Love Is A Laserquest

Love Is A Laserquest

Sinopse: Charlie Burkhart é uma atriz em ascensão, uma das melhores da atualidade. Mas isso não bastava, ela queria ser a melhor. Em seu caminho até o topo, Charlie se depara com uma proposta irrecusável, que certamente a faria avançar em sua jornada e acaba colocando-a no caminho da The Knickers, a maior banda de rock do século. Após conhecer Steve Taylor, o baterista problemático da banda, ela começa a questionar tudo que vivera em seus 23 anos, podendo acabar se desviando de seu caminho.
Gênero: Romance
Classificação: +18
Restrição: +18
Betas: Sharpay Evans

Capítulos:

— Você está atrasado. — O empresário Jeffrey Price constatou, sem um pingo de surpresa, assim que entrou numa das salas de reunião da Atlantic Records.
Se aquele comentário o aborreceu, ele não demonstrou nem por um segundo.
— Foi mal, é que eu não queria vir. — O baterista rebateu, se jogando numa cadeira ao lado de Nicholas Curtis, o baixista, que segurava uma risadinha.
Jeffrey respirou fundo sentindo-se frustrado. Depois de tanto tempo trabalhando com aquela banda, já deveria ter se acostumado com o jeito insolente de . No entanto, a cada gracinha, atraso ou qualquer outra demonstração de irresponsabilidade, ele se pegava mais e mais irritado.
Eles estavam ali reunidos para decidir o tema do videoclipe do mais novo single da banda, para poderem começar a gravá-lo em duas semanas. A música se chamava Red Light e fazia parte do quarto, e mais esperado, álbum deles.
Kendall Tucker, o guitarrista, — e também conhecido como o mais responsável — olhou de soslaio para a figura importante sentado a algumas cadeiras de distância, Martin Scorsese. Se tratava de um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos e, em toda sua carreira, gravara apenas dois videoclipes, sendo um deles de ninguém menos que o grande Michael Jackson. De alguma forma, Jeffrey havia conseguido com que ele topasse dirigir o vídeo de Red Light. Só isso traria uma publicidade monumental, não só para a música, mas como também para o novo álbum da banda. E agora estava botando tudo a perder com seu comportamento inconsequente.
— A primeira coisa a ser decidida é um conceito para o vídeo. O que vocês têm em mente? — Martin logo deu início a reunião, sem dar oportunidade para ninguém começar um drama devido ao atraso do baterista. — Sugiro que seja alguma coisa relacionada com o tema da música.
— Eu tenho uma ideia. — Nic começou todo animado, levantando o dedo indicador. — A música é sobre fingir ser alguém que não é, certo? Então que tal… — Ele fez uma pausa dramática. — Abdução alienígena?
e Kendall, além de Kyle Spencer, o vocalista da banda, suspiraram aborrecidos, mas nem um pouco surpresos. Por algum motivo, tudo que vinha de Nicholas Curtis era sobre alienígenas, história em quadrinhos, ou sobre qualquer outro elemento da cultura pop. E, assim, eram sempre ideias que eles não podiam levar a sério.
Mas aquilo era sério. Era sério para caralho.
Eles haviam contratado ninguém menos que Martin Scorsese para dirigir um videoclipe de ninguém menos que a The Knickers, a maior banda de rock — ou de qualquer outro gênero, para falar a verdade — do século vinte e um. A Atlantic Records estava investindo pesado, tanto no vídeo quanto no álbum todo. Se eles não fossem pelo menos indicado ao Grammy desse ano, seria uma baita injustiça.
Havia com eles ali também um roteirista, sentado logo ao lado de Martin, para anotar todas as ideias e escrever a melhor história que pudesse ser apresentada em no máximo nove minutos — tempo estipulado pela gravadora.
— Por que vocês nunca levam as minhas ideias a sério? — Nic questionou sentindo-se verdadeiramente ofendido com a reação de seus colegas de banda.
— Porque você tem a mentalidade de um nerd punheteiro de dezesseis anos, por isso. — Kyle rebateu levemente irritado.
— Estou esperando você dar uma ideia melhor, oh velha e sábia máquina de sexo.
Kendall revirou os olhos diante daquela discussão idiota, enquanto soltou uma gargalhada.
— Dá para vocês se comportarem? — Jeffrey grunhiu se ajeitando em sua cadeira de couro.
Às vezes, ele se sentia como uma babá de um bando de crianças. Já estava acostumado tanto com a infantilidade quanto com as briguinhas idiotas dos garotos, no entanto, aquele comportamento estava se tornando insuportável diante de Martin Scorsese.
— E se a gente falar sobre um artista que faz música mainstream por pressão da gravadora para vender álbuns, mas na verdade quer tocar sei lá… jazz? — Kendall sugeriu.
— É uma boa ideia, mas não sei se isso ficaria muito claro no vídeo. Precisamos de uma ideia mais emocionante para dar o impacto que vocês querem. — O roteirista respondeu educadamente, enquanto anotava alguma coisa em seu bloco de notas.
— Não é rock‘n’roll suficiente. — Kyle disse em palavras mais rudes.
Todos pararam para pensar por um instante. Longos minutos se passaram até que o rosto de se iluminou ao ter uma ideia. Ele ficou de pé e deu um tapa na mesa, com a expressão de quem fez a maior descoberta da humanidade desde a chegada de Cristóvão Colombo na América.
— Eis a ideia: por que a gente não faz um vídeo numa pegada tipo velozes e furiosos?
— Estou escutando… — Martin voltou a se pronunciar finalmente levando aquela conversa a sério.
— Um agente se infiltra em rachas de rua para investigar uma gangue e no final acaba sendo descoberto e morre. — Ele disse e todos se entreolharam, considerando aquilo. — Qual é? Stop at the red light, how far will you go living the lie… Se encaixa perfeitamente na música. Tem uma história interessante, tem emoção…
— Nós somos astros do rock, , não rappers. — Kyle, particularmente, não foi muito fã da ideia.
— E seu ponto é…? — se apoiou na mesa e ergueu as sobrancelhas, achando um absurdo uma ideia tão brilhante quanto aquela não ter sido aceita de cara. — Agora só rappers gostam de carros?
— Eu achei genial. — Aquilo fez com que o ressentimento de Jeffrey pelo atraso de caísse pela metade. — Mas tem um problema: precisaríamos de carros velozes e um ator, o que apertaria muito o orçamento.
O empresário tinha razão e por isso, frustrado, voltou a se jogar na cadeira, de braços cruzados.
— Nós poderíamos usar os nossos próprios carros. Todos nós temos uns bem maneiros e o Kyle tem pelo menos uns sete na garagem dele. — Kendall disse.
— Eu tenho nove.
revirou os olhos diante daquele comentário desnecessário.
— Ou a gente poderia oferecer um contrato para alguma marca oferecendo um acordo de patrocínio. A Audi patrocinou Homem de Ferro, duvido que eles não topariam oferecer alguns carros em troca da publicidade. — E é claro que aquela fala não poderia ter vindo de ninguém além de Nic.
— Ainda precisaríamos de um ator para fazer o papel principal, porque, sinceramente, vocês quatro tem tanto talento dramático quanto uma porta.
Nenhum deles se opôs ao comentário de Jeffrey, afinal, ele estava certo, mais uma vez. Eles já haviam tentado atuar em clipes antigos da banda e o resultado fora catastrófico, para dizer o mínimo.
É claro que fariam suas próprias aparições no vídeo, afinal, haviam outros papéis a serem preenchidos. No entanto, deixariam o protagonismo para alguém que realmente soubesse atuar e não se parecesse como um bobo sem jeito em frente às câmeras.
— E se for uma atriz? Aí a gente pode fazer com que ela se apaixone pelo líder da gangue antes dele matar ela, para dar mais emoção. — Kendall sugeriu e todos concordaram.
O roteirista logo tratou de anotar aquela ideia em seu bloco de anotações.
— Como essa ideia de vocês requer um motorista habilidoso, ideal então seria contratar uma atriz que não usa dublê por ser mais prático e não atrapalhar o orçamento. — Martin ajeitou os óculos de armação quadrada na ponta de seu nariz torto. — Uma que seja bonita, da faixa etária de vocês e com nome o suficiente para atrair mais publicidade para o vídeo.
É claro que quando sugeriu o tema, tinha perfeitamente em mente uma certa atriz que adoraria fazer parte daquele projeto. Se ela precisava de um dublê, ele não fazia ideia — disso ou qualquer outra coisa sobre a vida dela, já que o que costumavam fazer juntos, geralmente, não envolvia muita conversa —, no entanto, sabia que ela era talentosa e famosa o suficiente para atrair mais visualizações.
Por isso não conseguiu disfarçar a decepção em seu rosto quando o diretor voltou a dizer:
— Sei que isso é uma decisão de vocês, mas, se me permitem fazer uma sugestão, eu diria que atriz que vocês estão procurando é .

*****

— Eu recebi uma ligação muito interessante ontem de tarde. — Foi a primeira coisa que Kelsey Schofield, agente, assistente pessoal e melhor amiga, disse assim que entrou no trailer de .
Ela estendeu, a atriz, seu Cold Brew de baunilha com leite de coco do Starbucks, que tomava toda manhã.
, que estava sentada na cadeira de seu camarim, já vestida como a personagem principal de Triple Justice, o filme de ação e seu atual projeto, apenas tirou os olhos de seu celular quando Kelsey se inclinou para beijá-la na bochecha, lhe dando bom dia.
— Jeffrey Price, empresário da The Knickers, me ligou e convidou você para estrelar o mais novo videoclipe da banda. — Ela disse se escorando na bancada de maquiagem que ficava logo embaixo de um espelho.
— E o que tem de interessante nisso? Eu recebo milhões de convite desses quase toda semana.
Kelsey balançou a cabeça e sorriu com condescendência, como soubesse de algo que a atriz não sabia.
— Mas nunca recebeu um que teria ninguém menos que Martin Scorsese como diretor. — Ela respondeu e a bebida matinal de quase escapou de sua boca, de tamanho choque em que ela se encontrava.
— O que você disse?
— Isso mesmo que você escutou. — Kelsey respondeu como se soubesse exatamente que a reação de sua amiga-chefe seria essa.
A oportunidade de trabalhar com Martin Scorsese, um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos, era o tipo de oportunidade que atores de todos os níveis buscavam, ainda mais ela.
, mesmo sendo muito nova, já era uma atriz de grande renome em Hollywood. Mas não o suficiente. Com seus vinte e três anos, ela era reconhecida — e engrandecida, até — por diversas coisas: beleza, talento, versatilidade e, principalmente, por seu profissionalismo e ambição inigualável. Tendo começado sua carreira muito cedo, ela já havia feito mais filmes do que poderia contar; além de ter recebido diversas indicações e até mesmo ganhado um Globo de Ouro pela categoria melhor atriz coadjuvante. Mas não era o suficiente. queria mais, queria ganhar Oscars, Globos de Ouro, BAFTAs… todo tipo de premiação e, de preferência, em suas categorias mais importantes. Ela queria tudo isso, e uma oportunidade com um dos melhores diretores de todos os tempos certamente era um grande passo na direção de seus sonhos.
Talvez, daquele videoclipe poderia até mesmo surgir uma proposta real de trabalho.
— Como diabos eles conseguiram que Martin fucking Scorsese dirigisse um videoclipe deles? — perguntou ainda sem acreditar. — Eles não fazem música para sei lá… gente feia e alternativa?
Kelsey revirou os olhos diante da ignorância da melhor amiga. A atriz só escutava música extremamente mainstream e mela-cueca. Se o artista não fosse Ed Sheeran, Bruno Mars ou Harry Styles, ela não se importava.
— Você vive tanto dentro da sua bolha que, minha nossa, não sei porque ainda fico surpresa.
não respondeu. Apenas limitou-se a encarar sua amiga com uma cara feia e sobrancelhas erguidas.
— Eles são a maior banda do século, . Não One Direction, não Maroon 5… eles.
— Tanto faz… eles são só um bando de tatuados que gostam de quebrar umas guitarras por aí.
Obviamente, nunca perdera seu tempo para se informar sobre aquela banda de rock famosíssima, responsável por quebrar o recorde de álbum de estreia mais vendido da história — antes pertencido ao Guns n’ Roses —, além de ter trazido de volta a fama monumental do rock da década de setenta, que andava em declínio desde os anos noventa. Mas, ainda assim, era impossível não saber quem a The Knickers era e a fama que a acompanhava: garotos que, apesar da beleza, tinham a arrogância do tamanho do Texas e gostavam de causar problemas.
— E aí? — Kelsey pressionou meio sem paciência. — Fiquei de confirmar com o empresário deles até a hora do almoço.
pensou por um instante. Era óbvio que sua resposta seria um claro e sonoro “sim”, mas não podia deixar de se perguntar como seria trabalhar com a banda e com aquele bando de rockstars problemáticos. Normalmente, a atriz diria não para uma proposta como aquela, assim como havia feito com os outros milhares de convites que chegavam até ela através de sua agente, no entanto, achava que se Martin Scorsese havia dado a eles uma chance, ela também daria.
— Você está dentro ou não?
— Com certeza.

Quando atravessou a enorme porta de ferro do estúdio onde seriam feitas as gravações internas do videoclipe, às exatas seis e meia da tarde, não sabia muito bem o que a esperava; por isso, foi pega de surpresa ao ver a profissionalidade do ambiente, com um set perfeitamente montado e membros da equipe ocupados, correndo para lá e para cá.
— Está vendo? É um estúdio de gravação normal… sem cruzes invertidas, garotas acorrentadas e nem rituais satânicos. — Kelsey disse desmantelando o preconceito de em relação a todos os rockstars que já pisaram na terra e seus protocolos de trabalho.
Antes que pudesse responder, a atriz avistou dois membros da banda — que pode reconhecer pela breve pesquisa que fizera sobre a The Knickers antes de aceitar definitivamente o trabalho — conversando com o senhor que logo pode identificar como Martin Scorsese.
quis correr até ele, puxar seu saco e enchê-lo de perguntas, sendo uma delas: “por que diabos você aceitou trabalhar para eles?”. Mas é claro que ela não o fez. Era profissional demais e tinha uma imagem a ser mantida, ainda mais se quisesse que o diretor a levasse a sério.
Por sorte, ela não teve muito tempo para sequer considerar ceder aos seus instintos mais primitivos de fangirl, já que foi logo recepcionada por uma assistente da produção que a guiou até seu camarim, enquanto se esforçava tanto para não tietar a atriz, assim como ela se esforçava para não ir até o diretor.
A sala branca era toda perfeitamente iluminada e bem simples. Havia apenas uma bancada com um espelho, ambos eram tão grandes que iam de parede a parede; além de duas cadeiras estilo diretor de cinema, um sofá de couro preto e uma arara, onde seu figurino para a gravação do dia estava pendurado de forma impecável para não amassar.
— A maquiadora estará aqui a qualquer momento para preparar você. — A assistente de produção disse anotando algo em sua prancheta assim que jogou sua bolsa Hermès no sofá de couro. — Senhorita Schofield, o senhor Price gostaria de tratar alguns assuntos com você, se puder me acompanhar… — Ela já ia saindo do camarim quando se virou para a atriz mais uma vez. — Se precisar de qualquer coisa, meu nome é Kelly.
forçou um sorriso em agradecimento e, assim que a porta foi fechada atrás de Kelsey, se jogou em sua cadeira.
Ela costumava não ter muito tempo livre em seu dia a dia, por isso, aproveitou aquele momento de silêncio para checar suas redes sociais.
Eles haviam separado as gravações em três dias que aconteceriam em um final de semana para não prejudicar a agenda apertada de que estava no meio da gravação de Triple Justice. Na sexta à noite eles filmariam as partes em que a banda apareceria tocando e mais algumas cenas internas; no sábado à noite, eles iriam para uma locação que ainda não sabia exatamente onde, gravar os rachas e as partes externas de interação de sua personagem com a “gangue”; enquanto no domingo eles terminariam de gravar as cenas internas naquele mesmo estúdio.
Apesar daquele projeto todo ser muito controverso para a mente quadrada da atriz, ela tinha que admitir que, quando lera o script, achara a ideia um máximo. As cenas eram emocionantes e bem escritas, sua personagem era tão forte e marcante quanto poderia ser em um vídeo de nove minutos… talvez aquilo tudo pudesse até ser divertido, no final das contas. Além do grande bônus que seria a oportunidade de mostrar serviço para Martin Scorsese.
De qualquer forma, estava tentando manter o pensamento positivo sobre aquele trabalho.
tinha acabado de curtir uma foto de um modelo gostoso da Calvin Klein que a paquerava pelas DM’s do instagram, quando foi surpreendida pela porta de seu camarim sendo aberta de maneira agressiva.
A cena que se sucedeu ao susto foi tão absurda que ela sequer sabia como agir.
Kelly, a tal assistente de produção, provavelmente ficara perdida no caminho de volta de levar Kelsey até o empresário da banda e tropeçara nos braços de um homem loiro e alto, que não reconheceu de cara, e caíra bem na boca dele. Os dois se beijavam ferozmente e pareciam não ter a mínima ideia da presença da atriz ali, que se sentia mais desconfortável a cada segundo.
Ela apenas assistiu a cena em completo choque por alguns instantes — secretamente admirando a forma com que o homem agarrava os fios de cabelo da nuca da garota —, até se decidir que precisava fazer alguma coisa.
esforçou-se para achar as palavras certas e incriminadoras o suficiente para fazer com que ambos se afundassem em vergonha, mas a única coisa que saiu de boca foi um enrolado:
— Que porra é essa?
Quase que instantaneamente, a tal da Kelly empurrou o homem para longe e ao ver quem era a dona da voz, espectadora daquilo que poderia muito bem preceder um belo de um filme pornográfico, ela levou as mãos até a boca, em completo choque, e corou até não poder mais.
Ai meu Deus, senhorita … — Parecia envergonhada demais para sequer formular uma frase.
— Oi! Kelly, não é? — abriu um sorriso numa falsa complacência, secretamente se divertindo com tudo aquilo.
Ela adorava situações que a colocavam em uma posição de superioridade. E poderia até soar maldoso, mas seu prazer praticamente triplicava quando a vítima se sentia tão inferior e sem jeito quanto a assistente de produção naquele momento.
— Eu sinto muito senhorita . — Kelly juntou as mãos em frente ao peito como quem faz uma prece. — Quando ele abriu a porta, eu não tinha me dado conta que era a do seu camarim, eu nunca faria isso de propósito. Minha nossa, eu vou ser tão mandada embora!
A atriz soltou mais um de seus sorrisos bondosos.
— Fica tranquila. — se colocou de pé e andou a passos de modelo de passarela até a garota que parecia genuinamente aterrorizada. Seu tom era gentil, mas soava cortante como uma faca. — Eu não vou contar para ninguém o que aconteceu aqui. Vai ser o nosso segredinho, ok?
Kelly balançou a cabeça freneticamente com os olhos esbugalhados. Ela era mais baixa que a atriz, o que apenas reforçava o sentimento de inferioridade, reduzindo sua autoconfiança pela metade.
— Agora vaza daqui.
Ela não precisou dizer duas vezes. Num piscar de olhos, Kelly tinha sumido.
Só então ela lembrou-se da presença do tal homem que ainda estava lá, plantado, a encarando com um ar divertido.
— Eu não fui clara o suficiente? — virou-se para ele e toda aquela falsa sensação de superioridade pela estatura havia sumido. O cara tinha facilmente mais de um metro e oitenta de altura. — Eu disse para vazar daqui.
Mas, felizmente, era uma mulher dificílima de ser intimidada.
— Você parecia muito mais alta na televisão. — Ele disse com um ar brincalhão, trocando o peso de uma perna para outra numa postura meio torta e, de repente, um lampejo invadiu a mente da atriz e só assim ela o reconheceu.
: o baterista problemático da The Knickers.
Ele era quase tão bonito pessoalmente quanto nas fotos capa de álbum que encontrou no google. Cabelos loiros de comprimento mediano que provavelmente eram mais bem hidratados do que de qualquer outra garota, estatura alta, um braço fechado de tatuagens de desenhos que ela não soube bem identificar, além de um par de olhos azul piscina que, pessoalmente, se pareciam menos profundos e mais perdidos. Seu corpo era esguio, mas seus músculos eram perfeitamente delineados, ainda mais pela camiseta preta do Led Zeppelin que não tinha nada de especial, além de acentuar tão bem as partes de seu corpo.
A atriz se forçou a sair do transe que encarar aquele espécime perfeito da raça humana havia lhe colocado e balançou a cabeça, sorrindo sarcástica.
— Engraçado. Porque você parece ser exatamente como nas matérias que eu li sobre você. — pensou que ao mencionar sua fama catastrófica, o baterista iria recuar ou, no mínimo, ficar sem graça.
Ah menininha ingênua.
A expressão de divertimento puro que mantinha no rosto nem sequer vacilou.
— Então você andou procurando sobre mim? — Ele questionou abrindo um sorriso similar ao dela.
Embora vivesse cercada de celebridades desde que se conhecia por gente, era muito difícil encontrar alguém que a desafiasse daquela forma, conversando com ela de igual para igual; e isso a deixou um tanto… intrigada?
— Eu só fiz meu dever de casa. E além do mais, não é como se sua reputação fosse exatamente um segredo, rockstar. — Ela rebateu dando alguns passos em direção do baterista e, naquele mesmo momento, notou que algo estava errado.
Demorou alguns segundos para se dar conta do que se tratava; mas quando percebeu, não tinha como voltar atrás.
— Você está bêbado? — questionou incrédula. As palavras saíram de sua boca como se fossem o pior xingamento possível.
Ela tinha uma facilidade incrível para detectar odores, e cheirava feito uma destilaria.
Depois que se deu conta disso, foi como se os sinais se revelassem para ela gradativamente. O sorriso frouxo típico de quem exagerou na bebida, o olhar desorientado, a postura torta… Como é que ela não havia percebido isso antes?
Primeiro ele invadia seu camarim simplesmente agarrando alguém da produção… E agora isso?
passara pelo menos dez horas daquele dia de pé, em um salto quinze, no set de filmagem de Triple Justice. E lá estava ela, impecável e no horário, enquanto aqueles rockstars de merda não eram nem mesmo capazes de aparecer sóbrios, com a capacidade cognitiva intacta.
Aquilo era mais irresponsabilidade que o perfeccionismo da atriz podia suportar.
nem sequer se deu o trabalho de responder. Apenas deixou que o sorriso embriagado fizesse isso por ele.
Não era novidade nenhuma para o baterista aparecer naquele estado para trabalhar. Seus companheiros não se importavam — afinal, não era o único que costumava fazer isso —, contanto que ele fizesse o que tivesse que ser feito. No entanto, naquele dia, tinha exagerado um pouquinho e estava completamente bêbado.
Eram quase sete horas da noite e ele passara a tarde toda na festinha que uma angel da Victoria’s Secret havia dado em sua piscina. Misture bebida de qualidade com mulheres bonitas e tem-se a combinação perfeita para tirar o resquício de juízo que tinha em sua cabeça loira.
Ele sabia muito bem da importância de estar em sua mais perfeita consciência naquele dia, mas a situação na festa havia saído um pouco — ou muito — de seu controle e não era sua culpa. Ou era?
Provavelmente sim.
Assim que chegou e viu a assistente de produção bonitinha se jogando em cima dele, não perdeu a oportunidade de ir para cima. Sabia que não podia ficar com ela ali na frente de todo mundo, por isso, quando pensou rapidamente no lugar em que se enfiaria, escolheu meticulosamente a terceira porta no extenso corredor de camarins.
Ainda sentia-se ressentido pela banda ter ignorado sua sugestão de atriz para estrelar o clipe e, por isso, fazia questão de tornar um inferno a vida da tal , enquanto trabalhassem juntos.
No fundo, ele secretamente admirava atriz, afinal, ela havia estrelado um de seus filmes prediletos. Mas não podia dar o braço a torcer. Ele tinha total consciência de que ela não tinha nada a ver com as decisões da banda e, muito menos, com suas preferências pessoais, mas, ainda assim, tinha que descontar em alguém sua frustração. Podem chamá-lo de infantil, ele não dava a mínima.
Quando viu a extremamente desconfortável com a situação em que havia sido colocada, sentiu como se aquilo fosse uma vitória pessoal; e a reação agressiva dela apenas tornou tudo muitíssimo mais interessante.
Ao colocar os olhos pela primeira vez em — a grande atriz da qual sempre falavam — a primeira coisa que ele reparou foi que de grande ela não tinha nada. A garota media no máximo um e sessenta e cinco de altura. Depois, notou que, pessoalmente, ela se parecia muito menos glamourosa do que no filme O Conto do Duque De Windsor, em que interpretara uma aristocrata do século dezenove; ou nas diversas cerimônias de premiação às quais o filme fora indicado. Seu cabelo comprido loiro era muito menos brilhoso ali, na luz do camarim, e de perto ela se parecia muito mais como uma garota normal do que como uma estrela de cinema — talvez fosse só sua beleza natural, livre de procedimentos estéticos exagerados. Mas isso não impediu de achá-la incrivelmente bonita.
— Você é surdo, por algum acaso? — perguntou mais uma vez e apenas a encarava, divertido.
O tom dela era sereno, mas ele podia dizer muito bem que estava com raiva.
Antes que o baterista pudesse sequer pensar em responder, a porta do camarim abriu-se mais uma vez, revelando a mulher que logo reconheceu como a agente de , seguida por Jeff e o diretor do clipe.
Merda.
— Tudo bem por aqui? — Tão logo que entrou, Kelsey percebeu a tensão no rosto da melhor amiga.
Além do mais, conhecia o suficiente para saber que ela não sairia convidando estranhos para entrarem em seu camarim. Muito menos quando o estranho em questão era um baterista que ela tinha certeza que oferecia animaizinhos indefesos como sacrifício aos deuses do rock’n’roll.
— Claro. Nós só estávamos… hm… nos conhecendo melhor. — forçou um sorriso e disse antes que pudesse pensar em formular uma frase.
Ela estava com raiva; e nem mesmo a presença de Martin Scorsese ali foi capaz de amenizar isso.
No entanto, a atriz apenas engoliu o nó em sua garganta e virou-se para o diretor, finalmente se lembrando dos bons modos.
— Senhor Scorsese, é um prazer conhecê-lo. — apertou a mão dele, usando o tom mais polido possível. Logo em seguida repetiu o gesto com o empresário da banda daquele traste em sua frente, parecendo um tanto desconfiado. — É verdade senhor Price. aqui estava me contando tudo sobre o quão ocupado estava antes de vir para cá. Não é mesmo, ?
O baterista a encarou com uma sobrancelha arqueada, sem saber com certeza o que pretendia com aquilo.
Ela não o deduraria assim… ou deduraria?
— É. — Ele assentiu. Sua mente embriagada fazendo um esforço excepcional para encontrar as palavras certas antes que a atriz pudesse dizer algo que o comprometesse. — Eu realmente estava ocupado com… um projeto.
Ela riu como se o baterista tivesse dito a coisa mais engraçada do mundo.
— Projeto… então é assim que vocês astros do rock chamam de encher a cara hoje em dia?
Para o azar dele, tinha um raciocínio muitíssimo veloz e uma capacidade de improviso melhor ainda.
É claro que ela o deduraria.
O tom amigável e divertido, a risada… Para qualquer um que não a conhecesse, realmente não tinha nenhuma intenção escondida por trás daquelas palavras. Mas não para Kelsey, que imediatamente percebeu que a amiga queria, na verdade, ferrar com o baterista. por sua vez, também não se deixou enganar por aquele teatrinho, por mais convincente que fosse.
Merda.
Ele costumava ser bom em agir normalmente mesmo tendo ingerido álcool o suficiente para abastecer um posto de gasolina, em sempre ter uma desculpa na manga caso alguém o questionasse… e, principalmente, em não dar brecha para que uma vaca louca como aquela o ferrasse. Costumava ser bom demais em fingir costume para se livrar de eventuais problemas com a banda ou seu empresário. Mas talvez, naquela noite, tivesse passado do ponto e agora estava certamente ferrado.
Jeffrey iria matá-lo por ter aparecido daquela forma logo em um dia tão importante.
O empresário forçou uma risada, numa tentativa de esconder a carranca que queria tomar conta de sua expressão. Fingindo que tudo estava bem, ele apenas colocou uma mão no ombro do baterista e disse:
— Uma palavrinha, ? — E então, num movimento quase imperceptível, o empurrou para fora do camarim.
, sentindo-se muitíssimo satisfeita com sua pequena vitória, sem perder tempo, se virou para Martin.
— É um prazer enorme poder trabalhar com o senhor.
O velho sorriu brevemente, ajeitando a armação dos óculos num movimento nervoso.
— Ele está realmente bêbado? — Perguntou apontando para a porta de onde e Jeffrey tinham acabado de sair.
Com os lábios apertados e uma expressão de falso pesar, a atriz assentiu.
O que queria com aquilo? Nem ela sabia. A única coisa que tinha certeza é de que ficara com raiva do baterista por tê-la desafiado; e, mais ainda, quando se deu conta de que estava bêbado.
costumava ser uma pessoa perfeitamente racional. No entanto, tinha o péssimo hábito de tomar decisões apenas para satisfazer seus caprichos, por mais infantis que fossem.
Quando Jeffrey o guiou para fora do camarim — nada delicadamente, diga-se de passagem —, cambaleou até quase cair sobre um dos membros da equipe de gravação.
Não muito longe dali, Nic e Kendall avistaram a cena e foram logo até eles, ver o que estava acontecendo.
— Você perdeu a porra do juízo? — Jeffrey já tinha uma personalidade raivosa por natureza, mas, naquele momento, ele estava possesso.
E não achava mais a situação tão divertida assim. Depois de recuperar o equilíbrio, ajeitou sua postura e cruzou os braços, fazendo cara de poucos amigos.
— Que merda está acontecendo aqui? — Kendall perguntou.
Mas não demorou muito para perceberem o que se passava por ali. Depois de mais de seis anos de banda, sabiam reconhecer perfeitamente os sinais de embriaguez um do outro.
— Cara você está bêbado, sério, justo hoje? — Até mesmo Nic, que não era o maior exemplo quando se tratava de responsabilidade, achou aquilo um absurdo.
Kendall não disse nada, apenas deu um pedala forte na cabeça de , que não ficou nem um pouco feliz com aquilo.
— Ai ai, porra! Qual é a de vocês, em? — Ele questionou passando a mão no lugar onde havia sido atingido. — Não é como se nunca tivessem feito isso antes.
Jeffrey respirou fundo numa tentativa falha de se acalmar. A raiva era tanta, que seu rosto havia assumido uma coloração avermelhada e as veias em seu pescoço já começavam a saltar.
— Você sabe o trabalho e o dinheiro que foi preciso para convencer Martin Scorsese a fazer esse vídeo?
Foi a vez de suspirar enquanto massageava a ponte de seu nariz, sentindo seu cérebro pulsar contra a caixa craniana como resultado da bebida evaporando de seu organismo. Ele não dava a mínima para Martin Scorsese e muito menos para o dinheiro que lhe fora pago. Um macaco poderia dirigir aquele clipe e o baterista continuaria não dando a mínima.
— Você acha que ele vai querer cair fora? — Nic perguntou parecendo genuinamente preocupado.
Jeffrey apenas murmurou um “não sei” como resposta.
— A culpa é toda daquela vaca da que não sabe calar a porra da boca! — explodiu falando alto demais considerando a aproximação deles da porta do camarim. — Se vocês tivessem me escutado e chamado quem eu sugeri, nada disso teria acontecido.
Kendall deu mais um tapa na cabeça dele.
— Se você não fosse a porra de um irresponsável nada disso estaria acontecendo, isso sim!
Ele sabia.
Sabia que se não tivesse bebido, ou entrado no camarim da atriz de forma nada educada sem ser convidado, nada daquilo estaria acontecendo. No entanto, se recusava a admitir a culpa e preferia jogá-la em que também de santa não tinha nada.
Assim, muitíssimo irritado, fez a menção de ir para cima de Kendall, mas logo foi parado por Nic que o impediu com uma mão em seu peito.
— Para com isso, porra! Até parece uma criança! — Jeffrey grunhiu.
— Você se superou nessa, cara. Como é que você me aparece bêbado para gravar um clipe sobre racha, com o Martin Scorsese e uma das melhores atrizes da atualidade? — Nic disse num tom indignado, mas tranquilo, até que pareceu se lembrar de alguma coisa que fez sua expressão mudar para completo choque. — Meu Deus, a gente está ferrado!
— De que merda você está falando?
— Da , Kendall, porra! — Nic começou a se explicar, exasperado. — Vocês nunca ficaram sabendo da história que ela quase afundou a carreira da Emma Roberts por um motivo muito idiota?
— O que aconteceu?
— Sei lá, a única coisa que eu sei é que foi idiota. Agora ela vai fazer a mesma coisa com a gente!
Todos ficaram em silêncio por algum instante, sentindo o peso do clima que pairava por ali. Até que Jeffrey suspirou mais uma vez, virando-se para .
— Você vai concertar isso.
— Eu?
— Não, , a fada do dente! — Kendall revirou os olhos. —É óbvio que é você quem vai consertar isso, seu idiota, a culpa é toda sua.
— O que diabos você quer que eu faça?
— Sei lá, se vira! — Jeffrey respondeu já dando as costas para se certificar que nem o diretor quanto a atriz tinham desistido de trabalhar com eles. — Se vazar alguma coisa sobre isso você está fodido. ?

“Se vazar alguma coisa sobre isso você está fodido”
Rá, tá bom.
Muitas coisas eram capaz de tirar do sério. Muitas mesmo. Por exemplo: turistas, estar no meio de uma refeição e ser interrompido para tirar uma foto, gente lenta no trânsito, espaços apertados e, minha nossa, aranhas. E ainda assim, poucas coisas o deixavam tão puto da vida quanto seu empresário agindo como se fosse o dono da banda, ou pior: seu pai.
Jeffrey Price parecia discordar do resto do mundo sobre imagem mais adequada para um rockstar. Pouco se lixava para as bandas que existiram antes da The Knickers e a fama que elas carregavam, tudo que ele queria era se certificar que seus clientes se mantivessem longe de polêmicas grandes o suficiente para enterrar suas carreiras. Assim, ele estava sempre fazendo o possível e o impossível para abafar os problemas e as manchetes em site de fofoca, que vinham como consequência da vida cheia de excessos levada pela banda.
Agora, por causa disso, deveria dar um jeito de se certificar de que , uma atriz com fortes tendências à vilania, não saísse por aí querendo acabar com a reputação já frágil da The Knickers.
Simplesmente um saco.
Não foi surpresa nenhuma que, depois de descobrir do estado em que o baterista da The Knickers se encontrava, Martin Scorsese adiasse as filmagens daquele dia. Por isso, invés de só gravarem no sábado à noite, voltariam para aquele mesmo estúdio de tarde, o que fez com que oitenta por cento da equipe envolvida quisesse matar .
Nada com que ele não estivesse acostumado.
, por sua vez, estava puta da vida. Sabia que não devia estar, já que tinha seu percentual de culpa naquela situação, no entanto, não dava a mínima. Ela queria apenas matar aquele idiota metido a rockstar que carregava o nome de .
A atriz estava sentada no sofá de seu camarim, apenas esperando Kelsey terminar de resolver algumas pendências com Jeffrey para que as duas pudessem dar o fora dali e fazer alguma coisa que impedisse aquela sexta feira de ser uma total perda de tempo. Mas aquilo estava demorando demais.
Ela pegou sua bolsa e estava prestes a se levantar para sair dali, quando foi surpreendida por batidas leves na porta de seu camarim. Incerta, apenas murmurou um “pode entrar” alto o suficiente para que seja lá quem estivesse batendo pudesse escutar.
A porta logo se abriu revelando um jovem que deveria ter seus vinte e tantos anos, que não reconheceu. Provavelmente deveria ser apenas mais um membro da equipe de produção.
— S-senhorita , desculpe te incomodar… — Ele começou parecendo nervoso demais diante da presença de uma das melhores atriz da atualidade. — Você já está indo embora?
— Estou sim, por quê?
Ele soltou um suspiro como quem tenta tirar um peso das costas.
— O senhor me mandou aqui para te dizer que ele está no terraço e quer falar com você.
arqueou as sobrancelhas, sentindo-se surpresa. Ela não fazia ideia o que queria e… oras, quem aquele baterista de merda pensava que era? Se quisesse conversar, ele que viesse até ela.
— E se eu disser não?
O jovem voltou a enrijecer seu corpo.
— Ele disse que eu vou perder meu emprego.
— E ele lá tem autoridade para isso? — questionou duvidando muito que pudesse despedir alguém da produção.
— Eu não faço ideia, senhorita . Mas para ser bem sincero, prefiro não arriscar… ele me assusta para caralho. — O jovem sussurrou a última parte, como se temesse que alguém o pegasse falando palavrão.
E ela apenas assentiu, parte dela sentindo pena dele, e o tranquilizou, dizendo que cuidaria daquilo.
não soube dizer bem o porquê — apenas sabia que não era pela bondade de seu coração tentando fazer com que aquele moço não fosse demitido —, mas não foi preciso de muito para convencê-la a ir atrás de .
Apenas disse para Kelsey não a esperar e subiu as escadas de metal que davam para o terraço do estúdio.
Assim como oitenta por cento dos terraços de Los Angeles, o lugar não era muito alto, embora lhe concedesse uma bela vista da cidade e suas luzes. Ela encontrou fumando um cigarro, sentado de maneira relaxada no parapeito de cimento, apenas a um descuido de distância de uma queda que poderia ser fatal.
— Pensei que você não fosse vir. — disse sem olhá-la, assim que escutou o barulho da porta abrindo e fechando.
— Ameaçar mandar um coitado embora só para conseguir o que quer? — disse andando até ele e se escorando no parapeito. — Parece uma coisa muito escrota de se fazer até para você.
Ele riu fraco dando uma tragada em seu cigarro e soltando fumaça logo em seguida.
— Você não me conhece.
— E pretendo continuar assim.
girou seu corpo para olhá-la de frente, de modo com que ficasse com uma perna de cada lado do parapeito.
— O que você quer? — perguntou fingindo estar sem paciência.
Normalmente, o baterista não precisava se esforçar muito para conseguir o que queria, a fama tinha o grande poder de abrir até mesmo as portas mais inalcançáveis para ele. No entanto, tinha consciência de que seu status não fariam grande efeito em , que era tão famosa quanto ele. Por isso, teria que recorrer ao segundo método de persuasão que costumava a usar com mulheres: sexo.
Seu plano brilhante para salvar a reputação da pobre banda de ser destruída pela atriz malvada se baseava em seduzi-la ao ponto de fazer com que ela se esquecesse do ocorrido daquela noite.
Sim, ele era um completo idiota. E não, não tinha a menor vergonha disso.
o observou soltar fumaça. O baterista estava fodidamente atraente ali, sob a iluminação fraca que vinha da cidade. Sua beleza colérica era ainda mais evidente de perto e, assim, ela pode notar uma pequena cicatriz no canto do lado inferior, que provavelmente era a memória de um piercing colocado passado, assim como a marca na sobrancelha. Ele a encarava intensamente, o que apenas servia para deixá-la sem graça. Mas é claro que, orgulhosa demais, ela não demonstrou isso.
— Vamos jogar um jogo. — disse do nada e franziu o cenho, sem saber se ele falava sério.
— Você tem quantos anos? Oito?
— E você tem o que? Setenta e oito? — Ele rebateu e ela se deu por vencida.
não fazia ideia o que diabos passava em sua cabeça quando ela resolveu pular no parapeito de cimento e sentar-se ao lado de , que apenas a encarou com um sorriso satisfeito.
Aquilo seria interessante…
— Verdade ou consequência. — sugeriu.
E a atriz soltou uma risada debochada.
— Pensei que as pessoas paravam de jogar isso quando saíssem do fundamental.
Ele revirou os olhos.
— Você é sempre tão irritante assim? — Perguntou e ela deu de ombros. — Verdade ou consequência?
ponderou por um instante, com medo do que ele perguntaria caso escolhesse verdade e com mais medo ainda do que seria obrigada a fazer se escolhesse consequência.
Sem querer pensar muito, ela apenas deu de ombros como se dissesse “dane-se” e escolheu a segunda opção.
sorriu como se ela tivesse acabado de fazer exatamente o que esperava que fizesse. E então, apontou para um cara que acabava de virar a esquina e andava tranquilamente pela rua do estúdio, alheio ao fato que seria o próximo alvo de uma brincadeira entre celebridades.
Mas que honra!
— Está vendo aquele careca ali passando? — Ele perguntou e ela assentiu. — Cospe na cabeça dele.
— Você está falando sério?
— Sim.
fez uma careta como se aquilo fosse a coisa mais absurda que alguém já a obrigara a fazer.
— Eu não vou fazer isso, eu tenho classe.
— Então você não vai cuspir na cabeça de um cara, não porque pode ser um incômodo para ele, mas sim por que você tem classe?
— Exatamente. Eu não vou fazer isso, sem chances.
A cada segundo que passava, tinha mais e mais certeza de que era apenas mais uma figura típica e Hollywood: mesquinha e superficial.
— Mas você escolheu desafio. — Ele rebateu com um tom entediado, dando mais uma tragada em seu cigarro.
— Tudo bem, eu quero verdade.
— Não, tarde demais. — Respondeu e teve que segurar uma risadinha quando se deu conta de que estava tirando-a do sério. — Ele está passando…
bufou, se dando por vencida. Ela se inclinou para frente, próxima demais da beirada, e juntou uma quantidade considerável de catarro em sua boca, apenas para acertar em cheio a cabeça do careca que estava logo embaixo deles.
O homem puto da vida, gritou uma série de palavrões que eles não entenderam muito bem. Se ao menos soubesse de quem era aquela saliva em sua cabeça, ele provavelmente agradeceria invés de ser tão mal educado.
Tanto quanto deram risada, ela ainda sem acreditar no que acabara de fazer.
— Verdade ou consequência? — Foi a vez da atriz de perguntar.
Ela até que estava começando a se divertir com isso.
— Verdade.
pensou por um instante.
— Quando você invadiu o meu camarim mais cedo, você sabia que era meu? — Ela perguntou roubando o cigarro da mão do baterista e dando uma tragada. Preferiu não pensar no número de doenças que poderia ter contraído como consequência daquilo, afinal, vai saber onde é que rockstars costumam enfiar suas bocas.
— Sim. — Ele respondeu com a naturalidade de quem responde uma pergunta sobre o clima.
— E por que você fez isso?
— Essa é outra pergunta. — Foi a única resposta que ele deu, que fez com que ela revirasse os olhos. — Agora é minha vez: verdade ou consequência?
— Verdade.
roubou de volta seu cigarro e deu mais uma tragada.
— Você fez aquela ceninha toda só para me foder? — Perguntou a encarando nos olhos.
Ele secretamente já sabia a resposta para aquela pergunta, mas queria ouvir da boca dela.
— Sim. — Respondeu com a mesma naturalidade.
— E por que você fez isso?
Essa é outra pergunta. — E com um sorrisinho de canto, fez com que ele provasse do próprio veneno. Por algum motivo, já esperava por isso. — Verdade ou consequência?
— Verdade.
— Minha nossa, como você é chato.
A atriz esperava que ele fosse muitas coisas, mas monótono certamente não era uma delas.
Mas apenas deu de ombros.
— A verdade é sempre interessante.
pensou por um instante em sua pergunta.
— Por que você me chamou aqui?
— Verdade ou consequência?
— Mas você ain… — Sem entender, tentou rebater, mas não deixou.
— Verdade ou consequência? — Ele repetiu a pergunta.
Ela apenas bufou.
— Consequência.
— Sai comigo?
— O que?
revirou os olhos.
— Ninguém nunca te chamou para sair, não? — Ele questionou e ela apenas o encarou confusa. — Você sabe: sair para beber alguma coisa, conversar… potencialmente acabar a noite na cama um do outro…
soltou uma risada desacreditada.
— Então você está fazendo tudo isso por que quer transar comigo?
deu de ombros, soltando fumaça pelo nariz.
— Não se gabe, eu quero transar com todo mundo.
— E é assim que você convence as garotas a transarem com você? — Ela balançou a cabeça em negação. — Você tem sorte de ser bonitinho.
Ele não respondeu, apenas continuou fumando seu cigarro em silêncio.
— Por que eu deveria sair com você?
Puta merda, como ela era chata. Era só o que lhe faltava a atriz, além de ser insuportável, também ser uma baita cu doce.
— Você não deveria.
Ok, era isso: estava definitivamente sem entender nada. O que ele queria, afinal? Que ela saísse com ele, ou que ela saísse correndo?
A confusão da atriz era tanta, que quase podia ver o ponto de interrogação se formando em sua cara.
— Meu Deus, você é péssimo nesse negócio de persuasão.
Ou era isso que ele queria que ela pensasse.
No entanto, o baterista estava certo. A atriz realmente não deveria sair com ele.
era um rockstar, conhecido por ser mulherengo, arrogante e por passar pelo menos oitenta por cento do tempo bêbado, além de outros excessos. Uma péssima influência.
era uma boa moça, famosa e tinha uma imagem de dar inveja à qualquer astro de Hollywood. Ela era com certeza a última pessoa que os paparazzis esperariam pegar por aí, numa balada com ; sem contar o fato de que também tinha um namorado.
Ok… não era bem um namorado. Na verdade, não era nem um pouco um namorado. Eles não eram exclusivos, nem nada do tipo — pelo menos ela não era. Mas, ainda assim…
Ah, merda. Quem é que ela queria enganar? Era apenas seu cérebro tentando inventar desculpas para fugir daquele encontro que, no fundo, sabia que queria ir.
O dilema da atriz era tanto, que até mesmo uma ruguinha adorável havia se formado em sua testa, o que não passou despercebido pelos olhos clínicos do baterista.
E então ela suspirou.
— Está bem, vai… eu saio com você. — disse num tom entediado, como se aquilo fosse a pior sacrifício que já tivera que fazer. — Mas só para beber e conversar. Nada de acabar a noite na cama ou qualquer outra ilusão erótica que você possa ter.
— Você tem certeza? — perguntou apenas para provocá-la, enquanto apagava a bituca de cigarro no cimento.
— Não. Então cala a boca e vamos logo, antes que eu mude de ideia. — Ela respondeu já se virando para descer do parapeito e fez o mesmo.
O Libertine era um bar burlesco que ficava em West Hollywood, convenientemente perto da casa de e era frequentado por apenas dois tipos de pessoas: a) celebridades; b) pessoas ricas e egocêntricas demais para se permitirem importunar o tipo “a”; o que significava que dois dos nomes mais influentes do momento poderiam passar a noite tranquilamente, sem serem assediados por um bando de fãs.
O lugar era decorado numa temática cabaré, com as paredes todas cobertas por uma espécie de cortina vermelha, a iluminação era fraca e o lugar era ocupado por mesinhas altas além de sofás de couro que apontavam para um palco, onde homens e mulheres vestidos à caráter dançavam sensualmente ao som de uma batida quase erótica.
— Você me trouxe para uma casa de strip? Sério? — questionou tentando esconder o fato de que estava encantada com o que via.
Todos ali pareciam estar envolvidos demais pela aura burlesca do ambiente, bebendo e se divertindo… ninguém havia sequer notado a presença dos dois ali.
Mas a atriz não fazia muito o tipo festeira e, mesmo maravilhada, não conseguia deixar de sentir-se intimidada pela libertinagem do lugar.
— Não é uma casa de strip, é um bar temático. — revirou os olhos enquanto caminhava até um sofá baixo de couro branco que ficava logo na frente do palco. Algo no comportamento do baterista indicava que estava mais que familiarizado com o ambiente. — Além do mais, esse é um dos únicos lugares em Hollywood que uma celebridade pode curtir a noite em paz.
Paz. gostava disso.
Assim, ela se deu por vencida e se jogou no sofá, logo se esticando para alcançar o cardápio de bebidas que descansava na mesinha bem à frente deles.
Assim que uma garçonete, também vestida a caráter, passou ao lado deles, logo tratou de pedir um Martini, enquanto pediu uma dose de uísque com gelo.
— Você vem muito aqui? — Ela perguntou, cruzando as pernas e se encostando confortavelmente no sofá, mais tentando puxar assunto do que qualquer outra coisa.
estava estranhamente quieto, e ela achava difícil confiar em pessoas quietas.
— Quando eu estou aqui em L.A. sim. É perto da minha casa e, como eu disse, um dos poucos lugares na cidade onde ninguém me enche o saco.
Não demorou muito para a garçonete voltar com o pedido deles. agradeceu a mulher com um sorrisinho e, assim que pegou sua taça, deu um longo gole na bebida.
— Pensei que você conhecesse esse lugar. — disse enquanto fazia o mesmo com seu uísque. — Quase todas as celebridades que eu conheço frequentam aqui.
— Não faz muito meu estilo.
— O que? O tema cabaré ou…
— Bares em geral. — o interrompeu. — Não faço muito o tipo festeira.
Ao dizer aquelas palavras, a atriz pode perceber uma mistura de reações no rosto do baterista. Primeiro ele franziu o cenho, tentando decidir se acreditava naquilo ou não; e depois abriu um sorriso malicioso, como se, de repente, ela tivesse ficado ainda mais interessante.
— Jura? — deu mais um gole de sua bebida. Ela apenas assentiu. — Por quê? Tem medo que isso estrague sua imagem de princesinha de Hollywood?
soltou uma risada sem humor. Aquelas palavras estavam tão certas e ao mesmo tempo erradas que era até mesmo difícil de explicar.
O baterista, percebendo que havia tocado em um ponto delicado, analisou com cuidado as reações da atriz.
O fato é que ninguém é do jeito que é por nada. Todos temos motivos, traumas e explicações por trás de nossos comportamentos, por mais terríveis que pudessem ser. não era uma exceção disso, e muito menos .
Mas, assim como não fazia o tipo festeira, ela também não era daquelas que costumam demonstrar fraquezas. Por isso, deu um longo gole em seu martini e abriu um sorriso gélido.
— Também. Além de pais extremamente exigentes e protetores que não me deixavam sair de casa até eu fazer dezoito anos.
assentiu como se entendesse o que ela queria dizer. Não teve pais exigentes que não o deixavam sair de casa. Não mesmo. Mas, assim como a atriz, tinha muito de seus pais, ou melhor, seu pai, na maneira como se comportava.
No entanto, ao contrário dela, não estava nem um pouco disposto a falar sobre isso.
— E o que aconteceu? Depois que você fez dezoito anos eles simplesmente te deixaram em paz?
— Ah, não mesmo. — riu como se aquilo fosse a coisa mais engraçada que já escutara. Ela teria ficado quieta, se não fosse pelo olhar inquisitivo do baterista. — Eu tive que despedir eles para isso acontecer.
— O quê? — realmente não entendeu uma palavra do que ela dissera. — Você demitiu seus pais de serem seus pais?
riu.
— Não, tonto. Eles eram meus agentes, cuidavam da minha carreira. Na verdade, era tudo minha mãe, meu pai só concordava com qualquer coisa que ela fazia. — Ela começou a explicar e ele abriu a boca, como se estivesse entendendo. — Ela gerenciava meus projetos, cuidava da minha imagem… nem mesmo deixava eu sair, com medo de que eu fizesse alguma coisa que estragasse minha carreira que só estava começando. Eu ia de casa para os estúdios, dos estúdios para casa…
— Você não frequentou a escola?
Ela balançou a cabeça em negação.
— Fui educada em casa, com os melhores professores particular que o dinheiro é capaz de pagar! — Disse numa pompa teatral que fez com que desse risada.
— E então você mandou eles embora…
— Claro. Não podia passar minha vida toda sendo controlada pela sociopata da minha mãe.
deu um último gole na sua bebida e quando viu que também já acabava a sua, chamou o primeiro garçom que viu.
— O que você vai querer?
abanou a mão como quem recusa algo.
— É melhor eu parar por aqui. Senão daqui a pouco eu vou estar ali no palco tirando a minha roupa. — Ela brincou, ainda que séria, apontando para os dançarinos que ainda dançavam de maneira sensual.
quis sorrir malicioso ao pensar na possibilidade. Mas, invés disso, apenas revirou os olhos fingindo estar bravo.
— Não acredito que você se livrou da sua mãe fazem, o quê…?
— Cinco anos.
— Você se livrou da sua mãe fazem cinco anos só para continuar agindo como se ela controlasse sua vida?
arregalou os olhos diante daquele pequeno “sermão” inesperado. Ele estava certo, no final das contas.
— Alguns hábitos são difíceis de largar. — Ela respondeu seca, finalmente finalizando sua bebida.
Ao perceber que o garçom ainda esperava, apenas assistindo maravilhado, aquela mini discussão entre celebridades, virou-se para ele.
— Me vê mais um uísque com uma pedra de gelo. — E então a encarou com um sorriso malandro. — E ela vai querer mais um martini.
! — repreendeu.
— Ah qual é, ? — Ele revirou os olhos. — Você está saindo com ninguém menos do que com o cara com a maior fama de festeiro e alcoólatra de toda indústria! Você achou mesmo que ia conseguir sobreviver a essa noite ficando sóbria?
Apesar de ser uma forma muitíssimo exagerada de enxergar o baterista da The Knickers, não fazia questão de desmentir sua fama, por achar que fazia bem, trazendo um certo estilo para sua imagem de rockstar-bad-boy-de-dois-mil-e-vinte-mas-que-poderia-muito-bem-ser-dos-anos-oitenta. Ele não bebia mais do que nenhuma outra figura problemática da indústria, o que com certeza incluía seus companheiros de banda. Mas estava tudo bem, porque eles eram astros do rock, no final das contas… Quanto mais bad boy melhor — apesar do empresário maluco da The Knickers não concordar com isso, estando sempre fazendo o possível e o impossível para melhorar a imagem catastrófica que a mídia havia pintado da banda.
, então, apenas suspirou, se dando por vencida.
Ah, quem ela queria enganar afinal?
Faziam anos que ela tentava se livrar dos traumas e paranoias que Valerie , sua mãe, havia enfiado em sua cabeça. E nunca conseguia.
A atriz passara tanto tempo trancada dentro de casa que até contratar Kelsey como sua nova agente, nunca tivera uma melhor amiga para tentar mostrar a ela o lado bom e leve da vida.
Kelsey frequentemente sentia-se mal pela atriz, mas não podia fazer muito por ela já que, antes de tudo, tinha como obrigação cuidar da carreira e imagem de . Às vezes, tudo que ela queria era enfiar a loira no vestido mais sexy de seu closet milionário e arrastá-la para uma balada onde poderiam beber, conhecer pessoas e, o mais importante: cometer erros, que era perfeitamente normal e necessário para uma garota de vinte e três anos. Mas simplesmente não podia e, assim, mesmo que indiretamente, acabava alimentando as loucuras da amiga e sentia-se péssima por isso.
Então, ali estava . Bêbado, tentadoramente bonito e se oferecendo de bom grado para apresentar à o lado bom da vida. A princípio, ela tentou manter-se firme, mas até mesmo a mais disciplinada das atrizes tinha um ponto de ruptura. E o sorriso irresistível do baterista não estava exatamente a ajudando a ir contra suas vontades.
Mas que se dane! Afinal, uma só noite não pode ser tão errado assim…
Um martini… dois martinis… três… quatro… e já não pensava mais com muita clareza.
Por trás de toda aquela fachada de princesinha de Hollywood, por mais que detestasse admitir, a atriz estava demonstrando ser mais divertida do que jamais pudera imaginar; além de, surpreendentemente, ter a incrível capacidade de liderar conversas mais inteligentes do que tivera com a maioria das pessoas em todos aqueles anos de fama. Durante todo aquele tempo, ele tinha até mesmo se esquecido de quão chata tinha a achado quando se conheceram.
, por sua vez, já estava claramente bêbada e falando coisas que certamente não discutiria sóbria, pelo menos não com o baterista problemático da The Knickers. Descobriu que subestimara astros do rock quando se demonstrou completamente diferente do que esperava, ao parecer interessado em discutir sobre a sujeira e os pontos negativos da indústria do entretenimento quando ela mencionou a diferença salarial entre ela e seus companheiros de cena.
Ambos já haviam perdido a conta de quantas bebidas tomaram naquela noite e, por alguns instantes, ficaram em silêncio, apenas jogados no sofá um do lado do outro, sem falar nada pela primeira vez desde que haviam engatado uma conversa.
, com os olhos fixos os dançarinos em sua frente, pegou-se impressionada quando uma delas fez um movimento particularmente interessante.
— Sabe… — Ela começou inclinando-se para frente apenas para observar o show com mais atenção. — eu também sei dançar.
ergueu as sobrancelhas e espelhou o movimento da atriz, como se, de repente, aquilo merecesse mais um pouquinho de sua atenção.
— Sério? Então por que você não sobe lá?
balançou a cabeça rindo, como se achasse aquilo um absurdo.
— Não. Eu só estou dizendo que isso que elas estão fazendo… — Ela apontou para um grupo de dançarinas que mexiam o corpo de uma forma extremamente sensual. — eu sei fazer também.
— Rá. Essa eu vou pagar para ver. — provocou, mesmo tendo certeza quase absoluta de que a atriz fazia o tipo que mais late do que morde. E apenas balançou a cabeça em negação. — Qual é, você sabe que é muito melhor do que qualquer uma delas.
— Poupe-me dessa competição feminina. — Ela riu revirando os olhos. — Eu sei o que você está querendo, .
— Ah, é? E o que eu estou querendo? — Ele se aproximou dela usando seu tom mais sedutor.
Afinal, ver dançar sensualmente em cima do palco de um bar é uma coisa que ele certamente pagaria para ver.
— Você acha que eu não tenho coragem? — Ela virou-se para ele.
soltou uma risadinha.
— Eu sei que você não tem.
Ela abriu a boca como se estivesse indignada e, num ímpeto de coragem, colocou-se de pé.
— Segura meu martini.
, com um sorriso idiota de quem não acredita no que vê e com o maior prazer do mundo, pegou a taça da mão de e logo a colocou sobre a mesinha, enquanto a encarava subir a pequena escada para o palco, com olhos vidrados.
Naquele momento, ela estava tentando não pensar muito sobre o que estava prestes a fazer. Minha nossa, como estava bêbada. Em hipótese alguma, faria aquilo estando em plena consciência, o que apenas tornava tudo aquilo infinitamente mais divertido.
Antes que a atriz pudesse fazer qualquer coisa, ele puxou de seu bolso duas notas de cem dólares e entregou para os primeiros dois garçons que passaram por ele.
— Não deixa ninguém filmar isso.
Um dos homens encarou-o confuso.
— Senhor, isso o que?
não respondeu. Apenas limitou-se a apontar para uma bêbada, e praticamente irreconhecível, caminhando a passos lentos até o centro do palco.
Os garçons apenas assentiram, dizendo que cuidariam disso.
E então ele se colocou de pé e voltou a encará-la, completamente sem palavras. Ela estava ainda mais sexy ali do que quando interpretara uma boxeadora no filme A Batalha da Fé, se é que isso era possível.
Naquele momento, não estava pensando em ninguém. Nem em sua reputação que poderia ser potencialmente destruída se imagens daquilo vazasse para a mídia; nem em , que a encarava embasbacado; ou em seu não quase namorado e muito menos em sua mãe, que terminaria de deserdá-la se visse o que ela estava fazendo. Ali, ela só pensava em si mesma e no quanto se sentia livre naquele momento.
Já no centro do palco, com a atenção do bar inteiro sobre si, ficou um pouco mais tranquila quando percebeu que ninguém tinha celulares na mão — graças ao grupo de garçons que gentilmente pediu para todos desligarem os aparelhos, sob a ameaça de expulsar aquele que gravasse o momento. E então, ela começou seu show.
Primeiro soltou a presilha que segurava para trás sua franja. Os fios loiros de seu cabelo caíram de forma quase artística sobre seu rosto, e os gritos de incentivo do público lhe arrancaram gargalhadas quando ela atirou a presilha em um ponto aleatório do bar.
Os dançarinos se alinharam no fundo do palco, como figurantes do grande show de . Todos sem acreditar que atriz estava mesmo ali, prestes a fazer um strip tease para todos aqueles meros mortais.
Depois disso, ela arrancou de seu pescoço o colar caríssimo de pérolas que usava e o jogou, tomando todo o cuidado do mundo para que ele acertasse e não uma pessoa qualquer que pudesse roubá-lo. Quando o colar lhe atingiu no rosto, o baterista apenas riu e balançou a cabeça, como se ainda estivesse sem acreditar no que via.
Por último e, sem mais delongas, ela abaixou lentamente o zíper de seu vestido que ficava na lateral do corpo, debaixo de seu braço esquerdo. Aberto por completo, a peça caiu graciosamente no chão e então lá estava , vestindo nada além de salto alto e uma lingerie; e, graças a Deus, o modelo que ela escolhera para aquele dia era um vestido, que não a deixaria tão exposta assim.
O público foi à loucura assim como , que, diferentemente da multidão, a encarava em completo silêncio, como se a atriz fosse a coisa mais bonita que ele já vira na vida.
gargalhava numa mistura de sentimentos: sentia-se eletrizada, dominada pela adrenalina de estar fazendo algo tão imprudente; além de levemente entorpecida por conta do nível alto de álcool em sua corrente sanguínea. Sentia-se estranha, mas ainda assim, mais viva do que se sentira em muito tempo.
Seu corpo balançava de maneira extremamente sensual, que contrastava com os sorrisos tímidos que lançava exclusivamente em direção de , que a olhava estático, com medo de piscar e perder um segundo sequer daquele show. Naquele momento, era como uma antítese deliciosa entre a aparência de um anjo e os movimentos cheios de luxúria de uma mulher digna do inferno.
Mais uma vez, o público foi à loucura quando a atriz lhe virou as costas com os braços para o alto. correu uma das mãos por toda a extensão de seu braço até chegar em seu ombro, de onde tirou os cabelos, dando às pessoas uma bela visão de seu pescoço nu. Em seguida, por cima dos ombros, ela encarou cheia de malícia um certo baterista, levando-o à loucura. As outras pessoas presentes ali no palco poderiam muito bem estar completamente sem roupas que não iria notar.
O que ela estava fazendo? parecia mais estar colocando um tipo maluco de encantamento sobre ele do que uma simples dança sensual, de tão vidrado que estava naquele momento.
A atriz continuou com os movimentos por bons minutos, que certamente não foi o suficiente para o público que queria ver mais daquela versão levada de . , por sua vez, também não se importaria nem um pouco se a garota mantivesse aquele lado pelo resto da noite.
Quando a música chegou ao fim todos aplaudiram, e , sentindo-se tímida demais comparado à instantes antes, apenas agradeceu e apanhou seu vestindo enquanto ria, ainda inebriada por todas aquelas sensações. A atriz desceu do palco e correu em direção de , que a encarava, sem palavras, com o olhar mais profundo que ela já havia visto.
— O quê? Você só vai ficar aí parado, me encarando de boca aberta? — Ela perguntou sorrindo com um ar debochado.
— Sim.
— Então para, porque você já está começando a parecer um idiota.
O baterista engoliu em seco e balançou a cabeça, tentando se livrar do transe em que havia o colocado. E disse:
— O que você acha de a gente sair daqui?

Definitivamente dirigir com aquela quantidade de álcool na corrente sanguínea não era uma boa ideia. Mas, para , era apenas mais uma coisa cotidiana.
O baterista dirigia sua Lamborghini roxa — também conhecida como seu carro preferido da coleção que tinha em sua garagem — e ocupava o banco do passageiro. Enquanto as ruas de West Hollywood se passavam pela janela, os dois riam ainda sem acreditar no que a atriz tinha feito.
– Eu deveria ter deixado aquelas pessoas gravarem… ninguém vai acreditar em mim quando eu disser que a princesinha de Hollywood realmente fez um show de strip para um bar inteiro! — disse entre risadas.
– A de algumas horas atrás também não acreditaria. — Ela respondeu também rindo até que, aos poucos, ambos ficaram em silêncio. — Obrigada por ter me feito fazer isso, de verdade. Se você não tivesse dirigindo, eu te beijaria agora mesmo.
Ah o álcool e seu poder incrível de eliminar todo o bom senso de uma boa garota.
O timing havia sido perfeito porque, assim que dissera aquelas palavras, parou bruscamente em frente de sua casa. Não tinha tempo de se preocupar em colocar o carro na garagem quando a estrela de A Batalha da Fé estava pensando em beijá-lo.
– Não estou mais dirigindo. — Ele se virou para ela usando um tom grave, que apenas deixaria muito claro seu desejo caso a atriz não estivesse tão fora de si.
Mas isso não a impediu de voar para cima dele e começar a beijá-lo.
Como quem já esperava por isso, apenas soltou um sorrisinho malicioso e agarrou a garota pela nuca, beijando-a de volta.
Estava ali a primeira e — aparentemente a única — expectativa de em relação a astros do rock que se confirmava: brutalidade. Beijar era exatamente como se esperava beijar alguém que vive de tocar músicas agressivas e bater violentamente em caixas para fazer um som. Feroz, intenso e estonteante. A violência com que ele agarrava os fios de sua nuca fez com que se perguntasse como seria o sexo.
Menininha de imaginação fértil.
Mas o beijo não durou por muito tempo. Quase tão rápido quanto eles se aproximaram, se afastou abruptamente, mantendo o contato visual enquanto desligava o carro.
Ela não pode enxergar direito devido à escuridão, mas sentiu como se o baterista a encarasse de maneira tão profunda, que provavelmente estaria a enxergando sem roupas naquele momento.
Ele saiu do carro, e , ainda tonta pelo acontecimento e pelo álcool em seu organismo, demorou alguns segundos até fazer o mesmo. No momento em que se colocou de pé e a brisa quente de uma noite de junho atingiu-lhe o rosto, ela sentiu tudo girar. E então respirou fundo e apenas seguiu o baterista até o lado de dentro de sua casa.
Assim que a porta se fechou atrás de si, sentiu as mãos firmes de puxá-la pela cintura, logo jogando-a violentamente contra a parede. Pressionou seu corpo contra o dela ao mesmo tempo em que sua boca desceu para o pescoço da atriz. Ali ele passou a língua devagar, fazendo movimentos circulares que foram o suficiente para arrancar um gemido baixinho da boca de , além da ereção do bateristaconstantemente roçando contra seu corpo. Ela sentiu cada centímetro do corpo de e pensou que fosse derreter, enquanto seus dedos bagunçavam sem piedade os fios de cabelo dele.
Quando as mãos ágeis de agarraram as coxas de , ela correspondeu o comando prontamente, pulando para poder abraçá-lo com suas pernas. E então o beijou mais uma vez, de forma tão vivaz e ardente quanto a primeira.
Era em momentos como aquele em que ele agradecia a gravadora por obrigá-los a se exercitar corretamente — com uma ideia estúpida de que se eles mantivessem a boa forma, mais pessoas comprariam os discos da The Knickers — , por isso, tinha força o suficiente para sustentar com seu próprio corpo enquanto podia passar a mão livremente por cada centímetro dela. E minha nossa, ele não fazia ideia que uma garota como ela poderia beijar assim. Horas antes, tinha a mais absoluta certeza de que era completamente virgem. Insuportável, mesquinha e completamente virgem.
Ele não poderia estar mais errado. E, pela primeira vez em sua vida, sentiu-se feliz por isso.
só foi quebrar o beijo quando seu pulmão debilitado de fumante gritou pedindo por ar. Ele mordeu sem piedade o lábio inferior de e já ia descendo a boca de volta para o pescoço dela, quando ela soltou:
… — Soou baixinho, quase como um sussurro. — Eu…
Ah, merda… seria naquele momento em que ela admitiria que era virgem?
– O que foi? — Aborrecido, finalmente olhou para ela. — Você está verde, porra! Por que você está verde?
não respondeu, apertou os lábios e levou a mão até a boca com os olhos arregalados. a soltou como se, de repente, ela fosse composta de lixo radioativo e apenas esperou alguma coisa acontecer.
Ah, e aconteceu. Poucos segundos depois, precipitou seu corpo para frente e, fazendo um barulho extremamente nojento, vomitou nas botas de combate de .

*****

Ele não conseguiu dormir.
Depois que vomitou tudo que tinha comido durante o dia, sua bile e algo que podia ter certeza de que se tratava de uma parte de seu estômago; em sua bota, na sala de sua casa e depois no lavabo, ela apagou ainda abraçada à privada.
Maldito momento em que incentivara a garota a beber seu segundo drink.
Quando percebeu que não acordaria tão cedo, ele a pegou no colo e, tentando ser mais delicado o possível, deitou-a na cama do quarto de visitas.
Ou melhor, jogou-a na cama do quarto de visitas; afinal, delicadeza nunca fora o seu forte.
A primeira coisa que fez depois disso foi tirar suas botas sujas de vômito de estrela de Hollywood e em seguida ficou apenas encarando, estático, toda sujeira que ela tinha feito em sua sala.
O que ele deveria fazer com aquilo?
Já se passavam das três da manhã e Berta, a imigrante polonesa que havia contratado como governanta de sua casa, já dormia há tempos na casinha de dois cômodos destinada a ela no fundo da mansão. Ele não iria acordá-la apenas para isso. Então o baterista se lembrou dos tempos sombrios antes de juntar-se a banda, quando era apenas um garoto rebelde do interior de Idaho, obrigado a fazer as tarefas de casa, enquanto seu pai negligente passava todo seu tempo com a bunda sentada na cadeira de aço de um bar. Ele cuidava de tudo, desde da limpeza dos banheiros, até da cozinha.
Talvez fosse por isso que, hoje em dia, ele tinha uma pessoa diferente para cada função doméstica.
Podia estar enferrujado mas… caso se esforçasse, ainda conseguiria passar um pano na casa, certo? Certo.
E foi com isso em mente que calçou um chinelo, dobrou a barra das calças e, com uma bandana amarrada na cara numa tentativa bem sucedida de evitar sentir o mau cheiro, saiu atrás de um rodo para limpar logo aquela merda, ou melhor, vômito. Ele nem sequer sabia onde ficavam guardados os produtos de limpeza daquela casa.
Demorou. Demorou demais, mas, no fim, até que conseguiu deixar sua casa limpa novamente, ou quase… pelo menos o cheiro de vômito havia ido embora e, disso, ele estava muitíssimo orgulhoso.
Quem diria que limpar uma mansão poderia ser tão mais difícil que limpar uma casinha do tamanho de um só quarto? Porque não fazia ideia.
Depois disso, ele tomou um banho muito bem tomado, querendo desesperadamente tirar de si todo o resquício de vômito que nem sequer sabia se existia. Após sair do chuveiro vestiu apenas uma calça de moletom e quando se deu conta, já se passavam das cinco da manhã.
Mas que ótimo… Era inacreditável pensar que ele passara mais de duas horas limpando vômito de ninguém menos que , enquanto o máximo que havia conseguido dela fora um beijo.
Dizer que aquela noite não havia saído como o planejado seria o eufemismo do século.
tentou dormir. Podia jurar de joelhos que tentou. Mas enquanto rolava na cama não conseguia deixar de imaginar se ainda estava viva. Afinal, desde que a jogara no quarto de visitas completamente inconsciente, ele saira para limpar a casa e não havia voltado para checar se estava bem.
Se odiando por ser simplesmente um cara tão legal, bufou e se colocou de pé, atravessando o corredor de quartos de sua casa até chegar naquele em que dormia.
Ele até daria risada se aquela situação toda não tivesse o deixado tão mal humorado. A atriz estava completamente apagada, exatamente na posição desconfortável em que caiu quando a jogou na cama. Ela dormia de boca aberta e por isso, um pouco de baba escorria por seu queixo; e seus cabelos, antes perfeitamente arrumados, estavam tão bagunçados que formavam um ninho no topo de sua cabeça. A maquiagem borrada por todo seu rosto apenas complementava seu visual pós apocalíptico.
É, definitivamente não se parecia nada com a atriz de O Conto do Duque de Windsor. se escorou na cômoda do quarto, apenas a observando por um instante. respirava de uma forma engraçada, quase como um ronco, que o deixou preocupado. Não seria nem um pouco agradável se aquela garota simplesmente parasse de respirar e morresse em sua casa.
Por isso decidiu que ficaria ali, caso alguma coisa acontecesse. Puta merda, quando é que ele teria se tornado babá de atrizes nojentinhas que não sabem beber? Jeffrey pagaria muito, muito caro por ter o obrigado a fazer aquilo.
Ele perdeu a noção de quanto tempo ficou ali, apenas se certificando de que continuava viva. Ficava batucando uma melodia qualquer na cômoda, balançava a perna, andava para lá e para cá… estava inquieto, irritado e apenas queria acabar logo com aquilo. Então foi quando percebeu um filete dourado escapando por um vão na cortina do quarto, que decidiu que já esperara demais.
Querendo evitar o máximo de contato possível com a atriz, apenas apanhou um livro grosso que descansava na cômoda com propósitos exclusivamente decorativos, é claro, e o soltou, permitindo que ele caísse no chão fazendo um baque alto o suficiente para que acordasse num pulo.
Ela se colocou sentada rápido demais e imediatamente se arrependeu daquilo. Sua cabeça doía como se tivesse sido pisoteada por uma manada de elefantes raivosos, sua boca tinha um gosto amargo esquisito e seu corpo inteiro doía.
olhou em volta e, por um segundo, ficou desesperada por não fazer ideia de onde estava; até que seus olhos encontraram um certo baterista sem camisa a encarando com um sorriso sarcástico estampado no rosto.
– Bom dia raio de sol. — Apesar das palavras, o tom de não era nada amigável. Ela pensou por um tempo, tentando se lembrar do que aconteceu, até que flashes da noite passada inundaram sua mente: ela bebendo no bar, rindo de alguma coisa que dissera; os dois se beijando no carro em frente à sua casa… e é claro, o inesquecível momento em que ela decidira fazer strip tease para um baterista de quem nem sequer gostava e pelo menos mais cem desconhecidos.
Minha nossa… O constrangimento parecia até mesmo um órgão de tão forte dentro si.
Que merda ela tinha feito?
A cara de choque de estava impagável. Se tivesse com seu celular ali, certamente tiraria uma foto para poder usar contra a atriz no futuro.
– É o seguinte, Barbie Hollywood, vamos resolver isso da forma mais clara e direta possível… — começou e aquelas palavras pareceram apertar um botão na mente de , que no mesmo momento endireitou a postura e mudou seu rosto para a expressão de superioridade de sempre. — Você não fala nada sobre o pequeno contratempo que tivemos no estúdio ontem e eu vou te fazer o grande favor de não espalhar por aí o quão incrivelmente sexy você ficou fazendo strip tease para um bar inteiro, e que ainda vomitou em todos os cômodos possíveis da minha casa.
engoliu em seco, apenas processando aquelas palavras enquanto tentava esconder a humilhação que sentia. E inteligente do jeito que era, a atriz não precisou de muito tempo para ligar os pontos.
– Então foi por isso que você me chamou para sair ontem? Para tentar me chantagear e me impedir de acabar com sua brincadeirinha de sétima série de querer ser rockstar? — Ela questionou e apenas assentiu, fingindo não ter escutado a provocação no final da frase. — Eu tenho que admitir, … eu subestimei você.
O tom de era frio feito gelo.
Se estava esperando pegá-la lenta e vulnerável, ele não a conhecia nem um pouco.
– Você realmente pensou que podia simplesmente me foder daquele jeito e que ficaria tudo bem? Pense de novo, . Se você ficar com a boquinha fechada eu te garanto que ninguém vai descobrir que você é, na verdade, uma menina muito levada e nem… — fez suspense.
E engoliu em seco.
– Nem o que, ? Fala logo que eu não estou com paciência. Ele abriu um sorriso malandro.
– Nem que a duquesa está trepando com o criado.
não precisou dizer mais nada, entendeu imediatamente a referência.
No filme O Conto do Duque de Windsor, a atriz interpretara uma aristocrata, uma duquesa enquanto seu tal não namorado, fizera o papel secundário de um criado. Foi assim que os dois se conheceram.
Mas tinha um probleminha: ninguém sabia disso. E tinha mais que absoluta
certeza de que não deixaria isso escapar nem mesmo sob tortura, quem dirá com um pouquinho de álcool no sangue — ou muito.
– Do que você está falando? — É claro que ela se fez de desentendida.
Era apenas a estratégia milenar daquele que precisa de um pouco mais de tempo para raciocinar.
E , ainda sorrindo daquele jeito que achou insuportável, como quem dá a última cartada, sacou do bolso de sua calça de moletom um celular que a atriz logo reconheceu como seu.
– Que porra é essa? Quando foi que você pegou meu celular? — Ela se colocou de pé num pulo.
Pronto. A brincadeira havia acabado.
E o mais engraçado é que para , ela só estava começando. Ele fingiu pensar por um instante.
– Hmm… foi provavelmente em algum momento entre a parte em que você dormiu abraçada na minha privada e quando eu te coloquei gentilmente na cama.
soltou uma risada sem humor, esbanjando sarcasmo.
– Você se acha muito esperto, não é mesmo?
– Muito esperto? Não. — forçou um sorriso. — Só mais esperto que você.
– Meu celular tem senha. Como é que você conseguiu desbloquear?
– Eu tenho os meus jeitos.
– Ah, você tem seus jeitos? — repetiu sarcástica, como quem não acredita no que ouve.
– Sim, tenho meus jeitos.
Então, sem um pingo de paciência e com raiva o suficiente para motivar um batalhão, a atriz andou até a passos pesados e simplesmente arrancou seu celular da mão dele, que foi pego de surpresa.
– Você vai se arrepender disso.
– Vou, é? — Rebateu debochado.
– Vai. Se vazar alguma coisa que você viu ontem ou no meu celular…
– Relaxa, princesa. — revirou os olhos. — É só você manter sua parte do acordo que eu mantenho a minha. Sou um homem de palavra.
– É bom ser mesmo. Porque senão, eu juro por Deus, eu vou até o inferno se precisar, mas eu acabo com você. — E dito isso, a atriz saiu dali.
apenas gritou um “até mais tarde, princesa” debochado, mas ela já estava longe demais para escutar.
Nervosa, tremendo e louca para chorar de raiva, discou rapidamente o número de Kelsey que já sabia decor. Só queria ir para casa, tomar um belo de um banho de banheira para desestressar, tomando uma taça de vinho enquanto escutava Ed Sheeran. Ela não podia desabar ali. Pelo menos, não enquanto a própria personificação do diabo ainda podia vê-la se colocasse a cabeça para fora da janela.
Depois de uns bons minutos, que mais se pareceram horas, enxergou a BMW de Kelsey estacionar bem na frente do portão de ferro da mansão de .
Como quem acaba de voltar de um velório, a atriz entrou no carro de braços cruzados, de cara feia e num silêncio mortal.
– Minha nossa, o que aconteceu com você?
-Não quero falar sobre isso.
Kelsey nem sequer se deu o trabalho de pressionar. Conhecia a amiga o suficiente para saber que ela não aguentaria ficar quieta por muito tempo. E, para variar, estava certa. Não demorou muito para que começasse a fungar baixinho, como quem quer chorar.
– Eu vou matar aquele filho da puta desgraçado! Quem ele pensa que é? — Ela disse, ou melhor, gritou e desabou quase no mesmo instante.
Entre soluços, fungadas e palavrões, contou tudo que havia acontecido nas últimas 12 horas, desde o momento em que invadira seu camarim atracado à uma assistente de produção, até o tempo presente.
Kelsey escutou tudo em silêncio e continuou assim até depois que terminou de falar. A atriz, achando isso muito estranho, virou-se para ela.
– Kelsey Schofield! — Gritou assim que percebeu que sua agente fazia uma força sobrenatural para não explodir em risadas.
– Desculpa, desculpa! — Ela abanou com uma das mãos, finalmente se permitindo rir.
– É que… cara, isso deve estar te deixando louca, não está? – arqueou as sobrancelhas.
– O quê? O fato de que ele me manipulou, me embebedou só pra conseguir arrancar alguma coisa de mim e ainda invadiu meu celular sabe lá Deus como? Pode apostar que sim!
– Não, quer dizer, também…
– Do que infernos você está falando?
– Você finalmente encontrou alguém pior que você! — Kelsey disse com a empolgação de quem dá uma ótima notícia. — Cara, eu espero isso há tanto tempo!
Para qualquer outra pessoa aquilo soaria como um insulto, no entanto, tinha total consciência de que era ruim, até mesmo gostava disso; e escutar que alguém poderia ser ainda pior era no mínimo ultrajante.
– Você é uma puta de uma traidora, isso sim! — cruzou os braços, emburrada.
– Porra nenhuma que aquele rockstar de merda é pior que eu, isso não acabou.
… — Kelsey começou num tom de repreensão.
é o caralho! Kelse, ele sabe de coisa o suficiente para acabar cinco vezes com a minha imagem, isso é muito sério! — ficou em silêncio por alguns segundos, só para depois voltar a falar. — Você me conhece, quando eu deixar alguém pisar em mim desse jeito sem fazer nada, pode me internar, porque eu fiquei louca. Rá, até parece que eu vou deixar um homem ganhar de mim assim.
Kelsey balançou a cabeça em negação. Sabia que era inútil tentar argumentar com , ainda mais quando ela estava com tanta raiva.
Beverly Hills, além de ser um ponto turístico praticamente obrigatório para aqueles que viajam para Los Angeles, também era a casa de diversas celebridades, e era uma delas.
Ela não trocaria por nada nesse mundo todo o conforto e glamour do lugar, além da segurança, paz e a proximidade da Rodeo Drive — o lugar preferido da atriz de fazer compras —, que era um bônus enorme.
Kelsey abriu o portão preto de ferro com um controle remoto, revelando a luxuosa casa branca em estilo chateau. Ao contrário das outras residências de Beverly Hills, a casa da atriz não era uma mansão com dezenas de quartos e mais duas dezenas de banheiros. Não, tinha apenas o número necessário de metros quadrados para ela viver com seus cachorros com conforto e muita elegância; e ainda poder receber ocasionalmente algumas visitas, que oitenta por cento do tempo era apenas Kelsey.
nunca sentira-se tão feliz por estar em casa.
A primeira coisa que ela fez foi chutar os saltos Valentino para baixo do aparador de mármore branco, logo em frente da porta de entrada e mal teve tempo de respirar fundo antes de ser atacada por duas bolas de pelo, uma grande e uma pequena.
– Eu sei, eu sei, meus amores… — se desvencilhou delicadamente das patas amorosas do Golden Retriever que a abraçava pelo pescoço, enquanto tentava não pisar na sua cocker spaniel. Eles foram meticulosamente nomeados em homenagem ao seus personagens preferidos da série Friends, Joey e Rachel. — A mamãe ficou muito tempo fora de casa e está horrível, mas não se preocupem… eu vou tomar um banho de banheira e vou estar novinha em folha para acabar com o filho da puta que me deixou assim.
Kelsey passou por eles dando risada. Era sempre engraçado ver como a ilustre e polida se tornava uma babona quando se tratava de seus cachorros.
– Pedi para o Jimmy vir te buscar antes da uma e meia porque Kyle pediu para você chegar no estúdio às duas horas para vocês repassarem as falas. — Kelsey disse colocando a chave de seu carro em cima do aparador.
– Quem? — perguntou ainda abaixada, acariciando seus cachorros. Kelsey bufou.
– Kyle Spencer… o vocalista da banda do clipe que você vai estrelar?
– Ah. — A atriz colocou-se de pé, ignorando o mau humor de sua agente-assistente-amiga. — Mas eu pensei que cada um tivesse, sei lá, no máximo dez falas.
– Eles são músicos, , não atores.
– Graças a Deus. — Foi a única coisa que ela respondeu antes de subir para seu quarto enquanto gritava, pedindo para Rose, sua funcionária, preparar seu banho.
Silêncio era a única coisa que podia-se ouvir antes de ligar sua aparelhagem de som que fez a voz de Ed Sheeran soar por todo seu banheiro. A melodia suave de Kiss Me tocou deliciosamente no momento em que seu pé entrou em contato com a água morna.
Sem mais delongas, entrou completamente na banheira e soltou um suspiro sentindo seus músculos relaxarem quase instantaneamente. Ao lado dela, uma taça de seu vinho Malbec preferido era sua única companhia em momentos como aquele.
Só assim conseguia relaxar.
Mas seu sossego não durou por muito tempo. Logo quando os primeiros acordes de The A Team tocaram para o deleite da atriz, seu celular começou a apitar loucamente, anunciando a chegada de pelo menos quinze mensagens que cumpriram o fácil papel de acabar com sua paz, além do resquício de paciência.
Antes que ela pudesse esticar-se para fora da banheira, numa tentativa de alcançar seu aparelho, ele começou a vibrar, anunciando a chegada de uma ligação.
Era Kelsey.
– Saiba que você está atrapalhando meu momento sagrado e é bom você ter um ótimo motivo para isso.
– Para um momento seu ser sagrado, você precisaria ser uma deusa e nós duas sabemos que você está muito mais para o diabo, meu anjo. — A voz de Kelsey se fez presente do outro lado da linha, arrancando um risinho de .
Era verdade.
– O que foi?
– Faça o favor de olhar as mensagens que eu te mandei.
colocou a ligação no viva-voz para poder escutar sua amiga enquanto fazia o que ela mandava e abriu o aplicativo do iMessage. O que viu ali trouxe de volta seu ânimo de uma forma que nem mesmo horas de banho de banheira ou um show particular do Ed Sheeran seria capaz de fazer.
– Onde você achou isso?
– No instagram da . Parece que ela deu uma festa na piscina ontem de tarde
– Kelsey, você é perfeita, sem defeitos e é a melhor amiga, agente e assistente que eu poderia ter! — E dito isso, desligou.
O conteúdo das mensagens de Kelsey não era nada menos que fotos de uma angel da Victoria’s Secret, Hill, em sua festa na piscina. Na foto ela estava — usando um biquíni que a atriz achou simplesmente horroroso — cercada de outros famosos, modelos em sua maioria.
Mas não era essa a questão.
Seja lá quem captou aquele momento, só podia ser um enviado de Deus para trazer à a revelação necessária para ter sua vingança. Porque, no fundo, logo atrás de e sua trupe, desleixadamente circulado em vermelho por Kelsey, estava uma
atriz em ascensão que fazia parte do elenco de Triple Justice e que destinava metade de seu tempo a puxar o saco de . Seu nome era Madison e era reconhecida no set por fofocar demais e pensar de menos. E o mais interessante disso tudo era: como quem não sabe que está sendo fotografada, Madison tinha um sorriso idiota estampado no rosto e em sua cintura, as mãos grandes de um certo baterista que parecia flertar descaradamente com ela.
reviu aquelas fotos pelo menos mais uma cinco vezes só para certificar-se de que eram mesmo verdadeiras e, então, soltou um sorriso diabólico.
Era impressionante como no final das contas, tudo acabava conspirando ao seu favor. Não importa o que acontecesse, sempre ganhava; e estava prestes a descobrir isso.

A vida é bela.
Ou pelo menos era isso que pensava ao entrar saltitante no estúdio de gravações do clipe de Red Light. Com um sorriso enorme no rosto, ela cumprimentou toda a equipe, apertou a mão de Martin Scorsese e já estava a caminho de seu camarim quando cruzou com os membros da The Knickers, envolvidos numa nuvem de fumaça vinda de seus cigarros enquanto conversavam jogados num sofá.
— Boa tarde, princesa. — Era claro que seria o primeiro a se pronunciar, a cumprimentando completamente irônico.
Ali, parecia praticamente outra pessoa em relação àquela que ele vira de manhã, com o cabelo perfeitamente arrumado, maquiagem no lugar, roupas impecáveis, além de livre de qualquer resquício de vômito em sua vestimenta.
não sabia muito bem o que esperar ao encontrar com a atriz naquela tarde, no entanto, certamente não pensou que ela estaria tão disposta e radiante. Uma ressaca dos infernos era o mínimo que se espera de uma pessoa que tomou seu primeiro porre.
Mas não, parecia melhor do que nunca, com sua típica postura de quem não se abala por nada. O sentimento de vingança opera maravilhas no humor de uma mulher.
— Boa tarde meninos. — Ela se virou primeiro para os outros membros da The Knickers que pareceram confusos. Não se lembravam da atriz ser tão agradável no dia anterior. — … espero que você tenha tido pelo menos a decência de aparecer sóbrio hoje, sem ter cheirado pó o suficiente para deixar Los Angeles inteira chapada. — E dito isso, girou nos calcanhares e saiu andando até entrar no seu camarim.
Os garotos se entreolharam sem entender nada.
— Que porra foi essa? — Kyle perguntou confuso, dando uma tragada em seu cigarro.
, ainda não tendo contado para eles tudo que acontecera entre ele e a atriz, apenas murmurou um “explico depois”, apagou seu cigarro no cinzeiro e saiu atrás de para tirar aquilo a limpo.
— Que porra foi essa? — Ele entrou no camarim sem cerimônia alguma, encontrando a atriz sentada no sofá, completamente ereta como se posasse para um artista lhe pintar um retrato. As pernas cruzadas revelavam um bronzeado que não notara na noite anterior.
Claramente ela já esperava por ele.
— Você por acaso tem algum problema contra bater antes de entrar?
— Aparentemente. — respondeu simplesmente se escorando na bancada de maquiagens, cruzando os braços. — E você, tem alguma coisa contra responder minha pergunta?
— Sabe, … — Ela o ignorou completamente, numa tentativa de deixar claro desde o começo que ele não estava no controle ali. — eu queria te agradecer pela noite de ontem.
arqueou as sobrancelhas e se remexeu claramente desconfortável.
— Queria, é?
— Sim. — abriu um sorriso dissimulado. — Acho que ela trouxe lições importantes para nós dois.
Ainda sem entender, bufou uma risada sarcástica que apenas a incentivou a continuar.
— Eu aprendi a não confiar num filho da puta tentando me embebedar e você… — Ela fez uma pausa dramática. — aprendeu a nunca brincar com uma garota que sabe jogar melhor.
— Do que diabos você está falando? — questionou já evidentemente sem paciência pela postura de superioridade da atriz.
sorriu mais uma vez e se colocou de pé, andando até ele com passos de modelo que fez com que o olhar do baterista se perdesse em suas pernas. Então ela sacou seu celular do bolso traseiro de sua saia jeans e deu play num vídeo, se divertindo ao ver todos os músculos do rosto dele se contraírem em pura tensão.
Depois que viu aquela foto de dando em cima de Madison, logo supôs que ela teria uma fofoca muitíssimo interessante sobre o baterista a qual adoraria contar. E estava certa, mas isso não era tudo. Além de ter falado por minutos a fio, que mais pareceram uma eternidade, sobre como era um gostoso, engraçado, bom de cama e mais uma série de baboseiras que nem se deu o trabalho de prestar atenção; Madison também tinha algo infinitamente melhor: ela tinha vídeos. Um deles sendo particularmente interessante por mostrar o baterista cheirando uma carreira de cocaína diretamente da barriga de uma angel da Victoria’s Secret.
— Como foi que você conseguiu isso? — Foi a única coisa que conseguiu dizer, cerrando os punhos. Estava puto da vida, para dizer o mínimo.
— Eu tenho os meus jeitos. — respondeu com a maior satisfação do universo, como se esperara toda a vida para repetir aquelas palavras.
respirou profundamente e contou até dez, técnica ensinada por uma terapeuta idiota que Jeffrey contratara uma vez para ajudar o baterista lidar com seus ataques de raiva. Precisava se acalmar, mas o sorriso dissimulado da atriz não estava exatamente ajudando.
— Acho que é a minha vez de dizer que eu te subestimei, princesa. — Ele tentou sorrir, mas seu tom entregava a raiva que sentia.
— É, eu acho que sim. Estamos quites agora.
soltou uma risada como se tivesse escutado a coisa mais engraçada do mundo.
— Você é mesmo tão ingênua, ? Você tem muito mais a perder do que eu e sabe disso. — Ele fez uma pausa. — Vídeo mostra Steve Taylor, rockstar problemático, usando drogas. Essa até que é uma manchete legal; mas eu prefiro: Charlie Burkhart é flagrada fazendo strip tease em um bar. E isso não é tudo! Também descobrimos que nossa princesinha de Hollywood anda tendo um caso com o mongol de Hollywood, Zac Russel. forçou uma voz de apresentador de programa de fofocas enquanto fazia caras e bocas numa teatralidade exagerada.
continuou sorrindo, como se aquela brincadeirinha não tivesse a abalado nem por um segundo.
— Você está certo, eu realmente tenho mais a perder. — Ela fez uma pausa e franziu o cenho, achando aquilo estranho. — Mas eu tenho um vídeo e você não. Além do mais, se eu fosse você, não gostaria que seu empresário maluco descobrisse que você foi tão descuidado ao ponto de deixar alguém te filmar cheirando pó. Ou você não se importa? Porque eu posso ir mostrar para ele agora mesmo. — ensaiou sair dali mas logo foi impedida por , que a segurou pelo braço.
Ao puxá-la de volta, o baterista perdeu consciência de sua força, o que fez com que tropeçasse em seus saltos e caísse sobre ele, ficando perto demais.
Eles se encararam, verde floresta contra oceano profundo. se perdeu por alguns instantes nos diferentes tons da íris da atriz; parecendo ter toda a raiva em seu corpo evaporada por aquele contato. Ficaram naquela troca intensa de olhares até que , disfarçando seu embaraço, voltou a ajeitar sua postura.
— Estamos quites. — disse ao despertar de seu transe.
Ela balançou a cabeça num movimento quase imperceptível, parecendo fazer o mesmo.
— Ótimo, que bom que concordamos com isso. E agora que eu deixei bem claro que não se deve brincar comigo: vaza daqui.
E não precisou dizer duas vezes. Em um piscar de olhos já batia a porta atrás de si, saindo dali.
Ele voltou a se jogar no sofá com os outros membros da banda, a tempo de pegar a conversa que tinham no meio.
— Ela é gostosa e a gente vai transar até o final das gravações, podem anotar.
não precisou nem perguntar para ter certeza de que Kyle falava de . Por isso, apenas bufou uma risadinha sarcástica.
— Boa sorte com isso.
— Como assim? Que que está rolando entre vocês dois? — Kendall perguntou soltando fumaça pela boca.
— Eu saí com ela ontem. — respondeu dando de ombros, aquela frase funcionando como uma síntese medíocre dos acontecimentos da noite passada.
— Você comeu ela? — Nic perguntou chocado, e ele o encarou com cara de poucos amigos diante do termo de escolha do baixista.
— Não, seu idiota, eu não comi ela. — respondeu deixando claro seu desapreço pela palavra.
— O que? Desde quando você só sai com mulheres e não leva elas para a cama? — Kyle perguntou num tom debochado.
— Eu só fiz isso por causa da porra do Jeffrey que me mandou “dar um jeito” nela. — revirou os olhos. — E a gente até teria transado se ela não tivesse… morrido.
A expressão confusa no rosto dos três era impagável.
, achando graça naquilo, roubou o cigarro de Kendall, dando uma tragada, e contou uma versão resumida da história; não era um homem de muitos detalhes. Além disso, o baterista escolheu pular a parte mais divertida da noite: o show de strip. Não sabia dizer muito bem porque o fez, talvez fosse apenas por medo de que descobrisse que ele estava espalhando a história por aí e, em troca, mostrasse o vídeo para Jeff. Havia aprendido da pior forma que a atriz era dissimulada e não via problema algum em foder com a vida alheia; por isso preferiu não arriscar.
Depois que saiu de seu camarim deixando sozinha, não demorou muito para que Kelsey chegasse no estúdio com a água com gás da atriz, que tinha o estranho hábito de nunca beber uma gota de água que não fosse gaseificada.
As coisas se sucederam rapidamente depois, a maquiadora entrou em seu camarim para deixá-la pronta, juntamente com o cabeleireiro que prendeu seus cabelos num rabo de cavalo impecável.
O primeiro figurino que vestiria seria um traje social feminino para a cena em que seria recrutada para se infiltrar na gangue, que seria filmada num cenário imitando uma sala de reuniões do FBI. Logo depois que a atriz o vestiu, escutou batidas leves na porta de seu camarim e, sem hesitar, ordenou que seja lá quem estivesse ali entrasse.
— Você está ocupada? — Ela ouviu esse alguém perguntar, só se dando conta de quem se tratava depois que uma cabeça morena surgiu pela porta.
apenas fez que não e sinalizou com a mão, o convidando para entrar.
— Não tive a oportunidade de me apresentar ainda, meu nome é Kyle. — O vocalista disse, estendendo sua mão.
A atriz logo a apertou, agradecendo internamente pela escolha simples daquele cumrpimento, invés de um abraço ou qualquer outra coisa. Excesso de contato físico não era bem sua praia.
. É um prazer, Kyle. — Ela sorriu de maneira afável.
Ao contrário da crença popular, podia ser amigável quando queria. Não que ser educada com astros do rock estivesse em sua lista de prioridades, pelo menos não depois do último que conhecera. Mas estava de bom humor, e a beleza e sorriso contagiante do vocalista apenas realçava isso.
Era incrível perceber o quanto e Kyle eram diferentes entre si. Enquanto o baterista tinha uma beleza colérica, com seus olhos azuis profundos, pele bronzeada e cabelos claros perfeitos; Kyle era branco feito neve, tinha o rosto perfeitamente angular e traços bem marcados, com as maçãs do rosto saltadas e um piercing de argola em seu nariz reto. Sua aparência era ao mesmo tempo tão estonteante e sombria, que poderia facilmente ser comparado com Hades, o deus grego da morte. Seus olhos eram completamente negros, se assemelhando a um abismo, e os cabelos lisos e compridos da mesma cor chegavam até seus ombros.
tinha uma perfeita aparência de bad boy, parecendo sempre ser bom demais para o resto do mundo; o excesso de jeans e camisetas de banda em seu guarda roupa lhe concediam um estilo mais rock n’ roll clássico, remetendo aos anos setenta mais precisamente. Já Kyle, apesar do estilo hard rock, à la Guns N’ Roses, com jaquetas de couro e um visual mais caótico, parecia ser muito mais tranquilo. Tinha uma áurea mais leve que a do baterista e parecia estar de constante bom humor, sendo sempre muito educado com as outras pessoas.
Na verdade, todos os membros da The Knickers tinham seu próprio estilo dentro do rock. Era incrível ver como mesmo funcionando perfeitamente bem em conjunto, eram totalmente autênticos, diferentes entre si, cada um seguindo a vertente com que mais se identificava: com a pegada clássica, Kyle com o estilo hard rock; Nic, por sua vez, era mais adepto ao grunge, sendo muitas vezes considerado o mais estiloso dos garotos, se parecendo como uma versão moderna e mais arrumadinha do Kurt Cobain. E Kendall… bom, Kendall não se importava muito; jeans surrados pretos, uma camiseta qualquer e botas chelsea geralmente funcionavam perfeitamente para ele.
— Eu queria saber se você poderia repassar o script comigo rapidão antes da gente começar. Eu sei que isso não deve ser nada para você, mas é que…
— Claro, eu entendo. — o interrompeu sorrindo. — Você já é um ótimo vocalista e não se pode ser bom em tudo, não é mesmo?
Ah, se ele soubesse que a atriz nunca havia nem sequer ouvido uma música sua para saber suas habilidades vocais…
Kyle sorriu modesto, parecendo tão tímido que fez com que o coração de — que até então ela nem sabia que tinha — se derretesse.
Como poderia um astro do rock, símbolo sexual de milhões de interessados pelo sexo masculino ao redor do globo e considerado um frontman* talentosíssimo, ser… assim?
Fácil: ele não era, e não demorou muito para começar a perceber isso. Não que ela se importasse, é claro. Com tanto que não a enchesse a paciência, Kyle Spencer poderia ser quem ele bem entendesse.
A atriz indicou o sofá de seu camarim para que o vocalista se sentasse e, após pegar o script dentro de sua bolsa, logo fez o mesmo, sentando-se de forma que pudesse encará-lo de frente.
Em projetos pequenos como campanhas publicitárias e até mesmo aquele, não tinha o costume de tocar no script até alguns minutos antes de gravar. É claro que ela lera o projeto antes de aceitá-lo, mas não tinha dedicado um segundo de seu tempo sequer para memorizar suas falas. Com tantos anos de experiência, a atriz já tinha desenvolvido uma memória praticamente fotográfica e, tendo poucas falas, não era necessário que lesse o script mais do que duas vezes para memorizá-lo.
No clipe, teriam apenas três cenas com falas: a primeira que introduziria a história, a em que a personagem de chega para se infiltrar na gangue e, por último, a em que ela é descoberta. E apenas duas delas seriam feitas com Kyle, que interpretaria o líder; já que a primeira ela faria com Kendall, que seria seu chefe no FBI.
— Você quer que eu leia essa primeira fala para você começar? — indicou uma linha que seria de Nic, que interpretaria um dos membros da gangue, e Kyle apenas assentiu. — Tudo bem… — Ela pigarreou e se ajeitou, sentando com a postura mais ereta. — Ei, quem é essa?
Segundo o script, o líder ignoraria aquela pergunta e, intrigado pela figura que nunca havia visto antes, apenas andaria até ela para dizer sua primeira fala:
Carro ousado para uma mulher. — Kyle leu a fala e apenas o encarou com os lábios frisados, pensando que soara robótico demais. — Foi tão ruim assim? — Ele perguntou ao analisar a reação da atriz.
— Não, não é isso. É só que… — Ela soltou uma risadinha. — você parece tenso demais, tente relaxar um pouco.
Kyle apenas assentiu e chacoalhou o corpo, como se tentasse se livrar de uma sensação ruim. E então ele leu a fala mais uma vez, e o resultado não fora muito diferente.
A atriz manteve sua expressão.
— Merda, eu não acredito que eu estou passando vergonha na frente da minha maior crush.
o analisou por alguns instantes. Então quer dizer que Kyle Spencer era um galanteador?
— Que isso, você não está passando vergonha nenhuma. — E ela apenas balançou a cabeça, prendendo um risinho ao ignorar a investida descarada. — Vergonhoso seria se eu resolvesse começar a cantar aqui, isso sim.
Kyle riu, parecendo relaxar um pouco o corpo.
— Pensa assim: você está fazendo um show, apresentando um cover que não flui tão naturalmente quanto uma música sua por ser de outra pessoa. Então o que você faz? — fez uma pausa, permitindo que ele pensasse.
— Eu só sinto a música. — Kyle respondeu com a convicção de quem sabe o que fala, arrancando um sorriso da atriz, que apenas assentiu.
— Exato, você sente e aí incorpora a música, e ao atuar é a mesma coisa. Não vai soar tão natural quanto uma fala sua, por isso você tem que se permitir sentir aquelas palavras, o momento e as sensações que quer transmitir. Entende?
Kyle balançou a cabeça em sinal afirmativo e ajeitou o corpo, pronto para recomeçar.
— Tudo bem, vamos de novo então… Ei, quem é essa?
Carro ousado para uma mulher. — Kyle disse mais uma vez, finalmente soando menos robótico.
Não era uma interpretação digna de Oscar, é claro, mas dava para o gasto.
, entrando na personagem, dirigiu a ele um sorriso sarcástico.
Palavras ousadas para um homem que não sabe com quem está lidando. — Fez uma pausa onde, na cena real, Kyle cutucaria alguém como se debochasse de sua personagem. A atriz tinha algo em comum com ela: ambas não abaixavam a cabeça para comentários machistas. — Quem é o cara que manda nesse lugar?
Você está olhando para ele.
Ótimo, porque eu vim aqui para correr.
Você tem coragem, mulher, tenho que admitir.
— Tenta de novo com um pouco mais de atitude e sem mexer tanto a cabeça. — sugeriu e Kyle prontamente repetiu a fala seguindo suas instruções, soando infinitamente melhor.
Por favor, poupe seus elogios para depois que eu ganhar essa corrida… E então, o que me diz?
Você está dentro.
E fim da primeira cena.
— Está vendo? Não foi tão difícil assim. — se reencostou no sofá, sua linguagem corporal estava muito clara com os joelhos virados para Kyle que, sem cerimônia alguma, repousou sua mão sobre um deles.
E ela não pareceu nem um pouco incomodada com aquilo.
— Você deixou tudo mais fácil. — Ele brincou e riu, balançando a cabeça em negação.
Estava hipnotizada pelos olhos negros do vocalista e, vez ou outra, se pegava encarando aqueles lábios bem delineados em formato de coração. Céus, como ele era lindo. E só de pensar que daqui algumas horas estaria o beijando a deixava animada como se sentira poucas vezes antes de cenas como aquela.
Depois disso, eles repassaram a cena final, em que a personagem de seria morta. Era uma passagem mais intensa e por isso foi mais complicado de fazê-la. Ela o parava praticamente de fala em fala para fazer sugestões, que Kyle acatava sem nem mesmo questionar.
No final, haviam sido minutos muito produtivos, e Kyle não podia evitar gostar daquele projeto todo um pouquinho demais, tendo uma atriz tão bonita contracenando com ele.
Não demorou muito para que uma assistente de produção viesse chamar o vocalista, dizendo que iriam começar a filmar em instantes as partes em que a banda tocaria a música.
poderia muito bem ter ficado em seu camarim para aquilo, esperando ser chamada apenas quando fosse entrar em cena. No entanto, queria assistir a banda tocar e ver com seus próprios olhos se a The Knickers era realmente tudo aquilo que lera sobre na internet.
Depois de seu banho revigorante que lhe trouxe a benção da vingança, se pegou a toa, e como diz o ditado “mente vazia, oficina do diabo”, a atriz não aguentou a tentação de procurar mais sobre aquela banda com quem, infelizmente, conviveria nos próximos dias.
Ela lera diversas coisas que realmente a surpreenderam, além da dose cavalar de polêmicas. Podia jurar de pés juntos que a The Knickers era apenas mais uma banda que fazia sucesso porque seus membros eram donos de rostos bonitinhos, mas aparentemente esse não era o caso.
É claro que, talvez, a princípio, a beleza do conjunto fora um fator determinante para chamar atenção do público, principalmente do sexo feminino. Mas isso estava longe de ser o que os tornava grande, e , ao vê-los tocar, se deu conta disso.
Muitos diziam que quando senta em sua bateria, Nic pega o baixo, Kendall pluga a guitarra e Kyle começa a cantar, acontece alguma coisa que se assemelha a uma umidade elétrica bizarra: você não só ouve, você sente. **
No final das contas, Kelsey estava certa — não que a jamais fosse admitir isso para ela —, e, para o seu choque e decepção, One Direction realmente não fora a maior banda do século, e sim a The Knickers. E a única coisa que fez com que a atriz os respeitasse como banda, foi a matéria que lera sobre como o conjunto, além de cada um de seus membros separadamente, era relevante para a história do rock. Não que ela desse a mínima, mas, pelo menos, isso significava que eram bons, certo?
Faziam anos que o cenário mundial da música não andava muito favorável para o rock, mas, de alguma forma, a The Knickers conseguiu resgatar toda a popularidade do gênero. E ainda havia quem se atrevesse a dizer que todo o sucesso da The Knickers só se dava pela qualidade do conjunto. Ao contrário da maioria das outras bandas de rock, não era apenas o vocalista que se destacava; desde Kyle até Nic, todos eram igualmente relevantes e aclamados pelos fãs. Não era para menos, afinal, recentemente havia ganhado o título de melhor baterista do século; Kendall Tucker era considerado o Jimmy Page*** da nova geração e Nicholas Curtis, com apenas vinte e três anos, tinha seu nome relacionado em diversas listas que ditavam os melhores baixistas do mundo. E Kyle Spencer… bom, Kyle dispensava apresentações; tinha uma voz que atingia notas inimagináveis, além de um carisma e presença de palco que o tornava um dos grandes frontman do rock.
jamais admitiria aquilo em voz alta, afinal, ainda achava aquele estilo de música subversivo demais, no entanto, ficou inteiramente arrepiada só de vê-los tocar ali. Finalmente entendeu a obsessão do mundo inteiro com aqueles garotos cabeludos de calças apertadas.
Mas apesar de tudo aquilo, parecia que alguém no set não estava satisfeito com a performance da banda.
— Corta! — Martin Scorsese gritou e todos congelaram no lugar, esperando que ele dissesse o que tinha para dizer. — Vocês estão ótimos, de verdade, mas tentem colocar um pouco mais de coração, um pouco mais de… rock n’ roll.
Os garotos se entreolharam e deram de ombros, até que o diretor sinalizou para começarem de novo.
bateu suas baquetas uma na outra, como se fizesse uma contagem e Kendall tocou o primeiro acorde de guitarra, sendo logo seguido pelo baixo de Nic e depois pela bateria.
Aos olhos leigos de a apresentação estava perfeita, até mesmo se arriscaria em dizer que tinha rock n’ roll demais para seu gosto. Mas Martin ainda não estava satisfeito e, por isso, gritou corta mais uma vez.
— Você só pode estar de brincadeira. — murmurou irritado.
Eles já haviam feito aquilo diversas vezes, era o quarto álbum da banda e cada um deles tinha três singles, todos com um vídeo clipe. E em todo esse tempo, seis anos para ser mais preciso, nunca haviam trabalhado com alguém tão exigente.
Não era atoa que Martin Scorsese era um dos melhores da história.
— O que está acontecendo? , você parece distraído!
O baterista revirou os olhos e não respondeu o diretor. Apenas se limitou a murmurar entre dentes:
— Estou ocupado demais imaginando te encher de porrada invés da bateria. — Falou baixo o suficiente para que apenas Kendall escutasse, que não conseguiu segurar uma risada.
— Porra, presta atenção! — Kyle o repreendeu, se virando para ele.
também não se deu o trabalho de responder o vocalista, que às vezes conseguia ser irritante demais. Os dois já haviam se estranhado mais cedo quando, antes de ir até o camarim de para repassar suas falas, Kyle o provocara dizendo que até o final das gravações faria o que o baterista não foi capaz de fazer: levar a atriz para a cama.
É claro que foi inútil dizer que a culpa não fora dele, Kyle não queria saber. Ele tinha como um de seus passatempos preferidos implicar com que, por ser muito esquentadinho, sempre caia em suas graças. Ambos com um ego de outro mundo e muita masculinidade para provar, estavam sempre se desentendendo, para o desespero dos outros dois. Graças a Deus, Kendall e Nic eram tranquilos demais e também eram único motivo pelo qual aquela banda não havia implodido ainda com o temperamento difícil de Kyle e .
Eles recomeçaram a tocar, e usou toda sua irritação como combustível para bater nos tambores o mais forte que podia. Afinal, o que era mais rock n’ roll do que um baterista raivoso?
Ao final da música, Martin Scorsese ficou muito satisfeito com o desempenho da banda e acabou pedindo para tocarem mais uma vez, apenas para propósitos de edição.
Depois disso, gravou com Kendall e mais alguns figurantes a primeira cena do vídeo e conseguiram fazê-lo em rápidos dois takes. O guitarrista era ótimo, aparentemente o melhor da banda, na visão crítica da atriz, e só foram preciso duas tentativas porque ele se perdera em uma das suas falas na primeira vez. Apesar disso, o resultado havia sido bem satisfatório.
A segunda cena que a atriz gravou naquela tarde era aquela em que sua personagem, após se infiltrar na gangue, começa a investigar. Para isso, ela trocou sua vestimenta para uma calça de couro, coturnos e uma regata qualquer, algo totalmente diferente do primeiro figurino. Por ser uma cena sem falas e em que apenas a atriz estaria, foi muito rápida e fácil de gravar, e, assim, eles finalizaram as filmagens daquela tarde.
— Está vendo? Não está sendo tão ruim, está? — Kelsey perguntou estendendo à sua garrafa de água com gás.
— Até que não, pelo menos não agora que eu coloquei aquele merdinha no lugar dele. — A atriz deu de ombros. — Tirando isso, até que eles não são tão ruins assim.
— Do que você está falando? Eles são incríveis.
— Algum deles. — respondeu sem dar muita importância para aquilo e só então Kelsey percebeu que ela estava ocupada demais encarando o vocalista, que, parado não muito longe delas, bebia água enquanto conversava com Jeffrey.
— Nem pense nisso.
A atriz balançou a cabeça, parecendo acordar de seu transe, e virou-se para Kelsey.
— Nisso o que? Está maluca?
A agente encarou-a com olhos inquisidores.
— Eu conheço você, ; e sei muito bem quando está tendo uma péssima ideia.
— Eu não tenho péssimas ideias. — A atriz bufou uma risada sarcástica.
— O que você mais tem são péssimas ideias; e criar uma quedinha pelo vocalista polêmico da The Knickers é uma delas.
— Você está viajando, Kelsey. — mentiu, revirando os olhos de forma teatral. A cara de poucos amigos da outra deixou bem claro que não acreditava nem por um segundo. — Ele é lindo, tá bom? E eu não tenho uma quedinha por ele; ele é quem tem uma quedinha por mim.
Para uma mulher de sua ardilosidade, às vezes podia ser muito inocente.
Por um minuto Kelsey não respondeu, estava ocupada demais com o olhar fixo em alguma coisa, ou alguém, além delas.
— O que foi? — , indiscreta do jeito que era, virou a cabeça quase trezentos e sessenta graus para descobrir o que havia ali de tão interessante.
— Para, sua maluca, não olha agora! — Kelsey a cutucou, e a atriz passou a mão no cabelo, numa tentativa tola de disfarçar. — está olhando muito para cá.
— Ele está olhando você?
— Não, idiota, está olhando você.
Diante daquelas palavras, mandou para a merda toda a discrição. Girou todo seu corpo até encontrar parado ao lado de Nic e Kendall do outro lado do estúdio, com os olhos fixos nela.
Que infernos ele queria?
A atriz sustentou corajosamente o olhar, com o nariz levemente empinado, enquanto deixava qualquer coisa que Kelsey falava desaparecer em segundo plano.
Nenhum dos dois sabiam bem o que estavam fazendo ali. O que era aquilo? Estavam flertando ou eram apenas dois predadores tentando estabelecer superioridade, como numa selva? O mais provável seria a primeira opção; no entanto, a agressividade em seus olhares também não deixavam descartar a segunda.
foi apenas acordar de seu transe quando uma figura entrou na frente de , quebrando o contato visual entre eles. Quando percebeu quem era, não conseguiu deixar de sentir-se nervosa.
— Vocês já estão indo? — Kyle perguntou tanto para ela quando para Kelsey.
Mas seu olhar se demorando um pouquinho mais na atriz deixava bem claro quem era seu objeto de interesse ali.
— Indo…? — começou sem conseguir pensar direito.
Merda, o que estava acontecendo com ela? Estava com a velocidade de raciocínio similar de uma lesma naquela tarde.
— Para onde nós vamos gravar as próximas cenas. Martin e Jeffrey já saíram, disseram que vamos começar assim que escurecer.
— Ah, sim, claro. — bufou uma risadinha sem graça. — Nós já estávamos de saída, não é, Kelse?
A agente, pega de surpresa, apenas chacoalhou a cabeça de um jeito desajeitado, sendo pouco convincente. teve que se conter para não revirar os olhos.
Dando seu sorriso mais encantador, a atriz já pegava Kelsey pelo braço para dar as costas para o vocalista. Precisava sair dali o mais rápido possível; estar perto de tanta gente inconsequente estava começando seriamente a interferir em seu bom senso.
No entanto, ele não parecia muito disposto a deixá-la ir.
— Então, é que eu tinha outra coisa em mente.
— Perdão? — Ela se fez de desentendida.
Kyle abriu um sorriso tão branco e bonito, que fez com que perdesse um pouco a força das pernas.
— O que eu pensei foi… O que acha de ir comigo?
Naquele momento, Kelsey quase pensou que sua amiga a largaria ali plantada para fugir no carro do vocalista e, possivelmente, fazer uma rapidinha no meio do caminho. No entanto, conhecia provavelmente melhor do que conhecia a si mesma, sabia que aquilo nunca iria acontecer; pelo menos não depois do que vivera na noite passada com um certo baterista da mesma banda.
Assim, a atriz, por mais tentada que estivesse, apenas inclinou a cabeça e fez uma cara de não tão falso pesar.
— É muita gentileza da sua parte, Kyle… Mas eu e a Kelse aqui tínhamos planos de parar para comer alguma coisa no caminho.
Bingo, a calculista estava de volta.
— Eu posso levar você para comer, se quiser. — Kyle insistiu dando um sorriso que quase fez a atriz jogar tudo para o alto e fugir com o vocalista para onde ele bem entendesse.
Mas se manteve firme. Viva o bom juízo!
— Obrigada mas vamos deixar para uma próxima, pode ser? — Ela sorriu mais uma vez e soprou um beijo no ar, logo virando as costas e puxando Kelsey para fora dali.
Embora se sentisse levemente frustrado, Kyle, com a esperança de uma “próxima” vez, não deixou se abalar.
voltaria atrás, afinal, elas sempre voltavam…

Nota:
*frontman: vocalista, cantor principal de uma banda
**Trecho retirado do filme The Dirt – Confissões do Mötley Crüe
***Jimmy Page: Guitarrista da banda de rock britânica Led Zeppelin, considerado por muitos Top 2 guitarristas de toda a história.

Capítulo 6
Depois de saírem do estúdio e passar na cafeteria preferida das duas em Los Angeles, Kelsey dirigiu até a locação onde seriam gravadas as cenas externas do clipe. No total, seriam usadas meia dúzia de ruas além de dois becos no centro da cidade; e ao chegarem lá, viram que toda a área estava isolada por fitas amarelas, impedindo pedestres curiosos de se aproximarem.
No entanto, aquilo não estava nem perto de ser o suficiente para controlar o caos que começava a se instalar ali.
Uma série de flashes explodiram na cara de no mesmo segundo em que ela pisou para fora do carro; paparazzis inconvenientes, além de algumas dezenas de fãs começaram a gritar seu nome, tentando atrair a atenção da atriz a todo custo.
era uma estrela desde que se entendia por gente e, por isso, já estava acostumada com aquela atenção toda a onde quer que fosse. Sorriu da forma mais encantadora que podia para as câmeras e ainda acenou para um grupinho de pessoas que gritavam seu nome. Seu lado narcisista adorava aquilo, ser o centro das atenções… ser amada. No entanto, aquilo estava parecendo o verdadeiro inferno na terra.
Seus fãs não costumavam ser assim, na grande maioria das vezes eram indivíduos civilizados. Aquelas pessoas tatuadas e vestida de couro dos pés à cabeça, tentando a todo custo invadir o set de filmagem, só podiam estar lá pela banda.
Aquilo fez com que o lado preconceituoso da atriz em relação a adeptos do rock ressurgisse com tudo dentro de si. Não estava surpresa. Em sua mente fechada, uma banda como aquela só poderia ter uma fanbase tão problemática quanto.
— O que está acontecendo aqui? — Kelsey questionou assim que elas cruzaram com os garotos da The Knickers e Jeffrey discutindo entre si.
— O que parece que está acontecendo aqui, bonitinha? — rebateu completamente sarcástico.
não fez esforço algum para conter a expressão desgostosa diante da forma com que ele respondeu sua melhor amiga.
— A gente está vendo, seu idiota. — Então ela se virou para Jeffrey. — Como isso foi acontecer? Não faz meia hora que a gente saiu do estúdio.
O empresário sorriu sem graça, como quem se desculpa pelo péssimo comportamento de seus clientes. Algo dizia a que ele fazia muito disso por aí.
— De alguma forma, a informação que a banda estava gravando um clipe no centro de L.A. vazou no twitter.
— De alguma forma? — Kyle bufou uma risada sarcástica.
— Cala a boca, Spencer. — Jeffrey o repreendeu.
Não foi preciso muito além disso para que a briga começasse a ficar feia.
O que e Kelsey conseguiram entender de tudo aquilo foi que “o imbecil do Nic”, segundo as palavras de , postara no twitter uma foto de Kendall e Kyle conversando e a placa com o nome da rua acabou aparecendo no fundo; e em menos de vinte minutos o lugar já parecia um formigueiro de tão lotado.
— É sério mesmo que vocês vão dar esse show aqui na frente desse tanto de gente? — Martin apareceu com uma carranca tão grande que deixava a cara de poucos amigos de qualquer um ali no chinelo.
, pensando que precisava fazer alguma coisa, saiu dali e foi até a multidão para atender alguns fãs. Não queria ter seu nome envolvido quando saísse em todos os sites de fofoca possíveis que a The Knickers brigara em público mais uma vez.
A verdade é que eles eram uma família, e famílias se desentendem. Pelo menos setenta por cento do tempo eles agiam como melhores amigos, conversando, rindo e causando todo tipo de confusão juntos. No entanto, os outros trinta por cento podiam ser catastróficos. É claro que a maior parte dos desentendimentos vinham por parte de e Kyle mas mesmo assim, ocasionalmente, a coisa ficava tão feia que Kendall e Nic precisavam entrar no meio.
Muitas vezes, a mídia até mesmo tirava proveito daquele caos e espalhava rumores sobre a desunião da banda. Um dia, inclusive, foi noticiado em todas os sites de fofocas possíveis que a The Knickers iria se separar, o que era uma mentira, é claro. Logo no começo da carreira eles haviam feito um juramento que nunca se separariam, ficariam juntos até as cordas vocais de Kyle não conseguirem de jeito nenhum alcançar suas famosas notas e Kendall estar gagá demais para tocar seus solos, ou até não ter mais força nos braços para tocar bateria e o corpo franzino de Nicholas não der mais conta de segurar seu baixo. Eram irmãos. E briga nenhuma, por mais idiota que fosse, seria capaz de mudar isso.
, ! — Um paparazzi chamou enquanto ela autografava a camiseta de um fã. — O que é que vocês estão fazendo aqui? Isso tudo é para um videoclipe do álbum novo da The Knickers?
— Vocês verão em breve. — Ela sorriu muitíssimo educada.
Em frente às câmeras, não existia , a vaca calculista com fortes tendências à vilania. Não; só existia , a estrela de cinema e princesinha de Hollywood: uma jovem talentosíssima, doce e de beleza inigualável. Ela se tornava praticamente outra pessoa e chegava a ser ridículo o quão bem conseguia enganar todo mundo.
— Kyle, Kyle! Aqui! — Ela escutou os paparazzis irem a loucura diante da presença de alguém atrás de si.
se virou apenas para dar de cara com o vocalista andando lentamente até ela. Conforme ele andava, seus cabelos se moviam como se fosse um modelo num comercial de xampu, o que fez seu coração pular algumas batidas.
O que ele estava fazendo ali?
A multidão foi à loucura gritando o nome dele.
Kyle apenas fez o número dois com os dedos, sorrindo brevemente para as câmeras e se virou para ela.
Receosa pelo que estava por vir, conteve o impulso de se afastar dele que chegava perto demais.
— Martin mandou eu te dizer para ir para o figurino se arrumar.
— Mandou, é?
Ele assentiu mordendo um sorriso.
— Na verdade ele mandou a Kelsey, mas eu disse que faria isso por ela.
Que merda ele pensava que estava fazendo flertando com ela na frente daqueles paparazzis todos?
estava à beira de um colapso e Kyle, parecendo perceber isso, estava apenas se divertindo.
Mas a atriz se manteve firme.
— Que gentileza sua. — Abriu um sorriso tão largo que qualquer espectador mais atento perceberia ser forçado.
E então, ela acenou para seus fãs e saiu dali com Kyle em seu encalço.
Estava puta da vida. Tanto que passou como um furacão pela sua agente, Jeffrey e os outros membros da banda; e ainda quase bateu sem querer a porta do trailer designado a ela na cara de Kelsey.
Será que ela não podia tentar manter sua imagem sem ter um astro do rock de merda tentando estragar tudo?
O próximo figurino que usaria não era muito diferente do anterior: calça preta justa, coturnos e uma blusa qualquer. A única grande diferença era a jaqueta de couro pendurada na arara ali do trailer.
Não demorou muito para que a maquiadora e o cabeleireiro viessem lhe aprontar. A maquiagem cumpriu a fácil tarefa de cobrir as imperfeições quase inexistentes no rosto da atriz, enquanto dessa vez seu cabelo loiro foi deixado solto, apenas com uns cachos discretos na ponta.
releu mais uma vez rapidamente o script e estava pronta. Ficou sentada, obrigando Kelsey a escutar xingamentos a todas as gerações possíveis dos astros da The Knickers, até que uma assistente de produção veio lhe chamar para começar as gravações.
Quando ela saiu de seu trailer o sol já havia se posto, a multidão fora controlada pela polícia local, e agradeceu mentalmente à estilista da banda — uma mulher muitíssimo simpática chamada Trisha — pela escolha da jaqueta ao sentir uma brisa gelada bater contra seu corpo.
A atriz andou lentamente até o local exato da cena e tirou um instante para admirar aquele cenário; parecia até mesmo a produção de um filme grande, formado por figurantes e carros caríssimos generosamente oferecidos pela Audi.
Como Nic havia previsto, a empresa automobilística adorou a ideia de uma parceria com a banda e viu uma grande oportunidade de crescimento em ter os astros do rock mais quentes da atualidade dirigindo seus mais novos lançamentos. Já podiam imaginar jovens abastados do mundo inteiro procurando a concessionária mais próxima para adquirir os mesmos carros usados no clipe.
Todos já estavam em seus respectivos lugares: os figurantes; Kyle reencostado em seu mais novo e-tron GT, um carro elétrico elegantíssimo e a mais nova aposta da Audi; enquanto Nic estava ao seu lado, como seu fiel escudeiro; e , apoiado no capô do carro que dirigiria: um Audi TT 2020 cor azul turquesa. Enquanto Kendall assistia tudo de fora, já que não participaria daquela cena.
tomou um instante para admirar o figurino dos músicos. As calças de couro e jeans apertados haviam sido trocadas por calças excessivamente largas, que dava uma bela visão da barra de suas roupas íntimas; os coturnos e botas Chelsea deram lugar a pares de tênis modelo Yeezy ou Jordan. Daquela forma, invés de astros do rock selvagens e sensuais, se pareciam mais como rappers descolados.
Ao passar por eles, foi guiada pela mesma assistente de produção que a chamara minutos antes até o carro que dirigiria: um Audi R8 vermelho que a deixou apaixonada no mesmo instante.
Em todos os seus trabalhos a atriz recusava o uso de dublês. Gostava de aprender coisas novas e através de seus papéis tinha as mais diversas oportunidades para isso. É claro que já sabia dirigir, no entanto, suas habilidades de direção eram tão ordinárias quanto as de qualquer outro motorista comum. Por isso, logo depois que confirmou sua participação no clipe, contratou um piloto profissional de corrida para ajudá-la a desenvolver as habilidades necessárias para aquele papel. Ela era inteligente e aprendia rápido, por isso achou as aulas muitíssimo satisfatórias e estava até mesmo considerando dispensar seu motorista particular e comprar seu próprio carro esportivo.
entrou e ligou o carro e, assim que Martin deu o sinal, ela dirigiu até o local designado e estacionou, dando início a cena. Saiu do veículo esbanjando confiança e teve que se segurar para não rir ao perceber o nervosismo dos músicos.
Todos no set encararam Nic, esperando que ele dissesse sua fala; no entanto, tempo demais se passou e nada saiu de sua boca.
Ah merda, foi mal, qual era a minha fala mesmo? — Ele perguntou e todos ali suspiraram em frustração.
— É a fala mais fácil do mundo e você esqueceu, seu idiota? — ralhou dando um pedala na cabeça de Nic, que reclamou de dor.
Martin gritou corta e depois todos refizeram seu caminho até chegar naquele ponto mais uma vez.
saiu do carro e Nic finalmente disse sua fala:
Ei, quem é essa? — Ele estava escorado no carro de Kyle, tentando soar descontraído.
O vocalista, lembrando das recomendações da atriz, a encarou de cima abaixo e foi até ela, que atuava como se estivesse perdida naquele lugar.
Carro ousado para uma mulher.
ergueu as sobrancelhas, cruzou os braços e disse, se aproximando lentamente dele.
Palavras ousadas para um homem que não sabe com quem está lidando. — Kyle forçou uma risada, cutucando Nic e os figurantes que interpretavam seus amigos. — Quem é o cara que manda nesse lugar?
Você está olhando para ele.
— Ótimo, porque eu vim aqui para correr.
Kyle hesitou por um segundo e, com medo de que ele travasse, se segurou para não lhe lançar um olhar que a tirasse de sua personagem.
No entanto, aquele conflito que durou milésimo de segundos desapareceu quando o vocalista abriu um sorriso galanteador.
Corajosa, gosto disso. — Ele improvisou.
Embora não fosse muito fã de sair do script, achara aquela tentativa válida e, inclusive, melhor do que a original.
Quem diria… Kyle Spencer também podia ser espertinho.
Por favor, poupe seus elogios para depois que eu ganhar essa corrida… E então, o que me diz?
Você está dentro.

*****

ajeitou as palmas suadas das mãos em volta do volante. Seu coração batia veloz contra sua caixa torácica e ela não podia esperar para acabar com aquilo logo.
, no carro imediatamente ao lado, se encontrava na mesma situação. Seu peito subia e descia em respirações rápidas e não podia deixar de reviver em sua cabeça a última conversa que tivera com Jeffrey.
Antes de se preparar para a cena, o empresário o puxara de canto e dissera as benditas palavras que não saiam de sua cabeça:
“Não faça nenhuma gracinha, você sabe que ela deve ganhar essa corrida.”
Embora soubesse que aquelas palavras apenas serviriam como lenha na fogueira que era , Jeffrey não se sentiria em paz se o deixasse subir no carro sem aquele último aviso. Martin Scorsese estava num péssimo humor devido ao tumulto que tiveram com a multidão mais cedo; e ele estava tentando desesperadamente não alimentar o ânimo do diretor.
Às vezes parecia que, mesmo depois de tantos anos trabalhando juntos, Jeffrey ainda não sabia lidar com o temperamento difícil e imprevisível da banda.
Não demorou muito para que Martin gritasse ação.
A cena havia começado.
Logo em seguida, uma mulher vestida de apenas um cropped e uma saia muitíssimo reveladora entrou em cena com um sutiã em mãos. Ela se posicionou em frente aos carros e quando ia erguer a peça para dar a largada, se surpreendeu ao escutar barulho de porta abrindo e virou-se a tempo o suficiente de ver colocando metade do corpo para fora carro.
— Isso não estava no script.
Ele pode ver todos no set se entreolharem confusos.
— Que alguém daria a largada? — Martin Scorsese questionou genuinamente confuso.
suspirou. Embora quisesse cair nas graças do diretor, ela também não podia colocar seus princípios de lado. Obviamente estava odiando ter que fazer isso, mas aquele era apenas seu lado feminista que não podia ser silenciado.
— Não, que alguém daria largada estava no script. — Começou se esforçando muito para não soar sarcástica. — O que não estava é que isso seria feito através de um apelo ridículo à sexualização desnecessária do corpo feminino.
O silêncio reinou no set por alguns instantes. Martin Scorsese carregava uma expressão indecifrável.
— Por que não coloca um deles para dar a largada? — sugeriu e imediatamente sentiu-se aliviado por já fazer parte da cena.
A princípio, o diretor não esboçou nenhuma reação e por um momento, e o baterista pensou que ele daria início a mais um de seus projetos de surto psicótico. No entanto, para o seu desapontamento, o que aconteceu foi inacreditavelmente diferente disso.
— Rá, ótima ideia, ! — Martin soltou uma risada estranha. — Nicholas, anda, você dá a largada.
estava embasbacado. Como é que qualquer mísera coisinha que eles fizessem já era o suficiente para tirar o diretor do sério, enquanto a Barbie Hollywood poderia parar no meio de uma cena, querendo mudar tudo, que ele daria risada e ainda a admiraria por isso?
Aquilo só podia ser brincadeira…
De longe, o deu risada ao ver o baixista sair de seu canto resmungando, até parar no lugar que antes a mulher de pouca roupa ocupava.
— É só fazer assim? — Ele perguntou erguendo e abaixando os braços todo atrapalhado, na melhor forma Nicholas Curtis de ser.
O diretor apenas fez que sim e, depois de todos voltarem para seus respectivos lugares, gritou ação pela segunda vez.
Conforme o script mandava, e trocaram olhares por algum segundo, o que fez com que ambos sentissem o estômago revirar.
sabia perfeitamente que precisava ganhar essa corrida e a pouca experiência que tivera com o baterista — além do sorriso maldoso no canto de seus lábios — a deixava ciente de que ele não facilitaria aquilo nem por um segundo. Ela era profissional demais para deixar uma intriguinha como aquela tomar conta de seu juízo, no entanto, aquilo se tornara questão de orgulho e queria mais que tudo fazer aquele rockstar de merda comer poeira.
Preparados?
Os faróis piscaram duas vezes e fez seu carro roncar. A atriz segurou o ar, Nic deu a largada e, numa velocidade impressionante, ambos trocaram a marcha e arrancaram.
Céus, aquele carro era com certeza no mínimo duas vezes mais potente do que aquele que usara para treinar com o piloto.
sentiu a adrenalina correr por suas veias e assim que atingiu velocidade suficiente, trocou a marcha.
Seu coração parecia que ia escapar pela boca e o vento bagunçava seus fios loiros. Mais uma vez trocou a marcha.
Não diminuiu a velocidade ao fazer uma curva estreita para virar na segunda rua que compunha o set de gravação. Ela sentiu a força centrípeta querer puxá-la para dentro, mas manteve as mãos firmes para não perder o controle. Acelerou mais uma vez e ao voltar a dirigir em linha reta trocou a marcha.
Os dois carros estavam muito próximos, mas o TT de ainda tinha poucos segundos de liderança.
trocou a marcha.
O relance rápido dos lábios frisados do baterista deixava muito claro que ele não estava simplesmente deixando-a ganhar. Aquilo era sério.
De novo ela trocou a marcha.
Na segunda curva o carro dele derrapou por não ter aberto o suficiente e foi assim que conseguiu a liderança.
Ela trocou a marcha uma última vez e ao ganhar mais velocidade ainda, atravessou a linha de chegada.
— Porra! — Gritou, batendo a mão no volante em uma forma agressiva de comemoração.
Ambos estacionaram o carro no lugar demarcado assim que o diretor gritou corta.
Com um sorriso vitorioso, que achou simplesmente detestável, virou-se para ele.
— Deve ser uma merda ser superado duas vezes num dia só, não é?
Ele bufou uma risada sarcástica.
— Que gracinha… — Começou e ela arqueou as sobrancelhas sem entender. — você achando que não ganhou só porque eu deixei.
Invés de deixar-se abalar por aquilo, riu.
achava tão irritante a forma como ela nunca perdia a compostura e nem aquela pose idiota de superioridade.
Que gracinha, você inventando mentiras apenas para se sentir melhor. — E então a atriz deu dois tapinhas nas costas dele e saiu dali rebolando; o que apenas fez com que o baterista tivesse que engolir a raiva que lhe subia pela garganta.
Eles tiveram que regravar aquela cena mais uma série de vezes para a câmera captar todos os ângulos possíveis. jamais admitiria, no entanto, como o bom competidor patológico que era, se esforçou para ganhar da atriz em todas elas e, para o seu descontentamento e irritação, não conseguiu nem uma sequer. Se fosse o personagem de um desenho animado, certamente teria fumaça saindo de suas orelhas naquele momento.
Enquanto saiu para gravar mais uma cena sozinha, ele caminhou até a esquina onde os outros garotos conversavam, sentados em cadeiras modelo diretor de cinema, arrancou da mão de Kendall uma garrafa de água que já estava pela metade e tomou tudo em apenas um longo gole.
— Oh-oh, alguém está de mau humor…. — O guitarrista observou jogar o plástico no chão mesmo tendo uma cesta de lixo a poucos passos dali.
— Eu não estou de mau humor. — Respondeu arrancando um cigarro do maço que tinha em seu bolso, logo acendendo e dando uma tragada.
— Certo… você não está de mau humor, você vive de mau humor. — Nic provocou e cutucou Kendall com o pé, que deu uma risadinha. — É sempre “cala a boca, Nic”, “vai dormir, Nic” ou “ninguém quer te ver pelado, Nic”. — Ele disse fazendo uma imitação ridícula da voz de , que teve que conter uma risada. — O que é uma mentira, porque todo mundo aqui sabe que existem milhares, ou melhor, milhões de pessoas que amariam me ver pelado.
— Sinto muito por essas pessoas clinicamente insanas. — rebateu enquanto soltava fumaça pela boca.
Embora soasse sério, um pouco de sua irritação havia dissipado com aquela conversa; era apenas mais um dos dons de Nicholas Curtis: deixar tudo mais leve.
No entanto, existia um outro membro da banda que tinha o dom oposto: deixar completamente puto da vida.
— Ele só está bravinho porque eu vou fazer o que ele não fez: comer a .
O baterista tragou seu cigarro calmamente, como se o vocalista não esperasse uma resposta para sua provocação.
Por que é que eles insistiam em usar aquele termo?
— Ela é boa demais para você, Kyle, e a única coisa que você vai acabar comendo é a porra do meu punho quando a gente sair na porrada. — Respondeu com um risinho sarcástico no canto da boca.
Kendall revirou os olhos, suspirando. Sabia que aquelas briguinhas não eram sérias, no entanto, depois de um tempo, elas começavam a ficar bem cansativas.
— Então você acha que eu não vou conseguir? — Kyle perguntou num tom debochado.
— Eu realmente espero que não, porque você é um imbecil. — deu de ombros e fez uma pausa, apenas para voltar a falar logo em seguida. Toda raiva que sentia fora restaurada. — Sabe o que é engraçado? Como todos nós aqui fazemos merda: Kendall colocou fogo no último quarto de hotel que a gente ficou, eu fui pego semana passada mijando no carro de um policial e o Nic, bom, o Nic faz todo tipo de merda o tempo inteiro… Mas você consegue ser pior que todos nós juntos porque você é falso; fica fazendo a linha bom moço enquanto o resto carrega a culpa de foder com a imagem da banda.
— É sério que vocês vão mesmo discutir por causa dessa merda? É só uma garota, porra! — Kendall ralhou já ficando nervoso.
Estava acostumado em ver perder a linha e falar várias merdas que não tinham nada a ver com o problema em questão, no entanto, nunca o vira fazendo isso por causa de uma garota.
estava mesmo o tirando do sério.
— Eu estou pouco me fodendo para a garota; por mim vão os dois para a puta que pariu.
Mas Kyle não teve tempo de rebater, tão logo que dissera aquelas palavras, uma assistente de produção veio chamar o vocalista para gravar a próxima cena.
Ele repassou mentalmente o que teria que fazer naquela cena como uma espécie de mantra e correu para dentro do seu carro, logo dirigindo-o até o ponto demarcado.
Era como se a personagem de , assim que voltara de uma corrida, encontrasse-o a esperando enquanto bloqueava a passagem; olharia para ele, que faria um sinal para ela o seguir.
Os dois agiram conforme o script, indo parar num beco. Eles estacionaram de forma que ficassem perpendiculares e saiu do carro, se escorando na lataria até que Kyle se aproximou, a encurralando. Naquele momento, quando pode sentir o cheiro amadeirado de seu perfume francês, ela sentiu toda a raiva pelo acontecimento de horas antes escoando de seu corpo.
Não teriam falas, seria apenas uma cena carregada de emoções e a atriz estava doida para ver como ele se sairia.
A troca de olhares era intensa — só não tanto quanto aquela que tivera com duas cenas atrás — e a única iluminação por ali era aquela proporcionada pelos faróis ligados. Kyle a segurava com firmeza pela cintura enquanto a câmera girava em volta deles, pegando cada ângulo daqueles rostos que beiravam à perfeição e inspiravam milhares. O dela inspirava jovens garotas a seguirem seus sonhos de ser atriz; o dele, pessoas a fazerem todo o tipo de merda com suas músicas.
— Confesso que estava ansioso para essa cena. — Ele disse baixinho para que apenas ela escutasse.
Kyle Spencer era um galanteador de primeira linha; e , depois de um bom tempo em Hollywood, aprendera a identificar esse tipo de longe.
Mas, aparentemente, não fora baixo o suficiente porque logo Martin Scorsese interrompeu a cena.
— Kyle, o que você está fazendo? Essa cena não tem fala!
O vocalista apenas ergueu as mãos como quem se desculpa e se esforçou para parecer brava; embora, com um sorrisinho de canto, ele parecesse saber perfeitamente bem a confusão de borboletas na barriga dela.
Ambos voltaram para os carros, Martin deu sinal e eles refizeram todos os passos até chegarem naquele ponto.
Mais uma vez Kyle a encurralou contra seu próprio carro e quando seu rosto chegou perto demais, sentiu novamente o estômago revirar.
O script dizia que ela deveria beijá-lo… então o que ele estava fazendo?
Antes que Kyle pudesse chegar um centímetro mais perto, a atriz o agarrou pela camiseta e grudou seus lábios nos deles. Apenas seguindo o roteiro, é claro.
Por algum motivo, esperou que o vocalista a puxasse pelos cabelos da nuca, assim como fizera na noite anterior, mas isso não aconteceu, para seu descontentamento. Invés disso, Kyle apenas envolveu-a pela cintura enquanto a apertava cada vez mais entre o carro e seu próprio corpo.
Ao passar seus braços pelo pescoço dele, se pegou pensando em .
Mas que merda! Será que nem assim ele era capaz de deixá-la em paz?
Naquele momento, a atriz constatou que a diferença entre os dois astros do rock não se resumia apenas à aparência. Kyle tinha o perfeito beijo de cinema, não técnico, é claro — aquilo poderia ser muitas coisas, mas técnico certamente não era uma delas —, era envolvente e bonito de se ver, no entanto, faltava… fogo; o que era exatamente o elemento que tinha de sobra no beijo do baterista. Sensual, ardente e poucos segundos provando-o eram o suficiente para molhar sua calcinha.
Embora ambos fossem ótimos, sempre havia um melhor.
Não demorou muito para que Martin Scorsese gritasse corta, arrancando de seus pensamentos sobre um homem enquanto beijava outro.
Céus, ela era mesmo uma vaca.

Capítulo 7

O terceiro dia de filmagens se passara sem complicação alguma e algo dizia à que isso se dava, principalmente, devido à ausência de um certo baterista no set. aparecera, atrasado como de costume, gravara a cena final onde sua aparição era mínima e fora embora do mesmo jeito que chegou: apressado e sem nem sequer olhar na cara da atriz.
Aparentemente, astros do rock poderiam ser ainda mais temperamentais do que estrelas de Hollywood.
O videoclipe foi lançado um mês depois, duas semanas antes do lançamento do novo álbum da The Knickers, Damage Control.
Aquele seria o quarto, e mais esperado, álbum da banda; teria quinze músicas, três singles e todos eles com videoclipes — apesar do Red Light ter sido aquele em que mais investiram. Eles passaram um total de dez meses produzindo tudo, desde a composição até o lançamento dos vídeos; e agora estava na hora de promovê-lo.
Geralmente eles não gastavam muito tempo pensando na melhor estratégia de divulgação, apenas faziam da melhor forma The Knickers de ser: causando polêmicas e dando festas. No entanto, dessa vez eles decidiram fazer um pouquinho a mais do que servir comida, bebida e drogas para um monte de groupies e celebridades. Juntaram em uma pré-venda as três coisas que sabiam fazer de melhor: música, shows e festas.
A pré-venda foi aberta um mês antes do lançamento e quem adquirisse o álbum naquele momento teria também o direito de comprar ingressos para o show de divulgação e, além disso, concorreria à uma noite muito louca ao lado da banda na festa de homenagem ao novo álbum, que ocorreria logo após o show.
Além disso, um dia antes do lançamento, eles resolveram fazer uma participação especial em um dos maiores talk shows da América: Sunday Knight Live.
Cohen Knight, apresentador do programa, após fazer mais um de seus famosos e bem humorados monólogos, tirou de algum lugar debaixo de sua mesa uma cópia de Damage Control e anunciou para as câmeras:
— Eu estou aqui com o novo álbum deles, que são os donos proprietários do rock n’roll no século XXI, quebraram recordes de venda com seu disco de estreia e, à meia noite, estarão lançando mais um… senhoras e senhores, por favor, recebam Kyle, Kendall, e Nicholas; aplausos para a The Knickers!
O auditório foi à loucura, se colocando de pé para aplaudir os garotos que saíam de trás de uma cortina e entravam em cena, enquanto a banda do programa começava a tocar uma versão jazz de Love Drought, um dos singles mais famosos da The Knickers.
Eles passaram pela plateia, organizada em duas fileiras, uma de cada lado da passarela por onde a banda caminhava, cumprimentando o público, cada um de sua maneira. O que mais se destacava era Nic, que ia na frente, animado e pulando de um lado para outro tocando as mãos estendidas em sua direção, frenéticas com a possibilidade de tocar um astro do rock.
Cohen saiu de trás de sua mesa e cumprimentou educadamente cada um deles antes de voltar a se sentar em sua cadeira de couro giratória.
— Sentem-se, por favor. — O apresentador indicou um sofá de quatro lugares no cenário mobiliado, onde eles apenas se jogaram completamente sem modos.
— Muito obrigada por aceitarem vir até aqui, é uma honra recebê-los. Nós temos um pessoal extremamente eufórico na audiência pela presença de vocês… — Cohen indicou a plateia que, mais uma vez, foi à loucura. — Então me digam: como é que vocês se sentem com esse título de banda do século, em serem os ídolos de um público tão diverso?
— É uma sensação incrível… — Kendall começou a falar, mas foi interrompido pelo apresentador.
— Digo, vocês conquistaram homens e mulheres, tanto jovens quanto a geração mais velha que na época idolatrava banda lendárias como Queen e os Beatles. O que vocês acham disso?
Era uma boa pergunta. Cohen Knight era reconhecido por sempre liderar boas entrevistas, fazendo artistas conversarem confortavelmente sobre seus trabalhos e até mesmo colocá-los em uma saia justa ao falar sobre suas vidas pessoais.
Pensando numa resposta adequada, Kyle ajeitou o jeans em suas pernas antes de dizer:
— É realmente incrível o quão longe nós chegamos, até mesmo assustador às vezes… nós somos apenas quatro caras com uma paixão e um sonho que, de alguma forma, conseguiram chegar lá.
Cohen assentiu, ligeiramente aborrecido com a resposta genérica dada pelo vocalista. Mas ele sabia exatamente como reverter aquela situação.
— O que você acha, ? — É claro que ele recorreria ao mais polêmico deles para responder uma pergunta como àquela.
estava praticamente largado na ponta do sofá, sentado com uma postura que faria qualquer ortopedista torcer o nariz; até que ele abriu seu típico sorrisinho sarcástico, virando-se para o apresentador.
— A gente conseguiu conquistar esse tanto de fãs ao redor do mundo porque damos algo real a eles; e é isso que nós, Queen e os Beatles temos em comum. Não me leve a mal, eles são verdadeiras lendas, nós não chegamos nem aos pés deles; lançamos o tipo de música que eles produziriam e depois jogariam no lixo por não ser bom o suficiente…, mas, ainda assim, somos iguais nesse sentido. Ao contrário do que os cantores da música mainstream de hoje em dia pensam, o público não são só robozinhos programados para consumir qualquer merda que produzirem que tenha um refrão pegajoso, não… eles são pessoas e por isso sentem quando o que produzimos é real e é por isso que fizemos tanto sucesso.
sentiu-se muitíssimo satisfeito com suas palavras quando o auditório explodiu em aplausos e assobios. Poucas coisas faziam um público delirar quanto a arrogância de um rockstar.
Cohen sorriu ao conseguir exatamente o tipo de resposta que queria. Já podia imaginar a galera no twitter indo a loucura, comentando sobre as declarações polêmicas que The Knickers dera no Sunday Knight Live; além das manchetes tendenciosas que sairiam no dia seguinte, dizendo que o baterista da banda acusara todos os cantores atuais de produzirem merda.
— Muito bem. Agora, vocês passaram o último mês lançando os três singles que vão compor seu novo álbum, Damage Control, que sai amanhã… — Ele foi interrompido pela plateia que, mais uma vez, explodiu em aplausos. — Todos eles foram sucesso absolutos, principalmente o de Red Light. Por que não damos uma olhada nele agora? — Dito isso, Cohen apontou para um telão atrás deles e então, em todos os televisores do auditório começaram a exibir o clipe na parte do refrão da música.
Os acordes de Red Light tomaram conta do ambiente enquanto todos assistiam vidrados à personagem de fazendo investigações sobre a gangue do clipe. Kyle abriu um sorrisinho de canto quando viu a reação do público feminino da plateia ao chegar na parte em que ele e a atriz trocaram um beijo apaixonado.
— Que produção, senhoras e senhores! — Assim que a apresentação se encerrou, praticamente todo o auditório se colocou de pé para aplaudir. Cohen voltou a ficar em silêncio, esperando o barulho cessar. — O vídeo atingiu impressionantes sessenta e cinco milhões de visualizações no youtube, em menos de vinte e quatro horas… vocês esperavam essa comoção toda?
Foi Kendall quem respondeu dessa vez:
— Nós esperávamos que estourasse, é claro, porque investimos pesado nesse vídeo, em todos os sentidos. Nós juntamos literalmente um dream team para fazer tudo isso acontecer; e nós não poderíamos estar mais satisfeito com o resultado.
— É verdade; uma música da The Knickers, com carros da Audi em um vídeo dirigido por Martin Scorsese e estrelado por ninguém menos que … como foi trabalhar com esses gigantes do cinema?
Simplesmente insuportável, se segurou para não dizer.
— Foi um pouco desafiador, a gente tem que admitir. — Nic respondeu soltando uma risada nervosa. — Os dois são extremamente profissionais e nós… bom, nós somos nós.
A plateia explodiu em risadas diante do comentário e embaraço do baixista.
— E parece que quem se deu melhor nessa brincadeira toda foi o Kyle, huh? — O apresentador cutucou assim que duas fotos surgiram no telão que antes reproduzia o clipe: uma do beijo entre o vocalista e atriz e outra deles conversando na frente dos paparazzis; a aproximação deles e o sorrisinho de Kyle passava todo o tipo de impressão errada.
teria um surto ao ver aquilo.
E teve que se segurar para não revirar os olhos em rede nacional. Ainda nutria secretamente um ressentimento pelas provocações do vocalista em relação à atriz, mesmo tendo ficado muitíssimo satisfeito em saber que, no final das contas, ele não conseguira levá-la para a cama.
Kyle riu, fingindo estar sem graça, enquanto o auditório reagiu com uma barulheira capaz de deixar qualquer um surdo.
— É… foi legal. — Ele respondeu entre risos, num falso constrangimento.
não fazia ideia como aquela encenação barata conseguia enganar tanta gente. No final das contas, talvez Kyle e a atriz realmente se merecessem…
— Legal? Só legal? — Cohen cutucou.
Spencer riu mais um pouco, depois abanou com a mão, tentando ficar sério.
— Não, de verdade, foi uma experiência incrível trabalhar com , ela é uma atriz maravilhosa e o vídeo certamente não teria tomado essa proporção toda se não fosse por ela.
— Ela beija bem? — Sem rodeio algum, Cohen fez a pergunta que levou a plateia à loucura.
Todos curiosos para saber a resposta, enquanto admiradores do sexo masculino sentiam inveja da atriz por ter beijado uma das versões mais próximas de um deus grego que havia na terra.
— Vamos lá, Kyle, a plateia está morrendo para saber! — O apresentador cutucou quando percebeu a hesitação do vocalista.
Ele não se deu o trabalho de dizer nada, apenas um aceno com a cabeça foi resposta o suficiente para que o tumulto no auditório se intensificasse.
— Agora a pergunta é: de quem vocês sentem mais inveja, dele ou dela? — Cohen apontou mais uma vez para a foto, já imaginando quão grande estaria a comoção nas redes sociais.
O telão se apagou mais uma vez e, para o alívio da banda, o apresentador mudou de assunto.
— Do primeiro até o terceiro álbum que vocês lançaram, todos foram sucesso absolutos e é de se esperar que o quarto seja tão bom quanto… O que podemos esperar de Damage Control?
— Muito rock n’ roll.
— Muito esclarecedor Nic, se não fosse por você, as pessoas pensariam se tratar de um álbum de country. Obrigada. — o cutucou e todos no auditório deram risada.
O baixista, tímido, ergueu os braços como quem se rende, até Kendall começar a falar:
— Eu acho que esse álbum vai além de um compilado de canções e quem colocar ele para tocar, sentar e realmente ouvir o que temos para dizer ali, vai além de apenas escutar algumas músicas, vai viver uma experiência. Nós investimos muito do nosso tempo na composição das letras e da melodia, porque queríamos produzir algo que as pessoas possam sentir, tanto a música quanto sentir como se fosse pessoal, como se pertencesse à elas… Bom, isso e muito rock n’ roll, como Nic inteligentemente apontou.
— Obrigada, Kendall! — Nic suspirou quando o guitarrista lhe deu tapinhas nas costas, como se estivesse feliz por alguém finalmente ter reconhecido seu esforço.
— E qual foi a maior inspiração por trás das grandes letras? — Cohen perguntou.
Todos os garotos se viraram para ; sabiam que era uma pergunta a ser respondida por ele. Por mais que, ao contrário da maior parte das bandas, os quatro fizessem parte de todas as etapas do processo criativo do álbum, não era segredo algum que o baterista era a grande mente por trás de maior parte das composições da The Knickers.
Já tendo sua resposta na ponta da língua, se ajeitou no sofá para poder dar uma boa olhada em Cohen.
— Assim como outros músicos, a gente compõe de acordo com as nossas experiências pessoais, o que é muito importante para criar uma conexão maior com os fãs. Mas além disso, nós tentamos escrever algo que sabemos que as pessoas vão gostar de escutar, além de uma porrada de críticas sociais em qualquer lugar que conseguirmos enfiar.
— Então essa é a receita para uma boa letra? Experiência pessoal, assuntos com que seus fãs se identifiquem e crítica social? — O apresentador perguntou e todos eles assentiram. — Aposto que músicos do mundo inteiro estão fazendo anotações agora.
Risadinhas vieram do auditório.
— E, além disso, desde o primeiro até o quarto álbum, quanto vocês evoluíram como banda?
— Muito, para falar a verdade… — Kyle começou a responder. — Nos primeiros três álbuns nós não sabíamos exatamente o que estávamos fazendo.
— A gente não fazia a menor ideia. — Nic corrigiu.
— Nós estávamos perdidos, experimentando todo tipo de música para ver se alguma coisa dava certo… era literalmente como jogar merda na parede e torcer para grudar. — , em sua habitual falta de delicadeza, complementou.
— E acabou grudando, não é mesmo? — A plateia riu mais uma vez do comentário do apresentador.
Aquilo parecia tudo tão forçado, que tinha que se segurar para não simplesmente se colocar de pé e dar o fora dali. Entre os quatro, ele era claramente o menos confortável com a situação. Detestava entrevistas como aquela, onde os apresentadores faziam um sacrifício enorme em perguntar sobre música, quando na verdade só queriam falar sobre as merdas que eles faziam ou com quem transavam. Era simplesmente ridículo; dava praticamente para enxergar o cérebro de Cohen processando milhares possibilidades de conduzir aquela conversa para a vida pessoal da banda.
— Agora, não é segredo nenhum que vocês são os verdadeiros rostos do rock nos dias atuais; é claro que existem outras bandas como a Weaselback, — O apresentador cutucou e soltou uma risada ao ver os garotos torcerem o nariz. Não era segredo algum que aquela banda era um desafeto declarado da The Knickers. — Mas todos sabem que vocês deram um recomeço para o movimento no século XXI… Como é dar sequência ao legado das grandes bandas do passado? É muita pressão?
— Com certeza é uma grande responsabilidade. — Kendall começou. — Nós recebemos muita pressão principalmente dos nossos fãs mais velhos, o que é compreensível, já que eles acompanharam essas bandas no seu auge.
— Nunca escondemos o fato de que usamos bandas como Led Zeppelin, Guns n’ roses, entre outras, como inspiração, isso não é segredo nenhum. Só que o que a gente sempre procura fazer é lançar uma música que seja, acima de tudo, a nossa cara… — Kyle disse até ser interrompido por Nic.
— Nós não queremos dar continuidade ao legado de banda nenhuma, queremos começar o nosso legado.
A plateia reagiu com palmas e gritos de aprovação.
— Porque no final do dia, a gente, tanto quanto os que vieram antes, servimos apenas um mestre, um propósito maior.
— E qual é esse propósito, ? — Cohen perguntou.
— O rock n’ roll.

Capítulo 8
— Fala sério, Kelse! — resmungou enquanto sua maquiadora dava os toques finais em sua maquiagem. — Quem ele pensa que é para falar de mim assim em rede nacional?
— Você está exagerando, . — Kelsey respondeu, também sendo maquiada por uma outra mulher. — Foi o Knight que começou, você sabe como esses apresentadores são; e, além do mais, o que você queria que ele dissesse? Que você beija mal?
— E desde quando você virou advogada do diabo, Kelsey Schofield?
— Sempre fui… eu te defendendo toda hora, não defendo? — Ela cutucou e lhe dirigiu o dedo do meio como resposta.
Para uma garota cheia de classe, a atriz tinha uma péssima forma de se expressar.
A maquiadora, para finalizar, aplicou nela um batom vermelho da Chanel e pulou da cadeira, animadíssima para ver o resultado. Se admirou no espelho por bons segundos e sorriu, muito satisfeita com o que via.
— Muito obrigada, Marla, você não decepciona nunca! — Ela disse e a mulher apenas agradeceu, sem graça, logo saindo dali juntamente da maquiadora de Kelsey instantes depois. — A minha aparência vai ser a única coisa de interessante naquele lugar, ainda não sei como você me convenceu a ir…
— Eu acabei de sair de um relacionamento, , estou precisando me divertir.
— Você quer a minha opinião?
— Não. — Kelsey apenas rebateu enquanto ajeitava no espelho seus cachos pretos delicadamente moldados.
Sabia que de nada adiantaria sua resposta, falaria de qualquer maneira.
— Você está exagerando com toda essa história de término… — Ela começou enquanto tirava seu caríssimo robe de seda para finalmente começar a se vestir. — Homens são que nem transporte público: você perde um e outro passa cinco minutos depois.
Kelsey riu. A frieza e o desprezo em relação ao sexo masculino eram algumas das características mais típicas de sua melhor amiga.
, quando foi exatamente que você perdeu sua alma?
— Seis anos atrás, durante as filmagens de Um Amigo Para Hailey Cooper.
A atriz encarou a roupa escolhida para aquela ocasião, impecavelmente pendurada em uma arara banhada a ouro no seu closet. Ela levara horas para escolher aquele look; mas quem poderia culpá-la? Não fazia ideia qual era o dress code de um show de rock que seria sucedido por uma festa de lançamento de um álbum. Por isso, no final, apenas acabou recorrendo à sua estilista pessoal, que escolheu um body transparente com mangas longas, uma minissaia, junto de uma meia calça cravejada de brilhantes e, no pé, uma bota cano curto de saltos grossos. Tudo preto, tudo Balmain.
O convite para o combo show e festa chegara por email um mês atrás, poucos dias depois da conclusão das gravações de Red Light. Curiosamente, a banda convidara não apenas como também Kelsey e, mais do que nunca, a atriz teve certeza de que algum deles tinha um certo interesse em sua agente.
— O show começa às nove e meia. Que horas a merda do seu namorado vai chegar?
— Não fala essa palavra, você sabe que ele não é meu namorado! — a repreendeu. — E será que dá para relaxar? São só oito e meia, Jesus.
— São pelo menos trinta minutos para chegar no Dodger Stadium*, isso se não tiver trânsito. — Kelsey começou a andar pra lá e pra cá, caçando coisas para enfiar em sua bolsinha da Prada. — E se ele não é seu namorado, por que você está levando ele?
borrifou um pouco de Chanel nº 5, perfume cuja campanha publicitária fora estrelado por ela mesma, em seu pescoço e depois nos punhos.
— Isso é tudo culpa sua, não vem não… se você não tivesse comentado nada, ele nunca iria saber e nunca teria pedido para ir junto. Aparentemente, ele é um fã da banda… — Ela fez uma careta como quem não entende nada. — Quem no mundo, em sã consciência é fã desses caras?
Kelsey a encarou com cara de poucos amigos.
— Eu e mais trinta milhões de pessoas, ! — A morena revirou os olhos e a atriz apenas abanou a mão, como se não quisesse escutar aquelas palavras.
Zac Russel, o tal não namorado, por acaso, acabou escutando uma conversa entre as duas sobre aquela noite e fora incrivelmente inconveniente até a atriz concordar em levá-lo. Não que isso fosse um problema para ela, que estava acostumada a lidar o tempo todo com macho irritante; a verdade era que, como sempre, tinha suas segundas intenções por trás daquela gentileza. Estava apenas indo naquela merda como um favor a Kelsey que realmente precisava de seu apoio após terminar um relacionamento de anos; ela nunca iria por livre e espontânea vontade porque não estava nem um pouco disposta a lidar com os anfitriões da noite. Por isso, concordara em levar Zac, na esperança que a presença dele afastasse aqueles astros do rock que poderiam ser tão inconvenientes quanto o ator. Mesmo que nunca fosse admitir, em hipótese alguma, que eles eram um casal.
— Sério, eu até agora não entendi porque você fica com ele… ele é basicamente uma junção de tudo que você odeia num homem: irritante, imaturo, grudento e sem falar que ele tem um sério problema de falta de noção.
deu de ombros.
— Nós já conversamos sobre isso Kelse, ele é gostoso e faz com que eu me sinta bem comigo mesma…
Kelsey bufou uma risada. Já tinha ouvido aquilo mais vezes do que poderia contar.
A atriz tinha uma série de códigos de conduta que seguia à risca, e um deles era que nunca, em hipótese alguma, saía com alguém que fosse mais bonito ou inteligente que ela. Embora jamais fosse admitir, era secretamente insegura e namorar alguém que fosse melhor apenas reforçava aquele sentimento; não que existissem muitas pessoas nesse mundo que fossem dignas de ser consideradas melhor que fucking .
No entanto, após o seu pequeno incidente com o baterista da The Knickers — que era irritantemente esperto e praticamente o deus grego dos desajustados e do rock n’ roll —, a atriz sentira-se desafiada de uma forma desconfortável e, desde então, se agarrara mais do que nunca àquela sua política pessoal. E como consequência disso, Kelsey teria que aguentar o imbecil do Zac Russel por mais um tempo, até que se cansasse dele, o que mais cedo ou mais tarde acabaria acontecendo.
Porque no final, ela sempre se cansava deles.

*****

rodou em seu pulso a pulseira vermelha enquanto andava ao lado do segurança que seria responsável para levá-los até a área VIP do Dodger Stadium, local onde aconteceria o show. Não podia negar que se sentia nervosa e o fato de que estava sendo obrigada a escutar a voz irritante de Zac repetindo infinitas vezes sobre sua animação não estava exatamente ajudando.
O segurança os guiou até uma sala extensa, muito acima da multidão, que permitia que os convidados ilustres tivessem uma visão privilegiada do palco. Haviam ali pessoas famosas, desde modelos até membros da família real inglesa, além de estrelas de cinema que prontamente reconheceu. Até aquele momento ela não tinha a mínima noção de que a banda era tão influente; e a ideia de que seria obrigada a cumprimentar aquele tanto de pessoas a fazia querer sair correndo.
A atriz foi apenas distribuindo sorrisinhos amistosos a cada figura conhecida até chegar no bar que havia ali; pediu para o barman bonitinho um martini para si mesma e um gin e tônica para Kelsey. Zac tinha pernas, poderia muito bem pegar sua própria bebida.
Assim que entregou a bebida para sua amiga, se posicionou entre ela e o ator diante da janela, tendo o que era provavelmente a melhor visão de toda arena.
Não demorou muito para que uma luz se acendesse no meio do palco e a multidão fosse à loucura abaixo da área VIP; era apenas um aviso sonoro e nada sutil de que o show havia começado. No mesmo instante, todas as celebridades ali presentes, antes ocupadas demais com o bar ou com a mesa de salgadinhos que havia ali, se posicionaram para assistir ao espetáculo da The Knickers.
O palco continuou vazio por mais alguns instantes, aquele feixe de luz aceso apenas servindo para iluminar os instrumentos caríssimos da banda e para aumentar a expectativa do público. A verdadeira histeria só começou quando o primeiro deles apareceu.
É claro que tinha que ser .
Por algum motivo estúpido, sentiu o ar fugir de seus pulmões. Ela não podia ver com precisão seu rosto — miopia maldita —, mas apenas a energia que ele emanava, juntamente do seu estilo, foi suficiente para deixá-la nervosa, quase tanto quanto Kelsey e Zac que iam à loucura ao lado dela.
Seria um milagre se eles não fossem expulsos de lá até o final da noite.
Se, por algum acaso, encontrasse com aquelas roupas fora de contexto, apenas uma coisa lhe viria à mente: rockstar. Jeans clássicos rasgado no joelho, um colete de couro que deixava à mostra todo o seu tronco e suas tatuagens desconexas; e, no pé, botas chelsea preta; além do óculos modelo Wayfarer que apenas completava o visual.
Com uma das mãos ele levava uma garrafa de cerveja, enquanto na outra tinha seu par de baquetas. Desde suas roupas até sua postura, tudo no baterista gritava astro do rock.
A multidão foi à loucura quando ele se posicionou bem no centro do palco e ergueu o braço que segurava as baquetas, numa forma de cumprimentar o público. ficou ali por alguns segundos, apenas sendo ovacionado, até que andou sem pressa alguma até a plataforma onde ficava sua bateria e a luz o acompanhou. Ele levantou a mão da garrafa, mostrando a plateia o que estava fazendo e derramou toda a cerveja em cima dos tambores de sua bateria.
A gritaria só aumentou. Parecia que todos ali sabiam qual seria o próximo movimento do baterista, exceto por que o encarava de boca aberta como uma completa idiota. Ele estava infinitas vezes mais atraente ali, e ela estava hipnotizada demais para tentar adivinhar seus passos.
, então, sentou-se, e quando o holofote se apagou para que vários flashes de luz colorida pudessem brincar pelo palco, ele começou a tocar. Gotas de cerveja saltaram feito pipoca pelos tambores da bateria na medida que ele batia violentamente em cada um deles, apenas deixando aquela cena ainda mais sensual.
sentia-se como uma adolescente boba com uma paixonite, seu coração batia na mesma frequência das ondas sonoras que repercutiam na arena lotada. Estava petrificada. E só de pensar que tinha o beijado… e depois vomitado em seu pé….
É… melhor não pensar.
Quando ele parou de tocar, finalizando seu solo que durara bons minutos, a atriz teve que fazer uma força descomunal para se lembrar de que quem estava ali no palco era ninguém menos que : pessoa pela qual a única coisa que se permitia sentir era repúdio total.
Quase no mesmo instante que as batidas cessaram, o primeiro acorde de uma guitarra soou imponente e todas as luzes se acenderam, revelando a presença dos outros três membros da banda no palco e a multidão foi, mais uma vez, a loucura quando fogos de artifício explodiram no céu noturno.
Agora sim o show havia começado.
— Boa noite, Los Angeles! — A voz inconfundível de Kyle Spencer soou pela arena.
deu um grande gole em seu martini, como se o líquido descendo queimando pudesse ajudar a engolir o grito que queria escapar de sua garganta. Seria um eufemismo dizer que a atriz não era fã de rock, no entanto, estava sendo particularmente difícil não se deixar levar pela vibe enérgica do lugar.
— Vamos destruir essa porra, essa noite!
A multidão foi à loucura quando os acordes genéricos que Kendall tocou na abertura deu lugar aos de Give ‘Em Hell, um dos maiores sucessos do novo álbum. Embora a música tivesse sido lançada há poucas semanas atrás, junto de seu videoclipe, o público cantou juntamente de Kyle cada palavra dela, tão alto e avassalador que fez os pelos do braço de se eriçassem.
Aquela paixão, aquela euforia… a atriz havia presenciado tais sentimentos com tanta intensidade poucas vezes na vida. Estava genuinamente impressionada pela forma com que o público reagia à banda, inclusive grande parte das celebridades nojentas que estavam próximas a ela.
A The Knickers era um fenômeno cultural e isso não havia como negar.
Era louco pensar que aqueles garotos, que fariam qualquer coisa para não participarem do chamado mundo real, se juntaram e, quase do dia para a noite, se tornaram a maior banda de rock da atualidade. Em tão pouco tempo, a vida deles se tornara uma representação exibida de sexo indiscriminado, danos às propriedades, bebidas e drogas pesadas.
No entanto, conseguiram transformar todo aquele estilo de vida hardcore em música que fizera história no século XXI: um rock pesado, agressivo e sensual que funcionava como uma mistura deliciosa de Guns N’ Roses e Queen, Mötley Crüe** e Bon Jovi.
A crueza do som e a elaboração rebuscada da letra transformava a The Knickers em uma ponte entre o hard rock do século passado e o new metal do século XXI, com influência do Pink Floyd pelas letras elaboradas e um estilo à la Guns N’ Roses pelo mal comportamento.
Eles eram vistos como a banda que retomava o espírito rebelde do rock que tinha desaparecido, além de serem a completa antítese das normas opressoras da sociedade vigente; e foi assim que eles conseguiram conquistar tantas pessoas de diferentes faixas etárias; além da aparência, é claro.
A multidão pulava no ritmo da batida, os instrumentos eram tocados com maestria e a voz de Kyle alcançava tons que pareciam ser humanamente impossíveis. Até mesmo , naquele momento já começava a se soltar.
— Eles são bons demais! — Zac disse em seu ouvido, assim que eles começaram a tocar um dos sucessos do disco passado.
estava tão vidrada no show, que sequer conseguiu responder; apenas se limitou a assentir, passando levemente seus lábios na borda de sua taça, enquanto assistia fazer o que fazia de melhor: tocar bateria.
Os braços dele batiam com força nos tambores, tão rapidamente que os olhos da atriz mal podiam acompanhar. Ele tocava com paixão, enquanto balançava a cabeça no ritmo de suas próprias batidas, fazendo com que seus cabelos se movessem violentamente, o assemelhando a um deus furioso.
Ao longo do show, a banda tocou todas as músicas do novo álbum, além de seus maiores sucessos anteriores; e também aproveitaram a oportunidade para fazer alguns covers, como homenagem às bandas que vieram antes deles. Gostavam de manter viva a memória do rock n’roll do século passado. Eles se divertiam no palco, tocavam com uma leveza e confiança de quem sabia que aquelas quase três horas ficariam marcadas para sempre na vida daquele público.
Era muito provável que ninguém ali se esquecesse do momento em que Kendall, no meio de seu solo de Tales From The Dark Side — uma das faixas mais icônicas da banda — pulou nos braços da plateia, num stage diving que deixaria até mesmo Iggy Pop*** morrendo de inveja. Ele atravessou boa parte do Dodger Stadium dessa forma e, ao chegar no outro lado, foi colocado de volta no chão pelos braços de seus fãs mais devotos, que o seguraram como quem tem em mãos uma pedra preciosa. Depois disso, ele foi escoltado de volta até o palco por meia dúzia de seguranças. Tudo isso sem perder uma nota sequer de seu solo.
Isso que era um grande guitarrista.
Outro momento memorável, para dizer o mínimo, foi quando algum fã, bem informado sobre o apreço da banda por certas drogas, atirou no palco um baseado grande o suficiente para derrubar todos eles. Kyle, que antes conversava com a plateia, não hesitou em acender e dar uma longa tragada — afinal, os avisos de “proibido fumar” nunca se aplicavam à banda —; logo passando para Nic, o maior maconheiro dentre eles.
O baixista deu risada quando notou que na seda estava escrito em grandes letras cursivas “Weaselback fede” e logo correu para mostrar à , que, sentado atrás de sua bateria, também riu e fumou um pouco do baseado. O público foi à loucura quando Kyle confirmou o que estava escrito e ainda mandou a banda rival beijar seu traseiro, em livre tradução. Já podiam imaginar aqueles mauricinhos metidos à rockstar loucos de raiva, xingando a The Knickers de todas as formas possíveis no Twitter.
Nos bastidores, Jeffrey Price, ao invés de se preocupar com a repercussão que aquilo surtiria, se permitiu rir. Estava bem humorado demais para se estressar no momento, já que tudo corria de forma mil vezes melhor que o esperado. A pré-venda fora um sucesso, haviam vendido cópias o suficiente para ocupar todos os assentos do Dodger Stadium; os garotos estavam incríveis no palco, tocando seu melhor rock n’ roll e envolvendo o público de uma forma que poucos artistas conseguiam.
Aquela história toda sobre Damage Control ser mais uma experiência para aqueles que o escutassem, do que apenas um compilado de músicas se confirmou com o decorrer do show. Cada música fazia com que os fãs transcendessem — o que poderia ou não estar relacionado com o uso indiscriminado de drogas —, o som era marcante; Kendall e Nic passaram horas estruturando notas e riffs, numa tentativa de produzir uma melodia tão pegajosa quanto as letras, escritas majoritariamente por . Assim, cada bendita faixa passava uma sensação diferente para o público.
E Red Light não era exceção disso, muito pelo contrário. Assim que os primeiros acordes da música começaram a tocar e cenas do videoclipe foram projetadas atrás da banda, a multidão foi à loucura. Era um hit, não tinha como negar.
pegou-se estufando o peito de orgulho, quando sua imagem apareceu para as dezenas de milhares de pessoa ali. Seu trabalho no clipe fora impecável e, como resultado, a atriz se tornara uma espécie de deus menor para os fãs da banda. Kelsey lhe dirigiu um olhar de mãe orgulhosa, e ela sentiu mãos desconhecidas lhe cumprimentarem com batidinhas nas costas.
A plateia cantou a música em plenos pulmões e até mesmo , que secretamente sabia de cor e salteado cada palavra cantada por Kyle, se permitiu levar. Pela primeira vez na noite ela dançou e até mesmo se pegou cantando junto de sua melhor amiga, que parecia que explodiria de tanta excitação.
Para o desapontamento de noventa por cento da plateia que não teria o privilégio de seguir para a after party, com o fim da música também chegou o fim do show, depois de três horas de puro rock n’ roll.
Os garotos se concentraram na frente do palco, deram um abraço grupal que levou o público à loucura e, logo em seguida, formaram uma fila. Ainda se abraçando de lado, eles ficaram uns instantes ali, apenas sendo ovacionados e depois se curvaram num agradecimento ao som ensurdecedor de dezenas de milhares de palmas.

Notas:
* Dodger Stadium: O Dodger Stadium é um estádio de baseball localizado em Los Angeles, Califórnia. É a casa do time de baseball Los Angeles Dodgers. Tem capacidade de 56.000 lugares e recebe shows de várias bandas.
** Mötley Crüe: é uma banda norte-americana de glam metal criada em Los Angeles, Califórnia em 1981.
*** Iggy Pop: é um cantor de rock americano, frequentemente creditado por inventar o stage diving.

Capítulo 9

Waldorf Astoria era um hotel luxuosíssimo situado em um dos pontos mais cobiçados de Beverly Hills.
, apesar de confusa, não poderia estar mais satisfeita com a escolha do local que sediaria a festa, já que a proximidade com a sua casa certamente significava que dentro de poucas horas, ela estaria debaixo do cashmere de suas cobertas importadas.
O hotel era realmente deslumbrante, e a atriz já estivera lá antes, em um jantar pré Oscar dado pela Chanel dois ou três anos atrás. Era tudo muito requintado e de bom gosto, por isso ela ainda tentava entender como haviam aceitado sediar uma festa dada por ninguém menos que a The Knickers, banda cuja reputação de destruidores de propriedades era famosa em todos os cantos do mundo.
Após terem seus nomes checados na lista, eles foram escoltados até o terraço por uma recepcionista com cara de fuinha, que nervosamente acabara dizendo “sinta-se à vontade” e “senhorita ” mais vezes do que poderiam contar. O nervosismo era apenas um dos efeitos de uma verdadeira estrela de Hollywood em meros mortais como aquela mulher.
Quando as portas douradas do elevador se abriram revelando o terraço, já haviam ali pessoas demais para os costumes antissociais da atriz. O local poderia facilmente comportar mais de quatrocentas pessoas; apesar de que a quantidade de nomes impressos na lista de convidados da entrada certamente ia muito além disso.
A decoração da festa era simples e não correspondia nem um pouco com as expectativas de , que não pode evitar imaginar que a comemoração se assemelharia muitíssimo a uma orgia gigantesca. Na verdade, a coisa mais extravagante ali era a mobília do terraço, certamente vinda do catálogo de verão de uma franquia caríssima de móveis planejados. Também havia uma série de bares espalhados por todo o local e uma magnífica piscina de borda infinita que brilhava em diferentes cores, além do toque The Knickers na decoração: uma mesa de DJ com aparelhagem de última geração, uma fonte tamanho gigante de tequila e um pôster maior ainda da capa do álbum que era celebrado naquela noite.
A imagem se tratava do quintal de uma mansão; no centro da foto, havia uma lamborghini laranja afundada numa piscina. Os garotos estavam espalhados pelo local e, ao bater o olho, o primeiro que podia-se ver era Kyle, sentado sem camisa num trator cortador de gramas. Do outro lado estava deitado numa espreguiçadeira, com uma camisa florida de botões abertos que lhe concedia a aparência de um turista de férias no Caribe. Nic estava sentado na borda da piscina com os pés da água; enquanto Kendall posava de frente para uma churrasqueira, vestindo apenas um avental e meias pretas, como se assasse uma carne. O caos da imagem era complementado pela série de garrafas vazias de cerveja espalhadas por todo canto, além de maços e bitucas de cigarro e alguns móveis aleatórios, como uma televisão, jogados pela área da piscina.
Nem em um milhão de anos a atriz admitiria isso, no entanto, achara a capa simplesmente genial. Fazia jus ao comportamento sempre caótico da banda e além de também servir como uma resposta ao próprio título do álbum, Damage Control. Aparentemente, era assim que eles lidavam com os danos que causavam por onde passavam: bebendo cerveja e fazendo churrasco, ou, em outras palavras, eles não davam a mínima.
Mas, pelo jeito, a fonte de tequila gigante não era a única coisa bizarra daquela festa — nem mesmo as garçonetes que, vestidas elegantemente, serviam carreiras de cocaína em suas bandejas. Certamente o que havia de mais atípico naquela noite era o fato de que estava absoluta e completamente deslocada.
Isso era, com certeza, algo que não se via com frequência.
Tão logo que chegaram ali, Zac tratou de dar uma desculpa estupidamente esfarrapada e desaparecer; assim, ela não vira mais nem sequer um relance de seus cabelos escuros pela multidão. Além disso, poucos minutos depois, Kelsey encontrara um loiro misterioso que logo conseguiu convencê-la a sair com ele para sabe lá Deus onde. Provavelmente era alguém da equipe da banda; a agente sempre tivera uma queda por figuras do rock.
Então era isso; seus dois acompanhantes, resolvendo dar uma de mágico Houdini, desapareceram, deixando-a completamente sozinha.
Encostada no parapeito do terraço, tendo a vista de Beverly Hills em todo seu esplendor, estava pronta para dar o fora dali. Kelsey que a desculpasse, mas ela não passaria mais um segundo sequer naquela festa, sozinha, com cara de idiota enquanto todos pareciam se divertir como nunca.
A atriz deixou sua quarta taça já vazia de martini na primeira bandeja livre de cocaína que encontrara circulando por ali e já se virava para ir embora, quando ouviu uma voz conhecida soar ao seu lado.
— Você não imagina minha surpresa quando fiquei sabendo que a Barbie Hollywood viria para a nossa humilde festa.
contou até dez quando se deu conta de quem se tratava.
fucking era certamente a última pessoa de quem ela precisava naquele momento.
— Dá o fora daqui, , eu não estou com um pingo de paciência para suas gracinhas.
O sorrisinho sarcástico no canto de seus lábios fez com que a atriz quisesse esbofeteá-lo.
— Sua mãe nunca te ensinou que é muito feio desrespeitar o anfitrião?
não respondeu. Apenas ficou encarando a vista de Beverly Hills diante de si, pensando que se o ignorasse, ele iria embora.
Ela certamente não o conhecia direito.
— O que achou do show? — questionou, se escorando no parapeito de forma que ficasse ao lado dela.
Não sabia ao certo o porquê, mas, naquele momento, a opinião dela era importante.
— Foi decente.
— Decente? — Ele ergueu as sobrancelhas. — Sério?
bufou sem paciência, odiando Zac mais do que nunca por não estar ali cumprindo a exata função pela qual ela aceitara trazê-lo naquela festa.
— O que você quer aqui, hein?
— Eu estou muito entediado e pensei que você poderia me entreter um pouquinho. — abriu um sorriso largo, apenas para irritá-la, e teve que conter uma risada ao perceber que havia dado certo.
Ela revirou os olhos.
— Isso aqui é a festa de divulgação do seu álbum, está todo mundo aqui para te ver… como é que você está entediado?
— Eu sou um cara muito difícil de impressionar, princesa. — Ele respondeu fazendo um biquinho.
Se garçonetes montadas em Louboutins servindo cocaína não o impressionasse, não queria saber o que o faria.
Não muito longe dali, um barulho de coisas caindo na água soou alto pelo lugar. Eles se viraram a tempo de poder ver um grupo de mulheres pulando na piscina fazendo topless, Kyle vestindo apenas uma cueca estava no meio delas.
— Se isso não é impressionante o suficiente para você, eu realmente não quero saber o que é… — respondeu bufando uma risada.
— Atrizes bonitas fazendo strip tease geralmente fazem o trabalho. — Ele disse, arrancando uma risada dela. — Principalmente quando elas vomitam na minha sala de estar depois.
O riso morreu no rosto de tão logo que escutara aquelas palavras. Por que ele sempre tinha que estragar qualquer sinal de bom momento que existia entre eles?
— O que você está fazendo aqui sozinha? Cadê seu namoradinho pré adolescente?
Aí está uma ótima pergunta, pensou.
Mas antes mesmo que ela pudesse responder, uma gargalhada típica de quem exagerou nas doses soou alta, e eles puderam ver Nicholas entrando debaixo da fonte de tequila, abrindo a boca para poder beber o máximo que conseguia. Não seria uma surpresa se em poucos minutos ele estivesse vomitando pelos cantos da festa.
Kyle estava se divertindo com mulheres nuas molhadas, Nic literalmente nadando em tequila e Kendall, àquela altura, provavelmente estava transando com alguma modelo qualquer na suíte presidencial reservada para a banda naquela noite… O que estava fazendo ali mesmo?
ajeitou a postura, entrando na defensiva. Nunca em um milhão de anos daria o gostinho de sua vulnerabilidade a .
— A única coisa pré adolescente aqui são esses pentelhos na cara, que você chama de barba. Zac tem vinte anos.
O baterista soltou uma gargalhada que fez com que os ouvidos dela ardessem.
A atriz esperou que ele ficasse ofendido com o insulto, no entanto, parecia muito mais interessado em tirar uma com a cara dela.
— Você está falando sério? O cara não pode nem beber legalmente! — Ele fez uma pausa como se analisasse as reações dela, que não soltou um ruído sequer. — Então quer dizer que você não sabe onde ele está? Interessante…
arqueou as sobrancelhas. Talvez fosse seu tom de voz, ou o fato de que estava constantemente tentando segurar uma risadinha… ela não sabia o que, mas algo no baterista a dizia que ele sabia exatamente o paradeiro de Zac.
E, de fato, sabia.
— Odeio ser a pessoa a te dar essa notícia princesa, mas, seu servo fiel não é mais tão fiel assim.
Ela bufou uma risada sem humor.
— O caralho que você odeia ter que me dar essa notícia, tenho certeza que você está achando tudo isso um máximo. — Revirou os olhos, arrancando uma risada malandra de em resposta.
— Estou mesmo, mas isso não importa. O que realmente importa agora é que, nesse exato momento, o mongol está trepando com uma ruivinha gostosa no décimo terceiro andar, quarto cento e trinta e cinco.
A princípio, não disse nada; apenas deixou que sua expressão fizesse o trabalho, num misto de desgosto e confusão.
— Você estava seguindo ele? Céus, você é nojento!
— O quê? Não, pelo amor de Deus! — bufou uma risada incrédula. — Acredite, princesa, tenho um milhão de coisas melhor para fazer essa noite do que ficar espiando o merda do seu namoradinho.
— Como por exemplo… encher a porra do meu saco?
Mas que inferno! Um pouco mais de um mês sem se verem e ele já tinha se esquecido como conseguia ser insuportavelmente irritante.
— Tudo bem então, só achei que você quisesse saber… — Como quem desiste, abaixou os ombros e já se virava para dar o fora dali, até que o impediu, segurando-o pelo braço.
— Merda, , fala logo.
A expressão derrotada em seu rosto acabou arrancando um sorrisinho escroto do baterista.
O que ele tinha visto? Bom, estava dando uns amassos numa groupie qualquer no corredor de seu quarto quando ouviu a porta do elevador se abrindo. Não era difícil de imaginar o tamanho de sua surpresa quando se deu conta de que o homem que beijava desesperadamente uma ruivinha enquanto a carregava no colo, era simplesmente Zac Russel, ou como ele gostava de chamar: o mongol de Hollywood.
Particularmente, não tinha nada contra o ator — o que obviamente mudara naquele mesmo momento —, nem sequer sabia de seu nome antes de ter encontrado-o nas mensagens de texto de . O reconheceu pelo seu papel no filme o Conto Do Duque De Windsor e fez uma breve pesquisa sobre ele, perguntando para alguns conhecidos seus da indústria cinematográfica. Não foi muito difícil descobrir que, apesar de promissor, Zac não era levado muito a sério em seu meio por ser jovem e estar apenas no começo de sua carreira, além da dificuldade de trabalhar com ele por ser muito infantil. Foi assim que ele inventara o apelidinho besta, apenas como uma forma de provocar .
Depois de ouvir aquela história, a atriz balançou a cabeça, desacreditada.
Quem aquele imbecil pensava que era?
Francamente…. abandoná-la no meio de uma festa para ficar com outra mulher? Zac só podia estar de palhaçada.
Apesar da expressão fria, o interior de queimava de raiva, como se alguém tivesse colocado fogo com a ajuda de todo o álcool que já consumira naquela noite.
Zac Russel era um idiota de marca maior, e desde o princípio ela sabia disso…, mas ainda assim resolvera fornicar com ele em seu camarim no set do Conto Do Duque De Windsor e agora ela estava ali, feito idiota, recebendo a notícia da pior forma possível: através de .
A atriz tinha consciência de que eles não eram exclusivos nem nada, e que só aceitara trazê-lo por seus próprios motivos duvidosos, mas… porra! Eles estavam juntos naquela noite, e se não fosse por ela, ele estaria em casa chupando o dedo, apenas sonhando com o dia em que seria convidado para uma festa da The Knickers.
— O que você planeja fazer sobre isso? — abriu um sorrisinho malandro e fez uma pausa, esperando por uma resposta que não veio. — Pensei que você não levasse desaforos, princesa.
— E eu não levo.
O baterista a encarou por um instante, achando-a incrivelmente bonita sob às luzes da festa.
Tudo bem, talvez eles não fossem exatamente os maiores fãs um do outro, no entanto, achava que a atriz merecesse mais do que apenas um moleque que a abandonasse no meio de uma festa para ficar com outra.
— E então? — Ele perguntou todo sugestivo, se inclinando em sua direção.
ficou em silêncio por um instante, como se pensasse sobre a resposta daquela pergunta. E não demorou muito para que o rosto dela se iluminasse, como se tivesse acabado de ter uma realização.
Completamente ignorando a aproximação de seus corpos, a atriz apenas abriu sua bolsinha Chanel e puxou um aparelho que não era seu, logo se dando conta de que pertencia a Zac.
— Será que você ainda tem seus jeitos? perguntou com um sorrisinho maldoso de canto. — Ele deixou comigo em algum momento do show e acabou esquecendo de pegar de volta.
O baterista abriu a boca em surpresa, apenas murmurando um “no fucking way” em resposta, antes de tirar o celular da mão dela.
não conteve uma risada ao ver que o plano de fundo do ator não era nada além de uma foto dele mesmo, sem camisa em frente ao espelho.
O que diabos via nele? Na cabeça de , aquilo não fazia sentido algum.
— E aí? — A atriz mordeu o lábio inferior, curiosa ao ver o baterista mexendo no celular.
Em questão de segundos, o aparelho já estava de volta em sua mão, desbloqueado.
— Que porra você fez? — Ela perguntou sem acreditar na rapidez com que ele lidara com aquilo.
— É tipo um super poder. — respondeu irônico, se encostando mais uma vez no parapeito enquanto a encarava.
não respondeu; apenas se limitou a encará-lo de volta, sem paciência alguma.
Ele soltou uma risada.
— Não tem senha.
— O quê?
— Não tem senha. — Repetiu.
Com o cenho franzido e pouco convencida, ela bloqueou o celular mais uma vez, apenas para ter certeza que conseguiria desbloqueá-lo em seguida.
E conseguiu.
soltou uma risada incrédula.
Que tipo de celebridade não coloca senha no celular e ainda o deixa por aí na mão dos outros? Apenas a mais burra delas, ela supôs.
— O que você vai fazer agora?
— Agora… — Ela fez uma pausa e virou-se para com um sorriso maléfico estampado no rosto. — Agora eu acabo com ele.

*****

— É Cheryl, certo? — leu o nome no crachá da recepcionista do hotel, usando seu sorriso mais polido.
A mulher, parecendo querer estar em qualquer lugar menos ali, apenas assentiu enquanto ajeitava seus óculos de gatinho na ponta de seu nariz de bruxa. Pela sua expressão, ela não estava muito impressionada por estar diante de uma celebridade.
— Então, Cheryl, meu namorado reservou um quarto para nós essa noite… — Ela começou, toda sorridente, lembrando-se da mentira que havia elaborado com . — e eu queria fazer uma surpresinha para ele, se é que você me entende. — Soltou uma risadinha, mas logo fechou a cara ao ver que a mulher não a acompanhava. — Você poderia me dar o cartão de acesso para o quarto que ele reservou? É o cento e trinta e cinco, o nome dele é Zac Russel; se escreve R-U-S-S-E-L.
A recepcionista soltou um suspiro pesado, como se estivesse sem paciência.
— Senhorita, nós do Waldorf Astoria prezamos, acima de tudo, pela privacidade dos nossos hóspedes. Eu não…
— Seus óculos são tão bonitos! — a interrompeu, apelando para ganhar a simpatia da mulher. — Eu amei a armação, caiu perfeitamente no seu rosto!
— Senhorita, eu não tenho autorização para te dar acesso ao quarto de um hóspede.
A atriz bufou irritada.
Talvez ela não fosse mesmo tão persuasiva quanto esperava que fosse.
Mas, felizmente, ela sabia como reverter aquela situação. Ou pelo menos era o que pensava.
— Você conhece meu amigo ? — , dando sua última cartada, puxou o baterista pelo colete até que ele ficasse de frente para a recepcionista.
Ele, que antes estava escondido atrás de uma coluna grega da recepção do hotel, quase caiu diante do susto de ser puxado bruscamente pela atriz.
O que diabos ela estava fazendo?
deu alguns passos para trás, deixando-o sozinho com a mulher.
Se ela não conseguira convencer a recepcionista velha e rabugenta, o baterista bonito e charmoso da The Knickers certamente faria esse trabalho.
Ansiosa, a atriz passou a morder a unha de seu polegar enquanto assistia flertar descaradamente com a mulher, que parecia muito menos intransigente do que instantes atrás.
No entanto, aparentemente, nem mesmo os cabelos loiros sedosos ou o sorriso brilhante do baterista foi páreo para o mau humor da recepcionista. Apenas uma nota de cem dólares, suavemente passada em cima do balcão, conseguiu fazer aquele trabalho.
— Você está me devendo para caralho depois dessa. — Foi a primeira coisa que disse assim que se aproximou de , com o cartão de acesso preso entre seus dedos.
— Se você quer um beijinho, rockstar, é só pedir. — Ela respondeu com sarcasmo, arrancando dele o cartão.
Embora fosse um porre de chata, é claro que nunca recusaria um beijo da atriz. No entanto, não daria esse gostinho a ela.
saiu rebolando até o elevador, apertou o botão e assim que as portas se abriram, se virou para ele:
— Você vem ou não?
O baterista pensou por um instante. Não fazia ideia do porquê, mas naquele momento, seguir um plano maligno de vingança com a atriz parecia muito mais tentador do que ficar bêbado até se esquecer onde deixara suas calças na própria festa.
Assim que as portas do elevador voltaram a se abrir no décimo terceiro andar, eles logo trataram de achar o quarto em questão, o que não foi muito difícil já que na medida que se aproximavam, os gemidos ficavam cada vez mais altos.
— Parece que eles estão se divertindo lá dentro. — fez uso daquele sorriso malandro que, até o momento, parecia ser o único que tinha. — Por que a gente não se junta a eles? Poderíamos fazer um swing!
— Vai se foder, .
— Eu tinha que tentar. — Ele deu de ombros.
Sem dizer uma palavra, começou a se livrar de seus pertences e arrancar suas botas de salto.
— Ou, ou, ou, o que você está fazendo? — perguntou assim que ela praticamente jogou sua bolsa por cima dos ombros dele.
— Eu vou entrar, e você… vai esperar aqui. — Ela abriu um sorriso vitorioso.
— Uma ova que eu vou! — O baterista tentou protestar, mas parou diante do olhar ameaçador da atriz. — Tudo bem, eu vou.
— Bom garoto. — Ela provocou fazendo com que ele revirasse os olhos. — Não sai daqui e, pelo amor de Deus, não faça nada estúpido.
Dito isso, entrou no quarto sendo o mais silenciosa possível.
Uma suíte comum no Waldorf Astoria era tão bonita e luxuosa quanto se espera de um hotel cinco estrelas. Embora estivesse tudo muito escuro, ela conseguiu reparar na decoração branca e clássica, além do chão todo coberto por um carpete bege. Apesar de toda a mobília cara dali, a coisa mais interessante do quarto era certamente a cama king size, onde Zac Russel fornicava com uma ruiva desconhecida.
Graças ao Deus que ela nem sequer tinha certeza de que existia, os dois estavam ocupados demais com sua dança de acasalamento para notar a presença da atriz ali, ou sua careta desgostosa diante daquela cena.
Zac era mesmo um nojo.
Com movimentos lentos e discretos, apanhou a roupa do casal do chão, além de qualquer coisa que eles poderiam usar para se cobrir, o que incluía os roupões de banho, além das toalhas com o nome do hotel bordado em dourado
— O que foi isso? — A atriz congelou no lugar quando a mulher perguntou, assim que ouvira um barulho estranho.
— Deve ter sido só alguém no corredor. — Felizmente, Zac era burro e tão desconfiado quanto uma mula.
O barulho? Bom, não fora particularmente cuidadosa quando resolveu cortar o fio do telefone com uma tesoura que achara por ali.
Quando o casal voltou a se beijar, ela apanhou tudo que havia recolhido naquela pequena expedição e saiu do quarto.
— Que porra é essa? — , sentado no chão, encostado na parede, perguntou assim que viu a atriz com um monte de coisas na mão.
andou com um sorrisinho vitorioso até a ponta do corredor, onde atirou tudo pela janela.
— Sem roupa, sem toalha e sem como falar com a recepção, eles vão ser obrigados a fazerem a caminhada da vergonha pelados. — Ela respondeu soltando uma risada diabólica.
— Você tem quantos anos? Dez? — questionou achando aquilo patético, embora chegasse a ser um pouquinho engraçado.
Tá legal, até que era bem engraçado.
— Cala a boca. — Foi a única coisa que ela disse antes de perceber que o baterista tinha o celular de Zac em mãos. — O que você fez?
Foi a vez de de sorrir malandro.
— Checa o twitter.
caminhou até ele, pegando seu aparelho de sua bolsa e seguiu seus comandos, abrindo a conta do twitter do ator.
No fucking way. — Sua boca abriu em perfeito “O” assim que viu um nude de Zac, que logo reconheceu como um que ele a enviara numa sessão de sexting* algumas semanas atrás. — Era exatamente disso que eu estava falando quando te disse para não fazer nada estúpido!
riu debochado.
— Você realmente pensou que eu fosse escutar? — Ele se colocou de pé e bateu seu indicador no nariz da atriz, como uma forma de provocação. — Você deveria ficar feliz que eu tenha visto essas imagens, porque agora eu entendo perfeitamente o que você vê nele.
Como uma forma obscena de provocá-la, fez um gesto com a mão, indicando o tamanho daquilo que Zac tinha entre as pernas. E teve que segurar uma risada ao ver a careta de nojo de .
— Além do mais, estou até impressionado com você… — Para o desespero da atriz, ele voltou a falar. — Eu sabia que você era uma princesa muito levada, só não fazia ideia do quanto.
corou até não poder mais diante daquela fala. Não podia acreditar que o baterista lera suas conversas picantes com o ator. Felizmente, não havia nenhum nude da parte dela; sempre achara Zac louco demais por se atrever em mandá-la fotos tão ousadas.
— Você não tinha o direito de mexer nisso, .
— Relaxa, princesa, eu não vou contar para ninguém que você é adepta do sexo selvagem.
não respondeu, apenas se limitou em atingi-lo com sua bolsa.
— Ai, ai, porra! — Ele reclamou rindo. — Pode assumir, , você me achou um gênio.
Ela revirou os olhos, cruzando os braços numa postura defensiva.
— Eu poderia ter pensado nisso sozinha.
— Poderia, mas não pensou. Agora admite que eu sou um gênio e que você está doida para fazer comigo tudo que eu li naquelas mensagens. — Ele provocou e apenas levou outra bolsada como resposta. — Eu já entendi que você curte violência, pode parar já. — Mais uma bolsada.
— Vai se foder, . — Foi a única coisa que ela se deu o trabalho de dizer antes de virar as costas para sair dali.
— Você está indo para onde, porra?
— Para casa, cansei dessa merda!
— E não vai nem me dar um beijinho de tchau? — Ele provocou, soltando uma risada assim que lhe dirigiu o dedo do meio.
— Até nunca mais, rockstar.

Notas:
*sexting: O termo “sexting” é a junção das palavras das palavras “sex” e “texting”, que pode ser traduzida livremente como “sexo por mensagens de texto”.