. Ele não estava com uma das melhores feições e quando chegava, fazia sua refeição e evitava ao máximo falar com um de nós. até tentava puxar algum papo, mas não funcionava. Já tínhamos desistido de consertar algo que só eles podiam resolver.

Eu e meu irmão tínhamos chegado em casa na tarde anterior e Hector estava sentado na sala junto a Norah. Estavam parecendo cansados e nossa mãe tinha olheiras profundas. Já estava se tornando normal. Nos pediram para sentar nas poltronas e começaram um assunto chato sobre viagens e coisas do tipo. Eu não entendi muito bem, então olhei para . Ele parecia ter sacado, sua respiração estava oscilando. Eu queria segurar a mão dele, mas estava longe, então fiquei ali parada, encarando meus pais. Norah olhou para papai, soltando um longo suspiro. Então ele disse de uma vez. Soltou tão rápido que parecia ter vomitado as palavras. Estavam decididos. Realmente iam seguir rumos diferentes. Já haviam pedido o divórcio. levantou e os encarou, querendo dizer algo, mas apenas se virou e saiu pisando firme até seu quarto. Permaneci parada, com o olhar fixado no vão entre os dois em minha frente.

— Você entende, querida? — ouvi a voz da minha mãe um pouco longe, quase como um eco. Automaticamente minha cabeça se balançou, afirmando. Era como se eu estivesse no piloto automático. Olhei para Hector, esperando alguma explicação a mais, mas nem um olhar reconfortante eu via nele. Pus-me de pé e segui para longe dali.

Passei as mãos pelo cabelo molhado e respirei fundo, sentindo a maresia de encontro a minha pele ainda molhada. Deixei que alguns grãos de areia voassem em meu rosto também, aquilo não me preocupava. Olhei mais uma vez antes de levantar, tirando a prancha que antes estava fincada na areia, ajeitando-a embaixo do meu braço e comecei a voltar para casa.

O fim de tarde estava pouco quente, deixando amostra o céu colorido. havia me mostrado a beleza dessas tardes na praia e desde então eu não conseguia voltar para casa nesse horário sem tirar os olhos do céu.

De onde eu estava, já conseguia avistar minha casa e ouvir o som evidente da vizinhança, que por sinal não era lá tão silenciosa. Os motores dos carros eram a trilha sonora daquele horário. Eu já tinha acostumado. Passei pela pequena calçada que separava uma casa da outra e segui até à garagem, depositando a prancha em um canto, segura. Caminhei até a varanda e subi as escadinhas, indo até a porta e me assustando em seguida ao ouvir algo quebrando.

Estreitei os olhos e olhei para os lados, não encontrando ninguém.

— Você é uma estúpida! É isso o que você é! — aquele era o meu pai gritando. Olhei para o corredor e minha mãe vinha em direção à sala com o rosto completamente vermelho.

, saia daqui. — Hector disse em tom autoritário. Franzi o cenho, ainda não entendendo o que estava acontecendo. Ele caminhou em minha direção e segurou meu braço com força, o que me fez tentar soltar e assim só me machuquei ainda mais.

— Não machuque a garota, Hector. Você vai deixá-la roxa. — olhei para minha mãe que havia se aproximado. Dessa vez, seu rosto estava imerso em lágrimas e aquilo partiu meu coração. Norah era tão bonita, sempre tinha um sorriso vívido nos lábios. Vê-la assim era como ver outra pessoa, uma sem vida, desmotivada.

— Cale a boca. Acha que ainda vou te dar ouvidos? Que vou escutar uma vagabunda como você?! — puxou meu braço mais uma vez e antes que pudesse voltar sua atenção para mim, ouvi o baque da porta dos fundos. estava com os olhos fixos em Hector e seu olhar transbordava raiva. Hector soltou meu braço, indo em direção à minha mãe. veio até a mim, me segurando pelo ombro.

— Você está bem? — assenti rapidamente. Ele passou uma das mãos pelo cabelo, olhando para o lado. — Vai para o quarto, agora.

Olhei para ele sem entender e ele apenas sibilou que era para eu obedecê-lo, antes de voltar em direção à Hector. Fui andando lentamente em direção ao corredor e me virei. estava de frente para Hector, meu pai estava completamente vermelho e assim que meu irmão ousou falar mais alto, ouvi o barulho do tabefe em . Arregalei os olhos e pus as mãos na boca, sem acreditar.

— Você é um imprestavelzinho de merda. — frisou bem a palavra, olhando para meu irmão. — Eu não quero mais olhar para a sua cara. Não quero mais olhar para você e perceber o filho inútil que tenho dentro de casa. Você e ela. — apontou em minha direção.

— Bêbado maldito. — o ouvi dizer entre os dentes, enquanto minha mãe estava de pé perto deles sem saber o que fazer. deus as costas, vindo em minha direção. Segurou meu braço delicadamente.

Seguimos pelo corredor, ouvindo a discussão na sala e paramos em frente à porta do meu quarto. Ia entrar, mas ele me puxou novamente, olhando em meus olhos. Observei seu rosto, a bochecha esquerda marcada pelo tapa de Hector. O choro vinha no mesmo instante.

— Arrume suas coisas. Pegue tudo o que puder. Nós vamos embora.

, não! Não podem… — segurou meu rosto com as duas mãos, interrompendo-me.

— Não questione, por favor… Eu não quero mais isso para mim e eu sei que você também não. — engoli em seco, tentando controlar as lágrimas, o que foi em vão. — Vamos sair daqui.

Balancei a cabeça, concordando com ele. Entrei no quarto olhando para os lados, sem saber por onde começar. Abri um dos armários pegando a mochila da escola, pondo todas as roupas possíveis ali dentro. Eu sentia que precisava sentar naquela cama forrada e chorar até que tudo aquilo passasse, mas eu não podia. Não agora.

Puxei a mala branca de uma das prateleiras e a coloquei em cima da cama, abrindo-a. Eu não estava conseguindo pensar direito e como automático, eu ia colocando qualquer coisa que eu via pela frente dentro da mala.
Peguei metade dos meus pertences, os que eu mais usava. Tudo o que eu queria levar não caberia na mochila e muito menos na mala. Tinha que levar pouca coisa. De onde eu estava, conseguia ouvir a voz exaltada da minha mãe.

Fechei os olhos e respirei fundo.

Fui em direção ao espelho na parede do quarto e olhei minha aparência, respirando fundo. Assim como Norah, eu tinha grandes olheiras, minha expressão não era radiante como antes. Engoli em seco, tentando não deixar nenhum dos piores pensamentos vir à tona e caminhei de volta para o centro do quarto. Puxei o elástico do pulso e prendi os cabelos em um rabo de cavalo firme.

Enquanto observava o quarto, mordisquei o lábio inferior tentando me lembrar se tinha mais alguma coisa faltando e viro meu rosto em direção ao armário, avistando a caixa colorida já que a porta estava aberta. Rapidamente caminho até ela, abrindo a mesma. Fotografias, um diário velho e a pequena bolsinha preta onde minhas economias estavam guardadas. Peguei a mesma e corri em direção à mochila, colocando-a no fundo.

Voltei para guardar a caixa e me deparei com uma fotografia jogada ao fundo, aproximei a mesma do rosto e senti que o choro fraco de antes voltaria. Nela, eu e estávamos sorrindo. Norah me abraçava sorridente e Hector tinha um dos braços em volta de , o abraçando. O dia estava bonito e não parecíamos ter nenhum problema para nos preocupar. Era só aparência.

Passei uma das mãos pela bochecha e resolvi me adiantar. não esperaria um minuto sequer naquela casa. Eu também não.

Pus a fotografia dentro do pequeno caderno que eu carregava e fechei a mochila, colocando-a do lado da mala branca no chão. Fui até a porta e olhei pela pequena fresta a sala que agora estava silenciosa. Algo estava errado.
Rapidamente segui até a gaveta e peguei o All Star de cano alto, o colocando o mais rápido que podia. Ouvi a porta abrindo, me fazendo levantar o olhar. entrou, me encarando sentada no chão.

— Precisamos sair agora. — comentou. Tinha uma das mãos apoiada na porta. — Conseguiu pegar tudo?

— Não tudo, mas o necessário. — dei de ombros, me levantando e indo em sua direção. — ?

Ele abria a porta do quarto quando me ouviu, virou o rosto preocupado e me olhou.

— E a mamãe? — minha voz saiu falha. Ele suspirou, passando uma das mãos nos cabelos claros. — Ela não tem culpa…

… — se aproximou, levantando uma das mãos até o meu rosto. Ele me observava, como se eu fosse seu único pingo de esperança. Balancei a cabeça minimamente e ele me abraçou, se afastando em seguida. — Pegue as coisas e me espere. Já volto.

Assim como disse, segui até a mochila e a coloquei nas costas, pegando a mala. Ela estava um pouco pesada, mas aquilo não me preocupava no momento. Segui até o corredor e logo veio atrás com sua mochila, a mala e a bolsa de academia, passando por mim e ficando na frente assim que Hector virou o rosto em nossa direção. Pude ver sua expressão mudar de pesar para ira. Eu estava começando a me assustar.

— Onde vocês pensam que vão? — levantou do banco perto da cozinha em que estava e parou em nossa frente. — Acabem com essa palhaçada agora e vão para o quarto. Os dois! — gritou apontando para o corredor. Norah não estava mais na sala, provavelmente trancada no quarto.

— Quem você pensa que é? — perguntou, elevando a voz. — Você acha que pode chegar impondo uma ordem que não existe? — se aproximou de Hector. Eu estava estática, sem conseguir acreditar no que via. — Você se quer foi um pai presente. Seu canalha! — gritou a última palavra, recebendo o soco em cheio no rosto. Pus as mãos na boca e tentei correr até que havia cambaleado para trás. Desviei meu olhar de meu irmão para meu pai, Hector estava desnorteado.

pôs uma das mãos no rosto e retomou a postura.

— Espero que sinta orgulho disso.

Disse, dando as costas para ele. Pegou a mala no chão e olhou para mim, seguindo até a porta. Olhei para meu pai pela última vez, ele tinha os olhos vermelhos e sem pensar muito segui até a porta da frente, alcançando no meio da rua. Ele andava sem olhar para trás, estava decidido.

— Vamos para o ponto e em seguida para a estação. O próximo trem não vai demorar muito pela hora. — assenti mesmo sabendo que ele não veria. Eu caminhava apressadamente, tropeçando vez ou outra. Minha visão estava embaçada pelas lágrimas, aquilo era demais para mim. Dobramos a esquina e eu já conseguia avistar o ponto de ônibus mais à frente. parou um pouco longe de algumas pessoas, colocou a mala no chão e respirou fundo. Eu já não conseguia conter o soluço e abaixei o olhar assim que ele me olhou.
Sem dizer palavra alguma, veio em minha direção podendo sentir seus braços envolta do meu corpo. E eu já não conseguia controlar meu choro mais. Passou as mãos pelo meu cabelo, soltando um suspiro baixo. — Não precisa chorar. Estou aqui. — afastou meu rosto, olhando em meus olhos. Observei seu rosto, a lateral machucada sangrava. Não muito, mas sangrava e isso só me fez querer chorar mais ainda. Tentou deixar um pequeno sorriso transparecer, mas eu sabia que ele não aguentaria por muito tempo.

Ficamos abraçados até o ônibus chegar, estacionando perto da calçada. Já tinha anoitecido e o tempo havia esfriado, me pegando desprevenida. Não estava com algum casaco ali. Peguei minha mala no chão assim que mencionou em pegá-la. Balancei a cabeça negando e fiquei ao seu lado, esperando algumas pessoas entrarem. Subimos em seguida, desviando das pessoas que estavam na frente. caminhava em direção ao cobrador e assim que pus as mãos no bolso para pagar a passagem, o vi pagando as nossas. Respirei fundo, sentando em um dos bancos vagos. se sentou ao meu lado.

O olhei de relance, podendo constatar o quanto ele tinha a expressão preocupada. Os olhos atentos ao trânsito e a mente, provavelmente, com um turbilhão de pensamentos. Ele estava sobrecarregado e eu me sentia culpada por ele ter que, ainda assim, cuidar de mim mesmo que por muitas vezes eu não quisesse isso.

Suspirei, desviando meu olhar da mala em meu colo para , o observando.

? — rapidamente ele olhou para mim. Ficou alguns segundos me encarando e deixou um sorriso fraco escapar, endireitando o corpo no banco.

— O que foi? — perguntou, com certa delicadeza.

Encostei minha cabeça no apoio da cadeira e respirei fundo, o olhando nos olhos. Ele, agora, me observava atento.

— Nós vamos ficar bem, não é?

Ele deixou o ar escapar, pressionando um dos lábios. Os olhos azuis estavam acinzentados, demonstrando preocupação. Essa era uma das coisas que raramente se via em meu irmão: Aflição.
Pôs um dos braços em volta dos meus ombros e me puxou para perto, beijando o topo da minha cabeça. O seu polegar fazia um leve carinho em meu ombro.

— Eu espero que sim.

 

 

Capítulo 02

Depois de algumas horas de viagem — mais do que o esperado — paramos no terminal de Santa Ana, tendo sorte por logo o ônibus de Huntington Beach estar saindo. Quando saímos do trem, o dia estava clareando como de se esperar. Eram quase seis da manhã e ainda não tínhamos chegado a Huntington. Era para eu estar preocupada? Claro, mas não me importava. Eu estava longe de casa, longe das discussões e isso era o suficiente para eu estar aliviada.

tinha a expressão mais leve e se não fosse uma impressão minha, poderia até dizer que tinha um sorriso contido no canto dos lábios. Isso me deixava um pouco animada. Se ele estava se sentindo melhor, eu também estava.
Tínhamos saído de Santa Ana fazia uns vinte minutos e como a distância de uma cidade para a outra era pequena, logo conseguia avistar os coqueiros e palmeiras da entrada de Huntington. A paisagem me fez sorrir como uma boba, só de lembrar que nossa infância inteira tinha sido ali. Passamos os melhores nove anos julgando ter uma vida perfeita. Até nosso pai decidir que nos mudaríamos para São Francisco. Desde então tem sido esse caos.

Tirei a atenção da vista para os cutucões que me dava na lateral da barriga, ele tinha um sorriso ansioso e estava preparando para se levantar. Pus a mochila nas costas e rapidamente fiquei de pé também, percebendo que desceríamos na avenida.

— No próximo ponto nós descemos. — falou segurando em um dos bancos. Em poucos segundos senti o ônibus freando devagar e segui atrás de até a saída, descendo as escadas. Ficamos exatamente em frente à orla, podendo avistar algumas pessoas caminhando e outras na areia da praia. O ônibus partiu e no mesmo momento, senti o puxão do meu irmão seguido por um abraço apertado. Não pude deixar de soltar uma risadinha de felicidade, ele fez o mesmo.

— Voltamos para o lugar do qual nunca deveríamos ter saído. — disse, sorrindo de forma diferente, estava contente. Começamos a caminhar pelo calçadão e esperamos alguns carros para poder atravessar e seguir pela rua que, antigamente, era a da nossa avó. Olhei para os lados, tentando reconhecer o lugar, mas realmente havia mudado bastante depois desse tempo. Com um pouco de dificuldade, consegui trocar a mala de mãos enquanto andava sem tirar os olhos das casas ao redor. O lugar estava completamente diferente.

— Você lembra mesmo onde que nossa vó morava? — perguntei confusa por não estar reconhecendo a rua direito. As calçadas estavam repletas de palmeiras, o que deixava a paisagem bonita de se ver. olhou de relance para mim e sorriu minimamente.

— Qual é . Tudo bem que faz tempo que não viemos aqui, mas isso não significa que esqueci do lugar. Aliás — estreitei os olhos por ele ter me chamado pelo nome. Ele apenas sorriu e voltou a olhar para frente enquanto caminhávamos. — impossível esquecer aquela cerca branca.

Olhei para a mesma direção que ele e avistei a casa branca com telhado verde claro. Ela não tinha mudado e vê-la como antes, fez com que a saudade crescesse dentro do meu peito. Eu amava aquele lugar.

Apressamos o passo chegando à calçada, onde tinha uma caminhonete branca estacionada, não me lembrava daquele carro. Descansei meus braços pondo a mala no chão e observei a fachada na casa, tinha mudado pouca coisa. A cerca e o portão pareciam ter sido pintados recentemente, assim como o telhado da casa. O portão estava entreaberto, dando para ver a porta da frente encostada. Franzi o cenho, lembrando de algo. Será que a vovó ainda morava ali?

— Tem certeza que ela ainda mora aqui? — perguntei baixo, por estarmos em frente à casa e com certeza, ter alguém nela. — Por que eu não me lembro do número e muito menos dessa caminhonete branca.

Olho rapidamente para trás, olhando a caminhonete. Também parecia nova. Voltei o olhar para e ele parecia pensativo, mas ainda assim mantinha a feição leve no rosto. E essa feição me tranquilizava, o que era bom.

— Tenho, . Só precisamos chamar ela. — se aproximou do pequeno portão branco e apertou a campainha pela primeira vez. Ninguém surgiu e eu comecei a me preocupar. Olhei em volta e constatei que a rua estava pouco movimentada.

apertou mais uma vez e nada. Percebi o mesmo bufar e me afastei um pouco, indo para a ponta da calçada. Encostei-me à palmeira mais próxima que por sorte, tinha um pouco de sombra e respirei fundo, olhando para baixo. Marie não estar em casa ou não morar mais ali era o que faltava. Cruzei os braços e ergui o olhar para meu irmão que ainda insistia em tocar a campainha. Olhei por detrás dele e observei a senhora vir com algumas sacolas nas mãos. Ela andava lentamente e tinha os cabelos grisalhos presos em um rabo de cavalo assim como o meu.

. — chamei o garoto que não tinha prestado atenção. — ! — falei mais alto, fazendo-o olhar em minha direção um pouco confuso. — Aquela não é a vovó Marie?

Apontei com a cabeça para a senhora que se aproximava ainda sem olhar para nós dois e desencostei da árvore, indo até . Desviei meu olhar dele para ela e assim que ela nos viu, arregalou os olhos, andando rápido até nós dois.

? ? — perguntou incrédula. — O que estão fazendo aqui, queridos? — colocou as sacolas no chão e nos abraçou apertado. — Onde estão Norah e Hector? — olhei para rapidamente e vovó parecia ter captado o que pensávamos. Abaixei o olhar em seguida. — Ah… Venham, vamos entrando.

Foi em direção as sacolas para pegá-las, mas às pegou rapidamente, fazendo com que Marie desviasse e fosse empurrar o portão que estava aberto. Peguei minha mala e segui pelo pequeno gramado, com meu irmão atrás de mim. Por onde caminhávamos tinha um pequeno filete de pedra e em volta onde era gramado, tinha uma mesa redonda com o tampo de vidro e várias flores enfeitavam o lugar. Realmente estava lindo.

Assim que adentrei a sala, esperei ao meu lado. Vovó caminhou afobada para a cozinha e não deixei de soltar uma pequena risada com seu ato. Ela não havia mudado. Deixei a mala em um canto e esperei em pé no meio da sala, assim como meu irmão.

Marie veio em nossa direção e depositou em cima da pequena mesa no meio da sala uma bandeja com alguns biscoitos, um bolo fatiado e uma jarra de suco. Respirei fundo, inalando o cheirinho do bolo de laranja. Eu estava faminta. logo se sentou e não esperou muito para que começasse a comer. Eu estava um pouco tímida, até porque fazia tempos que não a via.

— Como vocês estão, meus amores? — perguntou se sentando na poltrona, ela tinha um pequeno sorriso nos lábios. — Ah, … Você está tão crescida! — alisou o rosto, parecendo não acreditar no que via. Sorri de volta, percebendo que sua presença me trazia conforto. Desviou o olhar para e franziu o cenho. — O que houve com o seu rosto, querido?

No mesmo instante, parou. Passou os olhos por mim e os direcionou para vovó, que ainda estava intrigada o olhando. Mordi o lábio inferior e abaixei minha cabeça, me concentrando no copo com suco em minhas mãos. Era um assunto delicado, estava recente e aquela provavelmente não era a hora certa para discutirmos sobre aquilo.

— Marie, eu não… — tentou dizer, sem encontrar as palavras certas. Ela se aproximou, colocando suas mãos sobre as dele.

— Tudo bem, não preciso saber agora. — balançou a cabeça negativamente, deixando um leve sorriso surgir nos lábios. — Vocês estão exaustos. Precisam descansar. Venham, os quartos estão livres.

Esperou que terminássemos de comer e nos guiou para os dois quartos que eu conhecia bem. Mostrou primeiro o de , estava completamente arrumado e as paredes estavam pintadas, menos a azul claro que continha os posters do meu irmão. Ele era apaixonado e sempre que alguma banda que ele gostava lançava um poster novo, ele comprava. Do lado oposto da cama, bem do ladinho do guarda roupa estava repousado o violão, o que tanto tocava. Ele tinha o deixado ali quando fomos para São Francisco.

Deixamos meu irmão desfrutar um pouco mais do quarto e segui com minha avó para o meu, ficando estática ao abrir a porta. Nada tinha mudado, estava tudo como eu tinha deixado quando fui embora. As paredes ainda em tons marfim, a cama encostada à parede com o fio com lâmpadas em volta dela. Os porta-retratos permaneciam na prateleira ao lado da cama, assim como alguns em cima da penteadeira. Era como voltar a nove anos atrás.

— Vovó… — falei, sentindo a voz falhar. Ela me olhou, segurando uma das minhas mãos. Olhei em seus olhos e sorri de canto. – Obrigada.

— Sempre estou aqui por vocês, querida.

Acariciou meus ombros com uma mão e com a outra puxou a porta, me deixando sozinha ali. Soltei todo o meu ar e passei os olhos por todo o quarto, deixando a mala em um canto qualquer. Era bom estar em um lugar sem brigas, discussões e agressões. Era bom estar com Marie.

Deixei meu corpo repousar sobre a cama assim que me aproximei dela. Estava exausta, precisando urgentemente de um banho decente, mas meu cansaço não me permitia de levantar de onde estava. Fechei os olhos com força e levei uma das mãos no rosto, passando a mão por ele. Contragosto, pus os cotovelos no colchão macio dando impulso com eles para me sentar, segui até a mala e peguei uma muda de roupa qualquer. Iria tomar um banho e voltar para a cama, sabendo que não demoraria muito para dormir. Segui rumo ao banheiro no corredor e por sorte ninguém estava o ocupando, assim entrei rapidamente e logo me despi. Deixei a água do jeitinho que eu gostava e entrei no chuveiro, sentindo a água morna cair sobre meu rosto e corpo. Foi, com toda certeza, uma enorme sensação de alívio, era como se eu estivesse limpando minha alma. Resolvi não demorar muito ali, pois meus olhos estavam fechando sozinhos de tanto sono. Enrolei-me na toalha enxugando o corpo e os cabelos, pondo a roupa rapidamente e segui até o espelho. Precisaria de uma longa noite de sono para repor uma aparência agradável.

O corredor estava silencioso como antes. , provavelmente havia pegado no sono assim que ficou no quarto sozinho. Ouvi o barulho da televisão vindo da sala, vovó estava lá e de onde eu estava, consegui vê-la com os olhos fixos na tela do aparelho. Adentrei o quarto e segui até minha mala, tirando o caderno que trouxera. De dentro dele puxei a fotografia, deixando um sorriso torto escapar enquanto ia até o porta retrato, a colocando. Não pensei duas vezes para me jogar na cama e respirar fundo, não contendo a vontade de fechar os olhos. E antes que eu pudesse fazer qualquer coisa a mais, tudo se transformava em um borrão.

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Abri os olhos rapidamente, assustada com as batidas na porta e levantei o pescoço, podendo ver entre a porta e o batente. Ele me observava e seu olhar transmitia um pedido de desculpas. Espreguicei-me, sentando na cama e o chamei para sentar ao meu lado. Senti suas mãos acariciando meus cabelos e deixei minha cabeça tombar em seus ombros.

— Como se sente? — perguntou, virando o rosto para mim.

— Cansada, mas um pouco melhor. — sorri minimamente, virando meu corpo para ele. tinha os cabelos bagunçados, como normalmente usava. Vestia camisa de manga branca e calça jeans escura, o denunciando que iria sair. — Aonde vai?

Ele abaixou o olhar, encarando suas vestimentas e soltou uma risadinha fraca, voltando a me olhar.

— Vou resolver algumas coisas. Talvez eu demore a chegar. — comentou, passando o polegar em minha bochecha e se levantando em seguida. O segui com o olhar, o mesmo parou em minha frente. — Fique por perto. — beijou minha testa, saindo do quarto em seguida. Ele realmente sabia que eu não iria ficar em casa e que deixaria a curiosidade tomar conta de mim, saindo para explorar o bairro. Não só o bairro, mas de momento eu não me arriscaria. Fui até a mala ao lado da penteadeira, a puxando para cima da cama. Olhei pela janela e pude observar o céu em tons laranja, anunciando o fim de tarde. Era uma das lembranças mais bonitas que eu tinha do lugar.

Tirei um short jeans escuro, junto com a blusa preta e branca de manga três quartos que estava logo em cima, rapidamente havia vestido a roupa tendo sorte por não estar amarrotada. Virei o corpo, encontrando os tênis jogados perto do closet e os calcei. Soltei os cabelos, desembaraçando-os com as mãos, sem me importar muito em penteá-los, estava bom do jeito que estava. Observei bem meu rosto, percebendo que a olheiras haviam sumido um pouco, mas que ainda permaneciam lá. Rolei os olhos, dando de ombros. Eu não conhecia ninguém naquele lugar, então não estava ligando em não sair maquiada.

Saí do quarto, encontrando Marie na cozinha preparando o que parecia ser a janta já que o cheiro de carne assada exalava o local inteiro. Dei um sorrisinho e segui até o balcão, me debruçando nele. Ela pegou a travessa e se virou, tomando um susto ao me ver ali. Colocou uma das mãos no peito e riu fraco com meu ato.

— Querida, não apareça assim. Quase me mata de susto. — balançou a cabeça, colocando a travessa em cima do balcão.

— Desculpa. O cheirinho estava tão bom, precisei parar aqui. — dei de ombros, retomando minha postura. — Eu vou sair um pouco, ver o quanto a vizinhança mudou, tudo bem? Se chegar antes, a senhora pode avisar a ele para mim?

— Claro, querida. Só tome cuidado e não volte muito tarde. — olhou esboçando um sorriso incrivelmente branco. Sorri de volta, saindo da casa e parando na calçada.

Olhei para os dois lados, pensando seriamente por onde seguir. Ir em direção à praia ou em direção ao centro da cidade? Virei meu corpo em direção às outras ruas e segui, observando as casas em volta. O bairro não estava tão diferente como eu pensava, apenas as casas haviam passado por uma ótima reforma. Olhei para algumas pessoas que passavam do outro lado da calçada, tentando de uma forma, mesmo que falha reconhecer alguma. Nem mesmo James, o vizinho com quem eu e costumávamos brincar, parecia morar mais ali. Olhei para trás, precisamente para a casa onde ele antigamente morava e isso me fez lembrar os cabelos negros e o sorriso largo no rosto que ele tinha. Ele era um garoto legal, costumávamos ficar sentados na calçada vez ou outra, jogando conversa fora.

Observei o sol se pôr assim que dobrei a esquina, percebendo que já estava longe de casa. Próximo a mim estava uma enorme praça e nela, muitas pessoas conversavam e se divertiam. Segui meus olhos para vários grupinhos de pessoas que aparentavam ter minha idade. Eles gargalhavam e conversavam entre si e por um momento quis saber do que tanto eles riam. Sorri comigo mesma e balancei a cabeça, seguindo até a calçada da praça, caminhando reto e percebendo que estava me aproximando do que mais parecia o centro da cidade. Já havia anoitecido e as luzes dos postes estavam acesas, iluminando completamente o lugar. Muitas pessoas passavam por mim animadas, me fazendo no fundo, ficar animada também.

Pus uma das mãos no bolso, a fim de pegar o celular e ver as horas, mas tudo que senti foi o bolso vazio, me fazendo arregalar os olhos. Droga! Eu tinha esquecido o celular em casa.
Olhei ao redor tentando localizar onde estava, constatando que havia várias lojas por ali. Hurley, Volcom, Subway, Quiksilver… Estreitei os olhos, olhando em volta. Não me lembrava de ter, algum dia, visto aquelas lojas por ali.

Olhei para trás, não lembrando do caminho de casa e sentindo um leve pavor crescer dentro de mim. Calma, você não deve estar tão longe assim — eu dizia para mim mesma tentando me acalmar, o que não deu muito certo já que eu estava parada no meio da calçada sentindo algumas pessoas esbarrando em mim. Olhei para a loja na minha frente, Hurley. Eu podia muito bem entrar e perguntar, claro, mas a loja estava abarrotada de pessoas e aquilo só fez meu nervosismo aumentar. Fechei os olhos rapidamente e soltei o ar com força, olhando para a orla da praia. Eu me sentaria em um dos bancos, conseguiria falar com e tudo acabaria bem. Pelo menos era o que eu pensava.

Atravessei a rua, mesmo sem olhar para os lados e me aproximei do banco vago, sentando ali. Olhei para um dos lados e observei as pessoas caminhando lentamente, sem se preocuparem com nada. Queria estar calma desse jeito – pensei. Pus as mãos na cabeça e a abaixei lentamente, apoiando meus cotovelos na perna. Mal tinha chegado à cidade e já tinha me perdido. Incrível.

Enquanto estava concentrada me praguejando mentalmente, ouvi risadas ao meu lado esquerdo. Uma era um pouco escandalosa e as outras, mais baixas. Resmunguei, virando meu rosto na direção das pessoas que riam e me deparei com um grupo de garotos alternando o olhar deles, para mim. Deviam ter uns quatro, cinco garotos em uma rodinha. Alguns estavam em pé e outros sentados.

Balancei a cabeça em negação, rolando os olhos assim que um deles olhou para mim e riu debochado. Aquilo me irritou, mas não quis transparecer e minha vontade foi de sair dali o mais rápido possível. Não o fiz, pois eu não queria me perder mais ainda do que já estava perdida.

Deixei minha cabeça tombar para o lado, observando a loja do outro lado da rua. O que eu poderia fazer àquele momento?

— Ei, está perdida? — ouvi a voz perguntando e olhei para o lado para saber se era comigo mesmo que estava se referindo. Assim que virei o rosto, dei de cara com cinco olhares curiosos em minha direção. O moreno do meio, o que provavelmente tinha perguntado me encarava com uma sobrancelha arqueada. Estava de boné, vestia uma regata preta, me fazendo observar seus braços torneados e uma bermuda creme. Em baixo dos seus pés havia um long, ele o balançava de um lado para o outro.

— O que você acha? — perguntei óbvia. Ele riu, sendo acompanhado pelos amigos. Ao seu lado, tinha outro moreno, mas este estava concentrado no celular. Os outros três estavam de pé, o loiro menor parecia idiota, ria de qualquer coisa que o musculoso falava, o branquinho tinha os olhos castanhos cravados em mim junto a um sorriso malicioso nos lábios e por final, o loiro que estava de pé ao lado do de boné parecia não estar nem aí para o que o amigo falava. Ele olhava na direção oposta, sem olhar para mim, as mãos estavam no bolso da calça preta. Tinha o semblante sério e parecia ser o único ali que não estava interessado em olhar para mim.

— Acho que você está um pouco nervosa. — colocou as mãos para cima, indicando inocência. O loiro baixinho riu e eu o olhei com a pior cara possível. — Você parece nova demais para ser tão estressada.

Deixei meu olhar cair sobre ele, arqueando uma sobrancelha.

— E você parece ser um otário e nem por isso eu disse alguma coisa. — rebati, os fazendo rir. Já disse o quanto isso estava me irritando?

— Fala sério. — o loiro mais alto resmungou, rolando os olhos. Passou os olhos do musculoso para mim, parando o olhar no meu rosto, logo desceu para o meu corpo parecendo me estudar. Bufei, levantando e atravessando a rua rapidamente, a fim de achar o caminho de volta para casa. Mesmo estando do outro lado da orla, pude ouvir a risada alta e nítida invadir meus ouvidos, me fazendo resmungar um palavreado baixo.

Você é foda, ! — um dos garotos gritou. Rolei os olhos.

Essa era o tipo de grupinho que eu adorava manter distância, mesmo parecendo um pouco impossível já que eu parecia ter um ímã em direção a eles. Pus as mãos no bolso do short e continuei caminhando mesmo não sabendo para onde estava indo. Eu só queria sair dali o mais rápido possível. Não fazia ideia de que horas eram, mas deduzia ser quase oito da noite, o que não parecia já que a rua parecia ter ainda mais pessoas e a agitação era enorme. Respirei fundo e encolhi os ombros percebendo que alguém andava ao meu lado, os passos sincronizados aos meus.

— Não precisa fingir que não sabe que estou aqui. — fiquei tensa ao escutar a voz rouca ao meu lado e virei o rosto surpresa, estranhando e o encarando. O loiro mais alto caminhava vagarosamente, tirou o cigarro dos lábios sem virar sua atenção para mim e soprou o ar. — Posso não ter prestado atenção, mas você estava visivelmente apavorada, entregando o quão perdida está. O que denuncia também, que é nova na cidade.

Virei o rosto para frente, voltando a observar a rua que caminhávamos. O movimento ali era pouco, mas isso não me tranquilizava, só fazia com que eu ficasse mais tensa. Além de perdida, estava sendo acompanhada por um cara que nem conhecia e que parecia, realmente, não ser legal.

O olhei de relance, focando minha atenção nos carros.

— Não sou nova na cidade. — murmurei. Ele ficou em silêncio e balançou a cabeça em seguida. Parecia ser exatamente o tipinho dos amigos, só não entendia o porquê de ter saído do seu grupo e estar caminhando comigo. — O que foi? Pode dizer. — virei meu rosto para ele, o encarando. — Qual é a sua? Tenho certeza que não saiu de lá apenas para me acompanhar. — dei ênfase, observando sua expressão calma. Ele virou o rosto para mim, com uma das sobrancelhas arqueadas.

— E quem foi que disse que vim te acompanhar?

Sua resposta me pegou em cheio, me fazendo até ficar um pouco sem graça, mas não demonstrei. Os olhos verdes passeavam toda a rua, provavelmente olhando para as pessoas que passavam em volta. Por onde passávamos, ele atraía olhares da maior parte das garotas, fazendo com que elas olhassem para mim também, mas ao invés dos olhos brilharem, eles nitidamente expressavam desdém. Óbvio que os olhares brilhantes eram para ele. Apesar de ser um tanto arrogante, ele era bonito. Tinha os cabelos loiros bagunçados, os olhos verdes eram opacos, mas ainda bonitos. Ele tinha o corpo torneado, não como o musculoso. Não era exagerado, e isso o tornava mais “normal”, por assim dizer. Poderia até chamá-lo de um pedaço de mau caminho, mas seu ar convencido não me deixava achar isso.

Assim que olhou para frente, virei meu rosto na tentativa de que ele não percebesse que eu o observava. Talvez tenha dado certo, pois ainda continuava com o semblante calmo, porém sério.

— Então se não está me acompanhando, por que me segue? — arqueei a sobrancelha. Ele soltou uma risada abafada dando uma última tragada no cigarro, o jogando no chão.

— Vamos rever os fatos, você está perdida. Ou seja, não sou eu quem está te seguindo. — olhou óbvio. Enfiou uma das mãos no bolso da calça. — Aliás, você tem o privilégio de ter minha pessoa ao seu lado. Não devia reclamar tanto assim.

Rolei os olhos, bufando. Um completo idiota.

— Qual o seu problema?

— O meu problema? — perguntou rindo irônico. — Eu digo algo, você vem com sete pedras e eu que tenho algum problema? Você não devia ser tão esquentadinha, boom.

Olhei para ele com uma sobrancelha arqueada. Boom? Que droga era aquela?
Ele me olhava sério, mas seus olhos estampavam um misto de diversão.

Boom? Você está falando sério? — balancei a cabeça, achando aquilo ridículo. Olhei em volta e pude perceber o quanto estávamos longe do centro dessa vez. E eu, obviamente, não fazia ideia de onde estava. Resolvi apertar o passo, caminhando mais rápido. Talvez assim me livrasse do garoto e tentaria encontrar o caminho de casa.

— Não é como se andar rápido fosse adiantar alguma coisa. — comentou atrás de mim. — E cá entre nós, você não faz ideia para onde está indo. — se aproximou, olhando para mim. Rolei os olhos, tentando não olhar para ele também. Ainda tinha os olhos cravados no meu rosto e eu tinha quase certeza que se eu não falasse nada mais, ele continuaria me olhando.

— O que? — virei o rosto de vez, o olhando.

Ele deu um sorrisinho de lado, provavelmente gostando de me irritar.

— Posso te ajudar. — disse.

— Não preciso da sua ajuda. — o olhei com desdém. Ele me olhou de soslaio, rolando os olhos.

— Tudo bem.

Parou no meio do caminho, me fazendo parar também. O ato do garoto me fez entrar em alerta, até então quando ele estava andando comigo, eu havia esquecido o quão estava perdida, mas assim que ele deu para trás, percebi que estava não só ferrada como muito ferrada. O loiro me olhou com um sorriso vitorioso nos lábios. Ele sabia que eu precisaria da sua ajuda e odiava ter que admitir que era verdade. Engoli em seco, olhando em volta. Não reconhecia o local e só me restava, infelizmente, a ajuda dele.

Brinquei com meus dedos um pouco nervosa e olhei para ele, tentando não demonstrar meu nervosismo. Apesar de meus dedos estarem mostrando isso.

Soltei o ar, rolando os olhos. Ele continuava me encarando.

— Olha, eu preciso chegar em casa o mais rápido possível. Provavelmente meu… — soltou um pigarro, me interrompendo. Franzi o cenho esperando sua resposta, mas ele sequer disse algo e se aproximou.

— Eu vou te ajudar, boom.

— Dá pra parar de me chamar assim? — o olhei irritada. Ouvi sua risada fraca e logo o vi passando por mim, começando a caminhar. Ele estava me tirando do sério com aquele apelido idiota.

O segui sem pensar muito. Estávamos, agora, em uma rua repleta de casas, bem longe do centro da cidade. Os postes iluminavam pouca coisa, deixando parte da rua escura. Olhei de canto para o garoto e ele olhava para frente, como se estivesse adorando observar as casas ao redor.
Ouvi risadas, virando e vendo algumas pessoas caminhando na calçada oposta.

— Você poderia me dizer se lembra de alguma coisa, para começar. — disse quebrando o silêncio.

— Se eu lembrasse, não precisaria da sua ajuda.

Touche. — arqueou a sobrancelha. — Não lembra de algum lugar que tenha passado?

Olhei em volta, tentando me recordar de algum lugar, mas nada me vinha em mente. A risada escandalosa invadiu meus pensamentos, me fazendo lembrar de seus amigos e logo pude me recordar do grupinho que conversava na praça que tinha passado.

— Uma praça. Ela estava lotada quando saí de casa mais cedo. — Digo, dando de ombros. Olhei para ele e o mesmo deixou um sorrisinho cúmplice escapar. — O que?

— Você é a garota nova que disseram.

Franzi o cenho ao ouvi-lo. Eu mal tinha chegado à cidade, não tinha dado nem tempo direito para alguém ter me visto, até porque eu não conhecia ninguém dali. Eu iria retrucar, mas assim que viramos a esquina, avistei minha casa no final da rua. Deixei um grande suspiro escapar, o que fez o garoto me olhar de um jeito engraçado.

— Graças a Deus. — comentei, aliviada. Ele deu de ombros, provavelmente ignorando.

Caminhamos mais um pouco e antes de chegarmos a frente à casa, paramos. Olhou para minha casa e em seguida para mim, com o semblante de antes, sério.

— Está entregue. — disse, pondo as mãos nos bolsos da calça. Balancei a cabeça afirmando e ele apenas deu um pequeno aceno, se virando para ir embora. Estava um pouco atordoada ainda, mas consegui chamá-lo. Virou o rosto em minha direção, me observando.

— Bom, eu não sei como te agradecer direito, mas… — desviei meu olhar do dele. — Obrigada.

Ele tinha os olhos fixos no meu nesse momento e me analisava. Talvez fosse impressão minha. Os cabelos loiros balançavam conforme o vento fraco e os olhos agora estavam escuros, pelo breu da noite. Dei um sorriso fraco e ele deu de ombros.

— Por nada, boom.

Rolei os olhos, quase enfiando o dedo no meio na cara dele, mas assim que pisquei, ele já estava longe virando a esquina. Deixei todo o meu ar sair e fechei os olhos com força, achando mesmo que por um momento eu não voltaria para casa mais e ao lembrar do meu salvador, me praguejei mentalmente lembrando que não havia perguntado seu nome. Ótimo, . O cara te ajuda e você ao menos pergunta o nome dele — pensei.
O quão irônico isso podia ser?

 

Capítulo 03

Meus olhos permaneciam fechados. E mesmo estando a um quarteirão da praia, eu conseguia ouvir o barulho das ondas quebrando. Uma pequena fresta na janela permitia a entrada do sol, que consequentemente, ia de encontro ao meu rosto, mas aquilo não me incomodava. Era bom. Não conseguia ouvir vozes, o quarto estava imerso em uma paz profunda, apenas os carros que passavam na rua faziam mínimo barulho.

Espreguicei-me ainda deitada enquanto pensava no que iria fazer, mas meus pensamentos não demoraram muito tempo já que ouvi as batidas na porta do quarto. Não deu tempo de responder, já que consegui avistar a cabeça de dentro do quarto. O olhei, sorrindo.

— Bom dia, dorminhoca. — disse, entrando no quarto. — Você sabe que horas são?

— Não pretendo saber. — ri baixo, me sentando ao seu lado. estava sem camisa, trajando apenas o short azul, nos pés tinham havaianas brancas.

Meu irmão era bem bonito, isso eu não podia negar. Os olhos azuis eram completamente perceptíveis, isso quando estavam azuis e não verdes. Eu tinha sido a única que herdara a íris castanha de meu pai.

— Bom, então é melhor ir se levantando. Marie falou que queria fazer compras e que com certeza iria carregar você. Sinto muito, . — riu da minha cara de decepção.

— Você poderia dizer que, sei lá, iríamos fazer algo juntos. — cruzo meus braços, indignada. Esticou suas mãos, bagunçando meu cabelo.

— Relaxa. Vai ser legal, vai poder comprar algo novo. Quem sabe, talvez, um par de tênis? — arqueou a sobrancelha, sugestivo. Dei de ombros, começando a achar interessante. Não era todo dia que eu tinha a oportunidade de comprar o que eu quisesse e como conhecia Marie, ela compraria qualquer coisa que eu achasse interessante.

— E você vai fazer o que enquanto ficamos fora? — o vi se levantando e indo em direção à porta. Virou o rosto e sorriu, levantando um dos braços mostrando o muque.

— O que eu faço de melhor. Você sabe. — piscou e saiu do quarto me fazendo soltar um grande resmungo e cair deitada novamente na cama. Eu iria fazer compras enquanto ele iria fazer o que eu mais gostava: surfar. Isso só não me deixava mais irritada, pois sabia que ficaríamos ali por bastante tempo.

Levantei da cama cambaleando um pouco já que ainda estava com um pouco de sono e segui em direção à cozinha, enquanto vovó preparava o almoço. Ela me olhou esboçando um sorriso aberto e tirou o avental do corpo.

— Bom dia, querida. Dormiu bem? — perguntou, saindo da cozinha. Balancei a cabeça assentindo. — te avisou que vamos sair? Claro, não precisa ir se não quiser.

E eu não queria, mas não iria fazer uma desfeita logo para minha avó. Balancei a cabeça rapidamente tentando um entusiasmo e ela sorriu ainda mais.

— Pode almoçar se quiser, logo sairemos.

Deixe-a na sala e fui até o banheiro tomar um banho rápido. Decidi não lavar o cabelo, pois já tinha o lavado no dia anterior, então não havia necessidade. Assim que acabei do banho, segui direto para o quarto procurando uma roupa mais arrumadinha, digamos assim. Do jeito que conhecia Marie, sabia que ela não iria me levar só ao centro da cidade.

Olhei para a janela, observando-a aberta e a cama desaarrumada. O sol, provavelmente, estava queimando só pelo tanto que brilhava do lado de fora e isso me fez optar por uma roupa mais levinha. Um short alto claro com uma blusa curta folgadinha branca. E claro, não podia me esquecer dos tênis, só que dessa vez, um par branco normal, já estava um pouco surrado. Segui até a penteadeira e sentei no banquinho, puxando o cabelo para cima.

Foi logo quando terminei de ajeitar o cabelo, ouvi a leve batida na porta. Olhei para o lado e vovó me observava com um sorriso bobo no rosto.

— Você está tão linda, . — disse, me observando. Fiquei um pouco envergonhada, até porque não era acostumada com elogios tão diretos assim. — Você não vai almoçar? — perguntou. Neguei com a cabeça. — Então vamos?

Saí do quarto junto com ela e olhei para os lados, procurando meu irmão, porém ele não estava em lugar algum. Dei de ombros e segui até a calçada com ela, vendo-a ir em direção à caminhonete branca.

— Gostei da caminhonete. Bem legal. — comentei, me sentando no banco ao lado dela. Era uma caminhonete simples, mas completamente limpa e conservada.

— Comprei por um preço ótimo. O antigo dono não a queria mais, então logo se desfez. — olhou para mim rapidamente assim que íamos em direção à cidade. Abaixei o vidro, sentindo a brisa de encontro ao meu rosto e deixei um sorriso escapar, confortável. Observei as pessoas na rua, obviamente indo para a praia já que estavam com roupa de banho. Olhei de relance para vovó e ela ainda tinha aquele sorriso no canto dos lábios. Como alguém conseguia sorrir tanto assim?

Passamos por algumas lojinhas até chegar à avenida. Não tinham tantos carros transitando por ali, o que era bom já que não pegaríamos engarrafamento. Como o carro estava silencioso, resolvi ligar o rádio e os acordes de Levitating invadiram meus ouvidos, me animando. Era o tipo de música que mesmo estando para baixo, instantaneamente você sentia vontade de sair tentando alguns passos por aí.

Paramos no sinal e, como minha janela estava aberta, pude ver alguns carros parando ao nosso lado. O vento estava mais fraco, mas ainda assim continuava fresco. Encostei minha cabeça no canto da janela e ouvi uma música no estilo Paris Hilton ficando cada vez mais alta. Se não fosse ela cantando, com certeza era alguém com a voz tão irritante quanto.

Fechei os olhos soltando um resmungo assim que a música ficou ainda mais alta e pude ouvir o ronco do carro ao meu lado. Virei o rosto vagarosamente e observei aquela visão do inferno. O carro que com certeza era muito caro estava com o teto solar abaixado, duas garotas estavam de pé com as mãos para cima e uma loira estava sentada no banco motorista. Segui meu olhar para o capô do carro que brilhava mais que o sol de tanto glitter que ele tinha. Só podia ser brincadeira.

I’d let you had I known it, why don’t you say so?… — elas cantaram tão alto que eu pude sentir meus neurônios explodindo dentro da cabeça. Respirei fundo e observei a garota que tinha os cabelos loiros claros, quase em um tom de branco. Ela tinha uma sobrancelha arqueada me encarando.

— Fala sério. — murmurei. No minuto seguinte arrancou com o carro, já sumindo no final da avenida. Olhei para vovó e ela ria baixinho enquanto dirigia. Só podia ser coisa de Huntington Beach.

— Não precisa ficar com essa carinha, . Não acredito que você já esqueceu de como a cidade é. — olhou de relance para mim e esticou uma mão, acariciando meu queixo.

— Não é esquecer. Eu só não me lembro… disso. — fiz uma careta, olhando na direção que o carro tinha ido. Ele parece entender e continua dirigindo até pararmos em mais um sinal, o qual não demorou muito.

Alguns minutos depois, estávamos estacionando em frente a uma espécie de shopping, era bem colorido e próximo ao mar, apesar de apenas ter passagem pelo píer no final da rua. Vovó desceu do carro numa animação anormal, porque apesar de ter para lá dos seus sessenta anos, ela parecia jovem. Tinha uma disposição que até eu ficava com inveja.

A olhei por alguns segundos antes de entrar no lugar ao seu lado. Tinha a altura mediana, os cabelos grisalhos iam até a altura de seu pescoço, impecável. Ela adorava o tom branco dos seus fios. No rosto havia poucas rugas, mas ela parecia pouco ligar e ainda sim era linda. Pus uma das mãos no bolso do short e observei a fechada do mini shopping. Tinha um enorme letreiro em marrom com o nome Bella Terra. Adentrei o local, sentindo o ar gelado de encontro a minha pele, indicando que o ar condicionado estava ligado. Vovó seguiu na frente na direção oposta e fui atrás, observando todo o lugar. Passamos por várias lojas, mas parece que nenhuma delas a agradou.

— Normalmente venho para comprar algumas coisas para a casa. — se virou para mim, explicando. Balancei a cabeça em sinal de que estava prestando atenção. — Mas essa é uma ocasião especial, minha netinha está morando comigo. É maravilhoso!

Passou um dos braços em volta do meu pescoço, me fazendo rir fraco. Realmente fazia muito tempo que eu não via Marie e estava com saudades, mas Hector sempre era o contra de virmos para Huntington. Então, desde que nos mudamos aos nove anos, nunca mais voltamos. vivia dizendo o quanto nossa mudança tinha sido decepcionante. E cá entre nós, foi a pior coisa que aconteceu.

Entramos em um departamento. Vovó me acompanhou até o centro da loja e eu não conseguia parar de observar aquele lugar. Além de ser enorme, vendia qualquer tipo de coisa e, claro, a primeira parte que passei era repleta de calçados. Por um instante achei que minha mandíbula fosse cair, já que desde que entrei no lugar minha boca estava aberta e eu estava surpresa. Bem na minha frente estavam pares de todas as marcas possíveis. Nike, All Star, Vans, Etnies, Lakai… Observei as duas paredes onde os tênis estavam colocados até escutar Marie e dar um pulo de susto.

— Vovó! — digo assustada, soltando uma risadinha.

Olho para ela ao perceber que a mesma olhava a prateleira. Parecia observar todos os tênis detalhadamente, assim como eu fazia antes. Tinha as sobrancelhas franzidas.

— Esse vinho é muito bonito. — apontou para um da Nike. — Até porque você tem um azul e um branco. É sempre bom variar, não?

Deixei um sorrisinho escapar e pela primeira vez naquele dia, me senti verdadeiramente animada. Não era só porque eu sabia que ela ia comprar o tênis para mim, mas fiquei feliz por ela me ajudar com a escolha e principalmente, por saber que prestava atenção em mim.

🌴
Fechei os olhos instantaneamente assim que senti o sol fraco na calçada. Diferente de quando chegamos, a rua estava um pouco mais calma e vovó também. Depois de termos comprado quase o shopping inteiro – e não era exagero -, seguimos em direção ao carro que não estava tão longe assim. Eu tinha algumas sacolas nas mãos, estavam pesadas e vovó havia achado válido deixarmos as coisas no carro para comer algo. Esperei até que Marie o trancasse e segui com ela para a praça de alimentação ao ar livre, quase ao lado do mar. Paramos na entrada e olhei para a extensão do lugar, observando que não estava tão cheio assim. Sentamos em uma mesa ao fundo, tendo uma vista incrivelmente linda daquela paisagem. O mar estava calmo e as gaivotas passavam ao longe.

Ajeitei-me na cadeira olhando em volta, tentando escolher em qual lugar eu comeria, talvez Burger King, estava morrendo de fome. Esperei um pouco até vovó decidir, até porque quem estava pagando era ela.

— O que quer comer? Hoje você quem escolhe. — me olhou sorrindo. Encolhi os ombros, tentando não ouvir minha mente que gritava batata frita.

— Ah, vovó, pode escolher. Estou morrendo de fome, então qualquer coisa para mim está bom.

— Querida, preste atenção. Estamos rodeadas de ótimas redes de fast food. — olhou em volta me fazendo olhar também. — O que quer comer? É só me dizer e sairemos daqui cheias.

Dei uma risadinha e abaixei a cabeça, tornando a olhar em volta. Eu realmente estava indecisa, não sabendo o que escolher ao certo. Entortei os lábios e deixei a cabeça tombar para o lado assim que olhei para o Burger King.

— Burger King. Qualquer lanche que venha com a maior porção de batata frita. — disse, com os olhos arregalados. Ela riu e se levantou, seguindo até o lugar.

Observei-a entrar na fila e virei o rosto em direção ao mar, soltando um grande suspiro. Já estávamos em Huntington fazia uma semana, havia passado muito rápido. Tão rápido que logo as aulas começariam. , no dia em que me perdi, havia saído para tentar resolver algumas coisas, como ele disse. E como tínhamos saído de São Francisco, mas não acabamos os estudos, logo resolveu com Marie e a mesma nos matriculou na escola mais próxima, a Ocean View High. Achei um pouco estranho, claro. Estava e ainda estou receosa com Hector e Norah. Eles podiam nos levar a qualquer momento, aquilo não era definitivo. E apesar de esses ser um dos grandes empecilhos, eu confiava no meu irmão e sabia que junto dele, poderia fazer aquilo dar certo.

E eu conhecia vovó Marie muito bem para saber que ela não deixaria que eles nos levassem assim, sem questionar. Isso me deixava mais tranquila.

Olhei para a fila novamente e Marie agora vinha em minha direção. Tinha uma bandeja com os lanches, as batatas e dois enormes copos de suco. Meus olhos com certeza brilhavam.

— Eu não sabia se você ia querer refrigerante e como eu bebo suco, achei que você poderia querer também. Tudo bem para você? Se quiser, posso pedir um refrigerante separado. — se sentou, pondo a bolsa na cadeira do lado.

Balancei a cabeça rapidamente em negação. Eu não tomava refrigerante fazia anos.

— Não tomo refrigerante. Ótima escolha, vovó. — sorri para ela e dei uma enorme bocada no meu lanche. Sequer havia mastigado direito e já estava dando outra bocada. Esse é o resultado de acordar tarde e não almoçar, você simplesmente sente um buraco crescer na sua barriga.

Ficamos um tempo comendo em silêncio até que esse silêncio começou a me incomodar. O lanche já tinha acabado e eu comia as batatas lentamente enquanto mexia no canudo do suco e observava as pessoas em volta. Marie percebeu, pois soltou um pigarro e pousou os olhos em mim. Por um segundo achei que iria levar um sermão, apesar dela não fazer isso, mas sua voz doce me tranquilizou em seguida.

— Eu não sei ao certo, apesar de saber que vocês vão me contar na hora certa. — engoli em seco já sabendo do que se tratava. Ah, não… — Norah me ligou.

Por um segundo achei que iria começar a chorar, mas pressionei os lábios focando meu olhar na mesa. Não tínhamos contado para Marie ainda e estava morrendo de medo de que ela tivesse falado com Norah onde estávamos. Isso só colocaria tudo a perder.

Ergui meu olhar subitamente, a olhando nervosa.

— Você não falou nada para ela, não é? Ela está vindo para cá? Você não…

Ela esticou sua mão, segurando a minha por cima da mesa e a acariciou, tentando me acalmar.

, querida, fique calma. — olhou em meus olhos, compreensiva. — Sei que vocês não apareceriam de uma hora para a outra em minha casa, ainda mais sozinhos. Mas, também sei que para isso ter acontecido, vocês tiveram um motivo. — respirei fundo. — Estou certa? — balancei a cabeça, assentindo.

Ela ficou quieta por alguns segundos, ainda com a mão sobre a minha.

— Ela perguntou se estavam comigo. Eu neguei, e apesar de odiar ter que mentir para a minha própria filha, eu precisei fazer isso. — dei um pequeno sorriso, mas agora ela estava séria. Eu sabia que ela estava sendo sincera em tudo que falava. — Ficarão comigo o tempo que precisarem. Um mês, um ano ou o resto da vida. Eu amo vocês, você sabe disso, não é, querida?

Ergueu sua mão para meu rosto, o acariciando com o polegar. Senti os olhos ficarem marejados, mas logo me recompus acariciando sua mão também.

— Obrigada. Você não sabe o quanto isso significa para mim e para .

Dessa vez ela sorriu. Um sorriso acolhedor. Pegou sua bolsa e se preparou para levantar, logo fiz o mesmo percebendo que já estava tarde, pois o céu estava ficando em tons alaranjados. Não pude deixar de sorrir.

Peguei meu copo que ainda continha uma boa quantidade de suco e saí atrás dela, ajeitando minha roupa. Saímos da praça de alimentação desviando de algumas pessoas e paramos na calçada. Marie parou em frente a algumas vitrines, analisando-as e enquanto ela fazia isso me afastei um pouco, levando o canudo do suco na boca. Estando ali parada, pude me lembrar que quase não mexi no celular e o peguei no bolso, aproveitando para ver as horas. Eram cinco da tarde e assim que iria desligar o display, avistei o alerta de uma nova mensagem.

Era de .

“Estou preto! Você trouxe algum hidratante?”

Balancei a cabeça, soltando uma risada alta. Era evidente ele ter ficado preto, já que o mesmo toda vez que ia para a praia esquecia seu protetor.

Troquei o copo de mão e já começaria a responde-lo, não fosse por um grupo de garotos passando de bicicleta, aquelas pequenas de manobra. Com isso, tomei um susto deixando o celular quase cair ao chão e o suco tombar para o lado, abrindo sua tampa e espirrando na minha roupa. Arregalei os olhos, não sabendo para o que olhar no momento. O copo do suco virado em minha mão, o celular espremido contra meu peito ou para o bando de idiotas que haviam parado longe de mim.

Assim que ergui meu olhar, uma garota passou na mesma velocidade em um long, sorrindo para mim. Ela tinha uma sobrancelha arqueada, como se achasse graça da situação e quisesse dizer um enorme “bem feito!”. A morena parou ao lado dos garotos, me fazendo olhá-los. O sorriso aberto no rosto, o boné na cabeça e a risada escandalosa. O mesmo garoto da orla no outro dia. Musculoso. Ele estava em cima da bicicleta, me encarando na maior cara de pau.

Respirei fundo, sentindo meu sangue borbulhar. Peguei o celular decentemente e fechei as mãos, pronta para ir em direção ao babaca e enfiar todos os meus dedos naquele focinho que ele tinha na cara. Sim, eu queria quebrar seu nariz, mas não faria aquilo. Marie provavelmente me acharia uma louca.

Desviei meu olhar observando minha avó se aproximando e ao parar em minha frente, arregalou os olhos, parecendo não entender nada.

— Oh, , o que aconteceu? — segurou meu ombro, olhando minhas roupas. Automaticamente meus olhos seguiram para o garoto de boné e senti minha vista queimar de raiva. Provavelmente eu estava aniquilando o garoto com o olhar. Marie olhou na mesma direção e estreitou os olhos. — Foram eles? Você o conhece?

Eu quis dizer que sim. Oh, sim! Só para me aproximar e acabar com o garoto, mas ele estava com quatro pessoas em volta e eu sairia perdendo. Tentei fazer minha respiração se acalmar, o que não adiantou já que senti o suco escorrendo pela minha barriga. Fechei os olhos rapidamente e balancei a cabeça, negando. Eu não poderia fazer nada além de soltar palavrões e resmungar até chegar em casa, então apenas o encarei pela última vez, vendo-o soltar uma risadinha para mim.

— Não. Não conheço.

Capítulo 04

And may the best of your todays

be the worst of your tomorrows

And may the road less paved

be the road that you follow

Have It All – Jason Mraz

Ouvi o barulho da chuva fraca e abri os olhos vagarosamente, soltando um resmungo por não ver os raios de sol invadindo o quarto. Tateei o criado mudo, ligando o display do celular que marcava seis da manhã. Já havia amanhecido e naquele dia, aquela era a pior parte. Não por simplesmente ter acordado àquela hora e não poder dormir e sim por ser o primeiro dia de aula dali há uma hora.

Encarei o teto por alguns segundos até que realmente me sentisse pronta para levantar e assim joguei as pernas para fora da cama, me sentando. Senti um leve tremor passar pelo corpo e constatei que aquela manhã estava um pouco fria, o que me deu um pouco de preguiça de sair da cama.

Segui em direção ao banheiro, não demorando muito em baixo do chuveiro já que a água não estava tão morna assim. Quando saí do banheiro, ouvi o barulho da televisão sendo ligada e quando passei em direção ao quarto, pude de relance ver Marie acendendo a luz da cozinha.

Entrei no quarto sem muita pressa, já que minha maior vontade era de continuar deitada até voltar a dormir. Decidi pegar qualquer roupa que fosse quente e confortável. O dia parecia continuar daquele jeito. Puxei a calça jeans do armário junto a uma blusa de manga branca e peguei o moletom vinho, o colocando. Deixaria para colocar os tênis depois, então só adiantei colocando as meias.

Saí do quarto bocejando e dei de cara com no corredor. Ele havia parado ao me ver, estava com os olhos estreitos pelo sono. Bocejou e passou uma das mãos no cabelo.

— Bom dia. — passou por mim, bagunçando meus cabelos. Dei um sorrisinho e o segui até a cozinha. Ele ainda estava com a calça de moletom.

— Bom dia, meus amores. — Marie se virou, ajeitando a mesa para o café. Respirei fundo e me sentei em uma das cadeiras. — , você vai se atrasar.

— E que horas são? — perguntou sonolento, erguendo o olhar até o relógio de parede. Arregalou os olhos ao ver as horas. Eram sete e meia. — Puta merda.

— Cuidado com a boca. — Marie repreendeu o olhando, mas não deixou de sorrir. Tomei um pouco do café que já estava no copo e comi rapidamente o pedaço de bolo. Ouvi passos rápidos e olhei para trás, vendo puxando as mangas do casaco, já com a mochila preta nas costas. Ele parecia tão animado quanto eu.

Deixou a mochila em cima do balcão e pegou dois grandes pedaços de bolo, os enfiando na boca. Franzi o cenho, rindo do ato do menino. Marie balançou a cabeça, se virando para lavar o que tinha usado. Enquanto o mesmo terminava de comer, corri ao quarto calçando os tênis e voltei para a sala.

— Já acabou? Eu sei que é uma cena daquelas chegar atrasado ao primeiro dia de aula, mas podemos deixar para depois, certo? — fez uma careta, pegando as coisas e indo em direção à porta. Fiz o mesmo que ele, mas caminhando um pouco mais devagar. Íamos em direção a calçada, mas paramos assim que ouvimos Marie nos chamar.

, segura. — jogou a chave do carro para meu irmão que a pegou no ar. Ele olhou para vovó sem entender. — Pode levar a caminhonete. Ocean View não é tão perto assim.

O olhei de lado e pude avistar um breve sorriso se formando em seu rosto, eu sabia o motivo daquela felicidade. Apesar de ser maior de idade e ter sua carteira, nunca teve um carro. E Hector nunca dava oportunidade para ele.

Entrei no carro jogando minha mochila no banco de trás e fez o mesmo, colocando a chave na ignição. Respirou fundo e olhou para mim, deixando uma risadinha escapar. Pelo menos aquilo me animou naquela manhã, mas só por alguns segundos porque em seguida já estávamos indo em direção à escola.

🌴

Desci do carro um pouco assustada com a multidão em frente da escola. Olhei para por alguns segundos e senti meu estômago revirar completamente. Minha maior vontade era de entrar no carro e seguir rumo a casa, aproveitando para voltar a dormir e não ter que olhar para todas aquelas pessoas próximas a mim.

Relaxei os ombros tentando não transparecer meu nervosismo e observei meu irmão se aproximando, enquanto colocava um dos braços em volta do meu pescoço. Inalei seu perfume suave e aquilo conseguiu me acalmar um pouco.

— Você está muito tensa para quem costumava não estar nem aí para começo das aulas. — comentou brincando e balançou meu corpo delicadamente.

— Não dá para estar nem aí quando se é uma escola nova, cheia de pessoas que você nunca viu na vida. — resmunguei.

— Relaxa. Vai ser tranquilo.

O olhei de relance e respirei fundo, voltando a olhar para todas as pessoas que conversavam e comentavam sobre o primeiro dia. Era evidente que a maior parte dos olhares estavam sendo direcionados a nós dois, me deixando um pouco incomodada. Apertei a alça da mochila, engolindo seco. estava com um sorriso fraco no rosto e não parecia ligar para aqueles olhares. Claro que a maior parte dos olhares para ele eram femininos e provocativos e era óbvio que ele estava adorando.

Observei o outro lado do estacionamento, onde parecia que habitavam os mais reconhecidos daquele lugar. Olhei para todos eles, tentando reconhecer mesmo que inutilmente alguém do grupo. Alguns garotos estavam sentados no capô de seus carros, outros encostados e alguns conversavam animadamente. Eles vestiam um casaco parecido, algo com o símbolo da escola.

Caminhei com até a entrada do colégio e seguimos até a direção que não estava tão vazia assim. Duas pessoas esperavam no corredor enquanto uma era atendida.

Fiz menção de entrar junto com ele assim que o vi se aproximar da porta, mas sua mão me parou no mesmo momento.

— Eu pego seus horários. Fique aqui.

— Claro. — murmurei, rolando os olhos.

Sem bater, ele abriu a porta e adentrou o local. Olhei para o lado, vendo um dos garotos que antes esperava, me encarar. Ele parecia me analisar vagarosamente. Já disse o quanto estava incomodada com isso?

O corredor não estava tão barulhento, mas as vozes do lado de fora do local eram altas e claras. Ergui os olhos na direção da porta e ao ver meu irmão sair com alguns papéis em mãos, soltei um enorme suspiro. Ele me olhou e apontou com a cabeça na direção oposta do corredor, para que eu o seguisse.

— Esses são os seus horários. Eu começo com Matemática e você… — puxou o outro papel, o olhando. — Literatura. Não ficamos juntos por hoje.

Olhei para ele espantada. Eu não podia ficar longe dele, não conhecia ninguém naquele lugar! Puxei o papel da sua mão, constatando que realmente estávamos separados hoje.

— Droga. — praguejei baixo. Baixo o suficiente para que o sinal indicando o início das aulas me interrompesse. Olhei suplicante para .

— São só algumas horas. Você consegue. — piscou para mim, ficando em minha frente. Olhou para as pessoas ao redor antes de voltar a me olhar. — Vamos. Eu vou te levar até a sua sala.

— Muito obrigada. Isso vai adiantar muita coisa. — rolei os olhos.

Ouvi sua risada fraca enquanto virávamos o corredor procurando minha sala. Por onde passamos, parecia que o número de pessoas só ia aumentando fazendo com que os olhares aumentassem também. Paramos em frente à porta branca que estava aberta. Pude ver que poucas pessoas estavam dentro do lugar.

— Nos vemos depois da aula. Você sabe que pode me ligar a qualquer momento, não é? — arqueou uma sobrancelha. Assenti balançando a cabeça e senti seu beijo em minha testa. Ele se virou e sumiu no fim do corredor, o que me fez ficar nervosa assim que me virei para entrar na sala.

Percebi alguns olhares em minha direção e tentei ignorá-los, seguindo até uma fileira no canto que estava vazia até então. Pus minha mochila em cima da mesa e deixei meu corpo escorregar na cadeira, respirando fundo. Os olhares ainda continuavam, principalmente pelas pessoas que entravam na sala nesse momento.

Não demorou muito para que o professor entrasse na sala segurando sua pequena mala preta e alguns livros no outro braço. Rapidamente olhou para todos os alunos e começou a ajeitar algumas coisas em cima da cadeira.

— Bom dia a todos. Sou o professor Daves, de Literatura. Muito dos presentes hoje já vem me acompanhando por um bom tempo, e aos outros, eu desejo as boas-vindas. — encostou o corpo em frente à mesa e lançou um rápido olhar em minha direção. — Espero que se adaptem bem aos horários e ao colégio.

Rodou novamente a mesa, escrevendo seu nome no quarto. Enquanto ele seguia em direção à sua pasta, olhei de relance para os lados. Observei que, algumas pessoas já não prestavam tanta atenção em mim assim e aquilo me deixou um pouco mais aliviada, mas, no fundo da sala algumas meninas insistiam em olhar e fofocar alguma coisa com as outras. Inclusive, uma entre elas parecia bem a dona do carro cheio de glitter. Inferno! – praguejei.

Risquei algumas coisas no caderno que já estava aberto e ergui meu olhar assim que percebi uma movimentação do outro lado da porta. Prendi o ar no mesmo instante que reconheci o garoto parado atrás do pequeno vidro. Era o loiro que tinha me ajudado quando me perdi. Parecia estar falando com alguém no corredor enquanto ria. Ele passou os olhos pela sala, parecendo não me notar ali. Olhei rapidamente para baixo e percebi a porta que se abrindo silenciosamente. O professor continuava concentrado em sua apostila e assim que o garoto entrou completamente dentro da sala, deixei um sorriso fraco escapar, acenando discretamente para ele. O mesmo me olhou com o cenho franzido e desviou o olhar, ao ouvir a voz do professor.

— Pelo visto não mudou seu jeito de chegar atrasado aos primeiros dias, .

Engoli em seco ao ouvir aquele sobrenome e mais ainda quando percebi as pessoas me olhando e ouvi as risadinhas ecoarem. Naquele momento, eu só senti vontade de enfiar minha cabeça em um buraco no chão. Nunca me senti tão envergonhada na vida. Envergonhada e confusa. Ele havia me ajudado naquele dia, porque estava fingindo que não me conhecia? Ou pior, tinha me ignorado na frente da sala inteira.

Ignorado igual como fez com o professor, indo se sentar no lado oposto ao que eu estava. Resolvi não direcionar meu olhar um segundo sequer para ele e tentei prestar a atenção na aula e no pequeno discurso que o professor falava. Eu queria olhar para o lado quase sempre, de verdade. E toda vez que eu fingia estar procurando algo no chão ou simplesmente estar observando a sala, eu captava os olhares do loiro levemente sobre mim. E era muito constrangedor.

Assim que ouvi o sinal avisando que a segunda aula havia acabado, catei todas as minhas coisas de cima da mesa e segui para o corredor o mais rápido possível. O lugar já estava cheio, o que me fez olhar para os dois lados sem saber para onde ir. Não conseguia achar em canto algum e aquilo me fez ficar um pouco nervosa. Provavelmente eu estava parecendo uma louca parada no mesmo lugar há um tempinho. Foi então que decidi seguir até o fim do corredor e o virei, olhando para trás e sentindo um baque fraco contra o meu corpo. Observei a menina se abaixando em seguida.

Olhei rapidamente para baixo e observei alguns materiais espalhados pelo chão.

— Nossa, eu sinto muito. Estava distraída e acabei não vendo você. — disse enquanto me abaixava para ajudá-la. Ela sorriu amigavelmente.

— Não tem problema. Essas coisas quase sempre acontecem. — pegou as últimas folhas e se levantou, ajeitando os materiais que tinha em mãos. Olhou para mim, me analisando. — Você é nova por aqui, não é?

Balancei a cabeça, afirmando. Ela sorriu mais uma vez e pude perder que ela não era como as outras garotas que observei até então. Os cabelos loiros ondulados caiam sobre o ombro. Era o tipo de garota bem conhecida pela escola, mas não parecia agir como tal.

— Eu cheguei tem pouco mais de duas semanas. Ainda não me situei pela escola, mas espero que não demore muito. — dou de ombros, sorrindo minimamente.

— Entendo. Com o tempo você acaba pegando o jeito. — disse, começando a caminhar pelo corredor ao meu lado. — Eu sou . Você está com seus horários aí? Eu posso te ajudar.

Puxei o caderno de dentro da mochila e peguei a folha dobrada, entregando para ela. Enquanto a garota analisava a folha com atenção, observei o lugar pelo qual estávamos passando. Era um corredor aberto que dava para um grande gramado e ao longe eu podia avistar a quadra de basquete. Parecia ser um ginásio bem grande.

— Nesse momento você está com aula de Sociologia. Sua sorte é que a professora pega leve com os alunos novos. — comentou me entregando o papel. — Eu até ficaria conversando, mas eu estou completamente atrasada para minha aula. Sério, e o pior é que vou ter dois horários de Cálculo. A gente pode se falar na saída, o que acha?

— Claro. Por mim, tudo bem.

— Então a gente se vê no final da aula. Até mais… — franziu o cenho, tentando lembrar meu nome. E só então eu percebi que não tinha dito para ela.

. .

Ela assentiu e se virou, caminhando até sua sala. Respirei fundo e olhei para os lados, tentando achar a sala que estava tendo aula. Não demorou muito para que eu a achasse, já que não estava tão longe. Entrei e segui rumo a uma cadeira no canto, sentindo meu corpo relaxar um pouco por perceber que quase ninguém havia notado minha presença.

Passei a aula inteira tentando prestar atenção na professora que dizia sobre Cidadania e Política sem nem respirar. Os alunos em volta pareciam estar tão interessados quanto eu, o que chegava a ser loucura da nossa parte já que era o primeiro dia e estávamos assim. Não me importei com os olhares da professora e senti um grande alívio percorrer meu corpo ao perceber que sua aula já tinha acabado, era hora do intervalo. Deixei que todos saíssem da sala, para que eu pudesse me levantar e seguir rumo ao corredor mais uma vez.

— Não te encontrei no final da primeira aula. — ouvi a voz do meu irmão e me assustei ao sentir suas mãos em meus ombros. — E então, o que tem achado?

— Se quer mesmo saber, eu não vejo a hora de chegar a casa. — murmurei.

Ouvi sua risada fraca enquanto íamos em direção ao refeitório, onde já podia avistar a enorme fila perto da cantina. me guiava para o final da fila com os braços em volta dos meus ombros, e agora os olhares estavam ainda mais focados em nós dois.

Enquanto estava parada ao lado do meu irmão, pude sentir que o mesmo cutucava a lateral da minha barriga, me fazendo o olhar com os olhos estreitos.

— O que foi? — perguntei quase irritada.

— Você conhece? — apontou para o final do refeitório, me fazendo olhar na direção.

Pude ver em uma mesa ao fundo, sentada com mais três pessoas. Ela tinha um sorriso no rosto enquanto uma das mãos estava para cima, acenando para nós. Ela estava tentando chamar minha atenção. Acenei para a mesma discretamente enquanto sorria.

— Esbarrei com ela no corredor mais cedo. Parece ser uma garota legal.

— E porque não vai até lá? Pelo visto, ela está te chamando. — arqueou uma das sobrancelhas, olhando para a garota. Olhei novamente para ela que movimentava a boca, dizendo um senta aqui! discreto.

Esperei para pegar alguma coisa para comer, assim como e segui com um copo de suco e uma vasilha com torradas em mãos até onde estava sentada. estava ao meu lado carregando o sanduíche e um sorriso sapeca nos lábios. Ele, obviamente, estava adorando toda aquela atenção. Nos aproximamos recebendo olhares das que estavam sentadas com a loira também, as três meninas desviaram o olhar de mim para meu irmão, o olhando de cima a baixo. Reprimi um risinho.

! Pensei que não ia te encontrar no meio dessa gente. — disse, fazendo uma careta ao olhar para as outras pessoas.

. — disse, dando um meio sorriso. Ela parecia não ter entendido. — Pode me chamar de , acho melhor.

sorriu, apontando banco da frente com a cabeça. logo se sentou e aproveitei para ficar do seu lado, enquanto ele já devorava seu sanduíche. Percebi a outra loira cochichar algo com a morena, olhando por detrás de mim. Não me dei ao trabalho do olhar, já que no minuto seguinte estava chamando minha atenção.

— Eu acabei esquecendo de apresentar minhas colegas. Essa é a Jenna Ryland. — apontou para a loira que tinha os cabelos até a cintura, a mesma sorriu mostrando suas covinhas. – Kristen Olen e Erin Harver. — olhou para as que cochichavam. Elas olharam em minha direção, acenando rapidamente.

— Esse é , meu irmão. — olhei para ele que ergueu o olhar, sorrindo para as meninas. Observei quando Kristen soltou um suspiro, parecendo estar adorando observá-lo e ele sequer voltou a olhá-la, provavelmente não dando a mínima para a garota.

— Vocês são gêmeos? — perguntou focando sua atenção em nós dois. — São tão parecidos.

estava de frente para mim, mas mantinha o olhar em todo o refeitório. Ele se virou e olhou para a loira, sorrindo de canto.

— Somos sim, gêmeos bivitelinos. Com a pequena diferença de duas horas. — olhou de relance para mim e eu sorri. Sim, eu e éramos gêmeos, porém nada idênticos. Enquanto parecia um modelo de tão bonito, os cabelos e olhos claros, eu havia puxado totalmente a família do meu pai, com os cabelos e olhos escuros.

parecia ter ficado surpresa e encantada. Observei engatando em uma conversa com sobre o assunto, enquanto eu mexia em qualquer coisa no celular do meu irmão que antes estava em cima da mesa. Desbloqueei a tela que não tinha senha e encarei o papel de parede, sorrindo. Era uma selfie onde sorria minimamente de costas para o mar e tinha quase certeza que ele havia tirado essa foto aqui em Huntington. Tinha ficado bonita.

Ergui meu olhar assim que ouvi se direcionando a mim.

— Não sabia que vocês eram de São Francisco também. Eu nasci e morei lá até meus doze anos e então minha mãe acabou recebendo uma promoção aqui. Ela é enfermeira. Nunca mais nos mudamos, eu me apaixonei pela cidade.

— É, nós dois decidimos mudar os ares um pouco. — soltei uma risadinha, olhando de relance para que parecia ter entendido o que eu havia dito. — Não tem como não se apaixonar por Huntington. Eu sou louca por esse lugar.

balançou a cabeça, concordando.

— Além de ter uma das melhores praias, na minha opinião.

— Eu nunca vi alguém tão encantando por surf quanto ele. — apontei para . Ele riu fraco, bagunçando meus cabelos. — Se bem que, também não posso falar nada…

, essa garota manda muito. Sinceramente. — cruzou os dedos. Estava sério, me fazendo abaixar a cabeça negando. — Eu a ensinei tudo o que ela sabe, mas cá entre nós, nunca vi alguém tão focada e destemida quanto minha irmã.

— Modesto, hein?

ria de nós dois e eu fazia o mesmo, voltando a olhá-lo. Ela era uma garota muito legal e parecia não dar muita bola para as outras amigas, não era como se dependesse delas.

— Eu já tentei uma vez, mas não é bem a minha cara ficar de pé em cima de uma prancha, não. Digamos que eu não seja uma pessoa com um bom equilíbrio. — disse apontando para si mesma.

— Não é tão difícil quanto parece. Quando você percebe, já está lá entre as ondas. É incrível. Eu nem sei te explicar. — dizia como se imaginasse uma onda enorme, estava sorrindo.

— Ah, não. É difícil sim. Eu tenho um amigo, meu primo, na verdade, ele ainda não voltou de viagem, mas logo vocês vão conhecê-lo. Tipo, ele tentou me ensinar muitas vezes, e coloca muitas nisso. — soltou uma risadinha, nos fazendo rir também. — Eu simplesmente não consigo me equilibrar. Acho que eu sou o problema.

Deu de ombros, fazendo uma careta.

— Claro que não. Você sempre encontra o seu jeito. Olha, nós sempre vamos à praia — apontou para mim. — Você pode ir com a gente da próxima. Tenho certeza que na primeira você vai dar um show.

— Pelo menos um de nós é otimista. — riu.

— Até demais. — o olhei de lado, sorrindo. – O convite está de pé, se você quiser. Podemos marcar um dia.

Observei as duas amigas de cochichavam o tempo inteiro olhando para alguém do outro lado do refeitório. parecia não ter percebido, muito menos . Assim que os olhares das meninas se redirecionaram mais uma vez, virei meu rosto vagarosamente e no mesmo momento, não queria ter feito aquilo, já que encontrei os olhos verdes me encarando sem dó. Engoli em seco, voltando minha atenção para e . O que aquele garoto tinha, afinal?

Respirei fundo, percebendo que meu irmão me observava com o cenho franzido, como se me perguntasse o que eu estava fazendo. Apenas balancei a cabeça, indicando que não era nada demais.

🌴
Deixei a sala um pouco antes dos alunos começarem a sair e assim que pisei no corredor, já conseguia me infiltrar entre a multidão que estava lá. Procurei ou até mesmo com o olhar, mas não encontrei nenhum dos dois. Resolvi então, do meu armário, seguir em direção ao estacionamento, o único lugar que eu tinha certeza que encontraria meu irmão.

Caminhei um pouco mais rápido e saí junto a uma galera pela enorme porta de entrada do colégio, logo já avistava a caminhonete branca do outro lado do estacionamento. Passei uma das mãos pelo cabelo e andei um pouco mais devagar até o veículo, já que o lugar era extenso e eu não estava com tanta pressa assim. No meio do caminho pude ouvir algumas risadas e uma entre elas me chamou atenção. Era uma risada escandalosa. Olhei para o lado, observando aquele sorriso largo no rosto. O garoto musculoso que eu ainda não sabia o nome ria espontaneamente para um garoto a seu lado e eu até o acharia bonito porque ele realmente era, mas era tão irritante quanto. E isso o fazia menos atraente, pelo menos para mim. Ele virou o rosto em minha direção e assim que me encarou, franziu o cenho como se estivesse lembrando de mim vagarosamente. Piscou algumas vezes e arqueou uma das sobrancelhas, com um sorriso cínico nos lábios.

Bufei virando para frente e assim que cheguei à caminhonete, senti mãos em meus ombros achando ser , mas assim que ouvi a voz mais fina eu constatei que realmente não era ele.

— Hey. — disse, ficando ao meu lado. — Você sumiu de vista.

— Eu só quis sair da sala logo. Sabe, estou louca para chegar em casa. — rolei os olhos, sorrindo de lado.

— É o primeiro dia e você já está assim? — riu colocando a mochila que antes ela segurava, nas costas. saiu pelo portão e começou a caminhar em nossa direção. — Boa sorte, só vai piorar.

— Obrigada, nossa. E eu nem imaginava. — soltei uma risada fraca sendo acompanhada pela garota, retomou sua postura assim que meu irmão se aproximou. Ele olhou para e em seguida para mim, sorrindo.

— Então, vamos?

— Com certeza. — disse, agora, empolgada. — Nos vemos amanhã? — Perguntei para . Ela balançou a cabeça concordando enquanto tinha as mãos na alça de sua mochila.

— Claro. Temos as primeiras aulas juntas. Até amanhã. — sorriu se virando, indo em direção a um carro preto na direção oposta. me olhou mais uma vez e passou uma das mãos no meu cabelo, dando a volta para entrar no carro. Entrei rapidamente soltando todo meu ar ao sentar no banco. Não tinha sido tão ruim assim, tirando o fato de ter sido ignorada e encarada pelo cara que eu achava que poderia ser legal comigo. É, não tinha sido ruim.

me olhou mais uma vez, ainda com aquele sorriso no rosto. E estava me incomodando.

— O que foi? — perguntei, virando meu rosto para ele.

— Nada. Estou apenas te olhando.

— Isso eu percebi. — resmunguei. Ele riu fraco enquanto íamos em direção à avenida. Eu sabia bem que não estava apenas me olhando, tinha algo mais.

Encostei minha cabeça na poltrona, tentando relaxar um pouco o corpo. Deixei minha mente vagar para mais cedo, quando vi o olhar confuso e digamos que até um pouco desesperado do meu “salvador”, que com certeza estava mais para babaca agora.

Fechei os olhos com força e senti um toque leve em minha bochecha. Olhei rapidamente para o lado e encontrei com os olhos na estrada, porém com uma das mãos acariciando minha bochecha. Dei um meio sorriso para ele que fez o mesmo, sem olhar para mim.

— Fico feliz por ter arrumado uma amiga.

N/a: Olá, bronzeadas! Como estão? Tem gente que já me conhece, mas para aqueles que não, me chamo e espero do fundo do coração que estejam gostando da história. A escrevo com todo carinho e imaginação que tenho! Caso queiram acompanhar atualização e mais, eu tenho um grupinho no facebook! https://www.facebook.com/groups/921133687915468
Um beijão e até a próxima!