Fortune Teller

  • Por: Lívia Velásquez
  • Categoria: Original | Restritas
  • Palavras: 8432
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Sinopse: Não tinham uma história bonita para contar sobre como se conheceram, porque, basicamente, a cena se limitava à troca de tiros e fuga em alta velocidade pelas ruas estreitas de Birmingham. Fizeram o possível e o impossível para se livrarem da gangue, pois haviam outros planos, bem mais calmos desta vez, que incluíam viver este amor enquanto lhes houvesse calor.
Gênero: Romance, drama e suspense.
Classificação: [+18] Contém cenas explícitas de sexo, palavras de baixo calão e violência.
Restrição: Nomes como Matt, Don e Selena já em uso.
Beta: Elena Alvarez.

— Você deveria aceitar que nunca vai ganhar de mim na sinuca, honey. Preserve o que resta da sua dignidade! – Do outro lado da mesa, o vi desviar os olhos da jogada que estava articulando.

— Deveria fazer maior proveito da sua boca além das frases de efeito, . – O taco deslizou sob seus dedos, encaçapando apenas uma bola e ele se levantou, me encarando com sua feição de tédio usual, mas com o olhar intenso que, naturalmente, tinha o poder de me despir.

Andei calmamente até ele, com um sorriso sapeca que não saía dos meus lábios sempre que estava ao lado daquele homem. Mordi o lábio inferior no momento que senti seu perfume que conhecia tão bem.

— E o que sugere? – Me encaixei no estreito espaço entre a mesa de sinuca e seu corpo, aproximando nossos rostos e colando nossos corpos.

— Mulher… Você não vale nada. – Soprou as palavras lentamente em meus lábios, fazendo com que eu soltasse o sorriso largo que segurava. — E eu adoro cada detalhe seu assim mesmo.

Soltei o taco de qualquer maneira na mesa, enlaçando os ombros do homem à medida que sentia o calor de suas mãos em minha cintura. impulsionou-me para que eu sentasse na beirada da mesa e assim o fiz, logo desfrutando do gosto doce que o beijo dele espalhava em mim.

O beijo já tão conhecido por mim, era o único que eu fazia questão de provar, há meses, mas ele não precisava saber disso, não é?

— Desocupem a mesa e arranjem um quarto! – Uma voz grave gritou atrás de nós, recebendo outros gritos como apoio. Desvencilhei o beijo, gargalhando ao ver que os respondeu com um belíssimo par de dedos do meio. Enlaçamos as mãos, deixando o bar e subindo na Harley que ouvi roncar de imediato.

Minhas mãos subiram involuntariamente até a cintura dele, que agarrei forte, expirando o cheiro intenso da junção do perfume amadeirado e do couro da jaqueta que vestia.

O vento bagunçava meus cabelos, permitindo que a sensação de liberdade batesse em meu rosto, de forma que jamais me cansaria dela, porque cada vez que subia naquela moto, era uma sensação diferente. Apesar de cruzá-la todos os dias, a estrada parecia maior, me dando a chance de curtir o máximo que podia de todas as pequenas coisas que enriqueciam a vida, logo ali, na minha frente. Williams é uma delas. A maior delas.

Estacionamos em frente ao meu prédio que não era lá essas coisas, e as diversas paredes descascadas provavam isso. Desci da moto, retirando o capacete e entregando-o para , porque quando pretendia passar a noite, ele simplesmente arrancava pelo estacionamento.

— Vou só comprar umas coisas. – Avisou, levantando o visor do seu capacete.

— Não achei que fosse passar a noite aqui.

— Tem planos? – Pude ver parte da sua sobrancelha, que estava arqueada.

— Nem mesmo cogitei. – Pisquei marota para ele, virando-me para adentrar o prédio, sentindo sua mão pesar em minha nádega em um tapa ardido antes de ouvi-lo acelerar mais uma vez.

O elevador demorava mais à cada dia para chegar se arrastando ao quarto andar, porém nem em outra encarnação subir as escadas seria uma opção. Retirei a jaqueta e a joguei no sofá assim que entrei em casa, me dirigindo à cozinha que tinha alguns pratos espalhados pela pia. Juntei-os, na tentativa de renovar o ar de organização que a casa não conhecia há um bom tempo. Desisti quando percebi umas manchinhas no fogão também, de forma que se eu parasse para faxinar apenas a cozinha, não sairia tão cedo. Fui até o quarto, me esparramando sobre a cama, arfando quando senti as costas agradecerem, para desbloquear o celular que estava no bolso da calça, verificando as mensagens sem respondê-las porque as poucas que tinham eram sem importância.

Esperei por alguns bons minutos que não contei e desisti de começar à conta-los quando adentrei a ducha quente. Fechei os olhos, deixando a água cair sobre meus cabelos e ombros, relaxando-os. Enrolei o roupão em meu corpo assim que fechei o chuveiro, antes que o frio usual do apartamento me pegasse.

Ouvi o girar de chaves e logo a porta ser batida com força, com os passos pesados de cada vez mais próximos o aguardei no corredor entre o quarto e o banheiro.

— Não consegui te espe… – O homem avançou faminto sobre meus lábios, beijando-me feroz, embrenhando as mãos em meus cabelos e conduzindo-nos às cegas para o banheiro. Me impulsionei para cima, enlaçando as pernas na cintura dele que aproveitou das nádegas, deixando apertões generosos ali.

separou o beijo por poucos segundos, o suficiente para tirar a jaqueta que o ajudei, apressada, descendo as mãos por seu peitoral até a barra da camiseta, puxando-a para cima. Deslizei as mãos até o cós de sua calça, parando quando senti algo que impedia a passagem da minha mão até suas costas.

, o combinado era largar esse esquema.

— E eu larguei. Isso é precaução. – Puxou o revólver calibre 39, preso ao cós da sua calça, pousando-o na pia do banheiro. Em nenhum momento seus olhos me encararam e eu tive a certeza de que algo não estava certo.

— Você foi especialmente buscar essa arma.

— As coisas não estão tão calmas quanto nós pensávamos. – Ele finalmente me encarou e desta vez, nas írises que eu via rastros de fogo, agora, eu via incerteza.

— Vamos mantê-la. Por precaução. – Engoli em seco, cobrindo a mão dele com a minha quando hesitou em pegar a arma.

suspirou e deixou um selinho terno em meus lábios, tornando à beijá-los lentamente, traçando uma linha de beijos molhados e tortuosos até meu colo, que se tornou nu por completo quando o homem, sem rodeios, puxou o laço do roupão que o prendia.

Abri o botão da calça jeans e em seguida, o zíper, deixando que caísse pelas pernas dele, que a jogou para o lado junto dos sapatos. Me virei de costas para ele, sentindo a ereção tornar-se completa, retornando para o chuveiro que perdia temperatura entre nós. Empinei-me, luxuriosa, querendo desfazer do tecido áspero da boxer o mais rápido possível, pois começava incomodar.

segurou meu queixo com possessão, beijando meus ombros e a nuca, resultando em certos arrepios que apenas ele sabia como causá-los com tanto fervor. Virei para ele, encarando seus olhos claros e inundados de luxúria, sabendo que os meus não estavam muito diferentes, para agachar-me sem que quebrasse o contato visual até a altura dos seus joelhos, descendo a boxer preta que ainda vestia, por suas pernas.

Segurei sua ereção, sentindo suas veias pulsarem, sem perder tempo quando deslizei a língua por toda a extensão, tendo o gemido rasgado e rouco do homem como resposta. Envolvi-o com meus lábios, chupando em movimentos lentos de vaivém. embrenhou uma das mãos nos meus cabelos como incentivo e eu correspondi, aumentando a velocidade e alternando os movimentos com a masturbação que fazia. As mãos fortes dele seguraram meus ombros, me brecando e eu afastei os fios que colavam na minha testa, quando ele me puxou para cima.

— Você me enlouquece de um jeito, .

Afastei minhas pernas quando ele se posicionou atrás de mim, usando a pia como apoio. As mãos fortes arranjaram o encaixe perfeito na minha cintura enquanto seus lábios judiavam da minha sanidade à medida que passeavam por meu pescoço. brincou com seu pênis na minha entrada, ameaçando me penetrar e aproveitei para rebolar, sentindo seus dedos pressionarem-me com mais força.

Puxei suas mãos da minha cintura até os seios nus, massageando-os e apertando hora ou outra de forma que me deixava ainda mais excitada, e eu estava a ponto de loucura.

— Me. Foda. Agora. Mesmo. . – Freei os carinhos nos meus seios, proferindo pausadamente entredentes, ouvindo a risada suja dele ao pé do meu ouvido como resposta.

obedeceu à suplica e me penetrou de uma só vez, sem que eu sequer tentasse refrear o gemido que deveria ser abafado. Não economizou na intensidade das estocadas e eu realmente não esperava que o fizesse. As mãos retornaram ainda mais fortes à minha cintura e o impulso de encontro ao seu corpo, era violento, resultando em respirações entrecortadas e falhas.

Um bolo começou à se formar no meu ventre, de uma sensação gostosa e tão familiar enquanto nossos corpos se chocavam, em um som alto. Impulsionei-me ainda mais potente de encontro ao seu corpo, sem censurar os gemidos e ouvindo os dele que só colaboraram para que eu chegasse ao meu ápice.

Sua barba por fazer roçou na minha nuca quando encostou o rosto ali, se enterrando enquanto chegava ao seu ápice também. Abri o chuveiro, sentindo o corpo formigar um pouco com as intensas sensações dos últimos minutos e entre risadas sacanas, perdemos um bom tempo apenas ali.

O vi abrir os olhos de forma preguiçosa, demorando alguns segundos para que eu visse o brilho das suas írises, puxando-me mais para si, percebendo seus olhos um pouco inchados de sono. Não queríamos sair da cama e isso não aconteceria tão cedo, até porque, após o banho, nos deitamos e tentamos assistir uma série, mas já dormíamos nos primeiros vinte minutos e então, nos rendemos aos lençóis, que eram aconchegantes demais para serem ignorados.

— Neste final de semana será o aniversário da minha mãe. – proferiu, encarando o teto enquanto me aconchegava em seu peitoral.

— Isso é um convite?

— Se você aceitar, é. – Disse como quem não queria nada, deslizando uma mão por minhas costas nuas em um carinho suave.

— Não sei se…

— Se está pronta para conhecer minha família? Não é a primeira vez que ouço isso, não se preocupe. – Atropelou algumas palavras, tentando não parecer grosseiro, deixando um beijo terno no topo da minha cabeça.

Apenas duas horas nos separaram da nossa casa até a da mãe de , que ele insistiu que não levássemos nada porque era seu pai quem comandaria o fogão hoje. Sua irmã, Selena, acabara de se formar em Psicologia e retornara ao interior como parte das férias que ela reclamara tanto por não poder aproveitar enquanto estudava.

Um cheiro gostoso de churrasco despontava desde que estacionamos junto das cercas brancas da casa, que era linda como nos filmes. Um vasto jardim enfeitava a frente da casa, flores diversas e uma árvore crescia mais à frente, bem cuidada e com anões à sua volta.

enlaçou sua mão a minha, forte, como se quisesse cessar o tremor que crescia dentro de mim, talvez ele realmente adivinhara o que eu sentia, ou ele sentia o mesmo. Ele girou a maçaneta e adentramos a casa que era ainda mais bonita por dentro, cada detalhe atenciosamente pensado para aquele cômodo. Porta-retratos por todos os lados, pendurados ou atropelando uns aos outros dividindo espaço encima da lareira. Sua mão não me soltou em nenhum segundo e seguimos o corredor, para onde parecia ser a cozinha e conforme os passos nos aproximavam, eu chegava mais perto de ser comparada à uma adolescente cheia de espinhas que conhecia os pais do primeiro namoradinho.

, é o único relacionamento sério que tenho história para contar e seus pais eram os primeiros que conheceria.

Ele não soltou minha mão nem para abraçar as costas do homem que servia salada nos pratos postos à bancada. Risadas altas soaram de ambos, livres e espontâneas como nunca vira proferi-las antes.

— Ia chamá-lo de “tesouro” até ver que está acompanhado. – O senhor ajustou os óculos de grau ao rosto. — Quem é esta bela moça, ? – Sorriu terno, limpando as mãos no pano de prato.

— Pai, essa é , minha namorada. – Enlaçou minha cintura, de lado, fazendo brotar sorrisos em nós. Ignorava ao máximo o acelerado que meu coração se transformou desde que cruzamos os jardins.

— É um prazer finalmente conhecê-la, . – Ofereceu um aperto de mãos, que correspondi de imediato. — Sou Donald, mas me chame de Don.

— Eu que o diga. sempre tem mencionado vocês. – Sorri simpática, sentindo a mão quentinha do homem quando envolveu nosso aperto de mãos com sua mão livre.

— Está sendo simpática! Duvido que ele tenha nos mencionado! Venha, Selena está aqui. – Puxou-me pela mão que segurava, atravessando a cozinha e a porta que dividia dos fundos. O jardim do quintal continuava tão bonito quanto o que vira antes e mais à frente, uma moça de cabelos tão escuros quanto os de , regava uns vasos, calmamente.

— Lena! – gritou, vendo-a virar rapidamente, encarando de onde a voz soou. Largou o que tinha em mãos para correr até os braços do homem ao meu lado, que soltou minha mão apenas por ter dado alguns passos para trás quando ela pulou.

— É um milagre que realmente tenha vindo! Jurava que ia dar pra trás, de novo! – Soltou-o, dando um soquinho no braço dele.

— Ano passado foi complicado, já te disse. – Repreendeu-a com o olhar.

, né? – Selena virou-se pra mim. — É claro que é! Ele me mandou dezenas de fotos suas! – Deu de ombros, soltando um muxoxo em seguida.

— Não é como se ele não tivesse lotado meu celular com fotos de vocês, também.

— Isso eu pago pra ver! – Ela cruzou os braços na altura do peito, arqueando a sobrancelha como se o desafiasse.

— Ela só está sendo simpática, porque me disse a mesma coisa. – Don proferiu brincalhão ao meu lado, causando risadas em todos.

Nos sentamos em uma mesa posta mais à frente, numa parte mais alta, onde nos proporcionava uma vasta visão do horizonte, o sol forte e a região de imensidão verde. Uma brisa ainda fraquinha vez ou outra bagunçava nossos cabelos enquanto conversávamos descontraídos, ouvindo os podres da infância de Lance e gargalhando sempre que ele tentava se defender, para camuflar os fiascos que ouvia.

O almoço estava delicioso e até arriscou em fazer sua especialidade que era, nada mais, nada menos que vinagrete, mas que, como suspeita que sou, preciso dizer que fez toda a diferença. Apenas quatro pratos foram servidos à mesa e assim permaneceram, confundindo minha cabeça porque minhas contas não batiam.

A tarde caiu e com ela, a insistência de Selena para que mostrasse a gravação do aniversário de doze anos dos dois, que até a adolescência comemoravam aniversários juntos.

Apesar da clara boa condição da família, a comemoração de doze anos de Selena e fora simples, porque se havia algo que estava nítido ali, era que não importava o que faziam, era imprescindível a presença de toda a família, como bem maior. No vídeo, uma senhora estava a todo o tempo no meio dos dois, beijando-os a cada segundo. Um lenço cor-de-rosa estava amarrado em sua cabeça, as mãos magras deslizavam os cabelos deles por diversas vezes e um sorriso aberto que não saía do rosto em hipótese alguma.

Ao meu lado durante todo o tempo, –ou meu namorado, como ele gostava de dizer– gargalhava de absolutamente tudo que seu pai e irmã diziam, simples e feliz como o garotinho que vi nas fotos espalhadas pela casa.

Juntamos todas as louças para dar conta delas de uma só vez e não houve um segundo sequer que nos faltasse assunto, deixando-me confortável como em uma amizade de décadas. Talvez aquela fosse a definição de família que me faltava. Selena, atenta, me ensinou onde cada coisa se guardava, pois nas palavras dela “seria mais fácil para quando eu voltasse”.

puxou-me pela cintura, sendo claro aos outros dois que iríamos dar uns beijos, retornando à parte mais alta onde almoçamos, dando a sorte de pegar o pôr-do-sol que se despedia. Ele se sentou de frente para mim, com uma perna de cada lado do banco de madeira e eu fiz o mesmo.

— Tem algumas coisas que eu não te contei, . – Puxou uma das minhas mãos, passeando os dedos em desenhos desconexos.

— Imaginei que fosse contar quando se sentisse confortável.

— Nós gostamos tanto do nosso aniversário de doze anos porque foi o último em que nossa mãe esteve presente. – Ele engoliu em seco.

, não precisa de…

— Hoje é, realmente, o aniversário dela, mas depois que ela morreu meu pai foi criando raízes no sofá da sala e tomamos a atitude de transformarmos o aniversário dela em uma comemoração como qualquer outra. – Ele pigarreou, segurando minha mão com mais força. — Georgia foi a mulher mais bonita que eu já vi, mas o câncer de mama acabou com ela, depois veio o câncer nos ossos e perdemos a esperança, porque logo chegou o dia em que perdemos ela também.

— Vocês foram corajosos. – Passei minha mão sobre sua bochecha, passeando os dedos em sua barba rala, suavemente. — E fizeram um bem danado pra ele, porque o homem que eu vi aqui hoje brilha os olhos só de olhar pra vocês.

— Mas, eu também fiz muita merda, . Depois disso, fiquei com raiva do mundo e descontei em tudo que tinha na minha frente, estudos, família, amigos… E assim que conheci o Matt e entrei para o esquema. Era grana fácil, carne nova ganhava mais por não ser fichado e eu não vi problema.

— Matt aparece quando estamos vulneráveis. – Mordi o lábio inferior, suspirando em seguida.

— Casal, temos bolo com sorvete! – Selena gritou energética da porta da cozinha, lambendo uma colher cheia de sorvete. Nos levantamos e fomos até ela, porque, segundo relatos de , ela insistiria de segundo em segundo até que nos visse comer o bolo com sorvete que anunciara.

Espalhados no sofá da safa, nos lambuzávamos com a sobremesa, ouvindo os podres de Selena que contava nos mínimos detalhes. No começo, ela ainda insistia em se defender, mas percebera que era em vão, pois o irmão fazia questão em evidenciar os detalhes dos momentos mais vergonhosos da vida dela, tal como a mesma fizera com ele mais cedo.

A noite caíra e nos despedimos de Don e Selena, que não economizaram nos elogios e nos abraços quentinhos que me deram. enlaçou sua mão à minha para que cruzássemos o jardim dianteiro onde a moto permanecera estacionada desde cedo, entregando-me meu capacete.

— Ei. – Chamei sua atenção, assistindo-o fechar seu capacete enquanto fazia o mesmo. — Obrigada por hoje. – Me aproximei dele, encarando seus olhos que eram escuros como a noite, e tão brilhante quanto cada estrela do céu.

— Hoje você me mudou, pra sempre, . – Ele sorriu ladino, porém singelo, fechando o zíper da jaqueta preta que vestia, subindo na moto, dando partida e buzinando como despedida.

O vento que batia no meu rosto, desta vez, era mais frio e contrastava com o quente que sentia dentro de mim. O quentinho de ser querida em algum lugar, porque foi assim que me senti em cada segundo junto da família de . Da maneira que nunca senti perto da minha própria família, até porque eu não havia família para celebrar nada, e me custava todos os dias, aceitar isso.

estava muito mais falante no caminho de volta e não faltavam motivos para as risadas, que soavam sinceras de sua boca. Paramos apenas quando adentramos meu prédio, abrindo a porta do quarto que dava para uma sacada de vista para o jardim de uma igreja.

Nos esparramamos na cama, tirando apenas os sapatos e afofando os travesseiros, mesmo que o meu eu substituísse facilmente pelo peitoral de . Puxei o edredom para que nos cobrisse, sentindo sua mão mergulhar nos meus cabelos em um cafuné suave enquanto nos mantínhamos quietos, olhando pela porta aberta da sacada, o pouco que podíamos do céu limpo, porém de poucas estrelas, mas com uma luz da lua de tirar o fôlego.

Os dedos de estavam cada vez mais à vontade em meio aos meus cabelos e eu não estava diferente enquanto me afundava entre seu ombro e sua nuca.

— Como conheceu Matt? – Disparou de uma só vez.

— Nós namoramos na adolescência. – Bocejei preguiçosa, voltando à explicá-lo calmamente. — Eu morava com a minha mãe e meu padrasto, que era um nojo, mas minha mãe nunca acreditou em mim. Resultado: Matt me ofereceu uma grana que era suficiente para me ajudar a sair daquela casa.

— E você aceitou?

— Era a única maneira.

— Não quero saber sobre o que teve de fazer, . – Ele beijou o topo da minha cabeça, apertando-me pela cintura para mais perto do seu corpo e eu o ignorei.

— Eu ia pra algumas boates, qualquer uma que ele me mandasse ir. – Pigarreei. — Ele me indicava o alvo da vez e eu fazia tudo que era possível pra que eles ficassem de quatro por mim, e consequentemente ganhassem alguma confiança. Às vezes, isso demorava semanas. – Engoli em seco, sentindo as memórias me atingirem em cheio, como se tudo tivesse acontecido ontem. — Quando você disse que as coisas não estavam calmas como nós pensávamos, eu já sabia…

… – se desvencilhou, sentando-se sobre a cama, coçando sua barba, agoniado.

— Matt tem me ligado todos esses dias. E quer que eu volte. – Levantei meu olhar, calmamente, para o homem à minha frente.

— Você não precisa disso, babe. Não tem que voltar.

— Eu preciso, .

— Não posso perder você.

— No meu último trabalho, passei três semanas com um velho italiano e consegui todas as senhas das contas milionárias dele. A proposta não era matar ele e nunca foi, era só roubar o que o velho devia para Matt com alguns juros, é claro. Mas, no dia seguinte ao golpe o velho foi encontrado morto e Matt tem fotos dos meus encontros com ele durante todo o tempo. Ele quer usá-las como prova de que fui eu quem matou o velho.

— Filho da puta. – Rangeu os dentes, fechando as mãos em punhos.

— Matt tem a armadilha perfeita pra me ter nas mãos. – Reuni coragem para encarar seus olhos. — Eu vou voltar para Birmingham.

não pisava no meu apê há alguns dias e o porteiro, apesar de ser um senhor muito do carrancudo, havia tido inúmeros avisos sobre não deixá-lo subir em hipótese alguma. Seu cheiro estava por toda a casa, e em cada centímetro dos meus travesseiros e lençóis. Cada segundo naqueles cômodos era uma guerra interna sobre querê-lo ali, porém também saber que a melhor forma de protegê-lo, era estando o mais longe possível.

A calibre 39 que buscara dias atrás, ainda estava ali e reluzia vez ou outra quando a olhava de relance, causando um arrepio ridículo na nuca.

O celular tocou encima da cômoda. Era Matt.

— Não ignore minhas ligações, assassina. – Riu leve, em escárnio. — Creio que saiba que tenho novos projetos pra você, dos longos. – Explicou lentamente, com a voz rouca que me enojava.

— Vou pra Birmingham amanhã. – Me limitei.

— Você vem hoje. Desça, tem um carro azul marinho lhe esperando e não traga todas as suas tralhas, vai ter dinheiro suficiente pra comprar quantas calças quiser depois. – Rosnou, desligando em seguida, deixando em mim um vazio por não ter outra escolha.

Matt não trabalha com seguranças femininas, então o revólver poderia muito bem ser camuflado no meio dos meus seios e coberto pelo sobretudo grosso que vestia, pois quando a revista tomasse a área, eu alegaria tentativa de assédio e o segurança sabia de cor e salteado o que acontecia com quem quebrava o código de ética entre a gangue.

Na mochila não havia muita coisa, no entanto fora revistada da mesma maneira antes que adentrasse o veículo. O caminho de Londres até Birmingham mal passou de duas horas, que se tornaram as mais longas da minha vida, justamente por saber o que me aguardava na enorme casa de fachadas floridas e de cores alegres, para esconder toda a balbúrdia que escorria pelos corredores.

Matt era uma piada, em todos os seus aspectos.

— A trouxe mais rápido do que imaginei, Carlos! Merece um aumento. – Tragou do seu charuto recém aceso, fazendo um gesto com a mão para que o motorista se retirasse. — Quantas saudades, . – Saiu de sua poltrona atrás da mesa, andando até mim que continuei em pé perto da porta, de braços cruzados. — Você deveria me responder da mesma forma, . – Permaneci de braços cruzados, encarando-o frente a frente. Matt jogou a fumaça do charuto em meu rosto, puxando firme meu braço para que descruzasse e se enlaçasse no abraço robótico que forçou. — Coloque um sorriso nesse rosto. – Apertou as laterais do meu rosto com uma mão, de maneira que meus dentes rangeram involuntariamente tamanha força. — Eu disse: Ponha. Um. Sorriso. Nesse. Rosto.

Atrás de mim, Matt trancou a porta de seu escritório, mantendo a outra mão apertando meu queixo. Impulsionou para trás de forma que me prensasse entre ele e a porta, causando um estrondo alto quando bateu minha cabeça, sem piedade, na porta.

— Está muito arredia. – Sussurrou próximo ao meu rosto, sentindo seu hálito quente em mim, sem que pudesse fazer muito, ainda com sua mão espremendo minhas bochechas. — Sorte minha, poder trazer uma garantia. – Esfregou seu menosprezo no meu rosto quando sorriu sujo. Tirou o celular do bolso, usando a discagem automática e aguardando que respondessem do outro lado da linha. — Show time. – Proferiu pausadamente, finalizando a chamada. Matt soltou meu rosto e o massageei da melhor forma possível, tentado aliviar a dor persistente, vendo-o me encarar com a mesma proximidade. — Onde está o meu sorriso? – Me rodeou com ambas as mãos espalmadas na porta, como se me cercasse e eu o encarei tão intensamente quanto antes. Com todo o nojo que senti me causar repulsa, cuspi em seu rosto, mirando o loiro tirar o lenço preso ao seu paletó para secar-se, com respiração entrecortada e audível logo suas bochechas se tornaram de um vermelho vivo. — Você não deveria ter feito isso, boneca. – Secou seu rosto, levantando o olhar vagarosamente para mim, bufando e de narinas infladas. Com força semelhante à que apertara meu queixo a pouco, sua mão desceu até meu pescoço, engalfinhando ali e tornando minha respiração rarefeita. Forçando para manter o ar em meus pulmões, vi sua mão livre fechar-se em punho, atingindo meu rosto em cheio, tornando imediato o gosto de sangue inundar minha boca quando atingi o chão.

A respiração entrecortada e apressada doía sempre que me esforçava para supri-la, mas tudo se tornava mais difícil.

Na verdade, estava fácil até então, porque soube o que doía realmente quando a porta do escritório se abriu e virei meu rosto para olhá-la.

Um grandalhão que não reconheci, fazia força para impulsionar o homem à sua frente a andar, pois estava com um saco em seu rosto e eu não precisava daquilo para sentir o suspense.

Matt andou até eles e tirou o saco que cobria o rosto do rapaz.

Este, estava mais sangrento que o meu e com feridas abertas por muitos locais. Os olhos inchados, lábios cortados e cabelos raspados.

Eu sentia a dor em mim.

Porque era o meu .

Me levantei de imediato com uma força que não sabia ainda ter, vendo Matt corresponder tão rápido quanto eu.

— Não se apresse, meu amor. – Se pôs à minha frente, impedindo que me aproximasse de . — O garotão aqui, é a minha garantia. – Deu três tapinhas no rosto de , fazendo-o gemer de dor e meu coração se despedaçar. — E você! – Tornou a espremer meu queixo. — Vai fazer toda, e qualquer vírgula que eu mandar.

Tentei me soltar da sua mão e nos impulsos, discretamente abri o único botão do sobretudo, para que pudesse empunhar a arma que trazia, posicionando-a na testa de Matt, que sequer hesitou. O homem que segurava também empunhou uma arma, apontada para mim e como se fosse pouco, Matt também empunhou, em direção à testa de .

Engoli em seco quando vi o pouco que podia dos olhos de se fecharem quando sentiu o cano do revólver estacionar em sua testa.

— Agora, você vai abaixar essa arma e deixá-la na minha mão. – Matt explicou calmamente. — Lembrando que essa garantia é minha e posso usá-la quando bem entender. – Sorriu quando se aproximou de mim, emaranhando as mãos em meus cabelos e me puxando para um beijo apressado, ainda que sentisse deslizar uma mão por meu braço para chegar até a arma empunhada. Desvencilhou o beijo, aumentando minhas náuseas e tirou a arma que tinha, sorrindo vitorioso. — Não me canso de você! – Piscou maroto, fazendo com a mão o mesmo gesto que fizera mais cedo, se despedindo do seu capanga que arrastava o meu . — Tive que mudar algumas regrinhas nos esquemas. Entendeu agora, não é? – Aconchegou-se novamente em sua poltrona.

não tem nada a ver com isso. – Espalmei minhas mãos em sua mesa, ficando de altura proporcional para encará-lo. — Encare isso sozinho, como um homem.

— O que puder fazer pra te ver sofrer, eu farei, .

Dois dias se passaram até que Matt me atualizasse das coordenadas do próximo alvo e eu finalmente pude ter minha arma à tiracolo mais uma vez. Nos últimos dias, cuidei de da melhor forma que me fora possível, entre escapadas aqui e ali, para certificar-me de que, na medida do possível, ele estaria bem. Proporcionar um pouco de bem-estar para o homem que representava toda uma família para mim era o mínimo, e tudo parecia pesar ainda mais nas minhas costas conforme a realidade de vê-lo naquele cativeiro feria meu coração, sabendo que ele aguentava calado pelo meu próprio bem.

As coordenadas do golpe me surpreenderam, porque nada mais eram do que roubar um colar cravado de diamantes russos. Os mais rústicos do planeta já que uma única pedra poderia preencher a palma da sua mão de forma que não se fechasse. O “X” da questão que me causava arrepios, pois o tal colar fazia parte da herança restante do velho italiano morto tempos atrás, se não me engano, uma das únicas heranças, já que o dinheiro estava inteiramente em posse de Matt.

Dividi a enorme mesa de jantar com Matt, almoçando ao seu lado porque em suas palavras, eu era a primeira dama que ele gostava de imaginar ao seu lado. Desde que vira da forma que Matt usara para me ameaçar, precisei me curvar e acatar às vontades desse bandido filho da puta, pelo bem do homem que recebia o castigo que não merecia. Após o almoço, enquanto me munia das armas que precisaria para invasão, corri pelos corredores aproveitando a forma quieta com que o fazia para chegar até , que estava preso no sótão de paredes cinzas como em uma prisão. Um arame me ajudava sempre que precisava abrir a porta do cômodo e quando o fiz, ele estava de costas para mim, sentado no chão, de frente para a parede e com a cabeça encostada na parede.

Babe. – Sussurrei, sentindo a voz falhar após a cena, corri até ele que teve dificuldade de virar o pescoço para mim.

… – Engoliu em seco, virando-se para mim, vendo seus lábios tremerem conforme se esforçava para falar comigo. — Você precisa sair daqui.

— Você comeu? – Ignorei o máximo que pude do seu conselho, sem conseguir parar de encarar a mancha de sangue que ficou na parede quando ele desencostou a cabeça dali.

— Matt precisa de mim vivo.

— Já tenho tudo pensado. Depois do golpe, consigo te tirar daqui, aguente só mais um pouco, e eu juro que saímos daqui hoje, juntos. – Passeei levemente minha mão por seu rosto, juntando minha testa a sua, aproximando nossos corpos um pouco mais quando ele deslizou a mão sempre tão forte até minha cintura.

— Apenas fuja daqui, , na sua primeira oportunidade e não olhe pra trás. – também passeou sua mão livre sobre o meu rosto, aproveitando da temperatura que aumentava sempre que estávamos juntos.

Shhh. – Fechei os olhos, usufruindo o que podia da sua pele sempre em chamas, beijando a região em torno dos seus lábios, queixo, nariz e bochechas. — Ou saímos nós dois juntos, ou nenhum de nós. – Forcei-lhe um sorriso confiante, beijando seus lábios em seguida, da mesma maneira intensa que saciava a nós dois. Finalizei com vários selinhos em seus lábios e sorriu fraco, gemendo baixo de dor em seguida, enquanto eu corria até a porta mais uma vez, deixando-lhe um beijo no ar para que subisse as escadas e retornasse ao Purgatório.

Na mansão de Giacomo D’Agostini acontecerá um grande baile esta noite e com todos os preparativos para tal, o horário apropriado para o golpe era enquanto os corredores estivessem repletos de entregas e decorações fora de lugar, junto de um corpo de seguranças que ainda não estariam apostos.

A cozinha da enorme casa estava uma correria só e qualquer um que se oferecesse para ajudar ali seria bem-vindo e apesar de arriscar demais minha pele, sendo vista descaradamente, precisei começar algumas amizades. Depois de vestir minhas luvas para não correr a mansão distribuindo impressões digitais, corrigi a forma como sovavam as massas, provei molhos ao sugo dos raviólis, ensinei as medidas de gelatina incolor para incrementar as sobremesas e apressei as lasanhas que iriam ao forno, da minha melhor maneira de driblar os olhos famintos que percorriam cada centímetro da casa.

Vi uma das –verdadeiras– organizadoras deixar seu headset em uma cômoda enquanto ia ao banheiro, e aproveitei os poucos segundos de distração para me apossar do equipamento e fazer do esquema, muito mais verdadeiro.

Enquanto subia as enormes escadas, gritei com algumas empregadas para que se apressassem com as entregas dos arranjos de flores que ainda precisavam ser regados e sinceramente? Em outra vida, eu devo ter sido uma puta organizadora! Meu papel estava sendo bem interpretado demais!

Alguns mordomos tinha as gravatas borboletas tortas e arrumava todas que passavam por mim, pois, além de um golpe impecável, era uma noite gala, não é?

Mantive minhas ordens pelo headset enquanto me esgueirava pelos corredores mais calmos da mansão, aqueles onde a festa não se estendia, aqueles corredores que guardavam os maiores segredos.

Pelos comandos de Matt, o colar estaria preso na moldura do quarto Renoir coberto na biblioteca.

Quando encontrei a biblioteca a porta já estava aberta, e passei duas vezes pela frente, como quem não queria nada, procurando algum movimento no cômodo e avistando de longe o Renoir coberto pela metade. Ou alguém já se adiantara, buscando o mesmo que eu, ou com medo do pior, os seguranças da mansão começaram a investir na proteção da obra de dobro valor.

Adentrei o cômodo, olhando atentamente os quatro cantos, que não haviam nenhuma movimentação. Fechei a porta atrás de mim, trancando-a e tirando o lindíssimo Renoir da parede, que se tornou mais bonito ainda aos meus olhos quando com o canivete, abri a parte inferior da pintura, puxando desde a ponta do colar, que era de um brilho encantador. Sabia que o tempo para admirá-lo ali, ainda no território era curto demais, então o guardei no bolso interno do blazer que vestia, pra casar com a casualidade do evento.

Voltei o quadro para seu lugar, cobrindo-o parcialmente como o vira assim que adentrei, ajustando minhas luvas e destrancando a porta, voltando à normalidade dos corredores amontoados como se nada estivesse acontecendo. Como boa atriz que me tornei, respondi a todas as dúvidas que soavam pelo headset, coordenando as imperfeições que passavam por mim nos corredores até que conseguisse chegar à porta dos fundos, batendo os olhos no belíssimo Impala 68’ de Matt estacionado do outro lado da rua.

Saquei as chaves do carro do bolso externo do blazer, jogando o headset no jardim da mansão, ligando o carro e saindo cantando pneu. Era impressão minha? Ou tinha sido mais fácil do que roubar doce de criança? Céus!

Abri os vidros do veículo, sentindo a brisa fria do começo da noite bater em meu rosto enquanto cortava caminho por alguns becos e vielas, porque no momento que percebessem, eu já estaria no covil de Matt e o problema seria todo dele. Abri o porta luvas, tirando minha própria garantia de que Matt deixaria livre para sair dali.

Deixei o Impala tão bem estacionado quando havia deixado na mansão de Giacomo, pronto para fuga e adentrei a mansão de Matt, indo diretamente ao escritório dele.

O filho da puta fumava seu charuto tranquilamente, como se nada acontecesse ao seu redor e seu descaso, me deixava ainda mais cega de ódio.

Não me mencionei, nem o cumprimentei como ele queria que fizesse, apenas joguei o colar em cima de sua mesa, abrindo um sorriso quando ouviu o barulho da joia.

— Minha garota! – Pegou o colar, analisando-o minunciosamente, como se custasse acreditar que a joia estava em suas mãos. — Você nunca decepciona, .

— Onde está o ? – O encarei intensamente. — Já está com o colar e este era o preço.

— Acho fofo como se chamam cheios de apelidinhos. – Me ignorou. — Quem diria que meus melhores capangas formariam casal um dia. – Me mantive de braços cruzados, aguardando sua resposta, sentindo o sangue ferver. Sua resposta, no entanto, chegou quando a porta do escritório fora aberta por um dos homens de sua corja, com ao seu encalço. — Agora o casal pode matar as saudades, mas que isso sirva de lição para nunca mais ignorar nenhuma ligação minha. Carlos vai avaliar a joia.

— Vai o quê?

— Não achou que eu confiaria em você, não é ? – Sorriu presunçoso. — Você é lindíssima e uma das melhores na arte do crime, mas tem a essência de uma vagabunda. Não é confiável. – Matt passou o colar para as mãos de Carlos, que soltou das cordas que prendiam suas mãos. — Por favor, sentem-se.

Acomodei-me ao lado de , enlaçando nossas mãos e sentindo-me um tanto inquieta. Me agachei, ficando de costas para a mesa de Matt e de frente para , desamarrando seus pés, aproveitando para guardar uma Glock em seu coturno, sentindo seus olhos sobre mim de imediato. Matt mais á frente, cochichava com Carlos e não parecia nada feliz, o que não era novidade, mas ignorando-o me levantei para buscar um copo com água para . O ajudei no que fora necessário até que bebesse tudo, pois sentia diversas dores por todo o corpo, enquanto ajudava senti meu braço seu puxado com brutalidade.

Matt me prensou contra a porta, apertando meu pescoço, dificultando a respiração.

— Eu sei que você os inverteu, me dê o colar verdadeiro, .

— Ess… Esse é o único que tenho. – Disse com dificuldade e ele me soltou.

— Certo, certo. Então vamos brincar. – Se virou para , segurando pela gola da camisa para acertar seu rosto com um murro, mantendo-o em pé. — Não se lembrou ainda, ? Vou te ajudar. – Sacou a arma de sua cintura, apontando para e atirando em seu pé. O grito de fora alto e fez meu interior tremer por completo. — Lembrou? – Se virou para mim, deixando a arma apontada para a cabeça de e céus, eu mal conseguia respirar, quem dirá pensar.

— Está no porta-luvas do Impala. – Sussurrei, encarando a arma apontada para , alternando o olhar entre ele no chão e a arma empunhada.

— Certo. Sugiro que pense bem se estiver mentindo pra mim de novo. – Puxou-me, prensando contra a parede, e espremendo minhas bochechas sem dó. — Pode gritar se quiser, boneca. Todos os seguranças estão invadindo a mansão de Giacomo D’Agostini, o velho italiano que você matou. A fortuna dele você me trouxe, o colar também, e a última das heranças logo será parte do meu poder: a mansão. – Ele me explicou, pausadamente, como se o fizesse para uma criança. — Carlos vai verificar, e essa é a sua última chance. – Assenti da melhor forma que me foi possível, vendo ao fundo me olhar de uma forma que não soube interpretar. Matt fez sinal com a cabeça para que Carlos deixasse o escritório e verificasse o Impala, e ele acatou de imediato.

Enquanto Carlos cruzava o escritório, vi de relance o corpo encurvado de se levantar também e sacar a arma que coloquei em seu coturno. O estrondo soou e não tive tempo pra saber se o tiro fora certeiro, porém acertei Matt com uma cabeçada, vendo-o gemer de dor enquanto cambaleava. Puxei minha arma também, tão ágil quanto , percebendo Carlos caído no chão, de bruços. Respirei fundo, vendo tudo em câmera lenta quando apertei o gatilho em Matt, que se esquivou, recuperado da cabeçada, apertando o gatilho sem pensar duas vezes, na direção do meu .

O meu agora, caía de joelhos, encarando seu próprio sangue em suas mãos, jorrando do tiro que acertara sua barriga.

Meu sangue ferveu e antes que visse Matt virar-se para mim, atirei não uma, nem duas, mas três vezes nele. Sem rancor algum.

Assisti seu corpo cair e seus olhos perderem a vida.

Corri até , que segurava o local onde foi atingido e eu tirei meu blazer, para comprimir o tiro, evitando que ele perdesse mais sangue.

… Céus! Eu amo você. – Proferiu devagar e de voz rouca, com dificuldades claras. — Mas…

— Não diga nada, eu vou tirar você daqui e vai ficar tudo bem.

— Não sei,

— Homem, cale a boca! – Proferi apressada, sem conseguir segurar as lágrimas que brotaram nos meus olhos. Continuei fazendo pressão no ferimento quando tirei o celular do bolso traseiro da calça jeans, buscando por sinal, mas caralho, nada parecia querer dar certo. — Babe, eu vou precisar que você use de toda a força que tem, porque nós vamos andar até o Impala.

— Me beije.

— Isso não é hora, Williams. – Revirei os olhos.

— Nã.. – Tossiu, respirando com dificuldade. — Não seja teimosa. – Funguei, permitindo que as lágrimas molhassem meu rosto e as sequei no momento que juntei os lábios aos dele. — Essa era toda a força que eu precisava. – se sentou, apoiando um braço em meus ombros para que tomasse impulso, enquanto com o braço livre, pressionava meu blazer no ferimento.

Fazia algumas horas desde que adentrara a cirurgia para retirada de ambas as balas, e eu me mantive inquieta por todos os minutos que me mudavam de sala para um novo exame de check-up completo. Um acesso preso à veia do meu braço me hidratava com soro desde que demos entrada e cada segundo somado, com os olhos de longe dos meus, era uma eternidade.

chegara inconsciente ao hospital e tudo ao redor me deixava mais confusa, e com mais medo. Medo de ter o final que não merece. Medo de perder o único homem que me amou intensamente e que me fez amá-lo tão verdadeiramente quanto. Medo de não ter a chance de dizer que o amo. Medo de não tê-lo comigo para o resto da vida. Medo também, das notícias que o médico que folheava as fichas enquanto adentrava o quarto, tinha para me dar.

, correto? – Assenti, sentando-me na maca, prestando atenção em suas palavras.

— Alguma notícia de ? – Me apressei. — É Williams, na verdade.

— Na verdade, sim. – O médico engoliu em seco. — A primeira, é que a cirurgia foi um sucesso. – Suspirei, sentindo o alívio da notícia.

— Ah! Obrigada. Deus! Estava tão preocupada que…

— Você está grávida.

— O quê?

— Parabéns! É uma menina, de quase treze semanas.

Automaticamente minha mão desceu até o ventre, massageando a região, vendo uma lágrima pingar na minha mão sem que eu sequer percebesse que elas se formaram em meus olhos. Levantei meu rosto, vendo a maca de retornar ao quarto e ele estava bastante grogue, porém seus olhos me encontraram, intensos e amáveis, e sorriu genuíno, como se adivinhasse a notícia que o aguardava.

E eram aqueles olhos, verdes e intensos, que faziam meu coração disparar no mais puro amor. Aqueles olhos que eu amaria até o último dos meus dias. Aqueles olhos que me ensinaram o que é amor. Aqueles olhos verdes que me prometeram tantos sonhos e um se realizava agora. Aqueles olhos que brilhariam ainda mais felizes ao saber ser pai da nossa filha.

This feeling, keeps growing, these rivers keep flowing
(Esse sentimento cresce, esses rios continuam inundando)
How can I have answers when you drive me in questions?
(Como posso ter respostas se você me enche de perguntas)
I don’t know what to tell you, I’m not a fortune teller
(Não sei o que te dizer, não sou um vidente)