Águas Traiçoeiras

Águas Traiçoeiras

Sinopse: Na pequena cidade litorânea de Bristol Cove, a chegada de um detetive é comentada por todos, pois a taxa de criminalidade ali era quase nula. Mas o detetive não foi o único a chegar na cidade, mulheres sedutoras vindas diretamente do mar também chegaram.
E junto com os novos visitantes, uma taxa de crimes nunca vista.
Gênero: Sobrenatural, Suspense.
Classificação: +18 anos.
Restrição: Possui algumas características fixas.
Beta: Alex Russo.

Capítulos:

Prólogo

— Eu não acho que isso seja uma boa ideia. — o soldado falou, quebrando o longo silêncio que se instalara após a frase de seu superior. — Nós somos superiores a eles, não devemos igualar nossas ações às deles.
— E o que nós fazemos para honrar nossos antepassados? E todo o sangue derramado? — o mais velho de todos questionou. — Nós vamos pagar na mesma moeda.
— Eu não acho que elas irão aceitar isso, você sabe como elas são sentimentais. — outro soldado falou, questionando as ordens do superior.
— Elas não irão saber, faremos tudo por baixo dos panos, não tem como elas sequer desconfiarem. — o superior sorriu, transformando seu rosto em uma careta satisfeita ao encarar todos os outros que presentes.
— E como nós faremos isso? — o primeiro soldado falou novamente. De todos os presentes, ele era o único que não aprovava aquela ideia.
— Sempre que eles entrarem em nossos territórios estarão entregando suas vidas e decretando suas mortes. — o superior abriu um sorriso sádico, fazendo os soldados se questionarem se o homem ainda possuía um perfeito estado mental. — Vão, avisem-nas que está na hora, elas devem partir agora e fazer o que é o esperado. — abanou o ar a sua frente, dispensando os homens. — Só mais uma coisa, nada do que foi comentado aqui, deve sair daqui.
Os soldados apenas concordaram com a cabeça e saíram o mais rápido possível dali, questionando entre si se o líder ainda possuía sanidade para lidera-los. Decididos a não desobedecerem às ordens e a não ver com seus próprios olhos como a mente do líder funcionava, os soldados foram de porta em porta, avisando as moças que a época que elas mais esperavam em suas vidas, estava prestes a se tornar realidade.
O superior permaneceu sentado em sua sala, com uma expressão satisfeita no rosto e um sorriso sádico nos lábios. Ele sabia que sua esposa não concordaria com seus atos, mas era por ela que ele estava fazendo aquilo. Se ela ao menos estivesse ao seu lado, ele deixaria as desavenças de lado. Mas ela não estava, e nunca mais estaria.
Motivo pelo o qual sua raiva lhe cegara e a vingança brilhava em sua mente. Ele iria adiante com aquilo, iria honrar a morte de sua falecida esposa, nem que precisasse fazê-lo com as próprias mãos.

Capítulo Um

Revenge is the act of passion, vengeance is an act of justice…

olhou o relógio em seu pulso e respirou fundo. Já estava quase chegando à pequena cidade litorânea que chamaria de lar pelos próximos meses. Por mais que ele amasse o clima da capital e tudo mais, estava feliz por poder exercer seu trabalho ali invés de ser afastado. O fato de odiar cidades pequenas e supersticiosas não era nada se comparado com os meses que ficaria afastado de seu trabalho, seu único e atual amor.
Sabia que focar sua vida completamente no trabalho não era recomendável, muito menos a melhor opção, mas ao perder recentemente a mãe, seu único vínculo familiar, preferia afundar-se no trabalho, focando sua mente em outros problemas e ignorando os olhares piedosos que lhe eram dirigidos.
O detetive era o melhor de todo o departamento, as diversas medalhas e os longos casos resolvidos eram uma prova viva, mas após a perda da mãe, o rendimento do detetive caía mais a cada dia. Motivo pelo qual não foi uma surpresa quando socou o rosto de um homem ao qual interrogava, já que o suspeito provocara o detetive ao falar sobre sua mãe.
Por mais que não tenha sido uma surpresa, a conduta era inadmissível e o departamento poderia perder o caso pelo erro de . Não foi uma surpresa para o homem quando seu supervisor lhe chamara, preparado para ficar afastado indeterminadamente do trabalho, quase comemorou ao saber que seria apenas mandando para outro departamento.
Esse era o motivo pelo qual ele estava ali, em um lugar que nunca escolheria por vontade própria. O detetive passou pela placa da cidade e não conseguiu conter o sorriso cético e debochado ao ler as palavras da placa:

“Bristol Cove, a capital mundial das sereias”</´p>

A felicidade por não ser afastado do trabalho quase se esvaiu completamente após a pesquisa de sobre a cidade, que não passava de uma cidade litorânea cujo os casos policiais eram mínimos e a população pacata vivia praticamente graças aos turistas que compravam toda a história sobrenatural do misticismo das sereias. Por mais que Bristol Cove fosse popularmente conhecida por sua região litorânea, quanto mais adentrava na cidade, menos era possível encontrar o mar.
logo chegou ao centro da pequena cidade e estacionou seu carro na vaga livre, próxima a delegacia. Tirou os óculos escuros que estavam em seu rosto, já que o sol já começava a se pôr e saiu do carro.
A construção térrea era completamente diferente da qual estava habituado a trabalhar em Olympia, mas era um diferente bom. Não era nada cafona ou antiquado como os filmes apresentavam as delegacias de cidades pequenas, era uma construção bonita e levemente familiar com a da capital, mesmo que possuindo menos que metade do tamanho.
respirou fundo antes de subir os poucos degraus que o separavam da delegacia. Sabia que não precisava agradar ninguém ali, no máximo o xerife, mas sua verdadeira preocupação era se algo sobre sua história já tinha chego até ali. Adentrou a delegacia e resistiu a vontade de revirar os olhos ao notar que todos o encaravam.
O que não sabia, era que os poucos policiais presentes ali não sabiam o que o detetive fazia ali, um acordo entre seu antigo superior e seu novo. Bristol Cove era pacata e a taxa de criminalidade era mínima, a polícia interferia em poucos casos, como festas onde menores estavam bebendo, roubo de mercadoria dos navios pesqueiros e usuais brigas de bares entre os marinheiros, porém eram apenas coisas para as quais não precisavam de um detetive.
— Boa tarde, sou o detetive do departamento policial de Olympia. — ignorou os olhares e apoiou-se no balcão próximo a entrada, prestando atenção apenas na mulher sentada ali.
A jovem discou rapidamente o número do xerife, falando apenas que o detetive estava presente e desligando a ligação. Sorriu formalmente para , comunicando-o que o superior logo estaria ali. Poucos segundos depois, o superior caminhava em sua direção.
— Seja bem vindo, detetive . — o xerife estendeu a mão da direção do mais novo assim que parou próximo a ele, sentindo apertar fortemente. — Fico muito feliz de ter você aqui conosco.
— Agradeço por essa chance. — não queria mentir e dizer que ficava muito feliz por estar ali também, mas não poderia deixar de agradecer o xerife West por te-lo acolhido quando não havia necessidade.
— Nós nunca tivemos detetives aqui, acredito que você já saiba disto, então pode acontecer de alguns policiais se sentirem intimidados. — apenas concordou com a cabeça, aquilo era uma situação completamente normal. — Devido a isto, nós não podemos lhe porporcionar uma sala, mas lhe oferecemos uma mesa maior que a dos policiais. — apontou com a mão para um canto, fazendo o detetive seguir com o olhar. Seu novo espaço não passava de uma mesa espaçosa com um computador no meio.
— Não vejo nenhum problema nisto, senhor. — sorriu sem mostrar os dentes, não via real necessidade de possuir uma sala ali, já que a mesma quase nunca seria verdadeiramente utilizada.
— É muito raro termos uma ocorrência ou algo do tipo, então seu trabalho aqui será algo bem calmo. — o xerife falou enquanto começava a caminhar na direção contrária a qual o detetiva entrara. — Aqui nos temos um pequeno refeitório, que na verdade é uma cozinha. — parou na porta de entrada do pequeno cômodo e o detetive fez o mesmo, olhando os poucos objetos ali dentro. Algumas bancadas, uma geladeira, uma micro-ondas e uma cafeteira eram o que ocupavam um lado da sala, enquanto o outro possuía cinco mesas grandes com várias cadeiras. — Você pode usá-la sempre que quiser. No horário do almoço você pode sair para comer ou trazer algo de casa e deixar na nossa geladeira, que é o que a maioria faz.
— Provavelmente vou fazer isso. — o detetive falou voltando a seguir o caminho que o xerife fazia, porém por mais que tivesse concordado com o xerife, não estava acostumado a almoçar, pois em Olympia sempre encontrava-se demasiadamente atarefado para que pudesse pausar.
— Aqui nós temos os banheiros. — apontou para as portas que possuiam as identificações de sexo caminhou mais um pouco.- Aqui são as celas que normalmente são usadas apenas com os bêbados.
— Acredito que normalmente é tudo assim, calmo e pacato. — o estranhamento estava palpável no tom de voz do homem, já que desde que pisara ali, nenhum chamado aconteceu.
— Sim, é muito raro termos problemas por aqui. — Byron West falou enquanto refazia o caminho. — É uma cidade pequena e turística, é difícil qualquer coisa de ruim acontecer aqui.
— Certo. — o detetive murmurou descontente percebendo que ficar ali não era muito diferente de ser afastado, sabia que ficaria a ver moscas por ali.
— Pode chegar aqui amanhã por volta das oito da manhã, é a entrada do turno da manhã. — o xerife falou assim que os dois pararam próximos a porta. — Se tiver algum problema, o que eu duvido muito, eu te ligo imediatamente.
apenas concordou com a cabeça e saiu da delegacia, descendo as escadas enquanto encarava a enorme estátua de sereia no meio do parque que enfeitava o centro da cidade. O detetive abriu um sorriso de escárnio ao ver a quantidade de turistas que tiravam fotos com a estátua, ele não conseguia entender como certos humanos eram tão estúpidos ao ponto de acreditar em contos infantis.
Entrou rapidamente no carro e colocou no GPS o endereço de sua nova casa, dirigindo até lá de modo calmo enquanto observava os diversos locais da cidade feitos, em homenagens aos seres aquáticos que sequer existiam.
Passou o cartão de identificação assim que entrou na garagem do prédio e estacionou o veículo na vaga com o número de seu apartamento. Pegou a mochila e mala de mão sacou o celular do suporte, saindo do carro e trancando-o.
passou na recepção apenas para avisar que já tinha chego e entrou no elevador, saindo do cubículo de metal apenas quando chegou ao nono e último andar. A porta do elevador abriu e saiu, ficando praticamente de frente para a outra única porta ali. O detetive pegou o cartão que tinha usado na garagem e passou na maçaneta da porta, destrancando sua nova casa.
E por mais que lhe doesse admitir, morar em Bristol Cove não seria tão ruim, pelo menos não com a cidade sendo tão aconchegante e com seu hotel moderno.

tentou conter a animação ao descobrir que, após longos anos sendo proibidos de pisar nas terras humanas, finalmente possuíam o aval de que poderiam ir para a superfície sem que fossem condenadas ou deserdadas, finalmente poderiam voltar a praticar o que nasceram para fazer.
Não tentou contato com seu pai, sabia que, por mais que todas fossem permitidas, ela estaria proibida de seguir sua natureza. Precisava se impor, sabia que era algo no qual sua mãe lhe apoiaria completamente, e desejou que a mais velha estivesse ali, ao lado dela para o que sua vida passaria a ser nos próximos meses. Seria sua primeira vez em terra firme, sua primeira transformação, seu primeiro contato humano, e ela não sabia se estava preparada.
nunca tinha ido para a superfície, pelo menos não ao ponto de ver ou ter contato com os humanos, porém a jovem sereia já tinha emergido no mar algumas vezes apenas para sentir a sensação acolhedora que era ter o sol sob sua pele.
Por mais que nunca tivesse nadado naquela direção, ela sabia onde estava indo. Crescera sabendo da pequena cidade litorânea que lhes acolhera como se ali fosse sua própria casa, sabia que era para ali que todas iriam, mesmo com os acontecimentos de anos atrás.
A sereia já tinha perdido noção de quanto tempo estava nadando, porém a animação que percorria seu corpo não lhe deixava sentir cansaço. Assim que percebeu que a profundidade já não era a mesma da qual estava acostumada, ela emergiu, vendo o sol começar a se por no horizonte e bem mais a frente uma extensa faixa amarelada. Submergiu e aumentou ainda mais a velocidade do nado, parando apenas quanto sentiu a areia bater em sua cauda.
Emergiu novamente e encarou a faixa de areia já extremamente próxima, não vendo nenhum humano pelas proximidades. Apoiou os dois braços na faixa de areia abaixo de si e começou a se arrastar para fora da água, mordendo o lábio inferior fortemente devido a dor causada pelo atrito da areia em sua cauda. A areia presente ali era muito diferente daquela que estava habituada nas profundezas do mar, aquela que atualmente estava em contato com o seu corpo lhe causava agonia, era como se seu corpo inteiro estivesse sendo cortando milhares de partes sempre que roçava na areia.
O oxigênio entrava rapidamente pelas brânquias da sereia, causando dificuldade em sua respiração. tirou seu corpo completamente do mar e sentiu sua calda se retrair com a falta de água. Sua pele absorveu rápido a água que estava na superfície de seu corpo, deixando a pele da sereia extremamente seca pela primeira vez, aumentando a sensação agonizante da areia que agora se encontrava em quase todo o seu corpo, arranhando a pele sensível da sereia que continuava a arrastar-se pela areia.
A respiração falhou quando suas brânquias já não conseguiam mais utilizar a água como fonte, devido ao oxigênio que se esgueirava por todo o corpo da sereia, que se debatia contra a areia por não conseguir respirar. Era como se tivesse ingerido algo que impossibilitasse suas brânquias de fazer o trabalho corretamente.
O grito gutural saiu sem que a jovem pudesse controlar, conforme sentia sua cauda ser arrancada de si sem a menor piedade. Rolou na areia enquanto gemia de dor ao sentir todas as mudanças que aconteciam, e tão rápido quanto começou, acabou.
As brânquias que antes pareciam entupidas, agora já não se encontravam em seu pescoço, enquanto as guelras não existiam mais em nenhuma parte do corpo. O oxigênio, que antes lhe parecia um veneno, agora lhe permitia respirar calmamente enquanto recuperava-se da transformação. A areia que outrora cortava sua pele deu espaço para a sensação engraçada que sentia ao tê-la em contato com o seu corpo.
Porém a parte mais chocante eram as pernas humanas no lugar do que sempre fora sua calda.
levou longos minutos até conseguir equilibrar-se completamente em suas novas pernas e levantou do chão, ainda com as pernas bambas que teimavam em não ficar retas. Tentar permanecer em pé parecia um trabalho árduo, fazendo a sereia respirar profundamente até criar coragem para tentar andar.
Encarou a cauda dourada que parecia levemente desbotada, e caminhou vacilante e vagarosamente até se aproximar do que a minutos atrás era uma parte essencial de seu corpo. Abaixou-se próxima a cauda e tocou delicadamente na textura que se encontrava ressecada, arregalando os olhos enquanto observava assustada a cauda se tornar cinza e esfarelar em questão de segundos, misturando-se com os grãos de areia da praia.
sentou na areia, sentindo a areia macia acomodar seu corpo e encarou o céu, feliz por estar vendo-o ali na superfície. O sol aconchegante já tinha sumido no horizonte, dando lugar a lua que iluminava o céu límpido onde as estelas pareciam brilhar. A sereia não possuía palavras para descrever o que estava sentindo, mas sabia que era uma boa coisa.
A brisa marítima abraçou o corpo feminino, que se encontrava nu, fazendo com o que a mulher cruzasse os braços a frente do corpo, tentando amenizar o efeito que o vento lhe causava, rindo baixo ao encarar os pelos eriçados devido ao frio que começava a sentir. Estava acostumada com a água escura absurdamente gelada, mas isso era em sua forma natural, já sua forma humana parecia mais sensível as temperaturas.
Levantou-se da areia sem se importar em retirar toda a areia que estava grudada em sua pele, andando sem rumo pelas ruas desconhecidas. Caminhou para a parte mais deserta da cidade e encontrou as roupas humanas das quais ouvira falar, pegando o short masculino e o moletom que se encontravam pendurados do lado externo da casa.

 

Hell is empty, and all the devils are here…

O toque do celular ecoou por toda a casa, acordando o detetive que ficou confuso ao ver que um número desconhecido o ligava. O homem coçou os olhos enquanto bocejava e pegou o celular, atendendo a ligação segundos depois.
– Bom dia, detetive. – a voz nervosa o saudou rapidamente e reconheceu a voz do xerife. – Me desculpe incomodá–lo esta hora da manhã, mas nós temos um corpo.
– Um morto? – o detetive murmurou atônito. tinha lido todos os arquivos de Bristol Cove, que não eram muitos, e sabia que nunca ouve um assassinato na cidade, pelo menos não que constasse nos registros da polícia.
– Sim. – o xerife respondeu com a voz um pouco mais calma. – Eu estou na praia central, é próximada delegacia.
– Estou indo. – falou rapidamente e desligou o celular antes mesmo de ouvir qualquer resposta.
Olhou para a tela do aparelho e respirou fundo ao ver que o relógio marcava seis e meia da manhã, seus planos incluíam apenas as sete. Deixou o aparelho na cama e pegou a calça jeans de lavagem escura e uma blusa branca social, o mesmo estilo de roupa com o qual trabalhava em Olympia. Seguiu com as roupas para o banheiro, precisava de um banho para que aguentar o que aquele dia lhe proporcionaria.
Voltou para o quarto devidamente vestido enquanto arrumava o cabelo com as mãos, apenas tentando deixá–los em uma posição agradável, calçando o tênis do dia anterior após dar–se por satisfeito com o cabelo. Guardou o celular no bolso e a carteira em outro, pegou o distintivo e prendeu no cós da calça. Saiu da casa com as chaves do carro em mãos e fechou a porta, chamou o elevador e agradeceu mentalmente quando segundos depois as portas de metais se abriram.
Saiu do elevador assim que ele chegou ao estacionamento e caminhou até seu veículo, entrando no carro e colocando os óculos escuro antes de sair do prédio. Abaixou as janelas do carro e sentiu a brisa fresca da manhã junto com a maresia atingir–lhe o rosto, deixando com o que um sorriso mínimo aparecesse em seus lábios. Dirigiu rapidamente pelas ruas vazias da cidade e passou pela delegacia, seguindo o gps por pouco mais do que dez minutos até encontrar a praia central, onde dois carros de polícia se encontravam parados, estacionando seu veículo próximo a eles.
Trancou o carro assim que saiu e guardou as chaves no bolso frontal enquanto caminhava até a areia. Passou por baixo da faixa amarela que afastava o público que estava curioso para saber o que tinha acontecido e dirigiu–se até onde estava o xerife com mais alguns policiais.
– Bom dia. – falou quando já estava próximo ao grupo, atraindo a atenção para si.
– Bom dia, detetive.– Byron foi o primeiro a responder. – O corpo encontra–se ali, a maré está subindo, fazendo com o que quase alcance o corpo.
– Quem é a vítima?– o recém–chegado questionou por força do hábito, sabia que a informação não mudaria algo.
– Albert Whosen, 45 anos.– o xerife respondeu.– Vivia sendo preso por desacato a autoridade e por embriaguez.
seguiu o xerife pela faixa de areia, parando apenas quando ficou de frente para o corpo sem vida estirado próximo a água. Os pés descalços estavam molhados devido às ondas que quebravam ali perto e começavam a se aproximar da vítima, a calça possuía rasgos na altura do tornozelo, deixando a amostra o pedaço de pele com arranhões similares aos que se estendiam por ambos os braços do homem, deixando a areia a sua volta avermelhada.
– Parece que ele foi atacado por algum animal. – pensou alto enquanto analisava os arranhões longos e profundos e cortaram a carne da vítima.– Mesmo que eu não consigo pensar em um animal da região que possa ter feito isso. Mas não podemos considerar isto a causa da morte.
– Boa percepção, detetive. Repare as orelhas da vítima. – Byron apontou para a cabeça do homem, fazendo o detetive prestar atenção ali pela primeira vez.
Abaixou–se próximo a vítima e encarou atentamente o que lhe fora instruído. Um líquido espesso e escuro encontrava–se formando um caminho dos ouvidos do homem até a pequena poça seca que fora formada próxima a cabeça. sabia o que era aquele líquido, já estava bastante familiarizado com o sangue.
– É como se os tímpanos dele tivessem estourado.– o mais novo murmurou enquanto tentava entender o que causara a morte.
permitiu–se tirar os óculos escuros para observar melhor o corpo, porém quanto mais encarava, menos compreendia. Nunca vira nada comparado com aquilo e sequer conseguia cogitar o que teria acontecido ali. A única certeza que possuía, era que precisariam de um relatório detalhado.
– O corpo precisa ser levado para uma autópsia. – falou enquanto colocava novamenteo óculos escuro.– Precisamos confirmar se os tímpanos estouraram, se for positivo, precisaremos descobrir como.
– Acho que é a primeira vez que eu vejo algo do tipo.– Byron resmungou enquanto encarava o sangue seco que escorreu dos ouvidos do homem.– Pode voltar para casa, detetive, o carro já está vindo para levar o corpo para fazer os exames.
pegou o celular e encarou a tela, vendo que o relógio estava perto de marcas sete e meia. Cogitou a ideia de voltar para a casa apenas para tomar café, mas estaria desperdiçando seu tempo. Preferia tomar algo pelo caminho e focar–se no caso.
– Tem uma cafeteria aqui por perto?– o detetive questionou, atraindo a atenção do xerife que concordou com a cabeça.
– Acho que nenhuma cidade prosperaria se não tivesse uma cafetaria.– Byron riu, fazendo o mais novo rir fraco em concordância.– É o caminho que eu vou fazer para ir para a delegacia, é só você me seguir.
Byron conversou rapidamente com um dos policiais, deixando–o encarregado de observar o corpo enquanto o legista não chegasse. Despediu–se brevemente dos policiais, pois logo os veria novamente na delegacia, e seguiu até o carro, sendo acompanhado por , tendo o silêncio quebrado quando um grito ecoou pela praia:
– ELAS ESTÃO VOLTANDO, NÓS VAMOS PAGAR PELO O QUE FIZEMOS A ELAS. ISSO É VINGANÇA.

Fascínio era a única palavra que conseguia descrever exatamente o que estava sentindo desde que começou a caminhar, com algumas dificuldades, pela terra firme. A sereia levou algumas horas até, quase, conseguir caminhar normalmente igual os humanos faziam, porém seus pés descalços doíam devido ao contato com o chão quente.
Algumas pessoas a encaravam com expressões duvidosas, não era normal ter alguém vestido daquele jeito tão próximo à praia, principalmente em pleno o verão. O pano quente do moletom fazia a sereia suar, causando estranhamento na mulher, já que ela não estava acostumada com tal ato.
A madrugada longe do mar já causava efeito em seu corpo, que sentia falta da água. Sua pele estava ressecando, causando uma coceira incômoda em seus braços afetados pela falta da água salgada.
Caminhou até a praia, decidida a dar apenas um mergulho longe dos olhos humanos e voltar à superfície, apenas para aumentar a resistência do corpo longe da água, porém desistiu assim que encarou o amontoado de pessoas paradas próximas a extensão de areia. O burburinho era alto e até mesmo um pouco incômodo para a sereia, que não estava acostumada com os sons das vozes humanas, porém isso não foi o suficiente para mantê–la longe.
A curiosidade corria por seu corpo e logo se viu andando na direção dos humanos, atraindo alguns olhares para si. Empurrou algumas pessoas, recebendo olhares reprovadores e até mesmo palavras desagradáveis, porém só parou quando sentiu a areia tocar seus pés, lhe causando um leve conforto pela superfície macia, porém ainda sentia a queimação na sola dos pés.
– Pobre, Albert. – uma voz próxima a a fez despertar de seu pequeno transe, fazendo com o que prestasse atenção na pessoa que estava ao seu lado.– Ele era um bom homem, não merecia isso.
piscou algumas vezes, tentando entender o que a mulher queria dizer com aquilo. A mulher não aparentava ser muito mais velha do que , não se considerarmos pela idade humana pelo menos. A sereia prestou mais atenção no rosto tenso da mais velha e seguiu com o olhar na direção que a outra encarava. Endireitou a postura imediatamente enquanto sentia os pelos curtos, de onde até ontem eram suas escamas, se eriçarem. Os dentes, que outrora eram extremamente finos e afiados, chocaram–se uns contra os outros, como os de um cachorro prestes a atacar. Inspirou profundamente, sentindo o cheiro que imaginará atingir–lhe fortemente.
– A senhorita está bem?– a mesma voz questionou, recebendo apenas um balançar negativo de cabeça. – Sei que você está aqui apenas de visita, mas você tem algum lugar para ficar?–outro balançar de cabeça. – Ora, vamos para a minha casa então, você pode ficar lá o tempo que for necessário.
A sereia ainda não conseguia se comunicar com os humanos, era como se sua voz não existisse, porém conseguia entendê–los, e por enquanto, afirmar ou negar com a cabeça já era algo que bastasse para o diálogo que ocorria.
– Faz tempo que eu não vejo uma de vocês.– a mulher murmurou enquanto as duas se afastavam da praia.– Uma sereia.
arregalou os olhos ao ouvir o que a outra tinha dito. Uma de vocês, uma de nós, uma igual a mim. A cena do homem sem vida estirado na areia voltou a sua mente, ela sabia muito bem quem tinha feito aquilo, ou melhor, o quê.
– Achei que depois do que essa cidade fez a sua espécie, eu nunca mais veria uma de vocês. –ela começou a falar enquanto se afastava da multidão e levava a jovem sereia junto a si.– Você é tão nova, ao menos sabe o que aconteceu aqui?– questionou encarando a sereia que apenas negou com um balançar de cabeça. – Quando estivermos em casa eu lhe contarei tudo, minha querida.
sentia–se cansada a cada passo que dava, dificultando o equilíbrio nas pernas recém–adquiridas. A jovem sabia que seu corpo levaria um tempo até acostumar–se com os novos membros, porém não imaginava que, ao passar a madrugada inteira caminhando pela cidade, o incômodo seria maior.
Ela não possuía uma noção de tempo e de espaço que fosse equivalente ou sequer parecida com a dos humanos, porém em sua concepção, ela já tinha andando por léguas.
A mulher ao seu lado caminhava de modo vagaroso, sabendo que a sereia ainda tentava se acostumar com as pernas, e continuava dando suporte para a mais jovem, temerosa do que poderia acontecer com aquele ser.
Desde novasempre tinha ouvido as histórias sobre as mulheres sedutoras que vinham do mar, já tivera até mesmo a chance de ver algumas e falar rapidamente com uma ou duas, já que sua mãe as ajudava quando necessário, porém assim que completou a idade suficiente para saber o motivo pelo qual sua mãe realmente as ajudava e finalmente descobrir o que elas faziam ali, as visitas cessaram completamente.
– Já estamos chegando, minha querida, eu imagino como você deve estar precisando de um descanso. – a mais velha falou pela primeira vez desde que saíram da praia. – Aliás, pode me chamar de .
. – conseguir pronunciar após forçar, porém o tom de voz calmo e melodioso presente nos seres daquela espécie estava ali.
– Eu acho incrível o quão rápido vocês conseguem se adaptar e aprender. – exclamou de modo animado.– Vocês já saem do mar entendendo o que falamos? – questionou curiosa, recebendo apenas uma balançar de cabeça positivo como resposta.
O calor, completamente desconhecido pela sereia, piorava ainda mais sua situação. Além de ter as pernas e os pés doendo por andar por tanto tempo, a sola do pé ardia devido à temperatura do asfalto. Sem contar o tecido grosso e pesado do moletom que roçava em seus braços, causando–lhe uma vontade absurda de coçar as partes da pele ressecadas que estavam criando feridas devido à falta de contato com a água.
– Seja bem–vinda a minha casa. –ela sorriu de modo gentil ao abrir a porta da casa e dar passagem para .
A sereia andou o mais rápido possível que suas pernas cansadas e desequilibradas conseguiam, sentindo o ardor no pé diminuir assim que o chão gelado da casa substituiu o asfalto quente da rua. Deu mais alguns passos, entrando de vez na casa e reparando no local. Não estava acostumada com a ideia de uma casa e no final das contas, sequer entendia, afinal para as sereias, o mar inteiro era o que consideravam de casa.
– Vamos querida, vou preparar um banho para você. – a jovem seguiu até outro cômodo, franzindo o cenho ao ver um pequeno lago sendo criado.– Isto é uma banheira, nós usamos para tomar banho, e tomamos banho para ficar limpos.
A dona da casa fechou o registro assim que a água encheu pouco mais do que a metade da banheira, ajudando a sereia a se despir, auxiliando–a a entrar na banheira.
Ao se dar conta de que entraria em contato com a água, a respiração de tornou–se desregulada. Fazendo com o que segurasse–a fortemente pelos braços, trazendo o corpo nu e gelado da sereia para perto do seu, enquanto tentava acalmá–la.
O pavor estava estampado nos olhos da sereia, ela não estava preparada para passar novamente pela dor da transformação. Seus olhos arregalados estavam fixos na água e seu corpo tremia levemente. afastou seus corpos levemente e ao encarar o rosto da mais nova, compreendeu o que passava em sua cabeça. Soltou um suspiro frustrado, pensando no quanto foi estúpida, porém era sua primeira vez que ajudava sozinha aquela espécie.
– Oh, querida, eu sinto muito. – parou de frente para a sereia e segurou suas mãos, deixando–as na frente do corpo.– Você não vai se transformar.
Serena piscou os olhos repetidas vezes enquanto encarava de modo atônito a mulher. Em sua mente, aquilo não fazia o mínimo sentido. Na verdade, parecia surreal o fato de que entraria na água e continuaria “humana”.
– Sei que é confuso e novo para você, mas pode confiar em mim.– deu um passo para frente, aproximando as duas da banheira.
respirou fundo, tossindo fraco no final do ato, ainda não estava completamente acostumada com o ar. Caminhou em passos lentos até a banheira, apoiando–se completamente em ao começar a entrar na banheira.
A água gelada tocou primeiro seu pé direito, causando arrepios em todo os eu corpo, em seguida o outro pé já estava na água também. Ficou parada por alguns segundos naquela posição, esperando que a qualquer momento seus pés grudassem e voltassem a formar sua cauda, porém nada disso aconteceu. Arriscou um sorriso para a mulher que a ajudava, recebendo um sorriso ainda maior.
afastou–se de , submergindo o corpo completamente na água, com as costas encostadas no interior da banheira e o queixo pairando sobre a água. A temperatura gelada da água fazia a sereia relaxar, era como se estivesse distante o suficiente da costa, porém próxima à superfície.

– Detetive . – a voz chamou sua atenção, fazendo–o parar de encarar as fotos do corpo que encontraram pela manhã, e focando no homem parado a sua porta.
– Xerife West.– o mais novo balançou a cabeça em um aceno.–Os resultados já saíram?
– Sim. Vamos?– questionou já saindo da sala, sendo seguido por .
Por mais que não quisesse admitir, a cidadezinha estava ganhando o coração de pelo fato de que o transito ali era nulo. Saíram da delegacia, seguindo apenas na viatura do mais velho, e poucos minutos depois já estavam estacionando de frente para o pequeno prédio de três andares.
O detetive seguiu o superior por todo o caminho, já que não fazia ideia da onde estava indo. Perdeu as contas de por quantas portas passaram, porém ao sentir a queda brusca de temperatura, ele sabia que já tinham chegado ao local.
– Jack, pensei que você só nos daria respostas após o almoço.– o xerife falou alto, atraindo a atenção do homem de jaleco branco parado na frente do corpo sem vida que estava estendido na maca fria de metal.
– Isso pode soar um pouco antiprofissional, mas eu fiquei fascinado ao observá–lo.– o legista falou de modo apressado, focando a atenção nos dois homens a sua frente.– Como eu nunca vi algo assim, convoquei todos para trabalharem comigo. Ficamos a manhã inteira nisto.
– E você já tem uma resposta?– o tom de voz rude do detetive mascarava sua curiosidade. Em todos os anos que passou trabalhando em Olympia, nunca tinha visto algo como aquilo, e não acreditava que estava vendo logo em Bristol Cove.
– Li o relatório de vocês, acrescentei apenas uma coisa ou outra.–Jack pegou o amontoado de folhas, também conhecido como seu relatório e aproximou–se dos detetives.–Os arranhões não foram causados por alguma garrafa quebrada, a espessura do vidro não coincide com as das marcas.
– Então o assassino está com a arma o crime.– Byron exclamou, arrancando uma risada nasalada do legista.
– Não devemos considerar como arma do crime, os arranhões não foram o que causou a morte do Sr. Whosen.– Jack falou de modo rápido, entregando fotos doa arranhões para os homens.– E antes que vocês digam, os tímpanos estourados também não são a causa da morte.
– E o que seria, então?– com os braços cruzados e a sobrancelha arqueada, encarava o legista enquanto pensava se tinha deixado algo passar durante a inspeção visual.
– A causa da morte foi edema pulmonar, o pulmão estava cheio de água.– Jack simplificou, fazendo com o que a sala ficasse em um extremo silêncio.
– Certo, mas e os tímpanos?– Byron questionou confuso.
–Pode ter acontecido antes ou depois da morte, isso eu não posso lhes afirmar.– o legista respondeu levemente frustrado, odiava não ter resposta para tudo.– Nossa primeira hipótese foi a de que o assassino perfurou os tímpanos da vítima, mas ela não tem uma lógica.
– Para o assassino pode ter, nunca se sabe como funciona a cabeça deles.– resmungou.
– Chegamos a cogitar que ele já teria o tímpano perfurado, porém não teria sentido ele sangrar.– Jack entregou as fotos que mostravam sobre a área que falavam.– No final, não conseguimos descobrir o que causou, porém sabemos que têm ligação com o assassino.
– Muito obrigada, Jack.– Byron agradeceu com um sorriso enquanto saía da sala, sendo acompanhado por que apenas balançou a cabeça em um aceno.– Quanto mais eu penso nesse caso, parece que menos sentido ele faz.
–Estou com isso na cabeça desde que vi o corpo na praia.– o detetive confidenciou.– Edema pulmonar, isso soa como um absurdo.
– Se Albert tivesse se afogado, o que teria que ter acontecido durante essa madruga, não encontraríamos seu corpo na praia essa manhã. – o xerife externava seus pensamentos, rezando para que eles fizessem sentido para .– Só encontraríamos seu corpo ali se boas semanas tivessem se passado, e isso não aconteceu, pois eu vi Albert ontem a noite.
– O assassino pode ter escolhido Albert por considera–lo um alvo fácil, então foi para cima dele e começou a luta corporal, o que acabou causando as marcas de arranhões, pois o assassino estaria portando uma arma.– os olhos do detetive permaneciam estáticos enquanto ele falava rapidamente, não querendo perder um segundo do raciocínio que surgiu em sua mente.– Porém Albert estava dando mais trabalho do que ele esperava, então afogou a vítima, para que fosse mais rápido.– deu uma pausa para respirar, vendo que o xerife o encarava atentamente.– A perfuração pode ter sido causada apenas por um surto de raiva, já que gastou mais tempo do que o esperado com a vítima.
– Estou extremamente impressionado.– Byron exclamou, ainda atônito pelo que tinha escutado.
– Isso é apenas uma teoria. – deu de ombros, não considerava aquilo grande coisa. Nem sabia se aquilo era verdade.– Ainda não sabemos quem o principal. Quem é o assassino?
– Infelizmente não tenho a resposta para essa pergunta.– Byron resmungou conforme saía do prédio acompanhado de .
– Xerife, posso lhe fazer uma pergunta?– o detetive questionou, precisava saber a resposta sobre aquilo após pensar sobre a frase durante toda a manhã.
– Claro que pode.– Byron assentiu rapidamente.
– O que quiseram dizer na praia quando gritaram “elas estão voltando”?– encarou o xerife, que suspirou fundo e parou de andar, encarando o detetive.
– Sereias, alguns moradores acreditam que elas vão voltar para se vingarem da cidade. – piscou atônito por longos segundos, e se não fosse o tom de voz extremamente sério de Byron, o detetive estaria gargalhando sobre aquilo.
não compreendia, não era possível de além de acreditarem que elas existiam, agora iriam culpá–las pela morte de um bêbado. Era tão difícil aceitar a realidade de que sereias não existiam?

Capítulo Três – The Transformation

It´s no more surprising to be born twice than once, everything in nature is resurrection.
tinha deixado a jovem sereia descansar o dia inteiro em sua cama, lembrava das histórias que sua mãe lhe contava e sabia que as criaturas precisavam de alguns dias até se habituarem completamente com a vida humana e sobre como seus corpos funcionavam fora da água.
Ouviu um barulho de vidro quebrado acompanhado de um grito sobrenatural e levantou do sofá em alerta, não conseguia negar o medo que sentia após ter presenciado a cena de mais cedo na praia. Bristol Cove era um lugar pacífico e mortes misteriosas não eram algo que fazia parte da rotina da cidade.
estava encolhida próxima a geladeira e possuía os olhos arregalados fixos no pedaço de vidro que estava fincado em seu pé, observando atentamente o sangue que pingava no chão. As lágrimas estavam presas em seus olhos e os dentes mordiam fortemente os lábios, deixando um gosto metálico na boca da jovem.
– Imaginei que você dormiria mais, se não eu já teria voltado para o quarto. – contentou–se em balançar a cabeça em sinal de negação e levantou a perna da direção de , em um pedido mudo para que a humana acabasse com a sua dor.
diminuiu a distância entre as duas, tomando cuidado para não pisar nos cacos de vidro espalhados pelo chão e ajudou a encostar–se na bancada próxima a geladeira de modo que não pisasse com o pé machucado no chão.
– Eu vou tirar o vidro que está no seu pé, mas isso vai doer. – falou de modo atencioso, mesmo sem ter a certeza de que a sereia a compreendia.
A mulher contou até três mentalmente, respirando fundo e criando coragem para que retirasse o vidro. Sabia que a dor que a sereia sentia era duas vezes maior do que a de um humano, já que as pernas que elas adquiriam na superfície eram extremamente sensíveis nos primeiros dias, mas também se lembrava da força que sua mãe dizia que as sereias possuíam ao se sentirem ameaçadas ou atacadas. Em um suspiro de coragem tirou rapidamente o pedaço de vidro e tateou a superfície, pegando o primeiro pano que encontrou e enrolando no pé da sereia.
sabia o que era sangue, era assim que costumava achar suas refeições no fundo do mar, mas a jovem não conseguia negar que estava surpresa. Ela não imaginava que suas pernas recém–adquiridas era tão sensíveis.
Abaixou rapidamente a perna e apoiou o pé machucado no chão, levantando–o em seguida ao soltar um grito roco conforme sua visão escurecia. Era tudo muito novo para a jovem sereia, a vida no mar não era tão cuidadosa quanto na terra firme.
– Nós precisamos arrumar um nome para você. – murmurou conforme ajudava a mais jovem a se locomover cuidadosamente até a sala.– Nome é a forma como nós nos reconhecemos, cada pessoa possui o seu.
.– a sereia pronunciou baixo conforme sentava no sofá, arrancando um sorriso aberto da humana.
– Sim, o meu nome é , e o meu apelido é .– continuou com o sorriso no rosto, satisfeita pela sereia compreender facilmente o que falava.– Você tem algum nome mundano? Minha mãe costumava dizer que algumas sereias recebiam nomes humanos antes mesmo de saírem do mar.
A jovem concordou com um aceno de cabeça, não conseguindo conter o ímpeto de fechar os olhos ao lembrar as memórias com sua mãe. As duas nadavam juntas até a superfície e apreciavam o sol em seus cabelos, conforme Reina contava com fascínio sobre sua curta vivência na terra.
Reina, sua mãe, possuía um sentimento proibido pelos humanos. A função dos seres femininos de sua espécie era sair do mar apenas para procriar com os humanos, a única relação que podiam ter era o contato carnal para que as novas crianças mestiças nascessem. Porém sua relação de ia, além disso, motivo pelo qual ela batizou a filha com um nome terrestre sem que as outras criaturas soubessem, sabia que a sentença era morte sempre que uma sereia demonstrava algo maior do que o mínimo por um humano.
.– as letras dançaram pelos lábios da sereia conforme o nome era pronunciado calmamente.
escutará histórias o suficiente para saber o quão fatal era a voz de uma sereia, independentemente se ela estava dentro ou fora do mar. O tom de voz doce e suave usado para se comunicarem era relaxante, calmo e acolhedor. Já o canto das sereias era poderoso e de beleza imensurável, porém completamente mortal. Capaz de enlouquecer do mais cético até o mais sábio dos homens.
Antes que a dona da casa pudesse responder, o estômago de protestou alto em claro sinal de fome, fazendo com o que jovem rosnasse na direção de . A sereia estava acostumada a batalhar no mar por comida, não seria uma mera humana que a impossibilitaria de matar sua fome.
– Certo, eu não faço ideia do que você come. – bufou frustrada ao levantar–se do sofá.
As histórias que conhecia sobre as vidas das sereias apenas eram retratadas em terra firme, nem mesmo sua mãe gostava de lhe contar o que acontecia nas profundezas do mar. A maior noção que possuía sobre a vida das sereias no oceano era completamente baseada em A Pequena Sereia e em Barbie Vida de Sereia, e tinha plena certeza que a realidade não era nada parecida com aquilo.
– Eu vou até a cozinha pegar comida e você vai ficar sentada aí me esperando. – falou para ao constatar que a sereia a seguia.
Revirou a cozinha na procura de algo que provavelmente possuiria o mesmo saber de algas marinhas, mas não sabia o saber que aquilo possuía e desistiu, contentando–se em colocar algumas folhas de alface acompanhadas de couve em um prato. Pegou outro prato, para o caso de que se primeiro não fosse aprovado, e abriu as duas embalagens de peixe enlatado que possuía.
Voltou para a sala e observou sentada no sofá com as pernas em cima do assento. A sereia, que até então estava descontraída, rosnou novamente ao sentir o cheiro familiar no ar. Os dentes perfeitamente brancos estavam cerrados uns contra os outros enquanto os olhos em fenda observavam a mulher a sua frente.
estancou no lugar e tentou ignorar o fato de que suas mãos tremiam. Era impossível negar e dizer que não sentia medo, principalmente com a encarando como se a qualquer momento fosse pular em sua direção e ataca–la. Respirou fundo e direcionou o primeiro prato na direção da sereia, sentindo sua respiração para no momento em que jogou o prato no chão e rosnou novamente. Céus, precisaria urgentemente comprar louças novas após a estadia da sereia. Entregou o segundo prato e quase soltou um suspiro aliviado ao ver segurar fortemente o prato e aproximá–lo do rosto.
abandonou a posição de ataque cheirou o peixe, franzindo o nariz ao sentir a falta do cheiro habitual. Não era o que comeria se estivesse no mar, mas compreendia que as coisas na terra eram diferentes. Ignorou o fato de que não era um peixe fresco e atacou a comida, devorando a refeição em poucos segundos.
continuava parada no mesmo local de antes, com a mão suspendida em direção a e os olhos arregalados. Nunca, em toda sua vida, tinha visto alguém comer algo tão rápido e de maneira tão faminta e animalesca como tinha feito. Associando a cena, apenas conseguia pensar em duas coisas. A primeira era que precisava prover um estoque de peixes, e a segunda era que ligaria para a Disney e reclamaria sobre as falsas informações sobre as sereias. Elas não eram amigas dos peixes, de jeito nenhum.

O detetive encarava o relatório da autopsia por algumas boas horas, mais especificamente, desde que o tinha recebido. Voltou para a delegacia e acomodou–se em sua mesa, sem sair do local uma única vez. Já tinha perdido completamente a noção do tempo, sua atenção não focava em nada além dos papéis que estavam espalhados por sua mesa. Quanto mais lia as informações, menos sentido tudo aquilo fazia. Em todos os anos que trabalhava na polícia, nunca tinha visto algo sequer parecido com aquilo. Sabia que poderia ser um serial killer, e não descartaria essa possibilidade até ter a certeza de que nenhum outro corpo seria encontrado
Sabia que não esqueceria tão cedo dos detalhes relacionados ao caso, as causas continuavam uma incógnita em sua mente. O que teria causado os arranhões que estavam espalhados pelos membros da vítima? Será que o rompimento dos tímpanos tinha alguma ligação com a morte misteriosa? E o principal, como a causa da morte era por afogamento e o corpo estava estirado na orla da praia durante a manhã.
– Hora de ir para a casa, detetive .– parou de encarar os papéis e passou o olhar pelo departamento, notando que quase todas as mesas estavam desocupadas, exceto pelos oficiais que trabalhariam durante o turno da noite.– Já passou das sete, você já deveria estar em casa.
– Estava analisando o relatório e fazendo algumas anotações, acabou que eu não vi a hora passar. – Byron concordou com um balançar de cabeça, sabia pela outra delegacia que aquilo era algo normal em relação ao detetive sempre que um novo caso surgia. – Bom, eu já vou indo. Preciso passar em um mercado e abastecer a geladeira, acabei não fazendo isto ontem.
– Bom descanso, detetive, nos vemos amanhã.– o xerife se despediu conforme rezava mentalmente para que não precisasse acordar o detetive na manhã seguinte informando que tinham outra vítima.
guardou o relatório em uma de suas gavetas e saiu com a Xerox e suas anotações na mão. Despediu–se dos poucos homens que ocupavam o local durante o turno da noite e respirou fundo ao pisar fora da delegacia, apreciando a brisa marítima e a bela coloração do céu alaranjado que começava a se mesclar com o azul escuro. Não conteve o ímpeto de revirar os olhos ao observar, novamente, uma leva de turistas tirando fotos com a estátua da sereia. questionava–se mentalmente o quão iludido alguém precisava ser para acreditar nas crenças locais sobre sereias, e principalmente o motivo pelo qual continuavam comprando a ideia fajuta de que Bristol Cove um dia já fora a casa terrestre das sereias.
Adentrou em seu carro, e encarou pela última vez a estátua da criatura mitológica. Se não fosse por todo o misticismo e a enorme obsessão bizarra por sereias, ali não seria um local ruim para se morar. Balançou a cabeça negativamente, estava ocupando demasiadamente seus pensamentos com sereias para alguém que era completamente cético, e se dispôs a ignorar o assunto. Sabia completamente que não seria algo fácil, já que cada esquina da cidade possuía diferentes marcos com a criatura híbrida.
Colocou os papéis no banco ao seu lado e seguiu até o mercado mais perto, que para sua infelicidade era no caminho contrário ao de sua casa. Passou pela Praia Central, notando que a mesma encontrava–se praticamente vazia e que mesmo se ele quisesse, não conseguiria negar a beleza do local. Durante a manhã não conseguiu reparar quão bela era a praia, estava completamente focado em sua vítima, mas agora a beleza era inegável.
Estacionou em uma das vagas de frente para o mercado e saiu do carro, notando que a Praia Central ia um pouco além do que imaginava e que possuía um pequeno conjunto de pedras que formavam uma pequena praia a parte. Parou de analisar o local e adentrou ao mercado, disposto a comprar tudo o que precisava.
Saiu bons minutos depois com um carrinho auxiliando a levar as compras até seu carro, sabia que quando chegasse em seu edifício, deixaria o elevador parado em seu andar por longos minutos até que conseguisse carregar todas as bolsas para dentro do seu apartamento. Passou rapidamente as bolsas do carrinho para a mala do carro e respirou aliviado.
encarou o céu límpido azul escuro, a lua minguante clareava a praia já que a iluminação ali era quase nula. As ondas quebrando na areia dariam um ótimo cartão postal devido ao contraste com o céu estrelado. Olhando para o céu completamente estrelado, o detetive sentia–se calmo, pela primeira vez. Ali, parado contemplado a beleza noturna da cidade, ele conseguia admitir que aquilo sim era mágico.
Ouviu um grito alto e gutural soar não longe dali e sentiu seu corpo entrar em estado de alerta enquanto sua mente trabalhava ao tentar descobrir de onde o barulho vinha. Correu os olhos pela orla da praia, constatando que ela realmente encontrava–se completamente vazia. Lembrou então de mais cedo, quando notará que a praia possuía uma pequena continuação mais a frente e não pensou duas vezes antes de correr para o local. E naquele momento, o único pensamento que percorreu a mente do detetive, era que el daria qualquer coisa para conseguir sua arma novamente.
A poucos minutos dali, encontrava–se sentada na areia com os olhos arregalados conforme observava a transformação de . Queria poder entrar na água e observar o processo de transformação enquanto a sereia recuperava sua cauda, mas sabia que aquilo poderia ser extremamente perigoso. Lembrava–se muito bem das diversas vezes que ouvira sua mãe falar que por mais que as sereias fossem serem extremamente dóceis e sensuais na terra, isso não se aplicava dentro da água.
Poucas horas antes decidiu que ao anoitecer levaria a sereia de volta para o mar, o corpo da jovem já se encontrava completamente ressecado e o incômodo que sentiu de manhã apenas duplicou. Além da quentura fora do normal que o corpo apresentava. só conseguia pensar que aquilo tudo era devido ao distanciamento da água.
Assim que o céu tornou–se escuro as duas jovens saíram de casa. sabia muito bem para onde poderia levar neste horário sem que elas fossem descobertas. Seguiram para a Praia Perdida, não tão distante da Praia Central, mas completamente esquecida pelos moradores locais, principalmente ao entardecer.
Sentou na areia – do mesmo modo que ainda se encontrava –, e observou a sereia se despir a sua frente, deixando as peças de roupas em um amontoado na areia. parou o caminho que fazia ao sentir a maré gelada em contato com seus pés, e virou–se na direção da humana, encarando–a nervosamente antes de entrar na água.
Respirou fundo e caminhou para dentro do mar, ignorando o ardor que sentia em sua pele ressecada e em seu corte recém adquirido no pé devido a água gelada. Em um rompante de coragem, respirou fundo e mergulhou, soltando todo o ar que prendia em seus pulmões ao estar completamente submersa.
Os olhos arregalados ardiam devido ao sal presente na água, mas essa dor não era nada ao ser comparada a todo o resto que sentia. Sentiu a água invadir seus pulmões e naquele momento, a sensação que dominava seu corpo era a de que estava afogando. Suas pernas batiam desesperadamente na água, em uma falha tentativa de conseguir controlar seus membros que pareciam ter vida própria.
O som rouco e animalesco saiu rasgando sua garganta e afugentando os poucos peixes que estavam presentes ali. sentiu a gengiva arder e suas presas já estavam expostas, os dentes completamente afiados estavam escancarados conforme a sereia sentia como se suas pernas estivessem sendo costuradas a força.
Suas guelras e brânquias apareceram novamente e agora a sereia já conseguia respirar sem dificuldades na água. A sensação agoniante parou e ao mexer o quadril, já não possuía mais duas pernas, e sim uma cauda. Sentiu sua pele voltar normalmente o que era e nadou para longe da costa, disposta a ter uma refeição decente.
permaneceu por longos minutos sentada sozinha na areia, encarando a imensidão azul enquanto esperava o retorno de . Foi inevitável não prender a respiração ao encarar o tronco nu da sereia suspenso sobre as águas, naquele momento, compreendeu o motivo pelo qual a beleza de uma sereia era considerada algo tão sensual e perigoso, ela sentia como se estivesse prestes a romper na direção do mar a qualquer momento. Com ali, nua nas águas e com a luz do luar a iluminando, a sereia tornava–se ainda mais mítica.
mergulhou uma última vez antes de dirigir–se até a orla da praia e repetir o processo pelo qual foi submetida na noite passada. A mesma sensação cortante da areia em contato com a sua calda e com sua pele que perdia a total maciez que costumava possuir dentro d´água. Achou que após a primeira transformação as outras seriam mais calmas, mas percebeu que estava completamente enganada.
A sensação sufocante ao sentir o ar em seus pulmões novamente foi tão sufocante como na primeira vez. Seus olhos estavam fechados fortemente, mas nem mesmo isso impedia as lágrimas de rolarem pelo rosto da sereia. Mas mesmo que toda aquela dor fosse horrível, nada se comparava a dor agoniante que a transformação lhe proporcionava do quadril para baixo.
Se minutos atrás ela sentia que sua perna estava sendo costurada a força, agora ela tinha a total certeza de que sua calda estava sendo cortada ao meio e puxada fortemente para os lados.
O grito alto e gutural ecoou por toda a praia enquanto debatia–se contra a areia conforme sentia sua cauda desgrudar–se de si. levantou de onde estava e correu na direção da sereia, sua expressão não escondia o nervosismo e muito menos o choque que sentia ao encarar aquela cena. O nervoso era relacionado a todo o sofrimento que estava passando, ela não sabia se aquilo era algo normal, já o choque era por estar finalmente de frente com uma sereia.
respirou fundo, acostumada novamente com o oxigênio e em um pedido mudo recebeu a ajuda de para se sentar. Mesmo com a transformação sendo tão dolorosa quanto da primeira vez, sentia–se mais habituada as pernas dessa vez. Levantou o pé que tinha machucado mais cedo e o deixou próximo ao rosto de , mostrando para a humana que seu pé tinha se recuperado.
franziu as sobrancelhas ao encarar de modo chocado o pé perfeitamente sarado da sereia, sorrindo logo em seguida, fascinada pela cura de após o curto contato com a água. Afastou–se e voltou para o local que estava sentada, recolhendo as roupas da areia e disposta a devolve–las a . Notou que a mais jovem rompeu a conexão visual que possuíam e rosnou baixo ao encarar um ponto desconhecido atrás de . A postura de ataque da sereia fez com o que virasse rapidamente na direção que encarava, notando a sombra masculina que se aproximava delas rapidamente.
corria o mais rápido que podia em direção à praia, sabia que se algo acontecesse e ele chegasse tarde, nunca se perdoaria. Praguejou todos os palavrões possíveis ao notar que devido a distância e a falta de iluminação adequada tudo o que ele conseguia enxergar eram duas formas distintas.
Apressou o passo e ao sentir a areia macia sob seus pés conseguiu enxergar finalmente enxergar com clareza. Franziu o cenho ao notar que possuía apenas uma pessoa na praia, mas alguns minutos atrás ele poderia jurar que eram duas pessoas paradas ali. Ainda estava alguns metros distante da mulher, mas estava disposta a ir até lá e perguntar se foi ela quem gritara ou se ela tinha escutado o grito, porém estancou no lugar ao encarar a figura que encontrava–se próxima de si.
Ali, praticamente de frente para a mulher que até minutos atrás era apenas um borrão, pode finalmente observar com clareza a tudo o que a distância e a falta de iluminação lhe privaram. De frente para ele, estava de pé e completamente nua, os cabelos molhados grudados por seu corpo e a luz do luar parecia contornar perfeitamente as formas da sereia e lhe iluminar.
esqueceu como falar por breve segundos enquanto encarava a mulher nua a sua frente. Não era como se nunca tivesse visto uma mulher nua a sua frente – na verdade, não fazia muito tempo desde que uma estivera nua em sua cama – mas tinha algo completamente diferente em relação aquela mulher. Talvez fosse o fato de que ela resolvera nadar nua em uma parte afastada da praia, ou o fato de que sua beleza refletida ao luar parecia algo mágico aos olhos do detetive. Encarando aquela cena, teve a plena certeza de que aquilo sim era um ótimo cartão postal.
Respirou fundo e fechou os olhos, contando até três enquanto tentava dissipar a névoa que aquela mulher desconhecida parecia ter jogado em sua mente. Soltou o ar ao se sentir novamente em suas perfeitas condições mentais e abriu os olhos, encarando o grande vazio em sua frente.
piscou algumas vezes, desistindo ao se dar conta que a mulher não reapareceria em um passe de mágicas. Bufou frustrado, não era possível que sua lhe pregou uma peça, a imagem da mulher a sua frente era demasiadamente real e extremamente perfeita, sua mente caótica não conseguiria criar nada assim nem se quisesse.
Direcionou o olhar para o chão, notando o par de pegadas que faziam uma trilha diferente da qual ele percorrerá para chegar ali, e suspirou aliviado, satisfeito por não estar enlouquecendo. O detetive estava disposto a seguir o caminho, precisava de algumas respostas, mas a coloração acinzentada sobre a areia lhe chamou atenção. Abaixou–se próximo ao local e notou que outrora a areia cinza já tinha possuído uma forma. Pegou um pouco com a mão e sentiu a textura desconhecida esfarelar em contato com a sua pele.
franziu o cenho, não compreendia o que aquilo era e muito menos o motivo pelo qual estava ali, mas ele tinha a total certeza de estava relacionado a mulher desconhecida. Levantou–se rapidamente da areia e seguiu a trilha de pegadas, mas tudo o que encontrou novamente foi o grande vazio a sua frente. Ele era a única pessoa naquela maldita praia.
Bufou frustrado e desistiu de tentar procurar a mulher, não poderia sair correndo igual a um louco pela estrada enquanto rezava para que ela estivesse logo a frente, o esperando para que sanasse todas as suas dúvidas. refez o caminho e voltou para mercado, entrando em seu carro e disposto a ignorar o que tinha acontecido.
Não tão longe dali e respiravam aliviadas por terem conseguido escapar de um possível flagrante, não sabiam se o homem tinha conseguido observar a transformação de e não estavam dispostas a descobrir.

Nota da Autora:
Nesse capítulo eu quis mostrar um pouco mais sobre alguns fatos relacionados com as sereias que eu “criei” e sobre as histórias e circulam pela pequena Bristol Cove. Acredito que esse não era o primeiro encontro que vocês esperavam dos principais, mas espero que vocês gostem!

Capítulo 4 – The History

History is a nightmare from which we are trying to awake.
(A história é um pesadelo do qual estamos tentando acordar.)

Tinha se passado pouco mais que duas semanas – quinze dias exatamente – desde que encontrou a mulher misteriosa na praia. Ele tinha voltado ao local algumas vezes, praticamente uma semana inteira, com a esperança de que encontraria novamente a mulher desconhecida cujo os meros traços visíveis ainda permaneciam fixos em sua mente.
Nos primeiros dias foi no horário aproximado ao que tinha encontrado a desconhecida, mas logo notou que ela não estaria ali – fazendo o que quer que fosse – no horário ao qual tinha sido encontrada por ele, já que tinha quase sido pega em flagrante.
Nos próximos dias chegou mais cedo, aproveitando a bela vista do sol se pondo em conjunto com oesplêndido mar azul. Permaneceu no local e esperou até que a lua minguante ocupasse o céu e o tom alaranjado desse lugar para o azul petróleo da noite. Mas mesmo assim continuou a ser a única alma viva presente naquela praia.
Nos últimos dias tinha criado o hábito de correr a noite até a praia mais distante – a mesma que tinha encontrado com a bela desconhecida –, e utilizou–o como motivo para ir até a Praia Perdida em busca de encontrar novamente com a mulher.
Porém nenhum de seus esforços fez o mínimo efeito, levando em consideração que não tinha encontrado novamente com a mulher. Desistiu logo depois dessa ideia e parou de visitar a Praia Perdida, aceitando a possibilidade de que nunca mais veria a mulher. Chegando até mesmo a se questionar se realmente tinha visto aquela mulher peculiar ou se era apenas fruto da sua imaginação perturbada devidoaos últimos fatos que ocorreram em sua vida.
Mas independentemente de qual fosse a resposta, Rowenestava frustrado.
Não tinha ideia de quem era aquela mulher e nem o que fazia sozinha naquela praia, principalmente estandointeiramente despida. Sua mente lhe dizia que era apenas uma moradora local que tinha resolvido tomar um banho de mar completamente despida ou até mesmo uma turista que queria aproveitar seu tempo livre na beleza das praias locais da pequena cidade. Mas após o caso que continuava investigando, não acreditava mais em respostas tão simples e descomplicadas.
Principalmente ali em Bristol Cove.
O caso de Albert Whosen era o principal fator para toda a frustração presente no detetive. Já analisava aquele arquivo há dias, mas continuava sem compreender o que tinha acontecido com o homem. Nada ali parecia fazer sentido e o detetive se sentia mais confuso a cada dia que passava.
O caso estava arquivado – ordens diretas de Byron West, o xerife – mas não se importava, ele não deixaria de pensar naquele caso até que o mesmo fosse resolvido. Sentia–se completamente preso aquele assassinato e apenas pararia de pensar no mesmo quando descobrisse quem causou aquilo.
Queria compreender como a morte do pobre homem acontecera e o que tinha levado o assassinato a ser tão brutal. Não acreditava na hipótese de ter sido causado acidentalmente por um animal, mas não compreendia como um ser humano poderia ter realizado tudo aquilo – aparentemente – em menos de vinte e quatro horas.
Sua cabeça andava tão ocupada no último mês, que a dor da perda de sua mãe agora concentrava–se apenas em um enorme sentimento de saudades. Ainda se se sentia demasiadamente triste pela morte repentina da matriarca, motivo pelo qual continuou com as corridas noturnas pelo centro da cidade, mas já não se sentia a ponto de explodir por qualquer motivo que fosse.
Aquela era a sua fora de externar tudo o que sentia e de arrumar um passatempo, de modo que buscasse não focar toda a sua atenção apenas no caso. Porém era impossível fazer qualquer outra coisa estando dentro da delegacia.
– Ainda lendo esse relatório, detetive?– Kara questionou ao apoiar a cintura na mesa do homem, encarando–o atentamente.
– Achei que soubesse que eu só vou parar quando conseguir compreender o que aconteceu. – respondeu sem olhar para a policial.–Além do mais, não é como se eu tivesse outros afazeres por aqui.
– Já disse que você pode sair para as patrulhas comigo. – a mulher falou com um tom de voz que ia além de apenas um simples convite, sorrindo abertamente ao notar que tinha atraído a atenção do detetive.– Seria uma boa ter companhia, é bem solitário e tedioso ir sozinha.
– Obrigado pelo convite, mas eu dispenso. – sorriu sem mostrar os dentes, descartando novamente as insinuações de Kara.– Preciso resolver esse caso para voltar a dormir tranquilamente.
Praticamente desde a chegada de na cidade, a policial tentava se aproximar do homem, afinal de contas, não é todo dia que um detetive bonito e solteiro aparecia pelas redondezas. Kara acreditava estar sendo discreta, mas o detetive sabia as reais intenções da mulher com todas as suas sutis insinuações, seus sorrisos abertos e sua proximidade.
Vinha negando qualquer contato com a mulher que lhe pudesse ocasionar em algo além da relação profissional, mas não sabia por quanto tempo aguentaria isso. Não possuía nenhum interesse em um relacionamento amoroso – nem acreditava estar emocionalmente preparado para isso – mas não podia negar que seu corpo precisava de sexo.
Aquele era um dos principais motivos que o fazia sentir falta de Olympia. As suas transas fixas cuja as companheiras já sabiam o que esperar de , principalmente a ausência de qualquer comprometimento.Mas a cama vazia e sua abstinência sexual sequer eram considerados problemas, o detetive possuía preocupações maiores.
– Sabe que se precisar de ajuda, é só chamar.– Kara piscou de modo sedutor e manteve o sorriso aberto.– Nos vemos depois, detetive.
– Até depois, Mendel.– respondeu e voltou a encarar o relatório.
O detetive analisava as páginas como se a qualquer momento as respostas fossem pular para fora das folhas. Tinha lido e relido aquilo tantas vezes, que não duvidava já saber narrar todos os detalhes impressos naquele relatório. Mas a grande questão continuava uma enorme incógnita e sabia que não estava nem perto de descobrir o que estava acontecendo.
Sentia–se incompetente por não conseguir achar uma ligação entre os fatos e principalmente por não terem uma mínima pista sobre quem seria o culpado, mas parecia que nada naquele caso fazia sentido. Não compreendia como era possível que um corpo sofresse tanto em tão pouco tempo.
não conseguia ignorar a voz do morador que ecoava em sua mente gritando “elas estão voltando”. Não conteve o impulso de sua imaginação e imediatamente lembrou da mulher nua na praia. Riu descrente e balançou a cabeça levemente em sinal de negação. Menos de um mês morando ali e a tolice sobre a crença nas sereias já estavam desconcertando a sua mente.
– Possui planos para mais tarde, detetive?– a voz séria de Byron atraiu a atenção de .
O detetive suspirou e juntou os papéis, retirando os olhos novamente do relatório que tanto encarava,fixando o olhar no xerife que o fitava com um sorriso leve no rosto. Não classificaria o chefe como alguém frio e sem emoções, mas achava o sorriso quase espontâneo no rosto do homem um fator inédito.
– Talvez beber enquanto assisto um jogo qualquer ou até mesmo uma luta.– respondeu simplesmente à pergunta relacionadaao que basicamente era sua rotina todos os dias após o expediente.
– Vai ter um festival mais tarde, é o ponto alto da cidade durante o verão.– meneou a cabeça em um leve acenar em concordância.– É algo muito bonito de se ver, você deveria ir.
– Aparenta ser melhor do que ficar em casa bebendo algumas cervejas enquanto procuro alguma coisa boa para assistir na televisão.– Byron concordou e emendou em seguida:
– O festival é consideravelmente grande e é uma das atrações que mais chamam turistas para a cidade. É algo bem bonito.– sorriu de modo satisfeito.– É uma comemoração anual, uma das mais belas dessa época.
– Bom, então irei.– sorriu simplesmente e notou o sorriso de Byron aumentar.
– Eu sempre vou acompanhado da minha família, minha filha adora essas festividades.– o xerife murmurou ainda com o sorriso nos lábios.–Mas todos nós, cidadãos de Bristol Cove, comparecemos sempre. O departamento de polícia sempre vai, mesmo que alguns estejam a trabalho. O que acaba gerando algumas reclamações.
– Desde que eu possa beber, eu não vejo problemas em estar a trabalho.– deu de ombros.
Não se importava em ter que ficar de patrulha na tal festividade que o xerife contava com tanta felicidade. Com o caso não resolvido que tinham, até preferia ficar em estado de alerta maior devido a patrulha. Não sabia quem era o assassino e nem como ele agia, mas acreditava que ele poderia atacar naquele momento em que a cidade estaria absorta em durante a festividade.
Acreditava fielmente que aquela não era a hora recomendada para fazerem uma festividade que atraísse tanta atenção, de modo que todo o departamento policial estivesse presente, acabando por deixar a sociedade sem os olhares da lei em busca do culpado pela morte de Albert.
– Desde que mantenha a sobriedade suficiente para o caso de precisar atirar.– franziu o cenho ao escutar a voz do chefe.
Ainda não tinha uma arma. Acreditava que era devido aos fatos que o fizeram ser transferido para Bristol Cove, ou talvez fosse pelo fato de que a única autoridade dali que possuía uma arma era o xerife. Não conteve o sorriso sincero ao encarar a pistola inteiramente preta de calibre 40.
Tinha sentido falta daquela beldade.
– Obrigada, xerife.– segurou a arma, sorrindo satisfeito na direção de Byron.
– Não há de que, detetive.– Byron retribuiu o sorriso.– A comemoração começa as sete, próximo ao píer da Praia Central. Nos vemos mais tarde.

Não tão longe da delegacia, e estavam se adaptando a conviver juntas sem que acontecesse qualquer problema. A humana compreendeu que não era uma ameaça para si, não enquanto as duas continuassem em terra firme e contanto que a sereia permanecesse bem alimentada.
acompanhou em todas as transformações que ela precisava fazer, por motivos de seu corpo ainda estar se habituando a ausência da água salgada. A necessidade que tinham de frequentar o oceano iam diminuindo gradativamente cada dia mais. A pele de continuava ressecando e causando um enorme desconforto, porém após cada transformação, seu corpo se habituava mais com o ar e com os meros momentos em que estava em sua forma original.
A sereia acostumava–se com a realidade diferente aos poucos. Já possuía total controle de suas pernas e conseguia caminhar normalmente, como qualquer outro humano. Ainda se alimentava basicamente apenas de peixe – já que em todos os seus longos anos de existência, aquilo era a única coisa que comia –, mas a curiosidade fazia com o que ela provasse algumas especiarias humanas.
Odiando quase todas as comidas poucos segundos depois de ingeridas.
compreendia a situação da nova amiga e frequentava o pequeno porto local em dias marcados, sempre que um navio peixeiro chegava com novos suprimentos após passar dias no mar. Comprava uma boa quantidade de diversos peixes – antes mesmo de serem lavados – e seguia para casa para alimentar .
Agradecia por ter uma boa quantia de dinheiro reserva em casa – o dinheiro que gastava comprando peixes era bem mais do que ela esperava – mas precisava voltar a trabalhar imediatamente se seu desejo era continuar mantendo alimentada. Sabia que sua reserva não duraria por muito mais tempo de um modo que continuasse a prover uma boa rotina para ela e para a sereia.
possuía uma loja própria de lembrancinhas e objetos sobre Bristol Cove e as sereias, aquilo era o seu sustento desde que se entendia por gente. Utilizava toda a aura mística da cidade e das sereias em seu prol, lucrando com base nas lendas que ergueram aquela pequena cidade. Mas desde a chegada de , a jovem manteve a loja fechada.
A cidade se encontrava em alta temporada, era o momento em que aconteciam diversos festivais quase todos os dias e a cidade se encontrava abarrotada de turistas. Sabia que estava deixando de lucrar, mas toda a sua atenção estava focada na sereia.
Queria descobrir se era possível confiar naquele ser tão adorável e fatal, desejava compreender como era a vida de – tanto como sereia, estando nas profundezas do mar, como quando se transformava em humana, caminhando como se sempre tivesse feito aquilo –, ansiava saber como ela pensava e qual era sua história.
Precisava saber qual era a finalidade de ali, qual era o motivo pelo qual após tantos anos, as sereias tinham finalmente voltado a Bristol Cove apesar de todos os contos que ouviu sobre o motivo das sereias terem sumido da pequena cidade.
Agora, semanas depois, estava finalmente abrindo a loja outra vez.
Não conteve o sorriso no rosto ao entrar no estabelecimento e sentir o cheiro tão característico do local, era como se o cheiro da maresia ficasse preso dentro daquele cômodo aumentando ainda mais o misticismo das sereias que tentava vender.
–Eu.– parou de frente para uma prateleira e segurou cuidadosamente a pequena escultura de sereia que parecia ter sido feita com as ondas do mar, devido ao tom de azul penetrante que ostentava.
– Sim, é uma sereia, igual a você.– pegou a peça e colocou de volta no lugar.– Cuidado, isso é basicamente igual ao material que cortou seu pé.
afastou–se da prateleira rapidamente, lembrava muito bem do barulho incômodo e da dor que sentiu ao pisar no copo quebrado, preferia manter–se longe para evitar qualquer dor possível. Já bastava a dor que ela era obrigada a sentir em toda transformação.
–Coça.– estendeu o braço na direção de .– Mas não dói.
segurou o braço da sereia – evitando tocar nas áreas que começavam a ressecar – e analisou a pele que já começava a mostrar os sinais de que logo mais estaria na hora de transformar–se novamente. Ao longo dos dias que passaram juntas, notou que a cada transformação da sereia, mais tempo conseguia ficar em terra firme sem seu corpo demonstrar os sinais de que estava ficando desidratado.
– Hoje fazem o que? Quatro dias?!– questionou retórica, mas recebeu um balançar de cabeça como resposta.–Não vejo necessidade de irmos hoje para a praia, podemos ver se amanhã será preciso.
apenas balançou a cabeça novamente. Não estava animada para mais uma transformação e quanto mais tempo demorasse para retornar ao mar, melhor seria. A mutação continuava lhe proporcionando uma dor extremamente agoniante, mas a sereia compreendia que para continuar na terra precisava passar por aquilo.
Toda a dor causada na hora da transformação era um simples e torturante lembrete, cuja a finalidade era relembrar as sereias que seu lugar era – e sempre seria – apenas no mar.
– Precisamos continuar sendo cuidadosas, ninguém pode ver a gente.– desde o dia em que um homem encontrou na praia, tornou–se extremamente cuidadosa, ela não queria que aquilo acontecesse novamente.
– por outro lado –, pedia mentalmente para que encontrasse o homem novamente. Era algo mais forte que a sereia, era sua verdadeira natureza relembrando–a qual era o motivo pelo qual ela estava ali. Não tinha contado para sobre o seu propósito em terra firme, muito menos sabia como o cumpriria, mas sabia que precisava realizá–lo.
– Ficamos sem vir para a terra. Por quê?– questionou ao sentar–se no banco próximo ao da humana.
– Tem um livro aqui que fala sobre isso, vou procurar.– levantou–se e caminhou entre as prateleiras que ela conhecia muito bem, não tardando em achar o livro.– Aqui conta a trajetória de vocês desde a primeira vez que uma sereia veio para Bristol Cove.
voltou para o local que estava antes e entregou o livro para . Os olhos confusos da sereia brilhavam ao encarar o desenho perfeito de sua espécie na capa do livro. Não era uma representação caricata, era a verdadeira essência de uma sereia em sua completa forma natural. folheou o exemplar em sua mão algumas vezes, observando de modo maravilhado os desenhos das sereias que pareciam extremamente reais.
– O livro conta que a primeira vez que uma de vocês apareceu na costa foi em 1820.- falou ao notar que tinha retornado para a primeira página do livro, encarando com o cenho franzido as roupas retratadas.- A sereia foi encontrada por um navio pesqueiro, eles eram bastante comuns antigamente, e ela os seguiu até a terra firme.
parou de encarar as roupas que lhe pareciam completamente estranhas – ainda mais do que as que ela e usavam – e notou a sereia desenhada no quanto da página. Acariciou com o polegar a face retratada daquela bela criatura, os traços presentes naquela folha lhe eram extremamente familiares. O rosto desenhado era tão perfeito, que não tinha uma mísera diferença do retrato para a imagem vívida apenas nas lembranças de .
Sentiu os olhos arderem – sem compreender a razão de seus olhos ficarem marejados, já que era uma ação que não ocorria no mar – e passou para a próxima página. Engoliu em seco ao observar o desenho onde as escamas da cauda desgrudavam da sereia – que arrastava–se pela a areia de modo que a cauda estivesse inteiramente na orla. O rosto da sereia estava direcionado para o chão, enquanto diversos olhares curiosos eram direcionados a mesma.
não precisava encarar a face da mulher para que soubesse que a mesma estava sentindo uma dor insuportável, enquanto a cauda desfazia–se contra os grãos de areia e partes das pernas humanas apareciam.
Porém não era aquilo que o desenho retratava.
As costas da sereia não estavam arqueadas em um claro sinal de desconforto e muito menos de dor. As palmas das mãos contra a areia sustentavam o tronco para cima, de modo que o desenho retratava a sereia saindo para fora da cauda. A ponta da cauda realista e bem desenhada estava próxima de onde a maré batia, cobrindo até a altura dos joelhos da mulher, como se as pernas humanas permanecessem ali o tempo inteiro. Guardadas dentro de sua cauda, evitando uma transformação agudamentedolorosa.
– Minha mãe dizia que esse livro distorceu a história para que ela ficasse bonita.– falou olhando atentamente para o desenho errôneo sobre a transformação das sereias.- Nós só compramos o misticismo, se ele for algo visualmente atrativo ou bonito.
encarou a expressão desgostosa de e direcionou a mão em direção a seu rosto. Não compreendia a razão pela qual a humana estava triste, mas tinha observado – pela televisão – o que os humanos costumavam fazer em momentos como aquele. Acariciou a bochecha de e abriu um sorriso sincero, observando um sorriso singelo aparecer nos lábios da humana.
– Para que mudar história?- murmurou confusa.
Afastou a mão do rosto de , sentindo falta do calor que o corpo humano emanava contra a sua pele, e franziu o cenho. Ainda estava se adaptando as sensações que o corpo inteiramente humano a proporcionava. Acreditava ser capaz de possuir mais afeição por outros seres ao estar ali, cercada por humanos, do que no oceano com os outros de sua espécie.
tinha lhe explicado que os humanos sentiam sensações e emoções, coisas que as sereias não sentiam na água, porém após o convívio com os humanos, elas absorviam o hábito de nutrir sentimentos.
E nutria sentimentos por .
– Queriam atrair visitantes para cá, Bristol Cove era uma cidade litorânea esquecida por todos.- explicou com o olhar fixo no livro, observando passar as páginas de modo aleatório, sem se importar mais para as imagens.- Idealizam as sereias como seres de beleza exuberante, com caudas bonitas e transformações mágicas. Mas desde que você chegou, eu percebo que a cada minuto eu descubro que não conheço a verdade por trás de toda a imagem que tentamos passar ao longo dos anos.
parou de folhear o livro ao encontrar um desenho que atraiu sua atenção. A fisionomia da sereia – a mesma retratada no início do livro – estava presente no rosto da enorme estátua que era construída. Uma mulher – com os mesmos sinais de desidratação que – estava parada próxima a estátua, um humano estava ao seu lado, abraçando–a com um dos braços enquanto o estava flexionado, pousando a palma da mão na barriga saliente da mulher.
– Dizem que algumas sereias abandonaram o mar e criaram família aqui na terra.- contou ao notar o olhar curioso da sereia fixa naquela imagem.- Vocês eram bem tratadas aqui, eram consideradas o amuleto de todos os pescadores. Em todo o país, aqui era o único local que os navegantes não consideravam vocês como uma ameaça. Mas logo depois vocês sumiram.
– Por quê?- franziu o cenho e voltou a encarar a humana.
Não compreendia o motivo pelo qual tinham abandonado a pequena cidade que era a casa de sua espécie fora do oceano. Se eram tão bem tratadas ali, qual seria o motivo de terem passado tantos anos longe da cidade que cativava cada vez mais a atenção de ?
– Eu só sei que, no final das contas, em todas as versões dos contos que eu ouvi ao longo da vida, o motivo do sumiço de vocês é culpa humana.- confidenciou.
– O que os humanos fizeram?– questionou confusa e devolveu o livro para , observando atentamente a humana folheando o livro.
– Dizem que a ganancia subiu à cabeça deles. Eles queriam manter vocês na terra, presas em pequenos aquários com água salgada, para que atraíssem olhares curiosos de todos os cantos do mundo. A imagem de cidade das sereias parecia que só seria bem vendida se pudéssemos estar com vocês a nossa disposição.– virou o livro na direção de , deixando que a mais nova observasse a imagem onde uma sereia estava dentro de um cubículo retangular pouco maior do que a própria criatura que estava confinada ali.– Eles queriam usar a imagem de vocês para que Bristol Cove crescesse, mas vocês são mais inteligentes e mais fortes do que qualquer ser humano. Vocês conseguiram fugir.
–Como?– a sereia questionou e parou de encarar a imagem que já lhe causava ânsia, não queria cogitar a ideia de que sua espécie foi obrigada a passar por aquele pesadelo.
Não sabia definir a ânsia e o incômodo que sentia ao encarar aquela imagem, porém remexia–se de modo inquieto e fixava os olhos em qualquer lugar que não fosse aquele livro. O pequeno espaço ao qual a sereia estava confinada em desenho era demasiadamente apertado e conseguia compreender a aflição que o belo rosto desenhado demonstrava ao encarar fixamente o leitor.
Os olhos estreitos em fendas, as sobrancelhas franzidas em sinal de agonia, os dentes afiados exposto na direção do vidro e o corpo encolhido, em uma mera ilusão de que o espaço ao seu redor tornaria–se mais amplo. Os rostos humanos estavam fixos na criatura que lhes parecia completamente interessante. conseguia observar algumas das expressões desenhadas, e todas elas eram absolutamente diferentes da que a sereia possuía. Eles lhe encaravam admirados. Os sorrisos desenhados em seus lábios demonstravam a felicidade que sentiam ao encarar aquela cena que para , era extremamente perturbadora.
Sua espécie estava acostumada com a imensidão dos oceanos, não estavam habituadas a espaços confinados e a obrigação de permanecerem em um só local. As feições sofridas eram tão bem desenhadas, que poderia jurar que ouvia com perfeição o grito inumano que a sereia presa soltava.
– O livro não diz, ele só fala que isso foi motivo para que todas vocês voltassem para o mar e decidissem que não voltariam para a terra por tempo indeterminado.– fechou o livro ao notar o desconforto de .
Ela tampouco gostava de usá–lo. As imagens eram tão reais e detalhadas, que ela sentia que se fechasse os olhos poderia ver claramente as cenas desenrolando–se a sua frente. Guardou o livro no local que lhe era reservado e retornou ao seu lugar. Envolveu as mãos de entre as suas e o pequeno ato de afeto fez com o que fixasse o olhar levemente atordoado em seu rosto.
– Iremos para uma festividade mais tarde, irá lhe fazer bem.– sorriu abertamente e repetiu o gesto.- Eu estarei sempre ao seu lado, não precisa se preocupar com o que você viu no livro, nada disto vai acontecer com você.
sorriu abertamente – por mais que não tivesse compreendi inteiramente o que falou – e relaxou a posição tensa que seu corpo se encontrava. Confiava em , se estava viva até aquele momento em sua experiência de vivência na terra, era graças aquela humana.
– O que éfestividade?– questionou visivelmente confusa, buscando em sua mente se já tinha sido apresentada a aquela palavra.
– É quando juntamos diversos humanos em só local e em busca de comemorarmos algo.– tombou a cabeça para o lado, mentalizando o que falara.– Essa festividade é sobre as sereias, ela fala sobre vocês.
– Sereias?– o tom de voz assustado em conjunto com os olhos quase fechados de fizeram entrar em alerta.
– Humanos vestidos de sereias, nada de sereias aprisionadas em pequenos recipientes de vidro.– falou em tom suave conforme acariciava a palma da mão de em claro sinal de conforto.– É uma representação teatral da chegada de vocês aqui, a visão feita para ser vendida.
– Quero ver.– falou ao levantar–se de rompante, livrando–se do toque quente de em suas mãos.
– É apenas mais tarde, quando o sol começar a descer para tocar no oceano.– franziu o cenho e sentou–se novamente, sentindo–se frustrada.– Não fique assim, o dia passará rápido e logo estaremos na praia.

Nota da Autora:
Venho aqui comentar apenas que antes da tempestade, vem sempre a calmaria haha A cada capítulo que eu escrevo, mais eu fico apaixonada por AT e por todos os personagens que essa história enquadra! Espero que vocês estejam gostando tanto dessa história como eu. Não esqueçam de comentar e dizer a opinião de vocês sobre esse capítulo.
Ai Gabi, eu amei sua nota de beta haha Espero que você continue amando o comportamento da , o modo como ela está se adaptando ao poucos sobre a vida na terra firma. Confesso que a cada capítulo e ficaram mais encantados e enfeitiçados pela haha
Adorei essa ideia deles se encontrarem disputando peixe na feira, acho que vou aderir. Estou adorando mostrar Bristol Cove cada vez mais!