Distrito 22

Distrito 22

Sinopse: Ao sofrer um terrível acidente, Antonella Baudelaire irá parar no Distrito 22, uma organização secreta que realiza o trabalho sujo que os Estados ao redor do mundo não podem realizar. Para se juntar ao Distrito 22, Antonella terá que abrir mão da sua antiga vida e identidade, a qual será dada como morta para ser treinada e assumir responsabilidades e situações que jamais imaginaria.
Ao ser transferida para New York, terá que distinguir as pessoas em que deve confiar ou não, pois será fácil demais ser apunhalada pelas costas. Além disso, no decorrer da sua trajetória, ela descobrirá coisas que implicará com a sua nova vida e a antiga, segredos que foram escondidos dela durante anos e o real motivo de ter aparecido no Distrito 22.
Gênero: Ficção.
Classificação: +18 anos.
Restrição: Personagens principais com interação.
Beta: Sharpay Evans.

Capítulos:

Prefácio

Minha filha brincava na neve junto de , sua mãe tinha a vestido com todas as peças de roupas possíveis para que se protege da neve, quase não conseguia ver o seu rosto devido à jaqueta rosa-claro e o capuz de pelos. Ela juntava uma quantidade de neve nas mãos protegidas por luvas de pano brancas e jogava da direção de , de 7 anos, que era dois anos mais velho que minha filha.
– Você não fica preocupada com ela? – Hariett me perguntou, se aproximando da varanda do nosso quarto e apoiando a mão direita no meu ombro.
– O que quer dizer? – Virei o meu rosto na sua direção, que encarava a filha.
– Acha que é uma boa ideia deixá-la crescer aqui?
– É a nossa casa, para onde iríamos? – Eu perguntei enfiando as mãos dentro da jaqueta azul.
– Charles, você quer que ela cresça com a mesma obrigação e pressão que eu e você tivemos? – Seus olhos azuis viraram para mim, ela estava séria.
– Eu não posso deixar vocês irem embora Hariett, aqui dentro pelo menos estamos juntos e conseguimos prever certas coisas, lá fora não, tem noção da quantidade de pessoas que poderiam matá-las? – Virei-me para a minha esposa que suspirou profundamente, voltando a olhar para a filha que estava deitada na neve.
– Não sei qual opção é menos pior.
– Se algo acontecer com a gente, ela vai saber se virar sozinha Hariett, ela tem o nosso sangue. – Dei um beijo na cabeça da minha esposa onde um gorro estava tampando parte dos seus cabelos loiros e dei as costas para a varanda, entrando no quarto.

Capítulo 01 – A vida antes da minha morte

13:30. Era a hora que eu tinha saído do Paris Opera Ballet. Carregava a bolsa preta com meus utensílios de ensaio, como garrafa de água, sapatilhas, entre outros acessórios. As nuvens no céu indicavam uma possível chuva em poucos minutos, parei na calçada e estiquei o braço para que um táxi parasse para mim, mesmo com a jaqueta por cima do collant, sentia minhas pernas se arrepiarem com o vento frio, já que estavam cobertas somente com saia e a meia-calça preta. Finalmente um taxista parou ao meu lado, abri a porta do banco de trás e entrei, indiquei o endereço para o qual deveria ir e encostei as costas no banco, suspirando baixo. Ainda conseguia ouvir a treinadora chamar a minha atenção com a posição dos braços, a semana estava sendo tão exaustiva.
Depois de alguns segundos em silêncio, senti o celular dentro da bolsa vibrar, só poderia ser uma pessoa, puxei o botão verde para o lado e coloquei o mesmo ao lado do ouvido.
– Mãe? – Perguntei jogando a cabeça para trás até encostar no banco, ela me ligava todos os dias para ao menos ver se eu estava viva, já que ela ficou no interior e eu vim para a França.
“Oi querida! Como você está?” – A animação dela no outro lado da linha era enorme.
– Estou excelente, como todos os dias, e você? Anda se ocupando muito? – Não queria dizer que estava exausta, não tinha um motivo específico, mas não queria a deixar preocupada achando que estava me esforçando mais que o normal.
“Não tenho muito o que fazer aqui, uma hora eu cozinho, outra vou para o tricô, é todo dia a mesma coisa.” – Ela suspirou e deu de ombros.
– Você sente falta de trabalhar mamãe, mas sabe que não é mais necessário. – Todos os meses, eu mandava uma certa quantia de dinheiro para ela, minha mãe não conseguia mais trabalhar por alguns problemas de saúde, ela recebia um auxílio, mas não era lá essas coisas.
“Sim querida, mas não gosto que você me mande seu dinheiro.” – Ela resmungou do outro lado, parecia estar mexendo em algumas panelas pelo barulho.
– Não vamos discutir sobre isso novamente, está fora de questão. – Cortei o assunto antes que ela começasse a querer me fazer mudar de ideia.
“Ok Ella, tudo bem.” – Ela concordou meio relutante, no fundo pude escutar a campainha da minha antiga casa tocar. – “Quem está me perturbando justo depois do almoço? Vou desligar querida, até amanhã, qualquer coisa me liga!”
– Ok mamãe, você também pode me ligar se precisar, bisous! – Retirei o telefone da orelha e desliguei a chamada. Às vezes, ficava um pouco preocupada com ela morando sozinha e não tinha quem a arrastasse para Paris, eu havia tentado de todas as formas, mas aquela casa para ela fora tudo o que restou do que conquistou.
O taxista parou diante do loft em que eu morava, era bem localizado na cidade e tinha dado sorte de encontrar um já com mobília. Saltei do carro depois de pagar a corrida e retirei as chaves de dentro da bolsa, acenei para o porteiro que ficava de vigia do prédio de quatro andares e ao colocar o dedo indicador no scanner de digitais, o portão se abriu, empurrei o mesmo e com um leve empurrão deixei que se fechasse sozinho. Em poucos minutos estava no segundo andar, diante da porta branca do loft. Joguei minha bolsa em cima da mesa de jantar e fui até o sofá, deixando meu corpo descansar sobre o móvel, talvez não me atrasaria para o trabalho se ficasse por vinte minutos ali, mas como não queria arriscar, logo levantei para tomar um banho.
Deixei a água quente escorrer pelo meu corpo por alguns minutos, me ajudava a relaxar e, principalmente hoje, eu estava precisando. Após uns quinze minutos no banho, fiz minha higiene bucal e sai do banheiro para colocar o uniforme de trabalho, abotoei a blusa social branca e dobrei o colarinho, em seguida a saia preta quatro dedos acima do joelho com a blusa por dentro da saia. Fui até o banheiro onde prendi o cabelo em um coque baixo, para ficar bem preso e passei creme nos fios rebeldes que insistiam em ficar para cima, passei uma maquiagem leve no rosto, não podia fazer algo muito forte. Quando finalmente fiquei pronta, sai do quarto levando comigo o sobretudo cinza e a bolsa de lado com meus pertences.
O uber me deixou vinte minutos antes de bater meu ponto no estabelecimento, entrei pela porta dos fundos e guardei meus pertences no armário de número 13, pegando somente a caneta e o bloco de anotações dos pedidos. Amarrei o avental na cintura e sentei ao lado dos armários para aguardar a minha troca de turno com a menina da manhã. O local tinha muitos funcionários, mas somente eu e mais três pessoas trocávamos de turno devido os estudos.

– Pontual como sempre. – Oscar apareceu para cumprir seu horário de lanche, ele trabalhava no balcão, diferente de mim que ficava rodando pelo salão. Estava no Café de Flore a menos de um mês, quase não tínhamos nos falado. Oscar parecia ser um típico universitário bem focado no que faz, alto, com algumas espinhas no rosto e com problema de visão, meio desengonçado, mas consegue fazer um bom café.
– Sim, eu não gosto de chegar atrasada, principalmente no trabalho. – Dei de ombros enquanto passava os papéis do bloco pelo polegar.
– Me falaram que você é bailarina, é verdade? – Ele sentou ao meu lado com um croissant e um copo de suco de laranja.
– Sim, sim, por isso trabalho na parte da tarde, meus treinos são durante a manhã. – Dei um sorriso ladeado e a menina com quem ia trocar de turno apareceu.
– Olá Antonella, lá fora está cheio, movimento demais. As comandas estão no lugar de sempre. – Marie colocou seu indicador no scanner para bater o ponto e levantei do banco, para bater o meu.
– Obrigada Marie, conversamos depois Oscar. – Acenei brevemente para ele e empurrei a porta de serviço para entrar no salão. Realmente, a casa estava cheia hoje.
– Antonella, os pedidos da mesa 2! – Warren bateu no sino do balcão me chamando com os pedidos sobre o mesmo. Peguei a bandeja e coloquei todos as bebidas e duas tortas de limão, levei os pedidos até a mesa destinada e voltei para o balcão, onde mais pedidos me aguardavam. Ao ver que meus pedidos foram todos entregues e que algumas mesas esperavam por atendimento, fui até o lado de fora do estabelecimento e parei diante da mesa 26, era um casal de idosos.
Apesar do tempo estava meio nublado, aquele lugar estava sempre cheio, nunca era um dia ruim. O Café de Flore estava em todos os sites de viagem e recomendação de cafés em Paris, por esse motivo o movimento era tão grande, porém eu chegava morta em casa. Minha treinadora reparou que tinha emagrecido, como chegava uma e meia da manhã em casa, não tinha vontade de comer nada, somente deitar e acordar para ir ao treino, minha alimentação estava ficando meio restrita, mas estava valendo a pena, tinha que me sustentar aqui e mandar um quantia de dinheiro para ajudar minha mãe, era tudo pelo meu sonho de me tornar uma das melhores bailarinas já conhecidas, não podia jogar tudo isso fora simplesmente pelo cansaço.
Assim que o meu expediente acabou, peguei uma carona com o menino que trabalhava no caixa, ele me levava em casa todos os dias, pois era muito perigoso voltar a pé, mesmo que o café ficasse uns trinta minutos a pé até a minha casa, e uber naquele horário era perigoso. Ele me deixou na porta do prédio e ao entrar em casa, tomei um banho rápido e deitei na cama para dormir, foi um dos dias que meu corpo não conseguia se arrastar para fazer nada.

Minha rotina era a mesma toda semana. Segunda, terça, quarta e sexta eu tinha ensaios. Na segunda, terça, quarta e quinta eu trabalhava em uma lanchonete próxima de casa das três às dez horas da noite, como hoje era quinta eu somente tinha que ir ao trabalho. Nos outros dias outra menina fazia o turno, a dona gostava de dividir os dias, pois acreditava que ficávamos mais dispostas para atender.
Levantei às nove horas da manhã para preparar meu café, coloquei a água para esquentar e sentei no sofá para assistir às notícias da manhã. Meu celular tocou logo depois, não tinha mais quem ser além da minha mãe, era o único contato que me ligava diariamente. Coloquei no viva-voz e fui até a cozinha para coar o café.
– Bom dia mãe. – Falei dando um leve bocejo.
“Bom dia Ella.” – O tom de voz dela estava diferente, minha mãe sempre me ligava tão animada.
– Aconteceu alguma coisa? A senhora parece estar preocupada. – Comentei enquanto passava a colher pelo coador.
“Então… lembra que ontem uma pessoa apertou a campainha aqui de casa?”
– Sim, lembro, por quê?
“Era um agiota querida.” – Ela respirou fundo antes de continuar, mas que diabos um agiota queria com a minha mãe? – “Seu pai passou o endereço daqui de casa, pelo visto ele ainda está vivo, já que pegou o dinheiro emprestado há 5 meses e sumiu do mapa novamente, como garantia ele passou o endereço daqui de casa.” – Ela estava começando a entrar em desespero, aquela informação logo pela manhã já tinha estragado todo o meu dia. – “Eu tentei explicar que não temos nada a ver com isso e que foi um engano, que ele não mora mais aqui, mas ele quer o dinheiro mesmo assim, minha filha. Aquele homem é um demônio!” – Minha mãe soluçava tentando manter a calma, mas ela já estava em prantos. Iria toda a nossa preocupação novamente, aquele homem não dava sossego pra mim e para minha mãe.
– A senhora explicou tudo mesmo pra ele? Ele não entendeu? Não tem como a gente pagar, quanto é o valor? – Já tinha deixado até o café de lado e sentado na bancada da cozinha para tentar raciocinar, eu que precisava resolver as coisas agora, minha mãe não tinha mais condições de fazer isso.
“Não Ella, ele me deu 3 dias para conseguir o dinheiro, são 20 mil euros! Seu pai saiu do país, vai saber pra onde foi, por isso pegou o dinheiro com esse homem, pelo menos foi o que ele disse!” – Ellie já tinha se acalmado, mas ainda sim sua voz estava trêmula.
– Eu vou dar um jeito de conseguir esse dinheiro, fica tranquila mamãe. Daqui três horas eu ligo pra senhora, ok? Não precisa ficar preocupada, já passamos por isso antes, vamos conseguir sair dessa. – Desliguei antes mesmo que ela falasse mais alguma coisa e encostei a testa no balcão, como eu odiava aquele homem que um dia fora meu pai, pra minha sorte não lembrava direito do rosto dele, mas se um dia o encontrasse na rua, sentiria na hora que era ele.
Me arrumei rapidamente e saí de casa sem ao menos tomar o meu café, tempo era dinheiro e hoje eu precisaria de vinte mil euros; a minha primeira esperança era o banco Montepio, se não, quem iria procurar um agiota seria eu. O táxi me deixou às dez horas em frente ao banco, desci do veículo rumo ao banco, empurrei a porta de vidro e segui para o setor de empréstimos, peguei um senha para ser atendida e sentei em uma das cadeiras de espera, tinha em torno de oito pessoas na minha frente, as pessoas não saiam de lá muito felizes ao tentar resolver seus problemas, estava começando a ficar com medo de não conseguir.
Duas horas e meia de espera não serviram de muita coisa, o banco aceitava somente empréstimos para abrir um negócio ou financiamento de algo, além disso a renda que eu recebia constava que não daria conta de pagar os 20 mil euros. Agradeci ao senhor que me atendeu e sai do estabelecimento me segurando para não estar em desespero, senti um nó se formar na minha garganta, não era hora de chorar, minha mãe seria morta se eu não pagasse aquele cara em 3 dias, precisava encontrar uma solução, mas infelizmente, era melhor ficar devendo para um banco do que para um agiota.
Fiquei alguns segundos parada na calçada do banco pensando para onde ir, talvez conseguiria o dinheiro com a dona da lanchonete em que trabalhava, toda semana entravam rios de dinheiro naquele lugar. Peguei o celular dentro da bolsa de ombro e abri os contatos para ligar para ela, porém fui interrompida por uma gritaria repentina, levantei a cabeça e vi várias pessoas correrem em busca de abrigo, um caminhão vinha desgovernado na direção do cruzamento, os pedestres gritavam de um lado para o outro com medo do veículo atingir uma delas. Por instinto corri até a porta do banco novamente junto das outras pessoas que faziam um amontoado desesperado, até que, por fim, consegui entrar junto de outros cidadãos, porém, senti meu corpo ser impulsionado pra frente com brutalidade, o caminhão havia batido no estabelecimento.
Meu corpo bateu com uma força enorme no chão, o barulho da construção desmoronando foi estrondoso, por pouco um enorme pedra não caiu sobre mim. Estava entre o desmaio e a sobriedade, minha cabeça rodava e não conseguia sentir muito bem o corpo que tinha batido contra a parede, abri os olhos lentamente e uma poça de sangue se formava embaixo de mim, era nítido já que estava de barriga para baixo, o sangue se misturava com o pó dos escombros do banco e encharcava o meu sobretudo branco, deixando-o completamente vermelho, minha respiração começou a ficar ofegante e tentei mexer meu corpo, mas era algo impossível, não conseguia sentir meu braço direito muito bem e os gritos só me deixavam mais desesperada.
– S-s-socorro… – Meu pedido saiu mais como um sussurro do que como um grito, mesmo com a visão turva podia ver alguns pés passando ao meu redor, meus olhos começaram a pesar e sentia uma vontade enorme de dormir, até que meus olhos se fecharam por completo e eu não me lembrei de mais nada.

Capítulo 02 – Sem rumo

Dizem que quando você morre, ou vai para o céu, ou para o inferno. Na minha concepção eu sempre achei que iria para o céu, nunca fiz nada de errado durante a vida, sempre tentei ajudar as pessoas e por tudo o que eu sofri na adolescência acreditava que Jesus tinha um propósito para aquilo, mas sentia que tinha alguma coisa de errado comigo. Minha alma não saiu do corpo como em filmes, ninguém veio me buscar e não fui para lugar nenhum, tudo era escuro, afinal como a morte realmente era? Não acreditava que aquele era realmente o meu momento, como a minha mãe ficaria, não tinha dinheiro para pagar o agiota do meu pai, ela seria assassinada? Não era a hora de eu morrer, eu não podia morrer…
“Doutor, ela parece estar acordando.” – Uma voz masculina ecoou pela minha cabeça, eu estava sonhando?
“Deixe-a acordar, já está dormindo tem um tempo.” – Pude escutar outra voz mais grave e cansada no fundo, ele parecia estar mais longe de mim.
Na medida que tentava abrir os olhos, senti uma forte luz diante dos meus olhos, o que me fez resmungar. A luz foi retirada do meu rosto por alguém e aos poucos pude abri-los por completo, como estava com muito sono, meus olhos não conseguiam se manter abertos por muito tempo. O local cheirava a hospital e me sentia gelada, meus braços pareciam estar descobertos, parecia que ainda podia escutar o barulho do acidente.
– Onde eu estou? – Perguntei tentando captar algumas imagens do local em que me encontrava, parecia ser o hospital devido aos equipamentos. Passei a mão pelo colchão em seguida levantei o braço, percebi que meu corpo estava coberto por um lençol fino e gelado, por isso estava com um pouco de frio.
– Antonella, dia quinze de agosto de dois mil e trinta e dois, cinco dias após o acidente e encontrasse estável. – A voz mais cansada que tinha escutado dessa vez estava mais próxima de mim.
– Onde eu estou? Por favor… – Eu buscava forças que não tinha no meu corpo, me sentia impotente.
– Nós te salvamos do acidente que aconteceu em Paris, Antonella. Você foi uma das feridas entre dezenove pessoas. – A pessoa que parecia ser o médico conversava comigo calmamente, eu já tinha desistido de manter meus olhos abertos, então somente escutava a sua voz. – Agora está em um local chamado Distrito 22.
– Distrito 22? Que lugar é esse? Onde vocês estão me mantendo? – Eu estava nervosa, nunca tinha escutado sobre aquele lugar na minha vida. Minha respiração começou a ficar ofegante, meu braço direito estava em volta de algo pesado. – Minha mãe, preciso falar com a minha mãe, ela vai morrer, minha mãe… – As lágrimas escorriam descontroladamente pelo meu rosto e estava quase conseguindo levantar o tronco da maca.
– Aumentem o sedativo dela. – Escutei um banco se arrastar pelo chão e em seguida passos se afastando de mim.
– Sim, senhor. – A primeira pessoa que tinha escutado confirmou.
– NÃO! Não, por favor. Minha mãe, minha mã… – Meu corpo aos poucos ficou cada vez mais amolecido e meus olhos pesavam uma tonelada cada um, até que finalmente meu corpo se entregou e eu voltei a dormir profundamente.

Eu estava meio cansado, precisava de outro médico para me auxiliar, receber quase uma pessoa por semana estava me deixando meio exausto, principalmente quando se tratava em casos internos como dessa garota. O impacto que seu corpo causou no chão fez com que ela tivesse várias hemorragias internas, foi difícil de fazer com que o sangramento parasse, mas com calma, paciência e precisão obtive sucesso.
Meus passos ecoavam por todo o corredor que me levava a sala de reuniões, empurrei a porta de madeira e me dei de frente com a diretora do local a onde trabalhava.
– Como ela está? – A mulher de cabelos ruivos e vestido preto em formato de tubinho perguntou virando a cadeira para a minha direção, a paisagem das montanhas atrás dela era algo lindo.
– Bem. Estável. Foi a primeira vez que acordou. Está preocupada com a mãe, parece estar com medo da mãe morrer, foi tudo o que disse. – Enfiei as mãos dentro do jaleco branco e permaneci com a postura ereta, enquanto a mulher olhava para mim com cara de paisagem.
– Ok, se tiver mais informações me avise, por favor. – Ela virou novamente a cadeira na direção das montanhas e me inclinei para frente fazendo uma pequena reverência. Dei as costas e sai do local voltando para a área de internação.
Entrei na ala de repouso onde algumas pessoas se recuperavam de seus respectivos traumas ou machucados leves, a maioria tinha retornado de alguma missão. Como todos os dias, tinha que fazer as análises e liberar alguns para os seus deveres.
– Boa tarde doutor! O que temos pra hoje? – entrou no local radiante como sempre, ela segurava uma sacola com roupas limpas e sapatos. tinha o trabalho – nas horas vagas – de encaminhar os novatos para o distrito, onde mostraria cada lugar e em que dormitório se hospedaria.
– Boa tarde , que bom que chegou logo. – Peguei a caderneta do laboratório, onde ficavam todos os remédios e utensílios como agulhas e acessos. – Hm… Saori Miura. – Afirmei ao olhar nos relatórios os papéis sobre cada uma das pessoas ali presentes. Deixei a caderneta de lado e me encaminhei para os leitos que estavam mais a frente com me acompanhando.
Puxei para o lado a cortina branca que separavam os leitos e encontrei Saori sentada na maca folheando uma revista, não tinha muito o que fazer ali, por isso deixava algumas revistas e tinha pedido para a direção instalar alguns televisores para os pacientes passarem o tempo, afinal eles só tinham que aguardar a alta.
– Até que enfim doutor, não aguento mais ficar presa aqui, fora que não entendo nada do que essas revistas falam. – Ela revirou os olhos jogando a revista em cima da maca, até que reparou que tinha mais alguém no local, o que a fez ficar em silêncio.
– Saori, essa é , ela vai te ajudar a se instalar aqui e irá retirar todas as suas dúvidas, se precisar de mais alguma coisa pode me procurar, sempre estou na enfermaria. Além disso, todo sábado temos uma iniciação para os novatos, então fique tranquila que logo irá entender tudo. – Dei um passo para o lado para que a menina tivesse espaço para se retirar. Ela ficou meio retraída, mas aos poucos foi descendo da maca.
– No começo pode ser um pouco estranho, eu também estranhei, mas vai se acostumar. Meu nome é , trouxe roupas limpas e novas para você, quando chegar no seu dormitório poderá organizar suas coisas. – A menina de cabelos castanhos abriu um sorriso acolhedor, o que fez com Saori relaxasse mais.
– Bom, não sei que coisas, não tenho mais nada. – Ela disse em tom baixo.
– O distrito deixa tudo preparado para você, além disso se quiser algo, é só pedir, ou aguardar mais um tempo até que tenha liberação para sair. – saiu do leito explicando algumas coisas para a novata, que prestava atenção em todas as palavras da mentora.
Eu fui resolver as outras altas pendentes, como o de Nikolai que praticamente morava ali. Nunca vi um menino se meter tanto em confusão como ele, ou às vezes era simplesmente um exame sanguíneo para verificação de substâncias químicas.

A sensação de eu estar totalmente dopada pela quantidade de remédios estava menor, meu corpo parecia estar mais leve, mas não sabia mais em qual linha temporal estava, ou onde estava, ou como estava, meus pensamentos estavam uma bagunça.
– Antonella? – Uma voz que parecia reconhecer me chamou, meus olhos abriram com mais facilidade, apesar da claridade me incomodar.
– Hm…? – Resmunguei sentando-me na maca que estava mais inclinada, por um segundo senti meu corpo pender para o lado, mas logo me recompus. Assim que meus olhos se acostumaram com a claridade, pude enxergar claramente onde estava, era diferente da vez anterior que tinha acordado, era um leito com menos equipamentos de hospital e eu não sentia mais o acesso do soro na minha mão. Um total de quatro pessoas me encaravam, uma mulher bem arrumada de cabelo ruivo, dois homens – um médico e um possível enfermeiro – e uma menina de cabelos castanhos, ela vestia roupas mais despojadas. – Quem são vocês? – Perguntei ao me dar conta novamente que não sabia nada daquele lugar, o que me irritava profundamente.
– Primeiramente gostaria que permanecesse calma, tudo irá ser explicado. Porém, gostaríamos que você fosse instalada primeiro, para se sentir mais confortável. – A mulher ruiva falou enquanto olhava pra mim com certa calma, mas sentia que ela estava me observando e tirando suas próprias conclusões.
– Gostaria que me explicasse primeiramente a onde eu estou, não vou me sentir confortável até que os principais pontos sejam ditos. – Permaneci firme e cruzei os braços, olhando para todos presentes. A mulher suspirou alto e fez sinal para que os outros saíssem do leito.
– Mas senhora… – O médico relutou com um ar de preocupação.
– George. – Ela apontou para a saída e o homem simplesmente obedeceu. Visivelmente era ela que mandava ali pelo poder que tinha sobre os outros. A mulher virou-se para mim e deu um sorriso torto, puxou uma cadeira que estava próxima da minha cama e sentou-se ao lado da cortina que separava o meu leito dos outros. – Meu nome é Lenora, sou eu que administro esse lugar. – Ela cruzou as pernas mostrando o scarpin preto no pé e continuou. – Você está onde chamamos de Distrito 22. Basicamente acolhemos jovens que tem grande potencial em nos ajudar nas tarefas desse local, após… hm… como eu posso dizer? – Ela tentava procurar a palavra exata para que eu não interpretasse errado. – Morrerem. Todos que estão aqui vieram de algum acidente ou tragédia, se enxergamos algum potencial nessa pessoa, ela tem a oportunidade de ficar conosco, caso contrário é liberada. Nossas tarefas incluem treinamento, aperfeiçoamento de habilidades, entre outras coisas para então atuarem em campo, o que no caso seria o trabalho sujo que os governos não querem fazer para não sujarem o nome.
– E como vocês me encontraram? Trabalham para o governo? Eu vou virar o que exatamente? Uma agente? Espera, isso não é rapto? Que tipo de história maluca é essa? Não faz o menor sentido. – Levei as mãos até a cabeça tentando amenizar minha respiração que estava ofegante.
– Nós temos pessoas em todos os lugares, quando você foi para o hospital, parece que uma colega sua da companhia de ballet a reconheceu, então nós pensamos em trazê-la para cá. E eu acho que não será possível você voltar para casa, estamos na Eslovênia, especificamente em Bled e sim, você irá se tornar uma agente, basicamente. – A mulher encarou suas unhas pintadas de preto e suspirou baixo.
– Deixa eu ver se entendi bem, estou… estou na Eslovênia?! – Praticamente gritei ao escutar a informação, olhei para os lados incrédula. – Vocês praticamente me raptaram! Mon dieu! Eu quero me levem de volta para a França agora. – Virei o rosto na direção da mulher que soltou um riso baixo, em seguida ela se levantou e veio na minha direção.
– Antonella, você tem certeza que você quer voltar para aquela vida pacata que tinha? Após você ser transferida para cá, nós investigamos tudo sobre você. – Ela falava em tom baixo e apoiava as mãos no colchão, olhando fixamente para mim. – Aqui você pode simplesmente ter tudo o que quer, porque eu sei que no fundo, a sua vida estava te cansando por sempre ser a mesma coisa e você tinha dúvidas se realmente era aquilo que queria, se realmente iria ser a bailarina tão conhecida que sonhava. Você pode ter literalmente tudo. – Ela me olhava tão fixamente, que eu podia sentir que ela estava lendo a minha alma, ninguém nunca diretamente falou isso para mim e até que ela não estava mentindo, porém aquele lugar me causava dúvidas, eu estava em um meio completamente desconhecido. – Além do mais… – Ela se afastou, voltando para a cadeira em que estava sentada. – Para o mundo lá fora você está morta, a partir do momento que você entra aqui, você morre. – Ela disse com tanta naturalidade que eu quase não acreditei.
– Eu… eu estou morta? – Levantei as sobrancelhas surpresa tentando assimilar tudo o que ela tinha me dito. – E a minha mãe?! Meu Deus, minha mãe, como minha mãe deve estar agora. – Eu fiquei perplexa olhando para a cortina na minha frente, eram tantas emoções que eu não conseguia sentir nada, tristeza, raiva, preocupação, todas estavam juntas.
– Talvez seja uma informação difícil de lidar, mas a sua mãe está morta. Foi por isso que reconhecemos você pela sua amiga, nenhum familiar foi a procura de você no hospital.
– O-o-o quê? – Minha voz falhou, era como se tivesse sofrido o acidente novamente.
– Iriamos entrar em contato com sua mãe, pagar a dívida que vocês deviam, dessa maneira ela ficaria fora de perigo, porém quando a minha equipe chegou, ela já não tinha mais vida. – Lenora não era o tipo de pessoa que sabia dar notícias de falecimento, podia sentir as lágrimas descendendo descontroladamente pela minha bochecha, eu estava em estado de choque. – Já que acabamos posso me retirar agora, irá ajudá-la a se instalar. – Ela se levantou da cadeira, por que aquele nome me trazia uma sensação de nostalgia? – Você tem dois dias para decidir, acredito que esse lugar irá trazer muito de você à tona ainda. – Ela sorriu por cima do ombro, empurrou a cortina para o lado e saiu. Ótimo, sentia que tinha vendido a minha alma para o diabo. Minutos depois a menina que estava presente no meu leito quando acordei voltou, e ela estava radiante, exceto quando viu a minha expressão, a menina deu as costas e saiu da sala.

Eu simplesmente deitei na cama novamente e abracei o travesseiro, encolhendo o meu corpo. Como era possível a minha vida mudar dessa maneira? Parecia que o caminhão que atingiu o banco levou tudo de bom da minha vida, era como se tivesse destruído literalmente tudo, eu não tinha mais nada, eu não tinha nem a minha própria vida, estava morta, meus sonhos, minhas roupas, exatamente tudo tinha ido embora. Foi nesse momento que eu comecei a chorar como criança, a menina nomeada apareceu com o doutor depois de alguns segundos e o mesmo veio até mim.
– Me deixem sozinha, por favor. Juste quelques minutes. – Falei enfiando o rosto no travesseiro, eu precisava do meu momento de luto, tinha acabado de saber que minha mãe estava morta. Espaço, precisava de espaço.
O médico recuou e ambos saíram do leito, fechando a cortina para que eu pudesse ficar sozinha. Eu só queria um conforto e aquele lugar não me trazia nenhum.

– Licença. – entrou na sala colocando apenas a cabeça para dentro do leito, eu olhei para ela e em seguida desviei os olhos, a menina entrou e sentou na cama ao meu lado. – Quando vai decidir sair? Já faz uma hora.
Ne sait pas. – Respondi indiferente.
– Sabe, eu não entendo muito bem francês… – Ela deu um sorriso ladeado meio sem graça.
– Eu falei “não sei”. Viu, por isso que eu não gosto daqui, simplesmente me enfiaram em um buraco e me jogaram várias informações que não fazem o menor sentido pra mim, por que eu? Poderia ser outra pessoa que tivesse no acidente comigo, eu não pedi pra estar aqui, será que não entenderam? Isso é sequestro. – Sentei na cama indignada, colocando as mãos no rosto, eu tinha alguns ferimentos nos braços, mas todos estavam bem cuidados e com gaze, exceto pelo meu antebraço esquerdo, que estava engessado.
– As pessoas que estão aqui, não tem nada a perder, Antonella, eu fui uma dessas pessoas e passei pelo mesmo processo que você, você tem a escolha de ir embora, eu também tive, mas decidi ficar. Não estou te influenciando, eu não tinha uma vida muito boa lá fora, então a oportunidade surgiu e eu preferi ficar. Pelo fato de você querer ir embora, imagino que gosta da sua vida. Agora você não está entendendo muita coisa, mas eu estou aqui pra isso, é literalmente o meu papel te mostrar o lugar. Então, quer finalmente sair da cama e tentar esfriar a cabeça? – Ela levantou da cama e eu fiquei encarando a menina por alguns segundos. Agora quem não tinha nada a perder era eu, minha vida tinha ido toda embora, literalmente, eu ainda podia voltar, mas uma parte de mim queria entender aquele lugar e o porquê de eu ter ido parar justamente ali.
– Tudo bem. – Concordei com a menina que deu um sorriso discreto. A mesma pegou a sacola preta de cima da cadeira e estendeu na minha direção. – Que horas são? – Me lembrei que não conseguia distinguir o horário já que não tinha nenhuma janela ou relógio por perto.
– É uma muda de roupa nova com sapatos, quando estiver pronta me chama, não dá pra sair assim né. São mais ou menos onze horas da manhã. – Ela se referia ao meu pijama branco que eu não fazia ideia de como ou quem tinha colocado. Peguei a sacola da sua mão e a menina se retirou do leito. Na sacola tinha uma legging preta, um moletom azul e sapatilhas preta. Vesti a muda de roupa e prendi o meu cabelo em uma trança, só para não ficar solto.

Puxei a cortina para o lado e me deparei com , que me esperava no corredor. Ao me ver, o médico veio rapidamente ao meu encontro.
– Se precisar de alguma coisa pode vir me procurar, principalmente se sentir dores. Como você ficou praticamente duas semanas dormindo, pode vir na semana que vem retirar o gesso, coloquei por precaução, você teve ferimentos mais internos que já foram controlados.
– Espera. Duas semanas? – Arregalei os olhos para o doutor que concordou com a cabeça.
– Sim, acho que os analgésicos também estavam te deixando meio sonolenta, às vezes acordava com alguns delírios, mas voltava a dormir, fizemos exames, mas não constou mais nada. vai ser sua guia, ela te falará como tudo isso funciona. Boa sorte! – Ele sorriu. Boa sorte? Só fazia piorar a situação aquela fala. Concordei balançando a cabeça e fui na direção de , que fazia sinal para que eu a seguisse.
– Então. Por onde eu começo? – falou pensativa, enquanto saíamos da ala hospitalar. – Temos bases no mundo todo, mas a principal é essa aqui. Tem toda aquela história e tudo mais, e se chama distrito 22 porque foram 22 fundadores, mas eu não conheço a história mais afundo e parece que em torno de 100 anos que o distrito foi criado. Como você já percebeu esse lugar é um labirinto. – Ela revirou os olhos parando diante de um elevador. – São em torno de 5 andares, apesar de eu achar que tem mais. – Ela sussurrou. – Estamos no último que é a ala hospitalar. O quarto é a administração, o terceiro são as áreas de treinamento, o segundo o dormitório e o terceiro as áreas de recreação. – Quando entramos no elevador ela se virou para mim como se tivesse se lembrado de algo. – E só conseguimos sair daqui por helicóptero, não tem estrada.
– Ou seja, estamos no meio do nada? – Perguntei cruzando os braços.
– Exatamente! – Ela sorriu.
– Como eu disse, essa é a base principal, porém somos designados para as bases específicas, que podem ser em qualquer parte do mundo. Quando algum serviço precisa ser feito, apenas entramos em contato com a base de New York por exemplo, e eles resolvem, agora quando é uma missão mais complicada, eles pegam algumas pessoas específicas. Você não deve ficar muito tempo por aqui, deve ser transferida logo, então nem vou te mostrar os setores, só a área de recreação e o dormitório.
– Não, não, espera, rápido demais, não estou entendendo nada. Pra que serve exatamente esse lugar? – Perguntei para a menina que suspirou, jogando a cabeça para trás.
– Vamos lá, vou tentar te explicar melhor. – Ela pegou pelo meu pulso e saímos do elevador, seguindo pelo longo corredor de paredes brancas e bem iluminado, até que paramos diante de uma porta de madeira.
empurrou a mesma e uma sala com uma mesa de vidro no centro apareceu diante dos meus olhos, ao fundo uma enorme janela de vidro revelava a paisagem das montanhas. Era bem bonito. A menina puxou uma das cadeiras executivas de cor preta e sentou-se, fazendo um gesto para que eu fizesse o mesmo.
– Não vão usar essa sala por agora mesmo, então temos um pouco de sossego. – Seus cotovelos ficaram apoiados no braço da cadeira e ela entrelaçou os dedos. – Vou começar novamente. Presta atenção. Esse lugar se chama Distrito 22, por ter sido fundado por 22 pessoas há mais ou menos 100 anos atrás. Essa é a base principal, porém existem bases secundárias espalhadas pelo mundo, como em Nova York, Paris, Japão, Noruega, entre outros lugares. A base principal só serve para meio de pesquisa, por isso os novatos são encaminhados pra cá e os veteranos, podemos assim dizer, fazem parte dos experimentos com armamento. Temos muitos sistemas avançados que o resto do mundo não possui.
– Sistemas avançados? – Eu levantei uma das sobrancelhas enquanto batia as unhas em cima da mesa.
– Tecnologia. Facilita nas missões, e pra salvar pessoas como você, tinha um estrago bem grande aí dentro. Você acha que está se recuperando tão bem por quê?
– Faz sentindo. – Concordei.
– Continuando… – ela levantou-se da cadeira e foi até a janela de vidro. – somos como fantasmas. Quando se junta ao distrito, você perde o seu nome e sobrenome, você se torna outra pessoa, seu eu do passado morre para que não seja reconhecida nas missões. Agora vem a parte principal, nós praticamente fazemos o trabalho sujo. Descobrimos informações, espionamos, sequestramos e outras coisas que não serão os seus deveres, provavelmente. – Ela sorriu e apoiou uma perna em cima da mesa.
– Nem consigo imaginar o que seja. – Tombei a cabeça para o lado em tom de deboche e riu.
– Não quero te influenciar a ficar Antonella, mas se te trouxeram pra cá, é porque algo de importante viram em você, comigo pelo menos foi assim. Eu também iria ter uma ótima vida pela frente, eu seria uma excelente médica cirurgiã, até que tomei um tiro no plantão e vim parar aqui. Agora eu ajudo com as pesquisas que podem salvar milhares de pessoas futuramente, foi por isso que escolhi ficar. Claro que tem a parte ruim, tive que abrir mão da minha família, mas foi por uma boa causa, e eu também não tinha muito contato com eles. – Ela virou o rosto para olhar para a paisagem. – Acredito que você não tenha nada a perder como eu, as recompensas pelas missões são boas, você não imagina a quantidade de coisas que pode ter e viver sendo um ghost. Tem alguma dúvida? – Ela se virou para mim, colocando as mãos atrás da calça jeans.
– Acho que não… – Era informação demais pra mim, precisava de um tempo sozinha pra processar tudo aquilo e, sinceramente, de certa forma ela estava certa, eu não tinha mais nada a perder.
– Vou te mostrar seu quarto agora. Que por nenhuma coincidência é o mesmo que o meu. – Ela riu baixo. – Lenora deve ter imaginado que iriamos nos dar bem.
– E você acha que estamos no dando bem? – Perguntei levantando da cadeira, seguindo a menina para fora do estabelecimento.
– Se não está gostando de mim agora, futuramente você se acostuma. – Ela riu seguindo pelo caminho que tínhamos feito para chegar à sala.
– Vamos para o andar dos dormitórios agora.
– Esse lugar é meio deprimente. – Confessei enquanto esperava pelo elevador junto dela.
– Eu também acho, mas prefiro não comentar. – Ela sussurrou. – No andar dos dormitórios é mais legal, o pessoal fica todo lá praticamente e na sala de recreação.
– Entendi… – Respondi entrando elevador assim que o mesmo se abriu. Não sei se gostaria de conhecer alguém, provavelmente iriam em encher de perguntas, ou não. Detestava esse sentimento de dúvida.
– Você está melhor? – Ela perguntou apertando o botão do respectivo andar em que iríamos.
– Pra ser sincera, eu não sei. Acho que só preciso de um momento sozinha pra colocar as ideias no lugar, fora que eu acabei de perder a minha mãe. – Dei de ombros procurando algum conforto naquele moletom quentinho.
– Eu preciso fazer algumas coisas na ala médica, então pode ficar tranquila no quarto, também deixei algumas coisas pra você, comida, roupas se quiser tomar um banho. Acho que vai se sentir melhor. – Ela abriu um sorriso e eu concordei com a cabeça.
Saímos do elevador juntas, passando por um enorme saguão com poltronas e uma máquina de comida e bebidas. Mais a frente tinha um cruzamento, um corredor que seguia para a direita e um para a esquerda. seguiu para a esquerda até parar diante de uma porta com o número 12. A menina girou a maçaneta e entramos no quarto com duas camas, uma escrivaninha, uma cômoda e uma porta que provavelmente era o banheiro. Entre as duas camadas havia uma janela que também tinha uma vista incrível.
– Tentei deixar mais aconchegante, já que vivo aqui há 2 anos. – Ela comentou ainda parada ao lado da porta. Tinha algumas fotos de paisagens e uns itens de decoração bem simples pelo quarto. – Sua cama é a da direita, a bolsa está com alguns pertences novos. Vou te deixar sozinha, mas qualquer coisa é só apertar o bipe que também está dentro da sua bolsa. Esse lugar é bem grande, sabe?
– Claro. Obrigada. – Agradeci e fechou a porta do quarto, após dar um breve aceno.
Sentei na cama que havia um travesseiro e uma coberta que parecia ser bem grossa. O colchão era bem fofinho. Coloquei a bolsa em cima do colo, ela me remetia ao estilo da bolsa da minha bolsa de ballet. Havia uma necessaire com produtos de higiene pessoal e outra com gaze, ataduras e remédios e um bilhete, eram as horas que eu deveria que eu deveria tomar os medicamentos; duas mudas de roupa, uma toalha e o bipe que ela havia falado.
Peguei os pertences e fui até a porta fechada dentro do quarto, que segundos depois descobri que realmente era um banheiro. Retirei minhas roupas e os curativos que estavam pelo meu corpo. Finalmente iria tomar um banho, estava me sentindo meio largada e relaxada, meu corpo estava estranho. Entrei no box e abri o chuveiro, deixando a água quente escorrer pelo meu corpo. Decisão. Eu precisava tomar uma decisão, era pra ser fácil, era pra ser um não, mas por que eu estava pensando na possibilidade de um sim? No fundo a sensação de perigo me fazia sentir um frio na barriga, eu estava morta para o mundo, me trazia uma sensação de liberdade pensar naquilo. Ninguém iria me julgar pelos meus atos, eu finalmente poderia ser a Antonella, a verdadeira Antonella que era reprimida e se agarrava ao ballet como se conseguisse se reprimir. Minha nossa, no que eu estou pensando? Balancei a cabeça negativamente e tentei finalizar o meu banho sem deixar as ideias virem à tona.
Depois de uns vinte minutos, finalmente sai do box enrolada na toalha e com o cabelo meio úmido. Retirei o pente que haviam deixado dentro da minha bolsa e comecei a desembaraçar os fios loiros do meu cabelo na frente do espelho. Retirei o excesso de água com a toalha e coloquei as roupas íntimas. Higienizei os ferimentos e deixei um próximo da cintura com gaze, pois ainda estava meio feio, passei somente um remédio líquido no restante e vesti as roupas, uma calça moletom e uma blusa de manga bem larga, aquelas roupas tinham o tamanho de um homem de 1.80 de altura. Voltei para o quarto deixando a bolsa pendurada na cabeceira da cama e coloquei as meias, o chão estava bem gelado.
Ao lado da cama tinha uma garrafa de vidro com água e um copo, serviria para mais tarde, pois teria que tomar a primeira dose as seis horas da tarde.
Deitei a cabeça no travesseiro e suspirei fechando os olhos, eu precisava pensar no que iria fazer.

Capítulo 03 – Antonella Baudelaire não existe mais

– Antonella? – Uma voz feminina me chamava, enquanto sacudia o meu corpo levemente.
– Hm? – Resmunguei abrindo os olhos e me deparando com . Quando me dei conta que tinha caindo no sono, sentei rapidamente na cama, deixando uma parte do edredom cair do meu tronco para as pernas. – Mon dieu. Que horas são?
– Estava boa a soneca? – Ela riu sentando na cama no outro lado do quarto. – São seis horas, temos que ir jantar.
– Ainda bem que me acordou, preciso tomar os meus remédios também. – Respondi pegando a bolsa pendurada na cabeceira da cama. Peguei a necessaire com os remédios e retirei dois comprimidos de duas cartelas. encheu o copo de água que estava ao lado da minha cama e me entregou para que eu pudesse tomar. – Faz parte da rotina jantar às seis horas da tarde? – Perguntei após engolir os remédios.
– Sim. – Ela concordou com a cabeça. – Todos os dias no mesmo horário, às onze horas todos devem estar nos dormitórios. Geralmente ficamos na área de recreação até dar o horário. – Ela deu de ombros.
– Não vai ser um problema eu comer agora, estou faminta, não comi nada de tarde, acabei dormindo pensando em algumas coisas… – Falei fazendo uma careta e me levantei da cama. Olhei para as minhas roupas e dei de ombros, só tinha aquela muda e outra igual àquela que vestia. – Acho que vocês erraram o meu tamanho das roupas.
– Eu preciso concordar. – Ela riu indo até a porta. já não estava mais com o uniforme, vestia uma calça jeans e uma blusa de manga longa amarela, além de sapatilhas pretas. Eu retirei o chinelo de dentro da bolsa e coloquei no chão, calçando os mesmos com meia. Me coloquei diante de um espelho preso na parede e suspirei, observando o meu estado deplorável de moda.
– Pelo menos o cabelo está bom. – comentou rindo.
– Muito obrigada , isso me conforta profundamente. – Eu virei pra menina colocando as mãos sobre o peito, como se estivesse agradecendo a sua gentileza e ambas rimos.
O refeitório ficava no andar de baixo, que era toda a parte de recreação. tinha me explicado que o corredor oposto do nosso quarto era parte dos meninos, os quartos eram separados. Ao entrar no refeitório, me assustei com a quantidade de pessoas ali presentes, estavam espalhadas pelas mesas redondas distribuídas pelo local. No fundo estava o self-service, parecia um refeitório escolar, mas sem o barulho estrondoso, era mais calmo e não havia somente eu com aquelas roupas de recém-chegado.
– Vem. – fez sinal para que a seguisse e fomos até o self-service. Tinha muitas opções de comida, como carne até o veganismo. Eu optei pelo macarrão com queijo, salada e um pedaço de bife de frango bem grande. , no entanto, pegou grão de bico, salada e um pouco de tofu.
– Você é vegetariana? – Perguntei seguindo para uma das mesas da lateral.
– Sim! – Ela concordou colocando a bandeja em cima da mesa. – Não como carne desde… desde o meu primeiro ano de faculdade. – Ela sussurrou.
– Por que está sussurrando? – Perguntei no mesmo tom que ela.
– Não podemos falar sobre nossas vidas passadas, não é proibido, mas também não é aconselhável. Algumas pessoas deixaram familiares para trás, então é perigoso falar sobre isso, se você ficar vai entender que existem pessoas que não são tão confiáveis aqui dentro. – Ela permaneceu falando em tom baixo.
– Entendi. – Concordei retirando os meus talheres de dentro do plástico. – Mas por que não come carne?
– Sinto repulsa, não consigo gostar mais do gosto. – Ela deu de ombros.
– Te colocaram como babá, ? – Uma voz masculina fez com que ambas levantassem a cabeça para olhar quem era. Meus olhos encontraram um menino alto e relativamente magro, podia perceber alguns traços musculares nos seus braços repletos de tatuagens. Ele usava uma blusa um número maior e calça preta. Seu cabelo estava cortado baixo, deixando maior somente na parte de cima, também podia ver uma tatuagem no seu pescoço e um brinco pendurado em somente uma orelha. Meus olhos encontraram os seus assim que ele se sentou de frente para mim, eram azuis bem claros. Confesso que ele era bem bonito.
– Não, Nikolai. Ela precisa de observação, seus ferimentos internos foram bem feios. – Ela respondeu revirando os olhos.
– Ah, ouvi falar de você. – Ele comentou me encarando. – É a menina francesa, do caminhão.
– Não sei do que está falando. – Respondi levando um pouco de macarrão até a boca.
– Como não? Ficou duas semanas dormindo. – Ele respondeu apoiando os braços em cima da mesa. – Vy ochen’ lenivy, verno? (Você é bem preguiçosa, né?)
YA ne lenivyy, menya dopilili. (Não sou preguiçosa, estava dopada.) – Respondi o menino com certo tom de deboche.
– Você fala russo?! – olhou para mim com os olhos arregalados.
– Não, por que? – Perguntei virando meu rosto na sua direção.
– Como não? Você acabou de falar! – Ela permaneceu insistindo.
– Não falei em francês? – Perguntei levantando uma das sobrancelhas.
Ne pritvoryaysya idiotom. (Não se faça de idiota.) – Nikolai respondeu revirando os olhos.
– Ok, isso é estranho, ele me chamou de idiota, porque estou entendendo o que você está falando? Eu não sei falar russo. – Balancei a cabeça negativamente, largando o talher no prato. – Me leva pra ala hospitalar! – Levantei da cadeira bruscamente.
– Ela vai surtar, estou gostando dela. – Nikolai riu da minha cara.
– Cala a boca, Nikolai! – o repreendeu e veio até mim, tentando me manter calma. – O impacto que você teve na cabeça pode ter influenciado alguma coisa, vamos ver o George, ele pode tentar explicar, não precisa ficar desesperada, ok? Tenta se acalmar, se não vai ter um ataque de ansiedade.

– Então foi de repente? – George perguntou enquanto analisava os exames que eu tinha feito do cérebro.
– Sim. – concordou também vendo o laudo.
– Antonella, o que a te explicou pode acontecer sim, apesar de eu não ver nenhuma atividade cerebral diferente. Até mesmo quando fez o teste com o Nikolai. – O menino tinha sido chamado até o leito para que pudesse falar comigo em russo e ver se teria alguma alteração cerebral.
– Tá, então do nada eu entendo russo? Fácil assim? – Perguntei cruzando os braços, enquanto encarava o médico sentada na cadeira de frente para ele do outro lado da mesa.
– Bom… sim. Mas esse processo pode passar, ou não. – Ele deu de ombros. – Mas é provável que passe, se não passar pelo menos o acidente te trouxe algo de bom.
– Excelente, é realmente muito bom tudo isso. – Ironizei a situação e levantei da cadeira, saindo da sala. Que merda estava acontecendo comigo?

Empurrei a porta que me falaram ser de Lenora e me deparei com a mulher pegando uma xícara de café da garrafa na parte de trás da sua mesa. Eram em torno de sete e pouco da noite. Ao escutar o barulho da porta, ela se virou calmamente com a xícara branca na mão direita.
– Ah, olá Antonella, sabia que iria aparecer ainda hoje. – Ela sorriu apoiando uma perna na mesa de madeira.
– Se eu aceitar a sua proposta, pra onde vai me mandar? – Perguntei cruzando os braços, ainda em pé.
– Como assim? – Ela perguntou levantando uma das sobrancelhas.
– Quero saber pra onde vai me transferir.
-Não vou te transferir, você ficaria aqui por um tempo. – Ela respondeu tomando um gole do café.
– Então não temos acordo. – Dei as costas para a mulher indo em direção da saída.
– Espera. – Ela me chamou colocando a xícara em cima da mesa. Eu parei e virei-me novamente, sem dar mais um passo. – Por que decidiu tão rápido? – Ela perguntou levantando uma das sobrancelhas.
– Acredito que você não precisa saber dos meus motivos, acho que só precisa saber que você roubou a minha vida quando me tirou daquele hospital e infelizmente, estou em dívida, não é por isso que as pessoas ficam aqui? Não me venha com o papo da livre e espontânea vontade, deve acontecer em uma porcentagem pequena de vezes.
– New York. Vou te mandar para a base de New York. – Ela finalmente respondeu sem parar de me encarar.
– Ótimo, é um bom lugar para recomeçar. Obrigada pelo seu tempo. – Forcei um sorriso e dei as costas novamente.
vai te dizer o que precisa fazer a partir de agora. – Foi só o tempo de eu escutar a informação e fechar a porta atrás de mim, voltando para o segundo andar.
Enquanto andava pelo corredor na direção do meu alojamento, gritou o meu nome nas minhas costas e virei-me para olhar, ela estava correndo.
– Minha nossa, a onde você se meteu? – Ela perguntou colocando as mãos nos joelhos, ofegante. – Te procurei pelo prédio todo.
– Fui falar com Lenora. Decidi ficar. – Cruzei os braços encarando os meus pés. Será que tinha sido uma boa decisão?
– Mentira! – olhou para mim surpresa e senti ela me abraçar forte, eu não sabia muito bem o que fazer, mas retribui o abraço. – Minha nossa, finalmente alguém que eu consigo conversar vai ficar!
– Bom… teoricamente não. Ela vai me transferir para New York.
– Mas já? Que injusto. – Ela cruzou os braços fazendo bico. – Sabia que lá é a segunda base com mais desenvolvimento tecnologia medicinal? Estão procurando alguém para ajudar, mas não querem me mandar pra lá, já tentei falar com George. “Não, você será mais útil aqui do lá.” – Ela tentou imitar a voz de George, estava péssima o que me fez rir.
– Desculpe por não poder ficar .
– Tudo bem, acontece com todos por aqui. – Ela deu ombros cruzando os braços. – Preciso te explicar como vai ser daqui pra frente então. Vamos precisar de um chocolate antes. – me deu as costas e voltou para o hall do dormitório. Eu me sentei em uma das poltronas e depois da menina pegar o chocolate, a mesma jogou uma barra de Snickers para mim e sentou-se na poltrona ao lado da minha, segurando uma barra de chocolate.
– Como eu já falei, agora você está morta, então vai ter que assumir uma nova identidade. No decorrer das missões vai ter identidades falsas, claro, mas precisa de um nome que os outros ghosts identifiquem você. Provavelmente amanhã Lenora vai te chamar pra fazer o contrato, e depois disso você vai ser transferida para New York. As coisas lá são bem diferentes daqui, mas de um jeito bom. – girava a poltrona com os pés de um lado para o outro enquanto conversava comigo. – Na verdade as outras bases são diferentes daqui. Quando eu fui para Londres eu tive treinamento, uma pessoa me ajudou a comprar roupas novas, tive aulas de manuseio de armas, mas vivia no setor medicinal, é o que eu faço de melhor. – Ela deu uma mordida na barra de chocolate. – Provavelmente vai acontecer o mesmo com você.
– Sabe, é estranho, em um dia estava no caminho de ser uma bailarina, agora… agora eu nem consigo achar uma denominação pro que eu vou fazer!
– Por que você escolheu entrar pro distrito? – Ela me perguntou colocou as pernas em cima da poltrona em forma de borboleta, de modo que seus cotovelos ficassem apoiados nos joelhos.
– Eu não quero ser a estranha que sumiu do hospital e voltou depois de duas semanas sabendo falar russo, fora que eu não devo ter mais casa e não tenho mais mãe, não tenho mais a minha antiga vida, o que me resta é ficar aqui. – Havia outros motivos também, mas ela não precisava saber.
– Bom, pelo menos você poderia xingar em russo e ninguém saberia. – Ela deu de ombros rindo.
– Não funciona assim. Quando aquele menino falou comigo, era como se eu tivesse a resposta na ponta da língua, mas não consigo encontrar as palavras certas agora. Parece ser de imediato.
– Você tem certeza que nunca estudou russo, pode ser quando era criança, sei lá.
– Não, minha mãe não tinha dinheiro para pagar esse tipo de aula, ela lutou tanto para me colocar no ballet. É impossível que eu tenha estudado russo. – Franzi o cenho terminando com o chocolate. Não era possível isso, era?
– Temos que voltar para o dormitório, daqui a pouco pegam a gente aqui. – se levantou da poltrona. – Pelo menos Nikolai fez algo que preste, “apresentou” o russo para você. – Ela riu fazendo aspas com os dedos.
– Ele é sempre inconveniente daquele jeito? – Perguntei levantando da poltrona e seguindo a menina que andava na direção do nosso quarto.
– Às vezes ele é legal, mas na maioria das vezes se esforça pra ser irritante.
Quando chegamos no quarto, fui ao banheiro escovar os dentes enquanto conversava comigo sobre a vez que visitou New York e os lugares que eu deveria conhecer, depois ela entrou para tomar um banho e eu fui deitar, não me lembro quando ela saiu, pois eu já tinha adormecido pensando no meu novo nome.

Era noite, provavelmente uma madrugada. Eu andava pela floresta calmamente, podia sentir a areia e neve nos meus pés, ainda caia alguns flocos de neve e fazia frio. Sentia um instinto animal dentro de mim, até que vi meu reflexo em um carro, eu estava em um corpo de um lobo, porém era como se apenas observasse. Sai de trás do carro e vi uma mulher de cabelos loiros ser arrastada por um homem bem alto e musculoso, ela tentava lutar contra ele, porém ele segurava os seus dois braços.
! – Ela gritava desesperadamente olhando na direção da porta. A mulher cravou os dentes no braço do homem e mordeu com força, fazendo-o soltar seus braços. A loira voltou correndo para dentro do recinto, porém o homem conseguiu alcançá-la.
Por instinto fui na direção do homem que segurava a mulher e mordi a panturrilha do mesmo com força, fazendo-o cair no chão com a mulher sobre ele. Enquanto arrastava o homem para dentro da floresta, olhei para dentro do recinto e vi uma garotinha ser arrastada para dentro por uma mulher, enquanto chorava desesperadamente. Em seguida, uma segunda pessoa veio na minha direção para ajudar o homem que lutava para segurar a mulher, quando vi uma arma ser apontada na minha direção.

Sentei rapidamente na cama ao levar um tiro no sonho e percebi que minha respiração estava ofegante, olhei para o lado e reparei que dormia profundamente. Meus sonhos tinham voltado, tinham 2 meses que não sonhava com aquele lugar, o rosto daquela mulher ainda ficava borrado, se a visse na rua só conseguiria distinguir seu cabelo se fosse o caso.
Voltei a deitar na cama e cobri meu corpo novamente, deixando apenas os braços para o lado de fora. Alguns sonhos não tinham significados, mas na maioria deles sempre aparecia um lobo e eu não fazia ideia o porquê.
Olhei para o relógio de ponteiro em cima da escrivaninha e percebi que ainda eram duas da manhã, suspirei alto e virei para o lado da parede para tentar voltar a dormir.

Acordei com as três batidas que deram na porta, quando eu e acordamos, a porta se abriu e eu sentei na cama.
– Lenora quer a novata na sala dela daqui dez minutos. – Um menino deu o recado colocando a cabeça para dentro e em seguida fechou a porta. Eu olhei para e ele levantou as mãos confusa.
– Talvez seja sobre o contrato. – Minha colega de quarto esticou os braços para cima se espreguiçando e eu levantei da cama.
– Eu não gosto daquela mulher, ela me traz uma sensação ruim. – Resmunguei indo até o banheiro com os meus pertences. Precisava de um banho antes de encará-la, e começar um dia sem um banho não era um bom começo.
Quando sai do banheiro não estava mais no local, provavelmente tinha ido tomar café, já que eram seis horas da manhã. Tomei meus remédios e dei uma olhada rápida no espelho, até que a calça jeans tinha servido bem, a camisa branca tinha ficado enorme como a do dia anterior. Sai do local e subi para o andar da administração, onde ficava a sala da diretora do distrito, se podia chamá-la assim. Bati na porta duas vezes e girei a maçaneta ao escutar um “entre”. Lenora estava sentada na sua poltrona de couro, lendo algum documento.
– Pediu para me chamar. – Respondi indo até o meio da sala.
– Sim, sim, chegou em boa hora. – Ela levantou a cabeça e olhou para mim com um breve sorriso no rosto. – Precisamos resolver a papelada. – Ela retirou uma pasta de papel da gaveta ao lado dela e abriu a mesma na minha direção. Em me sentei na cadeira e peguei o papel de dentro da pasta.
– O que significa exatamente? – Perguntei começando a ler o contrato.
– Significa que você está se juntando ao distrito por livre e espontânea vontade e que se algo acontecer, nós não temos nenhuma responsabilidade sobre, incluindo se sua antiga identidade for descoberta.
– Entendi… – Falei ainda lendo o documento.
– Você não precisa ler o documento inteiro. – Pelo canto do olho percebi que ela havia revirado os olhos.
– Claro que preciso, vai que estou vendendo a minha alma para o diabo. – Dei de ombros sem retirar os olhos do documento. Lenora forçou um sorriso. Depois de alguns minutos coloquei o documento sobre a mesa e voltei a me encostar na cadeira. – Só tem uma coisa de errado.
– O quê? – ela franziu o cenho, pegando o papel de cima da mesa para analisá-lo.
– Quero que vá comigo.
– Acho que você não está em posição de pedir coisas. – Ela me olhou colocando o documento de volta em cima da mesa.
– Acho que vocês precisam mais de mim, do que eu de vocês. – Cruzei os braços tombando a cabeça para o lado. – Se não for comigo, eu não assino o contrato.
– Por que isso de repente? – Ela se ajeitou na poltrona cruzando as pernas.
tem me ajudado muito aqui, ela me mostrou tudo e falou sobre tudo, fora que não quiseram mandar ela para New York há alguns anos atrás. – Dei de ombros.
– E se eu falar não? – ela arqueou uma das sobrancelhas.
– Eu não assino o contrato e você nunca mais vai me ver novamente. Vocês não me trouxeram pra cá à toa e você não insistiria para que eu ficasse se eu não fosse útil.
Lenora cruzou os braços e ficou me encarando durante alguns segundos. A mesma se inclinou e apertou um botão do telefone.
– Peça para vir para a minha sala. – Assim que o recado foi dado e ela retirou o dedo do botão.
– Obrigada. – Abri um largo sorriso e peguei o documento na mão. – Onde eu assino?
– Você vai me dar a sua digital. – Ela estendeu o abridor de cartas na minha direção e eu franzi o cenho, estranhando. – Assinaturas podem ser falsificadas, é só uma precaução. – Ela deu de ombros.
-Tudo bem. – Concordei pegando o abridor da mão dela, encarei o mesmo por alguns segundos e espetei a ponta no polegar, deixando uma certa quantidade de sangue fluir, até eu encostar o dedo no papel que estava sobre a mesa. Confesso que fiquei um pouco receosa, ela poderia muito bem me envenenar daquela maneira e todo cuidado era pouco. – Pronto. Faça bom aproveito. – Levantei da cadeira e dei as costas para a mulher, indo até a saída.
– Sabe Antonella, finalmente está dando as caras, aquela menina fragilizada que chegou aqui não me enganou nem um pouco. – Lenora comentou apoiando as mãos sobre a mesa.
– Acho que nisso somos parecidas Lenora, você também não me enganou. – Antes de abrir a porta, virei o corpo de lado e encarei os olhos castanhos da mulher. – E não é Antonella, é . – Abri um leve sorriso e saí do recinto rumo ao refeitório, afinal precisava comer. Eu me sentia mais leve, e não tive nenhuma dúvida quanto ao nome, eu sentia que tinha alguma ligação com o nome, por que iria aparecer logo nos meus sonhos? Eu me sentia extremamente confortável.

Capítulo 04

– Por que não me relatou que a Antonella teve uma consulta com você ontem? – Lenora estava na minha frente, ela não me parecia irritada, na verdade, parecia um pouco sim. Ela estava obcecada pela menina, e pelos anos que eu trabalhava ali, entendia perfeitamente o porquê.
-Não achei que fosse necessário. – Respondi enquanto olhava os prontuários dos pacientes que estavam em seus respectivos leitos.
– Eu pedi para você me passar tudo. George, você mais do que ninguém compreende a importância desses relatórios, se essa garota se lembrar do que realmente é relevante pra vida dela, caímos em desgraça! – Ela estava começando a ficar realmente irritada.
a trouxe ontem à noite, quando sofreu o impacto no acidente, de alguma forma, o lobo frontal do cérebro dela que é responsável pela linguagem relembrou sua habilidade de aprender um novo idioma. E pelo visto, ela sabe falar russo muito bem. – Respondi sem olhar nos olhos da minha superior.
– É claro que ela sabe falar russo. – Ela riu sarcasticamente. – O pai dela fez questão de dar uma boa educação para a garota, afinal, ele tinha objetivos claros. – Ela bufou revirando os olhos. – Você reverteu isso, certo? Não podemos deixar nenhuma ponta solta, não é à toa que temos ciência de ponta. – Ela cruzou os braços na minha frente, esperando por respostas. Não, eu não fiz Lenora.
– Claro, o procedimento foi simples. Falei que precisava realizar alguns exames, foi fácil de colocá-la para dormir. – Respondi retirando o olhar do prontuário e encarando a mulher na minha frente. – Mais alguma coisa? – Eu não havia feito porque não mudaria em nada, Antonella nem iria se questionar tanto sobre o novo idioma. Seria indiferente para ela. Lenora não entendia nada sobre o cérebro humano e os tipos de memórias, ela sabia que aquele procedimento tinha falhas, não havia como apagar tudo 100%, e também não podia garantir que elas não voltariam.
– Não, isso é tudo. Ainda assim quero um relatório na minha mesa. – Ela deu as costas e saiu a minha sala. Eu soltei a caneta e encostei as costas na cadeira, respirando fundo. Eu não a suportava, quando Richard estava no comando tudo era mais fácil, trabalhar com aquela mulher era exaustivo.


– O que você está fazendo aqui? – perguntou ao ver Nikolai aparecer no heliponto com uma mochila nas costas.
– Gostou da surpresa? – Ele respondeu sorrindo para a menina.
– Você vai com a gente? – Perguntei segurando a bolsa preta que haviam me dado no primeiro dia, eu ainda estava vestindo roupas além do meu tamanho, estava me incomodando o fato daquele lugar não ter roupas decentes.
– Sim, até parece que Lenora deixariam vocês duas irem sozinhas. – Ele sorriu com deboche.
– Vocês têm mais uma no gr… grupo? – Uma menina que tinha traços asiáticos veio na nossa direção, após chegar no heliponto. Ela parecia ter uma pouco de dificuldade quanto ao inglês.
– Virou passeio escolar? – Nikolai estreitou os olhos para a garota.
– Você seria o mais burrinho da classe. – disse entre os dentes para o garoto que mostrou o dedo do meio para ela.
. – . Agora esse era o meu nome. Ainda não tinha me acostumado com isso. – Essa é Saori. Ela também chegou recentemente.
– Prazer! – Cumprimentei a menina que sorriu.
– Não vai me apresentar também? – Nikolai resmungou olhando feio para .
– Não vale a pena. – Ela deu de ombros.
– Ótimo, vejo que todos chegaram. – Lenora apareceu no heliponto vindo na nossa direção calmamente, enquanto se protegia do frio com um enorme casaco de pele. Ela estava acompanhada de George. – Todos já devem se conhecer, então vamos pular essa parte. Estou enviando vocês para New York por necessidade, Nikolai tem uma ótima habilidade na direção, Saori para tecnologia e está indo com a intenção de ajudar na medicina e bom… precisa melhorar as habilidades dela. – Ela me encarou com certo desdém. Vaca. Minha mente praticamente gritou, eu não gostava definitivamente daquela mulher. – Teoricamente estão indo como uma equipe, mas dependendo do que o superior de vocês lá em New York decidir, as coisas podem mudar. Espero me arrepender dessa escolha. – Ela me encarou no fundo dos outros e retribui, sem desviar um segundo sequer. – Enfim, façam somente o trabalho de vocês. – Ela deu as costas e saiu andando na direção do elevador que a levaria de voltar a sua sala.
George chamou para uma conversa particular e entramos dentro do helicóptero que nos levaria para o aeroporto mais próximo, onde pegaríamos um avião para New York. Nikolai parecia segurar o banco com força, mas eu ignorei. Após alguns minutos, entrou no helicóptero e levantamos voo em direção de um lugar que eu não fazia ideia de como era. De certo, modo aquilo me desesperava, estava sentindo minhas mãos suarem.
– Quem mais está satisfeito de ter saído desse inferno? – Nikolai olhou para a base principal se afastando cada vez mais de nós, seu peito subia e descia com o ritmo acelerado, ele parecia ofegante, o que estava acontecendo com ele? Seu semblante parecia normal. Eu olhei para que aparentava de ter tido alguma coisa, ela parecia mais tranquila, seu corpo não estava tão… rígido. – Ouvi dizer que esse lugar não era tão ruim, foi depois que Lenora pegou o comando que a merda aconteceu. – Ele murmurou se ajeitando no banco.
– Como assim? – Saori perguntou confusa.
– Você é novata, não entenderia. deve entender, afinal ela ficou anos ali.
– Onde você escutou isso, Nikolai? – Ela levantou uma das sobrancelhas, duvidando do comentário da menina.
– Os próprios funcionários falam isso. – Ele deu de ombros.
O restante da viagem foi um verdadeiro silêncio. Quando pousamos no aeroporto seguimos para o jatinho que iria nos levar para New York, provavelmente era uma das regalias que tínhamos. Nossas bagagens foram colocadas no bagageiro dentro do avião e me sentei em uma das poltronas bege. Eu havia andado de avião uma vez, dois anos atrás quando fui com a companhia de ballet para a Itália. Nikolai por outro lado parecia meio… desconfortável.
– O que foi? Você está estranho desde o heliponto. – Perguntei para o menino na poltrona ao lado, estávamos separados por um pequeno corredor. Ele segurava na poltrona com força, podia ver pelas suas mãos.
– Nada. – Ele olhou feio para mim. – Você é bem enxerida.
– Espera. – Eu me ajeitei na poltrona virando o corpo para o lado para que pudesse vê-lo melhor. – Você tem medo de altura? – Eu perguntei surpresa enquanto ria da cara de pavor do menino.
– Não, eu não tenho medo de altura. – Ele respondeu como se fosse algo óbvio.
– Nikolai… – olhou para o menino esperando que ele confessasse. Ela estava sentada de frente para mim.
– OK! Eu tenho medo de altura, tá legal? – Ele revirou os olhos e sentimos o jatinho começar a andar pela pista. – Inferno! – Ele praguejou ao sentir o avião se locomover. Eu e as duas meninas que estavam viajando comigo riram alto.
– Achei que seu dom para pilotar era para qualquer veículo. – o provocou.
– Óbvio que não! Eu não confio em coisas que voam, exceto por carros que por uma fração de segundo podem sair do chão devido uma rampa, uma coisa é dirigir um carro, outra é ficar há quilômetros de distância do chão! – Ele dizia entre os dentes.
Eu não estava me aguentando com toda aquela cena, quando o avião tomou impulso para decolar, Nikolai arregalou os olhos e permaneceu imóvel, assim que tomamos altitude, o avião se estabilizou.
– Viu? Foi super tranquilo. – Saori disse com tranquilidade, cruzando as pernas. Não havia reparado muito bem na menina até aquele momento, suas sobrancelhas estavam bem feitas e o seu cabelo era liso na altura do ombro, de tom preto, a pele do seu rosto era impecável, havia somente uma pinta próximo da boca.
– Não vou ficar satisfeito enquanto meus pés não tocarem o chão. – Ele resmungou ainda imóvel na poltrona.
– Então aguenta que vem onze horas de viagem pela frente. – murmurou, reclinando a poltrona. Eu fiz o mesmo que ela, ainda estava de cinto, mas apoiei os pés na poltrona, fechei os olhos e suspirei, deixando meu corpo descansar dos dias loucos que vivi nas últimas semanas.


Russkaya poddelka. (Falsa russa). – Nikolai balançou o meu corpo, fazendo-me despertar. Ao abrir os olhos, o vi em pé ao meu lado.
– Chegamos . – falou retirando o cinto. Estava explicado o porquê de Nikolai estar de pé. Eu estava tão cansada que as onze horas de viagem passaram extremamente rápido, mas eu me sentia mais renovada, era a primeira vez que tinha conseguido realmente descansar.
Quando o avião terminou de estacionar, eu levantei da poltrona e peguei minhas coisas no bagageiro, em seguida segui junto dos meus companheiros para fora da aeronave, por algum motivo não precisávamos passar pela alfândega.
– Algumas vezes não precisamos ser identificados, é um dos privilégios que temos. O próprio piloto identifica o distrito e somos liberados, afinal, meio que somos protegidos pelo governo. – explicou enquanto andávamos para dentro de um veículo preto. – Fora que você ainda não possui documentos falsos.
Realmente, não tinha parado pra pensar naquele detalhe. Ao entrarmos no carro, o motorista seguiu para fora do aeroporto pegando a principal. Pra ser sincera, acho que ninguém ali sabia exatamente para onde estávamos indo, exceto por . Eu permaneci em silêncio, enquanto e Saori conversavam, não prestei atenção no assunto, pois estava entretida demais com os prédios que passavam diante dos meus olhos. Eu não fazia ideia de que horas eram, chutava para a tarde devido o dia claro e o fluxo de pessoas, o céu tinha poucas nuvens e estava fresco, não muito frio, inclusive ninguém usava mais as roupas de frio que era preciso na Eslovênia.
Depois de alguns minutos, finalmente, o veículo parou, saltamos do carro e olhei para cima, estava ao redor de vários edifícios, todos eles com um aspecto antigo. O motorista pediu para que nós o acompanhássemos e seguimos para dentro de um prédio o qual o acesso era somente por biometria que ficava localizado bem na maçaneta. Assim que entramos no local, um enorme hall apareceu diante de nós, o interior era bem mais moderno que o externo. Havia dois elevadores à minha direita e uma mesa redonda de madeira com um lustre no centro, no fundo do recinto havia uma porta enorme de madeira, para onde fomos encaminhados a seguir.
Ao passar pela porta, dei de cara com um jardim externo, confesso que fiquei um pouco confusa, mas ao olhar ao redor, reparei que aquele jardim estava em volto de outros prédios, era um ponto comum entre todos eles. Depois de encarar bem, reparei aquilo tudo era um prédio somente, todos eles eram interligados. Assim que atravessamos o jardim entramos em um outro prédio, dessa vez pegamos o elevador e subimos para o décimo-primeiro andar.
– Que lugar quieto… – Saori murmurou.
– Não muito diferente da onde estávamos. – Nikolai deu de ombros.
– Lá, pelo menos, podíamos escutar as pessoas conversando, aqui parece não ter ninguém. – estava encostada na parede do elevador.
– Esse é o prédio administrativo, por isso é tão quieto. – O nosso acompanhante explicou. Ele também não era muito de conversar.
Assim que as portas do elevador se abriram, nos deparamos com uma enorme sala, na verdade, parecia um escritório, a pessoa que trabalhava ali tinha uma visão privilegiada de New York. Reparei que haviam cinco pessoas na sala, o homem sentado na poltrona de uma mesa grande de madeira e mais quatro pessoas nos sofás no centro da sala. Um homem e três mulheres.
– Finalmente chegaram! – Um homem de idade levantou da cadeira ao nos ver sair do elevador. Ele tinha a barba e os cabelos grisalhos, mas estava em forma. – Sejam muito bem-vindos ao Distrito 14!
– Obrigada…? – Murmurei levantando umas das sobrancelhas, as quatro pessoas sentadas no sofá simplesmente nos encaravam sem nenhuma reação.
– Me chamo , eu sou o diretor geral daqui. Confesso que foi uma surpresa vocês terem sido transferidos para cá, principalmente duas recém-chegadas… – Ele me encarou e a Saori de forma curiosa, e eu troquei o peso do corpo de um pé para o outro.
– Eu sou , essa é a Sel… – ia começar a nos apresentar, mas o homem fez sinal para que parasse.
– Lenora mandou a ficha de vocês. Já conheço um pouco de cada um. Você e o Nikolai são bem habilidosos, mas preciso que treinar essas duas. – Ele fez menção para mim e Saori. Estava me sentindo um feto, ainda em desenvolvimento. – Seus mentores vão mostrar o lugar e te ajudarem no que for preciso. fica com Olivia na ala médica. – Ele apontou para a mulher de cabelos platinados sentada no sofá. – Nikolai com Bárbara. – A menina de cabelo rosa ao lado de Olivia. – Saori com Jennifer. – Ela provavelmente era japonesa como Saori, mas não tinha certeza. – E com . – Meu olhar parou por último no menino de cabelos pretos com os lados raspados, seus olhos eram castanhos bem escuros e bom… ele tinha um físico muito bom. Estava de calça jeans, uma blusa cinza e botas de couro. – Os treinos serão feitos separadamente, então vocês devem se ver somente no tempo livre. – Eu e nos entreolhamos rapidamente. – Estão liberados, em breve vejo vocês.
Espera, era só isso? O meu tutor levantou-se do sofá pegando uma pasta na mesinha entre os dois sofás e seguiu para o elevador. As mulheres vieram ao encontro dos meus amigos e se apresentaram mais adequadamente, aquele homem iria me deixar ali plantada? Eu olhei para trás e ele entrou no elevador.
– Quando eu ando, você anda. – Ele murmurou por cima do ombro, segurando a porta do elevador. Comment c’est? Peguei as minhas coisas e fiz um breve aceno para que retribuiu. Corri até o elevador e entrei junto do meu mentor, ficando lado a lado dele. Um silêncio mortal invadiu aquele lugar enquanto descíamos para térreo, pelo canto do olho reparei que a pasta que ele lia tratava-se de mim, havia uma foto minha no canto. – Você sofreu um estrago grande… hm… . – Ele respondeu após procurar meu nome na pasta.
– O meu tutor mal sabe o meu nome… – Murmurei revirando os olhos.
– Me chamaram de última hora, quero deixar bem claro que não estou feliz com isso. – Ele olhou para mim pelo canto do olho. – Mas é um ato de caridade.
– Ótimo, então acho que tivemos a mesma impressão um do outro e eu não preciso da sua bondade. – Estreitei os olhos para o homem que ergueu uma das sobrancelhas.
– Então irá morrer rápido. E eu não falei que tive uma impressão errada de você, somente que não gostei de ser chamado pra ser babá. – Ele deu de ombros e saiu do elevador assim que o mesmo se abriu. Eu permaneci imóvel. Paguei pela minha língua. Quem manda ser respondona? – Você não me escutou falar que quando eu ando, você anda? – Ele olhou para trás com impaciência.
– Na verdade, eu escutei. – Balancei a cabeça encostada na parede do elevador. – Mas eu não sou uma cachorrinha pra você ficar mandando em mim dessa maneira. – Murmurei saindo do elevador lentamente.
– Enfim, não tenho tempo pra isso. Essa aqui é a sua programação. – Ele retirou uma folha de dentro da pasta e me entregou. Em uma olhada rápida, eu só tinha tempo livre nos fins de semanas. – Você já sabe que meu nome é , geralmente não sou tutor, mas por algum motivo me designaram pra ser sua babá. – ele bufou andando pelo corredor. Pude perceber que o jardim não era o único local que tinha acesso para os prédios, haviam corredores no térreo que facilitava uma melhor locomoção.
– Pelo visto vamos passar muitas horas do dia juntos. – Falei baixinho enquanto observava o papel nas minhas mãos.
– Se você chegar no ponto que não aguenta mais ficar aqui, é porque eu fiz um ótimo trabalho… – Ele olhou para mim pelo canto do olho e deu um sorriso provocador. Eu revirei os olhos e permaneci seguindo o menino.
– Uma das coisas que você vai descobrir é que eu sou bem insistente. – Porque ele me parecia um douchebag?
– Vou te apresentar o lugar hoje e espero que tenha memória fotográfica, pois aqui é bem grande. – Paramos diante de um segundo elevador e eu fiz uma careta ao perceber que a locomoção ali era bem irritante, nada era amplo, na verdade as coisas eram amplas na vertical, em Paris eu me sentia mais… livre. – Amanhã começamos com a rotina e vou ver se você realmente é insistente como diz ser. – Ele piscou para mim e entrou no elevador encostando as costas na parede da máquina que nos levava para cima. Eu não havia ficado constrangida pela piscada, sabia que ele estava me provocando, extremamente típico.
– Todos os prédios vão até o décimo quinto andar? – Eu perguntei levantando uma das sobrancelhas.
– Sim. E três andares subterrâneos, onde você vai passar a maior parte do tempo. – Ele cruzou os braços ainda segurando a pasta com informações sobre mim.
– Como assim?
– Ao todo são 4 prédios interligados pelo térreo. O bloco A era onde estávamos, a administração. O bloco B é onde estamos agora, dormitórios, recreação e refeitório. Os 10 primeiros andares possuem 4 dormitórios cada, você está no nono andar junto dos seus amigos, tiveram sorte de terem dormitórios para todos vocês.
– Por que? Esse lugar é tão disputado assim? – Lembrei da conversa que tive com da época que ela queria ser transferida, mas Lenora não havia deixado.
– Cada distrito tem uma maneira diferente de lidar com os agentes. Aqui as coisas são um pouco mais liberais, é por isso que tantos querem vir pra cá. – Ele deu de ombros saindo do elevador e parando diante de uma porta escrito 9-2. Provavelmente significava o andar e o número da porta entre os quatro no local. retirou uma chave do bolso e me entregou. – Não se sinta tanto em casa.
– Você sabe qual é a porta da ? – Perguntei destrancando a porta com a chave que ele havia me dado.
– Não procurei saber, ela não é minha obrigação. – Ele deu ombros e apoiou o corpo na barra da porta, após eu entrar.
– Você é irritantemente grosso. – Murmurei jogando as minhas coisas em cima da cama.
Esse dormitório era maior e bem mais aconchegante que o de Bled, assim que entrei no quarto, reparei na cama de casal que ficava no centro de frente para a porta, no lado direito da cama estava uma porta branca com um sofá ao lado e no lado esquerdo, uma janela com uma cômoda. Na parede da porta ficava uma escrivaninha com alguns ganchos presos para possíveis casacos.
– Já recebi elogios melhores. – Ele ironizou, observando-me abrir a porta entre o sofá e a cama, revelando ser um banheiro.
– Vamos ter bastante tempo pra eu pensar em vários outros. – Dei de ombros. – Vai me mostrar o restante do lugar ou ficar aí na porta me admirando? – Levantei uma das sobrancelhas voltando para perto da porta. Eu não conseguia aguentar o meu lado irônico.
– Com essas roupas, é difícil admirar alguma coisa. – Ele riu da minha cara dando as costas para mim. – Eles pegaram essas roupas nos achados e perdidos? – Eu sabia que elas eram uns quatro tamanhos maior que eu, não entrava na minha cabeça aquele lugar sempre receber pessoas e não ter uma roupa do meu tamanho.
– Eu cheguei no distrito sem nada, vai me dizer que você não se lembra de quando entrou? – Perguntei saindo do dormitório, trancando a porta atrás de mim.
– Está fazendo perguntas demais. – Ele respondeu apertando o botão do elevador. – O último andar fica o refeitório, os outros são andares são mais pra passar o tempo livre, lazer e entre outras coisas. – Ele havia dado um corte bem perceptível no assunto, eu dei de ombros e entrei novamente no elevador pra um tour.

O bloco C era a área da médica, onde passaria todo o seu tempo. Segundo , ali eles faziam experimentos e atendiam os agentes. O bloco D era de interesse da Saori, parece que ela tinha grande potencial em tecnologia e ali era a onde nossos rostos eram apagados da internet, filmagens e de qualquer lugar que fôssemos reconhecidos, além do mundo todo estar sendo vigiado ali.

– Por fim, o subterrâneo, onde você vai passar boa parte do tempo, como já falei. – Ele falou ao entrar em uma sala enorme, com os mais diversos tipos de equipamentos pra treinamento, do saco de pancadas até um local com hologramas, onde uma menina treinava com duas pistolas. – Os dois andares abaixo de nós são os armamentos e a garagem. Onde provavelmente o Nikolai estaria.
– Porque me designaram pra cá? – Respondi olhando ao redor, eu não tinha muita habilidade naquilo, eu era bailarina, jamais tinha pego uma arma na vida.
– Não sei, só estou cumprindo ordens. – Ele deu de ombros sentando sobre uma mesa de metal com vários equipamentos de combate. – Você era bailarina, certo? – Ele perguntou encarando os meus olhos.
– Que eu saiba informações da minha vida passada, ficam lá no passado. – Respondi estreitando os olhos. O garoto suspirou e bateu a mão duas vezes sobre a pasta que havia carregado o dia inteiro. É claro que ele sabia. – Sim, eu era bailarina. – Concordei com desgosto, de certa forma eu estava incomodada por ele saber tudo sobre mim.
– Até onde eu sei, balé requer disciplina e você provavelmente deve ter bastante flexibilidade, você é loira, tem um olhar marcante, e não posso falar nada do corpo porque não consigo ver por debaixo… disso. – Ele apontou para as minhas roupas e eu cruzei os braços, encarando o menino com desdém. Ele estava querendo chegar a onde? – Você não serve pra ficar por trás das câmeras, te querem em campo, é por isso que você está aqui.
– Como é? – Levantei uma das sobrancelhas, ele tinha reparado tudo isso em menos de uma hora? Aliás, da onde ele tinha tirado tudo aquilo? Balancei a cabeça negativamente, aquela naturalidade dele me tirava do sério. – Do jeito que você falou parece que me querem como uma isca sexual.
– Não, é uma isca para matar. – Ele apoiou os antebraços sobre as coxas, ainda me encarando. – Você só está usando suas habilidades para chamar a presa. – Ele deu um sorriso ladeado. – Mas até você aprender tudo o que precisa e ir pra campo, vai demorar. – Ele suspirou levantando da mesa se aproximando de mim com as mãos no bolso da calça jeans. – Até lá, você vai ter se acostumado com a ideia de atirar em alguém, porque através dos seus olhos só consigo ver uma garotinha assustada. Está dispensada, não quero atrasos amanhã. – Ele pegou a pasta de cima da mesa e foi na direção da saída.
– Mas… isso faria de nós o quê? Os bons ou os maus? – Perguntei virando-me para trás, para que pudesse olhar o garoto.
– Depende da perspectiva. – Ele respondeu apertando o botão para fechar o elevador.

Eu sentia uma leve sensação que estava fudida. Bufei e revirei os olhos, prendendo o cabelo em um coque, precisava organizar meus pensamentos. Bom, eu não podia mudar de área porque simplesmente não tinha habilidades com medicina e muito menos entendia de tecnologia com a Saori, dirigir então? Muito menos, eu sabia dirigir, mas ser piloto de fuga daria problema. tinha razão, balé também implicava com disciplina e como eu tinha flexibilidade seria muito mais fácil aprender a lutar, além disso, parecia legal…
Parei de andar de um lado um lado para o outro e encarei as armas em cima da mesa, será que aquilo era realmente necessário?

pode ser um pouco difícil de lidar às vezes, mas é um dos melhores agentes daqui. – Uma voz veio das minhas costas e me virei para olhar. Era a menina que treinava com os hologramas quando cheguei. – Sou Elena, é um prazer. – Ela sorriu deixando as armas em cima da mesa.
– Estava treinando com elas? – Perguntei me referindo as armas em cima da mesa. – Desculpe, sou . – Estiquei o braço para cumprimentá-la e ela retribuiu com um breve sorriso.
– Estava sim, e pelo visto você parece estar meio apavorada com isso. – Ela riu apontando para os diversos tipos de armas.
– Eu nunca segurei uma arma antes, é um pouco aterrorizante saber que eu vou ter… bom…
– Matar? – Ela levantou uma das sobrancelhas.
– Sim. – Concordei sentando no espaço que antes estava tomado por .
– Olha, no começo eu também não estava familiarizada com essa ideia, mas tem pessoas que são extremamente ruins, só fazem merda no mundo, não colaboram em nada para que as coisas melhorem e acaba que o trabalho sujo sobra pra gente. Não é à toa que somos dados como mortos. Além disso, não é sempre que você vai precisar matar alguém, às vezes é só retirar uma informação, ou dar um susto, uma ameaça… depende da missão. Nós só cumprimos ordens, se não quem acaba morrendo somos nós. Essas armas… – Ela apontou para os equipamentos em cima da mesa. – Podem ser suas melhores amigas, porque vão existir pessoas que também querem te matar e sem elas, você vai acabar morta de verdade.

Elena não estava errada, as pessoas presentes ali olhavam pra gente tentando disfarçar, mas era perceptível que eu era uma nova isca. Eu tinha aceitado entrar pro Distrito, então eu deveria seguir as regras e o que fosse me dado como trabalho, era uma consequência, eu era uma carne nova, e desde que eu havia saído da ala médica em Bled, um sinal de alerta ecoava dentro de mim, eu olhava para Elena, mas não sentia confiança, ela não transmitia aquilo, nenhuma daquelas pessoas na verdade. Eu estava no meio de um matadouro, e diante disso, era tudo ou nada pra sobreviver.

Capítulo 05 – Às vezes a vida me acerta em cheio com uma pancada. Karen é personificação da vida.

, favor comparecer ao terceiro andar da administração, sala dois. , terceiro andar da administração, sala dois.”

Eu estava indo em direção ao meu dormitório quando escutei o meu nome ecoar pelo corredor, ao reparar bem no local observei que haviam caixas de som embutidas no teto para avisos como aquele. Mudei a minha rota e segui para o andar da administração. A conversa com Elena minutos atrás passava e repassava na minha cabeça, mas eu estava começando a lidar melhor com aquilo.
Assim que cheguei no lugar a qual fui chamada, bati duas vezes na porta e girei a maçaneta, colocando somente o rosto para dentro do cômodo que me chocou.
– Meu Deus… – Murmurei abrindo a porta por completo e dando de cara com um enorme atelier, várias roupas estavam penduradas nas araras, além de penteadeiras com diversos tipos de material para beleza. Era o sonho de qualquer mulher. Nas prateleiras tinham sapatos e joias guardadas em armários com lacres digitais.
– Ah, finalmente! – Um homem com uma echarpe respirou aliviado ao meu ver. Ele estava separando várias peças de roupas simples e colocando sobre um balcão. – Recebi um pedido de socorro e olhando para você, é um caso urgente. – Ele colocou a mão sobre o peito ao me olhar de baixo pra cima. – Quando me falou achei que não fosse tão sério.
– Pera. Quem? ? – Levantei uma das sobrancelhas saindo do transe de estar em um lugar tão maravilhoso.
– Ele mesmo, darling. Ele pediu minha ajuda pra te dar roupas novas, da onde você veio tinha ogros pra usarem roupas desse tamanho? – Ele perguntou incrédulo.
– Da onde eu vim provavelmente não tinha um lugar como esse. – Comentei me aproximando do homem loiro. Ele era um pouco mais baixo do que eu e bem magro, aparentava ter a idade acima dos trinta.
– New York é diferenciada, estar em New York você não tem que estar simplesmente vestida para arrasar, tem que estar vestida para matar. – Ele piscou um dos olhos para mim e sorriu. – Vai até aquela penteadeira e pega o que você quiser, não posso deixar uma mulher sair daqui sem suas armas da beleza. Já deixei algumas necessaires vazias para você.
– Tudo bem. – Soltei uma risada baixa e fui até as duas penteadeiras que ele havia apontado. – Aliás, qual o seu nome?
– Me chamo Marco. – Ele respondeu ainda separando peças de roupa. Peguei a necessaire transparente que ela havia separado e mordi o lábio inferior observando as maquiagens sobre a mesa.

Se me perguntassem antes qual tipo de maquiagem eu usava, diria tons leves, mas por algum motivo os tons mais escuros chamaram a minha atenção. Resolvi pegar uma paleta de cada tonalidade e foi a mesma situação com os batons. Testei as bases procurando a melhor que se adaptaria a minha pele e coloquei dentro da necessaire, junto de rímel, blush, delineador e mais algumas outras coisas, eu não tinha muita prática com aquilo, então no tempo livre precisaria me esforçar para aprender.

– Qual número você calça? – Ele perguntou indo até as prateleiras dos sapatos.
– Trinta e sete. – Respondi voltando para perto do homem que analisava os sapatos e olhava para mim.
– Bom, você vai precisar de tênis. – Ele pegou dois pares de tênis, ambos pretos e discretos e me entregou. – Botas. – Um par de botas de cano baixo foi colocado nas minhas mãos. – Um chinelo… acho que azul. – Eu não estava dando mais conta de segurar todos aqueles pares. O chinelo era bem bonito e delicado. – Acho que por enquanto é isso. – Ele olhou para mim e para a quantidade de roupas em cima do balcão. – Pode deixar tudo aí que eu vou pedir pra levarem pro seu dormitório. Pedi para que viesse mesmo por conta disso… – Ele foi até outro armário e puxou uma gaveta, onde retirou uma sacolinha rosa de cetim.
– O que é isso? – Perguntei franzindo o cenho, enquanto ele abria a sacola.
– Informações. – ele retirou um passaporte e a minha identidade. – Como aqui somos identificados somente pelo primeiro nome, tivemos que improvisar o seu sobrenome e o restante das informações, como a sua idade. – Eu era um ano mais velha naquela identidade. – Agora o mais importante. Temos algumas regras quanto ao uso do celular. – Ele retirou a caixa de um iPhone fechado de dentro da sacola e colocou diante de mim. – Você sabe que temos tecnologia de ponta, então caso entre em contato com algum familiar, você será penalizada, e sinceramente, eu não gostaria de saber o que é, porque não tive notícias boas quanto a esse tipo de pena. Sem redes sociais. Seu chip é para ligações corporativas, entendeu? Corporativas. Se algum caso você precisar colocar o seu nome em alguma coisa, coloque informações falsas, para não te rastrearem. Ok? – Ele colocou tudo novamente dentro da sacola e fechou. – , esse pessoal aqui leva a sério a questão de segurança, os contatos que precisa já estão salvos no seu chip, sem mais e nem menos.
– Tudo bem… – Murmurei concordando com positivamente com a cabeça. A parte de segurança tinha ficado bem clara. – Marco, posso te pedir um favor? – Perguntei ao me lembrar de um pequeno detalhe.
– Depende amor. – Ele virou-se para mim, curioso.
– Poderia me arranjar sapatilhas de balé? – Abri um sorriso sem graça. Eu não tinha mais sapatilhas, e eu iria sentir falta dos meus treinos, no tempo livre por que não praticar?
Para a minha surpresa Marco também tinha sapatilhas de balé, para quê? Eu não fazia ideia. Provavelmente alguma garota poderia precisar para realizar uma missão. Eu saí daquela sala completamente equipada, na verdade eu estava levando uma muda de roupa somente, porque o restante iria ser analisado por ele e enviado para o meu quarto. Segundo Marco ele ainda poderia selecionar mais algumas roupas.
Como estava próximo do horário da janta, corri para o meu dormitório onde tomei um banho descente, já que estava desde a viagem sem um banho. Marco também tinha me liberado de trazer a necessaire, então fiz a minha higiene bucal e comecei a passar o pente entre os meus fios loiro-escuros, enquanto me analisava no espelho do banheiro.

– Você vai sair assim? – Minha mãe me perguntou ao me ver de batom vermelho.
– Qual o problema? – Eu perguntei me olhando no espelho do banheiro.
– Chamativo demais. Bailarinas não devem chamar atenção. – Minha mãe começou a falar enquanto pegava um pedaço de papel higiênico para retirar o meu batom.
– Mas mãe… – Eu retruquei e ela olhou feio para mim.
– Você deve se portar com classe, não com vulgaridade. – Em seguida, ela passou o papel na minha boca para retirar todo o batom.

Vulgaridade… Todas aquelas roupas que Marco separou para mim era completamente diferente das roupas que eu usava antigamente. Sempre tons de rosa-claro e branco, nada vermelho, preto, cinza… minha mãe dizia que atraia energia negativa. Eu não tinha maquiagem, somente blush e gloss, eu deveria ser delicada, não chamativa.
Deixei o meu pente em cima da pia e fui até o quarto, onde espalhei todas as maquiagens que tinha ganhado sobre a cama. Eu não era mais Antonella, era . Deixei a toalha pendurada no box do banheiro e fui até o quarto me vestir. Calça jeans clara, blusa preta ombro a ombro que ficava colada no meu corpo, mostrando as definições que tinha, principalmente nas pernas devido o balé. Comecei com o básico para me acostumar. Rímel, blush e um gloss vermelho. Eu estava indo jantar, mas o que custava me sentir um pouco sexy? Ao me olhar no espelho de chão ao lado do sofá, um enorme sorriu apareceu entre os meus lábios. Agora sim, eu parecia alguém descente. Dei uma voltinha e passei a mão pelo bumbum, nunca tinha reparado como ficava tão bem de calça jeans. Calcei o all-star branco que tinha ganhado e sai do meu quaro, rumo ao refeitório. Já eram sete da noite.
Ao chegar no refeitório olhei em volta e procurei por , até que a vi sentada em uma das mesas espalhadas pelo local. Entrei na fila do self-service e fiz o meu prato, a comida tinha um cheiro maravilhoso. Talvez o fato de eu estar morrendo de fome influenciasse na minha opinião.

! – levantou as sobrancelhas ao me ver, assim que me aproximei da mesa. Nikolai também estava ali.
? – Ele perguntou olhando-me dos pés a cabeça, fingindo não me reconhecer.
– Engraçadinho. – Murmurei sentando-me ao lado da minha amiga. – Vocês viram uns aos outros depois que fomos apresentados pro diretor? – Perguntei abrindo a garrafinha de suco de laranja.
– Não. Simplesmente me enfiaram no bloco C, não que isso seja ruim, eu adorei o lugar, parece que estou vivendo um sonho. A medicina lá é tão…
– Entendemos , fique com os detalhes para você. Ninguém quer saber a parte de um cérebro ou algo do tipo. – Nikolai interrompeu , fazendo-a revirar os olhos.
– Idiot. – Ela resmungou dando uma garfada na macarronada.
– E você? Pelo visto o seu tour foi bem interessante. – Nikolai me encarou com um sorriso ladeado.
– Por que acha isso? – Perguntei, levantando uma das sobrancelhas.
está te treinando e parece que uma outra pessoa foi colocada no lugar do monstro do lago Ness que existia no seu físico – Ele riu se referindo as minhas roupas.
– É verdade, , você está com roupas normais agora! – riu da minha cara.
– Vocês são hilários. – Dei uma risada irônica. – Da onde você o conhece? – Voltei a minha atenção para Nikolai, lembrando-me que ele se referiu ao .
– Eu já passei por mais distritos que você pensa, e em todos eles o nome do cara é tocado. Parece que ele é um dos agentes mais velhos, boatos dizem que ele nasceu dentro de um distrito.
– Ele nasceu aqui dentro? – Eu e falamos juntas, surpresas.
– Vocês são surdas? – Ele disse impaciente.

“Você está fazendo perguntas demais.” A frase que tinha dito para mim horas atrás ecoou pela minha cabeça. Era só um boato, mas se fosse verdade, deveria ser complicado para ele, meio… solitário.

– Alguém viu a Saori? – perguntou enquanto comia.
– Acho que ela vai ser uma das pessoas que menos vamos ver. – Nikolai respondeu encostando as costas na cadeira. – A galera aqui leva tecnologia a sério.
– Pior que é mesmo. – Concordei cortando o bife de frango. – Quando ganhei o celular, me falaram mil e uma regras. – Revirei os olhos levando o pedaço de carne até a boca. Ambos viraram para me olhar. – O que? Eu não poderia viver na época das cavernas pra sempre. – Respondi de boca cheia.

Depois da janta, Nikolai foi para recreação e eu e descemos até o nosso andar. Ela me mostrou o seu dormitório que era exatamente igual, e descobri que ficávamos uma ao lado da outra. Nikolai estava do outro lado do corredor. Conversamos um pouco sobre o dia e eu voltei para o meu quarto, eu precisava dormir, tinha me contato que os boatos sobre o treinamento de eram pesados. Eu nem imaginava o que estava por vir. Quando abri a porta do meu quarto, vi três sacolas enormes de tecidos e várias caixas de sapatos empilhados em cima da outra. Marco tinha mandado deixar o meu novo guarda-roupa ali. Mas como eles tinham acesso ao meu quarto? Olhei para a maçaneta da porta e reparei que além da fechadura, também havia um leitor digital. Privacidade? Pelo visto eu não tinha. Não pelos meus superiores.
Uma bolsa rosa em forma de sacolinha chamou minha atenção, na verdade eram duas. Uma eu já sabia que eram os meus documentos, mas a outra era ainda maior. Me ajoelhei no chão e abri a sacola, ao olhar para dentro dei de cara um par de sapatilhas de ponta e outra meia-ponta. Junto das sapatilhas havia um bilhete.

“Eu não poderia deixar você sem nada. Junto das outras roupas, também há peças para você treinar o balé! Aproveite, não deixe o meu trabalho de procurar essas roupas em vão, !”
Eu abri um sorriso ao terminar de ler o recado. Eu poderia treinar de novo! Claro que não teria a mesma rotina de antes, mas só o fato de eu conseguir praticar às vezes já era um grande alívio. Obrigada Marco!
Peguei as sacolas do chão e levei duas até a cama, arrastando uma em cada mão pelo chão, depois a terceira. Minha cômoda haviam seis fileiras. A primeira era dividida entre duas gavetas e o restante era somente uma. As peças íntimas guardei na primeira fileira e Marco havia exagerado um pouco, já que tinha algumas peças de lingerie, ele também tinha me garantindo que todas as peças de roupas eram novas e haviam sido lavadas, devido a higienização. Todas às sextas, uma mulher passava recolhendo as roupas de dentro do cesto do banheiro para levar até a lavanderia. As outras gavetas foram divididas entre blusas, jeans, roupas de treino e, por fim, peças variadas. Os sapatos organizei nas prateleiras ao lado da cômoda, os tênis, chinelos, botas e sapatilhas.
Acredito que uma hora e meia havia se passado e quando olhei para a cama e não vi mais nada, deitei de braços abertos e suspirei aliviada. Meus produtos de higiene pessoal estavam no banheiro e a sacola das minhas sapatilhas no sofá, agora eu só precisava fechar os olhos e dormir, mesmo sem os meus pijamas novos.


Aquela menina me trazia uma memória familiar. Ainda não sabia muito bem do que se tratava, mas era como se um sentimento de proteção e dever tivesse retornado, como um fantasma me assombrando. Após passar no Marco para pedir que ajudasse a garota com roupas, consegui entrar no meu quarto e finalmente respirar. Era uma angustia tão forte no peito. Puxei a cadeira de couro da mesa que estava toda a papelada da garota e fiquei encarando as informações por um momento, ela tinha uma enorme capacidade de se dar bem ali, mas era como se uma peça do quebra-cabeça estivesse faltando na garota. Quem era exatamente ?
Peguei uma foto da garota que estava entre as pastas e encarei seu rosto. Ela realmente era bonita, seria uma boa isca para pegar os alvos, mas várias meninas como ela foram recrutadas e algumas até com habilidades bem surpreendentes, por que ela? Por que uma bailarina? Por que ? Depois de tanto tempo lugar, já imaginava que a comissão não recrutava pessoas por acaso e não saber o motivo dela estar ali era angustiador.
Revirei os olhos e joguei a foto da garota em cima da mesa, retirei as botas e levantei da cadeira rumo ao banheiro, eu precisava esfriar a cabeça. Poderia pensar tudo com mais clareza.


Confesso que eu tinha escutado o despertador, mas aquele colchão estava tão gostoso de dormir que eu o ignorei por completo. Fazia anos que não dormia em uma cama tão boa como aquela, meu corpo pedia para ficar, “chega de treinamentos!” minha mente dizia irritada. Eu cedi. Infelizmente, na porta do quarto não tinha plaquinhas de “não perturbe”, pois foi com várias batidas na porta que eu acordei assustada. Mon Dieu, !
– Já vai! – Gritei levantando a cama rapidamente.
, abra a porta! – Ele gritou novamente e eu corri perdida pelo quarto. Inferno, não estava acostumada com o posicionamento dos móveis. – Você está atrasada uma hora! – Ele permaneceu gritando enquanto esmurrava a minha porta.
– EU JÁ ESTOU INDO! – Gritei puxando a gaveta da cômoda em busca das minhas roupas de treinamento. Legging. Regata. Meias. Ok? Ok! Troquei de roupa rapidamente e calcei os tênis pretos que Marco havia me dado. Ao abrir a porta estava de braços cruzados, não conseguia descrever a fúria que transparecia no seu rosto.
– Você estava dormindo? – Ele perguntou lentamente, eu permaneci quieta. Ele respirou fundo e foi em direção do elevador. – Lave o rosto. Subterrâneo. Sem direito a café da manhã. Cinco minutos ou faço expulsarem você daqui. – Ele apertou o botão do elevador e corri para o banheiro, eu não tinha nem escovado os dentes!

Quando cheguei na sala de treinamento, estava me esperando no meio de um tatame. Eu estava evitando seus olhos, por isso reparei mais no seu corpo. Ele estava com roupas pretas como eu, porém de camisa de manga e bermudas, somente de meias.
– Me desculpe. Não vai mais acontecer. – Murmurei me aproximando do tatame.
– Tira os tênis, é melhor para treinar. – Me agachei no chão e retirei os sapatos, deixando-os um ao lado do outro fora do tatame. – 60 flexões. 1 por cada minuto que você se atrasou. Se acontecer novamente, você já sabe o que vai acontecer. – Ele respondeu colocando os braços para trás do corpo, me observando. Eu gostaria muito de protestar, mas eu estava completamente fora da razão.
Suspirei baixo e apoiei as mãos no chão e esticando os braços, apoiei os dedos do pé no chão e iniciei a sequência de flexões, minha treinadora às vezes pedia para que fizéssemos esse exercício para fortalecer os braços e a musculatura dos ombros, então estava um pouco tranquilo, até ele colocar um dos pés nas minhas costas e forçar o meu corpo para baixo.
– Se reclamar eu vou sentar nas suas costas. – Ele comentou tranquilamente. Por que eu sentia que as coisas são iriam piorar? Assim que terminei as flexões, sentei no chão e amarrei o cabelo em um rabo de cavalo. – O que está fazendo? Nada de descanso. Vamos, levanta. – Ele fez sinal para que eu levantasse do chão, enquanto ia até um arsenal na parede. Ele pegou dois bastões de mais ou menos um metro e jogou na minha direção.
– Pra que serve isso? – Perguntei olhando para o bastão e quando levantei a cabeça arregalei os olhos ao ver que o bastão estava vindo na direção do meu rosto. Segurei o objeto com as duas mãos e ergui na altura da cabeça, o bastão de colidiu com o meu e fez um barulho alto. Que força ele estava colocando naquele negócio? Ao ver seu rosto, sorria.
– Serve pra isso. – Ele girou o corpo e somente com uma mão bateu na lateral do meu corpo, fazendo-me xingar.
– Você não vai me ensinar? – Eu perguntei olhando feio para o menino, minha coxa ardia.
– Eu quero ver como você consegue se virar, vou te ensinar, mas pra isso preciso ver a sua capacidade. – Ele deu de ombros.
– Tudo bem. – Concordei segurando o bastão com as duas mãos. – Ele riu da minha cara ao alisar o objeto em minhas mãos. Ali, ele parecia mais à vontade. – Suas mãos devem ficar mais separadas. – Ele deslizou uma de suas mãos pelo bastão, deixando um espaço entre elas.
– Ok… vamos lá. – Murmurei para mim mesma acreditando que iria me dar bem naquela situação. Só acreditando mesmo.
deu o primeiro golpe na direção da minha cabeça, por um fio eu consegui desviar, tentei bater com o bastão na sua cintura, mas ele bloqueou com o mesmo, me agachei na esperança de dar uma rasteira no menino, mas foi sem sucesso, o mesmo apoiou o bastão dele no chão no outro lado e conseguiu passar as pernas por cima do meu, se apoiando no bastão dele. O impacto nas minhas costas era esperado, eu estava vulnerável, praguejei quando senti o bastão bater nas minhas costas com força e me levantei depois de alguns segundos. Vamos lá, Seline… é como dançar, você aprende os passos e segue o ritmo. Ao me levantar novamente, coloquei um pé na frente do outro e segurei o bastão de forma correta, era exatamente o jeito que tinha começado. Ajeitei a postura e encarei seus braços. Ergui o bastão e fiz o mesmo movimento que ela na primeira vez, meu bastão bateu no dele e girei o meu corpo para o lado, por um fio eu não tinha acertado o seu braço, era rápido, meu bastão bateu com o dele novamente e seu ataque veio na minha direção, com o bastão na diagonal em relação ao meu corpo, os bastões colidiram novamente. O barulho que os bastões faziam ao colidir era como se fosse o ritmo da música, porém era uma dança em dupla, um passo meu, um passo dele, um passo meu, outro dele. Não havia muitas regras, somente posições e força. Devido um a brecha minha, passou uma de suas pernas pelas minhas e me deu uma rasteira, fazendo meu corpo bater no chão. Ele colocou o bastão no meu pescoço e me encarou.
– Não está tão ruim. Está péssimo. – Ele resmungou e se afastou, eu me levantei e peguei o bastão que estava no chão.
– Por que estou aprendendo isso? Vou sair por aí com um bastão no meio da rua?
– Não estou te ensinando as coisas à toa, pode ser útil em algum momento. Nunca se sabe em que situação você vai se encontrar, um cabo de vassoura pode salvar sua vida, sabia? – Ele perguntou com ironia e colocou o bastão no chão. – Você está usando somente uma posição das mãos, está errado. Dependendo do ataque você pode variar. Segura firme. – Ele se referiu ao objeto que eu segurava. – A ataque direto. – Ele esticou os meus braços acima da cabeça de forma que o bastão ficasse na horizontal. – Os dedos sempre ficam para cima. Trave os braços para absorver o impacto e o bastão não ir contra você. – Ele foi até o bastão dele e veio até mim. – Tenta me dar um golpe no pescoço. – Eu ergui o objeto e fui com o mesmo em direção ao seu pescoço, porém interrompeu esticando as mãos acima do corpo, de modo que a arma ficasse na diagonal e na mesma direção do seu braço que estava esticado. – Alguns golpes lembram kendo. – Ele comentou colocando o bastão no chão novamente. – Independente do lado, suas mãos devem ficam juntas e acima da sua cabeça, o bastão deve ficar na mesma reta do seu braço, se não vai acabar pegando de qualquer jeito nos seus membros inferiores. Desliza as suas mãos pelo bastão, dessa forma você vai conseguir melhor mobilidade com ele, não adianta ser somente o corpo, você também teve ter agilidade com a arma que está usando. Vamos lá, de novo. – Ele pegou o seu bastão e posicionou os pés, vindo ao meu encontro com o ataque. A manhã seria bem longa…

– Minha nossa, parece que você tomou um choque. – tinha me encontrado no corredor, estávamos indo para o refeitório almoçar. Seu comentário fazia sentido, já que meus cabelos estavam em pé. Eu tinha apanhado tanto na parte da manhã que quase não sentia os meus braços e as pernas, eu estava tremendo.
– Se aquele subsolo não é o inferno, não sei mais o que é. – Resmunguei apertando o botão do elevador.
– Você vai voltar depois para o treinamento? – Ela perguntou entrando no elevador junto comigo e mais três pessoas.
– Sim. – Falei um suspirando baixo.
– Com o tempo você se acostuma. – Ela riu ao meu lado.
– Espero que sim. Se eu não me acostumar, ele vai me fazer acostumar na marra. – Murmurei olhando brevemente para as outras pessoas no local.

Eu ainda tinha alguns minutos do meu horário de almoço, me despedi de que foi para o seu prédio e caminhei até o pequeno jardim aberto no centro dos prédios. Era um dia ensolarado, poucas nuvens no céu, mas estava relativamente fresco. Sentei em um dos bancos de madeira perto de uma árvore e deitei no mesmo, colocando um dos antebraços sobre os olhos. Paz. Alguns minutos de paz.
– Vinte minutos. – Ao retirar o braço dos olhos, encontrei com vindo na minha direção.
– Eu sei olhar as horas, obrigada. – Resmunguei olhando feio para o menino. Ele iria ficar me seguindo? Eu estava no meu horário de descanso!
– Pontualidade é uma das coisas que prezamos por aqui. – Ele respondeu ainda me encarando.
– Eu já entendi isso. – Sentei no banco dobrando as pernas em posição de borboleta, liberando um espaço para o menino ao meu lado.
– Está cansada? – Ele perguntou sentando sobre o encosto do banco, encarando o jardim diante de nós.
– Não. – Balancei a cabeça negativamente. Eu estava extremamente cansada, não sei se aguentaria mais luta corpo a corpo, sentia os meus músculos darem espasmos.
– Você é uma péssima mentirosa. – Ele riu alto.
– Eu estou falando sério, não estou cansada. Quem é você pra dizer que eu estou ou não cansada? – Virei o rosto para encarar os olhos do menino e sustentou o olhar, com um sorriso debochado no rosto.
– Tudo bem, se você está dizendo que não. – Ele deu de ombros e levantou-se do banco.
– Posso fazer uma pergunta pessoal? – Perguntei antes que o menino começasse a andar para longe.
– Depende. – Ele cruzou os braços virando o corpo para mim.
– Há quanto tempo está aqui? – Perguntei segurando os meus pés, encarando o menino.
– Tempo suficiente. – Ele apenas respondeu e deu as costas para mim lentamente. Aquele assunto não o interessava.
– Ouvi dizer que você nasceu aqui. – Comentei em tom baixo, sentia que estava brincando com uma bomba.
– E o que isso implica com você? – Ele perguntou parando de andar, ainda de costas para mim.
– Nada. É só que isso parece ser meio solitário e… triste. Você não deve ter conhecido outros lugares por prazer, somente por trabalho.
– Olha, , eu acho que você não deva se meter nessa parte da minha vida. – Ele deu dois passos na minha direção e me encarou profundamente. – Tem curiosidade sobre mim? Guarde para você.
– Não parece justo você saber tudo sobre a minha vida e eu não conhecer nem metade da pessoa que vou conviver durante a semana inteira por vários meses. – Cruzei os braços encostando as minhas costas na cadeira.
– Os vinte minutos já acabaram. Vamos voltar pro treinamento. – Ele murmurou dando as costas para mim.
Antes que eu pudesse pensar em alguma resposta, ele já estava longe, respirei fundo e levantei do banco, seguindo para a minha sala de treinamento que ficava no subsolo. O que me aguardava dessa vez?

– Me dê suas mãos. – Ele me fez sinal para que eu me aproximasse, estava escorado em uma das mesas de alumínio com armas em cima ao lado do tatame.
– Para que isso? – Perguntei ao ver que haviam duas fitas de armadura sobre a mesa e ele havia pegado uma delas.
– Para não machucar os dedos. Apesar de que eu acho que isso não vá acontecer. – Ele disse indiferente, enquanto passava a armadura pelas minhas mãos. Enquanto ele fazia o procedimento, meus olhos estavam fixados no garoto. parecia uma pessoa bem retraída, como se algo muito grave tivesse acontecido na sua vida e ele não conseguia socializar com as pessoas. Parecia que era somente ele e mais ninguém. Como se estivesse em um looping eterno dessa rotina. Eu me sentia atraída por ele, não sexualmente; como se algo nele estivesse escondido e que eu gostaria de procurar seja lá o que fosse. Assim que ele terminou, seus olhos encontraram os meus. Ele me encarou por alguns segundos e em seguida deu as costas para a bancada. Relaxa Seline. Relaxa.
– Por que você não está com as ataduras? – Perguntei levantando uma das sobrancelhas.
– Porque não seria justo eu ter um combate diretamente corporal com você. Sua oponente está ali. – Ele apontou na direção do tatame, onde uma menina de cabelos azuis me aguardava, ela estava com o mesmo uniforme que eu, porém seu cabelo estava preso em uma trança, diferente de mim que usava um rabo de cavalo.
– Amanhã eu não vou conseguir levantar da cama. – Sussurrei para mim mesma, indo em direção da menina que me esperava com as mãos na cintura. Seus braços eram extremamente definidos, um soco dela e eu perdi um dente.
, essa é Karen. – Ele me apresentou a menina que somente balançou a cabeça.
– Depois de mim, ela é uma das melhores lutadoras daqui. Vou te ensinar o básico. – O menino se colocou ao meu lado. – Canhota ou destra?
– Destra.
– Ok. Pé direito na frente, esquerdo atrás. Mãos. – Ele fechou o punho. – Fecha o punho. Polegares sobre os outros dedos, não ao lado. Mão direita próxima do queixo, esquerda na frente do nariz. Defende com a esquerda, ataca com a direita se for possível.
– Você sabe que está me fazendo de saco de pancada né? – Comentei encarando a menina na minha frente.
– Talvez você aprenda mais rápido. – Ele deu de ombros.
A menina esticou o braço direito na minha direção para cumprimentá-la e bati o meu punho com o dela. A garota deu o primeiro golpe na direção do meu rosto, desviei para no lado contrário e tentei dar um chute no seu estômago, porém ela segurou a minha perna e puxou-me fazendo cair no chão. Merda. Tombei para o lado ao ver que a menina iria cair com o cotovelo sobre mim e levantei rapidamente.
– Ela vai me matar! – Reclamei ao ver que ela vinha novamente na minha direção.
– Você escutou ele, quem sabe você não aprende mais rápido. – Ela deu de ombros e tentou me dar outro soco, abaixei o tronco e fui para o lado direito. Quando a menina se virou na minha direção, fechei o punho na intenção de acertar o nariz de Karen, mas a mesma segurou a minha mão e girou o meu braço no sentido contrário, fazendo-me gritar devido a dor. Que menina encapetada! A garota segurou a minha nuca e inclinou minha cabeça para frente, puxando ainda mais o meu braço para trás, com isso acabei me ajoelhando no chão, tentando liberar o meu braço.
– Já chega. – pediu de braços cruzados fora do tatame. Karen não parou. – Karen, eu pedi para parar. – Ele encarou a menina que olhou para ele de volta, em seguida a mesma me soltou e empurrou meu corpo no chão.
– Eu sabia que ela não ia aguentar, ela não tem nada de especial. – A menina disse entre os dentes e saiu andando para perto de um grupo próximo que observava a luta. Na parte da tarde havia muito mais pessoas treinando do que de manhã. Confesso que aqueles olhares me incomodavam, eu era fraca.
– Consegue levantar? – se agachou ao meu lado, eu levantei a cabeça e olhei para ele furiosa.
– Que tipo de treinamento é esse?
– O que quer dizer? – Ele perguntou levantando do tatame.
– Eu não aprendi nada com isso. NADA! Achei que eu estava aqui para aprender, não para apanhar no primeiro dia. – Levantei do chão olhando irritada para , que permanecia com a expressão tranquila. Ao olhar para o grupo de pessoas novamente, reparei que eles repassavam dinheiro entre eles. – O que estão fazendo? – Perguntei indicando o grupo com o olhar.
– Fizeram uma aposta de quanto tempo você aguentaria. – respondeu tranquilamente.
– Uma aposta?
– Sim. – Ele concordou retirando os tênis.
– É claro que tinha que ter uma aposta. – Revirei os olhos saindo do tatame.
– Onde está indo? Não disse que a aula havia terminado.
– Estou indo embora. O dia que você realmente tiver uma didática de ensino, eu volto. Eu não sou nenhum passatempo, eu vim pra esse lugar porque eu preciso aprender, se você não está disposto a fazer isso, eu procuro alguém que esteja. – Peguei o par de tênis que tinha deixado do lado de fora do tatame e dei as costas para , caminhando em direção da saída.
! . – Pelo tom de voz eu sabia que ele estava bem irritado, e se quer saber, eu não me importava, respeito é algo mútuo, se ele não tinha nenhum por mim, eu também não iria ter por ele.

Bati a porta irritada e entrei no meu quarto jogando-me no sofá. O meu treinador era irritante. Aquele ar de superioridade e ego me irritavam, maldito aquele que o colocou na minha vida. Coloquei as mãos sobre os olhos e respirei fundo. Organize os pensamentos, organize. Retirei as mãos dos olhos e sentei rapidamente, encarando a bolsa com minhas coisas de balé no sofá. O que mais me acalmava do que o balé? Levantei do sofá e puxei uma das gavetas, onde peguei um collant, meia-calça e a saia. Troquei de roupa e calcei os chinelos, prendi o cabelo em coque meio desengonçado e sai do meu quarto, rumo aos andares de cima em busca de algum lugar que pudesse treinar.
No andar abaixo do refeitório, eu havia encontrado uma ampla sala que por nenhuma coincidência havia uma barra no centro e espelhos. Será que alguém deu aulas ali ou alguma outra pessoa treinava no local? Marco havia roupas de ballet e agora uma sala de treino? Era um pouco estranho, ninguém havia mencionado nada. Deixei a bolsa com minha sapatilha meia-ponta no chão e sentei no chão para me alongar. Depois de alguns minutos fui até a caixinha de som do local e conectei com o bluetooth do meu celular, eu ainda não tinha o spotify e não podia entrar na minha antiga conta, então optei pelo youtube mesmo. Escolhi uma das músicas do Niall Horan, Put A Little Love On Me.
Dançar para mim era libertador, apesar de que seguir diversas regras na companhia. Eu sempre gostei do balé contemporâneo, mas eu tinha mais habilidade no balé clássico, sempre fui elogiada por conseguir fazer as posições com perfeição e delicadeza, o que era bem contraditório, já que momentos atrás eu cai no soco com uma menina, ou pelo menos tentei. Quando a música começou, fui até o centro da sala e respirei fundo com os olhos fechados. Se tinha uma coisa que eu era boa, era o balé, dominar algo era satisfatório. Levei as mãos até as laterais do pescoço e girei a cabeça lentamente enquanto descia a mesma pelo corpo, quando toquei as coxas, desci o corpo lentamente até ficar de joelhos. Apoiei as mãos no chão e estiquei uma das pernas, deixando a outra dobrada, com os braços impulsionei o meu corpo para trás e deslizei pelo chão até que os braços ficassem totalmente esticados. O balé é muito mais do que subir em um palco com um tule e fazer uma apresentação, se você souber bem as habilidades que esse tipo de dança te dá, com certeza você irá usar em muito mais coisas do que imagina. Flexibilidade pode ser simplesmente tudo na sua vida e com um toque de sedução você pode simplesmente sair da zona de conforto e criar uma coreografia totalmente diferente do clássico.
Levantei do chão rapidamente e dei duas piruetas, com os pés um na frente do outro, ergui o braço esquerdo e deslizei a mão direita pelo membro inferior até chegar no ombro, dei dois passos para frente e juntei os pés dando um pulinho para realizar um dos saltos, onde juntei os braços acima da cabeça e joguei o pé para trás até na altura da cabeça deixando a perna oposta esticada. Minha cabeça estava a mil, eu não estava conseguindo ter um bom desempenho nas piruetas, a maioria das finalizações estavam péssimas.
Fui até a barra, minhas costas doíam, provavelmente resultado da pancadaria que recebi hoje. Fiquei de costas para a barra e inclinei meu tronco para trás deixando a costas apoiada sobre o suporte de madeira, estiquei os braços para trás e fiquei encarando a sala de cabeça para baixo. Eu não era mais a garota de antes, minha vida tinha mudado, tudo estava ao contrário como eu, exatamente como a visão que eu tinha no momento, de cabeça para baixo. A Antonella não existia mais, tinha sido escolha minha, mas mudanças eram tão difíceis, o distrito me parecia ser um lugar complexo, as coisas pareciam tão escondidas, era como se tivesse mais coisa por vir, eu sentia que algumas coisas estavam por debaixo do pano. Parando pra pensar, eu não tinha mais nada, minha casa provavelmente tinha sido leiloada, se fosse expulsa daquele lugar eu não teria mais pra onde ir, e aliás, eu não podia voltar dos mortos, eles provavelmente me matariam. Ergui o corpo rapidamente e balancei a cabeça negativamente, tinha me falado para não confiar em ninguém, eu provavelmente era uma das meninas mais indefesas daquele lugar. Merda.


Confesso que peguei pesado. Eu não estava feliz com aquele trabalho, aquela garota me fazia ficar uma pilha de nervos, porque eu sentia que ela me remetia alguém, alguém muito próximo e não fazia ideia de que tipo de sentimento era aquele, nunca tinha ficado próximo de ninguém que não fosse do distrito e ela nunca esteve ali! Acabei descontando em situações que não deveria, ela estava certa em ir embora, e tinha gostado da atitude dela, se algo a incomodava, ela certamente falaria ou iria embora como fez. Como iniciante ela não tinha ido tão mal, era como se ela conhecesse os movimentos, mas não sabia como executar.
Não foi tão difícil de encontrá-la, não tinha outro lugar para ir sem ser o seu prédio, ainda não estava familiarizada com os outros para ir atrás da amiga. Quando a encontrei em uma das salas de dança que havia no prédio, meus olhos ficaram fixos nos movimentos que a menina fazia. Era… encantador. Ela parecia tão leve, era como se ela fizesse os movimentos no automático, parecia tão simples. parecia muito mais ela com roupas de balé, combinava perfeitamente, era hipnotizante vê-la daquele jeito, estava começando a entender o que tinha me falado sobre “ela chama atenção”. não era uma das meninas que passa despercebido em um lugar, ela só ainda não sabia disso. Dei um tempo para ela que parecia estar se aquecendo na barra e abri a porta lentamente, encostando o meu ombro na barra da porta e observando-a fazer outros passos. Quando ela percebeu a minha presença, parou o que estava fazendo e colocou as mãos na cintura.
– O que está fazendo aqui? – A mesma perguntou desconfiada.
– Vim me desculpar. – Eu era um pouco orgulhoso, mas realmente havia errado com ela.
– Não quero suas desculpas, quero sobreviver. Não é nisso que esse lugar gira? Se você não me treina, eu morro, logo, volte quando quiser me treinar de verdade. – Ela deu as costas para mim e voltou a ficar na ponta dos pés, realizando suas piruetas.
– Acho que as desculpas são um bom início. – Dei de ombros ainda observando a menina.
– Talvez. – Ela murmurou parando de frente para mim com os braços abertos e o pé esquerdo um pouco atrás do direito.
– Será que podemos recomeçar, então? – Levantei uma das sobrancelhas cruzando os braços. Ela me encarou por alguns segundos e concordou positivamente com a cabeça.
– Mas com uma condição. – Estava fácil demais até agora.
– Qual?
– Eu quero saber mais sobre o distrito, quero saber sobre a história desse lugar, acho que ninguém mais do que você pra me dizer, já que passou anos e anos nesse lugar. É o que dizem pelo menos. – Ela deu de ombros indo até a caixa de som.
– Você não acha que é mandona demais? – Perguntei apoiando a cabeça na lateral da porta. – Por que quer saber mais?
– Você não acha que tem o ego alto demais? – Ela virou o rosto na minha direção e sustentou o olhar em mim, eu acabei soltando uma risada baixa. – Conhecimento nunca é demais. – Ela deu de ombros e desviou o olhar.
– Acho que você tá aprontando alguma coisa, mas não quero saber. Te vejo amanhã no mesmo horário de sempre, nosso acordo está de pé. – Dei as costas para a menina e pelo canto do olho reparei que ela sorria levemente, enquanto guardava suas coisas. Por que será que eu me sentia tão bem com o fato dela voltar para os treinos? Precisava fazer o relatório dos treinos que tinha com e só de pensar naquilo me dava preguiça, e não precisava saber de tudo, desde o começo tinha achado o pedido meio estranho.

Capítulo 06 – Há alguns ÁS na sua manga?

Seis horas da manhã, eu já estava em pé, de banho tomado e pronta para o treino que aconteceria dali algumas horas. Peguei o meu celular em cima da cômoda e caminhei até a porta, onde sai trancando o quarto atrás de mim.
O refeitório não estava tão cheio como de costume, para o meu café da manhã escolhi algumas frutas, uma xícara de café e duas torradas. Me sentei em uma das mesas vazias pronta para comer em silêncio, e por um momento achei que fosse conseguir, até Nikolai aparecer com sua bandeja.
– Gostei das duas tranças. – Ele apontou para o penteado no cabelo, dando uma bela mordida na maçã. Eu tinha resolvido mudar um pouco o visual para variar, então fiz duas tranças embutidas para o treino, também era melhor para mobilidade. – Te deixou com uma expressão mais séria.
– Você não tem outras pessoas para perturbar? – Levantei uma das sobrancelhas encarando a xícara de café que já estava no fim.
– Eu iria te dar boas notícias, mas já que não quer… – Ele deu de ombros pronto para levantar-se da mesa, mas fiz sinal com a mão para que parasse imediatamente.
– O que é? – Meu lado curioso falava mais alto.
– Estão planejando uma festa no fim de semana em uma galeria abandonada, eu chamei a , mas ela não quer ir. Se quiser ir, me procura que eu te levo, afinal não tem outra pessoa para fazer isso. – Ele deu um sorriso de lado.
– Por que está sendo legal de repente? – Perguntei colocando uma uva na boca, enquanto encarava o menino na minha frente. Nunca tinha reparado como ele lembrava o Machine Gun Kelly.
– Eu sou um cara legal, depende do meu dia. – Ele sorriu com o braço direito apoiado na cadeira em que estava sentado.
– Terminou o seu café? – Uma figura masculina apareceu do meu lado e ao olhar para cima, identifiquei . Ele não me dava sossego.
– Nem são sete horas ainda. – Revirei os olhos conferindo o horário no celular. Faltavam quinze para as sete. O meu treinador permaneceu me encarou e eu suspirei. – Você é tão irritante. – Resmunguei levantando da cadeira. – Até mais, Nikolai. – Me despedi com um breve aceno para o menino que colocou o indicador e o dedo do meio na testa e fez um sinal de despedida.
seguiu na frente, e acompanhei o mesmo sem abrir a boca para falar nada. Apesar do nosso acordo, eu ainda não estava muito afim de conversar com ele. Eu estava seguindo uma rota diferente, não estávamos indo para o subsolo e sim para o prédio da administração.
– Você está muito calada. – resmungou apertando o botão número 3.
– Não estou muito afim de conversar. – Dei de ombros e assim que o elevador abriu, levantei as sobrancelhas em espanto ao ver uma enorme fonte de conhecimento abrir-se diante de mim. Que biblioteca enorme!
– A aula da manhã será aqui. – comentou saindo do elevador. Eram fileiras e mais fileiras de estantes, e haviam dois andares! – Bom dia Angeline. – Dane cumprimentou a senhora que estava sentada em uma mesa de madeira, provavelmente era bibliotecária. Ela vestia um uniforme azul-escuro com um número do distrito sobre o peito esquerdo.
parou em uma das mesas de madeira retangulares que tinha no local e puxou a cadeira para se sentar. Também haviam livros sobre a mesa. Eu me sentei no outro lado da mesa e o encarei, esperando que começasse a aula ou seja lá o que tinha planejado.
– Espero que goste de história. – Ele resmungou ajeitando a cadeira de modo que ela ficasse meio torta, o mesmo colocou os pés sobre a mesa e conferiu se a bibliotecária não estava olhando. – Esses livros vão ajudar um pouco você a entender como tudo por aqui era e como funciona agora. – Ele apontou para os objetos sobre a mesa, todos os livros tinham capas escuras e nenhum título, somente um símbolo de três círculos interligados, um em cima e dois em baixo em tom prata. – A única coisa que eu peço é que não fale para ninguém que estou te contando essas coisas.
– Por que? – Levantei uma das sobrancelhas pegando um livro, olhar aquele símbolo me trazia um certo frio na barriga, assim que passei o dedo sobre o mesmo senti um arrepio percorrer pelo meu corpo. Era uma sensação estranha.
– Contar a história de alguém ou algo é valioso e perigoso. Você passa a saber a vida dela inteira, para o distrito quanto menos as pessoas saberem sobre a fundação, melhor.
– E como você sabe disso? E por que resolveu me contar? Não era obrigado a fazer isso. – Ele me encarou por alguns segundos e suspirou.
– Eu realmente estou aqui há bastante tempo. – Aquilo só me deixava mais próxima da teoria que ele havia nascido ali. – Os superiores confiam em mim, isso você conquista com o tempo… Nunca tinha treinado alguém antes porque tenho assuntos melhores para resolver, se você foi designada a mim, é porque algo de interessante deve ter.
O que de interessante eu teria? Essa pergunta ecoou pela minha cabeça por alguns segundos, até voltar a falar.
– E teoricamente você me obrigou, caso pedisse outra pessoa para te ensinar, não iria ficar feliz e acabaria que eu iria me foder. – Ele bufou e colocou as mãos sobre a barriga. – Vamos lá. Dois anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, começou a Guerra Fria. Porém, alguns governantes não estavam satisfeitos com isso, resultando no rebaixamento do cargo deles, eles já estavam meio que cansados dessa confusão toda e sempre davam opções mais simples. Com isso três caras muito próximos resolveram criar o primeiro distrito, afinal eles foram uma das principais influências e suporte financeiro durante os conflitos. Os três tinham nacionalidades distintas, um francês, outro americano e por incrível que pareça, um russo. Mas qual era o objetivo? Eles queriam acabar com todos os conflitos que estavam acontecendo ao redor do mundo. Foi aí que eles começaram a recrutar ex-combatentes, mas não como algo obrigatório, era uma opção deles se juntar ao distrito ou não. Eles tentaram levar o projeto até o governo, talvez isso acabaria com a Guerra Fria, mas não adiantou, com certeza o projeto seria negado e o distrito destruído. A partir daí passaram a agir por conta própria.
– Como o russo se juntou, eles não eram inimigos durante a Guerra Fria? – Levantei uma das sobrancelhas confusa.
– O representante da Rússia não era inteiramente russo. Ele era irmão do representante francês, irmão por parte de pai. É uma puta bagunça. Na real, esses caras não tinham mais o que fazer quando inventaram isso. – revirou os olhos. – Depois de alguns anos, o governo descobriu o que as três famílias tinham feito e literalmente invadiram tudo. Inclusive o fundador russo foi morto por ter sido considerados espião e praticado traição. – respirou fundo e olhou para mim, observando se tinha prestado atenção. – Agora vamos resumir. Os fundadores do primeiro distrito eram três, um francês, americano e russo. O governo descobriu, mataram o russo e os outros dois foram presos. Daí vem a parte em que os governos decidiram compilar com o distrito que tinha sido esquecido. A URSS já estava começando a entrar em crise, o que ninguém sabe é que o presidente soviético da época renunciou por conta de Jacques Armand, o fundador francês. Ninguém sabe o que Jacques fez ou falou pra ele renunciar, mas aconteceu. O distrito passou a ser reconhecido por todos os governos e pra resolverem os problemas internos e externos, eles contavam com a ajuda do distrito. A coisa tomou uma proporção tão grande que outras bases foram criadas em diversos países pra dar suporte aos governos.
– E caso alguém peça pra cometermos o assassinato de algum governante? – Levantei uma das sobrancelhas folheando os livros.
– Não conversaram sobre isso com você? – levantou as sobrancelhas surpreso.
– Não. – Balancei a cabeça negativamente e ele se ajeitou na cadeira.
– O Distrito possui regras, eles deveriam ter passado isso para você. Não podemos, em hipótese nenhuma, matar um governante ou alguém que esteja em um cargo no Estado, isso iria influenciar na história do mundo. O que podemos fazer é dar um susto ou algo do tipo, e de forma indireta interferir.
– Por exemplo? – Levantei o olhar para prestar atenção no menino.
– Pegar de volta o dinheiro sujo e colocar no lugar. O bloco que a Saori está estudando faz isso todos os dias, desviando o dinheiro que foi desviado para a conta dos corruptos e colocando de volta no lugar. – Ele deu um sorriso ladeado. – Viu? Indiretamente, mas jamais, matar um governante.
– Ah, esses são os três fundadores?! – Perguntei levantando uma das sobrancelhas apontando para a foto em preto e branco no livro.
– Isso. Jacques Armand, Bóris Vassiliev e Andrew . Jacques e Andrew foram soltos e passaram a comandar o distrito junto do filho de Bóris, afinal eles também tinham herdeiros e iriam passar o cargo futuramente.
– Jura que eles estão em algum distrito? Então Lenora é filha de alguns deles? – Levantei as sobrancelhas surpresa, a foto dos fundadores ainda estava aberta diante de mim, todos eles usavam uma farda. Fechei o livro quando comecei a sentir um desconforto.
– Não sei te dizer. Nunca vi nenhum deles, não sei se são todos homens ou mulheres, dizem que eles renunciaram e passaram o cargo para outras pessoas. Outros falam que eles preferem ser discretos e comandar as coisas através de outras pessoas, não tem como saber. – deu de ombros.
– E como eles passaram a recrutar pessoas normais? – Perguntei colocando os pés na cadeira, de modo que pudesse abraçar minhas pernas.
– Depois de um tempo os agentes começaram a ser reconhecidos, foi aí que surgiu a ideia de fazer uma análise da população, os nomes são listados e caso ocorra o que aconteceu com você, é recrutado e passa a ser um fantasma no sistema. – Ele deu de ombros. – Fora que as pessoas possuem subjetividade, talentos e tudo mais, agrega mais ao distrito.
– Isso tudo é muito esquisito. – Franzi o cenho assimilando tudo que havia escutado. – Esses caras eram surtados, mas confesso que achei legal a coragem deles. O primeiro distrito fica aonde?
– Em Bed. – respondeu colocando os livros um sobre o outro.
– Lá é o 22.
– Porque ao todo são 22 distritos, é a junção de todos, como se o último fosse o primeiro. – Ele disse como se fosse algo óbvio.
– Hey. O que está fazendo? – Perguntei assim que o vi pegar os livros.
– Vou guardá-los, já acabamos.
– O quê?! Mas eu nem li eles ainda. O que são esses três círculos? – Protestei a levada dos livros levantando da cadeira e me colocando na frente dele.
– Os três fundadores. Cada círculo é um fundador, juntando os três eles possuem um ideal em comum, que é centro do símbolo. Quando quiser ler, é só me pedir que eu pego pra você. – respondeu dando as costas para mim e sumindo entre as estantes repletas de livros. Esperei alguns segundos e levantei da cadeira indo atrás do menino, se eu o seguisse talvez conseguia descobrir em qual estante os livros ficavam. Olhei entre as estantes procurando pelo menino, até que uma mão pousou sobre o meu ombro, fazendo-me assustar. Ao olhar para trás encontrei com , ele já não estava com os livros.
– Você não vai achar, esquece. – Ele riu e deu as costas para mim, indo em direção do fundo da biblioteca. – Me encontra no segundo andar do subterrâneo, tenho que fazer uma coisa antes, encontro você lá.
– Mas não é a onde ficam as armas? – Perguntei levantando uma das sobrancelhas.
– Sim. – Ele respondeu indiferente.
– Ok… – Passei pela bibliotecária que ficou me encarando pelo canto do olho e entrei no elevador junto de . Ela já não me parecia muito amigável.

Eu e meu tutor nos desencontramos no térreo. Ele seguiu para o andar da administração e eu fui para o elevador que me dava acesso ao subterrâneo, assim que as portas do elevador abriram no arsenal de armas, senti um frio percorrer pelo corpo. Entrei no local com os braços cruzados e olhei ao redor, haviam poucas pessoas ali, elas estavam mais concentradas no estande que ficava no fundo da sala. Me aproximei da parede em que ficavam as pistolas e meus olhos encontraram exatamente duas armas iguais com o cano prata, elas pareciam bem confortáveis de manusear, mais ao lado ficavam as armas maiores, porém uma em específico chamou minha atenção, ela era enorme, da cor preta.

– Gostou dela? É uma… – Escutei uma voz masculina interromper meus pensamentos.
– Uma Cheytac M200. – Respondi hipnotizada pela sniper, passei os dedos lentamente pela arma presa na parede. Da onde eu reconhecia aquilo? Um arrepio passou pelas minhas costas até chegar na nuca. Ao olhar para trás encontrei meus olhos com o de , ele parecia meio desconfiado.
– Me disseram que você não sabia nada sobre armas. Como reconheceu um dos melhores rifles do mundo, ? – ele perguntou com uma expressão séria.
– Eu… eu não sei. – Franzi o cenho dando um passo para trás.
, como sabe desse rifle? – Ele perguntou novamente dando um passo na minha direção, minha respiração começou a ficar ofegante e eu estava suando.

– Já sabemos que você se dá melhor com armas de longo alcance, vamos testar essa agora. – Um homem barbudo e careca estava diante de mim, no outro lado do balcão de madeira no meio de um gramado enorme. Estávamos de baixo de uma tenda e fazia sol.
– Essa parece ser interessante, Sr. . – Eu abri um sorriso ladeado, encarando o rifle de cor preto fosco enquanto o coman desmontava a arma.
– Identifique as partes do rifle e monte novamente, afinal você vai ter que fazer a manutenção.
– Coronha. Cabo. – Aos poucos fui montando a arma novamente, fazendo a mesma ficar mais pesada. – Cano longo. Supressor. Bipé. – O acoplamento da arma, como se fosse um apoio. – A munição e por fim, a lente, uma luneta tática com ampliador de 6 vezes.
– Você sabe que tem mais partes.
– São os detalhes, isso eu já sei. – Dei de ombros pegando a sniper e levando até o estande. Coloquei os fones e os óculos, só por precaução, afinal a arma tinha silenciador, em seguida deitei no chão e meu treinador mexeu nos controles do alvo, fazendo-o se afastar cada vez mais de mim.
– Você está colocando o alvo mais longe dessa vez. – Resmunguei observando o mesmo pela mira.
– Claro, você sempre acerta, tenho que dificultar. – Ele riu e o alvo parou. – Pronto.
Suspirei e aproximei meu olho direito na mira. Peguei uma única bala e inseri na arma, ajustando-a levemente para o lado. Meu dedo apertou o gatilho e o recuo fez com que a coronha batesse no meu ombro levemente, ela era muito melhor de manusear.
– É… acho que hoje também é um dos seus dias de sorte. – Meu treinador sorriu enquanto olhava para o alvo com o auxílio de um binóculo.

! – estava gritando comigo quando abri os olhos lentamente, sentia meu corpo estranho.
– Hm…? – Respondi ainda deitada no chão, sem me mexer.
– O que houve?! – Aquela era a voz da ? Ela parecia preocupada.
– Ela teve uma convulsão. – respondeu atrás de mim. Estava explicado porque eu sentia meu corpo estranho.
– Eu est… – Eu não conseguia falar direito, minha língua parecia adormecida.
– Temos que levar ela para a ala médica. Consegue pegar ela no colo? – perguntou preocupada ajoelhada ao meu lado, enquanto me analisava. Eu balancei a cabeça negativamente, eu não queria ir.
– Não… – Balancei a cabeça enquanto lutava contra que tentava me pegar no colo. – Não quero ir! – Resmunguei batendo no garoto.
, por favor, temos que ver o que aconteceu. – Ele passou o braço por debaixo das minhas costas e nas pernas. Cruzei os braços irritada e revirei os olhos.
– Não foi nada demais.
– Você está toda molenga, como não foi nada demais? O que aconteceu? – perguntou acompanhando durante o trajeto.
– Não sei. – Eu realmente não sabia, parecia que eu tinha tido um sonho meio acordada, meio dormindo.

Quando chegamos no leito, me colocou na maca e eu respirei fundo, eu não gostava de hospitais ou qualquer coisa relacionada, ficava desconfortável só de sentir o cheiro do lugar.
– Não foi nada demais, não sei porque estão tão preocupados. – Murmurei sentando na maca, enquanto olhava para as minhas mãos. Que tipo de sonho tinha sido aquele?
– O que aconteceu? – Uma mulher alta e de cabelos curtos acima do ombro entrou no local, ela vestia um jaleco e nos pés um par de crocs.
– Essa é a Doutora Eve. Ela é especializada em neurologia. – respondeu ficando ao lado da doutora.
– É um prazer conhecê-la…
. – Respondi entre os dentes.
, ótimo. – Ela sorriu amigavelmente. – O que aconteceu?
– Ela teve uma convulsão, do nada. – respondeu olhando para a doutora.
– Ela bateu a cabeça recentemente? Ou possui epilepsia? – Eve perguntou analisando os meus olhos com uma lanterninha.
– Sofri um acidente algumas semanas atrás, só isso. – Dei de ombros.
– Hm… – Ela se afastou e pegou uma prancheta livre no leito. – Vamos fazer alguns exames, dependendo dos resultados você vai ser liberada. – Eu respirei fundo e deitei na maca novamente, irritada.
– Já, já voltamos. – se despediu e saiu do leito junto da minha médica. Eu olhei para pelo canto do olho irritada e ele fingiu que nem tinha reparado.
– Você sabe que não precisava disso.
– Como você reconheceu a arma? – Ele perguntou virando o rosto na minha direção.
– Eu não sei, merda! Eu não sei. – Falei em tom alto, por que diabos aquilo tinha acontecido? Não fazia sentido!
– Ok . – se levantou e saiu do leito me deixando sozinha. Inferno. Dei as costas para a porta e deitei de lado na cama, por que tinha um no meu sonho? Ele não parecia com o fundador no livro do distrito. Quando eu achava que as coisas estavam começando a se encaixar, tudo mudava.

Eu tinha passado a tarde inteira sozinha, estava ocupada com suas responsabilidades e havia sumido. Eu já não aguentava mais ficar ali, tinha passado por diversos exames e ninguém me dava uma resposta de nada. O cúmulo do absurdo foi quando uma enfermeira veio me avisar que eu iria passar a noite ali por motivos de saúde. Foi então que resolvi sair daquele lugar, arranquei o acesso da minha veia e levantei da maca, correndo para o elevador mais próximo tomando cuidado para que ninguém me visse. Já eram nove horas da noite, eu não tinha comido nada e meu dia não tinha rendido.

– Ei, ei! Segura a porta! – Uma voz masculina gritou e coloquei a mão na frente da porta do elevador que me dava acesso ao prédio dos dormitórios. Foi então que eu vi o Nikolai. – Kakoy uzhasnyy paren’. (Que cara horrível.)
– Obrigada. – Respondi encostando minhas costas no elevador. – Horas e horas dentro de um leito sem comer nada, servindo de cobaia. – Revirei os olhos sentindo minha barriga roncar.
– Até às dez horas dá tempo de você se arrumar. – Ele disse indiferente.
– O que tem as dez horas? – Perguntei virando meu rosto na sua direção.
– Você bateu com a cabeça? – Nikolai respondeu impaciente.
– Ah, é a festa? Eu não vou. – Balancei a cabeça negativamente.
– Não sabia que era chata como a . – Ele fez uma careta.
– Estou cansada e com fome, não é o meu melhor momento para festas.
– Você acha mesmo que eles não vão vir te procurar quando derem falta de você na enfermaria? Acho melhor aceitar minha proposta. – Nikolai saiu do elevador dando as costas para mim. Ele tinha razão, aquele lugar era repleto de câmeras.
– Eu vou se você arrumar algo para eu comer. – Falei indo atrás do menino.
– Fechado, em trinta minutos eu apareço na sua porta. Quanto antes a gente sair, melhor. – Nikolai abriu a porta do seu dormitório e entrou sem olhar para trás.

Abri a porta do meu quarto e fui direto para o banheiro para tomar um banho, eu não fazia ideia de qual roupa iria vestir e só de pensar que iria sair com Nikolai, meu estômago dava um nó, ele não parecia a melhor companhia. Depois de alguns minutos, sai do banho enrolada na toalha e retirei o excesso de água dos fios loiros com outra toalha, penteei os mesmos e liguei o secador pra adiantar o processo de secagem, afinal não gostava de sair com o cabelo molhado. Assim que terminei, fui até a minha cômoda, com que roupa eu iria? Suspirei e comecei a retirar as mudas de roupa que tinha ganhado, até que encontrei um vestido preto, de alça fina que ficava colado no corpo até abaixo da minha bunda, assim que vesti a peça, me olhei no espelho, estava satisfeita com o resultado.
Quando me sentei para cobrir os roxos que tinha perto do olho devido o treinamento com Karen, Nikolai bateu na minha porta. Levantei da cadeira e fui até a porta para recebê-lo.
– Aqui está sua comida, l’vitsa (leoa). – Ele estendeu um pacote de papel na minha direção e entrou no quarto assim que me entregou.
– Obrigada. – Respondi fechando a porta e sentando no sofá para comer.
– Era a única coisa de fácil acesso que ainda tinha no refeitório. – Ele deu de ombros se jogando na minha cama.
– Sanduiche natural e um suco? Deve dar pra enganar o estômago. – Murmurei colocando uma almofada sobre o colo. – Quem está organizando essa festa exatamente? – Perguntei antes de dar uma bela mordida no sanduiche.
– O pessoal do distrito mesmo. Tem mais gente do que você imagina nesse lugar. – Ele respondeu colocando os braços atrás da cabeça. – Os que passam o tempo com a gente treinando são os novatos, os veteranos geralmente estão em missão. São eles que organizam no tempo livre.
– Como você sabe disso? – Levantei uma das sobrancelhas curiosa.
– Pra você e para a , eu posso não ser muito amigável, para os outros eu sou legal. – Ele sorriu egocêntrico e eu revirei os olhos.
– Você foi meio desagradável comigo quando cheguei, talvez eu tenha um motivo. – Dei de ombros dando um gole no suco de laranja.
– Você não tem muito senso de humor. – Ele levantou da cama e veio até o sofá, onde apoiou o corpo sobre o encosto do móvel. – Será que dá pra adiantar? Um sanduíche não é difícil de comer. – Eu simplesmente levantei o dedo do meio para ele e o menino riu. – É sério, , daqui a pouco o pessoal da enfermagem aparece aqui.
– Estou indo, estou indo! Tenho que tampar esse olho roxo ainda. – Falei de boca cheia colocando a comida sobre a mesinha de centro.

Fui até o banheiro e espalhei todos os produtos de maquiagem sobre a pia, eu consegui cobrir um pouco com a base a parte roxa, mas precisava passar mais alguma coisa nos olhos para não sair daquele jeito, no momento que passei o pó no rosto, escutei três batidas na porta, eu olhei para fora do banheiro e Nikolai virou o rosto para mim.
– Merda. – Resmunguei preocupada.
– Fecha a porta do banheiro e deixa o resto comigo. – Ele levantou do sofá e retirou a camisa preta que usava, revelando um corpo repleto de tatuagens, eu arregalei os olhos e fiquei confusa ao vê-lo retirar os sapatos e bagunçar o cabelo. – Fecha logo!
Eu fechei a porta e encostei o corpo no mesmo, colocando a cabeça perto para que pudesse ouvir.
– Boa noite? – Nikolai falou ao abrir a porta.
– Procuramos , ela saiu da enfermaria sem autorização.
– Não sei a onde ela está, estou esperando a horas.
– Aqui é o quarto dela, inclusive acho que não tem autorização de estar aqui.
– Acho que não preciso dar detalhes do porquê eu estar aqui, a não ser que queria saber sobre sexo. – Eu tampei a boca para segurar o riso.
– Tudo bem. – O homem concordou e escutei a porta se fechar. Nikolai abriu a porta do banheiro e eu olhei para ele, colocando as mãos na cintura.
– O quê?! As pessoas ficam desconfortáveis quando o assunto é sexo. – ele deu de ombros e foi até o sofá para pegar a camisa. – Temos que ir agora, eles vão conferir nas câmeras e vão voltar.
– Mas eu nem terminei a maquiagem! – Protestei e Nikolai olhou para mim com ar de cansaço. – Okay. – Concordei pegando as botas de cano baixo para calçar, assim que terminei, Nikolai saiu do quarto e fui junto do menino pela saída de incêndio, já que poderíamos trombar com a segurança.
– Vamos logo. – Nikolai pegou a minha mão e me arrastou pelos corredores até chegar no elevador que nos dava acesso ao subterrâneo. Assim que as portas do elevador se abriram, eu fiquei horrorizada com a quantidade de carros que estavam estacionados naquele lugar, principalmente carros caros, qualquer um saberia só de olhar que um carro daquele valia um rim no mercado negro.
– Como conseguiu a chave? – Perguntei seguindo o menino até um conversível preto.
– Quando se é piloto de fuga, fica fácil saber onde ficam as chaves. – Ele riu abrindo o carro. – Essa belezinha precisa ser levada pra dar uma volta.
– Parece que estou roubando um carro. – Resmunguei entrando no carro.
– Eles roubaram parte da gente, estamos apenas retribuindo o favor. – Nikolai respondeu acelerando o carro, quando saímos da vaga o portão começou a se fechar, olhei para trás e vi pelo menos oito seguranças vindo atrás de nós.
– Nikolai… – Falei preocupada, porém antes que pudesse o alertar, o menino pisou fundo no acelerador e senti meu corpo ser empurrado para trás, eu ainda estava sem cinto! Meus olhos se arregalaram ao ver que o carro se aproximava do portão que estava quase fechando, eu fechei os olhos e gritei assim que passamos, para a nossa sorte o carro era baixo e o portão fechava na vertical, acredito que foram 3cm que salvaram a gente. Ao sair da garagem, Nikolai puxou o volante com brutalidade e puxou o freio de mão, fazendo o carro fazer um drift. Eu segurei no porta-luvas sentindo meu corpo ir para o lado e olhei para Nikolai desesperada, ele não parecia nem um pouco preocupado, diferente de mim. – Você é… in… insano. – Comentei tentando recuperar o fôlego, já estávamos na principal e como um bom pé quente, Nikolai desviava de todos os carros.
– Calma, é só um teste drive. – Ele riu retirando uma das mãos do volante, o que me fez ficar ainda mais preocupada. Puxei o cinto para que eu me sentisse um pouco mais segura e encarei a pista na minha frente, rezando para chegar viva. – Você vai ter que se acostumar.
– Eu estou tendo que me acostumar com bastante coisa, bastante coisa!
– Você se preocupa demais. – Nikolai comentou parando no sinal. – Para de pensar, apenas faça. Você tem mais o que a perder? Nada. – Ele deu de ombros apoiando os braços no volante.
– Mas…
– Você realmente viveu o que queria nos últimos anos? – Aquela pergunta me pegou de surpresa, já tinha parado pra pensar nisso, mas falar em voz alta era diferente.
– Não sei… acho que sempre tive um objetivo claro e agora…
– Agora você não tem mais, sua vida mudou, , você precisa aceitar e aproveitar isso, você já está morta pra todo mundo mesmo, pode fazer o que quiser. A não ser que você tenha um ÁS na sua manga pra virar o jogo. – Ele sorriu e avançou com o carro assim que o semáforo ficou verde.

Acredito que as pessoas vinham falando isso sempre pra mim, mas nunca tinha realmente prestado atenção, parte mim estava presa ao passado por algum motivo. Eu já estava morta pra todo mundo, era como se estivesse… livre.