BOSSY

Sinopse: “Os saltos de alguns mil dólares faziam o chão tremer na redação da revista e ela se orgulhava de tal; Da sua coragem, o poder, a influência. E tinha plena certeza da mulher que era, ou melhor… Se tornou! Um passado conturbado e consequências dolorosas, tudo o que seu andar confiante escondia: uma mulher ferida e temerosa. A Magic! Magazine era um castelo de cartas, mas ainda assim, seu refúgio. Algumas cartas fora do baralho começavam a se embaralhar, cartas na manga a aparecer e o castelo pode ruir.”
Gênero: Romance, Drama.
Classificação: +18
Restrição: Nomes Blair, Nicole e Hideke em uso.
Beta: Elena Alvarez

Capítulos:

I

A noite estava quente, no entanto, de uma brisa ironicamente fria. Lua acesa. Estrelas cintilantes.

Essa noite, só estava começando.

Mais uma data comemorativa, a mais importante de todas. Meu aniversário. Ah! Obrigada, obrigada!

Minha querida Manhattan poderia me dar tudo que sonhei, e realmente me deu, mas nesta noite, tudo o que pedia eram os loucos que me acompanhavam, uns bons drinks para comemorar e boas fotos.

— Quero que saiba que não me esqueceria do seu aniversário, e deixei um presentinho no seu apê. – Ouvi sua voz soar sombria, próximo a mim. Depois de alguns shots, eu poderia confundir a voz, porém o arrepio que me causava, era um feito unicamente dele.

, , … Meu querido! Você não cansa de surpreender.

— Minha especialidade. Você sabe bem.

Assim como eu, Cox, meu co-worker havia boas histórias para contar sobre as noites enquanto amante das luzes que brilhavam e acendiam nossas írises, tão quanto os shots, música alta e fascínios de uma noite só.

— Um dia de sorte sempre cai com seu aniversário e eu desisto de acreditar que isso seja apenas sorte… Querida . – Ele me saudou com sua gim-tônica, junto de um sorriso que transbordava o delicado e sedutor na medida certa.

— Digamos que você só alcançou a sorte, depois que cruzei seu caminho. – Sorri convencida, fazendo o possível para ignorar o apelido que ele insiste há anos; Hoje, me causando as mesmas vibrações de anos atrás. Me virei para o bar, lançando a piscadela significativa para o barman, Donan saberia o que me trazer.

— Eu já vivi a plena realização de sorte, e você foi fundamental. – Senti seu hálito quente gritar a centímetros dos meus lábios. Sua boca me tirava à atenção de todos os outros lugares, assim como boa parte da sanidade, e eu, sem via de dúvidas, não queria me afastar.

mantinha seu corpo alerta, afável e esperto demais para deixar qualquer mínimo sinal passar em branco. Sádico por mais e apreciador assíduo de rapidinhas, suas mãos espertas me guiaram por um caminho desconhecido. Minhas pernas abraçaram sua cintura no momento que senti a parede chocar-se com as minhas costas. As mãos ávidas desenhavam todo seu tronco, e seu peitoral muito satisfatório, por sinal. Meu cérebro precisava agir, mas era demasiadamente difícil com um mergulhado em meu pescoço.

— A chave, garotão. – Mal o vi se mexer, e a vi pousar em minha mão em dois segundos, se for realmente possível.

Capaz ser tão esperto? Uma suíte havia ali, nada mal, devo acrescentar. As paredes brancas estavam pintadas pelo rubi das luzes do cômodo. Não era grande, contudo, era espaço suficiente pra concretizar o plano que tinha em mente.

O puxei pela gola da camisa social parcialmente aberta e entretida pelo ritmo da música, mexi meu corpo em sintonia com o som que vinha porta afora. Seus olhos eram famintos e suas mãos não estavam diferentes quando o assisti abrir de sua camisa os botões insistentes que faltavam.

era a personificação de luxúria, como poucas vezes o vira.

— Algum desejo? – Murmurei desafiante.

— Tire a roupa. Po…por… por favor.

— Gaguejando, honey? – Sorri travessa, movendo-me para sentar em seu colo. — Não se preocupe amor, eu vou resolver isso. – Aproximei de seu rosto e beijei seus lábios lentamente, sem pressa alguma, porque queria vê-lo sofrer imerso em sua tensão sexual. Quem eu queria enganar? Eu amava assistir cada segundo dele assim!

Como parte do meu presente de aniversário, eu ainda poderia desfrutar do gosto doce que ele tinha, como da última vez que o beijei.

Não poderia ter tido ideia melhor.

Em um móvel discreto dali, havia uma garrafa de Perrier Jouet Rosé mergulhado em um balde de gelo e eu praticamente pude sentir o quão doce e refrescante aquilo poderia descer por minha garganta. Nossas respirações descompassadas se cruzavam e obedecendo a esse ritmo, agarrei a garrafa como se minha vida dependesse dela, até que derramasse o líquido pelo tronco nu de , ouvindo-o gemer baixo.

— Mais calmo?

Entornei por todo seu peitoral, despejando beijos tortuosos na sua pele quente que contrastava com o frio da bebida. Os carinhos tomaram um novo rumo, em direção ao seu membro, onde fiz questão de angustiá-lo um pouquinho mais. Suas mãos trêmulas me buscaram em uma tentativa falha de alcançar meus cabelos para que conseguisse controlar alguns movimentos.

Me aproximei do cós da sua calça, deslizando as unhas longas até que a ameaçasse abrir, até ouvi-lo balbuciar o que não me atentei em atender, pois sabia que era mais uma de suas súplicas. Levantei meu olhar para encarar suas írises dilatadas e soube que mais um golinho não faria tanto mal assim, sentindo a bebida adocicar minha boca, segui os rastros do champanhe até que chegasse à sua boxer úmida e um bocado apertada.

— A ansiedade é inimiga número um da perfeição, senhor Cox. – Sua ereção já latejante tremeu assim em meus dedos quando os deslizei por ela. O que restou de álcool na garrafa me serviu uma golada generosa entornado de uma só vez. Dei uma última piscadela para o meu tentador companheiro na diretoria da Magic! Magazine para me levantar e sair da suíte girando a chave entre meus dedos. Algo que eu jamais esqueceria. E ele também não.

E eu me sentia ótima!

A flor da idade não é eterna, meu prestígio na empresa não é eterno, meu corpo não é eterno, assim como a cara de tacho de –talvez– não fosse também. A música alta, as bebidas picantes e tudo que envolvia esta noite já não me era novidade alguma, então não me causavam aquela excitação de ansiedade e a forma como me despedi de Cox, quem sabe, fosse a melhor forma de cessar as noites com as melhores histórias já contadas.

Aproveitaria as últimas horas daquele dia até seu último segundo, mesmo que a data me deixasse um ano mais velha. Valia a pena!

Me embrenhava novamente pelas pessoas, ao som de um J Balvin com Anitta, resultando em uma Downtown que não poderia descrever melhor o momento.

Sentia que meus olhos estavam pesados, mas não o suficiente para que substituísse as atenções para os xingamentos que exprimi quando levantei da cama. A cabeça que ainda rodopiava, tinha um “Quê” de perguntas sem resposta que pairavam me deixando ainda mais tonta.

Me permiti ser preguiçosa o bastante para não planejar nada para as poucas horas que me restaram no dia, minha única atual preocupação era conseguir me arrastar até o banheiro, sedenta pela comodidade que a água quente em minha banheira oferecia. Fazer uma junção dos sais que gastava uma fortuna e sequer usara, diziam que eles curavam qualquer coisa, até mesmo os erros do passado. Ou não era pra tanto?

Não me lembrava da última vez que me permiti passar tanto tempo em casa sem estar rodeada de pastas, cálculos, recibos, briefings, photoshoots, balanços empresariais e etc.

Meia hora nestes sais e precisava dar o braço a torcer: Eu era outra pessoa, ainda que alguns flashs da noite passada me fizessem rir, as gargalhadas ficavam por conta do meu querido . Espero fortemente que alguém com intenções piores que as minhas tenha dado a ele o belo trato que merece –e seja lá o que isso signifique–.

Nem ao menos pretendia me vestir tão cedo, hipnotizada como o roupão se tornou tão confortável após o banho e de quebra, como ficava encantada sempre que via uma Nova Iorque ao seu anoitecer fazendo milhares de pequenas luzes refletir ao observá-las da grande parede de vidro que se fundia a varanda do apartamento. Saí do meu transe quando o celular apitou ao meu lado.

“Poderia te deixar sem presente depois de ontem, mas eu te perdoo! P.S.: Logo eles chegam aí, seja receptiva!” — .

adorava joguinhos e ele era ágil com suas jogadas, precisava admitir, mas estava em um campo minado agora. O meu campo minado. Como diretora geral da Magic! Magazine tinha 51% do poderio em minhas mãos, desde a época em que Cox foi apresentado, alguns dias depois de mim, assumindo os outros 49%. Parece pouco, mas essa margem magra de 2% me davam o maior poder de palavras, e de quebra, a parte que eu mais gostava: a última palavra. Em casos de emergência acionávamos uma Assembleia Geral, onde os acionistas tinham o poder do voto também. De qualquer forma, tinha minha carreira como meu maior prêmio, construída com meu único esforço. Não precisei puxar o tapete de ninguém, nem enganar e muito menos roubar. Me formei na própria Magic! Magazine desde o primeiro dia do estágio, então mais do que nunca concordava com o cargo que ocupava e era plenamente realizada com ele.

A camisola que vesti era igualmente confortável como o roupão, tanto que demorei para me livrar dele sem que tivesse muito tempo para elogiá-los, ouvi a campainha tocar. Se existisse alguém no céu que tivesse piedade de mim, colocaria Blair Mitch à minha porta agora mesmo e com os donuts que minha melhor amiga prometera em seu bilhete colado no abajur do quarto. Enquanto laçava meu robe, abri a porta e uma cantoria se iniciou de imediato. Que porra está acontecendo? Havia uns sombreros, um sotaque forte e instrumentos enormes que eu não sabia nem o nome. Encarei com furor o quinteto que não se abalou e continuou o que parecia uma serenata mexicana!

EU SEQUER ENTENDIA UMA PALAVRA!

Pouco satisfeitos, andaram calmos e sorridentes até minha sala, alguns deles, esbarrando instrumentos em meu ombro quando não lhes dei permissão para passagem, tornando o cômodo como seu palco de qualquer fucking maneira.

Estava tão incrédula que meus braços não se descruzavam, minhas pernas não mexiam e minhas veias sentiam o sangue ferver. Aquele quinteto mexicano tinha uma audácia que me torrava a paciência, tão insistentes quanto…

— Teimosa, huh? Pedi que fosse receptiva! Espero que tenha gostado, os escolhi a dedo e deu um trabalho danado, mas seu sorriso fez o trabalho valer a pena! Feliz Cumpleaños, mí amor!

Seu sorriso era cínico e seu corpo descansava casual no batente da porta do meu apartamento, lhe dando um ar de superioridade, que eu acreditaria cegamente se não tivesse visto da forma que o deixei na noite passada.

— VOCÊ ENLOUQUECEU?!

Ele riu e riu. Meu sangue com certeza já estava em estado de ebulição.

— Não se preocupe, não tem pressa pra acabar. Ah sim! Quase me esqueci. – De trás de si revelou um buquê de rosas vermelhas, colombianas se não me falha a memória, e talvez pra combinar com o clima latino. — Meu grand finale, senhorita.

Filho da puta descarado.

—Engula essas rosas e tire esses músicos daqui agora, Cox.

— Não mesmo. – Negou com a cabeça. — Você me deixou quarenta minutos naquela suíte até que eu pudesse me… Acalmar. – Finalizou após demorar-se um pouco na escolha das palavras. — Aproveite seus quarenta minutos de serenata.

Ele se virou em direção ao elevador.

, volte aqui! Não vai deixá-los aqui… Vai? – entrou no elevador calmamente, sorrindo. — Me ouça. Se deixá-los… E-EU. MATO. VOCÊ! – Ameacei-o pausadamente, assistindo as portas do elevador se fecharem, quase que em câmera lenta.

¡Mi Dios de los infiernos!

O resto da noite pareceu se arrastar. O tal quinteto não tocou por trinta e nove minutos e nem quarenta e um, mas exatamente os quarenta que citou. Eu estava cega de ódio e minha cabeça parecia que ia explodir a qualquer minuto, ainda mais quando ouvia o reverberar daquela maldita serenata que aparentemente me assombraria por um bom tempo. Ele ultrapassou todos os limites!

O Sol que raramente aparecia para alaranjar as ruas do Upper East Side me acordou bem cedo e não me demorei em meio as cobertas, apenas para que desse tempo de desfrutar da academia do condomínio, ficando por mais ou menos uma hora e não mais que isso, enquanto recebia alguns olhares tortos. Sabia que o coque que fiz não era dos melhores, mas também não chegava a tanto. Assim que tive o prazer de retornar pra casa fui direto para o banho, dessa vez sem tempo para sais porque um novo dia de trabalho vinha por aí com toda a glória que os corredores da Magic! Magazine exalavam. Estava faminta, no entanto a cidade dos sonhos também castigava, e na maioria das vezes tinha em seu trânsito a pretensão de nunca colaborar.

— Bom dia, senhorita Jones. – Disse Nicole, minha secretária. Loira, de olhos meigos, a moça tinha seus vinte e um anos e estava aqui desde seus dezoito, muito eficiente.

— Bom dia Nikki, me atualize.

— Os acionistas já chegaram. – Disse de uma só vez, como quem revela um segredo. — Foram recepcionados pelo senhor Cox que deixou pastas em sua mesa para a reunião de hoje, enquanto visitam outros departamentos.

— Tudo bem, obrigada. Deixe um alerta com Anna para quando Cox terminar, vir imediatamente para a minha sala, sim?

Aparentemente o dia começou doze horas antes de mim.

Haviam cinco pastas em minha mesa. Boa coisa não podia ser. Como se não bastasse, ao lado das pastas havia uma caixa delicada de uma cafeteria que eu já conhecia, ou melhor, nós conhecíamos. Tudo bem, de longe, não foi tão ruim assim. Um pedaço generoso de red velvet me aguardava deliciosamente posicionado ao lado de um muffin de chocolate, de longe meus doces preferidos.

Ele ainda me conhecia bem demais.

Depois de tamanho estresse como o de ontem espero que ele não tenha acordado achando que colocar veneno nos meus doces preferidos seja uma boa ideia. Me deliciei com o red velvet que há tempos não comia. O Le Cirque Cafe era um dos melhores do mundo e com a minha bênção. O GPS me indicava que do prédio da revista para o café eram cerca de quinze minutos, mas o multiplique por três: porque é isso que o trânsito na megalópole faz de melhor.

Os doces pareceram amenizar a tensão que as pastas traziam, ou era apenas fome, nunca vou saber. Mas funcionou.

Ao abrir uma das pastas, de imediato percebi que haviam comparações com o público-alvo que a Magic! Magazine atingiu nos últimos seis meses e seus almejados lucros.

Esses acionistas não vieram para turistar na Big Apple, afinal.

— Creio que esse bolo estava mais gostoso do que eu me lembrava. – como sempre, entrou sorridente esbanjando um belo terno azul marinho que moldava seu corpo.

— Não estava ruim, mas minha boca já provou de gostos piores. Tudo normal por aqui. – O encarei irônica, cruzando os braços e como resposta, ele gargalhou, coçando sua barba por fazer e seu movimento fez seu perfume dançar espaçoso pela minha sala. — Ei! Não precisa se sentar ok? Só vou te fazer uma pergunta.

— Céus, eu adoro quando se faz de rogada… Esse seu narizinho arrebitado me deixa louco, !

— O que os acionistas querem aqui tão cedo? – Seu sorriso se desfez e ele se pôs sério como pouquíssimas vi naquele rosto cafajeste.

— Acredite ou não, eu também não sei. Me entregaram as pastas, folheei e as deixei com você. Eles vão mexer algumas peças desse quebra-cabeça.

— Vamos matar essa curiosidade e adiantar a reunião. Pra agora.

Na Sala de Conferências todos já estavam acomodados nos seus assentos prontos para começar. Havia ali, os cinco acionistas, eu e . Um ou outro representava a revista por outros países buscando por resultados insinuantes de capital de giro, por exemplo, coisa que a distinção entre idades ali oferecia abrangentemente.

Gareth Parenth Wood, por exemplo, um galês muito charmoso de olhos claros e um sotaque arrastado que não reclamaria ter que ouvi-lo durante uma noite inteira, tinha por seus trinta anos e definitivamente significava uma grande revelação para os sonhadores de um país tão pequeno. Hideke Choi, um japonês que falava pelos cotovelos em seus plenos quarente e nove anos provavelmente sua primeira palavra foi “ações”, visto que o mesmo acompanha a revista desde os primórdios com a bênção de seu pai que deixara o patrimônio bilionário em nome de seu único filho. Antonella Montanari, a italiana que fazia tremer o interior de cada um, a cada som que seu salto agulha cantava, não deixava uma tendência sequer passar em branco e sempre com um ar superior de síndrome de Miranda Priestly¹ fazendo com que seus cinquenta e oito anos não deixassem vestígios por parte alguma. Antoine Blanché o francês que fazia de qualquer reunião, suportável. Talvez fossem seus músculos que parecia sofrer naquele terno que lhe caía tão bem, sem contar os óculos que usava apenas para leitura –não que eu houvesse parado para notar isso, porque realmente não tinha– ou então, o sorriso que vez ou outra deixava escapar para amenizar o clima, iluminando toda a sala e fazendo com que sua pele negra brilhasse muito mais do que qualquer outra pessoa em seus quarenta e dois anos jamais conseguiria. Por último e não menos importante, Jim Phillips o americano de meia-idade que não era de falar muito, colocava seu terno preto e gravatas que iam das lisas às listradas para não chamar a atenção, genuinamente se mantinha ali para desempatar o que quer que acabasse em votação.

— Bom dia a todos. – Iniciei cortês com uma simpatia que não sabia que fazia parte de mim. — Espero que tenham sido muito bem recepcionados nos setores e constatados o óbvio: essa revista é um exército incansável. Cada um com suas guerras diárias, e é das piores guerras de onde conhecemos a força para continuarmos com o que fazemos de melhor. Bem-vindos!

Aplausos encheram meus ouvidos assim como massageavam de forma deliciosa meu ego, e eu amava essa sensação! ao meu lado direito, se levantou pronto para receber a palavra.

— Dito as palavras da senhorita Jones, faço delas as minhas. Nessa revista somos família, amigos. E no final, somos um só pelo mesmo propósito. Mais uma vez, sejam muito bem-vindos! – Um sorriso gentil e confiante despontava em seus lábios perfeitamente desenhados para aquele rosto.

— Se me permitem eu gostaria de iniciar. – Gareth tomou a frente, recebendo acenos de cabeça em concordância enquanto se levantava da cadeira fechando seu paletó. — Vocês devem estar se perguntando por que viemos tão cedo hoje, não é? E eu respondo, sem via de dúvidas. Entregamos a vocês cinco pastas, correto? Todas elas com informações da própria revista que demandam um pouco mais de atenção e há uma sexta pasta: que está conosco. Contendo o que Hideke Choi ficaria honrado em compartilhar. Por favor. – Cortês como seu habitual, Gareth mencionou o japonês que afoito tomou a frente de bom grado.

— Senhoras e senhores, sem delongas apresento a vocês a Hideaky. A única revista que visa métodos cem por cento naturais e orientais disponibilizando de uma clínica específica sediada no Japão! – Sorriu orgulhoso enquanto seus olhos que já não pareciam ser puxados o suficiente, se fecharem um pouco mais tamanha satisfação. Para mim e o mesmo entregou uma pasta semelhante as outras cinco, mas com um número maior de páginas. — Como podem reparar há informações com as principais características de benchmarking.

— Desculpe Choi, não quero soar rude, mas essa são coisas que poderíamos procurar na internet. Não teríamos os números exatos, claro, mas um telefonema resolveria. – Disse , receoso.

— Calma senhor Cox, nós vamos chegar lá. Trouxemos os números exatos com o propósito de adotar o benchmarking interno² da Magic na própria Hideaky. Atitudes de grande impacto da Magic que podem revolucionar a Hideaky. – Concluiu, sorrindo.

— Mas isso influenciaria no nosso benchmarking funcional. – Expôs .

— E futuramente no ‘bench’ competitivo³. – Completei o raciocínio de . — O que não vai deixar uma impressão boa para a Magic, Choi.

— E estão certos, não tiro a razão de vocês de forma alguma. Isso não aconteceria se Hideaky e Magic se tornassem uma só, concordam? Duas em uma. Benchmarking duplo. Entretenimento e medicina oriental. Me digam, não é perfeito?

Me limitei a sorrir para seu entusiasmo que não me fazia cócegas. Mas, acionistas poderiam atuar em outras mil companhias de ramos diversos que continuariam podres de influentes e aqui, os mesmos tinham um espaço relativamente grande para suas participações e se expressarem da forma que achavam digno ao patamar da revista.

— É realmente revolucionário. Mas a Magic está, como sempre, acima de suas expectativas em sua forma original e é exatamente isso que o nosso feedback com os benchmarkings mostra. – Moldei em meu rosto um sorriso ridículo de tão maternal, ainda que esse ‘Made in China’ estivesse tentando roubar a essência da revista. E havia algo que eu prezava além do imaculado nome do meu trabalho, era a sua essência.

— Os tempos mudaram senhorita Jones. Investimos neste segmento no Japão antes mesmo de pensar em se tornar tendência, da forma em que assistimos à valorização de cento e trinta e sete por cento em um único ano.

— A Magic também obteve suas exorbitantes porcentagens nos segmentos que lhe dizem respeito e foram incríveis, posso lhe garantir senhor Choi, mas não acho conveniente ter que engolir método oriental goela abaixo por serem inferiores.

— Senhorita, assim fico ofendido. – Hideke Choi sorriu irônico, pois sabia que sua carta na manga era o poder que tinha por ser um dos acionistas mais influentes.

— O que ela quis dizer foi que esse momento não é propício pra uma mudança tão drástica na Magic, que apesar de nova já bateu recordes inacreditáveis e este, é resultado do marketing milionário que investimos. – sobrepôs.

— Não , eu quis dizer exatamente o que já disse. – Ao contrário do que o momento pedia, minha voz permanecera serena.

— Bom, dessa forma vejo que a proposta não agradou, talvez precisem de mais tempo para absorver. Qualquer dúvida estou à disposição, por enquanto é só.

A reunião finalizou após alguns murmúrios aqui e ali e assisti os acionistas se dissiparem calmamente, inclusive os que fizeram questão de não abrir o bico por um segundo sequer, em vista que daqui a dois dias nos reuniríamos novamente aproveitando que durante esta semana todos estariam na cidade.

Voltando para a minha sala, aconchegada na cadeira a girei para a grande parede de vidro encarando uma Nova Iorque que nos enganou mais cedo com o sol que nascera e agora nada mais tinha do que um céu cinzento, fazendo-me perder em pensamentos. Uma cidade que me abrira tantas portas e janelas que nem eu mesma acreditava que era possível tantas chances assim. Perigos, agradeço por não ter vivido tantos e aos que temi, prefiro acreditar que apenas me fortaleceram. Vi meu sorriso refletir em alguns cubos de gelo em doses baratas de uísque por aí, antes de me dar conta da mulher que poderia ser, e sou. Uma cidade em que amei demais e parcialmente fui amada de volta. Tinha deixado alguns amores para trás sim, e algumas vezes da forma mais difícil precisei seguir em frente.

Apesar de aparentemente ter tudo sobre controle, não conseguia manter meus pensamentos longe da nostalgia.

Detestava.

E detestava ainda mais a sensação de egoísmo que queria me enfraquecer a qualquer custo e que fazia minha mente trabalhar a mil por hora sem descanso. Sempre me cobrei demais e passei a cobrar mais depois que me vi perdida na trilha em que eu mesma havia milimetricamente traçado ao sucesso, desde meu primeiro estágio na Magic e encontrei-me perdidamente apaixonada. Intensamente apaixonada como o primeiro amor de uma adolescente. Me lembro como se fosse ontem. Adiando planos que não havia pensado duas vezes antes de programar, faltando á palestras e workshops complementares a grade curricular do curso, armando desculpas nos trabalhos em grupo e reuniões em família. Vivendo em pró de uma pessoa só, que na primeira oportunidade que teve de estudar em Londres, foi. Me deixando de forma empáfia para trás, despedaçada e com sonhos pela metade. Houveram consequências que poucos souberam o quão grandioso fora o impacto e que na época aprendi horrores ao precisar lidar. Algumas decisões ainda me assombravam vez ou outra e feridas que se fecharam, mas deixaram cicatrizes grossas demais pra se esconder. Essas, me lembravam o quanto me machuquei pra sustentar sozinha um fardo que não deveria e não podia, e por essas e outras me vi obrigada a depender unicamente da força que me restava, sendo minha resiliência o curativo das feridas que sangravam. Bate e volta minha cabeça doía ao lembrar de tempos tão injustos, mas que me amadureceram tanto, da forma que grito nenhum de minha mãe jamais fizeram em tão pouco tempo.

Minhas unhas longas pararam de batucar a mesa assim que uma Blair irrompeu pela porta.

— Almoço? No Balthazar? Eu dirijo! – Abriu um sorriso de orelha a orelha, nem parecia que estava trabalhando na época corrida em que estávamos.

— Ver você ultrapassar faróis e xingar meio mundo por motivo nenhum é um dos meus passatempos favoritos, mas esses acionistas causaram alguns estragos por aqui, então… – Sorri para sua proposta tentadora.

— Tudo bem, vamos pedir o quê? – A encarei confusa.

— Não vou permitir que fique trancafiada aqui, B. Você queria conhecer aquele restaurante esquisito… Grand Banks há tempos!

— Em minha defesa, ele é muito bem avaliado e é um charme.

— Blair, ele é no meio do rio Hudson! – Exclamei óbvia. — Quando menos se espera uma gaivota rouba a lagosta do seu prato. Apenas vá, quero rir das suas histórias depois.

— Eu vou te arrastar pra lá e você vai se arrepender pelas palavras rudes. Thomas me mostrou parte do cardápio de lá e… – Disparou a falar, como uma metralhadora. — Ops…

— Thomas, huh? – Mordi a tampa da caneta a encarando. — Deus, desembuche de uma vez, estou curiosa!

— Ele é o chef do Grand Banks ok? – Cruzou os braços, fingindo pouco caso.

— Entendi o interesse. Agora, sem Thomas, admita, o restaurante é um horror de esquisito! – Gargalhamos. — Vamos pedir algo de uma vez, e me conte os detalhes desse tal chef.

Sem tempo para responder, Blair já abria o aplicativo em seu smartphone, me passando as opções para que entrássemos em acordo. Blair era deveras a minha pessoa preferida no mundo inteiro e nada, muito menos ninguém mudaria isso e ela sabia muito bem disso, pois era mútuo. Ainda que sejamos milimetricamente diferentes, nos damos muito bem há alguns milhares de anos e assim brincamos que fomos amigas em outra vida e só assim para explicar a parceria que temos hoje.

A tese que descrevia, dava alguns pequenos passos em meio ao horário de almoço e quase perdeu espaço de vez para nossas fofocas.

— Ei, ouvi o combinando algo pro seu endereço ontem. O que houve?

— Nem me lembre. – Rolei os olhos. — Ele simplesmente contratou um quinteto mexicano, com direito a sombrero e tudo.

— Mentira?! – Minha melhor amiga exasperou. — Eu trocaria tudo só para ver sua cara na hora! Meu Deus! Eu preciso parabenizá-lo, isso foi épico! – Após algumas risadas exageradas, limpou algumas lágrimas que brotavam no canto de seus olhos.

— Me parabenize, foi meu aniversário. – Me fingi de ultrajada. — Cada vez que encontro alguém pelos corredores do condomínio, eles me apunhalam com olhares, está insuportável!

— Não é pra tanto! Você fez por merecer.

— De que lado você está, afinal?!

— Não está mais aqui quem falou! – Fez um sinal como se fechasse um zíper em seus lábios. — Mas, sinceramente, você o deixou pelado em pleno Marquee!

Agora fora a minha vez de cruzar os braços e fingir pouco caso, encarando-a.

— Já terminou de defendê-lo? – Arqueei a sobrancelha, aguardando sua resposta, enquanto ouvia meu créme-brulée se despedaçar na superfície.

, cá entre nós, não sente mais nada pelo sedutor dono dos outros 49%? As mulheres caem nos corredores da revista a cada passo dele, e tenho que concordar… – Minha melhor amiga deixou a frase no ar, enquanto também aproveitava da primeira colherada de sua sobremesa francesa.

— Sinta-se livre pra chamar uma ambulância para elas ou para você. Não há nada que eu possa fazer.

— Essas brincadeiras e provocações entre vocês dois… , estou falando sério. Há coisas que você não gosta, mas precisa conversar, sabia?

— Blair Alexandra Mitch, há coisas inconvenientes demais que detesto e definitivamente não vou falar, sabia?

— Deus! Como foge do assunto, Em! Oh, e você sabe que eu detesto meu nome do meio, está jogando sujo!

— Fale de uma vez por todas o que quer dizer, Blair. – A encarei.

— Deixe de ser covarde e o perdoe de uma vez! Esse muro de proteção que está construindo ao seu redor, já o vi destruir uma vez e não vai hesitar em fazê-lo de novo. – A loira a minha frente com um tom acusador que sequer combinava com seu biotipo de Barbie parecia estar convicta do que dizia, e talvez, apenas talvez, tenha me desconcertado por alguns instantes. Não por suas palavras, mas pela veracidade com que defendia um fato que não se repetiria e todos os envolvidos estavam plenamente cientes.

— Blair, você está se ouvindo? Porque, sinceramente, eu acho que não.

— Ele está nos seus joguinhos porque gosta deles, e mais, gosta de quem provoca eles. Em, por favor, acorde! Por mais que irrite, cada gesto dele há algo que sabe que você ama… está arrependido. – Disse por fim, com apenas um fio de voz. — Isso não é suficiente?

— Não chega nem perto de ser suficiente. Não quando ele fez o que fez, sem pensar duas vezes, Blair. – Respirei fundo. — Você, mais do que ninguém, sabe dos mais sórdidos detalhes. – Sem que ao menos reparasse, minha voz se tornara um bocado mais alta. — E eu espero, fortemente, que não voltemos nesse assunto.

Não queria ser grossa com alguém tão essencial para mim e que esteve em momentos cruciais, mas estava muito bem do jeito que me encontrava e de quebra, tinha tudo o que precisava, obrigada!

— Desculpe B, não queria falar assim com você. Mas não entendo, você sabe de tudo, viu e esteve lá quando tudo desmoronou, realmente não entendo.

— Não se culpe, vou controlar minha língua antes que você fure os pneus do meu carro! – Sorriu leve, aliviando o clima.

— Não se esqueça que sempre que dá, está me usando como babá para seu Shih-tzu dependente químico!

— Ele não é dependente químico, my poor baby. – Dramatizou, enquanto apertava em seu colar o pingente de patinhas, como quem sentia saudades.

— Normal ele não é, ou sinceramente me odeia.

— Não é difícil te odiar! – Sussurrou marota.

Enquanto ria das palhaçadas que Blair fazia, ouvi batidinhas na porta que logo minha amiga se encarregou de autorizar a entrada.

— Com licença. – Nikki revelou-se. — Senhorita Mitch, Jaden Löw está aqui e quer saber sobre o ensaio de hoje.

— Ok. . Me demita. – Sussurrou.

— O quê?

— Me demita, ou pague a minha fiança porque eu vou matar esse cara!

— Não dentro da minha empresa, tudo bem? Isso dá um processo danado! – Ri alto, controlando-me rápido quando percebi sua carranca. — Qual o problema com o coitado?

— Ele está me enlouquecendo! Ontem ele foi até meu apartamento pra conversar sobre paleta de cores, acredita?

— Senhorita Mitch, o que digo a ele? – Nicole insistiu.

— Diga que ele está demitido e sem direitos, Nikki. – Blair sorriu casual enquanto assistíamos à feição da secretária se contorcer em confusão. — Mentira, estou indo! – Revirou os olhos, pegando sua bolsa e celular.

“Não importa o valor, pague a fiança!” sussurrou pela última vez antes de bater a porta, dando um ‘tchauzinho’ por último.

Miranda Priestly¹: Personagem fictício (e muito temido) interpretado por Meryl Streep no filme “O Diabo Veste Prada”;

Benchmarking interno²: O benchmarking interno é praticado por empresas que visam identificar as melhores práticas internas da organização e disseminar sobre essas práticas para outros setores da organização.

Benchmarking competitivo³: O benchmarking competitivo foca em medir funções, métodos e características básicas de produção em relação aos seus concorrentes diretos, e melhorá-los de forma que a empresa possa inicialmente alcançar os seus concorrentes, e depois ultrapassá-los, tornando-a melhor do ramo, ou no mínimo melhor que seus concorrentes.

II

Não finalizara a tese, então em tampouco tempo logo precisei me voltar a ela, pois os acionistas permaneceriam na cidade por alguns dias e esta seria a resposta que carecia de dar aos impasses que haviam em alguns dos números da revista. Precipitada? Um pouco. Mas essa era a minha maneira de manter o controle e demonstrá-lo.
O dia pareceu durar quarenta e oito horas, na melhor das hipóteses.
Com modelos para ensaio aqui, revisões ali, nova capa, matérias, reuniões, revisões, tese… Céus! Eu poderia dizer que estava há um minuto de enlouquecer se não fosse o cenário dos sonhos pra uma workaholic.
As dezenas de xícaras de café me deixaram atenta para todo o dia, mas ao final dele, minha vista já se embaçava quando os óculos de grau não ajudavam e para completar, minhas costas reclamavam, tensas desde cedo. Talvez o silêncio que fazia ali aquela hora da noite fosse minha recompensa, ainda que vez ou outra a voz de Blair reverberasse em minha cabeça com as besteiras que dizia.
— Ainda aqui, senhorita Jones? Algum problema? – Gareth ParenthWood questionou, me surpreendendo por vê-lo por aqui tão tarde.
— Só finalizando algumas coisas. – Sorri sem muito ânimo. — Confesso que não esperava ver mais alguém aqui.
— Apenas vim buscar pastas com as relações gerais deste semestre, achei que seria bom revisá-las. – Levantou as pastas em suas mãos, mostrando-as. Gareth ainda estava com suas roupas sociais usuais, mas com um toque tanto informal, de gravata frouxa e camisa dobrada até os cotovelos, os primeiros botões abertos que com certeza não passaram despercebidos por mim.
— Há algo em que possa ajudar?
— Só quero me preparar para a reunião. – Sorriu simples, sem mostrar os dentes. Um silêncio constrangedor se instalou entre nós quando não tivemos mais assunto para preenchê-lo, aliás, não somos os mais chegados, vez ou outra desfrutávamos de cafezinho na companhia do outro, mas nada que ultrapassasse tal.
Seu sorriso se alargou um bocado enquanto ele encarava o chão.
— Mais alguma coisa, Gareth? – Perguntei mais uma vez, cautelosa, estudando suas poucas feições.
— Me chame pelo apelido, , fica muito melhor na sua voz.
Oh, então era isso?
— Se quer saber, eu concordo. – Abri um sorriso simpático. — Então… – Comecei como se houvesse algum assunto pra iniciar e esperava do fundo do meu coração que ele puxasse algum.
— Ah sim! Desculpe, estou todo perdido. – Murmurou afobado, passando a mão livre pelos cabelos loiros. Jurava ter assistido isso em câmera lenta. Onde fica o replay? — Aceita uma carona pra casa? – Questionou incerto, dando de ombros.
— Primeiramente, homem se acalme. Segundo, agradeço a gentileza, mas vim de carro.
—Tudo bem então, fica pra próxima. – Deu de ombros. — Bom descanso, senhorita Jones.
— Você está aqui há, no mínimo, três anos Gary, não precisa de tanta formalidade! – Exclamei óbvia. Ele riu nasalado, limitando-se a isso, parecia tenso. — Sente-se, vamos conversar! Se puder, é claro.
— Agradeço, realmente gostaria de sanar algumas dúvidas. – O galês se sentou de frente para mim, depositando as pastas na cadeira vazia ao lado para que prosseguisse. — Após as declarações com as novas propostas de Hideke Choi, me vieram algumas ideias. Haveria a possibilidade da Magic se abrir para uma parceria com algum dos maiores nomes do streaming, por exemplo?
— Bom, não posso garantir nada. Há muito o que fazer antes de confirmar algo desse porte, inclusive o tempo estimado e os custos, desculpe.
— Sim, sim. Claro! Não queria colocá-la em uma posição ruim. Mas imagine a Magic com conteúdos exclusivos dos seriados mais populares do mundo. As entrevistas, photoshoots, companhas publicitárias, tudo! Exatamente tudo!
— De fato, me parece tentador. Querendo ou não, sairíamos da zona de conforto da Magic! Magazine e teríamos o melhor do conteúdo durante uma larga margem de tempo. – Suspirei, cruzando minhas mãos encima da mesa. — Consegue apresentá-la na próxima reunião?
— Claro! – Se adiantou exasperado. — Desculpe tomar seu tempo, o senhor Cox estava pra cima e pra baixo com Choi e…
— Perdão, ele o quê?
— Eles… Eles estão adiantando a iniciativa que o Choi apresentou.
— Mas sequer foi votado! – Exclamei mais alto que meu tom habitual.
— Exato, por isso questionei primeiro a senhorita. Mil perdões , não era minha intenção exaltá-la.
— Não, de forma alguma. Apenas cuide da sua proposta incrível para a apresentação, está bem? Agradeço a sugestão, definitivamente precisamos organizar algumas coisas por aqui.
— Mil perdões novamente, e obrigado. Boa noite, . – Assenti, assistindo-o retomar o bolo de pastas para o braço e se virar para sair.
— Hm, Gareth? – Ele assentiu assim que atravessara a porta. — Se importa de aguardar um instante? Assim descemos juntos.
O galês sorriu e se aconchegou no charmoso sofá que havia ali até que eu organizasse minhas coisas. Mas que inferno estava pensando pra fazer promessas com propostas a cada passo que dava? Não era primeira vez, e eu não estava com tempo para facilitar as coisas. Não mesmo.
Chegando em casa me limitei apenas às coisas em que vim sonhando durante o percurso: comer, tomar banho e dormir. A cama abraçava tão bem meu corpo que implorava para que eu finalmente testasse o homeoffice, ainda que a ideia me causasse uma ruguinha de dúvidas. Não me parece muito participativo, e talvez meus amados 51% perdessem um pouco de seus holofotes. Mas era algo a se pensar.
A manhã chegou, o sol se abriu e mais um dia se iniciou. Dessa vez a ideia da academia não me parecia tão atrativa e me contentei com um banho para despertar de vez e um café da manhã caprichado, daqueles que não via há tempos. Uma ligação fora suficiente pra que Blair já se encontrasse na metade do caminho até aqui, apenas para que fossemos juntas. “Eu dirijo” a alertei, e essa era a forma de falar que ama alguém no melhor jeito nova-iorquino.
Não cansaria de repetir que tinha a melhor amiga dos sonhos. Porém não estava sendo o bastante pra ela, e sabia disso. De tudo o que ela já fez por mim, de todas as formas que ela me apoiou e os momentos em que ela esteve comigo. Aguentou os dramas pessoais e profissionais sem hesitar uma única vez.
— Bom dia American Goddess! – Disse Blair, tão perfeitamente arrumada como sempre. Ah sim! E sempre feliz ao raiar do sol.
— Bom dia babe! Já tomou café? – Perguntei enquanto íamos em direção ao meu carro, sendo surpreendida pelo silêncio da mulher ao meu lado que encarava o chão.
— Você era uma vadia insensível há oito horas atrás! O que aconteceu? – Dramatizou. É claro que ela iria dramatizar! — Ah! E não, eu não tomei café. – Sorriu como se segundos atrás não houvesse me ofendido. Vadia tudo bem, agora insensível? Céus, isso era muito pior!
— De onde você tirou insensível? Sou super empática, vou até pagar seu café da manhã. – Disse com ar convincente.
— O que está acontecendo aqui, ? – Entramos no carro e B insistia em sua sobrancelha arqueada.
— Nada demais! Em pequenos gestos estou tentando te recompensar por ser uma ótima amiga. Baby steps… – Pisquei.
— Têm falado com a sua mãe?
— Sim. Ontem. – Confessei rapidamente.
— Eu sabia! E como estão as coisas por lá?
— Você sabe, B. Ela quer que eu me mude pra lá, mas estou aqui justamente buscando uma vida confortável pra elas.
Enquanto dirigia meu coração se apertou, obrigando minha memória a fazer um pequeno flashback de momentos ruins e difíceis. Blair estava do meu lado em todos.
— O que sua mãe tem dito a ela? – Seu tom de voz era preocupado e cauteloso, pois sabia que o coração que estava comigo ali, perambulando em Manhattan, não estava sequer completo.
— Mamãe disse que ela está bem, só insiste nas mesmas perguntas.
— Você sabe o que fazer, . – Ela tocou meu ombro em um gesto de cumplicidade.
— Sim, eu sei, B. Só não posso! Não agora.
— Você só está fazendo piorar com a distância e os maus entendidos. Tudo se resolve com uma conversa e uma passagem pra Inglaterra, . Ela precisa de você, principalmente agora.
Engoli em seco e firmei as mãos no volante. Permaneci quieta porque eu sabia pela milésima vez Blair estava certa, mas não poderia jogar tudo para o alto. Não ainda.
— Chegamos. – Tentei mudar de assunto.
— Você estava falando sério em me recompensar, babe! – Sorriu ao adentrar o salão do Asiate. Seguimos para a mesa reservada, mais à esquerda, com vista para o jardim do restaurante.
— Me conte sobre o Thomas e quando vou dar minha bênção a vocês.
Introduzi o assunto com a loira que logo se empolgou e a cada segundo, era como se recarregasse sua munição para a metralhadora de elogios que carregava. E dessa vez nem estava tão exagerada, era apenas mais um dia comum, sendo a melhor amiga de Blair Mitch. Eu apreciava mais um cafezinho apenas para acompanhá-la e gostava do jeito que a via. Seu sorriso parecia mais jovial e até seu cabelo recebia maiores cuidados. Antes, seus cabelos que haviam –adoráveis– cachinhos nas pontas eram injustamente sempre presos em um rabo-de-cavalo. Agora raramente os via sequer com uma trancinha ou outra.
— Você está diferente, B. – Cruzei meus braços como se realmente a analisasse.
— O quê? Como? São as sobrancelhas? Ah, eu mudei de salão, mas fiz uma ordem expressa para que não mudassem o formato e…
— Não, B, relaxe! Diferente de forma boa.
— Ah, é?!
— Você está mais linda do que nunca! Radiante, espontânea… Sem contar que parece até mais responsável.
— Eu sempre fui responsável! – Refutou de voz afetada.
— Mas uma workaholic responsável. E estava te deixando maluca!
— Logo você falando sobre workaholic? – Sorriu irônica.
— Não me venha com essa. Eu estava te elogiando aqui, remember?
— Inclusive belas palavras, chefa! – Riu. — Me sinto melhor quando vejo que as pessoas ao meu redor perceberam uma mudança quando essa nem era a intenção. Me sinto mais segura, sabe? E grande parte disso foi por largar meu lado workaholic de vez e cuidar melhor de mim, . Você deveria tentar.
— Ainda estamos falando de você. – Disse encarando a xícara a minha frente.
— Eu sei, mas…
— Mas, nada! Está vendo alguma ruga? – Perguntei óbvia, apontando para o meu rosto. — Não? Tudo bem, então eu consigo me cuidar. Podemos?
Puxei o guardanapo que descansava nas minhas coxas e sinalizei para trazerem a conta, finalizando e seguindo para o escritório.
— Então… Elogios pela manhã, huh? – Comentou como quem não queria nada, enquanto íamos em direção ao carro novamente.
— Você sabe, está chegando a minha época preferida na empresa. – Pisquei.
— As demissões! – Concordei e adentramos o veículo. — Eu sabia que você nunca ia deixar de ser uma vadia insensível! – Trocamos um olhar cúmplice, gargalhando.
Fazíamos o caminho para a revista enquanto alguma coisa das The Pussycat Dolls tocava pelo veículo e eu amava profundamente a girlband, fazendo o tempo passar sem que sequer fosse percebido e deixando a atmosfera mais leve para aquela manhã. Aproveitando o celular pareado com o carro liguei para Nikki, deixando que a chamada ecoasse para que Blair tivesse a chance de acrescentar algum recado à secretária.
— Bom dia, senhorita Jones. – Saudou, em tom simpático.
— Bom dia, Nicole. Só pra avisar que estou presa com Blair no trânsito da 68th com a 72th Street ok? Algo com uma ultrapassagem que deu errado. – Bufei, relembrando de outras cinquenta vezes que me vi presa no trânsito pelo mesmo motivo. — Me informe se algo aparecer.
— Tudo bem. Gareth ParenthWood passou para deixar três pastas e um pen-drive. O senhor Rui Angelo ligou e quer uma vídeo-conferência para hoje e o senhor Cox deixou um post-it com os seguintes dizeres “WTF?”. – Soletrou um tanto embaraçada e Blair deixou uma gargalhada alta escapar.
— Nada urgente, Nikki, obrigada.
Após exata uma hora e vinte e cinco minutos chegamos salvas no prédio da revista, e sim, apenas salvas porque sãs nem tanto.
Minha mesa estava da mesma forma que Nicole descrevera mais cedo quando pude me sentar de frente a ela e sim, Gareth definitivamente havia conseguido escrever a proposta em tão pouco tempo, o que deveria ter lhe custado boas horas de sono. E era incrível! A princípio, confesso, me parecia um pouco previsível, mas ele desdobrou da melhor forma imaginável qualquer mínimo detalhe. Era perfeito! Exatamente o que a Magic precisava!
Meu sorriso era tão grande quanto o que aquele projeto representava para a empresa.
Ladies and Gentlemen, A Magic! Magazine estava inovadora como sempre e crescendo como nunca viram antes.
Quanto a Rui Angelo, este é o homem que fundou a majestosa Magic! Magazine que em primeira instância era um projeto escolar de seu oitavo ano, tornando-se um sonho e agora, a mais bela das realidades. O português era um dos homens mais humildes e justos que eu tive a chance de conhecer, o que tornava a Magic muito mais do que apenas meu ‘ganha pão’ quando era quase uma escola pra mim e meu sonho que se tornou realidade.
— Nikki, vou até a sala do Cox, enquanto isso contate Gareth ParenthWood e peça que aguarde na minha sala, sim? – A vi concordar enquanto me dirigia a sala do maior cafajeste que Manhattan já viu. — Por Deus, Anna, não precisa me anunciar.
— Mas ele está em… – Ouvi a voz da secretária dele sumir gradativamente para ter o prazer de abrir a porta de supetão fazendo os dois homens ali me encararem. e… Hideke Choi, é claro!
— Interrompo? – Sorri e pude sentir os pares de olhos efervescentes em mim.
, o que quer que seja, precisa esperar. – disse em descaso.
— Pois bem, então diga isso ao Rui e quem sabe meus 51% não aumentam? – Segui até sua mesa, me aconchegando na cadeira ao lado de Choi que permanecia calado, no entanto sua veia na testa começava me preocupar.
Me enojava ver que fazia projetos pelas minhas costas. Tudo bem que eu não contava tudo a ele de primeira como melhores amigas contam fofocas, mas contava pouco tempo depois, de qualquer forma.
— Choi, por favor. Conversamos depois. – Indicou a direção da porta com as mãos, antes cruzadas em cima da mesa. — , o que quer?
— Rui ligou hoje e eu sequer estava aqui, mas ele quer algo com uma videoconferência.
— Essa época? Geralmente ele liga para as edições especiais.
— Eu sei, acha que ele vai encurtar alguns prazos? Já comecei a lista de demissões, caso seja o que peça.
— Não faço a mínima ideia, foi pra você quem ele ligou! Mas sim, me parece fazer sentido que seja pelas demissões.
— Não fique enciumado, querido. Cá entre nós, eu sempre fui a preferida dele! – Pisquei marota.
— Foi pra isso que veio? – Perguntou amargo, e fazendo-me arquear as sobrancelhas.
— Mais alguém te deixou pelado no Marquee? Que humor é esse?
, você está protegendo o galês engomadinho e isso é mais ridículo do que eu poderia imaginar. – Disse por vez, para por fim, dar sua caraterística risada irônica e massagear sua barba por fazer.
— Pois bem, isso explica o post-it grosseiro de bom dia! – Ironizei. — , se quer saber você está muito pior que eu. Protegendo o Choi? Sério? Eu esperava até que se insinuasse pra Antonella. Mas sério, Choi?
O homem a minha frente passou as mãos inquietas e agoniadas pelo rosto, suspirando para soltar mais uma de suas risadas irônicas que me dava nos nervos.
— Abra os olhos, .
— Gareth até procurou por você, mas aparentemente estava ocupado demais com seu atual goldenboy. De qualquer forma, cada um de nós está com um dos acionistas mais influentes do comitê. – Ele concordou.
— E antes que eu me esqueça, que porra você descontou do meu cartão que me custou dez mil e quinhentos dólares?
— Ah, sim! Essa foi a multa do condomínio.
— Finalmente aceitou que morássemos juntos? Adorável, e só demorou nove anos! Right on time…
— Esse foi o preço que custou o seu belo quinteto mexicano, babe e jamais que eu pagaria do meu bolso pela sua ideia estúpida.
— Eles reclamaram? Não acredito! Eu definitivamente amei aqueles caras, mandam muito bem! Díos mio! – Ironizou sorrindo e eu só pude rolar os olhos.
— Às quatro horas da tarde na minha sala, vamos ligar para o Rui.
Na volta para o escritório, conversei com alguns supervisores de setores que encontrei em meio ao caminho para pegar os exemplares que precisavam ser autorizados.
— Ele já está a aguardando, senhorita Jones. – Avisou Nikki, quando cruzei seu campo de visão em seu tom cordial habitual. Assentiu e não me demorei em abrir a porta para cumprimentá-lo.
— Vejam se não é o meu acionista favorito! – Abri meu melhor sorriso para saudá-lo, coisa que raramente acontecia, mas era com ele que revolucionaria a Magic. — Fiquei muito feliz que realmente tenha conseguido escrever a proposta em tão pouco tempo, fiquei preocupada com suas horas de sono. – Confessei, enquanto ia em direção a minha mesa para sentar à sua frente.
— Já tinha algumas coisas encaminhadas, confesso, mas precisei acrescentar muito. Essa é uma chance única!
— E está incrível, Gareth! Meus parabéns, eu estou sem palavras!
— Fico lisonjeado, , de verdade. Estava receoso, achei que não fosse impressionar.
— Não seja modesto, vamos lá! É incrível, ainda que precisemos colocar alguns pingos nos ís. Está com tempo?
— Sim, claro! O que achou do pen drive?
— Primeiramente Gary, quando digo colocar os pingos nos ís, digo estar atento a qualquer detalhe. – Pigarreei. — Não só por termos um concorrente direto ou até mais na votação, porque pior que eles nós somos os nossos maiores concorrentes. Qualquer detalhe é primordial, dessa forma podemos rever os documentos e corrigi-los com outro prisma.
— Não tenha dúvidas, , seremos imbatíveis.
Pelas próximas duas horas e meia, Gareth foi minha companhia e a melhor que poderia ter! Ele era fantástico! Habilidoso, ágil, cuidadoso e compenetrado. Não se distraiu por um segundo e era um encanto para os olhos vê-lo daquela forma, diria que até um tanto workaholic, mas quem sou eu para falar algo, não é? Sem via de dúvidas, meu acionista favorito!
O acompanhei com o olhar ao sair da sala, após um suspiro que puxou um sorriso de canto que brotou em nossos lábios. Estávamos confiantes e isso deixava meu dia muito melhor. A sensação de competência que rondava os ares por ali me causava ondas de ambição cada vez maiores.
— Nicole, contate Anna e peça os exemplares com a primeira avaliação para já. – Desliguei do telefone sem dar-lhe chance de resposta, certamente não carecia de seus murmúrios reverberando na minha cabeça pelo dia de hoje.
Hoje a videoconferência com Rui, que se tornara uma grande surpresa e amanhã, a reunião, que era um tremendo desafio. Não me permitiria parar por um segundo sequer, as edições especiais que Rui tanto amava não estavam cem por cento avaliadas por haver tempo demais até que chegasse a época da próxima publicação. Comecei com os exemplares mais rápidos, de entrevistas e colunas de moda que precisavam de uma pequena revisão e a autorização final para que fossem finalmente distribuídos, estampando em todos os lugares físicos e on-line.
Gostava de ver o resultado, gostava da repercussão, gostava das tendências ousadas que lançávamos, os relatos sobre matéria X ou Y que fulana viu sua vida melhorar em cem por cento após lê-la e as críticas, que eram cada vez menores e eu não descansaria até que fossem aniquiladas de qualquer forma da Magic! Magazine.
— Com licença, senhorita Jones, aqui estão o restante dos exemplares da próxima edição, versão on-line e física. – Deixou em minha mesa um tablet e as pastas para a versão física.
— Nikki, avise direta e estritamente ao Cox para priorizar as edições especiais. Vou mostrá-las ao Rui hoje mesmo. – Ordenei sem ao menos olhá-la, mas Nikki sabia que gostava de manter a excelência que Rui Angelo prezava e entendia que os segundos que perderia ali poderiam ser cruciais mais cedo ou mais tarde até que terminasse todas as avaliações
Na próxima edição especial que lançaremos tem Lupita Nyong’o como capa e traz sua trajetória até aqui e seu Oscar. Suas filantropias e como era ser embaixadora de causas como a luta contra a extinção dos elefantes pela WildAid e representar o nome da grande marca francesa Lancôme da melhor forma, até mesmo o suposto affair com Michael B. Jordan junto da reviravolta que sua vida deu e o quanto pôde engrandecer a mulher exuberante que era em uma matéria exclusivíssima e com declarações mais do que inéditas da atriz.
Sem via de dúvidas mandaria uma edição sem cortes para mamãe. Céus! Ela vai enlouquecer! Estava pra nascer maior admiradora de Lupita e vê-la pelos corredores da revista para os photoshoots me fazia lembrar de mamãe a cada segundo.
Mamãe.
Eu sequer conseguia pensar nela sem que minha boca secasse e meu coração quase pulasse do peito. Sabia tudo que ela havia deixado para trás por mim, e agora, mais do que nunca. Não era a primeira vez que tínhamos que segurar o mundo com uma mão para que pudéssemos enlaçar a outra e estava longe de ser a última, eu sabia. Poderiam vir outras vinte batalhas que nós ganharíamos todas, simplesmente porque estávamos juntas. Eu, mamãe e Blair, as forças que eu precisava e exatamente as que eu tinha.
As batidinhas tímidas na porta já denunciavam Nicole quando a mesma apareceu para entregar as próximas edições especiais, as mesmas que faríamos um ano inteirinho delas. Vi minha secretária ainda permanecer à frente da minha mesa. — Sim Nikki, vá almoçar e faça o horário completo, ok? – A orientei, automaticamente.
— Hideke Choi a aguarda e está um tanto… Ansioso, eu acho. – Disse receosa.
— Avise-o que amanhã antes da reunião conversamos. Antes disso, sem condições alguma. – Levantei meu rosto para encará-la. — E não permita que ninguém me interrompa novamente, estamos entendidas?
— Ele disse que não aceita um ‘não’ como resposta. – Completou.
— Então vamos decepcioná-lo porque a resposta continua ‘não’.
— Senhorita Jones, desculpe insistir, mas é que ele deixou explícito que deseja conversar agora e…
— Recapitulando Nicole, deixo explícito que hoje não há condições. – Proferi pausadamente.
Haviam doze pastas. Uma para cada das próximas edições especiais que tanto investíamos e as mesmas que eram minha grande paixão, e dessa vez inovaríamos longe dos lançamentos apenas para datas comemorativas, quando nos deixavam mais emotivos e etc. Mas também era sinônimo de frisson. As melhores matérias e as únicas do mundo, em uma espécie de crossover de celebridades que ninguém nunca imaginou.
— COMO VOCÊ PODE NÃO TER TEMPO PARA O ACIONISTA MAIS INFLUENTE DO COMITÊ? – A porta da minha sala se chocou com a parede, fazendo um estrondo, que apenas perdeu os holofotes para o oriental furioso que andava em minha direção, me fazendo pensar melhor sobre a audácia desse filho da puta. Cruzei os braços, ainda sentada em minha cadeira, assistindo o que eu jurava ser faíscas sair de suas narinas.

III

— O que posso fazer por Vossa Majestade?
— Guarde seu tom irônico para os seus amigos, senhorita Jones. Sou o mais influente. Isso é o suficiente para entender que tenho poder pra mudar muito aqui. – Seu tom de voz era alto e parecia aumentar alguns decibéis a cada segundo. Os ombros da minha secretária se encolheram um bocado assistindo à cena, então em passos rápidos ela se retirou.
— Primeiramente abaixe seu tom, Choi. Não está falando com qualquer um e sabe disso. – Suspirei. — Não sei o que lhe faz pensar que é tão especial a ponto de passar por cima de ordens expressas. – Travei a mandíbula, mantendo o tom firme.
— Talvez você não queira medir influências, . Uma garota mimada e incoerente, comandar não é apenas sobre dar ordens. – Riu nasalado, meneando com a cabeça. — O senhor Cox merece a maior parte da porcentagem e você mesma sabe disso. – Ele colocou as duas mãos espalmadas na minha mesa, me encarando e talvez esse fosse seu jeito de tentar me intimidar.
— Aceite se quiser, mas eu tenho os 51% e eles vão continuar meus. – Forcei-lhe um sorriso. — Agora se não se importa… – Apontei gentilmente a porta.
— Talvez eu não tenha sido claro o bastante, porque eu me importo e muito! – Proferiu pausadamente, entre os dentes que rangiam. — Você não vai ganhar aquela votação amanhã e esse vai ser o meu primeiro passo ao lado do senhor Cox para conquistarmos a Magic!
— Não tente me intimidar, Hideke. Se aceitar meu conselho: vá trabalhar, você não vai tomar o meu lugar apenas me ameaçando. Ah! E não me falte com respeito, próxima vez o senhor será suspenso.
— Você não teria coragem…
— Me teste. – Me levantei, ficando na mesma altura que ele, podendo encará-lo na mesma intensidade que o fazia, alinhando nossos olhares.
— O jeito que fala, o jeito que acha que comanda, o jeito que você entra na sala do senhor Cox… Tudo isso precisa mudar. – Ajeitou o nó de sua gravata, mesmo que não precisasse. — Isso pode até manchar o nome da Magic! Magazine.
— Lembre-se que os maiores números alcançados pela Magic foram no meu comando, e do Cox, também, é claro. Forbes Under 30 pode te explicar melhor. – Cruzei meus braços, aguardando sua resposta.
— Isso não vai ficar assim.
— Então sugiro que aja logo, porque os 51% ainda são meus. – Me aconcheguei em minha cadeira novamente, cruzando as mãos, plena e certeira sobre onde afetá-lo. Olhei em seus olhos para presenteá-lo com o melhor sorriso que poderia dar e fui presenteada de volta com sua saída triunfal batendo os pés como uma criança que não consegue o brinquedo que quer. Hideke Choi é influente? É. Mas também é um filho da puta egocêntrico e desacostumado a trabalhar. Podre de rico, herdou tudo de seu pai, inclusive a porcentagem de ações na Magic.
Mergulhei novamente nas edições especiais, havia muita coisa na minha mesa que provaria facilmente o porquê do poder da última palavra ser meu.
No final, reuniria em relação, capa e resumo do conteúdo de todas, recapitulando as informações mais importantes para ter certeza de que não ficaria nenhuma dúvida pelo caminho. Sempre da forma elegante que era a marca registrada da Magic. Rui vai amá-las! Ainda haviam tiragens para serem detalhadamente avaliadas, revisadas e resumidas. A maioria delas já haviam passado pelas mãos de , seguindo o esquema que obedecemos à risca: duas avaliações por cada edição. A maratona era difícil, mas para Cleveland-Jones, estava no meu DNA de workaholic enxergá-la como se estivesse em um parque de diversões.
Ouvi batidinhas e autorizei que entrassem, para logo ver um de rosto sereno. Inédito, por assim dizer, já que sempre estava com aquele maldito sorriso cafajeste e um pouco –bem pouco– galante.
— Oi. Vamos ligar pro Rui aqui mesmo ou na sala de conferência? E não demita a Nicole, ela me avisou que não queria receber ninguém, mas cá entre nós, sou bem mais do que isso, não é? – Piscou e aí está! O sorriso cafajeste que falei!
— Na verdade, estou um pouco ocupada. Mais tarde decidimos, ok?
— Vou pedir para prepararem a sala de conferências, então.
— Apressadinho, huh? Isso não vai aumentar seus 49%, … – Ri nasalado, estreitando meus olhos durante os poucos segundos que o encarei.
— Isso nunca me incomodou, . – Deu de ombros. — Qual o problema?
— Seu querido China In Box me fez perder raros minutos logo hoje, a ponto de me insultar dizendo que meus 51% não me cabem e que você, meu querido, merecia o poder absoluto. – Disse por vez e poderia jurar que senti meu sangue correr mais rápido apenas de me lembrar da audácia desse sem noção. Meu co-worker se sentou à minha frente e percebi um finco entre suas sobrancelhas, confuso.
— Eu não tenho nada a ver com isso! Se ele veio aqui despejar absurdos foi porque quis, sequer comentei algo com ele que não fosse profissional.
— Reforce seu cercadinho de hashis porque seu bebê está fugindo das regras da empresa, e o deixei avisado, se chegar a pensar em levantar o tom mais uma vez está suspenso.
— Você sequer se abalou! – cruzou os braços, analisando-me e riu em puro divertimento.
— Claro que não. Preciso manter a ordem, e sinceramente? Ele ficou puto! – Gargalhamos. — Ei, eu conheço essa embalagem.
— Trouxe pra você, sabia que não tinha parado um segundo. – Cox abriu a sacola para se exibir da posse de uma fatia de torta holandesa que não era apenas generosa, mas sim um milagre inteiro! E isso sem contar o Gingerbread todo decorado e colorido, ao lado dos muffins que saíam da sacola também. — Um muffin é meu e não me olhe assim, é de mirtilos.
— Por favor, fique com o muffin. Se houver uma padaria do céu, os anjos choram toda vez que veem você comprando muffin de mirtilos!
— Não reclame, apenas coma! Vou buscar um café pra nós.
Não estava entendendo sua bondade repentina e sequer lembrava que existia alguma bondade ali. Para mim, era composto de 70% água e os outros 30% pura luxúria. Blair queria ver uma trégua, então parece que alguns passos estão sendo dados por aqui. Em segundos ele estava de volta com o café da máquina no corredor, para ocupar da mesma forma seu lugar a minha frente.
— Expresso e doces: a melhor combinação para não pregar o olho a noite.
— Jura? Durmo como um bebê. – Soltou um muxoxo. — Isso é bom, no final das contas, estava mesmo pensando em te chamar para um jantar hoje. – Ele sequer me olhou tamanho descaramento. Estava ocupado demais retalhando seu muffin ridículo, aparentemente.
E estávamos empatados: enquanto ele se recusava me olhar, eu me recusava fortemente a aceitar mais uma fase dos seus jogos. Essa poderia ser a cartada final, mas pra mim isso aconteceu anos antes e vinha enfrentando um vilão a cara dia por isso.
— Você nem quer esse muffin… Você veio aqui exatamente pra isso. O quão cara-de-pau você pode ser, ? – Soltei o riso nasalado, um tanto irônico. — Eu sabia que não daria ponto sem nó.
, não é o que você está pensando eu só…
— Você é ridículo! E eu estou farta dos seus joguinhos, simples e puramente farta.
— Me ouça, mulher. Estou cansado dessas provocações, apenas me ouça. – Seus olhos eram quase suplicantes e eu precisava confessar que estou tentada a dar o braço a torcer. Nikki bateu à porta e entrou em seguida.
— Senhorita Jones, faltam 10 minutos para a videoconferência com Rui e a sala está pronta. Algo mais? – Isso foi o suficiente que eu saísse do transe e colocasse minha cabeça no lugar.
— Nicole, se desfaça das coisas na minha mesa, quero apenas as pastas. Em seguida, te aguardo na sala de conferências. Esteja pronta para fazer a ata, sim?
Busquei pela pasta com os resumos das edições especiais junto à de Gareth e joguei minha bolsa no ombro, seguindo em direção ao banheiro, sem muito tempo para um Cox que ficara para trás. Precisava retocar alguns pontos da maquiagem em meu rosto, mas mais importante que isso, era ter ao menos dois minutos de silêncio. Coisa que achava essencial para pensar em paz e pôr as coisas momentaneamente no lugar.
Retoquei o batom carmim e o iluminador que dava vida em pontos específicos do meu rosto. Respirei fundo, me encostando na pia e fechando os olhos, calmamente, –ou ao menos tentando– para repassar mentalmente as pautas principais que careciam ser citadas, deixando qualquer aleatoriedade para trás.
Mesmo após um bom tempo, Rui me veria exatamente da forma que estava acostumado: focada, decidida e inabalável. Fazendo jus aos 51% da Magic! Magazine, uma das queridinhas da cidade de Nova Iorque. Encarei meu reflexo no espelho para mais um suspiro, endireitei a postura e juntei minhas coisas fazendo meus saltos gritarem contra o piso no caminho até a sala de conferência.
Nicole estava apostos mais ao fundo e na primeira cadeira de um lado da grande mesa de reuniões, meu querido colega. Ocupei o lugar ao seu lado com a chamada em espera, que em segundos se desfez para revelar o rosto sorridente de Rui.
Minha dupla dinâmica! – Saudou. — Sou mesmo um filho da puta sortudo, huh? Como vão as coisas? Vamos, me contem tudo!
— Mais perfeitas do que nunca, Rui. – O cumprimentei com um largo sorriso e dessa vez espontâneo, que ele mesmo me causava. — Nosso exército fashion continua na mais harmoniosa conexão, sem dúvidas!
Vocês nunca decepcionam! Alguma novidade? – Meu chefe se exibia enrolado em um roupão branco e felpudo que pareia tão confortável quanto um pedaço de nuvem. Aparentemente deitado, Rui estava diferente do estávamos acostumados e consequentemente do que esperávamos.
— Bom, amanhã teremos uma Assembleia se não for exagero chamá-la assim, onde eu apresento uma proposta com Gareth e com Choi. – Suspirei, tomando fôlego. — Hoje mesmo separamos as avaliações e resumos das nossas amadas edições especiais e as demissões estão em andamento, caso precise.
— Peguei vocês, não é? Aparecendo antes da hora e deixando vocês loucos! – Riu um tanto maquiavélico. — Céus! Eu amo esse suspense que sei fazer como ninguém! Gareth? You go girl! – Meu chefe disse com animação e bebericou algo em uma taça.
— Não acredito que você está bebendo, Rui! Por Deus, você não existe! – Gargalhei e ele me acompanhou. — E só para constar, isso é maldade pura!
— Nunca os impedi de beberem, inclusive incentivo. E em minha defesa, não é maldade se logo, logo chegar um uísque dos bons para enfeitar a mesa de cada um! – Ângelo se exibiu com sua taça, mais uma vez, insinuando um brinde.
— Então digo que está com a razão, chefe e nem em outra vida vou reclamar do presente! Obrigada. – Pisquei cúmplice.
, seja sincera, o que fez com meu galã desta vez?
— Estarei apresentando com ele na Assembleia amanhã, já lhe disse. – Respondi simplesmente, mesmo sabendo sobre quem ele se referia.
— Não seja tão ruim, garota! Sabe que estou falando do bonitão do seu lado. Então me diga o que essa megera fez com você, meu bem. Sabe que posso demiti-la! -Dramatizou um bocado para sussurrar a última parte que me causou risos, assim como no homem ao meu lado. Desgraçado.
— Se quer mesmo saber Rui, ela tem partido meu coração constantemente. – Disse, , teatralmente.
, como pode deixar esse homem escapar duas vezes? Olhe estes braços! Me coço para não te dar um aumento para continuar malhando.
— Ângelo, achei que havia ligado para saber da empresa. – O tom de obviedade era marcante em minha voz.
— Também. Tenho alguns comunicados a fazer, inclusive. – Suspirou. — Primeiramente, podem guardar as edições especiais porque eu voltarei assim que chegar à data certa, e dessa vez, não foi por elas que apareci.
— Está acontecendo alguma coisa? – Cox perguntou, ajeitando-se na cadeira.
— Sim, mas vocês vão conseguir lidar perfeitamente. Hoje vocês terão um jantar black-tie, será uma confraternização entre as maiores revistas de Manhattan. E espero uma foto sua, Cox. – Comunicou por fim.
— Fazia tempo que não tínhamos que lidar com estes jantares. – Comentei.
— Sim, Manhattan parecia ter parado de vez com eles. – completou. — Algo em especial?
Nah! – Abanou a mão demonstrando descaso. — Apenas vão e representem a revista. Bom, por hoje é só, algo a acrescentar? Falem agora ou calem-se para sempre.
— Por enquanto não, mas obrigado, Ângelo. – Cox sorriu.
Se sorrir pra mim assim de novo, é oficial, te dou um aumento! Obrigado pelo que, afinal de contas?
— Ela recusou um convite meu para jantar minutos atrás. – Rolei os olhos.
What. A. Gentleman! Bom, tenho que ir, aproveitem sua noite. E em segundo lugar: estou em Nova Iorque. – E desligou.
— O quê?! – Dissemos juntos.
Assim é o meu querido chefe. Bem humorado do tipo que raramente algo o tira do sério. Aos seus cinquenta e oito anos, tinha aparência de quarenta e sua alma era de vinte, se não menos. Vivia intensa e imprevisivelmente, para cada semana estar em um lugar diferente, rodando o mundo inteiro. Rui Ângelo é daquelas pessoas que tem o dom de distribuir risadas por onde passa com seu espírito leve e aventureiro, além do seu dom pela moda que estava sempre on fire. Rui também era o pai que eu nunca havia tido, ele sabia e dizia se orgulhar do quanto significava para mim.
— Não acredito que ele está finalmente aqui. Isso é tão Rui! – Ri mais pouco, me levantando em seguida pronta rumar para a minha sala.
— Nicole, se importa de nos dar licença um minuto? – se direcionou a secretária na outra extremidade da mesa.
— Está tudo bem, Nikki, junte suas coisas e vá pra casa. Já estou indo também. – Ela acenou com a cabeça e encostou a porta ao sair. — Pois não? – Com a sobrancelha arqueada me dirigi ao homem a minha frente.
, você me entendeu mal, mas também não tiro sua razão. Só não queria que você espelhasse todas as minhas ações em decisões que tomei uma década atrás! É um tanto injusto, até.
— Não é justo pra você que não arca com as consequências até hoje.
— Por Deus! O que isso quer dizer? – Fechou os olhos com força, como quem se lembrara de uma lembrança ruim e tentava se desfazer dela. — Eu era um moleque, mal sabia o que fazia e se hoje te convidei para jantar tentando tirar essa imagem horrível que construiu de mim.
— Deve ser porque não me faltaram motivos. – Cruzei os braços.
— Eu sei, você está certa e eu estou tentando me redimir. O que me diz? Passo pra te buscar hoje à noite? – Seus olhos buscaram pelos meus e insatisfeitos, caçavam por uma resposta. Os mesmos olhos que me fizeram viajar por tanto tempo com o verde que parecia ter sido pintado à mão com aquelas pintinhas cor-de-mel.
— Não estava afim de dirigir, de qualquer forma. – Me dei por vencida.
— Confie em mim, .
Saímos da sala de conferência para que cada um seguisse seu rumo, ainda que minha mente seguisse uma rota contrária, permanecendo com o rosto de Dario me rondando pelos pensamentos e eu não queria controlá-los.
Encontrei Nikki organizando as últimas coisas que estavam fora do lugar em sua mesa.
— E Nicole – A vi se virar para mim, assentindo. — Não se preocupe com o Choi mais cedo, não foi culpa sua e ele tem umas atitudes duvidosas mesmo. – Pisquei e segui meu curso, ainda aproveitando sua presença pedi que colocasse Blair na linha.
— B, consegue sair mais cedo hoje? Mais cedo, tipo agora.
— Na verdade não, mas como você é minha chefe imagino que de uma forma ou de outra isso seja uma ordem, não é?
— Como se precisasse perguntar! Te espero no estacionamento.
Saindo da minha sala, segui o corredor que dava acesso ao elevador e sequer vi mais nenhuma sombra de Nikki ou de qualquer outro funcionário. O elevador chegou e eu entrei, para encarar meu reflexo nos espelhos pela segunda vez em pouco tempo e sendo invadida por pensamentos vaidosos de penteados para a noite de gala que me aguardava, assim como a joia em qual apostar já que meu tempo era um bocado curto.
Tirada dos devaneios pelo tilintar ao abrir as portas do elevador, irrompi em direção a uma das minhas maiores extravagâncias, meu BMW Concept 8, adentrando o veículo para jogar as pastas para trás como estava acostumada. Os dez minutos que Blair demorou para aparecer –que me pareceram trinta– pude usufruir da chance de mais uma vez, tentar organizar as ideias, mesmo que sobressaísse a outra e até podia ouvir mamãe falando que eu precisava de férias. Finalmente a boneca apareceu e aparentemente trazia todos os registros desde o nascimento da Magic, tamanha era sua pilha de pastas.
— Certeza que está tudo bem sair agora? Não tem que colocar estagiários nos eixos ou algo do tipo? – Tentei soar cômica para diminuir sua carranca, mas falhei miseravelmente.
— Nah! Está tudo bem, só vou precisar de mais um pouco de prazo pra entregar as aesthetics pros photoshoots. Vamos? – Ela se aconchegou no banco do passageiro e percebi que estava até um pouco ofegante.
Liguei o carro e já vi minha melhor amiga se adiantar procurando algo na playlist que em um combinado silencioso, ambas sabíamos que era sempre responsabilidade dela.
— E como foi hoje com o Rui? O que ele achou das edições especiais?
— Ah B, ele sequer ligou pra elas, foi mais para comunicar um jantar de gala com as melhores revistas de Manhattan com direito a The Plaza e tudo!
— Eu podia jurar que haviam desistido de vez desses jantares.
— Pois é, e agora temos a missão de achar um vestido em trinta minutos.
Entramos em algumas lojas torcendo o nariz para alguns e se apaixonando perdidamente por outros totalmente fora de contexto para a ocasião, como a jaqueta de couro da nova coleção de Carolina Herrera e realmente, essa era a montanha russa de sensações que a Madison Avenue proporcionava. Na mesma loja que o encontramos: vestido perfeito. Perfeito para mim, e nascido para aquela noite.
Braid Detail Silk by Carolina Herrera.
Ousado, elegante e vermelho.
Ainda encantadas pela Madison Ave, Blair passou pelas portas duplas da Giuseppe Zanotti Design. A loira dizia saber que ali, em algum lugar de todo o acervo fashion do designer italiano de luxo, haveria a combinação perfeita.
E em poucos segundos provou que não poderia estar mais certa.
O par de Three-Strap vermelho tal qual o vestido, me serviram como o sapatinho de cristal. A diferença é que Giuseppe Zanotti tinha o dom de ler os pensamentos que ao menos concluí ao apresentar aqueles belos doze centímetros e alguns mil dólares que me calcariam hoje.
Infringimos poucas e boas leis de trânsito ultrapassando alguns sinais vermelhos para corrermos até em casa e o horário de pico não ajudava.
Ao adentrar o apê, tinha exatas uma hora e meia para me arrumar. Tempo este que era o mesmo levo na manhã antes de ir trabalhar.
Correria –e gritos apressados da Blair– a parte, quando pude me ver no espelho, gostei do resultado e digo isso porque era penas quando a General Mitch permitia, e sinceramente, com seus olhos atentos, cada piscada era um acerto para a conta da minha melhor amiga girly e perfeccionista. Os cabelos presos em um coque banana tinha alguns fios soltos para desconstrui-lo. Para a maquiagem, nada exagerado, mas uma pele perfeita e cílios de dar inveja. Blair Mitch era minha fada madrinha e eu nem sequer sonhava em discordar!
Meu celular tocou para me desligar dos devaneios. Era Dario.
— Sua carruagem te espera Cinderela. Está pronta? – Disse brincalhão.
— Mas ainda faltam 20 minutos!
— Imagino que isso seja um ‘não’.
— Ainda faltam alguns detalhes, se importa de subir?
Ouvi meu co-worker concordar e desligamos, para que então eu pudesse correr pelo apê procurando por uma Blair que parecia gostar mais de usufruir do seu tempo maratonando “O Diabo Veste Prada” pela milésima vez esparramada no sofá da minha sala.
Não a julgo, é um excelente filme!
— B, está subindo.
— E o que ele está fazendo aqui? – Disse mordendo sua fatia de pizza que… Por Deus, Blair, eu a estava guardando!
— Me ofereceu carona.
— Por que não me falou que ia acompanhada? Poderia ter opinado em um vestido mais curto!
— É melhor dessa forma, assim já sei que da próxima vez não direi nada sobre ir acompanhada.
— Você vai sair com ele, de novo? – A loira de um pulo do sofá, encarando-me.
— Pode servir vinho branco, é o preferido dele. – A ignorei, dando-lhe as costas para que voltasse a me arrumar.
Corri de volta para o quarto afim de escolher uma clutch sobre a qual não me lembrei mais cedo. O closet parecia menor a cada nova temporada de inverno, e pareceu ainda menor quando ouvi o reverberar da campainha e comecei a me atrapalhar, apressada dentro dele. Puxei a gaveta para tirar de lá o conjunto composto por anel e colar, da coleção Tiffany Soleste com joia esmeralda rondada em diamantes, presente que recebi de Rui algumas semanas antes do meu aniversário.
No final das contas, estar perto dos trinta anos se tornava uma coisa boa: os presentes eram mais sofisticados.
O vestido esticado na cama estava pronto para ser estreado e assim o fiz, sentindo o tecido macio deslizar pela minha pele por toda sua extensão. Calcei as sandálias e pude conferir no que tanta correria resultou.
O look predominantemente vermelho era incrivelmente poderoso e eu só podia ouvir Blair: “Você está matadora!”.
Com clutch finalmente em mãos segui para a sala, encontrei a melhor amiga deitada em um sofá e aconchegado em outro, muito bem em seu smoking por sinal.
— Eu nem saí e você já se apossou de cem por cento das minhas coisas! – Brinquei, percebendo e não sabendo como reagir ao olhar de Cox. — Vai ficar por aqui?
— Não sei, na verdade. E sim , eu lembro das regras: Um: nada de mais de um boy; Dois: Respeitar a adega de vinhos; Três: Pia limpa. – Blair enumerava nos dedos de uma mão e sua voz era puro tédio, me fazendo rir.
— Esqueceu a mais importante: não pedir…
— Não pedir farinha para o vizinho porque você sempre tem farinha! – Rolou os olhos e cruzou os braços como uma adolescente emburrada.
— Que orgulho. – Pisquei para ela, fazendo com que seu bico de emburrada apenas aumentasse. — Vamos, Cox? – Me virei para o homem que tinha as mãos nos bolsos dianteiros da calça e para o meu azar, estava terrivelmente deslumbrante. Seu perfume de sempre me rodeava tornando difícil a tarefa de manter-se sã perto dele.
— Claro, claro. Vamos! E se me permite, você… Céus! Me faltam palavras, . – Se as palavras realmente lhe faltaram, seus olhos, no entanto, me disseram o bastante.
Era uma trégua, after all.
— Obrigada. Você também não está nada mal.
— E não iria me esquecer. – E como no meu aniversário, revelou mais um buquê de rosas colombianas, que pouco a pouco começavam a se tornar meu mais novo vício, quando percebi que mesmo sem querer, elas fundiam-se com a cor do vestido.
— Confesso que a última vez que as recebi não é das minhas memórias favoritas… Obrigada! Blair vai colocá-las na água, não é Blair?
— Lembre-se: estou tentando me redimir! – O co-worker sussurrou, para piscar em seguida.
, vá de uma vez! – Pela milésima vez em cinco minutos, Blair revirou os olhos. — Sim mamãe, as colocarei na água.
— Não me expulse da minha própria casa!
— Não estou. Só estou sendo esmagada entre meu próprio peso, o de vocês e da tensão sexual, então por favor! – Abanou a mão no ar como não se importasse, e não tivesse visto que a fuzilava com o olhar. Pigarreei, seguindo até Cox, e gostava de pensar que nenhum de nós concordava com Blair.
ofereceu seu braço para que eu o enlaçasse e não desapontei, assim o fiz para seguirmos em direção ao elevador.
— Última vez que estive aqui pensei que fosse me estrangular. – Rimos para preencher o vazio silencioso do elevador. — Obrigado por aceitar o convite, Em.
Tinha uma resposta na ponta da língua, mas esta foi calada por um bando de crianças barulhentas que seriam nossa companhia até o térreo, e eu só pude sorrir para sua gentileza. Era estranho no final das contas: a trégua. Estava acostumada com outra realidade e acredito piamente que ele também, talvez a trégua fosse algo que eu teria que aprender, mesmo depois de tanta coisa.
O caminho foi tranquilo e pudemos conversar e dar algumas risadas enquanto ouvíamos sua playlist horrorosa vinda direto da nossa adolescência, no último ano do colégio para ser mais precisa, e o início da fase adulta, com a faculdade e o começo de estágio na Magic inclusos nas memórias que as músicas traziam.
Não somos celebridades, mas era até irônico como cada um ali, no salão do The Plaza o grande pai dos eventos glamurosos de NYC, tinha uma carta na manga. Era como um ninho de cobras onde todas vestiam Versace. Claro, haviam algumas exceções, um e outro que se safava sem o rabo preso com ninguém e eu não estava absolutamente certa sobre estar entre eles.
— Pronta para beber taças e taças de champanhe com combinações esquisitas de frutas e ser simpática por horas? – Disse o homem ao meu lado, assim que estacionou, revezando o olhar entre mim e o frisson mais à frente.
— Para sua informação, sei muito bem ser simpática. Mesmo por horas! Você não estava tentando se redimir? – Suspirei para dramatizar um pouquinho. — Anyway, focar em me embriagar o máximo possível antes de Melanie Vaughn vir me contar sobre a festa que fez no iate para seus poodles. Sinceramente, isso me custa muita paciência! – Nossas risadas tomaram conta do carro e de presente para a nossa sanidade mental, demos mais um longo suspiro. Haja paciência para o que estava por vir.
— Não é por nada, mas ouvi boatos que o sonho da Melanie é chegar à Magic. Ela já entregou o currículo? – proferiu irônico e saiu do veículo rindo, contornando-o pela frente, parando ao meu lado e abrindo a porta como um legítimo cavalheiro de algumas décadas atrás. Ele entregou a chave para que manobrassem o carro e enlaçamos nossos braços novamente, não era de todo ruim, tenho que dizer. Mas, infelizmente, era fácil demais de se acostumar.
— Ah! Só um segundo. – Me virei para estar de frente a ele. — Sua gravata está torta, deixe-me arrumar. – Puxei as extremidades do laço para ajustar seu tamanho e endireitá-la em seu colarinho. Sua gravata borboleta marsala que caía tão bem com a lapela da mesma cor em seu smoking. God have mercy! — Agora sim! – Dei dois tapinhas em seu ombro como se precisasse deles para dispersar os meus próprios pensamentos anteriores.
Adentramos o grande hotel sendo devorados pelos flashs dos atuais responsáveis pela grande cobertura do evento. Era até engraçado provar do próprio veneno quando já havia feito o mesmo para conseguir as melhores notas no estágio.
— Senhorita Jones, por favor uma pergunta: A Magic! Magazine está entre o atual “Top 5’ de Manhattan: vocês estão conformados com isso? – Um garoto mirrado e, creio que, em seu melhor terno perguntou, usando seu celular como gravador.
— Por Deus, meu jovem! – Dei uma risada irônica. — Folheie a Magic mais uma vez e veja que não estamos conformados com nada. E convenhamos, o 1º lugar está aí para ser conquistado e te digo uma coisa: esteja atento ao próximo nome a ocupá-lo, porque será o da Magic. Obrigada. – O garoto recolheu sua gravação para dar espaço a uma jovem ansiosa ao lado de Dario.
— Senhor Cox, por gentileza: como parte do cérebro da ‘Tríplice de Ouro’ da Magic! Magazine, o senhor acha que é um bom momento para a Magic diversificar sua forma como dizem os boatos?
— Primeiramente, obrigado pelo ‘Tríplice de Ouro’ é sempre renovador de ouvir, como se fosse a primeira vez! – Riu simpático. — Quanto aos boatos: sou contra spoilers!
— Senhor Cox, aqui! – Uma garota irrompeu.
— Mil perdões pessoal, preciso ir. Seria uma lástima deixar uma mulher dessas esperando! Obrigado! – Demos um aceno para o último rajar de flashs que nos perseguiram e seguimos para o salão.
Sendo verdadeira, gostava de ver a forma que lidava com as perguntas e com quem as fazia porque era muito diferente da forma havíamos sido tratados na época em que precisamos correr atrás do que esses jovens correm hoje. Assim como a dificuldade que tínhamos com os materiais e artefatos necessários de baixa qualidade para conquistássemos o melhor que pudéssemos. Era uma caça por leões todos os dias.
Uma música ambiente tocava ao fundo quando nos servimos de taças de champanhe e decidimos nos separar para melhor socializar.
O local me parecia mais elegante do que me lembrava desde a última vez que estive ali, há dois anos. Banhado por conhecidos do ramo e devo acrescentar, alguns concorrentes os quais já havia trocado boas farpas. Vi quem me ajudou com conteúdos essenciais e não, necessariamente, exclusivos quando ainda era um estagiária. Uma entrevista esclarecedora, bastidores de peças de teatro até photoshoots já me bastavam naquela época. Vi também quem esnobou e jogou o nome da –até então– pequena e recém nascida Magic na lama, e havia espaço da mesma forma para quem mantinha apenas as relações estritamente profissionais. Cumprimentei a todos igualmente, e aos que tentaram nos pisotear o meu mais sincero sorriso da atual ‘Tríplice de Ouro’ da Magic! Magazine.
Dito e feito.
Em pouco tempo pude ver Melanie Vaughn oferecer-me uma taça de champanhe ao meu lado. Com toda sua loirice exagerada em um quase cosplay de Paris Hilton.
— Amada! Nem preciso dizer que está divina, não é? – Sorriu forçada junto de sua voz estridente e nasalada que poderia partir em pedaços mínimos nossas taças. — Caroline Herrera?
— Claro. A própria! – Respondi-lhe sobre a grife do vestido, soando o mais simpática possível. — E, nossa! O que foi aquela festa para poodles, huh, Mellie?! -Emendei em seu assunto favorito, assim a mesma não faria questão e poderia esbanjar seu bronzeado ¾ alaranjado em qualquer outro metro quadrado deste salão.
— Foi divino! Me emociono apenas de lembrar. Uma pena que não pôde ir, o que não fazemos pelas nossas empresas, não é? – Forçou um desânimo referindo-se a desculpa que inventei para fugir do seu convite. — Mas cá entre nós, esse assunto já não é o único do momento. – Se aproximou de mim, abaixando seu tom quase num sussurro.
— Como não? Aquela festa é tudo o que temos falado.
— Na verdade, queria falar de . – Melanie segurou o que pôde do seu sorriso mordendo o lábio inferior.
— O Cox?! Jura? O que ele fez desta vez?
— Ah… O que eu gostaria que ele fizesse, não é mesmo? – Vaughn puxou meus ombros, mostrando-me a direção em que meu co-worker estava, no fundo do salão. Ele bebericava sua taça de champanhe vez ou outra, e ria casualmente com o pequeno grupo de mulheres de meia idade que pareciam compartilhar do mesmo sentimento de Melanie. — Por favor, me diga que ele está solteiro, e eu juro que posso descabelá-lo agora mesmo! – A loira platinada o encarou e fez uma espécie de garras com as mãos, e que assemelharam bastante devido tamanho de suas unhas cor-de-rosa. Senti meus olhos se arregalarem de imediato, assim que o grupo que ele conversava se dispersou, nos flagrando de imediato levantando sua taça como quem propunha um brinde e em resposta, entornei o restante de champanhe, colocando a taça vazia na bandeja de um garçom que passava e substituindo por uma cheia.
Precisava saciar a sede que me cercou. Eu não estava ouvindo aquilo.
— N-Nã.. Não que eu esteja fofocando, longe de mim, é claro, mas o vi confirmar umas rosas vermelhas, aquelas colombianas, lindíssimas, para alguém esses dias. – A respondi rapidamente. — Talvez seja um affair ou algum caso de uma noite só. não dá ponto sem nó! – Senti o cítrico da bebida em meus lábios novamente, me dando conta do que diabos havia dito.
Ah, não!
— Não o vejo com ninguém há tempos, . Acha que é sério mesmo? – Colocou as mãos na cintura, estreitando a vista e me analisando. Talvez não percebesse minha mentira. Sinceramente, não era tão esperta assim. E outra, não era das piores mentiras, diante a trégua só queria protegê-lo. Apenas.
— Você deveria tê-lo visto. Cheio de sorrisinhos para cá e para lá, deve ser sério sim.
— Já estava sonhando com aqueles ombros largos, os olhos verdes e aquelas mãos… Ah, , como se concentra com um homem desses pelos corredores?
Não saberia o que lhe responder: minha boca estava cheia de mentiras, mas também nem precisei fazê-lo, sorrimos e nos viramos em direção ao palco, onde havia uma breve movimentação.
Samantha Barry, editora-chefe da Glamour se aproximou do microfone em frente aos músicos para chamar a atenção.
— Boa noite. Sejam todos muito bem-vindos ao The Plaza e á noite de premiação a Vogue. – Aplausos acalorados preencheram todo o local e vi se posicionar ao meu lado. — Agradeço a presença de todos e antes do jantar, vamos ver um vídeo promocional sobre a premiada da noite.
O vídeo se iniciou e nele havia a campanha entre Vogue e Glamour em suas plataformas de comunicação que tinham como prioridade avançar e explorar mundialmente as vertentes de Marketing de Luxo. Marketing do Luxo, com curadoria da redação da Vogue, e Marketing Digital para Moda, com curadoria da Glamour. Os veículos se uniram com o objetivo de disponibilizar conteúdo nas áreas de moda e luxo com o selo de títulos que são referência nesses segmentos.
A hostess nos acompanhou à mesa com nossos nomes a leste do salão. Um local reservado que nos permitia ter o prazer de observar a Big Apple ganhando pontos de luz conforme a noitada se abria em uma forma aconchegante ainda que o local estivesse farto.
— Fiz o máximo que pude para ficarmos um pouco reservados, mas queria aquela mesa que uma vez você comentou e…
! Não se preocupe, está ótimo. Obrigada! – Sorri terna, mas ainda um pouco acanhada. — Mas me diga, como está a sua proposta com o Choi? – Perguntei enquanto abria o Menu a minha frente para analisá-lo.
— Não mesmo. Não vamos falar de trabalho aqui.
— Irônico. É exatamente isso que estamos fazendo! – Exclamei óbvia.
— Não estamos rodeados de pastas. – Ele evidenciou o lógico, piscando maroto. — Espero que não se importe, pedi um Dom Périgon e se bem me lembro: vintage rosé.
— Mas você ama vinho branco. – Tentei argumentar, vendo-o segurar um risinho que brotava no canto de seus lábios. — E quando você pediu? Estávamos juntos quase o tempo inteiro.
— Se acalme mulher! Tenho tudo sobre controle. – Sinalizou para o garçom algo que não fazia ideia. — E Dona Valerie, como vai?
— Jura? Minha mãe? – O encarei entediada e ele afirmou com a cabeça para que prosseguisse. — Ela está ótima. Uma versão menos louca do Rui, acredita? Vive viajando!
, eu devo um pedido de desculpas a ela. Não vai mudar tudo o que aconteceu, mas cá estou. – O garçom chegou para nos servir o champanhe rosé.
— Vamos com calma, garotão. Temos todo o tempo do mundo. – Ergui minha taça, propondo-lhe um brinde ao qual ele atendeu, então levei a taça aos lábios sentindo o adocicado explodir até o céu da minha boca.
Durante o jantar pôde contar suas histórias da temporada em que morou na Inglaterra, oportunidade que teve na faculdade e que nos afastou um bocado –pra não dizer –completamente–. Conseguimos dar boas risadas apesar de tantos ressentimentos que marcaram a época, tornando o jantar agradável como há tempos não apreciava.
Retornando ao salão principal, haveríamos de lidar, consecutivamente com a premiação, um segundo vídeo promocional para, enfim abrirem a balada fechando a noite. Não sentia exatamente saudade das luzes piscantes, porém estava claro que elas fariam parte do ponto alto dessa noite.
— Celebramos nesta noite em homenagem a grande campanha revolucionária com iniciativa da Vogue. – Samantha retornou a falar em sua posição de anfitriã num tom de voz gentil. — E peço uma salva de palmas para que Eugenia de la Torriente possa receber sua merecida estatueta!
Recebendo a estatueta das mãos de Samantha Barry, uma sorridente e deslumbrante Eugenia de la Torriente ouviu o repercutir das palmas em sua homenagem. Senti meu sorriso se abrir junto ao de tantos ali presentes, que mulher! Que personalidade exuberante!
Segurou o mundo com uma mão, driblando tantos estereótipos e conquistou a estatueta com outra e me parecia a coisa mais certa do mundo.
— Me parece até um sonho! E quantas vezes sonhei com isso! – Eugenia iniciou com suas palavras. — Digo a vocês: não cheguei aqui sozinha e também não ganhei sozinha. Ajudem quem está ao seu lado e vocês verão sobre o que é empatia. Muito, muito obrigada e boa noite. – Ela levantou sua estatueta e alguns sorrisos se alongaram ainda mais, mesmo que o seu próprio fosse capaz de iluminar toda a cidade.
— Acho que caiu um cisco no meu olho. – Brincou Samantha ao regressar. —Obrigada a todos por esta noite e espero que possamos nos encontrar logo mais na London Eye, felizardos! Agradeço-lhes novamente e aproveitem a noite!
O último vídeo promocional se iniciou tão bem trabalhado quanto o anterior e repetidamente frisava um encontro em… Londres?!
— Não, não, não e não. Ele não fez isso. – Me dirigi á , exasperada.
— Ele enlouqueceu de vez. Não pode ser. – Cox completou, encarando o telão com os dizeres:

’’See you all soon.
London, 2020.”

 

IV

Irrompi pelo salão de gala e por cima da música alta que começou tocar, era como se pudesse ouvir meus dentes rangendo em fúria e não duvidava.

, ! Espere! O que vai fazer?

— Preciso tirar isso a limpo. Rui não pode simplesmente nos despachar em outro país. – A voz antes recatada agora atingia alguns bons decibéis.

— Quer mesmo lidar com isso de cabeça quente?

— O que você quer, afinal? Que eu espere pelo carimbo nos nossos passaportes? -Cruzei os braços. — Olhe. Quer ficar? Fique. Chamo um táxi.

— Isso é loucura! Sabemos que Rui está em Manhattan, mas sequer sabemos onde.

Você, não sabe. – Frisei. — É claro que ele está no Conrad Hotel. Enfim, você vai ou fica? – Perguntei um tanto ríspida. Sabia que não era culpa dele, mas precisava se decidir. Em resposta o vi suspirar e balançar a chave do carro nos dedos.

Uma eternidade nos distanciava do Conrad Hotel e precisamos cruzar a ilha de Manhattan, nos custando valiosos trinta minutos. Neste meio tempo minha cabeça dava nós quase cegos e meu coração se contorcia em pura e sincera raiva.

Ir para Londres poderia pôr tudo a perder.

, tem certeza que quer chegar tarde no hotel para xingar seu chefe?

— Até porque não me parece tarde para ele contar que vamos pra outro continente. – Busquei pelo meu celular, discando o número de Rui. Pareciam intermináveis as vezes que disquei seu número para ouvir os repetitivos toques e finalmente ir parar na caixa postal. — É óbvio que ele não vai atender. – Murmurei.

— Não é tão ruim assim, o continente está aqui do lado.

— No fim das contas de que lado você está, ? Uma hora ele vai atender. Tem que atender. – Tentei por mais alguns minutos e enfim, ouvi sua voz.

— Me conte tu-do sobre o evento, querida! E cobre o Cox a foto que pedi! – Coloquei a chamada no alto-falante.

— ngelo foi esplêndido. Eugenia de la Torriente ficou tão emocionada! – Forjei uma voz serena. — E se me permite perguntar: O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? – Pude ouvir o riso de ambos homens.

— Céus, então vocês já sabem! Fantástico, huh? – Disse Rui, fazendo pouco caso.

— Sério Rui, o que passou na sua cabeça? – Berrando às 7 Maravilhas do Mundo e não pretendia parar tão cedo e o homem na ligação sequer se importara.

— O que passou pela minha cabeça é que não adianta você vir até o Conrad Hotel. Apenas deixe seu passaporte em dia.

— Não estava indo ao Conrad Hotel. – me olhou para sussurrar um “O quê?!”.

— Eu sei que está e que também está fazendo o bonitão de chofer. Conheço seu modus operandi!

— Olá, Rui. – o saudou, revelando-se.

I knew it! Apenas não venham. Tchau, tchau! – Desligou.

— Mas que inferno de mania de desligar do nada!

— Satisfeita? – O encarei, semicerrando os olhos. — Bom, vou te levar pra casa.

Me contentei em suspirar para recobrar a sanidade e finalmente concordar; Rui ngelo era o dono de todo aquele império. Olhava pela janela, assistindo uma garoa fina começar a cair pela cidade de Nova Iorque e notei que em poucos minutos, Cox já estacionava em frente ao meu prédio.

— Rui é inacreditável. – Comentei pensativa ainda com a cabeça recostada ao vidro da janela do carro e ouvi a risada nasalada do homem ao meu lado.

— Descanse e coloque a cabeça no lugar. Amanhã conversamos sobre isso com tranquilidade, tudo bem? – Percebi sua voz mais suave e calma.

— Bom, obrigada pela noite. Foi incrível apesar de um final conturbado!

— Nessas horas eu sempre acho que você vai acabar estrangulando alguém e infelizmente dessa vez eu era o mais próximo, mas eu tenho um bom seguro! – Sua risada tornou a atmosfera mais leve, preenchendo o silêncio do carro que parecia maior como a garoa se intensificava e as pessoas na rua se esvaíam.

— No final das contas não precisei te estrangular. Parece que sua missão de se redimir está indo muito bem, soldado! – Sorri encorajadora.

— Este era o meu dever. – Piscou e simulou uma continência, fazendo-me rir pelo seu pequeno exagero.

— Desculpe, tenho que ir, Blair ainda deve estar esperando por mim. Faz de tudo para ser a primeira a ouvir as fofocas, acredita? – Revirei os olhos, rindo leve. — Obrigada, , de verdade. Boa noite.

Subi para o apartamento com uma sensação gostosa de serenidade, mesmo que o diabinho no meu ombro sussurrasse que o motivo dessa sensação era , já que o fim da noite tivera uma boa reviravolta.

Haviam poucos sinais da minha melhor amiga por ali. Uma embalagem de biscoitos aqui, uma caixinha de suco ali… Como uma criança. E como dizia minha intuição, ela estava no quarto de hóspedes, esparramada na cama e adormecida como um bebê. Longe de mim acordá-la agora, coisa que ela odiava com todas as forças e automaticamente desperdiçava seu bom humor que tinha pela manhã. A amava demais para castigá-la assim, as fofocas poderiam esperar.

O sol nascia pela cortina que não fechei na noite passada e me arrependi amargamente. O pensamento logo se esvaiu porque: de qualquer forma, o dia da votação chegou!

Mal me levantei e já podia ouvir Blair cantarolando Katy Perry em sua plena felicidade matinal junto dum cheiro delicioso fazer meu estômago cantar, quase tão alto quanto ela. Me dei o luxo de um banho demorado e quando saí do mesmo até minha melhor amiga já havia desistido de cantar.

— Bom dia, B! Acordou tão cedo. – Beijei o topo da cabeça de uma Blair que zapeava os canais para então, me servir de suco de laranja e cookie.

— Bom dia femme fatale! – Virou-se para mim. — Ei, fiz ovos com bacon fresquinhos e torradas, não me decepcione com um mero cookie.

— Vou precisar sair uns quarenta minutos antes, hoje. Dia de Assembleia, baby!

— Por nós: Pise no Choi! Ouvi umas palavras altas dele ontem pelos corredores! – Reviramos os olhos, reação comum quando esse nome era citado.

— Anda muito estressadinho… Quando não, né?

Blair insistiu em dirigir para que eu pudesse revisar os dados da apresentação para mantê-los frescos na memória e assim o fiz pelos vinte minutos que me foram permitidos antes que chegássemos ao prédio da revista. Trocamos um “te vejo no almoço” ao longo que seguíamos para nossos departamentos.

Entrando no campo de visão de Nikki e passando por sua mesa, logo vendo-a quase apostos em meio ao caminho à minha sala.

— Bom dia, Nicole. Dia cheio, huh? Ligue para Anna e diga que quero que organize a Sala de Conferências. Contate Gareth no mesmo segundo que ele estacionar aqui e diga que preciso vê-lo imediatamente. Mande flores de agradecimento a Carolina Herrera e Giuseppe Zanotti. Ah! Ao ligar pra Anna diga para o Cox passar aqui. Agora. Por enquanto é só, obrigada.

Vi em minha mesa o uísque que Rui prometera, escocês e não poderia ter optado mais certo. De volta ao mergulho com o último lance de dados que precisavam ser estudados, ouvi batidinhas na porta que me interromperam quase em tempo recorde desta vez.

— Bom dia, . Queria me ver? – adentrou a sala ainda com seu café matinal em mãos.

— Bom dia, . Sim, sim, por favor sente-se. – Fechei a pasta que folheava, substituindo pela pauta do assunto seguinte. — Aproveitando que chegamos mais cedo para a Assembleia e partindo do princípio que não durará o dia inteiro, ainda há a coluna sobre o jantar de gala e premiação a qual precisamos lidar. Cá está a minha proposta: o que acha de escrevermos juntos, dessa vez? – Perguntei direta, cruzando as mãos em cima da mesa.

— Como se fosse na…

— Como se fosse na faculdade! Exatamente! – O completei. — O que me diz?

— Nunca me passou que um dia voltaríamos a escrever juntos, mas acho ótimo! Claro!

— Perfeito! Acha que conseguimos começar a escrever hoje à noite?

— Estarei aqui! – Suspirou. — E , sobre o Choi…

, mil perdões, mas preciso rever algumas coisas antes da Assembleia, se não se importa.

— Entendo, claro. Tenho que rever as minhas também. Sem problemas, até mais.

— Pelo amor de mim mesmo, criança! Sou o dono desse lugar não preciso ser anunciado! Tchauzinho. – Aos berros de um tom afetado disse o homem que impulsionava a porta da minha sala.

— RUI?! – Eu e Cox dissemos juntos e por Deus! Boquiabertos era elogio!

There you are! Venham cá, deem um abraço no chefinho de vocês! – ngelo abriu os braços e me acolheu para que eu pudesse matar as saudades até mesmo do seu cheiro de lavanda. — Um homem desse tamanho não vai se acanhar, não é? – Abraçou da mesma forma e nos saudou com um grande sorriso. — Esses músculos… Como vinho: cada vez melhor, querido! Cada vez melhor…

— Vai de ficar de vez, certo? – Perguntei, tentando desviar do atual assunto.

— Pretendo ficar apenas hoje, para me antenar por aqui. Confesso, já gastei alguns mil dólares por aí e agora é a hora certa de sossegar.

— Na verdade, precisamos conversar sobre ontem. – Cox disse incerto, colocando as mãos nos bolsos dianteiros da sua calça social.

— Sim, Rui, por favor esclareça tudo isso. – Sentamos no sofá e Rui se serviu do uísque que me presenteou. Passando uma dose para mim, uma para e outra para si, aproveitando de minha cadeira.

— Desculpe se os assustei, mas Londres é real.

— ngelo, não é justo. E facilmente pode ir apenas um de nós.

, pode ser uma chance para você mesma conhecer também, e é incrível! -Comentou meu co-worker.

— Obrigada, mas eu passo.

— Não, , você não passa. – A voz de Rui se tornou quase uma sentença de morte e eu nunca o havia visto daquela forma.

— Sabe que não posso, sou parte da direção da redação e alguém precisa ocupar esse cargo. – Exclamei óbvia.

— Exato! E eu vou ocupar esse cargo. Mais alguma pergunta? – O clima cada vez mais nebuloso na sala não me acanhava, assim como nunca acanhou. — Não via problemas em representar a revista nas demais premiações, assim como fiz por muito tempo, mas como revista inovadora creio que seja hora de mudança de ares.

— Rui, você tem certeza que…

— Sim, , você vai e ponto final. Por favor, aceite de uma vez. – Após sua voz soltar o veredito, a última dose em nossos copos foi virada por mim e por Rui enquanto exercia seu papel apenas ocupando um lugar ali.

— Você não sabe o que está fazendo, Rui, definitivamente não sabe. – Murmurei.

— Na verdade, pesei todo e qualquer pró e contra. É o melhor momento possível, Jones. – Seu olhar me encontrou com furor, e eu respondi da mesma forma. — Estou exausto, principalmente das suas picuinhas.

— Rui, você me conhece como a palma da sua mão e sabe que pode ser tudo, menos picuinha. – Me levantei ao ver meu chefe fazer o mesmo para alinhar nossos olhares, um bocado exaltado.

— Está tudo bem? – perguntou desnorteado ao –real– assunto.

— Tudo ótimo, só um pouco surpresa com essa viagem repentina.

— Parece que estamos tendo problemas no Paraíso, garotão… – Rui usou seu melhor tom irônico quando se serviu de mais uma dose de uísque. — Pergunte a ela porque está renegando tanto a Inglaterra. Vamos lá, pergunte.

Eu simplesmente não sentia mais minhas pernas.

— Rui. – Não percebi quando meus dentes começaram a ranger, mas sentia meu maxilar sofrer e no momento, era o menor dos problemas.

… – iniciou, mas logo se conteve. — Vou deixá-los a sós. Parecem ter muito o que conversar. – Virou o que sobrou de sua dose e sem tempo para respostas saiu porta afora. E eu pude, enfim, respirar.

— Meu Deus, Rui. O que você estava pensando?

— Eu estou te ajudando com a oportunidade perfeita, já passou da hora. Não lhe pesa a consciência? – Suspirou. — E se não pesa, você é muito pior do que imaginei.

— Você não tem o direito de “me forçar” uma verdade apenas porque sabe de toda história. – Engoli em seco, ouvindo-o suspirar. — Aceito a viagem por trabalho, mas talvez você esteja me cotando para ela pelos motivos errados.

— Anyway, passado mais um episódio da novela mexicana da Magic! Magazine vou me inteirar dos outros departamentos.

Rui ngelo. O amava com todas as forças, contudo, sabia me dar nos nervos como ninguém!

Minhas pernas ainda um tanto fraquejadas descansaram no sofá para que eu distribuísse livres suspiros aos quatro cantos, como forma de soltura dos sentimentos calados, os amores injustiçados e as feridas abertas que não cicatrizavam. E a culpa era minha. Porém precisava ser forte e segurar a “máscara” por mais tempo, dessa vez, não só por mim que dia após dia me pegava pensando em castigos por achar que fiz pouco demais e que não era sequer o mínimo. Quando o mínimo já machucara demais. Estava perdida. Perdida em mim mesma. E talvez essa fosse a pior das possibilidades.

Pelas minhas contas, tinha meia hora até que Gareth chegasse e mesmo após perder preciosos minutos, era mais do que suficiente para que eu colocasse as ideias em seus devidos lugares.

Minutos passados, tese em perfeito estado e cada vírgula em seu lugar exceto pelo próprio Gareth que se recusava a chegar. Comecei a anotar as ideias iniciais para a coluna do jantar e premiação de ontem, para que pudesse eliminar um pouco das tarefas mantendo-me ocupada sem encarar o relógio a cada segundo. Iniciando por um roteiro onde indicava os pontos altos da noite, assim como as tendências que lançamos e foram lançadas, podendo testar a popularidade das que entraram em nosso campo de visão durante o evento e sim, os fracassos. Batidinhas gentis na porta e logo pude ver par de olhos azuis me encontrarem.

— Bom dia, , desculpe pelo atraso logo hoje. – Se apressou. — Você sabe, um imprevisto em NYC e sua vida desanda uma semana inteira. – Riu acuado.

— Bom dia, sem problemas. Tudo certo para a Assembleia? – Perguntei convidando-o para sentar à minha frente.

— No mais perfeito estado! Nós vamos conseguir, , e eu estou ansioso por isso.

— Vamos repassar as ideias? Gosto de ter certeza de que tudo está perfeito.

— Não se preocupe, concordo plenamente e acho admirável da sua parte.

Pela próxima hora debatemos uma prévia de tudo que apresentaríamos e era perfeito ver que nossas convicções eram as mesmas, as ambições, o modo de pensar, visões… Gareth com seu charme galês, sua elegância, educação e cavalheirismo era encantador de todas as formas que poderia imaginar. E ainda por cima, workaholic na medida certa!

Nicole bateu à minha porta, para o bem de meus pensamentos.

— Senhorita Jones, desculpe interromper, apenas para avisar que os acionistas já chegaram. Gostaria de recepcioná-los?

— Ah sim, claro! A Sala de Conferências está pronta?

— Sim, sim. Rui pediu para avisá-la que não o aguardem para a Assembleia.

— Já esperava por isso. Tudo bem, Nicole, obrigada. – De forma sutil a vi sumir pela porta como sempre fazia.

, posso falar com você um segundo? – tomou o lugar que Nicole ocupava anteriormente, irrompendo aflito. Concordei, pedindo licença á Gareth que permaneceu em minha sala, prosseguindo com até a Sala de Conferências que estava vazia.

— Você está uma pilha, o que aconteceu?

— Choi. Não apareceu até agora, simplesmente sumiu, ! – Impaciente ele passou a mão pela barba que começava a nascer em seu rosto e afrouxou o nó em sua gravata.

— Vai ver ele só está atrasado, até o Gareth se atrasou hoje.

— Não, ele não atende o celular e nem em casa. Vou precisar que inicie enquanto ele não aparece, se importa? – Perguntou inquieto.

— Não, claro que não. Preciso recepcionar os acionistas, mas vou deixar um alerta com Nicole.

— Não se preocupe e obrigado, . Vou verificar com Anna se houve algum progresso, até já. – O homem estava perdido e atordoado, e por experiência própria, sabia que essa era a pior forma de tomar decisões, ainda mais na frente de acionistas. Não achava correto que a Assembleia tivesse início sem Choi, se fosse o caso, mas sabia que se chegasse a hora e precisasse tomar uma decisão, ele faria da melhor forma. Cox faria sozinho. Isso mesmo senhoras e senhores, se fosse preciso Jeremy Cox enfrentaria acionistas famintos para defender a sua ideia.

— Nicole, Choi não chegou. Dê um jeito de trazê-lo até aqui nem que tenha que buscá-lo em casa e ele não atende de forma alguma. O quero aqui, e principalmente agora.

— Claire do Design sabe rastrear celulares, vou providenciar.

— Perfeito, avise o Cox assim que conseguir algo. – Ouvia os berros dos saltos reverberarem no caminho de volta até a minha sala, onde ParenthWood estava. — Gareth perdão, isso está uma loucura hoje e vou precisar me ausentar mais uma vez para recepcionar os acionistas. Ainda há alguma dúvida? – Me sentei de frente a ele, atropelando algumas palavras.

— Algum problema, ? Algo em que possa ajudar? – E ainda por cima prestativo!

— Não se preocupe, tudo sob controle. Desculpe novamente, preciso mesmo ir, até já.

Rompi até o elevador, para ir até o Lounge três andares abaixo, onde investimos para que nos tempos de tensão –que eram exatamente cem por cento dos dias– não assistíssemos ninguém arrancando os cabelos e apostamos em um local próprio da revista onde poderíamos aliviar boa parte da tensão no cotidiano. Em uma mesa redonda com arranjo de lírios, vi os três acionistas que conversavam entre si.

— Vejam se não são exatamente quem eu desejava ver hoje! – Manifestei bem-humorada. — Bom dia. Desculpem a demora, como vão? – Indo em direção a mesa.

— Me parece muito confiante, senhorita Jones. – Mencionou Antoine, um francês bastante simpático, que amenizava o clima que encontrei entre os três.

— Isso é música para os meus ouvidos, Blanché. – Fiz sinal para a garçonete que estava ali para me trazer um café, apenas para acompanhá-los.

— Sim, vi ParenthWood pelos corredores e me parecia convicto também! Vocês… Dois workaholics. Dupla perfeita. – Antonella se expressou em seu tom usual, que me parecia tédio. Como se houvesse sempre lugares melhores e mais importantes para ir, do que estar ali, conosco, meros mortais.

— Nos esforçamos bastante e sim, estamos preparados. – Beberiquei meu café assim que posto na mesa, sem esperar que Jim se manifestasse, coisa que raramente acontecia.

— Philips, como vai Gwen e as crianças na nova escola? – Perguntei diretamente ao homem de meia idade, minha atual única saída entre os outros dois com quem dividíamos a mesa.

— Estão muito bem. Obrigado. – Se limitou.

Por mais vinte e cinco –fucking– minutos precisei acompanhá-los e pareciam ter me roubado cinquenta anos. Tamanho eram seus resmungos com reclamações.

— Faltam dez minutos para a Assembleia, o que acham de irmos? – Tentava me manter simpática, mas poderia sentir minha paciência se esvair, e restar a profissionalidade que era apenas o que eu precisava. Em resposta não ouvi sequer um murmúrio ou uma reclamação –que era o que estavam mais habituados– mas me acompanharam quando me levantei.

Andares acima os conduzi até a Sala de Conferências em perfeito estado que nos aguardava, onde já estavam e Gareth apostos. Presenciei um início de conversa entre os três que se cumprimentaram e me retirei em busca dos meus dois minutos de silêncio. Sem mais, nem menos, apenas.

— Senhorita Jones! – Nicole se adiantou quando ultrapassei seu campo de visão antes de chegar à porta do meu repartimento. — Choi: Seu celular foi rastreado pela última vez aqui, ontem, mais precisamente por volta do horário em que conversaram. Em sua casa, recepcionistas do prédio disseram dar informações apenas a membros da família.

— Onde diabos ele se meteu? – Sussurrei para mim mesma. — Atualizou o Cox sobre isso?

— Sim, e ele apenas disse que vai fazer da sua melhor forma.

— Ok. Tudo certo para a ata? – Nicole balançou a cabeça em concordância. — Certo, um segundo e já vamos.

Adentrei meu escritório em direção a grande parede de vidro que me presenteava com a Nova Iorque matutina e daquela altura, os carros tão pequenos quanto formigas. Por sorte, dali não se ouvia nada e era assim que me mantinha agora: inerte no silêncio. Essa era uma das chances que teria para diversificar a Magic! Magazine e tudo a sua volta, ver seu nome multiplicar em países que Vogue não conseguia e conquistar a estatueta como a de Eugenia de la Torriente. Esta jornada estava apenas começando. Por fim, respirei fundo e em passos pesados fui em direção a Nicole que estava a minha espera porta afora.

— Vamos, Nikki. It’s time.

Adentrando a Sala de Conferências, todos já devidamente acomodados, Nicole seguiu para seu lugar ao fundo onde permaneceu sozinha já que Dario não convocava Anna para as atas porque dizia achar mais propício fazer por si só, mesmo quando já havíamos demais para lidar.

— Bom dia ao atual comitê da Magic! Magazine. Introduzi. — Como sabem convocamos essa Assembleia que tem como objetivo sanar as falhas na atual dinâmica e apresentar soluções inovadoras para a implementação no ramo da revista. Como de praxe, iniciamos em edições anteriores por ordem alfabética e hoje decidimos alterar a antiga ordem. Assim tendo início por mim e Gareth ParenthWood.

Ouvimos os aplausos cerca de uma hora e meia após o início da reunião, com direito as réplicas e tréplicas de cada integrante do comitê e até vídeo promocional, para ser mais fácil de comprar as ideias. Dario não havia se pronunciado até então, mas vez ou outra o via anotar algo, me parecia compenetrado. Ele ocupava a primeira cadeira da grande mesa ao lado direito, quando eu e Gareth ocupávamos o lado esquerdo. Ao fim de nossa apresentação nos sentamos para dar espaço a Dario, que se levantou para tomar a palavra.

— Bom, sem delongas, comunico que retiro minha candidatura nesta Assembleia. Com a ausência de Hideke Junji Choi acho devidamente antiético dar continuidade em uma candidatura iniciada em conjunto. Obrigado e desculpem. – Minhas sobrancelhas estavam sendo castigadas da forma que se uniram. — As propostas de e Gareth são avassaladoras e devidamente promissoras para a revista, espero que tomem a decisão correta. – O observei juntar suas coisas e sair sem pronunciar mais nenhuma palavra.

— Para não influenciar, vamos nos retirar. Lembrando que a votação tem seu encerramento apenas quando todos os acionistas tiverem seus devidos votos em mãos. Obrigada. – Como , juntamos nossas coisas, deixando apenas um resumo individual para esclarecimentos.

— Então, o que achou, ? Eu achei incrível! Acha que temos chance? A sensação de estar ali na frente é revigorante! – Gareth arremessou suas palavras como uma criança elétrica na loja de brinquedos e eu até ouvia sua voz, mas não identificava as palavras. — ?

Poderia falar com ele depois.

Me dirigi a sala de e poderia ouvir a voz de Gareth às minhas costas buscando por uma resposta. Minha cabeça em um grandessíssimo nó e sem pensar duas vezes invadi pela porta de sua sala. O encontrando com as mãos na cabeça, cotovelos encostados na mesa… Como se lutasse internamente contra um impasse gigantesco.

, o que aconteceu ali? Você tinha tudo para apresentar sozinho. – Ele mal se mexeu, limitando-se a levantar seu olhar, indicando-me que mais um homem estava ali.

, este é Dominique Burke. – O homem muito bem vestido e de cara fechada ofereceu sua mão em cumprimento e o fiz. — Ele é detetive. Precisamos do Rui.

— Não vai se demitir, não é? Desistir por aquela porra de Inglaterra mais uma vez? É apenas uma Assembleia, podemos anulá-la, você sabe!

Sua voz grave me atingiu em cheio como poucas vezes aconteceu com tanto furor, e eu precisei me sentar.

, Choi está morto.