Cirque Reign

Sinopse: Memphis é uma cidade situada às margens do rio Mississipi, no sudoeste do Tennessee, famosa pelas variedades influentes de blues, soul e rock’n’roll que se originam lá. A cidade do Elvis. Mas o que eles não sabem é que seres incríveis nascem por lá também e não estão ligados a música.
O Cirque Reign tem a maioria dos seus contribuintes nascidos e criados em Memphis e é lá, que aos 22 anos, a primeira transformação acontece. O que ela não sabia era que um elfo metade humano a ajudaria a passar pelos primeiros momentos de loucura e um detetive persistente – e cético – deixaria tudo ainda mais fora da realidade.
Cuidado com o que você deseja, a vida mágica pode ser assustadora.
Gênero: Ficção
Classificação: 18 anos
Restrição: Nomes como: Cassidy, Sadie, Daisy, Reign e Remy utilizados com muita frequência de forma fixa.
Beta: Brooke Davis

Capítulos:

PRÓLOGO

06 de agosto de 2018. Las Vegas, Nevada, EUA. 18 horas e 45 minutos.

— Ela completará 22 anos nesta noite. — O Senhor falou, erguendo os olhos sobre os óculos apenas para observar o garoto a sua frente. — Vai ser sua primeira transformação.

— Eu devo ir até lá? — O garoto questionou, com as duas mãos para trás e o rosto um pouco abaixado, querendo demonstrar respeito ao homem sentado na enorme poltrona.

— Sim. Você vai ajudá-la e depois trazê-la para nós.

O garoto engoliu em seco.

— Sim, Senhor. — Ele apenas balançou a cabeça, em concordância.

— Agora vá, você deve estar lá quando a transformação ocorrer. — O Senhor mandou autoritário, voltando a observar o enorme livro que suas mãos enrugadas seguravam.

O garoto reverenciou na frente do mais velho e saiu da sala, apressado. Ele não queria ter que fazer aquilo. A garota não merecia o sofrimento que teria que passar, mas toda sua vida e de sua família dependia daquele ato “heroico”.

06 de agosto de 2018. Memphis, Tennessee, EUA. 20 horas e 08 minutos.

— Detetive . — Uma batida na porta retirou a atenção do homem do monte de papelada em cima da mesa.

— Pode entrar. — murmurou, esticando um pouco as costas que já doíam pela posição.

— O resultado da amostra chegou. — O xerife avisou, entregando o papel dobrado na mão do detetive.

desdobrou o papel, lendo-o com cautela. Não deixou passar nenhuma linha. Respirou fundo quando chegou na conclusão do laudo. Nenhuma resposta.

— O sangue não bate com nenhum registro nos nossos sistemas e também com nenhum animal. — Remy falou frustrado, sentando-se na cadeira em frente à mesa do detetive.

— Então simplesmente essa pessoa não existe? — perguntou descrente, largando o exame em cima da mesa e encostando suas costas na cadeira. O coldre já incomodava seus ombros.

— Uma das testemunhas alegou ter visto um homem encapuzado e com orelhas enormes, rodeando o carro.

O detetive encarou o xerife, questionando com o olhar se aquilo era sério. Remy deu de ombros, já ouvira algumas histórias sobre os seres que nasciam em Memphis. não conseguiu levar o colega a sério e caiu na gargalhada.

— Criaturas místicas não existem, Remy. — Ele alegou, levantando-se de sua cadeira e desligando a tela do computador. — Vamos, amanhã continuamos nossa busca.

CAPÍTULO 1

06 de agosto de 2018. Memphis, Tennessee, EUA. 23 horas e 47 minutos.

sorriu para o relógio do celular. Faltavam alguns minutos para seu aniversário de 22 anos e não poderia estar mais ansiosa. Sua mãe já havia deixado o seu bolo preferido preparado e cantariam parabéns logo pela manhã.

Após cursar gastronomia, ajudava a mãe, Daisy, em seu restaurante temático na cidade de Memphis. Daisy sempre dizia que acreditava fielmente em criaturas mágicas e que, se um dia pudesse, viveria com eles, por isso seu restaurante tinha o aspecto da história de Peter Pan, as garçonetes se vestiam de fadas, enquanto os cozinheiros eram os piratas e durante a noite faziam diversas apresentações para os clientes. Naquele dia estava de folga, justamente por gostar de comemorar o aniversário exatamente à meia noite.

Ela estava no The Cove com suas amigas, seu bar preferido, também com uma temática pirata, mas que recebia as pessoas mais jovens da região, com uma boa música, além do karaokê, drinks diversos e muitos homens bonitos. Algo que não conseguiam deixar de notar.

— E então, qual vai ser o seu desejo para seus 22 anos? — Cassidy perguntou, voltando com as três long neck de cerveja e sentando-se de frente para as amigas.

— Ficar rica? — respondeu, arriscando um forte desejo que mantinha, dando um longo gole da sua cerveja gelada.

— Tem que ser um desejo único, . Ficar rica todo mundo quer. — Sadie riu ao responder a amiga. — E não me fale ficar bonita, ou eu te dou um murro.

— Além de que, o restaurante da sua mãe lucra horrores, vamos ser sinceras. — Cassi cortou a fala de antes mesmo dela abrir a boca. — O que você acha de um namorado?

— Não. — respondeu rapidamente, rindo da forma como a amiga enrolava uma mecha do cabelo nos dedos e olhava de soslaio para um grupo de garotos mais à frente. — Para de flertar e me ajuda aqui. — A garota estalou os dedos na frente do rosto de Cassidy.

— Você poderia desejar uma noite de muita farra para suas amigas com aqueles gatinhos. — Sadie comentou ao levar o olhar para o grupo de amigos que Cassi tanto observava.

— Claro, eu devo abrir mão do meu desejo para satisfazer o fogo de vocês? — foi irônica, revirando os olhos com toda a afobação de suas amigas. Era sua noite, poxa.

— Já está quase dando meia noite e você ainda não decidiu. Não temos muito tempo. — Sadie foi óbvia e foi como se uma luz piscasse logo acima da cabeça de , ela já sabia o que desejar.

A garota levou o olhar até o telefone em cima da mesa e sentiu um arrepio gostoso passar pela sua pele assim que o relógio virou meia noite. Elas brindaram com suas cervejas e desejou “uma vida mágica”, pois era tudo o que ela precisava, uma vida carregada de aventuras e diversões com as pessoas que mais amava. As garotas tomaram longos goles de cerveja, finalizando rapidamente o conteúdo da garrafa, como em um ritual, batendo as mesmas na mesa assim que vazias.

— Feliz aniversário, ! — Cassi e Sad gritaram animadas, pulando sobre a amiga para um abraço em grupo.

— Yay! — gritou animada, abraçando as amigas de volta.

Após o abraço, foi Sadie quem saiu para buscar mais cervejas exigindo que aquela rodada fosse por conta de , a qual não negou, apenas entregou os dólares necessários para a amiga. O telefone da garota começou a vibrar sobre a mesa assim que a amiga saiu e sorriu ao ler o nome da mãe. Ela pediu licença para Cassi e foi até o lado de fora para poder atender a mulher sem todo o barulho ensurdecedor do bar.

Feliz aniversário, ange! — Daisy desejou do outro lado assim que ouviu a respiração da filha.

— Obrigada, maman. respondeu, também utilizando da forma carinhosa que elas utilizavam para se chamarem. Sua mãe sempre a chamou de ange, repuxando o sotaque francês que recebera de sua família, e ela, como fora ensinada a língua francesa, nativa de sua mãe, a chamava de maman por puro costume.

Te desejo uma vida mágica, querida. — A garota sentiu seu braço arrepiar novamente ao ouvir aquelas palavras, as mesmas que havia desejado anteriormente. — Espero que você seja muito feliz e não beba demais!

— Pode deixar, maman. Não vou demorar muito.

Se cuida, um beijo. Preciso voltar ao trabalho.

Após se despedir da mãe, desligou o telefone e olhou para o céu estrelado, sorrindo abertamente. A noite estava perfeita. Escura, com o céu estrelado, a lua brilhando fortemente acima de sua cabeça e o vento quente do verão. Do jeito que gostava, da forma que sua data preferida era e tinha que ser.

A garota sentiu uma coceira nas costas, como se a etiqueta do seu vestido de poá a estivesse incomodando, e levou a mão até lá, dando leves arranhadas com a unha para tentar aliviar o incômodo que sentia. Quando trouxe a mão de volta, arregalou levemente os olhos ao notar que suas unhas pintadas de branco estavam manchadas de vermelho… sangue. Seu coração acelerou.

Novamente levou a mão às costas, passando os dedos onde sentia a coceira, os trazendo novamente para a frente do seu rosto. Seus dedos tinham sangue agora. A respiração da garota iniciou um ritmo descompassado, sentindo uma dor lacerante a atingir no ponto em que antes coçava.

apoiou-se na parede do bar e agradeceu por não ter ninguém na rua ou fora do The Cove. Seus olhos encheram-se de lágrimas rapidamente e ela caminhou, lentamente, sobre os coturnos, sentindo a cabeça girar com tamanha dor. A garota tentou puxar o ar algumas vezes, engolindo em seco quando sentiu que iria desmaiar. Ela continuou caminhando trôpega, até conseguir chegar na rua ao lado, onde o poste não funcionava e ela poderia tentar descobrir o que estava acontecendo com suas costas.

Ela segurou um grito na garganta quando sentiu seu braço ser puxado para atrás das construções, um beco escuro. Seu corpo trombou em outro corpo, e ela sentiu-se pequena perto daquela pessoa.

— Você precisa ficar calma. — Ele pediu, soltando a garota e se afastando um pouco. Não queria assustá-la.

— Quem é você? — perguntou num fio de voz, agachando-se ao sentir a dor ainda mais forte a atingir. Os olhos brilhantes e verdes lhe chamaram muito atenção.

— Eu sou e estou aqui para lhe ajudar, . — Ele respondeu, andando até atrás da garota para poder descer o zíper do vestido dela.

— Sai de perto de mim. — A garota pediu, sentindo-se completamente assustada.

— Eu não vou machucar você, assim ficará mais fácil para não rasgar sua roupa. — avisou, voltando a ficar na frente de .

agachou na frente da garota e segurou as duas mãos geladas dela sobre as suas. levantou o olhar sofrido para o garoto, percebendo como seus traços eram diferentes, assim como sua beleza. Seus olhos eram de um verde limão brilhante, os cabelos espigados em um topete bagunçado e suas orelhas tinham leves pontas para cima, algo que não passou despercebido por .

— Do que você está falando? O que está acontecendo comigo? — perguntou, sentindo a dor crescer a cada segundo, mas um alívio percorrer seus braços enquanto tinha suas mãos sendo seguradas por aquele garoto.

— Você está tendo sua primeira transformação, . Suas asas estão crescendo. — explicou com calma em um tom baixo.

teria gargalhado se não estivesse sentindo como se farpas saíssem de sua pele, rasgando o tecido e lhe causando uma dor imensa. Ela teria gritado caso não tapasse sua boca com a mão, abafando o ruído que saia da garganta da garota. levou sua mão livre até suas costas, sentindo uma textura esquisita saindo por seus poros. Ela respirava pesadamente, arfando a cada laceração de dor, olhando piedosa para tentando suplicar ajuda.

— Já vai passar, confia em mim. — O garoto pediu, olhando sobre os ombros de . — Está quase concluindo.

A vontade de era mandar o garoto calar a boca e parar de falar besteira para tentar ajudá-la, levá-la ao médico ou qualquer outra coisa que ajudasse naquilo, mas ela não conseguia mais pronunciar nenhuma palavra. Morder a mão de foi a melhor solução que encontrou para que nenhum grito ecoasse por aquele beco escuro.

Alguns segundos depois, sentiu como se nada estivesse lhe machucando naquele momento. Ela ergueu o corpo do chão com a ajuda de e sentiu um peso sobre as costas, dificultando ainda mais sua respiração. A garota tentou olhar para trás na intenção de ver o que estava sobre suas costas, mas com a escuridão e a pequena rotação que seu pescoço fazia, ela não conseguia enxergar.

retirou um pequeno espelho do bolso e o colocou na frente de , deixando que ela enxergasse aquilo que estava sobre suas costas. A garota arregalou os olhos e levou a mão, trêmula, até a boca.

— Isso… Isso são…

— Asas. — confirmou, sorrindo ternamente para a garota e voltando a guardar o espelho.

— Que brincadeira é essa? — perguntou, sua voz completamente assustada.

— Não é uma brincadeira, . Hoje é seu aniversário de 22 anos e essa é sua primeira transformação. — explicou, analisando com admiração as asas brancas de . — Você é um anjo, .

— Você só pode estar de gozação comigo. — A garota respondeu brava. — Que porra de anjo?

— Eu vou te explicar tudo, mas não hoje. — O garoto enfiou a mão dentro do bolso da calça e puxou um papel dali. — Me encontre nesse endereço, amanhã logo após o meio dia, antes de você ir para o restaurante. — Ele pediu, deixando o papel sobre a mão de . — Elas já vão voltar ao lugar delas.

sentiu a dor voltar a lhe atingir e segurou o grito na garganta, sentindo a mesma arder. Ela curvou o corpo levemente para trás sentindo aquele negócio enorme voltar para dentro de si, causando a pior sensação que ela já havia sentido em todo o mundo. voltou a se posicionar atrás da garota e assim que toda a asa dela voltou para dentro do corpo, ele puxou o zíper do vestido para cima, fechando-o.

— Volte para sua comemoração, . Feliz aniversário. — desejou, sumindo pelas ruas de Memphis, sem deixar rastros.

07 de agosto de 2018. Memphis, Tennessee, EUA. 02 horas e 10 minutos.

O celular iniciou um toque insuportável na cômoda ao lado da cama. tateou o móvel a fim de desligar o mesmo, acreditando ser o despertador. Mal tinha dormido e já tinha que acordar? Não deu tempo da chamada ser desligada e logo o celular voltou a tocar ainda mais alto. O detetive abriu os olhos, com certa dificuldade até conseguir se acostumar com a luz do poste que entrava pela janela, segurando o aparelho com a mão, lendo o nome do Xerife Remy na tela.

— Pronto. — Ele atendeu, sentando-se sobre a cama.

Detetive. — Remy cumprimentou, parecia bastante sonolento também. — Desculpe o horário. Encontramos um corpo.

— Me passe o endereço. Chego aí em alguns minutos. — levantou em um pulo, desligando a chamada e seguindo até o banheiro do quarto.

O homem lavou o rosto algumas vezes, desejando arrancar aquele sono para poder trabalhar. Em seguida, voltou ao quarto e abriu o armário pegando uma calça e uma camisa social, vestindo-se rapidamente para depois poder prender o coldre sobre os ombros e tampa-lo com o paletó. O sapato costumeiro já ficava na porta da sala, pronto para ser calçado.

colocou a carteira e o celular, já com o endereço gravado em mente, dentro do bolso da calça e saiu apressado, segurando a chave do carro na mão enquanto chamava o elevador. Foram alguns minutos até o detetive chegar na cena do crime e a cidade parecia vazia naquele horário. Dali dois dias o festival em homenagem ao Elvis ocorreria e os turistas começariam a chegar. temia que algo pudesse acontecer com os visitantes.

— O que temos? — O detetive perguntou, passando por debaixo da faixa amarela.

Um carro estava capotado no meio da rua, cacos de vidro espalhados por todos os lados, enquanto somente os postes conseguiam iluminar a região, assim como a luz da lua. Alguns olhares curiosos apareciam por trás das cortinas das casas, mas ninguém se atrevia a ir mais perto olhar.

— Ela capotou o carro. Sozinha. — Remy contou ao se aproximar de . — Está com um tubinho saindo do braço, como se estivessem tirando o sangue dela.

O detetive franziu o cenho, encarando Remy. Como assim tirando o sangue dela? Quem diabos quer tirar o sangue de uma pessoa assim? Além do mais, como ela teria capotado sem nenhum obstáculo na via? Eram tantas perguntas que rondava a mente do homem que ele não era capaz de respondê-la naquele momento, não enquanto ouvia uma voz suave ao fundo, falando com um dos policiais.

virou na direção da voz e travou no lugar. Ele já havia visto muitas mulheres bonitas, as quais ocuparam sua cama sem maiores preocupações, mas aquela garota… Ele não conseguia definir. Ela parecia extremamente assustada, mas ao mesmo tempo sua expressão demonstrava leveza, o olhar penetrante que parecia brilhar, as mãos finas segurando a faixa amarela com certa força, deixando os nós dos dedos ainda mais brancos, se possível, e a luz da lua iluminando a pele fazendo com que refletisse. O detetive percebeu que a própria respiração estava agitada, aquela garota tinha algo que ele não conseguia explicar. Quem diabos era ela?

— O que está acontecendo? — perguntou, aproximando-se do policial e da garota.

— Ela alega ser a vizinha da moça que estava no carro. — O policial explicou para o superior.

— Você a conhecia? — tornou a perguntar, agora direcionado para ela.

— É o carro da Senhora Margot. — Ela respondeu, aflita. — Ela mora naquela casa azul. — A moça apontou para a casa ao lado da sua. ficou ainda mais petrificado com a voz que saia das cordas vocais daquela garota.

— Você conhece algum parente dessa Senhora Margot? — perguntou com dificuldade, piscando algumas vezes.

— Não, ela é sozinha na cidade. Um dos filhos dela mora em Tulsa e o outro em Atlanta. O que aconteceu com ela?

— Eu vou precisar que você vá a delegacia amanhã, tudo bem? Preciso de mais algumas informações da Senhora Margot. — pediu, entregando um cartão pessoal para a garota.

Ela concordou com a cabeça e pegou o cartão, segurando-o junto ao celular. A garota deu a volta no próprio corpo e andou, temerosa, em direção a própria casa. O que será que tinha acontecido com a mulher que era sua vizinha desde que ela se conhecia por gente?

— Espere. — falou involuntariamente e se amaldiçoou em seguida.

A garota virou na direção do detetive e o encarou, aguardando o que ele falaria.

— Qual o seu nome? — Ele perguntou.

. — A garota respondeu, após franzir o cenho. — .

— Certo. Obrigado.

observou se afastar novamente e caminhar até a casa branca, ao lado da azul, sem olhar para trás. Ele queria que ela olhasse, queria poder observar aqueles olhos novamente e ouvir aquela voz que foi como música para os seus ouvidos. tinha certeza que nunca vira uma garota como ela em toda sua vida. Ela tinha uma beleza única… Uma beleza extremamente angelical.


CAPÍTULO 2

07 de agosto de 2018. Memphis, Tennessee, EUA. 12 horas e 48 minutos.

já tinha cantado parabéns com sua mãe e suas amigas e almoçado uma deliciosa couve-de-bruxelas que só Daisy sabia fazer e agradar seu paladar com os bacons crocantes e sequinhos. Ela ainda tinha a cena do carro capotado da Senhora Margot em mente e iria até a delegacia como o homem havia pedido na noite anterior, mais por curiosidade do que por realmente querer ajudar. não sabia muita coisa sobre Margot para poder ajudar no que quer que tivesse acontecido.

A garota trocou de roupa, vestindo sua saia soltinha de tecido leve e de onça, com uma blusa preta por dentro e os seus coturnos da noite passada, seus preferidos. O cabelo já estava arrumado e apenas completou uma maquiagem clara no rosto, pois trabalharia naquela noite no restaurante e gostava de ficar apresentável. Antes de trancar a porta de casa, ela jogou todas as suas coisas necessárias dentro da pequena bolsa e deixou os óculos escuros cair sobre o rosto, tampando seus olhos do forte sol que fazia naquele horário.

Ela ainda não tinha pensado sobre o outro acontecimento da noite passada, sentia que sua mente viraria uma confusão caso ela afundasse naquilo e não conversasse com o garoto antes. Então com o papel que ele havia lhe entregado em mãos, ela caminhou decidida pelas ruas de asfalto de Memphis, com seu maps do celular ativado. O caminho parecia curto, as ruas estavam parcialmente vazias, mesmo ela morando próxima ao centro. O horário de almoço era sagrado para os memphian e ainda não havia muito sinal de turistas na região, mesmo a Elvis’ Week tendo início para ali dois dias, onde os sósias de Elvis Presley faziam suas melhores apresentações e a cidade se preparava para os melhores shows e a mais conhecida vigília.

O celular de apitou assim que a garota parou em frente a um enorme gramado verde. Ela olhou ao redor e era mais uma rua comum de Memphis. Asfalto, casas sem muros e muito gramado e flor.

Psiu. — Um barulho mais à frente pôde ser ouvido por .

Ela novamente olhou ao redor, tentando encontrar da onde vinha o som. Mais à frente, no mesmo gramado verde, ela enxergou a silhueta de um homem. Ele aparentava ser alto e usava preto, com a cabeça coberta por um capuz. forçou a vista, tentando recordar de da noite anterior, mas estava tudo tão escuro que a única coisa que ainda tinha em mente eram os olhos brilhantes dele.

subiu a calçada do terreno e caminhou entre a grama, muito bem roçada por sinal, com certa lentidão, tentando observar o rosto do rapaz, para ter a certeza de que era ele mesmo. abaixou o capuz e deixou com que visse seu rosto, afinal, ela parecia temerosa ao caminhar. Quando conseguiu ver aqueles olhos verdes cintilantes, ela pôde sentir um certo alívio, afinal estava sozinha na rua e não queria ter que passar um sufoco naquele horário.

— Você veio. — falou quando a garota já estava próxima o suficiente para ouvi-lo.

— Sim. — respondeu somente. Ele estava próximo a mata que ficava atrás do terreno e ela torcia para que não fosse realmente ali dentro o local de encontro. — Aonde vamos?

— Um bunker, atrás da rua. — começou a caminhar entre a divisão da mata e dos terrenos.

o seguiu, com o cenho franzido, tentando entender o que estava prestes a acontecer em sua vida.

parou em frente à uma porta próxima ao chão atrás de uma das casas da vizinhança, e puxou a peça de aço, não fazendo barulho algum. O garoto adentrou pela porta, descendo a pequena escada que tinha para chegar até o solo. Mesmo desconfiada, segurou a saia por entre as pernas e desceu pelo mesmo lugar, pulando firme no chão.

A garota subiu os óculos para cima da cabeça e olhou ao redor, não deixando de prestar atenção em cada detalhe, enquanto fechava a porta de aço. Era um lugar limpo demais para um bunker comum, possuía uma pequena sala ao canto, com uma mesa encostada à parede enquanto diversas fotos e papéis estavam presos no cimento cru que era a parede. Havia uma outra porta mais em frente, mas era de madeira, e todo o resto estava vazio, deixando um enorme espaço para circulação.

— Certo, é agora que o Jimmy Fallon aparece com uma pegadinha de aniversário? — perguntou, bufando com todo aquele suspense.

— Não existe pegadinha, . — comentou, com um sorriso brincando entre os lábios. — Por mais que seja seu aniversário, tudo o que aconteceu na noite passada é real. Você não estava sonhando.

— Anjos não existem. A não ser aqueles que não conseguimos ver e que são companheiros de Deus e não deixam a gente fazer nenhuma burrada na vida. — A garota estava sentindo sua mão começar a tremer enquanto tentava manter a voz firme, não deixando com que a raiva a consumisse.

— É aí que você se engana, . A dor que você sentiu ontem foi a dor da primeira transformação. — caminhou até a mesa, puxando algumas fotos dali e voltando para perto da garota. — Vai ser ainda pior na segunda e vai doer muito até que você consiga fazer naturalmente.

— Certo, vamos supor que eu sou um anjo. Da onde isso surgiu e por quê?

— Você conhece a história do seu pai, Vincent? — retirou uma foto do homem e entregou para .

— Sim. Ele era um chef renomado e conheceu minha mãe em um curso de especialização. O que é que tem? — revirou os olhos ao ver a foto do pai, não prestando atenção em todos os detalhes necessários.

O garoto soltou uma risada nasalada.

— Seu pai fazia parte do Cirque Reign, mas depois eu explico sobre. Ele era um anjo, , um anjo negro. — A garota novamente olhou para a foto e reparou no fundo preto da mesma, sentindo a mão tremer ainda mais. — Ele tinha o dom de cura, o qual foi passado para você, mas ele se irritou com Reign uma noite antes de um espetáculo e desapareceu. Foi então que ele veio para Memphis e tentou seguir a vida como uma pessoa normal, mas então sua mãe, humana, engravidou dele, no caso, de você. — sentiu a respiração falhar naquele momento, aquela história ainda era mal contada por Reign e ele sentia que faltavam muitos detalhes ali. — Quando você ainda tinha semanas dentro do útero de Daisy, os inimigos encontraram seu pai e o levaram embora. Estamos o procurando por 22 anos, . Você possuía um rastreio muito fácil até os 5 anos de idade, mas depois ele foi apagando, então desde lá tem alguém que vigia você, até ontem.

— Quanta besteira. — murmurou, cansada de ouvir tanta palhaçada.

— Ontem eu fui enviado para lhe contar sobre o que aconteceria com sua vida agora, . Você vai precisar treinar, vai precisar desenvolver suas transformações sem sentir dor e então vamos tentar encontrar o seu pai.

— Meu pai está morto, garoto. — Ela reclamou, sentindo a garganta arder.

— Não, . O radar dele, por mais fraco que esteja, ainda está ligado. Seu pai está vivo. Nós precisamos encontrá-lo. — usou um tom suplicante. Ele precisava daquilo, precisava terminar as missões para encontrar Vincent e viver em paz.

— Se eu sou um anjo, o que você é? O que é o Cirque Reign? — questionou, sentindo a voz fraquejar. Seu pai um anjo e vivo. Duas coisas que pareciam impossível.

— Você realmente não conhece a mitologia, não é? — riu fraco. — Eu sou um elfo. — Ele forçou um pouco o rosto e deixou com que suas orelhas crescessem um pouco mais, evidenciando bem o quanto eram pontudas e deixando seus olhos ainda mais verdes.

arregalou os olhos.

— O Cirque Reign é um circo, como um circo comum. — O garoto explicava enquanto suas orelhas e seus olhos voltavam ao normal. — Mas suas atrações é que são a diferença, . Nele você encontra elfos, fadas, duendes, várias criaturas que nasceram em Memphis, mas não se sentiram confortáveis em continuar na cidade com suas diferenças. O Senhor Reign, — entregou uma outra foto para — é o fundador do circo, ele cuida de nós como filhos. Moramos todos no circo e viajamos entre as cidades fazendo espetáculos. O nosso diferencial é esse, , as atrações não são de um circo comum. São nossas atrações que nos dão lucro e diminuem nossa dívida com o Senhor Reign.

— Como assim dívida? — perguntou, confusa. Se existiam ingressos que lucravam por que existia uma dívida?

— Todos nós fomos acolhidos pelo Senhor Reign, mas não podemos morar de graça no circo, certo? Seria injusto. Então nós realizamos algumas “missões” — o garoto utilizou de aspas — para ele, para conseguirmos quitar e poder oferecer apenas os lucros dos ingressos.

— Missões? — Agora ela estava confusa de verdade.

— Eu não posso lhe passar todas as informações antes, . Eu tenho o dever de treinar você e fazer com que você consiga se transformar sem dor e possa ir conosco para o circo.

— Eu não vou a lugar algum! — A garota respondeu rapidamente, devolvendo as fotos para .

— Nós vamos conversando durante a semana, . Eu não quero que você faça isso por você, mas sim pelo seu pai! Ele merece viver. — segurou as fotos e olhou irritado para , fazendo com que a garota desse alguns passos para trás.

respirou fundo, sentindo as mãos voltarem a tremer enquanto o garoto deixava as fotos sobre a mesa mais à frente, claramente irritado com a teimosia dela, mas ela pouco ligava. Aquilo tudo parecia besteira demais para ela poder suportar de uma vez só, afinal, fadas e duendes não existiam! Aquilo era fruto de histórias da Disney e aquela asa que saiu dela na noite anterior não passava de uma ilusão de ótica muito bem construída.

— Eu preciso ir. — voltou até a garota, levando o capuz de volta a cabeça. — Amanhã estarei aqui, no mesmo lugar, na mesma hora. Caso você decida que precisa de mim.

Ele passou por sem dizer mais nenhuma palavra, apenas subiu a escada de aço e aguardou do lado de fora enquanto a garota piscava algumas vezes para tentar entender a irritação ridícula que havia adquirido. Ela bufou, sentindo uma enorme vontade de socar a cara daquele garoto, e pisou fundo até a escada, saindo sem se despedir quando colocou os pés sobre a grama fofinha. Garoto mais atrevido, ela pensou, deixando a irritação tomar conta do seu interior.

07 de agosto de 2018. Memphis, Tennessee, EUA. 14 horas.

O detetive encarou a tela do computador mais uma vez. O resultado do legista não havia nada! Margot Robins havia morrido por bater a cabeça forte demais contra o volante do carro e não haviam conseguido tirar muito sangue dela, como haviam conseguido com o do dia anterior. Aquilo soava tão estranho que por alguns minutos ele conseguiu esquecer aqueles olhos que o rodeavam a mente desde as duas horas da manhã.

O telefone soou alto em cima da mesa e precisou respirar fundo antes de tirar o aparelho do gancho para poder atendê-lo. Ele sentia-se num dia péssimo desde que levantou da cama e trabalhar desde as 3 horas da manhã o estava matando.

— Pode falar. — decretou ao atender o telefone.

está aqui para falar com o Senhor. — A voz tímida da recepcionista soou do outro lado.

— Mande-a entrar. — pediu, soltando o ar que nem lembrava que havia prendido.

Aqueles malditos olhos estavam lá novamente para atormentá-lo. soltou o telefone no gancho e encostou as costas sobre a cadeira, relaxando os músculos enquanto a garota não chegava. Ele só queria entender o que estava acontecendo, quem estava fazendo tudo aquilo e por qual motivo. Nenhuma explicação parecia plausível o suficiente.

— Com licença. — A garota colocou apenas a cabeça para dentro e sorriu fraco.

— Entre. — falou, ajeitando-se sobre a cadeira, deixando a coluna ereta e os cotovelos apoiados sobre a mesa.

empurrou a porta para pôr o corpo para dentro da sala e em seguida fechou a mesma, sentando-se na frente do detetive. ela leu, mentalmente, a plaquinha que ficava sobre a mesa.

— E então, como a Sra. Margot está? — perguntou, observando as feições do homem em sua frente atentamente. Ele parecia extremamente cansado e tenso, talvez ela pudesse voltar no dia seguinte…

— Como assim? — questionou, franzindo o cenho. Além de o deixar fixado nos olhos, ela o deixaria louco também?

— Era ela ontem no acidente, não era? — O homem concordou com a cabeça. — Então…

Ah, você não soube. — Ele deduziu, falando baixo. Como dar uma notícia daquelas?

— Não soube o quê?

— Bom, a Senhora Margot, ela… — Caralho, pensou, coçando a nuca. — Ela não sobreviveu ao acidente.

arregalou levemente os olhos, sentindo a respiração falhar. A Senhora Margot era sua vizinha desde que ela havia nascido, fora sua sogra por cerca de sete meses, mandava bolos decorados e legumes para Daisy e… estava morta? Aquilo não poderia ser real. Era muita tragédia para um único dia. não conseguia raciocinar tudo o que estava acontecendo em tão pouco tempo. Será que poderia voltar para a cama e fingir que aquele aniversário não estava sendo o pior da sua vida inteira?

— E o que eu estou fazendo aqui? — A voz da garota saiu tão baixa e rouca que precisou aguardar alguns segundos para tentar entender o que ela havia falado.

— Bom, você é o mais próximo dela que nós temos e uma das pessoas que pode nos dizer se ela havia se queixado de alguma coisa que poderia estar errado. — O detetive explicou, tentando encontrar as palavras certas para falar com a garota.

— Ela não me falou nada… Margot conversava mais com a minha mãe, se o Senhor quiser posso pedir para ela vir até aqui. — ainda falava baixo, tentando absorver a informação.

— Seria ótimo, . — abriu a gaveta da própria mesa e buscou um pequeno cartão dali. — Se ela não conseguir vir, pode pedir para ela me ligar nesse número. Qualquer informação é útil. — Ele esticou o cartão para a garota.

ergueu o braço e, com as mãos trêmulas, segurou o cartão firmemente.

— Está tudo bem, ? Quer um pouco de água? — perguntou, notando a diferença brusca que ela apresentava.

— Não, tudo bem. — negou rapidamente, guardando o cartão dentro da bolsa. — É normal quando eu fico nervosa. O Senhor precisa de mais alguma coisa?

— Na verdade, sim. Nós não conseguimos contactar os filhos da Sra. Margot. Você teria algum contato direto deles?

— Tenho, claro. — A garota puxou o celular da bolsa e procurou o nome que desejava. — Você pode anotar?

pegou uma caneta e um papel e anotou os números que o ditava. Em seguida, a garota se despediu e saiu pela porta, deixando o olhar de preso ali. Ele torcia para que os filhos da Sra. Margot ou a mãe de possuíssem alguma resposta, pois se não, ele começaria a se preocupar realmente com as suposições que estavam fazendo.

07 de agosto de 2018. Las Vegas, Nevada, EUA. 16 horas e 56 minutos.

— Como foi, garoto? — Reign perguntou, caminhando pelo extenso corredor entre as tendas montadas.

— Ela ainda está relutante, Senhor. Não acreditou muito nas minhas palavras, mas tenho certeza que vai me procurar amanhã.

— Isso é ótimo. Continue fazendo com que ela confie em você, .

engoliu em seco e concordou com a cabeça, caminhando ao lado do homem. O deserto já começava a ficar escuro naquele horário, as pessoas que moravam no circo aproveitavam para sair das tendas e sentirem-se livres para poderem caminhar e se transformar sem maiores preocupações.

— Esta é nossa última noite em Las Vegas, . Amanhã iremos para Memphis.

— Memphis? Por que, Senhor Reign? — questionou, sentindo o coração acelerar gradativamente.

— Vamos participar da Elvis’ Week esse ano. — Reign respondeu como se não fosse nada, mas no fundo ele sabia que aquilo causaria mais estragos do que o necessário. Todavia, era exatamente o que ele queria.

08 de agosto de 2018. Memphis, Tennessee, EUA. 01 hora e 17 minutos.

sentiu as costas agradecerem assim que encontrou a cama e encarou o teto por alguns minutos, sentindo-se estranha. Aquele fora o aniversário mais aleatório que ela já viveu, descobriu que asas saiam de suas costas, um garoto que se dizia elfo queria a ajudar, mas só conseguiu a deixar confusa com toda a situação, a Sra. Margot havia partido dessa para uma melhor e para piorar seu pai ainda estava vivo e era um anjo.

O quão ridículo tudo aquilo parecia?

Um barulho do lado de fora tirou a atenção da garota dos próprios devaneios e ela rapidamente levantou, afastando a cortina da janela para olhar. Seu quarto dava diretamente à casa da Sra. Margot e conseguia enxergar um homem parado em frente a mesma, como uma assombração.

O braço de arrepiou ao pensar naquilo. O homem deu mais alguns passos na direção da casa azul e a garota ficou concentrada no que ele fazia. Não parecia com nenhum dos Robins, ela tinha certeza, afinal os conhecia desde pequena. Aquele homem tentava analisar alguns detalhes, mas não reagia mais, apenas estava parado no terreno da Senhora Margot, nem a respiração dele fazia movimento em seu corpo.

Um estalo na mente de fez com que ela saísse da janela e seguisse até sua bolsa, buscando pelo cartão do detetive que havia esquecido de entregar para a mãe mais cedo. Com as mãos trêmulas, digitou o número do homem no celular e voltou até a janela, aguardando atender. Ela só torcia para que não fosse vista.

Alô? — A voz sonolenta do outro lado fez com que sentisse um pouco de culpa. Já estava tão acostumada com sua rotina noturna por conta do restaurante que acabava esquecendo que as pessoas dormiam naquele horário.

— Detetive ? — perguntou e obteve um murmúrio de concordância. — É , desculpe o horário, mas tem um homem estranho parado em frente à casa da Senhora Margot e não se parece com nenhum dos filhos dela.

Tudo bem, foi para isso que dei meu telefone. — O homem já parecia bem mais acordado após as informações dadas por . — Ele está tentando entrar na casa, algo assim?

— Não, ele só está parado. Deu alguns passos para dentro do terreno, mas por enquanto só observando.

Você consegue descrevê-lo? — Alguns barulhos do outro lado denunciavam que estava derrubando algo dentro da própria casa.

— Está muito escuro… Ele é alto, usa uma roupa toda preta e… — tentava não mostrar todo seu rosto pela janela, mas para conseguir enxergá-lo ela teve que fazer algumas manobras e acabou batendo a cabeça no vidro. — Ouch. — A garota murmurou, passando a mão na testa.

O que houve? — O detetive estava em alerta.

— Nada, eu só… Cacete. — tentou não gritar assim que olhou de volta para o homem e ele a encarava fixamente. Ela saiu rapidamente da frente da janela e voltou para sua cama, sentindo o coração acelerar bruscamente.

, o que aconteceu? Eu já estou no caminho.

— Ele me viu. — A garota sussurrou, sentindo o corpo estremecer. — Ele tinha o rosto todo desfigurado, o olho era muito preto e… não consegui ver muita coisa, desculpa.

Relaxa, , está tudo certo. Consegue ver se ele ainda está lá? Eu devo chegar em alguns minutos. pediu, nervoso. Não poderia perder o cara dessa forma.

— Consigo. — concordou, mexendo a cabeça e engolindo em seco.

Ela desceu da cama e caminhou até a janela, sentindo o coração voltar a acelerar rapidamente. afastou a cortina levemente, procurando o homem com os olhos. Ele não estava mais no terreno, ao menos não onde ela conseguia enxergar. Uma luz se acendeu dentro da casa da Senhora Margot e arregalou os olhos.

— Eu acho que ele está dentro da casa.

Cheguei, , vou entrar lá.

não conseguiu protestar sobre qualquer coisa, apenas observou enquanto um carro parava bruscamente na frente da casa da Senhora Margot e o detetive saia correndo de dentro dele, até conseguir alcançar a parte de dentro, deixando a garota a ver navios. Ela saiu rapidamente da frente da janela e correu até o andar debaixo, ainda segurando o celular firmemente entre os dedos.

parou em frente a janela da cozinha e empurrou a cortina, aflita demais para continuar esperando daquela forma. Estava dividida entre o medo e a curiosidade para poder sair de casa e ir até lá, ter a certeza de que estava “tudo bem”. Ela tamborilou as unhas sobre o balcão da pia e soltou o ar com força, não tinha nenhum barulho e nenhuma movimentação.
Em seguida o olhar da garota se fixou num vulto preto, correndo desengonçado pela grama até sumir entre as casas do outro lado da rua. Foi tão rápido que ela só conseguiu raciocinar quando não existia mais nenhuma sombra do homem por ali, então ela se mexeu e saiu pela porta da cozinha, caminhando apressada até a casa azul, respirando com dificuldade enquanto o coração batia muito forte contra sua caixa torácica. passou pela porta de entrada e varreu a sala com cuidado com os olhos, alguns retratos estavam caídos ao chão e ela entendeu que houve uma luta corporal ali.

— Detetive? — chamou, passando com cuidado por entre os cacos de vidro, em direção a cozinha.

— O que está fazendo aqui? — A voz grossa de se fez presente e logo ele surgiu na frente da garota, fazendo com que ela desse alguns passos assustados para trás.

segurava um pano manchado contra o rosto.

— Eu… O que houve? Você…

— Ele fugiu. — O homem bufou, sentando sobre o braço do sofá completamente irritado.

— Está doendo muito? — perguntou, apontando para o pano, pouco ligando para o homem esquisito que fugira a poucos minutos atrás.

— Não. Vá para casa, . — pediu, fechando os olhos por um momento, apenas tentando gravar cada traço que podia do homem.

— Eu posso fazer um curativo, você só precisa ir com…

— Não, , está tudo bem. Só vá para casa.

— Eu insisto. — Ela foi teimosa, voltando a se aproximar do homem. — Se eu não incomodasse você esse horário isso não teria acontecido, por favor, venha comigo.

abriu os olhos, encarando aquela garota tão próxima e aquele olhar tão… tão confuso. Ela o arregalava levemente e tinha o lábio inferior entre os dentes, mal sabia que aquilo fazia o estômago do detetive revirar dentro do corpo. O olhar de o levaria ao inferno, ele tinha certeza.

— Certo. — respondeu contrariado, levantando do sofá e caminhando atrás da garota até a casa ao lado.

— Pode sentar. — apontou para a banqueta de frente à ilha, caminhando até os armários mais à frente.

sentou-se para onde a garota havia mostrado e retirou o pano do rosto, sentindo a cabeça latejar pela primeira vez. Aquele filho da puta havia o acertado com o maldito porta retrato, mas não saiu ileso também. Entretanto, tinha razão, o rosto dele era completamente desfigurado, com diversas cicatrizes espalhadas. O homem jamais esqueceria aquele rosto, pensava que aquilo poderia ser um ponto positivo.

alcançou o kit de primeiros socorros que mantinham no armário da cozinha e sentou-se do lado do detetive, chamando a atenção do homem, o qual virou-se de frente para a garota fazendo com que os grandes olhos dela se arregalassem novamente. O machucado estava bem feio, um pouco acima da sobrancelha, um corte que parecia fundo, mas não o suficiente para precisar de pontos.

— Como ele fez isso? — perguntou baixinho, abrindo a caixa branca em cima do balcão e pegando a gaze com o soro.

— Um porta-retratos. — respondeu no mesmo tom, fechando fortemente os olhos quando sentiu o machucado queimar ao que a garota tocou para fazer a limpeza.

— Desculpa. — Ela pediu, percebendo a careta de dor que o homem fazia. — E por ter te ligado essa hora também.

— Você fez o que tinha que fazer, . — tentava manter a postura em frente a garota, mas a voz dela fazia com que ele se sentisse diferente, como se ela conseguisse arrancar tudo o que quisesse dele e ele não fazia ideia do porque aquilo estava acontecendo.
terminou de limpar todo o sangue que tinha saído por aquele machucado, em seguida ela fez um curativo rápido, e pequeno, com gaze e micropore, depois de passar um líquido escuro que sua mãe sempre usava em seus machucados. Ela ajeitou a maleta com as coisas dentro e retirou um analgésico dali, entregando para , logo depois levantou-se e encheu um copo de água, estendendo-o na direção do detetive.

— Obrigado. — O homem agradeceu, devolvendo o copo vazio para a garota. — Eu vou indo, preciso ligar para a polícia e isolar a casa da Sra. Margot. Se qualquer coisa estranha acontecer novamente, não hesite em me ligar.

— Tudo bem, farei isso. — concordou, acompanhando o homem até a porta. — Obrigada, detetive .

— Só . — Ele pediu, olhando fixamente nos olhos da garota.

— Certo, obrigada . Tenha uma boa noite. — Ela sorriu levemente e obteve um aceno de cabeça.

O homem se afastou e seguiu até a casa azul ao lado, enquanto observou ele parar em frente a varanda e telefonar para alguém. A garota trancou a casa inteira logo em seguida, e voltou para seu quarto, se jogando na cama e respirando fundo, realmente, sua vida havia dado uma reviravolta aos 22 anos e a única coisa que ela sabia que deveria fazer era aproveitar cada momento dela.

O celular da garota tremeu embaixo dela e rapidamente o pegou, lendo a mensagem que recebera com cuidado.

‘O corpo da minha mãe deverá ser cremado, . Eu e Matteo não poderemos ir até aí, tome cuidado. Com carinho, Mark’.

Ok, agora sim tudo havia ficado realmente estranho. Como assim Mark e Matteo não viriam ao enterro da própria mãe? E ainda tinham a capacidade de avisar por mensagem sobre como deveria ser? O que estava acontecendo com as pessoas e o que tinha a ver com tudo aquilo?


 

CAPÍTULO 3

08 de agosto de 2018. Memphis, Tennessee, EUA. 10 horas e 23 minutos.

— Bom dia, ange. — Daisy abriu a porta do quarto da filha, totalmente vestida de preto, reparando que ela já estava acordada. — O café já está na mesa.

— Bom dia, maman. Já estou indo. — avisou, levantando-se da cama para espreguiçar-se.

Daisy concordou e fechou a porta novamente, deixando a garota se trocar para a cerimônia que fariam na igreja do bairro para a Sra. Margot. retirou o pijama e foi até o armário pegando sua saia midi de tecido leve e com uma trilha de botões na frente, vestindo-a rapidamente, em seguida buscou uma t-shirt básica e preta, colocando-a por dentro da saia e finalizando com uma sandália de salto fino. A garota passou uma maquiagem leve e pegou seus óculos escuro, jogando-o dentro da bolsa junto com o celular.

Pronta, saiu do quarto e seguiu até a cozinha, sentando-se sobre a banqueta ao lado da mãe para tomar um delicioso café da manhã que só Daisy sabia fazer.

— Mãe, ontem eu recebi uma mensagem do Mark. — A garota contou, puxando o celular da bolsa enquanto enfiava um pedaço de bacon na boca.

— Eles estão vindo? — Daisy questionou, bebericando um gole do café.

— Não. Ele disse que devemos cremar o corpo da Sra. Margot e que ele e Matteo não conseguirão vir. — mostrou a mensagem para a mãe. — Eu achei tão estranho, ele não me respondeu mais e nem atendeu o telefone.

— Que estranho, filha. Não temos autorização para isso, eu acho. Posso tentar falar com alguém para ver. — Daisy levantou e levou a louça até a pia. — Mas muito esquisito eles não virem, poxa.

— Eu achei também. É a mãe deles, e onde eles moram não fica tão longe assim daqui. — finalizou seu prato e também o deixou na pia. — Algo muito preocupante deve estar acontecendo.

— Bom, nós vamos fazer nossa parte, querida. — A mais velha pegou a chave do carro e saiu pela porta da cozinha, fazendo com que a filha a seguisse e trancasse a mesma.

As duas entraram no carro e levaram poucos minutos até a igreja, a qual ficava cerca de duas ruas depois da casa delas. A igreja era grande e tinha uma entrada de grama verde com pedras que deixava o cenário ensolarado bonito, se não fosse mórbido. As duas portas de vidro emolduradas de madeira estavam abertas e algumas pessoas já estavam lá dentro, sentadas sobre o banco envernizado viradas de frente para o altar, onde uma enorme foto da Sra. Margot estava ao lado de um caixão fechado. odiava velórios, por isso preferiu ficar próxima a porta ao sentir a pele arrepiar, enquanto a mãe caminhou até algumas conhecidas e iniciou uma prece.

ainda tinha um sentimento diferente dentro de si, desde que recebera a mensagem de Mark. Ele e o irmão eram extremamente próximos da mãe, não deixavam de visitá-la um feriado sequer, ou então Margot ia até eles. Seria impossível eles não estarem no velório da mãe, nada era mais importante que ela, mas parecia que as coisas haviam mudado, ou algo muito errado estava prestes a acontecer.

— Você vai ter uma transformação daqui a pouco, precisamos sair daqui. — pulou ao ouvir uma voz sussurrando ao seu lado e quando olhou para sentiu uma súbita raiva lhe preencher.

— Você só pode ter problemas. — A garota murmurou, revirando os olhos para voltar os óculos escuro pro seu rosto.

— Estou falando sério, . Nós precisamos sair daqui. — deu as costas e saiu pisando firme da igreja.

A garota engoliu em seco e tentou ignorar o garoto. Como ele poderia saber tanto? Como ele tinha certeza que aquela dor lhe ocorreria novamente? Aquilo ainda era muito estranho e a deixava completamente preocupada. Respirando fundo algumas vezes, decidiu que tinha razão naquele momento, então levantou e seguiu o mesmo caminho que ele havia ido anteriormente.

— Não teremos tempo de chegar até o bunker, conhece algum lugar aqui perto? — perguntou, prendendo o sorriso satisfeito que gostaria de demonstrar.

— Tem o casebre do padre. Ele vai fazer uma… — travou ao sentir a dor começar a lhe atingir. Ela agarrou fortemente o braço do garoto e apontou para atrás da igreja.

concordou e a ajudou a caminhar até lá, onde uma pequena casinha de tijolos a vista estava posta. A porta parecia emperrada, porém o garoto conseguiu abri-la depois de alguns segundos a forçando. se encostou numa cadeira mais à frente e fechou os olhos fortemente, sentindo suas costas latejar. Enquanto isso, fechou a porta e empurrou a mesa até lá, impedindo que alguém a abrisse por fora.

segurou o grito, não poderia chamar a atenção, ela apenas puxou a camisa para cima, se livrando da mesma e ficando só de sutiã, pouco se importando com o garoto tão próximo. A garota sentia que poderia desmaiar a qualquer momento, a dor parecia muito mais forte do que a do dia anterior e seus braços e mãos tremiam bruscamente.

, olha aqui para mim. — pediu, parando na frente da cadeira para segurar as duas mãos da garota que agarravam a madeira com força. — Você sabe fazer a respiração de cachorrinho?

Ela não conseguiu concordar, apenas tentou fazer a respiração como o garoto demonstrava, mas sentia que seu pulmão não conseguia completar a transação e o ar começava a lhe faltar, deixando-a mais fraca. puxou-a para os seus braços, e a segurou firmemente pela cintura, apoiando a cabeça em cima da dela, sentindo a garota desfalecer de dor enquanto as asas brancas saiam por suas costas lentamente, deixando-o maravilhado. Ela era a única que tinha o branco como cor específica, os outros anjos que conhecera e faziam parte do circo tinham a penugem na cor creme.

continuou a segurando por alguns minutos, tendo noção de que aquilo era normal após todo o ensinamento que aprendera com Sr. Reign. A asa ficou apenas 5 minutos para fora dela, já que ainda não tinha controle sobre ela, e após 15 minutos a garota começou a acordar, respirando pesadamente. O garoto sentiu o corpo estremecer assim que se remexeu sobre si, engolindo em seco ao ajudá-la a ficar novamente de pé sobre o salto fino. O corpo deles esfriou ao se soltarem e ambos sentiram aquilo, mas decidiram ignorar. pegou a camiseta e a colocou, ajeitando-a para dentro da saia e sentando-se na cadeira. Sentia que havia corrido uma maratona.

— O que aconteceu? — Ela perguntou baixo, ajeitando o cabelo.

— Eu falei para você que a segunda transformação doeria muito mais. Você desmaiou e sua asa ficou aberta por cinco minutos. Foi mais rápido que a última vez, mas decorreu de você estar desacordada. — explicou, puxando a mesa para o lugar que ela estava anteriormente.

— Vai continuar doendo desse jeito? Eu vou me transformar todos os dias? Como isso funciona? — o encheu de perguntas, assim que sentiu a respiração tranquilizar.

— Vamos por partes, certo? — pediu, rindo abafado. — Vai doer por algum tempo ainda, mas você precisa se manter acordada para que consiga controlar. Nem sempre são todos os dias, acontece quando você fica muito preocupada, mas não consegue controlar o emocional. Está tudo interligado.

— Certo. — Ela concordou, balançando a cabeça fracamente. — Você… você vai estar lá, não é? — perguntou, sentindo o medo lhe assombrar.

— Todos os dias. — concordou, confortando-a.

— Obrigada. — A garota sorriu fraco, levantando o corpo da cadeira e segurando a bolsa firmemente. — Preciso voltar.

— Claro. — acompanhou ela para fora do casebre. — Você precisa tomar cuidado, tudo bem? Soubemos do cara que invadiu a casa ao lado da sua na noite anterior. Ele não é uma boa pessoa, .

não tinha forças para falar, apenas mexeu a cabeça, concordando. Afinal, como ela saberia, realmente, quem era o mal e quem era o bem? Ela estava começando a confiar em , porém ele sabia muitas coisas e aquilo a deixava completamente assustada, a fazendo recuar em certos aspectos. A garota seguiu para dentro da igreja novamente e sentou-se no mesmo lugar de antes, alguma mulher que morava próximo a ela estava prestando uma homenagem para Margot Robins, mas ela não conseguia prestar atenção. Sua mente vagava, novamente, em tudo o que estava acontecendo e em como seu pai poderia ter ligação naquilo.

08 de agosto de 2018. Algum lugar dos Estados Unidos. 14 horas e 12 minutos.

— Ela teve sua segunda transformação. — O homem avisou, tomando cuidado com a porta. — Suas asas são realmente brancas.

— Sério? — O outro perguntou, aproximando-se das grades para ficar mais próximo. — E como ela é?

— Ela tem uma beleza encantadora. Nunca vi mulher tão bela. — Ele voltou a fechar os olhos, capturando as últimas imagens que apareceram. — Mas o inimigo está ao seu lado. O elfo encapuzado a ajudou novamente.

— Droga.

— Amanhã podemos tentar contactá-la durante a transformação. — O de olhos fechados foi positivo.

— Isso se ela se transformar amanhã. — O outro bufou, impaciente com toda aquela história. — Precisamos sair daqui. Por que você foi até a casa da Margot? O que vamos fazer agora?

— Fique tranquilo, vou mandar outra pessoa hoje. Temos que dar um jeito de avisá-la. Margot era a pessoa certa, mas pelo visto o destino não está tão do nosso lado assim.

— Eu acho que o destino está, é o circo que não está, faz tempo meu amigo. — O homem encostou suas costas na grade e passou a mão pelo cabelo, nervosamente.

— Fico feliz que esteja vivo, Vincent.

— Eu também, Matteo. Eu também.

08 de agosto de 2018. Memphis, Tennessee, EUA. 20 horas e 14 minutos.

— Obrigada. Tenham uma ótima noite! — A garota sorriu, guardando o dinheiro na gaveta do caixa, enquanto os clientes acenavam se despedindo.

— Por favor, , peça para sua mãe! — Sadie implorou, voltando para a frente do balcão, juntando as duas mãos na frente do rosto. — Diga que vai fazer hora extra amanhã.

— Sadie, não dá, os turistas estão chegando de todos os lados, o movimento está enorme. — lamentou, apontando para dentro do restaurante, onde ocorria mais um show. — Eu prometo que vou assim que fecharmos.

— Faltam 4 horas, ! Você mesmo disse, os turistas estão vindo de todos os lados, tem noção de quanto cara gato vai estar no The Cove hoje? — Sadie protestou, tentando convencer a amiga.

— Sadie…

— Pode ir, querida. — Daisy surgiu na frente do caixa, fazendo com que Sadie pulasse para abraçar a mulher.

— Obrigada, tia! Se quiser eu venho amanhã para ajudar, sei que vai estar uma loucura. — A garota garantiu, arrancando uma risada das duas .

— Vou querer sim, Sadie. E você, , amanhã vamos ficar até as duas, então eu vou te liberar hoje, não se preocupe! — Daisy garantiu, vendo que a menina ia protestar. — Eu ficarei no caixa hoje, agora vá, estou louca para que você me arranje um genro.

A mais velha deu a volta no balcão, arrancando gargalhadas das duas garotas, e se prostrou no local que a filha ocupava anteriormente. pegou sua bolsa e seguiu a amiga para fora do restaurante, depois de encher a mãe de beijos e agradecimentos. Depois do velório para a Sra. Margot, – vale ressaltar que não conseguiram que o corpo dela fosse cremado, pois precisavam de uma autorização de algum familiar ou algum testamento deixado por Margot – as duas foram almoçar em casa e conseguiu trocar os saltos por um tênis confortável, algo que ela agradeceu naquele momento, já que ir de saltos trabalhar e em seguida ao The Cove era como um suicídio.

Ela e Sadie juntaram os braços e caminharam pelo centro a procura de Cassidy, para então poderem caminhar até o The Cove. Elas gostavam daquilo, de morar perto uma da outra, do centro e do bar favorito delas. Além de claro, nenhuma delas ter conseguido retirar um carro novo na concessionária até então, visto o salário que recebiam não ajudar em todas as despesas que mantinham.

— Olha o que eu comprei. — Cassi surgiu na frente das duas melhores amigas, mostrando três algodão doces para elas.

— Você adivinhou. — comemorou, roubando um dos doces fofinhos e se deliciando rapidamente.

— Eu amo a Elvis’ Week! — Sadie fez o mesmo, dando pulinhos infantis e alegres.

A semana do Elvis começaria no dia seguinte, mas as preparações dos moradores e empresários da região já estavam a todo vapor. As ruas do centro já tinham suas barracas enormes montadas, com as decorações mais reluzentes que já haviam tido por ali. O Rei do Rock seria homenageado em grande estilo, como todos os anos, com feiras, fantasias, apresentações e muita guloseima deliciosa. Para os memphian aquele era um dos “feriados” mais produtivos e esbanjador do ano, o qual trazia turistas de todos as partes do mundo e os hotéis ficavam lotados.

— Fiquei sabendo que esse ano vai ter um circo! O que acham de irmos? — Cassi perguntou, andando ao lado das amigas enquanto comiam do algodão doce azul.

— Um circo? — franziu o cenho, as atrações eram sempre limitadas e deveriam ter relação a vida de Elvis, o que um circo teria a ver com aquilo?

— Eu li sobre isso também. Cirque Reign o nome, dizem ser o circo mais atrativo dos Estados Unidos…

Sadie continuou contando sobre o circo, mas deixou de prestar atenção assim que a amiga citou o nome. Era o circo que fazia parte e que seu pai havia feito parte também. Ela não conseguia distinguir se aquilo era bom ou ruim, tê-los tão próximo poderia dar a oportunidade de conhecê-los e, também, conhecer as pessoas que moravam lá e como funcionava todo esse mundo, mas também fazia com que as pessoas pudessem ver aquelas atrações diferentes e se concordasse em fazer parte, descobririam sobre ela. Tudo o que ela não queria era ter que explicar para alguém que era um anjo.

Foram mais alguns minutos até o bar já tão conhecido pelas garotas, elas sentaram-se na mesma mesa de sempre e solicitaram suas cervejas bem geladas para aquela noite quente. O local ainda não estava cheio como de costume, mas aos poucos as pessoas iam chegando e se acomodando enquanto um bom blues tocava pelos alto falantes.

— Eu nem acredito que um dia cogitei mudar para a Califórnia. — Sadie comentou, bebendo um longo gole da cerveja. — Vocês já perceberam a quantidade de homem bonito que temos nessa cidade?

— Certo, calma. — riu, largando a cerveja sobre a mesa. — Tudo bem, os homens daqui são lindos e os turistas mais ainda, mas você não pode desmerecer os californianos assim! Já viu o corpo sarado dos surfistas? Meu bem, eu me perderia fácil num abdômen cheio de gominhos.

— É você mesmo que está falando? — Cassi perguntou, olhando perplexa para . — Quem te viu, quem te vê, .

— O quê? Eu sou humana, porra. — A garota respondeu, gargalhando.

— Mas faz séculos que não sai com alguém. — Sadie reclamou. — Como anda esse coração?

— Qual é, não vamos começar com isso. — pediu, bebendo o resto da sua cerveja, tentando descontrair.

— Vamos sim, . O que está acontecendo? — Cassi questionou, retirando a garrafa de cerveja da frente de . — Há quanto tempo não transa?

— Quê? — a garota engasgou com a própria saliva, rindo nervosamente. — Nem faz tanto tempo assim.

— Sei. — Sadie revirou os olhos. — Que tal aqueles ali, então? — A garota apontou para um grupo de amigos que adentrava o local rindo.

virou levemente a cabeça e observou os rapazes que adentravam o bar. Eles tinham praticamente a mesma altura e deixavam a mostra os dentes perfeitamente brancos e polidos, com suas roupas despojadas e cabelos queimados pelo sol. Aquilo só poderia ser coisa do destino, não é? Ou será que era algo armado? Sua vida estava tão maluca que ela não duvidava de mais nada do que poderia acontecer.

— Gatos. — decretou ao voltar a cabeça para as amigas e encontrá-las babando pelos caras.

— Vamos falar com eles. — Cassi falou, ameaçando levantar, mas sendo impedida pelas mãos de .

— Calma, garota. Não precisamos parecer desesperadas. — Sadie foi quem falou, fazendo concordar rapidamente.

— Você tem que aprender a arte da sedução, Cassi. — respondeu e quando viu que a amiga iria argumentar, continuou. — Eu sei que você consegue seduzir qualquer homem, mas esses nós vamos trabalhar juntas, então vamos provocá-los. Olhe e aprenda.

— Abusada. — Cassidy comentou rindo quando viu a amiga levantar da cadeira.

segurou as três garrafas de cerveja vazias e caminhou até o balcão, bem próxima de onde os garotos estavam, e se escorou sobre o tampo do mesmo. Ela deixou as três garrafas sobre a pia do barman.

— Me vê mais três, Jonnhy. — A garota pediu, virando a cabeça lentamente para o lado, sentindo alguns olhares sobre si.

Os californianos olhavam para ela, tentando não chamar atenção nos olhares que lançavam, apenas admirando a garota. sorriu para eles, pegando-os no flagra, fazendo com que eles levantassem a cerveja para cumprimentá-la. A garota balançou a cabeça e saiu com as três cervejas trocadas para a mesa em que suas amigas estavam, tentando conversar naturalmente, mas reparando que os garotos seguiram com o olhar e pareceram bem animados quando viram mais duas lindas garotas com ela, a qual já era extremamente bonita.

— Você é boa! — Sadie disse, rindo, pegando uma cerveja da mão da amiga enquanto ela se sentava.

— Eu sempre soube. — deu de ombros, gargalhando em seguida.

— Eles estão vindo. — Cassi sussurrou, disfarçando rapidamente.

— Boa noite, garotas. Tudo bem? Sou o Kyle. — Um dos garotos se apresentou, cumprimentando as três.

, prazer. — respondeu sorrindo.

— Cassi.

— Sadie.

Outros dois garotos vieram com ele e se apresentaram como Lee e Taylor, diretamente da Califórnia para a Elvis’ Week em Memphis. Eles sentaram-se junto com as garotas e iniciaram uma conversa animada sobre a vida de cada um, o que faziam em suas respectivas cidades e quais as expectativas para aquela semana no Tennessee. Os garotos eram extremamente simpáticos e gentis e a noite aconteceu sem maiores problemas.

09 de agosto de 2018. Memphis, Tennessee, EUA. 02 horas e 04 minutos.

começou a se acostumar com o trabalho naquele horário, mas suas noites de sono estavam resumidas a 3 horas por dia e aquilo estava o matando. Já estava a caminho da casa de Margot Robins, novamente, pois recebera um chamado de seus colegas sobre um tiroteio e alguém morto. Aquele caso realmente já estava o deixando de mãos atadas. Era a primeira vez, em anos, que as pistas não levavam a lugar nenhum e aquela merda ainda acontecia.

O homem estacionou o carro bem próximo a faixa que separava a cena e saiu apressado até lá, observando que além de dois carros policiais, mais duas ambulâncias estavam no local, enquanto a perícia adentrava os terrenos do outro lado da rua e examinavam o próprio terreno de Margot.

— O que aconteceu? — O detetive questionou para um policial que anotava em alguma prancheta, encostado sobre a viatura.

— Mark Robins levou um tiro de longa distância e faleceu sobre o quintal da mãe. A vizinha dele foi socorrê-lo e levou um tiro de raspão no braço. — O homem explicou rapidamente para .

— Certo, já encontraram alguma pista? — Ele perguntou novamente, coçando a nuca já sabendo que a vizinha se tratava de .

— Ainda não, Senhor.

— Ok, obrigado. — concordou com a cabeça e se afastou do policial.

Ele observou a cena, a grama verde preenchida por sangue enquanto os peritos coletavam algumas amostras e o corpo jazido de Mark Robins estava coberto por uma lona preta. A casa de Margot estava intocada desde a noite anterior e completamente frustrado por não conseguir chegar a alguma vírgula daquele maldito caso. Mais em frente, sentada sobre a traseira da ambulância, balançava as pernas, como uma criança, enquanto um enfermeiro terminava seu curativo e seus olhos pareciam maiores de tão vermelhos e inchados.

O detetive respirou fundo e caminhou até a garota, com a necessidade de colher um depoimento, mas também de saber como ela estava, tendo plena certeza que algo nesse caso tinha muita ligação com ela. sentou-se sobre a traseira da ambulância também, ao lado de , e aguardou até que o enfermeiro terminasse o que fazia para que pudesse iniciar uma conversa com a mesma.

— Seu machucado está melhor? — A garota perguntou, após sorrir para o enfermeiro que se afastou, e virando a cabeça para encarar o homem ao seu lado, o qual parecia extremamente cansado, ainda com um curativo sobre a testa.

— Um pouco. — Ele sorriu fraco, soltando o ar que estava preso em seus pulmões. — Como está se sentindo? — deixou com que a pergunta saísse de seus lábios sem controle. Não conseguia entender o poder que o olhar de tinha sobre ele e toda sua pose de detetive preocupado com o trabalho e interessado apenas no crime.

Ah. murmurou, deixando as costas se curvarem um pouco, fazendo com que a tristeza preenchesse seus olhos. — É complicado.

— Pode me contar o que aconteceu? — tentou, voltando a adquirir sua pose durona.

— Claro, mas… Será que você pode me pedir um remédio para a cabeça? Ela está latejando. — A garota pediu baixo, sentindo o estômago revirar no que mais uma pontada atingiu seu cérebro. Céus, aquela noite ela havia bebido praticamente todas as cervejas do The Cove e ainda por cima chorado todo o estoque de lágrimas que tinha sobre o corpo de Mark.

— Sim, só um minuto. — O homem levantou-se de onde estava e caminhou até o enfermeiro, solicitando o que a garota lhe pedira.

sorriu fraco e engoliu em seco ao recordar toda a trajetória daquela fatídica noite até ali. Ela amaldiçoava Sadie até o último por ter insistido tanto para que ela saísse do trabalho e fosse até o bar, se continuasse no seu lugar, trabalhando como deveria, ainda estaria fora como sua mãe e nada disso teria acontecido.

— Aqui. — voltou após alguns minutos, segurando um comprimido e um pequeno copo com água, entregando-o para a garota antes de sentar-se no mesmo local de antes.

— Obrigada. — colocou o comprimido na boca e o empurrou com a água, torcendo o nariz ao finalizar o processo, sentindo o remédio descer rasgando por sua garganta dolorida. — Então, eu estava no The Cove com algumas amigas, nós sempre vamos lá sabe, e acabamos excedendo no limite da bebida e decidi que era hora de vir para casa. Eu… chamei um táxi e… estava deitada no meu quarto, — ela omitiu a parte importante de sua noite, onde ela estava quase tirando o atraso com o californiano Kyle em sua cama, não era um detalhe tão sórdido assim, afinal o garoto provavelmente já estava em seu quarto de hotel, dormindo confortavelmente. — Quando alguém começou a jogar alguma coisa na minha janela. Quando vi que era Mark, corri para vir falar com ele, afinal mais cedo ele havia me mandado uma mensagem solicitando que cremássemos o corpo de Margot e que ele e o irmão não poderiam vir. — puxou um pouco de ar, dando uma pausa na história, a mesma que havia contado a outro policial anteriormente, sentindo a cabeça latejar novamente.

— Eles não vieram ao velório da própria mãe? — questionou, franzindo o cenho.

— Não. — confirmou. — E nunca mais me respondeu também. No que eu cheguei para falar com ele, Mark começou a falar coisas sem sentido nenhum, eu não entendi uma palavra dele sequer. Até que um primeiro tiro me atingiu de raspão, — ela mostrou o braço com o curativo — e um segundo tiro acertou em cheio o coração de Mark.

Os olhos da garota novamente encheram de lágrimas, relembrando o momento em que se desesperara sobre o corpo do ex-namorado, tentando, inutilmente, estancar o sangue, enquanto ele lhe falava suas últimas palavras. é… Ele é a única pessoa, … Que você pode confiar’. A vida esvaia dos olhos de Mark e chorava copiosamente, ignorando tudo o que ele lhe falara, tremendo as mãos enquanto tentava ligar para o socorro.

— Você não conseguiu ver quem atirou?

apenas negou com a cabeça após a pergunta do detetive . Ela sequer tivera tempo de raciocinar no momento que sentiu uma dor latejante atingir seu braço e em seguida o homem cair rapidamente na sua frente.

— E que coisas ele lhe falou?

A garota relembrou algumas falas de Mark na mente, tendo plena noção de que não entenderia sobre o assunto. ‘Você precisa tomar mais cuidado, ’, ‘Minha mãe sabia demais, foi por isso que aconteceu o que aconteceu’, ‘Seu pai está vivo e precisamos encontrá-lo’. Tudo aquilo sempre a remetia para e em como nada fazia sentido de tantas formas.

— Eu… Eu realmente não me lembro, desculpa. — mentiu, sentindo um novo nó se formar na sua garganta.

— Tudo bem, . — concordou com a cabeça, um pouco desapontado com a falta de informação da garota. — Sua mãe não está?

— Não, mas deve chegar logo. — Ela informou, fechando os olhos por alguns segundos. Estava realmente exausta.

— Certo, procure não ficar sozinha, parece que sua rua virou alvo de ataques. — Por um momento deixou escapar um sorriso com a própria fala tosca, mas o fechou no mesmo instante que abrira os olhos para o encarar, sorrindo enviesado.

— Pode deixar. Obrigada pela preocupação. — realmente achou fofo o ato do detetive de solicitar aquilo para ela, mesmo achando que conseguia se virar muito bem sozinha, afinal não era mais uma criança.