Make You Mine

Make You Mine

Sinopse: Ela nunca teve um sentimento tão negativo por uma pessoa como tem pelo melhor amigo do irmão desde que tinha apenas 5 anos e ele 10. Os dois nunca se deram bem, por vezes as brigas tomavam proporções muito maiores do que deveriam e ninguém nunca entendeu o motivo daquela implicância. Ele nunca a odiou de verdade, mas nunca a suportou também. Mas é o que dizem: o ódio, por vezes, é uma emoção apaixonada.
Gênero: Comédia Romântica.
Classificação: 18 anos. Contém: consumo de drogas lícitas e ilícitas, linguagem imprópria e cenas de sexo explícito.
Restrição: Apenas os personagens principais são interativos. Os nomes Harry/Harold, Carol/Carolyn, Daphne/Daph, Kimberly/Kim e alguns outros são citados com frequência.
Beta: Regina George.

I


Quando abracei Daph pela última vez antes que ela embarcasse para Boston, eu não queria ter de soltá-la. Tudo bem, é uma viagem de estudos, porque ela é uma filha da puta inteligentíssima e recebeu um convite de (nada menos que) Harvard para finalizar sua especialização em biomedicina e estudaria na melhor universidade do mundo totalmente de graça, mas mesmo assim é uma viagem e vai levá-la para o outro lado do país!
– Sinto como se eu fosse morrer por você estar indo para o outro lado do país. – soltei num resmungo, apertando-a mais ainda em meu abraço.
– Eu não prometo voltar depois que a especialização acabar, mas vamos nos falar todos os dias e nos visitaremos sempre que possível, , não me deixe com o coração ainda mais partido do que já está. – Daphne reclamou. – E, em todo caso, você está indo morar com o gostoso do seu irmão, que também é seu melhor amigo, então mais ganhos que perdas.
– Principalmente porque ele trabalha muito e eu passarei a maior parte dos dias sozinha.
– Agora preciso entrar naquele avião e você tem aula, gracinha. – Daphne separou o abraço, segurando-me pelos ombros e me olhou nos olhos, daquele jeito Daphne de ser carinhosa e cuidadosa comigo desde sempre. – Cuide-se .
– Você também, Daphne Kenner. – respondi, voltando a abraçar minha amiga. – Avise quando chegar, por favor.
– Pode deixar. – Daphne falou, dando um beijo demorado em minha bochecha e saiu na direção do portão de embarque.
Queria poder ficar deitada na cama chorando pela partida da minha melhor amiga para o outro lado do país, mas tenho aula pela manhã e preciso terminar de empacotar as últimas coisas da minha mudança, colocar tudo no carro e ir para o meu mais novo endereço: a casa do meu irmão mais velho, que agora também será minha casa. Uma casa enorme com piscina e uma vizinhança de pessoas ricas, perto da Praia de Palisades.
Segui para fora do aeroporto ignorando os paparazzi que tiravam foto de algum famoso que estava passando por ali.

~*~
– Achei que você tivesse desistido. – Harry falou quando eu, finalmente, toquei a campainha de sua casa no sábado de manhã.
– Você sonha muito alto, . – respondi e ele tratou de pegar a caixa que estava em minhas mãos.
– Vou abrir o portão da garagem, é mais fácil passar com as caixas pelos fundos.
– Falou feito um gângster. – respondi rindo. – Tudo bem, vou pro carro e você abre o portão dessa sua mansão.
– Trabalhe enquanto eles dormem… – começou a dizer rindo.
– E vai ficar com sono e mal humorado, além de ter sérios problemas de saúde.
– Cala a boca, , vá logo pro carro. – Harry me enxotou, dando uma risada, e eu obedeci.
Eu já vim nessa casa, muitas vezes é claro, mas nunca deixei de me surpreender com o tamanho e com toda a vizinhança que parece competir pra ver qual casa será a maior e a mais equipada. Aposto que Harry é o que menos se importa com isso. Ele apenas gosta de ter uma boa piscina e um espaço para reunir alguns amigos e nossos pais, quando eles resolvem sair de Sacramento e vir nos visitar. E espaço para Thor, o Border Collie mais lindo e carinhoso do mundo!
Estacionei o carro ao lado da BMW do meu irmão e ele já estava me esperando, pegou duas caixas ao mesmo tempo e eu fiz o mesmo, seguindo até o quarto que ele tinha arrumado especialmente para mim. Ainda foi preciso ir ao carro mais algumas vezes, mas logo todas as minhas coisas estavam no enorme quarto de hóspedes que passaria a ser o meu quarto por um bom tempo.
– Daphne já embarcou? – Harry perguntou quando eu me sentei na cama e ele estava parado, encostado no batente da porta, e me olhava curioso.
– Foi antes de eu vir pra cá e, a essa hora, deve estar quase perto de Denver.
– Planos pra hoje?
– Só ajeitar minhas coisas mesmo. E você?
– Vou sair com a Carol. Quer vir?
– Não, obrigada, não pretendo ficar segurando vela pra vocês dois, Styles.
– Pare de me chamar assim. – Harry reclamou. – Não pareço com aquele cara.
– Não mesmo, porque ele é lindo e você é… você.
– Muito mais lindo que ele.
– Nem em seus maiores e mais pretensos sonhos, Harold.
– Inclusive, precisamos estabelecer algumas regras nessa casa.
– Podemos dividir as contas.
– Podemos? – ele falou, dando uma risadinha. – Nós vamos dividir, você ganha um bom dinheiro na internet e tem seu estágio. Mas eu estava falando sobre regras de convivência.
– Não darei festas, Harry. E não passo muitas noites fora, pode ficar tranquilo que não vou perturbar seu sono, apenas se existir alguma festa bem legal pra ir, mas te aviso antes e sempre falo se volto ou não pra casa.
– Ótimo. E não é querendo ser chato, mas prefiro que essa casa não seja transformada em um motel, se é que você me entende.
– Não vamos conversar sobre isso, Harold Bannett. – fiz uma careta. – Não pretendo trazer ninguém pra cá nessas circunstâncias, mas é uma palhaçada que eu não possa trazer, mas você possa.
– Primeiro: a casa é minha. Segundo: Carol é minha namorada, então não sai uma mulher diferente do meu quarto todos os dias. Terceiro: ela vem aqui mais do que você já veio em toda sua vida.
– E de onde você tirou que sairia um homem diferente do meu quarto todos os dias? – perguntei, erguendo uma das sobrancelhas.
– Você é universitária, ou seja…
– E é por isso mesmo eu não tenho condições de ter nem mesmo um homem só saindo do meu quarto, quem dirá um diferente por dia! – dei uma risada.
– Você é fraca… na sua idade eu tinha pique pras duas coisas.
– Você tem duas cabeças que funcionam, eu só tenho uma. E, em todo caso, não teremos esse problema, pode ficar tranquilo.
– Não quero aparecer em seus vídeos.
– E ninguém do meu público quer te ver, Harry.
– Já que estamos entendidos, vamos almoçar e depois você arruma suas coisas.
– Vou me oferecer para cozinhar, porque você é razoável, mas não tão bom quanto eu.
– E eu vou aceitar, porque você cozinha mesmo muito bem. – Harry deu um sorriso e eu levantei da cama, seguindo com ele para a enorme cozinha que ele mal deve usar, porque o coitado sabe apenas o básico do básico de culinária. – Tem falado com nossos pais?
– Todos os dias, basicamente. – dei de ombros. – E você?
– Também. A mãe disse pra eu cuidar bem de você, como se eu já não fizesse isso…
– Faz, mas antes mal ia me ver também.
– Claro, aquela proximidade de universitários me dá preguiça. – respondeu implicante.
– Convide Carol pra almoçar conosco amanhã. Eu cozinho.
– Gosto de como você já chega querendo me paparicar. – deu uma risada abafada.
– Cadê o Thor?
– Petshop. Ele estava precisando de um banho bem dado. – riu. – Vou terminar de parafusar as prateleiras pra você no quarto.
– Obrigada, Harry. – agradeci e ele sorriu antes de sair da cozinha e me deixar sozinha para que eu pudesse começar a preparar nosso almoço.
Não comeríamos nada muito elaborado, primeiro por eu estar com muita fome e zero vontade de demorar para cozinhar, segundo por eu ter que fazer algo elaborado no dia seguinte, então iria pelo caminho mais fácil na cozinha: macarrão. Coloquei minha playlist de R&B para tocar, deixei o celular sobre o balcão e fui procurar pelo que Harry tinha na geladeira e nos armários, temendo pelo pior, mas fui surpreendida, encontrei muita coisa, vale dizer, pra um homem com habilidades duvidosas na cozinha e que passa a maior parte dos dias trabalhando. Ele se esforça.
Ouvi o barulho da furadeira enquanto pegava as panelas para começar o preparo de nosso almoço, um macarrão simples e uma salada. Depois ainda teria que ajeitar todas as minhas coisas em seus lugares, fazer algumas aparições no Instagram – e o post monetizado, claro. – e depois estudar um pouco. Então, resolvi começar pelo mais fácil: Instagram.
O post monetizado estava salvo e eu o publiquei, curti algumas coisas e fui para os stories, faria alguns falando sobre a ida de Daphne – que já tinha sua foto devidamente publicada e um enorme texto falando sobre isso – além de contar sobre a mudança, filmar o almoço e fazer um pequeno drama sobre os estudos.
– Estou estreando a cozinha da minha casa nova… – falei para a câmera frontal do celular enquanto gravava com uma mão e dei um sorriso pequeno. – Depois que Daph foi aceita em Harvard, resolvi vir morar com meu irmão, eu só gostava de dividir apartamento com minha melhor amiga e duvido que eu fosse encontrar outra pessoa com quem a convivência fosse ser tão tranquila, como Harry mora por aqui mesmo e é perto do campus, ele aceitou de bom grado e agora moro com essa pessoa maravilhosa que é meu irmão. Vamos almoçar bem rapidinho e esse barulho de furadeira é Harry colocando prateleiras no meu novo quarto… enfim, só vim dar um sinal de vida, mostrar meus dotes culinários e depois passar o resto do dia entre assentar a mudança toda e estudar. Tenham uma boa tarde, volto depois.
Os vários stories foram postados e eu voltei minha atenção ao nosso almoço. Eu estava mesmo com fome e com certeza Harry também está. Voltei a deixar o celular de lado, ouvindo a voz do Post Malone enquanto eu colocava a massa para cozinhar e começaria a preparar o molho.

II


Os miados repetidos foram meu despertador. A sala estava clara, a televisão ainda estava ligada, mas o que me acordou foram os miados repetitivos que eram dados em minha orelha por aquele projeto de gato que eu adotei e agora faz de mim seu capacho.
– Venom, eu te odeio tanto, sua bola de pelos insuportável. – reclamei, ainda ouvindo aqueles miados repetidos e me virei para que ele saísse das minhas costas e eu pudesse ter alguns segundos de silêncio depois de ser acordado de forma forçada e pouco educada.
Senti meus músculos e meus ossos doerem enquanto ficava de pé e me espreguiçava de forma lenta e dolorosa. Eu parecia ter sido desmontado e montado de novo, mas com as peças todas nos lugares errados. O preço que se paga por envelhecer e dormir assistindo televisão. Relaxante muscular. É o que eu preciso. De um bom relaxante muscular.
Ou de álcool.
Já dormi diversas vezes nesse sofá quando estava tão bêbado que não conseguia nem chegar ao meu quarto, nos dias seguintes eu sempre estava com tanta ressaca que nem conseguia me atentar aos outros tipos de dores que eu sentia. Nota mental: só dormir no sofá se eu estiver muito bêbado, fora isso é proibido.
Ainda preciso terminar de conferir um projeto antes de ter o meu fim de semana apenas para mim e para o insistente gato preto que continua me olhando como se eu estivesse demorando demais para atender a ordem de um superior. E eu estou, sei disso.
Quando Venom miou outra vez, eu finalmente fui para a cozinha para colocar comida para ele, mas, infelizmente para nós dois, a ração tinha acabado. Ou seja, meu café da manhã está adiado para que eu vá comprar o café da manhã para esse morto de fome que adotei há dois anos e meio. E, em todo caso, não tenho nada comestível nessa casa e tenho mesmo que ir ao supermercado.
– Venom, você vai me odiar ainda mais quando descobrir que eu não tenho nada pra você comer aqui. Mas, em compensação, também não tem nada para que eu possa comer. Vou lavar o rosto e fazer compras, prometo tentar voltar rápido e te alimentar feito o rei que você é. Você pode esperar sem morrer de fome, porque está tão gordo que seu nome deveria ser Majin Boo.
Ele, claro, não respondeu e eu fui lavar o rosto e vestir algo para sair de casa, porque essa camisa puída e essa bermuda suja definitivamente não podem ser vistas fora dessas quatro paredes. Preciso de uma lista de compras. E vestindo as roupas de sair, comecei a anotar no celular o que era preciso comprar e pouco depois estava saindo para o supermercado. Eu devia ter feito compras durante a semana.

~*~
Munido de muitas sacolas de papel, que fique claro, sai do carro e entrei no elevador que me deixaria em meu andar. Eu ainda teria que descer outras duas vezes, com certeza, porque eu não fui inteligente o suficiente para comprar sacolas reutilizáveis e que cabem muitas coisas e nem levei caixas. A parte importante é que pelo menos eu estou alimentado.
Quando abri a porta do apartamento, encontrei Venom sentado sobre o encosto do sofá e me olhava quase inquisidor. Pelo menos a ração e a areia estão comigo, então posso resolver meu problema com ele antes de continuar subindo e descendo pra carregar compras. E depois de mais de duas horas, todas as embalagens estão limpas e bem guardadas e eu estou devidamente alimentado também. Ainda tenho que limpar a casa, mas isso vai ficar pra amanhã, agora vou dar uma olhadinha no projeto que trouxe pra casa ontem.
Coloquei os fones no ouvido e abri a playlist de Soul como uma preparação para o trabalho. Trabalhar em casa e não ganhar nem meio centavo a mais por isso é a coisa mais absurda do mundo, principalmente porque não consegui terminar o trabalho por conta das sete reuniões que tivemos só essa semana. Em cinco dias foram sete reuniões. Sete. E eu poderia ter sido dispensado de três delas, pelo menos, mas as pessoas pareciam gostar de me ver em reuniões e lá estava eu, sentado e ouvindo coisas que não mudavam nada na minha vida.
Provavelmente o lema de vida de algumas pessoas é: “vamos encontrar maneiras de deixar o entediado e com prazos apertados sem nenhuma justificativa além de olhar em sua bela face enquanto resolvemos problemas que não o dizem respeito e nos quais ele nunca pode nos ajudar a resolver”.
E enquanto Sam Smith estava cantando e sendo a trilha sonora do meu trabalho, retomei a análise do projeto de uma rede de hotéis que está reformando um de seus prédios aqui em Los Angeles. Eles queriam um pré-projeto para a avaliação e eu o fiz, foi aprovado e agora eu tenho que executar, pra não correr riscos eu sempre reviso todos os meus projetos e refaço cálculos e medidas, porque uma vírgula em um lugar errado pode destruir milhares de vidas.
Passei boas horas revisando o projeto inteiro, desde a planta até o projeto em 3D no computador e só parei quando terminei, nem meu estômago roncando alto me fez sair da cadeira em que eu estava e quando desliguei o computador e guardei a planta, eu estava oficialmente de folga e livre para curtir meu fim de semana em paz e sozinho, já que meu date no Tinder foi cancelado e meu melhor amigo vai sair com a namorada, então me resta apenas o conforto do meu sofá (enquanto estou acordado), televisão e comer.
E quando deitei no sofá, depois de preparar um bom sanduíche de geleia e pasta de amendoim, o ser gordo que mora comigo e atende pelo nome de Venom, tratou de se empoleirar por lá também, mas deitou-se ao meu lado, com a cabeça sobre a minha barriga e olhava para a tela da televisão ainda desligada.
– E então, o que veremos hoje? – perguntei e ele deu um miado preguiçoso. – É, eu também acho que deveríamos assistir algo pra machos imponentes e bastante másculos como nós dois. O que acha de assistirmos Frozen 2? Eu ainda não tive tempo de ver e gostaria de ter sua companhia nesse momento. – outro miado preguiçoso e eu ri antes de começar a procurar pelo filme no catálogo.

~*~
Quando cheguei em casa da minha corrida de quase todas as manhãs, deixei os fones e o celular sobre a cama e sai arrancando a roupa para tomar banho. Preciso ser ágil se quiser chegar ao escritório no horário certo e tudo depende muito do andamento do meu banho e do café da manhã que é tomado com calma todos os dias da semana, numa espécie de ritual que desenvolvi quando vim para Los Angeles.
Alimentei Venom antes de sair, fiz um carinho nele e sai do apartamento. Ainda tinha, pelo menos, vinte e seis minutos de trânsito para enfrentar e ir me preparando mentalmente para aguentar as pretensas tentativas de Sandy, a secretária do meu setor, de me convencer a sair. A mulher é linda de um jeito que chega a ser constrangedor e eu não sei como ela acabou sendo secretária e não uma Angel da Victoria’s Secret. Só que ela precisa entender que eu não estou afim de sair com ela, primeiro por ela ser tão bonita que eu mal consigo olhá-la, segundo por não querer misturar trabalho com a vida pessoal e, terceiro, não estou interessado mesmo.
Além disso, tenho uma reunião importante hoje com um cliente e depois preciso finalizar dois pré-projetos antes de marcar a apresentação com os clientes. E mal devo ter tempo de comer ou de ligar pra minha mãe e conversar com ela, já que não fizemos isso no fim de semana, porque ela viajou para Salem pra visitar uma tia e só volta pra casa hoje.
Dirigi pelo caminho até o escritório ao som de Maroon 5, cantando animadíssimo com Adam Levine e logo estava estacionando e descendo do carro. Um dia de trabalho me espera e eu vou vencer esse dia pra ir pra casa, comer e dormir. Se o Venom deixar.

III


Harry rolou os olhos quando me viu entrando em casa com algumas caixas de papelão que eu recebi de algumas marcas. Estamos morando juntos há duas semanas e ele tem se divertido bastante quando me vê em casa, já que trabalha muito e tem dias que sai ou chega quando eu já estou dormindo.
– O que é isso?
– Algumas lingeries que recebi da Victoria’s Secrets, tem um kit da nova linha de maquiagem da Kim Kardashian e algumas peças de roupas de lojas… os livros devem chegar na semana que vem. E algumas coisas que comprei, porque eu estava mesmo precisando.
– Como foi que você virou uma influenciadora digital?
– Não sei. Fiz uns vídeos despretensiosos e eles ganharam mais atenção do que eu imaginava.
– Vou ao supermercado daqui a pouco, como sei que você vai ficar fazendo vídeos disso pro Instagram, vou perguntar agora pra não te interromper: precisa de alguma coisa especial?
– Não, mas eu fiz a lista de compras e ela está presa na geladeira.
– Você é a melhor.
– Eu sei. – respondi em tom convencido. – Agora vou mesmo fazer os stories disso aqui e estudar um pouquinho.
– Bom trabalho. – falou e eu sai, deixando-o na sala com o que quer que fosse que ele estivesse assistindo e segui para o quarto.
Abri as caixas e li as cartas que vieram junto e eu logo comecei a filmar as peças de roupas e as lingeries, depois fiz o mesmo com a maquiagem e coloquei uma caixa de pergunta para saber se as pessoas queriam um tutorial de maquiagem (spoiler: elas sempre querem) e fui experimentar tudo que tinha recebido, aproveitando para fazer stories e falando sobre o caimento de cada uma das coisas recebidas.
Tudo serviu perfeitamente, sem surpresas, afinal as marcas sabem o tamanho que visto e mandam justamente neles para que eu use e faça a divulgação em troca de um pouco de dinheiro e bastante roupa de graça. O enorme espelho do closet era de grande utilidade naquele momento (e em tantos outros) e eu fiz vários vídeos agradecendo pelo que tinha recebido, elogiando as coisas boas e apontando um ou outro ponto fraco.
Precisava me trocar e estudar, mas antes eu precisava beber uma água e buscar alguma coisa para comer na cozinha e voltar pro quarto sem problemas, afinal, estou sozinha em casa e não preciso mesmo me preocupar com vestimentas nesse momento. Segui pelo corredor curtindo algumas fotos no Instagram e passei para o WhatsApp, respondi algumas mensagens e estava muito distraída com um meme idiota que Daphne tinha me mandado quando entrei na cozinha e esbarrei em algo.
E cai.
O que diabos era aquilo? A parede? Mas, quando ergui os olhos, dei de cara com a última pessoa que pensava em encontrar ali. E a última que eu gostaria de ver em toda a minha vida.
– O que você está fazendo aqui? – perguntou, me olhando sem entender.
– Eu é que te pergunto isso. – respondi áspera, ficando de pé e ignorando sua mão estendida para me ajudar. – Como você entrou aqui?
– Pela porta da frente. – respondeu óbvio. – E não te devo satisfações, essa não é sua casa.
– Ah é sim! – respondi brava. – Eu moro aqui há duas semanas, seu otário!
– Isso explica os motivos de você estar só de sutiã e calcinha pela casa. – respondeu num tom ácido, dando uma risadinha debochada.
– Sim, porque eu moro aqui! Você é só um maluco estranho do cacete que entrou nessa casa do nada e sem ser convidado!
– Ao contrário do que você pensa, , eu estou aqui porque fui convidado pelo dono da casa!
– Mas ele não está e em sua ausência quem manda sou eu! Então pode dar meia volta e esperar na rua! E pare de me chamar assim, inferno!
– Foi ele mesmo quem me mandou esperar aqui dentro de casa, então cuide da sua vida e vá vestir uma roupa, .
– Se você está tão incomodado com o que estou vestindo, vá embora. – respondi e ele deu um sorrisinho de lado, irritante, e cruzou os braços em frente o corpo.
– Eu não estou incomodado, a vista é ótima.
– O que diabos você veio fazer aqui? – perguntei nervosa e ele estalou os lábios em um desdém que quase me fez voar em seu pescoço.
– Visitar meu melhor amigo que, infelizmente, é seu irmão. Não sabia que teria a infelicidade de te encontrar, se ele tivesse me contado que você está morando aqui, eu teria mudado o dia do videogame pra minha casa.
– Pois faça isso. Pode ir embora, eu aviso ao Harry que você foi pra lá e ele vai também. Tchau.
– Grossa.
– Insuportável.
, você precisa ser mais educada. Tenho certeza que Sally te deu educação.
– Ela deu, mas não uso com pessoas do seu tipo. Otário. – respondi e aquele idiota deu um sorrisinho vencedor.
– Vou esperar na sala, se quiser ir junto com esse belo conjunto da Victoria’s Secrets eu ficarei honrado em ter sua presença.
– Vá pro inferno! – falei, saindo da cozinha e quase quebrando o chão com a força das pisadas.
Eu vou matar meu irmão assim que eu tiver a chance! Como ele deixa que o ser humano mais insuportável da história da humanidade entre em casa e fique aqui quando EU estou em casa? Harry sabe muito bem como nós dois nunca nos demos bem, ele tem total e completo conhecimento de que há um ódio mútuo entre nós dois e que um local em que estamos os dois pode, facilmente, se tornar uma cena de crime! E o pior, ele nem avisou ao amiguinho que eu estou morando aqui e que essa casa agora é um território terminantemente proibido para ele!
Harry e esse idiota são melhores amigos desde os dez anos. Melhores amigos mesmo. E e eu nunca nos demos bem. Desde a primeira vez que coloquei os olhos nele eu já sabia que o odiava. Eu só tinha cinco anos e o mais próximo de ódio que eu sentia era não gostar de algum personagem de desenho. Mas eu o detestava, não suportava olhar na cara dele e quando ouvia sua voz, eu sempre saía de perto.
Ele também nunca foi muito com a minha cara, sempre implicando comigo e me fazendo sentir ainda mais raiva da existência dele, então eu nunca tive um motivo concreto para não odiar com toda a força do meu ser. Uma explicação racional pra todo esse ódio nunca existiu, mas ele existe e é isso.
“Espero que você esteja preparado para morrer assim que colocar os pés nessa casa, Harold ! O que esse infeliz está fazendo aqui?”, enviei para Harry e tirei o conjunto de lingerie e vesti a roupa que estava usando antes de ter meu dia completamente estragado pelo intragável, insuportável e desnecessário .
Meus chacras estão totalmente desalinhados e a culpa é total e exclusiva dele.
Peguei as chaves do meu carro, juntei meu material de estudo na mochila e resolvi sair de casa, se eu queria mesmo estudar, eu tinha que estar bem distante daquela casa e só na universidade eu conseguiria estudar em paz.
– Aonde você vai? – ouvi Harry perguntar quando me viu passar pela cozinha.
– Pra biblioteca da universidade. – respondi sem olhá-lo.
– E qual o motivo disso?
– Estudar, claro. – dei de ombros, deixando a mochila no banco do carona e segui para o banco do motorista.
Thor reclamou pela falta de atenção, mas eu não tentei resolver a situação, apenas dirigi para fora da casa e segui até o campus da faculdade.

IV


– Sua irmã sempre foi uma idiota, você sabe disso. Não estou surpreso. – dei de ombros e Harry soltou um resmungo pouco satisfeito, enquanto fazia carinho em Thor.
– Nem sei como eu ainda me surpreendo por esse ódio gratuito de vocês dois.
– Você deveria ter me falado, vai ser melhor mudar o dia do videogame pra minha casa.
não é a dona da casa, , então ela terá que aprender que aqui as coisas funcionam diferente do que eram na casa dela.
– Que advogado mais firme e lindo, meu Deus! Queria que me desse uma chance… – brinquei, dando um beijo estalado na bochecha de Harry.
– Se eu não fosse tão bem comprometido, eu te daria uma chance.
– Você perdeu a chance de me apresentar sua cunhada. Agora é tarde, não posso competir com Shawn Mendes nem se eu quiser.
– Perdi, mas vou pedir pra Mel apresentar alguma amiga dela pra você. – piscou. – Só que você nem precisa disso, porque tem várias mulheres querendo esse seu corpinho nu.
– Enumere, porque eu não conheço nenhuma.
– A Sandy é a primeira.
– Ela é bonita demais, cara. Não existe a menor chance de eu sair com aquela mulher, porque tenho certeza que eu vou desaprender até a beijar na boca e babar a cara dela inteira.
– Não seja exagerado. – Harry falou rindo. – Mas é, ela é bem gata mesmo.
– Um dia ela vai se cansar de me chamar pra sair e vai desistir.
– Ainda acho que você deveria aceitar, porque ela é muito gata, mas se está tão afim de você, claramente ela não se importa que você seja feio.
– Vá se foder. – respondi, mostrando o dedo do meio e ele deu uma gargalhada, fazendo Thor olhá-lo como se fosse um maluco.
– Enfim, acho que você deveria tentar, não custa nada. E, em todo caso, Sandy claramente quer sair com você.
– Você tem uma autoestima muito alta, Harry, porque sua namorada é linda demais pra você e você age como se fosse normal.
– E é. – deu de ombros. – Se tem uma coisa que aprendi na vida, , é que toda mulher é bonita demais pra qualquer homem. Mas, em todo caso, sou uma pessoa resolvida com minha imagem mesmo e tenho sorte de ter uma namorada tão linda e que me ame tanto.
– Você tem certeza que não quer namorar comigo? – perguntei, fazendo Harry dar uma risada mais comedida dessa vez para não assustar o cachorro. – Tenho certeza que a Carol aceita.
– Ela já sabe que nós dois somos um casal. E aceita.
– Podemos começar a jogar videogame? Estou quase acreditando que somos um casal mesmo, porque a gente só conversa.
– Já deveríamos estar jogando, porque eu tenho mais o que fazer.
– Hoje é sábado e sua namorada te dispensou cedo pra ver as amigas, pois sabe que hoje é o dia do Clube do Bolinha.
– Mas quem disse que o que eu tenho pra fazer está relacionado à Carol?
– Eu mesmo, porque se não for isso, você vai dormir.
– Acertou! – riu. – Vá buscar umas cervejas pra nós e vamos jogar. Preciso te dar uma surra no Counter Strike.
– Eu andei praticando, . – respondi, ficando de pé e fui até a cozinha para buscar as cervejas e alguma coisa para comermos.
Alguma coisa sem nada de origem animal, porque eu não consumo nada disso e meu melhor amigo sempre compra coisas veganas para nossas tardes quinzenais jogando videogame, bebendo e falando da vida alheia. Eu amo esse homem mais do que tudo na vida mesmo.
Quando sentei em meu lugar da sorte, já com uma cerveja e o controle do videogame em mãos, o clima amistoso se desfez, começamos a levar muito a sério o jogo e Thor resolveu que era hora de se retirar. Já conhecia aquele momento e nunca era muito agradável de se ver, mas, apesar de toda a disputa, nunca brigamos de verdade por causa de jogos.
E eu perdi, é claro. Já estava acostumado a perder para Harry, principalmente quando ele estava descarregando seu estresse no jogo depois de uma semana cheia. Já tinha escurecido quando eu finalmente resolvi ir embora e deixar que Harry avisasse para a criatura insuportável que ele chama de irmã que eu já tinha me retirado e ela poderia voltar pra casa.
Não sinto ódio por , de forma alguma, acho ódio uma palavra forte, mas não gosto dela e nós nunca fomos mesmo um com a cara do outro. Desde que eu conheci Harry, ela sempre foi ranzinza, folgada, chata e insuportável. Eu quase achei que isso poderia estragar minha amizade com Harry, mas nunca tivemos problemas. Nem quando ela era absurdamente agressiva e mal educada sem nenhum motivo aparente.
Meu celular tocou assim que entrei em casa e era uma chamada de vídeo da minha mãe. Aceitei sem titubear e me deparei com seu enorme sorriso diante da tela do celular.
– Olá, mulher mais linda dos Estados Unidos. – falei, fazendo-a sorrir.
– Não do mundo?
– Mãe, já tivemos essa conversa… infelizmente a existência de Emma Watson impossibilita que a senhora seja a mais linda do mundo.
– Quem te colocou no mundo fui eu, , você deveria ter um pouco mais de respeito por mim.
– Eu te respeito e te amo mais do que tudo na vida, mãe. – respondi, sentando-me no sofá e quando fiz menção em pegar Venom, ele miou e saiu de perto.
Cheiro de cachorro.
– Como estão as coisas, meu filho?
– Bem tranquilas, mãe. E por aí?
– Tudo do mesmo jeito de sempre. Estou pensando em ir te visitar.
– Pois aceito com toda certeza. – sorri e ela sorriu de volta. – Estou sentindo sua falta.
– Deveria vir me ver.
– A última visita foi minha, então é a sua vez de vir me ver.
– Tudo bem… esse fim de semana você estará disponível?
– Estou disponível todos os dias se for para a senhora, mãe.
– Você compra minha passagem pra quinta-feira? – perguntou e eu assenti. – De noite, que dê pra você me buscar depois do trabalho.
– Na sexta-feira eu trabalho também…
– E daí? Eu vou na quinta-feira mesmo.
– Tudo bem. Posso até te levar na praia no fim de semana se você se comportar, mocinha. – brinquei e ela deu uma risada.
– Chame o Harry.
– Claro. Quer que ele leve a também? – perguntei, fazendo uma careta e ela riu.
– Eu já vi esse filme, . Eu já vi. – ela falou, dando um sorrisinho e eu rolei os olhos.
– Mãe, a senhora é minha mãe e deveria ficar ao meu lado, sabe?! – reclamei, ofendido, e ela deu uma risada.
– Eu estou ao seu lado e no futuro você vai me agradecer.
– Enfim, mãe, vou comprar suas passagens. Volta na segunda-feira de manhã?
– Você está me expulsando de Los Angeles muito rápido…
– Estou, porque se a senhora deixar o Venom mais mal acostumado do que da última vez, eu serei obrigado a contratar o Harry e te processar.
– Você não tem dinheiro pra isso.
– Não precisava ser tão direta assim, sabe? – dei uma risada e ela riu junto. – Ele mora numa casa enorme, vou forçá-lo a dar um almoço lá pra senhora.
– Como se fosse um esforço enorme pra ele. – desdenhou. – Mas pode comprar pra outra segunda-feira, quero passar alguns dias com você.
– Aconteceu alguma coisa?
– Não posso querer passar uns dias com meu bebê?
– Sempre, seu bebê está sempre pronto para ter sua companhia, senhora .
– Compre minhas passagens e eu vou desligar agora, vai começar o episódio de CSI que eu quero ver. Converso com você depois. – ela falou, acenando em despedida e nem esperou minha resposta para desligar.
– Venom, você não pode me tratar assim. – reclamei e ele me olhou fazendo pouco caso. – Tudo bem, vou tomar banho e tirar o cheiro de cachorro pra você vir me dar amor e carinho. E, claro, vou te dar seu sachê, porque com certeza você quer. Morto de fome. Eu preciso parar de ficar conversando com você feito um louco.
Deixei Venom na sala e segui para o banheiro, porque eu realmente preciso de um bom banho, fazer algo pra comer e passar a noite assistindo televisão na companhia do meu gato, porque minha mãe só chega na semana que vem pra me mimar e fazer companhia.

V


“Estou saindo e NÃO volto pra casa hoje, vou dormir na KΔ. Beijos e não esqueça que eu te amo. .”
Deixei o bilhete pregado na geladeira e conferi novamente o checklist que tinha em mãos, com tudo devidamente marcado, então eu posso sair de casa sem problemas ou esquecendo algo, porque segui todos os passos e peguei tudo que preciso.
– Thor, cuide bem da casa enquanto o Harry não chega, tudo bem? – falei, abaixando para fazer um carinho em sua cabeça e ele me olhava atentamente com seus grandes olhos azuis. – Ele deve chegar daqui a pouco, então enquanto isso você cuida bem da casa. Amanhã eu volto e nós vamos passear, como temos feito todos os dias. Fique bem, tem ração e água pra você, sua caminha está arrumada e é só você cuidar de tudo enquanto Harry não chega.
Thor deu um latido como se me respondesse que sim, ele cuidaria bem da casa, e eu fiquei de pé, saindo da cozinha e indo para o meu carro. A mochila com as roupas para dormir e as coisas para me arrumar estavam todas no carro e eu só tive que sair da garagem e dirigir até a Kapa Delta, a fraternidade da qual faço parte.
Ao som de Oasis, segui tranquilamente até a casa. Ainda faltavam algumas horas para a festa da Sigma Chi e aquela festa prometia ser uma das melhores festas já promovidas por alunos no campus, principalmente por ser despedida de alguns dos veteranos. E, como meu dia foi bem cheio na aula e no estágio, a única coisa que espero é que essa festa seja tão boa quanto me prometeram.
– Você demorou. – Kim falou quando abriu a porta.
– Tive que passar em casa primeiro pra buscar as coisas. Hoje a redação foi um verdadeiro inferno e eu não consegui sair mais cedo, como achei que sairia.
– Temos tempo de nos arrumar, mas gostaria de mais tempo pra fofocar.
– Podemos fazer isso amanhã de manhã.
– Eu, sinceramente, espero não acordar no mesmo quarto que você, . – falou, enquanto subíamos as escadas para o quarto que dividimos durante o primeiro semestre da faculdade, junto com Daphne.
– Eu tenho a pretensão de acordar nesse quarto, então…
– E como está sendo morar com seu irmão?
– Ótimo. – respondi sorrindo e deixando as coisas sobre a cama de Kim. – Harry e eu sempre nos demos bem, então está sendo muito bom. Ele é um irmão maravilhoso.
– Harry é maravilhoso dentro e por fora então. – Kim deu um sorriso cheio de malícia. – Você já superou a ida do amigo dele até a casa de vocês?
– Nem me lembre disso. – bufei. – Faz uma semana, mas toda vez que eu lembro, eu fico com ódio.
– Você sabe o que dizem por aí, não sabe? Que o ódio é uma emoção apaixonada. – implicou e eu lhe mostrei o dedo do meio.
– Continue falando essas coisas e eu não deixo você nem chegar perto da minha nova paleta da Kim K.
– Você está mais do que certa em odiar esse troglodita que nem conheço, mas também já odeio.
– Obrigada por sua empatia, Kim. – ri. – E então, onde estão as outras?
– Algumas ainda presas nos estágios, outras presas nos quartos com namorados…
– Preciso da matéria do Gao. Meu arquivo deu erro e não salvou.
– Vou te mandar agora, daqui a pouco não pensaremos em mais nada que não seja essa festa. – Kim falou séria, indo até sua escrivaninha e se debruçando sobre o notebook para me enviar a matéria por e-mail. – Você não tem nada pra promover no Instagram hoje?
– Fiz isso antes de sair de casa. – dei de ombros.
– Quando eu crescer quero ser igual a você: digital influencer, estudiosa, nerd, vai a festas e não perde aula e nem abaixa a média 9,5. E mesmo fazendo tudo isso, está sempre linda e impecável.
– É desgastante ser bonita e competente o tempo todo, mas eu consigo. – respondi, fazendo Kim rir. – E você também.
– Você tomou banho?
– Ainda não. Só fui buscar as coisas mesmo.
– Então vá. Eu também vou e vamos nos arrumar, hoje eu quero ser a segunda mulher mais linda daquele lugar, porque a primeira será você.
– O primeiro lugar é seu. – dei de ombros.
– Melhor dividirmos. – foi a vez de Kim dar de ombros. – E hoje quero chamar bastante a atenção do Jason.
– É, realmente não vamos acordar no mesmo quarto. – dei uma risada. – Vou tomar banho e você também deveria ir, se faremos uma super produção, precisaremos de bastante tempo.
– Não se faça de desentendida, sei que você também está interessada em chamar a atenção do Liam.
– Talvez eu esteja. – dei de ombros, mas sorri. – Mas não vou admitir nada pra você.
– Não precisa admitir pra mim, mas pra ele. E, passarinhos me contaram que ele também está bastante interessado.
– Eu devia ter vindo morar aqui e não com o Harry. Ficaria sabendo de todas as fofocas. – estalei os lábios e Kim deu uma gargalhada.
– Banho, . Vamos tomar banho e começar nossa arrumação.

~*~

, você está muito ocupado? – ouvi a voz de Sandy e tirei os olhos da tela do computador.
Já tinha finalizado o projeto que estava reavaliando e estava pronto para ir pra casa. Sandy tinha alguns papéis em mãos e sua expressão preocupada me deixou preocupado também.
– Pela sua cara, eu não estou indo embora… certo? – perguntei sofrido e ela assentiu, aproximando-se.
– A senhora Downey pediu pra você revisar isso aqui de novo, tem uma inconsistência e um outro orçamento que chegou pra você.
– Isso não pode esperar? – perguntei, pegando os papéis e os dois pendrives que estavam nas mãos dela.
– O orçamento é pra quarta-feira, pelo que ela disse, mas a reavaliação precisa ser feita hoje, ela vai apresentar pro cliente amanhã.
– Tudo bem. – resmunguei. – Vou avisar minha mãe que nosso jantar vai ficar pra amanhã, mas entrego a revisão daqui a pouco.
– Sinto muito, . – Sandy falou sincera.
– Tudo bem, ela fica até semana que vem, teremos muito tempo juntos.
– E quando você vai aceitar meu convite para sair? – perguntou, num tom suave e que fazia parecer um crime negar o convite.
– Quando ela for embora. – respondi sincero. – Ela viaja na outra segunda-feira, podemos marcar pra depois.
– Quem já esperou dois anos, espera mais uma semana sem problemas. – Sandy piscou. – E, dessa vez, eu vou cobrar.
– Está marcado. Só dizer onde e quando.
– Minha casa. Terça-feira depois do expediente. – Sandy piscou e saiu da sala, deixando-me sozinho com os papéis e meus pensamentos.
“Aceitei sair com Sandy, se for uma merda a culpa é toda sua!”, enviei para Harry depois de avisar para minha mãe que eu chegaria tarde e que ela deveria jantar sem mim e guardei o celular de volta na pasta. Agora, mais do que em qualquer momento dessa sexta-feira eu preciso me concentrar no trabalho, mesmo que agora eu esteja pensando bastante em Sandy na casa dela na outra segunda-feira. Ainda…
Quando finalmente consegui sair do escritório, depois de deixar o projeto revisado com a dona da empresa, eu era o único do meu setor e não demorei muito a ir pra casa, pedalando com calma minha bicicleta e sentindo a brisa fresca da noite. Eu teria um fim de semana inteiro com minha mãe – e um almoço na casa de Harry que, com certeza, vai ter a presença do ser humano insuportável que ele chama de irmã – e depois uma semana me dividindo entre trabalhar e aproveitar as noites com Venom e minha mãe.

~*~

Infelizmente eu não tinha uma boa desculpa para não estar em casa hoje. E, em todo caso, Harry me proibiu de fazer tamanha desfeita com Debbie, a mulher tinha perguntado sobre mim e, em todo caso, não tenho nada contra ela. O problema é o filho dela que é um idiota e um desperdício de oxigênio. Ela que me perdoe por isso. Posso ignorá-lo, sei bem como fazer isso. Vai dar tudo certo.
E, em todo caso, Carol também estará presente, podemos nos distrair com conversas que envolvam Debbie e Harry que lide com o babaca do melhor amigo.
– Preciso que você tire umas fotos minhas, hoje não postei nada no feed e preciso dessa sua ajuda, por favor. – pedi e Harry rolou os olhos.
– Tudo bem, mas me ajude com essa salada. Sobrou pra mim a coisa que eu mais odeio fazer. Eu odeio fazer saladas. – reclamou e eu dei uma risadinha e assenti, pegando um avental para não sujar o vestido.
– Quando Carol chega?
– Daqui a pouco. E não, Melrose não vem.
– Uma pena, queria vê-la.
– Antes de eu tirar a foto, é uma boa você passar uma base no pescoço, tem uma marca bem… estranha aí… – Harry apontou e eu senti o rosto corar.
– Nossa Harold, obrigada mesmo por avisar, eu ainda não tinha visto. – debochei e ele deu uma risadinha provocadora.
– Sua festa foi bem proveitosa, uh?
– Você não faz ideia de como foi. – falei no mesmo tom e ele me olhou pouco contente com a informação. – Eu pedi pra ele não apertar tanto, na hora nem percebi que ia ficar marcado assim, mas foi muito bom, vale o sacrifício de gastar um pouquinho de base…
– Não preciso saber isso. – falou, fazendo uma careta.
– Foi você quem perguntou, Styles, pare de ser chato.
– Se você ficar me chamando assim, eu vou te chamar por aquele apelido que você odeia.
– Harry, cala a boca e me dá logo as coisas pra essa bendita salada! – pedi, rindo, e Harry pegou os vegetais que tinha separado.
Não seria uma salada muito elaborada, ficaria bem gostosa e acompanharia bem o resto da comida que tínhamos feito, mas o maior motivo para sua existência era que não come carne ou qualquer coisa de origem animal, então o almoço não tem absolutamente nada disso. Acho uma causa nobre, mas não consigo achar bom quando é vindo dele, porque ele é muito ridículo para ter esse tipo de boa conduta e ser um ser humano minimamente aceitável. Enfim, Harry e eu fizemos algumas receitas que encontramos na internet e tinham ficado muito boas.
Carol chegou pouco depois da salada ter sido finalizada e eu estava no quarto passando uma boa base para cobrir as marcas aparentes que Liam tinha deixado depois da festa. Mas, é como dizem por ai, sem marcas não se conta histórias.
– Gosto de como você fica linda vestindo qualquer cor. – Carol elogiou e eu dei um sorriso sincero para minha cunhada.
– Você também fica. – respondi. – Harry tem uma sorte do caralho por ter uma namorada tão perfeita, gostosa e maravilhosa igual a você.
– Eu sei. – Harry respondeu, sorrindo, e mandou um beijo para Carolyn. – Tem dias que nem eu acredito que namoro com essa deusa!
– Parem com isso. – Carol resmungou e eu abri um sorriso ainda maior, mas que foi morrendo aos poucos ao ouvir a campainha. Thor saiu pulando todo serelepe para a entrada, traindo nosso pacto de odiar até a morte.
– Vá abrir a porta. – Harry basicamente ordenou e eu olhei ofendida. – Estou ocupado, caramba! Vá logo e deixe de ser mal educada!
– Eu te odeio e vou abater isso nas contas da casa.
– Não ouse.
– Já ousei. – respondi, indo até a porta, onde Thor estava parado e pulava frenético e animado com as visitas que acabaram de chegar.
?! – a voz surpresa de Debbie ao me ver foi a primeira coisa que ouvi quando abri a porta.
Ela logo me tomou em um abraço carinhoso – e aproveito para dizer que nunca entendi bem o motivo dela gostar de mim, quando eu e o filho dela nos odiamos muito desde a primeira vez em que nos vimos; mas eu também gosto dela, então é algo que nem tento entender ou explicar de verdade. – e saudoso, que foi correspondido da mesma forma.
– Debbie, você está ótima. – sorri, soltando o abraço e olhando-a. – Faz tempo que não nos vemos.
– Faz mesmo. Você não tem ido muito a Sacramento…
– Mamãe e papai reclamam da mesma coisa. – resmunguei, dando espaço para que ela entrasse e assim que o fez, saímos e dei as costas para o insuportável do que estava brincando com Thor.
Cachorro traidor!
Outra leva de abraços entre Debbie, Carol, Harry e o inominável e logo estávamos sentados à mesa. Harry estava ao lado de Carol, Debbie ao lado do filho e eu estava entre ela e Carol. Nós três conversávamos um pouco sobre várias coisas. Debbie parecia muito interessada em saber sobre o futuro acadêmico de Carolyn, que contava sobre sua futura especialização e deixava a mulher bastante animada.
O almoço seguiu sem incidentes, nem eu e nem nos olhávamos e estávamos muito bem assim, até porque todos os outros três sabem bem que nós dois não damos certo e se pudermos evitar todo e qualquer tipo de contato e conversa, evitaremos.
– A comida ficou deliciosa. – Debbie elogiou ao final do almoço.
– Espere até ver a sobremesa. – sorri.
– Foi você quem fez?
– Foi sim. Com uma boa ajuda de Harry. – respondi e ela sorriu surpresa.
– Está mal temperada. – ouvi a voz de num tom de desdém e apenas respirei fundo e ignorei sua existência.
Ele estava falando aquilo apenas para me importunar e eu não cederia às provocações baratas apenas para me irritar e me dar rugas.
– E então, , ouvi dizer que a filha dos Kenner está em Harvard agora… como é o nome dela?
– Daphne. – sorri. – E sim, ela está. Recebeu uma boa bolsa e está fazendo sua especialização em biomedicina. Morávamos juntas antes dela ir, mas agora eu vim morar com Harry.
– Infelizmente. – e Harry falaram juntos, mas os tons eram totalmente diferentes.
Harry quis soar implicante.
quis soar sincero.
Mentalmente eu dei um soco na cara de , mas na vida real eu me limitei a sorrir falsamente e voltar minha atenção a Debbie e Carol.
– Harry e… você – falei com . – lavem a louça. Nós vamos sentar na sala.
– Lava você. – respondeu atrevido e Debbie o olhou com cara feia. – Isso só funcionava quando eu era pequeno, mãe.
– Eu te chamaria de mal educado, mas sua mãe com certeza te deu educação, você só é um idiota incapaz de assimilar as coisas, aparentemente. – respondi, recebendo um olhar divertido de Carol e um zombeteiro de .
– Eu tenho educação, , eu uso com as pessoas que merecem e fazem por onde. Você nunca fez por merecer, então só sobra meu desprezo.
– Você é um idiota.
– Mas eu pelo menos sei temperar uma comida. E sei disfarçar marcas. – respondeu, apontando para o meu pescoço e eu teria voado no pescoço dele para matá-lo se não tivesse uma mesa entre nós e três testemunhas.
– Certo, lavar louça. – Harry interrompeu antes que eu falasse algo e piorasse mais ainda o clima, ficou de pé e começou a recolher a louça para lavar.
– Eu acho que nunca vou entender esse clima bélico entre vocês. – Carol falou quando sentamos as três na sala.
– É assim desde que eles eram pequenos. o detestou desde a primeira vez que o viu. – falou rindo. – E ele fez o mesmo. É esse clima de guerra sempre… no começo achávamos que era apenas implicância dela por ciúmes do irmão, mas ela realmente não gosta do .
– E você lida bem com isso? – Carolyn perguntou surpresa e Debbie deu de ombros.
– Sempre gostei de , desde que ela era uma criancinha de uns dois anos, que foi quando conheci os pais dela numa reunião da escola em que e Harry estudavam. E ela sempre foi bem boazinha comigo, o problema dela é com e eles vão se acertar com o tempo.
– Isso eu duvido. – respondi dando uma risadinha nasalada e ela sorriu.
, vocês vão. Nem que seja pra acabarem, finalmente, saindo no tapa.
– Peço perdão por dizer que eu gostaria mesmo de dar um soco na cara dele.
gosta de implicar com você, , deixe pra lá e ele perderá a graça de te importunar.
– Ele é um idiota. Com todo respeito a você, Debbie.
– Ah ele é mesmo, mas na adolescência era pior. – ela brincou.
– Pra mim isso parece amor enrustido. – Carol provocou, recebendo um aceno de concordância por parte de Debbie.
– Eu achava que eles se resolveriam antes, mas parece que eles resolveram adiar. – Debbie respondeu, fazendo Carol me olhar com um divertimento quase passível de agressão.
– Isso nunca vai acontecer. – respondi séria. – Não existe a menor chance de isso acontecer!

VI


– Você saiu com a Sandy mesmo? – Harry perguntou num tom quase perplexo.
– Não sei o motivo da surpresa. – Respondi, dando de ombros. – Eu te falei no dia que aceitei.
– É, mas achei que você acabaria dando alguma desculpa idiota e enrolaria a coitada por outros duzentos anos.
– Não foi exatamente sair, se você parar pra pensar…
– Como assim?
– Ela me chamou pra ir até o apartamento dela depois do expediente e eu fui, tomamos um vinho, ela fez o jantar e você deve imaginar o que aconteceu.
– Eu ainda não acredito que você realmente cedeu. – Harry deu uma risada, tomando um bom gole de sua cerveja e eu dei de ombros.
– Ainda bem. Eu estava um pouco necessitado. – Soltei uma risadinha ao falar.
– E como foi o resto da semana?
– Acho que nunca transei tanto na minha vida. – Respondi dando uma risada pelo nariz. – Amanhã nos encontramos lá em casa? Espero que Thor não te odeie por chegar em casa cheirando a gato, o Venom sempre me odeia quando volto da sua casa.
– Ele está acostumado com cheiro de gato, afinal, eu sou um. – Harry respondeu num tom que misturava o convencimento e o divertimento e eu fui obrigado a rir.
– Eu não acredito que você falou isso mesmo. – Respondi rindo. – Você é ridículo.
– Você sabe que é a verdade.
– Claro que sei, mas você deveria ser mais humilde.
– Eu sou humilde, . Reconheço que sou um gato, mas menos do que o Henry Cavill e o Chris Hemsworth.
– Eu me recuso. – falei rindo.
– Enfim, nós nos encontramos lá em casa, a vai passar o sábado todo fora. Estaremos em paz.
– Ótima notícia, vamos beber e depois jogar sinuca pra comemorar!

~*~

– Vai dormir comigo hoje? – Liam perguntou, dando um sorriso sugestivo e eu neguei com um aceno.
Estávamos em um bar próximo ao campus, depois de uma reunião com alguns alunos da Kappa Delta e da Sigma Chi para um projeto da UCLA.
– Tenho que estudar.
– Que saco, eu queria muito.
– Você não vai morrer se passar uma noite longe de mim, Liam.
– Ninguém te garante isso, .
– Eu garanto. – Respondi e Liam soltou uma risada pelo nariz. – E, em todo caso, só estamos tendo algo casual. Se eu começar a dormir com você todos os dias, faz isso ficar sério e nenhum de nós dois quer isso.
– O jeito como você me trata como uma foda casual e pisa na possibilidade de eu desenvolver algum sentimento sério por você é diferente. – brincou. – Mas tudo bem, eu também preciso estudar, tenho um seminário na segunda que vai me deixar louco.
– Vai dar tudo certo, Liam. – Sorri. – Mas agora nós vamos beber muito e depois eu quero jogar sinuca.
– Você bebe, eu fico sóbrio e te deixo em casa depois.
– Parece uma desculpa para ir lá pra casa comigo.
– Eu entendi seu recado. – Ele deu uma risadinha. – Vou só te deixar em casa.
– Não precisa, eu volto bem sozinha. Você vai sair daqui, me deixar em casa e voltar? Nem faz sentido.
, sem chances deixar você ir embora sozinha. Você é a única que vai sair de carro, então eu te levo e volto pra cá de Uber.
– Tudo bem, Liam, não vai adiantar discutir. Vou aceitar, beber e te vencer na sinuca.

Passamos boa parte da noite ao redor de duas mesas de sinuca, bebendo cerveja e rindo da falta de habilidade de Chloe, mas Eddie estava sendo um bom professor e eles sumiram juntos depois de um tempo, o que foi uma deixa para que começássemos a nos despedir. Dei um abraço desajeitado em todos os que ficavam e Liam saiu me acompanhando, tinha os braços ao redor dos meus ombros e aquele sorriso bonito no rosto.
Fomos até onde meu carro fora estacionado horas antes e Liam tomou o assento do motorista, só partindo quando eu coloquei o cinto de segurança. Liguei o rádio e deixei que tocasse músicas aleatórias enquanto seguíamos pelo caminho até as proximidades da Praia de Palisades.

– Caralho, ! Você é muito mais rica do que eu imaginava! – Liam falou quando parou o carro na garagem.
– Correção, o Harry é muito mais rico do que você imaginava. Eu moro aqui de favor.
– Posso usar o banheiro?
– Isso me parece uma desculpa… – brinquei, desafivelando meu próprio cinto. – Mas, claro. Vamos lá.
– O cachorro?
– Ele não apareceu aqui, então deve estar com meu irmão e a namorada. E, em todo caso, Thor é um pamonha. – Dei de ombros, saindo do carro.
– Com esse nome eu duvido que seja. – Ele riu, tirando o próprio cinto e saindo do carro.
Seguimos para o interior da casa, pegando o corredor da esquerda para que ele pudesse ir ao banheiro e eu parei na cozinha para beber um copo de água e procurar algo para comer que não fosse me obrigar a cozinhar.
Liam voltou alguns minutos depois e eu só percebi quando ele estava bem perto de mim, virou meu corpo para si e me olhou por um breve segundo antes de eu beijá-lo.
Enfiei os dedos em seus fios de cabelo e ele me apertou contra o balcão, beijando minha boca com vontade, do jeito gostoso como ele fazia e me deixava um tanto desnorteada. Suas mãos estavam no balcão e eu estava presa – não que eu vá reclamar, de forma alguma. Quando Liam mordeu meu lábio, voltando a me beijar em seguida, eu tive certeza absoluta que dividiríamos a mesma cama em alguns minutos.
Separei nossos lábios apenas para sentar no balcão e o envolvi com as pernas, voltando a beijá-lo com vontade e desejo, sentindo a língua dele na minha e pensando em como ele a usava bem para tudo, Liam enfiou a mão esquerda dentro da minha blusa e apertou meu seio por cima do sutiã.
– Sua cozinha virou cenário de filme pornô, Harry. – Ouvi uma voz masculina e separei os lábios dos de Liam antes de abrir os olhos e, assim que o fiz, encontrei e Harry parados na entrada da cozinha.
– Boa noite. – Harry falou sério, mas tinha um sorrisinho implicante no rosto.
– Boa noite, Harry. – Respondi, descendo do balcão. – Esse é o Liam, um amigo meu da faculdade.
– Amigo. – deu uma risadinha implicante.
– É um prazer finalmente conhecê-lo, Harry. – Liam falou, estendendo a mão direita e Harry o cumprimentou. – fala muito sobre você.
– Espero que só fale coisas boas. – Harry soltou uma risadinha pelo nariz. – E é um prazer conhecê-lo também, Liam.
– E desde quando essa daí fala coisas boas de alguém?
– Quem foi que te perguntou alguma coisa?
– Estou apenas dando minha opinião, .
– Liam, vem. – falei, pegando a mão de Liam e ele me olhou sem entender.

– Só vou chamar o Uber dele, Harry. E, inclusive, já passou da hora de sermos apenas família nessa casa. – falei irritada e fiquei ainda mais irritada quando deu um sorrisinho vencedor.
Sai puxando Liam, que mal teve tempo de dar um aceno de despedida enquanto eu o puxava pra fora de casa.
– Não fique brava, teremos outras oportunidades. – Ele falou, me envolvendo em um abraço apertado.
– Não estou brava por isso. – Resmunguei. – Peça seu Uber e avise quando chegar.

Pouco depois do Uber de Liam partir, um carro passou por mim, abaixou a janela do passageiro, buzinou e passou me mostrando o dedo do meio.
Se eu tivesse uma pedra eu quebraria o vidro traseiro do carro, mas como não tinha, apenas entrei em casa sentindo ódio e pensando que poderiam mesmo liberar um homicídio por pessoa. Eu teria o prazer de matar de um jeito lento e doloroso e descontar todo o ódio que sinto dele.

VII


– Você fez isso mesmo? – Daphne deu uma gargalhada e eu assenti, também rindo. – Vocês precisam crescer e superar aquelas briguinhas de Sacramento, .
– Ele pediu por isso, Daph. – dei de ombros. – Mas, me conte… como andam as coisas em Boston?
– Cansativas pra caralho! Romantizam Harvard em filmes e séries, essa porra é difícil demais! Eu estou estudando todos os dias o dia todo! É gratificante, mas cansativo demais! Porém estou amando. – desabafou, fazendo com que eu risse.
– Amiga, Harvard é pra você. Você arrasa e vai ser o maior destaque. Aposto.
– Quem me dera… – resmungou. – Não tive nem tempo de sair pra outra coisa que não seja o supermercado e o campus!
– Teremos tempo pra isso nas férias, antes de você vir pra cá, vou te visitar e vamos sair pra conhecer algumas coisas.
– Tudo bem, mas depois vamos passar bons dias indo para a praia. E depois Sacramento!
– Por favor. Precisamos de um pouco de casa também.
– Mas, nesse momento, preciso estudar pra uma prova prática amanhã. – resmungou. – Eu odeio Harvard.
– Odeia nada. – respondi rindo. – Conversamos depois. Bons estudos e boa prova amanhã, você vai fechar!
– Não espero nada menos que isso. Cuide-se, . Por favor. – pediu e eu assenti.
– Você também, Daph. – respondi e ela me mandou beijos de despedida, encerrando a chamada e eu deixei o celular de lado e levantei da cama.
Preciso revisar a matéria do dia e ainda preciso fazer um post de divulgação de uma marca, além de pensar muito sobre o meu envolvimento enquanto blogueira na ação das irmandades para a UCLA.
Não sei se vale a pena esse tipo de envolvimento, as pessoas gostam de falar merda sobre o que não sabem e isso não é o tipo de coisa que eu goste, já recebi muito ódio desnecessário e prefiro não envolver as ações que faremos nesse mundo tão difícil e hostil que é o “lidar com o ser humano que acha que todos os aspectos da vida de uma pessoa pública são públicos e não apenas aquilo pelo qual ela ficou conhecida”.
Harry tinha avisado que não viria pra casa, tinha um caso extremamente difícil e passariam a noite no escritório revisando precedentes, provas e algumas outras coisas que nem me dei ao trabalho de prestar atenção, mesmo que eu tenha total certeza de que isso vai ter um lugar no LAT em breve. Harry já saiu algumas vezes no jornal por causa de seu trabalho e eu me sinto totalmente orgulhosa dele por isso. É um advogado totalmente competente e comprometido com o seu dever e é inspirador ver como ele ama o que faz.
Mandei algumas pizzas para o escritório e o avisei que elas chegariam em breve, porque se tinham que trabalhar, precisariam estar abastecidos. Ele não respondeu, mas provavelmente veria o bilhete que pedi pra que fosse escrito. Ele e a equipe trabalham muito e espero que saiam bem sucedidos no caso que têm em mãos agora.

~*~


Quando cheguei ao exterior do escritório, encontrei minha bicicleta com os dois pneus vazios. Eu teria ficado menos puto se não tivesse um saquinho com as duas tampinhas que vedam a saída de ar de cada pneu e um bilhete escrito: “boa sorte arrastando a bicicleta até em casa, .”.
Se eu encontrar , eu vou matá-la de forma lenta e dolorosa.
Como eu sei que foi ela?
Ela é a única que me chama por esse apelido estúpido, porque sabe que eu o odeio e faz isso para me irritar. Tudo bem, eu a chamo de pelo mesmo motivo, mas eu nunca fiz nada do tipo.
Quer dizer…
Não depois de adulto!
Eu quis ligar pro Harry e reclamar, mas ele não tem culpa de a irmã ser uma idiota sem escrúpulos e bom senso. Apenas tirei a corrente e segui empurrando a bicicleta até um posto de gasolina, que fica longe para um caralho, e enchi os pneus – anotar que essa idiota me deve cinco dólares! – e fui pra casa com ódio.

– É oficial, Venom, nós odiamos mais ainda agora. – falei quando entrei em casa e peguei o gato no colo. – É, ela é uma idiota. Mais do que o habitual! Acredita que ela teve a audácia de ir até o escritório apenas para esvaziar os pneus da minha bicicleta? Agora nós precisamos pensar em algo pra fazer com aquela patricinha fútil que só sabe ficar na internet. – falei, segurando Venom de frente pra mim e ele me encarava com seus enormes olhos verdes. – Mas, primeiro, vou tomar banho. E fazer nosso jantar.

Coloquei Venom no chão e segui até o banheiro para tomar um bom banho que se faz muito necessário, principalmente por ter andado tanto por culpa daquela idiota.
Mas ela me paga! Dizem que a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena, mas se eu morrer depois de matar , tudo bem. Posso viver com isso. Ou morrer.

VIII


– Sabia que ia te encontrar aqui. – ouvi a voz de Liam e me virei, encontrando-o parado de pé ao lado da minha mesa.
– Sabia, porque eu trabalho aqui. – respondi dando uma risadinha e ele se inclinou para me dar um selinho.
– Tá de saída?
– Só preciso entregar um artigo pro jornalista que revisa minhas coisas e estou livre.
– Vou te esperar lá fora então. – falou, voltando a juntar os lábios aos meus e saiu de perto.

Nós estamos nesse… lance.
Acho que ainda não é muito sério, mesmo que ele vá almoçar lá em casa no fim de semana, porque Harry convidou, e que eu já tenha conversado com os pais dele por FaceTime – eles moram em Denver –, ele também já conversou com meus pais pelo FaceTime e já postamos fotos juntos em redes sociais.
Tudo bem, é sério.
Gosto do Liam e ele parece gostar de mim do mesmo jeito, então é um relacionamento. Liam e eu estamos juntos. Ainda que não exista um pedido oficial, as coisas estão sérias desse jeito.
Sai da redação depois de entregar o texto ao jornalista e enviei uma mensagem para Harry, avisando que chegarei um pouco mais tarde em casa, pois vou sair com Liam e o encontrei do lado de fora, encostado em meu carro e mexendo no celular.
– E então, o que faremos? – perguntei quando estava perto e ele sorriu, colocando o celular no bolso e me puxou pra mais perto.
– Vamos jantar. – falou, sorrindo. – Mas, antes, quero te beijar. Hoje nem tivemos tempo pra isso.
– A culpa é sua. – falei, passando os braços pelos ombros de Liam e ele rolou os olhos, me abraçando pela cintura e me beijou.
E eu tinha ansiado por esse momento o dia inteiro, porque mal nos cruzamos nos corredores hoje. Liam teve um seminário importantíssimo e não conseguimos nem trocar mensagens.
Quando separamos nossos lábios, bem antes do que eu queria, seguimos a pé até o Redbird, no quarteirão seguinte, deixando os carros estacionados onde estavam e logo estávamos na mesa para dois que Liam tinha reservado.

– Eu sei que já estamos levando isso entre nós bem a sério, mas ainda falta a pergunta… – Liam falou, enquanto aguardávamos a sobremesa.
– Que pergunta? – me fiz de desentendida, mas, por dentro, estava soltando meia dúzia de foguetes.
– Eu queria saber se você aceita oficializar esse nosso lance e assumir o título de namorados… – falou, dando um dos sorrisos mais bonitos que ele sempre dava e eu quase derreti.
– Claro. – respondi, sincera. – Mas, acho que estamos assumindo esse título apenas para nós dois, porque o resto das pessoas que nos conhecem já têm isso como a verdade.
– E era mesmo. – deu de ombros. – Só que não tínhamos falado sobre isso.
– Oficialmente namorados. – sorri e Liam sorriu de volta.
– E então, o que preciso saber sobre Harry?

~*~


– Ei, , jantamos? – ouvi a voz de Sandy e tirei os olhos do computador pela primeira vez em horas para olhá-la.
– Sem chances. – resmunguei. – Tenho que terminar uma prévia daquele projeto e mostrar pra Downey amanhã, às nove. Devo ficar aqui até bem tarde, quando o porteiro me expulsar do prédio eu vou pra casa terminar lá.
– Eu ofereceria ir e cozinhar um bom jantar pra nós, mas seu gato me odeia e acho que ele prefere me ver bem distante de lá. – Sandy soltou um risinho pelo nariz.
– E eu discordaria, mas ele realmente tem alguma coisa contra você. Deve ser ciúmes porque você é mais bonita que ele. – respondi dando uma risadinha. – Desculpa, de verdade, mas eu preciso mesmo ficar até mais tarde.
– Tudo bem, não precisa pedir desculpas. – respondeu em um tom sincero. – Vejo você amanhã então.
– Avise quando chegar em casa. – pedi e ela assentiu, aproximando-se para me beijar.

Não nos beijamos de forma demorada, primeiro por estarmos em ambiente de trabalho, segundo, porque ninguém aqui sabe que nós estamos tendo esse… lance. Somos apenas colegas de trabalho dentro da empresa e fim de papo. Sandy não parece fazer questão de que as pessoas saibam também, então estamos ótimos da forma como estamos.
Pouco depois ela saiu e eu voltei ao trabalho, porque quanto mais adiantar aqui, melhor pra mim e menos trabalho pra fazer em casa. Coloquei os fones, abri o player e comecei a ouvir minha playlist feita para enfrentar momentos de tensão, uma excelente playlist que mistura Soul e R&B.
Passava das onze da noite quando fui embora, sem nenhum problema com os pneus da minha bicicleta e ainda pensando no que faria para descontar o que aquela praga fez, mas isso pode ficar pra daqui alguns dias, afinal, a vingança é um prato que se come frio.
E se for pra descontar bem, posso comer esse prato congelado.
E eu trabalhei até três da manhã, quando fui dormir tinha uma mensagem fofa de Sandy que precedia um nude e eu tive que respirar fundo e pensar que eram três horas da manhã e eu não podia simplesmente sair de casa e ir pra casa dela transar.
Estou velho demais e cansado demais pra isso.

IX

O sol está bem quente e forte, mas cá estou eu na praia com Sandy, observando como essa mulher parece ter saído diretamente de um desfile da Victoria Secrets e que tem sido minha companhia quase diária.
Ela está passando protetor solar nas pernas e tão distraída com o ato, não está atenta ao fato de que eu estou basicamente babando enquanto a observo fazer isso.
E nem faz sentido, em todo caso, afinal, já a vi pelada diversas vezes, transamos quase todos os dias… mas um biquíni tem o poder de mexer com a mente dos homens, porque nós somos criaturas bem visuais… mesmo sabendo o que está ali, é interessante e absolutamente excitante.
Não faço ideia de como essa mulher linda e tão agradável está comigo. Será que ela apostou com alguém do escritório que me pegaria? É uma das poucas possibilidades, porque ela é uma deusa! Linda por dentro e por fora, uma pessoa muito agradável, simpática, sensível…
Sandy virou-se para mim e estendeu o protetor solar, olhando de forma engraçada para a minha cara que devia estar ainda mais engraçada que a dela.

– O que foi? – perguntou e eu dei de ombros.
– Você é muito bonita e eu ainda fico bem impressionado com isso.
– Obrigada, agora passe protetor solar, . Não quero que você fique todo tostado e morra de dor por queimadura de pele.
– Imagina como eu ficarei lindo todo vermelho e dolorido…
– Prefiro que você não fique, se ficar vai ser bem difícil fazer algumas coisas.
– Ah é? – perguntei em um tom dúbio e ela assentiu.
– Sim, trabalhar, por exemplo… – respondeu, dando uma risadinha.
– Então melhor eu passar bastante protetor solar, não quero ter que pagar um absurdo num hospital por ter pego insolação por ser burro e não passar protetor solar, perder dias de trabalho por isso e receber menos do que já recebo. – respondi, abrindo o protetor e comecei a passar nas pernas, braços, barriga, rosto… tudo que eu conseguia alcançar.
Sandy passou nas minhas costas e eu passei nas dela depois e ficamos um pouco sob o guarda-sol antes de, finalmente, irmos até o mar.
Temos feito muitos programas de casal fora do trabalho, mas ainda que pareça ser um casal, não acho que sejamos mesmo. Não estamos juntos oficialmente, mesmo que haja exclusividade e todas as coisas que caracterizem um relacionamento, ainda não houve um pedido…
E muito provavelmente nem teremos um.
Gosto da Sandy, gosto mesmo, mas sei que não é da mesma forma que ela se sente, porque ela gosta de mim faz bastante tempo. Por mais que eu sinta algo especial (mesmo que não seja da mesma forma como ela gosta de mim e se sente a meu respeito nessa questão de relacionamento), sei que, infelizmente, não consegui chegar a esse nível de sentimento. Acho que, agora, gosto mais do que gostava quando começamos com isso, mas não é igual.
Talvez, com o tempo, as coisas fiquem mais… intensas, mas, por enquanto, sei que não me sinto assim e que é muito errado manter um relacionamento sem que seja algo recíproco e de mesma proporção, mas quero muito que isso entre nós dê certo, gosto da Sandy e ela é uma pessoa incrível, mas meu coração parece um pouco resistente aos encantos dela.

– O que acha de jantarmos fora? – Sandy perguntou, envolvendo os braços ao redor do meu pescoço e eu sorri, assentindo.
– Claro. Algum lugar em mente?
– Precisamos de algum lugar com opções veganas pra você comer, lindo… você sabe onde podemos ir?
– Viva Vegan. – respondi de pronto.
– Já comemos lá?
– Ainda não, esse fica na Wilshire Boulevard, aqui perto… E bem perto da sua casa.
– Jantamos e dormimos na minha casa então, o que acha?
– Por mim é uma ideia perfeita.
– Vou voltar pra areia, tudo bem pra você? – perguntou e eu assenti, recebendo um selinho demorado nos lábios.
– Vou dar mais alguns mergulhos e já vou.
– Cuidado pra não se afogar.
– Sempre tenho. – respondi antes de receber um beijo demorado e ela sair da água, parecendo uma deusa.

~*~
– Cara, você precisa pedir a Sandy em namoro de verdade. – Harry falou enquanto estávamos jogando videogame.
– Eu acho que sim, mas também acho que não. – suspirei e Harry pausou o jogo, me olhando sem entender.
– Então você não precisa pedir a Sandy em namoro, mas terminar o que vocês têm ao invés de ficar levando isso adiante.
– Eu sei. – resmunguei. – Gosto dela, de verdade. A companhia é ótima, ela é uma pessoa fantástica, mas não sei se eu gosto dela o suficiente pra oficializar o que temos, ainda que a gente já meio que namore…
– Não é namoro até haver pedido, .
– Eu sei disso, Harry. E acho que talvez ela peça antes e será horrível, porque eu não quero aceitar apenas por conforto, por estar numa zona de conforto dentro desse lance com ela, porque estou confortável com ela, mas negar o pedido pra ser sincero pode machucá-la e, talvez, me machucar nisso também, porque é agradável estar com ela… e pedi-la em namoro é um pouco fora de cogitação, por não ter certeza absoluta de que quero isso mesmo… eu estou confuso.
, mas você acha que nunca vai gostar dela do jeito que ela gosta de você?
– Não faço previsões do futuro, Harry, mas não posso falar com toda certeza de que eu vou me apaixonar totalmente por ela ou que as coisas mudarão, mas também não posso dizer que nunca vou me apaixonar por ela. Sei que gosto dela, a companhia dela é ótima e proveitosa e Sandy é uma pessoa incrível, mas acho que ela mereça alguém que esteja no mesmo nível que ela, entende? Alguém que já tenha a mesma intensidade que ela, mas ao mesmo tempo acho que não quero que isso aconteça, mesmo que pareça muito filho da puta, só que gosto dela e… – suspirei derrotado.
– Você é um cara legal, , porque outro cara nunca falaria algo do tipo e nem teria essa preocupação com o emocional de Sandy e com coisas desse tipo. Eu, particularmente, sugiro que você converse com Sandy a respeito disso, que vocês vejam o que e como as coisas podem ficar em pé de igualdade entre vocês. Talvez nem ela queira algo sério, o que eu duvido, mas talvez seja possível manter como está, sem rótulos, pelo menos por enquanto, pra você ter mais tempo de conseguir que as coisas fiquem páreas.
– Você faz as coisas parecerem fáceis quando fala assim.
– É meu dever enquanto advogado. – respondeu, dando um sorriso convencido e eu fui obrigado a rolar os olhos.
– Sabe no que eu estava pensando esses dias?
– Não leio pensamentos, meu amorzinho. – Harry falou, fingindo um tom mal educado.
– Que Venom detesta a Sandy. Tipo, detesta muito! Ele já a arranhou três vezes. E mordeu. Tive que levá-la pra tomar vacina por causa disso, mesmo que ele vá ao veterinário com mais frequência do que eu vou ao médico. Já conversei com ele, tive basicamente uma terapia com aquele pequeno cover do Lúcifer, mas não adianta nada! Ele a odeia! Só de vê-la, ele fica todo arrepiado e pronto pra atacar, sempre tenho que deixá-lo preso quando Sandy vai lá em casa.
– Sério?
– Muito sério. – dei uma risada pelo nariz. – Ela leva na brincadeira e diz que ele está apenas com ciúmes de mim, porque sempre fui “só dele” e agora estou sendo de outra pessoa, mas ele a detesta.
– Bom, seu gato desaprova o seu não-relacionamento. Isso quer dizer alguma coisa…
– Eu sei. – resmunguei.
– Mas, sinceramente, conversa com a Sandy e vejam isso com muita calma e como as coisas entre vocês ficarão. Já se foram uns três meses que vocês estão juntos…
– Um mês e meio, cara.
– Não pode ter só isso. Parece que tem bem mais tempo que vocês estão juntos!
– Não tem nem dois meses, pelas minhas contas.
– Então é que tá com o Liam há mais tempo.
– Coitado… esse daí não tem um amigo pra avisar e o impedir de fazer uma idiotice dessa.
– Espero que não avisem mesmo, precisa casar. Eu não a aguento mais! – Harry falou em tom de brincadeira.
– Esse é aquele da cozinha?
– O próprio.
– Alguém deveria avisá-lo pra fugir o mais rápido possível.
– Pare de ficar falando assim da minha irmã, . – Harry reclamou. – Só eu posso falar da assim.
– Eu a odeio desde bem antes de você imaginar que um dia poderia fazer isso, Potter.
– Tudo bem, me chamou de Potter e esse é o melhor apelido, porque me chama de Styles e eu não gosto dele.
– Como assim você não gosta de Harry Styles? – perguntei ofendido.
– Ele é bonito, Carol gosta dele e ele é bonito. – respondeu, me fazendo dar uma gargalhada. – Mas, sei lá, eu prefiro o Zayn.
– Ele é o mais bonito mesmo. – respondi. – Acho que se eu tivesse que escolher, também escolheria o Zayn.
– Enfim, como você me chamou de Potter e não de Styles, você pode até atropelar minha irmã que eu não me importo mais.
– Prefiro continuar atropelando você no jogo, Potter. – respondi, tentando provocar.
Mas, claro, eu perdi.

~*~
Quando abri a porta e encontrei Sandy me dando um sorriso tão bonito, senti meu coração bater de um jeito estranho. E isso me pareceu ser um excelente sinal, porque significava que eu estava sentindo algo a mais.

– Oi lindinho. – cumprimentou, me dando um selinho antes de entrar no apartamento e olhando pelo chão.
– Está no outro quarto, já tive uma conversa com ele e acho que estaremos em paz.
– Você está bem?
– Estou ótimo. E você?
– Também estou ótima.
– Como foi seu dia com Amber?
– Resolvemos bastante coisa pro casamento da Lily. – sorriu orgulhosa.
– Aposto que o casamento dela será incrível, você é uma excelente dama de honra.
– Você vai comigo, certo?
– Claro. – sorri. – Preciso conhecê-las antes, não?
– É claro. – ela me deu um sorriso enorme. – Agora nós vamos cozinhar nosso jantar.
– Você é maravilhosa. – respondi, dando um beijo no rosto dela.
Sandy lavou as mãos no banheiro antes de me encontrar na cozinha e nós fomos fazer o jantar. Era ótimo fazer esse tipo de coisa com ela, mesmo que ela acabasse fazendo tudo (porque não era lá o tipo de pessoa que gostava de dividir a cozinha) e eu apenas ficasse sentado bebendo vinho.
E foi o que aconteceu, como sempre.
Jantamos conversando sobre algumas coisas e um tempo depois fomos para a sala, assistiríamos a algum episódio de alguma série, eu não tinha entendido bem, mas, no fim das contas, não era nada disso.
Mal me sentei no sofá e Sandy se empoleirou no meu colo, me beijando sem demora e de um jeito tão gostoso que eu quase revirei os olhos. Os dedos dela estavam mais frios que a pele do meu pescoço e isso fez minha pele arrepiar sob seu toque.
Sandy não demorou a tirar a própria blusa e a minha, deixando-as de lado antes de voltar a me beijar com voracidade, sem nenhum pudor e mostrando que as intenções dela para o resto da nossa noite não envolviam a televisão.
Apertei suas coxas sob a saia que ela usava e ela mordeu meu lábio em resposta, numa provocação barata. Ela queria jogar um pouco, como gostava tanto, e eu não perderia a chance de participar daquelas provocações e jogos de resistência. Eu perdia na maioria das vezes, mas são as melhores derrotas da vida de um homem.

– Você falou sério quando disse que precisa conhecer minhas amigas antes do casamento? – perguntou, separando nossos lábios e eu assenti.
– Claro, por que não?
– Porque é oficial demais…
– Já passou da hora de ser. – respondi, voltando a beijá-la.

X

Dois meses e meio depois…


Eu devia ter imaginado que toda a paz de espírito que eu estava sentindo seria tirada de mim, porque as coisas estavam boas demais pra serem de verdade.
Eu tinha conseguido um aumento e aquilo era ótimo, porque eu estou juntando dinheiro e já posso começar a pensar em construir minha própria casa, recebi ótimos projetos durante esses dois meses, tenho uma namorada linda e de quem gosto o suficiente pra não me sentir um belo filho da puta, até venci Harry no videogame mais do que perdi.
Mas é claro que o Universo e todas as suas forças sobre-humanas não permitiriam que meus chacras permanecessem alinhados e que minha paz e sorte durassem por tanto tempo assim.
E cá estou eu no casamento de Lily (que, inclusive, me vetou de todas as fotos oficiais do casamento, porque disse que se o meu namoro com Sandy terminar, ela não quer estragar as fotos do próprio casamento pra me cortar e me excluir do evento) e acabo de ver conversando com algumas das amigas de Sandy na maior intimidade e felicidade.
Inclusive a noiva.
Isso deve ser punição do Universo, eu não vejo como isso pode ser algo diferente do Universo me punindo por ter sido bastante sortudo nesses últimos meses, afinal, a única explicação pra presença de num local em que eu estava em paz é o Universo me odiando e me punindo. Nada além disso.
O bobão com quem ela namora está junto e, aparentemente, conhece a noiva. Quer dizer, ele é o irmão da noiva.
O Universo me odeia.
E eu odeio Bennett por existir e ser usada pelo Universo pra perturbar minha paz e sossego.
também foi vetada das fotos oficiais do casamento e isso até me alegrou um pouquinho, porque ela não vai estragar as fotos do casamento de Lily, já que obviamente o namoro dela não vai durar por muito tempo… o bobão não pode ser tão bobão assim de ficar com ela por tanto tempo e eles realmente terem algo mais sério.
Só se ele for bem mais bobão do que parece.
A vi com o celular em mãos fazendo stories, filmando coisas e tirando fotos com o bobão do namorado, porque a única coisa que ela faz na vida é se exibir na internet. Não que eu saiba o que ela exibe, não procuro saber nada a respeito do que ela faz ou deixa de fazer na internet, mas ficou famosa por se exibir.
Enfim, eu a vi, mas ela parece não ter me visto aqui ainda. Pelo menos isso de bom.
Talvez essa não seja uma punição do Universo, mas uma chance de rebater o que fez com minha bicicleta. Estou aqui culpando o Universo, mas pode ser apenas mais uma coisa boa me acontecendo e não uma punição.
Eu deveria furar o pneu do carro dela. Mas, provavelmente, ela deve ter vindo com o bobão.
Pense … o que pode ser tão ruim quanto esvaziar os pneus do meio de locomoção de uma pessoa?

– Você viu quem está aqui? A Bennett! – ouvi Sandy falar, me surpreendendo com seu retorno à mesa.
– Ela é irmã do Harry.
– É ela? – Sandy perguntou quase perplexa. – Imaginei que a irmã do seu melhor amigo fosse um demônio em forma de gente e criei uma imagem totalmente distorcida na minha cabeça. é linda e super simpática.
– O demônio se disfarça de formas incríveis pra enganar as pessoas, lindinha. – falei, fazendo Sandy rir alto. – Não caia nessa imagem falsa. é o próprio demônio.
– Pare com isso, Sam. Ela produz conteúdo de qualidade, gosto muito das dicas que ela dá no Instagram e no YouTube. E no TikTok. é legal e produz várias coisas muito legais e incríveis, você deveria assistir um dia e ver que ela não é tão ruim quanto você acha.
– Você está drogada. É a única explicação. – falei e Sandy voltou a rir, me dando um beijo no rosto antes de ficar de pé de novo. – Já vai?
– Sim, Lily está me chamando. Já volto.

Mas Sandy não voltou tão rápido quanto pensava. E isso me deu tempo de ter uma boa ideia pra me vingar pelos pneus da minha bicicleta, porque pagará por ter feito aquilo.
Provavelmente ela já até esqueceu disso, mas eu não esqueci e nem vou. A vingança é um prato que se come frio e chegou meu momento de aproveitar o doce sabor da vitória.
Não posso colocar fogo na roupa dela aqui, porque isso acabará em morte. No caso a minha morte, porque tenho certeza que a noiva vai me matar de forma lenta e dolorosa.
Uma pesquisa rápida no celular e descobri exatamente o que eu precisava fazer para me vingar e que seria tão marcante e inesquecível quanto eu ter que arrastar aquela bicicleta por quilômetros!
que me aguarde.

~*~

Achei que o Universo estava sendo bondoso comigo, mas, infelizmente, não é isso que está acontecendo. Achei que estaria em paz no casamento da irmã do Liam, mas, aparentemente, Los Angeles é pequena demais e uma das damas da Lily é a namorada do .
Essa mulher linda e perfeita que está namorando um troglodita insuportável e que apenas serve pra gastar oxigênio no planeta e desperdiçar espaço. Evitei contato visual e tenho tentado fingir que ele não existe, mas é meio difícil, porque quando algo que a gente quer ignorar acontece, nossos olhos e mente simplesmente não sabem desviar suas atenções e acabamos presos nesse inferno.
Não sei se ele me viu, mas é melhor que não tenha visto e que sua namorada vá logo entretê-lo, porque eu sei que não vou sair daqui tão cedo, mesmo que eu arranque a roupa no meio da pista de dança, porque Lily quer a família até o final. E as madrinhas. Ou seja…

– Vem dançar uma música comigo antes que minha irmã me chame de novo. – Liam apareceu, dando um sorriso tão bonito, que se ele tivesse me chamado pra pular de uma ponte, eu provavelmente iria.
– Acho que vou pra casa daqui a pouco. – falei e ele ergueu uma sobrancelha ao me ouvir.
– Por quê?
– Estou com sono e amanhã preciso acordar cedo, tenho um evento pra fazer. – respondi numa meia verdade.
– Achei que dormiríamos juntos hoje… – falou num tom tão sentido que me fez ficar com pena.
– Liam, você precisa parar de jogar baixo comigo assim.
– A festa não deve durar muito mais… já são quase duas da manhã, daqui a pouco a Lily deve ter que viajar com o marido dela e nós estaremos livres.
– Tudo bem, tudo bem… – respondi, dando nele um beijo rápido antes de irmos dançar.

Liam é incrível, não posso mentir que é muito bom estar com ele e que esse namoro tem sido muito bom, mesmo que no começo eu resistisse ao que nós tínhamos antes, mas é bom estar com ele. Ele me faz bem, passamos bons momentos juntos…
Estávamos dançando a quarta ou quinta música quando aconteceu.
De primeira achei que tinha sido algum dos garçons que andavam freneticamente pelo local, mas eles não passavam pela pista de dança. Então só poderia ser um convidado. Eu não podia surtar com um convidado.
Mas com aquele eu poderia.
fingia uma expressão sentida, mas o pequeno sorriso em seu rosto mostrava que ele estava tudo, menos realmente sentido por ter manchado meu vestido com vinho.
A mancha sai, eu sei, mas ele acabou de manchar meu vestido a troco de nada. O cinza agora tem uma enorme mancha de vinho na saia e nas pedras que adornam o corpo do vestido.
Não bastando isso, tem vinho no meu pescoço e nos meus braços. E está dando um sorrisinho vitorioso estúpido que me dá vontade de lhe bater. Infeliz!

– Eu vou te matar. – falei e me olhou sentido, mas o maldito sorriso de quem estava se divertindo entregava que ele estava se divertindo.
– Me desculpe, . Não tive a intenção. – falou, fingindo um tom de desculpas que fez meu sangue ferver.
Mas antes que eu pudesse pular no pescoço dele – e isso ia realmente acontecer, porque tomei o impulso pra isso –, Liam me segurou e saiu me arrastando (quase literalmente) até perto do banheiro.
– Eu vou matar esse idiota. – falei, furiosa. – Esse vestido custou uma fortuna e vai custar outra pra lavar e tirar essa mancha! Se é que vão conseguir tirar!
, fica calma. Vamos pra casa. – Liam falou num tom sereno e eu quis gritar de ódio, mas ele não tinha nada com isso. – Seque isso, eu vou avisar Lily que vamos pra casa e nós saímos.
– Tudo bem. – respondi, recebendo um selinho e entrei no banheiro um pouco menos nervosa e encontrei Sandy lá, lindíssima retocando seu batom.
– Vinho? – perguntou quase tão frustrada quanto eu.
– Sim. – suspirei frustrada. – Acho que não vai sair, mas tudo bem.
– Tem uma lavanderia ótima no centro, perto do Los Angeles Times que faz milagres! – falou, sorrindo. – Fica na S Hope Street. Sempre mando minhas roupas pra lá e elas voltam impecáveis! Tiraram várias manchas de vinho das minhas roupas.
– Eu trabalho lá perto, vou levar o vestido amanhã antes do evento da MAC. – respondi e ela sorriu simpática.
Deus, por que essa mulher tão simpática está com aquele crápula?
– Eles farão um ótimo trabalho, tenho certeza.
– Obrigada pela dica. De verdade. – agradeci e ela voltou a sorrir simpática.
– Agora preciso voltar antes que Lily venha me buscar pelos cabelos. – riu e despediu-se com um aceno.

Sequei o máximo que consegui do vestido e sai do banheiro um tempo depois, despedi-me de Lily e de seu marido e logo estávamos no estacionamento.
Mas, claro, desgraça pouca é bobagem.
Três pneus vazios.
Três.
As tampas das entradas de ar estavam guardadas num pequeno saco plástico que não faço ideia de como conseguiu, e havia um pequeno bilhete preso ao limpador de vidros.

– Vocês dois precisam crescer. – Liam falou, respirando fundo e pegando o papel para me entregar.
“Boa sorte na volta pra casa e eu espero que nenhum Uber atenda e que não tenham táxis rodando pela cidade. Diga ao Liam que sinto muito por ele, mas foi você quem pediu, …”

XI


– Mãe, o que esse… – respirei fundo, contendo a meia dúzia de palavrões que eu tinha em mente. – ser está fazendo aqui?
é como se fosse da família, , você sabe disso.
– Não é mesmo! – soltei uma risada ofendida, falando baixo. – Mãe! Sério, eu não acredito que vocês convidaram esse idiota pra vir! Eu devia mesmo ter ido morar na fraternidade.
, não fale assim. é um bom rapaz e nunca te fez nada.
– Claro, ele é um santo. Ele já me deu muitos prejuízos, mas é ótimo que ele esteja aqui mesmo, eu quero que ele me pague pela lavagem caríssima que tive que pagar pra tirar a mancha de vinho do meu vestido!
– Não fique provocando e nem brigando com ele, . Você já é uma adulta e tem que superar aquela birrinha infantil.
– Ele também deveria receber esse tipo de sermão, porque age como se fosse uma criança. Esse idiota.
, você precisa ser mais razoável…
– Mãe, eu sou razoável até demais. Minha vontade é começar a agredir .
– Você deve se lembrar que fez isso quando eram pequenos e que foi você quem o mordeu primeiro.
– Eu deveria ter dado um tiro. – respondi e minha mãe gargalhou.
– Isso é paixão reprimida.
– Isso nunca vai acontecer, mãe. – respondi. – E Liam deve estar chegando, meu namorado, caso a senhora tenha esquecido, então vamos tentar ser uma família normal com um intruso que não deveria nem mesmo existir.
– Seja civilizada. – mamãe falou em tom de aviso e eu quis bater a cabeça na parede.
Respirei fundo e apenas segui para a sala onde Harry, Carol, meu pai, Sandy e estavam conversando animados como se fosse mesmo uma pessoa e não uma entidade maligna que tomou forma e se aproximou dessa família no intuito único de me fazer cometer um crime ou me levar a loucura, o que acontecer primeiro.
– Liam não vem? – Carol perguntou quando me viu entrar na sala.
– Ele está chegando.
, como ficou seu vestido? – Sandy perguntou educada.
Pelo tom, não devia saber que o responsável pelo “incidente” foi o namorado ridículo dela. E pelo jeito que ele me olhou, quase desafiador, ela realmente não sabe que foi ele quem causou o estrago no vestido e no meu bolso.
Mas o que é dele está guardado e as contas serão acertadas em breve.
– Paguei uma fortuna, mas eles resolveram o problema e ele voltou intacto. – respondi no mesmo tom. – Gostei bastante da lavagem, mas custou caro.
– Eles são muito cuidadosos, o preço é mesmo um pouco alto, mas dependendo da delicadeza da roupa, vale a pena. – Sandy respondeu e deu um sorriso. – Falei com a Lily sobre o incidente, ela conversou com o buffet e eles vão te pagar o valor da lavagem.
– Mas não foi nenhum garçom que derrubou o vinho em mim. Foi um convidado do casamento.
– Ah… bom, não sei como isso pode acontecer. A pessoa não falou nada?
– Não, mas tudo bem, tudo que vai volta. – respondi, dando um sorrisinho e sorriu debochado ao ouvir, mas não falou nada.
A campainha tocou e, depois de pedir licença, fui atender a porta, encontrando Liam. Nervoso, sorriu de um jeito quase incerto e eu dei uma risadinha antes de sair da casa e fechar a porta atrás de mim.
– Por que você nos fechou aqui fora? – perguntou num resmungo.
– Porque você precisa se acalmar, Liam. – ri baixo. – Quer algumas dicas?
– Claro. – riu nasalado e eu o beijei antes de começar a falar.
Liam estava mesmo nervoso, porque foi o responsável por interromper o beijo e me olhou quase suplicante por ajuda. Eu quis rir, mas: 1) não ajudaria em nada rir dele nessa situação e, 2) quando chegar minha vez de conhecer os pais dele, as coisas estarão tão tensas quanto agora.
– Você pode conversar com meu pai sobre esportes, lembre-se de que ele é um torcedor fanático dos 49ers. – falei e ele assentiu, prestando atenção em tudo que eu dizia. – Não faz mal se você torce pros Broncos, ele não é tão chato assim sobre isso, até porque imagina que você torça pra eles, contei que você é de Denver. Você vai conseguir conversar sobre qualquer coisa com ele, na verdade, mesmo que ele finja te olhar de forma ameaçadora, é apenas fachada. Não se assuste por ele ser um pouco grande.
– O quão grande?
– Um metro e noventa e sete. – respondi e Liam arregalou os olhos, quase me fazendo gargalhar. – Ele torce pelos Lakers, mas deve supor que você torça pra algum time de Denver, papai gosta de pescar e é contador, mas estamos em um almoço de família no fim de semana, então sem assuntos de trabalho.
– Certo. E a sua mãe?
– Ela já te adora, não se preocupe. – dei uma risadinha. – Mas se quiser conversar com ela sobre jardinagem ou culinária, ela vai te amar o dobro.
– Considerando que eu sei um total de zero coisas sobre jardinagem, vou me concentrar em falar sobre culinária.
– Ah, infelizmente não somos apenas a família. – respirei fundo e Liam me olhou sem entender. – O amigo do Harry também está em casa.
– Finalmente vou conhecer o famoso ?
– Você já conhece, é aquele idiota que apareceu na cozinha aquela vez.
– Então apenas terei um contato maior com ele? – perguntou e eu assenti. – E será que descobrirei o motivo de tanto ódio?
– Ódio à primeira vista. – dei de ombros. – Não gostei dele de primeira e nunca consegui mudar isso.
– Então você tentou? – perguntou surpreso.
– Sim, porque ele é realmente importante pro Harry e eu amo meu irmão o suficiente pra tentar uma coisa dessas, mas não deu certo.
– Por quê?
– Conversamos sobre isso outra hora, tudo bem? – perguntei e ele assentiu, um pouco desconfiado. – Estamos esperando apenas você para almoçarmos.
– Tudo bem, mas quero saber dessa história…
– Claro. – respondi, dando um selinho em seus lábios e reabri a porta, puxando Liam comigo pela mão até chegarmos à sala.
– Achei que você tivesse morrido lá fora. – Carol implicou.
– Eu não, mas Liam quase. – respondi dando uma risadinha e abracei Liam pela cintura.
– Então esse é seu famoso namorado? – meu pai perguntou, ficando de pé numa clara tentativa de assustar Liam por causa de seu tamanho.
– O próprio. – respondi. – Pai, esse é o Liam. Liam, esse é meu pai, Gregory.
– É um prazer conhecê-lo, senhor . – Liam respondeu educado, estendendo a mão e os dois se cumprimentaram.
– E essa é minha mãe, Sally. – falei, apontando para minha mãe, que sorria tão encantada para Liam que eu quase senti vergonha.
– É um prazer conhecê-la, senhora .
– Agora podemos comer? Eu estou morrendo de fome! – Harry falou quase num tom infantil.
– Por favor, também estou. – respondi e seguimos para a cozinha.
Sentei-me ao lado da minha mãe e de Liam, ficando de frente para e Sandy, que conversavam baixo e não tivemos nenhum incidente durante o almoço, que foi inacreditavelmente agradável e sem trocas de farpas ou indiretas.
Fui civilizada como minha mãe pediu e ele também resolveu ser, provavelmente na frente da namorada pra fingir que não é um idiota sem escrúpulos e continuar pintando a imagem de bom moço que ele não é.
– Liam, você torce pros Broncos? – Harry perguntou quando sentamos na sala.
– Sim. – respondeu, dando um sorriso orgulhoso. – Vocês são todos 49ers?
– Infelizmente. – Harry brincou, soltando uma risadinha pelo nariz.
– Vocês têm um time legal, dá pra ir longe na AFC essa temporada.
– Andei assistindo a alguns jogos universitários e tem uns garotos realmente bons, deveríamos contratar alguns.
– Eu espero que essa seja uma excelente temporada para o Garoppolo, acho que ele precisa melhorar um pouco a porcentagem de conclusões, foi razoável na temporada passada, mas não chegou a sessenta porcento e ele só teve cinco touchdowns e três interceptações, o índice de passes é bom, mas acho que poderia melhorar. Tá, tudo bem, ele só jogou três jogos e esses números dele são bons se for parar pra pensar, mas eu acho que dava pra fazer melhor. Sei que não depende só dele, mas seria legal se ele passasse de, sei lá, de setenta e cinco porcento nessa temporada e que o time chegasse pelo menos nos play-offs, porque ir pro Super Bowl eu acho difícil. – falei, dando de ombros e recebi olhares de estranhamento de Harry, papai, Liam e . – O que foi?
– Desde quando você entende de futebol? – Harry perguntou surpreso.
– Desde sempre, eu só não sou uma louca fanática feito vocês. – dei de ombros de novo.
– Você acabou de dar um discurso completo sobre o Garoppolo, , você tem certeza que não é uma fanática louca? – Harry implicou, rindo.
– Cresci vendo vocês serem assim, Harry, impossível ser diferente.
– Deveria ter crescido aprendendo a ser menos insuportável. – falou e eu respirei fundo, ignorando a cutucada.
– Eu estou confiante pra temporada 2019/2020 do Garoppolo, ele já começou bem e espero que ele passe dos setenta e cinco porcento de conclusões. – falei.
– Meu Deus, eu não sabia que tinha uma namorada tão entendida de futebol americano assim. – Liam falou surpreso, me deu um beijo na bochecha.
– Nunca tive muita paciência pra futebol. – Sandy fez uma careta. – Meu pai sempre preferiu basquete, mas também não é algo que eu entenda ou goste.
– Lakers? – Liam perguntou e ela negou com um aceno.
– Warriors.
– Credo. – fez uma careta.
– Basquete não é minha praia. – Liam franziu o nariz numa careta que eu acho a coisa mais fofa de todas.
– Você é de Denver, claro que não é sua praia. – Harry implicou. – Não que eu possa falar, mas o Lakers pelo menos já ganhou algumas coisas.
– Eu voto por conversarmos sobre algo que inclua todas as pessoas presentes. – Carol interrompeu o assunto, fazendo todos rirem.
– Acho difícil, amor. – Harry falou ainda rindo. – A única coisa que une mais as pessoas do que falar de esportes é…
– Falar mal do Trump. – falei junto com Harry e , fazendo minha mãe rir alto.
– Se tivesse sido ensaiado, não teria dado tão certo. – Sandy riu.
– Melrose concorda com isso. – Carol riu. – Mas, vamos falar sobre comer a sobremesa. O que acham?
– Estou incluso? – perguntou e Carol assentiu.
– Feita totalmente sem ingredientes de origem animal, . E eu pesquisei as marcas também antes de comprar, todas veganas.
– Carolyn, ainda bem que você namora com o meu namorado e isso faz de nós um excelente quadrisal. – falou dando um sorriso agradecido.
– Se você é namorada do namorado do meu namorado, isso faz de nós duas namoradas?
– O meu cérebro parou de funcionar na primeira parte dessa pergunta. – Harry falou rindo.
– Você é vegetariano? – Liam perguntou interessado e negou.
– Vegano. – respondeu num tom tão educado que nem parecia ser ele. – Não consumo nada de origem animal desde que tinha uns três anos.
– Sério?
– Sério. Eu perguntei pra minha mãe se o frango que a gente comia era o frango bicho uma vez, ela disse que sim e nunca mais eu comi carne, parar de comer derivados, de consumir produtos de origem animal e marcas que fazem teste ou possuem exploração animal demorou um pouco mais, acho que eu tinha uns dez anos quando isso aconteceu.
– Isso é bem legal. – Liam falou, admirado, e eu quis enfiar a cabeça num buraco.
Além do cachorro traidor, da minha família que parece não enxergar que é um insuportável, agora meu namorado está rendido por esse idiota.
Deus, por que me odeias tanto?

~*~

Até que o bobão não é tão bobão quanto eu pensei.
Conversamos bastante sobre várias coisas, desde esportes até alimentação e ele me perguntou se eu poderia dar algumas dicas de como começar a transição pro veganismo. E foi no mínimo interessante conversar com ele e ele ter ignorado o fato de que a namorada me odeia mais do que qualquer coisa e de que eu esvaziei três pneus de seu carro (obviamente eu pedi desculpas por isso de forma decente) e ele foi bem legal. A melhor parte foi ver pouco contente por nos ver conversando e interagindo tanto, mas não falou nada e ignorou totalmente todas as minhas provocações durante o dia.

, por que você e a se odeiam tanto? – Sandy perguntou quando estávamos a caminho da casa dela.
– Não sei. – respondi sincero. – É como eu te falei, ela não gostou de mim logo de cara. Ela era uma criancinha e simplesmente me odiou logo que me viu. Todo mundo achava que era ciúmes do Harry, mas era apenas ela revelando o próprio demônio que é.
– Que horror!
não é legal como finge ser, Sandy, não se deixe enganar.
– Ela me parece ser bem legal. – respondeu em tom sincero enquanto dirigia. – Acho que você deveria tentar enxergar isso e deixar essa birrinha infantil de lado.
– Quando ela me viu pela primeira vez, me mordeu tão forte que eu tenho a marca até hoje no braço. – respondi e ela deu uma gargalhada. – Do que você está rindo?
– Do motivo dessa cicatriz. – respondeu ainda rindo. – Isso são os dentes dela?
– São. E não tem a menor graça.
– Claro que tem. – riu, diminuindo a velocidade para entrar no prédio em que mora.
– Eu tomei pontos! – respondi exasperado, mas ela continuava rindo.
– E você não fez nada pra dar o troco?
– Não diretamente. – respondi e saímos do carro.
– Como assim?
– Eu devia ter uns onze ou doze anos, eu acho, e estava brincando com Harry, nós estávamos correndo pelo quintal e eles tinham um portão nos fundos da casa que servia pra segurar o cachorro. Enfim, nós dois estávamos brincando de pega-pega e quando eu fui passar, não vi parada atrás desse portão, ele era todo fechado, e o empurrei de uma vez, fugindo do Harry, só que esse portão tinha uma ponta de ferro solta que acertou e fez um corte um pouco fundo nas costas, perto do ombro. O portão ficou meio que… preso nela.
– Como é que é?
– É… era uma ponta, não faço ideia do motivo de Greg ter deixado aquilo daquele jeito, mas foi totalmente sem querer. Eu nunca ia querer machucar alguém assim, muito menos que tinha uns sete ou oito anos. Lembro que chorei muito e pedi desculpas por ter feito aquilo, mesmo que sem querer, mas ela obviamente não acreditou em mim. Por sorte os adultos entenderam que eu não tive culpa, porque eu não tinha como ver que ela estava lá brincando com o cachorro. Acho que ela tem essa marca até hoje.
– Tem. – Sandy respondeu. – Já vi pelas fotos dela no Instagram. E pelo que parece foi bem fundo.
– Eu fiquei desesperado, porque ela sangrava como se estivesse morrendo, não era uma ponta de ferro muito grande e não chegou a machucar nada sério, nada de nervos e essas coisas, mas eu fiquei muito desesperado e quase tive um troço, depois daquele dia eu prometi pra mim mesmo que por mais que a gente se odeie e acabe se provocando e aprontando um com o outro, eu nunca faria intencionalmente algo que pudesse machucá-la de alguma forma.
– Sabe o que é mais engraçado? – Sandy perguntou dando uma risada baixa. – Vocês se odeiam a troco de nada, provavelmente gostariam de nunca terem se conhecido, mas têm no corpo marcas que lembram um da existência do outro.
– Isso não é engraçado. – respondi ultrajado. – É uma merda. Odeio olhar pro meu antebraço e enxergar a marca dos dentinhos infernais de . Ela pelo menos não consegue ver o tempo todo a marca do machucado.
– Dá pra ver sem muito esforço, então ela deve te odiar mil vezes mais quando vê aquela cicatriz e lembra que a culpa é sua.
– Talvez seja por isso que ela se empenhe tanto em fazer da minha vida um inferno.
– Você não fica pra trás, . – deu uma risadinha pelo nariz. – E acho bom você pagar pela lavagem do vestido e pelo guincho que Liam teve que chamar pra rebocar o próprio carro até um posto de gasolina para encher os pneus.
– Como você sabe que fui eu?
– Eu não sabia até agora. – ela me olhou, estreitando os olhos. – Mas você se entregou.
– Pago o Liam, vai sobreviver. – dei de ombros e ela negou com um aceno.
– Vocês dois precisam crescer. – Sandy falou séria e eu dei um sorrisinho pequeno, passando o braço esquerdo por seus ombros.
Acho difícil fazer isso, principalmente porque eu mal me lembro da minha vida sem viver em pé de guerra com .

XII


– E quem é aquele bonitinho ali perto do seu irmão? – Melrose perguntou, apontando discretamente na direção de Harry.
– Eca! – respondi com cara de nojo. – É o melhor amigo dele.
– E ele tem nome?
. E ele é feio, sem escrúpulos e um idiota.
– Esse discursinho de ofensas, pra mim, soa como paixão reprimida, . – caçoou e eu rolei os olhos.
– Nunca nos demos bem, foi ódio ao primeiro olhar.
– E isso foi quando?
– Eu tinha cinco, ele tinha… dez, eu acho. – dei de ombros ao falar. – Se eu pudesse exterminar uma pessoa da Terra, essa pessoa seria o .
– Mas aconteceu alguma coisa séria? – Mel perguntou num tom preocupado e eu neguei com um aceno.
– Nunca. Eu o vi uma vez, ele foi brincar com Harry, e eu o odiei logo de cara. E a partir daquele momento a gente se odiou todos os dias um pouco mais. É recíproco.
– Soa como paixão reprimida recíproca. – implicou.
– Não viaja.
– E seu namorado?
– Ele tinha que resolver algumas coisas no estágio, mas deve chegar daqui a pouco. – dei de ombros. – E o seu?
– Não está na cidade. – foi a vez de Melrose dar de ombros. – Acho que seu namorado é aquele gato entrando com cara de perdido. Não é?
– Sim, o próprio. – falei, olhando na mesma direção que ela e encontrando Liam entrando com uma sacola de papel em mãos e uma expressão perdida no rosto. – Já volto.
Caminhei até o local em que ele estava e assim que entrei em seu campo de visão, Liam deu um sorriso aliviado por encontrar um rosto conhecido em meio a tantos rostos de pessoas mais velhas e totalmente desconhecidas.
– Trouxe um presente pro seu irmão, espero que ele goste.
– Se for algo relacionado ao 49ers, ele vai adorar. Se for algo formal, ele vai adorar. Se for dado de coração, ele vai adorar. Harry é uma pessoa absolutamente fácil de agradar.
– Eu jamais comprarei algo do 49ers pra alguém, , nem mesmo pra você, então não é isso. – ele sorriu. – É meio idiota, eu acho, trouxe uma camisa social e uma gravata. Ele é advogado, vai usar. Eu acho.
– Então ele vai amar. – sorri. – Vamos entregar o presente a ele.
– Como foi seu dia?
– Bem cheio, estudei e trabalhei muito, mas foi bem legal. E o seu?
– Trabalhei demais e estou esgotado. – resmungou.
– Fica aqui hoje.
– Sério?
– Sim. – respondi e chegamos ao local em que Harry estava com Carol, , Sandy e um outro amigo do escritório.
– Liam, achei que não viria. – Harry falou quase surpreso ao vê-lo.
Liam cumprimentou os outros quatro de forma educada e abriu um sorriso para Harry antes de responder.
– Fiquei preso no estágio resolvendo uns problemas que surgiram de última hora, perdão pelo atraso. – pediu, estendendo a mão para um cumprimento. – Feliz aniversário.
– Obrigado.
– Trouxe um presente. Espero que goste. – Liam entregou a sacola, fazendo Harry sorrir agradecido.
– Obrigado, Liam, não era necessário.
– Não se aparece em aniversários sem levar um presente para o aniversariante, Harold . – brinquei com meu irmão e ouvi a risadinha debochada de .
Deus, dai-me paciência.
– Sua indiretinha foi recebida, mas será devidamente ignorada. – falou e eu olhei sem entender.
– Vem, Liam, vou te apresentar a Melrose, ela é muito mais agradável do que algumas pessoas que estão por aqui.
– Mas no caso a pessoa desagradável vai te acompanhar, Liam.
– Harry, controle seus convidados. – respondi, ignorando , e segui com Liam.
– Vocês dois precisam parar com isso, . Inclusive, você ainda me deve uma história…
– Falamos disso depois.
– Mas, você está falando sério sobre Melrose?
– Sim. Ela é cunhada do meu irmão e é uma pessoa ótima, gosto muito dela.
– A pergunta é: quem não gosta muito dela?
– O Trump. – respondi e Liam riu.
– Mas ela não liga pra esse tipo de coisa?
– Não. – dei de ombros. – Até porque não vamos ser fãs loucos. Vou te apresentar pra ela e só. Mel é famosa, mas é um ser humano feito qualquer outro. Um pouco doida, mas é um ser humano comum.
– Ah…
Caminhamos até o local em que Melrose estava com o celular em mãos e enviava mensagens para alguém, totalmente distraída da festa e das pessoas que ela não conhecia e que estavam pela casa, alguns até comentando baixo sobre a presença de uma pessoa realmente famosa ali.
– Mel, você está ocupada? – perguntei, aproximando-me, e ela negou, desviando o olhar da tela para mim. – Quero te apresentar meu namorado. Esse é o Liam.
– É um prazer finalmente te conhecer, Liam, ouvi boas coisas a seu respeito. – Mel deu um sorriso simpático. – Espero que esteja cuidando bem dessa garota.
– Estou fazendo o possível e o impossível pra isso. – sorriu sincero. – Foi difícil demais conquistá-la, não pretendo fazer nada para perdê-la. E sou um grande fã seu.
– Obrigada. – sorriu educada. – A Carol ainda está com o Harry?
– Está sim. – Liam respondeu. – Eles estavam perto da cozinha há alguns minutos.
– Ser anfitrião de festa é uma bela merda. – Mel falou, rindo, e eu assenti em concordância.
– Ele insistiu para que organizássemos uma festa em casa e bem mais tranquila do que eu queria. – dei de ombros. – Minha ideia mesmo era comemorar o aniversário em um bar, apenas os amigos mais próximos, muita cerveja hoje e uma puta ressaca amanhã, mas ele não quis.
– Vou falar com a Carol rapidinho e já volto. – Melrose falou, afastando-se e me deixando com Liam.
– Viu? Eu disse que ela é normal.
– É, ela parece ser normal mesmo. – soltou uma risadinha pelo nariz ao falar. – O que tem pra beber?
– Vem, vamos buscar umas cervejas na cozinha. Estava esperando por você. – falei, puxando Liam pela mão e nós saímos até a cozinha.
– Você pode até me contar aquela história sobre ter tentado não odiar , mas não ter conseguido.
Cumprimentei algumas pessoas pelo caminho e logo estávamos com nossas cervejas em mãos, sentados na cozinha e conversando.
– Depois do incidente do portão, aquele que te contei há um tempo sobre a cicatriz nas costas, eu quis matar o , mas não sabia como, então eu comecei a pensar em formas de tentar dar um jeito de ele nunca mais ir até minha casa, porque ele tinha me machucado feio. Só que era impossível que ele tivesse feito aquilo de caso pensado, mesmo me odiando muito, mas na época eu não pensei assim e acho que nem conseguiria pensar, porque eu só tinha uns sete anos e tudo funcionava na base do ódio quando era relacionado ao , apenas queria que ele nunca mais pisasse na minha casa. E nem queria Harry perto dele, na minha cabeça era bem provável que ele fizesse algo parecido e acabasse machucando o Harry de verdade, além de achar que ele tinha feito aquilo realmente de caso pensado. parou de ir lá em casa durante um tempo, estava de castigo, mas também teve uma boa parcela de culpa minha, porque eu fazia um drama sem fim sobre a ida dele até lá e eu também fazia de tudo para que o Harry também não fosse até a casa dele. Isso durou uns três meses e meu irmão ficou muito triste, porque, afinal, é o melhor amigo dele desde sempre e eles sempre tiveram uma boa amizade, feito Daph e eu.
– Devo ter medo de como essa história continua?
– Não. – respondi dando uma risadinha. – Eu ainda estava muito ressentida pelo que tinha acontecido, sem contar a sede de vingança que uma criança de sete anos pode ter, mas estava triste por ver Harry triste e saber que era eu quem estava causando aquele desconforto todo, estava privando meu irmão de ter o melhor amigo por perto e de que eles fossem tão inseparáveis quanto tinham sido desde que se conheceram na escola. Então eu peguei meu patinete da Barbie e fui até a casa do pra conversar com a mãe dele e pedir pra que ela o deixasse ir brincar com o Harry, porque eu estava bem e não tinha sido a intensão dele me machucar, além de tentar fingir que eu não o odiava mesmo e que poderíamos ser amigos. Mesmo que eu ainda não gostasse dele de verdade, eu fiz isso pelo meu irmão. E foi um verdadeiro pau no cu comigo, jogou uma lata de tinta verde em mim e eu fiquei semanas pra conseguir tirar tudo aquilo do cabelo e do corpo. Relevei de novo, por causa do Harry, mas depois que ele rabiscou minha Barbie, eu perdi a cabeça e se minha mãe não tivesse chegado na hora, eu teria dado uma paulada na cabeça dele.
– Você não pode estar falando sério! – Liam deu uma gargalhada. – Meu Deus, você é doida!
– Eu tinha uns sete ou oito anos, minha Barbie favorita estava toda rabiscada e eu ainda estava tirando tinta verde do cabelo. Eu estava possessa de ódio!
– E por isso você daria uma paulada nele? – Liam perguntou perplexo.
– Pois é, eu teria dado, mas meio que temos um acordo implícito de não fazer coisas que podem nos machucar de forma intencional, depois disso as coisas ficaram apenas nas provocações e insultos, sem agressões físicas. Mas eu queria muito ter batido nele com aquele pedaço de pau.
– E vocês nunca tentaram conversar de forma civilizada e resolver isso?
– Liam, você já reparou em como a gente se trata? É impossível ter uma conversa civilizada com . Eu queria poder arrancar os olhos dele fora, mas infelizmente não posso e é crime.
– Ele me tratou muito bem, na verdade.
– Deve estar planejando te matar e pra isso precisa se aproximar e ganhar sua confiança, fingindo ser um bom moço e um cara legal, quando claramente ele é o total oposto disso.
– Você é doida.
– Sou, mas não é flor que se cheire.
– E qual é a desses apelidos que vocês usam pra se provocar?
– Ele me chama de pra me provocar por eu ser mais nova e essas coisas de homens idiotas. E eu o chamo de , porque era assim que os veteranos o chamavam quando eles entraram no ensino médio. Usavam esse apelido pra zoar, porque ele era magro e pequeno, não tipo Steve Rogers antes de se tornar o Capitão América, ele só não era marombado e nem um atleta feito os veteranos eram, mas depois ficou mais forte com o futebol e essas coisas, tipo o Harry. E ele odeia esse apelido de um jeito que chega a ser prazeroso pra mim ficar usando para provocar.
– Você é meio sádica. – Liam estreitou os olhos e eu ri.
– Ele merece.
– Me lembre de nunca fazer nada pra despertar seu ódio.
– Pode ficar tranquilo, meu ódio é canalizado apenas para uma pessoa: .
– Sabe o que dizem né? Sobre o ódio ser uma emoção apaixonada…
– Não seja lunático, Liam. Se existe algo impossível de acontecer nesse mundo é algo entre e eu que não seja uma guerra ou um homicídio.
– Nunca diga nunca, . – implicou.
– Esse é o único caso em que “nunca” é aplicável. – respondi e ele deu uma risadinha.
– Bom, eu espero mesmo, eu ficaria triste por ser trocado pelo seu arqui-inimigo de infância.
– Ele não é meu arqui-inimigo. Ele é só um idiota que eu odeio.
– Os pais de vocês acham isso normal?
– No começo achavam que era ciúmes, por causa do Harry, o que também fez parte disso, mas eles viram que a coisa era séria um tempo antes do incidente do portão, no dia em que eu ia bater nele, minha mãe quase teve uma síncope. – ri. – Depois disso eles começaram a tomar mais cuidado pra que a gente não se matasse, então todas as brigas e provocações nunca foram mais sérias por isso, eu acho. Minha mãe tinha pavor de me deixar no mesmo ambiente que , achava que eu faria algo pior e acabaria presa.
– Você devia ser terrível, . – Liam riu e me abraçou pela cintura antes de me beijar demoradamente.

~*~
Era tarde quando a casa estava quase vazia, restávamos apenas Harry, Liam, Carol, Melrose, Edward (um amigo de Harry do escritório), Linda (uma amiga de Harry do escritório), Sandy e o ser humano insuportável que meu irmão chama de melhor amigo e ela chama de namorado.

– Acho que deveríamos ficar bêbados de verdade agora. – Linda sugeriu, dando um sorriso de quem tinha uma ideia ótima.
– E rápido, por favor. – Edward pediu, recebendo acenos de concordância.
– Só existe um jeito de ficar bêbado rápido numa festa com os amigos. – Carol sorriu travessa. – Eu nunca!
– Voltei a ter dezesseis anos nesse exato momento. – falei, recebendo um olhar reprovador de Harry. – Não me olhe assim, você também bebia quando era menor.
– É, mas eu agora sou uma pessoa que respeita a lei e não gosto de saber dessas coisas.
– Já passou, supere pelo bem da sua saúde mental. – ri. – E eu topo.
– Mas não vamos fazer o “Eu Nunca” infantil, por favor. Vamos ter perguntas para adultos. – Mel falou e todos assentimos.
– O que temos pra beber?
– Vodca e tequila.
– Eu vou morrer na segunda dose. – respondi dando uma risada baixa.
– Vamos servir as doses e começar esse jogo. – Liam sorriu animado.
As garrafas estavam perto e os copos também, então não tivemos muito trabalho para nos servir.
– Eu vou começar com uma bem leve pra todo mundo beber. – Carol sorriu travessa. – Eu nunca beijei na boca.
– Carolyn, você é ridícula. – falei, rindo, e todos tomamos a primeira dose.
A segunda foi servida e Melrose foi a próxima a falar:
– Vou na mesma ideia da minha irmã, primeiro precisamos ficar bêbados antes de começar a falar as coisas interessantes de verdade. – sorriu. – Eu nunca fiz sexo.
E, novamente, todos beberam. A terceira dose foi servida e Linda estava com um sorriso quase assustador no rosto.
– Eu nunca mandei nudes. – falou e todo mundo voltou a beber.
! – Harry falou, fazendo uma careta.
– Nem começa, você também mandou. – respondi dando uma risada e Harry riu junto.
Por Deus, POR QUE eu resolvi brincar disso?
– Eu nunca fingi um orgasmo. – Linda soltou assim que os copos estavam novamente cheios.
Dessa vez, apenas eu, Melrose e Linda bebemos.
– Não sei se gostei muito dessa informação. – Liam brincou, me fazendo rir.
– Não se preocupe, não foi com você.
Mentira.
Já fingi sim, mas isso não vem ao caso agora.
– Eu nunca fiquei com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. – falei.
As únicas pessoas que não beberam fomos Sandy e eu.
– Eu nunca transei em um lugar razoavelmente público correndo o risco de ser pego no ato. – falou.
Eu bebi. Ele bebeu. Melrose bebeu.
– Estou ficando chocado com as coisas que estou descobrindo sobre minha irmã mais nova. – Harry falou, fingindo cara de nojo, e eu dei uma gargalhada mais alta do que teria sido se eu estivesse sóbria.
– Eu nunca gravei um sextape. – Liam falou.
bebeu.
Eu bebi.
Só.
Meu Deus! Eu odeio minha vida.
– Vou precisar de terapia a partir de agora. – Harry falou, fazendo cara de nojo. – Essa ideia de brincar de “Eu Nunca” foi horrível. Eu não quero mais ficar sabendo das coisas que minha irmã mais nova anda fazendo!
– Eu não quero mais brincar. – falei rindo. – Chega disso, estou bêbada e moralmente comprometida perante meu irmão mais velho.
– Isso porque ninguém está perguntando se o sextape foi em conjunto. – Melrose implicou.
– Deus me livre! – respondemos juntos.
– Pelo menos esse trauma não levarei pra terapia. – Harry riu. – Eu nunca fiz sexo completamente chapado.
Todos bebemos.
– Eu nunca mandei o mesmo nude pra duas pessoas ao mesmo tempo. – falei.
Liam, Edward e Linda beberam.
– Eu nunca fui algemado. – Sandy falou.
E apenas ela não bebeu.
– Eu nunca fiz ménage. – Edward falou.
Liam, Linda e ele beberam.
– Eu nunca tive algum fetiche muito doido durante o sexo e quase morri. – Harry falou e todo mundo o olhou um pouco surpresos.
– Isso foi bem específico. – impliquei e ele mostrou o dedo do meio.
– Respondam logo.
– Pode beber, Harry, ninguém vai te julgar. – brincou.
Harry bebeu, Carol bebeu, eu bebi.
– Certo, vamos julgar sim. – Linda falou rindo.
– Não morremos, então deu tudo certo. – respondi dando de ombros. – Eu nunca dormi no meio do sexo.
A única que bebeu foi Linda.
– Em minha defesa, eu estava quase morrendo de tédio e estava cansada. – riu.
– Eu nunca fui pego no ato. – falou e todos beberam.
– Quem viu? – Harry me perguntou interessado.
– Uma vez a Daph, depois a Kim, uma vez a mamãe.
– Sério? – Harry riu alto. – Eu fui no ensino médio…
– Eu nunca apostei que conseguiria transar com uma determinada pessoa e consegui fazer acontecer. – Sandy falou.
Edward foi o único que bebeu.
– Eu estou oficialmente deixando o jogo. – falei, recostando a cabeça no sofá. – Bebi demais, não pretendo entrar em coma alcóolico e acho que as coisas agora ficarão um pouco mais reveladoras do que eu gostaria de expor para o meu irmão mais velho.
– Também vou. – Liam falou com a voz arrastada. – Se não for um problema.
– Ninguém tem condições de ir pra própria casa mais, Liam. Pode ficar tranquilo que todos vão ficar aqui em casa hoje, não apenas você – Harry riu.
– Boa noite pra vocês e continuem se expondo de forma vergonhosa. – falei, ficando de pé com certa dificuldade e Liam me acompanhou.
– Boa noite. – responderam e, por um breve segundo, juro ter visto não ter sido tão antipático e insuportável como é sempre.
Mas estou bêbada demais pra ter certeza disso.

XIII

Foi depois da virada do ano de 2019 para o ano de 2020 que as coisas entre os dois casais começaram a desmoronar e os relacionamentos de e chegaram ao fim.
Começando pelo relacionamento de .
Liam e ela vinham discutindo com muita frequência por coisas idiotas nas últimas semanas e, somado a isso, havia a falta de tempo, ambos tinham suas obrigações fora da Universidade e os próprios cursos que começavam a cansá-los um tanto mais a cada dia.
Quando tentavam ter um dia de paz e sem brigas idiotas, um deles desmarcava porque tinha algo do trabalho ou da faculdade, ou algo acontecia e as brigas sem motivos recomeçavam.
Nenhum dos dois estava mais se esforçando para que tivessem momentos juntos, afinal, sabiam que acabariam brigando por qualquer coisa e não queriam ter que brigar e acabarem se magoando mais e mais a cada dia, a cada encontro.
O ponto final se deu no evento conjunto entre as irmandades dos dois para a Universidade. Era pra ser um dia em que os dois passariam juntos e tranquilos, aproveitando o momento para serem um casal em paz e sossego depois de tanto trabalharem para que aquele evento acontecesse e desse certo, mas, não foi assim. É claro.
Discutiram por uma coisa idiota bem antes da festa começar – um fio que estava aparente. Liam não queria que ele ficasse aparecendo e achava que o fio nem era necessário, em todo caso. não se importava com o fio aparecendo, porque não atrapalhava em nada, e achava que era algo importante. – e, por causa dessa discussão, os dois passaram todo o evento se evitando.
Quando tiveram que se aproximar, ao final, para discursarem em agradecimento pelo apoio das pessoas presentes, mal se olharam e, naquele momento, ambos sabiam que estava acabado. Não adiantaria tentar conversar e resolver. Já tinham tentado e não funcionou.
Liam foi o responsável por terminar. As palavras foram dele ao final daquele dia, depois de recolherem tudo pelo que eram responsáveis e estavam a caminho da casa da irmandade Kappa Delta.
Estavam os dois cansados demais das brigas recorrentes e desnecessárias que só vinham trazendo aborrecimentos e tristeza. Não era bom que desgastassem a amizade que tinham e nem aquele tempo que ficaram juntos, foram bons meses, afinal.
Um abraço e uma promessa de que coisas seriam devolvidas foram a despedida do casal que tinha sido até bem feliz durante o tempo em que esteve junto.
Mas, mesmo com um término tão tranquilo e suave, lágrimas foram derramadas e houve sofrimento de ambos os lados, pois tanto Liam quanto sabiam muito bem que as coisas ficariam estranhas antes que pudessem voltar ao normal e conviver sem sentir dor ou ressentimento pelo término e a forma como se deu, principalmente por tantas palavras ditas de forma impensada e que magoaram tanto um ao outro.
entregou a Liam todas as poucas coisas dele que estavam com ela e recebeu as suas de volta na segunda-feira seguinte. Foram dias difíceis em que ela chorava e ele também, mas não adiantava chorar. Sabiam que não era o momento de ficarem juntos e, talvez, nunca mais esse momento existisse.
Cinco dias depois foi a vez do relacionamento de e Sandy chegar ao fim.
Não houve uma briga ou algum acontecimento específico que tivesse feito aquela decisão ser tomada, muito pelo contrário.
Sandy e não brigaram enquanto estiveram juntos e se houvesse desentendimentos ou discordâncias, os dois conversavam e resolviam de uma forma que fosse boa para ambas as partes. Mas depois de tanto tempo, sabia que ainda havia um abismo de diferença entre os sentimentos dentro daquele namoro.
sabia que os dois estavam juntos a tempo demais e ele não tinha desenvolvido nenhum sentimento a mais por ela, era apenas um carinho muito grande e uma admiração enorme pela pessoa que Sandy é. E já a tinha mantido “presa” por tempo demais por tão pouco. Passou uma semana inteira pensando sobre, conversou com Harry e com a mãe e, por fim, resolveu conversar com Sandy e dar um fim ao namoro.
E, claro, as coisas não foram tão bonitas quanto ele pintou em sua mente.
Sandy ficou magoada, claro, chorou e jurou entender, mas eles mal se olhavam agora e ela só falava com ele quando era mais do que extremamente necessário e se não houvesse outra pessoa para fazê-lo.
“Você foi bem claro quando disse que deveríamos ser apenas colegas de trabalho, , então somos apenas isso. Colegas de trabalho não flertam e nem ficam de conversa fiada.”, ela tinha dito um dia e apenas assentiu.
Não tirava a razão dela, em todo caso. Ela tinha gostado dele bem mais do que ele tinha gostado dela e ele até tinha tentado. Fazia o possível e o impossível, mas nunca foi mais do que o de sempre.
E o de sempre, num relacionamento, não bastava. tinha total ciência disso. Era melhor que Sandy o evitasse e que os dois nem se falassem, o que era muito difícil, principalmente por trabalharem juntos e passarem horas e mais horas juntos e tendo que se falar quando, na verdade, queriam distância um do outro para que as coisas fossem bem suturadas e sarassem logo.
A única coisa que deseja de todo coração é que Sandy encontre alguém que a ame de verdade e com quem ela possa ser feliz, ir até a casa da pessoa sem que o animal de estimação encarnasse o próprio demônio e tentasse matá-la de alguma forma…
Sandy é uma mulher ótima, linda e foi uma pessoa fantástica dentro do relacionamento deles, mas, infelizmente, as coisas não funcionaram e era hora de cada um seguir seu caminho.
continuava trabalhando e tentava ser o mais educado possível, além de compreensivo e, mesmo que estivesse magoada, Sandy também não tinha nenhuma conduta ríspida, apenas resguardava seu próprio coração de ser ainda mais pisoteado e maltratado.
e estavam novamente solteiros, vivendo suas vidas das formas como podiam: ela, trabalhando no jornal, estudando e continuando a fazer sucesso na internet com suas redes sociais, passeando com Thor e foi visitar os pais em Sacramento em um fim de semana de folga, ele com seu trabalho na empresa de arquitetura, apresentando e executando seus projetos com bastante empenho e competência, aproveitando os momentos de folga com Venom e até indo a Sacramento visitar a mãe.
As coisas estavam prestes a mudar, pelo menos um pouco, mas eles não perceberam que essas mudanças já tinham começado.
E se surpreenderiam com o que ainda estava por vir em suas vidas…

 

XIV


– Boa noite, senhor . – ouvi o porteiro, o senhor Gibbs, me cumprimentar quando cheguei do trabalho.
– Boa noite, senhor Gibbs.
– O senhor já foi avisado que o prédio vai ser dedetizado no fim de semana?
– Não. – respondi, pegando o papel que ele tinha em mãos e estendia pra mim.
– Vão dedetizar o prédio, começam nesse fim de semana, como o senhor tem um gato, melhor levar o coitadinho pra outro lugar, porque vão passar um produto bem forte.
– Obrigado pela dica, vou procurar um pet shop pra deixá-lo. – respondi, seguindo até o elevador para subir até meu apartamento.

Um cartaz grudado no fundo do elevador repete o que o porteiro tinha dito e ainda acrescenta: uma semana de dedetização!
Esse nem é um prédio grande, pelo amor de Deus! Eles vão dedetizar o quê? As Tartarugas Ninja e o Mestre Splinter?
Eu estou fodido.
Quando cheguei dentro do meu apartamento, Venom estava em seu lugar habitual no sofá e mal ergueu os olhos quando passei por ele, depois de deixar os sapatos atrás da porta e largar as chaves sobre o aparador. Preciso planejar o que vou fazer da vida nessa semana. Um Airbnb é minha provável salvação, infelizmente não posso passar a semana em Sacramento, nem posso ir pra um hotel com Venom, então tenho que procurar um lugar que aceite animais…
Mas, primeiro, preciso ligar pro Harry e cancelar o videogame aqui em casa no fim de semana antes que eu esqueça e acabe tendo que ouvir o sermão da montanha por tê-lo feito sair de casa à toa. O telefone tocou duas vezes antes de ser atendido.

– O que você quer? – perguntou, fingindo mau humor.
– Oi meu amor, tudo bem comigo. E você? – perguntei debochado.
– Tudo ótimo, . – respondeu rindo. – Aconteceu alguma coisa? Você não é muito de ligar…
– Mais ou menos. – suspirei. – Meu prédio vai começar a ser dedetizado a partir do fim de semana, vão gastar a semana inteira, então nosso videogame de sábado está cancelado.
– Sério? Uma semana?
– Provavelmente querem expulsar as Tartarugas Ninja e o Mestre Splinter do esgoto.
– Eles moram em Manhattan, .
– Justamente! – respondi, fazendo Harry gargalhar.
– E o que você vai fazer?
– Depois que desligar com você, eu vou tomar um banho e procurar um Airbnb que aceite gatos e vou passar a semana com Venom.
– Nem pense nisso. Você vem passar a semana aqui.
– Na sua casa? – perguntei, dando uma gargalhada. – Claro. Sua irmã e eu morando sob o mesmo teto é uma coisa que pode muito acontecer…
– É apenas uma semana, vocês podem muito bem ser civilizados durante esses dias.
– Claro, porque todos nós sabemos que é um ser humano totalmente civilizado e incapaz de cometer qualquer atrocidade. – respondi num tom debochado.
– É sério, , se você negar, eu ficarei chateado pra sempre e nunca mais falo com você de novo.
– Harry, não faça isso comigo. Eu sou seu amigo e não quero ser seu cliente depois que eu matar sua irmã.
– O que te faz pensar que eu te defenderia depois que você matasse minha irmã?
– Sou mais bonito e simpático do que ela. E cozinho mil vezes melhor.
– É, isso é… – brincou. – Mas é sério, venha pra cá e é pra trazer o Venom.
– Ele vai arrumar encrenca com o Thor.
– Duvido. Thor é um pamonha. – Harry riu. – Venha com suas coisas depois do trabalho na sexta-feira.
– Se eu for morto pela sua irmã, espero que você conte pra minha mãe, no funeral, que a culpa foi sua.
– Ninguém vai matar ninguém. São apenas alguns dias e vocês podem muito bem nem se olhar, a casa é grande.
– Burguês safado. – impliquei, fazendo Harry rir.
, vai economizar o dinheiro do Airbnb pra continuar juntando para construir a sua própria casa e não terá a preocupação de não aceitarem o gato, além de que um Airbnb tão em cima da hora em Los Angeles deve ser o olho da cara.
– Só se você prometer que vai colocar uma focinheira na sua irmã.
– No estilo Hannibal Lecter.
– Faz sentido, porque assim que ela me vir chegando de mala e cuia, vai querer mesmo me matar e me comer pra ter certeza que eu morri mesmo.
– Você é maluco, .
– Bom, eu vou preparar minha alma pra esse momento, mas agradeço de coração por você ser esse ser humano maravilhoso que cuida do seu melhor amigo e das finanças dele. E espero que sua irmã não mate nenhum de nós dois, mas é bem provável que ela mate. Pelo menos a mim, eu sei que ela vai ter todo prazer de matar.
– Eu já a tirei do testamento, então se ela me matar, não vai poder nem continuar morando aqui.
– Você é mau. Gosto disso. – respondi rindo. – Agora vou tomar banho, jantar e meditar pra começar a alinhar meus chacras pra sua irmã desalinhar todos durante essa semana.
– Então nos vemos na sexta-feira à noite, depois do expediente.
– Eu estaria feliz por isso se não fôssemos ter companhia…
– Vá logo tomar banho, , eu vou jantar com minha namorada e você está me atrapalhando.
– Mande beijos pra Carol e até sexta-feira, Potter. E mais cinquenta pontos pra Grifinória por seu ato de amor e bondade com seu amigo.
– Você é minha segunda pessoa favorita em Los Angeles nesse momento.
– Eu também te amo. Vá log… – comecei a falar, mas antes de terminar, Harry já tinha desligado.
O Universo me odeia. E essa maldita dedetização é a prova disso.

~*~

A primeira coisa que anunciou que aquela seria uma sexta-feira ruim foi a quantidade de trabalho que tive. Bem mais do que o habitual e eu acabei trabalhando até muito mais tarde do que deveria.
A segunda coisa foi ver um carro parado na minha vaga da garagem. E eu conheço esse carro. Infelizmente. Parei o carro onde coube e quando saí, resolvi seguir direto pelo corredor da cozinha para o quarto, sem passar pela sala, porque eu prefiro não começar a ficar estressada tão cedo nessa casa hoje.
A terceira coisa foi perceber que a mesa estava posta para quatro pessoas quando passei pela cozinha. Ouvi a risada de Carol enquanto conversava com Harry e com . Provavelmente Sandy também está presente e eu ficarei segurando vela, porque agora eu não tenho um namorado e essa é a minha nova realidade: segurar vela.
A quarta coisa foi, depois de tomar banho e vestir algo confortável, chegar à sala e encontrar sentado no sofá ao lado de Thor e com um gato preto no colo.
Aquilo não podia ser bom.

– Chegou tarde. – Harry falou quando me viu.
– Hoje o dia foi bastante intenso na redação.
– Estávamos te esperando pra jantar. – Carol se pronunciou e eu a olhei.
– Faz tempo?
– Não muito, mas Harry estava quase te ligando, porque estava preocupado.
– Só faltava eu? – perguntei sem entender e os dois assentiram. – Então vamos jantar. Eu estou com fome e preciso estudar um pouco.
– Amanhã é sábado, . – Carol falou, quase perplexa. – Eu que faço medicina não tenho esse surto todo pra estudar assim.
– Você é inteligente. – falei e, junto com a minha voz, ouvi a de .
– Não comecem. – Harry pediu antes que eu respondesse alguma coisa. – Temos uma semana morando todos sob o mesmo teto, vamos tentar manter a paz pelo menos na primeira noite.
– O quê? – perguntei sem entender. – Como assim uma semana morando sob o mesmo teto?
vai passar a semana aqui. – Harry deu de ombros, como se fosse a coisa mais natural do universo ele me contar que aquele idiota vai morar sob o mesmo teto que eu durante uma semana.
– Deus me odeia. – resmunguei. – Vou estudar.
– Não vem jantar? – Carol perguntou e eu neguei com um aceno.
– Vou meditar e alinhar meus chacras, porque com toda certeza eles precisarão de um pouco mais de atenção, já que essa será uma semana horrível e repleta de más vibrações e péssimas presenças. – falei e Harry deu uma gargalhada.
– Ótimo, mais que sobra. – falou, provocando, e ficou de pé, deixando o gato preto sobre o sofá e saiu da sala, sendo acompanhado por Carol.
– Venha comer. – Harry falou sério quando ficamos apenas os dois na sala. – Quer dizer, você pode comer no seu quarto, mas jante.
– Perdi a fome.
, você passou o dia fora e tenho certeza que não comeu bem, então coma.
– Você devia ter me avisado, eu teria dado um jeito de ficar na Kappa e evitar esse tipo de convívio desnecessário.
, vocês são dois adultos, façam o favor de não se comportarem feito dois idiotas. Seja superior.
– Eu sou muito superior, você sabe disso, mas não posso prometer nada, porque ele é um idiota que não tem um pingo de civilidade.
– Obrigado. – respondeu, me abraçando. – Jantar.
– Vou pegar a comida e ir pro quarto, não sou evoluída espiritualmente o suficiente pra isso hoje.
– Tudo bem, . Só se alimente, é o que eu peço. – respondeu.
Senti algo em minhas pernas e quando olhei pra baixo, encontrei o gato preto se esfregando em mim, como se tivesse me dando alguma aprovação ou uma garantia de que tinha ido com minha cara, soltando um miado e me olhou com seus enormes olhos verdes de forma quase carinhosa e eu me abaixei pra lhe fazer um carinho.
O coitado do bicho não tem culpa de o dono ser um otário.
– Agora sim eu realmente acredito que gatos pretos são animais de bruxas, porque essa é a única explicação razoável nesse momento. – ouvi a voz de em tom debochado.
– Provavelmente ele nem seja mesmo um gato, mas seja o formato transmorfo do cão do inferno, já que ele é o animal de estimação do Satanás.
– Pois então aguarde, , eu farei da sua vida um inferno essa semana. – sorriu, fazendo a expressão mais inocente e simpática que conseguiu.
, eu levo seu jantar. – Harry falou, tentando não rir. Outro idiota. – Vamos todos precisar de um alinhamento de chacras nessa casa.
– Recomendo chamar um exorcista pra expulsar essa entidade ruim daqui. – falei. – Você trouxe, você se livra.
– O que é seu, está guardado, Dolores Umbridge. – falou e piscou antes de sair do cômodo e voltar pra cozinha.

De uma coisa eu tenho certeza: não terei apenas uma sexta-feira ruim, essa semana será um verdadeiro inferno!

XV

Dia 01 da pior semana da minha vida até o presente momento
Quando acordei, antes de abrir os olhos fiz uma oração rápida pedindo que aquilo tudo que aconteceu na noite passada tivesse sido apenas um pesadelo, mas, para minha infelicidade, não era.
E eu descobri quando ouvi um miado preguiçoso ao meu lado.
O gato tinha dado um jeito de entrar no meu quarto e tinha passado a noite inteira ali. Como eu sabia? Senti quando ele subiu na cama e andou sobre mim antes de se aninhar ao meu lado pra passar a noite. Excelente. Fiz um carinho em sua cabeça e ele soltou um ronronar preguiçoso, espreguiçando-se e aninhou-se ao meu lado. Só preciso lembrar o nome dele. Tem alguma coisa a ver com o Homem Aranha. Ou não. Eu não faço ideia.

– Ei, coisinha, precisamos levantar. – falei, voltando a fazer um carinho em seus pelos escuros e ele soltou um miado baixo. – Eu sei, também estou faminta e preciso levantar pra ir correr e levar Thor comigo. Espero que vocês dois não se odeiem.

Demorei mais do que gostaria para sair do quarto depois de vestir um short e uma blusa de malha mais larga pra ir correr com Thor. Calcei os tênis, prendi o cabelo, peguei o celular e sai para o exterior da casa em busca da coleira e levar Thor para nossa corrida diária. Mas, quando cheguei ao quintal, não vi Thor e nem a coleira dele.
Isso está estranho.
Porém, antes que eu pudesse procurar por Harry para saber se era ele quem tinha saído com o cachorro, o portão foi aberto e Thor entrou correndo, passando por mim e indo até sua água e logo depois veio , sem camisa, andando despreocupado, de fones de ouvido e cantando o que quer que ele esteja ouvindo. Provavelmente ordens diretas do inferno pra atormentar minha vida.

– Quem foi que te deu autorização pra sair com o meu cachorro sendo que quem faz isso todos os dias sou eu? – perguntei, com muita raiva, caminhando até estar perto de o suficiente pra não gritar e acordar a vizinhança inteira.
– Primeiro, bom dia . – respondeu de forma debochada, tirando um dos fones do ouvido. – Segundo, o Thor é do Harry e não seu, então contenha-se. E, terceiro, não sabia que você fazia isso. Eu corro todos os dias de manhã, então fui fazer isso e achei que seria uma boa ideia levá-lo pra um passeio, não sabia que você fazia isso todos os dias.
– Você acha mesmo que eu acredito nessa mentira? – perguntei brava e ele deu de ombros.
– Problema é todo seu, , eu só fui correr e levei o Thor comigo porque cachorros precisam de exercício tanto quanto humanos. Mas agora estou ciente de que isso é uma atividade sua, não farei mais. Pode ficar tranquila, porque não quero irritar o inferno e fazer com que os demônios saiam todos de lá pra vir me perseguir, porque a mimadinha não gostou. – respondeu seco antes de caminhar pra dentro da casa.
Ridículo.
Idiota.
E pior é o Thor, esse traidor, que fica todo serelepe perto do como se ele fosse mesmo uma pessoa suportável e não uma entidade enviada pelo inferno pra tornar minha vida algo insuportável. Mas é melhor eu canalizar toda essa péssima energia na corrida, posso meditar quando voltar pra casa, acender uns incensos e velas pra expulsar as más energias do ambiente.
Sai pra correr fazendo o trajeto de todos os dias, cumprimentei alguns conhecidos e estava de volta antes das oito. Preciso tomar banho, arrumar algumas coisas, gravar um vídeo, fazer uma live e estudar, então isso vai me poupar de conviver com os demais presentes na casa por muitas horas, o que me parece extremamente gratificante e estimulante pra viver o dia de hoje.

– Bom dia, . – ouvi Harry falar quando passei pela cozinha. – Não levou o Thor?
– Seu amiguinho fez questão de fazer isso antes pra me provocar, Harold. – respondi de má vontade e Harry rolou os olhos.
– Cedo demais pra essas brigas sem pé e nem cabeça de vocês dois.
– Sem pé e nem cabeça nada, ele é um idiota e fez isso pra me provocar.
– Não existe a menor possibilidade de isso ser verdade, . nem devia saber que você sai com o Thor pra correr todo dia.
– Ele deveria imaginar. Ou ele realmente acha que é o único que se importa com os animais? Eu também me importo!
– Cedo demais pra essas brigas sem pé e nem cabeça de vocês dois. – repetiu.
– Enfim, hoje eu tenho um dia um pouco cheio de coisas pra fazer, fico devendo o almoço pra amanhã, tudo bem?
disse que vai cozinhar.
– E qual a chance de eu comer algo que ele cozinhará? Qual a chance de ele não me envenenar?
– Primeiro, eu vou cozinhar pra todo mundo da casa, então não vou matar o Harry e a Carol só porque não te suporto. – ouvi a voz de e quis socar a cabeça na parede. A dele, no caso. – E, segundo, pelo menos eu sei temperar muito bem a comida, então você pode comer com a certeza de que vai consumir algo de qualidade. Ah, terceiro, se você se importasse mesmo com os animais, não comeria e nem usaria coisas que vêm deles ou que os machucam.
– Harry, diga ao seu convidado que eu não converso com ele e que nem ele deve falar comigo, por favor.
– Eu me esqueci que não se fala com entidades diretamente, na próxima eu uso o tabuleiro ouija ou um copo. – caçoou e eu lhe mostrei o dedo do meio, fazendo com que ele gargalhasse. – Potter, vai querer o que pro café da manhã?
– A especialidade da casa. – Harry respondeu, sorrindo, e eu apenas saí da cozinha antes que eu acabasse sendo mais provocada do que o habitual.
Quando entrei no quarto, o gato não estava mais na cama, provavelmente saiu pra comer e usar sua caixinha de areia, então tomei banho, me troquei e fui cuidar da minha vida, porque nenhum dos meus compromissos vai se cumprir sozinho.
Infelizmente.

~*~

– Você viu o Venom? – perguntei ao Harry e ele negou com um aceno. – Esse infeliz sumiu o dia inteiro. Desde ontem, na verdade. Ele não dormiu comigo.
– Ele deve estar na casinha do Thor.
– Esse é o pior crossover da história e se a Marvel ficar sabendo, seremos processados. Prepare-se. – ri. – Vou olhar pra ver se o encontro lá fora.
– Ele provavelmente está em algum lugar lá fora, a ração está na cozinha, certo?
– Ele deve ter ido comer algumas vezes hoje e eu apenas não o vi.
– É o mais provável.
– Vou procurar o gordo e depois pensamos no que jantar. – falei e Harry assentiu.
Sai de seu quarto e segui pelo corredor, prestando atenção a cada porta, menos a do quarto da insuportável da , e ele não estava em lugar nenhum dentro da casa. Nem no meio da enorme bagunça que estavam as minhas coisas, nem no carro ou do lado de fora. E isso é preocupante, Venom é preguiçoso demais pra fugir, mas ele pode estar estranhando a casa provisória…
Thor estava deitado na cozinha quando entrei de novo na casa e não pareceu se importar muito comigo, apenas me olhou um tanto preguiçoso, mas não se mexeu e nem manifestou real interesse em mim. A comida de Venom tinha sido consumida, então ele estava dentro da casa, ou pelo menos esteve em alguma parte do dia.
Quando estava prestes a entrar no quarto em que eu ficarei por esses dias, vi Venom no corredor. Parado à porta do quarto da insuportável e miando repetidamente, arranhando a porta e quase implorando pra entrar. Esse gato só pode ter perdido totalmente o respeito por mim e o amor pela própria vida.
– Finalmente eu te achei, seu gordo. – falei me aproximando e o peguei no colo com certa dificuldade. – Por onde você andou? Você tem noção de que eu estava preocupado achando que você tinha fugido e estava perdido? E onde você passou a noite? Espero que não tenha saído de casa, você não conhece a vizinhança e vai acabar perdido e ninguém aqui quer isso!
– Você acha mesmo que ele vai responder? – ouvi a voz de Harry e me virei em sua direção.
– Conversamos por telepatia, gatos se entendem. – brinquei, fazendo Harry rir alto.
– Ele está sentado ai tem um tempo, até pensei em chamar a pra abrir a porta, mas ela tá fazendo uma live e eu não gosto de me meter nessas coisas.
– Abrir a porta pra quê?
– Ele claramente quer entrar no quarto, .
– Mas não vai! – respondi ultrajado. – Meu gato não vai se aliar às forças do mal assim.
– Você viu ontem, não viu? Ele gostou dela.
– Impressão sua. – respondi. – O que você acha de pedirmos comida?
– Claro. Escolha o restaurante que tenha algo que você coma e peça três porções pra nós comermos.
– Três? Carol vem pra cá?
também come, .
– Não conheço restaurantes que vendam almas para alimentar demônios. – respondi, fazendo Harry rir.
– Cresça, .
– Vou colocar esse gordo no quarto e pedir nosso jantar.
– Aposto que ele passou a noite com a .
– Você conhece algum exorcista pra animais? – perguntei e Harry rolou os olhos. – Ele não me trairia desse jeito, .
– Acho que já traiu, .

Deixei Venom no quarto e segui com Harry pra cozinha para decidirmos o que pedir para o jantar e, por fim, decidimos por comida tailandesa vegana. Ele disse que daria uma chance e se fosse ruim, me colocaria pra fora de casa. Jogamos videogame até a comida chegar, sob muitos protestos, ele aceitou que eu pagasse pelo jantar – e ninguém pode dizer que sou uma péssima pessoa, porque paguei até pelo jantar da irmã dele! – e ele foi chamar pra comer.
demorou a aparecer pra buscar seu jantar e quando apareceu, com uma maquiagem muito elaborada (mas muito bonita e bem feita, admito. Sandy me fez assistir um vídeo uma vez e realmente é boa nisso), o cabelo estava solto, mas arrumado, Venom apareceu junto, andando ao lado dela como se eles fossem uma dupla inseparável desde sempre. Ele me olhou rapidamente, quase provocando, e se enroscou nas pernas de , dando um miado manhoso.

– Acabou tudo que tinha pra fazer? – Harry perguntou e negou com um aceno antes de falar.
– Quem me dera. Ainda preciso terminar de revisar um conteúdo e preciso gravar outro tutorial de maquiagem e mandar pra Zara editar.
– E dá tempo de fazer tudo hoje?
– Dá sim. Vou comer, fazer o tutorial e estudar. – deu de ombros, sentando-se de frente para Harry. – Mas amanhã tenho aquele compromisso.
– Eu tinha até me esquecido disso.
– Posso ir com seu carro? Ele tem o porta-malas maior e é mais espaçoso. – pediu e Harry assentiu sem questionar.
Agora eu estou curioso pra saber o que é. Como vou descobrir sem ter que perguntar ao Harry ou seguir ?
Venom pulou no colo de (eu estou ofendido em níveis alarmantes nesse momento) e ela lhe deu uma cenoura cozida – que ele nunca come comigo, mas ele comeu e engoliu tudo!!! – e fez um carinho nele.
– Vou voltar pro quarto e terminar de comer lá, se você não se importar. – falou com Harry e ele assentiu.
– Chegou uma coisa pra você. – Harry falou e ela pareceu pensar sobre o que poderia ser.
– Alguma identificação?
– Não. Só uma caixa grande mesmo, mas não é pesado.
– Eu não lembro se tinha alguma coisa pra chegar, normalmente as marcas que mandam coisas me avisam.
– Está na sala, perto da porta.
– Vou buscar. Espero que tenham mandado algo pra você.
– Eu não vou aparecer pra um milhão e meio de pessoas, . – Harry estreitou os olhos e ela sorriu.
– Tudo bem, . Agora eu vou pro meu quarto terminar tudo que preciso fazer hoje ainda, se precisar de algo é só chamar. – falou, ficando de pé e em uma mão segurava a caixa de comida e na outra, Venom.
– Esse gato não te pertence. – falei e ela me olhou quase com nojo.
– Você queria que eu levantasse e jogasse o coitado no chão?
– Se você usar meu gato pra fazer qualquer magia oculta, eu mando te matar.
– Então, se eu fosse você, não dormiria com ele nunca mais. – respondeu num tom que as bruxas de filme geralmente usam.
– Venom fica.
– Eu vou deixá-lo aqui sem problemas, não precisa surtar feito um maluco. – respondeu, colocando Venom sobre a cadeira em que estava antes e me mostrou o dedo do meio antes de dar as costas e sair da cozinha.

– Eu nem fiz nada, só falei pra deixar o gato.
– E a chamou de bruxa.
– Sim, porque ela é uma. – resmunguei. – E vou manter esse gato trancado no quarto, não quero que ele fique tão mal acompanhado.
– Acho que depois de ver como ele gostou da , você sabe onde ele esteve o dia inteiro…
– Esse traidor. – falei, mas olhando para Venom, que permanecia na cadeira em que esteve e me olhava quase que debochado.
Esse gato me paga.

XVI


Dia 02 da semana mais sofrível da minha vida até o momento
Quando acordei e Venom não estava na cama, onde ele deveria ter passado a noite, eu quis bater a cabeça na parede, pensei até em sair pra correr com Thor de novo pra devolver a provocação, mas se adiantou e quando eu estava saindo, ela estava chegando com o cachorro e me olhou com uma expressão vencedora de quem tinha conquistado o maior prêmio do mundo apenas por ir correr com o cachorro.
Eu preciso descobrir o que ela vai fazer, fiquei curioso.
Não posso seguir de carro, porque ela conhece o meu carro, não estou curioso o suficiente pra gastar dinheiro seguindo de Uber ou táxi (mesmo que a ideia de poder dizer “siga aquele carro!” seja absurdamente tentadora), então é melhor correr e pensar em como descobrirei sem ter que seguir ou perguntar ao Harry, porque é impossível induzir esse maldito advogado a falar alguma coisa que ele não queira.
Bom, mas isso também não é exatamente da minha conta, em todo caso.
Quando voltei pra casa de Harry, encontrei Venom deitado com Thor tomando sol perto da piscina. Fiz o café da manhã antes de ir pro quarto tomar banho, Harry não parecia acordado e a irmã não se prestou a fazer um café da manhã decente pro irmão mais velho que a está hospedando com muito amor e carinho… deixei as coisas prontas sobre a mesa e fui tomar um banho rápido antes de voltar pra comer.

– Você está me deixando mal acostumado. – Harry falou quando voltei.
Estava sentado à mesa e começando a tomar seu café da manhã e eu me sentei ao seu lado antes de responder.
– Minha intenção é essa.
– Carol vai mesmo ter que nos aceitar como um trisal, não vejo outra saída. – riu. – Tem dormido bem?
– Bastante. Você é rico e tem camas muito confortáveis para os seus hóspedes.
– Queria ter metade do ânimo que você e têm de manhã pra correr assim…
– Você malha no fim do dia e eu tenho inveja disso, se eu não me exercitar de manhã, acabo não me exercitando hora nenhuma.
– Se eu malhar pela manhã, passo o dia cansado e não rendo absolutamente nada no trabalho, só quero dormir.
– Quando Carol vem pra cá?
– Perto da hora do almoço, ela tinha alguma coisa pra fazer pela manhã. – deu de ombros ao falar. – E qual o cardápio?
– Pensei em fazer aquela soja de panela que vocês dois gostaram quando fiz lá em casa. O que você acha?
– Que vou parar de comer agora, porque no almoço eu pretendo comer até as panelas.
– Harry, cadê suas chaves? – entrou na cozinha e tinha Venom nos braços.
Como esse infeliz foi parar no colo dela? Eu. Odeio. O. Meu. Gato.
– No meu quarto, na mesinha de cabeceira.
– Me ajuda a colocar as caixas lá? – pediu e ele assentiu, deixando a xícara sobre a mesa e depois ficou de pé.
Ela colocou Venom sobre a cadeira e ele me olhou como se fosse um inocente e não soubesse que estava me traindo na minha própria cara ao se aliar àquela… argh! Um miadinho mimado saiu daquela sua boca traidora e eu estreitei os olhos.
– Você é um traidor, Venom. Um traidorzinho de quatro patas que não merece todo amor e carinho que eu tenho te dado desde que você entrou em minha vida. Safado. – falei e ele miou, quase se fazendo de desentendido. – “Miau” coisa nenhuma, você sabe muito bem que nós não gostamos dela de jeito nenhum. Não venha com esse miadinho inocente achando que vai mudar meu profundo desapontamento com você e com suas condutas tão ridículas e que traem o nosso movimento.
, você tá vendo Frozen demais. – Harry falou, entrando na cozinha com duas caixas de papelão relativamente grandes em mãos.
– Precisa de ajuda?
– Se você encostar em algo da minha irmã, ela manda te matar.
– Então vocês que se virem. E, Harry, você sabe que Frozen nunca é demais. – respondi, fazendo Harry gargalhar e sair da cozinha com as caixas.
passou com uma caixa grande nos braços e pouco depois Harry refez o caminho com outras duas caixas, ela com mais duas e só então saiu e não voltou mais pra casa naquela manhã. Será que aquilo são corpos de pessoas que ela matou pra se alimentar do sangue? Tudo bem, eu preciso ser um pouco mais razoável. Bom, não é da minha conta, então vou apenas comprar o que preciso pra fazer o almoço do meu casal de amigos queridos.
Carol chegou mesmo perto do meio-dia, o almoço estava quase todo pronto e nós passamos um bom tempo juntos. Venom estava todo cheio de gracinhas comigo, ficou no meu colo e miando cheio de frescura, mas eu sei bem que ele vai me trocar assim que a outra chegar.
Espero que ele esteja sondando o território e descobrindo uma forma de azucriná-la de um jeito épico e inesquecível.

– Cadê a ? – Carol perguntou para Harry enquanto estávamos na sala.
– Hoje ela precisou sair pra res…
– Ah! – Carol o interrompeu, sorrindo. – Era hoje? Achei que fosse semana que vem.
– Não. Foi hoje. Ela deve chegar perto das nove, se é que volta.
– Se ela não chegar você vai trabalhar no carro dela? – perguntei e Harry deu de ombros.
– Não ligo, já fiz isso umas duas vezes.
– Haja paciência e coragem…
– Amanhã você consegue chegar no trabalho de boa de bicicleta ou vai querer uma carona pra ir e voltar, ?
– Dá pra ir tranquilamente se sua irmã não esvaziar os pneus da minha bicicleta de novo.
– Como assim de novo? – Harry perguntou me olhando surpreso.
Ele não sabe.
Crio ou não crio um conflito entre os dois?
Pontos positivos de contar: Harry vai mandar matar a irmã, vai brigar com ela e a forçará a pedir desculpas por ter sido idiota, ela vai ficar muito puta e essa será uma baita vingança. Ponto negativo: deixar meu melhor amigo puto.
Fazer ou não fazer?
Será que vale a pena azucrinar e perturbar a paz e o bom espírito do meu melhor amigo?
– Lembra quando ela fez isso quando éramos crianças? – perguntei, ignorando o fato de que ela também tinha feito isso há uns meses.
Claro que não vale a pena acabar com a paz de espírito do Harry, já basta que ele é forçado a conviver e ser da mesma família dela, então já sofre castigo demais na vida.
E, em todo caso, a implicância é nossa e Harry não pode ser envolvido em algo assim, porque não podemos forçá-lo a escolher um lado.
– Deixe de ser tão vingativo.
– Isso é paixão reprimida, amor. – Carol provocou. – E sabemos que Venom concorda, porque ele está todo cheio de amor com a .
– E como você sabe disso? – perguntei curioso.
– Ela postou uns stories com ele e uma foto no feed. – Carol deu de ombros.
– Harold, eu posso processá-la por estar exibindo meu gato na internet sem minha permissão? – perguntei e Harry me olhou sério.
– Se eu tiver que responder, vou cobrar pela consulta.
– Eu sou seu melhor amigo!
– Amizade não paga contas, senhor . – Harry respondeu sério e eu rolei os olhos.
– É por isso que as pessoas pesquisam tudo no Google, sabia? Você não devia cobrar pra passar seu conhecimento para explicar pras pessoas as coisas que elas perguntam.
– Você repassa seu conhecimento de graça? – Carol perguntou e eu rolei os olhos.
– Eu odeio vocês dois. – falei, fazendo Carol rir.
, você não vai processar a por causa de uma foto com seu gato, deixe de ser ridículo.
– Eu deveria.
– Você já postou foto com o Thor.
– Mas ele é do Harry e não da .
– Se formos pensar em proximidade do Thor com vocês, mesmo que você seja meu melhor amigo, é minha irmã…
– Somos todos irmãos nesse planeta, Harold.
– Isso inclui você e a , . – Carol provocou.
– Os seres humanos são todos irmãos nesse planeta, não estou incluindo aqui as formas transmorfas de demônios.
– Enfim… – Harry falou antes que Carol contra-atacasse. – Só respondo se você me pagar e como hoje é domingo, o valor é triplicado.
– Isso é extorsão, sabia?
– Não. Isso é atendimento ao cliente em dia não útil.
– Advogados não têm alma mesmo. – resmunguei. – Não ia doer você falar só sim ou não.
– Se as pessoas processam Deus nesse país, você acha mesmo que não existe a chance de processar a pelo uso do seu gato? – Carol perguntou, dando uma gargalhada.
– É, você tem um ponto…
– Mas vamos conversar sobre o fato de que seu gato odiava sua ex-namorada, ele até a atacou, e se apaixonou pela assim que ele colocou os olhos nela na sexta-feira…
– Ele está apenas estudando formas de tornar a vida dela um inferno.
– Ou de tornar a sua um inferno ao te trocar por ela na sua cara e sem nenhum remorso ou tentativa de disfarçar.
– Vocês vão ao Super Bowl? – perguntei, mudando de assunto, e Harry me olhou sem entender bem.
– O jogo é na Flórida, .
– Eu sei disso, mas fomos em quase todos os jogos da temporada, Harry, por isso a pergunta…
– Você vai?
– O jogo já é no fim de semana que vem, não deve nem ter ingresso mais.
– E seria bem corrido, precisamos trabalhar na segunda-feira e são cinco horas de voo de lá pra cá, então não daria muito certo.
– Veremos no bar então?
– Claro.
– Ainda bem que estarei livre de vocês dois. – Carol falou num tom aliviado.

Antes que eu respondesse, ouvimos o barulho do carro de Harry entrando na garagem. estava de volta e eu ainda não descobri o que diabos ela foi fazer fora de casa e levando aquelas caixas todas… Será que existe alguma pista no Instagram? Mas se eu for procurar, ela vai saber que eu vi… é melhor deixar pra lá. Um dia eles terão que falar a respeito e eu saberei.
Ela estava visivelmente cansada e mal a viu, Venom saiu do meu colo e foi caminhando até estar ao lado dela e se enroscar em suas pernas. Eu odeio esse gato e eu falo muito sério quando digo isso. Ele não me merece.

– O jantar está na geladeira. – Harry falou e ela assentiu.
– Comi antes de sair de lá, mas obrigada por guardar um pouco pra mim. E espero que vocês não se importem se eu for tomar um banho e dormir, eu estou muito cansada e amanhã preciso acordar bem cedo. – falou com os dois e eles assentiram.
– Depois quero saber tudo. – Carol sorriu e sorriu junto.
– Claro. Vamos almoçar um dia essa semana, o que acha?
– Vou conferir meus horários e vamos sim. – Carol sorriu e despediu-se dos dois com um aceno, sendo seguida de perto por Venom.
– Você não vai implicar e mandar o gato ficar? – Harry perguntou quase debochado.
– E vai adiantar? Ele vai sair pela janela de noite e vai pro quarto dela, então estou poupando o trabalho dele. – dei de ombros.
– Só precisamos combinar que é muito estranho ele ter se afeiçoado tanto à assim, do nada, e passado meses odiando a Sandy. – Harry falou e eu assenti, concordando.
– Gatos, Harold, gatos…
– Sinais, , sinais… – Carol provocou.
Eu odeio as pessoas nessa casa.

~*~


Dia 03 da pior semana da minha vida até o exato momento.
– Não tem a menor graça, Daphne. – falei séria, fazendo Daph rir ainda mais.
– Claro que tem! – respondeu rindo. – Imagina morar com a pessoa que você mais detesta! Harry deve estar se divertindo muito.
– Você é a pior melhor amiga do mundo, Kenner! – reclamei, fazendo-a rir ainda mais.
, mas é uma situação bem engraçada… vocês já brigaram feio o suficiente pro Harry se enfiar entre os dois e pedir paz?
– Não tive tempo. – dei de ombros. – sábado eu tinha muitas coisas pra fazer e ontem eu fui pro abrigo.
– Ah, verdade! E como foi?
– Muito legal. Essa semana volto lá, na quarta-feira, e fico o dia todo pra ajudar as pessoas que vão pras entrevistas de emprego e cuidar de algumas crianças.
– Você é maravilhosa demais, ! O mundo não te merece.
– Não faço nada excepcional, Daph. – dei de ombros. – Só coisas que gosto pra ajudar pessoas a melhorar de vida.
– Então, ontem você fez o que exatamente?
– Levei algumas roupas, sapatos e maquiagens que foram doados para as pessoas e outras que vão pra um bazar em que os fundos vão todos pra esse abrigo. Eu passei o dia ensinando maquiagens bem básicas pro dia-a-dia, fiz uns kits e tentei ajudar ao máximo.
– E ninguém fala nada disso na internet?
– Minha única exigência, por assim dizer, foi que nunca comentassem nada, porque não quero que as pessoas fiquem jogando hate no que faço por amor e consideração. Também não quero que achem que faço isso pra promover minha imagem. Então eu basicamente implorei pra que nunca mencionassem nada a meu respeito, porque não quero que marcas queiram se promover com a desgraça alheia, não quero eu ser promovida com isso e muito menos que as pessoas da internet falem sobre o que não sabem.
– Você tem razão. – Daph falou e eu sorri pequeno.
– E então, como estão as coisas por aí?
– O inferno de sempre. Harvard é uma coisa louca, mas eu amo muito tudo que está acontecendo.
– E o seu namorado?
– Não somos namorados, , somos apenas bons amigos.
– Eu falava a mesma coisa sobre o Liam, Daph, e nós namoramos um bom tempo…
– Brendon é legal, mas acho que não teremos nada sério, . E eu nem tenho tempo pra isso, em todo caso, tenho estudado muito e passado mais tempo no laboratório do que no apartamento. Vejo Brendon por pouquíssimas horas por dia.
– E ele estuda o quê?
– Direito.
– Preciso conhecê-lo…
– Nosso próximo FaceTime será com ele. – sorriu. – Eu queria tanto estar ai pra ver você e morando sob o mesmo teto!
– Pra começar, se você estivesse aqui, eu não teria vindo morar com meu irmão e não estaria passando por essa situação. Ou seja, a culpa disso tudo é sua!
– Não se pode dizer não a Harvard, .
– Nem acredito que vou chegar em casa e ter que conviver com aquele… argh! Pelo menos o gatinho dele é uma gracinha e gosta de mim.
– Espera ai… – Daphne falou, olhando para a tela como se estivesse tentando entender uma situação. – Então aquele gato das fotos do feed e dos stories é o gato de estimação do ?
– Isso mesmo. – dei de ombros. – Quando eu cheguei na sexta-feira, o gato veio todo serelepe pro meu lado, ficou pedindo carinho… e no meio da noite ele foi pro meu quarto, dormiu comigo o fim de semana inteiro! está possesso de ódio e eu acho isso divertidíssimo.
– Você está me dizendo que o animal de estimação do ser humano que você mais odeia te adora?
– Sim.
– Essa história está cada vez melhor! – gargalhou. – Eu imagino o ódio dele por você.
– A culpa não foi minha, eu nem tentei nada desse tipo, o gato simplesmente me viu e resolveu se aproximar, gostou de mim e quando estou em casa, passa o tempo todo comigo. Porém é muito bom ver a cara de ódio de quando o Venom fica todo cheio de amor comigo.
– Isso é um bom indicativo…
– Indicativo de quê?
– De que ele te aprova, ou seja, quando vocês dois começarem a namorar, o gato não será um problema.
– Que namorar o que, Daphne! Deixa de ser ridícula.
– Eu sempre disse que essa implicância toda é amor reprimido, estou apenas esperando o momento de dizer “eu avisei”.
– Não vai acontecer.
– E o Thor?
– Aquele pamonha gosta do , mas Thor gosta de todo mundo, então não dá pra falar que esse comportamento é atípico. – dei de ombros. – E ele aceitou correr com no sábado, eu quis matar aquele idiota!
– Não deve ter sido por mal, . – riu. – Mas ele não está namorando? Por que não foi ficar com a namorada essa semana?
– Não faça perguntas que eu não sei responder e nem tenho interesse em descobrir, Daph, por favor. Mas Harry deve ter feito um pequeno drama para convencer aquele troglodita a ir passar a semana lá.
– Quando chegar o dia em que vocês vão se pegar muito, eu vou jogar na sua cara todas as vezes que você xingou o e disse que nunca ia acontecer nada.
– O mais próximo de pegar o que eu chego é de pegá-lo no soco, Daph.
– Um dia você vai perceber que não é ódio, é amor acumulado.
– Vocês são todos mentalmente perturbados.
– Todos? – perguntou curiosa.
– Você, Melrose, Carol, minha mãe, meu pai, Debbie e até mesmo Liam chegou a falar que “o ódio é uma emoção apaixonada”. Me poupem.
– O pior cego, , é aquele que não quer ver. – piscou. – Agora vá trabalhar, eu tenho que ir ao laboratório de novo.

XVII

Dia 04 da pior semana que já vivi em toda minha vida até hoje
Eu não sei a qual entidade agradecer por não ter visto por quase dois dias inteiros. Ela chegou no domingo à noite e foi a última vez que nos vimos. Ainda bem. Obrigado a quem quer que seja que esteja me permitindo ter paz. Saímos pela manhã ontem e hoje em horários diferentes – ela primeiro que eu – e ontem chegamos em casa em horários muito diferentes – eu primeiro que ela – e tudo estava em paz.
Exceto pelo fato de que Venom se aliou totalmente a e me ignora como se eu fosse um nada, como se ele não me conhecesse. Como se ele não fosse o meu gato! Pelo menos Thor tem se provado mais afável e até me fez companhia a noite, ele tem até ignorado um pouco, ainda que saia com ela para correr todos os dias e não comigo, mas normalmente passamos boas horas juntos. Só que ser trocado pelo meu próprio gato, principalmente por ele saber que e eu nos odiamos muito e que é mais fácil eu cumprimentar o Trump com um abraço do que deixar de odiá-la, é horrível.
Outro fato que acaba com toda a paz dos dias anteriores é que recebi uma mensagem do Harry dizendo que não chegará em casa para jantar. Depois que eu fiz o jantar. E que não sabe nem se vem dormir em casa essa noite, porque eles estão resolvendo coisas sérias no escritório e estão todos direcionando seus esforços para um processo muito sério e que precisa de muita atenção, cuidado e diligência.
E acabou de estacionar o carro na garagem.
Deus, por quê??????

– Oi meu amorzinho. – ouvi sua voz falando com Thor e ele soltou um latido todo empolgado com a chegada dela. – Harr… ah.
– Ele não está. Disse que estão trabalhando em um caso grande e não chega pra jantar e nem deve vir embora hoje.
– Hm.
– Fiz o jantar.
– Não existe a menor chance de eu comer algo que você fez apenas para que eu coma.
– Eu também vou jantar.
– Você fez isso sozinho, pode ter colocado algo na comida e eu acabe morrendo.
– Não sou burro, . Quando eu for te matar, farei de um jeito que não deixe rastro algum que leve a mim. – sorri sem mostrar os dentes. – Pode ter certeza que eu saberei bem o que fazer, tenho pesquisado bastante.
– Idiota.
– Foi você quem começou. Eu apenas disse que fiz o jantar. – falei e ela pegou o celular, mexeu na tela e logo um “nhenhenhe ah, seboso!” soou e ela deu um sorriso debochado.
– Oi lindinho. – ela falou, virando-se para Venom que estava deitado na cadeira, e fez um carinho nele, que ronronou todo cheio de frescura.
E ela fez uma expressão tão vitoriosa ao me ver odiar aquela situação, que eu quis dar um tiro pro alto. Mas não tenho arma. E mesmo se tivesse, não atiraria pro alto nessa casa. Eu provavelmente não tenho dinheiro suficiente guardado pra pagar o conserto do teto e nem se eu trabalhar minha vida inteira e seis meses depois de morto eu terei.
Quando dei por mim, estava sozinho na cozinha. Sozinho. Venom tinha ido com ela e eu fiquei acompanhado das panelas e se eu não tivesse feito o jantar para três pessoas, eu comeria tudo e a deixaria com fome para ela aprender a ser menos soberba e insuportável. Eu devia ter feito apenas para o Harry e para mim, mas eu tenho que ser um idiota que não sabe ser uma pessoa ruim que deixa os outros com fome. Eu deveria aprender.
Comi sozinho, claro. Na verdade, Thor entrou na cozinha e ficou me fazendo companhia enquanto eu jantava e me olhava quase com pena. voltou à cozinha um tempo depois, mas não me olhou e apenas abriu a geladeira, pegou algumas coisas, fez um sanduíche e voltou pro quarto.
Eu também não demorei a sair da cozinha, lavei os pratos e panelas que sujei, guardei o que sobrou da comida na geladeira e fui para a sala assistir televisão. É muito estranho estar nessa casa sem o Harry, não sei o que fazer e nem sei se me sinto confortável o suficiente pra fazer as coisas sem ele por aqui, mas está cedo e eu estou entediado demais pra ficar no quarto mexendo no celular.
Mal sentei no sofá e meu celular tocou. Minha mãe.

– Oi mãe. – atendi a chamada de vídeo e ela sorriu ao me ver.
– Oi meu amor, tudo bem?
– Tudo bem e aí, como estão as coisas?
– Ótimas. E o fim de semana?
– Foi tranquilo, mãe. Fiquei segurando vela pra Carol e pro Harry, mas foi em paz.
– Isso quer dizer que vocês dois se evitaram? – perguntou e eu assenti. – E você está sozinho?
– Na sala sim, mas ela está no quarto.
– E o Harry?
– Disse que não sabe nem se volta pra casa hoje, estão trabalhando no caso sério lá no escritório dele e parece que é uma coisa muito importante mesmo. – dei de ombros e ela deu um sorriso quase provocativo. – O que foi?
– Nada…
– Mãe…
– Nada, . Só acho muito engraçado como as coisas são entre vocês dois.
– Que coisas, mãe? Não existe “coisas entre nós”. – fiz aspas com a mão livre e ela sorriu.
– Vocês sempre tiveram esse atrito, quando crianças isso era engraçadinho e ficou um pouco bizarro e preocupante, depois, na adolescência, ficou meio que uma enorme tensão, mas não de um jeito sexual, apenas… tenso, mas agora essa tensão está irradiando e atraindo os dois pra mais perto o tempo todo! mora com o irmão, a casa que você frequentava desde sempre e ela mal ia até aí visitar Harry, vocês passaram a se ver com muito mais frequência, ficaram solteiros na mesma época, agora estão morando sob o mesmo teto, porque uma dedetização aconteceu e a primeira coisa que você fez foi ligar pro Harry pra falar sobre isso, quase me soa como a esperança de ir passar uns dias por aí…
– Mãe, a senhora andou indo naquela cigana? Tomou o remédio do cachorro? – perguntei, fazendo-a gargalhar.
– Sou sua mãe, , você se engana, mas não consegue me enganar.
– Eu vou te deserdar.
– Você não teria essa coragem.
– Não teria mesmo, jamais acharia uma mãe tão fantástica. – respondi e ela sorriu. – Mas a senhora precisa recordar que aquela delinquente quis me dar uma paulada uma vez. E me mordeu tão forte que tenho a marca até hoje. Sem contar todas as coisas absurdas que ela fez comigo!
, na idade da pedra era assim que as coisas aconteciam. – falou debochada e me fez dar uma risada involuntária. – E esse daí é apenas mais um ponto a favor da minha teoria: vocês dois estão marcados na pele um do outro, porque nasceram pra estar um na vida do outro. Não do jeito mais recomendado, por enquanto, mas vocês têm marcas das pessoas que mais juram odiar na vida… você pode me chamar de louca, mas eu sou sua mãe e eu vejo as coisas.
– Louca e precisando de um oftalmologista, mãe. – falei e ela riu.
– Estou apenas esperando o dia de falar “eu avisei”.
– Mãe, o que a senhora tem feito de interessante em Sacramento? – perguntei e ela riu.
Não rendeu aquela conversa sem sentido sobre e eu, e nós conversamos por mais de quarenta minutos sobre bastante coisa (como sempre), até que ela resolveu desligar pra assistir alguma coisa na televisão e eu fiz o mesmo. Precisava procurar algo pra me distrair até que eu tivesse sono suficiente para ir dormir.
Mas antes que pudesse chegar a ligar a televisão, uma notificação no celular chamou minha atenção: Tinder.
Eu teria um encontro no dia seguinte.

~*~

Dia 05 da pior semana que já tive o desprazer de viver

Eu estava na sala, deitada no sofá e acompanhada de Thor e Venom, deitados comigo no móvel, quando ouvi a porta se abrindo. Harry já estava em casa, então eu nem mesmo me movi pra olhar entrar, mesmo que fosse estranho, já que hoje de manhã ele falou demais sobre o tal date que teria e como seria algo ótimo e várias outras coisas para se vangloriar de estar saindo para um encontro. Estava cedo demais pra ele chegar em casa de um bom date, mesmo que seja quarta-feira…
Não é da minha conta também, então que seja.
Passei o dia inteiro no abrigo e ajudei algumas mulheres nas maquiagens e ensaios para suas entrevistas de emprego, além de ajudar com as crianças e com a arrumação. No fim do dia eu estava muito cansada, mas muito feliz com tudo aquilo. Algumas tinham sido respondidas no dia e começariam novos trabalhos em breve, outras aguardariam respostas que não deveriam demorar.
Thor balançou o rabo quando entrou em seu campo de visão e deu um latido alto que me assustou, fazendo aquele idiota rir. Deus, por que me odeias tanto assim? Venom nem mesmo se mexeu, permanecia dormindo enquanto eu lhe fazia carinho sem desviar os olhos do episódio de “Inacreditável” que estava assistindo.
passou sem mexer diretamente com Thor (que só latiu, porque é um emocionado) ou Venom, mas o cachorro traidor saiu do sofá e seguiu pelo corredor atrás daquele inominável, me deixando na sala com Venom e o episódio da série.

, nem conversamos hoje sobre como foi seu dia… – Harry apareceu na sala, me fazendo desviar os olhos da televisão para ele. – Por que você está chorando?
– Porque essa série é muito triste. – funguei e ele deu uma risada nasalada, sentando no espaço livre do sofá e eu pausei a série para conversarmos. – E hoje foi ótimo! Algumas delas receberam as respostas na hora e conseguiram, outras estavam bem animadas pras respostas que receberiam. Ensaiamos domingo e hoje antes que elas saíssem, então todas saíram lindas, perfumadas, maquiadas e prontas para impressionar seus futuros empregadores. Eu estou super animada por todas elas, algumas têm outras entrevistas essa semana, mas já estão boas em maquiagens simples e conseguem falar muito bem com os entrevistadores. As crianças que ficaram comigo também estavam ótimas e são bastante ativas, inteligentes e umas gracinhas. O dinheiro do bazar deve sair na semana que vem, então vai entrar uma excelente quantia de dinheiro pra ajudar na manutenção.
– Você é incrível. – Harry sorriu. – Quero ir na próxima vez que você for.
– Agradeço sua disponibilidade, mas não.
– Por quê? – perguntou sem entender e me olhou quase ofendido.
– A maioria delas sofreu bastante com homens durante a vida, violências de todos os tipos que você conseguir imaginar, então é meio que um território proibido para homens que não sejam as crianças.
– Ah… eu não sabia.
– Pois é… então eu agradeço por você se dispor a ir e ajudar, só que dispenso. Mas, se você quiser separar algumas roupas pra doar ao bazar ou doar dinheiro, tudo bem, mas sua presença física lá no abrigo será dispensada.
– Acho que tenho várias coisas pra doar, não mandei nada nesse bazar.
– Temos um tempinho até o próximo.
– Posso pedir ao algumas coisas também?
– NÃO! – falei alto e quase desesperada, fazendo Harry me olhar sem entender. – Não, obrigada. Não quero que esse… enfim, não o envolverei em nada que eu faço. Até porque ele vai perguntar pra que você quer essas roupas, você não saberá mentir ou ocultar os motivos e eu não quero que ele saiba disso.
– Tudo bem, foi apenas uma sugestão.
– Não foi aceita. – sorri de um jeito quase forçado e Harry deu uma risada. – Inclusive, amanhã você pode me buscar no jornal? Vou mandar o carro pra oficina e só fica pronto na sexta-feira de tarde.
– Aconteceu alguma coisa?
– Ele está fazendo um barulho estranho quando eu piso no freio, então vou adiantar a ida pra revisão anual.
– Tudo bem, eu te busco.
– Se não der, me avise e eu peço um Uber.
– Eu te busco, sem problemas. – Harry falou, sorrindo. – Mas como você vai pra lá?
– Vou de carro pra aula, de lá eu vou pra oficina que fica perto do estágio e que é a oficina que sempre vou e fim.
– Entendi… bom, por mim tudo bem. Acho que não tenho nenhum julgamento mais demorado e nem muito o que fazer depois das quatro, porque tenho trabalhado demais depois do horário e mereço sair cedo um dia que seja.
– Só me avise se você não puder ir.
– Eu já entendi essa parte.
– Ótimo. E seu amigo voltou cedo…
– E desde quando isso te interessa? – Harry perguntou, cruzando os braços e dando um sorrisinho presunçoso.
– Não interessa, eu apenas estou comentando pra poder rir da cara dele mesmo.
– Rir de quê?
– Do encontro fracassado.
– Isso é por sua conta.
– Eu conheço os sinais da derrota quando os vejo, Harold.
– Claro, porque é uma perdedora. – ouvi a voz de e ele logo apareceu na sala, dando um sorrisinho forçado.
E isso apenas prova que eu estou certa: o encontro foi um fracasso.
Bem feito.
– Se eu tivesse uma camisa gigante, faria a camisa da amizade e colocaria os dois dentro dela pra forçá-los a serem menos idiotas e intolerantes um com o outro.
– Prefiro a morte do que ter que me aproximar dessa daí assim. – fez uma careta.
– Se quiser, eu te mato. Farei com o maior gosto e com muita calma, pra você aproveitar bastante. – falei, dando um sorrisinho.
– Não duvido mesmo, você é capaz desse tipo de atrocidade, porque não possui bom senso.
– Eu possuo muito bom senso, , mas não uso com pessoas que não sabem o que é isso. O que é o seu caso.
– Claro. – ele deu uma risadinha debochada.
– E, além disso, sou muito mais simpática, porque meus encontros pelo menos duram um tempo razoável e eu não chego em casa cedo. – provoquei.
– Além disso, é muito intrometida também.
– Você deveria procurar um curso pra aprender a ter encontros. – falei, forçando um sorriso simpático e ele me mostrou o dedo do meio. – Mal-educado.
– Vá se foder.
– Vá você.
– Vocês dois. Chega. – Harry falou sério e eu rolei os olhos.
– Calem a boca e me deixa assistir minha série. – falei e ele deu uma risadinha, assentindo e virando-se para a televisão.
saiu da sala, resmungando meia dúzia de palavrões, mas eu não dei a devida atenção. Pelo menos agora faltam apenas dois dias pra que ele suma daqui. Ainda bem.

XVIII

Dia 06 da pior semana da minha vida até então e, sem dúvidas, o pior de todos os dias!
Pedi Harry que me avisasse se ele não pudesse me buscar, mas, aparentemente, ele avisou para a pessoa errada que vive de favor na casa dele.
Quando cheguei na recepção, porque recebi uma ligação de lá avisando que minha carona tinha chegado pra me buscar, eu encontrei a última pessoa que esperava encontrar na vida: .
Será que não passou pela cabeça do Harry que eu poderia voltar de Uber? Era só me mandar uma mensagem dizendo “volte de Uber” e eu iria embora sem problemas e sem reclamar, mas ele se deu ao trabalho de mandar uma mensagem para o idiota do melhor amigo!
Isso se esse idiota não ouviu ontem e veio aqui pra me importunar, porque é o tipo de coisa que essas criaturas que desalinham nossos chacras fazem, elas desalinham nossos chacras. Só isso que esse daí sabe fazer.

– O que você está fazendo aqui? – perguntei quase furiosa e deu de ombros.
– Um favor pro Harry.
– Eu não vou voltar com você.
– Deixe de ser ridícula, . – respondeu mal educado. – Volta comigo ou volta a pé.
– Já inventaram o Uber, sabia?
– Nossa, não me diga! – respondeu no tom de voz mais debochado que podia.
– Pois eu já disse, eu vou pedir um Uber para ir embora. Você também deveria desaparecer daqui. – falei, pegando o celular na bolsa.
– Deixe de ser idiota e anda logo, não tenho o resto de dia disponível pra você ficar fazendo gracinhas e dando birrinhas.
– Eu não vou voltar com você.
– Será que você é boa demais pra entrar num carro em que eu estou dirigindo?
– Eu não vou assinar meu atestado de óbito.
– Eu não vou me matar só pra te matar, deixe de ser louca! – ele falou exasperado.
A primeira coisa que fiz foi ligar para Harry. E ele não atendeu (é claro!), então deixei algumas mensagens para ele e quando ergui os olhos, achando que já tinha ido embora, ele ainda estava lá, parado e esperando.
Rosie, a recepcionista, estava nos observando em dúvida entre chamar a polícia ou não e eu queria gritar com Harry, mas além de não poder fazer isso no momento, não sou doida pra fazer isso na rua e pelo telefone. Vou apenas sugerir educadamente que desapareça da minha frente e ir embora de Uber, o que é muito melhor que ser doida.
– Você pode ir embora, . Lembrei que tenho um compromisso e não vou pra casa.
, eu já estou aqui. Seja um pouco menos idiota do que você é normalmente e vamos embora logo.
… – Rosie se pronunciou e eu a olhei.
– Não tem problema Rosie, ele é o melhor amigo do meu irmão e está passando uns dias lá na casa dele, mas acabei de lembrar que tenho um compromisso e não posso faltar.
– Eu estou aqui, caso vocês duas não tenham percebido. – falou em um tom educado demais. – Não vou matar e estou aqui apenas porque Harry não pode vir te buscar, ele teve um contratempo e me perguntou se eu podia fazer esse favor, alguma coisa séria aconteceu no escritório e ele não pode vir te buscar.
– Não vou voltar com você.
– Eu já desperdicei meu tempo demais aqui e você que se vire.
– Demorou demais pra perceber. – falei e deu meia volta, praguejando um palavrão, e sumiu da recepção. – Idiota.
– Qual o problema entre vocês?
– Ele só é um idiota. – respondi. – Até amanhã, Rosie. Vou pedir um Uber e ir embora.
– Até amanhã, . Cuidado.
Quando cheguei ao exterior do jornal, ainda estava lá, encostado em seu carro e me olhava sério, se pudesse ele me forçaria a entrar naquele carro e me levaria pra casa. Se é que me levará pra casa…
– Sei que a gente se odeia, mas seu irmão me pediu pra vir, porque precisou resolver uma emergência e como nós estávamos ao telefone, ele me avisou. Você pode duvidar, eu duvidaria de você também, mas eu estou falando sério.
– E que emergência é essa? – perguntei desconfiada.
– Lembra da Linda que estava no aniversário dele? – perguntou e eu assenti. – Ela foi roubada e tomou uma facada do assaltante e aí o Ha…
– O quê? Harry está bem?
– Sim, ele está bem, não aconteceu nada com ele. Harry estava saindo do escritório pra vir te buscar, mas ele viu isso acontecer na rua, foi ele quem socorreu a Linda, e me pediu pra te buscar. Eu posso te levar até o hospital se você quiser.
– Melhor ir pra casa, ele vai chegar com fome e cansado. Será bom deixar tudo pronto pra ele jantar e descansar. – respondi e assentiu. – Desculpe pelo surto, mas…
– Eu entendo, também faria o mesmo se fosse você aparecendo do nada no meu trabalho dizendo que estava fazendo um favor pro Harry.
– Você poderia ter explicado antes.
– Eu teria falado se você não fosse uma maluca surtada que não cala a boca. – respondeu num tom desaforado, saindo de perto e indo para o banco do motorista.
– Se você puder calar a boca e dirigir, teremos um excelente retorno pra casa em paz e em silêncio. – falei, entrando pela porta de trás e ele me olhou como se eu fosse um alienígena. – O que foi?
– Eu não sou Uber, .
– E eu não vou sentar do seu lado.
– Meu Deus do céu, deixe de ser imbecil! – falou num tom exasperado. – Mude logo de lugar.
– Dirija logo, ficaremos muito bem os dois assim. – respondi e ele grunhiu com raiva, mas deu partida para sairmos do estacionamento.

O caminho foi realmente silencioso até chegarmos em casa. Enviei uma mensagem para Harry pedindo notícias e avisando que se ele precisasse de alguma coisa, era só avisar e eu iria para o hospital. Tomei um banho rápido antes de ir fazer o jantar, mas já estava na cozinha preparando a comida.
Ele cozinha bem? Muito.
Admitirei isso em voz alta? Nem sob tortura!
Deixei que ele ficasse por lá e voltei ao meu quarto. Tinha uma pesquisa para fazer e precisava adiantar as coisas. Thor e Venom estavam em cima da minha cama, confortavelmente embolados um no outro e já era tarde quando ouvi o carro de Harry entrando na garagem, sai do quarto o mais rápido que consegui e o encontrei entrando pela cozinha.

– Desculpa. – foi a primeira coisa que ele falou e eu me aproximei, lhe dando um abraço apertado.
– Você está bem? Aconteceu alguma coisa? Vá tomar banho. fez o jantar, você tem que comer e descansar. – falei num tom desesperado e separei o abraço para olhá-lo atentamente.
– Eu estou bem . Linda também está. Por sorte a faca não acertou nenhum órgão importante, ainda que eu ache que todos os órgãos são importantes, mas não foi nada grave. A irmã dela foi pra lá quando ela estava quase saindo da cirurgia, então esperei um pouco pra ter notícias, mas está tudo bem.
– Certeza que você está bem?
– Estou. Amanhã preciso ir até a polícia pra falar sobre o que eu vi, mas não me aconteceu nada. Eu estava saindo do escritório e tudo aconteceu bem na minha frente. O cara roubou o carro e as coisas que estavam com ela e ainda deu uma facada na coitada, mesmo que ela nem tenha reagido. Eu estava falando com na hora e por isso pedi pra ele ir te buscar, porque não conseguiria te avisar. Desculpa, de verdade.
– Tudo bem, não dá pra controlar essas coisas e eu entendo. Agora vá tomar um banho e venha comer, você deve estar com fome.
– Estou e estou cansado. – respondeu cansado. – Mas, pelo menos, vi Carol enquanto esperava por notícias da Linda.
– Que ótimo. E por que ela não veio pra cá?
– Eu até a chamei, mas ela disse que ia pra casa.
– Então vá pro banho, conversamos depois. – falei e ele deu uma risada nasalada cansada e seguiu para fora da cozinha.
Conversamos um pouco quando ele voltou para jantar, que foi quando eu jantei, e ele não tardou a ir dormir, eu tampouco, então fui dividir a cama com Thor e Venom, porque os dois aparentemente se recusariam a sair de lá e me deixarem dormir em paz e sossegada.
E, em todo caso, são os últimos dias desse gato folgado e eu não posso negar que vou sentir muita falta dele por aqui.

~*~

Dia 07 da pior semana da minha vida até então, mas, pelo menos, esse inferno está acabando

Eu só percebi que estaria fodido para entrar na casa de Harry quando cheguei e percebi que tinha deixado no quarto as chaves que ele me emprestou. Ou seja, se ele não estiver em casa ou se a insuportável da não tiver chegado, eu vou ficar na rua.
Fiz o mais inteligente a se fazer no momento e liguei para Harry, que não atendeu, mas mandou uma mensagem dizendo que estava em uma reunião. Ou seja, a primeira opção de ter como entrar em casa foi por água abaixo. Deixei o carro parado à porta da garagem, saí e fui até a porta, tocando a campainha, mas nenhum sinal de vida.
Pelo horário, já deveria ter chegado. Mesmo passando na oficina para buscar o próprio carro, porque ela teria tempo suficiente de chegar em casa. Mas, claro, ela deveria estar fazendo alguma das coisas ridículas que faz na internet e por isso não chegou em casa. Inferno.
Eu até poderia ter ficado um pouco amolecido quando ela falou com o bobão sobre ter realmente tentado uma trégua, mesmo que na época eu não tenha acreditado e que ainda meio que duvide, mas ela soou bem sincera. Fiquei meio que remoendo isso durante uns dias quando ouvi, porém consegui deixar pra lá e obviamente era mentira, porque se fosse mesmo verdade, ela teria se esforçado na época pra provar que teríamos paz por causa do Harry, mas, ao contrário, ela quis me dar uma paulada e foi por muito pouco mesmo que não deu e não me matou.
Eu precisava falar com ela, mas como? Não tenho o telefone, Harry está ocupado… eu só queria entrar e tomar um banho pra poder descansar um pouquinho antes de começar a ajeitar minhas coisas pra ir embora (finalmente!) pra casa amanhã de manhã, mas, claro, o Universo novamente resolveu conspirar contra mim.
Esperei por uma hora e meia até que o carro dela apareceu. Ela buzinou impaciente para o meu carro parado na entrada da garagem e só parou quando eu levantei dos degraus de entrada e segui até lá.

– Você ficou idiota de vez? – perguntou, abaixando o vidro.
– Estou sem as chaves e sem o controle do carro.
– É, ficou mesmo. – respondeu, voltando a fechar o vidro e abriu o portão da garagem pelo próprio controle, voltando a buzinar e eu apenas entrei no meu próprio carro e o coloquei na garagem, sendo seguido por ela.
– Obrig… – comecei a falar, mas ela saiu do próprio carro quase que com raiva e bateu a porta, me ignorando totalmente. – Maluca.

As horas que precederam a chegada de Harry foram de um silêncio intenso na casa. Ela estava enfiada no próprio quarto e eu no meu, arrumando a mala de roupas e algumas outras coisas que trouxe de casa, coloquei o que pude no carro, deixando apenas o essencial no quarto de hóspedes e amanhã, assim que eu tiver oportunidade, estou partindo de volta para o meu apartamento.
Venom provavelmente terá um surto quando voltar pra casa e não tiver a companhia de Thor ou da irmã de Harry, mas ele se acostumará.

– Você parece bem animado pra ir embora, quase fico ofendido. – Harry falou quando sentei na sala ao seu lado, depois de deixar a última mala no carro.
– Eu te amo, você sabe disso, mas eu estou sentindo falta da minha casa. Lá eu posso andar pelado sem preocupações. – brinquei e Harry riu.
– Aqui você também pode. – deu de ombros. – Eu não me importo.
– Eu prefiro evitar que você se apaixone ainda mais e largue a Carol. – respondi brincando e Harry riu alto.
– Mas eu não preciso largá-la, vamos casar os três e pronto. – respondeu e eu assenti, rindo.
– E como a Linda está?
– Se recuperando. Por sorte não atingiu nada que pudesse comprometer a vida dela, mas é uma facada… ela fez um monte de exames pra detectar doenças que poderiam ter sido transmitidas pelo objeto, a maioria deu negativo e algumas ainda precisam de resultado.
– Imagina a conta do hospital…
– Nem quero imaginar. – riu. – Mas acharam o cara com o carro dela e já tem um advogado do escritório cuidando do caso.
– Você?
– Essa não é minha área. Eu vou testemunhar, porque vi o que aconteceu.
– O que você quer jantar? Aproveite minha última noite aqui para ser seu cozinheiro especial.
– Mac’n cheese. – Harry sorriu quase infantil. – Daquele que você fez na sua casa pra Carol e pra mim e não faço ideia de como você faz isso sem usar queijo de animal.
– Harry, você vai estar em casa no fim de semana? – entrou na sala e perguntou ao irmão.
– Não. Tenho um compromisso com a Carol amanhã e no domingo vamos sair juntos, por quê? Você quer dar uma festa? Eu não deixo.
– Eu não quero dar uma festa, mesmo que existam ótimos motivos para comemorar, afinal vamos finalmente nos livrar das entidades malignas que moram nessa casa.
– Você vai se mudar, ? – perguntei e ela bufou, mas não respondeu.
– Não tem festa, Harry, só uma amiga minha vem aqui com o filhinho dela, e tiraremos umas fotos pra uma marca nova que resolveu me patrocinar. As fotos e as outras coisas serão feitas lá fora, porque combinam mais com aquele ambiente.
– E o que minha presença tem a ver com isso?
– Não pretendo que você esteja no momento, são algumas fotos pra umas publicidades e sei lá se a Zara vai se sentir confortável em ter você por perto.
– Eu não estarei em casa, mas não vejo problema nenhum. – Harry deu de ombros. – Mas estou curioso por essas fotos.
– Algumas fotos com biquinis e lingeries, mas tem com roupa também. É que ela é realmente muito bonita e foi a única que topou essa parceria.
– E vocês vão ganhar bem? – Harry perguntou interessado e deu de ombros, mas assentiu positivamente. – Não precisam de um modelo masculino? Preciso de um dinheirinho…
– Deixe de ser cara de pau. – falei rindo. – Você tem mais dinheiro do que os Estados Unidos tem de PIB, Potter.
– Por enquanto não, Harry, mas se tiver alguma coisa e você quiser mesmo fazer…
– Claro que eu quero.
– Carol manda te matar. – falei rindo.
– Manda nada, ela vai adorar falar que o gostoso só de sunga ou cueca nas fotos pela cidade é o namorado dela.
– Enfim, eu precisava apenas dessa informação sobre sua presença, então já que você não vai estar em casa, eu vou confirmar com ela. – falou e Harry assentiu.
– E se estiver aqui? Não tem problema? – Harry perguntou na clara tentativa de provocá-la, mas apenas deu uma risadinha e negou com um aceno.
– Ele não está nem um pouco afim de ficar aqui mais tempo do que o necessário, Harry, eu tenho certeza que assim que o dia amanhecer ele vai embora para se livrar de mim o mais rápido possível. E torço por isso. – ela sorriu, saindo da sala.

Eu até rebateria, mas ela tem razão.

XIX

– Você é mesmo muito rica. – Zara falou impressionada quando coloquei o carro na garagem da casa de Harry.
– Correção: Harry é mesmo muito rico. – dei de ombros. – Eu moro aqui de favor.
– Ele não quer uma namorada? Já venho com o filho incluso. – Zara falou, me fazendo rir.
– Harry é comprometido, mas talvez ele queira te adotar como fez comigo. – respondi, fazendo Zara rir.
Descemos do carro, ela tirou Dexter da cadeirinha e nós entramos na casa, sendo seguidos de perto por Thor, que observava intrigado a presença dos dois e nós duas fomos até meu quarto, precisávamos deixar algumas coisas por lá antes de começarmos a planejar como as fotos serão feitas.
Algumas são apenas de Zara, outras somos as duas e ela tem algumas fotos pra tirar com o Dexter também, mesmo que eu esteja achando quase que 100% que isso não vai acontecer, porque o ex-marido dela provavelmente surtará se encontrar alguma foto do filho pela cidade em propagandas.
– O amigo do seu irmão foi embora?
– Graças a Deus! – respondi animada. – E então, o que faremos primeiro?
– Eu edito o vídeo, vai ser rapidinho, você pode ficar com Dex enquanto isso.
– Claro! Ele vai me ajudar a separar as coisas pras fotos.
– Ele tem onze meses, , provavelmente ele vai babar algumas coisas e tentar se pendurar nas suas coisas.
– Então vamos brincar com Thor. – respondi, dando de ombros.
– Ligue o computador e separe o que preciso editar, , faço isso rapidinho e vamos tirar essas tais fotos.
Liguei o computador, deixei o cartão de memória com os vídeos já conectados e Zara sentou-se para começar a editar os dois vídeos que pedi. Dexter tinha se entretido com Thor e alguns ursinhos de pelúcia, enquanto Zara editava os dois vídeos incrivelmente rápido e posso dizer que adorei o resultado, ela realmente sabia o que estava fazendo.

– Você é muito boa. – falei e ela sorriu agradecida, pegando Dexter no colo.
– Faço o possível.
– O que acha de começarmos as fotos?
– Vou fazer Dex dormir e nós podemos começar, trouxe o almoço dele e quando ele acordar é só esquentar. – Zara deu de ombros.
– Então, enquanto você faz isso, vou arrumando algumas coisas lá fora pra tirarmos algumas fotos. Podemos ficar de olho em Dex lá de fora, pela janela.
– Tudo bem. – respondeu e eu juntei as sacolas de roupas, as maquiagens e tudo que era necessário para montar um “cenário” e fazer a sessão de fotos.
Sei que parece estranho uma sessão de fotos ser feita por duas pessoas totalmente sem experiência profissional (mesmo que eu saiba tirar fotos muito bem, obrigada, e tenha um curso de fotografia), mas a intenção da marca era não gastar tanto e, em todo caso, promover minha imagem e a de uma modelo que eu escolhesse (desde que não fosse uma daquelas famosas), então uni o útil ao agradável e resolvi que além de ser modelo em algumas fotos, serei a responsável pelos cliques e edições, Zara é minha modelo, porque ela é uma das mulheres mais lindas que já conheci na vida, e vamos ganhar um bom dinheiro com isso. Se tudo der certo e fizer sucesso, seremos contratadas da marca e isso, sem dúvidas, será uma coisa ótima pra nós duas.
Thor me seguiu e ficou me olhando enquanto eu ajeitava algumas coisas para tentar criar um bom local para as fotos. Seria trabalhoso, mas, em todo caso, temos todo o fim de semana pra tirar as fotos (e nem são tantos looks assim), tenho alguns dias pra editar tudo e mandar para a marca e receberemos o resto do dinheiro. Zara não demorou a aparecer perto da piscina, olhando com curiosidade pra tudo que foi montado e sentou-se em uma das cadeiras.

– Existe algo que você não saiba fazer? – perguntou e eu assenti, rindo.
– Muitas coisas, Zara. Muitas.
– Pois não parece, porque você é inteligente, trabalha, é bonita, faz maquiagens maravilhosas, looks, eventos, vídeos, sabe tirar fotos e editá-las, é rica…
– Eu não sou rica. – ri. – Harry é rico, eu sou a irmã dele e só.
– Preciso fazer algo?
– Sim. Vá vestir aquelas roupas ali e eu vou te maquiar pra tirar as primeiras fotos.
– Tudo bem… – respondeu, indo na direção em que eu tinha separado um vestido verde escuro com alguns detalhes em azul e que ficariam perfeitos nela.
E eu acertei.
Zara estava maravilhosa – e ficou maravilhosa em todas as cores, até mesmo no cropped marrom que tínhamos recebido para fotografar – e com pequenas direções de poses e olhares, ela fez as melhores fotos que eu já tirei de pessoas sem experiência como modelos.
Paramos para almoçar, quando Dexter acordou, mas antes que pudéssemos voltar a fotografar tudo, quando ainda estávamos sentadas do lado de fora da casa com Dexter brincando com Thor, ouvi o barulho de um carro entrando na garagem. Harry disse que passaria o fim de semana fora, por que ele est…
Não.
Não. Pode. Ser.
O carro de estava entrando na garagem, ele com cara de poucos amigos estacionou e desceu do carro, bufando.

– O que você está fazendo aqui? – perguntei e ele me olhou com tanta raiva que se soltasse laser, teria me partido ao meio.
– Não é da sua conta.
– Claro que é, sou a responsável pela casa no fim de semana, já que Harry não está.
, minha manhã foi uma bela merda, se eu fosse você, não ficaria me irritando.
– Tem almoço na cozinha. – Zara falou e eu a olhei sem entender. – O que foi? Ele deve estar com fome.
– Obrigado, moça. – respondeu num tom educado e suave, que não tinha nada de sua expressão frustrada e raivosa.
Ele não falou mais nada, apenas saiu batendo os pés pra dentro de casa, com a caixinha de Venom em mãos, e entrou na casa. O que será que aconteceu de tão ruim pra ele ter que voltar? Infelizmente a curiosidade não poderá se sobrepor ao meu trabalho, então precisamos agora tirar as fotos com Dex e depois encontrar um jeito de deixá-lo quieto para continuarmos o restante das fotos.
E ele foi muito bem nas quatro primeiras roupas, mas depois começou a chorar, reclamar e não estava nem um pouco satisfeito com precisar tirar e colocar roupas, fazer poses e ficar quieto. Totalmente compreensível, afinal, ele é um bebê.

– Posso ficar com ele se você quiser. – ouvi a voz de , mas ele falava diretamente com Zara. – Ele não vai deixar vocês tirarem fotos, então posso ficar com ele aqui fora enquanto vocês terminam as fotos.
– Sério? – ela perguntou e ele assentiu.
– Sento aqui fora, você vai nos ver o tempo todo. E ele vai te ver também, então todos saem ganhando.
– Eu quero! – ela falou, olhando para e depois desviou o olhar para Dexter que estava em seu colo. – Vamos trocar de roupa, Dex, pela última vez. Por enquanto.
– Acho que vamos fazer algumas juntas agora. – falei e Zara assentiu, enquanto terminava de tirar a roupa que Dexter usava, causando resmungos do menino, e vestindo a roupinha dele.
– Obrigada. De verdade. – ela agradeceu , enquanto deixava Dexter com ele.

O pequeno estranhou, por breves segundos, observando incerto o homem que o segurava, mas acabou rendido quando sentou-se com ele e Thor logo foi sentar junto, com os brinquedos e tudo mais que poderia entreter Dexter por boas horas.
E realmente conseguiu entreter Dexter por horas.
Nós tiramos muitas fotos, trocamos de roupas, fiz outra maquiagem nela e em mim… foi bastante proveitoso e apenas quando já estava escuro é que nós paramos. tinha até alimentado Dexter, fez uma papinha e deu ao menino, depois deu banho nele, o trocou e o deixou pronto para que Zara passasse alguns minutos com ele antes de colocá-lo para dormir.

– Obrigada. – ela voltou a agradecer e sorriu educado. – Você ajudou muito, quando eu ficar rica e pagar todas as minhas contas, te pago pelo serviço de babá.
– Precisarão disso amanhã também?
– Só se você não tiver compromissos. – Zara respondeu antes que eu pudesse negar e mandá-lo para o inferno.
– Almoço e babysitting. – sorriu e eu rolei os olhos antes de passar por eles e entrar em casa, sendo seguida por Venom.
– Senti sua falta hoje, coisinha. – falei com ele, que miou baixo enquanto se esfregava nas minhas pernas.
, pode ir tomar banho. Eu vou esperar o Dex dormir pra poder tomar banho em paz e sem incomodar vocês. – Zara falou e eu assenti.
– Estou morrendo de vontade de tomar banho mesmo, já volto. Cuidado.
– Cuidado? – perguntou sem entender e me olhou curioso.
– Sim, com as entidades do mal que estão perto de você.
– Nah, ela vai ficar bem, você vai tomar banho e ela ficará longe. – respondeu e eu mostrei o dedo do meio, ao mesmo tempo em que ele mandava um beijo debochado.
Sai o mais rápido que pude e fui tomar banho. Não vou desalinhar mais ainda meus chacras, ainda mais que parece que teremos uma nova semana repleta disso.

~*~

A amiga de – muito bonita por sinal – estava me olhando como se eu fosse um animal muito exótico enquanto jantava a lasanha que eu tinha preparado. Dexter estava em meu colo ainda, brincando com umas pecinhas de brinquedo (ou seja, com isso enfiado na boca, coçando os novos dentes e babando tudo) e parecia alheio ao fato de que ela estava me encarando. Talvez curiosa, não sei, mas ela comia e me olhava um tanto analítica, pensando se falaria comigo ou não.

– Você é amiga dessa dai há muito tempo? – perguntei, porque ela estava me deixando um pouco sem graça de tanto me olhar.
– Não muito, faz uns meses. Ela viu um anúncio de freelancer meu e me contratou pra ser a editora dos vídeos do canal dela, agora eu faço bico de modelos pra ela também.
– Você é bonita, faz sentido.
– Obrigada. – respondeu dando um sorriso sem mostrar os dentes. – Sei que não tenho nada com isso, mas você voltou pra cá por quê?
– Porque demoraram uma semana pra dedetizar o prédio em que eu moro, mas descobriram um problema na estrutura e é um vazamento enorme no encanamento, vão precisar quebrar um monte de coisas pra consertar, então eu não posso ficar lá. Só tive tempo de buscar minhas roupas, alugar um galpão pra deixar os móveis e precisei voltar pra cá, porque não tinha pra onde ir. Eu poderia passar o fim de semana em Sacramento, que é de onde sou, mas teria que voltar amanhã e não teria onde ficar. Liguei pro Harry e avisei que voltaria, mas ele só chega amanhã. Estou quase arrependido de ter vindo pra cá, porque é intragável e talvez ela tente me matar de madrugada.
– Ela não vai fazer isso. – Zara respondeu num tom óbvio. – Qual é essa de vocês se odiarem?
– Ela é uma idiota desde pequena, só me resta não gostar dela. – dei de ombros.
– Vocês dois são estranhos. – ela falou, dando uma risadinha. – Mas você cozinha bem, então tudo bem ser estranho.
– Obrigado.
– E então, o que você faz da vida?
– Eu sou arquiteto. E você?
– Eu sou formada em cinema, estava trabalhando, não estou mais, tenho o Dex, agora sou meio que funcionária da
– Formada em cinema? Isso é legal.
– Parece mesmo, mas só parece. – Zara (um nome bem diferente, mas gostei) falou, dando uma risada baixa.
– Seu filho é muito bonito.
– Ele é mesmo. – sorriu orgulhosa. – Dexter é uma criança ótima.
Antes que pudéssemos conversar mais, entrou na cozinha. Estava com os cabelos enrolados na toalha, de pijama e me olhou quase como se pudesse me matar apenas de olhar.
– E você não vai embora? – perguntou e eu neguei.
– Resolvi voltar e enquanto isso te irritar, eu ficarei aqui.
– Você perdeu o amor próprio?
– Se vocês forem sair no tapa, só deixem o Dex fora disso. – Zara falou, olhando de para mim e eu dei uma risadinha nasalada.
– Que ela é maluca e agride as pessoas por querer, a gente sabe, mas eu não sou desses. Não encosto um dedo em ninguém.
– É, você joga portões em pessoas pra perfurar uma criança de sete anos. – respondeu e eu ri alto, fazendo Dexter se assustar em meu colo e me olhar sem entender.
– Desculpa, Dex. – pedi, fazendo um carinho em suas costas. – E eu não fiz isso por querer, sua anormal. Ao contrário de você, eu tenho bom senso e não saio mordendo pessoas ou querendo bater nelas com um pedaço de pau.
– Como é que é? – Zara perguntou, assustada.
– Não dê ouvidos a esse idiota.
– Vocês são estranhos demais. – Zara falou, ainda olhando para . – E tem comida aí, , você tem que se alimentar.
– Eu não vou comer nada que esse daí fez. – respondeu num tom petulante. – Não vou correr o risco de morrer envenenada.
– Claro, porque eu fiz jantar pra quatro pessoas apenas para envenenar você.
– Ninguém garante que não está tentando matar todos nós.
– Você é idiota.
– Não mais que você. – respondeu e eu rolei os olhos enquanto a observava novamente fazer um sanduíche com o que achasse na geladeira.
– Você vai desperdiçar comida só por se achar boa demais pra comer algo que eu faça, ? – perguntei e ela mostrou o dedo do meio, pegando o prato em que tinha montado o sanduíche e se preparando para sair da cozinha.
– Zara, vou comer no quarto, se quiser vir, você é totalmente bem-vinda. – falou antes de sair da cozinha.
Um breve silêncio tomou conta do ambiente e Zara permanecia olhando para mim de um jeito estranho, parecia pensar em algo, mas apenas terminou de comer, lavou o prato que tinha usado e pegou Dexter do meu colo sem esforço antes de voltar a falar:
– Vocês são estranhos, espero que não se matem e nem acabem se pegando muito forte hoje, porque a tensão sexual… chega a dar pena. – deu uma risadinha saindo da cozinha e me deixando sozinho.

XX

Eu acordei mais cedo do que o habitual, porque quis correr com Thor antes que Zara acordasse e que o dia de fotos começasse, mas, é claro, que aquele infeliz do resolveu colocar as asinhas de fora e levou Thor pra correr antes. Ele teve o trabalho de acordar mais cedo apenas para me provocar. Infeliz.
E ele chegou com a cara mais lavada do mundo, como se não tivesse feito isso apenas para me provocar e mostrar que ele vai mesmo tornar essa nova estadia que, pelo que ouvi, deve se estender mais do que a última, um verdadeiro inferno. Bom, ele pode esperar uma briga igual, porque eu não lhe darei paz.

– Ah, você já acordou. Eu ia fazer o café pra vocês. – ele falou, mas não respondi e continuei fazendo a mistura com os ovos na tigela para fazer ovos mexidos com bacon para o café da manhã.
, seja superior. Não caia em provocações baratas. Não se permita ser feita de otária por esse idiota. Fingi não ter escutado e me virei na direção do fogão, virando a mistura na frigideira e ignorando completamente a presença de até que ele se tocasse de que deveria sair de perto e ir procurar o que fazer bem longe de mim.
E deu certo. Quer dizer, por um tempo. O suficiente para ele tomar banho e voltar para a cozinha, acompanhado de Zara e Dexter, que já parecia bastante acordado e afim de uma bagunça. foi para perto de onde eu estava, começando a preparar alguma coisa do café da manhã que foi feito sem pedidos meus, mas antes que eu pudesse protestar e dizer que não precisava de sua ajuda, percebi que ele estava fazendo o café da manhã dele e de Dexter.
Vegano.
Por um momento eu me senti mal, porque em todos esses dias ele fez comida para todos nós, não me excluiu em nenhum dia, mesmo que eu tenha feito pirraça feito uma idiota e ignorado. Bom, ele que se vire, não fui eu quem pediu pra ele cozinhar pra mim. Tudo bem, estou sentindo culpa sim.

– Bom dia. – cumprimentei Zara e ela sorriu, ainda um pouco sonolenta, mas bonita demais (como sempre).
– Bom dia, .
– Vamos tomar café e reiniciar nosso dia de fotos.
– Vou fazer o almoço. – falou e eu, novamente, ignorei.
– Ótimo. Você cozinha bem, mesmo essas coisas sem animais e que eu achava que eram um monte de gororobas feias e nojentas, mas são bem gostosas.
– Anos de experiência. – sorriu. – Vocês acabam antes do Super Bowl, certo?
– Provavelmente. – Zara deu de ombros. – Não que eu saiba o que é isso, mas pelo nome parece algo sério e importante, então provavelmente.
– O jogo de futebol americano, Zara, Chiefs e 49ers na final da temporada, vão decidir o campeão. – respondi e ela me olhou fingindo ter entendido. – Vale o título da temporada.
– E que horas é isso?
– Quatro e meia. – respondi, junto com .
– Ah. Então provavelmente não? – perguntou, me olhando.
– Provavelmente sim, se começarmos bem cedinho, conseguiremos fazer bastante coisa.
– Você se importa se eu ficar na piscina com ele, Zara? – perguntou e Zara pareceu pensar.
– Acho que não, mas tente não… afogar meu filho.
– Pode ter certeza que isso não vai acontecer. – sorriu.

O restante do café da manhã – que foi bem mais rápido do que o habitual – aconteceu quase em silêncio e logo estávamos nos trocando e maquiando, enquanto eu ajeitava algumas coisas na iluminação e no cenário montado. O sol estava apenas brilhando, sem torrar nossas peles no começo da manhã e conseguimos tirar boas fotos com alguns dos looks que enviaram. Era ótimo fotografar Zara, porque mesmo que ela ache que não tem tanta habilidade pra ser modelo, ela é naturalmente linda e qualquer pose que faça é o suficiente pra desbancar algumas das modelos da Victoria Secrets.
ficou na piscina um tempo com Dexter, que parecia ter gostado muito daquilo e também aliviava bastante o calor que começava a fazer. Era perto das onze e meia quando os dois saíram da piscina e sumiram na casa. Um tempo depois, passava do meio dia, fomos chamadas para almoçar. Dexter estava de banho tomado e terminando de almoçar, já caindo de sono e foi o responsável por niná-lo e colocá-lo para dormir.

– Vocês já se pegaram? – Zara perguntou quando estávamos do lado de fora, eu estava terminando de vestir uma saia, um dos últimos looks, e a olhei quase ofendida.
– Você ficou louca? É claro que não. Eu tenho dignidade e bom senso.
– E precisa de um oftalmologista, porque ele, além de muito bonito, é um baita gostoso, cozinha bem e é bem simpático.
– Ele finge muito bem. – respondi, dando uma risadinha nasalada. – Mas por que a pergunta? Você tem interesse?
– Não costumo ter interesse em pessoas que têm tanta tensão sexual com outras pessoas. Principalmente quando eu conheço a outra pessoa.
– Espero que você não esteja falando de mim.
– Mas eu estou. – ela deu de ombros. – Vocês emanam uma tensão sexual que chega a ser quase obsceno pra quem vê de fora.
– Você precisa dormir, amiga, está passando muitas noites acordadas e isso está te deixando doida.
, eu falo do que vi. Vocês dois não demoram a se agarrar. Talvez pra se matar, mas com certeza vai sair sexo disso em algum momento.
– Você está louca. – falei rindo. – Vamos, esses são os penúltimos looks e poderemos ter um pouquinho de paz e descanso.
– Gostei disso de ser modelo, mesmo eu não tendo um pingo de habilidade.
– Zara, quando suas fotos estiverem por outdoors pela cidade, você vai enxergar o mulherão que é e entender que a parte mais difícil do meu trabalho com você foi te convencer a tirar essas fotos. – falei séria e ela corou um pouco.
– Fotos, . Fotos. – resmungou, fazendo com que eu soltasse uma risada.

As fotos continuaram por algumas horas, com várias poses, juntas e separadas, e era perto das três e meia quando, finalmente, estávamos livres. As roupas todas separadas, porque seriam nossas, e fomos tirar maquiagens. Sugeri um banho de piscina e nós passamos um tempinho na água, o suficiente para Dexter acordar e voltar a ficar mais um pouco conosco, divertindo-se ainda mais com a mãe.
parecia em dúvida se entraria na piscina ou não, mas resolveu ficar do lado de fora e apenas observou rapidamente enquanto Dexter brincava com a mãe e voltou pra casa. Espero que ele saia pra ver o Super Bowl com os amigos e me deixe sozinha e em paz, conforme era o plano.
Zara não aceitou a carona pra casa, disse que iria de UBER e foi, mesmo que eu tivesse insistido para que eles ficassem e no dia seguinte eu a deixaria em casa, mas ela disse algo sobre estar abusando da hospitalidade e foi embora. Nós ainda nos encontraremos de novo essa semana, quero que ela veja as fotos antes que eu as envie, mas ela podia ficar mais algumas horas, não faria mal.

– Vou sair pra encontrar o Harry pra assistirmos ao jogo. Você vem?
– Não. – respondi seca, sem olhar para , sentada na sala e ligando a televisão para procurar algo para assistir.
– Alguém já te falou que você é uma idiota?
– Você faz questão de falar sempre, mas eu não me importo. – dei de ombros, sem dar muita atenção a ele.
– Pois você é. Eu tentei ser legal o dia todo, fiz absolutamente tudo pra que vocês duas apenas tirassem fotos e não precisassem se preocupar com mais nada, mas você hoje resolveu ser ainda mais idiota do que o habitual.
– Eu não te pedi pra ser legal ou fazer nada disso. Então, se não fez por querer, não venha jogar na minha cara todas as suas boas ações do dia, , porque se é boa ação, não tem que ser cobrada uma resposta ou algo de volta.
– Falou a maior filantropa do universo. – ele soltou uma risadinha pelo nariz.
– Você não ia sair? Tchau. – falei, dando um sorriso forçado sem mostrar os dentes.
– Tá explicado porque o bobão te largou, você é chata demais.
– Perdão? – perguntei, torcendo pra ter escutado errado, mas o sorrisinho que tinha era a prova de que ele tinha mesmo falado aquilo.
– Está. Bem. Explicado. O. Motivo. Pelo. Qual. O. Bobão. Te. Largou. Você. É. Muito. Chata. – ele falou pausadamente e me olhou debochado.
E eu joguei nele o que tinha em mãos.
O controle remoto.
E eu joguei com tanta força e tão bem, que o controle acertou a testa desse idiota e abriu um talho tão grande que fez o sangue jorrar. Ele cambaleou com o impacto e caiu sentado, a cadeira virou e ele foi parar no chão, estatelado, mas consciente o suficiente pra xingar um palavrão.
Eu teria rido se não tivesse ficado assustada com a quantidade de sangue que estava saindo do corte. Inferno.

~*~

– Você vai pagar por essas despesas. – falei bravo e apenas assentiu, dirigindo rápido até o hospital.

Vou perder o jogo (pelo menos o começo dele, provavelmente) por causa dessa idiota e se eu pudesse enforcar sem ser preso por isso, eu a enforcaria.
Tudo bem, eu provoquei e podia ter ficado calado sem ser um otário e falar do término dela daquele jeito, mas ela não precisava ter jogado um controle remoto na minha cara! Com toda certeza eu vou tomar pontos e essa merda vai ficar marcada pra sempre. Eu vou matar se isso acontecer.
Ela parou o carro no estacionamento do hospital da UCLA, que fica bem perto da casa de Harry. Saí do carro sozinho, mas muito puto e ainda tentando estancar o sangramento com uma blusa (que nunca mais será usada, aparentemente) e quando entramos, ela foi direto no guichê e logo estávamos a caminho da emergência.

– Desculpa. – pediu e por mais raiva que eu esteja sentindo, consigo sentir a sinceridade nas palavras dela. – Perdi a cabeça. Desculpa.
? – ouvi a voz de uma mulher e ela deu um sorriso na direção da garota que devia ser da idade dela, provavelmente, e as duas se abraçaram.
– Oi Evy, que bom te ver aqui. Você é quem está no PS?
– Sou eu sim. Aconteceu algo?
– Meu… amigo – a palavra saiu num tom bastante enojado, mas ela continuou a falar mesmo assim. – precisa de uns pontos na testa, acho.
– E o que aconteceu?
– Nada de muito sério. – respondi, ficando de pé.
– Deixe-me ver isso. – a tal Evy falou, nos conduzindo até um consultório e eu me sentei na maca que ela apontou antes de se aproximar e tirar a blusa da minha testa. – Nada muito sério? Isso está bem feio.
– É só a minha cara mesmo. – tentei brincar, fazendo Evy dar uma risadinha nasalada.
– Vai precisar de pontos, analgésico e você não vai poder beber nada pra chorar a derrota do seu time no Super Bowl.
– Não vamos perder. – falei quase ultrajado.
– O que aconteceu?
– Hm… – falou, pensando em como falaria aquilo.
– Vocês são muito amigas? – perguntei e Evy assentiu. – Eu sou , falei merda do término dela com o bobão e ela jogou o controle da televisão em mim.
– Ah! Você é o . – Evy riu ao falar. – Então tudo bem, vou dar os pontos e vamos apenas concordar que vocês dois vão se comportar de agora em diante, porque se eu precisar chamar a polícia, isso vai ficar feio pra vocês.
– Não precisa de polícia. – falei. – Foi culpa minha, eu fui importuná-la e posso dizer que mereci.
– Então, vou limpar tudo e dar os pontos, pelo que estou vendo, uns quatro ou cinco.
– Tudo isso? – perguntei e ela assentiu.

Evy limpou toda a bagunça que eu tinha feito de sangue no rosto e logo estava anestesiando o local para dar os pontos. Seis pontos. Seis pontos na testa, porque é uma idiota do cacete (e eu também, mas sou o convalescente do momento, então posso dizer que só ela é uma idiota), uma receita de analgésicos, uma série de recomendações (sem sol, cuidado com a alimentação, sem exercícios físicos na semana, nada de esforço pesado nas primeiras vinte e quatro horas, eu não podia nem mesmo ir encontrar com Harry para assistir ao jogo, nada de álcool, higienizar bem, fazer os curativos com cuidado, tentar não brigar mais de forma física e voltar em uma semana para avaliação e retirada dos pontos) e nós fomos liberados.
pagou pela consulta e procedimentos – não fez mais do que a obrigação – e ainda passou na farmácia para comprar os remédios e logo estava parando o carro na garagem, depois que eu respondi a mensagem de Harry dizendo que não podia ir e que veria de casa. Ele estranhou, claro, e quando chegamos, ele já estava lá. Parecia preocupado e ficou ainda mais preocupado ao me ver com um curativo na testa, um pouco de sangue na camisa e uma sacola de remédios.

– O que aconteceu? – perguntou preocupado, mas olhou desconfiado para , quase como se sentisse que ela era a responsável.
O diabinho na minha mente dizia que eu devia contar a verdade e falar que a irmã dele tinha feito aquilo, mas passar os dias em total indisposição com os dois seria péssimo. E, em todo caso, sei que ela está arrependida de ter feito isso comigo, foi infantilidade dos dois lados, então melhor não tornar isso ainda pior do que já está.
– Eu caí. – respondi antes que ela confessasse. – Saímos da piscina e eu entrei na casa molhada, bati a cabeça na quina da mesinha e abri a testa. Se sua irmã não estivesse aqui, eu provavelmente estaria desmaiado no meio da sala, na poça do meu sangue no seu tapete caro. Ou seja, eu preferiria estar morto, porque jamais terei dinheiro pra te pagar um tapete novo ou pra mandar lavá-lo sem danificar.
– Espera. Saímos da piscina? Saímos quem? – Harry perguntou curioso.
– Dexter, a criança que estava com a Zara, a modelo da sua irmã. – respondi e ele assentiu.
– Isso explica o sangue no chão da sala quando cheguei aqui, mas foi feia a batida da sua cara na mesa hein? Quantos pontos?
– Seis.
– Nem acredito que não te deixou morrer afogado no seu próprio sangue.
– Vontade não faltou. – ela respondeu no tom de sempre, talvez pra manter a mentira, mas provavelmente era por ser verdade mesmo.
– Muitas recomendações? – Harry perguntou e eu assenti.
– Uma delas é não beber e tentar não surtar vendo o jogo.
– Impossível, mas podemos tentar. – Harry deu uma risadinha ao falar. – Vamos terminar de assistir ao jogo e depois você vai descansar. Hoje o jantar é por…
– Eu fiz muita coisa no almoço, então o jantar será o mesmo que comemos no almoço.
– Ótimo. – Harry deu um sorriso.
– Eu vou editar minhas fotos, se precisarem de alguma coisa, estou no quarto. – falou e Harry olhou curioso.
– Você não vai assistir? E precisarem? No plural?
– Acho que vou, não sei. E eu falei errado, era no singular. – respondeu, mas ainda tinha um olhar sereno e parecia pedir desculpas de novo, além de agradecer por eu não ter falado nada.
– Peso morto, vai acabar dando azar. – falei e ela me mostrou o dedo do meio.
Voltamos ao normal.


Nota da Autora:Oioi!
Eu juro que essa demonstração de ódio gratuito e violência foi extremamente necessária e que essa semana na casa do mais velho será muito importante (e todas as outras nessa estadia prolongada) para que esses dois parem de apenas se odiar.
Zara (mulher mais sensata de todas) é personagem da Bruna (vai lá no Instagram dela falar pra ela colocar logo aqui no FOFIC, porque a história é incrível! Podem seguir também, conteúdo de qualidade) e ela ainda vai aparecer várias outras vezes por aqui.
Espero que tenham gostado e não deixem de comentar com o que acharam e o que esperam para o próximo capítulo.
Aqui tem o grupo do Facebook e aqui o do WhatsApp.
Vocês também podem me seguir no Twitter (mas aqui eu só surto por esportes, bandas e xingo determinados presidentes não disse quais, e reclamo da vida).

XXI

– Será que eu posso voltar a morar na Kappa? – perguntei a Kim, quando estávamos indo embora depois do trabalho.
– Você teria que refazer o mesmo processo de antes, de quando era caloura.
– Vai me dar trabalho demais. – resmunguei derrotada. – Zara não tem como me abrigar, Daph está em Boston… não sei se vou conseguir viver naquela casa com por mais algum bom tempo.
– Talvez vocês acabem se matando mesmo, porque você abriu um buraco na cara dele.
– Não foi tão grande assim. – dei de ombros. – Foram apenas seis pontos. E ele mereceu.
– Seu irmão é quem vai sofrer, coitado. Ter que lidar com vocês dois sob o mesmo teto por mais um tempão.
– Harry se diverte muito com minha desgraça. – bufei. – Ele é um idiota.
, você pode ficar na fraternidade uns dias, todo mundo conhece você por lá, mas se a coordenação descobrir, estamos todas ferradas.
– Não vou arriscar colocar vocês em problemas, vou dar um jeito de morar naquela casa com sem que a gente acabe se matando de verdade.
– Duvido.
– Eu também. – resmunguei derrotada. – E preciso ir embora, tenho que gravar um vídeo hoje e mandar pra Zara, sem contar que tenho que terminar de editar as fotos do fim de semana.
– A gente se vê amanhã na aula, . – Kim falou e nós nos abraçamos em despedida.

Ela seguiu para o próprio carro e eu para o meu, a caminho de casa e sem a menor vontade, mas não posso morar na rua e infelizmente não tenho pra onde ir. Se não tivesse provas em breve, eu iria pra Sacramento e não voltaria tão cedo. Tudo bem, isso é mentira. Eu ainda tenho quase um semestre inteiro de aulas e não posso faltar simplesmente porque não suporto e dividir o mesmo teto que ele é um martírio.
Quando coloquei o carro na garagem, os outros dois carros já estavam lá e eu segui direto pro quarto. Cansada demais para enfrentar provocações e respondê-las, sem contar que não quero mesmo ter que olhar na cara de e ver o curativo que está tampando os pontos que ele tomou ontem. A gente se odeia, mas se agredir fisicamente já é demais. Não foi por querer, infelizmente agi sem pensar e se tivesse pensado um pouquinho que fosse, não teria jogado o controle remoto nele daquele jeito.
Tomei um banho demorado na banheira do quarto e quase cochilei, só não o fiz, porque meu estômago roncou alto e eu precisei levantar para ir comer e ainda preciso gravar um vídeo respondendo algumas perguntas dos inscritos, não vai me dar tanto trabalho, já que as perguntas estão separadas e eu posso só fazer uma maquiagem bem simples.

– Achei que você nem fosse aparecer aqui. – Harry falou quando me viu entrar na cozinha.
– Quase dormi na banheira. – confessei. – Hoje o dia foi puxado. Como você está?
– Muito bem. E você?
– Também. – respondi, indo até a geladeira para procurar algo para comer.
fez o jantar. – Harry falou e eu assenti, mudando o trajeto até o armário para pegar o prato e depois até o fogão para me servir. – Você está bem mesmo?
– Por quê? – perguntei sem entender, virando em sua direção.
– Não vai praguejar e falar que não vai comer nada que cozinhou? Que ele pode tentar te envenenar e coisas do tipo? – perguntou e eu dei uma risada baixa, negando com um aceno.
– Salvei a vida dele ontem, ele não pode querer me matar hoje.
– Salvou depois de bater nele. – Harry falou e eu dei de ombros. – Você não negou.
– Foi sem querer, em todo caso. – respondi, encostando-me na pia. – Ele me provocou, falou umas merdas, joguei o controle remoto com mais força do que achei que tinha, acertei a cara dele e fim.
– Por que não me contaram isso?
– Antes que eu contasse, ele mentiu sobre o que aconteceu. – respondi e Harry assentiu.
– E o que ele falou?
– Além das provocações de sempre, disse que Liam me largou porque eu sou chata demais. Sei que parece pouca coisa, mas doeu. E eu acabei jogando o controle remoto na cara dele com muita força.
– Pelo menos foi o controle e não uma faca.
– Sinto muito, de verdade. Eu ia fingir que não estava ouvindo e ignorar a presença dele, mas ele acabou me provocando e eu fiquei brava.
– A testa partida é a dele, , é pra ele que você precisa pedir desculpas.
– Já pedi. E ele parece ter aceitado. – dei de ombros. – Ele te contou?
– Antes de você chegar, quando eu joguei verde e ele contou. E as histórias bateram, achei que alguém ia mentir.
– Eu não mentiria pra você, porque além de ser meu irmão querido e pra quem jurei nunca mentir, você é advogado e perceberia antes que eu terminasse de falar.
– E como foram as fotos?
– Ficaram ótimas. Zara é linda, perfeita, número um da lista dos preferidos de Deus e não precisamos de nenhum esforço. Seu amigo até cuidou do Dex pra gente tirar as fotos.
– Eu vi os stories dele com uma criança e ele me contou essa parte também.
– Nas próximas fotos, além da Zara, eu estava pensando em fazer com as mulheres do abrigo. Mas estou um pouco apreensiva com isso. – falei, começando a servir o prato com o jantar e comer.
– Apreensiva por quê?
– Porque podem descobrir o que faço, não quero ninguém usando a imagem do abrigo pra se promover ou que associem minha imagem e achem que eu faço isso pra pagar de salvadora ou coisas do tipo. – respondi, indo sentar à mesa junto com ele.
– É, faz sentido, mas não tem como fazer as fotos com elas sem que as imagens sejam associadas?
– Ainda não sei como isso poderia acontecer, mas, de qualquer forma, uma parte do dinheiro que eu recebo eu doo para o abrigo.
– Você é boa demais para esse mundo, . – Harry sorriu ao falar. – Vamos pensar em algo. É impossível que não tenha um jeito de fazer isso acontecer sem que saibam que você es… Ah, tive uma ideia!
– Às vezes você me assusta. – falei rindo. – Qual sua ideia?
– Posta no seu Instagram uma foto pedindo as pessoas para mandarem essas coisas que modelos mandam quando querem um trabalho.
– Portifólio. – falei e ele assentiu, dando de ombros.
– Que seja. Peça pra mandarem isso no seu e-mail, você pode até escolher uma pessoa que mandar mesmo, mas você vai escolher todas moradoras do abrigo.
– A ideia é ótima, mas seria fraudar o concurso.
– Não é fraude se não existe concurso de verdade. – Harry respondeu, dando um sorriso de quem tinha encontrado a maior das brechas num argumento e eu acabei sorrindo junto.
– Você é um gênio, Styles.
– Pare de me chamar assim.
– Harry Styles é incrível, deixe de ser insuportável.
– Eu sei que ele é incrível, muito bonito, muito talentoso e essas coisas, mas eu prefiro ser o Harry .
– Até porque você, com certeza, tem mais dinheiro que ele. E é mais bonito, mais talentoso e mais essas coisas. – adulei meu irmão, que sorriu feito uma criança de quatro anos totalmente satisfeito com a bajulação.
– Enfim, a ideia é boa. Se você fizer isso, vai poder fazer as fotos e fim de papo.
– Bom, elas também podem me mandar as fotos que eu mesma vou tirar. – sorri, fazendo Harry sorrir junto. – Elas mandam e depois se houver reclamações sobre o sorteio, mostro que as candidaturas foram reais.
– Pensamos muito bem juntos. Deveríamos fazer isso mais vezes. – Harry falou, sorrindo, e eu sorri junto. – Agora, coma. Eu vou assistir televisão e você precisa comer e dormir, está quase dormindo em cima da comida.

~*~


– House so empty, need a centerpiece. Twenty racks a table cut from ebony, cut that ivory into skinny pieces, then she clean it with her face, man, I love my baby. You talking money, need a hearing aid. You talking ‘bout me, I don’t see the shade. Switch up my style, I take any lane, I switch up my cup, I kill any pain… Ah-ah-ah-ah-ah, ah-ah-ah-ah-ah, look what you’ve done. Ah-ah-ah-ah-ah, ah-ah-ah-ah-ah, I’m a motherfuckin’ starboy. Ah-ah-ah-ah-ah, ah-ah-ah-ah-ah, look what you’ve done. Ah-ah-ah-ah-ah, ah-ah-ah-ah-ah, I’m a motherfuckin’ starboy…
– Nem em seus melhores sonhos. – ouvi falar e tomei um susto.
Eu estava tão compenetrado cantando que nem mesmo percebi que não estava mais sozinho na cozinha tomando café da manhã antes de ir trabalhar. Harry saiu mais cedo, deixou um post-it na geladeira avisando e ainda disse que talvez não chegasse para o jantar.
Acho que só eu não sabia que ele sairia mais cedo, porque provavelmente a irmã o viu saindo quando estava chegando de sua corrida matinal com Thor, o que justifica a falta de perguntas sobre a presença dele.
– Nos meus melhores sonhos, você não existe. Isso faz de mim a motherfuckin’ staboy.
– Vá se foder. – falou, sentando-se à mesa para tomar seu café da manhã.

Nesses sete dias, não passamos as manhãs sozinhos. Harry sempre esteve presente para o café da manhã e era o responsável por manter o clima o menos bélico possível (o que costumava não dar muito certo, mas ele também não se importava tanto, na verdade, todo esse clima de tensão parece diverti-lo bastante). Mas, hoje, somos apenas os dois. Ela não parece bem humorada, a cara está fechada. Isso não é um bom sinal para implicâncias, até porque eu não quero tomar mais pontos, já basta os seis que consegui por causa dela anteontem.
Comemos calados, ela presa em seus pensamentos e eu nos meus, enquanto organizava mentalmente o que precisaria fazer assim que chegasse ao trabalho (primeiro, uma reunião muito séria com um cliente muito importante e a revisão de um projeto que tinha que entregar até o fim da semana). Ainda preciso passar no meu prédio e tentar conversar com o síndico, preciso de um prazo. Não posso morar eternamente aqui (e nem quero).
O silêncio durou até ouvirmos o barulho de algo se quebrando, um latido e um miado que precederam a entrada de Thor e Venom na cozinha. Eu espero que Venom não tenha quebrado nada muito importante, eu não tenho dinheiro pra pagar a maioria das coisas que compõem essa casa!
Fui o primeiro a ficar de pé, sendo seguido por , mas não encontrei nada partido na sala, corredor, sala de jantar, no meu quarto ou no quarto do Harry. Então se eles fizeram algo, foi no quarto de .
Dito e feito.
Ouvi um resmungo lamuriento vindo do interior do cômodo enquanto ela recolhia o que quer que fosse que tivesse quebrado e alguns minutos depois (eu já tinha voltado pra cozinha), ela apareceu com cacos de um vaso e os olhos cheios de lágrimas. Pior do que objetos caros, são objetos com extremo valor sentimental.

– Quanto custou? Eu compro outro pra você. – falei e ela negou com um aceno.
– Não. Obrigada. – respondeu num tom educado (que nenhum de nós dois esperava, pra ser bem sincero) e fungou. – Foi um presente e… é, talvez tenha sido melhor assim. E, em todo caso, não dá pra saber qual dos dois foi o responsável.
– Provavelmente foi o Venom.
– Não interessa qual deles foi. – deu de ombros, mas não soou agressiva, apenas… conformada com o ocorrido. – Bom, não sei se você viu, mas Harry avisou que talvez não chegue para o jantar e eu não volto pra casa hoje, vou ficar na Kappa, então não se preocupe com jantar.
– Você está bem? – perguntei e não sei qual de nós dois ficou mais surpreso com a pergunta.
– Sim. E você? Tá doendo?
– Só um pouco dolorido, mas os remédios ajudam. – respondi e ela assentiu.
– Desculpa.
– Tudo bem, já deixamos acertado que foi merecido.
– E, de qualquer forma, o carma agiu. – soltou uma risadinha pelo nariz e olhou para os cacos do vaso que estavam consigo. – Bom, se você não quiser uma cicatriz permanente na cara, não tome sol nisso aí e cuidado com o que come pra cicatrização não te ferrar.
– Eu sei, mas obrigado. – respondi. – Estou de saída. Você tem certeza que está tudo bem?
– Absoluta.
– Então… tchau. – falei, ainda estranhando a forma pacífica com que aqueles minutos se passaram e como conseguimos falar sem implicância e xingos.
Fui para o quarto buscar a bolsa e quando fui para o carro, estava do lado de fora, enrolava os cacos num jornal e parecia estar chorando. Aquilo, sem sombra de dúvidas, foi presente do bobão. É a única explicação.
– Ei, . – chamei e ela me olhou, tentando disfarçar que estava chorando. – Os japoneses têm uma técnica de consertar a cerâmica quebrada com pó de ouro e laca, porque isso simboliza que o imperfeito também tem valor e, às vezes, mais valor do que peças inteiras têm. Talvez não seja o carma te punindo por me acertar com o controle remoto, mas a vida te dando a chance de ressignificar esse vaso e fazer dele algo maior do que a lembrança de algo que não prosperou.

não respondeu, mas pareceu ponderar. E eu tive certeza que sim, ela tinha ponderado e talvez considerasse a ideia, quando ela deu um sorriso pequeno em minha direção, de um jeito que dizia “obrigada, eu precisava ouvir isso”.

XXII

– Espera… você está me dizendo que não bate boca com desde domingo? Tipo, sem brigas ou coisas do tipo? E vocês dois estão em casa? Tipo, se vendo e essas coisas todas? – Daph perguntou e eu assenti. – Hoje é sexta-feira, !
– E daí?
– E daí? – sua voz subiu uma oitava, chegando a desafinar, tamanha surpresa. – E daí que isso nunca aconteceu!
– Aconteceu por meses, quando não o via com regularidade.
– Justamente! Quando vocês estão perto, quase se matam! E ainda teve aquela história fofa do conserto do vaso com uma fala fofinha? Sério, vocês estão drogados ou o quê?
– Eu estava sensível demais pra brigar ou rebater alguma coisa, amiga. Tinha o vaso partido, a culpa por ter rachado a testa dele ao meio e o fato de ter visto Liam com a nova namorada.
, mesmo se você estivesse em coma e estivesse minimamente perto, você teria acordado só pra importuná-lo e provocá-lo.
– Eu disse sensível emocionalmente, não de saúde física.
– E essa festa de hoje?
– Tem tudo pra ser uma loucura, espero que seja mesmo.
– Faça o favor de não beber demais.
– Nunca bebo. – dei de ombros e ela me olhou debochada, erguendo uma das sobrancelhas e eu gargalhei de verdade pela primeira vez na semana.
– Você deveria ter vergonha nessa cara por me falar uma coisa dessas, .
– Pare de me chamar pelo meu nome todo, eu fico achando que fiz algo errado e que você vai brigar comigo.
– Jamais. – respondeu. – Queria estar com você nesse momento, além de sentir sua falta, sinto falta das festas da UCLA. Esse pessoal de Harvard não sabe fazer uma festa.
– Sério?
– Mais do que sério. – rolou os olhos. – E vamos desligar, você tem que se arrumar pra festa e eu preciso dormir cedo hoje.
– Eu te ligo amanhã pra contar tudo.
– Fico no aguardo. – Daph sorriu. – E se precisar de alguma coisa, se meu colo for necessário nesse momento, me avise e eu estarei no primeiro voo amanhã de manhã!
– Você é perfeita.
– Eu sei disso. – respondeu, me fazendo rir. – Boa festa, . E juízo.
– Sempre tenho. Boa noite, Daph, eu te amo.
– Eu também te amo. – respondeu, mandando um beijo e desligamos.

Minha vontade de ir pra essa festa é negativa, principalmente porque sei que Liam estará lá com a nova namorada (e não, ele não fica esfregando seu novo relacionamento na minha cara ou coisas do tipo. Ele apenas arrumou outra namorada e está feliz), ou seja, isso vai me deixar triste e sei que por maior que seja o espaço em que a festa acontecerá, vou vê-los por lá.
Sobre o vaso… eu segui a dica de , eu realmente precisava ouvir aquilo naquele dia e chorei quase o dia todo (até ontem, na verdade), porque ficar sabendo do novo namoro de Liam, além de ter machucado uma pessoa sem querer e pelo vaso, eu estava tristíssima. E aquilo era tudo que eu precisava naquele momento.
E, eu sei, nem eu mesma acredito que eu esteja dizendo isso.
Comprei a tal laca, o pó de ouro (depois de pesquisar sobre a veracidade da informação pra ter certeza que não estava tirando uma com a minha cara) e consertei o vaso. Harry adorou, me deu flores para colocar no vaso e deixá-lo ao lado da minha cama e disse que aquele vaso era realmente mais valioso agora do que antes, não pelo ouro, mas que significava que se o vaso partido tinha se tornado outro vaso, agora com marcas bonitas, eu também podia fazer o mesmo comigo.
O clima de paz entre e eu perdura desde a volta do hospital, no domingo, não houve implicâncias e nem xingamentos realmente sérios ou ofensivos, ninguém aprontou com ninguém e Harry até estranhou que estávamos calados e deixando as oportunidades de nos provocar passar. e eu não nos tornamos amigos, claro que não, nem conversamos, mas isso é anormal, afinal, nós não perdemos a chance de nos provocar e nos tratar feito inimigos.
Ele vai ao hospital na segunda-feira tirar os pontos, mas pelo que vi (e pelo que ouvi Carol falar), a cicatrização está muito boa e se ele continuar passando a pomada, a chance de haver uma cicatriz aparente é quase nula, principalmente se ele passar protetor solar e evitar sol nos primeiros dias em que os pontos forem tirados.
Tomei um banho mais demorado do que pretendia, procurei por uma boa roupa para a festa, a temperatura está relativamente baixa, mas é uma festa e eu não vou vestir um casaco ou coisas do tipo, uma calça jeans já é suficiente. Fiz uma boa maquiagem (principalmente por precisar esconder bem os olhos inchados de choro), conferi os itens da minha bolsa e sai do quarto completamente arrumada e pronta para ir para a Kappa.
Harry estava com Carol, o que deixava apenas e eu em casa. Eu já tinha avisado ao meu irmão que não dormiria em casa, ele estava bem tranquilo com isso e só percebi que não tinha avisado que sairia quando senti o cheiro de comida vindo da cozinha. estava fazendo o jantar.

– Eu estou indo pra festa da Kappa. – falei e ele assentiu.
– Harry comentou. – respondeu sem se virar. – Tente não morrer, não estrague a noite do seu irmão e nem a minha, eu não preciso disso depois da semana do cão que tive no trabalho.
– Como se eu fosse idiota o suficiente pra isso.
– Ah, não tenho dúvidas que seja, porque idiota nós dois sabemos que você é.
– Convivi tempo demais com você e acabei aprendendo.
– De todas as coisas boas que sei e sou, você aprendeu a única ruim… deveria ter aprendido a cozinhar e ser menos sem noção.
– Se eu dependesse de você pra aprender como não ser sem noção, eu nunca aprenderia.
– Vá logo pra essa festa, pare de encher o saco.
– Foi você quem começou.
– É, se eu começar me jogando de um precipício, você vai continuar e pular também?
– Não, eu vou é dar graças aos céus. – respondi no mesmo tom ácido e ele deu uma risada baixa, respirando fundo e não rendeu mais.

Sai da cozinha, deixando por lá com o que quer que fosse que estivesse cozinhando e fui pedir o Uber antes de sair de casa, além de não querer gastar minha gasolina, se eu beber e resolver vir embora ainda hoje, posso só pegar um Uber de volta pra casa.
O caminho foi rápido e eu conseguia ouvir o barulho de longe. A música era algo indistinguível à distância, era apenas um ruído alto demais e desconexo, o que descobri que de perto era ainda pior. A irmandade estava lotada, tinha gente do lado de dentro e do lado de fora e eu tive que ir me espremendo entre as várias pessoas que estavam no local, como um filme dos anos 2000, alguns me cumprimentavam e outros fingiam não me ver passando e quando finalmente cheguei até Kim e Evy, elas me receberam entregando um copo de plástico com cerveja dentro e depois é que se preocuparam em me abraçar. O que só prova que algo está errado.

– Você consegue ficar cada dia mais linda, , que inferno! Como você consegue?
– É genético. – brinquei, fazendo Kim concordar com bastante afinco. – Lá vem Kimberly falar do meu irmão.
– Harry é lindo, , impossível não mencionar esse fato. – Kim se defendeu, me fazendo rir.
– Liam já chegou? – perguntei e elas assentiram. – E o quanto preciso beber pra lidar com isso sem parecer uma otária?
– Depende. Se você beber e ignorá-lo, talvez bastante. Se você beber e passar vergonha, melhor parar agora. – Evy falou e eu soltei uma risadinha nasalada.
– Sem passar vergonha, não nasci pra esse tipo de coisa. E, em todo caso, não foi traição e nem nada do tipo, nós terminamos de forma amigável e era óbvio que uma hora a vida ia seguir e que não ficaríamos eternamente solteiros.
– Vamos parar com esse papo triste, por favor. – Kim falou séria. – Vamos dançar e nos divertir. Hoje vamos fingir que não temos problemas e que nossa beleza não nos custa um pouquinho de sofrimento.
– Essa mulher bebe e vira uma filósofa. – Evy riu. – Agora vamos mesmo dançar e nos divertir, as lamentações ficam pra outra hora.

Nós dançamos por um tempão até que eu acabei vendo Liam e a namorada num canto, não estavam se agarrando, apenas conversavam bem perto e ele a olhava de um jeito tão carinhoso e rendido que doeu, então dei a desculpa de que iria só buscar algo para beber e voltaria, mas acabei sentada na cozinha com um grupo de desconhecidos que estavam virando tequilas como se não houvesse amanhã e eu, querendo afogar as mágoas de uma das piores semanas da minha vida, comecei a beber junto, não tanto quanto o grupo estava bebendo, apenas o suficiente pra ficar um pouco anestesiada com o álcool, mas não totalmente inconsciente dos meus atos e palavras.

– Oi. – ouvi uma voz masculina e me virei.
Um loiro muito bonito estava se aproximando e eu dei um sorriso educado em sua direção. Os olhos azuis eram quase escuros, não parecia bêbado, mas tinha uma garrafa de cerveja em mãos e parecia bastante interessado em mim naquele momento, exatamente o que eu não queria, mas precisava.
E pensar nisso me faz lembrar de quando Harry me chamava de Sininho, dizendo que eu precisava de atenção ou então morreria.
Nesse momento, eu concordo.
Não morrer, claro, mas ter atenção é sempre bom e se for de alguém bonito assim, num momento em que essa atenção pode ajudar a manter minha cabeça menos anuviada e distanciar meus pensamentos de Liam e sua namorada, que passaram por aqui há alguns minutos de mãos dadas, sorrindo e conversando entrosados, com aqueles olhares apaixonados que doeram em mim.
O bonito de olhos azuis se chama Matt e ele tentou me convencer a sair da cozinha e ir para algum lugar mais reservado (não um dos quartos, sempre muito bem trancados em dias de festa), longe dos olhos de todas aquelas pessoas e do barulho, porque “poderíamos conversar melhor”.

– Podemos ficar aqui, estou te ouvindo perfeitamente. – falei e ele deu um sorriso de lado, passou a língua pelos lábios e se aproximou um pouco mais. – E podemos continuar naquela distância mesmo, não precisamos estar assim tão próximos…
– Que isso, gatinha… vamos lá, vamos procurar outro lugar pra conversar e aproveitar a festa juntos, acho que você também quer ir comigo e só está tentando se fazer de difícil pra me ver insistir.
– Eu acho que não foi isso que ela quis dizer. – ouvi outra voz masculina e, sem me virar, eu já sabia quem era.
– E quem é você? – Matt perguntou, virando-se na direção de quem tinha falado.
, muito prazer, o namorado dela.

~*~

Eu devia ter falado outra coisa. EU SEI. Mas eu também sei que ele não teria levado a sério qualquer outra coisa, nem se eu dissesse que sou o irmão dela, porque a única coisa parecida que temos, além do ódio mútuo, é o branco do olho. E como ela é relativamente conhecida, as pessoas que a seguem e esses jovens cheios de hormônio, sabem quem é o irmão dela de verdade, ou seja, não colaria a desculpa de sermos irmãos.
O tal saiu de perto sem demora e ostentava com uma feição de quem estava prestes a me agredir de novo, o que me obrigou a ficar duas vezes mais atento do que eu já estava. Se ela soltasse laser pelos olhos, teria me partido ao meio assim que o cara foi embora. Um pouco distante, mas perto o suficiente pra ouvir o que eu tinha dito, o bobão estava de mãos dadas com uma garota bonita e parecia prestar muita atenção no que poderia acontecer entre e eu ali.
Esse foi o principal motivo que me fez parar nesse inferno de festa, cercado de gente cheia de hormônio, álcool e fogo no rabo. Eu estava puto pela semana bosta que tive no trabalho e ela avisar que ia sair quando eu já tinha feito jantar pra duas pessoas, me deixou ainda mais sem paciência. Só que me ocorreu o fato de que ela estava saindo para uma festa em uma semana que chorou basicamente todos os dias e o motivo do choro estaria aqui, então isso não podia dar certo de jeito nenhum. Ou ela acabaria se humilhando na frente do bobão pedindo pra eles voltarem, bêbada demais, ou acabaria se enfiando em algum tipo de problema. Tipo o que estava prestes a acontecer.
Ela pode até achar que eu não está bêbada e que tem total capacidade de ficar aqui sozinha e se cuidar, mas pela quantidade de garrafas, o copo de shot de tequila e todos os quartos de limão chupados que estão no balcão ao lado dela, sem contar a feição de bêbada, está muito longe de estar sóbria o suficiente pra sair do balcão sozinha ou para tomar qualquer decisão séria e importante.

– Some da minha frente. – ela falou entredentes e eu soltei uma risada pelo nariz.
, vamos pra casa. Você não está bem da cabeça, já bebeu demais, e não vai ser bom ficar aqui se torturando com coisas que não quer ver de verdade.
– Some. Da. Minha. Frente. – falou brava e eu suspirei, encostando-me no balcão em sua frente, mas com uma razoável distância entre nós.
– Eu não vim procurar nenhum tipo de encrenca, passamos uma semana em paz e eu só me prestei a sair de casa pra vir até aqui, porque era óbvio que isso daria errado.
– Você tem dez segundos pra sair da minha frente e me deixar em paz.
– Ou o quê? – perguntei, desafiando. – Ou você vai gritar? Vai me bater de novo?
– Por que você está aqui?
– Porque você é a irmã mais nova do meu melhor amigo e te deixar caindo de bêbada num covil desses é pedir pra que você tenha problemas. Sei que você não é uma imbecil, mas está bêbada, com o coração partido e se torturando ao procurar ver algo que te machuca, apenas porque acha que merece sofrer por perder a chance de ser feliz com uma pessoa legal de quem você gosta e que gostou muito de você também, mas as coisas não funcionam assim e não vai adiantar nada ficar se machucando com isso, só vai piorar tudo, na verdade. Se você quiser ficar nessa festa, tudo bem, eu fico te seguindo feito um segurança, só não quero que você acabe se machucando por estar triste e precisando superar que a vida anda e que a sua também vai andar, talvez não hoje, mas vai. – falei, sincero demais (e apenas por saber que pela manhã ela não vai lembrar de nada) e ela me olhou de um jeito triste, cansado e… machucado? – Vamos pra casa? Eu fiz nhoque com uns bifes de soja que vocês gostaram de comer. E tenho certeza que Venom será uma companhia muito melhor do que um monte de bêbado cheio de hormônio e dessa música distorcida e sem sentido, que nem mesmo dá pra entender que diabo está sendo cantado.

não respondeu por um tempo, apenas me olhava como se tentasse entender tudo que estava acontecendo, principalmente por termos passado uma semana inteira em paz e eu estar aqui tentando evitar que alguma coisa ruim aconteça com ela (claro que é pelo meu amigo, porque Harry sofreria muito se alguma coisa séria acontecesse com a irmã tapada que tem).
Ela desceu do balcão sozinha, quase caiu e precisou de ajuda para não enfiar a cara no chão e acabar machucada. Saímos da festa juntos, eu a mantinha perto de mim, segurando-a pela cintura e ela apenas caminhava sem reação, como se estivesse com o piloto automático ligado.
Seguimos pra casa em silêncio, ela virada para a janela e fungava vez ou outra, provando que estava acordada e chorando. Acho que nunca vivi um momento tão estranho na vida quanto este. Inclusive, jamais achei que faria algo do tipo, principalmente para , mas entre isso e morrer de remorso caso alguma coisa acontecesse, melhor isso.
E, em todo caso, ela bebeu demais e com certeza não vai lembrar de nada disso quando acordar.

XXIII

Quando abri os olhos, com dificuldade pelo tanto que chorei e bebi ontem, eu apenas torcia pra ter sonhado e que aquilo tudo não tivesse sido verdade. Não era possível que eu tenha mesmo enchido a cara o suficiente pra precisar ser salva por antes que acabasse tendo problemas ou passado vergonha. Mas, infelizmente (ou felizmente), é a verdade e não apenas um sonho muito realista.
E a prova de que não foi um sonho, é a maldita dor de cabeça de ressaca que está me atormentando.
Virei pro lado e Venom soltou um miado para sinalizar que estava ali, deitado quase embaixo de mim. Puxei a coberta até que eu estivesse totalmente escondida e voltei a fechar os olhos, mesmo sabendo que não conseguiria dormir novamente, minha cabeça me mataria (de dor e de vergonha) antes que eu pudesse apagar de novo.
Passei um bom tempo assim, deitada e tentando não sentir a maldita dor de cabeça, o gosto de sola de sapato na boca, a garganta seca e o estômago que ardia tanto que quase me dava vontade de chorar, até que resolvi levantar da cama, derrotada, com o ego ferido, o coração partido e aquela maldita ressaca. Segui basicamente me arrastando até o banheiro e nem me dei ao trabalho de olhar minha cara no espelho, provavelmente eu estou péssima, não tirei a maquiagem e deve estar um horror.
Depois de muito tempo, mais do que qualquer ambientalista consideraria adequado, eu sai enrolada na toalha e vesti uma roupa confortável, o relógio marcava oito e quarenta e três da manhã. Cedo demais. Voltei ao banheiro para buscar aspirina, tomei dois comprimidos com bastante água e fui para a cozinha, preciso comer alguma coisa, mesmo sabendo que meu estômago não está, exatamente, queimado de fome. Meu cronograma do dia se resume a ficar de ressaca e uma roupa confortável é o traje para cumpri-lo.
Na cozinha, estava sentado à mesa, tinha um jornal em mãos e não me olhou quando entrei no cômodo, continuou tomando seu café e lendo o que quer que fosse que estivesse lendo, Thor estava deitado aos seus pés, recebendo um carinho feito com o pé esquerdo de que passava gentilmente sobre os pelos do cachorro.

– Por que eu voltei pra casa? – perguntei, querendo ver se ele contaria a verdade ou fingiria de desentendido.
– E eu, por acaso, sou sua secretária pra saber o motivo pelos quais você faz as coisas ou deixa de fazer? – perguntou desaforado, erguendo o olhar do jornal e me olhou com o desprezo de sempre.
Ótimo, vai se fingir de desentendido, o que é ótimo para a dignidade dos dois, ainda que ambos saibamos que as coisas não foram bem assim.
– Foi apenas uma pergunta, mal educado. – respondi, abrindo a geladeira para procurar algo que eu pudesse comer e que não fosse basicamente me matar de azia.
Ovos e bacon.
Já li algo sobre isso em algum lugar, que a gordura e a proteína ajudam nesse processo de melhorar da ressaca. Na verdade, eu não li, foi Liam quem me falou isso depois do aniversário de Harry, porque estávamos destruídos de ressaca de tequila e mal conseguindo existir. Reprimi o suspiro sentido e peguei dois ovos, a vasilha em que o bacon estava guardado e coloquei sobre o balcão.
– Você se importa com o cheiro de coisas de origem animal sendo feitas? – perguntei e bufou, mas não parecia realmente irritado, virando-se em minha direção.
– Você pode fazer uma refeição rica em gordura e proteína sem precisar ser animal.
, minha cabeça está doendo demais, então fale quais são as opções e eu vou fazer.
– Esquenta o que fiz ontem pro jantar. – deu de ombros ao falar. – Tem carboidrato, gordura e proteína. Faz um suco de laranja e pronto.
– Obrigada. – resmunguei, voltando a colocar os ovos e o bacon na geladeira e procurando pelo jantar. – E o que foi o jantar?
– Você não lembra? – perguntou e eu tive que fazer a melhor cara de desentendida quando ele perguntou isso.
É claro que eu me lembro, você me fez jantar e basicamente colocou a comida na minha boca ontem à noite, , porque eu estava sem nenhuma coordenação, chorando e lamentando como a vida estava uma bosta! É impossível eu ter esquecido que comi nhoque com um queijo vegetal delicioso e aqueles malditos bifes de soja que estavam tão gostosos que mesmo morrendo de tão bêbada, eu recordo exatamente do sabor e da textura deles.
– Lembro de quê?
– Nhoque com queijo e bife de soja, daqueles que você, Carol e Harry gostaram muito.
– Ah. – resmunguei, voltando minha atenção para a geladeira, buscando pelo jantar, e ele voltou sua atenção para o jornal que tinha em mãos.
A ideia de comer isso pela manhã não é a que mais me agrada, mas, pelo menos, eu vou melhorar um pouquinho dessa ressaca maldita e posso morrer de vergonha pelo que aconteceu ontem à noite no meu quarto, sozinha, o que me parece tão ruim quanto estar de ressaca, mas pelo menos a cabeça não vai doer tanto.
Coloquei um pouco do nhoque num prato e pus no microondas para esquentar e fui fritar um bife daqueles, porque não tinha nenhum frito para eu apenas esquentar e comer o mais rápido que pudesse e sumir dessa cozinha pelo resto do dia.
– Harry saiu?
– Harry não voltou. – deu de ombros ao falar e eu assenti.
Não continuamos conversando, eu apenas terminei de preparar o bife e o nhoque e me sentei à mesa, acompanhada de um copo grande de suco de laranja para ajudar a empurrar tudo pra dentro. E me surpreendi quando descobri que boa parte daquela dor de estômago era mesmo fome e não apenas a azia normal da ressaca.
saiu da cozinha antes que eu terminasse de comer, deixando-me sozinha com Thor, que me olhou com um pouco caso tão descarado que eu quase quis chorar quando ele se levantou e seguiu pelo mesmo caminho que tinha feito. E, parecendo pressentir que eu queria uma companhia animal, Venom apareceu na cozinha andando preguiçosamente, pulou em meu colo e se aninhou ali enquanto eu terminava de comer.

~*~

Ela não lembra.
Ainda bem.
Porque foi bem horrível para nós dois ter que viver a noite de ontem, então quanto menos pessoas lembrarem, melhor. Posso fingir que não fiz nada, que ela apenas voltou pra casa sozinha e foi dormir, que eu nem mesmo a vi chegar. Posso fingir que não tive que basicamente dar comida na boca dela e ouvir as lamentações sobre o bobão ter uma nova namorada e ela estar se sentindo péssima por terem terminado, porque ainda gosta dele e que poderiam ter conversado e resolvido tudo sem precisar terminar o namoro. Posso fingir que não fui eu quem a ajudou a chegar ao quarto para conseguir dormir. Posso fingir perfeitamente que não fui eu quem a colocou na cama, tirou os sapatos e apagou as luzes antes que ela caísse no sono.
Harry não tinha mesmo voltado, ainda estava no trabalho, mas disse que chegaria para o almoço e isso é o que preciso fazer daqui a pouco, quando sair de lá e voltar para seu mundinho, em sua cama e longe de mim. Posso passar o resto do dia lendo sossegado, ouvindo música ou dormindo, porque o tempo nublado favorece esse tipo de coisa e eu não tenho mais nada pra fazer.
Quando ouvi o carro de Harry entrar na garagem, eu já estava na cozinha prestes a começar o almoço. E, por sorte, não precisei começar, porque ele estava com sacolas do Viva Vegan e eu dei um sorriso tão grande, que o fez rir junto.

– Você fica dois dias sem me ver e está mais feliz por ver as sacolas de comida do que eu? – perguntou, fingindo um tom sentido.
– Harry, você é maravilhoso e eu te amo, mas estamos falando do Viva Vegan!
– É, eu sei. – riu.
– Isso nem é seu caminho, cara.
– Mas sei que você gosta, então desviei um pouco do trajeto habitual e fui buscar um bom almoço pra gente, porque quero comer rápido e dormir o resto do dia. Estou morto. já chegou?
– Já sim. – respondi e ele assentiu. – Vá tomar um banho e depois comemos.
– Eu vou comer agora, quando eu tomar banho, vou sair do chuveiro direto pra cama e não pretendo sair de lá acordado hoje.
– Então lave essas mãos e venha comer.
– Vou chamar a . Ela chegou faz tempo? Será que já almoçou?
– Chegou e não, não almoçou. Eu ia começar a cozinhar agora.
– Vou chamá-la, lavar as mãos e almoçamos.
– Claro, vou colocar a mesa. – respondi, vendo Harry sair da cozinha.
Peguei pratos, talheres, copos, fiz mais suco de laranja para todos nós e tirei a comida da sacola, distribuindo as embalagens sobre a mesa para que cada um se servisse como quisesse. apareceu depois de Harry retornar, estava com a cara amassada de quem tinha sido acordada, e arrastava os pés com preguiça e ainda sofrendo com a ressaca que a perseguiria o dia inteiro. Pelo menos ela não se lembra de nada, o que poupa os nossos egos dessa vergonha. Ela observou a comida por um tempinho e colocou muito pouco no prato, mas é compreensível, ela comeu bem no café da manhã.
O almoço foi silencioso, tirando os momentos em que tive que falar pra Harry comer devagar ou ia acabar morrendo engasgado tamanha pressa. Ele tinha a expressão cansada, a barba estava por fazer e se piscasse, era capaz de dormir sentado. comeu devagar e não parecia estar muito mais acordada que o irmão.

– É muito estranho passar mais de cinco minutos perto dos dois sem que vocês queiram se matar. – Harry comentou quando acabou de comer.
– Eu quero matar esse daí todo dia, o tempo todo, mas minha ressaca não me permite muito mais do que respirar e pensar em nunca mais beber.
– Você nem precisa dizer isso, troglodita, já tentou algumas vezes, não é mesmo?
– Cala a boca.
– Pra minha sorte, você é péssima nisso.
– Achei que você não viria pra casa. – Harry falou, interrompendo a pequena discussão que estava prestes a começar, e ela deu de ombros.
– Resolvi vir antes do planejado, porque o melhor lugar pra lidar com uma ressaca é nossa própria cama.
– Nisso você tem razão. – falou. – E eu vou dormir e espero que vocês não se matem, por favor. Só me acordem se for algo importante.
– Ou seja, se for algo com a Carol. – falou, dando um sorrisinho para o irmão, que assentiu em concordância. – Mas, tudo bem, não pretendo fazer outra coisa além de dormir o resto do dia.
– Eu acho que vou ao cinema, então não se preocupe comigo. – falei e Harry assentiu.
– Vejo vocês amanhã. – Harry falou, levantando-se e alguns minutos depois, fez o mesmo.
Voltei a ficar sozinho na cozinha e resolvi organizar tudo antes de procurar algo realmente útil pra fazer. Lavei o que foi sujo, guardei o resto da comida na geladeira e quando peguei o celular, percebi que eu ia mesmo ao cinema, mas acompanhado.
Eu tinha um encontro.

XXIV

O encontro foi péssimo. Eu nem sei o motivo que me leva a continuar insistindo no Tinder. Não tenho sorte nenhuma, acho que de cinquenta (ou sessenta) encontros feitos nesse aplicativo, só um foi realmente interessante e deu em alguma coisa, o resto sempre acaba comigo voltando pra casa cedo, pouco contente e pensando seriamente em nunca mais usar o Tinder.
Eu pareço aquelas pessoas que bebem até passar mal e passam a madrugada e a manhã seguinte jurando que nunca mais vão beber, mas, no final, acabam sempre bebendo ainda mais quando têm oportunidade.
Quando entrei na casa de Harry, a luz da cozinha estava acesa e uma música baixa estava tocando, que eu reconheci logo, porque é The Weeknd e ninguém nesse mundo é mais fã desse homem do que eu.

– She told me: “don’t worry about it”, she told me: “don’t worry no more”, we both know we can’t go without it, she told me “you’ll never be alone”, oh, oh, wooo… I can’t feel my face when I’m with you, but I love it, but I love it… – Harry estava cantando totalmente alheio ao mundo fora de sua bolha.
Animado, ele estava virando algo do processador de alimentos em uma tigela enquanto fazia uma dança ridícula e que provavelmente faria Abel processá-lo por fazer aquilo durante uma de suas músicas. Uma cena digna de um bom vídeo pra queimar o filme dele na internet ou em alguma reunião de amigos ou família, mas prefiro apenas observar enquanto Harold dança feito um desengonçado e acha que está arrasando e não está sendo observado.
– Ainda bem que você é advogado, porque se fosse cantor ou dançarino, estaria pedindo dinheiro na rua. – falei e Harry se virou em minha direção, dando uma risada em concordância. – Cozinhando uma hora dessas?
– Eu imaginei que seu encontro seria ruim, eles sempre são, e você estaria com fome quando chegasse em casa, então resolvi fazer um hommus, com uma receita que peguei na internet, pra comermos com umas batatas chips, umas cenouras, pois podemos ser saudáveis enquanto jogamos conversa fora ou assistimos alguma coisa na televisão sem nenhum propósito além de ficar postergando a hora de dormir. Amanhã é domingo, podemos dormir até bem tarde.
– Você é o melhor, Harold. – falei, fazendo-o sorrir. – Precisa de algo?
– Só que você vá vestir um pijama, lave essas mãos e a gente coma e fale da vida alheia.
– Estamos sozinhos?
está basicamente morta o dia todo, trancada no quarto e dormindo. Essa bebedeira deve ter sido horrível, ela está derrotada. – Harry deu uma risadinha nasalada ao falar.
Você não faz ideia, meu amigo. Você não faz ideia.
– Não sei. – dei de ombros. – E nem me importo.
– Ela chegou muito mal?
– Eu nem vi quando ela chegou, eu estava dormindo. Só a vi pela manhã, quando ela veio procurar algo pra comer, depois voltou pro quarto e ficou entocada até você chamar pro almoço. – voltei a dar de ombros, tentando mentir de um jeito convincente.
– Vá logo trocar de roupa, eu acabei aqui e nós poderemos comer.
– Amei a playlist. – falei e ele piscou, sorrindo.
– É impossível não amar, , nós estamos falando de The Weeknd. – Harry falou, dando um sorriso com o qual apenas pude concordar.

Deixei a cozinha para ir ao quarto trocar de roupa e lavar as mãos, vendo Thor dormir confortável em minha cama provisória, quase babando de tão desmaiado que estava. Esse cachorro consegue ser mais folgado do que Venom, que inclusive, nem vi hoje, mas sei que está do outro lado do corredor, aproveitando que a dona do quarto passou o dia na cama para fazer o mesmo.
Harry já estava na sala com o que tinha feito para aquele momento: hommus, palitinhos de cenoura crua e um saco enorme de batatas chips. E cervejas. O meu melhor amigo é a melhor pessoa do mundo inteiro e ninguém pode me provar o contrário!

– Qual foi o problema desse encontro? – perguntou quando abrimos nossas primeiras cervejas e eu dei uma risada baixa.
– Acho que ela não queria estar lá, mas, pelo menos eu assisti ao filme em paz. – dei de ombros ao falar. – Tentei convencê-la a irmos jantar, mas ela disse que tinha outro compromisso e eu apenas vim pra casa.
– Você é bonito, não mente nas fotos que usa… será que ela ficou com medo do seu discurso sobre veganismo? – implicou e eu lhe mostrei o dedo do meio, mas acabei rindo.
– Eu nem coloquei essa informação no Tinder, Harry. Eu acho que ela esperava que eu não fosse, na verdade.
– Então por que ela foi? – perguntou confuso.
– Não sei, eu também pensei nisso. Ela fez uma cara tão… decepcionada, eu diria, quando me viu…
– Será que ela estava esperando um carinha feio que mentiu a imagem?
– Provável, ela realmente pareceu decepcionada ao me ver e eu fiquei um pouco ofendido, eu até tomei banho e passei seu perfume caro!
– O meu? – perguntou e eu assenti. – Você é ridículo.
– Eu quis impressionar a garota, mas ela não pareceu muito impressionada. – dei uma risada baixa ao falar. – Acho que desisto oficialmente de aplicativos de namoro.
– Caso nada na sua vida dê certo, eu deixo você casar com minha irmã. – falou rindo e eu dei uma risada.
– Eu prefiro morrer sozinho.
– Tudo bem, então eu deixo você ir morar na minha futura casa com Carol.
– E eu não ia morar? Não somos um casal de três pessoas? – perguntei, fingindo estar ofendido e magoado.
– Eu que deveria estar ofendido, , você é quem está usando aplicativos de namoro.
– Harry, você é insuportável. – falei rindo. – Sério, eu desisto de Tinder mesmo.
– Há muitos peixes no mar, , você só tem que saber como pescar. – Harry falou num tom de conselheiro de filme, me fazendo rir alto.
– Bom, mas quando é que a sua cunhada vai nos convidar pra um show?

~*~

Dormi o dia todo e agora, três e quarenta e dois da manhã, estou acordada. Mas meu maior problema nem é esse. O problema é estar repassando a noite da festa com tantos detalhes que eu estou realmente surpresa por lembrar até das cores de tudo que estava ao meu redor mesmo que eu tenha enchido a cara.
Eu entendi quando ele disse que era meu namorado, afinal, ele não podia correr o risco de dizer que era meu irmão, nunca se sabe quem me segue e conhece o Harry das coisas que já postei sobre ele, porque sempre fui bem enfática ao dizer que só tenho um irmão e ele se chama Harry. Eu também entendi a preocupação (e não comigo, mas com Harry) ao ir até a festa me buscar e me trazer em segurança pra casa.
Eu entendi tudo o que aconteceu de forma racional, mas mesmo assim é humilhante demais. Isso vai me atormentar para sempre, eu tenho certeza absoluta disso. É o que dizem, o álcool mata, mas primeiro ele humilha.
E está me humilhando muito.
E não vai me deixar dormir por agora, já dormi demais, então, sem pensar muito, fiquei de pé e fui para a cozinha andando devagar pra fazer um bom chá e tentar voltar a ter um pouquinho de sono pra dormir até amanhecer, pelo menos.
Harry e estavam na sala, cada um em um sofá, a televisão ligada em algo que eles certamente não estavam assistindo há horas, já que pareciam estar adormecidos há um bom tempo. Garrafas de cerveja vazias estavam sobre a mesa de centro, assim como alguma coisa de comer que, pela luz da televisão, não consegui diferenciar. Segui para a cozinha para fazer meu chá e tentar dormir de novo, desliguei a televisão antes disso, e fiquei sentada esperando a água ferver para que eu pudesse colocar em uma caneca e ir para o quarto.

– Dormiu demais? – ouvi a voz de Harry e quase soltei um grito pelo susto, mas antes que fizesse isso, tampei a boca e apenas dei um pequeno pulo de susto. – Desculpa.
– Dormi demais durante o dia, acordei e vim fazer um chá pra tentar voltar a dormir. E você?
– Dormi o suficiente, mas bebi um pouco e acordei pra ir ao banheiro, a luz da cozinha chamou minha atenção. – deu de ombros.
– Quer chá?
– Quero. – falou e eu coloquei um pouco mais de água para ferver e voltei a me sentar à mesa. – Você está bem?
– Estou sim, Harry, e você, tudo bem??
– Também estou bem. Como foi a festa? Sei que o Liam deveria estar lá e pela forma chorosa como você passou os últimos dias, ele deve estar namorando.
– É, está. Mas ele não ficou exibindo a garota. Estou um pouquinho triste, mas eu sei que a vida anda e que isso é normal.
– Mas a festa foi boa? Por que você voltou?
– Eu bebi demais, peguei uma carona com uma das garotas da minha sala e vim dormir na minha própria cama, porque nenhuma outra seria tão boa para lidar com minha ressaca. Mas, fora isso, foi uma boa festa. – dei de ombros e ele assentiu.
– Fiquei preocupado, quase fui até lá conferir se estava tudo bem, porque imaginei que isso poderia acontecer, mas não consegui me livrar do trabalho nem pra ir ver a Carol ontem.
– Você tem trabalhado demais. – fiz uma careta, indo conferir a água que estava prestes a começar a ferver. – Algo muito sério?
– Sério demais. – suspirou. – Talvez eu tenha que ir à Nova York por causa disso.
– E como está Linda?
– Se recuperando bem, ainda de licença, mas conversamos e ela está bem.
– Acharam o cara?
– Acharam sim. O julgamento é na quinta-feira.
– Os chás estão prontos, tome o seu, junte a bagunça da sala e vá dormir na sua cama, não no sofá, você vai acordar péssimo amanhã se fizer isso. E mande ir também, ele vai acabar todo travado se ficar por lá. – falei e ele me olhou sem entender bem a última parte. Deus, POR QUÊ????? – Se bem que os dois sofás são grandes e confortáveis…
– Vou fingir que não ouvi a parte do , que foi apenas uma alucinação, e ir mesmo dormir, seu remorso por ter acertado a cara dele com o controle remoto está durando tempo demais. – Harry falou, pegando a caneca de chá que estava sobre a bancada e saiu da cozinha, me deixando sozinha com vontade de bater a cabeça na parede.

XXV

– O prédio continua interditado. Totalmente interditado. – falei num tom lamuriento e Harry me olhou quase se divertindo com a situação. – Se eu não tivesse renovado o contrato do aluguel duas semanas antes da dedetização, eu poderia ir alugar outro apartamento, mas tem uma multa sinistra naquele contrato.
– Multa?
– É. – dei de ombros. – Por quebra de contrato, se eu sair antes de um ano da renovação. Isso é ilegal? Diz que sim, eu preciso arrumar outro lugar pra morar!
– Não é ilegal ter essa cláusula contra rompimento de contrato, porque é uma segurança pra quem está alugando ou vendendo algo, mas depende do valor da multa. Se for abusivo, dá pra pedir a rescisão do contrato judicialmente e usar como argumento o valor abusivo. Você sabe quanto é?
– O valor dos alugueis restantes e uma multa de três porcento do valor total. E isso é muita coisa.
– Não sei por que você está tão preocupado em sair lá de casa, , está tudo bem.
– Esse é o problema. Aquela maluca da sua irmã deve estar planejando algo terrível, porque ela realmente anda muito quieta…
– Acho que ainda está com remorso por ter te machucado. – Harry deu de ombros, tomando um gole da cerveja. – E você também está quieto, não tenho visto e nem ouvido nada.
– Eu não vou ficar atiçando o Cão. – respondi, fazendo Harry rir. – E, mesmo que eu te ame muito por me deixar ficar de favor na sua casa, sem reclamar, eu gosto de morar sozinho, sabe? Sem ofensas, mas é diferente.
– Sei como é. Mas eu já até me esqueci de como é isso, porque a chegou e mudou muito esse cenário, mesmo que a gente mal se veja durante a semana. Você só precisa se acostumar, . E, em todo caso, eu sempre achei que a gente moraria juntos sem ser na Sigma.
– Quando você casar com a Carol, vai colocar sua irmã pra fora de casa? Diz que sim! E me chame pra assistir.
– Até lá, já terá saído de lá há muito tempo.
– Nossa, mas você não pretende casar tão cedo?
– Não por agora. Carol está estudando, somos novos demais… e o relacionamento nem tem tanto tempo, acho melhor irmos com calma, mesmo que eu a ame e tenha certeza absoluta de que vamos nos casar, ter filhos e ser felizes para sempre, ainda não chegou esse momento.
– Harry, você é incrível. – falei e ele sorriu. – Eu vou ficar na sua casa, porque eu ainda sou pobre demais pra pagar aquela multa.
– Por mim, você pode ficar para sempre. Acho que nunca me alimentei tão bem antes de você ir pra lá.
– Preciso apenas eliminar as coisas de origem animal que você ainda compra. – impliquei, fazendo Harry dar uma risadinha.
– Nosso momento que precede o dia dos namorados precisa ser encerrado, porque nós dois vamos trabalhar amanhã de manhã. E eu ainda vou sair com minha digníssima a noite depois de um dia inteiro de expediente naquele escritório.
– Isso mesmo. Eu tenho que trabalhar feito um filho da puta amanhã e terei que passar a noite na sua casa, provavelmente na companhia da sua irmã. Esse ano é o pior da minha vida até agora. – reclamei, fazendo Harry soltar uma risada pelo nariz.

Quando saímos do bar, pedimos o Uber e seguimos até a casa de Harry sem conversar muito. Segui direto pro quarto quando cheguei, mas Harry foi na outra direção, para o escritório que ele tinha e ainda precisava resolver umas últimas coisas antes de ir dormir. Quando cheguei ao corredor, vi sentada em frente ao celular e estava fazendo uma maquiagem enquanto falava sobre os produtos que usava. Provavelmente estava ao vivo no Instagram ensinando aquilo para as pessoas que a seguem. Era uma maquiagem bem leve, não tinha muitas cores fortes e ela fazia tudo devagar, conversando com as pessoas que estavam assistindo.
Ela é estranha demais.

– Tem que esfumar bem pra não ficar visível a divisão das cores, tem que ser algo que pareça o degrade, que saiu de algo mais escuro e ficou mais suave. O delineado é opcional, mas posso ensinar de novo, apesar de preferir essa maquiagem sem delineado… isso. Acho que você pegou bem essa parte de esfumar a sombra, Max, sua entrevista amanhã será ótima.
– Queria que você tivesse vindo hoje, ou viesse amanhã. – uma voz feminina falou.
Então não é live, é chamada de vídeo.
– Não consegui folga no estágio e não posso faltar a aula, porque tenho um trabalho pra apresentar, mas vou ao abrigo na semana que vem pra tirar as fotos dos portfólios de vocês. E eu também sei que você vai arrasar! Treinamos bem a entrevista, não foi? Você vai se sair muito bem e aposto que já será contratada amanhã mesmo!
, se eu falhar eu nem sei o que vai ser de mim.
– Você não vai falhar, Max. Vai dar tudo certo e vocês vão sair dessa. Eu sei que vão.
– Espero que sim…
– Você entendeu bem como fazer isso da maquiagem? Precisa de outro treino de alguma coisa?
– Não, . Obrigada. Eu vou colocar o Trent pra dormir e vou tentar dormir também.
– Faça aquela respiração guiada que a Cassie ensinou, você vai se acalmar e dormir bem. Estarei mandando todas as energias positivas pra você amanhã. Sei que vai dar tudo certo.
– Tomara. – a outra voz soou um pouco derrotada. – Boa noite, . Obrigada mesmo.
– Disponha, Max. Qualquer coisa, me ligue. – falou, mandando beijos para a tela do celular e logo a chamada foi encerrada.
Abrigo?
Bom, agora eu estou curioso.
Antes que ela me visse e acabasse me matando por estar ouvindo sua conversa ao telefone, segui pro quarto e fechei a porta sem demora, encontrei Venom em cima da cama, dormindo em paz do lado que eu normalmente fico. Resolvi não encrencar, até porque ele mal tem ficado perto de mim desde que viemos pra cá, apenas fui tomar um bom banho e me trocar pra dormir, porque mesmo que eu seja e esteja curioso, preciso acordar muito cedo amanhã e não há fofoca no mundo que valha meia hora de sono minha.

~*~

“Obrigada por ser um irmão incrível, eu te amo”, enviei a Harry quando um enorme vaso com rosas vermelhas foi entregue no jornal para mim. O cartão dele era simples, mas muito bonito, porque Harry é realmente muito bom com palavras e demonstrações de afeto. E sei que ele fez isso, porque todo mundo ganharia algo e eu seria a única sem um presente. Meu irmão é simplesmente o melhor de todos.
Mas, claro, nem só de bons momentos pode viver uma mulher, porque quando cheguei em casa, estava na cozinha ouvindo música mais alto do que o habitual enquanto picava alguma coisa de costas para a porta, estava cantando animado e não percebeu minha presença quando passei por lá.
2020 veio pra me mostrar que sempre dá pra piorar, porque não existe a menor condição de que esse tipo de coisa esteja acontecendo de verdade. Alguém, por favor, dê um banho de sal grosso nesse ano.
Tomei um banho rápido e vesti uma roupa confortável para ficar em casa e consultei a agenda. Eu tinha que fazer um trabalho da faculdade, mas nada tão urgente assim, então eu poderia assistir a alguma coisa na televisão da sala (porque aquele sofá é a melhor coisa dessa casa).

– Você vai ficar em casa? – perguntou, aparecendo na sala e eu assenti.
– Vou atrapalhar se ficar na sala? Se sim, ficarei por aqui. – respondi em tom implicante e ele rolou os olhos.
– Sua existência me atrapalha a viver em paz, mas eu estou perguntando, porque vou começar o jantar e se você não for ficar, eu não vou cozinhar e vou pedir alguma coisa.
– Ninguém te garante que eu vou comer essa gororoba que você está fazendo. E, em todo caso, quem me garante que você não vai me matar envenenada?
– Você é muito burra. – ele falou, dando uma risadinha nasalada. – Se eu te matar envenenada, serei preso muito rápido, estamos só os dois aqui e sou eu quem está cozinhando, e eu sou bonito demais pra ir pra cadeia.
– Eu não teria tanta certeza se fosse você. – respondi e ele passou a língua pelos lábios, cruzou os braços e me olhou com uma cara bastante debochada.
– Não receber esse tipo de reconhecimento vindo de você é importante pra mim, porque prova que eu sou muito bonito mesmo, já que você é irrelevante e sem bom senso.
– Você é insuportável e está atrapalhando meu descanso.
– Eu deveria te deixar com fome.
– Já inventaram delivery, caso você não saiba.
– Mas não existe, nessa cidade, nada que você possa comer e que seja tão bom quanto o que eu estou fazendo. – respondeu num tom convencido e saiu da sala.
Idiota.
E um idiota com razão, porque ele cozinha mesmo muito bem.
Eu passei tanto tempo procurando por algo para assistir que antes que escolhesse algo, gritou da cozinha que o jantar estava pronto. Ele saiu da cozinha com o próprio prato antes que eu fosse conferir o que ele tinha feito.
Dentro de uma assadeira, umas bolinhas de macarrão, quer dizer, aquele macarrão de lasanha estava enrolado e tinha sido recheado com alguma coisa que eu não conseguia ver o que era e coberto por molho e queijo. E estava cheiroso pra caramba. Como sempre.
Quando voltei pra sala, estava sentado no chão, um copo de suco sobre a mesa de centro e parecia esperar que eu voltasse, provavelmente porque o controle remoto estava em meu bolso.

– O que você vai assistir? – perguntou e eu dei de ombros, pegando o controle no bolso e ele me olhou quase assustado, erguendo as mãos. – De novo não.
– Eu deveria mesmo. – resmunguei, sentando no sofá. – Vou assistir “Annabelle: A Criação do Mal”.
– Credo! Por quê?
– Porque eu quero. – dei de ombros. – Já ouvi dizer que é horrível.
– Credo.
– Você tem medo desse tipo de coisa? – perguntei quase rindo e ele me olhou quase ofendido, mas não negou. – Que infantil.
– Não tenho medo, eu só não gosto desse tipo de filme.
– Ninguém te chamou pra ficar aqui.
– Deixa de ser chata e coloca outra coisa pra gente assistir. – reclamou e eu rolei os olhos, assentindo.
Coloquei “A Invocação do Mal”, porque eu não mudaria o gênero do filme apenas por aquele insuportável querer, e balançou a cabeça negativamente, começando a comer sem olhar para a televisão. Mas, com menos de cinco minutos, a luz acabou e a casa ficou completamente escura.
– Viu?! Você fica chamando essas coisas ruins pra dentro de casa assistindo esses filmes do demônio e olha o que aconteceu! – falou num tom amedrontado e eu dei uma gargalhada, pegando o celular e acendendo a lanterna.
– Não seja ridículo. – falei, apontando a luz para ele. – Vou buscar as velas. Você vai ficar bem sozinho ou precisa de companhia?
– Se algum espírito me matar, , eu vou passar a eternidade no inferno sendo o responsável pela sua tortura!
– E isso você arranjou com o próprio Lúcifer lá na Lux ou na LAPD, certo? – perguntei debochada, ficando de pé. – Tente não morrer do coração enquanto fica sozinho aqui por alguns segundos enquanto eu vou buscar algumas velas.
– Você é uma idiota. – reclamou e eu deixei o prato sobre a mesinha de centro e segui para a cozinha, em busca de algumas velas para iluminar a sala e não comermos no escuro.
Não demorei a voltar e estava com a lanterna do próprio celular iluminando o ambiente e a cara aterrorizada dele era tudo pra mim, eu devia ter continuado jantando sem buscar velas, teria sido incrível passar por esse momento e deixá-lo absurdamente amedrontado teria sido a melhor parte desse dia. Coloquei duas velas na mesa de centro e as acendi, voltando a sentar no sofá e ele me olhou desconfiado.
– O que foi?
– Isso aqui não tá iluminando nada! E você nunca viu filmes de terror? Essas coisas chamam espíritos! Eu sou o mais bonito, com toda certeza eu vou morrer primeiro!
– Claro, os bonitos sempre são burros e morrem antes. – respondi e ele rolou os olhos.
Nenhum de nós falou por um tempo (e ainda bem, porque eu tinha dado a entender que ele era bonito. O que é mentira, ele não é bonito nem por dentro e nem por fora!), até ouvirmos o barulho da porta da frente. arregalou os olhos e parou de mastigar. Como se um espírito fosse abrir a porta de casa com a chave e entrar, como se espíritos não atravessassem paredes…
– Jantar à luz de velas? – ouvi a voz de Harry e me virei em sua direção. – Então é isso que vocês fazem quando eu não estou?
– Não tem luz. – respondi e ele assentiu.
– Eu sei, parece que foi um apagão geral, estávamos pra entrar no restaurante e a Carol achou melhor virmos pra cá.
– Gente, vocês dois não usaram essa oportunidade pra se matar? É um avanço! – Carol falou num tom surpreso.
– Tem comida na cozinha. – falei. – Seu amigo estava achando que era algum espírito entrando em casa, porque ele viu cinco minutos de “A Invocação do Mal” e acho que vai precisar dormir com vocês dois.
, você tem medo dessas coisas? – Carol perguntou num tom zombeteiro.
– Não é medo, eu só acho desnecessário assistir esse tipo de coisa pra trazer energias ruins para as nossas vidas.
– É medo. – Harry e Carol falaram juntos, caindo na gargalhada em seguida.
– Amei o jantar dos dois de dia dos namorados. – Carol falou num tom implicante. – Luz de velas, jantarzinho feito em casa, climinha fofo… adorei. Jamais achei que viveria pra ver e comendo juntos sem se matar.
– Farei isso pra gente no nosso aniversário. – Harry endossou o coro de implicância e eu rolei os olhos, mas nenhum deles viu, realmente, o gesto.

Carol e Harry não demoraram a voltar para a sala, devidamente servidos e sentaram no chão para jantar, pouco romântico e bem distante de tudo que Harry tinha planejado, mas foi bastante agradável passar algumas horas com os dois, conversando sobre um monte de coisas e rindo até a luz voltar (e isso demorou um tempão!).
Era bem tarde quando eu fiquei sozinha na sala e voltei a ligar a televisão para terminar de ver o filme. Não é que eu goste de filmes de terror e viva para assistir esse tipo de coisa, mas eu ouvi falar que as coisas envolvendo Annabelle e esse “A Invocação do Mal” eram muito mais barulho do que história e sustos.

– Você vai mesmo assistir isso? – ouvi a voz de entrando na sala e ele me olhava desconfiado.
– O único medroso aqui é você.
– Já falei que não é medo. Só acho desnecessário ficar chamando esse tipo de energia ruim pra casa e para as nossas vidas. – reclamou num tom quase infantil.
– Duvido que você assiste até o final.
– Não tenho que te provar nada, . – respondeu num tom de garoto birrento da primeira série.
– Me-dro-so. – falei e ele bufou, sentando-se no outro sofá.
– Coloque do começo. – falou emburrado e eu voltei o filme para o começo e peguei o celular.
Não perderia a chance de gravar o susto e o surto de e depois usar contra ele por nada nesse mundo!

XXVI

Quando desliguei o telefone, depois de passar uma semana inteira tentando falar com o síndico do meu prédio, eu preferia nem ter falado com ele, as notícias foram totalmente desanimadoras e ele foi um idiota ao falar comigo. Eu só queria desfazer o contrato, alugar outro apartamento e viver minha vida longe da irmã do Harry eternamente.
As coisas andam muito estranhas naquela casa, inclusive. e eu não estamos brigando e nem implicando um com o outro como é habitual. Não somos amigos, de jeito nenhum, mas não estamos trocando farpas, não há implicâncias e ela não tem enchido meu saco como sempre faz. Nós ficamos quietos quando precisamos estar perto um do outro. Totalmente calados. Zero provocações. Zero xingamentos. Zero ódio gratuito e desmedido. O que é ótimo se for parar pra pensar como um ser humano normal, mas é aquele tipo de silêncio estranho e que parece preceder uma catástrofe.
Ela nem mesmo falou mal da minha comida! E ela sempre fala.
Bom, eu também não falei mal da comida dela quando ela cozinhou outro dia, num estranho lapso de boa vontade, mas estava realmente gostoso e eu não tinha como colocar defeito em alguma coisa que não tinha defeitos.
Depois do dia dos namorados – em que nós acabamos assistindo aquele filme horrível e do qual eu me arrependi amargamente, porque passei a noite acordado – nós meio que entramos numa espécie de pausa tácita, ninguém falou nada para estabelecer a paz, apenas foi estabelecida num silêncio assombrador.
Na verdade, desde o dia que ela jogou o controle na minha cara as coisas ficaram menos bélicas. Depois daquilo, ainda que tenhamos trocado uma ou outra implicância, foram coisinhas pequenas e insignificantes, mas as coisas estranhas (tipo eu sendo legal com ela e ela não sendo pau no cu comigo) estavam acontecendo com bastante frequência. Agora estávamos em total paz. E isso é absolutamente errado e assustador quando se trata de e eu. Alguma coisa vai dar errado muito em breve, eu posso sentir.
A ligação que eu ouvi com a mulher, sobre maquiagem, entrevista de emprego e abrigo, me deixaram um pouco mole, confesso. Principalmente depois de ter fuçado o perfil de no Instagram para ver se ela se promovia usando de caridade, mas ela não o fazia. Não existe absolutamente nada que diga respeito a algum trabalho voluntário ou a abrigos em suas redes sociais. Não havia fotos, vídeos ou posts. Ela simplesmente ajuda essas pessoas sem nenhuma intenção de se promover e mostrar que é uma pessoa boa. O que me surpreendeu, porque ela é totalmente fútil (tudo bem, isso é meu lado implicante falando) e imaginei que propagaria a imagem de white savior, mas ela não faz nada disso.
E fiquei um pouco chocado quando vi que ela tinha feito um post sobre vegetarianismo estrito e como estava se adaptando às refeições sem nada de origem animal, mas que ainda estava pesquisando sobre produtos e roupas pet friendly, porque por enquanto estava apenas no vegetarianismo estrito, mas a ideia do veganismo lhe agradava muito.
E que em breve ela falaria sobre, queria pesquisar bastante sobre o tema e conversar com pessoas que entendessem do assunto para poder falar a respeito sem passar informações erradas para seus três milhões de seguidores no momento (é, ela é famosa).
E, bom, ela falou.
Comigo.

, posso falar com você? – ouvi quando entrou na sala.
– O que você pretende jogar em mim agora? – perguntei desconfiado.
– Nada, se você não merecer. – respondeu, sentando-se no outro sofá. – Só queria te perguntar se você se importa de aparecer em um vídeo do meu canal no YouTube pra explicar as diferenças nas linhas do vegetarianismo e do veganismo e algumas outras coisas que achar importante dizer sobre isso.
– E por que você quer isso? Pra ficar ganhando seguidor com uma coisa que você nem faz? – perguntei num tom debochado e ela rolou os olhos.
– Desde que você veio pra cá, nós paramos de comer coisas de origem animal, pelo menos aqui. Eu parei até fora de casa, percebi a mudança na minha saúde com essa alteração na alimentação e resolvi pesquisar a respeito. Tenho lido sobre o assunto, vi alguns documentários, mas ainda tenho algumas dúvidas. Não adotei o veganismo ainda, estou apenas na alimentação sem nada animal, mas tenho interesse na transição e tenho falado sobre essa mudança na minha alimentação no meu Instagram. Alguns seguidores me perguntaram sobre e eu disse que preferia pesquisar mais pra não falar algo errado. Você não come nada de origem animal desde… sempre, basicamente, então achei que poderia ajudar, provavelmente entende muito mais de muita coisa. – respondeu num tom muito mais sereno do que imaginei que seria.
– Vou pensar no seu caso. Agora sai, você está me atrapalhando a ver televisão. – falei e ela não respondeu, apenas ficou de pé e saiu da sala.

Quase uma semana se passou desde esse episódio e até hoje eu não falei nada com ela. E nem pretendo. Eu não tenho nenhuma vontade de aparecer em vídeo nenhum. Principalmente dela! Eu tenho mais o que fazer, como, por exemplo, me irritar com o síndico do prédio em que o apartamento que eu pago pra não morar está localizado.
Harry tem me ajudar nisso, porque eu preciso da minha casa. Um espaço meu. Sou totalmente grato pelo melhor amigo que tenho, mas estou de saco cheio de ficar morando de favor. E tem o infeliz do meu gato que resolveu não gostar mais de mim e me ignorar.
“Cerveja hoje?”, enviei para Harry e ele não demorou a responder com um “no lugar de sempre, chego em quinze minutos”. Esse homem é tudo pra mim, sinceramente.
Guardei minhas coisas, desliguei o computador e saí antes que pudessem aparecer para querer me fazer trabalhar mais. O bar que nós costumamos ir fica no meio do caminho até a casa de Harry, o que dá uns doze minutos do escritório dele até lá e uns oito do meu trabalho. E eu cheguei primeiro, claro, peguei uma mesa para nós dois e logo Harry estava entrando, trajado de forma impecável mesmo depois de um dia inteiro de trabalho.

– Vamos mesmo beber e dirigir? – Harry perguntou e eu dei de ombros.
– Não precisamos ficar bêbados de cair… eu só queria desestressar um pouco e amo ter a sua companhia.
– Fico feliz. – Harry sorriu. – Vou buscar as cervejas e vamos beber e conversar um pouco.
– Você é perfeito.
– Eu sei. – piscou, dando uma risada antes de sair na direção do bar.

Sempre fazíamos o primeiro pedido no balcão e depois as cervejas chegavam à mesa junto com as batatas fritas sem que precisássemos nos preocupar. Frequentávamos aquele bar desde a época de faculdade, éramos mais do que conhecidos e adulados, um privilégio conquistado depois de dois anos trabalhando no bar e sendo bons funcionários e clientes assíduos.

– Sua semana foi realmente difícil, hein? – Harry falou quando me entregou a cerveja e eu tomei metade da garrafa num gole.
– Pra caralho.
– Quer falar sobre? – perguntou e eu suspirei, pegando algumas batatas fritas da porção que sempre comíamos e enfiando na boca, mastigando com uma lentidão desnecessária, e Harry fez o mesmo.
– Foi uma semana de cão, Harry. Trabalhei feito um desgraçado, o pneu do meu carro furou e eu tive um trabalhão pra trocar aquela merda, tive umas quatro reuniões pesadas e que só me deram dor de cabeça, não posso desfazer a porra do contrato e arrumar outro lugar pra morar…
– Você não deveria estar preocupado em sair lá de casa, . Já disse que você pode ficar lá pra sempre se quiser. – Harry deu de ombros, falando no tom sincero que sempre usava quando falávamos desse assunto. – Podemos ver sobre a suspensão dos aluguéis, você não está morando no prédio e eles deveriam ter suspendido essas cobranças, mas não se preocupe em achar outro lugar.
– Eu aprecio muito que você fale isso, mas… você sabe como é viver sozinho e ter essa tranquilidade. Eu sinto um pouco de falta de ter meu espaço, sem… dividir. Não estou sendo ingrato, por favor, não pense isso. É só…
– Que você se acostumou a morar sozinho e, de repente, ir pra uma casa em que moram outras pessoas te faz sair dessa zona de conforto. – Harry sorriu, tomando um gole de sua cerveja em seguida, enquanto eu assentia. – Você tem o contrato? Do seu apartamento, no caso.
– Tenho, na sua casa.
– Amanhã eu dou uma olhada com bastante calma e vamos ver o que é possível fazer e tentar suspender os aluguéis, você não está morando lá e deveriam ter suspendido ou abatido o valor do aluguel.
– Eu renovei meu contrato umas semanas antes do prédio ser dedetizado e começar esse inferno. Que merda.
– Será que eles fizeram de má-fé? Já sabendo que existia o problema? Só pra obrigar vocês a ficarem lá? – Harry perguntou e eu fiz que não sabia. – Vamos descobrir isso amanhã.
– Amanhã é sábado, Harold.
– E daí?
– Eu vou pagar pela hora normal de dia de semana, problema é seu.
– Não estou te cobrando nada por isso. Não agora. – Harry sorriu ao falar e eu o olhei sem entender. – Quem sabe um dia eu precise dos seus serviços de arquiteto? Podemos fazer uma troca…
– Advogado é uma raça muito ordinária mesmo. – falei, fingindo um tom de desgosto e Harry gargalhou, mas o som foi abafado pela música do local. – E você, como está?
– Trabalhando bastante, namorando menos do que queria, mas eu estou bem.
– Costuma acontecer.
– E você, desistiu do Tinder mesmo? – perguntou e eu assenti.
– Até apaguei o aplicativo. – dei de ombros. – Não aguento mais esse tipo de humilhação e a última foi a prova disso.
– Quando você tem férias?
– No meio do mês, vou passar duas semanas em casa com minha mãe. Por quê?
– Nada, só queria saber. Lembro de te ouvir falando sobre isso, mas não estava lembrando da época.
– Preciso descansar, estou trabalhando feito um burro de carga e recebendo feito um burro mesmo.
– Você nunca pensou em abrir a sua própria empresa de arquitetura?
– Algumas vezes, mas nada muito concreto. – dei de ombros.
– Lembro que era um sonho…
– É, mas eu sonhei muitas coisas impossíveis, improváveis e impraticáveis durante a vida.
– Sonhar com o que te faz feliz não é impossível, improvável ou impraticável.
– Se eu sonhar com algo ilícito é totalmente impossível, improvável e impraticável.
– Depende. – Harry deu uma risada nasalada. – Se você for bom em fazer isso, ninguém nunca vai te descobrir e nem atrapalhar.
– Você me assusta um pouco. – falei, fingindo um tom assustado, e ele riu. – Mas nunca foi algo que eu tenha pensado mesmo, com afinco, sabe? Acho que seria legal, mas pode dar errado demais.
– Ou pode dar certo demais.
– Não sei…
– Você acha que seu nome pode aparecer na parede desse local em que você trabalha? Que o vai compor o nome da empresa em algum momento?
– Não.
– E isso pra você é satisfatório? Vale a pena se dedicar tanto, fazer seu trabalho muito bem feito e, no final, não ter o reconhecimento devido? – perguntou e eu dei um sorriso pequeno, negando com um aceno. – Pois é. Eu só fiquei no escritório, porque me valorizaram o suficiente. Eles demoraram um pouco, eu entendo perfeitamente agora que a demora foi necessária, mas meu nome está lá agora. E só deixará de estar se eu quiser sair. Você tem que pensar nisso, , pensar no que você planejou e onde se viu a vida toda, quais eram seus planos pra quando se formasse. Se não for onde você está, então você está no lugar errado.
– Meu Deus, que papo de coach. – impliquei, fazendo Harry rir e mostrar o dedo do meio antes de tomar mais de sua cerveja. – Mas eu entendo. Só não sei se por agora é viável.
– Planejamento é tudo, senhor arquiteto. E o senhor sabe disso. – Harry falou, me olhando de um jeito óbvio e incentivador.
– Farei o possível, senhor advogado. – respondi, dando um sorriso.

Nós passamos um bom tempo comendo batata frita, bebendo cervejas e conversando até resolvermos ir embora. Não estávamos bêbados, apenas um pouco alegres, e fomos pra casa sem pressa, evitando correr e dirigindo com o máximo de cuidado e atenção que poderíamos ter, logo estávamos dentro da casa de Harry, ele seguiu pro próprio quarto e eu fui brincar um pouco com Thor, que parecia realmente animado para me ver.
Depois de uns vinte minutos, quando Thor se deu por satisfeito e ele mesmo foi pro interior da casa, eu entrei. Bebi um copo de água na cozinha e segui pelo corredor, indo para o quarto e me joguei na cama. Não queria pensar em mais nada naquele dia e aproveitar o pouco de álcool que ainda estava no meu corpo era o que ajudaria.

~*~
“Precisei viajar às pressas pra Nova York e eu não estarei em casa por uma semana. Como já disse meu xará Harry Styles: Tratem um ao outro com gentileza, todo amor, H.”

Era o bilhete que Harry deixou em letras garrafais preso na geladeira. e eu estávamos parados no cômodo e olhando para aquele papel. Como ela se sente eu não sei, mas eu estou triste e pensando seriamente em adiantar minhas férias e ir pra Sacramento. Qual a chance de passar sete dias nessa casa sozinho com ela?
Zero.
Eu prefiro morar na rua.

– Vou ao supermercado, quer alguma coisa específica? – perguntou e eu a olhei quase ofendido.
Como ela não estava puta e querendo morrer lendo aquilo? Uma semana inteira apenas os dois naquela casa! Não é possível que ela não esteja querendo bater a cabeça na parede até acordar desse pesadelo.
– Você não vai reclamar? – perguntei surpreso e ela deu de ombros.
– É o trabalho dele.
– Esse será o pior mês de março da minha vida. – reclamei.
– Quer algo específico do supermercado? – repetiu a pergunta e eu tive que me controlar pra não rolar os olhos.
– Posso comprar quando voltar do trabalho, sou eu quem cozinha mesmo. – dei de ombros.
– Tudo bem, você tem a lista?
– Por que você está tão simpática e educada?
– Perdão?
– É isso mesmo, você está sendo muito educadinha ultimamente e isso é estranho.
– Vá se foder. – falou, sorrindo de forma falsa. – E se vire, otário do caralho.
Ela não esperou que eu respondesse, apenas marchou pra fora da cozinha, na direção da garagem e logo ouvi seu carro saindo. Cedo demais, nem café da manhã tínhamos tomado ainda, mas isso era um problema dela e eu comeria em paz.
Sério, eu não precisava de uma notícia tão trágica logo no primeiro dia útil de março. E eu nem posso adiantar as férias, porque tenho dois projetos pra essas duas semanas e provavelmente mais alguns que devem ser jogados em mim e eu vou acabar sem férias. De novo.
– Ei, seu fedorento, você vai tomar banho esse fim de semana. Vocês dois. – falei com Venom e Thor, que entravam na cozinha totalmente alheios ao que tinha acontecido.

E o dia depois do café da manhã passou muito rápido, trabalhei, trabalhei, trabalhei mais, passei raiva no trabalho e depois fui fazer as compras, porque as coisas pra essa semana estão acabando e como eu sou a única pessoa que cozinha, fica na minha responsabilidade comprar o necessário.
Quando cheguei, ainda não estava em casa e eu aproveitei aquele momento de paz e sossego para limpar tudo que trouxe do mercado e guardar, antes de tomar um bom banho e começar a fazer o jantar. O maldito bilhete ainda estava na geladeira e eu resolvi tirar de lá, porque eu acabaria surtando. Parece idiota, mas eu sinceramente não quero ter que passar mais de meia hora na presença de , mesmo dividindo o mesmo teto.

– Because I’ve been waiting all this time to finally say it, but now I see your heart’s been taken and nothing could be worst. Baby, I loved you first! Had my chances, could’ve been when he is standing. That’s what hurts the most, girl, I came so close, but now you’ll never know, baby, I lov…
– Desde quando você ouve One Direction? – fui interrompido por , que entrou na cozinha e o tom era petulante e parecia até ofendida.
– Ah, só você pode ser fã deles e conhecer as músicas? A porra da maior boyband dos últimos tempos e você acha que só você pode ser fã e conhecer? – perguntei no mesmo tom e ela mostrou o dedo do meio. – Voltou ao normal, ?
– Você não sabe lidar com gente que tenha um mínimo de educação, então tenho que me comunicar da forma que você entenda, troglodita. – respondeu e voltou a mostrar o dedo do meio.
– Insuportável.
– Você está muito azedo, . – provocou com aquele maldito apelido. – Seus encontros no Tinder não andam funcionando?
– Isso não é da sua conta.
– É, não estão. – sorriu de forma provocativa. – Coitadinho.
– Some daqui.
– Sumo sim, vou lançar uma campanha pra que alguém faça essa caridade pra você e amenize esse seu péssimo humor. – provocou, mas não esperou resposta, apenas deu as costas e saiu da cozinha.

Se eu tinha achado que os primeiros sete dias aqui seriam uma amostra grátis do inferno, agora eu tenho certeza que estou vivendo no próprio inferno e sendo torturado pelo Lúcifer em pessoa.

XXVII

Eu acordei com o despertador habitual para que eu fosse correr antes de ir pra aula e depois trabalhar, mas quando fui desligá-lo, notei que havia um bom número de mensagens. A primeira era do jornal: não teríamos expediente presencial naquela semana, o tornado que tinha sido noticiado como “se aproximando, mas talvez desvie” no fim de semana, não tinha desviado e estava ali. E as aulas estavam suspensas também, pelo menos naquela semana.
Quando saí do quarto, depois de lavar o rosto e trocar o pijama por uma roupa normal, encontrei na sala com a televisão ligada, uma caneca em mãos e assistindo as notícias sobre o tornado. Pelo que ouvi falarem no jornal, é um tornado forte e causará estragos, principalmente porque há muita chance de que ele toque o solo. E aí estamos muito, muito fodidos.

– Temos que colocar as coisas lá de fora na casa da piscina. – falei e assentiu.
– Acho que estaremos seguros aqui dentro, mas vamos lá guardar tudo e nos assegurar de que nada possa acabar voando por aí e machucando pessoas. – falou, ficando de pé.

Nós não demoramos muito a guardar o que estava do lado de fora e eu liguei para os meus pais, vendo fazer o mesmo. Tranquilizei os dois sobre a situação e disse que entraria em contato logo, se os sinais de celular continuassem funcionando. Harry foi o próximo a receber uma ligação e, antes de desligar por precisar voltar ao trabalho lá em Nova York, ele disse que deveríamos mandar notícias sempre que fosse possível.
O café da manhã foi silencioso. Por mais acostumados que estejamos com esse tipo de coisa, afinal acontece todo ano, é sempre muito impactante quando chega essa época.

– Acho que precisamos comprar suprimentos. – falei e ele assentiu. – Você vai ou prefere que eu vá? Vamos juntos?
– Posso ir. – ele deu de ombros e eu assenti.
– Parece que em Sacramento não vai acontecer nada. – falei e me olhou pela primeira vez durante aquela refeição. – O que acha de irmos pra lá?
– Não podemos sair de Los Angeles.
– Não podem nos obrigar a ficar aqui quando a porra de um tornado está se aproximando e pode sair levando tudo que encontrar pela frente.
– Pegue seu carro e enfrente a rodovia então, se encontrar o tornado pelo caminho, diga que mandei um oi. – respondeu desaforado.
– Infelizmente ele não vai carregar você e seu maldito ego gigante. – falei e ele riu.
– Estou me retirando e me reservando no direito de ficar longe de você enquanto for obrigado a ficar nessa casa com sua não desejada presença.
– Vá se foder.
– Já estou me fodendo o suficiente ficando preso a você no meio de um maldito tornado.
– Eu te odeio tanto que não deve existir uma quantidade grande o suficiente pra expressar o quanto é isso.
– Sabe o que dizem sobre isso, não é? – provocou, ficando de pé, e deu um sorrisinho antes de falar. – Que tem cara de problema seu, estou pouco me fodendo e espero que você vá pro inferno.
– Prefiro não, porque você com toda certeza vai pra lá e eu não quero ter sua companhia pela eternidade.

não respondeu, apenas deu um sorrisinho e saiu da cozinha. Eu quis dar um grito, mas apenas lavei o que foi sujo, guardei as coisas e fui pro meu quarto. Postei alguns stories sobre o tornado e enviei uma mensagem para Zara, queria saber se ela tinha onde ficar e se estava tudo bem. Por sorte, sim, estava tudo bem com ela e Dex e os dois ficariam bem seguros durante esse maldito tornado.
Venom deitou em cima de mim quando deitei na cama e se aconchegou, ronronando preguiçoso. O céu estava escuro, ainda não havia chuva e o vento, apesar de forte, não mostrava que o tornado estava perto o suficiente pra causar estragos em terra. Ainda. Preferi não ligar a televisão ou o rádio, deixei o celular de lado e fiquei deitada fazendo carinho em Venom, que tinha se tornado meu companheiro fiel e abandonado totalmente o próprio dono.
A manhã passou muito lentamente e eu só saí do quarto quando senti fome para almoçar. Passei por na sala, ele estava assistindo algum filme que não reparei qual era e vi que ele tinha deixado alguns wraps em um prato e eu peguei três, indo pra sala e me sentei no outro sofá. Ele nem se deu ao trabalho de me olhar, continuou com o olhar fixo na televisão.

– Você realmente vai assistir esse filme ridículo? – perguntei e ele me mostrou o dedo do meio antes de verbalizar a resposta, pois estava mastigando.
– Se não quiser assistir, você pode ir pro seu quarto. Ou pro inferno.
– Não me surpreende que você esteja solteiro, assiste essas coisas horríveis e é totalmente sem educação.
– Você também está solteira, , caso tenha esquecido. – respondeu num tom debochado e me olhou com certo desdém.
– Mas eu nunca disse que eu tinha esse tipo de qualidades, porque, ao contrário de você, eu tenho bom senso e sou realista.
– Não parece.
– Adiante suas férias e vá embora, eu imploro.
– Se você está tão incomodada com a minha presença, saia você. – retrucou.
– Eu tento ser uma pessoa madura e deixar de lado tudo isso, mas você não colabora, . Eu juro que eu estou tentando.
– Só se for dentro dessa sua cabeçona, porque externando não está.
– Ah, não? – perguntei realmente ofendida. – Eu estou tentando ser gentil e ignorar todo seu comportamento infantil e desnecessário, tentei conversar com você feito um ser humano normal, mas você é maluco e totalmente sem noção.
– Você tentou falar comigo desse jeito, porque estava com remorso DEPOIS DE ME AGREDIR e porque queria minha ajuda, seja sincera.
– No começo eu realmente tive remorso, mas depois eu estava mesmo tentando. Só que agora eu espero que você pegue fogo no dia em que os bombeiros estiverem de greve! Idiota! – falei, saindo da sala antes que ele respondesse e voltei pro quarto.

~*~

Eu acordei com o barulho do vento, mesmo com a casa toda fechada. Três e oito da manhã marcava o relógio. Thor estava totalmente encolhido na cama ao meu lado e tremia feito uma gelatina no vento. Se ele é a guarda dessa casa, Harry está um tanto fodido, porque além de ser muito bonzinho, Thor é medroso demais e qualquer coisinha o assusta. Tipo vento forte. Levantei da cama com cuidado para não deixar Thor ainda mais assustado e quando sai do quarto, notei a porta do quarto de aberta.
E ela nunca dorme com a porta aberta.
Coloquei a cabeça pra dentro do cômodo e estava vazio. A cama estava desarrumada, os cobertores estavam lá e a porta do banheiro estava aberta, ou seja, ela não está no quarto e provavelmente volte logo. Eu teria saído sem demora do corredor se não tivesse visto Venom passar por mim e entrar no quarto de Harry, que estava com a porta entreaberta.

– Sai daí, Venom. O Harry vai mandar me matar se chegar e encontrar um pelo de gato que seja nesses ternos caros pra caralho dele ou se você destruir algo. – ralhei baixo, mas é claro que fui totalmente ignorado.
Caminhei até o cômodo e vi Venom subindo na cama, deitando-se ao lado de um volume debaixo dos cobertores. O perfume de Harry estava muito bom ali (como sempre, porque ele é bastante cheiroso), mas claro que aquela pessoa sob os cobertores não era ele. Não existem voos pra cá tão cedo e, até onde sei, Harry ainda está trabalhando em Nova York.
– O que você quer? – ouvi a voz de e entendi que era ela sob os cobertores (claro, , idiota, quem mais seria?).
– O que você está fazendo aqui?
– Não é da sua conta. – respondeu, mas deu um salto quando um relâmpago caiu tão perto, que iluminou o cômodo.
Mesmo com as cortinas fechadas.
E o barulho foi tão alto que fez as janelas e as portas estremecerem.
– Você tem medo disso? – perguntei num tom zombeteiro e ri alto, observando-a se mexer na cama e sentar, acendendo a luz em seguida e me olhando enfezada.
Estava com uma blusa do irmão e envolta em seus edredons. Eu acharia fofo que ela tenha vindo pro quarto dele, colocado as roupas dele e esteja aninhada ao edredom dele para sentir-se mais segura enquanto está com medo dos raios e trovões. Mas é , então eu vou rir e zoar com a cara dela.
– Não é da sua conta. – repetiu. – O que você está fazendo aqui?
– Vim buscar o Venom e impedir que ele estrague algo caro demais.
– Ele não vai estragar nada, deixe de ser idiota.
– Ele quebrou aquela porcaria de vaso no seu quarto. – dei de ombros.
– Não é porque você colocou um nome estúpido nele que ele será tão estúpido quanto você.
– Como é que é?
– Isso mesmo que eu falei. Nome estúpido. – respondeu num tom cortante. – Suma daqui e me deixe dormir em paz.
– Aposto que você estava mesmo dormindo muito bem com todos esses ventos, raios e trovões.
– Não torne minha noite ainda mais difícil, . – falou, mas o tom não era grosseiro ou implicante.
Ela parecia… amedrontada? E sincera? Quando foi que isso aconteceu? Tudo bem, ter medo de relâmpagos e trovões é um medo idiota, mas ela realmente parece assustada. Muito assustada.
– Você precisa de alguma coisa? – perguntei num tom preocupado sincero (e não sei de onde veio tanta educação e preocupação) e a vi abrir a boca para dar uma resposta, mas fechá-la em seguida, suspirando e negando com um aceno.
– Só se você for capaz de controlar o tempo e sumir com esse inferno.
– Infelizmente não é um dos meus superpoderes. – respondi, dando um sorriso pequeno e sem graça. – Mas posso fazer um chá?
– Não vai resolver muita coisa, vou só… tentar dormir.
– Quer um remédio? Um calmante pra te ajudar a dormir?
– Eu não vou tomar remédio pra dormir! – ela pareceu ofendida, ergui os braços num sinal de rendição.
– É natural. Eu tomo todos os dias antes de dormir, me ajuda bastante.
– Duvido que me ajude.
– Não custa tentar. – falei e ela deu de ombros, mas assentiu. – Espera aqui, vou buscar.
– Como se eu fosse pra algum lugar no meio desse inferno. – resmungou, mas não respondi.
Fui ao meu quarto buscar o remédio e depois um copo d’água, entregando a quando voltei ao quarto de Harry e ela soltou um agradecimento baixo, tomando o comprimido e a água sem demora. Se eu quisesse matar essa idiota, ela teria engolido o veneno sem nem saber, apenas confiando que eu queria ajudá-la a não morrer de medo dos raios e trovões.
– O que foi? – perguntou me olhando sem entender.
– Você tomou o comprimido sem nem saber o que é! – falei num tom exasperado. – E se isso fosse um veneno? E se eu tivesse te dado alguma coisa pra te matar?
– Então você teria paz e sossego. – deu de ombros. – Não vejo motivos pra esse chilique todo, afinal, você me odeia.
Bom, ela tem razão.
– Eu… estou preocupado com ir pra cadeia! Sou bonito e novo demais pra isso, não quero ir pra cadeia por sua causa. Não te odeio o suficiente pra arriscar minha vida atrás de grades com pessoas que podem me matar só de me olhar.
– Claro, se é isso que te faz dormir tranquilo. – respondeu, dando uma risadinha debochada. – Tchau.
– De nada, . – respondi num tom implicante. – Espero que te ajude a dormir e que você deixe de ser uma criança por se enfiar no quarto do seu irmão pra fugir dos seus medinhos infantis e comece a enfrentá-los.
– E você enfrenta seus medos, ? – perguntou naquele tom petulante e atrevido que sempre me deixou irritado.
– Claro que eu enfrento. – respondi num tom tão petulante e atrevido quanto o que ela tinha usado. – Diferente de você, que precisa fugir pra um lugar que considera seguro ao invés de encarar seu medo e superá-lo.
– Vá se foder.
– Você é infantil, eu deveria ter imaginado que você teria medos assim. Do que mais você tem medo? De baratas? De palhaços? De altura? – zombei e ela rolou os olhos.
– Se você não se importar, eu estou indo dormir e você deveria fazer o mesmo.
– Com você? – perguntei num tom provocativo e ela gargalhou de um jeito ofensivo.
Não que eu queira esse tipo de coisa, mas ela podia ter sido menos enfática naquela gargalhada, porque meu ego foi ferido.
– Anote o que eu estou dizendo, , isso nunca vai acontecer.
– Ainda bem. – respondi, saindo do quarto e bati a porta.
Idiota.
Mas não sei qual de nós dois é o mais idiota.

XXVIII

– Você vai ficar bem? – perguntei e me olhou como se eu fosse um ET. – O que foi?
– De onde saiu tanta educação e preocupação?
– Não tenho nenhuma das duas coisas quando o assunto é você. Eu estava falando com Thor.
– Ah, claro que estava. – soltou uma risadinha nasalada, não acreditando nem um pouco no que eu tinha acabado de falar (claro). – Mas Thor ficará bem, pode ficar despreocupado.
– Precisa de algo específico lá do supermercado?
– Só o que está na lista. Se é que você vai encontrar alguma coisa, a essa altura toda Los Angeles já estocou alimentos e não sobrou nada pra gente comer.
– Eu não gosto de você.
– Isso tem cara de problema seu, . – respondeu desaforada e eu rolei os olhos ao ouvir aquele maldito apelido. – Vá logo.
– Espero que chova muito, com bastantes trovões e relâmpagos enquanto eu estiver fora e o cheiro do Harry tenha sumido do quarto dele. – provoquei.
– Depois, quando eu acerto sua cara com um controle remoto, você fica choramingando feito um bebê e me culpando.
– Tudo bem, desculpa por isso. – pedi sincero e me olhou de um jeito estranho de novo. – Estou saindo e espero voltar em breve. Se eu sumir, talvez o tornado tenha atendido suas preces e me carregado.
– Não tenho tanta sorte. – respondeu num resmungo e eu sai da sala, deixando-a na companhia de Thor e Venom.

E é claro que o supermercado estava caótico e pouco abastecido com tudo que eu precisava, então tive que ir a quatro lugares pra conseguir comprar tudo que estava na lista (e não nas quantidades que eu queria) e voltar pra casa de Harry com uma quantidade razoável de comida pra e eu passarmos o restante do mês (o que são muitos dias, infelizmente). Ouvi a voz de quando entrei na cozinha e ela estava ao telefone, ao que parecia.

– Hm… entendo… posso levar algumas coisas, tentar conseguir algum lugar mais seguro pra deix… ah. Conseguiram? Que ótimo! Eu estav… alô? Ah, achei que tinha caído. Eu estava preocupada com vocês e com a situação do abrigo. Mas estão todos bem mesmo? Fico feliz. Não garanto que consigo ir essa semana, tento se o tempo melhorar um pouco. Tudo bem. Claro. Obrigada pelas informações, Milly. Até depois.

Eu preciso parar de ouvir as conversas dela, eu sei, mas fico curioso quando escuto esse assunto de abrigo. Sei que ela não fica expondo ou se aproveitando da imagem dessas pessoas e nem do lugar, o que me deixa ainda mais curioso pra saber a história por trás disso, afinal, existe uma história por trás de tudo.
Entrei na sala e a encontrei quase como quando saí de casa: encolhida no sofá e quase inteira dentro da camisa de Harry, mas agora tinha o celular em mãos e parecia trocar mensagens com alguém, não se importando tanto com minha passagem pelo cômodo. Eu ainda tinha que tentar analisar um projeto e enviar para o trabalho, porque não será um tornado que me fará trabalhar menos.
“Resto da semana livre e semana que vem também, a previsão do tempo não nos permite cogitar o retorno ainda, projetos urgentes devem ser enviados, os outros estão dispensados até segunda ordem, mas não haverá desconto nos salários. No fim de semana que vem entramos em contato sobre a situação do trabalho presencial. Bom descanso e fiquem a salvo.”, dizia a mensagem enviada pela dona da firma e eu respirei aliviado. Meus prazos estão em dia e esse projeto ainda tem tempo pra ser entregue, então apenas deitei na cama e fui ler um livro que eu venho postergando há meses.
Depois de um bom tempo lendo, minha atenção foi desviada do livro por um relâmpago que veio acompanhado de um trovão altíssimo e um grito ainda mais alto de . O relógio marcava uma da tarde e eu tinha passado tanto tempo absorto no primeiro livro da série de Percy Jackson que não senti nem mesmo fome.
Levantei da cama com bastante preguiça, passei no quarto de Harry e tirei o edredom da cama dele, indo até a sala e encontrando com os olhos tão arregalados que eles poderiam sair das órbitas sem muito esforço. E ela parecia realmente assustada com os ventos fortes e os relâmpagos da chuva.

– Respira fundo. – falei, aproximando-me e colocando o edredom ao redor dela. – É só uma tempestade, vai ficar tudo bem.
– Você não pode me dar certeza disso. – respondeu agarrando-se ao edredom do irmão.
– Eu sei que não posso, mas vamos ficar bem. – falei num tom muito mais sincero e educado que achei que teria. – Você quer mesmo ir pra Sacramento? Podemos colocar as coisas e os bichos no carro e ir, não tem problema.
– E se… no meio do caminho encontrarmos o tornado?
– Você não conhece minhas habilidades de piloto de fuga adquiridas após anos e mais anos jogando GTA e Need for Speed, , eu sei fugir de problemas dirigindo carros melhor do que Dominic Toreto. – brinquei e ela deu uma risadinha nasalada. – Mas estou falando sério, podemos ir pra Sacramento se for te deixar mais tranquila.
– Podemos? – perguntou e eu assenti.
– Duvido que você consiga dirigir sozinha nesse estado, se um trovão soar lá na Europa, você vai ouvir e surtar. – impliquei e ela fez uma cara feia.
– Meus pais foram pra Carolina do Norte visitar uma tia, não tenho a chave de casa.
– Aposto que Debbie não se importa se você dormir no sofá lá da casa dela…
– Ela te colocaria no sofá antes de cogitar a ideia de me colocar lá, .
– Você tem razão, ela tem mais educação do que eu quando se trata de você. – falei, dando uma risada baixa. – Mas é sério, se quiser mesmo ir pra Sacramento, nós vamos. Harry não vai se importar se deixarmos a casa pra ficarmos um pouco mais seguros e afastados desse tormento.
– Não precisa. Eu acho.
– Você está claramente mentindo. Sério, podemos ir pra lá.
– Você não vai trabalhar?
– Essa semana e a outra não, mas posso ficar remotamente se resolverem voltar antes ao trabalho. E, em todo caso, se eu precisar voltar, você pode ficar até isso passar. – dei de ombros. – Minha mãe gosta de você, sendo que deveria te odiar, já que você tentou me matar algumas vezes durante esses anos, então não seria um problema pra ela. Acho que ela até gostaria de ter companhia além das plantas que ela cultiva.
– Não sei…
– Pensa nisso e me fala, vou arrumar algo pra almoçarmos. Fiquei preso no livro que estava lendo e esqueci de fazer comida.
– O que você estava lendo?
– Percy Jackson e o Ladrão de Raios.
– Já li. É bom, mas o filme é horrível.
– Eu vi o filme e achei péssimo, mas o livro está realmente interessante. Não sabia que você gostava desse tipo de livro.
– Você não sabe nada a meu respeito, . – respondeu, mas o tom não era agressivo, era apenas simplório e bem sincero.
Assenti, com um sorriso pequeno no rosto, observando como ela estava encolhida dentro do edredom ao ouvir o barulho do vento do lado de fora da casa.
– Qual a história por trás desse medo? Sempre há uma história por trás de um medo.
– E há alguma por trás do seu medo de filmes de terror?
– Apenas o fato de eu ser um ser humano normal, talvez. – respondi dando uma risadinha ao falar. – Não tenho medo, só não sou adepto desse tipo de filme, acho que a gente pode evitar esse tipo de energia ruim em nossas vidas e que procurar por isso é idiotice.
– Vou fazer de conta que acredito que é só isso mesmo. – falou num tom que beirava o deboche. – Eu sempre tive medo de chuvas fortes, trovões e essas coisas. Sempre. Nunca aconteceu nada, não tem uma história impressionante e que motive meu medo, eu só… tenho medo.
– Harry sabe?
– Claro. Eu dormia com ele todas as vezes em que isso acontecia lá em Sacramento e ele está me ligando e mandando mensagens todos os dias, como fazia quando não morávamos juntos, porque eu sempre tive muito medo, de um jeito que chega a me paralisar. É horrível que não tenha uma história por trás disso, porque justificaria meu medo de uma forma menos ridícula e infantil, mas… é só isso.
– Desculpa por ter dito que era um medo infantil. – pedi sincero e me olhou desconfiada. – É sério. Eu queria te importunar, como sempre, achei que era um medo raso, mas eu estou vendo que é sério. E pense sobre Sacramento, talvez a gente deva mesmo ir pra lá.
– Vou pensar. Obrigada. – agradeceu e antes que as coisas ficassem ainda mais estranhas, sociáveis e amigáveis, fui pra cozinha.
O almoço não foi nada elaborado, fiz outros wraps de tofu com legumes e levei pra sala, o que fez me olhar sem entender bem o que estava acontecendo, mas aceitou de bom grado e agradeceu assim que pegou o prato com seus wraps.
Comemos em silêncio, sendo observados de perto por Thor e Venom, que também pareciam estranhar a animosidade do cômodo e eu fingi que também não tinha percebido como tinha sido estranho (e não de um jeito ruim) que a gente tivesse se tratado tão bem.
Eu não a odeio, ao contrário do que parece, apenas gosto de implicar com e irritá-la, é sempre muito legal ver a cara de brava quando eu faço ou falo algo que a irrita. Acho que isso já se tornou natural entre nós, mesmo que eu tenha quase certeza de que ela me odeia muito e que se pudesse me matar sem ser presa, ela mataria.
E eu sei que ela não é uma idiota (mesmo que eu sempre a chame assim) que não sabe se cuidar sozinha, mas há momentos em que precisa de alguém por perto, como foi na festa e agora, não para ser um cavaleiro de armadura de prata para salvá-la dos perigos do mundo, apenas um ser humano menos bêbado e amedrontado pra dizer que ficaria tudo bem, que as coisas melhorariam e que talvez demorasse, mas daria tudo certo no final.
– Quer assistir alguma coisa? – perguntei e ela negou.
– Acho que vou adiantar um trabalho da faculdade e ver como andam as coisas do jornal, eu tenho que fazer outra coisa além de ficar enrolada nesse edredom do Harry o dia inteiro. – respondeu, mas não saiu do lugar e nem fez menção de que faria isso em algum momento. – Só não garanto que isso vai acontecer agora.
– Eu vou ler mais um pouco. Você vai ficar bem aqui sozinha?
– Não preciso de babá, .
– Eu não disse que precisa. – respondi no mesmo tom afiado. – E não vou brigar, tchau.
– Vai tarde. – resmungou, mas preferi não responder.
O que é muito estranho.
Mas vou culpar o tornado por isso.

~*~

– Eu queria tanto ver isso de perto. – Daph falou rindo do outro lado da tela. – Sério, deve estar incrível os dois sozinhos nessa casa bem no meio de um tornado.
– Não vejo como isso pode ser engraçado, Daphne Kenner. Está sendo um verdadeiro tormento, pra ser sincera.
– Eu me lembro muito bem, , de como você fica em tempestades. Espero que vocês dois acabem agarradinhos debaixo do edredom dele pra superar esse evento da natureza.
– Eu te odeio.
– Odeia nada. – ela riu. – Mas está tudo bem por aí? O tornado está perto?
– Ele até tocou o solo ali na Will Rogers State Beach, deu uma volta, depois voltou e entrou… eu estou evitando todas as notícias, mas tem chovido bastante e estou morrendo de medo.
– Por que não foram mesmo pra Sacramento?
– Meus pais ainda estão na Carolina do Norte.
– Achei que vocês ficariam na casa da mãe do .
– Qual a chance?
– Deixe de ser ridícula. – Daph falou séria. – Se você não está se sentindo bem aí, deveria ir. Você conhece a mãe dele, pode muito bem ir pra lá até seus pais voltarem.
– Eles nem voltam por agora. – dei de ombros e a vi rolar os olhos. – E, em todo caso, esse tornado deve ir embora em breve
, sério, você não pode ficar apostando nisso.
– Eu passei todos esses anos aqui com tornados sempre acontecendo, não preciso ir pra Sacramento por causa desse. – dei de ombros.
– Se você diz… – deu de ombros. – E c…
Antes que ela terminasse de falar, o sinal caiu. Poucos segundos depois, a casa toda ficou escura e eu quis chorar. Ainda estava de dia, mas com esse tempo horrível parece a porra de um apocalipse prestes a acontecer com tudo escuro, ventos muito fortes e que fazem tanto barulho que eu sinto vontade de chorar (não que eu não tenha chorado). Deixei o celular de lado e deitei na cama de Harry ao lado de Venom, que parecia muito confortável para se mover e se aproximar mais de mim.
– Ei, tudo bem aí? – ouvi a pergunta do outro lado da porta e o tom de voz parecia realmente preocupado.
– Tudo certo. E você?
– Um pouco fodido, porque acabou a luz e eu estou cheio de sabão no corpo e shampoo no cabelo, não quero tomar banho na água gelada, mas fora isso eu estou bem.
– Cuidado pra não cair e bater a cabeça, dessa vez eu te deixo morrer, não vou dirigir no meio de um tornado.
– Tudo bem. – respondeu rindo. – Se precisar de algo, chame.
– Cla…ro. Você também. – respondi, mas não ouvi resposta, ele provavelmente voltou para o próprio quarto.

O clima está muito amistoso desde anteontem, quando ele me viu no quarto de Harry. Aconteceram pequenas provocações, mas nada do mesmo nível de antes e isso me assusta um pouco, nós não somos amistosos e amigáveis um com o outro. Da última vez que isso aconteceu, eu acabei muito bêbada numa festa e com ele me carregando pra cama e sendo uma pessoa gentil e cuidadosa a troco de nada.
ficou realmente preocupado nesses dias de tornado, acho que ele acredita que eu não o vi espiar pela porta do quarto de Harry durante a noite para ver como eu estava, além de ter ficado me olhando durante o tempo em que passamos juntos na sala, como se eu estivesse prestes a ter uma síncope.
Eu estou? Talvez.
Mas é estranho demais que a gente não esteja se matando ou coisas do tipo.
Nem a Carol acreditou quando passou aqui ontem (suspeito que a pedido do Harry) voltando do hospital e estava desacreditada com o fato de que nós não nos agredimos e nem nos matamos ainda. Nós nos odiamos, mas não é pra tanto. Já passamos da fase de agressões injustificadas e eu prefiro que continuemos assim, porque me senti muito culpada por ter acertado a cara dele com o controle da TV, mesmo que ele tenha merecido.
Na verdade, acho que não é ódio, porque isso é uma palavra muito forte e um sentimento bem pesado, mas a gente não se suporta, qualquer pessoa com um mínimo de bom senso pode perceber que nós dois não nos damos bem e nem nos esforçamos pra isso, acho que isso meio que faz parte de quem nós somos.
Há uns anos eu podia achar que era uma pessoa ruim e coisas desse tipo, mas ele não é, mesmo que seja uma pessoa intragável em vários momentos. Poderíamos ser amigos se não tivéssemos nos conhecido pequenos e eu não o tivesse detestado logo que coloquei os olhos sobre ele naquele dia. Ou talvez eu o odiasse assim que colocasse os olhos nele do mesmo jeito, há coisas na vida que nunca mudam, independentemente do tempo que passe.
Os ventos começaram a ficar mais fortes e mais altos e eu soltei um resmungo, me enfiando ainda mais sob os edredons de Harry. Esse inferno de tornado podia ir embora logo e me deixar em paz. Ou eu vou mesmo acabar indo dormir no sofá da mãe de .

– Ei. – ouvi a voz de e a porta do quarto foi aberta. – Tudo bem aí?
– Sim. Vou só dormir um pouco.
– Você precisa ficar fora dessa cama um pouco, . – falou e o tom carregava uma preocupação legítima. – Eu sei que você tem muito medo, não vou te mandar enfrentar nada, mas ficar trancada no quarto do Harry não vai te fazer bem e nem te ajudar.
– Não tem muito pra fazer fora daqui, em todo caso.
– Eu sei, mas você precisa pelo menos andar pela casa.
– Harry está mandando você fazer essas coisas? – pergunto desconfiada e ele nega com um aceno.
– Estou falando isso por minha conta. – respondeu, encostando-se no batente da porta. – Faça suas malas, nós vamos pra Sacramento.

XXIX

Eu nem acredito que deixei me convencer a sair de Los Angeles e vir pra Sacramento apenas com ele e correndo o enorme risco de encontrar esse inferno de tornado no meio do caminho. Tomei um remédio pra enjoo pouco antes de sair de casa e dormi pelas seis horas de viagem de carro, não faço ideia do que aconteceu enquanto dirigiu para nos tirar do perímetro em que o tornado atingiria, mas chegamos bem em Sacramento.
Mas, claro, alguma coisa daria errado.
Debbie também não estava em Sacramento.
Ela tinha viajado para Boise City, Idaho, para visitar uma tia (ou algo assim, pelo que falou, mas eu ainda estava muito grogue de remédio pra ter certeza de que tinha entendido bem o que ele falou) e não voltaria até o fim do mês. Mas, por sorte, tem uma chave da casa e isso nos deu abrigo em Sacramento nesse dia nublado, porém quente pra cacete.

– Eu nem acredito que vou dizer que você pode dormir no quarto da minha mãe, mas vou dizer, porque é isso ou dormir no sofá. Eu te deixaria no sofá tranquilamente, mas se ela fica sabendo que eu fiz isso com você, manda me matar. – falou quando entramos na casa.
– Posso dormir no sofá sem problemas, , não se preocupe, ela não ficará sabendo.
– Meu plano era deixar você aqui até Los Angeles estar em paz, mas se eu precisar voltar na semana que vem, você não vai ficar aqui em casa sozinha. – falou, ignorando totalmente o que eu tinha dito.
– Está com medo que eu descubra algo a seu respeito e use isso contra você?
– Sou um livro aberto, . – deu de ombros. – Vai logo guardar essas bugigangas antes que eu me arrependa de ter sido legal e te enfie no primeiro ônibus de volta pra Los Angeles e te deixe sozinha naquele inferno. É a primeira porta do lado esquerdo. E temos um problema.
– Temos?
– Só tem um banheiro na casa.
– E qual é o problema?
– Nós somos duas pessoas.
– Eu não tenho problema com dividir as coisas, , pode ficar tranquilo.
– Então vai logo guardar essas porcarias todas que você trouxe. – falou, sacudindo as mãos na direção do corredor e eu não discuti.

Segui com as duas malas que tinha trazido – afinal, até onde eu sabia, eu ficaria quase um mês aqui, ou algo perto disso – e abri a porta indicada. O quarto tinha um cheirinho muito gostoso de hortelã e era bem simples, mas muito arrumado e bonito. Deixei as malas no canto, observando alguns detalhes do cômodo, desde o papel de parede azul claro com florezinhas desenhadas por toda a extensão, até nos pequenos bibelôs que ela mantinha na cômoda.
Ao lado dos enfeites, um porta-retrato com uma foto dela com , ele era pequeno e isso foi bem antes de nos conhecermos, sem sombra de dúvidas, porque eu provavelmente era um bebê na época daquela foto. Faltavam os dois dentes superiores, ele sorria para a câmera e estava abraçando Debbie, tinha o rosto junto ao dela e os olhos quase fechados.
Em outro porta-retrato, a foto era dele novamente com Debbie e com o pai… Carter? Gunter? Chris? Eu não lembro, acho que nunca ouvi muito sobre ele e desde que começou a fazer parte do meu convívio, não lembro de ter visto o pai dele mais do que três vezes, talvez até menos. Na foto, estava entre os dois, tinha o mesmo sorriso desdentado, um braço ao redor do pescoço da mãe, outro ao redor do pescoço do pai. Os três sorriam para a foto de um jeito bem bonito. Nessa foto era possível enxergar alguns traços do pai nele quando criança e agora adulto, o jeito de sorrir e a cor dos olhos do pai tinham sido exatamente copiadas em .
Meu estômago roncou alto e deixei o quarto antes de continuar prestando atenção em mais coisas pelo cômodo, precisava comer alguma coisa e minha esperança era que estivesse cozinhando algo para almoçarmos, porque meu estômago estava quase saindo pelas minhas costas.

– Eu não vou falar de novo, seu pequeno demônio, então me escute bem. – entrei na sala e o encontrei com Venom no colo e ele falava olhando diretamente nos olhos verdes do gato. – Você fique sossegado e não destrua nada, Debbie manda me matar se você aprontar e se eu morrer porque você foi um vândalo, eu volto do céu pra ficar te importunando em todas as suas sete vidas.
– Volta do inferno. – impliquei e ele me olhou de um jeito que estava entre o pouco surpreso e o muito ofendido. – Pare de tratá-lo como um vândalo, ele é só um bebê.
– Pare você de acobertar o que esse monte de pelo e ódio faz. – estreitou os olhos. – Vou sair mais tarde, quer vir?
É o quê?
Isso foi… um convite?
Esse remédio está me deixando doida, só pode.
– Não existe a menor chance de eu deixar as pessoas de Sacramento saberem que eu estou aqui com você, . Vou ficar quieta nessa casa, saia o quanto quiser, mas finja que nem sabe da minha estadia aqui.
– O problema é todo seu. – deu de ombros.
– Você nunca me respondeu sobre o vídeo que perguntei se você poderia fazer.
– A falta de resposta é uma resposta, .
– Você é insuportável e idiota.
– Vá se foder. – respondeu desaforado. – Ai! Filho da puta.
– Bem feito. – falei rindo quando Venom o mordeu no braço e pulou de seu colo para o chão, saindo da sala logo em seguida.
– Você enfeitiçou meu gato.
– Eu tenho coisas mais úteis a fazer do que isso, palhaço. – respondi e meu estômago voltou a roncar alto.
– Vou fazer o almoço. Morta de fome. – falou e eu dei de ombros.

saiu da sala e eu peguei o celular para avisar aos meus pais e Harry sobre a chegada, além de contar para Daph que estava em Sacramento, já esperando que ela fosse encher meu saco, porque a função dela em ser minha melhor amiga é ser chata e ridícula.
Minha primeira nota mental é pedir uma cópia da chave da casa dos meus pais assim que possível, porque se um dia eu precisar vir pra cá de novo com esse troglodita, posso ficar na minha casa e não precisarei dividir o teto com ele.
“Desculpa não estar com você nesse momento, sis. Espero que os dias no meu quarto tenham ajudado um pouquinho e que os dias em Sacramento sejam ótimos e que você consiga relaxar. Assim que acabar esse inferno de tempestade tropical aqui e esse tornado for embora, volto pra casa e compenso a ausência. Fique bem e qualquer coisa que precisar, pode me mandar uma mensagem e eu darei um jeito de te ajudar. Te amo, ”, dizia a mensagem de Harry e eu quase chorei. Meu irmão é a pessoa mais incrível do mundo e ninguém pode me provar o contrário.
“Espero que vocês transem, a tensão sexual dá pena”, dizia a mensagem de Zara que chegou um pouco depois. E eu mandei uma mensagem perguntando se ela estava bem e se precisaria vir pra cá com Dex, porque se precisasse, eu daria um jeito de ficarmos lá em casa, mas ela me responde desse jeito.
“Cunhadinha, espero que fique tudo bem. E que essa tensão entre e você se resolva de um jeito interessante hehehe te amo e qualquer coisa é só falar!”, dizia a mensagem de Carol.
“Aguardo cenas dos próximos capítulos pra poder dizer ‘eu avisei’”, dizia a mensagem de Daph.
Eu estou rodeada de pessoas que me odeiam. E de Harry.
Deixei o celular de lado e sentei no sofá e liguei a televisão para procurar algo para assistir. Encontrei um show antigo do Khalid sendo transmitido em um canal musical e resolvi continuar assistindo, porque ele é um dos melhores cantores da atualidade e eu realmente sou fã dele. Venom estava andando pela casa acompanhado de Thor e não me deram muita atenção, deixando que eu assistisse ao show da Free Spirit Tour e cantasse as músicas enquanto isso.

– And I don’t even like to think about it. On my own, but still so crowded, walls come down and the guards come up, but there’s nowhere to run, I feel surrounded. Hurt feels better when I’m by myself… – cantei baixo junto com Khalid, que estava muito animado ao se apresentar.
O show dele em Los Angeles no ano passado foi sido incrível e também a última vez que fui a um show com Daphne, que inclusive foi quem me apresentou o Khalid e me fez virar fã dele e da música dele. Peguei o celular e tirei uma foto da televisão, enviando para ela e com um “saudades de shows com você, mesmo que você não mereça!!!” e voltei minha atenção para a televisão.
– I found peace in your violence, can’t show me there’s no point in trying. I’m at one, and I’ve been quiet for so long, I found peace in your violence… – ouvi a voz de junto com a de Khalid, quando ele entrou na sala muitos minutos depois e carregava dois pratos de macarrão, me entregou um e sentou no outro sofá. – Não sabia que você gosta de Khalid.
– Você não sabe nada sobre mim, . – respondi, repetindo o que disse há alguns dias, e ele deu uma risadinha, assentindo e concordou.
– Mas… Khalid? Interessante.
– Ele é ótimo, gosto da voz e das letras dele. Daph me apresentou. – dei de ombros.
– Fui no show dele ano passado, foi muito bom.
– Eu também. Fui no segundo dia, o primeiro acabou muito rápido e eu não consegui comprar.
– Fui no primeiro dia. Foi foda.
– Finalmente alguma coisa em que concordamos.
– Eu gosto de One Direction e The Weeknd, então acho que temos três coisas em comum. Quatro, se contarmos seu irmão.
– Esse clima de paz é estranho. – falei, fazendo uma careta e deu de ombros, mas acabou assentindo.
Terminamos de assistir ao show em silêncio, comendo e aproveitando a música. Ele não demorou a levantar e ir até a cozinha e depois sumir pelo corredor. Quando fui até a cozinha para lavar o prato, ouvi conversar no telefone, mas não dei atenção. Resolvi gravar alguma coisa, porque meu canal precisa de conteúdo e eu preciso cumprir o cronograma.

~*~

– Eu vou sair, tem certeza que não quer ir junto? – perguntei abrindo a porta do quarto de e ela desviou o olhar da câmera e me olhou quase com ódio.
Estava no meio de uma maquiagem e na frente da câmera que tinha sido armada no quarto da minha mãe. Metade do rosto estava com a maquiagem feita e a outra não tinha nada ainda, o que deixava bastante engraçada a situação, mas eu preferi não rir, ela me daria um soco e eu nem poderia reclamar.
– Porta existe pra gente bater antes de entrar, mal educado.
– Tem certeza que não quer ir? – repeti.
– Você me interrompeu. Idiota.
– Zara resolve isso pra você, não se preocupe. – respondi debochado.
– E eu já te falei que não existe a menor chance de isso acontecer.
– Então não me espere acordada, lindinha. – impliquei e ela mostrou o dedo do meio. – E não suje a cama da minha mãe com essas porcarias que você passa na cara.
– Meu Deus, , some daqui! Você está me atrapalhando!
– É ao vivo?
– Graças a Deus não. – respondeu desaforada.
– Tem macarrão na geladeira, não devo chegar pro jantar e nem sei que horas chego, mas coma, Harry quer que você dê notícias. E se precisar de alguma coisa, meu número ficou anotado na cozinha, ligue. – falei e sai fechando a porta, sem me importar em ouvir a resposta.
Já basta eu ter perdido o bom senso e meu tempo chamando pra sair, além de estar cozinhando pra ela como se ela merecesse e ter me prestado a sair de Los Angeles pra vir pra Sacramento por causa da porra de um tornado que não me assusta, apenas para que ela não morresse do coração, agora eu sou a porra da secretária dela que fica dando recados!
Peguei a carteira e o celular antes de lançar um último olhar para Thor e Venom, brincando no quintal (e torcer para que eles fiquem bem longe das plantas da minha mãe, porque com toda certeza ela manda me matar se alguma coisa acontecer) e sai.
Encontraria alguns dos amigos da cidade, alguns dos quais cresci junto e depois passei anos estudando. Segui andando até o bar em que marcamos, que fica bem perto da casa de Debbie, e logo encontrei os outros quatro: Dylan, Mark, Damien e Josh. Estavam sentados já acompanhados de suas cervejas e comendo alguma coisa.

– Não me esperaram por quê? – perguntei me aproximando, causando uma ovação dos quatro e, depois de cumprimentos, eu me sentei ao lado de Dylan.
– Você sempre demorou mais do que todos pra se arrumar, sabíamos que você ia se atrasar.
– Eu não estou atrasado, Mark. – respondi, conferindo o relógio em meu pulso. – Mas eu esqueço que vocês marcam as coisas pra um horário e chegam quarenta minutos antes.
– É assim que se aproveita a vida, . – Dylan respondeu rindo. – Vá buscar a rodada de cerveja e depois você conta qual motivo de aparecer em Sacramento do nada.
– Folgados. – respondi num resmungo, mas fiquei de pé e fui buscar as cervejas e já arranjar o esquema de permanecermos sempre com uma garrafa de cerveja em mãos até a hora em que resolvêssemos ir embora.
Demorei um pouco mais do que gostaria até conseguir convencer o garçom de nos fazer esse imenso favor, mas voltei com as cinco garrafas e sentei no local em que estava antes, entregando uma garrafa a cada um deles e recebendo olhares curiosos.
– Responde. – Josh falou e eu olhei sem entender. – Você está de férias?
– Não. – neguei, tomando um gole da cerveja. – Tornado em Los Angeles me fez vir pra cá antes da hora.
– Cadê o Harry? – Dylan perguntou curioso.
– Nova York. Viajou uns dias antes e ficou preso, agora tem uma tempestade tropical praqueles lados também. Eu nem ia vir, mas a irmã dele estava tendo um colapso nervoso com medo das chuvas e do tornado, vi que aqui as coisas estão bem tranquilas e resolvi que seria melhor.
– Espera… a irmã do Harry? A… ? – Damien perguntou absurdamente surpreso e eu assenti. – Aquela que você odeia e que te odeia ainda mais?
– A própria.
– Então vocês finalmente entenderam que o ódio era tensão sexual reprimida e agora estão se pegando? – Josh perguntou animado.
– E o Harry achou essa ideia uma boa? – Dylan perguntou curioso.
– Imagino que ele deve ter odiado o melhor amigo e a irmã se pegando. – Mark estalou os lábios ao falar.
– Ele é o que mais shippa os dois, todo mundo sabe. – Josh riu. – Vocês formam um casal bonito, por que ela não veio? Cedo demais pra apresentar pros amigos?
– Primeiro, vocês estão malucos. Segundo, não existe tensão sexual entre e eu e nunca existiu. E, terceiro, não é ódio, a gente apenas não se suporta.
– E você dirigiu por mais de seis horas pra uma pessoa que você não suporta ficar tranquila e sem surtar? – Damien perguntou num tom sugestivo e eu rolei os olhos.
– Pelo Harry.
– Você pode se enganar com essa merda, , mas a gente não cai nisso. – Josh riu e os outros três concordaram. – É uma atitude louvável, na verdade, porque eu não sei se dirigiria seis horas por vocês, que eu amo e considero como irmãos, imagina por alguém de quem não gosto?!
– Espera… Harry viajou pra Nova York? – Dylan perguntou e eu assenti. – Você e ficaram sozinhos?
– Sim.
– E você resolveu vir pra Sacramento com ela pra saírem do perímetro do tornado, porque ela tem medo?
– Sim.
– Os pais dela não estão na cidade, eu me lembro de ter ouvido uma história de viagem deles. – Damien falou e eu dei de ombros.
– Ela tá lá em casa, porque Greg e Sally viajaram pra Carolina do Norte e essa idiota não tem uma chave da casa.
– Debbie está amando, não está? – Josh riu ao falar.
– Ela está em Idaho. – respondi num muxoxo e eles gargalharam.
– Essa história fica cada vez melhor. – Dylan falou rindo. – Então vocês estão sozinhos e cheios dessa tensão sexual?
– Se eu responder qualquer coisa, vocês já terão criado uma teoria doida nessas cabeças de vocês e não adianta nada eu justificar.
– Podemos lembrar do episódio dele reclamando que teve que sair de casa pra buscar bêbado em festa e a pessoa bêbada em questão era a ? – Damien perguntou, dando um sorrisinho provocador.
– Olha, nesse se eu não tivesse ido, as coisas teriam ficado feias, porque cheguei quando tinha um cara tentando arrastá-la pra um lugar “mais privado”. – falei e os quatro assentiram, mas concordando e não debochando. – Ela tem um jeito burro de sofrer por homem.
– Falou o que quando o namoro com a Becky, na escola, ficou duas semanas chorando e quase morreu de tanto comer batata frita com sundae.
– Melhor do que me embebedar, meu fígado está muito bem, obrigado.
– Quase entupiu as veias, mas o fígado está em dia. – Josh zombou.
– E a Aubrey da faculdade… – Mark riu. – Você bebeu demais e ligou chorando pra ela, , perguntando se vocês podiam voltar e todas aquelas coisas. Foi uma das maiores vergonhas que eu já vi alguém passar.
– Queria que vocês tivessem memórias ruins. Ou fossem bons amigos como o Harry, que não fica jogando na minha cara essas vergonhas que já passei.
, sério, você nunca sentiu que isso entre você e a já deixou de ser implicância e virou tensão sexual? – Josh perguntou e eu neguei com um aceno.
– Eu também acho. – Damien estalou os lábios ao falar. – Quando vocês eram crianças era pra implicar, mas foram crescendo e as implicâncias deixaram de ser inocentes e passaram a ser provocativas em outro sentido.
– Vocês estão viajando. – ri. – Não existe a menor possibilidade de acontecer alguma coisa entre e eu.
– E se acontecer? – Mark perguntou, debruçando-se sobre a mesa e me olhando com muito interesse.
– Não vai.
– Tá, mas e se acontecer? – ele repetiu e eu rolei os olhos.
– Impossível. – respondi e os quatro bufaram. – O que é isso aqui? Estou me sentindo pressionado.
– Apenas uma pergunta, . – Dylan falou, dando de ombros.
– Você está na defensiva demais. – Damien falou me olhando um tanto debochado.
– Porque vocês estão tirando essas coisas do rabo pra me perturbar. – respondi, fazendo-os rir. – Sério, nunca vai acontecer nada disso entre nós dois.
– Estou apostando todas as minhas fichas no contrário. – Mark falou e piscou, dando um sorrisinho.
– Ela é gata, se estiver solteira, eu também estou. – Dylan piscou e eu ri.
– Você tem cara de bobo, ela vai curtir. O ex-namorado dela tinha cara de bobo e ela ficou se remoendo por semanas quando ele arrumou outra namorada.
, sério, você nunca teve vontade de dar uns beijinhos nela?
– E eu achei minha boca no lixo por acaso? – fiz uma careta. – Nem sei o motivo de estarmos falando disso, sinceramente.
– Porque você está negando que há uma tensão sexual absurda entre vocês e que a qualquer momento isso vai explodir.
– Não existe.
– Viu?! – Dylan gargalhou. – Sério, você deveria parar pra pensar nisso, porque nós já vimos de perto, no aniversário da Debbie no ano passado… se fosse comigo, eu teria agarrado aquela mulher e resolvido essa tensão sexual toda naquele banheiro mesmo.
– Quer que ela faça isso por você agora? – perguntei num tom debochado e ele assentiu, sorrindo de um jeito que beirava a provocação. – Aviso pra ela quando eu voltar pra casa.
E eles gargalharam tanto que eu fiquei ofendido. Com amigos assim eu não preciso de inimigos.
– Vocês ficam até quando? – Mark perguntou quando conseguiu parar de rir.
– Tenho a semana que vem livre, posso ficar uma semana com certeza, mas minha chefe ficou de avisar sobre o que acontecerá depois. Não há previsão dessa coisa do tornado acabar tão cedo, mas se eu precisar voltar pra casa no fim de semana que vem, ela volta também, porque não tem onde ficar.
– Se ela quiser ficar lá em casa… – Dylan sorriu.
– Vou sugerir. – respondi e ele deu uma risadinha. – Enfim, vamos falar sobre outras coisas interessantes e que não envolvam a pessoa que menos suporto no mundo.
– Claro, mas antes vou deixar apenas uma coisa pra você pensar: o ódio e o amor estão separados por uma linha tênue. – Mark falou e os outros três assentiram.
– Mas como já disse Harry Styles, seremos essa linha tênue e permaneceremos da forma como estamos, sem ser ódio puro e sem ser amor, apenas não nos suportando.
– É, mas nessa mesma música ele também fala que há coisas que nunca saberemos. Pense nisso com carinho, . – Damien provocou.
– Enfim, falando de algo útil e que interessa de verdade, o que vocês farão nesse fim de semana? – perguntei, mudando de assunto e os quatro começaram a falar sobre os planos que envolviam uma ida a San Francisco no dia seguinte, não sei se entendi bem o motivo, e no domingo eles se convidaram para almoçar lá em casa.
Nota mental: nunca mais ser bonzinho com ninguém, porque eu só fui atacado de forma moral depois de vir pra Sacramento pra não preocupar tanto meu melhor amigo com a irmã estranha que ele tem.
Ou é isso que eu vou ficar repetindo pra mim até eu acreditar totalmente que não envolve nem um pouco de empatia (se é que posso chamar isso assim) pelo medo de , afinal, ela precisa de um conforto e ficar longe daquela bagunça é o melhor.
Aparentemente eu não sou um livro tão aberto assim.


Nota da Autora:Oioi!
Ai ai… Nem o acredita nessas bobagens que fala e quer convencer os outros… e essa viagem pra Sacramento vai render um tanto ainda, porque esses dois são doidos.
Espero que tenham gostado e não deixem de comentar com o que acharam e o que esperam para esses próximos capítulos em que os dois estarão em Sacramento fugindo de um tornado e na mesma casa de novo…
E eu tenho um recadinho, provavelmente vocês vão mandar me matar depois desse final, mas “Make You Mine” e “Still” entrarão em um pequeno hiato até +- dia 20/01, porque estou revisando uma história (talvez duas…) e fazendo um freela que preciso entregar até dia 20/01, sem contar que estou trabalhando, porque o recesso forense ainda não começou.
As duas histórias ainda estão sendo escritas, então eu prefiro dar esse pequeno tempo ao invés de escrever qualquer coisa e de qualquer jeito só pra ter o que postar, não gosto desse tipo de coisa, então essa é a última postagem de 2020 e que em 2021 estarei de volta. Make You Mine NÃO SERÁ ABANDONADA!!!!! Tenho tudo roteirizado e certinho das duas fanfics, só não terei tempo hábil de escrever de um jeito decente e nem revisar a escrita pra poder atualizar. Sei que isso é péssimo, mas vocês ainda terão bastante de e pra se divertir.
Então, como última postagem de 2020, quero deixar um desejo de que as festas de fim de ano de vocês sejam incríveis e que 2021 seja menos pesado emocional, física e mentalmente. Obrigada pela companhia em 2020 e espero que a gente continue nessa caminhadinha de fanfics por muito tempo ainda.
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Vocês também podem me seguir no Twitter (mas aqui eu só surto por esportes, bandas e xingo determinados presidentes não disse quais, e reclamo da vida).