La Vie En Rose

Sinopse: Em busca da cura do seu coração partido e diversas decepções pessoais, você viaja até Paris para passar o fim de ano junto com sua mãe e seu padrasto. Conhecendo um pouco mais da cidade luz, o destino faz com que um desconhecido esbarre no seu caminho, te tirando da sua zona de conforto. Tudo o que você construiu ao longo dos anos valeu a pena se te fez perder sua essência? Talvez esse desconhecido desperte sentimentos que pareciam não existir mais no seu vocabulário, te mostrando que a vida pode ser mais simples e leve.
Gênero: Romance
Classificação: 18 anos
Restrição: Personagens principais e características físicas interativas
Betas: Regina

4 de Dezembro, 2019

— Senhoras e senhores, sejam bem-vindos a Paris. O voo 7849 aterrissou no aeroporto de Charles de Gaullet em segurança. Esperamos que tenham feito uma boa viagem… — os alto falantes da aeronave soam em meus ouvidos.

Após um longo voo de 10 horas, eu estava na cidade luz, longe do conforto do meu apartamento e da presença dos meus amigos na ensolarada Los Angeles. Todo ano, nos meados de dezembro, eu cruzava o oceano pra comemorar com minha mãe e seu marido as festas de fim de ano. Mamãe e Pierre costumavam morar em Nice, cidade litorânea no sul da França. Porém como meu padrasto havia sido promovido no trabalho, trataram de fazer as malas e partiram rumo à capital mais famosa da Europa. Paris.

Felizmente essa viagem serviu perfeitamente para fugir da dura realidade que vinha atormentando meus dias. Encarei o banco vazio a minha direita, lembrança constante de que ele não estava ali. Essa seria a primeira vez que estaríamos com a minha família oficialmente noivos.

Um nó se forma em minha garganta quando o vazio no meu dedo anelar direito indicava que não tínhamos mais nada. Quatro anos da minha vida sendo iludida, dedicando meu amor e cumplicidade a um homem que nem ao menos me respeitava. O embrulho no estômago me fazia ficar doente só de lembrar dos momentos que passamos juntos, das noites que viramos fazendo amor, do pedido de casamento à beira mar…

Para no final eu pegar Daniel em nossa cama com Sophia, sua colega de trabalho, que sempre desconfiei nutrir uma espécie de sentimento pelo meu ex-noivo, e que o mesmo me fazia crer que não passava de alguma maluquice inventada pela minha cabeça. Bem, dessa vez a minha intuição não estava errada. E Deus sabe como eu gostaria de ter apenas imaginado cada olhar que ele lançava a ela, cada telefonema suspeito aos fins de semana e principalmente a cena miserável dos dois nus em nossa casa.

Respirei fundo durante todo o trajeto pelos corredores frios do aeroporto. Andei até a esteira, recuperando minhas bagagens e em cada movimento automático, pensava em alguma estratégia de como contar a minha mãe e a Pierre o porquê de eu estar atravessando os portões sozinha. Sim, sou uma completa covarde por não ter contado antes que meu relacionamento estava completamente arruinado e que eu carregava um belo par de chifres na testa.

Caminhei junto a um amontoado de pessoas que estavam ansiosas para encontrar seu familiares. O gelo em minha barriga, que pareciam estalactites afiadas no estômago, começava a se alastrar por todo meu sistema nervoso, fazendo com que meu corpo enviasse sinais para cada membro. Minhas pernas tremiam, minhas mãos suavam frio e meus olhos ainda estavam inchados por todas as noite que passei chorando. Um estado completamente deplorável. Parabéns ! Nota 0.

— Meu amor, você finalmente chegou! — Ouço a voz da minha mãe antes mesmo de enxergá-la por entre os corpos ao meu redor.

Volppé sempre foi uma pessoa extremamente animada, brilhante e com opinião forte. Era impossível minha mãe passar despercebida por onde quer que fosse. Sua postura invejável e autoconfiança atrai olhares de curiosidade. E este deve ser o motivo que ela conquistou o coração do meu padrasto, o francês Pierre Volppé. Dona foi “a cor que faltava em seus dias cinzentos”, palavras ditas pelo próprio Pierre.

— Oi mãe, faz muito tempo. Estava morrendo de saudade — Enterrei meu rosto em seu pescoço e respirei fundo o perfume natural dos seus cabelos. Meus olhos já estavam cheios de água, dessa vez pela falta que eu sentia do calor reconfortante do seu abraço e da familiaridade de sua voz.

— Querida, Pierre está no carro nos esperando! Ele está louco pra te abraçar e conhecer o seu noivo! Por falar nele, onde está Daniel? Pensei que vocês viriam juntos! Contar as novidades em primeira mão — Apertei meus braços ao redor da minha mãe, querendo evitar o contato visual — Filha, vocês planejaram isso por meses. Iriam passar as férias juntos na cidade do amor. O que aconteceu? — Finalmente me afasto e minha mãe encara meu semblante desanimado, com o rosto molhado de lágrimas — , o que Daniel fez?

— Acabou mãe — sequei os rastros que teimavam em descer pelas minhas bochechas — Eu e Daniel, não existe mais. Não vai ter casamento e eu…bem, eu estou sozinha e vim curtir minhas férias com a minha família — Esbocei um sorriso conformado, que mais pareceu uma careta. Voltei a afundar a cabeça no ombro da minha mãe que prontamente tratou de me acolher.

— Oh querida, venha! Me explique o que houve, vocês pareciam estar tão bem — Acomodei minhas malas no carrinho e fomos empurrando até o estacionamento. Enquanto eu contava a trágica história a minha progenitora, flashs do mês passado voltavam em minha mente, mesmo eu desejando apagar tudo da minha memória.

— Eu pensei que tudo o que eu sentia era recíproco, só não contava que Daniel não estava caminhando nessa junto comigo — Bufei irritada — Infelizmente não existe explicação pra falta de caráter. E também para o meu papel de trouxa por tanto tempo.

— Não se cobre tanto . As escolhas que esse imbecil toma não são de sua responsabilidade — Ela me abraça de lado — Vai ser bom você estar aqui por esse tempo, conhecer os ares franceses, visitar os pontos turísticos incríveis, provar da comida deliciosa — Minha mãe bate palma animada — Tenho lugares magníficos pra te levar. Bistrôs, bares, restaurantes, pubs. Vamos animar que esse mês é Natal!

Após alguns passos, minha mãe suspira ao ver o homem da sua vida encostado no carro com uma postura despretensiosa. Pierre sempre carregou um semblante sério e rígido, mas bastava um pouco de convivência e conversa que sua armadura se desfazia e ele se mostrava uma pessoa carinhosa. Dona foi a primeira a descobrir os segredos do francês ‘rabugento’ e destruir seus muros. Acho que só por conta deles mesmo que eu continuo acreditando no amor, era uma química invejável.

— Venha aqui e dê me um abraço, faz tempo que minha menina não nos visita — O forte sotaque europeu de Pierre me fez rir enquanto o mesmo me apertava contra seu corpo — Não demore tanto pra voltar. Deixa aqueles americanos de lado e fique aqui com sua família — Ele sorri e abre o porta-malas — Coloque as bolsas aí atrás, deve estar exausta depois desse longo voo. Vamos para casa.

Agradeci mentalmente que Pierre não me fez perguntas, já era doloroso demais lidar com a decepção no rosto da minha mãe quando me viu sozinha. Me acomodei no banco de trás enquanto os dois trocavam olhares silenciosos, um consentimento mútuo de que qualquer tópico envolvendo casamento, por hora, estava proibido.

Pierre dá a partida e minha mãe logo trata de falar sobre assuntos aleatórios para preencher o vazio. Eu respondia com monossílabas e esboçava alguns sorrisos. Apoiei minha cabeça na janela e me permiti observar a cidade do amor, que hoje estava coberta por uma nuvem cinzenta carregada com chuva, prestes a cair a qualquer momento. Posso dizer que estava da mesma forma que o clima da cidade, a ponto de desabar em apenas um segundo. Estar ali sozinha, depois de sonhar e planejar tudo com seu ex-noivo por meses, era muito doloroso.

Chegamos ao pequeno apartamento e Pierre nos deixou à vontade, perguntando se eu estava com fome e que logo ele iria preparar o jantar para me deixar descansando. Mamãe foi me guiando pelos corredores e abriu a porta à direita, dando espaço para que eu entrasse junto.

— Você vai gostar do seu quarto, tem uma visão incrível da cidade. E o apartamento é muito aconchegante! — Minha mãe deixa as malas ao pé da cama — Tudo aqui é perto do centro, e caso precise ir pra mais longe, o metrô fica a duas quadras. Agora, tem toalhas no armário, as roupas de cama estão limpas, a geladeira abastecida caso você queira lanchar ou até mesmo preparar algo mais elaborado — Ela suspira e passa a me encarar por alguns segundos antes de me abraçar novamente — Estou muito feliz de ter você aqui, descanse agora! Amanhã vai ser um novo dia, e vamos descobrir todos os encantos de Paris, mon amour — Ela força um sotaque e acabo rindo involuntariamente.

— Vou tomar um banho pra ver se essa jet lag passa um pouco. Eu te amo muito mãe — Recebo um beijo na testa e sou deixada a sós no ‘meu quarto’. Começo a desfazer as malas e arrumar todas as roupas no armário. Separo meu moletom, que serviria de pijama durante essas férias, em cima da cama e vou até ao banheiro.

Um bom banho quente para me esquentar na noite fria parisiense me faria muito bem. Abro o chuveiro e deixo que as gotas massagearem meus ombros tensos. Apesar de ser bom dar um tempo na rotina agitada, ficava preocupada com meu restaurante que deixei lá em Los Angeles.

Recentemente abri a terceira filial do meu restaurante e estávamos a todo vapor lidando com a inauguração, imprensa, convidados e é claro, os clientes. Sou formada em gastronomia, com especialização na culinária francesa e italiana. Meu amor pela cozinha vem desde muito nova, vendo minha avó preparando bolos, tortas, doces e outros tipos de iguarias que nos deixam com água na boca. Tudo o que eu sempre quis foi abrir meu restaurante e apresentar para as pessoas o verdadeiro valor que uma boa refeição pode trazer. Não se trata apenas sobre se alimentar, mas de sentir prazer em cada garfada, cada sabor que em complemento com o outro se torna uma explosão de alegria na sua boca. Essa era minha verdadeira paixão.

Mas tudo estava nas mãos da minha melhor amiga, Joana, que também era minha gerente. Eu posso confiar na sua supervisão de olhos fechados. Não tinha com o que me preocupar.

Terminei meu banho e corri para me aquecer com minha calça e blusa de manga comprida. Debaixo das cobertas, inevitavelmente pensei em tudo o que passei com Daniel. Deixei meu pequeno apartamento para comprar uma casa enorme e dividir tudo com ele. Além dos planos para a grande cerimônia que sempre sonhamos, a lista de convidados que era composta em sua maioria pelos amigos da alta elite de Los Angeles, todo o investimento à longo prazo agora estava indo pelo ralo. Meu coração apenas apertava e naturalmente as lágrimas molhavam o travesseiro. Agora minha vida estava uma bagunça e nada mais fazia sentido. Será que minhas conquistas até ali valeram a pena?

Muitas dúvidas me assombravam, mas por fim o cansaço venceu e acabei sendo embrulhada na escuridão com meus pensamentos sombrios. Porém como minha mãe havia dito, não preciso transformar essa viagem em um enterro. Talvez seja uma boa oportunidade para mudar minha sorte e ser contaminada pelo maravilhoso espírito natalino.

5 de Dezembro, 2019

Definitivamente, o natal não estava me contagiando. Por onde quer que eu e minha mãe andássemos, as ruas, calçadas e vitrines estavam enfeitadas com luzes pisca-pisca, renas de nariz vermelho e Papais Noéis em formas variadas. Todos pareciam sorrir, procurando presentes para seus parentes… e tinha eu, que parecia ter sido picada por um bicho estranho que sugava todo o meu bom humor.

— É uma obrigação de qualquer pessoa que vem a Paris, visitar o Musée du Louvre¹. Claro que tem Monalisa, um marco na história da arte de Da Vinci – Minha mãe tagarelava incessantemente — Apesar de ser magnífica, é muito disputada pelas fotos dos turistas. Então meu conselho é não perder muito tempo ali. O resto do acervo é tão incrível quanto. Conseguimos achar peças gregas, romanas, etruscas…antiguidades egípcias – Ela respira profundamente — Tudo nessa cidade transpira cultura, sei que você vai amar!

— Quero ver algumas obras de Vermeer, será que conseguimos? – Pergunto curiosa.

— Claro! Fica no próximo corredor!

A fama do Louvre era real. Ele era enorme, parecia que as pinturas, estátuas e objeto não tinham fim. Passamos a manhã toda recebendo uma enxurrada de informações sobre a histórias da arte. Em um determinado momento, cansamos do museu e decidimos andar pela avenida mais cara do mundo, Champs Elysees. Com as calçadas largas, ainda abarrotada de turistas, fiquei encantada por todo o luxo e elegância que as pessoas exalavam. O inverno fazia com que as pessoas retirassem suas melhores roupas do armário, exibindo seus casacos de grife sem medo algum. Gucci, Chanel, Dior, Balenciaga… eu e mamãe suspiramos a cada peça de roupa e dos preços um tanto quanto caros.

— E voilà! O famoso Arc de Triomphe² – Dona faz um gesto teatral como se apresentasse um velho conhecido — Preciso dizer que a cada dia que passa, eu me apaixono mais e mais por essa cidade. Já passaram três meses morando aqui, porém cada dia é como descobrir algo novo e impressionante.

— E convenhamos mãe, o Natal aqui faz tudo parecer ainda mais charmoso – Dou uma risada — Só é um pouco frio demais pro meu gosto, não estou acostumada – Olhei para o relógio que marcava dez graus. Eu já estava batendo o queixo.

— Os casacos e cachecóis só tornam a gente ainda mais chique! Essa é a melhor parte. E olhe que não está tão frio viu? Um vizinho meu disse que já pegou abaixo de zero!

— Desde que eu não vire um picolé ambulante, está tudo ótimo

— Pare de reclamar ! Agora me faça um favor, fique exatamente onde está, preciso tirar uma foto sua agora mesmo! – Esbocei um sorriso e minha mãe encheu a galeria do celular com cliques desajeitados. Ela tinha muitos talentos, mas infelizmente, tirar fotos não era um deles.

— Ok, mãe…Podemos voltar o nosso tour?

— Pelo amor de Deus , você veio com defeito de fábrica. Não me lembro de ter uma filha que não gostasse de tirar fotos.

— Quando o fotógrafo ajuda eu não reclamo… – Falo em um tom mais baixo mas ela acaba escutando e revira os olhos.

— Ok senhorita, por que não tomamos um café perto da Praça? Tenho certeza que nossas pernas vão agradecer por um pouco de descanso

Escolhemos um bistrô agradável, algumas ruas atrás da Praça da Concórdia³. Eu tinha que admitir, tudo em Paris era cativante. O croissant com cappuccino parecia simples, mas como minha mãe sabia da minha exigência na cozinha, algo parecia dar o toque final que transformava nosso café da tarde ainda mais incrível.

Tratei de não deixar que a nuvem do desânimo tomasse conta do meu humor. Ainda que eu não estivesse completamente feliz, o simples fato de estar me distraindo ajudava minha mente a não voltar aos acontecimentos trágicos. Existia apenas um ou outro casal irritantemente perfeitos e felizes, curtindo a cidade luz com seu companheiro. Mas eu me sentia ok com tudo.

Ok definitivamente era a melhor descrição para o meu humor de hoje.

Dona digitava furiosamente no celular enquanto eu aproveitava meu petit gateau como se não houvesse amanhã. Algo me dizia que eu passaria o resto do dia sozinha.

— Deixa-me adivinhar – Deixei o talher apoiado no prato — Surgiu algum problema no ateliê e você vai precisar sair?

, como você me conhece tão bem? – Minha mãe parecia triste mas eu apenas ri para aliviar sua tensão — Me perdoe meu amor, não sabia que teria problemas com as entregas de hoje. Preciso dar uma saidinha, mas podemos jantar juntas ainda e-

— Mãe, relaxa ok? Eu sei que imprevistos acontecem e eu também sei muito bem que eu sou a única naquela casa que está de férias – Levantei as sobrancelhas e acariciei sua mão por cima da mesa — Temos todo o mês de dezembro pela frente, não tem com o que se preocupar.

— Não quero que fique sozinha depois de tudo… – Seu tom preocupado revela o porquê de sua frustração.

— Mãe… fique calma. Vai ser bom eu treinar um pouco do meu francês. É seu trabalho, é sua carreira, vá e fique em paz.

Ela me olha mais uma vez, retira algumas notas da bolsa e deixa em cima da mesa, pagando a nossa conta. Estava prestes a reclamar mas ela me interrompe rapidamente.

— Eu já estou sendo indelicada te deixando sozinha. Vou pagar a conta sim senhora – Vem até meu lado, deixando um beijo suave na testa — Se cuide meu bem, e não caia nas cantadas baratas dos franceses – Pisca um olho e sai em direção ao metrô.

Sempre admirei o jeito independente da minha mãe. Ela correu atrás do seu sonho depois de um casamento frustrado com meu progenitor, que me recuso a chamar de pai. Um homem que tentou fazer com que ela desistisse dos seus projetos para viver como uma dona de casa não era digno de estar com dona . Hoje, ela vive um romance com a pessoa que a apoia em todas as suas decisões malucas, e era tudo o que ela merecia.

Passei o resto da tarde caminhando sem rumo e apenas apreciando a arquitetura icônica da cidade. Quando me dei conta já era sete da noite. Dei uma olhada em meu bloco de notas e conferi algumas das minhas opções gastronômicas que estavam por perto. Encontrei um restaurante com música ao vivo que parecia agradável.

Entrei no ambiente aquecido e retirei meu sobretudo e cachecol. Escolhi um banco afastado e fiz meu pedido diretamente no balcão do bar, enquanto esperava pacientemente pelo meu drink. Uma música suave preencheu meus ouvidos e notei um homem sentado no piano tocando algumas músicas conhecidas. Alicia Keys, Brian McKnight, Sam Smith… os dedos compridos e pálidos deslizavam com maestria pelas teclas, o músico não errava uma nota sequer e seus olhos dançavam pelos clientes lançando sorrisos sedutores.

Seu cabelo bem arrumado, com uma blusa branca de botões enrolada até seus cotovelos marcavam seus músculos do torso. Usava uma calça preta simples e botas. Era estiloso, mas nada que chamasse muita atenção, ainda que ele não precisasse disso.

Em algum momento, ele lançou seus olhos na minha direção e dali não saíram. Fiquei hipnotizada pela sua beleza pouco usual. Não era muito difícil encontrar um pela cidade, até porquê a cidade tinha uma vasta variedade de culturas, mas algo em sorriso charmoso e seu olhar penetrante fazia com que ele se destacasse em qualquer multidão.

Não reparei que segurava minha respiração por tanto tempo até que meus pulmões reclamaram pela falta de oxigênio, soltei uma lufada de ar e meu observador pareceu rir do meu gesto um tanto quanto desajeitado.

Voici mademoiselle (Aqui está senhorita)– O barman coloca o drink na minha frente com um sorriso.

Merci (Obrigada)– desviei meus olhos do pianista bonito, que agora tocava Sunday Morning, do Maroon 5, fazendo com que um pequeno coro de clientes ao seu redor se juntasse na melodia.

Após alguns minutos, a música se encerrou e procurei pelo desconhecido. Estava cedo para perder a sua presença agradável, e fiquei um tanto quanto decepcionada por não ouvir mais do seu talento.

— Procurando alguém em especial? – Ouço uma voz grave ao meu lado e salto em surpresa — Me perdoe, não era minha intenção te assustar desse jeito.

— Como sabe que eu falo inglês?

— Eu toco nesse restaurante a alguns anos. E apesar de não ser francês, sei reconhecer um parisiense local de um turista, e confesso que notei todos esses detalhes porque você chamou minha atenção assim chegou aqui – Ele lança um sorriso para mim e fez um pedido rápido para o garçom, que acenou em concordância se retirando em seguida — Mas então, gostou das músicas? Meu repertório te agrada?

— Você toca muito bem! Sua versão de If I Ain’t Got You ficou realmente incrível, parabéns! – Levantei minha taça pela metade cumprimentando seu talento e desvio os olhos fazendo charme.

— Sabe o que mais me chamou atenção? – Levantei minhas sobrancelhas para que ele continuasse — Uma moça incrivelmente linda como você solitária nessa noite. Parece uma cantada antiga e barata, mas realmente estou curioso com isso… veio desacompanhada?

— Infelizmente não sou como a maioria das pessoas aqui — Digo enquanto observo a maior parte da clientela sendo composta por casais — Eu viajei para a França sozinha, e bem…estava com a companhia da minha mãe até um tempo atrás, mas como só eu estou de férias, ela teve que resolver alguns problemas no trabalho – Suspirei enquanto revirava os olhos — E não sei o que vai ser durante esse mês, já que vou passar o natal e ano novo em Paris.

— Veja pelo lado bom, você vai passar um feriado incrível com a sua família nessa cidade mágica.

— Assim eu espero – dei um sorriso falso e terminei o conteúdo alcoólico — Gastei um bom dinheiro para chegar aqui e desperdiçar tudo com férias miseráveis, seria a última coisa que eu gostaria – ele riu de leve.

— E de onde você veio mademoiselle?

— Será que consegue adivinhar essa também? – O encarei desafiadora esperando pelo seu palpite.

Ele levanta uma das sobrancelhas, encara meu rosto por mais alguns segundos antes de se levantar e caminhar de volta para o piano, dessa vez me puxando pela mão para acompanhá-lo. Ele se senta e suas mãos voltam para o instrumento, tocando as primeiras notas, me fazendo rir com sua escolha óbvia, porém certeira.

— City of Stars? Sério? – Ri e acabei acompanhando a melodia de um dos meus filmes favoritos.

— La La Land é um bom cenário para representar Los Angeles, não acha? – Ele sorri enviesado e cantarola junto com a música, me fazendo ter certeza de que sua voz era ainda mais agradável cantando — Acertei?

— Estou começando a achar que sou um livro aberto muito fácil de ler…e sim você está certo.

— E qual o nome dessa belíssima californiana?

, e você pianista desconhecido de Paris?

Ele pegou uma das minhas mãos e levou até seus lábios, depositando um suave beijo e me olhando por entre seus cílios longos.

— Prazer , meu nome é – Ele sorri de canto e acabei me perdendo em seu olhar profundo — Bom, espero que você aproveite Paris da melhor forma, e como você mesma disse, não desperdice o seu dinheiro atoa. Seria realmente uma pena, não é mesmo? – Senti uma certa ironia na sua fala, o que ele quer dizer com isso?

— Você acha besteira eu acabar perdendo dinheiro?

— Eu acho que, na vida, existem coisas mais importantes do que dinheiro, principalmente nessa época do ano – Ele sorri de lado enquanto fechava o piano e se virava pra falar comigo, olho no olho.

— Certo, falar que dinheiro não importa no feriado mais comercial do ano é um tanto quanto irônico, não acha? — Reviro meus olhos com impaciência, quem ele pensa que é? Todo o meu dinheiro era suado. Estar ali com minha mãe e Pierre era ótimo mas não era nada fácil ir para a Europa em dezembro, ainda mais quando eu planejava dividir esses custos com alguém.

— Claro que o mercado se aproveita para vender ainda mais agora, porém estar com a família, amigos, ajudar ao próximo e rever seu valores… talvez esse seja o verdadeiro sentido do Natal – se levanta e volta para o balcão, pronto para beber seu whisky. Ótimo, agora eu estava levando uma lição de moral de um completo desconhecido.

— Acho romântico a sua visão sobre o Natal, mas pode ter certeza que os presentes também fazem parte da nossa tradição moderna – Peço a conta para o garçom que se retira para me atender rapidamente.

— Engraçado você dizer isso, vindo de uma americana…– Ele revira os olhos e parece relaxar ainda mais. Pensei que ele flertava comigo mais cedo, entretanto agora, vendo seus comentários grosseiros, só me fazem ficar mais irritada e com certeza perder o interesse.

— Acho você muito prepotente para alguém que gosta de adivinhar sobre os outros. Se me der licença, tenho mais o que fazer do que ouvir comentários desagradáveis de um músico qualquer – Pago a conta e me retiro do restaurante, ignorando as chamadas que o pianista fazia e me preparando para voltar pra casa. Minha primeira tentativa de flerte saindo completamente errado, muito bom , muito bom.

¹ O Museu do Louvre, é o maior museu de arte do mundo e um monumento histórico em Paris, França.
² O Arco do Triunfo é um monumento localizado na cidade de Paris, construído em comemoração às vitórias militares do Napoleão Bonaparte, o qual ordenou a sua construção em 1806
³ A Praça da Concórdia é a segunda maior praça da França. Desta forma, é a maior praça da capital francesa, uma das mais famosas e palco de importantes acontecimentos da história da França

7 de dezembro, 2019

— Ele é um idiota, um completo babaca. Acredita que ele disse que eu não me importava com vocês e que só ligo pro dinheiro? Quem ele pensa que é? – Eu estava histérica enquanto mamãe e Pierre seguravam o riso.

Pela milésima vez eu contava o episódio da semana passada no restaurante, quando conheci para ser mais exata.

Naquele dia, quando voltei ao apartamento do casal, dona estava me esperando curiosa para saber o que eu havia feito no meu primeiro dia. Acabou encontrando uma com as bochechas rosadas pelo frio e também enfurecida pelo ‘incidente com o pianista ‘ como eu prefiro chamar. Contei tudo, xinguei o homem até a sétima geração e minha mãe apenas riu.

E, em minha defesa, para eu estar contando aquilo mais uma vez depois de uma semana é apenas porque Pierre ainda não estava a par dos detalhes de toda história, e hoje era a primeira vez que saímos em família.

— Eu me senti completamente fútil ali. Nunca mais volto naquele lugar, e nem vocês! – Falei me virando para os dois que apenas riam do meu ataque.

— Não seja dramática , no começo você parecia estar caidinha pelo… qual o nome dele mesmo? – Minha mãe pergunta como quem não queria nada, mas eu sabia das suas intenções.

– sussurrei querendo encerrar o assunto.

— Isso. O parecia estar bem interessado, e você estava correspondendo as cantadas…

— Mas perdi o interesse quando ele passou a implicar comigo…e simplesmente zombar dos Estados Unidos!

— Bom, isso foi algo que eu mesmo fiz quando conheci sua mãe – Pierre se pronunciou — E bom, ele não está errado sobre o que falou dos Estados Unidos.

— Eu sabia que ele estava tentando chamar minha atenção, acho que essa foi a intenção do pianista bonito querida.

— Bom, então teve o efeito contrário porque estou completamente irritada – Resmungo uma última vez, cansada de ficar rebatendo com os dois.

Hoje planejamos conhecer o Palácio de Versalhes¹. Não era exatamente perto de casa, aproximadamente três horas e meia de distância. Mas por ser um fim de semana, seria mais tranquilo para Pierre nos acompanhar, e ele sempre gosta de apresentar os contextos históricos da cidade então estava entusiasmado de me mostrar o castelo.

Em cada cômodo meu padrasto fazia seu papel de guia turístico e também professor de história ao contar alguns dos escândalos da família real que cada quarto carregava. Era incrível andar pelos mesmos corredores que Luís XV e Maria Antonieta uma vez caminharam. Por fim fomos até o jardim e encaramos a paisagem vasta, coberta por árvores, chafarizes e lagos.

— É uma pena estar tão frio, na primavera você poderia ver os campos cobertos de flores – Minha mãe suspira frustrada — Mas na próxima não teremos desculpa, você virá durante o verão.

— Pense pelo lado bom, tivemos sorte de não estar nevando ainda – Disse em uma forma de confortá-la.

— Querida, vi que tem uma galeria de arte aqui por perto com a coleção contemporânea que você queria conhecer – Pierre se vira para minha mãe enquanto fala — Por que não aproveitamos e passamos por lá?

Mamãe trabalhava com novos artistas que desejavam lançar suas obras no mercado, era sua forma de dar a primeira chance aqueles que estão ingressando nessa nova fase, coisa que nunca ofereceram para ela, muito menos apoiaram.

Chegando lá, Pierre procurou falar com o artista enquanto eu aproveitei para olhar a exposição. Eram fotografias que mostravam o dia a dia nas ruas, algumas pessoas correndo para sua rotina, outras envergonhadas por serem flagradas pelas lentes e até alguns mais ousados que posaram para o fotógrafo. Elas eram muito boas, eu devia admitir. Até que reparei no nome do artista.

Ah não, isso só pode ser brincadeira com a minha cara…

— Veja só, se não é a menina que fugiu de mim…– Aquela voz inconfundível, de novo não.

— Eu devo ter tacado pedra na cruz pra isso estar acontecendo – Finjo não prestar atenção na sua presença imponente, mas era impossível.

— Eu diria que o destino quis te trazer aqui – Mais que droga, será que ele não percebe que eu quero ficar sozinha?

— Você não era pianista? O que está fazendo aqui com essas fotos ? – Desisto de fingir que não ligava pra sua presença e me viro como um tornado em sua direção.

— Eu sou artista , preciso complementar minha renda com tudo o que posso oferecer, neste caso música e fotografia – Sua voz leve e calma transmitiam o oposto pra mim, eu só queria socar a sua cara, mesmo sendo linda demais para ficar machucada.

— Pensei que dinheiro não deveria importar tanto – Ri irônica e voltei a andar pela galeria. Onde estão Pierre ou dona pra me salvar desse entojo?

— Sobre isso…– Ele coça seu pescoço em sinal de desconforto — Eu peço desculpas pela minha falta de educação. Não tive a intenção de te ofender.

— Imagina se quisesse…

— É que o Natal sempre foi uma data especial pra mim e ver que as pessoas tratam ela apenas como uma desculpa pra dar presentes, isso me tira do sério – Ele agora me encarava nos olhos — Eu acabei falando coisa demais, descontei em você e me expressei errado, mas eu gostaria de começar de novo. Prazer , sou . E estou aqui disposto a fazer qualquer coisa para você me desculpar – Ele faz uma reverência de forma teatral e atrai olhares curiosos pra cena. Algumas pessoas riam, as mulheres suspiravam e eu só gostaria de cavar um buraco no chão e me enterrar dentro de tanta vergonha.

— Para com isso, você é estranho demais! — Tentei sair do seu lado mas ele apenas chegava mais perto — Eu só quero ficar em paz, ok?

, quem é esse? – Minha mãe aparece do nosso lado com um sorriso de canto. Perfeito, era tudo o que eu precisava agora.

— Não é ninguém mãe. Será que podemos voltar pra casa agora? – Minha súplica parecia divertir os dois, será que ninguém ali se importava com o meu bem estar?

— Não seja assim , filha minha não foi educada para tratar os outros dessa forma. Quem é você rapaz?

— Meu nome é , sou o artista responsável por essa exposição e…conheci sua filha semana passada senhora-

— Oh, por favor não me chame de senhora. Parece que fiquei 20 anos mais velha, me chame de – Minha mãe sorri com segundas intenções intercalando seu olhar malicioso entre mim e o — Então você é o famoso

Meu Deus, quando eu pensava que não dava para piorar.

— Famoso? – O me encara divertido — Espero que tenha ouvido falar coisas boas ao meu respeito.

— Pode ter certeza, que com o encontro que tivemos, sua reputação não é a das melhores – Reviro os olhos e torço para que pelo menos Pierre aparecesse e me salvasse daquela cena.

— E justamente por isso que vim falar com sua filha. Vim pedir desculpas pelo ocorrido e quero saber como posso me redimir depois de tudo.

— Como você é atencioso rapaz. Gosto disso! Não sei se você sabe, mas ela está passando as férias conosco… – E pronto. Agora ela desandou em contar a minha vida para . Eu poderia ter uma família mais normal — Acontece que nem eu, nem meu marido temos tempo de apresentar todos os cantos de Paris a ela.

— Eu moro na França já faz uns oito anos, se quiser posso apresentar alguns lugares a durante a semana. Minhas manhãs estão sempre livres, só a noite eu trabalho como músico no restaurante — comenta enquanto eu arregalo meus olhos. Pelo amor de Deus, os dois estão planejando um encontro pelas minhas costas!

— Eu nem ao menos te conheço pra você se oferecer desse jeito!

— Querida veja isso como uma oportunidade! É muito melhor conhecer Paris com um guia do que refém do seu celular e gps – Minha mãe responde animada.

Ela perdeu o juízo.

— E eu posso te mostrar alguns lugares que nenhum site barato de turismo vai te contar, o que me diz? – Seus olhos e vibrantes brilhavam de excitação.

Parei e pensei por alguns minutos. foi extremamente desagradável aquele dia, mas antes havia sido encantador e hoje parece realmente arrependido (ainda que tentasse a todo custo me fazer morrer de vergonha). Eu não tinha mais um relacionamento, não preciso me sentir culpada por sentir atração pelo pianista/fotógrafo/guia turístico mil e uma utilidades, eu era livre e desimpedida nesse aspecto. Ele iria me apresentar lugares diferentes da cidade que provavelmente nem dona , muito menos Pierre, saberiam me mostrar. E por fim, eu poderia me permitir essa loucura e experimentar algo diferente, pelo menos uma vez. Ok, existem mais prós do que contras.

— Tudo bem, acho que vai ser bom ter companhia – Me dou por vencida — É melhor eu anotar o seu número, assim podemos combinar melhor – Resmungo baixo, mas logo trocamos nossos telefones e combinamos que segunda-feira seria o primeiro ‘encontro’.

Minha mãe, Pierre e engataram em uma conversa sobre as fotos enquanto fui deixada de lado. Um pouco depois, surgiu uma pessoa chamando por , que pediu licença e foi atender outras visitantes. Nos despedimos rapidamente, ele piscou um olho na minha direção e seguimos nosso rumo.

— Então ele é o tal do perseguidor ?

— Sim mãe, e parece que você acabou de marcar um encontro arranjado. Quantos anos você acha que eu tenho?

— Eu só dei um empurrãozinho. Se dependesse de você, estaria agora sem uma companhia, que é muito boa devo dizer. Não reclame , apenas aproveite o momento.

Entramos no carro e Pierre deu a partida, andando pelas ruas que agora eram iluminadas pelas luzes de natal enfeitando os postes. Eu precisaria de sorte pra lidar com tudo isso, mas parece que sorte era o que mais estava em falta na minha vida.

¹ Castelo real localizado na cidade de Versalhes, uma aldeia rural à época de sua construção, mas atualmente um subúrbio de Paris.

9 de Dezembro, 2019

Nove horas da manhã eu estava na porta do prédio, esperando chegar para começar nosso “encontro”. Ele prometeu me levar alguns lugares diferentes, criar novas memórias que dificilmente eu iria esquecer. Eu esperava que sim.

Escutei uma buzina e olhei por cima dos meus óculos escuros. estava em cima de uma moto com uma jaqueta de couro e calça jeans, incrivelmente lindo e relaxado, como ele conseguia andar nisso com o tanto de frio que fazia? Eu não gostaria de descobrir.

— Se pensa que vou andar nesse troço, está muito enganado. Hoje tá batendo 4 graus!

— Relaxa princesa, eu só vim deixar essa belezinha aqui, mas nós vamos de metrô — Ele tira seu capacete e trata de enrolar um cachecol em seu pescoço — Não quero te preocupar se a gente acabar derrapando no meio da rua.

— É melhor mesmo, quero voltar inteira pra casa.

— Não se assuste . Um dia, quem sabe, eu te dou a oportunidade de subir na minha moto e me abraçar por trás. Sei que já está se imaginando fazendo isso agora mesmo… — Seu sorriso zombeteiro tira sarro com a minha cara. Eu tenho certeza que fiz a escolha errada ao concordar de sair com .

— Nem nos seus sonhos . Agora, por que não me diz onde vamos hoje?

— Primeiro de tudo: não se assuste! Mas pensei de irmos na catedral de Notre Dame¹, no Palácio de Luxemburgo² e o mais interessante — Ele fez uma pausa dramática enquanto esperávamos pelo trem — O cemitério de Père Lachaise!³

— Você quer me levar em um cemitério? Qual o seu problema?

— Tem muita coisa a se aprender lá . Muitos famosos foram sepultados ali, túmulos da família Bonaparte, Chopin…— Ele nota minha careta incrédula. Ótimo, vou ter um encontro no cemitério de Paris, que romântico — Não julgue antes de chegarmos lá, ok? Você precisa entender os valores das pequenas coisas da vida, dos detalhes… no final do dia você vai acabar se surpreendendo que vai gostar muito.

— Veremos , eu duvido muito. Mas se você garante isso…

Fizemos nosso trajeto em silêncio, vez ou outra tentava puxar assunto comigo, mas eu não estava no clima, fazendo com que ele logo desistisse. Chegando a catedral, logo entramos e vimos a beleza da arquitetura gótica e tratou de me explicar alguns detalhes históricos que eu nunca havia ouvido antes. Falou um pouco também sobre o incêndio que a igreja sofreu em abril deste ano, mas com as doações de milhares de empresários e instituições, com sorte, boa parte da estrutura da torre seria reconstruída.

— Sua mãe me contou que você é dona de um restaurante… — A voz doce do meu acompanhante tenta mais uma vez puxar alguma conversa comigo.

— Dona tem uma língua grande demais…— Resmunguei enquanto observamos os vitrais da igreja — Eu tenho três restaurantes lá em Los Angeles. Abrimos o último faz alguns meses.

— Então essa viagem também serve como uma pesquisa pro seu cardápio? — me olha pelo canto do olho, com uma curiosidade genuína pelo meu trabalho.

— Acaba sendo interessante já que estou na França né — Dou de ombros — Minha especialidade é a culinária francesa, então é sempre bom estar atenta a algo que pode ajudar no meu negócio.

Engatamos em uma conversa fácil sobre restaurantes e prometeu incluir alguns lugares que eu iria amar conhecer durante nossas visitas. Passamos rapidamente pela nossa segunda parada, mas decidimos não gastar muito tempo pelo Jardim de Luxemburgo. Assim como mamãe, disse que não valia a pena estar ali e não ver os canteiros floridos.

— Precisa estar aqui na primavera, e vai entender o porquê de chamarem Paris de cidade do amor.

— Do amor por enquanto eu só quero distância mesmo..— Digo um pouco mais cabisbaixa e ele percebe a mudança no meu tom.

, preciso te perguntar uma coisa, mas quero que me prometa que não vai ficar chateada — Os olhos de me encaram.

— Pode dizer, só falarei a verdade — Fiz um sinal de juramento e ele riu.

— Ok. Nós nos conhecemos a pouco tempo, então eu confesso que achei estranho sua mãe concordar com que eu — Ele aponta para o próprio corpo — Um completo estranho, seja o guia turístico da sua filha, que mesmo sendo adulta, nunca veio nessa cidade. É como se ela tivesse medo de te deixar sozinha, e fiquei me perguntando se imaginei coisas, se ela realmente só quer que você tenha companhia…— estava curioso, mas ao mesmo tempo preocupado.

Eu tentei ignorar a sensação de conforto que invadiu meu corpo, fazia tempo que eu não me sentia daquela forma, com alguém que não fosse minha família se importando com os meus sentimentos.

— É que…bem…eu…— falar sobre o rompimento me assustava um pouco, ainda mais falar disso para alguém desconhecido.

— Se não quiser falar, eu vou entender.

— Não tem nenhum problema. É só…estranho pensar nisso ainda — Suspirei profundamente e tentei não o encarar enquanto falava — Era para eu estar com meu ex-noivo aqui. Planejamos fazer essa viagem e estar com meus pais durante o Natal. Acontece que eu acabei descobrindo uma traição, da pior maneira possível, então estou em um momento delicado da minha vida.

….eu, eu sinto muito por isso e-

— Eu não preciso de pena agora — interrompi o — Eu estou “bem”, porém minha mãe não quer que eu me sinta sozinha. Acabou confiando no primeiro homem que foi um pouco gentil comigo…mesmo depois da gafe lá no restaurante — Empurrei seu ombro de leve — Mas eu sinceramente prefiro ficar sozinha do que sentir a pena das pessoas, e é exatamente isso que você está sentindo agora.

— Ok, ok. Desculpe, não vamos mais falar nesse assunto e não vou sentir pena. Posso até implicar com a sua nacionalidade americana pra te distrair, o que acha?

Voltamos a falar sobre outros assuntos e o clima pesado se dissipou no ar frio de Paris. Fui surpreendida que, de fato, o passeio no cemitério foi mais interessante do que pensava. E valeu a pena ver que estava disposto a me fazer rir durante o passeio, tentando me assustar e arrancando risadas sinceras que a muito tempo eu não dava.

— Prometo que logo vou te levar a Torre Eiffel, mas precisamos fazer o passeio à noite também. Você precisa descobrir o verdadeiro motivo de chamarmos Paris de Cidade Luz — Ele sorri abertamente. Era o fim da tarde, estávamos de volta ao apartamento e precisava trabalhar hoje.

— Por favor, já esperei tempo demais pra ir no cartão postal mais famoso daqui.

— Na sexta vou estar de folga. Serei todo seu — Ele sobe na moto e coloca o capacete — Descanse bem, amanhã vamos ter mais lugares para visitar.

— Pode deixar — apertei o cachecol em meu rosto para esconder o sorriso bobo que se formava enquanto assistia sua postura mudar. Ele dá a partida e começa a andar, seguindo seu rumo para o trabalho. Acabou que se mostrou uma ótima companhia. Meu estômago parecia revirar e meu coração bateu mais rápido pela ansiedade do que me esperava no próximo dia.

A semana passou incrivelmente rápida, para a minha infelicidade. Depois do desconforto do primeiro dia, todos os outros foram muito tranquilos e agradáveis. Falamos muito sobre música e cinema, explicou porque escolheu Paris como seu novo lar e como ele conseguia se manter apenas fazendo o que amava. Além de piano, ele também tocava violão, tinha algumas composições próprias fez aula de dança… existia algo que ele não fosse bom afinal?

E todo esse tempo que fomos passando juntos acabou me pegando de surpresa, eu estava completamente encantada por . Ele se mostrou um homem completamente atencioso, preocupado não apenas em falar, mas também em ouvir o que eu tinha a dizer. Todas as pequenas coisas que ele fazia, como mexer em seu cabelo despreocupadamente, era tão cool que eu me pegava o querendo mais e mais.

Eu costumava colocar Daniel em um pedestal como um namorado perfeito, mas a verdade é que eu me sentia apenas como um objeto ao seu lado, um prêmio a ser mostrado a todos os seus amigos, algo que estava ali apenas para acrescentar. Enquanto com eu fazia parte do momento, a parte principal da história, não apenas a coadjuvante.

disse que iríamos um pouco mais longe e não sabia a hora que estaríamos de volta. Pedi ao meu padrasto, que mesmo em meio a reclamações, cedeu emprestar o carro depois que mamãe entrou em jogo.

Chegamos em frente ao endereço que ele me passou. Estacionei em frente a uma casa grande de dois andares, sem nenhuma placa ao redor e estranhei. Não tinha nada ali que parecesse ser turístico, mas confiava aonde quer que ele me levasse.

— Onde estamos?

— Como hoje é teoricamente nosso último dia de visitas em Paris, como prometido vou te levar na Torre Eiffel. Assim você tem sua tão sonhada foto no cartão postal mais famoso do mundo — Ele sorri e faço uma comemoração silenciosa — Mas antes, pensei em te mostrar um pouco mais sobre a minha vida — Sua voz doce continua — Estamos sempre falando muito sobre tudo e como não tenho a oportunidade de te visitar em Los Angeles e conhecer seus restaurantes..

— Ainda! — interrompo sua fala erguendo um dos dedos para protestar — Você será mais do que bem recebido quando for lá. Desde que pague a conta, obviamente.

, já te contaram que além de chef de cozinha, você deveria ser comediante? — balança a cabeça — Enfim, não posso estar agora no sonho americano…mas podemos aproveitar que você está aqui em Paris, e quero te apresentar a minha família.

— Pensei que você morasse sozinho.

— E moro. Mas seria triste demais viver sem ninguém, então encontrei a família que eu pude escolher — Continuei sem entender o que ele dizia. entrelaçou nossos dedos, um gesto comum durante todos esses dias, mas que faziam meu coração saltar de nervosismo, e me puxou até a porta.

Tocamos a campainha e uma moça, aparentando ter seus cinquenta anos, apareceu para nos receber.

, você por aqui! Pensei que só viesse na semana que vem para ajudar com os enfeites! — Ela carregava um sotaque britânico e abraçou o corpo do meu acompanhante que retribuiu envolvendo os braços na cintura da mesma — Não estava esperando sua visita, e muito menos que vinha com outra pessoa…— Ela me analisou dos pés à cabeça, me deixando extremamente desconfortável, apesar de carregar um sorriso cordial nos lábios.

— Grace, esta é . Ela é uma amiga minha que está passando o feriado com os pais em Paris.

— Amiga hum?! Sei bem o tipo de amiga que você tem — Ela aperta as bochechas do homem. Agora éramos dois morrendo de vergonha — Não fique sem graça querida, gosto de pegar no pé desse rapaz aqui. Amiga do meu é muito bem vinda nesta casa! — Grace me abraçou e decidi que me sentia confortável ali, mesmo em poucos minutos de convivência.

— Vou levar ela lá em cima, espero que tenha comida suficiente para nós porque vamos almoçar aqui hoje.

— Vou deixar tudo pronto agora mesmo! — E então Grace sumiu de vista enquanto corria por entre uma das portas da casa.

— Desculpa por isso, ela acha que qualquer pessoa que eu esteja junto é minha namorada — revirou os olhos enquanto me puxou para o segundo andar. Paramos em frente a uma porta e antes de entrar, ele me avisa — Estamos prestes a conhecer algumas das pessoas mais importantes da minha vida, quero saber se você está preparada para isso.

— Do jeito que você fala vou começar a pensar que estou mal vestida — Olhei minhas botas de frio e alisei de leve minha blusa de manga comprida estampada com flores.

— Não se preocupe , você é perfeita — acaricia minha mão e abre a porta de leve.

— Oncle ! (Tio !) — Uma voz infantil ecoa pelo quarto e logo somos cercados por várias crianças que abraçam a perna do que tentava a todo custo dar atenção para todos. Eram oito crianças no total, ao julgar pelos tamanhos tinham em torno de seis a nove anos. Algumas delas falavam em francês e conversava com todas ao mesmo tempo que tentava me enturmar com elas.

— Oncle , qui est-elle? (Tio , quem é ela?)

— Oncle , est-ce votre petite amie? (Tio , essa é sua namorada?)

— Elle n’est pas ma copine, c’est juste une amie, (Ela não é minha namorada, é apenas uma amiga, )

sorri em minha direção e eu não fazia ideia do que eles tanto falavam, apenas prestei atenção quando ele falou o meu nome, e forcei meu francês em um fraco ‘Bonjour’, e todas as crianças me responderam sorridentes.

, o que é isso?

— Aqui é um orfanato que cuida de crianças refugiadas — Ele pega uma bela menininha no colo que esconde o rosto na curva do seu pescoço — Eu sempre venho pra ajudar Grace a cuidar de algumas crianças. Elas perderam os pais atravessando as fronteiras, outras foram abandonadas, algumas fugiram de suas casas. São muitas que chegam e precisam de ajuda com o idioma, a cultura… eu tento fazer o possível para melhorar, nem que seja um pouco, a vida delas, que já é dura.

Meus olhos se encheram de lágrimas ao notar que aquelas crianças, tão jovens, tão inocentes, passaram por muitas coisas e ainda assim conseguiam sorrir.

— Sei que não é dessa forma que você imaginava conhecer Paris, mas achei importante te mostrar como eu vejo essa cidade depois de tudo.

— Eu adorei , não poderia ser melhor — Sorri de leve.

Senti alguém pegar na minha mão e quando olho, uma menininha de tranças fez um sinal com as mão como se pedisse colo. A abracei fortemente e pelos gestos, entendi que ela queria brincar comigo. Sentamos no canto da sala e pegamos uma boneca e nos comunicamos de uma forma única, mesmo que sem palavras, já que ela não falava inglês ou francês.

Passamos a tarde ali, oito crianças de seis a dez anos e tinham mais sete adolescentes com idades entre treze a quinze anos. A menininha que brincou comigo se chamava Aisha, uma das refugiadas da Síria. Sua pele morena e olhos pretos brilhantes me encaravam com curiosidade e vez ou outra ela me pedia por um cafuné em seus cabelos. Eu estava extremamente sensível e tocada, todos pareciam viver bem apesar das dificuldades, e vendo brincando com eles só fez meu coração se aquecer e admirá-lo ainda mais.

, precisamos ir.. — Sua voz rouca falou e o rosto de estava a centímetros do meu.

— Aisha acabou pegando no sono no meu colo — Fiz o sinal para a morena deitada com o rosto enroscado em meus cabelos — Onde fica o quarto dela? Vou deixá-la na cama.

foi abrindo espaço e me indicando o caminho para que eu deixasse a pequena Aisha descansar. Acomodei ela nos cobertores e sai sem fazer barulho para que ela continuasse em seu sono profundo.

Nos despedimos de todas as crianças, que pareciam infelizes de que não iríamos passar mais tempo ali. Grace agradece pela nossa visita e logo estávamos no carro, dirigindo até a famosa Torre Eiffel.

— Como prometido… Bienvenue à Paris!

Olhei a vista incrível que dava para a torre, estávamos cercados de turistas, em sua maioria casais apaixonados, que esperavam o momento em que as luzes da ficariam acesas, tornando o ambiente ainda mais romântico.

Ouço barulho de cliques e vejo apontar sua câmera para meu rosto, capturando momentos espontâneos, sem a minha permissão.

— Ei! Eu ainda não estava pronta — Ri envergonhada e tentei esconder meu rosto para que ele não visse minhas bochechas vermelhas.

— Você é perfeita , não tem porquê se envergonhar — Ele vira a câmera em minha direção mais uma vez — Eu sou artista, lembra? Quero te ver da forma mais natural possível — Ele ri alto e desisto de argumentar contra.

— Sua vez senhor artista, deixa eu tirar algumas fotos suas — peguei a câmera de suas mãos, mas não tinha qualquer habilidade para manusear a mesma. ri e fica atrás de mim sussurrando as instruções de como tirar uma boa foto.

Ele posa para a câmera com uma postura perfeita e um sorriso doce. Seu rosto relaxado combinado com a paisagem atrás tornavam a foto perfeita. Tudo nele era tranquilo, a forma como levava a vida, sua disposição para ajudar o próximo, sua paixão pela música…droga, eu estava caidinha por .

— Agora, antes de te deixar em casa…— fala com uma pessoa ao nosso lado, que apenas concorda com seu pedido — Quero uma lembrança dessa semana com você. Uma foto nossa em frente à Torre Eiffel — Seu charme natural só faziam com que as borboletas no meu estômago se agitarem mais e mais.

Eu não conseguia parar de encarar a beleza do homem ao meu lado e apenas sorri suavemente para nossa foto.

Ficamos um tempo conversando, sobre tudo e sobre nada, queria apenas prolongar o momento e desejar que fosse mais do que apenas aquela semana. achou um restaurante para o nosso jantar e lá ficamos até a noite. No fim, ele me acompanhou até o prédio.

— Espero que você tenha gostado de hoje — fala — Eu confesso que me surpreendi com essa semana, você foi uma ótima companhia .

— Obrigada por tudo , eu amei cada segundo — Sorri e me inclinei para lhe dar um abraço — Os museus, os palácios, o cemitério…

— Não é que ela gostou de conhecer os túmulos…

— Eu realmente gostei. Mas o principal pra mim foi o orfanato — Encarei seus olhos — Fiquei apaixonada por cada um ali, pena que acabou — Eu realmente não queria acabar ali, mas estava na hora de encarar a realidade em poucos dias.

— Bom, se você quiser, queria te convidar para ajudar com os preparativos de natal. Grace me disse que elas precisam de alguns enfeites novos, uma árvore, luzes… me deu um pouco do dinheiro das doações que receberam esse mês e pensei em criar um verdadeiro natal para todos ali. Vai ser o primeiro feriado de alguns, quero que seja especial.

— É claro! Eu vou adorar ajudar! — Respondi entusiasmada. Poderia passar mais tempo com as crianças, com Grace…e principalmente com .

— Ótimo! Podemos nos encontrar durante a semana então, o que acha? — coçou seu pescoço, um tique nervoso que passei a reparar. Ele queria minha companhia tanto como eu queria a sua.

— Com certeza, você já tem meu número — Me despedi mais uma vez e suspirei. Droga eu estava completamente apaixonada por .

¹ A Catedral de Notre-Dame de Paris é uma das mais antigas catedrais francesas em estilo gótico. Iniciada sua construção no ano de 1163.
² O Palácio do Luxemburgo atualmente é a sede do Senado da França.
³ O Cemitério do Père-Lachaise é o maior cemitério de Paris e um dos mais famosos do mundo.

16 de Dezembro, 2019

Combinamos de passar no shopping para comprar toda a decoração de natal para o orfanato. Guirlanda, guizos, chapéu de natal, bolas coloridas, enfeites, árvore e luzes, muitas luzes.

estava cheio de sacolas nos braços e eu acompanhava o checklist, vendo o que faltava para nossa noite de natal.

— Pensei em comprar alguns presentes para cada uma das crianças — Disse quando passamos em frente a uma loja de brinquedos — Para os mais novos podem ser jogos de tabuleiro, bonecas, carrinhos… para os mais velhos vou precisar da sua ajuda, eles costumam ser mais exigentes.

— Qualquer coisa que quiser dar para eles já vai ajudar — apoia uma das sacolas no chão, cansado de levar tanto peso — Mas por hoje já está bom né? Não aguento mais andar nesse shopping.

— Vou chamar o táxi e deixamos tudo isso lá no orfanato.

— Ótimo, combinei com Grace e as crianças de arrumar tudo amanhã. Elas estão felizes de ter um natal sem guerras — Seu sorriso reconfortante me atinge em cheio.

Estávamos a uma semana da véspera de natal e ainda tinham muitas coisas a fazer. Depois de arrumar toda a casa, os presentes seriam minha prioridade. Também pensei em fazer uma bela ceia. Queria ajudar de alguma forma e se meu maior talento era na cozinha, todos poderiam esperar pelo melhor banquete de suas vidas.

— Eu pagaria caro para saber o que você tanto pensa — me tira dos devaneios e percebo que o encarava por tempo demais, sem dizer nada.

— Nada demais, estava pensando na véspera de Natal e como eu quero ajudar Grace na cozinha.

— Será que terei o prazer de te ver cozinhando senhorita ? — diz divertido e eu reviro meus olhos.

— Não só vai me ver na cozinha, como também vai provar da minha comida senhor .

— Vamos ter uma bela ceia, digna de um restaurante cinco estrelas.

— Pode ter certeza que sim…— ainda estava pensativa com todo esse acontecimento. Algo no orfanato, na ceia… tudo isso fez parte de um sonho adormecido da antiga . Uma sonhadora e jovem, que queria ajudar os outros e pouco importava para o sucesso ou restaurante cinco estrelas, frequentar nos lugares de elite, usar roupas de grife.

— Você anda muito pensativa — me encara com curiosidade.

— Já teve a sensação estranha de deixar seus antigos sonhos escaparem das suas mãos, e o que você tem agora não passa de algo vazio?

— E qual era o seu sonho? — segura minha mão e faz um leve carinho com o polegar, me incentivando a falar.

— Pode parecer coincidência, pelo fato de eu estar querendo ajudar as crianças refugiadas e tudo mais — Respirei fundo — Porém eu sempre quis, de alguma forma, trabalhar com alguma causa social. É um sonho antigo, minha mãe sempre me apoiou só que…— Minha voz falha e tento concertar para completar meu pensamento — Eu mudei, e eu não tenho certeza se gosto dessa nova . E eu sei que mudei por causa dele…— Perdi a fala. Eu sabia o que havia me feito mudar de ideia. Daniel ridicularizava minha ideia de ter um restaurante comunitário para ajudar pessoas em situação extrema de pobreza e até mesmo moradores de rua. Ele dizia que eu tinha que investir no meu talento para ganhar dinheiro.

Eu nunca havia percebido que por trás dos seus encorajamentos, haviam palavras afiadas que me faziam desistir aos poucos pelo o que eu lutava, e me fez trocar de ambição. O tanto que critiquei meu pai e vi minha mãe desistir da sua carreira por causa de um homem, não havia percebido que no final eu estava fazendo o mesmo papel.

— Ei, não diga isso. Nós cometemos alguns erros na nossa vida, mas sabe qual a melhor parte disso tudo? Sempre podemos recomeçar!

— Eu perdi meus valores . Eu não sei mais o que é importante pra mim, o que é essencial, se é o dinheiro, se são as pessoas — Minha voz embarga e a visão embaça por conta das lágrimas acumuladas.

— Você não se perdeu . É a mesma mulher que eu conheci por acaso no meu trabalho e impliquei até ter a chance de poder conhecê-la melhor, é a pessoa que está preocupada em organizar uma ceia para crianças abandonadas, a pessoa pela qual eu venho adorando passar um tempo… — Sinto suas mãos em meu rosto, secando os rastros molhados que corriam livremente — é uma pessoa que nesse momento, chorando no táxi, preocupada com seus valores. A mesma pessoa que tá carregando enfeites de natal para um orfanato. Nunca é tarde para você recomeçar e se deixar levar pelos novos caminhos — Ele afaga meu rosto e me puxa cada vez mais perto para que eu pudesse me aconchegar em seu peito.

— E se eu estiver apenas tomada por esse espírito natalino? E se isso passar quando eu voltar para casa? — Minha voz era fraca, mas estava perto suficiente para ouvir com clareza.

— Então faça com que esse espírito fique vivo para sempre dentro de você — Ele sorri e beija minha testa — Se precisar de um puxão de orelha, pode deixar que eu faço isso — Ele toca a ponta do meu nariz e me olha com carinho.

— Obrigada por tudo .

— Sempre que precisar, vou estar aqui.

No dia seguinte ficamos a manhã e tarde com as crianças enfeitando a casa inteira. se pendurou para deixar a fachada iluminada com pisca-piscas, Grace e os adolescentes espalhavam os enfeites por todos os corredores enquanto as crianças me ajudavam a enfeitar a nossa árvore de natal.

Aisha não desgrudou mais de mim depois que voltei a casa. Grace havia me dito que ela estava até mesmo procurando aprender a falar inglês para conversar comigo. Eu havia me afeiçoado pela linda garotinha, estávamos sempre juntas brincando, arrumando o quarto, jogando com os outros. Nós apenas nos separamos quando eu precisava voltar para casa.

— Ela gostou mesmo de você — sempre sorrateiro, sussurrou em meu ouvido me pegando de surpresa. Olhei de canto de olho e ele sorriu enviesado na minha direção.

— Acho que ganhei uma nova melhor amiga — Ri de leve — Aisha é uma menina adorável

— Ela é muito especial para todos nós, e muito forte também. Sobreviveu a um atentado na sua cidade, atravessou o mar Mediterrâneo em um pequeno bote. Infelizmente sua família foi pega pela polícia e não temos notícia dos seus pais. Ela e a irmã logo foram separadas, cada uma recomeçando a vida em um canto da França — Ele acaricia de leve os fios pretos que estavam soltos no rosto angelical — Ela vive tendo pesadelos e não pode chover muito forte se não ela lembra das bombas que atacaram sua casa. É uma mini guerreira.

Ouvimos algumas risadinhas e as crianças cochichavam entre si olhando para cima e sorriam marotas em nossa direção.

— Parece que algumas pessoas aqui já conhecem algumas das histórias de natal — aponta para o visco em cima das nossas cabeças e lança um olhar penetrante — Acha que devemos cumprir a tradição?

Ok, fui pega completamente desprevenida. Eu esperava sim pelo momento certo em que ele fosse me beijar, ansiava para ser bem sincera. Mas nunca pensei que esse beijo fosse ser da forma mais clichê do mundo: debaixo do visco natalino.

— Detesto te decepcionar , mas o beijo no visco é só no dia de natal. Vai ter que esperar mais alguns dias por isso — Sorri dando um high five na minha pequena companheira, que mesmo não entendendo nada do que eu falava, sabia que era algo ao meu favor… ou não.

— Pode deixar então que eu vou cobrar por esse beijo no dia, senhorita vem em minha direção e deposita seus lábios na minha bochecha, voltando a ajudar Grace com a decoração nas escadas.

20 de Dezembro, 2019

— Não entendi direito querida, você veio a Paris para passar o Natal conosco, mas vai estar com outras pessoas? — O tom ciumento de dona me fez prender o riso.

— Mãe, é apenas na véspera, o dia 24. Vou estar com o no orfanato, e agora preciso encontrar presentes para todos lá! — Respondi pela milésima vez — Mas fica tranquila, no dia 25 você vai me ver linda na sua cozinha, preparando os últimos detalhes para a nossa ceia em família.

— Assim eu espero .

Os dias passavam correndo, e eu estava a todo vapor correndo atrás do resto dos preparativos para o nosso Natal. Faltando apenas quatro dias para o grande dia, infelizmente não pode estar comigo para a compra dos presentes, precisou fazer horas extras para compensar os dias que perdemos a hora brincando com as crianças.

Eu não iria conseguir fazer as compras sozinha, então pedi para minha mãe me acompanhar depois do trabalho. Achamos algumas roupas, maquiagens, videogames e outras coisas que os mais velhos iriam gostar. Para as crianças, fomos atrás da loja de brinquedos e separamos bichos de pelúcia, jogos de tabuleiro e bonecos dos desenhos animados atuais. Também quis presentear Grace, depois de anos se dedicando ao orfanato ela mais do que merecia um presente.

— E o que você pretende dar para filha?

Eu não sabia o que dar a ele para ser sincera. foi me encantando dia após dia e eu queria surpreendê-lo dando um presente único que fosse inesquecível.

— O presente dele vai ser um pouco mais… complicado — Continuei andando com todas as sacolas nos braços — Queria que fosse fácil, comprar uma blusa social de marca e tudo ficaria ok, mas-

— Mas esse menino não é o Daniel — Minha mãe me interrompe — Me arrisco dizer que eles são o completo oposto um do outro. Além do mais, você viveu com Daniel por quatro anos, e o você conhece a algumas semanas.

— Mesmo conhecendo ele a pouco tempo, é incrível que nós conversamos mais nessas duas semanas do que eu e o babaca do Daniel por anos — Sentei no banco da loja, meus sapatos estavam me matando — O problema é que, eu nunca vou encher os olhos do com presentes caros, ele não é assim. Ele prefere coisas simples e marcantes. Poderia ser fácil mas é ainda pior — Eu me sentia derrotada, e me recuso a pensar em não dar nada a ele no Natal.

— Ele me parece alguém que eu conheço muito bem. Você. — Mamãe sorri e aperta minha mão, tentando passar alguma força — Ao invés de tentar pensar assim, facilite tudo. O que você gostaria que ele te desse de Natal?

Bom, ao invés de me ajudar, agora eu estava ainda mais confusa. Uma das coisas mais difíceis de entender era a minha cabeça e os meus pensamentos. Eu era uma completa bagunça. E não sou eu que falei isso, minha psicóloga mesmo me contou!

— Ele pode me dar um pedaço de papel amassado que eu iria amar — Ri sem humor — Como é que pode, em tão pouco tempo eu fiquei caidinha por ele?

— Meu bem…você não estava acostumada a receber essa atenção especial que o tem te dado — Dona ajeita uma mecha que fugiu de dentro do meu gorro — Ele é encantador, simpático, carismático…— Me olhou de canto de olho — E muito bonito — Um sorriso enviesado brotou no seu rosto — Acha que não reparei nos seus olhares nada discretos pro corpo do bonitão ?

Senti minhas bochechas esquentarem e apressei o passo fugindo dos olhares que minha queridíssima mãe me lançava. Claro que eu me sentia atraída por , ele parece ter sido esculpido exclusivamente pelos deuses gregos e enviado na Terra pra atormentar minhas noites. Junte isso ao fato de ele ser engraçado e a todo momento lançar alguma cantada em francês na frente das crianças, me deixando completamente sem graça.

— Não é simples assim mãe, eu volto pra casa dia 1 de janeiro…

— E você não consegue parar por algumas horinhas pra aproveitar esse menino? Eu posso te dar umas dicas de lugares pra acender esse fogo de vocês.

— MÃE?

, eu sou mais velha mas não tô morta. Acha que eu e Pierre não procuramos algumas aventuras?

— Por favor, eu prefiro ser surda do que ouvir onde você e meu padrasto transam.

— Como se você não soubesse que temos uma vida sexual muito ativa.

Revirei os olhos e olhei meu relógio. Sete horas. Estávamos nessa saga por muito tempo e comecei a me frustrar. A temperatura havia caído bruscamente nos últimos dois dias, os termômetros batiam 10 graus, o frio começava a me incomodar e estava disposta a desistir por hoje. Minha mãe me convenceu de irmos até o fim da rua, com uma última esperança de encontrar o presente perfeito. Meus braços doíam mas era um trajeto curto, talvez valesse a pena.

Encarei uma vitrine de uma loja de antiguidades. Em uma prateleira ao fundo, um objeto me chamou atenção. É como se uma lâmpada tivesse acendido em minha mente. Talvez eu tenha encontrado o que eu nem sabia que precisava.

24 de Dezembro, 2019

Tudo estava praticamente pronto para nossa ceia de Natal. As crianças estavam todas arrumadas esperando na sala e contando os minutos para abrirem seus presentes, Grace tentava colocar alguma ordem na casa para não sair do cronograma e fugia para a cozinha pra beliscar alguma sobremesa que eu havia preparado.

“Preciso saber se estão realmente boas, ou se vai nos envenenar com o seu tempero secreto”

era muito abusado. E eu amava isso.

Grace foi a primeira a ir tomar banho e trocar de roupa para o jantar. Eu fiquei na cozinha pra não perder o ponto do nosso integrante principal da ceia, o peru, enquanto ela não retornasse. Assim que ficou pronta, tratou de me expulsar para que eu fosse me vestir.

Eu não queria demorar muito então me enfiei debaixo do chuveiro e tomei um banho rápido, colocando minha roupa “especial”, um vestido vermelho de gola alta que batia na altura das minhas coxas. Mesmo estando dentro de casa e com o aquecedor ligado, a noite lá fora castigava com um frio absurdo, e como eu não era acostumada com esse clima europeu, toda camada de roupa era bem-vinda!

Deixei os cabelos soltos, prendendo apenas a parte da frente com grampos. Me olhei no espelho e encarei as olheiras que formavam embaixo dos meus olhos. Eu estava exausta, há dias não dormia direito porém estava feliz.

Ainda que eu acordasse cedo, dormisse tarde, carregasse peso e o resto da minha energia era consumida pelas crianças do orfanato, no fim do dia eu me sentia bem. Passei uma leve maquiagem, apenas o suficiente para cobrir as manchas e ‘imperfeições’ do meu rosto, uma cor nas bochechas, rímel e um batom, para não ficar tão pálida.

Sentei na cama para colocar meus sapatos quando escuto duas batidas na porta que é aberta em seguida.

— Vim te chamar pro jantar, já que nossa querida chefe de cozinha está demorando muit- — aparece no quarto e seus olhos saltam levemente enquanto me analisa — Uau… você está… quer dizer… você é…— Ele se embola com as palavras e coça o pescoço. Sua pose de homem confiante e sedutor havia desaparecido por alguns segundos, mas seu olhar penetrante parecia querer me despir a qualquer momento.

— Exagerei? — Levantei da cama e dei uma volta para que ele contemplasse o visual por completo.

— Você é perfeita — Ele admira com seus olhos brilhantes — Mas… acho que falta apenas um pequeno detalhe.

caminha em minha direção e me puxa para a frente do espelho. Tira do bolso da sua calça jeans uma pequena embalagem, e passa a me encarar pelo reflexo.

— Pensei se deveria dar o seu presente junto com os outros, mas acho que prefiro estar a sós com você — Ele sorri enviesado — Para algumas coisas, prefiro ser… reservado — Seu sussurro envia arrepios por todo o meu corpo, fechei os olhos e aproveitei a sensação deliciosa que era sentir seu corpo quente em contato com as minhas costas.

afasta meu cabelo para o lado e sinto seu nariz entrar em contato com a minha nuca. Ele parecia apreciar o mais delicioso perfume já inventado na história, enquanto eu tentava reprimir o gemido que quase escapou dos meus lábios. Sinto seu sorriso contra meu cabelo ao mesmo tempo que um leve peso no meu colo se faz presente. Escuto sua voz baixa no meu ouvido pedindo para que abrisse os olhos e logo atendo seu pedido.

Quando olho no espelho, uma corrente prateada brilhava em meu pescoço, assim como um pingente delicado da Torre Eiffel. Passei os dedos de leve no meu presente e aos poucos um sorriso ia se formando quando pensei no significado por trás do gesto.

— Eu quero que você se lembre daqui, de cada momento que passou na cidade luz. E como desde o começo você me perturbou pra te levar na torre, que não poderia sair de Paris sem ter sua foto no lugar mais famoso da Europa…— Ele encolhe os ombros e sorri de leve — Espero que você possa levar sempre um pedaço da França com você…um pedaço de mim principalmente — dá uma leve risada e me encara com expectativa — Gostou?

Eu ainda estava absorta em pensamentos. Era simples, mas completamente perfeito, cheio de significados.

— Pensei que presentes não eram o seu tipo

— Para pessoas que valem a pena, eu abro uma exceção — Ele me encara intenso e as malditas borboletas insistem em se agitar no meu estômago.

— Eu amei — continuei brincando com o pingente — Simplesmente perfeito.

— E eu posso saber quando eu vou ganhar o meu? — Ele prende seu braço na minha cintura, impedindo que eu chegue até a porta.

— E quem te disse que você tem um presente, senhor ?

— Não revelo minhas fontes… — Ele aproxima seu rosto do meu, brincando com o nariz na minha bochecha. Esse hábito carinhoso que fomos adquirindo com o tempo, poderia parecer estranho aos olhares curiosos, mas eu estava longe de reclamar e pedir que ele se afastasse. Fechei os olhos e implorei mentalmente para que ele desse logo o primeiro passo. Qual é , me beija!

— Detesto incomodar os meus pombinhos favoritos, mas a ceia já está servida! — Grace aparece na porta e seu sorriso malicioso entrega que nos flagrou em nosso momento íntimo. Tentei me afastar, mas manteve seu aperto firme, apenas concordando com o que a senhora havia dito.

— Não pense que vai fugir de mim para sempre — fala com a voz rouca perto do meu ouvido e me puxa para fora do quarto. Descemos as escadas de mãos dadas e todos os olhares se voltaram em nossa direção, acompanhados de sorrisos contentes.

Me sentei na mesa ao lado de Grace e quando ia se sentar no espaço livre ao meu lado, um pequeno ser de maria chiquinhas foi mais rápido e roubou seu lugar. Abrindo um sorriso lindo para mim, Aisha me entregou seu prato, em um pedido silencioso para que eu a servisse.

— Parece que perdi minha cadeira, não é mesmo senhorita Aisha? Ele coloca as mãos na cintura e faz uma cena teatral como se estivesse chateado.

— Na verdade , este sempre foi o lugar dela — Aisha riu divertida e colocou sua língua para fora, provocando o .

Todos estavam aproveitando a refeição. As crianças tentavam arriscar um inglês adorável fazendo elogios a comida e agradecendo muito pela comida. Era bom ver meu trabalho reconhecido, ainda mais por pessoas que, literalmente, quase morreram de fome. De alguma forma meu coração se enche de esperança por que eu pude fazer a diferença na vida deles.

Aos poucos todos iam terminando seus pratos e levando para a cozinha. As sobremesas não duraram muito, mas pra ser bem sincera, acho que todos só comeram rápido porque sabiam que logo em seguida estariam abrindo seus presentes.

— Maintenant que tout le monde a fini, ouvrons les cadeaux? (Agora que todos acabaram, vamos abrir os presentes?)

As crianças arregalaram os olhos e correram para a sala atrás das embalagens embaixo da árvore. Esse era o primeiro natal de muitos meninos e meninas ali. Ver os olhos brilhando com uma simples boneca, uma roupa nova, um par de sapatos, jogos… meu coração ficava aquecido com aquela imagem.

Puxei Grace no canto da sala e entreguei o seu presente. No começo ela relutou e até mesmo brigou por eu ter gastado “tanto dinheiro” com ela. Mas era visível a gratidão pelo gesto, de ver que alguém se importou de lembrar dela em uma data como essa.

Com o passar das horas, todos se acomodavam em algum canto, e aproveitei para me sentar em frente a janela, observando o pouco movimento da rua, apenas algumas pessoas que caminhavam para suas casas ou de parentes para curtir sua ceia de Natal.

De repente sinto uma mão em minha perna, puxando a barra do meu vestido para chamar minha atenção. Aisha carregava sua nova boneca em uma das mãos e na outra tinha um pequeno pedaço de papel.

— Aisha meu bem, o que faz aqui? — Peguei ela no colo e a mesma me encarava em dúvida, intercalando seus olhos entre o papel e meu rosto — Foi você quem fez? Me mostra seu desenho — Acariciei sua bochecha e a menina sorriu em resposta.

— Pra você — Ela sussurra em inglês e me entrega o papel, que só então reparei que tinha meu nome em um dos lados. Ela havia falado em inglês! Aisha sempre quis conversar mas sentia vergonha por não falar meu idioma. Senti que ela havia avançado um pouco e agradeci pelo desenho.

Aos poucos fui desdobrando o papel e revelando o talento da minha menininha. Senti meus olhos enchendo de lágrimas quando reconheci a paisagem e os personagens da sua obra de arte.

Ela havia desenhado um campo verde aberto, com uma torre ‘brilhante’ no meio. Uma clara referência a Torre Eiffel, e os detalhes me impressionaram, afinal ela era apenas uma criança de sete anos. Mas o que me destruiu foram os três bonequinhos de mãos dadas. Embaixo estava escrito , Aisha e . Ela cercou os bonecos de corações e escreveu mais em cima ‘ma famille’. Minha família.

Abracei seu corpo junto ao meu e me permiti chorar. Um misto de tristeza e felicidade. Eu não poderia nunca viver isso em outro lugar, e nem gostaria. Em pouquíssimo tempo todos ali conquistaram meu coração. Eles me agradeciam o tempo todo, mas no final eu é quem deveria dizer ‘obrigada’, graças as crianças, Grace e , eu reencontrei minha verdadeira essência.

Passamos todo o resto da noite abraçadas, até Aisha cair no sono em meu colo. Seu pequeno corpo se moldou ao meu e sua respiração pesada denunciava que seu dia já havia chego ao fim.

— Ela sempre dorme com você — Escuto a voz de ao meu lado e observo seu corpo encostado na parede, sorrindo para nós — Toda vez que venho te procurar para irmos embora, Aisha está desmaiada nos seus braços.

— Ela parece gostar de dormir comigo.

— Ela tem sorte de poder dormir com você — Sua mão viaja para o rosto da pequena, fazendo um carinho singelo — Todos já foram pra cama, vamos?

Me levantei com cuidado e entreguei a pequena menina para , que subiu com a mesma no colo e colocou em sua cama. Grace não parava de agradecer e desejar feliz natal para nós dois, enquanto colocamos os casacos e cachecóis, a senhora se despedia de mim com muita emoção, pedindo para que quando eu voltasse a Paris, não deixasse de visitá-las. Com toda certeza, o orfanato seria meu ponto de visita indispensável daqui em diante.

e eu caminhávamos pelas ruas frias em silêncio, ainda eram onze da noite e tudo estava completamente calmo, mas infelizmente eu precisava voltar pra casa.

— Toda vez que você pensa demais, suas sobrancelhas franzem e forma um vinco na sua testa…bem aqui — toca sua mão coberta pela luva na minha cabeça — Eu pagaria caro pra ler seus pensamentos quando quisesse.

— Eles não valem tanto pra você gastar dinheiro com isso — Eu sorri em sua direção e vi o quão lindo ele ficava, coberto de casaco e com as luzes refletindo em seus olhos.

, vem comigo até meu apartamento — O implorava com os olhos para eu aceitar seu pedido.

… é natal, eu preciso ir pra casa…

— Eu sei mas… está frio e muito tarde. Eu acho que vale mais a pena ir pra casa dos seus pais só de manhã — Ele me olha com expectativa e espera ansioso pela resposta.

Estava prestes a responder quando vejo um pequeno floco de neve flutuar entre nós dois. Era só o que faltava, o clichê de Natal estava completo afinal. Começamos a rir igual crianças quando aos poucos pequenos pontos brancos circulavam a nossa volta.

— Pra sua felicidade, ainda começou a nevar… é mais seguro ficar na minha casa, não estamos muito longe — ele estende a mão na minha direção — Vem comigo?

Acho que não tinha mais como fugir do que era inevitável. Peguei sua mão e entrelacei meus dedos enquanto mudamos o curso para o seu apartamento. Corremos mais algumas quadras e senti meu queixo bater de tanto frio, mas logo parou em frente a um prédio e rapidamente nos colocou para dentro. Subimos alguns lances de escada e finalmente chegamos em frente ao apartamento 502.

— Bienvenue (Bem-vinda) — sussurra de leve e me deixa entrar no ambiente aconchegante.

Tudo ali era uma mistura de rústico com o moderno, assim como ele. Uma prateleira lotada de CDs, vinis e um toca discos enfeitavam a sua parede. A cozinha era modesta, mas grande o suficiente para alguém que vive sozinho, com uma bancada, geladeira, fogão e micro-ondas. O sofá era coberto por uma manta clara, e tinha um violão em cima, com algumas cifras de música espalhada pela mesa de centro. Restavam duas portas agora, uma levava ao banheiro e a outra certamente era do seu quarto.

E eu estava ansiando pelo momento em que ele me levaria até o seu quarto.

me puxa para o sofá e se senta pegando o instrumento, passando a dedilhar uma música desconhecida por mim. Sua voz melodiosa e afinada era como um calmante e fechei os olhos para poder apreciar o som que mais pareciam ser anjos cantando.

Voltei a olhar para ele e reparei com mais atenção na sua roupa: um suéter branco largo com gola ‘V’ que deixava ‘acidentalmente’ seu ombro e peito expostos, o jeans claro marcando suas coxas e para contrastar todo o seu ar sexy, suas meias são vermelhas enfeitadas com Papai Noel, o visual perfeito do homem ao meu lado.

Aos poucos trocou nossa trilha sonora e a melodia conhecida me fez rir sem graça, era impossível não conhecer La Vie En Rose. A clássica música francesa parecia ainda mais romântica e sexy quando cantada na sua voz perfeita, ainda mais com a mistura do seu sotaque francês e . Olhei para o como quem pergunta o porquê disso, mas ele simplesmente sorriu com ternura e sussurrou o final da letra.

— É injusto eu não saber francês o suficiente pra entender tudo o que você canta, sem antes precisar pesquisar no Google pela tradução.

— Não se preocupe, eu tenho planos para te deixar fluente em francês ainda esta noite — Ele me pisca o olho e me encara de uma forma completamente safada — Bom, eu já te dei um presente — Ele se levanta e caminha na minha direção — Fiz um show particular — Me puxou do sofá e grudou nossos corpos — Existe mais alguma coisa que eu precise fazer pra receber pelo menos um beijo seu? — Ele ajeita uma mecha atrás da orelha e faz um carinho delicioso no meu rosto.

— Antes…— impeço que ele roube um beijo e saio de perto dele, indo até minha bolsa. Retiro uma pequena embalagem de dentro e estendo em sua direção — Feliz natal .

Ele me olha curioso mas enfim abre a caixa. Seus olhos arregalaram e me encara perplexo.

— Eu não acredito que você comprou isso!

Ele retira a câmera Polaroid, algum modelo antigo que lembrei dele comentar comigo uma vez, que imprime fotos instantâneas. Parecia uma criança com o brinquedo novo, olhando por todos os lados e mexendo nos filtros e filmes para ele começar a usar o quanto antes.

— E queria achar algo que representasse você de alguma forma — O sorriso dele era tão brilhante que com certeza poderia iluminar Paris inteira — Como sempre falamos de viver o momento, registrar tudo… nada melhor do que ter isso impresso. E… bem, eu também quis trazer pra você os nossos melhores momentos.

me olha em dúvida até que finalmente encontra o envelope vermelho escondido dentro da caixa, e de lá tira duas fotos reveladas: a primeira era nós dois no dia em que fomos na Torre Eiffel, eu estava sorrindo para o fotógrafo enquanto olhava pra mim com um semblante leve, quase que apaixonado. A segunda era uma que Grace tirou, quando estávamos distraídos brincando com Aisha na sala do orfanato.

— Você é uma caixinha de surpresas … não canso de descobrir os seus detalhes e me apaixonar cada dia mais por você.

Ouço meu relógio apitar anunciando que já era dia 25. Me aproximei dele e sou recebida pelo calor do seu corpo.

— Acho que to te devendo um beijo debaixo do visco.

— Não vejo nada aqui em cima da gente.

— Prefere esperar até eu achar um pedaço de planta pra eu te beijar ?

— Nunca. Já esperamos por tempo demais.

elimina o pouco espaço que nos separava e logo sinto seus lábios urgentes nos meus. Sua mão encontrou minha nuca e comandava os nossos movimentos, dominando todo espaço. Ele fecha seus dedos em meu cabelo e sua língua dançava junto com a minha em um coreografia perfeita, como se fossem feitas uma para outra. Foi urgente, foi intenso, exatamente como nós.

— Você não imagina por quanto tempo eu venho sonhando com isso — Sua voz rouca arrasta pelo ambiente e ele passa a distribuir beijos longos pelo meu pescoço — Quantas vezes quis te agarrar no meio da rua — morde minha pele de leve. Cansada de reprimir meus gemidos, acabo soltando um longo por toda a sala. O parece gostar do som e passa suas mãos por todo meu corpo, até chegar em minha bunda, agarrando com firmeza, como se sua vida dependesse disso — Ver você rebolando do meu lado, me provocando… você sabe o que faz , sabe o efeito que causa em mim.

Ele impulsiona meu corpo para cima e cruzo minhas pernas ao redor da sua cintura. Ainda que estivéssemos vestidos, sinto o volume da sua ereção no meu centro, implorando por um contato mais íntimo. encurrala nossos corpos entre uma parede, e grunhe rouco ao passar a movimentar seu quadril na direção do meu, provocando uma fricção deliciosa no meu clítoris e dando uma descarga de prazer no meu ventre.

…— suspiro frustrada e rebolo sobre o seu colo, procurando por mais contato — Por favor…

— Shh… nós temos todo o tempo do mundo mon amour força seu quadril mais uma vez e perco o ar. Meu corpo estava em estado de combustão e ainda ouvir aquele homem sussurrando em francês no meu ouvido era quase certo de que, se eu não conseguisse um orgasmo, iria explodir.

morde seu lábio inferior e me carrega pelo apartamento escuro até seu quarto. Nossas bocas não desgrudaram por um segundo até que sinto a superfície macia da cama sob as minhas costas, e me vejo imprensada entre seu corpo e o colchão. Ele sobe o vestido pelas minhas pernas, com toda a calma e delicadeza possível, me apreciando como uma obra de arte.

Senti minhas bochechas corarem e pensei em cobrir meus seios de alguma forma, afinal fazia tempo que não me sentia desejada… e mais tempo ainda que dormia com outro homem sem ser meu ex.

— Não se esconda de mim…— segura meus pulsos — , eu preciso te ver assim. Todas as vezes que te imaginei sem roupa… nem se comparam com a perfeição que é a realidade.

Ele sela nossos lábios em um beijo calmo. A urgência acabou, mas a luxúria era inesgotável. Passei minhas mãos por suas costas e arranhei toda a extensão de pele branca. Aos poucos suas roupas também iam sumindo e agora, ambos estamos nus em cima dos lençóis.

beijava cada centímetro da minha pele e sorria toda vez que notava algum arrepio involuntário que eu deixava escapar. Senti seus lábios próximos da minha virilha, e com um sorriso maroto desceu sua boca até minha intimidade. Foi ali que vi estrelas. Sua língua provocava meu clítoris e descia até meu centro, intercalando com seu dedo que entrava e saía em uma velocidade extremamente lenta. O desgraçado queria me ver implorar por ele.

… ma-mais rápido…— gemi inquieta e buscava por sua boca que havia se afastado de mim.

— Eu quero te provar com calma — ele sopra em minha intimidade e me remexo inquieta com o calafrio que atravessa meu corpo. O vento frio em contato com meu centro pulsante fazia com que meu instinto mais primitivo falasse mais alto — Me deixa me divertir um pouco mais com você. Eu mereço isso, e tenho certeza que você não vai se arrepender — Ele volta a se inclinar sob meu corpo e segura minhas coxas com força e provocando, mais uma vez, sua língua dentro de mim.

sente que eu estava cada vez mais próxima do orgasmo e passou a aumentar a velocidade. Senti meu ventre formigar e meus dedos dos pés se curvaram diante da explosão que saiu em forma de gemido. Com certeza os vizinhos estavam cientes da nossa presença ali.

Mal tive tempo de me recuperar e senti em cima de mim beijando, chupando e mordendo meu colo. Ele me encara com seus olhos profundos e sinto seu comprimento me preencher. Escuto seu gemido delicioso enquanto nossos movimentos sincronizados ecoavam por todo o quarto. Segurei seu cabelo entre os meu dedos e ofeguei perto do seu ouvido para que ele soubesse o quão louca ele havia me deixado. A força com que ele depositava em meu quadril com certeza deixariam marcas doloridas no dia seguinte, mas eu não me importava, serviriam para eu nunca esquecer da noite de prazer que tivemos.

Em um lapso de coragem, inverti as posições e encontrei seus belos olhos me analisando. Seu olhar era de devoção, a todo momento eu sentia suas mãos passeando em minhas costas, e como gostava de se expressar através do tato, do abraço, do beijo, dos apertos… sua intensidade ficava concentrada na palma das suas mãos. Eu começo a me mover para cima e para baixo, sempre com suas mãos em meu quadril. Ele não me controlava ou guiava para fazer da forma que ele queria. Pelo contrário, apenas me dava o apoio necessário e se movia conforme meu corpo se balançava contra o seu. Não desgrudei meus olhos do seu rosto, gravando cada expressão de prazer que eram como um incentivo pra mim. Rebolei em seu colo e o barulho gutural e primitivo vindo da sua garganta me motivou a ir cada vez mais fundo e intenso.

Nossa respiração ficou descompassada e a sensação de que mais um orgasmo estava prestes a chegar estava me consumindo. volta a ficar por cima e seu ritmo acelerou gradativamente, ele entrava e saía cada vez mais urgente. Segurei seu rosto, trazendo sua boca até mim e desfrutei do seu gosto que me deixava mais embriagada a cada segundo. Em mais três movimentos, gememos uníssonos e deixa seu peso cair em cima do meu corpo.

Eu estava exausta, mal consegui abrir os olhos, mas pude sentir seus dedos carinhosos cobrindo nossos corpos e me trazendo para mais perto. Respirei aliviada, em seus braços era meu lugar.

O único problema era que eu não ficaria por tanto tempo.

O peso em meu peito veio de maneira inevitável. Meu estômago revirou e tentei a todo custo fazer o vazio desaparecer. Senti seus braços me envolverem, me trazendo o calor do seu corpo. Tentei acalmar as batidas descontroladas quando senti que desenhava formas abstratas em minha pele com a ponta dos dedos.

Hold me close and hold me fast, The magic spell you cast
(Me abrace forte e me abrace rápido, A magia que você faz)
This is la vie en rose
(Essa é a vida em cor-de-rosa)

When you kiss me, heaven sighs, And though I close my eyes
(Quando você me beija, o céu suspira, E mesmo que eu feche meus olhos)

I see la vie en rose
(Eu vejo a vida em cor-de-rosa)

When you press me to your heart, I’m in a world apart
(Quando você me aperta sobre seu coração, Estou em um mundo à parte)
A world where roses bloom
(Um mundo onde as rosas florescem)

And when you speak, Angels sing from above
(E quando você fala, Anjos cantam dos céus)
Everyday words seems, To turn into love songs
(As palavras banais parecem, Se transformar em canções de amor)

Fui me acalmando e sendo levada para o mundo escuro da inconsciência. Por hora seria melhor esquecer isso e aproveitar a presença de . Sua voz era como um calmante instantâneo para minha alma. Deixei a escuridão me consumir, amanhã seria outro dia.

Give your heart and soul to me, And life will always be
(Dê seu coração e alma para mim, E a vida sempre será)
La vie en rose
(A vida em cor-de-rosa)

25 de Dezembro, 2019

— Eu sei que está cansada, mas é melhor levantar se quiser chegar em casa rápido — Ouço uma voz rouca no meu ouvido e lábios serpenteando pelo meu ombro.

Aos poucos eu despertava e reconheci o quarto de . Lembranças da noite passada voltaram a minha mente e sorri preguiçosamente para o homem ao meu lado.

estava muito sexy. Acordar ao lado dele e ver seu rosto amassado, o cabelo desgrenhado e o corpo nu abraçado ao meu com certeza era uma cena muito sensual. Mesmo que ele pedisse para mim levantar, seus beijos no meu pescoço e sua mão perigosamente perto da minha virilha pareciam querer dizer outra coisa.

— Eu preciso mesmo sair? — Escondo o meu rosto no seu peito e ele ri divertido — Está tão gostoso ficar aqui com você…

— Por mim, você ficaria presa nessa casa e nunca mais saía….mas acho que a sua mãe não vai gostar muito da ideia.

Choramingo mais um pouco, mas logo tomo coragem pra levantar. Estico meus músculos que reclamam de dor depois de todo o ‘exercício’ da noite passada. Olhei para a minha cintura e cutuquei uma marca avermelhada que pintava a minha pele. riu de leve e encostou sua mão que se encaixou perfeitamente nos vergões. Repreendi com o olhar e ele apenas ergueu os ombros em rendição.

— A culpa não é minha se você é extremamente gostosa e eu acabei perdendo o controle — O se inclina e beija de leve o local machucado — Me desculpa.

— Não posso te perdoar por algo que gostei — Mordi meu lábio e fugi das suas mãos que tentaram, mais uma vez, me impedir de sair da cama.

— Você gosta de me provocar . Isso é perigoso.

— Eu amo correr riscos — Pisquei o olho para que ria divertidamente.

Catei minha roupa íntima pelo quarto e fui ao banheiro para tentar melhorar, nem que fosse um pouco, a minha cara de pós sexo. Quando me olhei no espelho encarei meus olhos brilhantes, um sorriso preguiçoso e safado e algumas marcas de beijos e mordidas que deixou pelo meu colo. Fechei os olhos e passei meus dedos relembrando cada detalhe, me arrepiando com a sensação recente de ser amada de corpo e alma. Respirei fundo, lavei meu rosto e dei um jeito no cabelo, que nesta altura do campeonato tinha mais nós do que qualquer outra coisa.

Quando voltei para o quarto, vestia apenas uma calça de moletom e me entrega uma caneca fumegante de café. A cidade lá fora estava com uma camada fina de neve limpa, o que deixava o charme natalino ainda mais bonito do que antes. Coloquei o meu vestido e começamos a conversar sobre a noite passada. Notei que estava mais carinhoso, dando leves beijos na minha mão, me abraçando, roubando alguns selinhos. Porém, aos poucos, meu rosto foi ficando cada vez mais sério, até que me afastei por completo dele.

— O que houve linda?

, a gente não pode fingir que brinca de casinha — engoli seco — Quando no final sabemos que temos um prazo de validade.

perdeu o sorriso na mesma hora e me encara.

— Mas calma… você só vai daqui a-

— Daqui há cinco dias.

Silêncio completo. O fecha os olhos e passa a mão pelo pescoço e rosto. Ele estava nervoso, não pensou que era tão pouco tempo já que estávamos passando quase todos os dias juntos.

— Mas isso não significa que a gente precisa acabar aqui — fala rápido.

— Não é tão simples assim e você sabe disso — Suspiro de leve.

— Então fique — Ele me interrompe me olhando fixo — Sei que tudo aconteceu muito rápido m-mas eu não fui o único que sentiu essa química. Me recuso a pensar assim — levanta e caminha de um lado para o outro — , você tem sua família aqui, pode conseguir um emprego fácil… eu posso ver nos restaurantes se aceitam uma chefe e tudo vai ficar bem.

— Eu tenho minha vida na Califórnia … minha casa, meus amigos, meu emprego-

— Você acha que pode simplesmente chegar aqui, entrar na minha vida, na vida da Grace, das crianças e sair? — Ele ri sem humor algum — É egoísmo da sua parte-

— Agora você está sendo injusto comigo! — Meu olhos se enchem de lágrima — Acha que está sendo fácil pra mim deixar todos aqui? Não é! Mas eu não posso simplesmente largar a minha vida, que eu construí depois de tanto tempo, e voltar pra casa dos meus pais. Eu tenho responsabilidades, contas a pagar e um restaurante pra tocar em Los Angeles — Balancei a cabeça. Na teoria era simples, mas na prática? Eu precisava pensar!

me encara em silêncio, começa a recolher nossas canecas e vai em direção a cozinha. Ele estava irritado, mas eu não achava seu motivo justo e nem via razão para essa atitude.

Resolvi deixar ele de lado e arrumei o resto das minhas coisas, afinal já passava das dez da manhã e eu precisava estar em casa com a minha família para o almoço.

— Minha mãe está esperando por nós dois para o almoço — Falo em uma tentativa de recomeçar — Vai ficar sem falar comigo? — Deixei minha bolsa em cima do balcão e tentei uma última vez chamar sua atenção.

— O que você quer que eu fale ?

— Talvez que conversasse comigo, que entendesse meu lado… mas principalmente me desse atenção porque temos pouco tempo juntos.

— Não sei se você lembra , mas foi você quem me afastou primeiro — Seu tom frio e cortante me matava aos poucos.

— Eu acabei surtando, mas quero aproveitar você enquanto ainda posso — Tento acariciar seu rosto mas ele se afasta.

— Talvez você esteja certa no final das contas — Ele sorri irônico e levanta os braços se rendendo — Acho que não devemos ‘brincar de casinha’ quando você vai deixar seu conto de fadas pra trás e voltar pra sua realidade em poucos dias — Ele começa a caminhar pela sala um pouco atordoado — Sua preciosa carreira, trabalho e amigos te esperam em Los Angeles — caminha furiosamente até a cozinha, pega minha bolsa e praticamente taca na minha direção — Você disse que estava revendo suas prioridades nessa viagem, mas você quer saber ? Acho que você continua a mesma menininha fútil que chegou — Meus olhos transbordavam com as lágrimas que chegaram conforme ele ia falando, mas nada ia me preparar pela forma fatal que ele me matou no momento seguinte — Isso explica porque seu noivo não te aguentou. Você só pensa em si mesma, no seu sucesso. Se continuar assim vai acabar ficando sozinha.

Meus olhos arregalaram. Nem mesmo Daniel foi cruel a este ponto. Pensei que estava segura e quase entreguei meu coração para o homem à minha frente, que pareceu reconstruir os pedaços que se quebraram alguns meses atrás. Mas agora tudo o que restou foi pó.

percebeu a gravidade de suas palavras e senti que seus olhos amoleceram por poucos segundos, mas logo voltaram a ser duros. Ele desviou o rosto da minha direção e ficou em silêncio. Talvez tenha se arrependido, mas o fato de ele não pedir desculpas só deixava ainda mais claro pra mim que nada pode ser tão perfeito quanto parece.

— Acho que tudo isso que você pensa sobre mim só comprova que… se eu decidisse ficar, seria a pior escolha — Segurei o soluço sofrido que quis sair pela minha garganta, mas eu não daria a ele esse gostinho. Minha aparência miserável já era o suficiente para ele ter o que falar depois que eu partisse.

Dei as costas e fui até a porta sem olhar para trás. Uma parte de mim gostaria que ele segurasse meu braço, gritasse um pouco mais, porém logo diria que se arrependeu e que daríamos um jeito para ficarmos juntos.

Mas ele não fez, e essa atitude falou mais do que qualquer palavra.

Cheguei na rua e fiz sinal para qualquer táxi que passasse. Rapidamente um carro se aproxima, eu passo o endereço para o motorista e encosto minha cabeça no banco. O senhor tentou se certificar de que eu estava bem, afinal eu chorava copiosamente e meu rosto estava completamente vermelho, mas apenas balancei minha cabeça e disse que logo iria passar.

Eu fui do céu ao inferno em poucos segundos. Tive uma noite agradável cercada por pessoas que eu me apeguei rapidamente, fiz amor com o homem que eu estava apaixonada (ou pelo menos meu coração enganoso me fez pensar assim) e logo fui jogada para a realidade dura. Eu não passava de uma mulher solitária.

Durante todo o trajeto até a casa dos meus pais, consegui acalmar minha respiração. Mas bastou eu passar pela porta e ver a decoração na sala, meu padrasto e minha mãe vestidos com seus suéteres natalinos e seus sorrisos estampados no rosto que eu desabei.

Fui amparada pelos dois, que estavam prestes a brincar por eu não ter dormido em casa. Eles sabiam que eu estava com , mas ficaram furiosos ao saber das palavras duras que ele me disse em nossa discussão.

Mamãe quase pegou o carro na mesma hora e foi tirar satisfação, mas a convenci que não valeria a pena. No final eu fui a culpada, me deixei envolver cedo demais, não estava completamente recuperada de um término de quatro anos, ainda mais de uma traição, e mesmo assim preferi arriscar sair com o aparentemente inocente.

Tratei de tomar uma banho, vesti minha melhor máscara da indiferença e me enfiei na cozinha sem falar mais uma palavra. A culinária era minha terapia, e era ali que tudo poderia se resolver, e tentava me convencer de que era impossível estar apaixonada por alguém só com poucas semanas de convivência.

O maior problema é que esse alguém era .

01 de Janeiro, 2020

~ POV

Fazia alguns bons minutos que eu encarava meu celular, ainda sem saber o que responder. Hoje era o dia que ia embora, e mesmo depois de tudo o que eu falei, ela engoliu o orgulho e me mandou uma mensagem.

~ :
Meu voo sai às quatro horas. Queria te ver uma última vez…

Como pude chamá-la de egoísta? Mesquinha? Onde estava a minha cabeça?

era simplesmente a pessoa mais fácil de se encantar e amar. Seu jeito educado e carinhoso cativa a todos. Principalmente a mim.

Minha resposta idiota foi o medo de me ver vulnerável perto de uma mulher tão confiante como ela. Era óbvio que não precisa de mim, que pode fazer suas escolhas sem pensar em um homem chorão ao seu lado, ela era autossuficiente. Pode ter quem quiser e onde quiser.

E no exato momento em que ela cansar de mim, ela vai me deixar. Vou ser apenas o músico de Paris apaixonado pela mulher mais perfeita que já coloquei meus olhos. era única e infelizmente seu defeito era morar a quilômetro de distância.

A solução para evitar quebrar meu coração foi fazer com que se arrependa de ter se envolvido comigo. Mas até nisso ela se mostrava superior, e me procurou quando eu menos esperei.

Grace ficou decepcionada com a minha atitude, tentou me convencer de que não era tarde demais para ir atrás dela, mas eu preferi voltar a minha atitude covarde e minha aura rabugenta.

sofreu muito com seu último relacionamento e eu pensei que talvez fosse a pessoa certa para consertar seu coração partido. Infelizmente eu fui apenas o responsável por iludir ainda mais os seus sonhos. Você é patético .

Encarei o relógio. Quatro e quarenta. Seu avião já estava no céu, fazendo seu caminho de volta para Los Angeles. Eu caminhava às margens do rio Sena, observando todos ao meu redor. Uma pequena camada de neve ainda cobria as ruas de Paris, famílias passeavam felizes curtindo seus últimos dias de férias, casais apaixonados viviam uma cena de filme de romance…

O mais irônico de toda essa história, eu acusei de ser solitária por culpa dela mesma… e no final eu fiquei sozinho e desisti de lutar ou de pensar em uma outra alternativa.

— City of stars, are you shining just for me? (Cidade de estrelas, você está brilhando só para mim?) — La La Land nunca fez tanto sentido como agora. Será que as luzes brilhavam apenas para mim? Será que eu iria encontrar um verdadeiro amor um dia? Alguém que faria as minhas noites mais escuras, se tornarem, nem que por pouco tempo, mais brilhantes?

Ou eu simplesmente acabei com a chance da minha vida, no momento que eu dispensei ?

A parte boa de trabalhar em um restaurante ou bar, é que eu não preciso necessariamente pagar pela minha bebida. Ri sem humor algum, mas era o que me restava no fim das contas. Me afogar no álcool até não sentir sofrimento algum.

O trajeto era longo, mas eu decidi caminhar até o trabalho. Mais uma coincidência surge, a paisagem parisiense sempre me encantou e sempre se mostrava curiosa pelos detalhes que eu contava, seja da arquitetura, dos artistas que viveram aqui, a revolução… seus olhos brilhavam de excitação. E meu desejo sempre foi poder registrar a beleza por trás da sua inocência em conhecer o desconhecido.

Inocência essa que desaparecia quando estávamos entre quatro paredes. Uma única noite foi o suficiente pra comprovar que eu perdi o controle de tudo. era meiga mas ao mesmo tempo sensual. Seus gestos, sua boca, seus olhares… tudo isso despertava em mim a vontade de experimentar e descobrir cada parte do seu corpo. Tive esse prazer por uma noite pelo menos. Mas já sentia a abstinência me dominar. Quanto mais eu me lembrava, mais eu precisava passar minhas mãos por suas curvas novamente.

Não sei quando teria essa sorte de novo.

Se eu pudesse fazer um pedido de Ano Novo seria poder compartilhar essa visão com a minha garota, desejava ter ao meu lado. Nós poderíamos ter nos apaixonado.

Porém agora, nada mais poderia ser feito.