Por Todas As Estrelas Do Céu

Por Todas As Estrelas Do Céu

Sinopse: Kiara Heaven era conhecida por sua personalidade fria e egoísta, que se destacava das demais do colégio Haster, fazendo-a ser o sonho de consumo de todos os garotos. Entretanto, nada era de grande importância para a jovem, muito menos todo o dinheiro, fama e pretendentes aos seus pés.
Então, certo dia, ela e suas amigas resolvem fazer uma aposta ousada; ter o badboy Greg Woods por um mês, porém algo inesperado acontece e Kiara acaba engravidando do rapaz cujo era apenas diversão.

Abandonada pela família e ignorada pelo pai da criança, a garota se vê perdida e sozinha, até receber ajuda de alguém que ela menos esperava, e descobrir com ele todos os sentimentos que antes ela nunca sentira.
Gênero: Romance, drama.
Classificação: +18 anos.
Restrição: Cenas de sexo explícito, violência, distúrbios emocionais.
Beta: Rosie Dunne.

E depois daquele dia, eu diria que pela primeira vez eu sabia o que era o amor.
Eu o amava. Eu senti isso desde o primeiro momento em que ele pegou o nosso filho no colo.

Descobri meus sentimentos… talvez um pouco tarde demais. Mas nunca irei me esquecer de suas palavras.

“Olhe para o céu, você consegue contar as estrelas? É impossível, não? Com isso, eu apenas quero dizer que eu te amo, Heaven, por todas as estrelas do céu.”

Em choque, foi assim que eu fiquei diante de sua declaração.

Mas agora, sempre que eu olhar para o céu estrelado, irei me lembrar do seu amor por mim.

Heaven

Eu entrei pela porta do colégio e respirei profundamente. Em minha mente, era apenas mais um dia naquele inferno. Mais um maldito dia.

Dei meu primeiro passo e, no mesmo instante, me senti incomodada pelos olhares das pessoas, principalmente dos garotos, que me encararam com um olhar malicioso. Ignorei todos eles e continuei focada em caminhar, olhando apenas para o chão.

Eu odiava toda aquela atenção desnecessária em cima de mim. Odiava aquelas pessoas que me encaravam sem pudor nenhum. Ou como se eu tivesse alguma doença, ou fosse uma aberração. Minhas duas amigas acenaram em minha direção, me aproximei.

– Bom dia, Heaven. – Ela abriu um sorriso radiante.

Olympia Burns. Minha melhor amiga, e uma das únicas pessoas que posso confiar.

– Bom dia – murmurei baixo.

Hoje não era um dos melhores dias. Minha vontade se resumia a zero para qualquer coisa. Minha vida já estava se tornando um inferno, e aos poucos, me queimava, me consumia, me matava por dentro.

Lentamente.

– Opa, o que aconteceu? – perguntou Amber, com o seu olhar curioso.

Eu apenas olhei em sua direção, em um pedido mudo para ela se calar. E ela se escolheu no seu lugar e concordou em silêncio, apenas movendo lentamente a cabeça.

Eu não queria falar com ninguém.

Eu não queria falar sobre minha vida com ninguém.

– Ok… ok – murmurou. – Então, estão animadas para o acampamento no final de semana? – perguntou, em um tom falso de animação.

Revirei meus olhos, totalmente impaciente, e sentei-me ao lado de Olympia.

Minha melhor amiga por outro lado, ficou animada imediatamente.

– Estou super ansiosa! Aliás, vocês sabem que os Halteres apareceram por lá.

Continuei calada no meu canto, mas com os pensamentos à mil. Infelizmente, na droga da minha família, principalmente em minha querida mamãe.

– Halteres não perdem uma!

As duas continuaram conversando animadamente sobre o acampamento do fim de semana. Mas minha atenção se tornou outra.

No trio inseparável. Os Halteres.

Eles entraram no colégio com suas típicas expressões de donos do mundo no rosto.

Enquanto eu, controlei minha vontade de rolar os olhos diante daquela cena. Patéticos.

Os três garotos arrancava suspiros apaixonados de qualquer garota por onde passa. Praticamente todas as garotas do colégio queriam estar debaixo dos lençóis de Gregory Woods.

O garoto esbanjava sensualidade e um ar debochado, e imediatamente o fogo das garotas se ascendiam.

O que era ridículo. Idolatravam o garoto como se ele fosse um Deus. Não nego, Gregory é um cara atraente, mas era completamente desnecessário toda aquela atenção especial ao garoto.

Os outros dois garotos do grupo eram sua sombra, e um pouco invisível aos olhos das garotas que lambiam o chão em que Gregory passava. Eles eram bonitos e atraentes, mas não tinham o charme de Gregory Woods.
Greg era único.

Charme que na minha opinião, significava macho escroto.

Connor Thompson, um babaca igualmente à Gregory. Os dois andavam na mesma linha em questão de personalidade, eram exatamente iguais. Não era atoa que a maioria das garotas, que Connor pegou, tentaram e falharam miseravelmente em ficar com Gregory.

Outro babaca do trio, Turner. Aquele garoto era o mais irritante de todos, além de ser uma pessoa egoísta e fria.

Bem… Eu não o conhecia, entretanto, era o que as pessoas do colégio diziam sobre ele.
Todos os dias, havia uma nova história sobre garotas que tiveram o coração partido por Turner. Ou melhor, . O garoto nunca fora chamado por Turner.

Eu não tinha pena, aquelas garotas eram umas tolas por entregarem o seu coração à um homem. Principalmente à Turner.

era como um cachorrinho de Gregory, sempre obedecendo suas ordens estúpidas. O que tornava tudo mais ridículo ainda. Aqueles garotos precisavam de uma lição, isso sim.

Especificamente Greg Woods.
Todos eram ridículos, babacas.
Minhas amigas por outro lado, estavam suspirando enquanto olhavam para os garotos.

– Ah meu Deus, eles estão… – murmurou Amber, chocada.

– …Vindo, ah meu Deus! Eles estão vindo aqui – completou Olympia, animadamente, fazendo gestos com as mãos.

Eu apenas me controlei para não revirar os olhos – novamente.

Gregory me encarava profundamente, como se estivesse lendo minha alma. Desviei de seu olhar, era um pouco invasor e intimidador demais.

– Aja naturalmente, Amber… – sussurrou Amber, para si mesma e arrumou seus cabelos loiros.

– Como eu queria beijar aquele garoto, por Deus… – murmurou Olympia, completamente encantada.

Eu não tive tempo para reagir, pois no mesmo instante três garotos pararam na minha frente com sorrisos de lado no rosto.

Tirei forças do meu interior para não achar ridículo, pelo fato de estarem vestidos com calças pretas, largas. Todos iguais.

– Olá, meninas. – comprimentou Gregory, com as mãos no bolso da calça preta.

As duas ao meu lado suspiraram. E eu permaneci calada.

– Oi, Heaven – Greg falou diretamente para mim.

– Olá, Gregory – respondi, com um sorriso provocativo no rosto.

Se Greg era sedutor e atraente, eu era mil vezes mais.

O rosto de Greg se contorceu.

– Apenas Greg, por favor…

– O que querem aqui? – perguntei direta.

Os garotos se entreolharam, com um sorrisinho no rosto.

– Bom… eu quero algo.

– Diga – falei, impaciente.

– O que acha de aparecer na casa de , para um festa amanhã à noite?

– Quem faz festa em uma quarta feira? – questionei.

No mesmo instante, os três abriram um sorriso.

– Eu – respondeu , com sua voz rouca e profunda.

Olhei rapidamente para o garoto. Sua voz causou algo no fundo da minha mente. Então, nossos olhares se encontraram e abriu um sorriso nos lábios.

Que merda era essa?

Provavelmente a doença Trio Halteres das garotas do colégio era contagiosa. Desde quando eu sinto algo por algum daqueles garotos?

– Então, aparece lá… Suas amigas também estão convidadas. – Greg voltou a olhar para as duas ao meu lado.

Elas se entreolharam chocadas.

– Mas, cla-claro – exclamou Amber.

– Ótimo, e você, Heaven? – Greg voltou com sua atenção para mim.

Merda, não queria conversar com ele. O que os Halteres ainda fazem aqui?

– Tanto faz – respondi, dando de ombros.

– Essa sua indiferença só te deixa mais interessante, senhorita . – murmurou, Connor.

– Muito interessante – completou Greg com um sorriso malicioso nos lábios.

– Estaremos te aguardando em minha casa, lindinha – falou , completando sua fala com uma piscadinha sedutora.

– Preciso ir agora, mas nos vemos mais tarde, linda. – Greg piscou e enfim, deu as costas indo embora junto com seus dois cachorros ao lado.

– Tão… – murmurei.

– Gostosos – completou Amber.

– Idiotas, era isso que eu iria dizer. – respondi, e olhei para a garota em meu lado.

Amber revirou os olhos.

– Enquanto você finge que não acha eles gostosos, eu também finjo que acredito nisso.

– Quem disse que eu finjo? Eu apenas não sou desesperada por uma noite de sexo com eles, ao contrário de vocês, ou qualquer garota desse colégio.

– Então, assume que acha eles atraentes? – perguntou, com um sorrisinho de canto.

– Nunca neguei nada.

Amber me encarou com uma expressão maliciosa no rosto.

– Quem sabe hoje você não para na cama do gostoso do Connor.

– Nem morta. Ele é ridículo.

– Ele é gostoso – afirmou Olympia.

– Connor é o ridículo mesmo mas, se for comparar, Greg é mais. E mesmo assim, não deixo de pensar em como deve ser… –

Olympia, comentou.

– Aquele garoto é uma delícia! – exclamou Amber, se intrometendo.

Olympia gargalhou, e respondeu:

– Mas prefiro , ele tem cara de bebê.

– Tem mesmo, mas também é um badboy. Ele não tem compaixão com ninguém. Ele ama a si mesmo e nada mais – disse, Amber.

– Mas esse é o charme, ser um badboy!

Levantei-me do banco rapidamente.

– Você vai para a festa, Heaven? – perguntou, Olympia.

Apenas dei de ombros.

– Vamos, Heaven! Quanto tempo que você não aproveita a noite como os velhos tempos hein? – incentivou, Amber.

– Verdade. Você não beija ninguém há 1 semana, e isso é um recorde para a Heaven .

– Nunca mais diga meu nome completo – murmurei, com raiva.

– Mas, vou pensar se vou ou não.

As garotas concordaram. E com um tchau nada animado, caminhei para a minha sala de aula.

✩✩✩✩✩

A aula acabou e soltei o ar que nem percebi que prendia, completamente aliviada.
Saí da sala de aula, e caminhei até o meu armário, peguei a chave no bolso da minha calça jeans e abri. Guardei meus livros ali dentro e tranquei o armário.

– Oi, linda.

Pulei de susto com a mão no coração, e olhei furiosa para o garoto ao meu lado.

– Gregory…

– Greg, linda. Mas se quiser pode me chamar de meu amor – disse, com seu sorriso malicioso que pra mim, tornou-se irritante no seu belo rosto.

Virei-me com as mãos na cintura, as sobrancelhas arqueadas.

– O que quer?

– Conversar, minha linda.

Olhei no fundo de seus olhos e dei um passo à frente, aproximando-me de seu corpo.
Ele gostou da minha atitude e deu um passo à frente também, colando seu corpo com o meu, em seguida suas mãos desceram pela minha cintura.

– Grego… – murmurei, entre os dentes.

Ele me interrompeu:

– Linda, escute. Vamos hoje em uma festa, huh? Quero tanto ficar com você, . Você…

Afastei-me de seu corpo.

– E se eu não quiser ficar com você, Gregory? – desafiei, com uma sobrancelha arqueada. – E você sabe que odeio quando me chamam de .

Ele soltou um riso, e retornou a se aproximar.

– Linda, eu vejo nos seus olhos o desejo e…

– Desejo?

Seus dedos frios tocaram minha bochecha. Ele me encarou profundamente.

– Você me deseja como eu te desejo, linda. Nosso desejo de sentir aquela sensação maravilhosa dos nossos corpos se fundindo juntos, é mútuo. Não negue.

Seus olhos me encaravam, e eu não queria pensar nisso.

Mas merda… é tão hipnotizante. Tão intenso, tão profundo.

– Greg.

– Olha, temos uma evolução. Linda, você nunca pensou em como nossos corpos podem se encaixar perfeitamente? – sussurrou no meu ouvido, sensualmente e baixo.

Não queria ter feito isso, mas mordi meu lábios inferior, controlando as sensações de meu corpo.

– Nunca pensou em uma noite… selvagem e intensa comigo? – Sua voz baixa e rouca me arrepiou imediatamente.

Suas mãos grandes apertaram fortemente minha cintura, e em seguida, desceram para as laterais do meu corpo, parando em minha bunda.

– Tão gostosa. Não posso mais esconder minhas intenções, eu não aguento. Eu quero você, Heaven.

Tentei não focar na sua voz sensual no meu ouvido. Mas era praticamente impossível. Então, respirei fundo.

– Você tem noção de quantos garotos me disseram a mesma coisa essa semana?

Ele riu contra a pele do meu pescoço, afastou meu cabelo para o lado e, então, beijou devagar minha pele. Meus olhos fecharam por reflexo, e eu me amaldiçoei por isso.

Merda de garoto. Como era possível eu odiar e agora desejar ao mesmo tempo uma pessoa?

– Eu não ligo, Heaven. Você é uma mulher livre e solteira, tem o direito de transar com quantos caras quiser.

– Tem certeza? Você não liga para as fofocas?

– Você se importa? – perguntou com seu olhar ardente, queimando meu rosto.

– Não.

– Então, eu também não.

– Eu já estou acostumada com os boatos sobre minha vida, Gregory. E você, conseguiria lidar com isso? Sua reputação estaria em jogo.

Ele tomou o meu rosto em suas mãos e colou nossos lábios. O beijo me pegou de surpresa e não tive reação nenhuma, até suas mãos fortes segurarem minha nuca.
Ele mordeu meu lábio inferior e soltou, puxando e chupando, de um jeito tão sensual.
Estupidamente, desejei tê-lo dentro de mim.

– Linda, depois desse beijo eu não me importava com nenhuma fofoca sobre nós – murmurou, perto dos meus lábios

– Gregory, eu preciso ir.

Então, me soltei de seus braços e sai correndo.

Completamente perdida e excitada.

Eu, Heaven Ricks, estava excitada por Gregory.

Se eu não estivesse desesperada, estaria rindo pelos meus malditos pensamentos sobre ele.

Heaven
Entrei rapidamente dentro do carro, deixando o motorista com uma cara de paisagem do lado de fora.

— Vamos, Steve! — chamei o motorista, despertando-o de seu transe.

Ele balançou a cabeça positivamente e fechou a porta. Entrou no carro e começou a mexer nos retrovisores, me causando uma certa irritação.

— Steve, está tudo ótimo, vamos! — falei, enquanto olhava para os lados. Acho que minha voz soou desesperada, pois ele arregalou os olhos e concordou, rapidamente.

— Ca-calma, Senhorita! — gaguejou, enquanto arrumava sua gravata de um terno ridículo que minha mãe obrigava os motoristas usarem.

— Estou calma, Steve! Você ainda não me viu brava!

— Ma-mas, senhorita, com toda educação, eu não qu-quero presenciar esse momento… tão perigoso. — ele respondeu, um pouco hesitante.

Eu apenas olhei diretamente em seus olhos pelo reflexo do espelho, e ele encolheu-se no banco, abaixando a cabeça
.
— Hã… desculpe, senhorita, desculpe — murmurou.

Eu apenas revirei meus olhos, impaciente. Então, ele ligou o carro e eu finalmente consegui respirar.

E no mesmo instante, Gregory Woods saiu correndo do colégio, provavelmente… na minha direção. Ah, droga!

Ele correu rapidamente, desviando dos alunos que estavam parados em frente da escola, e mantendo os seus olhos fixos no meu carro.

—Steve, se você não acelerar essa merda de carro, eu mando minha mãe te demitir!

— Agora mesmo, Senhorita! — respondeu, prontamente.

E o carro saiu acelerando, deixando um Gregory boquiaberto no portão da escola. Sorri internamente com isso.

Gregory esperava por uma rendição por minha parte, Ah coitado!
Eu não sou o tipo de garota que ele pensa que sou. Eu sou a Heaven! Eu não corria atrás dos garotos, eles que corriam atrás de mim. Eu não desejava os garotos, eram eles que me desejavam.

✩✩✩✩✩
Eu finalmente descansei o meu corpo num colchão macio e confortável. Eu estava quase dormindo, quando duas batidas na porta me despertou completamente. Abri os olhos assustada pelo barulho repentino.

E novamente, as batidas retornaram a me perturbar.

! Eu sei que está aí, vamos, levante! — sua voz autoritária gritou.

Eu poderia temer pela minha mãe, mas eu não me importava.

Ela simplesmente me trata como um nada. Então, eu a trato como um nada também e isso inclui não obedecer suas ordens estúpidas.

! !

Me levantei irritada, e controlei internamente minha vontade de mandar aquela mulher ir para o inferno.Abri a porta, encarando-a com a melhor expressão de desdém.

— Melhore essa cara, menina!

— Se não está satisfeita com minha cara, não olhe. Essa é a única que eu tenho. — Dei de ombros.

— Mais respeito comigo, garota! Eu sou sua mãe! — esbravejou, irritada.

Eu ri, sem humor algum.

— Sério? Minha mãe? Você nunca cuidou de mim e nem se importa. — falei. — Qual foi a última vez que você realmente foi minha mãe?

— Eu pago tudo para você, sua ingrata!

— Acontece, mamãe — frisei, sarcástica. — Que dinheiro não compra carinho, atenção e muito menos amor! Então, não venha com seu papinho ridículo, por quê eu não me importo.

— Acontece, filhinha, que você não valoriza meu esforço, e muito menos meu sofrimento pelo o que eu consegui! Eu trabalhei muito na minha vida para dar algo digno à você! Mas, se você se sente incomodada ou insatisfeita, a porta é serventia da casa.

Fixei meus olhos nos seus. Eu tentava não deixar transparecer minha angústia diante daquela mulher fria, que era o motivo das minhas crises a noite.

Eu não podia simplesmente chorar em sua frente, não podia!

Ela era fria, distante, sem coração. Ela não se importa com ninguém, além de si mesma e seu saldo bancário. Apenas.

Por esse e outros motivos, eu desisti definitivamente de tentar ter um relacionamento saudável com minha mãe.

Ela me manipulava, me humilhava, me xingava, como se eu fosse mais uma de suas empregadas, mas, a diferença é que eu era sua filha.

Minha mãe é uma mulher milionária e muito conhecida no mundo todo. Todos se inspiravam na estrela do cinema, .

E o mundo nem imaginava quem script>document.write(Kiara) realmente era.

, lembre-se das suas obrigações, afinal, você não ganhará parte do meu império.

E então, ela me deu as costas, subindo o corredor largo e branco.

Encarei as paredes, buscando por forças. Mas novamente, como todos os dias, eu teria que lidar com suas provocações, e consequentemente com minhas fraquezas.

✩✩✩✩✩
Era 15:00 da tarde. Eu estava indo diretamente para o lugar onde todos achavam que eu tinha uma “vida perfeita”, onde eu era a filha mais sortuda por ter uma mãe atriz famosa e mundialmente conhecida.

Segundo eles, eu deveria agradecer ao Céus pela oportunidade de ter sido gerada no útero mais rico de toda a América.

Mas minha vida era uma mentira. Uma farsa. Uma ilusão que minha mãe criava para as pessoas ao seu redor.

✩✩✩✩✩

Eu tentava me concentrar no teatro, e não na briga que tive com minha mãe na hora do almoço.

Eu aguentei, como todos os dias. Mas o maldito choro ficou preso na minha garganta e, quando eu entrei dentro do carro, ali mesmo, chorei em desespero.

Assustei Steve imediatamente. Ele nunca havia me visto vulnerável, aliás, ninguém nunca me viu vulnerável à alguma situação. Mas ele fingiu me ignorar, e não se atreveu a perguntar. Então, como se nada tivesse acontecido há alguns minutos atrás, me sentei ao lado das garotas.

Ignorando completamente os olhares em cima de mim.

Provavelmente eram novatos surpresos pela a filha de script>document.write(Kiara) estar ensaiando para uma peça teatral.

— Ei, !

Ignorei totalmente a voz que estava me chamando. Eu sabia exatamente quem era.

! — A voz se aproximou.

Virei-me e dei de cara com Corey, e sorri brevemente para o garoto.

— Você está bem? Você se atrasou um pouco hoje.

— Estou perfeitamente bem. — Sorri.

— Sim, está mais linda do que nunca também — comentou com um sorriso malicioso.

— Obrigada pelo elogio, Corey. — Dei um sorriso forçado à ele.

— Que isso! Apenas estou dizendo a mais pura verdade, você é encantadora, ! — falou, analisando meu rosto.

— E… você sabe que não curto… , não? Apenas, Heaven.

Ele abriu um sorriso, exibindo todos os seus dentes brancos e perfeitamente alinhados.

— Claro! Heaven — falou, encarando-me com os olhos estreitos.

— Por que me encara assim? — perguntei, incomodada.

Ele disfarçou, e olhou ao redor e voltou a me encarar, sorrindo.

— Porque você é muito interessante, Heaven. Você é um enigma para mim.

Balancei a cabeça, concordando. Sem ter a mínima ideia do que dizer em seguida.

— Er… Corey você sabe que não podemos confundir o profissional com o pessoal, não é mesmo?

Ele sorriu, e passou os dedos entre seus fios loiros.

— Claro, mas sempre há uma exceção, não?

— Hum… acho que não. — Torci os lábios.

— Você já…

— Crianças, venham até o palco! — Michael, o diretor da peça interrompeu.

Obrigada, Michael!

Corey sorriu levemente, e murmurou algo que eu não compreendi, e levantou-se.
Eu esperei ele andar primeiro e o segui até o palco.

— Então, estudaram os textos?

— Sim. — Todos responderam em uníssono.

Eu permaneci calada. Pois infelizmente — não é nenhuma surpresa — minha querida mãe fez questão de me ensaiar para a maldita peça.

O ensaio passou lentamente, e agradeci aos céus quando Michael finalmente liberou todo mundo. Sai do teatro — e nada surpreendente — a limusine já me esperava do lado de fora. E acrescentando, com um motorista ridiculamente vestido com um terno e uma posição ereta, como se fosse abrir a porta para uma rainha.

Talvez para eles eu fosse uma, na imaginação fértil daqueles idiotas que lambiam o chão de .

Entrei no carro, e bufei em tédio.

— Estou vendo sua vontade de estudar teatro, .

Soltei um grito assustado, e me assustei ainda mais quando vi minha mãe sorrindo. Ela exibia seus dentes perfeitamente brancos e alinhados, e, em seu rosto havia uma expressão serena. Como se fosse normal assustar alguém, ou melhor, conversar comigo.

— Que susto!
, eu preciso começar a te acompanhar nos ensaios para se esforçar mais e tornar uma grande atriz?

— Você sabe que não desejo ser uma grande atriz! — respondi, ríspida. — Esse é o seu desejo!

— Sim, enquanto você comer com o meu dinheiro, e viver na minha casa, eu tenho todo o direto sobre você, garota mimada! — debateu com seu tom de voz irritado.

— Então não reclame se eu não dou a mínima para a porra de teatro!

Então, num ato totalmente inesperado, senti um tapa ardido no meu rosto. Abaixei a cabeça com as mãos na bochecha, e os olhos fechados. Controlando-me o máximo possível para não surtar.

— Você que causou isso… — ela sussurrou.

Levantei minha cabeça lentamente, com os olhos fechados. Se eu os abrissem, as malditas lágrimas caíram sem parar.

Engoli em seco e respirei fundo.

Senti o carro parar de se movimentar, e num ato completamente desesperado e irracional, fiz o que veio primeiro na minha cabeça.

Abri a porta do carro, e sai correndo pelo trânsito conturbado dos Estados Unidos.

Ouvi os gritos irritados de , mas não me importei, continuei correndo pelas ruas.

Um carro quase me atropelou, e por reflexo, levei uma mão ao coração, como se aquele ato fizesse ele se acalmar ou tudo parar. Então, corri para a calçada e virei numa esquina qualquer. Eu trombei com algumas pessoas, mas não me importei e apenas acelerei os passos, correndo o mais longe da minha mãe.

Uma buzina alta despertou-me dos meus pensamentos. Olhei para os lados assustada.

Que não seja ela, que não seja ela.

Repeti em minha mente.

Parei e olhei para o carro luxuoso, e o vidro se abaixou lentamente, então, um Gregory sorridente apareceu. Não sei o que é pior, Gregory ou . Certamente, .

Greg era apenas um babaca que precisava de atenção, era muito pior.

Mil vezes mais.

Então, Greg desceu do carro e acenou em minha direção.

Respirei fundo. Caminhei em sua direção com a cara fechada.

Heaven
Havíamos acabado de chegar em casa, depois de um longo caminho em completo silêncio dentro do carro.

— O que há de errado com você, sua bastarda? — ela gritou, de repente.

Eu encarei a mulher que eu chamava de mãe.
Sua frase me espantou. Me machucou. Me feriu como ela nunca havia feito antes.
Bastarda?

não se importou com os empregados ao nosso redor, e me encarou esperando por alguma resposta.

— Sua bastarda! Está surpresa por isso, não é? — retornou a gritar para mim.
Os empregados arregalaram os olhos, e no mesmo instante, disfarçaram e encararam algum ponto qualquer. Menos o rosto da mulher a minha frente.
— O que você pensa que é, ?

Silêncio.
Eu não tinha uma resposta.
Minha mente apenas absorveu todos os seus insultos, e levou para o meu coração, causando uma angústia interna. Doía, pra caralho.
Mas eu já aguentei coisas piores.
Respira, Heaven. Apenas respira, e não surte.

— Você não é merda nenhuma, ! Você quer atenção com esse comportamento rebelde, mas não consegue! Nunca vai conseguir! Você não passa de uma vadiazinha carente, necessitada de amor.

Uma maldita lágrima desceu pela minha bochecha, fechei os olhos e a limpei com raiva e dor, ao mesmo tempo. Respirei profundamente e abri os meus olhos.
Encarei como nunca olhei para ninguém em toda a minha vida. Olhei no fundo dos seus olhos e recebi um olhar na mesma intensidade.

— Você tem toda razão, — eu disse, com a voz rouca do fundo da garganta.
Ela concordou, e um sorriso vitorioso cresceu lentamente em seus lábios.
— Eu sou uma vadia sem amor. Mas isso é tudo por sua culpa, completamente sua, mãe. Você nunca me amou, e nunca irá, e eu não entendo os motivos e não tenho interesse em saber. Mas não me culpe por ser assim, sendo você mesma a culpada por isso. Eu te pertubo e vou continuar até você perder a cabeça, porque é justamente isso que você causa em mim. Você me enlouquece, você tira minhas forças. Eu não sinto nada por sua culpa, .

Ela aproximou-se com uma expressão vazia no rosto plastificado. Eu fiz um gesto para parar em seu lugar. E estranhamente, ela obedeceu. Era a minha vez de falar.

— Talvez eu preciso de um amor. Ou melhor, precisava. Por que amor é última coisa que eu quero de você, . E amor, definitivamente é a última coisa que você pode me dar.

E então dei as costas à ela. Subi em passos rápidos as escadas. Entrei no meu quarto e bati a porta com força, raiva, dor. E as lágrimas finalmente rolaram sem parar pelo meu rosto. Soquei a parede, descontando toda a minha frustração e dor. Meus pensamentos foram invadidos por momentos da minha infância.

Quando eu tive minha primeira apresentação de ballet e não apareceu. Naquele dia, eu dancei perfeitamente bem, e procurei pelos olhos azuis da minha mãe na plateia. Mas não a encontrei. Apenas meu pai estava lá. Então a dança acabou, e eu voltei para os bastidores em lágrimas.

Na minha primeira peça teatral, com apenas 8 anos de idade. estava na primeira fileira, olhando atentamente à todos os meus movimentos, sem expressar nenhuma emoção. Eu pensei que ela estava orgulhosa pelo meu desempenho, mas me enganei.
Em casa, recebi milhares de palavras dolorosas de . Para ela, era uma vergonha sua filha esquecer uma maldita frase.

E a partir daquele dia, passou a me tratar com indiferença. Ela apenas se importava com uma coisa: A perfeição. Heaven tinha que ser perfeita.
Então, sua obsessão pela minha perfeição começou. Eu não tinha o direito de opinar em nada.

Meu pai era um bobão e obedecia suas ordens. Sinceramente, eu tinha pena dele.
Na adolescência, foi quando me cansei de toda a falsidade, e comecei a agir como uma rebelde. Tudo para ter um pouco do amor da minha mãe, mas não funcionou. Seu ódio por mim triplicou.

No momento em que eu mais precisei de minha mãe, eu realmente percebi algo. Eu nunca tive uma mãe ao meu lado. Tudo era uma farsa. Então, passei por tudo sozinha, sem apoio de ninguém. Meu pai não sabia, e nunca desconfiou de nada, mas sempre soube. E decidiu ignorar.

Depois de tudo, eu também decidi ignorá-la. E meu próximo alvo se tornou os garotos do colégio.

Eu ficava com qualquer um que me interessava, e não me importava com os boatos sobre isso. Eu beijava e descartava sem nenhum problema. E se depender de mim, irei continuar assim. Soltei um grito do fundo da minha garganta e corri para minha cama, joguei meu corpo contra o colchão e afundei a minha cabeça no travesseiro.

✩✩✩✩✩
Acordei com o barulho insuportável do despertador. Joguei o aparelho contra a parede e bufei.

Eu não queria acordar. Quero continuar dormindo… Para sempre, de preferência.

Levantei da cama e caminhei até o banheiro. Tirei minhas roupas e entrei debaixo do chuveiro, soltei um suspiro de alívio ao sentir a água quente contra meu corpo. Senti meu corpo inteiro relaxar e encostei minha testa na parede.

Tentei não pensar nas palavras de . Mas não consegui, relembrei de toda a cena de ontem, desde quando saí do teatro até no momento em que ela me chamou de bastarda, sem nenhum remorso.E meu coração se apertou. Suas palavras novamente me cortaram como uma faca afiada. Senti como se essa faca, perfurasse meu coração e revirasse lentamente.

Apertando, perfurando, profundamente. Causando-me dor.
Uma dor insuportável.
Sentia dor. Raiva. Tristeza. Desgosto. Sentia tudo de uma vez. Como uma avalanche de emoções que não me fizesse bem.

Debaixo das águas quentes, chorei novamente. Simplesmente era difícil suportar todo aquele sofrimento.
Sofrer calada, em silêncio.
Sorrir como se minha vida estivesse perfeitamente bem. Como se eu não estivesse morrendo a cada segundo. Como se tudo fosse fácil.

✩✩✩✩✩
Cheguei na escola e fui recebida por duas garotas emocionadas.

— Heaven! Eu acho que vou morrer. — exclamou Amber. Completando o seu momento dramático com a mão no coração.
— Não exagera, Amber. — Olympia revirou os olhos.
— Shiu. — Ela fez um gesto para minha melhor amiga se calar. — Heaven, os Halteres chegaram mais cedo hoje e vieram conversar com nós.
— E? — perguntei com indiferença.
— Amber está emocionada por isso. Para mim tudo é muito estranho — disse, Olympia. Ela estreitou os olhos e olhou ao redor.
— Estranho? Talvez Greg se tocou que sou gostosa e me quer — respondeu Amber, jogando os cabelos para o lado.
— Você será apenas mais uma para ele — eu disse.

Ela me olhou e revirou os olhos.
Mais uma iludida por Greg Woods.
Senti vontade de gargalhar por isso.

— Não me importo. — Deu de ombros.
Eu soltei um riso fraco e Olympia apenas negou com a cabeça.
Ficamos em silêncio, então, eu perguntei para minha amiga :
— Olympia, será que você não pode conversar com minha mãe, sobre aquilo?
— Sobre você…? — perguntou Amber.
— Sim, Amber. É sobre isso — murmurei.
Amber concordou com a cabeça. E olhou ao redor, e ficou animada, de repente.
— Vou indo, tchau. – Mandou um beijo no ar. E sumiu entre os alunos do colégio.
— A última coisa que eu faço na minha vida é tentar conversar com – falou Olympia.
— Olympia… Você sabe se eu pudesse, nunca mais entraria naquela casa.
— Eu sei, Heaven. Mas não é fácil, sua mãe é uma pessoa difícil.
— Tudo bem…

Cruzei os meus braços e ouvi um barulho de alunos assobiando e gritando.
Olympia ficou tensa, e eu a encarei. Sem entender nada.

— Amber… — sussurrou, e apontou para o outro lado do corredor.

Olhei para o fundo do corredor e entendi.
Amber estava com os Halteres.
Com , Connor e Greg.
Eles estavam apontando para ela enquanto gargalhavam.

— Ela deve ter falado algo, e ele está se aproveitando disso para chamar a atenção.
Concordei.
— Vamos lá.

Segui Olympia, andando entre os alunos. Mas paramos de andar no momento em que Amber correu como um furacão, para longe de Greg com o rosto vermelho. Ela estava segurando o choro, eu percebi isso.
Ela aproximou-se de nós e parou em minha frente. Neste momento, quase todos os alunos estavam olhando para ela.
Incluindo Greg, que estava parado ao lado de e Connor, com os braços cruzados e aquela merda de sorriso no rosto.

— Eu converso com sua mãe, Heaven. Mas quero algo em troca — ela sussurrou.
Olympia e eu nos entreolhamos confusas.
— Diga, Amber.

Ela olhou ao redor e engoliu em seco quando percebeu que toda a atenção estava sobre ela. Aproximou-se de mim e me pegou pelo pulso, e saiu em passos apressados para o outro lado.

Olympia correu em meu alcance.

— O que deu em você, Amber? – perguntei, confusa.
— Vamos conversar, .
Tentei não me irritar com o nome usado para se referir a mim, e concordei silenciosamente.
Ela parou de andar e sentou-se em um dos bancos.
— Vamos ficar aqui, não há ninguém para ouvir.
Olympia sentou-se de frente para Amber, e eu imitei seu movimento.
— Então… — comecei a dizer.
— O que você acha de fazermos uma aposta?
— Oi?
Ela riu.
— Uma aposta, Heaven. Greg é um babaca e você não gosta dele.
— Que tipo de aposta? — perguntou, Olympia.
— Então… Se você conseguir fazer Greg Woods ficar com você por um mês…
— Eu? Heaven ficando com um mês com alguém? — perguntei. Eu gargalhei, em seguida.
Ela ignorou o meu comentário, e suspirou antes de continuar.
— Se você ficar com Greg por um mês, eu te ajudo.
— Então… Você está apostando comigo…
— Você tem que pegar o Greg por um mês.

Eu não pensei muito, na verdade, não tinha no que pensar. Amber era a queridinha da minha mãe. Talvez minha mãe gostasse mais dela do que de mim. Então, seria fácil ela conseguir o que eu queria.

Respondi, sorrindo:
— Eu vou ter Greg Woods por um mês. Ele vai lamber meu chão, anota aí. – Pisquei.
Ela sorriu abertamente e assentiu.
— Eu queria negar, mas vai ser interessante isso…
— Será mesmo, Amber — concordou Olympia, sorrindo.
Nós três sorrimos, e eu olhei em direção à Greg.
— Mas… Por que essa aposta, afinal?
— Greg merece uma lição. Quero rir da sua cara quando ele se apaixonar por você.
— Se apaixonar por mim? — Fiz uma careta de desgosto.
— Sim, Heaven. Faça-o lamber seu chão, mas como um pobre apaixonado.
— Isso é algo difícil para Greg Woods.
— Te garanto que não. Pense na sua recompensa, . E, aliás, eu confio em você e no seu poder de sedução, amiga. Não me decepcione. — Ela piscou um olho. E levantou, deixando-me boquiaberta.
— Eu sei que você não irá falhar, amiga. Então, honre a nossa amizade e faça aquele garoto sofrer — disse Olympia.
— Como se isso fosse fácil. Mas irei tentar o meu melhor. — Forcei um sorriso.
— É isso aí.
Fizemos um high five e levantamos para procurar nossa sala de aula.

✩✩✩✩✩
As aulas finalmente acabaram. Eu saí praticamente correndo da sala, ignorando os olhares das pessoas. Guardei os meus livros no meu armário, e tranquei com a chave.

— Tá gostosona, .
Virei o meu corpo lentamente e me deparei com um dos quarterbacks da escola. Colega de Greg.
— Gostosa é sua mãe, seu idiota.
— Que mau humor, gostosa — ele respondeu, com um sorriso malicioso nos lábios enquanto encarava o meu corpo.
— Se você continuar me chamando de gostosona, eu vou quebrar seu pau.
Seu sorriso ampliou.
— E não, não vai ser de tanto eu sentar aí. Vai ser do jeito mais doloroso possível, quarterback.
Seu sorriso diminuiu, e então ele suspirou e negou com a cabeça.
— Ok… — murmurou, antes de ir embora.
Eu sorri.
— Ele mereceu essa.
Tentei manter meu sorriso no rosto, e me virei para o garoto ao meu lado.
— Homens machistas deveriam entrar em extinção. O que quer, Greg?
— Nada…

Concordei. E então, arrumei a minha mochila nas costas e comecei a andar para longe de Greg. Mas como se uma ideia brilhante tivesse surgido em minha mente, parei no meio do caminho. Então, sorri e voltei a andar em sua direção.

— A festa de hoje à noite ainda está de pé, Greg?
— Com toda certeza.
— Ótimo, estarei lá às dez horas.
Ele sorriu.
— Estarei esperando por você ansiosamente, Heaven.

Heaven
Eu estava pronta. Vesti meu melhor vestido que comprei na Grécia, numa loja incrível que encontrei por lá. O vestidinho era preto e brilhante, um pouco curto, e com um decote enorme na frente.
Coloquei saltos e deixei meus cabelos soltos. Meus olhos estavam marcados levemente por um esfumado preto e meus lábios estavam pintados na cor vermelha.
Minha cor favorita.

Um dos empregados me avisou que Olympia havia chegado. Saí do meu quarto com um sorriso confiante no rosto. A noite seria longa.
Mas meu sorriso se desmanchou ao ver me encarando com os braços cruzados, e ao seu lado estava o meu pai.
Ele usava um óculos de grau e ainda vestia o terno. Provavelmente ainda estava em seu escritório, trabalhando como um louco.

— Ora, ora. Já vai entrar no modo “a vadia louca americana”, ? — Minha mãe debochou.

Terminei de descer as escadas e parei em sua frente. Revirei meus olhos e me aproximei de meu pai. Dei uns tapinhas em seu ombro e beijei levemente sua bochecha.
Olhei para minha mãe com um sorrisinho de lado.

— Vou. E aliás, volto amanhã, por que hoje a noite estarei muito ocupada no quarto de algum garoto.
Meu pai arregalou os olhos.
Heaven, que comportamento é esse, minha filha? — Ajeitou seu óculos e cruzou os braços.
— Ah, Gerald! Essa é a sua filhinha que você ama. Não passa de uma vagabunda que abre as pernas todos os dias. — Minha mãe riu maleficamente.
… Ela é sua filha — meu pai sussurrou, incrédulo.
— Uma vadia… Por isso vive nessa nessa situação atual — minha mãe respondeu, e fez um gesto em minha direção.
— Não comece a culpar as minhas atitudes com os meus problemas pessoais do passado, — eu disse, aproximando-me dela.
Nossos rostos estavam próximos e eu observei seu rosto com mais atenção. Sua testa estava franzida e as pupilas levemente dilatadas.
— Se você não agisse como uma vadia, não…
, chega! — gritou, meu pai.
Nós duas olhamos em sua direção. Ele estava com os olhos arregalados.
— Por Deus, é apenas uma adolescente, deixa-a viver a vida em paz. Você é a prova de que nós aprendemos com os nossos erros, querida.
não é uma adolescente. É uma vadia mimada e privilegiada.
— Devo concordar com você, mamãe. — Pisquei para ela.
, sem provocações. Vá para a sua festa e aproveite. Boa noite. Agora, preciso voltar para o escritório. — Ele beijou levemente minha testa e saiu.

me encarou com uma expressão de nojo.

— Vai fazer o que você sabe de melhor, . — falou num tom provocativo.
— A cada dia que passa você fica mais esperta, mamãe. Pode deixar, irei aproveitar minha noite, com muito prazer. — Mandei um beijo no ar e sorri.

Então saí da sala. Passei pelo longo corredor branco, e esperei enquanto abriam os portões. Do lado de fora, minhas duas amigas correram ao me ver.

— Finalmente! — exclamou, Olympia.
— Tive umas complicações. Mas aqui estou, agora vamos!
— Isso aí! Aliás, hoje você tem um objetivo para cumprir, senhorita . — Apontou Amber com um sorriso no rosto.
— Eu sei, Amber. E irei conseguir, você vai ver.
— Confio no potencial da sua bunda, amiga.
— O que? — Olympia exclamou com uma expressão de horror no rosto.
Eu gargalhei, e dei de ombros.
— Essa bunda tem o poder, minha amiga — falou, Amber.
Eu concordei com a cabeça, e gargalhei.
— Ah, claro! — Olympia apenas revirou os olhos.
Continuei rindo, e fui até o carro. Abri a porta e entrei.
— Hoje eu dirijo! — exclamei.
— Mas era minha vez! — Amber fez um biquinho. Mas jogou as chaves em minha direção. Sorri e esperei as duas entrarem e colocarem o cinto de segurança. Então liguei o carro.

✩✩✩✩✩
Estacionei em frente à uma casa luxuosa.

— A casa de é linda — Olympia sussurrou.
— Só não é mais bonita do que ele. — comentou Amber, entre os risos.
Ignorei e abri a porta do carro.
— Espera, sua doida. Vamos entrar juntas.

Concordei, e esperei as duas saírem do carro.
Amber pegou um batom da bolsinha que estava em sua mão, e passou em seus lábios enquanto encarava-se pelo retrovisor. Demorou alguns segundos, mas ela finalmente terminou.

— Finalmente hein, Barbie — provoquei. Ela odiava o apelido.

Ela ignorou o meu comentário, e sorriu levemente para um garoto que nos observava. Caminhamos pelo jardim da casa, logo se tornou possível ouvir o som abafado de alguma música tocando.

— Preparadas? — Olympia, perguntou.
— Eu nasci pronta, meu bem — respondi.

Elas gargalharam.
Eu abri a porta da sala e entrei. Imediatamente quase todos os olhares estavam em nós. Em nossa chegada.
Dei um sorrisinho vitorioso e olhei para trás. Minhas amigas estavam com uma leve expressão de choque no rosto.
— O que foi?
Elas não responderam. Olhei para frente e encontrei com os olhares surpresos das pessoas.
— Gente, todo mundo está olhando para nós — cochichei.
— Nem todo mundo, Heaven — respondeu minha melhor amiga.
— Que?
— Olhe para o fim do corredor, você irá entender.

Olhei para o corredor onde Olympia indicou. Era difícil enxergar algo mas eu o vi perfeitamente. O momento se passou na minha cabeça, como em uma câmera lenta.
Gregory agarrando a coxa de alguma garota e flexionando sua perna em volta de sua cintura.

Ele puxava e descia com seus lábios pelo pescoço da garota desconhecida. E se beijavam intensamente. Eles finalmente desgrudam os lábios. E, então, ele – infelizmente – olhou para os lados e encontrou o meu olhar sobre ele.
Nós nos encaramos. Não foi possível enxergar muito, pois as pessoas começaram a andar pela casa. Ele se separou da garota e despediu-se com um abraço. Olhou novamente em minha direção e começou a andar.

— Corre para longe daquele babaca, Heaven — Olympia gritou no meu ouvido.
Neguei com a cabeça.
— Correr? Por que? Eu posso brincar com ele também — gritei de volta.
Amber deu um sorrisinho malicioso e piscou um dos olhos para mim.
— Eu vou ir beijar umas bocas. Encontro com vocês depois — ela gritou para nós.
— Cuidado com esses babacas, Amber — avisou, Olympia.

Ela concordou e afastou-se. No mesmo momento, Greg parou – na maior cara de pau – em minha frente.

— Hã… Olympia, você pode nos dar um momento aqui? — perguntou, com o olhar hesitante na direção da minha melhor amiga.
Olympia concordou, e sorriu antes de se afastar.
— Chegou na hora, Heaven. — Greg falou no meu ouvido.
— Sim. Bem na hora. – Dei um sorriso provocante e ele entendeu a minha frase.
Ele sorriu forçado e olhou ao redor.
— Ah, os caras estão lá… — Apontou para o outro lado do corredor.
Concordei. Um rapaz passou com dois copos de bebidas coloridas nas mãos e peguei um copo.
— Foi mal, cara! — Me desculpei, na maior cara de pau.
— Que isso, Heaven! Você pode tudo aqui, minha diva.

Sorri e mandei um beijo no ar para ele. O garoto gargalhou, e piscou um olho, mas eu sabia que não era um flerte, pois o garoto era gay e o seu acompanhante estava atrás de si, segurando-o pela cintura.

Greg cutucou o meu braço, e sussurrou no meu ouvido:
— O dono da casa quer te ver.
— Então, cadê ele? — Olhei ao redor.
— Está te observando… Sentado naquele sofá ali. — Apontou para o sofá onde estava.

Tinha duas garotas sentadas em seu colo, alisando seu rosto. Mas ele estava com seus olhos fixos em mim. Sorri em sua direção. Ele franziu a testa em um sinal de confusão. Abri um sorriso sarcástico e acenei.
— Vamos até lá — eu disse.
Ele me puxou pelo cotovelo e começou a andar, indo em direção à .
O sorriso de se ampliava, a cada passo em que eu me aproximava.
— E aí, brother! — gritou, Greg.
cochichou algo no ouvido das garotas, e em seguida elas se levantaram. Ele sorriu e passou as mãos pelos fios de seu cabelo e levantou-se.
Os dois fizeram um high five com as mãos.
— Ela veio, cara. — Greg apontou para mim com um sorriso malicioso no rosto.
— Estou vendo — ele respondeu e andou em minha direção. — Estou surpreso, . Greg me falou que você aceitou, mas duvidei. Você não é uma garota fácil.
— Não sou mesmo. De qualquer jeito estou aqui, não?
Ele concordou com a cabeça.
— E o que está achando? — Olhou ao redor.
— Acabei de chegar, bad boy. — Ele fez uma careta pelo apelido. — Mas, sinceramente, eu vou animar o povo ali na pista de dança. — indiquei com o queixo, o lugar desanimado onde o povo dançava. — Eles parecem velhos dançando.
Ele olhou para o lugar que indiquei.
— Devo concordar com você, .
— Heaven… apenas Heaven, bad boy. — pisquei.
— Pare de me chamar de bad boy.
— Quando você parar de me chamar de , eu penso no seu caso…. Bad boy. — Frisei sarcástica e sorri.

Sai andando, em direção a pista de dança completamente desanimada daquela festa. Greg me seguiu e me puxou em sua direção.

— Ei, Heaven! Vamos beber juntos?
— Depois. Agora vou dançar. — E rapidamente, me desvencilhei de seu aperto em meu braço.

Comecei a dançar ao som de Tik Tok, da Kesha, e cantei em pleno pulmão as partes em que eu me lembrava da música.

✩✩✩✩✩
Eu estava dançando fazia minutos ou horas. Não sei. Peguei algumas bebidas com algumas pessoas na pista de dança e bebi loucamente.

Eu fazia o que sabia de melhor: rebolar.

Alguns garotos chegaram por trás de mim e dançavam enquanto seguravam minha cintura. Alguns observavam de longe, com um olhar malicioso. Ignorei todos eles. Apenas dancei como uma maluca no meio da pista de dança. Eu queria aproveitar minha noite, e da melhor maneira possível.

Horas depois, meu pé começava a doer por causa do salto alto. Infelizmente, sai da pista de dança. Fui até a cozinha para pegar algum drink, em todo canto do cômodo tinha alguém se pegando. Decidi ignorar alguns olhares e procurei por alguma bebida na geladeira.

— Procurando o quê, ?
Fechei a geladeira e olhei para . Ele não esperou por uma resposta e falou novamente:
— Ops, Heaven… Heaven, não é? — perguntou, com um sorriso sarcástico no rosto.
Bufei e concordei. Ele arqueou as sobrancelhas esperando por alguma resposta.
— Bebida. Nessa festa não tem nenhum bartender, então…
Ele riu.
— Eu sei disso. Fiz de propósito, especialmente para pessoas folgadas que não preparam a própria bebida. — Ele continuava rindo da minha cara.
Cerrei os olhos em sua direção.
— Babaca — resmunguei, e passei ao seu lado para sair daquele lugar.
Mas suas mãos me seguraram. Me controlei para não mandá-lo ir diretamente ao inferno.
— Relaxa, gata. Eu faço um drink para você.
— Relaxa, gato. Eu não quero te incomodar.— Abri um sorriso debochado.
— Não seria nenhum incômodo, . — Frisou o meu nome. — Vamos.
Ele me puxou levemente e me sentou na cadeira.

Ele sorriu e fez um gesto com a mão, para esperar. Saiu do meu lado e caminhou até a geladeira, abrindo-a. Olhou para mim e levantou uma garrafa de vidro.
— A melhor vodka.
Colocou a garrafa em cima da pia e virou-se de costas para mim. Abriu um armário e retirou dois copos.
— Vou te acompanhar no drink, .
— Estou estranhando toda sua gentileza, bad boy.

Ele gargalhou e negou com a cabeça. Então começou a mexer nas coisas, mas eu não fiquei observando seus movimentos.
Minha atenção estava em Greg Woods e alguém que ele praticamente estava comendo no canto da parede.
Estava escuro e somente as luzes de néon refletiam sobre eles. Pelo jeito meu plano não iria dar certo hoje.

— O que tanto encara, ?
— Hã… Nada… — Desviei meus olhos dos dois.
Ele cerrou os olhos em minha direção e concordou levemente.
— Agora, observe como se faz um drink de verdade, gata.
— Ah claro. Você é o melhor em tudo.
— Pelo jeito você sabe bastante sobre mim.
— Não, e nem quero saber. Mas é óbvio que você é uma pessoa super egocêntrica, e tem o maior estilo bad boy americano.
— Ah, . Você não me conhece. Mas não nego que sou egocêntrico, e talvez um pouco egoísta, às vezes. — Deu de ombros.
— Às vezes? Meu Deus! Você pisa nos corações das meninas.
— Não tenho culpa se são bobas o suficiente para se apaixonarem por mim.
— Sem coração — murmurei
— Gata, você não é um bom exemplo também. Devo dizer a quantidade de garotos que se iludiram por você?
— Cuida da sua vida, .
Ele fez um gesto de rendição e voltou a fazer a mistura das bebidas.
— Curte Whisky?
— Claro.

Ele concordou e abriu a geladeira. Abriu a garrafa de whisky e colocou um pouco no copo em que ele fazia a mistura. Fechou o copo e começou a mexer.
Eu estava distraída com seus movimentos, até perceber as caras e bocas que ele fazia enquanto me olhava.
Sua expressão era de divertimento. Mas eu apenas pensava no quão idiota ele era.

— Babaca — sussurrei para mim mesma.
Ele ouviu. Abriu um sorriso e parou com seus movimentos.
— Obrigado, . Gosto de receber elogios.

Ignorei seu comentário completamente sarcástico e tentei não olhar para o canto onde Gregory estava dando uns amassos.
Ele jogou a mistura nos dois copos e debruçou-se no balcão, com um copo em mãos.

— Pode provar, Heaven.
Peguei o copo de sua mão e bebi um gole, com o seu olhar atento sobre mim. Seus olhos me encaravam em expectativa.
— E aí?
Fiz uma expressão de nojo, somente para brincar e ele franziu a testa.
— Está bom, bad boy. — Comecei a rir.
— Confio nos meus métodos de como se fazer um maravilhoso drink, .
— Você é bem confiante, hein. — Bebi um pouco da bebida que estava ridiculamente deliciosa.
Ele abriu um sorriso debochado e bebeu sua bebida, ainda com os olhos em mim.
— Aliás, não é nada surpreendente, visto que você é amigo dos outros dois babacas.
Ele gargalhou e debruçou-se no balcão novamente.
— Sou diferente dos meus amigos.
— Ah, claro! — debochei. — Vocês são o padrão de bad boy. Todos babacas, egocêntricos, sem coração, e se acham o dono da porra toda.
— É isso que você pensa de mim?
— É isso que eu penso sobre os Halteres, Turner.
— Turner, não, por favor.
— Você me decepcionou, Heaven. — Uma outra voz, respondeu.
Congelei. Virei meu corpo para olhar Greg.
— Desculpa, mas fui sincera. — Torci meus lábios e bebi minha bebida.
Ele sorriu levemente e sentou-se ao meu lado.
— Gosto da sua sinceridade, mas gostaria de mudar esse conceito sobre os Halteres que você imagina, linda.
— Hum… Obrigada, mas não precisa. Não tenho interesse mesmo.

Ele gargalhou e concordou. Então, bebeu a bebida que estava em sua mão. Continuei bebendo o meu drink, até acabar com tudo, em um único gole.

— Quem fez o drink? — Greg perguntou, após um gole em sua bebida.
— Eu — respondeu.
Greg arqueou as sobrancelhas em sua direção.
— Mas acabou – acrescentou .
— Sem problemas, vou beber essa vodka mesmo. — pegou a garrafa de vodka e encheu o seu copo. — Quer, Heaven?
Concordei. Estendi minha mão em sua direção e ele encheu o copo.
— Também quero. — retirou a bebida da mão de Greg e encheu o seu copo.
— Cansou de dançar, Heaven? — Greg perguntou.
— Meus pés estão doendo pra caralho.
— Já estava na hora também, você passou horas na pista de dança.
— Andou observando a senhorita , Gregory? — perguntou com um sorrisinho de lado.
— Não tenho culpa se ela dança perfeitamente bem — ele respondeu, me encarando com um olhar malicioso.
— Agradeço pelo elogio, Greg. — Abri um sorriso nada inocente.
Eu tinha uma aposta a ganhar.
— Não vou ficar observando o flerte de vocês dois, então vou indo — disse, .
— Inveja, meu amigo? — Greg provocou.
Inveja? — ele soltou uma gargalhada debochada. — Cara, eu conseguiria ter a Haven muito fácil na minha cama.
Engasguei com a minha bebida.
— Te garanto que não, Turner — respondi.
— Vou fingir que acredito, . Mas meu amigo, tenta aí, quem sabe você consegue, não? — perguntou, antes de se afastar.
Greg revirou os olhos e virou-se para mim.
acha que é melhor do que eu. Coitado — comentou, balançando a cabeça negativamente.
Eu apenas bebi minha vodka, enquanto o observava.
— Quer mais? — perguntou, indicando a garrafa.
— Ainda tenho no meu copo.
— Bebida nunca é demais, linda.
E o babaca tinha razão. Beber me fazia esquecer dos meus malditos problemas.
— Tem razão, enche aqui. — Estiquei meu copo em sua direção.

✩✩✩✩✩
Era a quarta garrafa de vodka que eu bebia junto com o Greg.
Estávamos bebendo e conversando sobre coisas aleatórias. Eu estava bêbada pra caralho e Greg não estava muito diferente de mim.

— Então, uma vez eu caí de bunda no chão… Eu levantei e segui plena mas passei um mico. — Comecei a gargalhar escandalosamente.
Minha voz estava meio mole e eu não falava nada com nada.
— Eu tô com a cabeça doendo, caralho. Bebi demais — Greg reclamou.
— Eu também, meu corpo tá até mole. — Movimentei meu corpo e voltei a rir novamente.
Ele riu também. Jogou seu copo na pia e aproximou-se do meu rosto. Bebi minha bebida com o olhar atento de Greg sobre mim.
— Você é linda demais — sussurrou.
Bebi o resto da bebida e joguei o copo na pia. Olhei em seu rosto.
— Você não é de se jogar fora também.
— Ah é? — Seu rosto se aproximou.
— É… bonitinho, eu diria.
Ele riu.
— Mas beija bem. — Encarei seus lábios levemente avermelhados.
— Beijo, é?
Nossos rostos estavam muito próximos.
— Sim. — Sorri.
— Eu queria dizer que me lembro do seu beijo também, linda. Mas não me recordo. Que tal um remember?

Ele não esperou por uma resposta. E acabou me roubando um selinho. Em seguida, mordeu meu lábio inferior e sorriu.
Entreabri os meus lábios e ele iniciou o beijo. Sua língua explorava cada canto da minha boca, lentamente. Ele beijava lento e ridiculamente bem.
Suas mãos apertaram minha cintura e desceram para o meio da minha coxa. Ele cessou o beijo com uma mordida nos meus lábios e desceu com sua língua pelo meu pescoço, me causando um arrepio por todo o meu corpo.

— Quer um remember? Mas dessa vez será mais gostoso, te garanto — sussurrou no meu ouvido.

Eu não sabia se estava entendendo as coisas muito bem. Mas concordei levemente.
Minha cabeça deu uma pontada dolorosa e fechei os olhos. Consequências da droga da bebida.
Ele beijou minha bochecha e levantou-se da cadeira, e pegou minha mão. Em seguida, me levantei, e – literalmente – fui arrastada para fora da cozinha.

✩✩✩✩✩
Passamos por quase todos os cômodos e ele parou em frente à uma porta.
Procurou por algo em seu bolso e retirou uma chave. Ele abriu e entrou primeiro, então me puxou para dentro num movimento rápido. Suas mãos ansiosas fecharam rapidamente a porta e ele me olhou com um sorriso safado no rosto.

— A nossa noite começa agora, linda.

Então seus lábios colaram os meus e eu o beijei intensamente.

✩✩✩✩✩
Heaven
Gregory Woods me beijava desesperadamente.

Completamente diferente do beijo na cozinha. Seus lábios devoravam os meus com força e sua língua agia com uma agilidade incrível.

Aquilo era loucura, eu sei. Mas eu não estava no meu melhor estado para raciocinar direito sobre o que estava acontecendo.

Ele puxou levemente meus cabelos e ergueu minha cabeça, e então, começou a beijar o meu pescoço.

— Eu tô louco por você, Heaven.

— O que está esperando, então?— respondi, abrindo um sorrisinho de lado.

Ele riu e parou com os beijos. Em seguida desabotoou os botões da sua calça jeans, com um sorriso de canto nos lábios. Jogou a peça de roupa em qualquer canto e passou suas mãos pela minha coxa.

— Gostosa.

— Fale menos e faça mais, Gregory — murmurei.

Ele voltou a me beijar intensamente. Me pegou no colo e me prensou contra a porta. Suas mãos passavam ansiosas por todo o meu corpo, enquanto ele apenas sussurrava o quão gostosa eu era.

— Eu quero te foder — sussurrou.

— Por que insiste em falar quando você pode fazer tudo isso?

Um riso fraco escapou de seus lábios. Ele ergueu meu vestido e jogou em qualquer canto. seus olhos caíram para os meus seios completamente expostos à ele.

Ele começou a movimentar seu quadril contra o meu. Eu não conseguia raciocinar direito. Apenas fechava meus olhos de tanto tesão que eu sentia.

Eu precisava transar com Greg.

— Porra, Heaven — ele sussurrou no meu ouvido.

Eu estava excitada pra caralho e me odiava por sentir isso por aquele garoto.

— Vamos pra cama, Greg.

Ele concordou com a cabeça. Ainda com as pernas em volta de seu quadril, ele me levou até a cama. Nós nos deitamos e trocamos alguns beijos. Logo, ele se levantou e retirou sua camiseta e seu tênis.

Ele deitou-se por cima de mim e eu consegui sentir novamente sua ereção.

Sem avisar, ele inseriu seus dedos dentro da minha calcinha e começou a massagear meu clitóris. Eu gemi baixo.

Fechei meus olhos enquanto seus dedos se movimentavam. Ele fazia movimentos circulares com os dedos e com a outra mão, apertava meus seios. Senti seu dedo me penetrar e joguei minha cabeça para trás.

— Relaxa, linda.

Ele sabia o que estava fazendo. E isso me irritava.

Soltei um gemido ao sentir mais um dedo dentro de mim. Ele sorriu e aumentou a velocidade dos seus movimentos.

Minhas costas se arquearam levemente e fechei os olhos, sentindo o meu corpo ficar quente.

Ele movimentava seus dedos rapidamente. Rápido e fundo. Exatamente do jeito que eu gostava.

Ele beijava meus seios enquanto seus dedos trabalhavam incansavelmente. Meu corpo formigava. Eu sentia meu coração bater rápido demais. Gemi baixinho no seu ouvido, e isso o incentivou a ir mais fundo, levando-me a loucura no mesmo instante.

Um sorriso surgiu em seus lábios quando cheguei ao meu clímax. Ele levantou-se da cama e retirou sua cueca, sem desviar os seus olhos do meu.

Observei com atenção o seu corpo nu e, infelizmente, não pude tirar minhas próprias conclusões sobre os boatos da escola. O boato era: Greg era beeeem dotado.

O quarto escuro não me ajudava nem um pouco. Infelizmente. Então, ele deitou-se sobre o meu corpo e trilhou alguns beijos pelo meu pescoço e barriga.

— Camisinha… – sussurrei.

Ele bufou e levantou-se para procurar pelo preservativo. Ele apressou em colocar a proteção enquanto me encarava. Em um piscar de olhos, seu corpo estava sobre o meu novamente.

— Quero te foder tanto… —murmurou. Fechei meus olhos ao sentir seus beijos em meu pescoço.

Eu ri, ainda com os olhos fechados.

— Cala a boca e me fode, Gregory.

E, sem nenhum comentário, ele me penetrou com força. Agarrei os seus ombros e apertei meus olhos. Eu o beijei. Ele retribuiu e começou a me penetrar fundo e forte. Eu estava tão sensível que a cada estocada, eu gemia baixinho e o apertava em meus braços.

— Caralho, Heaven… — ele enterrou sua cabeça no meu pescoço e me puxou de encontro com o seu quadril, provocando uma fricção deliciosa entre nossas intimidades

Meu corpo começou a tremer levemente e me agarrei em seu corpo, aproveitando da sensação deliciosa. Gregory continuou com seus movimentos, ágeis e necessitados.

Ele levou uma mão na minha intimidade e começou a massagear o local. Eu revirei os olhos de prazer. Com toda a certeza Greg realmente era beeeem dotado. Céus, o que ele tava fazendo comigo?!

Ele não parou de se movimentar contra mim, enquanto meu orgasmo não chegava. E, quando chegou, ele continuou, mais intenso, mais profundo, mais rápido.

Aos poucos, ele parou com suas estocadas. Minha respiração estava descontrolada e meu coração batia rapidamente. Greg não estava diferente de mim. Seu corpo estava sobre o meu e eu sentia o seu coração bater rapidamente.

— Você é gostosa pra caralho, Heaven.

Ele se deitou ao meu lado e respirou profundamente. Eu ri levemente, ainda me sentindo meio leve.

— Você tá bêbada demais, Heaven. Vai jogar uma água no corpo.

— Não tô bêbada — falei baixinho.

Ele riu e tocou minha cintura, me puxando para perto de seu corpo.

— Você bebeu bastante, aconselho a tomar um banho ou algo assim… parece que você não tem noção do que fizemos.

— Sei muito bem o que fizemos, Gregory. — Sorri e me aproximei de seu rosto. — Sexo. E foi gostoso pra caralho — sussurrei contra seus lábios.

— Você é gostosa pra caralho e não me canso de dizer isso. — Ele apertou minha bunda com força. — Puta gostosa.

Eu gargalhei.

— Aproveita enquanto eu tô de boa, Gregory Woods. — Bati levemente as pontas dos meus dedos em seu lábios. — Amanhã eu te respondo quem é a puta gostosa, viu?

— Se você se lembrar, linda.

Dei o dedo do meio pra ele e me sentei na cama. Amarrei meu cabelo que estava suado e provavelmente armado e olhei para Gregory.

— O que fizemos foi…

Merda, eu definitivamente não estava sóbria. Aquilo não parecia real.

— Gostoso — ele respondeu, me cortando.

— Eu iria dizer loucura.

— Uma loucura deliciosa — falou com um sorriso malicioso em seus lábios.

— Aí, aí, Gregory. — Eu gargalhei desacreditada.

Senti uma pontada na minha cabeça e pressionei minha mão na testa.

— Caralho, que merda você me deu pra beber, hein?

— Eu não te dei nada, você que bebeu demais. — Deu de ombros.

Olhei para ele, desconfiada, e ele riu.

— Eu bebi a mesma coisa que você, linda. Se você está achando que eu te droguei, então significa que eu me droguei também. O quão burro eu seria por fazer isso?

— Eu vou fingir que acredito em você, Greg. Agora, se me der licença, eu vou me trocar. — Me levantei da cama. Passei minhas mãos pela parede procurando pelo o interruptor de luz.

— Onde está porra do interruptor de luz? — exclamei.

— Aqui — disse Greg, e imediatamente, a luz do quarto acendeu.

— Por que não ligou antes, imbecil?

— Porque eu queria ter uma visão mais específica… Sabe… — Ele fez um gesto apontando para o meu corpo. — Heaven nua definitivamente é a oitava maravilha do mundo.

— Vou ignorar o seu “elogio”

— Adoro esse seu jeito carinhoso, linda.

Revirei os olhos e procurei por minhas peças de roupas, caminhando até o banheiro. Tranquei a porta e me vesti.

Abri a torneira da pia e enfiei minha cabeça debaixo da água. Eu precisava ficar mais sóbria para procurar por Olympia ou Amber, e ir embora daquela casa. Lavei um pouco meu cabelo, amarrei em um coque bem desajeitado e enxuguei meu rosto na toalha.

Respirei profundamente e sai do banheiro.Gregory já estava vestido e nem parecia ter bebido quatro garrafas de vodka. Seus cabelos estavam penteados e ele não parecia embriagado.

— Virou o Flash agora? — perguntei e apontei em sua direção.

— Não, não. — Negou com a cabeça. — Mas não importa, vamos.

— Onde?

— Pra sala. me ligou pra falar que o povo tá jogando lá embaixo.

— Não tô afim.

— Cara, se não quer, sem problemas. Mas eu vou — falou, e caminhou até a porta, abrindo-a. — Vem ou não?

Bufei. Andei em sua direção e sai do quarto sem esperar por ele. Desci as escadas e olhei em volta procurando por algum rosto conhecido. A música alta fazia minha cabeça latejar, mas ignorei e continuei procurando.

— Procurando por algo, gata?

Pulei de susto com a mão no coração. Eu teria um infarto até o final do ano se aqueles garotos continuassem me assustando daquele jeito.

Virei para trás e olhei para o garoto. tinha um sorriso no rosto e suas mãos estavam dentro da sua jaqueta de couro.

— Não me assusta desse jeito, garoto. E sim, estou procurando por minhas amigas.

— Vish. Elas vazaram. — Ele torceu os lábios.

— O que? — gritei em meio a música alta.

— Ei, você sumiu por mais de três horas. Elas pensaram que você estava se enrolando com alguém aí e vazaram. — Ele abriu os braços e olhou ao redor. — Não acredita em mim?

— Tá brincando, né? Mas que porra! — Passei a mão pelo meu cabelo. O nervosismo tomou conta do meu corpo e eu xinguei mentalmente minhas amigas.

— Ei, gata. Eu te levo. — Ele se aproximou e tocou em meus ombros.

— Mas nem morta, .

— Mas… — Ele tentou dizer.

— Algum problema, ?

olhou por cima dos ombros em direção à Gregory parado nas escadas. Ele nos encarava com um olhar confuso.

— Está tudo certo, irmão. – afastou-se de mim e voltou a colocar suas mãos no bolso da jaqueta.

— Que bom. E aquela brincadeira? — Gregory desceu as escadas e se aproximou de .

— Ah, é! Vamos lá? — se animou.

— Agora mesmo, porra!

Os dois andaram até uma rodinha no meio da sala e sentaram-se. pegou uma garrafa de vidro e girou. Todos em volta bateram palmas e assoviaram, completamente chapados e doidos.

Observei tudo com atenção. Então uma garota cochichou algo no ouvido de Greg e ele sorriu abertamente e levantou-se. A garota repetiu seu movimento e parou ao seu lado. Greg agarrou a garota pela cintura e iniciou um beijo intenso no meio da sala enquanto todos gritavam ao seu redor.

Eu estava meio chocada, para ser honesta.

Mas como eu sou meia irracional, e nunca penso nas consequências, andei até a rodinha e me sentei. Imediatamente, os gritos pararam e o beijo escandaloso acabou.

… — Greg disse entre os dentes. Ele ainda segurava a cintura da garota.

Abriu um sorrisinho e acenei em sua direção. Ele bufou e afastou-se da garota e sentou ao meu lado.

— Decidiu participar agora? —cochichou.

Ignorei sua pergunta.

— Ora, mas que presença agradável, — Connor debochou. — Agora é a vez do Trevor jogar.

O tal Trevor rodou a garrafa e olhou em expectativa para o vidro. Eu tinha muita sorte mesmo. E, infelizmente, a maldita garrafa parou em minha direção.

— Ah, pronto — murmurei e neguei com a cabeça.

abriu um sorrisinho sugestivo pra mim. E Connor – que estava ao seu lado – sorriu.

— Ah, . Verdade ou desafio? — O tal de Trevor, perguntou.

— Desafio — respondi, sem pensar duas vezes.

— É disso que eu gosto. Atitude garota! — Connor se pronunciou e bateu palmas.

— Olha, se eu não namorasse, até pediria um beijo, mas eu passo essa. Ofereço especialmente para o meu irmão, . — Ele apontou direção à .

arregalou os olhos e se engasgou com sua bebida.

— Que? Mas o desafio é seu, idiota! — Apontou um dedo em direção ao garoto.

— Sim, o desafio é meu, então não me diga o que eu devo fazer, . Desafio você a beijar .

O leve sorriso que tinha no rosto, desmanchou. Eu o olhei e sorri.

— E aí, bad boy? — Ergui levemente meu queixo.

— Vai logo, bad boy. — Trevor debochou e empurrou os ombros dele.

bufou e levantou-se do chão. Quando fiz menção de me levantar, senti uma mão rodear meu tornozelo.

— Não faça isso — Greg sussurrou.

— Por quê? — Eu tentei me levantar.

— Caralho, senta aqui. — Ele tentou me puxar, ainda com suas mãos em meu tornozelo.

— Porra, me solta. Você não manda em mim! — Empurrei seu corpo para trás e me levantei.

— Vai se arrepender, viu?

Eu dei de ombros e olhei para . Ele parecia sério e com os ombros tensos.

— Tá nervoso, bebê? — Me aproximei.

— Vamos rápido com isso, gata. — Ele forçou um sorriso.

— Claro! — sorri.

Me aproximei de seu corpo e peguei seu rosto em minhas mãos. Aproximei nossas bocas e mordi seu lábio inferior ainda com os olhos abertos enquanto o encarava.

— Vai com calma, bad boy —sussurrei contra seus lábios.

Ele sorriu, rodeou minha cintura com suas mãos e apertou minha bunda. Um sorrisinho safado surgiu em seus lábios e ele não pensou duas vezes antes de selar nossos lábios.

Sua boca tinha um gosto de vodka misturado com menta. Não nego, era bom. Muito bom mesmo. Puxei levemente seu cabelo e continuei o beijando. Meus pulmões necessitavam de ar mas mesmo assim, eu não queria parar.

Definitivamente não.

era um bom pedaço de mal caminho e sabia muito bem como usar a língua. Eu arriscaria a dizer que ele era melhor do que Greg. Finalizou o beijo, com uma leve mordida no meu lábio inferior.

— Uau. — Ele abriu um sorriso.

Não retribui o sorriso. Virei e me sentei no meu lugar. Ele me observou por um momento com um olhar confuso. Depois deu de ombros e voltou ao seu lugar.

Ao meu lado, Gregory estava com uma expressão séria e mantinha seus olhos fixos em .

— Foi apenas sexo casual, Greg. Não sabia que você se apaixonava na primeira foda — sussurrei em um tom provocativo no seu ouvido.

Ele me olhou brevemente e voltou a encarar .

— Ele só te beijou, mas eu… — Ele esfregou as mãos, com um sorriso maldoso nos lábios e deixou a frase no ar.

— Escroto.

— E aliás, não me importo. É assim mesmo que vadias fazem. — Ele me olhou com desdém

Eu soltei um riso debochado.

— E o que eu falo sobre você, Santíssimo Gregory Woods? Devo dizer o que você é?

— Eu pego quem eu quiser, — respondeu e deu de ombros, voltando a olhar para frente.

— Ótimo. Por que eu também pego quem eu quero e na hora que eu quiser. E se eu quiser foder com dois, ou três garotos ao mesmo tempo, eu vou! Homem nenhum manda em mim — exclamei indignada.

Então, finalmente percebi que todos me encaravam.

— Olha, se pensa em fazer isso mesmo, eu aceito participar, . — Connor disse e começou a rir.

— Opa, minha namorada adoraria também — O tal Trevor comentou em meio aos risos.

E o resto da rodinha foi rindo e concordando com o que eles comentaram. Gregory revirou os olhos e virou-se para conversar com a garota que ele beijou. Ignorando completamente minha presença ao seu lado.

Me levantei e imediatamente as risadas pararam.

— Sabe de uma coisa, quero que todo mundo se exploda! — Dei o dedo do meio e saí pisando duro pela sala.

✩✩✩✩✩
Fazia longos minutos que eu estava andando pelo escuro e deserto de alguma rua qualquer. Eu estava perdida. Merda.

Chuviscava e alguns raios iluminavam a noite. Tirei meus saltos e optei por andar descalça mesmo.

Eu estava perdida e, para completar, não havia nenhuma pessoa andando pela rua. Uma buzina de um carro me despertou. Olhei para trás e encontrei um carro preto. Forcei minha vista e reconheci o carro. A famosa Mustang de . O vidro se abaixou e o rosto de apareceu.

— Entra aí.

— Não. — Ignorei e continuei andando.

— Vai chover, garota.

Olhei para o céu e quis xingar todos os palavrões existentes.

Por que tinha que fechar o tempo justamente agora?

— Vai esperar um meteoro cair na sua cabeça? — debochou.

— Vai debochando, bad boy.

Ele fez um gesto para entrar no carro. Eu cedi e entrei. No mesmo momento, o lugar mudou de temperatura por causa do ar condicionado. Me acomodei no assento e joguei meus saltos no banco. Então, percebi a presença de Connor no carro. Ele sorriu e balançou a cabeça.

— Você é difícil, hein.

— Diga uma novidade, Connor. — falou .

— O Senhor nervosinho não quis te levar embora, então eu tive que me responsabilizar por isso. — Connor ignorou o comentário do amigo e virou seu corpo para me olhar.

— Ah claro! Obrigada pela gentileza — ironizei.

Nunca na vida os Halteres ajudariam alguém sem nenhuma recompensa. Mas decidi não discutir sobre isso. Não agora. Ele balançou a cabeça em concordância e voltou a sua posição anterior.

ligou o rádio e uma música de rock começou a tocar e os dois começaram a cantar juntos, ignorando completamente a minha presença.

Eu me surpreendi um pouco com a afinação dos garotos.

✩✩✩✩✩
parou o carro no estacionamento do meu condomínio.

— Agradeço pela carona, bad boys.

Connor gargalhou e negou levemente com a cabeça, sem dizer nada. Desci do carro e bati levemente a porta. Quase caí numa poça de água e ri sozinha pelo meu jeito desastrado. Então, tentei caminhar até minha casa.

Após alguns tropeços e risadas, eu finalmente encontrei minha casa. Um dos empregados liberaram minha entrada e me ofereceu uma ajuda. Dispensei e continuei andando por conta própria. Ou tentando.

Eu entrei dentro de casa e liguei o interruptor de luz e me joguei no sofá. Joguei os saltos que estavam em minhas mãos em qualquer canto da sala.

Aos poucos, minhas pálpebras foram se fechando e nem percebi quando adormeci em cima das almofadas.

✩✩✩✩✩

Heaven
Acordei com um barulho insuportável. Movi minha cabeça lentamente e apertei meus olhos com força ao sentir uma pontada no meio da minha cabeça. A dor piorou quando o barulho retornou a me perturbar. Abri meus olhos e encarei o teto branco. O barulho parecia estar mais perto dos meus ouvidos.

Apenas uma pessoa me acorda com esses barulhos infernais de panelas.

Minha querida mãe.

— Nem vou perder meu tempo perguntando o motivo de estar deitada desse jeito no sofá, Heaven — falou irritada. Eu a encarei com os olhos meio abertos.

Ela jogou as tampas da panela no chão, causando um barulho que doeu no fundo da minha alma. Gemi de dor e levei minhas mãos a cabeça.

— Você está atrasada pra escola. Levante e vá tomar um banho, você está horrível e seu cabelo parece nojento. — Ela me olhou com nojo.

Ignorei seu comentário desnecessário e me levantei do sofá. Senti outra pontada na cabeça e bufei.

— Então a noite foi boa, huh?— Perguntou com os braços cruzados. Eu dei apenas um sorrisinho forçado.

— Maravilhosa.

— Que bom pra você. Agora suba para o banho e acorde para o seu mundo real, garota.

Dito isso, ela se afastou e subiu as escadas, fazendo o barulho de seu salto ecoar pela mansão vazia.

— Que merda de dor e cabeça. Merda — murmurei. Minha cabeça doía pra caralho.

Me levantei e subi as escadas lentamente. Eu não tinha pressa para ir ao colégio e seria maravilhoso se eu faltasse. Ainda bem que faltavam apenas algumas semanas para finalmente acabar essa fase insuportável do colegial.

Parei no meio do caminho, segurando o corrimão com força. Tentei pensar na noite anterior e o porque da minha dor de cabeça infernal. Apenas me lembrava de sair com as meninas para festa de e dançar loucamente na pista de dança. E ah, beber muita bebida junto com e Greg.

— Droga, eu não deveria ter bebido — murmurei.

Se eu não lembrava da noite anterior, significava que eu tinha bebido e feito merda.

Eu espero que não seja aquela das grandes.

Retornei a andar e entrei no meu quarto.

✩✩✩✩✩
Me sentei nos bancos do corredor do colégio. A escola estava cheia. Nem parecia que ontem teve uma festa e que todos, ou a maioria, tinham bebido até perderem os sentidos. Quando eu digo isso, eu me referia à mim mesma também.

Enquanto observava a movimentação no pátio, me lembrei de um evento que aconteceria hoje. O maldito acampamento escolar!

Sinceramente, eu não estava nem um pouco animada e só de pensar que passarei três malditos dias na presença dos Halteres sinto uma vontade imensa de me jogar na frente de um carro.

Eu não estava com um bom pressentimento sobre o final de semana, é isso. O acampamento seria na cidade vizinha e, por isso, iríamos sair mais cedo do colégio e voltaríamos às duas da tarde para pegar a van.

O lugar não era tão longe. Na reunião sobre o acampamento, o diretor disse que levaria em torno de uma hora e meia e que seriam desnecessárias paradas no meio do caminho. Então chegaríamos ainda naquela mesma tarde.

Eu ainda não tinha arrumado minhas roupas e confesso que eu tinha esperanças de chegar em casa e dormir até o outro dia. Mas minha mãe faria questão de me acordar e me levar até o acampamento.

Apenas para me manter longe dela. O que era bom, quanto mais longe, melhor. Senti vontade de sair correndo quando avistei Gregory e seus patetas, vulgo os Halteres, passando pelo corredor.

Eles nem pareciam cansados pela noite anterior!
Greg foi o primeiro a me ver, em seguida Connor e por último, .

olhou brevemente e desviou o olhar de mim. Estranhei seu comportamento. Normalmente ele abriria um sorrisinho de lado ou piscaria.

Eles pararam e conversaram brevemente e se afastou, indo para dentro do colégio. Greg olhou em minha direção e sorriu para Connor, antes de começar a andar. Connor ficou no mesmo lugar, parado, mexendo em seu celular.

— Bom dia, minha linda. — Greg aproximou-se e sorriu. — Dormiu bem?

Eu forcei um sorriso no rosto.

— Bom dia, dormi sim. — franzi a testa, estranhando sua pergunta.

Ele gargalhou.

— A noite foi maravilhosa, não acha? — perguntou, concordei com a cabeça. — O que fizemos foi… intenso?

— O que fizemos? — Me assustei com o rumo daquela conversa. Ele me encarava com um olhar divertido.

— Selvagem? Gostoso? — ele continuou, enquanto olhava para cima e fingia pensar — Delicioso? Loucura?

Me levantei rapidamente e parei em sua frente.

— Não me diz que nós… — Eu não podia acreditar! Eu realmente queria que aquilo fosse uma piada.

— Sim, nós fizemos aquilo — ele falou com um sorriso largo nos lábios. Inclinou levemente a cabeça para o lado, enquanto me encarava. — Não se lembra, minha linda?

Eu estava sem reação.

— Caralho, me decepcionou agora. — Ele colocou a mão sobre o coração e fez uma cara de decepção. — Heaven… Heaven…

Eu dei um passo para trás, completamente confusa sobre o que ouvi.

— Você está brincando, não está?

— Não mesmo. — Ele negou com a cabeça.

— Merda, Gregory! — exclamei irritada. — Caralho, eu tava bêbada! — Me aproximei de seu corpo e dei um soco em seu peito.

Ele continuava com seu sorriso no rosto e as mãos dentro da calça jeans.

— Você não acha isso loucura? Por que está tão calmo, babaca?

— Já aconteceu, o que posso fazer agora? — Deu de ombros.

— Merda, você pelo menos usou camisinha? — perguntei.

— Claro! — ele me olhou seriamente. — Não sou doido de transar sem proteção.

— Nem eu. Ter um bebê é a última coisa que eu quero nesse mundo, principalmente com você, seu idiota.

— Penso o mesmo que você, Heaven. — Ele aproximou-se, tocando meus ombros. — Mas agora, eu preciso te mostrar um coisa.

— Que coisa, Greg? — Tentei soar calma, mas minha voz saiu num tom impaciente.

— Calma, amor. Vem comigo, que você não irá se arrepender. — Ele estendeu sua mão em minha direção. — Vem ou não?

Olhei em volta, em busca de Olympia ou Amber.

— Minhas amigas ainda não chegaram.

— Vocês podem conversar depois. Agora, quero você toda para mim.

Olhei novamente ao redor e para sua mão estendida. Eu sentia como se uma parte dentro de mim, gritasse para não ir, porque seria um grande erro, e a outra parte estava curiosa para descobrir o que ele tinha para mostrar.

— Não confio em você. — respondi.

— Ah, . — Ele sorriu em deboche. — Ontem a noite você parecia ter confiado em mim.

— Eu estava bêbada!

— Não importa. Agora, vamos?

— O que você vai fazer comigo? — perguntei hesitante. Eu não confiava em Gregory, e eu tinha motivos suficiente para isso.

— Primeiro, você irá relembrar da melhor noite da sua vida. — Ele se aproximou. — Depois, você irá para o paraíso, novamente. — Seu corpo parou ao meu lado e ele inclinou sua cabeça, fazendo seu lábios tocarem minha orelha. Um arrepio subiu por todo o meu corpo no mesmo instante.

— Então, esperarei você pedir por mais, Heaven.

Um sorriso surgiu em meus lábios. Eu queria gargalhar de sua cara. Gregory Woods era tão confiante de si próprio, que dava dó. Eu também me perguntava, se existia uma pessoa mais egocêntrica do que ele.

— Você ri, mas no fundo, sabe que eu posso fazer isso. — Ele continuava sussurrando no meu ouvido. — Se você se lembrasse de como gemeu meu nome ontem à noite, minha linda.

Dei um passo para trás, me afastando completamente de seu corpo e sua voz rouca no meu ouvido.

— Gregory, estamos em um colégio e não seria apropriado e…

— Você pensa demais, minha linda. Ninguém vai notar que sumimos por alguns minutos, te garanto. — Ele sorriu confiante.

Meu corpo vibrou em excitação pela proposta feita. Eu nunca tinha feito algo tão inapropriado no colégio, e pensar na adrenalina de ser pega por alguém fazia a experiência ficar mais interessante.

E ainda tinha uma parte de mim que queria relembrar a noite anterior com Greg. Droga!

Eu concordei levemente com a cabeça e Greg sorriu. Ele pegou em minha mão e saiu andando entre as pessoas. Eu sabia que estava entregando minha mão ao diabo, diretamente ao rumo do inferno. Greg Woods causava isso em mim. Como se sempre que eu estivesse com ele e concordasse com suas loucuras, sempre seria um grande erro.

Passamos pelo corredor onde ficavam os armários e entramos no corredor da sala dos professores.

— Greg, aqui…

— Shiu — ele sussurrou e pressionou seus dedos nos meus lábios.

O corredor estava vazio e silencioso. Provavelmente os professores estavam na sala de aula, organizando suas aulas. Segui os passos de Greg, ainda com minhas mãos entrelaçadas com a sua. Ele parou na última porta do corredor. Olhei para a placa platinada escrita com letra douradas a palavra: Limpeza.

Deixei uma risada escapar. Imediatamente, Greg me repreendeu com um olhar.

— Desculpa — sussurrei, segurando o riso.

Ele revirou os olhos e abriu a porta. Não tive tempo de perguntar como ele conseguiu abrir a porta que somente os funcionários tinham acesso pois ele me puxou rapidamente para dentro da sala e fechou a porta e, em apenas um movimento, ele grudou seus lábios nos meus.

Eu gemi baixinho ao sentir sua língua dentro da minha boca. Ele me beijava com intensidade e segurava minha cintura com força.

Suas mãos desceram para a minha bunda e ele apertou. Ele me empurrou contra a parede e continuou o beijo. Nesse momento, eu já estava rendida as sensações que sua boca causava no meu corpo.

— Não podemos demorar — eu sussurrei ofegante contra seus lábios. Ele assentiu freneticamente e roçou seu corpo contra o meu. Um gemido baixo escapou de seus lábios.

Eu desci o zíper de sua jeans e abaixei sua calça. Ele pegou sua carteira no bolso e tirou um preservativo. Enquanto ele abaixava sua cueca até os joelhos e vestia a camisinha, eu tirava todas as peças de roupas que me impediam de sentir seu corpo.

Ele me esperou pacientemente. Joguei minha última peça de roupa no chão e o puxei pela cintura. Ele sorriu. Suas mãos passaram por minhas pernas e ele as ergueu, gemi ao sentir seu membro roçando em mim.

Ele olhou no fundo dos meus olhos, de forma intensa e lentamente me penetrou. Eu arfei e mordi meus lábios. Ele passou os dedos nos meus lábios e me beijou, sem cessar seus movimentos contra o meu corpo.

Seus lábios foram diretamente para o meu pescoço e minhas mãos diretamente para o seu cabelo. Eu os puxava quando o sentia ir mais fundo.

Ironicamente, parecíamos nos dar maravilhosamente bem no sexo.

Eu odiava Greg, mas quando ele estava dentro de mim, eu não pensava em mais nada, a não ser nas sensações que ele me proporcionava.

✩✩✩✩✩
Duas horas da tarde. Eu estava parada em frente à escola com minhas amigas ao meu lado. Elas estavam animadas e ansiosas para o final de semana. Enquanto eu queria apenas estar em casa e ficar o dia inteiro dormindo.

Amber era a mais animada de todas nós. Ela soltava uns gritos e pulinhos animados a todo momento. Eu acho que se fosse possível, ela soltaria fogos de artifícios do rab…

— MEU DEUS! — Meus pensamentos foram interrompidos com seu grito. Encarei Amber enquanto ela tinha os olhos arregalados — é um Deus grego, não é possível.

Eu revirei os olhos. Todo aquele escândalo apenas por um garoto. Aliás, por .

Faça-me o favor, Amber!

Os garotos estavam parados na porta da van escolar, com suas poses típicas de bad boys. Eles estavam vestidos com jaqueta jeans e a mesma calça preta. O único diferente era , ele vestia uma jaqueta de couro.

Desviei minha atenção dos garotos e peguei meu celular no bolso da calça jeans.

— Amiga — Amber sussurrou. Eu a encarei com o celular ligado nas mãos. — está nos observando. — Apontou discretamente para o lado.

Eu olhei por cima dos ombros. Flagrei o momento em que desviou seus olhos do nosso grupo.

— Disfarça, pelo menos. — Amber me cutucou com as pontas dos dedos na minha barriga.

— Ah, Amber. Esqueça esses garotos, por favor.

— Eu preciso ficar com nesse final de semana, Heaven. — Seus olhos se arregalaram levemente, ao enfatizar a palavra.

Eu cruzei os braços e concordei.

— Ok… Então, boa sorte. Você sabe muito bem que é o pior tipo de ser humano quando se trata de amor ou dar atenção à alguma garota.

Ela me olhou com deboche. Suas sobrancelhas estavam arqueadas e seus lábios formaram um sorriso.

— Eu não o amo. Então não preciso desses alertas idiotas. — Revirou os olhos e sorriu.

— Tudo bem. — Abri meus braços num gesto de derrota e guardei meu celular no bolso. — Do mesmo jeito, boa sorte.

Ela sorriu e assentiu em concordância. Olympia guardou seu celular na mochila e cruzou os braços.

— Você irá se arrepender, Amber — disse Olympia em um tom cuidadoso. Amber olhou para as unhas, ignorando o aviso da minha melhor amiga.

Olympia me encarou e eu apenas dei de ombros.

— Ali, abriram a van. Vamos! — disse Amber, antes de caminhar em direção da van escolar.

— Vamos? — Olympia perguntou. Concordei e coloquei a outra alça da minha mochila nas costas.

Começamos a andar em direção à van, consequentemente, ao os Halteres. Os três estavam na entrada da van com um sorriso largo no rosto.

Olhei para o chão, na intenção de passar despercebida e passei ao lado deles. Mas então, uma mão forte e gelada rodeou meu braço. Imediatamente, parei de andar.

— Guarde um lugar para mim, linda — Gregory sussurrou no meu ouvido. Eu ainda estava de costas. Pelo canto de olho, avistei os pés de Olympia, ela estava parada atrás de mim.

— Ok, Gregory — sussurrei de volta. Retirei suas mãos de meu braço e entrei dentro da van.

Procurei por algum acento e me sentei nos bancos do fundo. Olympia sentou-se ao meu lado.

— Você vai mesmo aguentar mais de uma hora ao lado do Greg? — perguntou. Seu rosto estava contorcido em uma careta.

— Não tenho escolha, amiga — respondi. Ela abriu a boca para dizer algo mas a fechou. Em seguida, concordou com a cabeça.

— Verdade. Me esqueci dessa maldita aposta. Então, vou procurar outro lugar para mim, boa sorte. — Ela deu dois tapinhas no meu ombros antes de se levantar.

Olhei para o vidro ao meu lado. Do lado de fora, me encarava intensamente. Ele parecia observar meus movimentos atentamente. Como se fosse normal encarar alguém daquele jeito. Principalmente do jeito que ele me olhava.

Retribui seu olhar. Gregory e Connor estavam ao seu lado e conversavam entre eles, mas não parecia disposto a participar daquela conversa.

Então, acenei em sua direção e sorri. Aquele gesto pareceu o incomodar, porque no mesmo segundo, Gregory tornou-se sua atenção principal.

estava estranho. Ele nunca me olhou daquele jeito antes. Tudo estava muito estranho.

Mas tirei aqueles garotos da minha cabeça e peguei meu celular e fone de ouvido. Abri minha playlist de música pop e coloquei no modo aleatório. Logo, a voz da Katy Perry invadiu meus ouvidos e os Halteres já não faziam parte dos meus pensamentos.

✩✩✩✩✩
Minha felicidade não durou muito, pois minutos depois meus fones de ouvidos foram retirados e senti um beijo na minha bochecha. Eu encarei Gregory ao meu lado.

— Tá animada, minha linda?

— Não muito.

— Ah, que isso! Vai ser o melhor acampamento, eu sinto isso — falou. Eu apenas concordei.

Por que no fundo eu sentia ao contrário. Aquele seria o pior acampamento da minha vida.

Heaven
Quarto horas da tarde. Finalmente tínhamos chegado ao acampamento. A primeira coisa que eu fiz foi descer do ônibus, em passos apressados. Greg me chamou várias vezes, mas eu o ignorei.

Procurei por algum quarto e guardei minha mala. Olympia conseguiu me encontrar e deixou suas coisas no quarto. Descemos para o andar de baixo e fomos até cozinha. Mas o cômodo estava muito cheio e demos meia volta.

Então Olympia e eu, nos sentamos na grama do jardim. O quintal da casa era enorme e tinha um jardim lindo.

Eu me deitei na grama e tampei meu rosto com o braço por causa do sol.

— Onde está Amber? — perguntei para minha melhor amiga. Ela estava sentada, com um olhar fixo para a grama.

— Ela disse que procuraria um quarto.

— Pensei que ela iria ficar com nós — eu disse.

— É, mas ela está cheia de gracinha com a Kim. Você sabe, ela quer atenção de um dos Halteres e nada melhor do que grudar na chefe das líderes de torcida. — Ela revirou os olhos.

— Na verdade, ela só fica com as pessoas que traz algum benefício ou a ajude na sua reputação de merda.

— Concordo. Você vai ver, ela vai ficar com a Kim o final de semana inteiro, e depois, voltará a conversar com a gente, como se nada tivesse acontecido.

Eu concordei.

— E aliás, um menino que estava ao meu lado dentro da van disse que a fogueira será hoje à noite.

— Não seria amanhã à noite?

— Sim, mas amanhã vai ter algumas atividades para os alunos.

— Ah, não. — Neguei com a cabeça.

— É, e você precisa se acostumar a praticar exercícios físicos, Heaven… é ótimo para a saúde.

— Nunca vou me acostumar com essa rotina louca, infelizmente, sou uma sedentária.

Ela gargalhou. Levantou-se da grama e estendeu a mão para mim.

— Vamos comer alguma coisa.

Peguei em sua mão e tomei impulso para levantar.

✩✩✩✩✩
A casa estava um caos. Não havia mais de 60 pessoas no acampamento, porque o diretor selecionou a dedo quem merecia ir. Então ele teve a maravilhosa ideia de juntar todos os 3° anos e nos mandar para esse fim de mundo.

Eu não estava reclamando, a casa era grande e bonita, mas eu pensei que iria ficar no meu lugar, em silêncio. Mas não, a casa parecia uma bagunça. Caminhei até a cozinha para pegar um copo de refrigerante – o diretor tinha proibido bebidas alcoólicas. Voltei com o copo em mãos e caminhei para fora da sala em direção à fogueira.

O clima estava muito bom, a música acústica fazia o ambiente ficar mais harmônico. Senti uma brisa fresca em meu rosto e fechei meus olhos, aproveitando a sensação.

Eu estava me sentindo leve. E o surpreendente nisso, era que eu não precisava de nenhuma bebida para sentir-me assim.

Abri meus olhos e dei de cara com seus olhos brilhantes pelo fogo da fogueira. Ele me encarava do outro lado, e em seu rosto não havia nenhuma expressão.

Gregory estava com um copo em mãos e um capuz na cabeça. Ele desviou seu olhar e conversou com a loira ao seu lado.

Kimberley Lewis, a capitã das líderes de torcida estava ao lado de Gregory e sorria abertamente.

Desviei meus olhos daquela cena e olhei ao redor. Amber caminhava em minha direção com um copo em mãos. Ela sorriu ao me ver e aproximou-se. Eu sorri fraco.

— Problemas no paraíso, amiga? — Indicou discretamente em direção a Greg. Eu suspirei e concordei. — Ainda não pegou ele?

— Já fiquei com ele — falei. Ela bebeu sua bebida enquanto me olhava atentamente. — Duas vezes, se quer saber.

Ela arregalou os olhos.

— Tá brincando comigo? — exclamou surpresa. Eu neguei e cruzei meus braços. — Porra, amiga! Ai sim! Eu sabia que você conseguiria facilmente. Eu já tô pensando em tudo o que eu preciso falar para a tia . Mas, então porque o babaca tá dando mole pra Kim? — Ela apontou para o outro lado, onde eles estavam sentados.

— E você não conhece o jeito dele, Amber? Você acha mesmo que ele iria ficar apenas comigo? Ele é Greg Woods e pega quantas quiser.

— Você não se sente incomodada com isso? Em ser a segunda opção, ou melhor, a pessoa que ele come quando quer? — ela perguntou.

— Ele não me come quando quer, Amber. — Eu me senti ofendida com essa frase. Descruzei meus braços e dei um passo em sua direção.

Nossos rostos estavam próximos e era isso que eu queria. Ela precisava olhar em meus olhos e ver o quão séria eu estava sendo.

— Ficamos juntos, mas isso não o impede de ficar com outras garotas e vice-versa. Não sou marmitinha pra macho não. Muito menos segunda opção. Se ele está dando mole pra loira ali, problema é dele.

Ela segurou uma risada e deu um gole na sua bebida.

— Você tem certeza que não é marmita pra ele? Afinal, ele tá com a Kim nesse momento e depois?

Silêncio.

— Aposto que depois, você será a próxima, não é mesmo? — indagou. Sua expressão era de divertimento e aquilo me irritou profundamente.

Ela estava me irritando e sabia disso. Decidi ignorar e afastei-me.

— E porque se incomoda com isso, Amber? Se arrependeu da aposta? Tá com ciúmes, por que eu fiquei com ele e você não?

Ela jogou o copo de plástico no chão e me olhou furiosa.

— Eu fiquei com ele sim. — Eu a observei atentamente. E não segurei o riso.

— Está com ciúmes — afirmei entre os risos. Ela se aproximou e segurou meus ombros. Parei de gargalhar e a encarei seriamente. — Você não pensa em tocar em mim, Amber.

— Você está me irritando, — ela sussurrou.

— Você me irritou primeiro, quem mandou me incomodar com esse papo de segunda opção?

— Eu falei a verdade.

— E eu também. — debati. Me desvencilhei de seu aperto em meus ombros. — Você está com ciúmes e não assume isso mas tudo bem, eu apenas vou te avisar uma vez, Amber. Nunca mais insinue que eu sou puta novamente, está entendido? O que eu faço ou deixo de fazer não importa porra nenhuma!

Passei as mãos pelo meus fios de cabelos e respirei fundo. Amber me encarava com ódio.

— Posso saber que merda está acontecendo aqui? — Olympia apareceu em nossa frente. Seus olhos estavam arregalados. — Que merda tá acontecendo, Amber? — Ela lançou um olhar irritado para a loira em minha frente.

Amber bufou e deu de ombros com uma expressão inocente. Eu a encarei indignada. Nesse momento, as pessoas nos olhavam com uma certa curiosidade.

— E , nossa aposta está terminada — ela praticamente berrou.

Todos ao redor nos observou com curiosidade.

— Ah, e agora, aprenda as consequências e volte para sua clínica de reabilitação.
— ela gritou novamente.

Que porra…?

As pessoas me olharam chocadas. Amber simplesmente contou meu segredo na frente de todo mundo. Eu estava chocada demais para acreditar que tudo aquilo estava realmente acontecendo.

As pessoas se aproximavam de nós.

Eu me senti humilhada. Traída. Cansada mentalmente.

— Não sabiam? — Ela fez uma expressão surpresa, gargalhando, em seguida. — Heaven já passou por uma reabilitação, gente. Quem diria que a herdeira de , era uma alcoólatra e viciada em drogas.

Meu coração batia acelerado. Minhas pernas tremiam. Eu sentia meu corpo ficar tenso. Eu não estava acreditando no que Amber, minha amiga que eu sempre confiei, revelou o meu segredo diante de todos.

— Ah, ninguém nunca imaginou, não é? — Ela me encarou por uns segundos antes de sorrir maldosamente. — Mas eu acho que Heaven não é tão perfeita. Aliás, não passa de uma drogada e alcoólatra, né. Quantas vezes você já cheirou seu pó hoje, ? — provocou.

Eu não entendia o motivo de todas aquelas palavras maldosas. Ela sabia que eu havia superado meus vícios. Eu não cheirava e nem bebia. Ela sabia disso.

Então, por que ela estava me humilhando desse jeito?

Meus olhos ficaram marejados e por um momento, eu pensei que choraria na frente de todos. Mas Greg parou em minha frente com uma expressão de choque em seu rosto.

— Isso é verdade?

Eu não consegui respondê-lo. Saí correndo para dentro da casa, mas uma mão forte segurou-me pelo pulso.

Gregory tentou me puxar em sua direção.

Eu estava acabada e não queria falar com ele. Eu queria ficar sozinha e esquecer essa humilhação. Há tantos anos que eu tentava, todos os malditos dias da minha vida, superar o meu passado, para me tornar uma pessoa melhor. Mas, com tudo que eu estava sentindo, eu cheguei a conclusão de que não serviu para nada.

Era como se eu tivesse tido uma recaída. Ninguém nunca soube dos meus vícios além da minha mãe, Amber e Olympia. Agora todos sabiam.

Todos.

— Acabou tudo o que tivemos, Gregory… Só me esquece — eu sussurrei. Ele arregalou os olhos e tentou me puxar para perto de seu corpo. — Não, não, Greg. Não me procure mais — falei devagar.

— Mas…

— Por favor… — sussurrei. Eu estava com o choro preso na garganta. Eu queria chorar. — Tchau, Greg.

Eu corri o mais longe o possível das pessoas. E finalmente, eu pude chorar. Eu chorei por muito tempo. E então, decidi ir embora daquele lugar. Eu queria esquecer aquele dia. Esquecer Amber. Esquecer Gregory.

✩✩✩✩✩
1 mês depois.

Depois daquele dia no acampamento, Greg e eu não nos vimos mais. E eu tinha cortado todos os laços com a Amber. Agora eu estava diante de um grande problema.

Eu simplesmente não queria acreditar nas palavras de Olympia sobre meus vômitos e enjôos constante.

Não, não, não, não.

Nessa última semana eu não havia comido um prato de comida sem ter vomitado depois. Eu queria muito acreditar que era alguma virose e que aquele mal estar iria passar.

— Amiga, por favor, me escuta.

— Olympia, por favor. Eu não tô grávida! — exclamei, impaciente.

— Mas você não pode ter certeza sobre isso.

— Eu sei, mas…

— Heaven… É só um teste de gravidez.

— Um teste de gravidez que pode mudar completamente minha vida.

— E é por isso que você precisa fazer esse teste. — Ela entregou-me o teste e indicou o banheiro. — Vai logo. Você precisa ter certeza absoluta se está ou não.

Eu me levantei. Fui até o banheiro e fechei a porta. Eu nunca deveria ter entrado naquele banheiro com o teste nas mãos. Digo e repito: eu nunca deveria ter entrado naquele banheiro com o teste nas mãos. Por que, depois que eu saí, minha vida estava completamente destruída. Arruinada. Para sempre.

✩✩✩✩✩
Eu não estava acreditando no que meus olhos estavam vendo.

Não, não, não, e não!

Duas linhas. Positivo. Eu estava grávida.

Merda! Não podia ser real.

Meu corpo todo tremeu. As lágrimas desceram rapidamente pelo meu rosto. Eu estava desesperada e com muito medo.

Meu Deus! Eu estava grávida!

Abri a porta do banheiro e corri para os braços de Olympia. E então, chorei desesperadamente.

— Eu… tô grávida, amiga — falei entre soluços. — Não quero isso…

— Shiu. — Ela tocou carinhosamente meus cabelos. —Fica calma, eu tô aqui.

E então, eu voltei a chorar. Na minha mente estava tudo uma bagunça. Eu sentia muito medo. Medo de contar a Greg. Medo de contar aos meus pais. Medo do meu futuro a partir daquele dia. Eu só esperava acordar daquele maldito pesadelo.

Após minha crise de choro na braços de Olympia. Ela comprou mais testes e me obrigou a fazer todos. E a cada vez que eu olhava o resultado, o desespero tomava conta do meu corpo

10 testes de gravidez e todos positivos.

— Sinto muito, Heaven. — Ela me abraçou. Para ser honesta, eu nem tinha mais lágrimas para chorar. Respirei fundo e aceitei minha situação. — E não se preocupe, eu não vou sair do seu lado, prometo. — Ela beijou minha bochecha. — Precisamos fazer um exame de sangue.

— Eu não sei o que fazer da minha vida, Olympia…

— Ei, vai ficar tudo bem, você sabe.

— Gregory vai me matar.

— Se ele te matar, eu o mato também. — Ela brincou. — Ele tem que aceitar e ser homem o suficiente para te apoiar nesse momento.

— Minha mãe… Ah, não, não… — Eu dei um tapa na minha própria testa e neguei com a cabeça.

— Sua mãe precisa exercer o verdadeiro papel de mãe e te ajudar.

— Ah, claro. Quando me tratar bem, cairá métodos do céu — debochei. — Ela sempre diz pro meu pai que eu sou desse jeito por causa do meu passado.

— Não ligue pra ela. Mas e o seu pai, ele sabe sobre as drogas e bebidas?

— Não. — Abaixei minha cabeça e suspirei. — Minha mãe decidiu não contar. Quando eu fui internada, ela inventou uma mentira dizendo que eu estava fazendo um curso em outro país.

— Ah, verdade. Eu me lembro dessa época. Ela chegou a dizer isso em entrevistas também.

— Sim. Ela estava com muita vergonha de mim.

Ficamos em silêncio por algum tempo. Eu apenas estava aproveitando o seu abraço e, por um segundo, desejei que fosse minha mãe em seu lugar. Ela nunca tinha me abraçado. Eu nunca senti aquela sensação de proteção quando eu estava ao seu lado.

— Vai ser difícil, . Mas eu tô aqui, tá bom? E também, falta poucos dias para as aulas acabarem.

— Eu sei… Mas a escola não é o meu maior problema, Olympia.

Ela concordou.

— E eu nem estou acreditando ainda! — exclamei.

— E nem eu! Caramba, eu vou ser titia! — ela falou empolgada e sorriu.

— Pare com isso! Não tem nada de empolgante.

— Eu sei, amiga. Mas respira fundo e ergue essa cabeça. Você sempre superou seus problemas e agora, mais do que nunca, você precisa ser forte.

— Eu irei tentar.

Mas no fundo eu estava completamente perdida sobre o que fazer da minha vida.

Heaven
— Você tem que contar para sua mãe, Heaven — Olympia falou em um tom preocupado.

— Olympia… ela não irá aceitar. — suspirei. Eu sabia que não seria fácil ter aquela conversa com minha mãe.

Ela parou de andar e me olhou.

— Pelo menos uma vez na vida ela terá que te ouvir e entender seu lado — falou seriamente.

— Impossível, na época das drogas, ela não se importou o suficiente para saber o porquê de eu estar com aqueles vícios. Para ser honesta, eu tô com medo.

— Eu sei… — ela suspirou. Ela me abraçou pelos ombros e voltamos a caminhar até o seu carro estacionado.

Havíamos acabado de sair da clínica onde eu fiz meu exame de sangue. Eu confesso que ainda tinha esperanças de tudo ser apenas uma confusão e que eu não estava grávida.

— E ainda tem o Greg — acrescentei.

— E eu espero que ele não seja tão babaca com você.

— Eu também, amiga.

Entramos dentro do carro e ela dirigiu até a minha casa.

✩✩✩✩✩
Cheguei em minha casa, sem a presença da minha amiga. Olympia tinha aula de música, e por isso, não poderia passar o dia comigo.
Subi as escadas, e fui em direção ao meu quarto. Abri a porta e me surpreendi ao avistar minha mãe sentada na minha cama, de costas para mim.

— O que faz aqui? — perguntei e fechei a porta. Caminhei lentamente em sua direção.

Reparei em como ela respirava rapidamente. Suas costas subiam e desciam em um movimento rápido, eu estranhei. Quando pensei em me aproximar, ela levantou-se bruscamente. Me assustei e dei um passo para trás.

Ela virou-se para mim, seu rosto estava vermelho e molhado. Ela estava chorando?
Ficamos nos encarando por alguns segundos. E então eu percebi algo em suas mãos. Algo que ela não deveria ver.

O meu teste de gravidez estava nas mãos de .

Eu congelei. Um sentimento de medo tomou conta do meu corpo inteiro.

— Você pode me explicar que merda é essa? — ela gritou e jogou o teste em minha direção. Eu observei o teste caído aos meus pés e fiquei em silêncio.

Eu não sabia como começar a falar. Eu simplesmente não conseguia abrir minha boca.

— Responda, ! — gritou novamente. — Eu quero explicações, garota!

— Eu não consigo… — eu sussurrei.

— Não consegue? — ela riu sarcástica. — Faça-me o favor, ! Quem é o pai dessa criança?

Eu não a respondi. Não sabia o motivo mas eu estava envergonhada. Eu estava com muita vergonha de mim mesma. Por que eu fui tão burra de cair nos encantos de Gregory?

— Ou você não sabe quem é o pai? — ela riu novamente.

— Um garoto do colégio — minha voz saiu fraca.

— Ah… ele sabe sobre esse bebê?

— Não… ninguém sabe e…

— Perfeito! — ela sorriu. — Você irá abortar esse bebê e não contará nada para ele, entendido?

— Como? — perguntei, um pouco chocada.

— Você me ouviu bem, . Amanhã mesmo você irá abortar esse bebê — ela disse com um olhar de desdém.

— Você ficou louca? — Eu me exaltei. Meu coração batia acelerado e o sentimento de vergonha havia sumido. Eu sentia raiva.

— Não. E eu estou mandando você fazer isso.

— Mas você não pode decidir isso por mim.

— Ah, minha filha. Eu posso muitas coisas e, se eu quero que você aborte, você irá abortar. — Ela aproximou-se, enquanto me encarava com raiva.

— Eu não vou fazer isso. — Sai correndo o mais rápido possível do meu quarto. Porém, meu corpo chocou-se com algo grande, fazendo-me cair de bunda no chão.

— Heaven…

Eu olhei assustada para o garoto em minha frente. O que ele fazia na minha casa?

— Corey… O que você faz aqui? — perguntei. Ele estendeu a mão em minha direção e me ajudou a levantar.

— Queria te ver. — Ele sorriu, tímido. — Você não foi ao teatro hoje.

— Eu não estava me sentindo bem — menti.

— Mas está melhor? Como você está? — ele perguntou com um olhar preocupado e tocou meus ombros.

— Estou melhor, sim. — Forcei um sorriso. Ele concordou com a cabeça, um pouco aliviado. — Mas acho melhor você ir embora, não é um bom momento.

— Mas eu acabei de chegar — falou num tom decepcionado.

— Eu sei, mas… eu estava de saída. — Tentei ser educada e não mandá-lo para fora da minha casa.

— Ei, nós podemos tomar um sorvete. Se você está de saída, podemos sair juntos, eu te faço companhia.

— Corey… eu…

— Por favor… — ele pediu, e eu não resisti aos seus olhos claros e concordei.

— Tudo bem. Vamos tomar um sorvete.

✩✩✩✩✩
— Você tem certeza que está bem, Heaven? — Corey perguntou, despertando-me dos meus pensamentos.

Eu não respondi, apenas balancei a cabeça levemente.

— Você está tão distante e estranha… — Ele estreitou os olhos.

— Não, é apenas sua imaginação, Corey. — Sorri fraco. — Eu tô bem, muito bem — reforcei, sorrindo.

— Você sabe que pode conversar comigo, né? — perguntou. — Digo, somos amigos não somos?

— Eu acho que sim? Somos amigos, Corey?

— Claro, eu adoro você!

— Ah, eu… eu também — eu disse.

Ele me olhou com os olhos brilhando e eu percebi sua mão aproximando-se da minha, por cima da mesa. Rapidamente, eu retirei minha mão da mesa, para ele não tocá-la.

— E… — Ele disfarçou sua verdadeira intenção e pegou um guardanapo e limpou seus lábios. — E como vai na escola? Falta alguns dias para você se formar, não é?

— Sim! — eu exclamei radiante. A ideia de me formar e me livrar da escola era maravilhosa. — Não vejo a hora de acabar essa fase da minha vida.

— Mas depois vem a fase complicada… Mais responsabilidades, emprego, filhos, casamento…

— Eu não penso em me casar — eu respondi, rapidamente.

— Não? — ele perguntou, surpreso.

— Não. Não me vejo ao lado alguém minha vida inteira. Na verdade, não acredito em uma amor eterno — comentei casualmente. Comi uma colherada do meu sorvete e dei de ombros.

— Nossa! Você não acredita no amor?

— Nunca amei ninguém. Não sei se acredito.

— Entendi. — Ele concordou com a cabeça, e comeu seu sorvete de chocolate.

Ficamos em um silêncio confortável por longos minutos. Acabei meu sorvete e peguei meu celular para me distrair. Mas não tinha nada de interessante e o guardei.

— Hum… E como vai sua vida, Corey? — perguntei, tentando parecer interessada.

— Hã… Bem. Eu recebi duas propostas de um comercial e de uma série teen para a TV britânica — ele comentou, casualmente. Eu arregalei os olhos, surpresa. — Eu vou aceitar todas elas, mas antes, preciso me organizar.

— Que bom. Eu espero que você faça muito sucesso, Corey.

— Obrigada, e digo o mesmo pra você, depois da nossa peça, aparecerá muitas oportunidades para você também. Heaven, você se tornará uma estrela do cinema, acredite nisso. — Ele piscou.

Eu sorri, tímida. Mas no fundo, eu sabia que aquilo não iria acontecer. Eu estava grávida e minha carreira como atriz estava definitivamente acabada.

Engatamos uma conversa animada sobre o futuro e tudo mais. Foi bom para mim, por um momento, eu sonhei com um futuro que nunca aconteceria. E Corey era mais divertido do que eu havia imaginado.

— Então… Obrigada! — eu agradeci, enquanto retirava o cinto de segurança.

— A nossa noite foi…

— Agradável — eu me apressei em responder.

Agradável — ele repetiu, com um sorriso no rosto. — Er… quando nos vemos novamente?

— Como assim?

— Heaven… — ele se ajeitou no banco, aproximando-se de mim. Ele esticou seu braço e tocou minha bochecha. — Eu gosto de você, e… eu queria ter mais momentos… como esse.

Eu estava perplexa demais para respondê-lo. Eu não era boba, eu desconfiava de seus sentimentos em relação à mim. Mas ouvir ele dizendo, era completamente diferente.

— Corey… — eu sussurrei. Ele era um ótimo garoto e, sinceramente, eu não queria decepcioná-lo. — Eu não…

— Não precisa responder. Eu não estou pedindo para retribuir meus sentimentos, mas eu quero apenas uma chance de mostrar que eu… —Ele parou por um momento e pensou em uma palavra. — Eu… eu… Sou uma boa pessoa pra você.

— Eu não sei o que dizer… — Fui sincera. Me aproximei de seu rosto e beijei sua bochecha. — Mas obrigada pela sinceridade em compartilhar isso comigo.

— Eu realmente gosto de você — ele disse sorrindo.

Eu concordei, querendo dizer que eu tinha entendido e abri a porta do carro.

— Até breve, Corey — eu disse. Fechei a porta do carro. Ele baixou o vidro e despediu-de mim.

— Te vejo por aí, Heaven.

Eu sorri. Girei nos calcanhares e caminhei para dentro de casa.

✩✩✩✩✩
Eu acordei com uma enorme vontade vomitar. Respirei fundo para não pirar e coloquei na minha cabeça que eu deveria me acostumar com aquilo. Após alguns minutos dentro do banheiro, desci para a cozinha. Minha mãe estava tomando café da manhã. Algo que eu estranhei. Ela nunca tomava café da manhã em casa, e muito menos estava presente no período da manhã em casa.

Caminhei até a mesa e sentei-me.

— Bom dia, — ela disse, sem tirar os olhos do jornal em suas mãos.

— Bom dia — respondi, por educação.

Me servi com apenas uma fruta e um suco de laranja. Eu estava faminta. Dei uma mordida na maçã.

— Por que está ainda em casa? —perguntei, após mastigar a fruta.

— Irei te levar até uma clínica, você vai tirar esse bebê da barriga — respondeu friamente, sem olhar para mim.

Eu parei de comer e fiquei em silencio, apenas absorvendo o que ela havia dito.

— E você nem pense em negar.

— Você não pode fazer isso. — Eu me levantei da mesa e bati minhas mãos na mesa. — Eu não vou abortar!

Ela abaixou o jornal e abriu um sorriso sarcástico.

— Você realmente quer ter um filho com 18 anos, ? — Ela arqueou suas sobrancelhas. — Você tem um futuro brilhante como atriz, tantas oportunidades irão surgir e meu nome ainda pode te ajudar com isso. Você será a nova celebridade . — Ela levantou-se e se aproximou de mim, seus dedos tocaram o meu rosto, de um jeito estranhamente carinhoso, mas que apenas me fez sentir nojo.

— Um filho atrapalharia sua vida para sempre. Pense bem. — Ela piscou.

— Não preciso pensar, eu já tomei minha decisão. — Afastei-me de seu toque. — E pela primeira vez na minha vida, eu não irei te obedecer, .

— Ah, não? — ela debochou. — , eu não vou continuar essa discussão, está decidido e você irá abortar — disse, autoritária. Ela me lançou um olhar desafiador antes de sair da cozinha.

Sem pensar duas vezes, eu corri para o meu quarto e peguei uma bolsa e meu celular. Liguei para Olympia, e combinei de encontrá- la no shopping. Mas antes, eu iria visitar uma pessoa.

✩✩✩✩✩
Eu esperei por alguém me atender. Eu estava nervosa. Eu mordia a cutícula da minha unha, e andava de um lado para o outro. Na verdade, eu não tinha certeza do que eu estava prestes a fazer, mas eu precisava tomar alguma atitude. Eu sabia que poderia me arrepender, mas ele era a minha única solução. Apenas ele.

A porta foi aberta e eu reconheci a senhora que me olhava com curiosidade.

— Senhorita?

— Olá, bom dia. Gregory está em casa? — Eu sorri forçado e entrelacei minhas mãos. Em um sinal claro de nervosismo.

— Hã… Eu… Eu… — Ela olhou brevemente para dentro da casa. — Ele está ocupado e pediu para não incomodá-lo.

— Senhora, eu preciso conversar com ele. Urgentemente.

— Eu… Eu posso tentar chamá-lo, mas não acho que ele irá gostar.

— Eu posso esperar. Eu realmente preciso falar com ele.

Ela concordou com a cabeça e abriu a porta, dando espaço para entrar.

— Fique a vontade, irei chamá-lo. — Ela fechou a porta e passou por mim, subindo nas escadas da mansão.

Eu suspirei e preferi ficar em pé. Minhas mãos estavam suando e meu estômago parecia revirar. Ouvi alguns gritos e me culpei por aquilo. Greg provavelmente estava discutindo com a senhora sobre sua interrupção. Eu esperava que Greg não fosse um completo babaca e mandasse a pobre senhora embora.

Meus pensamentos foram interrompidos por barulhos de saltos ecoando na sala. Eu me virei e congelei no meu lugar.

Eu não estava acreditando!

Kimberly Lewis estava parada na minha frente com as mãos na cintura e uma expressão de deboche enquanto me olhava.

— Não tinha uma roupa melhor para vestir, ? — Sua voz aguda ecoou por toda a sala. Ela me olhou com nojo dos pés à cabeça, certamente, julgado minha falta de estilo por estar usando uma calça moletom e blusa de algodão.

Ok, eu realmente não estava acostumada a sair com roupas simples de casa. Mas eu saí com tanta pressa, que nem olhei minhas roupas.

— O que faz aqui, Kimberley? —Ignorei seu julgamento. Ela riu e rodopiou, exibindo seu corpo perfeito na sua saia justa e cropped.

— Eu estava com Greg, oras —respondeu, como se fosse óbvio. — Aliás, ele estava aproveitando desse corpinho aqui.

— Ah.

— Surpresa, ? — ela riu.

— Nem um pouco.

Ela abriu a boca para responder, mas a fechou quando viu Gregory aproximando-se.
O desgraçado nem fez questão de pentear os cabelos bagunçados ou trocar suas roupas amassadas!

— Precisamos conversar, Gregory — eu disse com seriedade.

— Sobre? — indagou, confuso.

— Apenas nós dois.

— Acho que você pode dizer na minha frente, docinho — Kim falou num tom provocativo.

— Gregory… Apenas você e eu.

— Não, a Kim está certa, eu não tenho nada a esconder dela. — Ele a abraçou pela cintura. Kim concordou e me olhou, abrindo um sorriso convencido no seu rosto.

— Vocês estão juntos? — Arqueei as sobrancelhas e cruzei os braços.

Ele não respondeu. Então, Kimberley o beijou.

— Isso pode responder sua pergunta? — ela perguntou, após o beijo. Eu reprimi minha vontade de bater em sua cara. Ou melhor, bater na cara do babaca ao seu lado.

— Você pode falar logo o que quer, eu estava muito ocupado antes de você interromper — ele disse, ríspido.

Eu engoli em seco.

— Sem a Kimberley.

— Com a Kimberley — ele insistiu.

Eu concordei com a cabeça, e respirei fundo.

— Eu estou grávida — falei rapidamente.

— Você o quê? — Kimberly perguntou, completamente chocada.

— Espera… O que eu isso tem haver comigo? Por que está dizendo isso para mim?

— Espera… Você está… Grávida? — Kimberley interrompeu ainda surpresa com minha revelação. Eu revirei os olhos e a ignorei.

— Como assim, Gregory? Não está óbvio que você é o pai?

— O QUÊ? — Kimberley gritou. Seu grito ecoou pela mansão, fazendo-me fechar meus olhos com força e Greg torcer o nariz em uma careta.

— Você só pode estar brincando — ele riu. — Como você pode ter certeza de que eu sou o pai?

— Eu não fiquei com mais ninguém nas últimas semanas. Nós ficamos juntos mais de uma vez.

— E em todas elas, eu me protegi. Você tem certeza que não é de outro cara? Assim, você fica com dezenas de homens toda semana, então…

Eu me aproximei dele. Kimberley percebeu meu olhar raivoso, afastou-se de Greg.

— Cala a boca, Gregory — falei com raiva. — Eu tenho certeza absoluta sobre o que estou dizendo.

— E o que você espera que eu faça?

— Assumir, obviamente. Ser homem o suficiente para lidar com suas responsabilidades.

— Eu não vou me responsabilizar por uma coisa que não é minha! —debateu. Eu fiquei furiosa com o modo que ele se referiu ao bebê.

Coisa? Gregory Woods definitivamente é o pior tipo de homem que existe no universo!

Em um piscar de olhos, meus dedos deixaram uma marca vermelha em seu rosto. Ele colocou as mãos na bochecha e me olhou com ódio.

— Você não fez isso — ele sussurrou.

— Você deve pensar duas vezes antes de falar merda.

, suma da minha frente. —Ele levantou a cabeça e me olhou nos olhos. — Eu não sou o pai dessa porra de bebê! Esqueça que eu existo e some da minha vida com essa coisa que você diz ter na barriga. E escute bem. — Ele me segurou com força pelos ombros. — Mesmo se eu for o pai, o que eu duvido muito, tenha um pouco de dignidade e não ouse aparecer com esse bebê na minha frente. Eu não me importo com você ou com isso aí. — Ele indicou minha barriga.

Nesse momento, meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu aguentei e engoli o choro.

— Desapareça de vez da minha vida, .

Eu não conseguia abrir a minha boca para responder. Eu estava muito indignada com tal atitude.

— Greg… Não fale assim com ela, coitada — Kimberley o repreendeu. Surpreendente, sua voz não estava carregada de sarcasmo.

— Você quer que eu repita, ? — Ele a ignorou e soltou meus braços bruscamente, fazendo-me dar alguns passos para trás. — Huh?

— Você morreu para mim, Gregory. Morreu! Eu pensava que você seria homem o suficiente para pelo menos, reconhecer que realmente é o pai, mas pelo visto, não passa de uma criança mimada e um ridículo, completamente ridículo! Você não tem carácter, Gregory — eu falei amargamente.

— Suas palavras não me afetam, . Você me ouviu muito bem e nem pensa que vou mudar de opinião, agora, vaza daqui.

Eu neguei com a cabeça, ainda sem acreditar nas suas palavras.

— Campbell! — ele gritou e, no mesmo instante, um homem alto e forte, apareceu na sala. — Retire essa garota daqui, agora mesmo — ele ordenou e me olhou com desdém.

O homem fez menção de me tocar, mas afastei-me, com vários passos para trás.

— Não toque em mim. E Gregory, você irá se arrepender, e quando perceber será tarde demais — eu disse olhando em seus olhos.

Ele deu de ombros. Então, eu saí o mais rápido possível daquela casa.

Enquanto caminhava pelas ruas, as lágrimas teimaram em cair e um soluço escapou. As pessoas me observavam com curiosidade e, rapidamente, me recuperei e limpei minhas lágrimas.

Heaven
Eu cheguei no shopping como se nada tivesse acontecido. Avistei Olympia sentada na praça de alimentação e caminhei até ela.

— Oi, amiga — eu disse, ao me aproximar. Ela sorriu e levantou-se para me abraçar.

— Oi, eu pedi um hambúrguer pra nós. — Ela sentou-se na cadeira e eu me sentei em sua frente.

— Obrigada, mas não tô com fome — eu suspirei.

— Aconteceu algo? — Ela estreitou os olhos. Eu movi minha cabeça lentamente, em concordância. — O que houve?

Eu respirei fundo. O choro ainda estava preso no fundo da garganta.

— Eu contei… pra ele. — Abaixei a cabeça e fiquei em silêncio por alguns segundos, enquanto cutucava minha unha, como distração para não cair no choro no meio do shopping. — Foi horrível, Olympia.

— Heaven… — ela sussurrou. Eu levantei minha cabeça e a encarei. — Não importa o que ele disse, eu tô aqui — ela disse olhando nos meus olhos. Seus olhos me transmitiram confiança.

— Ele… Ele disse que não é o pai do bebê. — Meus olhos ficaram marejados, e rapidamente, passei as mãos no rosto.

— Jura? — ela perguntou.

— Sim. Ainda teve a coragem de dizer que eu fico com um monte de caras por semana e que poderia ser de qualquer um, menos dele. Por que supostamente, ele sempre se protegeu e ele é burro o suficiente por não saber que camisinha e remédios não são 100% confiáveis.

— Caramba! Eu nem sei o que dizer. — Ela cobriu a boca, com os olhos arregalados.

— E quer mais? A Kimberly Lewis estava lá.

— Os dois estão ficando juntos?

— Sim. E ele deixou bem claro para mim. Greg é um imbecil!

— Eu tô indignada com tudo isso! — ela exclamou alto. Algumas pessoas a encararam assustadas. — Desculpem — ela se desculpou e soltou um riso nervoso.

— Olympia, fale baixo, por favor.

— Ok… Então, ele negou a paternidade — ela afirmou. Eu concordei com a cabeça. — Imbecil! — ela bateu as mãos na mesa.

— Olympia… — eu a repreendi. Ela passou as mãos pelo rosto e suspirou.

— Eu só… Queria que as coisas fossem mais fáceis para você.

— Eu também.

— E sua mãe? — ela indagou.

— Hã… Ela não concorda e… — Eu me remexi na cadeira. — Ela quer que eu aborte.

— O que? — ela se engasgou com o suco que bebia. — E você?

— Eu não sei… — Deixei meus ombros caírem, em sinal de derrota. Eu realmente não sabia o que fazer. — Agora, sem o apoio da minha mãe e do Gregory, eu não faço a mínima ideia do que fazer.

— Droga, Heaven! Mas você está pensando em abortar?

— Eu não sei… como eu vou cuidar de uma criança sozinha? Eu acabei de entrar na vida adulta agora.

— Amiga… Você precisa ser forte. Não é fácil cuidar de uma criança mas eu sei que você consegue. E lembra-se, eu tô aqui, você sempre pode contar comigo pra qualquer coisa.

— Eu realmente não sei como te agradecer pelo apoio, amiga. O que seria de mim sem você? — eu ri, para afastar a emoção que eu estava sentindo.

— Hum… Você continuaria sendo a mesma Heaven de sempre, forte e poderosa — ela riu. — Mas sério, eu vou te ajudar.

— Obrigada.

✩✩✩✩✩
Cheguei em casa e subi diretamente para o meu quarto. A porta estava a aberta e estava em pé, observando o céu pela janela.
Eu entrei e esperei ela notar minha presença. Porém, ela parecia completamente focada em seus próprios pensamentos. Fingi uma tosse e finalmente, ela virou-se para trás e me olhou.

— ela murmurou.

— O que faz aqui?

— Temos que conversar.

— Eu já disse, não irei abortar o bebê. Agora, se você me der licença, eu preciso descansar.

Ela ignorou completamente minhas palavras e sentou-se na minha cama.

— Eu tenho uma proposta para você — ela disse seriamente.

— Eu não quero ouvir o que você tem a dizer. Você é completamente louca, .

— Senta-se ao meu lado e me escute — ela pediu calmamente. — Eu entendi que você não quer abortar. O que eu tenho a dizer é realmente importante.

Eu fui obrigada a sentar ao seu lado. Eu estava curiosa sobre a tal proposta.

— Comece… — eu incentivei, após alguns segundos em silêncio.

— Então… Eu vou ser direta com você. — Eu concordei com a cabeça. — Eu não aceito sua gravidez, . Mas não vou fazer nada contra. Eu pensei e surgiu uma ideia na minha cabeça.

— Continue…

— Você irá morar em outro país, provavelmente na Inglaterra — ela disse com cautela, como se tivesse com medo da minha reação. — Mas… A mídia não ficará sabendo disso, pois eu irei forjar sua suposta morte. Você morrerá, .

— Espera, o quê? — eu perguntei, completamente confusa. Ela bufou e revirou os olhos.

— Eu vou forjar sua morte, . Ninguém da mídia pode descobrir sua gravidez e, por isso, você precisa morrer de “mentirinha”.— Ela fez aspas com as mãos. — Eu nunca vou deixar que eles descubram esse bebê, e se você realmente quer ter esse bebê, a única saída é ir embora e mentir para todos.

— Isso é loucura — eu sussurrei, incrédula.

— Não é loucura. Você só precisa ser discreta e não dar as caras por alguns anos, ou pelo menos, até eles esquecerem da sua morte.

Eu me levantei da cama e fui até a janela. Fiquei observando em silêncio o dia ensolarado. Meus pensamentos estavam à mil. A ideia da minha mãe não era tão ruim assim. Eu odiava todo aquele sucesso desnecessário e com toda certeza, eu queria viver uma vida normal.

Uma vida simples. Longe de , longe dos Estados Unidos, longe de todos.

— E como você irá fazer para dar certo? — Virei-me em sua direção. Seu rosto se iluminou e um sorriu largo surgiu em seus lábios.

— Você pegará um helicóptero e depois irá de navio. Em um certo momento, ele irá parar e você trocará de navio, e então, o navio que você deixou, irá explodir, levando a vida da minha querida filhinha. — Ela juntou as mãos ao terminar sua frase e abaixou os olhos.

— Só isso?

— Sim. O navio que te levará à Londres estará apenas com pessoas que confio e elas irão levá-la até seu novo lar. — Ela sorriu.

— E você realmente acredita que ninguém vai me reconhecer lá? — perguntei, num tom debochado. — Você é conhecida no mundo todo!

— Minha filha… O lugar é completamente afastado, e eu colocarei pessoas de extrema confiança ao seu lado. , você terá uma vida normal e viver em paz com esse… Esse bebê, não é isso que você quer?

— Eu não sei mais o que eu quero. — Eu estava completamente confusa. A ideia era tentadora e o “sim” estava na ponta da língua.

— Você não tem nada a perder.

Eu fiquei em silêncio.

Eu realmente não tinha nada a perder.

Minha vida era um inferno. Talvez morar em outro país, longe de … Seja uma ótima oportunidade.

— Eu… Eu aceito — eu falei, um pouco incerta sobre a minha resposta.

— Perfeito. Após o baile de formatura, sua vida irá mudar completamente, .

✩✩✩✩✩
No dia seguinte, eu continuei indo a escola normalmente. Eu não falei para Olympia sobre o plano da minha mãe. Eu iria contar, mas não agora.

Era a última semana de aula e todo mundo estava totalmente animado para o baile de formatura. Bom, eu não. Eu não iria ao baile. Segundo minha mãe, era uma ótima oportunidade para colocar seu plano em ação.

Olympia percebeu que eu estava estranha e me enchia de perguntas que eu não conseguia responder. Ela provavelmente desconfiava de algo. Mas ainda não era o momento certo para dizer toda a verdade.

A semana passou voando, e como num piscar de olhos, eu estava no meu último dia de aula. O dia do baile da formatura. O dia que minha vida mudaria. Olympia e eu estávamos no corredor. Ela estava ao meu lado, completamente empolgada enquanto eu guardava meus livros no armário.

— Amiga, eu tô feliz! Eu vou entrar em Harvard e você sabe, sempre foi o meu sonho — ela falou com a voz emocionada. Seus olhos estavam marejados e eu tinha certeza de que ela iria chorar no meio da escola.

— Eu fico feliz por você, muito mesmo. Você merece e espero que você seja feliz.

Ela ficou em silêncio, de repente. Eu guardei meus livros no armário e a olhei, sem compreender seu silêncio repentino.

— Eu disse algo de errado?

— Heaven… Eu não deveria estar dizendo tudo isso pra você. Desculpa. Você está passando por um momento difícil e eu tô aqui, explodindo de felicidade.

— Olympia… Pare com isso.

— Não, não. Eu sinto muito, eu queria tanto que as coisas fossem diferentes — ela falou cabisbaixa.

— Olympia, não preciso de desculpar, já aconteceu e agora não tem como voltar atrás. Como você disse, eu vou conseguir superar essa fase.

— Ah, eu te amo tanto, Heaven… — Ela me abraçou com força. Eu retribuí seu abraço na mesma intensidade.

Aquela era a última vez que eu abraçaria minha melhor amiga. Sem eu perceber, lágrimas começaram a cair dos meus olhos.

— Ei, não chore — ela sussurrou no meu ouvido. — Não chore.

Eu queria gritar e dizer que eu estava chorando por que eu iria embora e nunca mais a veria. Mas eu não podia.

— Heaven, respira. — Ela desfez o abraço e colocou um sorriso no rosto e me segurou pelos ombros. — Hoje é nossa formatura!

— Sim. — Eu forcei um sorriso.

— Você vai? — ela perguntou com os olhos brilhando em expectativa.

— Então… Eu acho que não — falei receosa. — Eu não tô legal e tenho medo de passar mal na festa — menti.

— Mas… Heaven, eu estarei lá e te ajudo, não precisa ficar em casa.

— Eu sei, mas eu não posso arriscar, né? Eu prefiro ficar em casa.

— Caramba, Heaven! Provavelmente você será a rainha do baile

— Mas um motivo para eu ficar em casa! — eu exclamei. — Sem dúvidas, Greg Woods será o rei. E eu não quero ver a cara daquela canalha nunca mais!

— Verdade, você tem razão. Agora pensando bem, quem não quer ver a cara daquele palhaço sou eu. Acho que não vou. — Ela cruzou os braços e fez bico.

— Ah, pare! Você vai sim! — Eu descruzei seus braços. — Seu vestido já está pronto e você ficou maravilhosa nele. Olympia, não deixe de aproveitar o baile por minha culpa.

— Mas eu preciso ficar do seu lado, não sei, é como se eu tivesse te deixando de lado.

— Eu não penso desse jeito. Você tem todo o direito de aproveitar a festa, por favor, vá!

— Tudo bem, tudo bem, eu vou — ela disse sorrindo.

Nós sorrimos juntas e fomos almoçar.

✩✩✩✩✩
O dia passou rapidamente. Quando anoiteceu, Olympia me chamou para ir até a sua casa. Eu iria arrumá-la para o baile. Passei uma sombra escura nos seus olhos e pintei seus lábios num tom vermelho sangue. Ela estava maravilhosa!

— E aí, eu tô bonita? — Ela girou seu corpo como um modelo, com um sorriso no rosto.

— Perfeita! — eu disse. Ela sorriu e me abraçou.

— Obrigada, amiga.

— Aproveite aquela festa por mim.

Ela concordou e afastou-se. Mas eu a segurei pelo pulso. Respirei profundamente antes de olhar em seus olhos e dizer as palavras que estavam entaladas na minha garganta.

— Eu vou embora hoje à noite, Olympia.

— Como assim? — ela perguntou, confusa.

— Minha mãe irá forjar minha morte e me mandará para outro país, ela não quer que as pessoas descubram minha gravidez e então, irei viver em Londres, como uma pessoa anônima. Não serei — falei tudo de uma vez.

— Calma aí! — Ela fechou os olhos por um momento e balançou a cabeça, sentou-se na cama, em completo estado de choque. — Você… Você vai morar em outro lugar, sem ninguém saber, mas a mídia e esses povos famosos, irão pensar que você morreu?

— Sim.

— Espera… Eu não tô acreditando! Eu… , por que aceitou isso?

— Eu não tenho nada a perder e talvez me faça bem, viver longe de todos. Eu preciso disso, Olympia.

— Mas… Pra sempre? Você nunca mais voltará? — Ela estava com a voz chorosa e os olhos cheios de lágrimas.

— Não, não. Eu irei voltar! — Me sentei ao seu lado. — Eu esperarei alguns meses e voltarei, eu prometo.

… Mas você é minha amiga, não pode me deixar.

— Você sempre ficará no meu coração, mas você precisa entender que eu realmente preciso desse tempo sozinha.

Ela balançou a cabeça, em concordância. Em seguida, me abraçou e começou a chorar. Eu não guardei o choro, e chorei em seus ombros.

✩✩✩✩✩
— Não se esqueça de mim, e me prometa uma coisa — ela disse, ainda com seus olhos cheios de lágrimas.

— Qualquer coisa.

— Me prometa que eu serei a madrinha desse bebezinho lindo e maravilhoso. — Ela sorriu, em meio as lágrimas que teimaram em cair. — Por favor…

— Não há pessoa melhor do que você para ser a madrinha do meu bebê.

Ela sorriu e abraçou-me fortemente antes de entrar no seu carro.

— Seja a estrela daquela festa — eu gritei. Ela gargalhou alto.

— Não esqueça que eu te amo muito, tá bom? Tente me ligar todos os dias, por favor.

— Eu irei! Eu te amo também, sua doida — eu disse, sentindo as lágrimas querendo cair, novamente.

Ela despediu-se com um sorriso no rosto. E eu guardei aquela imagem na minha mente. Eu estava deixando uma das únicas pessoas que realmente se importava comigo, e isso me machucou. Muito.

✩✩✩✩✩
— Você entendeu o que eu disse, ? — A voz da minha mãe saiu do outro lado da linha. Eu apenas concordei com um murmuro qualquer. — Ok, agora, boa viagem e diga tchau à , sua vida mudará a partir de hoje. Pra sempre. — Ela encerrou a ligação.

Olhei para a minha frente e fechei meus olhos, sentindo meus cabelos voarem para trás, por causa do vento que fazia. O helicóptero estava ali, esperando eu entrar para partir, rumo à Londres.

Mas por que eu sentia como se estivesse fazendo a escolha errada?

Meu coração se apertou e lágrimas desceram por minhas bochechas.

O piloto estava me esperando pacientemente dentro do helicóptero. Charlie, uma velha amiga da minha mãe, estava lá dentro. Ela iria morar comigo em Londres.

Eu suspirei. Aceitei meu destino e caminhei em direção ao helicóptero que reproduzia um barulho alto. A cada passo que eu dava, meus ouvidos doíam. O som das asas do helicóptero era o único barulho que rompia o silêncio daquela noite.

Eu abri a porta e coloquei minha bolsa em cima do banco. Eu estava pronta para entrar, quando em meio ao barulho, algo me faz parar no meu lugar. Eu tinha a impressão de escutar alguém chamando meu nome.

Neguei com a cabeça. Eu estava ficando louca, era isso. Sentei-me no banco e tive aquela impressão novamente. Por curiosidade, eu saí de dentro do helicóptero, fazendo Charlie gritar por mim.

! !

Aquela voz familiar me fez congelar no meu lugar.

Aquela voz, eu conhecia muito bem.

Mas não era possível! Não, não!

Eu estava delirando.

!

Eu andei alguns passos para frente e forcei minha visão para enxergar melhor.

— Ei, espere! — A voz gritou, novamente.

Além de estar ficando louca e ouvindo vozes, eu estava tendo alucinações. Me aproximei, um pouco hesitante, sem acreditar no que meus olhos estavam vendo.

Eu saí de casa com o coração apertado por deixar minha pequena sozinha. Mas era necessário. Ajeitei minha jaqueta de couro e guardei minha carteira no bolso da calça jeans. Subi na minha moto e a liguei. E então, dei partida, em direção ao centro da cidade.

Estacionei a moto de frente para o banco e entrei. Após alguns minutos, eu saí com o meu dinheiro nas mãos.

Hoje era o dia do baile de formatura.

E eu ainda não havia comprado meu terno. Eu precisava urgentemente encontrar um terno! Por isso, fui em direção a uma loja no centro da cidade.

Ao chegar na porta da loja, desci da moto e guardei meu capacete.

Entrei dentro da pequena loja e olhei ao redor, procurando por alguma atendente. Logo, uma ruiva de olhos azuis parou em minha frente, com um sorriso largo nos lábios.

— Olá, bom dia. O que deseja? — Ela perguntou com um olhar diferente. Eu tentei ignorar seu olhar malicioso sobre meu mim.

Não era a primeira vez que alguma garota me olhava assim, enquanto falava comigo.

— Bom… Eu preciso de um terno.

— Poxa… Mas vai casar tão novo? — Ela fez um biquinho, visivelmente chateada. — Nem aproveitou a vida de solteiro.

Eu ri levemente e neguei com a cabeça.

— Não, não. Eu vou ao baile de formatura — expliquei.

— Ufa! Pensei que eu teria mais um crush impossível — ela comentou num tom de voz, baixo.

— Então…

— Ah, sim! Ternos… Você precisa de um terno. — Ela parecia ter acordado de seu transe e deu um riso de nervoso.

— Isso!

— Tem algum em mente? — Eu neguei. Seus olhos desceram por todo o meu corpo e o canto de seus lábios levantaram em um sorrisinho de lado. — Eu tenho um perfeito pra você!

✩✩✩✩✩
Eu me olhei no espelho, me sentindo completamente diferente. Eu estava bonito e elegante. Sorri pra mim mesmo e saí do provador.

— O que achou? — perguntei para a ruiva que me encarava com os olhos arregalados.

Ela ficou em silêncio por um momento.

— Eu espero que tenha ficado bom… — rompi o silêncio e soltei um riso de nervoso.

— BOM? — ela gritou. — Você está maravilhoso! Lindo de morrer, e eu realmente queria ser sua acompanhante nessa festa.

Eu ri.

— Meu Deus! Que sorriso lindo, garoto! Eu tô tentando não parecer desesperada por um homem mas está sendo impossível com tanta beleza e sedução bem na minha frente. — Ela colocou as mãos no coração e me olhos com os olhos brilhando em admiração.

Eu apenas sorri, um pouco tímido pela intensidade de seu olhar.

— Vou ficar com esse mesmo — eu falei, enquanto analisava o terno.

— Querido, se você não comprasse esse terno, eu mesma compraria pra você — ela disse brincando. Eu gargalhei. Ela tinha um ótimo senso de humor.

Sai da loja com a sacola em mãos. Meu celular no bolso da calça vibrou, eu o peguei e reconheci o número na tela. Gregory.

— O que foi? — perguntei impaciente.

— E aí, cara? Tá ocupado?

— Não… O que você quer? — eu tentei não soar rude. Mas meu tom de voz denunciou a raiva que eu estava sentindo só de escutar a sua voz.

— Ei, calma. Eu quero apenas conversar, Connor tá aqui em casa, chega aqui também.

Eu respirei fundo, antes de concordar.

— Tô indo.

✩✩✩✩✩
— Como vai, cara? — Connor perguntou enquanto fazíamos um cumprimento com as mãos.

Eu me sentei ao seu lado no sofá e Gregory ficou em pé, nos observando em silêncio.

— Bem — eu disse simplesmente.

— Esse cara aí, quer dizer algo importante pra nós. — Connor apontou para o garoto à nossa frente. Eu observei Gregory andar em círculos. Ele parecia nervoso.

— O que tá rolando, Gregory? — eu perguntei. Ele parou de andar bruscamente.

— ele murmurou, parecendo um pouco atordoado.

— O que a gatinha fez? — Connor perguntou.

— Ah, ela passou dos limites… Ela… Ela disse que tá grávida. A vadia disse que o filho é meu, vocês acreditam? — Ele riu como se tivessem contando a porra de uma piada.

Silêncio. Connor tinha uma expressão chocada em seu rosto.
Eu respirei fundo, sem saber o que dizer ou pensar.

— E o que você fez? — Connor quebrou o silêncio.

Gregory riu e nos olhou como se fosse óbvio o que ele fizera.

— Eu disse que não era meu e mandei ela sumir da minha vida com aquela porra de criança, se realmente for verdade. Aquela garota transa com vários caras e, de repente, eu sou o pai ?

Eu me levantei do sofá e o encarei.

Que moral ele tinha pra julgar as atitudes de Heaven? Nenhuma.

Ele era apenas um cara mimado e rebelde. Um cara sem um pingo de caráter.

— Você realmente fez isso? — Eu realmente queria que ele estivesse blefando.

— Claro! Ela é uma vadia, cara. Eu aproveitei daquela corpo e da minha grana e não a quero mais — ele disse como se a garota fosse a porra de um brinquedo. Eu sentia nojo, muito nojo. Ainda bem que não participei da droga daquela aposta entre os caras.

Eu fechei meus punhos, com raiva.

— Cara, isso foi pesado — Connor disse.

— E querem saber de mais? Ela me viu com a Kim, e mano, a cara dela foi a melhor de todas! — O jeito que ele falou me fez bufar de ódio.

Eu estava nervoso…

— Você realmente deu as costas pra garota, Gregory? — eu perguntei, entre os dentes.

— Sim. Por que? Tá com pena da vadia? Pega ela e leva pra casa, então seu babaca. — Ele me empurrou com força.

Eu travei meu maxilar. Fechei meus punhos com mais força e avancei em sua direção, desferi um soco em seu rosto. Eu o acertei em cheio. Ele me olhou com os olhos cheios de ódio e revidou o soco, acertando meu olho esquerdo. Antes dele socar meu rosto novamente, eu o empurrei e comecei a atingi-lo com socos na barriga.

— Ei, ! Pare com isso! — Connor gritou desesperado, enquanto tentava nos separar.

Mas eu não parava. Meus socos estavam completamente sincronizados contra sua barriga. Ele tentava me bater mas eu o imobilizei no chão. Senti os braços de Connor tentarem me puxar, mas eu continuei com os socos. Eu estava tão furioso, que não me importaria de acabar com ele naquele momento.

Eu senti o gosto de sangue na minha boca. Nesse momento, ele revidava os socos, acertando-me no rosto. Então, o meu corpo foi arremessado para longe.

— O que está acontecendo, Woods? — O cara que me empurrou perguntou diretamente a Greg. Ele gemia de dor e não conseguia abrir a boca pra falar. — Eu terei que pedir para o senhor se retirar, por favor. — Ele olhou pra mim.

Eu concordei com a cabeça. Fechei meus olhos com força ao sentir meu corpo doer por causa do movimento.

— Antes, cuide desse machucado, Lisa — ele disse a uma senhora que observava a cena com os olhos arregalados. Em seguida, ela me ajudou a levantar do chão.

Eu gemi de dor, provavelmente meus olhos estavam inchados e meu nariz quebrado. A senhora passou os meus braços em cima do seu ombro e me ajudou a caminhar.

Eu nem olhei na direção de Gregory novamente.

De todas as merdas que ele já fez, essa foi a pior.

✩✩✩✩✩
Eu estava um pouco nervoso por causa do baile de hoje à noite.

Eu estava com esperança de encontrá-la. Eu precisava conversar com ela. Mas por que diabos eu queria fazer isso?

Balancei a cabeça, tirando a garota problema dos meus pensamentos e passei pelo portão de entrada do colégio. Eu olhei em volta, completamente encantado com a decoração do lugar. O tema da festa era o baile de máscaras.

Um homem me cutucou e me entregou uma máscara.

— Obrigado — eu agradeci.

Procurei por bebidas e sentei-me junto com os caras do time de beisebol. Eles eram meus colegas e ficaram animados ao me ver.

— Veio sozinho, ? — perguntou Travis, o capitão do time de beisebol.

— Hã… Sim, tô sozinho. — Bebi um gole de cerveja e dei de ombros.

— Então, vamos arrumar uma gata pra você!

— Não precisa, Travis. Tô de boa aqui.

— Tem certeza? — Ele estreitou os olhos. Eu bufei e concordei com a cabeça.

Continuei bebendo enquanto olhava ao redor.

Meus olhos sempre desviavam para o portão de entrada, esperando por ela chegar. Soltei um suspiro de frustração. Quase todos haviam chegado e ela ainda não estava ali.

— Travis, você sabe se a Amber e suas amigas já chegaram? — eu perguntei.

— Não sei, . Eu ainda não vi nenhuma delas.

, aquela ali não é a tal de Olympia… — Henry apontou para frente. Eu olhei com os olhos cheios de expectativas. Porém, Olympia estava sozinha.

Estranhei. Olympia e Heaven não se desgrudavam um segundo sequer.

Observei o momento em que Olympia ficou parada e abaixou a cabeça e depois limpou os olhos enquanto caminhava em direção ao banheiro.

— Eu vou pegar mais bebidas. — Levantei-me da cadeira e caminhei até o banheiro feminino.

Fiquei esperando do lado de fora por uns 15 minutos. Eu contei porque não tinha nada pra fazer. E cheguei a conclusão de que realmente algo estava errado.

A porta foi aberta e Olympia saiu. Eu a segurei levemente pelo braço.

— Você tá bem?

Ela me olhou confusa e depois, olhou em volta.

— O que você quer, ?

— Eu vi você entrando sozinha e fiquei preocupado, por que estava chorando?

Ela fechou os olhos por alguns segundos, deixando uma lágrima solitária deslizar por sua bochecha.

— Olympia… — Eu me aproximei e segurei seu rosto.

— Ela tá indo embora e eu não fiz nada para ajudá-la — ela murmurou enquanto as lágrimas deslizavam pelas laterais de seu rosto.

— Quem está indo embora?

— A Heaven… — Ela desabou em lágrimas. Eu me afastei e passei as mãos pelo os fios de cabelo.

Olympia cessou seu choro e me olhou. Seus olhos pareciam brilhar.

— Eu tive uma ideia.

— Por que ela foi embora? Pra onde?

— Você pode ajudá-la. — Ela ignorou minhas perguntas e apontou pra mim.

— Eu? — questionei, completamente confuso.

— Sim. Olha… Eu vou te explicar onde ela costuma ir quando precisa viajar.

Então, ela começou a falar sobre um lugar afastado onde sua família costumava ir, quando precisavam fazer uma viagem internacional. Pelo jeito, eles tinham uma pista de decolagem apenas para eles.

— Eu não sei se eles ainda decolam com os aviões lá, mas tente ir.

Eu concordei com a cabeça.

— E depois… Eu a levo pra onde?

— Não sei… Ela não pode voltar pra casa.

Eu pensei por um momento. Havia um lugar seguro onde Heaven poderia ficar.

— Deixa comigo, eu conheço um lugar. — Pisquei, esboçando um sorriso confiante.

— Que lugar? — ela perguntou desconfiada.

— Segredo — sussurrei.

se você estiver me enganando e for um psicopata maluco, eu…

— Você não confia em mim? — Eu sorri. Ela me olhou e revirou os olhos.

— Tira esse sorrisinho de canto dessa sua cara, comigo não funciona.

Eu gargalhei e continuei sorrindo.

— Pra ser honesta, você parece ser o mais sensato daquele grupo de babacas que você participa. Mas isso não te faz menos babaca, eu simplesmente odeio o seu jeito, escutou bem?

Eu cruzei os braços em cima do peito e concordei, com uma expressão divertida no rosto.

— E mais… Eu só estou te pedindo tudo isso porque eu não vejo outra saída, e me preocupo muito com minha amiga e o bebê.

Ela arregalou os olhos e colocou as mãos na boca.

— Eu… Eu quis dizer…

— Bebê. Heaven está grávida, eu sei. — Dei de ombros.

— Como você sabe?

— O babaca do Gregory fez questão de contar — murmurei, com ódio.

Eu ainda sentia meu peito cheio de raiva por aquele garoto.

— Hum… Então você pode ir, tipo, agora mesmo ajudar minha amiga?

— Sim, senhora. — debochei. Ela empurrou meus ombros e revirou os olhos.

— Você pode me ligar depois? Eu preciso saber se deu certo. — Ela estendeu seu celular em minha direção.

Eu concordei. Peguei seu celular e digitei os números do meu contato.

— Ah, Olympia… Não me perturbe com mensagens, por favor.

— Ah, claro. Como se eu quisesse ter uma amizade com você. Agora, vá para sua missão — ela disse num tom firme.

Eu balancei a cabeça, em concordância.

— Espero que dê tudo certo — eu sussurrei.

✩✩✩✩✩
Eu estava na estrada há alguns minutos. Eu realmente esperava que alguém estivesse naquele lugar. Pensei em Heaven e na sua situação. Eu nunca imaginaria que ela iria engravidar de Gregory.

O infeliz do Gregory Woods!

E o filho da mãe nem se importava com a garota. Eu também não era um exemplo de homem, mas o que ele fez provavelmente eu nunca faria.

Nunca.

Eu tinha meus erros, meus defeitos e minhas fraquezas, afinal, eu sou um ser humano. Mas, o que me tornava diferente de Gregory, era a vontade de mudar. Mesmo que fosse pouca. Mesmo que eu falhasse a todo momento.
Eu ainda tinha algo dentro do peito que me fazia pensar em melhorar.

Ainda existia uma certa esperança pra mim.

Eu não me orgulhava das minhas atitudes nos últimos anos. Claro que não. Mas eu também não conseguia mudar completamente meu modo de viver. Era complicado. Muito complicado.

Meus pensamentos foram interrompidos quando avistei um helicóptero na pista de decolagem que Olympia havia comentado.

Acelerei, chegando mais perto do helicóptero. Haviam pessoas lá dentro. O desespero imediatamente tomou conta do meu corpo.
Desci da moto e a deixei ligada, joguei o capacete no chão e corri enquanto gritava seu nome, num tom totalmente desesperado.

! !

Continuei correndo, tentando alcançar o helicóptero.

! — gritei.

Eu sorri aliviado quando ela apareceu na porta do helicóptero e desceu do mesmo, olhando em minha direção com os olhos estreitos.

— Ei, espere!

Ela olhou pra mim com uma expressão surpresa. Eu continuei correndo até estar próximo o suficiente para ela me ouvir.

Ela andou em minha direção, um pouco hesitante. Eu tomei fôlego antes de dizer:

— Não vá embora — minha voz saiu como um sussurro sofrido.

… — ela murmurou, completamente surpresa.

— Sim, sou eu. — Dei um sorriso de lado. — Quem mais seria?

— O que você está fazendo aqui? — Ela olhou nos meus olhos.

— Eu… Eu… — Abaixei minha cabeça, um pouco envergonhado. — Talvez… Pedir para não ir embora?

— Como assim? Eu… Eu não estou…

— Eu sei de tudo — eu disse seriamente. — Tudo mesmo.

— Eu não estou entendendo.

! — uma mulher gritou, dentro do helicóptero. — Vamos!

Heaven olhou para o helicóptero e depois para mim.

— Heaven… Eu te explico tudo depois, eu só preciso que você confie em mim e venha comigo.

— Confiar em você? — Ela soltou um riso debochado. — Nunca.

— Heaven, eu…

, venha aqui! — A mulher voltou a gritar, mas agora, ela corria em nossa direção.

— Venha comigo. — Peguei nas mãos de Heaven e a puxei. Ela soltou um palavrão e tentou se soltar. — Você realmente quer fazer isso?

Ela ficou em silêncio. Eu aproveitei o momento e a puxei novamente.

— Você precisa correr — eu disse, enquanto olhava por cima dos ombros para a mulher que corria, ou tentava, em nossa direção.

— Mas…

Eu comecei a correr. Ela soltou um grito assustado, mas seguiu meus passos. Corremos até chegar na minha moto ligada.

— Droga, quebrei o capacete — eu esbravejei enquanto observava o capacete quebrado no chão.

— Se você quer realmente ajudar, monte nessa coisa agora mesmo, — ela disse, entre os dentes, encarando-me de um jeito assustador.

Eu assenti e montei na moto. Ela subiu e sem esperar um segundo sequer, acelerei.

Os gritos da mulher ecoavam pela pista vazia. Eu quase sorri pela missão bem sucedida, mas duas mãos me rodearam fortemente pela cintura. Eu gelei imediatamente.

Eu tentei prestar atenção na pista mas o rosto de Heaven estava apoiado em meus ombros e suas mãos ainda me seguravam com força.

Eu quase bati a moto em um carro com aquela pequena distração.

Após longos minutos de tortura naquela moto com Heaven me abraçando, enfim chegamos na pequena vila.

Eu desci da moto e a ajudei descer.

— Você é louco, . — Ela me olhou com os olhos cheios de raiva. — Um doido, maluco, psicopata, doente mental.

— Eu só quebrei o capacete… — tentei me justificar.

— Não estou falando sobre isso. — ela gritou. — Por que você me sequestrou?

— Eu não te sequestrei, você aceitou minha ajuda.

— Ajuda? De você? — Ela gargalhou.

— Sim, e pare de gritar, estamos na frente da casa dos outros. — Eu apontei para a casa em nossa frente.

Ela olhou ao redor com curiosidade.

— O que estamos fazendo aqui? O que você quer? Como sabia que eu estaria lá? E o que você quis dizer com “eu sei de tudo”? — ela perguntou, rapidamente.

, respira fundo… — Eu tentei aliviar o clima tenso que se instalou no ar. Ela me lançou um olhar mortal. — Eu vou te explicar tudo… mas quando você estiver calma.

— Ah, é? Então me diga, onde irei passar a noite. — Ela cruzou os braços e bateu o pé contra o chão, em um ritmo constante.

— Comigo. — Dei de ombros, como se não fosse nada.

— Ah, só nos seus sonhos.

Eu ri.

… Eu não disse para dormir comigo, mas sim, na minha companhia.

— Eu não quero sua companhia, seu doido.

Eu reprimi minha vontade de gargalhar. Mas falhei miseravelmente, então comecei a rir. Ela me observou com seus olhos atentos sobre mim.

— O que aconteceu com seu rosto? — ela ponderou, aproximando-se, parecendo genuinamente curiosa. Eu toquei minha bochecha e gemi de dor. Ainda estava doendo pra caralho. — Você brigou com quem?

— Ninguém. — Desviei meus olhos do seu rosto. Eu não queria falar sobre minha briga com Gregory. Eu não queria falar sobre ele, principalmente com ela.

— Com quem, ? — ela insistiu. Eu bufei e me afastei, andando em direção da casa, com Heaven ao meu lado. —

— Gregory… Foi com ele, satisfeita? — perguntei, irritado.

— Por que?

Eu passei as mãos pelos fios de cabelos, controlando minha raiva.

— Não quero falar sobre isso…

— Mas…

A porta se abriu. Ela se calou ao meu lado. Eu nem percebi que estávamos praticamente gritando na frente da casa de Grace.

?

Eu me afastei de Heaven e corri para abraçar a mulher parada na porta. Ela me abraçou fortemente e beijou minhas bochechas. Eu sorri, feliz por vê-la.

— Menino … — ela sussurrou emocionada. Eu desfiz o abraço, antes de escutar todo o sermão, que era típico da dona Grace. — Você me esqueceu, nunca mais apareceu, eu fiquei sozinha…

— Grace… Desculpa — eu a interrompi. — Hã… Eu trouxe uma pessoa.

Ela observou Heaven por um momento. Em seguida, abriu seus braços, convidando-a para um abraço.

— Oi, querida.

Heaven sorriu tímida e caminhou em direção a Grace e a abraçou.

— Você é muito bonita — Grace comentou, enquanto passa as mãos nos fios de cabelo da garota.

— Obrigada — sua voz saiu como um sussurro.

As duas me olharam, como se esperassem por alguma ordem da minha parte.

— O que foi?

Grace lançou-me um olhar duro e sorriu para Heaven.

— Vamos entrar, querida.

— Entrar? — ela questionou olhando em minha direção. Eu movi a cabeça, concordando. — Claro. — Ela forçou um sorriso.

Entramos na casa. Heaven olhava tudo com atenção e evitava tocar os móveis da sala. Eu a entendia, ela não estava acostumada com lugares pequenos e simples.

— Vocês querem algo?

Eu neguei com a cabeça. Heaven olhou para mim, enquanto dizia:

— Quero um momento em particular com .

Ela estava brava, com toda certeza. Eu respirei fundo, pronto para os insultos que viriam a seguir.

— Seu desgraçado, filho da mãe, o que você pensa que está fazendo, ? — ela explodiu no mesmo segundo, fazendo-me arregalar os olhos. Ela estava mais brava do que eu pensava.

— Eu posso explicar…

— Eu tô ferrada, . Você não faz ideia do quanto. — Ela me fuzilou com o olhar e passou as mãos pelo rosto, enquanto suspirava profundamente. — Minha vida tá uma merda, eu… Eu tô acabada — ela sussurrou, com as mãos no rosto. Ela parecia estar tão vulnerável. Tão frágil. Tão perdida.

Eu me aproximei, mas não a toquei.

— Eu realmente quero ajudá-la.

— Eu realmente não acredito em você. — Ela tirou as mãos do rosto, e me olhou nos olhos. — Como você conseguiu me encontrar?

— Sua amiga, a Olympia.

— A Olympia disse onde eu estava? — ela indagou, totalmente surpresa. Eu apenas balancei a cabeça, concordando. — Por quê?

— Eu a encontrei no baile, ela estava sozinha e eu estranhei, então, fui conversar com ela. Ela estava tão triste que nem se importou de desabafar comigo e, de repente, ela me olhou diferente, e disse que eu poderia ajudar de alguma forma.

— E então, você me sequestrou — ela concluiu.

— Ela me pediu para te buscar. — Eu ignorei sua acusação e continuei dizendo. — Ela confiou em mim e eu acho que você poderia confiar também.

, um dos babacas do colégio e conhecido como o cara que quebra os corações das garotas, está me pedindo pra confiar nele. Isso é uma brincadeira? — Ela riu, como se tudo fosse uma piada muito engraçada.

— Eu vou ignorar seu comentário sarcástico, . Eu preciso voltar pra minha festa, então me diga, o que você quer saber? — Eu estava impaciente. Eu apenas queria ser gentil e ajudá-la, mas ela fazia questão de me tratar com indiferença.

— Por que aceitou me “ajudar”? — Ela fez aspas com a mão e cruzou os braços, exigindo uma resposta.

Eu fiquei quieto enquanto a encarava. Ela ainda estava esperando por uma resposta. Uma resposta que nem eu sabia qual era. Eu simplesmente aceitei.

Eu poderia dizer que foi pelo calor do momento e a preocupação de Olympia com a amiga, mas era mentira.

— Por que , o cara mais cobiçado do colégio e popular, aceitou ajudar uma garota problemática como eu?

Eu desviei meus olhos do seu rosto. Travei o maxilar e passei a língua pelos lábios. Caralho, eu estava nervoso. Eu não conseguia abrir minha boca para respondê-la, nem uma maldita frase.

Que porra está acontecendo com você, ?

— Você não tem uma resposta — ela disse seriamente. — Então, me explique o que você quis dizer com “eu sei de tudo”?

Eu suspirei, relaxando meu corpo tenso, respondendo-a, em seguida:

— Gregory falou sobre sua gravidez e Olympia falou sobre você ir embora.

— Eu não quero falar sobre Greg.

— Nem eu.

— Ótimo.

Ficamos nos encarando em um silêncio constrangedor por alguns segundos. Pela primeira vez na vida, eu não consegui encontrar algo através de seu olhar.

Heaven era um mistério.

Ela estava em um estado vulnerável mas sua tristeza não chegava ao seu olhar. Ela parecia calma, como se sua vida não estivesse mudando completamente. Como se ela não estivesse sozinha e perdida.

Heaven sabia esconder perfeitamente sua dor. Assim como eu.

— Como você está se sentindo? — eu perguntei, aquilo estava preso na minha garganta. Havia tantas perguntas que eu queria fazer…

— Eu não quero falar sobre meus sentimentos com você, bad boy.

Eu concordei, aceitando o fato de que ela não queria confiar em mim.

— Você se importa de ficar aqui?

— Mas é claro que sim! — ela respondeu, como se fosse óbvio. — Você viu o tamanho dessa casa?

— Sim, e qual é o problema?

— É praticamente o tamanho do meu quarto! — exclamou, descrente — Eu não vou dormir aqui.

— Sinto muito, princesa, mas você vai dormir aqui.

— Eu não vou — debateu, irritada.

—Tudo bem… Então, porque Olympia me disse que você não poderia voltar pra sua casa? Aliás, ela mesma que pediu para levá-la em algum lugar longe da sua casa.

Ela suspirou profundamente.

— Eu não quero dormir aqui — ela disse baixinho.

— Infelizmente é o único lugar disponível no momento. — Dito isso, passei ao seu lado, indo em direção ao banheiro. Eu estava nervoso. Em menos de cinco minutos, Heaven já conseguia mexer com o meu humor.

Impressionante…

✩✩✩✩✩
— Menino … Ela não me parece confortável aqui — Grace sussurrou.

Estávamos sentados na cozinha, observando Heaven sentada no sofá da sala. Ela estava encolhida, e visivelmente desconfortável.

— Grace… Não será fácil pra ela se acostumar, você a conhece, ela é rica e famosa — revirei os olhos.

— Eu conheço essa menina desde pequena, a mãe dela sempre fala sobre ela nas entrevistas — ela disse sorrindo. — Há uns dez anos, eu vi uma peça de teatro em que ela participou.

— Eu nunca assisti a uma peça de teatro dela.

— Pois deveria, ela é muito boa! Mas então, ela irá morar aqui?

— Não, ela ficará apenas por algum tempo.

— Ela aceitou passar esse tempo aqui? — Ela levantou-se arqueou as sobrancelhas.

— Não, mas nós iremos conversar melhor depois.

— Tudo bem, eu não me importo de recebê-la aqui, ela é uma ótima garota.

Eu concordei.

— Bom, vamos jantar, vocês devem estar famintos. Chame a garota, — ela disse enquanto andava até o fogão para pegar as panelas.

Eu caminhei até Heaven e sentei-me no sofá, ao seu lado.

— Você tá bem?

— Eu pareço bem pra você? — ela disse sem me olhar, em seguida, soltou um riso e levantou-se do sofá. — Eu realmente vou ter que ficar aqui?

— Sim.

— Eu não acredito nisso. — Ela negou com a cabeça, rindo. — Eu não quero morar nessa casa.

— Você tem outro lugar onde poderia ficar? Se não, então, se contente com o que tem hoje — eu disse e levantei-me do sofá. — E a comida está pronta.

— Eu não quero comer.

— Problema é seu — respondi, friamente.

Dei as costas e caminhei até a cozinha. Grace arrumava os talheres em cima da mesa e sorriu ao me ver.

— Ela não quer comer? — ela perguntou e puxou uma cadeira para se sentar.

— Não. — Me sentei na cadeira ao seu lado. — Mas eu não me importo, sua comida é deliciosa, e é ótimo pois sobra mais.

— Menino … — ela me repreendeu.

Eu ri. Peguei meu prato e me servi. Grace havia feito uma macarronada com queijo e parecia estar delicioso.

— O cheiro está bom — comentei casualmente. Peguei meu garfo e comecei a comer.

— Espero que esteja bom — respondeu Grace, enquanto se servia. — , não brigue com a garota, ela me parece triste e você não está ajudando.

— Grace…

— Ela precisa de um amigo nesse momento e não de um inimigo. Não brigue com ela, seja educado e carinhoso — ela disse, no seu típico tom maternal. Eu balancei a cabeça, em concordância. — Estou falando sério, .

— Eu irei tentar — disse, enquanto bebia meu suco.

— Promete?

— Não posso prometer nada. Heaven é uma garota complicada e você me conhece bem o suficiente para saber que nós dois não somos compatíveis — eu disse e voltei a comer.

Ela soltou um suspiro e balançou a cabeça, concordando. Então comemos em silêncio, enquanto uma Heaven pensativa estava sentada no sofá da sala olhando para a TV desligada.

— Você já vai embora, menino ? — Grace perguntou. Eu fiz um sinal positivo com a mão enquanto mastigava.

Eu limpei os cantos da minha boca e coloquei meu prato sujo de calda de chocolate na pia.
Grace não ficou satisfeita em apenas oferecer uma macarronada deliciosa, então serviu um bolo de chocolate como sobremesa. Ela era uma cozinheira e tanto.

— Preciso ir, tenho uma festa agora.

— Às meia noite e meia? — indagou.

— Essa é a hora em que a festa realmente começa, dona Grace. — Me aproximei e beijei a sua testa. — Amanhã eu volto, prometo.

— Você só vai voltar porque a garota está aqui — ela comentou com um sorriso gentil nos lábios. — Estarei esperando por você, garoto. — Ela beijou carinhosamente minha bochecha, fazendo-me fechar os olhos, aproveitando de seu ato de carinho puramente maternal.

Eu era um sortudo pra caralho por tê-la em minha vida. Ela era como uma segunda mãe para mim.

— Eu amo você, dona Grace — murmurei.

— Eu te amo mais, menino . Agora vá se despedir da sua amiga.

— Nós não somos amigos — respondi, rapidamente.

— Ainda não, . Ainda. — Ela riu, ao passar por mim.

Heaven e a palavra amiga na mesma frase, era algo inacreditável.

Eu e Heaven… amigos? Nem em outra reencarnação!

Reprimi minha vontade de gargalhar.

Nós nunca seremos amigos.

Balancei a cabeça, tirando esses pensamentos da cabeça e caminhei até o quarto de hóspedes. Bati na porta e esperei por sua permissão para entrar.

— Heaven… — Bati na porta novamente.

A porta foi aberta bruscamente. Heaven tinha um semblante triste. Seus olhos estavam vermelhos e seu rosto inchado. Aquilo mexeu comigo.

— Aconteceu algo?

— O que quer? — perguntou, ríspida.

Sua frieza era algo que me irritava profundamente. Será que ela não percebia que eu apenas estava sendo gentil? Eu estava pisando no meu orgulho e quebrando as barreiras que existiam entre nós.

— Vim me despedir, estou indo embora.

— Tá, tchau. — Ela fechou a porta na minha cara e a trancou.

Eu respirei fundo, controlando-me para não soltar uns mil palavrões.

— Paciência, . Paciência. — A voz de Grace soou ao meu lado.

— Eu vou precisar, Grace.

Ela riu e deu leves tapinhas em meus ombros, me confortando.

✩✩✩✩✩
— E então, eu irei ser uma supermodel. Eu pretendo desfilar em Paris, Nova York, Itália, Japão… milhares de países! Eu quero mostrar meu talento para o mundo inteiro e quem sabe ser a nova Kim Kardashian?

Eu bebi um gole de vodca, para não responder uma besteira.

Depois que eu saí da casa de Grace, vim à festa de Travis. Antes eu liguei para Olympia, claro. Se eu não ligasse, provavelmente meu rosto estaria nos jornais da cidade inteira como o mais novo sequestrador de garotas.
A festa de formatura já havia acabado e, então, Travis chamou uma galera para comemorar em sua casa. Eu aceitei, sem pensar duas vezes. Eu precisava me distrair. Eu precisava de um pouco de ilusão para a minha realidade.

Eu estava um pouco bêbado. Um pouquinho. Eu ainda estava um pouco sóbrio e ouvindo com clareza as merdas que saiam da boca de Kimberley Lewis. Sim, a capitã das líderes de torcida na escola. A mesma que ficou com Gregory, mas que diz nutrir sentimentos por mim.

Ela estava sentada no meu colo e não parava de tagarelar sobre seu futuro como modelo internacional.

— Hein, ? — Ela arrancou o copo da minha mão.

Eu acordei do meu transe e a observei.

— Eu estava distraído.

… Eu estava me abrindo com você. — Ela fez um biquinho decepcionado e colocou o copo na mesa ao nosso lado. — Eu estava dizendo que nós poderíamos sair dessa festa sem graça e aproveitar do nosso jeito. Apenas nós dois — ela disse e beijou meu pescoço. — O que acha? — sussurrou no meu ouvido.

— Eu não acho uma boa ideia.

— Só um pouquinho… — ela ainda sussurrava no meu ouvido.

— Kim, eu não tô com cabeça pra essas coisas agora. Deixa pra outro dia.

Ela fechou a cara, mas balançou a cabeça, concordando.

— Então me beija.

— Você não se importa se o babaca do Gregory nos ver?

— Hum… Não — respondeu, com um sorriso maldoso no rosto. — Na verdade, eu gosto de estar com vocês, mesmo que você seja mais gostoso do que ele. — Ela piscou com um sorriso safado nos lábios.

— Você não presta, Kimberley. — Eu soltei uma risada.

— Eu nunca disse ao contrário, meu amor.

E então, ela colou seus lábios carnudos com os meus e sentou-se no meu colo, com suas pernas ao meu redor. Seu beijo era intenso e molhado. Ela mordia levemente meus lábios e puxava os fios do meu cabelo.

— Eu já disse que amo beijar sua boca?

Eu não a respondi. Tomei seu rosto em minhas mãos e a beijei novamente, com mais intensidade.

Kimberly Lewis e mais uma boa dose de uma bebida, eram a minha perfeita distração.

Heaven
Minha vida mudou completamente.

Algumas horas atrás, eu estava à caminho de Londres, onde eu iria viver uma mentira, provavelmente para sempre. Agora, eu estava em uma mini casa, onde meu quarto na mansão era maior do que a sala e a cozinha daquela casa. Eu nunca imaginaria que pisaria em um lugar tão minúsculo e simples.

Sinceramente, eu não sabia o que era melhor pra mim. Eu não sabia o que fazer ou o que pensar. Eu me sentia perdida e sozinha, mesmo com um bebê na barriga.

Um bebê. Eu iria ser mãe.

Eu ainda estava tentando digerir essa informação, porque era completamente surreal. Eu nunca pensei em ter filhos e/ou me casar, algum dia. Eu sempre quis aproveitar cada segundo da minha vida do meu jeito. Sem compromisso com alguém ou filhos. E então, eu fiquei grávida no último ano do ensino médio. No começo da minha vida adulta. Em pleno 18 anos, quase 19. Ou seja, aconteceu aquilo que eu nunca planejei.

Eu me joguei na cama de solteiro, e senti o colchão desconfortável me abraçar. Imediatamente, notei a diferença entre a minha na mansão com a de solteiro que rangeu quando movi meu corpo.

Eu simplesmente não iria me acostumar com essa vida.

Fechei os olhos e as lágrimas finalmente caíram. Eu sentia meu mundo desabando aos poucos. Naquele quarto pequeno e velho, eu me permiti chorar como um bebê. E então eu escutei alguém bater na porta. No mesmo instante, parei de chorar e prendi a respiração.

A pessoa retornou a bater na porta. Eu me levantei da cama e pensei em responder, mas então, escutei a voz da pessoa que estava do outro lado.

— Heaven — a voz de soou abafada. Eu respirei fundo e limpei meu rosto com a minha blusa, caminhei até a porta e a abri.

Ele me olhou por alguns segundos, sem dizer nada. Eu esperava que meu rosto não estivesse tão inchado ou meus olhos vermelhos, por causa do choro.

— Aconteceu algo?

— O que quer? — Ignorei sua pergunta e o cortei.

— Vim me despedir, estou indo embora — ele se explicou.

Eu estava sentindo uma raiva enorme por . Ele simplesmente me trazia para um lugar desconhecido e agia como se fosse normal. Eu não confiava nele, e eu desconfiaria de tudo se não fosse por Grace. Ela parecia ser uma boa mulher e provavelmente não apoiaria em alguma loucura, como por exemplo, me sequestrar e me trancar pra sempre em uma casa velha e pequena.

— Tá, tchau — eu respondi com indiferença e fechei a porta na sua cara.

Enquanto voltava para a cama, eu escutei algumas vozes do lado de fora, e quando o barulho parou, dona Grace me chamou.

Sua voz soou calma e baixa, como se ela estivesse com medo de me chamar:

?

Eu me levantei da cama e andei até a porta e a abri. Grace tinha um leve sorriso no rosto e segurava algumas roupas em suas mãos.

— Oi — eu disse simplesmente.

— Não está com fome, querida? — ela perguntou, gentilmente.

— Não, eu… Já comi antes de chegar aqui — eu menti.

— Ah. Você estava chorando? — ela me olhou preocupada. Eu neguei com a cabeça. — Tudo bem… Eu trouxe alguns vestidos para você usar, após o banho. — Ela estendeu as roupas em minha direção. — Eu percebi que você não trouxe malas então pensei que precisasse de algumas roupas.

Eu as peguei de sua mão e observei as peças. Os vestidos eram floridos e simples. Eu tentei não demonstrar meu desgosto enquanto observava os vestidos floridos em minhas mãos. Eram tão simples e bregas.

— Ah, você não gostou — ela disse, num tom baixo e decepcionado. — , é claro que você não iria gostar, são tão simples e você é uma menina rica.

— Não diga isso, Grace. Os vestidos são… Lindos. — Eu forcei um sorriso animado no rosto. — São bem costurados, não vou negar que são diferentes do que estou acostumada a usar mas eu… adorei!

— Não precisa dizer isso para me agradar. — Ela sorriu levemente e negou com a cabeça. — Se você não quis usá-los, eu posso ir até o centro e comprar outras peças.

— Não será necessário, dona Grace. Eu irei usar os vestidos.

— Fico feliz. Eu trabalhei bastante nesses vestidos. — Ela esboçou um sorriso orgulhoso nos lábios.

— Foi você quem costurou todos?

— Sim, eu faço algumas roupas e as vezes vendo aqui na vila — ela disse, com um olhar orgulhoso.

— Que legal — eu sorri. — Então, a senhora é a mulher da casa.

— Ah! — ela sorriu e colocou as mãos no rosto. — Eu sou viúva, então preciso me sustentar de alguma maneira. Meu marido faleceu há 20 anos.

— Oh, eu sinto muito. — Eu toquei suas mãos, e apertei levemente. —Eu não fazia ideia.

— Tudo bem, querida. Foi há muitos anos atrás.

— Você não é velha… Digo, não aparenta ter uma idade… avançada — eu tentei dizer, educadamente. — , assim, você não parece ter mais do que 45 anos, dona Grace.

Grace era uma mulher bonita. Seus cabelos tinham alguns fios brancos em meio aos fios pretos. Seus olhos eram castanhos claros e sua pele não era enrugada. Ela tinha apenas algumas marcas de expressão. Ela era uma mulher bem cuidada, eu diria.

— Ah, você quase acertou, tenho 46 anos. Perdi meu marido ainda jovem, aos 26 anos.

— Nossa — eu falei, surpresa.

— Mas vamos esquecer isso! — Ela abanou as mãos no ar. — Eu só queria dizer que se precisar de algo, eu estarei ao quarto ao lado para ajudá-la.

— Obrigada, dona Grace — eu sorri.

— Não precisa agradecer, querida. Apenas se cuide e fique bem.

Eu concordei com a cabeça.

— Bom, agora vou indo, meu quarto é aquele ali. — Ela apontou para o quarto no fim do corredor estreito. — Qualquer coisa, me chame, tudo bem?

— Sim.

— Boa noite, querida. — Ela sorriu antes de dar as costas e caminhar até seu quarto.

Abri os vestidos floridos novamente e fechei meus olhos com força.

Isso não pode ser real, isso não pode ser real, eu repetia em minha mente.

✩✩✩✩✩
Eu despertei com as batidas da porta, resmunguei algo e me levantei da cama. Eu nem percebi quando cai no sono e me deitei na cama de solteiro.

Ontem, eu neguei me deitar naquela cama dura e me sentei no chão, fiquei horas olhando para o nada e quando amanheceu, eu me levantei e deitei na cama.

Abri a porta e me deparei com uma Grace sorridente. Ela parecia feliz. Céus, quem acordava feliz logo de manhã?

— Bom dia. Eu estava preocupada com você, desculpe acordá-la.

— Eu estava cansada e cai no sono. Que horas são? — perguntei, antes de bocejar e me espreguiçar.

— Meio dia. O almoço está pronto.

— Meio dia? — Arregalei os olhos. — Caramba!

— Você tinha algum compromisso pela manhã?

— Ah, eu… — eu tentei me lembrar de algo. Nesse horário, aos sábados eu iria para minha aula de teatro, porém eu não estava em casa. — , eu não tenho nenhum compromisso pela manhã.

— Então, vamos almoçar. Eu fiz lasanha para nós.

— Eu não estou com fome, desculpe.

— Ah, sim. Tudo bem, então irei almoçar, se quiser pode descer também.

— Eu só vou escovar os dentes e lavar o rosto.

— Claro, tem uma escova nova e toalhas no armário do banheiro. E a propósito, o vestido ficou perfeito em você. — Ela sorriu enquanto me analisava. Eu sorri, timidamente.

Eu apenas vesti aquele vestido cafona por falta de outra peça de roupa. O vestido não era tão feio assim, apenas não fazia meu estilo. Ele era bem costurado e realmente havia ficado bom no meu corpo. Ele era um pouco rodado e batia até a altura dos meus joelhos.

— Eu vou deixar você fazer sua higiene. — Ela disse e se afastou.

Eu entrei no quarto e fechei a porta, caminhei até o banheiro.

Ele era tão minúsculo. Um vaso sanitário, uma pia com um armário pequeno de madeira e um chuveiro. Eu quase senti vontade de chorar novamente naquele ambiente pequeno.

Procurei pela escova e a toalha. Escovei meus dentes e lavei meu rosto, enxugando-o na toalha. Fui até a cozinha. Grace estava sentada na mesa, enquanto degustava de sua lasanha. Admito que minha barriga roncou um pouco pelo cheiro maravilhoso da comida.

— Dormiu bem? — ela puxou assunto

— Sim, muito.

— Que bom. veio cedo e insistiu que eu deveria acordá-la. Ele queria conversar com você.

— Ah — eu respondi. Puxei uma cadeira e me sentei de frente para Grace. — Eu não quero falar com ele.

— Foi o que eu imaginei, então ele saiu bravo daqui, porque precisava falar com você. Eu pedi para ele retornar mais tarde, tem algum problema pra você?

— Não. A casa é sua, dona Grace.

— Mas você não é obrigada a conversar com ele, querida.

— Tudo bem. Se ele disse que era algo sério, então eu irei conversar com ele mais tarde.

— Ótimo. O menino parecia nervoso, nunca o vi daquele jeito. Mas chega de falar sobre . — Ela sacudiu a cabeça e agitou as duas mãos. — Me fale um pouco de você.

— O que quer saber sobre mim?

— Hum… Comece com como você veio parar aqui?

— Hã… É uma história complicada. Eu… Eu estava indo embora para outro país e de última hora, me ajudou.

— Você não queria ir embora?

— Para ser sincera, eu achei que era a melhor solução.

— Solução para quê?

— Eu estou grávida. Eu estava indo embora por isso.

— Oh. — Ela arregalou seus olhos, surpresa. — Mas que boa notícia! Parabéns!

— Obrigada. — Eu dei um sorriso forçado.

— Mas está claro que você não queria isso, não?

Neguei com a cabeça.

— Mas o menino , deveria assumir a responsabilidade e não trazê-la para um lugar tão afastado.

— Ah… Então. — Eu dei um riso nervoso. Ela estava achando que era o pai da criança. Meu Deus. — não é o pai do meu bebê.

— Não?! — Seu queixo caiu. Grace estava chocada.

— Não. Por que achou que era o pai? — indaguei.

Ela riu levemente e negou com a cabeça.

— Ele nunca trouxe ninguém aqui, muito menos uma garota.

— Entendi.

Ficamos em silêncio por algum tempo. Até eu perguntar algo que me despertava curiosidade:

— Você é mãe do ?

— Oh, não. A mãe do menino morreu quando ele era criança — ela disse, num tom de voz baixo, como se doesse dizer aquelas palavras. — Eu era a melhor amiga dela e eu prometi que cuidaria de como se ele fosse meu filho, e realmente nos tratamos como mãe e filho. Eu amo e cuidarei dele para sempre.

— Isso é muito bonito, Grace. Você me parece ser uma boa mulher — eu sorri, verdadeiramente. Grace realmente parecia ter um bom coração.

— Ah, obrigada. E eu digo o mesmo, , você me parece ser uma boa garota.

— Hum… Posso pedir um favor?

— Claro! — exclamou.

— Me chame apenas por Heaven. Eu odeio meu primeiro nome.

— Mas é o mesmo nome que sua mãe. — Ela debateu e me olhou, confusa.

— Esse é o motivo. Eu não tenho um bom relacionamento com minha mãe.

— Compreendo. Então, irei chamá-la de Heaven.

✩✩✩✩✩
Ficamos à tarde inteira conversando. Grace era uma mulher legal e engraçada. Eu sentia como se a conhecesse há anos.

Eu estava sentada no sofá e dona Grace no seu quarto, tomando banho. Na TV passava um programa sobre os animais e eu tentava me distrair com aquelas imagens de bichos que eu nunca vi na minha vida.

E então a porta foi aberta e passou por ela. Ele a fechou e colocou sua jaqueta de couro em cima do outro sofá, que ficava próximo da porta. Ele me analisou por alguns segundos, sem dizer nenhuma palavra.

Seu olhar me incomodava e fazia minha pele arder.

— O que foi, ? — perguntei, incomodada.

— Onde está Grace? — ele ignorou minha pergunta e olhou ao redor.

— No banho — eu disse simplesmente. Ele balançou a cabeça, concordando. Seus olhos continuavam a me analisar. — Por que me olha tanto, ?

— Não posso? — ele esboçou um sorriso torto.

— Não.

— Não tem nada me impedindo de olhar. — Ele continuava com seu sorrisinho estúpido nos lábios.

Eu bufei.

— Você não cansa de ser chato?

— Não. — Deu de ombros.

Eu apenas balancei a cabeça, descrente e me levantei do sofá.

— Diga a dona Grace, que eu estou no quarto, porque não suporto a presença de um certo ser humano desprezível.

— Pode deixar, gatinha. — Ele piscou.

Eu peguei uma almofada e joguei em seu rosto.

— Babaca — murmurei.

— Mas você gosta, eu sei.

— Ridículo — eu disse, enquanto me afastava, indo para o corredor onde ficavam os quartos.

— Sempre tão educada, — ele falou alto o suficiente para eu ouvir do corredor.

Eu revirei os olhos e entrei no quarto.

era um cara insuportável. E eu me questionava o quão louca eu era por aceitar sua ajuda.

Heaven
exigiu a minha presença na sala. Ele me olhava seriamente enquanto eu queria apenas fechar a porta na sua cara.

— Preciso te falar uma coisa.

— Hum… O que foi? — arqueei a sobrancelha e cruzei os braços, apoiando no batente da porta.

— Você não confia em mim. Então, veja com seus próprios olhos. — Dito isso, ele deu as costas e caminhou pelo corredor estreito, deixando-me parada na porta e completamente curiosa.

Fechei a porta do quarto e o segui, em passos apressados.

— O que houve? — Eu cheguei na sala e perguntei. Dona Grace não respondeu e apenas sentou-se no sofá, ignorando completamente minha pergunta. — Alguém pode me dizer alguma coisa?

Grace esboçou um pequeno sorriso e apontou para a TV. Eu olhei sem entender absolutamente nada. Então, eu li o que estava escrito no canto da tela.

Meu coração começou a bater num ritmo acelerado. Eu tinha certeza que teria um ataque cardíaco. aumentou o volume da TV e somente o som da voz da jornalista era ouvida na sala.

—… ainda não há notícias do corpo de Heaven , filha de . Os policiais de todo estado estão buscando por algum vestígio, mas ao que tudo indica é que a garota prodígio está morta. Ainda não há confirmações mas as expectativas de encontrar viva após o acidente com seu navio são completamente nulas. Veja a declaração que sua mãe deu hoje para a nossa emissora.

Eu prendi completamente a respiração quando avistei a imagem da minha mãe. E, então, um vídeo, onde ela estava sendo entrevistada fora iniciado.

Eu estou completamente destruída. Só de pensar que minha menina está morta, me parte o coração. Eu quero acreditar que ela esteja viva mas está sendo difícil. Eu só quero acordar desse pesadelo e abraçar novamente minha filha, ela era tudo para mim.

estava em prantos em rede nacional. Seu rosto estava inchado e seus olhos vermelhos, como se ela realmente estivesse sentindo falta da filha que morreu.

Eu estava em choque.

A reportagem acabou e a jornalista começou a falar sobre outro assunto. Mas eu ainda estava estática, sem realmente acreditar em tudo o que eu vi e ouvi.

— Pode explicar que porra está acontecendo, ? — perguntou, extremamente irritado. Eu ainda encarava a TV, sem saber o que fazer.

, olha a boca. — Grace o repreendeu.

— Eu só quero entender que merda está acontecendo! — Ele levantou-se e parou em minha frente, com os braços cruzados. — Você tem algo a dizer ?

— Eu… — As palavras sumiram completamente. Eu não sabia o que dizer.

Na minha cabeça, minha mãe nunca continuaria com seu plano. Mas agora… Eu só queria entender o porquê dela prosseguir com essa maluquice.

— Querida, você está bem? — Grace perguntou ao meu lado. Ela tocou meus ombros e me lançou um olhar reconfortante, como se mesmo sem saber de nada, ela entendia o que estava acontecendo.

— Eu… Eu não sei — eu suspirei.

— Não sabe? — riu sarcástico. — Faça-me o favor.

seja menos rude, por favor — Grace pediu.

bufou e deu de ombros. Em nenhum momento ele deixou de me observar com seus olhos acusadores.

— A última coisa que eu quero é ser preso por algo que eu não cometi, então você, por favor, poderia me dizer que porra está acontecendo aqui?! — Sua voz soou controlada, como se ele tivesse prestes a explodir. Ele estava muito nervoso.

— Por que você seria preso, menino? — Agora quem estava nervosa era Grace.

— Ah, é normal você trazer uma pessoa que supostamente está morta, não é? A família dela tem influência o suficiente para me acusar de algo, como se eu fosse o culpado dessa porra toda! — Ele passou as mãos pelos fios de cabelo. — Isso era um plano ou algo do tipo? Por que se você falar que não sabia de caralho nenhum, você estará mentindo. Diga a verdade, .

Eu respirei fundo. Olhei para Grace, e encontrei seus olhos castanhos me encarando em expectativa. Ela também queria respostas.

— Eu sabia.

— Como eu imaginei — murmurou .

— Mas minha mãe quem deu a ideia. Eu aceitei depois, porque não havia outra opção.

— Por que sua própria mãe planejou isso? Ela estava em prantos, ela realmente está sentindo muito por isso — comentou, Grace.

— Ela não gostou de saber que eu estou grávida e queria me obrigar a abortar mas não aceitei. Então, a única saída foi esse plano maluco dela.

Os dois me encaravam, sem dizer nada. estava com o cenho franzido e a mandíbula trincada e Grace tinha os olhos um pouco arregalados.

— Isso é… Insano! — ela quebrou o silêncio.

— Então, é por isso que você não pode voltar pra casa, ? — indagou .

— Sim.

— Eu não quero problemas, vou ligar para Olympia.

— Mas… — eu comecei a dizer. Porém, Grace levantou-se bruscamente do sofá e parou diante de .

— Você não está pensando em tirar a garota daqui, está?

— Estou — ele respondeu simplesmente.

— Você está brincando comigo? — Ela olhou seriamente para o garoto. — Ela precisa de alguém que cuide dela e do bebê. Nós não podemos deixá-la ir embora.

— Olympia, a amiga dela, irá resolver isso, Grace — respondeu, impaciente.

— Nada disso. Eu mesma faço questão da presença da garota aqui, ao menos se ela quiser ir embora, ao contrário, você não irá levá-la para outro lugar, — ela disse, num tom autoritário.

me olhou por cima dos ombros de Grace. Seus olhos transbordavam ódio.

— Grace… Não é uma boa ideia, se alguém descobrir…

— Ela precisa de alguém, eu não vou ficar vendo a garota sofrer de braços cruzados, ! — ela exclamou. passou as mãos por seus fios de cabelo e bufou.

— Se é o que você quer.

— Sim, é o que eu quero, .

— Ótimo. — Ele esboçou um sorriso forçado e começou a sair da sala, em direção, ao corredor. — Eu vou tomar um banho. — E sumiu do cômodo, deixando-me sozinha com dona Grace.

— Obrigada — Eu falei. Grace virou-se e me olhou confusa. — Você realmente não precisa se arriscar por mim, está certo.

está sendo egoísta. Eu não posso deixá-la ir para outro lugar, na minha opinião aqui é seguro pra você.

— Você é uma pessoa boa, Grace — eu sorri. Ela sentou-se ao meu lado e tocou minha mãos.

— Eu apenas gosto de ajudar as pessoas. — Ela balançou a cabeça, como se não fosse nada. — O menino também tem um grande coração mas certas coisas o machucaram, e então ele simplesmente acha que a melhor solução é ignorar a dor e viver do jeito errado.

Eu tentei entender suas palavras. não parecia ser uma pessoa sofrida. Ele estava sempre sorrindo e festejando com garotas e bebidas ao seu redor.

Mas não falei nada, apenas concordei.

— Entendo.

— Mas não se importe com as besteiras que ele disse. é muito temperamental e não sabe se controlar. — Ela sorriu levemente. Eu concordei com a cabeça. — Que tal você comer alguma coisa, huh?

— Então… — Eu torci levemente o rosto. — Eu não sinto vontade.

— Mas você precisa se alimentar.

— Eu sei, mas…

— De quantos meses você está?

— Eu não sei… — respondi, um pouco corada. — Não fui ao médico ainda.

— Aqui no bairro tem um posto de saúde e lá tem bons médicos, você quer que eu marque uma consulta pra você?

— Não está muito cedo pra isso?

— Está muito tarde, você quis dizer. Você precisa ter o acompanhamento de um profissional para te aconselhar nesse momento.

— Tudo bem.

— Amanhã mesmo, eu irei marcar seu médico. Agora, vamos levantar e comer, eu vou preparar um prato delicioso para você.

— Ok — eu suspirei. Levantei do sofá e caminhei até a cozinha, com Grace ao meu lado.

✩✩✩✩✩
Eu não sei porque demorei tanto para comer a comida de dona Grace. O sabor era fantástico. Ela era uma cozinheira de mão cheia. E bom… Eu estava no meu segundo prato e sem querer, pensei no meu terceiro. Ela preparou frango assado, salada, torta salgada, arroz branco e feijão. Uma deliciosa comida caseira.

— Mas foi minha mãe quem me inspirou, por isso adoro a culinária — ela comentou.

Grace estava dizendo sobre seu amor pela culinária. Ela disse que desde pequena, ela fora apaixonada por comida e que seu sonho de garota era abrir um restaurante.

— Minha mãe chegou a inaugurar um restaurante mas não deu certo — ela continuou a dizer — , então, a Grace adolescente colocou na cabeça que queria abrir um restaurante.

— Você ainda pensa em abrir um restaurante?

— Não mais. — Ela sorri. — Eu apenas amo cozinhar.

— Isso é fantástico. Você não deveria desistir do seu sonho. O mundo precisa provar o sabor da comida da Grace — eu disse brincando. Ela gargalhou e balançou a cabeça, em um gesto de negação.

— Já estou um pouco velha pra pensar nisso — ela disse num tom triste.

— Que nada! Nunca é tarde demais para realizar um sonho.

— Ah, Heaven! Obrigada por suas palavras mas… Eu não tenho muita motivação como antes. — Ela sorriu triste. — , querido, venha aqui. — Ela acenou em direção à , que estava parado no meio da sala com um olhar vago.

Ele olhou para Grace e depois para mim. Balançou a cabeça e suspirou, antes de caminhar até a mesa. Ele puxou uma cadeira ao lado de Grace e colocou os braços em cima da mesa, sem direcionar o olhar para ninguém.

— Não quer comer, querido? — Grace perguntou.

Ele negou com a cabeça.

— Você está bem? — ela perguntou.

— Sim, estou perfeitamente bem. Sabe, qualquer dia alguém pode descobrir que uma garota que supostamente está morta, mora justamente na mesma casa que eu. Estou me sentindo ótimo — ele falou sarcástico. Depois, olhou para Grace com um olhar frio — É claro que não estou bem, Grace. Isso ainda não entrou na minha cabeça.

… — Grace cruzou os braços em cima da mesa. — Você não mora aqui.

Touché.

Ele abriu a boca diversas vezes, sem sabe o que responder. Enfim, chacoalhou a cabeça e mexeu nos fios de cabelo.

— Mas eu considero aqui como minha segunda casa, Grace.

— Eu não vou… — Grace respirou profundamente. — Quer saber, ? Eu sou a dona dessa casa e se eu disse que Heaven fica, ela ficará, pronto! — Então, ela retornou a comer sua comida, ignorando completamente a presença do garoto ao lado.

Eu reprimi uma risada e terminei minha comida. Bebi um pouco de suco com o olhar de sobre mim.

Eu odiava isso. Odiava esse olhar que ele me lançava.

O barulho de celular interrompeu o silêncio confortante no ambiente. pegou seu celular e afastou-se de nós, indo em direção a sala.

— Vou lavar as louças, querida. — Grace levantou-se e colocou os pratos sujos na pia, começando a lava-los, em seguida.

— Eu ajudo, Grace — eu disse gentilmente, me levantando da cadeira.

— Não precisa, vá descansar. — Ela sorriu.

— Tudo bem. Mas na próxima, eu lavo.

— Certo.

Cruzei o pequeno espaço entre a cozinha e a sala, e sentei-me no sofá. Liguei a TV, evitando os programas de notícias.

Por fim, escolhi um programa de desenho, onde passava o Scooby-Doo.

Pelo canto de olho, percebi passando por mim, indo até a cozinha. Ele cochichou algo no ouvido de Grace e com os passos apressados, passou novamente ao meu lado. Eu nem tive tempo de piscar meus olhos e ele passou de novo como um flash, enquanto vestia uma jaqueta de couro e pegava suas chaves.

Ele acenou levemente para Grace e me olhou. Seu rosto estava tenso. Eu diria que ele estava nervoso ou preocupado com algo. Porém, deu as costas e saiu da sala, batendo a porta atrás de si.

Eu apertei meus olhos com força, e suspirei.

— Ele não me parece bem — disse Grace, cruzando a cozinha enquanto limpava suas mãos em um pano branco, ela aproximou-se e parou em minha frente. — Você viu a expressão dele?

— Eu percebi… Ele parecia nervoso.

— Ah, eu odeio ficar preocupada. É sempre assim — ela disse enquanto colocava a mão no coração, soltando um suspiro sofrido.

— Ele é sempre assim? — perguntei, confusa.

— Oh, não. — Ela riu, parecendo nervosa, de repente — Eu.. Eu só fico com um certo receio quando ele fica nervoso, principalmente quando ele vem com aquela moto.

— Ah, sim. E realmente, ele pilota aquela moto como um maluco.

— Por isso eu fico com medo. Essas estradas são perigosas.

>✩✩✩✩✩
No dia seguinte, Grace acordou cedo e foi até o posto de saúde, marcou minha primeira consulta que era exatamente em dois dias.

Eu tinha acabado de almoçar e estava esperando Grace terminar de finalizar a sobremesa “surpresa” que ela havia feito. Apenas por sentir o cheiro, meu estômago se revirava, ansioso para provar o doce que ela preparava. Após alguns minutos, Grace colocou uma tigela de vidro na mesa.

Eu observei atenciosamente os doces na tigela.

— Bom, deixe-me explicar. Esses doces são blondies.

— Blondies? O que é isso?

— Um tipo de doce, diferente, eu diria. É bem parecido com brownie, pela aparência.

Eu concordei com a cabeça, enquanto observava os pequenos pedaços daquele doce.

— São bons mesmo?

— Ótimos. Eles são feitos com farinha, açúcar mascavo, ovos, manteiga, fermento e um pouco de baunilha.

— Hum… Interessante. Eu posso provar?

— Ah sim, claro. — Ela sorriu e pegou um pedaço, colocando em um prato pequeno junto com um garfo. — Eu espero que goste. — Ela entregou-me o prato. Eu o peguei, e cortei um pedaço generoso e coloquei na boca.

Meu Deus! Isso era tão… bom!

— Caramba! — Eu cortei outro pedaço e coloquei na boca. — Maravilhoso!

— Eu sabia que você iria gostar. — Ela sorriu, enquanto se servia com um pedaço.

Nós comemos e rimos. Grace gostava de conversar, e eu adorava conversar com ela, pois me distraia.

Então, um barulho alto de algo quebrando ecoou na casa. No mesmo instante, nós paramos de rir e olhamos em direção a porta, onde estava parado com as mãos sujas de sangue e um pote vidro caído no chão, ao lado de flores vermelhas.

Eu arregalei meus olhos, completamente assustada.

… — Grace sussurrou, em choque, pela cena assustadora.

não respondeu. Apenas abaixou sua cabeça para o chão e fechou as mãos ao lado do seu corpo. Seus ombros estavam tenso e sua respiração ofegante.

fitou o chão com o cenho franzido. A água do pote de vidro quebrado, havia molhado o tapete da sala.

— Menino , o que aconteceu? — Grace perguntou com a voz trêmula. Ela estava nervosa.

passou as mãos sujas de sangue no rosto e respirou fundo.

Então, ignorou completamente a repressão de Grace, enquanto andava até o corredor onde ficavam os quartos.

Grace olhou para mim, com os olhos arregalados. Eu retribuiu seu olhar, apavorada.

— Eu… Eu nem sei o que pensar sobre isso.

— E eu nem sei o que dizer, Grace.

— Vou tentar conversar com o menino , volto logo. — Ela me deu as costas e fez o mesmo caminho que fizera a poucos segundos.

Eu respirei fundo e peguei outro pedaço daquele doce maravilhoso.

Eu estava furioso. Muito furioso.

Eu respirei profundamente, enquanto observava o meu reflexo no espelho.
Eu não me reconhecia mais. Eu não era o mesmo de anos atrás.

Eu não era o mesmo desde… A morte dos meus pais.

Minha vida acabou depois daquele maldito acidente de carro.

Eu não era o mesmo garoto que os deixavam orgulhosos por ser inteligente. Eu não era o mesmo garoto que os fazia gargalhar. Eu não o mesmo garoto que, com um simples abraço, relaxava nos braços da mulher mais incrível do mundo.

Eu não era o mesmo. E nunca mais seria.

Eu costumava pensar que não estava vivendo uma vida, mas apenas sobrevivendo no meio daquela merda cheia de escuridão e trevas.
Eu estava perdendo a sanidade, aos poucos.

Lavei minhas mãos sujas de sangue. E tentei colocar na minha cabeça que eu não deveria sair socando as pessoas. Aquilo estava saindo fora do controle.

Mas em minha defesa, fora Gregory quem começou a me provocar, eu simplesmente não aguentei e revidei as suas provocações.

Eu estava com ódio. Muito ódio.

Enquanto enxugava minhas mãos no pano cor de rosa claro, meus pensamentos foram para os acontecimentos de hoje.

Eu havia acordado com o barulho do celular tocando. Imediatamente, me levantei da cama em um pulo e peguei meu celular sem ao menos olhar para o visor. Meu coração batia acelerado apenas por pensar que poderia ser o hospital me ligando tão cedo.

— Alô? — minha voz soou trêmula.

— Ei, você tá livre hoje? — A voz do garoto do outro lado da linha, me fez respirar aliviado. Porém, o alívio fora embora no mesmo instante, dando lugar à raiva. Eu estava com raiva de Gregory e por tudo o que eu ouvi na última vez em que eu o encontrei.

— O que você quer?

— Cara, eu não queria acabar com a banda, sabe… Eu só tô pensando no futuro e sinceramente, ser a porra de um músico não está nos meus planos, você entende?

— Você já disse isso. Do mesmo jeito eu já dei minha palavra final.

— Mas cara, eu não quero que isso acabe com nossa amizade.

— Gregory, você realmente acha que nós somos amigos? Honestamente, eu não quero mais nenhum tipo de contato com você, não só por isso, mas por todas as merdas que você fez, e que eu sou obrigado a aguentar.

— Você diz isso como se fosse uma das minhas gatinhas, cara — ele disse divertido. — Você não tá com ressentimento, né?

— Eu só não quero ser amigo de uma pessoa como você.

— Ah, você não a superou, entendi. — Ele parecia ter ignorado minhas palavras. — Cara, foi apenas uma maldita aposta entre nós…

— Entre nós, o caralho — eu o interrompi. Como ele pode dizer que eu concordei com aquela merda? — Eu fui o único que não aceitei participar dessa porra!

— Ah, agora você vai se fazer de santo, ? — ele falou com sarcasmo. — Você não aceitou, tudo bem, mas você realmente acha que é diferente de mim? Eu me lembro dos seus comentário em relação à ela antes da aposta. Cara, não seja um maldito santo agora.

— Eu realmente não estou entendo onde você quer chegar com isso. Eu nunca fui a droga de um santo e sei muito bem disso.

— Ainda bem que você admite. Mas onde eu quero chegar? Bom… ontem você ficou nervosinho porque eu disse que você nunca teve a chance que sempre quis com a , agora ela está morta e, cara vamos ser honestos? Você deve aceitar que eu ganhei de você, é isso…

— Eu acho que você não está no seu melhor momento, então eu vou desligar, não sou obrigado a ouvir sua voz logo de manhã.

— Ah, cara, e ela ainda estava grávida. Olha, eu realmente espero que ela esteja queimando no inferno, junto com aquela porra de bebê, sinceramente…

— Você realmente está dizendo isso pra mim, Woods? — Eu explodi de raiva. Gregory estava passando dos limites, se é que existia a palavra limite na porra do seu vocabulário. — Ontem eu só não acabei com você, porque eu estava preocupado demais para pensar em brigas, mas se você continuar me provocando, eu não vou recuar novamente, Gregory.

— Eu pago pra ver essa então, . Se você acha que é melhor do que eu, venha até aqui e acabe comigo.

— Eu não vou me rebaixar ao seu nível, Woods.

— Você é pior do que eu, . A única diferença é que eu peguei a garota por quem você estava apaixonado.

— Eu não estava apaixonado!

— Mas pensando bem… Você nunca seria homem o suficiente para ela, cara. Bom… Por que estamos falando de uma pessoa morta mesmo?

— Você não pode simplesmente calar a porra dessa boca, Gregory?

— Estou esperando você aqui na minha casa. Você vai fugir mais uma vez? Vai cometer mais um fracasso, ?

Eu desliguei o celular no mesmo instante.

Eu estava com muito ódio. Vesti minha camiseta e calcei meu tênis, peguei minhas chaves e sai como um louco até a garagem.
Eu estava cego de tanta raiva. Eu fui burro, eu poderia ter ignorado toda aquela conversa, mas meu outro lado gritava para seguir até a casa de Gregory.

Meu outro lado implorava para socar aquele rosto até ele perder a consciência e, depois, continuar socando seu rosto até matá-lo de vez. Meu outro lado sussurrava, para acabar com a vida daquele desgraçado.

Esse lado queria vingança.

Eu queria mostrar para Gregory que eu nunca fui a porra de um homem fraco. Que eu nunca fui a porra de um garoto apaixonado. Que eu nunca fui a porra de sua sombra por todas aqueles anos. Que eu nunca fui a porra de um homem fracassado que não conseguia a metade das coisas que ele conquistava.

Esse mesmo lado me conduziu até a sua casa.

Eu entrei em sua casa, passei pelos corredores e fui até seu quarto. Entrei e o peguei pela sua camiseta e comecei a desferir socos em seu rosto, como eu imaginei fazer minutos antes.

Esse mesmo lado, me fez jogá-lo na parede e chutar sua barriga, enquanto ele tentar respirar. Seu rosto estava roxo, seus olhos inchados e seu nariz jorrando sangue, mas mesmo assim, aquilo não parecia ser o suficiente para mim.

Eu me agachei ao seu lado e o puxei pela camisa, fazendo-o ficar de pé.

— Decidiu provar que se tornou… Um homem… De verdade, ? — ele perguntou com dificuldades. Ele estava sem fôlego e puxava o ar com rapidez. Mas ainda assim, ele conseguiu esboçar um sorriso irônico em provocação.

Eu queria matá-lo.

— Eu ainda acabo com você, seu desgraçado… — eu disse, entre os dentes. Minha mãos foram até seu pescoço.

— Você… Não… Pode…

Eu o apertava com força, na intenção de acabar com a vida daquele infeliz. Mas de repente, eu o soltei, fazendo-o cair no chão.
Um suspiro de frustração escapou de meus lábios.

Nem pra matar aquele filho da mãe eu era capaz.

Eu era a porra de um homem fraco.

Eu era a porra de um homem que sempre foi a sombra de Gregory.

Então, a gargalhada do infeliz me despertou dos meus pensamentos. Eu o olhei com os olhos cheios de ódio.

— Você é a droga de um fracasso, — ele cuspiu essas palavras, enquanto ria em deboche.

Eu estava me sentindo impotente. E novamente, a raiva tomou conta do meu corpo, e eu subi em cima do corpo de Gregory e comecei a socar seu rosto. E eu o soquei.

Eu o soquei até o infeliz perder a consciência. Então, eu saí de cima do seu corpo e respirei fundo. Meu corpo todo tremia e meu coração batia rápido no meu peito. Eu observei minhas mãos cheias de sangue.

Eu poderia acabar com a vida do maldito. Mas não o fiz. Sai de sua casa como um covarde.

Como a porra de um homem fraco. Era isso que eu era. Um fracasso.

Joguei a toalha com raiva em cima da pia de mármore e soquei a parede. Meus dedos estavam doloridos pra caralho.

O barulho da porta do banheiro se abrindo, me fez encarar a porta. Então, o rosto de Grace apareceu. Ela sorriu sem mostrar os dentes e entrou dentro do cômodo, fechando a porta atrás de si.

Eu respirei fundo pois sabia que deveria dizer algo sobre a cena que fiz ao chegar. Afinal, não é nem um pouco normal você chegar em uma casa com as mãos cheias de sangue e ainda quebrar um vaso de plantas no meio da sala.

Eu devia explicações à Grace.

— Menino , o que aconteceu? Meu Jesus Cristo, você me assustou. — Ela me olhou com os olhos assustados e observou minhas mãos.

— Eu não quero falar sobre o que aconteceu, Grace. Mas te peço desculpas por agir daquele jeito, não foi minha intenção, eu estava fora de mim.

… — ela suspirou, aproximou-se de mim e tocou minhas bochechas. — Você é praticamente meu filho e dói na minha alma te ver nesse estado.

— Eu estou bem. — Eu esbocei um sorrisinho para convencê-la daquela mentira. — Não se preocupe.

… Eu te conheço como a palma da minha mão. Você não está bem e eu quero saber o que está acontecendo?

Eu fiquei em silêncio, de cabeça baixa porque eu não conseguiria encarar seus olhos, sem dizer a verdade.

— Aconteceu algo com a Hope?

Eu neguei, de imediato. — Ela está bem.

— Então…

— Ah, longa história — eu suspirei.

— Então diga tudo, não tenho pressa.

— Mas… — eu tentei argumentar.

, eu estou pedindo de todo meu coração para se abrir comigo — ela pediu gentilmente.

Então eu comecei a contar algumas partes de todo o acontecido. Eu escondi algumas partes, como por exemplo, a parte em que Gregory ficou estirado no chão sem consciência. Grace escutava tudo com atenção, enquanto me olhava no fundo dos meus olhos, como se reconhecesse que eu estava mentindo.

— É isso. — Eu dei de ombros.

— Uau — ela disse num tom de surpresa e medo. — Mas você não precisa fazer isso, .

— Eu estava cego de raiva.

— Eu entendo, . Eu sei que você não consegue controlar isso. Você ainda toma seus remédios?

— Grace…

, eu só fico preocupada com sua saúde mental.

— Minha saúde mental está fodida há muito tempo, Grace, e não vai ser a porra de uns remédios que vão me fazer ficar bem novamente.

— Você realmente está desistindo de você mesmo, ? — Ela me olhou seriamente. No fundo de seus olhos eu enxerguei o sentimento de pena que ela sentia por mim.

Eu não queria que ninguém me olhasse com pena.

— Eu já desisti de mim há muito tempo, Grace. Sinto muito.

— Você não está sozinho, você sabe disso. E sabe também, que precisa estar bem para ficar ao lado da Hope.

— Eu estou bem, Grace. Por favor, não comece a dizer que eu não sou bom o suficiente para Hope.

— Tudo bem.

— Eu… Eu sinto muito mas não sou o mesmo desde que meus pais morreram. Eu tento mas não consigo, e é por isso que estou desistindo de mim.

— Sinto muito, Grace. — Eu me aproximei para beijar o topo de sua cabeça.

— Você não está pensando em se matar, não está? — Ela segurou minha camiseta com força, enquanto me olhava apreensiva. Eu fui obrigado a rir pelo seu pensamento.

— Não, Grace, ainda há uma pessoa que precisa mim.

— Ufa! — ela colocou as mãos no coração e sorriu aliviada. — Sabe, eu acho que você deveria falar com a Heaven…

— Por que?

— Não sei… Nós ficamos assustadas, seria legal se você apenas falasse que está bem e que não queria assustá-la…

Eu assenti e fiz uma careta.

— Prometa que nunca vai tentar fazer nada contra sua vida, meu menino. — Ela beijou minha bochecha.

— Eu prometo.

— Agora, vá falar com a garota, eu só vejo vocês trocando farpas e provocações desnecessárias. — Ela me empurrou devagar pelos ombros. Eu sorri e abri a porta.

— Grace, Grace… — Eu neguei com a cabeça, antes de fechar a porta e caminhar até a sala.

estava sentada no sofá, enquanto assistia o desenho do Bob Esponja. Eu não evitei o riso e me aproximei do sofá. Ela me olhou por cima dos ombros e revirou os olhos.

Eu ainda estava rindo, quando me sentei ao seu lado.

— Bob Esponja, huh?

— Não posso evitar, é mais forte do que eu.

— Te entendo. Era meu desenho favorito quando eu era criança.

Ela me observou com seus olhos castanhos. Ficamos nos encarando por alguns segundos, até eu ficar constrangido pela intensidade do seu olhar e desviar meu foco.

— Não precisava ter limpado minha bagunça — eu disse, referindo-se a sala que estava limpa, sem os vidros e a água que derrubei.

— Eu estava sem nada pra fazer. — Ela deu de ombros enquanto assistia ao desenho.

Eu assenti, mesmo sabendo que ela não estava olhando para ver tal movimento. Então, eu fiquei admirando seu rosto de perfil.

Heaven era linda, e eu não negava. Ela sempre fora linda de morrer. Ela sempre me fazia ficar hipnotizado por sua beleza.

Ela sempre me fazia ficar admirado por seu rosto, que parecia ter sido esculpido por um anjo. E ela sempre me fazia sentir algo quando sorria. Principalmente se esse sorriso fosse direcionado diretamente para mim.

Para mim.

tinha um sorriso nos lábios enquanto me olhava com as sobrancelhas arqueadas. Como se soubesse que eu estava em um transe enquanto admirava seu belo rosto.

Eu abaixei minha cabeça, constrangido.

Caralho.

Então, ela soltou uma risada, como se dissesse, “eu te peguei, babaca”.

Eu apoiei meu braço no sofá e mordi minha cutícula, ciente de que eu era o centro da atenção da garota ao meu lado.

Heaven

Eu avistei Grace entrar na sala e fechar a porta atrás de si. Ela percebeu minha presença e sorriu de um jeito meigo para mim.

— O supermercado estava lotado! — ela proferiu, enquanto colocava algumas sacolas no chão. Eu me levantei e peguei quatro sacolas para ajudá-la.

— Eu ajudo, onde devo colocar?

— Em cima da mesa mesmo, querida. Eu arrumo depois, não se preocupe.

— Tudo bem… — Eu andei até a mesa e deixei as sacolas.

— E como foi sua primeira consulta? — ela perguntou, caminhando em minha direção.

— Ah — eu soltei um suspiro involuntário. — Bom… Ninguém me reconheceu.

— Eu te falei, o povo do interior não conhece gente famosa da grande cidade, afinal, nem tempo para ligar a TV nós temos.

— O que é um absurdo, não é mesmo? — eu comentei, indignada.

— É. Talvez. — Ela largou as sacolas em cima da mesa e encostou-se com os braços cruzados enquanto me olhava. — Desde sempre a SunWest foi assim. Essa cidade nunca desenvolveu uma tecnologia mais avançada e nunca precisou também. Nós crescemos e aprendemos a trabalhar duro e valorizar as coisas simples. Por isso aqui não existe mansão, famosos, ricos e essas coisas.

— De alguma forma, é algo bom.

— Você se acostuma, querida, e quando perceber, não irá querer sair dessa vila. — Ela riu. — Mas continue dizendo sobre a consulta.

— Então, a médica não reconheceu e eu suspeito dizer isso por causa da idade dela, ela deve ter uns setenta ou oitenta anos de idade.

— Ah. — Ela abanou a mão no ar. — Os jovens da vila infelizmente não têm interesse em medicina, então como a cidade é muito pequena, resta apenas os mais velhos. Mas o que ela disse sobre seu bebê? Ele está bem?

— Bem… A médica pediu uns exames de sangue e eu já passei no postinho que você disse, agora só esperar os resultados. Ela marcou uma ultrassonografia para o mês que vem e me passou uma lista enorme de coisas que eu não devo comer. — Eu rolei os olhos.

— Isso é bom. Eu realmente sinto muito por não tê-la acompanhado na consulta, eu prometo que na próxima vez eu irei.

— Sem problemas, dona Grace.

— Ei, ei. — Ela levantou o dedo indicador e me olhou de modo repressor. — O que conversamos mocinha?

— Então… Grace. — Eu segurei a risada.

Eu e Grace, tivemos uma conversa sobre esse termo que costumava usar para se referir a ela. Então, ela praticamente me obrigou a chamá-la somente de Grace, sem o “Dona”.

— Você sabe exatamente de quantos meses está?

— Hum… Não. Ela disse que dá pra ver na ultrassonografia. — Neguei com a cabeça.

— Que pena — ela murmurou. — Eu estava pensando, você tem preferência do sexo do bebê?

— Então… — Eu parei para pensar por alguns segundos. — Para ser honesta, eu nem queria estar grávida. Aconteceu tudo de repente e eu ainda não consegui assimilar tudo. Eu não consigo ver o lado positivo em estar grávida aos dezoito anos de idade.

— É uma fase complicada, principalmente por você não aceitar, mas te garanto que a felicidade que você sente quando pega seu pequeno no colo é a coisa mais maravilhosa do mundo — ela disse com um sorriso gentil nos lábios.

Ela me puxou levemente pelo braço em direção ao fogão.

— Me ajude a preparar um jantar! — ela exclamou, completamente animada.

— Ok…

— Pegue os tomates e os corte, por favor?

— Claro. — Eu esbocei um sorriso e caminhei até a fruteira, pegando os tomates nas mãos. — Grace, você já foi mãe? — Eu não aguentei minha curiosidade e perguntei.

Ela fechou a torneira e virou de frente para mim. Seus olhos não se focaram em meu rosto, ela olhou para o chão enquanto enxugava suas mãos num pano.

— Hã… É um assunto delicado, não é? — eu me aproximei, abri a torneira e lavei minhas mãos. — Desculpe, eu não queria invadir sua privacidade desse jeito, mas eu fiquei curiosa pelo modo que você disse.

Ela fechou os olhos e soltou um suspiro. Eu mordi meus lábios, nervosa.

Eu e minha boca grande! Grace deveria estar tão brava comigo por invadir sua privacidade desse jeito.

Eu não me surpreenderia se minhas roupas estivessem do lado de fora nessa mesma noite.

— Eu…

— Não precisa dizer nada, Grace. Eu sou muito curiosa, desculpe por isso. — falei gentilmente e comecei a cortar os tomates.

— Não, não… — Eu notei que no fundo de seus olhos, havia uma dor.

Dor. Tristeza. Sofrimento. Solidão

Ela deu um sorriso triste, antes de começar a falar:

— Eu fiquei grávida.

Então, ela calou-se. E eu tentei não demonstrar surpresa ou espanto diante de sua revelação.

— Mas, perdi o bebê. Algumas coisas aconteceram e eu… Simplesmente o perdi.

— Eu sinto muito, Grace.

— Depois de tudo, eu nunca mais tentei engravidar. Ainda penso nisso e me sinto culpada. Eu cometi muitos erros no passado. Então, eu acho que mereci isso.

— Eu realmente sinto muito.

Eu a olhei com agonia, pois seu desespero estava apertando meu coração. Ela ainda sofria por isso. E muito.

Então, larguei a faca e o tomate e me aproximei, tomando seu corpo em uma abraço. Eu apertei Grace em meus braços, o mais forte que eu conseguia. Eu queria transmitir algum tipo de segurança à ela.

Em poucos dias, Grace mostrou-se ser uma mulher forte, adorável, gentil, inteligente, determinada e engraçada. Ela era preciosa para esse mundo e partiu meu coração saber sobre esse sofrimento que ela sofrera no passado.

— Eu sinto muito — eu disse, sentindo um nó se formando em minha garganta. Eu odiava ver pessoas boas sofrendo.

— Ele morreu logo depois de saber da gravidez… — ela disse referindo-se ao seu marido.

Seu choro era de puro desespero, de uma alma sofrida, de alguém solitária que aproveitou um momento para colocar para fora todas as suas tristezas. Após alguns minutos, Grace se recuperou, e já estava sorrindo e falando sobre diversos assuntos enquanto cozinhava. E eu, secretamente, a admirei por isso.

Grace era uma mulher forte.

Ela era o tipo de mulher que eu queria ser.

O tipo de mulher que mesmo com as dificuldades, ainda continuava sorrindo e vivendo a vida como se não estivesse com um peso em seus ombros.

✩✩✩✩✩
Eu fechei meus olhos e coloquei a mão na minha barriga. Eu fiquei nessa posição por alguns minutos, apenas tentando sentir alguma coisa pela criança que estava sendo gerada dentro de mim.

Mas eu não sentia nada. Nem uma felicidade. Nem tristeza. Alegria. Ou arrependimento.

Eu não sentia nada.

Eu suspirei frustrada e abaixei a blusa do meu pijama, virei-me e me deparei com parado no meio do meu quarto.

Mas que porra…???

— Que merda você está fazendo aqui?

Ele apenas me olhava, sem expressar nenhuma reação.

— Você por acaso virou algum psicopata? Um stalker? Por que entrou dentro do meu quarto sem minha permissão? — eu perguntei com raiva.

Ele deu alguns passos, aproximando-se de mim.

— Como você tá? — foi a única frase que ele proferiu após longos minutos em silêncio.

Eu olhei para seu rosto sem realmente acreditar em suas palavras.

— Você tem problemas com bipolaridade, garoto?

— Já tive — ele disse normalmente.

Eu abri e fechei a minha boca diversas vezes, sem saber o que responder

— Como você está? — ele repetiu sua pergunta. Eu bufei e passei ao seu lado, abri a porta e virei meu pescoço para olhá-lo.

— Nós não somos amigos, . E eu estou bem, se é isso que você queria saber. — Eu fechei a porta com força e caminhei até a sala.

✩✩✩✩✩
No dia seguinte, eu me despertei bem cedo e preparei o café da manhã. Bem… Um café sem açúcar e pão francês da padaria poderia ser considerado um café da manhã, não podia?

Eu bebi o líquido amargo e corri rapidamente até o banheiro para tirar aquele gosto ruim da boca. Eu definitivamente não sabia fazer nada. Absolutamente nada. Nem um café.

Então, eu abri a geladeira e peguei uma jarra com leite e esquentei. Enquanto esperava o leite esquentar, lavei algumas louças da noite anterior e liguei o rádio.

De imediato, reconheci a música que tocava, Crazy In Love, da Beyoncé. Eu esbocei um sorriso e aumentei o volume, apreciando aquela música como eu costumava apreciar um bom vinho tinto.

Eu entrei em sincronia com a música, cantarolando somente as partes em que eu me lembrava. Quando chegou o refrão, eu já estava em puro êxtase e quase esqueci o leite no fogão. Rapidamente, desliguei o fogo e comecei a secar as louças.

Eu movia minha cabeça no ritmo da música, completamente focada, sem me importar ao que estava acontecendo ao meu redor. Apenas quando a música acabou, eu reparei que havia alguém me observando.

Eu me assustei e soltei um grito, deixando o copo de vidro que estava nas minhas mãos cair. Eu praguejei alto e corri até o rádio para desligá-lo.

— Você é doido? — eu gritei.

Ele me observou com uma expressão divertida e caminhou em minha direção.

— Você não pode avisar quando chegar em algum lugar? Não é a primeira vez que você me assusta desse jeito, .

Ele riu.

— Foi mal. Não foi minha intenção.

— Foi mal. Não foi minha intenção — imitei sua voz e revirei meus olhos, o que foi motivo de mais gargalhadas de sua parte.

— Não sabia que você curte Beyoncé, huh? — Ele cruzou os braços e me olhou.

— É. — Eu dei de ombros. — Agora, olhe para a bagunça que você fez, . — Apontei para o chão onde os cacos de vidros estavam espalhados.

— Eu já disse que foi mal. — Ele levantou as mãos em um sinal de rendição.

Eu bufei e lancei um olhar mortal em sua direção, antes de começar a recolher os vidros.

— Quer ajuda? — ele perguntou.

— Não precis… Ah! — eu soltei uma exclamação ao sentir um pedaço de vidro perfurar minha mão.

— Você tá bem? — rapidamente apareceu ao meu lado.

Eu olhei para a palma da minha mão direita que estava sangrando e soltei um murmuro.

— Eu pareço bem para você? — eu devolvi com a voz amarga. — É culpa sua! — Eu me levantei do chão e lavei minha mão na pia.

Eu fechei meus olhos e reprimi um gemido de dor. Minha pele ardia pra caralho.

— Eu vou pegar algum remédio, está sangrando muito — ele disse, enquanto analisava minha mão.

— Tem medo de sangue, ? — Eu o provoquei. Ele me olhou e revirou os olhos.

— Eu não tenho medo de sangue, só…

— Só tem medo de sangue! — eu completei sua fala, soltando uma risada no final.

— Eu ia dizer que prefiro evitar, apenas isso.

— Sei — eu murmurei.

— Não saia daqui, vou pegar alguma coisa.

— Ah, claro, você fala como se eu soubesse sair desse fim de mundo — eu debochei.

Ele me deu as costas e desapareceu do meu campo de visão. Então, eu finalmente pude soltar um gemido de dor.

— Droga — eu arfei.

Em segundos, retornou na cozinha com uma pequena caixa nas mãos. Ele se aproximou e desligou a torneira, pegou minha mão e a observou. Eu me incomodei com a sua aproximação e troquei o peso das minhas pernas, visivelmente desconfortável com aquela situação.

— Hã… Você só vai ficar olhando para a minha mão? — Eu coloquei uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e o encarei.

Ele olhou nos meus olhos como se tivesse acordado de algum transe e negou freneticamente com a cabeça.

— Não, eu… Eu só tava vendo a… — Ele coçou a nuca. — A profundidade do corte, só isso.

Eu o olhei desconfiada e concordei com a cabeça.

— E como está?

— Não está tão ruim assim. — Ele abriu a caixa e pegou um spray. — Se limpar e passar o remédio, melhora rapidinho.

— Entendi — eu concordei, ainda um pouco desconfortável pela a atenção especial que ele estava me dando.

— Bom, eu vou começar, tudo bem? — ele perguntou, e eu balancei minha cabeça. — Vai arder um pouco mas vai passar, não se preocupe.

Então, ele passou o spray na palma da minha mão e pegou um algodão, começando a limpar o machucado, em seguida, ele jogou o algodão no lixo e pegou algo dentro do seu bolso e uma pinça de dentro da caixa.

— O que você vai fazer? — Eu olhei para seus movimentos sem entender absolutamente nada. Ele ligou um isqueiro e queimou a ponta da pinça.

— Eu vou tirar o vidro da sua mão — ele disse como se fosse óbvio. Eu arqueei uma sobrancelha, instigada por aquela ação.

Onde havia aprendido a fazer aquilo?

Definitivamente, ele era uma caixinha de surpresas.

Ele pegou minha mão e me olhou, antes de dizer:

— Hum… Pode doer.

— Vai logo, — eu bufei, impaciente. — Pare de enrolar e tira esse negócio da minha mão.

Ele riu, antes de começar a tirar o vidro com a pinça. No mesmo momento, apertei meus lábios e senti meus olhos lacrimejarem.

Aquilo estava doendo pra caralho!

Aquela tortura durou alguns minutos e quando finalmente jogou um maldito pedacinho de vidro fora, eu me permiti respirar.

— Não foi tão mal assim, foi? — ele perguntou, rindo.

Eu franzi a testa.

— Imagina, só parecia que você tava arrancando minha alma do meu corpo, .

— Desculpa.

— Por que você está se desculpando? — eu perguntei.

Ele soltou um suspiro.

— Pela dor, sei lá.

Eu não segurei o riso debochado que escapou dos meus lábios.

— Você é estranho.

Ele deu de ombros e voltou a mexer na caixa.

— Eu preciso colocar um curativo, posso?

Eu estreitei meus olhos e balancei a cabeça.

— Quem é você, e o que você fez com o , o cara mais egocêntrico, egoísta e pegador do colégio?

Ele soltou uma gargalhada e pegou minha mão com cuidado.

— Eu só estou sendo gentil, não posso? — Seus olhos castanhos me encararam com intensidade.

— Hum… Eu diria que gentileza não é algo normal para alguém como você.

Ele soltou minha mão após fazer um curativo desajeitado e arrumou as coisas dentro da caixa.

— Alguém como eu? Você não me conhece, .

Heaven — eu o corrigi. — E realmente eu não o conheço…

— Então, deveria saber que eu sou uma pessoa gentil, na maioria das vezes.

— Na maioria das vezes em que você não está aqui, certo? — Eu arqueei minha sobrancelha. Ele negou com a cabeça.

— Qual o problema em me chamar de Heaven, hein?

— Certo, Heaven… Eu sou gentil com quem merece, só isso. Agora, vamos parar de falar sobre mim. — Ele fechou a cara e pegou a caixa — Vou guardar a caixa, e deixa os cacos de vidro onde estão que eu limpo.

Ele me deu as costas, sem me deixar falar alguma coisa. Eu ouvi o barulho da porta se abrindo e caminhei até o meio da sala.

— Bom dia, querida. — Grace sorriu para mim.

Eu a olhei, e sorri de volta.

— Bom dia… Er, eu pensei que você estava dormindo…

Ela riu.

— Não, eu fui visitar uma amiga logo quando amanheceu.

— Então… Por que está aqui? — eu franzi meu cenho.

está aqui? — ela olhou para os lados e eu balancei minha cabeça. — Eu não faço a mínima ideia, não combinamos de nos encontrar hoje. Aliás, eu achei que ele não iria aparecer essa semana.

— Estranho.

— É… Ou não… Ele pode ter vindo aqui por sua causa — ela disse com um sorrisinho de lado.

Eu ri.

— Não, tudo menos isso. só me suporta e eu ainda faço um esforço para suportá-lo também.

Ela soltou um riso, e negou com a cabeça.

— Vocês jovens são um pouco lerdos, às vezes.

— Como?

— Grace! — apareceu ao meu lado.

O rosto de Grace se iluminou e ela abriu um sorriso largo, enquanto caminhava até o garoto para abraçá-lo.

— O que você tá fazendo aqui, menino?

— Ah, senti saudades. — Ele esboçou um sorriso.

— Sei. — Ela estreitou os olhos em sua direção.

— Mas eu preciso estar em casa daqui a pouco.

— Fique para o almoço — Grace pediu.

— Pode ser. — Ele encolheu os ombros antes de abraçar Grace mais uma vez.

Eu esbocei um sorriso discreto, pois a intimidade que Grace tinha com era algo completamente bonito de se admirar.

✩✩✩✩✩
— Você percebeu, querida? — Grace indagou, de repente. Eu desviei minha atenção da minha revista de palavras cruzadas e a encarei.

— O que, Grace? — perguntei, confusa.

— Hum… Nada não. — Ela desconversou.

— Ah, agora fala! — Eu joguei a revista e a caneta para o lado e me sentei no sofá.

Ela largou o crochê que estava em sua mão e arrumou a armação do óculos em seu rosto.

— Eu não vou dizer muito mas… Comece a reparar nos pequenos detalhes, Heaven.

— Eu não entendi. — Eu balancei minha cabeça.

— Apenas seja mais observadora, tudo bem?

— Eu não estou gostando desse conselho — eu ri, nervosamente.

— Não há nada com que se preocupar, apenas me ouça porque eu sei do que estou falando. — Ela sorriu e pegou o crochê novamente.

Eu fiquei pensando no motivo de Grace ter dito aquilo. Eu iria ser mais observadora. Com toda certeza.

Eu puxei uma grande quantidade de ar e soltei a respiração lentamente. Olhei novamente para o garoto parado em cima do palco e movimentei minha cabeça.

— Você pode cantar novamente, por favor?

O garoto parecia tão cansado daquilo como eu, pois ele me lançou um olhar cansado e bufou. Eu controlei ao máximo a minha vontade de enfiar aquela merda de microfone na garganta dele.

— Leyden! — eu fiz um sinal para meu novo baterista, colocar o playback novamente.

Ele concordou com a cabeça e, em seguida, uma melodia lenta e suave preencheu o ambiente. Leyden me olhou com uma e expressão de pânico e negou com a cabeça. Eu apenas me levantei da cadeira e caminhei para perto do palco, o garoto me olhou com um olhar confuso. Eu levantei minha mão e, então, o playback parou.

— O que foi agora? — o garoto perguntou, nervoso.

— Austin…

— Justin — ele praticamente rosnou seu nome para mim.

— Justin. Então, cara… Você sabe que precisamos de um vocalista para uma banda de rock, não sabe?

Ele arqueou as sobrancelhas e meio hesitante, balançou a cabeça.

— Cara, você chegou aqui e cantou duas músicas lentas e praticamente encarnou o Ed Sheeran. Sinto muito, mas nós não cantamos esse estilo de música.

— Minha voz não fica muito boa se eu cantar rock.

— Então, o que está fazendo aqui?

— No cartaz de divulgação não estava escrito que precisava cantar rock.

— Bem… Leyden, você fez o cartaz direito?

— Mas é claro — respondeu.

— Então, por que não tinha os requisitos para poder fazer essa audição? — perguntou o garoto.

— Você não pediu. — Ele encolheu os ombros.

Eu revirei os olhos.

— Eu achei que você fosse mais esperto, criatura.

— A culpa não é minha, eu só fiz o que você pediu.

— Ah, claro. Você monta um cartaz e não coloca os detalhes sobre a audição, você é burro ou só finge ser?

— Olha, na maioria das vezes…

— Leyden, cala a boca, por favor. — Eu me virei para o garoto. — Foi mal aí, mas meu amigo é lerdo e burro e…

— Se eu soubesse nem perderia meu tempo aqui — ele murmurou irritado e pegou sua mochila do chão. — Bando de incompetentes.

Eu troquei um olhar com Leyden e abanei minha mão no ar, para ele não se importar. O garoto deu as costas e saiu batendo forte a porta do pub.

— Nós temos o baixista, guitarrista e baterista — ele numerou com os dedos enquanto falava —, menos o principal, o vocalista. Que grande merda, .

— Não fale como se eu fosse o culpado. Se você não fosse tão burro, teríamos mais pessoas interessadas em participar da audição.

— Tá, tá. Você vai ficar jogando isso na minha cara agora?

— Talvez. Ou eu posso esperar pela próxima burrice que você irá fazer.

Leyden deu de ombros, como se não se importasse e cruzou seus braços. Ele me analisava com atenção. Eu retribui seu olhar e cruzei meus braços também.

— O que foi? — Levantei meu rosto, levemente. Ele balançou a cabeça e coçou a nuca.

Eu nem o conhecia mas notei que aquele gesto significava algo. E não era algo bom.

— Então… Você comentou que costumava fazer umas apresentações e tal. Eu pensei… E se você fosse o vocalista da banda?

— Eu sou o guitarrista — eu respondi, imediatamente.

— Mas cara, nós não encontramos nenhum vocalista. Você seria perfeito e…

— Nem pensar, Leyden. Eu não quero cantar.

— Por que?

Eu apenas lancei um olhar duro em sua direção. Eu não queria cantar. Eu não conseguia cantar.

Toda vez em que eu pisava em um palco e pegava no microfone, meu coração batia acelerado e o ar parecia me faltar. Minha mente só repetia a imagem da minha mãe e seu sorriso orgulhoso. De suas palavras ao terminar uma apresentação.

“Você foi perfeito, meu filho. Eu tenho orgulho em ser sua mãe. Você vai conquistar o mundo com sua voz e seu coração gentil, meu amor. “

Ou de seus olhos marejados e sua voz completamente emocionada. Ela fora a última pessoa que me ouviu cantar.

— É algo pessoal. — eu respondi simplesmente.

— Eu achei que a gente já era parceiro e tudo o mais. — Ele gesticulou com as mãos.

— Nós somos parceiros, cara. — Dei um tapinha de leve em seu ombro. — Eu só não gosto de falar sobre a minha vida.

— Tudo bem — ele sorriu minimamente. — Mesmo eu ainda achando que você deve ser o vocalista?

— Definitivamente, não.

✩✩✩✩✩
Bem… Lá estava eu. Pela primeira vez em anos, pisando novamente em cima de um palco e com um microfone nas mãos.

Eu sempre evitei esse momento pois eu achava que não iria aguentar lidar com as emoções que eu sentiria, mas eu estava me saindo melhor do que imaginava. Eu não quis sair correndo de lá. Eu queria estar lá.

Então, em um certo momento, eu olhei para as pessoas sentadas nas mesas e algumas que estavam mais próximas do palco. No meio de algumas dezenas de pessoas, meus olhos encontraram uma mulher sentada com a cabeça encostada no vidro. Seus cabelos loiros e lisos estavam arrumados de modo impecável e seus olhos azuis pareciam estar cheio de vida.

Vida.

Eu senti meus olhos arderem e meu coração errar uma batida. Eu não conseguia tirar os olhos da figura feminina que mais esteve presente na minha vida.

Eu olhava para a minha mãe com lágrimas nos olhos.

Eu queria sair correndo diretamente para seus braços, mas meus pés pareciam estar fincados no chão e minhas pernas não queriam obedecer ao meu comando. Os olhos da minha mãe estavam cheios de lágrimas.

Um oceano infinito.

Seus olhos estavam com lágrimas como um oceano sem fim.

Eu odiava oceanos. Eu odiava água.

Eu pisquei meus olhos e, então, ela não estava mais lá. Imediatamente… Eu senti uma vontade de chorar. Eu queria gritar. Eu queria minha mãe de volta. Eu queria minha vida de volta.

Eu nem percebi que os garotos estavam cantando minha parte da música, enquanto eu estava parado olhando para o nada com a guitarra nas mãos. A música chegou ao fim. As pessoas aplaudiram. Eu saí correndo para o banheiro com o choro preso na garganta.

✩✩✩✩✩
Eu desliguei minha moto e tirei meu capacete, olhei para a movimentação na frente da porta da casa de Grace.

— Que merda…? — Franzi meu cenho enquanto observava um carro preto e grande, que provavelmente custava mais do que minha casa. Então, eu desci da moto e andei

Eu estranhei a cena mais ainda. Um homem estava conversando com Heaven. Eu não sei o que mais me incomodou, se foi o fato de ele estar batendo um papo com uma pessoa que perante a mídia, e o país inteiro, estava morta ou por ele estar conversando com ela enquanto seus olhos passeavam por todo o seu belo corpo. Alguma coisa me incomodou por dentro. Eu senti uma vontade enorme de afastar aquele homem de perto dela.

Sem nem perceber, meus pés praticamente correram em direção aos dois e, então, eu me tornei o centro da atenção deles. Eu cheguei bem perto do corpo de Heaven e sorri.

— E quem seria ele? — Ele perguntou para Heaven.

Eu fechei minha cara na hora. Que sujeito abusado…

— eu falei com a voz firme.

Ele arqueou as sobrancelhas.

— Calvin, prazer. — Ele estendeu sua mão, e eu apenas lancei um olhar duro em sua direção e olhei para a garota ao meu lado.

Heaven me lançou um olhar repressor e cruzou os braços. Eu conseguia imaginar o que ela estava pensando, algo do tipo: , não seja mal-educado e estenda a mão para o rapaz”.

Pensando bem… Isso é algo que Grace falaria, Heaven apenas reviraria seus olhos castanhos e soltaria alguma frase debochada, tipo: “Nem vale a pena ele é um grosso mesmo”. Ou sendo gentil, hahaha, que piada”

O cara pareceu constrangido e colocou sua mão no bolsa da sua calça estupidamente cara e bonita. Ele exalava riqueza. Eu diria que ele era um empresário ou algo assim.

Ele tinha cabelos loiros, pele clara e olhos claros. Eu nem desejei que o engomadinho fosse feio para Heaven não o olhasse como ela estava o olhando. Ela parecia babar pelo cara e nem queria disfarçar isso.

— Então — eu comecei a dizer. — Quem é você e o que quer aqui?

— Eu já disse, sou Calvin. — Ele repetiu sua apresentação ridícula. Eu revirei os olhos.

— O que quer?

— Cal já estava de saída, . — Heaven me olhou de canto de olho. E sorriu para Cal…

Cal?

Eles já estavam tão íntimos assim?

— Ah, sim. Eu perdi completamente a noção da hora. Foi um prazer te conhecer, Heaven. — Ele fez menção de se aproximar, mas meu corpo entrou na frente e ele me olhou com uma interrogação estampada na testa.

— Eu só quero me despedir…

— Tchau — eu disse friamente.

Heaven me empurrou para o lado e estendeu sua mão para ele. Eu torci meu nariz e virei a cara.

— A gente se vê por aí — o sujeito falou.

— Claro — Heaven respondeu.

Então eu finalmente respirei, quando ele começou a caminhar em direção ao carro para, enfim, ir embora.

— Que porra foi essa, ? — ela perguntou.

Eu me virei em sua direção.

Eu finalmente percebi que seus cabelos estavam um pouco mais curtos e seus cachos um pouco mais volumosos. Eu sorri, minimamente.

— Você cortou o cabelo.

— Que? — Ela tocou as pontas do cabelo, depois suspirou e voltou a me fuzilar com o olhar. — Ah.

Ela começou a andar e abriu a porta da casa.

— Quem era aquele cara?

— Não te interessa, — ela resmungou enquanto entrava dentro de casa.

— Você se esqueceu que é uma pessoa morta e famosa? — eu perguntei, irritado.

— Não, ainda não tive esse prazer em esquecer da droga da minha vida.

— Esse homem tá saindo com você? Ele dormiu aqui?

, sinceramente? Vá se foder. — Dito isso, ela virou-se e caminhou em direção ao corredor, deixando-me sozinho no meio da sala.

✩✩✩✩✩
Eu ainda estava pensando no engomadinho quando decidi subir a escada e me sentar em cima do teto. Como eu costumava fazer antes. Lá em cima, eu tinha uma visão maravilhosa do mundo ao meu redor.

Como SunWest era muito pequena, eu tinha uma visão das árvores e, mais à frente, dos prédios das cidades próximas. Eu olhei as estrelas, que pareciam brilhar intensamente no céu escuro.

— Te achei — uma voz soou no começo da escada. Eu virei minha cabeça para trás.

— O que você quer?

— Aí, garoto. Você tá de mal humor hoje? — ela resmungou enquanto tentava levantar sua perna para subir. E, então, eu reparei que durante esses dois meses, sua barriga estava visivelmente maior.

— Você pode cair e machucar o bebê.

— Então por que você não seja um cavaleiro e me ajude?

— Você quer subir aqui por quê?

— Eu só quero fazer companhia. Mas eu acho melhor voltar do que ficar perto de uma pessoa mal-educada como você.

— Pare de drama, Heaven. Vem logo. — Eu me levantei e aproximei-me, estiquei minhas mãos e a puxei. Ela estava um pouco agachada e segurou meus braços com força enquanto se levantava.

Ela estava com os olhos fechados e quando finalmente ficou reta, seus olhos brilhantes encontraram os meus. A luz da lua a deixava ainda mais bonita.

— Aqui em cima é…. Uau. — Ela olhou em volta.

— Incrível, não? — eu sussurrei. Minha voz quase não saiu. Suas mãos ainda estavam nos meus braços e as minhas ainda seguravam sua cintura.

Ela olhou para o lugar onde minhas mãos seguravam a sua cintura e me encarou. Depois, seus olhos pousaram nos meus braços, onde suas mãos estavam.

— Er… — Ela tirou suas mãos do meu corpo. Imediatamente, senti falta do seu calor e da maciez da sua pele.

Ela me olhou novamente.

— Então…

Fora a minha vez de retirar minhas mãos de sua cintura. Eu me afastei de seu corpo como se tivesse tomado um choque. Limpei a garganta e me sentei na beirada do telhado.

Heaven sentou-se ao meu lado. Pelo canto de olho, eu percebi que ela me encarava e, inutilmente, senti minhas bochechas corarem.

✩✩✩✩✩
Nós ficamos em silêncio por longos minutos. Sem dizer nada um para o outro, sem olhar um para o outro. Era como se ela não quisesse que eu notasse sua presença ao meu lado.

Ela fora a primeira a se levantar e dizer que precisava jantar, pois sua médica havia dito que era importante ter a refeição balanceada e horários fixos. Eu apenas balancei minha cabeça, incapaz de dizer qualquer coisa.

Eu só pensava em Heaven e no seu toque quente e delicado.

Eu só pensava em Heaven e nos seus olhos brilhando.

Eu só pensava em Heaven e no seu cheiro de flores.

Eu só pensava em Heaven…

Heaven…

Heaven…

Eu desci as escadas e fechei a porta dos fundos. Fui até a sala e peguei minha jaqueta jeans e as chaves.

— Já vai embora, ? — perguntou Grace. — Você ficou lá em cima desde que chegou.

— Eu preciso voltar, já tá tarde.

— Tem mais shows hoje?

— Não.

— Ah, então tome cuidado com a estrada, tudo bem? — Ela levantou-se e me abraçou. Eu beijei o topo de sua cabeça.

— Fique tranquila, dona Grace — eu ri.

Eu ainda estava rindo quando Heaven entrou no meu campo de visão. Eu me desvencilhei lentamente do corpo de Grace.

— Vou indo, então — Meus olhos voltaram para Grace. Ela apenas moveu a cabeça. — Tchau, Heaven.

Eu a olhei novamente. Eu peguei meu capacete e caminhei até a porta sentindo o olhar de Heaven me acompanhar.

Heaven
Eu estava andando no centro há mais de uma hora. Eu entrava nos lugares com minha bolsa pequena de crochê que fora feita por Grace.

Eu perguntava se havia alguma vaga de emprego disponível, alguns pediam o meu currículo e, na maioria das vezes, a resposta era sempre a mesma: NÃO. Então eu saía totalmente frustrada e desanimada.

Eu vi uma lanchonete na esquina da rua. Eu suspirei e pensei: Essa é a minha última tentativa.

Eu empurrei a porta de vidro e um barulho estridente de um sino, anunciou a minha chegada. Uma moça com cabelos vermelhos, um piercing no canto da boca e no nariz e o corpo coberto de tatuagens estava no balcão digitando no teclado. Ela me olhou rapidamente e voltou a digitar.

Eu me aproximei devagar. Ela fez um sinal com as mãos para esperar. Eu esperei. E quando ela parou de digitar, perguntou:

— Em que posso ajudá-la?

— Hã… Eu… Hum… Você parece um pouco atarefada, né? — Eu esbocei um sorrisinho amarelo.

Ela me olhou.

— Eu não sou lésbica… — falou num tom cansativo.

Eu arregalei meus olhos.

— Eu sei, eu sei. Eu sou cheia de tatuagens, piercings e maquiagem pesada. Mas, infelizmente, existe a droga dos estereótipos que aos olhos da sociedade uma mulher como eu é lésbica. Surpresa, eu não sou!

Eu estava paralisada. Sem palavras.

— Ok… Vai me dizer que eu parti seu coração e blá blá blá… Docinho, eu te garanto que você não é a primeira pessoa a me dizer isso.

Eu pisquei, achando que tudo aquilo era uma piada.

— Ei — eu finalmente disse alguma coisa. — Eu não estava falando sobre a sua orientação sexual.

— Não? — Ela me olhou com um olhar de deboche. — Então…

— Eu comentei sobre você estar atarefada para oferecer uma ajuda. Eu não estava tentando te paquerar.

— Você poderia ter simplesmente perguntando se há alguma vaga disponível no momento. Simples. E assim, teria evitado ouvir o meu discurso sobre estereótipos e tudo mais.

— Não foi ruim. Eu gostei de ouvir. É algo que eu diria.

Ela sorriu.

— Bem… Voltando ao real motivo de você estar aqui. Eu acho que você apareceu na hora certa. Ontem uma garçonete pediu demissão, porque ela estava se mudando para a Califórnia.

— Então… Há uma vaga de garçonete disponível… Para mim?

— Você precisa conversar com o gerente primeiro. Ele irá avaliar seu perfil e tudo mais…

— Certo, como eu faço isso?

— Ele está aqui agora. Quer conversar com ele?

— Eu adoraria — eu respondi, remoendo internamente em expectativa.

Ela me levou até um corredor. Me indicou uma porta onde estava escrito numa placa de metal: Presidente. Minhas pernas ficaram um pouco bambas e minhas mãos tremiam. Eu estava há um passo de conseguir meu primeiro emprego e tudo dependia de mim.

Eu não estava ali por influência da minha mãe ou por causa do grande peso do meu sobrenome. Eu estava ali, apenas por mim mesma.

— Certo. Eu o avisei sobre você. Boa sorte.

Ela virou-se quando eu gritei:

— Espera! — Minha voz saiu trêmula e desesperada.

Ela virou-se e me olhou.

— O que eu faço? Há algo que eu preciso saber?

— Primeiro emprego? — ela perguntou e eu assenti. Ela soltou um suspiro. — Ele é legal, tenho certeza que vai pegar leve com você.

Eu continuei encarando-a. Ela sorriu.

— Meu nome é Britney. Mas eu não gosto da Britney Spears, então eu prefiro que me chame apenas de Brit.

Ela não esperou por uma resposta, virou-se e sumiu pelo corredor. E eu fiquei tentando entender o que ela dissera.

Eu respirei fundo. Tudo vai dar certo, Heaven. Inspire, expire, inspire, expire…

Eu bati levemente na porta. Segundos depois, uma voz soou abafada do outro lado. Eu abri a porta e entrei, fechando-a atrás de mim.

— Heaven?

Eu não estava acreditando na ironia do destino. Meus olhos realmente estavam enxergando a figura masculina com seu terno e os fios dourados penteados de modo impecável. Então, eu olhei o seu sorriso. Ele parecia feliz por me reencontrar.

E eu… Eu… Eu estava surpresa.

— Calvin!

Ele levantou da cadeira e andou para perto de mim.

— Que surpresa! É você que está interessada na vaga?

— Então… Sim.

— Uau. Eu pensei que nunca mais iríamos nos ver novamente.

Eu ri, nervosamente.

— Bem… Quer se sentar? — Ele puxou a poltrona. Eu me sentei.

— Você comentou que era empresário, mas… Caramba, você é dono da lanchonete mais legal que eu já vi. — Eu gesticulei com as mãos.

— Tá falando sério? — Ele riu. — Eu não sou tudo isso que você imagina. Essa é a lanchonete mais legal? Sério?

— Eu… Bem… Essa é primeira lanchonete que eu entro. Mas eu adorei o lugar.

Ele gargalhou. E nossa, ele parecia estar animado.

— Tá explicado, então. — Ele ajeitou o terno e apoio as mãos em cima da mesa. — Bom… Vamos falar sobre o emprego. Você realmente quer trabalhar aqui? Infelizmente, no momento, há apenas a vaga de garçonete.

— Eu estou ciente disso. Não vejo nenhum problema. E bem… Eu realmente preciso de um emprego.

— Você está grávida. Você precisa descansar, ao invés de ficar andando de um lado para o outro durante o dia inteiro.

— Eu estou no começo da minha gestação. Não preciso ficar de repouso o dia inteiro. — Eu tentei responder de forma educada.

— Certo. — Ele balançou a cabeça. — Você sabe das dificuldades do cargo, né?

Eu concordei com a cabeça.

— Bem… Você tem alguma experiência profissional?

— Não. Nenhuma. — Eu mordi meus lábios e senti minhas bochechas queimarem.

Ele soltou um suspiro. Eu o olhei com atenção.

— Certo. Olha… Eu vou tomar minha decisão levando em conta diversos fatores. Primeiro: ontem, uma funcionária de longa data precisou se mudar e deixou o cargo.

Eu senti meu estômago se revirar.

— Segundo: Eu não a conheço, mas nós conversamos por um breve momento e, eu sei que você precisa dessa oportunidade, mesmo sem nenhuma experiência.

Eu mordi meus lábios.

— Eu irei colocá-la em treinamento durante essa semana, tudo bem?

— Hã… Claro. — Eu tentei não demonstrar muita empolgação na voz.

Ele me olhou.

— De alguma maneira, Heaven, eu consigo enxergar uma garota que está tentando conquistar seu espaço nesse mundo.

Eu sorri. Ele sorriu de volta.

— Eu nem sei como agradecer, Calvin. Obrigada, de verdade.

Ele levantou- se e parou ao meu lado. Eu me levantei, um pouco desengonçada. Ele estendeu sua mão para mim.

— Tem certeza sobre isso?

— Absoluta. — Eu apertei sua mão.

— Venha amanhã, às 8:00. E traga seus documentos para fazermos o contrato.

Eu conseguia sentir todo o meu corpo queimando em expectativa. Parecia que, pela primeira vez na vida, eu estava tomando uma decisão importante. Eu estava andando no meu próprio caminho.

— Claro. Amanhã eu estarei aqui, sem dúvida alguma.

✩✩✩✩✩
Eu me joguei no sofá. Grace me olhou de soslaio. Eu me permiti sorrir o máximo que as minhas bochechas permitiam.

— Você tá diferente.

— Hu-hum… — eu resmunguei.

— Tá com cara de quem está apaixonada.

Eu me sentei no sofá. Meu movimento foi tão rápido e inesperado que Grace se assustou e me olhou como se eu tivesse quatro cabeças.

— Como?

— Você está sorrindo toda boba aí.

— Eu tô feliz, só isso. — Dei de ombros.

— E qual seria o motivo da sua felicidade?

— Eu consegui um emprego numa lanchonete aqui perto.

Ela me olhou.

— Você realmente foi procurar um emprego?

— Sim.

— Eu não acredito nisso — murmurou. — Eu já disse que não me incomodo com as despesas e tudo mais.

— Grace, eu sei, mas… Eu simplesmente preciso disso, entende? Pela primeira vez eu sinto que eu estou fazendo a coisa certa.

— Tudo bem… Eu… Estou surpresa mas, ao mesmo tempo, feliz por você. Parabéns. — ela sorriu, amigavelmente.

— Obrigada.

— E sabe de uma coisa? — Ela se levantou do sofá e estendeu sua mão para mim. — Eu vou fazer aquele bolo de banana que você adora, topa?

— Eu pensei em algo diferente hoje… Por que você não me ensina a fazer o bolo mais gostoso que existe no mundo?

Ela soltou um riso.

— Agora mesmo, querida.

Eu e Grace seguimos para a cozinha e então, começamos a fazer nossa bagunça. A mesa ficou suja de farinha, açúcar e leite. A pia transbordava de louças sujas. Minhas bochechas doíam de tanto que eu ria.

✩✩✩✩✩
Eu tinha acabado de jantar quando a campainha tocou. Grace fora se deitar mais cedo por causa de uma dor de cabeça. Eu bufei. Peguei as chaves e abri a porta.

— Surpresa!

Olympia Burns e estavam parados, me olhando como se esperassem alguma reação da minha parte. Então, eu pisquei e nesse meio segundo, Olympia pulou em cima de mim, me abraçando com força.

— Ah, meu Deus, o bebê. — Olympia me soltou rapidamente, como se tivesse tomado um choque.

— Eu falei para não fazer escândalo — murmurou. Olympia revirou os olhos. — Oi.

— Oi — eu sorri. — Grace estava preocupada com você.

— Por quê? — ele perguntou.

— Você não apareceu a semana inteira.

— Ah.

— Vocês dois conversam depois, porque, agora, eu quero conversar com a minha melhor amiga. Eu senti sua falta, Heaven. — Ela me abraçou novamente, mas agora com mais cuidado.

Eu a abracei forte e fechei meus olhos.

— Eu senti sua falta também. Muita.

— Enquanto vocês duas ficam com esse grude aí, eu vou fazer alguma coisa para comer — disse .

— E desde quando você cozinha, ? — Olympia perguntou.

— Desde sempre? — respondeu, num tom óbvio.

— Eu também nunca imaginei que ele cozinhasse realmente bem, mas te garanto, ele é bom. Infelizmente — eu falei.

— Ah, é? Interessante… — Olympia lançou um olhar indecifrável para .

apenas sorriu de canto e deu as costas para nós. Olympia me puxou até o sofá.

— Como tá esse bebezinho aí? — Ela tocou minha barriga.

— Está ótimo.

— Sua barriga tá redondinha e tão linda. Você tá linda, Heaven.

— Obrigada.

— Eu amei esse vestido florido. Você tá uma fofa com essa barriga de grávida. E eu também adorei a trança.

— Ah. — Eu passei a mão pelo meu cabelo trançado. — Eu mudei bastante ultimamente.

Eu havia cortado alguns centímetros dos meus fios e adotara um novo penteado. Tranças laterais. Em minha defesa, eu realmente não sabia o que estava acontecendo comigo nos últimos meses.

— Eu imagino. Mas e aí, quais são as novidades?

Eu soltei um suspiro.

— Eu tenho todo o tempo do mundo, pode falar.

vai passar a noite aqui? — eu perguntei.

— O eu não sei, mas eu, infelizmente, não vou.

— Aconteceu tanta coisa, Olympia.

— Eu estou ouvindo, amiga — ela riu.

Então, eu comecei a contar sobre tudo o que aconteceu nesses últimos três meses em que estivemos longe. Ela ouvira tudo com atenção e me interrompia somente para expressar alguns murmúrios. Nem Olympia, uma pessoa que gostava de conversar e expressar sua opinião, tinha algo a dizer.

— Uau. Sua vida é um maravilhoso roteiro para um filme de Hollywood. — Foi tudo o que ela disse, antes de nos chamar para ir até a cozinha.

Heaven
No dia seguinte, eu acordei bem cedo. Me levantei, tomei um banho e vesti uma calça jeans um pouco velha. Eu preparei ovos, bacon e torradas no café da manhã. Grace ainda dormia quando eu saí de casa.

Às 8:00, eu estava entrando dentro da lanchonete. Britney estava amarrando seu avental quando me olhou.

— Você veio mesmo.

— E por que eu não viria?

Ela deu de ombros.

— Talvez você viu que trabalhar aqui não é uma coisa maravilhosa e resolveu procurar por algo melhor.

— Eu não tenho nenhuma formação profissional e, mesmo se eu tivesse, no momento, eu estou feliz por estar aqui.

Ela sorriu.

— Que bom.

— O Calvin já chegou? — eu perguntei.

Ela franziu o cenho. — Calvin?

— É. O gerente.

— Calvin? Calvin Landock? — ela questionou. — O Landock?

— Quem é Landock?

Ela riu.

— Você está falando do Calvin Landock, o gerente barra faz tudo aqui na lanchonete? — Ela perguntou, com a voz carregada de incredulidade. Eu balancei minha cabeça. — Você não sabia o sobrenome dele?

— Não. Eu vou precisar chamá-lo pelo sobrenome?

— Oh, não. Eu quem faço questão de chamá-lo como Landock, sempre foi assim.

— Entendi. Bem… Eu vou falar com ele, volto já. — Eu levantei o balcão e passei ao seu lado. Andei até o corredor do fundo onde ficava as salas dos funcionários e bati na porta do Calvin.

— Entre. — Ele ordenou. Eu abri a porta e coloquei minha cabeça para dentro da sala.

— Bom dia, Landock — foi a primeira coisa que eu disse.

Ele me encarou. Então, de repente, ele soltou uma gargalhada. Eu pisquei.

— O que…?

Ele ainda ria, como se estivesse escutado a piada mais engraçada de toda a sua vida. Eu me encostei no batente da porta.

Ele cessou sua gargalhada, aos poucos. Levantou-se e chegou perto de mim.

— Me desculpe por isso. Eu realmente achei engraçado você me chamando de Landock. Foi a Brit que te falou do meu sobrenome né?

— Sim… Como você sabe?

Ele riu.

— Brit me chama de Landock para me irritar. Desde quando ela começou a trabalhar aqui, ela nunca me chamou pelo meu nome.

— Por que?

— Bem… Vamos dizer que eu era um pouco insensível com os funcionários, quando eu assumi o lugar do meu pai, eu ainda era muito novo e um babaca. Então, eu achava que eles deveriam me obedecer. Brit, começou a me chamar pelo sobrenome para debochar de mim, e isso me irritava. Mas… Isso é um assunto para outra hora, não é mesmo?

— É.

— Eu vou precisar sair mais cedo hoje, então provavelmente eu não vou vê-la.

— Tudo bem.

— Então, nos vemos amanhã, certo?

— Claro. Amanhã às 8:00.

— Isso. — Ele sorriu. — Até amanhã, Heaven.

— Até, Calvin.

Por um instante, eu fiquei pensando na ironia do destino. Um certo dia Calvin bateu em minha porta, pedindo por ajuda pois o pneu do seu carro furou, e no outro Calvin Landock é o meu novo patrão.

Que loucura!

✩✩✩✩✩
Eu guardei as louças que Grace havia lavado. Limpei a cozinha, enquanto escutava os protestos de Grace sobre como era errado uma mulher grávida fazer esforço para limpar a casa.

Eu apenas ri diante de seu discurso e a empurrei gentilmente. Ela negou mas, por fim, acabou cedendo e me deixou limpar a cozinha. Após alguns minutos a cozinha estava limpa. Então, eu senti aquele cheiro inconfundível do bolo de banana.

Eu desliguei o forno e esperei esfriar. Retirei-o da forma e joguei uma calda de banana por cima, em seguida, coloquei alguns pedaços de banana. Coloquei-o em uma embalagem de plástico e fechei a tampa com cuidado. Então, a campainha tocou. Eu franzi minha testa. Olhei o relógio na parede e estranhei mais ainda. Eram 22:00.

Caminhei até a porta, em passos hesitantes. De alguma maneira, a ideia da minha mãe descobrir que eu estava viva me apavorou. Por um segundo meu corpo parou no meio da sala, e eu senti um pavor, de repente.

Se fosse na porta, eu não sei o que eu faria. Eu não sei o que ela faria. A campainha tocou novamente.

Eu respiro fundo e caminho até a porta. Meus dedos trêmulos tocaram na maçaneta e a abri lentamente. Eu soltei um suspiro de alívio quando a figura de apareceu do outro lado. Então, meu alívio fora tomado por uma onda de estranheza e confusão. havia tocado a campainha.

Por que ele havia tocado a campainha quando ele poderia ter simplesmente entrado a vontade? Afinal, a porta estava aberta.

Ou, até mesmo, usado a sua chave, pois Grace dera a ele uma cópia.

Eu estranhei seu comportamento, porém não comentei. estava estranho. Ele apenas me olhava e não parecia estar disposto a dizer nenhuma palavra.

— Oi — eu quebrei o silêncio. Minha voz saiu fraca e baixa.

— Oi — ele respondeu, com os olhos focados no chão. Sua voz estava baixa.

— Entra. — Eu abri a porta para ele entrar. Ele levantou sua cabeça para mim, e abaixou novamente, enquanto passava ao meu lado. Eu fechei a porta atrás de mim.

— Eu vou usar o banheiro. — Ele avisou, depois andou em direção ao corredor.

Eu repassei a cena inteira na minha cabeça. definitivamente estava estranho. Muito estranho.

Eu me deitei no sofá e liguei o DVD, coloquei um filme de ação. Longos minutos se passaram e minhas pálpebras ficaram pesadas, e eu fechei meus olhos. Se não fosse o som de tiros e explosões, eu mal notaria caminhando até a porta.

— Ei — eu chamei. Ele parou. — Eu pensei que você fosse ficar aqui hoje.

Ele não me respondeu. Depois de alguns segundos em silêncio, ele virou-se.

— Por que achou que eu ficaria aqui? — Sua voz não estava baixa, como antes. Naquele momento, ele falava como se estivesse farto de alguma coisa e sem paciência para falar. Ele parecia perturbado.

— Está muito tarde, eu só…

— Tudo bem, eu não quero escutar. — Ele me cortou e balançou a cabeça.

Eu arregalei meus olhos, e o olhei com uma expressão de choque estampada no meu rosto. Ele nunca havia me tratado com grosseria. Quer dizer, ele era chato na maioria das vezes, mas não um… Babaca sem educação. Pelo menos não o que eu descobri naqueles últimos meses.

— Estou indo. Tchau.

— Espere — eu o chamei novamente. Ele virou-se, com uma expressão de tédio no rosto. — Eu tenho algo para você. Só um momento.

Eu caminhei até a cozinha e peguei o bolo de banana que ainda estava um pouco quente. Eu fizera com a intenção de entregar à ele porém, no dia seguinte, então, aproveitei a sua presença ali.

— É para você. — Eu o entreguei. Ele me olhou, confuso.

Eu limpei a garganta.

— Para você e sua irmã, eu quis dizer. Eu não a conheço mas… Grace comentou que vocês adoram bolo de banana.

Ele continuava me encarando. De repente, seu olhar se tornou vazio e, eu não consegui enxergar algo através de seus olhos.

— Eu também adoro bolo de banana, é muito bom — eu disse, quando seu olhar me avaliou por inteira e o silêncio se tornou sufocante.

E pela primeira vez, ele abaixou os olhos para o bolo em suas mãos.

— Obrigado — foi tudo o que ele disse antes de se virar e ir embora.

✩✩✩✩✩
Um mês havia se passado, desde o dia em que apareceu durante a noite e agiu de modo completamente estranho.

Eu contara a Grace sobre o ocorrido. Ela apenas me disse que provavelmente algo sério havia acontecido. Eu perguntei a ela o que poderia ser, ela simplesmente desconversou e respondeu que costumava aparecer de repente para espairecer.

Eu não acreditei. Mas não disse nada.

Calvin sempre me elogiava no final do meu expediente. Ele estava realmente surpreso com o meu desempenho mas, sendo honesta, eu também estava surpresa com meu esforço.

E Brit… Bem, ela me arrastou até um bar barra boate para comemorar minha primeira semana na lanchonete. Ela prometeu pagar a conta e não ficar bêbada. E lá estava eu, sentada no banco do passageiro, olhando para a movimentação na frente do bar.

— Eu não sei se é uma boa ideia. — Eu estava receosa e com medo. Qualquer um poderia me reconhecer ali dentro e, no dia seguinte, minha vida estaria completamente destruída.

— Heaven… Vamos só comer algo diferente e escutar uma boa música, apenas isso.

— Mas… — eu tentei argumentar.

— Mas nada — ela me cortou. — E olha, você nem precisa dar bola para os caras, eu não te trouxe aqui com a intenção de encontrar o amor da sua vida num pub, eu apenas quero um momento para você esquecer os problemas e rir de algo engraçado.

Eu pensei em suas palavras.

— Certo — eu disse.

Ela me olhou, com os olhos brilhando em expectativa.

— Tem certeza?

— Não muita. Mas se estamos em frente ao bar, por que não entrar?

— Tudo bem. Quando você quiser vir embora, é só falar — ela disse, e abriu a porta do carro.

Saímos do carro e caminhamos até a entrada do pub. Passamos pela entrada e, logo, minha visão se escureceu. A luz apagou completamente e depois uma luz apareceu no palco.

Um homem cabeludo pegou o microfone. A luz estava focada nele.

— Boa noite, meu povo! — Ele falou no microfone. O som estava alto e involuntariamente, minhas mãos pararam no meu ouvido. — Hoje, eu tenho o enorme prazer em trazer até vocês, a banda do meu colega.

Todos aplaudiram. Brit me puxou e me guiou até uma mesa.

— Eles são maneiros. Possuem a própria música e tocam pra caralho!

Mais aplausos. O povo estava animado e ansioso pela chegada da banda.

Eu olhava tudo ao meu redor com um olhar de tédio.

— Mais ânimo, amiga. — Brit me cutucou.

O homem voltou a falar no microfone.

— E eles vêm aí, os caras mais top do momento, a banda mais maneira que eu já conheci. — Ele falava com uma animação única na voz. — Eles, os The Fire!

E então, a luz se apagou novamente. A plateia foi a mil. A luz voltou para o centro do palco e a música começou.

O som de um solo de guitarra invadiu completamente o pequeno pub. A plateia parecia estar gostando do som, e eu… ainda estava totalmente entediada. Eu olhei para os lados, tentando encontrar o lugar onde ficava o banheiro feminino. Um voz começou a cantar. Eu levantei meus olhos em direção ao palco.

Por um mísero segundo, eu pensei que estava tendo alucinações. Por que não tinha uma explicação para o que estava acontecendo bem na minha frente.

Eu não estava acreditando que era tocando uma guitarra e cantando feito um astro do rock. Eu estava muito perplexa, e sem palavras. Eu forcei um pouco minha visão e olhei bem para seu rosto. Seus olhos esquadrilharam meu rosto. Rapidamente, me levantei da cadeira.

Que merda era essa?

✩✩✩✩✩

Meu peito subia e descia num ritmo frenético. Eu estava pertubado. Assustado. E então, novamente, a voz chorosa da minha irmã fez meu coração disparar. Sem nem pensar duas vezes, corri até o seu quarto.

— Hope! — eu gritei, desesperado. Abri a porta, liguei a luz e não a encontrei. — Onde você está? Hope?

. — Ouvi um murmúrio.

Procurei- a por todos os cantos, e a encontrei embaixo de uma mesinha. Me agachei ao seu lado, imediatamente, seus braços me rodearam e um soluço escapou dos meus lábios.

— Por que você está gritando, meu amor?

Ela começou a chorar.

— Por que está chorando, Hope?

Ela tremia em meus braços.

— Eu tô com medo.

— Medo do quê?

— De morrer — sussurrou. Eu estremeci.

— Você não vai morrer.

— Eu vou. Mas, não quero ir agora… Não quero deixá-lo sozinho. Não me deixe ir, .

Segurei o seu rosto pequeno nas minhas mãos. Encarei os seus olhos azuis.

Um oceano infinito. Um mar de vida. O azul do céu. Um olhar cheio de vida.

Hope ainda tinha um vida pela frente. Ela não poderia morrer agora. E nem depois.

Eu deixei as lágrimas rolarem. Quando se tratava de Hope, eu não conseguia esconder os meus sentimentos e minhas fraquezas.

Eu ficava vulnerável. Impotente.

— Me ajude… Agora.

— Como?

— Me salve. Agora — ela sussurrou.

Seu sussurro invadiu completamente a minha mente. Era como se Hope estivesse dentro da minha cabeça.

Senti meu corpo despertar. Abri os meus olhos e olhei ao redor. Hope não estava aqui. Eu estava no meu quarto. Eu estava sonhando. Senti uma sensação estranha no meu peito.

Eu só conseguia pensar em Hope.

Hope.

Eu precisava vê-la. Garantir que ela estava bem. Corri até o seu quarto. Avistei a garotinha deitada na cama. Suspirei de alívio. Me aproximei e toquei seu rosto. Meus olhos se arregalaram.

O nariz de Hope estava sangrando.

— Não, não, não… — Eu me encontrava a beira das lágrimas.

Peguei-a em meus braços e tentei enxergar o caminho com a minha vista embaçada pelas lágrimas, enquanto caminhava até a sala.

Eu peguei a minha chave do carro e o celular.

— Onde você pensa que vai, Turner?

Eu fiquei estático. Congelei no meu lugar.

— Hope está sangrando — respondi, mecanicamente.

— Você não vai sair com a garota, .

Virei-me. Encarei o homem alto e musculoso a minha frente. Ele tinha um cigarro nas mão direita enquanto na esquerda segurava uma garrafa de bebida alcoólica.

Seu imprestável, inútil, minha mente gritava.

— Hope está sangrando — repeti.

— Limpe seu nariz. Você não irá sair.

Deu alguns passos, e encarei com raiva o homem.

— Você não vai me impedir. Eu não vou deixar minha irmã morrer nos meus braços.

Meu tio soltou um riso. Eu não tinha tempo a perder. Dei as costas e caminhei em direção a porta.

— Se pensar em sair, , saiba que terá o pior castigo quando voltar — ameaçou.

— Vai se foder — foi tudo o que eu disse, antes de abrir a porta e correr em direção ao meu carro.

✩✩✩✩
, meu menino… — Grace me apertou em seus braços. — O que aconteceu com a pequena Hope? Ela tá bem?

Eu soltei um suspiro.

— Eu acordei no meio da madrugada e fui até o seu quarto. Então, eu vi o sangue em seu nariz. Ela estava desacordada. Não sei como ela está agora.

— Ah, meu querido. — Grace apertou a minha mão.

— Eu espero que ela esteja bem, . — Heaven aproximou-se. Eu olhei seu rosto. Fazia um mês que nós não nos víamos. Ela estava diferente. Sua barriga havia crescido.

— Eu não sei o que ela tem, mas espero que fique bem. Além do mais, você tá acabado — ela riu.

Eu não ri de sua piada. Se fosse um outro momento, certamente, eu teria rido e a provocado, entretanto a vida da minha irmã estava em jogo naquele dia. Eu não estava com vontade de rir ou conversar com alguém.

De soslaio, vi Grace a repreender com um olhar.

— Nada de piadas, desculpe — Heaven disse, envergonhada.

— Você precisa de algo, ? — Grace perguntou.

Eu neguei com a cabeça.

— Já tomou café da manhã?

— Não, tô sem fome.

— É sério. Tô sem fome.

— Olha… Se ele não quer comer, eu quero — intrometeu-se Heaven.

Grace a olhou.

— Querida, você já comeu antes de chegarmos aqui — argumentou Grace.

Por um segundo, notei as bochechas de Heaven corarem. Achei engraçado, mas não demonstrei o meu sentimento.

— Ora, agora eu como por dois, não? É óbvio que vou ficar faminta a cada meia hora.

— Certo. Tome o dinheiro e compre algo para você e um café expresso para mim. — Grace estendeu algumas notas em sua direção.

Heaven negou e balançou uma bolsinha preta.

— Agora eu tenho meu próprio dinheiro, Grace. Obrigado.

— Não precisa gastar o seu, guarde-o, pode gastar o meu.

— Não, obrigada mas não. Eu preciso me sentir independente pela primeira vez. Eu volto logo.

Assim que Heaven se afastou, Grace me olhou.

— Ela é…

— Determinada — eu interrompi. — Quando ela coloca algo na cabeça, não a ninguém que consegue fazê-la desistir.

— É — Grace riu. — E como estão as coisas na sua casa? Seus tios ainda implicam com você?

— Como sempre. Eles nunca vão mudar.

… Você sabe que pode sair daquele lugar e ir morar comigo.

— Eu sei. Mas, não posso abandonar a casa dos meus pais. Não posso abandonar a minha casa.

— Eu não entendo, seus pais deixaram tudo em seu nome e seus tios insistem em ameaçá-lo com aquela casa. Eu realmente não entendo. Você é o dono daquela casa.

— Eu não tô preocupado com isso agora, minhas prioridades são outras.

— Eu só quero te ajudar…

— Agradeço a sua ajuda. E outra, Heaven mora com você, e daqui uns meses um bebê também. A casa vai ficar pequena demais.

— Não fale assim, eu tenho certeza de que Heaven não se importaria com isso, ao contrário, ela iria amar sua companhia.

— Amar é uma palavra muito forte. — Heaven apareceu, e riu com sarcasmo. — Mas, eu poderia me acostumar e gostar da sua presença. Você sabe ser legal quando quer.

— Pense sobre isso, querido. Eu preciso que vocês estejam seguros.

— Eu só vou conseguir pensar direito quando a minha irmã estiver bem.

— Você não pode voltar para aquela casa com Hope. Pelo menos ela deve estar segura.

— Eu sei o que é melhor para a minha irmã, eu me importo com ela, eu estou do lado dela desde sempre.

— Eu também estou, . Desde sempre.

Eu explodi.

— Você só está do meu lado por culpa da sua maldita consciência pesada.

O mundo pareceu parar, assim que aquela frase foi dita. Minha voz saiu amarga e rouca. Eu sei que fui um idiota por dizer aquilo, mas eu estava com um sentimento preso dentro de mim há dez anos.

Sentimentos de raiva e ódio. Raiva da vida, do destino. E ódio de Grace. Uma parte de mim a odeia por tudo o que ela fez a minha família.

Seu rosto ficou pálido. Seus olhos vacilaram.

… — Seus olhos encheram-se de lágrimas.

— Anos se passaram, Grace, mas eu nunca me esqueci. Nenhum maldito dia se passa sem que eu me lembre de tudo.

— Você foi a única culpada pela morte dos meus pais. — Eu avaliava o seu rosto. Meus olhos transbordavam de ódio.

— Cala a porra da sua boca, ! — exclamou Heaven. Ela alternava o seu olhar entre mim e Grace. — Não fale assim com ela.

— Você não sabe de porra nenhuma! — eu disse, entre dentes. — Não se intrometa nisso. Ela sabe que é a verdade.

— Seus pais morreram em um acidente, que diabos Grace tem haver com isso?

Eu ri.

— Ela sabe qual foi o verdadeiro motivo daquele acidente.

— Não é a minha culpa — Grace se manifestou.

— Se você não tivesse feito aquilo com a minha mãe. Se você não tivesse agido como uma… Vadia.

— Querido… — Grace estava chorando, soluçando alto, enquanto algumas pessoas nos encaravam. Eu não me importava. Todas as suas lágrimas não eram nem um terço do que eu já chorei.

— Minha irmã teve a minha mãe por apenas um mês. — As palavras saíram com dificuldade da minha boca. Minha garganta travou. — Apenas um mês.

Eu soquei a parede. Heaven pulou assustada. Grace apenas apertou os olhos com força, depois encarou os meus olhos profundamente. No fundo de meus olhos, Grace poderia encontrar um garotinho que perdera os seus pais.

Um garoto que amava passar a tarde em sua casa quando era criança.

Um garoto que pegou a bebê de um mês no colo, e chorou em desespero.

Um garoto quebrado, perdido, sem esperanças.

— Querido, como eu poderia saber?

 

✩✩✩✩✩
10 anos atrás…
Elizabeth encarou a amiga. Perguntas sem respostas rondavam a mente da mulher.

— Liza, você tem certeza?

Liza respirou profundamente.

— Eu não sei, só sei que estou completamente triste com Grace.

— Ela agiu de modo errado e estúpido, só isso.

Liza negou. Ela duvidava do que fora visto fosse apenas um erro.

Um “deslize” como argumentara seu marido.

— Isso é imperdoável.

— Liza… Joseph já se desculpou, ele agiu por impulso e Grace estava bêbada.

— Isso não justifica nada — respondeu a mulher.

A amiga apenas suspirou, desistindo de contornar aquela situação.

Liza piscou várias vezes os olhos para não chorar. Joseph, que estava do outro lado da rua, dentro do carro com as crianças, chamou sua atenção:

— Liza, precisamos ir. tá com fome.

Elizabeth, por estar completamente magoada, nem olhara para o esposo.

— Você o perdoou? Ou pensa em dar uma segunda chance? — questionou a amiga.

— Eu amo Joseph com todo o meu coração. Mas esse erro é imperdoável. Ele não me ama de volta.

— Liza, ele te ama mais que tudo. Você é o amor da vida dele.

— Então esse amor acabou quando ele decidiu se deitar com Grace.

— Liza… — A amiga rodeou seus braços em volta da mulher. Linda sabia que Liza demoraria a voltar. Era férias e a família queria aproveitar a praia até o último segundo. — Aproveite aquela praia por mim, minhas férias vão ser um tédio.

— Eu irei.

— Sabe, eu acho que essa viagem vai ser boa pra vocês.

— Essa viagem é só uma desculpa para atrasar o que eu quero fazer.

— Liza… Pense nas crianças. o ama muito. Ele vai ficar arrasado com a separação de vocês.

— Eu sei, mas ele é um garoto bom. Ele vai compreender os meus motivos.

— Então vá logo, antes que Joseph te puxe pelos braços. Ele não para de olhar para cá. — Elas se abraçaram novamente. — Te amo muito.

— Também amo você, Linda.

— Você é minha irmã do coração

— Você também.

Liza despediu-se com um aceno e caminhou até o carro. Entrou e baixou o vidro da janela para mandar um beijo no ar.

— Fique bem, Liza. Te amo — gritou Linda.

Liza sorriu. Joseph ligou o carro. A mulher observou a figura da sua melhor amiga sumir conforme o carro avançava.

✩✩✩✩✩
O silêncio dentro do carro era sufocante. Eles estavam na estrada há algumas horas. Liza dirigia, pois Joseph estava cansado. Os dois filhos do casal dormiam tranquilos no banco de trás. estava com o fone de ouvido, escutando rock, e Hope com um chupeta na boca enquanto dormia.

— Liza…

Elizabeth assustou-se com a voz do homem.

A mulher apertou o volante com força.

— Liza, desculpe-me.

Ela o ignorou.

— Meu amor… Me perdoe… Por favor.

Ela não respondeu. Os seus olhos estavam focados na estrada.

— O que aconteceu foi um erro. Eu juro que estou completamente arrependido. Você é o amor da minha vida, a mulher que eu amo e sempre vou amar. Você é tudo o que eu quero. Só você.

Liza deixou uma lágrima escorrer. Puxou o ar e seus lábios tremeram.

Ela não respondeu. Joseph continuou:

— Você e as crianças são tudo pra mim. Sinto muito se magoei você, não foi a minha intenção, eu juro. Você sabe que eu não sou bom o suficiente pra você, amor… Você sempre soube que eu iria quebrar seu coração. Eu sou um merda e não te mereço. Mas mesmo assim, eu amo você. Muito.

Liza ficou em silêncio. Minutos se passaram e Joseph quase desistiu de escutar algo dos lábios da mulher.

Liza finalmente pronunciou:

— Eu amo você. — As lágrimas rolavam por sua face.

— Então vamos esquecer isso. Não significou nada pra mim.

— Eu amo você, Joseph. Mas o seu amor, que você diz sentir por mim, não é o suficiente. — Ela o encara. — Porque mesmo assim você transou com a minha melhor amiga.

— Eu peço desculpas novamente, meu amor. Vamos apenas esquecer isso, por favor?

— Desculpas? Você acha que uma palavra vai me fazer esquecer?

— Nada do que eu disser ou fizer vai ser o suficiente para apagar o meu erro. — O homem estava a beira das lágrimas, assim como Liza. Sua garganta se fechou. — Mas eu não vou sobreviver se você me deixar.

— Me responde uma coisa: há quanto tempo? Quantas vezes vocês ficaram juntos?

— Amor… — murmurou o homem, agoniado.

— Responda, Joseph! Apenas diga a verdade.

O homem demorou a dizer. Ele desviou o olhar.

— Apenas uma vez. Uma maldita vez e nada mais.

— A verdade, Joseph — implorou a mulher.

— Uma vez. Eu juro. — Ele engoliu em seco.

Ela olhou rapidamente para o homem.

— Por que? Só me dê um motivo.

— Eu não tenho um motivo, amor.

A visão de Liza estava embaçada por causa das lágrimas. Ela tentava prestar atenção na pista. Seu coração martelando em seu peito. Suas mãos tremiam.

Joseph não segurava o choro. Lágrimas grossas rolavam pelo seu rosto. Um soluço escapou dos lábios da mulher.

— É por causa do meu corpo? Minha barriga flácida e com cicatrizes? Ou os meus peitos cheio de leite e enormes? Você perdeu o tesão por mim e precisava de sexo.

— Não, não, não. Você é perfeita. A mulher mais linda que eu já vi.

— Então me dê a porra de uma motivo! — gritou, com a voz embargada e chorosa. — É por que eu prefiro ficar a noite inteira admirando a nossa filha ao invés de me deitar com você? Ou o meu cabelo sujo e fedido por causa dos vômitos?

— Liza… Pare.

Liza estava descontrolada. Seu rosto completamente molhado e vermelho. O de Joseph não estava diferente. O homem tinha uma expressão agoniada.

— Por que, Joseph? Por quê? — Ela bateu as mãos no volante.

O barulho acordara as crianças. A pequena Hope começou a chorar e só se calou quando colocara a chupeta de volta em sua boca. O mais velho retirou os fones e olhou para os seus pais.

Ele ouvira tudo o que foi dito. Ele vira tudo o que aconteceu entre seu pai e Grace, pois seu pai fora burro o suficiente quando deixou a porta entre aberta.

— Vocês estão gritando mais alto do que a música, o que houve?

Nenhum dos dois falaram nada.

— Mamãe?

A mulher deixou um suspiro escapar. Virou o seu rosto e esquadrinhou os olhos preocupados do garoto.

— Não é nada, meu amor. — Ela sorriu confiante. notara os olhos cheios de lágrimas da mulher.

Um oceano se formara. Um oceano sem fim. Águas. Ele odiava água. Azul como a cor do céu. Ele odiava o céu, preferiria mil vezes, observar o escuro e as estrelas brilhantes.
Seu coração se apertou. Sua mãe não merecia ser traída, ela era uma mulher maravilhosa. Ele tocou o seu rosto e a mulher sorriu, virou-se e olhou a estrada novamente.

— Mãe — chamou.

A mulher virou o rosto em sua direção.

— Te amo. Muito. Muito.

— Eu também, meu amor. Te amo muito, mais do que tudo no mundo. — Ela deixou uma lágrima cair.

Liza voltou a encarar a estrada, suas mãos acariciaram o rosto do filho e depois, as perninhas grossas de Hope.

— E amo muito essa lindinha também. Eu amo vocês dois. Mais que tudo.

Joseph permitiu-se sorrir. Sua mulher e seus filhos eram o seu maior orgulho. Ele sentia-se o homem mais feliz do mundo quando estava ao lado de sua família.

— Eu também amo vocês. Filho, você é o meu orgulho. Amo você.

sorriu, exibindo um sorriso banguelo.

— Te amo muito, papai.

E novamente, o silêncio caiu sobre eles. colocara os fones. Joseph e Liza imersos em seus próprios pensamentos.

O silêncio fora rompido com o toque do celular de Joseph. Rapidamente os olhos de Liza foram até a tela. Ela sentiu o estômago embrulhar.

Era Grace.

Apertou o volante com raiva e olhou fixamente para o marido.

— Talvez ela queria saber se você está solteiro e pronto para assumi-la.

Joseph pegou o celular e jogou em seu colo.

— Eu não sei porquê ela está ligando. Eu não quero nada com ela, Liza. Pode atender — proferiu ele.

no banco de trás, pausou a música e observou a cena. A mulher olhou com ódio para o homem, mas fez o que ele mandou. Pegou o celular e aceitou a ligação, colocando no viva-voz, logo a voz de Grace fora ouvida por todos no carro.

— Joseph… Eu preciso de você — disse, desesperada.

— Eu estou ouvindo, Grace — respondeu Joseph. Liza ouvia tudo com um desconforto no peito.

A mulher soluçou antes de proferir as seguintes palavras que abalaram o mundo de Liza.

— Eu estou grávida. Eu sinto muito por isso.

Liza olhou com a expressão de choque para o marido. Joseph se mexeu desconfortavelmente no banco. Liza sentiu seu mundo ficar preto. Ela queria gritar, chorar, bater, berrar. Sua vida ficou embaçada enquanto ela chorava silenciosamente.

sentiu seu peito doer ao ver o sofrimento da mãe.

— Como? — Joseph prendeu a respiração e seu corpo ficou tenso. — A gente se protegeu.

— Eu sei. Mas, eu me lembro que no mês passado, na nossa primeira vez, a gente esqueceu. Foi um deslize, Joseph.

Se Liza chorava antes, naquele momento, ela estava quebrada e inteiramente acabada. Ela soltou o volante e puxou os cabelos enquanto chorava desesperadamente.

Joseph olhou com para a mulher. Seu coração pulsando no peito. Ele não deveria ter feito aquilo. Ele era o pior homem da face da Terra. Ele nunca se perdoaria. Além de trair sua mulher, ele mentiu. Ele e Grace já se encontravam há um mês. E ele perdera as contas de quantas vezes transou com a mulher. Ele era um babaca. Um mentiroso. Ele sentiu-se um merda. Por que havia feito aquilo com o amor da sua vida?

deixou uma lágrima escapar. Ele admirava seu pai. O amava com todo o coração, mas o que seu pai havia feito era a coisa mais horrorosa do mundo. Seu pai não merecia alguém como sua mãe. Seu pai era bom, o melhor pai que ele poderia ter, mas um péssimo marido. O pior marido do mundo.

Liza achou que iria desmaiar a qualquer segundo. Com as mãos trêmulas, segurou levemente o volante.

— Eu não quero acabar com o seu casamento, Joseph. Me perdoe. Por isso vou abortar. Eu não posso viver com essa culpa.

— Eu te odeio com todas as minhas forças, Grace. Eu te odeio! — Liza explodiu. Seu coração parecia bater na sua cabeça. Seu corpo inteiro tremia. Ela chorava,e chorava, enquanto esperava aquela dor passar.

Mas ela sabia que não iria passar. Simplesmente porque seu marido foi a porra de um mentiroso e traiu seu amor e sua confiança há um mês.

Ela dormia com um traidor.

Com um mentiroso.

Ela sentiu seu mundo desmoronar.

— Por que você fez isso comigo? Com os meus filhos?

Grace ficou em silêncio. A culpa lhe atingindo com força. Ela era a pior amiga do mundo. Liza não fazia ideia de qual rua estavam. Ela nem sabia de onde vinham forças para continuar acordada.

— Sua vadia do caralho! Eu nunca te fiz mal algum! Nunca! E você, na primeira oportunidade, transa com o meu marido! Que tipo de amiga você é? — Ela gritava com todas as forças que tinha.

— Liza, segure o volante com cuidado — Joseph se manifestou.

Elizabeth olhou a estrada escura e sem movimento. Retirou as mãos do volante e segurou o celular.

— Desculpe, Liza. Eu te amo, mas me perdoe.

— Você é o pior ser humano, Grace. Eu te odeio e me sinto estúpida por ter feito os meus filhos te amarem.

queria interromper e defender Grace, mas ele não podia. Sua mãe estava sofrendo por culpa da melhor amiga. Então, imediatamente sentiu raiva de Grace.

— Desculpe, Liza… Desculpe.

Joseph estava nervoso. Sua mulher não segurava o volante e ele odiava não conseguir fazer nada. Ele notou o olhar decepcionado de Liza cair sobre ele.

Ele olhou em seus olhos, num pedido mudo de desculpas.

Desculpas que nunca foram ditas novamente. Desculpas que nunca foram ser aceitas.

— Apenas um motivo, Joseph, me dê apenas um — implorou Liza.

Sua pergunta nunca fora respondida.

No instante seguinte um caminhão vinha em sua direção. Liza tentou segurar o volante novamente, mas era tarde demais. O estrago fora feio.

assustou-se e agarrou a cadeirinha da irmã. Liza soltou um grito e Joseph não conseguiu reagir. A morte dos dois foram de súbito. O caminhão bateu, ameaçou o capô do carro. O silêncio caiu sobre a estrada vazia e escura.

Foi um verdadeiro milagre Hope e terem ficado vivos. Sem nenhum arranhão.

Então o choro de Hope rompeu o silêncio. balançou seu pai.

— Pai, papai. Acorde.

Seu pai não moveu nenhum músculo. Então virou-se para sua mãe. Um grito do fundo da garganta lhe escapou quando avistou os olhos da mulher em sua direção, e o pescoço completamente virado. Torcido. Sangrando.

nunca vira uma cena mais assustadora do que aquela.Ele começou a gritar e a chorar junto com Hope. Ambos choravam e gritavam no meio do nada.

Ele percebeu uma movimentação. Seu pai mexera o rosto minimamente em sua direção. Seus olhos mal se abriam. Sua boca escorria sangue e as palavras saíram rasteiras e fracas:

— Desculpe. Cuide de Hope.

Depois o mundo parou. gritou com toda a força. Bateu com força nos bancos, se debateu enquanto soluçava. Hope estava com o rostinho vermelho. A qualquer momento ela ficaria sem fôlego.

pareceu ter voltado a realidade.

Sua realidade a partir daquele dia.

Era apenas ele e sua irmã.

Então, parou de chorar e olhou para a recém nascida. Colocou a chupeta na sua boca e beijou o topo de sua cabeça.

— Eu vou cuidar de você, Hope. Eu prometo. Pelos nossos pais.

pegou a pequena no colo e saiu do carro, ficou na estrada até alguém aparecer e chamar a ambulância.

— Vai ficar tudo bem, minha princesa — ele sussurrava a todo momento.

Era cedo quando a estrada voltou a ter movimento. E e Hope foram vistos por alguém.

Turner nunca irá se esquecer da pior noite da sua vida.

Ele nunca se esqueceria de tudo o que ouviu e viu naquela noite.

— Eu vou me arrepender pelo resto da minha vida, . Não tem um único dia em que eu durma sem me lembrar do que eu fiz. Eu traí sua mãe. Traí vocês.

Meus olhos estavam transbordando lágrimas. Eu chorava sem me importar com os olhos sobre mim. Eu chorava porque não era eu, . Mas sim, o pequeno .

O menino esperto, simpático, com um sorriso banguelo que iluminava a vida dos meus pais.

Meu peito doía. Me lembrar daquela noite era uma das piores sensações que eu já sentira.

— Apenas uma coisa me deixa curioso, Grace. — Engoli em seco, minha garganta quase fechando — Onde está o bebê?

Os seus lábios tremeram.

— Eu abortei. Me senti culpada e fiquei destruída com a morte deles. Eu estava sozinha. , a única coisa que eu queria nesses 10 anos é esquecer tudo.

— Você nunca irá esquecer, Grace. Eu nunca vou esquecer. Como eu vou esquecer dos meus próprios pais? Você não tirou apenas a vida deles mas a minha vida também. Você tirou a oportunidade de Hope crescer em uma família e não no meio de tios drogados e alcoólatras.

“Meus pais nunca vão estar do lado da minha irmã quando ela se formar, casar e ter filhos. Eles nunca vão sentir raiva de qualquer babaca que partir o coração de Hope.”

“Meus pais perderam a vida, mas nós perdemos o rumo das nossas vidas.”

“Eu me pergunto o porquê. Por que ela não esperou mais um pouco antes de partir? Por que ela não morrera de uma maldita doença ao invés de um acidente? Eu tento me lembrar se em algum momento ela sentiu dor… Me mata por dentro só de imaginar isso.”

“Eu tinha tanto a aprender com meu pai. Ele prometera que me ensinaria a fazer pipa quando chegássemos na praia. E adivinha, Grace?”

“Nós nunca chegamos na porra daquela praia.”

— Seu pai amava muito sua mãe. Ele sempre deixava isso claro.

— Mas não amava o suficiente.

— Eu sempre me insinuava para ele. Eu tinha inveja da sua mãe, pois ela tinha tudo o que eu nunca tive. Hoje, eu sei que era algo bobo e ridículo.

— Você não forçou nada. Ele fez a escolha dele. Péssima escolha, mas fez. Ele a traiu. — Eu queria explodir. Socar a parede. Gritar até as minhas cordas vocais falharem.

. — Heaven apareceu de repente do meu lado. Eu mal notara a garota ali. Seus olhos estavam vermelhos e seu rosto contorcido em dor.

Ela me puxou para um abraço. Eu fiquei sem reação no momento, então a garota afastou-se.

— Você… Precisa se acalmar.

— Eu estou calmo.

— Não… Você não está.

Eu respirei fundo.

— Eu vou ao banheiro — Grace sussurrou.

— Eu posso ir junto? — ofereceu Heaven.

— Obrigada, mas eu preciso ficar sozinha.

Heaven balançou a cabeça. Grace passou por mim sem me encarar.

. — Eu a encarei. Heaven me olhava com pesar.

Eu odiava aquele olhar.

— Não me olhe assim… — eu disse, e me sentei em uma cadeira.

— Assim como? — Heaven sentou-se ao meu lado.

— Com pena. Eu odeio isso. — Inclinei a minha cabeça e passei minhas mãos pelos fios de cabelo.

Um arrepio passou pelo meu corpo quando senti a mão macia e quente da garota em meu braço.

— Eu sinto muito por isso. Eu não imaginava tudo isso…

Olhei em seus olhos.

— É a merda da minha vida. E não é nem o começo.

— Eu sinto muito.

— Hope é a minha força. — Desviei meus olhos do seu rosto. Minha garganta se fechou. Por um momento, me esqueci que minha irmã estava na droga de um hospital. — Ela é tudo o que eu tenho.

— Você a ama muito.

Eu não respondi, Heaven continuou:

— Se alguém me contasse que , um dos maiores babacas do colégio, seria capaz de amar alguém, eu acharia tudo uma piada. Eu vejo no seu olhar, o amor imenso que você sente pela sua irmã. Até mesmo pela Grace. Você a ama, mesmo com toda a merda que ela fez no passado.

— Grace foi meu refúgio muitas vezes. Mas eu nunca me esqueci… Nunca.

Heaven segurou o meu rosto em sua pequenas mãos.

Por um instante, ela apenas me encarou, sem dizer nenhuma palavra. Então, seus olhos fugiram dos meus.

— Hope cresceu sem os pais, mas ela cresceu ao seu lado. Seus pais não estão aqui, mas será você a pessoa que a verá se formar, casar e ter filhos. Será você que estará lá, quando um idiota partir seu coração. Ela sentirá falta dos pais? Obviamente, mas ela vai se sentir à garota mais sortuda por ter você, , ao lado dela. Vocês dois são o mundo um do outro.

E mais uma vez, Heaven me deixou sem palavras. Em choque.

Hipnotizado. Interessado. Tudo nela me interessava. Tudo.

Heaven me mostrou algo que eu nunca tinha visto em alguém. Uma garota que era mimada e irresponsável, hoje, era a garota forte, responsável e independente.

Eu sentia vontade de conversar com ela por horas. Simplesmente por que era fascinante olhar o seu rosto, a maneira como ela falava ou o seu sorriso.

Eu senti meu coração bater mais rápido. Meu corpo inteiro chamando por algo.

Por alguém. Eu a queria. Eu queria Heaven mais do que qualquer garota no mundo.

Apenas ela.

Eu queria Heaven do meu lado.

Eu queria admirar o seu lindo sorriso.

Eu queria ouvir o som da sua risada.

Eu queria tocar a sua pele macia.

Eu queria beijar seus lábios carnudos.

Eu queria passar as minhas mãos pelos fios do seu cabelo.

Eu queria tudo. Eu a queria por inteiro.

Heaven que merda você fez comigo?

— Ei… — Me assustei com o seu toque no meu rosto. Ela me encarava com uma expressão confusa. — Tá tudo bem?

Eu abri minha boca para responder. As palavras não queriam sair. Então, só fiquei admirando seu belo rosto. Heaven corou. Afastou-se minimamente de mim. Entrelaçou seus dedos e me encarou.

— Eu tô curiosa, que tipo de doença sua irmã tem?

Então, o encanto se desfez. A bolha estourou.

Por que ela simplesmente abriu aquela boca maravilhosa para dizer algo tão ruim?

Heaven…

Eu virei o meu rosto. Eu não queria olhá-la nesse momento.

A sensação de mal estar tomou conta do meu corpo. Eu não gostava de falar sobre Hope com ninguém. Mas Heaven não era ninguém.

Ela era alguém. Alguém que eu gostaria de falar sobre. Eu confiava nela.

— Leucemia — As palavras saíram como um sopro.

Heaven ficou em silêncio.

— Faz pouco tempo que descobri, mas… Está um pouco avançado. Por isso, tenho medo quando ela passa mal. Eu não quero perdê-la.

— Meu Deus. Eu nem sei o que dizer.

— Não precisa dizer nada. — Eu podia sentir o choro preso na minha garganta.

— Eu posso te abraçar?

Heaven realmente quer abraçar o cara mais idiota do colegial?

— Não. Eu quero abraçar o cara forte e gentil, que cuida da sua irmã como se ela fosse a pedra mais preciosa do mundo — Ela sorriu.

Esse sorriso fora o suficiente para me levar a loucura. Num piscar de olhos, meus lábios estavam colocados contra o seu.

Eu não aprofundei o beijo. Eu só queria sentir a maciez da sua boca. Só sentir os seus dedos em minha nuca. Só sentir a sua respiração pesada contra o meu rosto.

Me afastei, os olhos fechados.

— Eu ofereci meu abraço, . Não um selinho. — Apesar das suas palavras duras, seu tom de voz era completamente divertido.

**
— Eu sinto muito… Eu realmente sinto muito.

Meu mundo desmoronou. Eu perdi os sentidos. Meu coração parou por um instante. Nem todo o oxigênio do mundo, me faria respirar normalmente. Ao ouvir aquelas palavras do médico fora como se meu coração tivesse parado de bater.

Não, não, não, não, não…

Minha pequena Hope, não.

Não, não, não.

As lágrimas caiam deliberadamente.

A pior noite da minha vida. Eu senti as mesmas sensações enquanto encarava o médico. Lágrimas não pareciam ser o suficiente para expressar a minha dor.

Eu gritei. Soltei um grito do fundo da garganta.

Minha.

Hope.

Não.

Não, não, não.

Eu não podia perdê-la.

Eu não podia perder o meu mundo.

O meu tudo.

A minha jóia rara.

A minha força.

A minha irmãzinha.

Não, não, não…

— Ela tem poucos meses de vida. A cada dia que passa o câncer se espalha, e a imunidade dela não ajuda.

— A quimioterapia?

— Nós podemos intensificar, mas… As chances são mínimas. Eu não teria esperanças.

— Mas eu preciso ter esperança! — eu gritei.

— Eu sinto muito.

— Quanto tempo? — sussurrei.

— Menos de um ano. Eu chuto uns 8 ou 9 meses.

Eu me sentia mal, mole, suado e cansado. Eu não estava me sentindo bem. Um sensação ruim dentro do peito.

— O cabelo…

O médico pareceu entender as minhas palavras.

— Logo começará a cair.

Meu corpo inteiro suava. Minhas mãos tremiam levemente. Eu sentia algo se revirar no meu estômago. Eu estava tão mal, mergulhado nas piores sensações, que mal percebi meu vômito indo em direção à mesa do médico. Ele levantou-se, apressadamente e chamou por alguém.

Eu não ouvia nada. Eu não enxergava nada. Eu só vomitava. Eu só queria tirar aquela coisa ruim de mim.

O médico tentou me levantar, mas ele nem imaginava que se eu levantasse, a minha queda seria grande. Eu nunca mais ficaria em pé novamente. O chão desapareceu.

Porque Hope era a minha força. E a minha força estava se acabando.

Eu senti meu corpo amolecer. Eu nunca mais fui o mesmo depois do acidente dos meus pais. Eu nunca mais serei o mesmo depois que Heaven entrou em minha vida. Eu nunca mais seria o mesmo depois de Hope.

Flashs. Momentos ao lado de Hope. Lembranças ao lado dos meus pais. Momentos com Heaven. Os sorrisos de Hope.

Tudo isso estava na minha mente.

Me torturavam. Me machucavam. Me quebravam.

Eu chorava. E chorava, e chorava mais ainda.

A culpa me atingiu com força. A raiva. A agonia. O desespero. A solidão. A tristeza. A impotência.

, pare, por favor. — Meu corpo obedeceu ao comando daquela voz.

Eu respirei. Meu peito doeu. Meu corpo inteiro doeu.

, respire devagar e tente abrir os olhos — Uma outra voz falou.

Eu tentei várias vezes antes de abrir meus olhos. A claridade me fez fechá-los novamente.

— Tente novamente, .

Respirei fundo. Meu peito doeu. Abri meus olhos. A minha primeira visão foi o rosto preocupado de Heaven.

Céus, ela estava tão linda com os fios ondulados e soltos.

Ela era a porra de um anjo.

Ela sorriu pra mim. Um pedaço de mim derreteu completamente.

Uma outra mulher apareceu no meu campo de visão. Ela usava roupas brancas e cabelo preso. Ela tocou meu rosto com a palma da mão.

— Você tá bem?

Eu olhei para os lados, tentando entender que merda estava acontecendo. Aquela mulher parecia ser uma enfermeira. Eu estava deitado em uma cama.

Eu estava hospitalizado. Mas que…

— O que aconteceu? — perguntei e comecei a tossir em seguida. Minha garganta doía.

. — Heaven segurou minha mão direita com força. Ela tocou o meu rosto e me abraçou.

Eu fiquei petrificado, mas aproveitei muito bem o cheiro de morango que vinha de seus cabelos.

— Você… você me assustou. — Ela me encarava.

— Eu não tô entendendo…

A mulher tocou as costas de Heaven. Infelizmente, ela afastou-se de mim, para que a mulher se aproximasse.

— Alguma dor?

— Hum… Minha garganta… Meu peito. O que houve?

— Qual é a sua última memória, ? — ela questionou.

— Que? — eu franzi meu cenho.

— Qual é a sua última memória? — ela repetiu a pergunta.

Eu pensei. Mas na verdade, eu não queria pensar.

Hope. Caralho, minha irmã!

— Hope. Minha irmã. Ela tá bem? Onde ela está? Aconteceu algo?

— Ei, respire — Heaven disse.

Eu respirei. A mulher trocou um olhar indecifrável com Heaven.

— Bem… Sua irmã está perfeitamente bem.

Não, ela não está.

— Você não lembra de mais nada, ? — Heaven perguntou.

— Não. Eu deveria?

Ela soltou um suspiro. A enfermeira me encarou.

— Você teve uma crise, não sabemos direito se é de ansiedade ou pânico.

Como?

— Uma crise como a sua, acontece por causa de fortes emoções. Seu corpo e seu cérebro não aguentaram.

— Como isso é possível?

— Você estava em um tipo de coma. Às vezes, você acordava e se debatia, gritava e chorava. Você estava fora de si, .

Eu nem sabia o que dizer.

— Você ficou duas semanas internado, .

— DUAS SEMANAS? — eu gritei.

— Você não conseguia dormir sem remédios e quando ficava acordado, só chorava e gritava. Estamos felizes que você esteja bem.

— Isso é sério?

— Infelizmente.

Eu me sentei, tentando organizar os meus pensamentos.

— Quem tá cuidando da Hope?

— Eu e Grace. Ela tá em casa. Segura e bem – Heaven respondeu.

Suspirei aliviado.

— Obrigado. Eu preciso vê-la.

, você precisa cuidar de si mesmo. Vamos nos concentrar em como você deve se recuperar. Eu vou chamar um médico e depois um psicólogo.

— Eu não sou doido!

— Não, você não é. Mas suas emoções são fortes, você precisa aprender controlá-las, senão, a próxima crise pode ser pior.

— Eu só quero ver a minha irmã.

— Você irá vê-la, mas não agora, tudo bem? Vou chamar um médico para examiná-lo. — A enfermeira se afastou e saiu do quarto.

— Você realmente precisa se cuidar nesse momento. — Heaven quebrou o silêncio.

Eu a olhei.

— E minha irmã?

— Não se preocupe com ela. Se quiser, eu posso trazê-la aqui. Ela ficaria feliz em te ver.

— Você faria isso? — Um sorriso escapou dos meus lábios.

— Claro.

— Pode ser hoje?

— Claro que sim. — Ela revirou os olhos, rindo.

— Obrigado, Heaven.

— Você já me agradeceu.

— Eu quero dizer de novo: obrigado, de verdade.

Ela sorriu timidamente, aproximou-se e beijou o canto dos meus lábios.

— O médico deve estar vindo, se você precisar, vou estar lá fora.

✩✩✩✩✩
Heaven retornou após alguns minutos. Ela sorriu pra mim quando sua figura surgiu na porta.

— Posso entrar?

— Claro.

Ela entrou e fechou a porta. Sentou-se na beirada da cama e estendeu um celular em minha direção.

— Sua irmã quer conversar com você.

— Você tem um celular?

— Você perdeu muitas coisas, meu querido.

Eu ri, encostei minhas costas na cama e peguei o celular da sua mão.

— Cadê?

— Espera, ela vai ligar. — Ela riu.

— Certo.

Então, nós dois ficamos em silêncio. Aquilo estava me matando.

Diga algo, Heaven. Diga alguma coisa…

Apenas diga que sentiu saudades. Porque eu senti a sua.

— Então… Eu perdi muitas coisas… Isso inclui o seu casamento com o engomadinho? – provoquei.

— O quê?

— Seu casamento com aquele cara… Cal…

Ela gargalhou na minha cara.

— Você é engraçado, .

— Eu não tô rindo. Tô falando sério.

— Mesmo? — indagou, ainda rindo.

Eu balancei minha cabeça. Ela riu um pouco antes de ficar em silêncio.

— Por que você acha que isso aconteceria?

— Eu vi o jeito que você olhou pra ele. Você gostou dele.

— Ele é apenas um cara legal… E meu patrão.

— Oi? — Eu ouvi direito?

— Isso mesmo. Louco, não é? Calvin é meu patrão.

— Então é pior do que eu imaginava… — eu murmurei.

— A questão é: Calvin é apenas meu patrão. Só isso.

— Que bom.

— Bom?

— É… — sussurrei, e logo depois, mudei de assunto. — Eu me lembrei de algo… Por que você não foi falar comigo naquele dia do show no pub?

Heaven arqueou as sobrancelhas. Ela estava surpresa.

— Hum… Você estava muito ocupado com as garotas ao seu redor. Os garotos da banda também…

— Você poderia ter me chamado, eu ficaria com você, sem dúvidas.

Heaven gargalhou.

— Você estava se divertindo… Eu não te atrapalharia. Aliás, você tem muito talento!

— Obrigado.

— Eu adorei te ouvir cantar.

Eu sorri, timidamente, sentindo minhas bochechas corarem.

— Qualquer dia eu faço um show particular pra você. — Eu pisquei pra ela.

Ela abaixou a cabeça, envergonhada.

— Você tava linda naquele dia, eu acho que nunca te disse isso.

O som do celular tocando, quebrou o clima. Eu suspirei frustrado e atendi a ligação.

? — Meu peito foi tomado por uma onda de felicidade inexplicável apenas por ouvir a voz da minha irmã.

— Oi, Hope. Como você tá?

— Tô bem, maninho. Você tá melhor?

— Estou. Você quer me visitar hoje?

— Quero sim. E , você precisa se cuidar, certo? Eu tô bem, não precisa se preocupar comigo, só cuide de si mesmo, tá bom?

Eu ri, com uma enorme vontade de chorar.

— Eu vou me cuidar.

— Promete?

— Prometo.

✩✩✩✩✩
Uma semana depois, eu finalmente fui liberado, heaven me buscou no hospital e nós fomos embora de táxi.

Aquela uma hora em sua companhia alegrou o meu dia, contudo, eu sabia que o pior estava por vir. Eu ainda precisava conversar com Grace. Olhar em seus olhos. E sinceramente… Eu não estava preparado para isso.

Heaven abriu a porta e entrou, no mesmo instante um par de braços rodearam a sua cintura.

— Oi, bebê lindinha da Heaven — Hope disse, com as mãos na barriga levemente pontuda da garota.

Eu franzi o cenho. Alguns segundos depois, Hope pulava sobre mim. Eu a abracei com força.

— Senti sua falta, pequena.

— Eu também, . Eu fiquei preocupada com você.

— Eu tô melhor agora, não se preocupe. — Beijei o topo de sua cabeça.

— Ei, você sabia que o bebê da Heaven é menina?

Eu fiquei boquiaberto. Eu realmente perdi muitas coisas nesses últimos dias. E nenhuma das duas tinha me falado sobre isso no hospital. Para ser honesto, eu descansei na metade do tempo, então, não poderia culpá-las por isso.

— Sério? — perguntei, com o olhar em Heaven. Ela sorriu e deu de ombros.

— Eu disse que você perdeu muitas coisas nesses últimos dias, .

Eu sorri, feliz.

— Parabéns.

— Obrigada.

— Ah, nós pensamos nos nomes… — Hope pulou do meu colo.

— E o que vocês decidiram?

— Nada. A Heaven queria pedir sua opinião.

— A minha opinião? — eu indaguei, erguendo os meus olhos para o rosto de Heaven.

— É. Talvez você conheça algum nome diferente ou algo assim… — Ela mordeu um sorriso. — Ou…

— Eu adoraria ajudar.

— Então, vamos… — Hope estendeu sua mãozinha para mim.

— Vamos aonde? — Eu segurei sua mão e a segui.

— Para o quarto de Heaven. Você precisa ver uma coisa…

— Certo…

Andamos até o quarto de Heaven. Hope parou diante da porta e indicou o cômodo com a cabeça.

— A dona do quarto, por favor…

Heaven riu. Abriu a porta e permitiu nossa passagem.

— O que vocês estão aprontando?

— Você vai ver.

Ela fechou a porta. Eu olhei ao redor. Certo, nada de diferente. Talvez as Polaroids coladas no mural perto da porta fosse a surpresa. Eu me aproximei. Observei atentamente as fotos.

Não havia nenhuma foto de Heaven na época da escola. Todas as fotos eram depois da gravidez. Depois que ela se mudou para casa de Grace. Havia várias fotos dela sorrindo. Outras com a mão na barriga. Ou fazendo caretas. Uma com Olympia, provavelmente eu perdi sua visita também. E outra comigo.

Quer dizer, nós nunca tiramos uma foto juntos… Então…

— É uma montagem. — Heaven apareceu ao meu lado, observando a mesma foto. — O que achou?

— Eu adorei. Eu fico bonitão sorrindo, não? — eu brinquei, esperando algum trocadilho em troca.

Entretanto, Heaven apenas sorriu e não me olhou quando disse:

— É. Você tem um sorriso bonito.

E caralho, um elogio vindo de Heaven era algo raro. Muito raro. Meu coração martelou no meu peito. Então, ela se afastou e sentou-se na cama. Meus olhos a seguiram.

Naquele momento, eu me toquei.

Ah, era essa a surpresa!

Eu caminhei em direção ao berço rosa.

— É lindo, não é? — Hope passou as mãos pelo berço. Eu fiz o mesmo.

— Muito bonito.

— Eu escolhi. — Ela sorriu, orgulhosa.

— Sério? — Ela balançou a cabeça, positivamente. — Você tem um bom gosto, pequena.

— Só não tem um ótimo gosto para escolher nomes, né, Hope? — Heaven surgiu ao meu lado.

Hope gargalhou, e concordou completamente com a fala da garota. O som da madeira chamou nossa atenção. Alguém bateu duas vezes na porta. A madeira rangeu e a pessoa entrou dentro do cômodo.

? — Ouvi a voz de Grace.

Eu não me virei, permaneci parado com os olhos focados no berço rosa.

— Nós podemos conversar?

Ignorei-a. Heaven me cutucou. Em seguida, limpou a garganta e puxou Hope.

— Hope, você me ajuda a fazer bolo de banana?

— Sim, vamos!

As duas saíram do quarto, deixando-me a sós com Grace. Eu senti sua mão no meu ombro.

— Você deu um susto em todas nós. Você é importante para mim. Estranhamente, até Heaven sentiu muito sua falta e se preocupou.

— Eu percebi.

— Ela gosta de você.

Eu concordei com a cabeça.

— E você… Nem preciso dizer que você é apaixonado por ela.

— Eu não… — Arregalei os meus olhos.

— É, você sabe que sim.

Engoli em seco.

— Você deveria tentar. Ela faz bem a você.

— Grace…

— Tudo bem, vamos mudar de assunto… Eu quero pedir perdão. Me desculpe de verdade, .

— Você já pediu perdão.

— Nem todas as desculpas do mundo serão o suficiente.

— Certo.

— Seus tios… Eles foram até o hospital. Eles queriam levar Hope para a casa, mas eu não deixei, então, eles pediram algo em troca.

— O quê?

— Dinheiro. 5 mil reais, exatamente.

— Você… Você não…

— Eu dei, . Era tudo o que eu tinha guardado. Eles prometeram se manter afastados de Hope, por algum tempo.

— Eles… Eles não vão me deixar em paz. Eu não posso abandonar a minha casa!

… Vocês ficam aqui até Hope se recuperar do câncer.

— Grace… — Senti um bolo na minha garganta. O ar parecia me faltar. — Hope… Ela não vai se recuperar… Ela… Ela vai morrer.

— Como assim?

— Ela tem menos de 8 meses de vida.

— Não, não pode ser. — Ela negou, com os olhos cheios de lágrimas. — A pequena Hope, não!

— Eu não posso fazer mais nada por ela.

— Não, minha menina, não… — Ela se jogou em meus braços e começou a chorar.

A única coisa que eu pude fazer naquele momento, era chorar também. Por ela. Por Hope. Por mim. Minha vida estava um caos. E sem Hope, tudo iria ficar pior.

✩✩✩✩✩

Heaven
A primeira semana morando com foi… intensa.

Caramba, essa frase ficou esquisita.

Morando e na mesma frase, soava irônico para os meus ouvidos. Porém era exatamente isso que estava acontecendo. Fazia uma semana. Uma maldita semana.
E a cada minuto que passava, eu ficava mais à vontade para conversar com ele. Rir de suas piadas sem graça. Criticar o seu mal humor matinal. A cada dia que passava, eu conhecia um diferente do colégio. E droga… eu estava gostando daquele novo .

era gentil, engraçado e carinhoso.

Sim, o destruidor de corações e um dos amigos daquele grupo idiota era um cara carinhoso. E toda a sua demonstração de carinho era totalmente e exclusivamente para a pequena Hope.

Hope Elizabeth Turner . Essa garotinha era cativante. Hope era uma garota normal de 10 anos de idade. Perguntava sobre tudo. Tinha um espírito livre. Amava ler e escrevia poemas.

Sim, uma garota de dez anos escrevia poemas!!!!

Ela prometera estar trabalhando em um dedicado à mim. Eu fiquei toda emocionada e fiz questão de esfregar na cara do seu irmão.
O bobo apenas riu e falou: Ela já fez muitos para mim também, meu amor. E então, meu coração acelerou.

Meu amor, essas duas malditas palavras ecoavam na minha mente, fazendo o meu corpo inteiro se arrepiar. Eu ri, de um jeito nervoso e saí o mais rápido possível de perto dele. Mas não por medo de , mas sim por medo de mim mesma.

Medo por eu estar sentindo coisas que não deveria. Medo por sentir meu coração disparar com aquelas duas palavras. Medo por estar próxima demais. Medo por pensar no nosso beijo, sempre que eu ia dormir. Eu tinha medo. Muito medo.

Eu entrei no quarto de Hope. A porta estava aberta, por isso não bati. estava sentado do lado dela, enquanto ela escrevia algo no seu caderno de poemas.

— Ei, Hope.

— Tá sem sono, Heaven? — Ela ergueu os seus olhinhos azuis e brilhantes para mim.

Balancei a minha cabeça num gesto positivo. Olhei o relógio do lado da cama. 21:30 da noite.

— O que você tá escrevendo pequena? — perguntei, com curiosidade.

Ela e trocaram um olhar enigmático, depois sorriram. fixou os seus olhos em mim. Algo dentro das suas íris mexeram comigo. Eu conhecia há tanto tempo, por que só agora seus olhos começaram a mexer comigo?

— É segredo, Heaven.

— Ah, então, é aquele poema sobre mim?

Hope soltou uma risadinha e moveu a cabeça para cima e para baixo.

— Eu poderia só dar uma olhadinha? Só no primeiro verso, por favor?

Ela riu, negando com a cabeça.

— Para de ser curiosa, Heaven.

— Fica na tua aí, bad boy.

me olhou meio surpreso, depois começou a gargalhar.

— Eu acho que a gente já passou desde nível, não é mesmo, ?

Revirei os meus olhos, o sorriso ainda permanecia nos meus lábios.

— Você acha, bad boy?

Hope riu.

— Bad boy? Apelido justo.

a cutucou, fazendo uma careta.

— Traidora.

— Eu sou sua irmã, mas isso não significa que eu gostava do jeito que você era.

Eu olhei para o rosto de . Ele me olhou de volta. Pisquei para ele e sua expressão mudou completamente. Sua mandíbula trincou e, então, mirou os seus olhos para baixo.

— Eu não sou mais o mesmo, pequena.

Hope desviou a sua atenção do caderno e o encarou atentamente. umedeceu os lábios antes de pegar nas mãos pequenas de Hope e beijá-las.

— Eu quero ser o cara que te trará orgulho, Hope. Não um babaca ou um sem noção, que não pensa em ninguém além de si mesmo.

— Você não pensa apenas em si. Você pensa em mim também.

Eu sorri. Os dois se encaravam intensamente.

— É. Você é a minha prioridade, princesa.

Hope exibiu um sorriso encantador. Olhou de relance para mim e aproximou-se do irmão, com as mãos em forma de concha.

— E a Heaven, também, né? — Ela falou alto o suficiente para eu ouvir.

Minhas bochechas coraram. Ele esboçou um sorriso de canto, me olhou e franziu a sobrancelha.

— Eu não sei se ela vale a pena.

— Ah, ela vale muito a pena, viu?

— Vale, é?

— Muitoooo. — Ela rastejou a palavra, de modo exagerado. Olhou pra mim e num piscar de olhos, pulou ao meu lado. — Ela é uma garota linda e inteligente, como não vale a pena, ?

— Hum… — Os olhos castanhos de me encarava intensamente. Seu sorrisinho presunçoso ainda permanecia nos seus lábios.

— Se eu fosse você… pediria ela em namoro. Eu sei que você nunca teve uma namorada e sinceramente… Heaven parece ser boa pra você.

Desviei o meu olhar dos olhos intensos e invasivos de . Abaixei a minha cabeça e baguncei os fios lisos e loiros de Hope.

não é do tipo que namora. E eu muito menos. E nós não estamos apaixonados para ter uma relação.

Ela estreitou os seus olhos azuis.

— Tem certeza?

Eu fiquei sem saber o que responder. Engoli em seco. Deixei um riso nervoso escapar.

— Tenho.

estava em silêncio total, mas, eu sentia os seus olhos sobre mim. O clima ficou pesado, de repente. Hope olhou para nós dois. Eu não olhei para . Ela suspirou e voltou ao seu lugar, pegou o seu lápis, voltando a rabiscar.

— Vocês dois são iguais. Cegos, não percebem o que está bem na sua frente — ela disse, calmamente, enquanto escrevia.

Então, nesse momento, eu ergui os meus olhos na direção de . Ele ainda me encarava. Não sorria. Não expressava absolutamente nada. Limpei a garganta e me levantei da cama.

— Ok… eu vou indo, amanhã preciso acordar cedo para trabalhar.

— Até quando você irá continuar trabalhando? — A voz de me assustou. Seus olhos desceram até a minha barriga, então, percebi ao que ele se referia.

— Hum… acho que até os 7 meses.

— Você deveria parar. Sua barriga tá relativamente grande e, daqui a pouco, você não vai conseguir ficar muito tempo em pé.

Tudo o que ele disse era verdade. Mas eu nem precisei chegar aos 7 meses pra não aguentar mais. Meus pés estavam inchados e meu peso aumentou subitamente. Meu corpo mudou do dia pra noite.

— Eu vou continuar indo, vou me esforçar para conseguir ir até os 7 meses.

— Você não deveria se esforçar, Heaven.

Eu suspirei, concordei com a cabeça e andei até a porta.

— Boa noite, Heaven! — Hope falou.

— Boa noite, Hope. — Eu sorri para a garota. Meus olhos repousaram em . — Boa noite.

Ele balançou a cabeça, mas, não disse nada, desviando a atenção rapidamente de mim.

✩✩✩✩✩
Grace foi visitar uma amiga numa cidade vizinha. Tomou café da manhã antes do sol nascer e pegou um ônibus. Eu despertei após ouvir o barulho da porta. Fui até a cozinha e encontrei um bilhete em cima da mesa.

“Bom dia, Heaven. Bom dia, e meu docinho, minha flor, minha Hope. Deixei cookies e bolo de banana pronto para vocês! Se alimentem bem e não esqueçam nada quando saírem de casa! Heaven, leve o seu celular e sua bolsa, , não esqueça dos documentos e as chaves de casa. Leve Hope com cuidado até a escola e não pilote sua moto como um louco, por favor.

Beijinhos. Vejo vocês à noite.

Ps: Provavelmente, Hillary vai me segurar por muito tempo em sua casa. Nós vamos cozinhar, fazer crochês e fofocar!”

Eu ri, guardei o bilhete e comecei a me alimentar. Cortei um pedaço generoso do bolo de banana e me sentei na cadeira. Peguei o meu celular, conectei o fone de ouvido e coloquei na minha música favorita. A voz de Justin Timberlake me fez mergulhar em diversas lembranças. Say something, me fazia balançar a cabeça num ritmo animado.

Todas elas com .

no colégio. sendo idiota com as garotas. preparando uma bebida. dizendo que me levaria pra cama com facilidade. me beijando num jogo estúpido. Eu fechei os meus olhos, como se estivesse provando os seus lábios pela primeira vez. Eu me lembrava de cada detalhe. Seu corpo rígido. Suas mãos hesitantes. Seu olhar indecifrável. Sua expressão após o beijo.

Comi outro pedaço, bebi um gole de água e voltei a fechar os olhos. me resgatando. ao meu lado enquanto olhávamos as estrelas. enciumado por causa de Calvin Landock, o meu patrão. despedaçado por causa da morte dos seus pais. perdido por causa da irmã no hospital. preocupado com a minha gravidez.

Eu estava profundamente mergulhada nas lembranças, que nem percebi quando coloquei a colher sem nenhum pedaço de bolo na boca.Mordi o alumínio e arregalei os meus olhos. Abri os meus olhos e olhei o meu prato vazio. Eu ainda continuava com fome. Tirei os fones, me levantei e caminhei até a geladeira. Peguei uma garrafa de água, preenchi um copo e bebi.

Meus olhos rolaram para o lado. Uma sombra estava parada perto do sofá. Estremeci. Em seguida, ouvi um suspiro baixo e a sombra se virou, cruzou a distância da sala até a cozinha. estava sem camisa, apenas com uma calça moletom preta. Ele se assustou ao me ver parada ao lado da geladeira.

— Oi. — Sorri sem graça.

Ele parecia perturbado. Sua pupila estava levemente dilatada para alguém que acabara de acordar.

— Oi — sua voz saiu arrastada.

Me aproximei, deixando o copo em cima da pia. estava parado ao lado da mesa.

— Tá tudo bem? — Parei de frente pra ele. Seus olhos desceram para o chão.

— Tô. — Ele suspirou, agoniado.

Eu conhecia o suficiente para perceber que algo estava errado. Resolvi me arriscar, toquei o seu rosto e forcei o seu olhar em minha direção.

— Me fale, o que tá acontecendo?

Olhei fixamente em seus olhos. Queria que ele percebesse a minha preocupação. Sua mão foi até o meu pulso.

— Heaven… — Ele acariciou suavemente o meu braço. Um arrepio subiu pelo meu corpo.

— O que foi? — sussurrei, realmente preocupada.

Seus olhos vacilaram. Ele cortou a nossa distância e se jogou contra mim. era mais alto do que eu. Seu corpo era maior e seus braços musculosos. A cena deveria ser cômica, visto de longe. Me surpreendi por um momento, mas, o deixei me abraçar. Fechei os olhos. Puxei o ar e senti o seu perfume masculino. Seu cheiro me hipnotizou. Meu nariz foi até o seu pescoço e eu só queria me derreter nos seus braços.

Toquei o seu cabelo. Seus fios estavam úmidos. Minhas mãos desceram por toda a extensão de suas costas. Senti sua pele gelada sobre os meus dedos. Imediatamente, desejei tocar outros centímetros de pele. Franzi o cenho enquanto minhas mãos desciam pela sua pele gelada. Senti algo sobre os meus dedos. Uma aspereza, ou algo assim.

Cicatrizes. Provavelmente.

— O que é isso…? — sussurrei em seu ouvido, com as mãos paradas em cima de algo levemente áspero.

Seu corpo inteiro ficou rígido. Ele cerrou a mandíbula, tenso. Desvencilhou dos meus braços e deu uns passos pra trás, sem olhar no meu rosto.

— O que você tem nas costas?

Eu poderia estar sendo idiota. Não me lembrava de ter visto algo diferente nas suas costas. Ou melhor, não me lembrava de tê-lo visto sem camisa. Seu peito subia e descia, rapidamente. Ele negou com a cabeça e passou por mim, porém, segurei o seu pulso com força, o fazendo parar.

— Deixe-me ir — ordenou, com a voz fria e distante.

Não me importei com a sua maldita ordem. Soltei o seu pulso e puxei os seus ombros, fazendo-o virar de costas. Meus olhos se arregalaram. Minha boca se abrir. Meu corpo todo tremeu.

Que horror! O que aconteceu? Por que essas marcas roxas e cicatrizes?

— Meu Deus!

Ele virou-se rapidamente e me segurou pelos ombros.

— Eu pedi para me deixar ir…

— Mas…

Ele fechou os olhos com força e me soltou. Colocou as mãos na testa e me olhou meio atordoado.

— Porra, Heaven! — Seu corpo caiu sobre a cadeira.

Eu fiquei petrificada, sem saber o que fazer.
Ele abaixou a cabeça e colocou as mãos entre os fios castanhos. Segundos depois, ouvi um soluço rouco do fundo da garganta. Em seguida, um choro fraco, meio silencioso.

. — Me agachei ao seu lado. Fiz um carinho em seu rosto e nos fios de cabelo, que estavam sendo puxados pelas suas próprias mãos. Puxei o seu braço, e imediatamente, ele tampou o rosto com as mãos.

Ele soluçava. Suas lágrimas caiam silenciosamente. Seus ombros se moviam rapidamente.

, respire fundo, por favor. Eu tenho medo de você ter uma crise e parar no hospital de novo.

Ele me ouviu. Suspirou longamente. Tirou as mãos do rosto, limpou as lágrimas com as mãos e abaixou a cabeça.

— Respire. — Ele respirou lentamente. Puxando e soltando o ar, enquanto o seu queixo tremia levemente. — Fique calmo, não pense em nada.

Ele respirou profundamente, e soltou o ar. Puxou o ar e o soltou. repetiu isso umas dez vezes, antes de finalmente abrir os seus olhos. Toquei a lateral do seu rosto. Nossos olhares conectados. Sua respiração calma. Uma lágrima solitária rolou pela sua bochecha, limpei-a e movi os meus dedos sobre a sua pele avermelhada. O seu rosto estava vermelho, sua expressão vazia. tomou o meu rosto em suas mãos, aproximou os nossos rostos, os nossos narizes, as nossas bocas.

Ele estava sentado na cadeira enquanto eu estava agachada. Seu rosto inclinado sobre mim. Dei o primeiro passo. Meus lábios o beijaram suavemente, nenhum de nós fechamos os olhos. Um outra lágrima caiu de seus olhos. Eu abri a minha boca e ele fez o mesmo, nossas bocas se encaixaram com perfeição, sua língua tocou a minha. E ainda assim, nenhum de nós fechamos os olhos.

Ele a moveu lentamente junto com a minha. Um simples toque. Seus lábios se abriram e ele tocou o céu da minha boca. Eu estava quase me perdendo. Não sei se era pelos movimentos certeiros e delicioso, que sua língua causava ou pela intensidade do seu olhar. Ele fez o mesmo movimento novamente. Eu suspirei profundamente. Meus olhos quase se fecharam.

Quase.

Por que no mesmo instante, ele retirou a sua língua e apenas tocou suavemente os nossos lábios, em um simples selinho. Nossos olhares conectados. Ele beijou o canto da minha boca. Eu não conseguia pensar em nada para falar. Qualquer coisa que eu dissesse poderia soar estúpido. O que eu acabara de ver era muito forte e significativo. Eu queria que ele me explicasse, apenas se ele sentisse vontade em fazê-lo.

Beijei os seus lábios, a sua bochecha e o seu maxilar marcado. Ele me puxou pra cima, fazendo-me sentar em seu colo, e encostou a sua cabeça no meu ombro. Meus dedos foram em direção ao seu cabelo, e comecei a fazer uma massagem suave. Nenhum de nós dissemos nada. Por um bom tempo. Até ele afundar o seu rosto no meu pescoço e falar, com a voz abafada, tudo o que eu precisava ouvir:

— Eu vou te falar tudo, Heaven.

Beijei o seu cabelo e o incentivei a falar.

— Quando você quiser, .

suspirou, me apertou em seus braços e soltou o ar lentamente.

✩✩✩✩✩

Aviso: GATILHO DE VIOLÊNCIA.

— Tudo começou quando eu era pequeno. 8 anos para ser exato. Logo após a morte dos meus pais. Meus tios eram os únicos parentes vivos que eu tinha, então fui morar com eles. Com Hope também. Meus pais eram trabalhadores e possuíam uma considerável quantia no banco. Eles pegaram tudo.

Respirei fundo e soltei o ar.

— Desde então, eles vêm nos tratando como animais. Sempre que eu chegava de um show, eles pegavam todo o meu dinheiro. E, se eu não tivesse nada, eu era castigado.

— Essas marcas… são todas do… castigo?

Engoli em seco.

— Sim. Eles me batiam com chicotes, até ficar na carne viva. Eles queriam dinheiro, não aceitavam quando eu chegava em casa sem nada. Heaven ficou em silêncio, a expressão horrorizada.

— Mas a verdade era que eu sempre voltava com dinheiro, mas escondia deles.

— Por que você fazia isso? Você apanhava cruelmente deles, !

— Naquela época, eu descobri sobre o câncer da minha irmã. Eles não poderiam saber. Eles não poderiam pagar o tratamento. O dinheiro da herança não era o suficiente. Heaven, se eles soubessem… Hope não estaria comigo hoje. Eles dariam um jeito de tirá-la de mim.

“Eu comecei a esconder o meu dinheiro e, consequentemente, apanhar mais. Doía. Pra caralho. Mais eu aguentava toda aquela porra pela minha irmã.”

Meu rosto estava molhado novamente. Minha respiração acelerando. Lágrimas rolando pelas minhas bochechas. Os olhos de Heaven se encheram de lágrimas.

— Eles bateram na Hope também? — ela perguntou com um fio de voz.

— Nunca. Se isso acontecesse, eu não pensaria duas vezes antes de matá-los.

— Seus tios faziam isso? Dois homens?

— Não, um homem e uma mulher. Minha tia não batia, apenas pegava o dinheiro. Os chicotes ficavam por conta do meu tio.

— Meu Deus, que covardia!

— Você não imagina quantas vezes eu pensei em me matar apenas… para essa merda acabar de uma vez… Você nem imagina, Heaven.

“Eu abri a porta com cuidado para não fazer barulho. Esperava que meus tios estivessem dormindo e esquecessem da porra do dinheiro. A banda não tava conseguindo muito ultimamente. Os bares pegavam poucos e os pubs menos ainda. Consegui nem um terço do que precisava para a próxima semana. Dia 05 começaria o tratamento da quimioterapia de Hope. Era parcialmente gratuito. A clínica ficava em outra cidade e as passagens eram caras. Ainda tinha a comida, transporte e hospedagem.

Eu tava duro e precisava de dinheiro até a semana que vem. Eu não poderia dar o meu único dinheiro aqueles idiotas. Não mesmo.
A sala estava completamente escura. Tranquei a porta e dei alguns passos.
Uma luz se acendeu. Meu corpo inteiro travou.

Meu tio sorria diabolicamente para mim. Moveu a cabeça e cruzou os braços. Engoli em seco, o coração querendo sair pela boca.

— O que tem para nós hoje, Turner?

— Na-nada. — Minha voz tremeu pateticamente. Eu ainda era a porra de um adolescente. Um menino com medo de apanhar de chicotes do tio.

Meu tio caminhou até mim, parou em minha frente.

— Nada, Turner?

Neguei freneticamente com a cabeça. O coração martelando em meu peito.

— Ah…

— Desculpe, eu…

Ele puxou o meu braço e me jogou no chão.

— Você sabe o que vai acontecer, não sabe?

Me sentei no chão. Meu corpo todo tremia. Minhas mãos suavam.

— Eu não quero apanhar de novo, tio. Dói muito — eu falei com a voz embargada pelo choro. Meu tio riu, caminhou até o sofá, puxando uma almofada para cima e pegou o chicote que usara a dois dias atrás.

Ele andou até mim. Agachou e balançou o chicote nas mãos.

— Eu não quero fazer isso, mas você não me dá uma outra opção, Turner.

— Mas, mas…

— Há outra opção, moleque? Tem dinheiro aí?

Meu corpo começou a suar. Eu não poderia dar a única nota de cem que eu tinha. Não mesmo.Hope precisava daquela única nota. Eu poderia aguentar alguns minutos por ela.

É claro que eu poderia. Hope só tinha a mim. E eu apenas ela. Se eu não fizesse algo… ninguém mais faria.

Grace estava muito ocupada com o seu trabalho, eu não queria incomodá-la com os meus problemas, mesmo quando ela insistia em me ajudar. Meu queixo tremia enquanto as lágrimas desciam descontroladamente.

— Não faça isso…

Meu tio negou. Levantou-se e me chutou, como se eu fosse um cachorro morto.

— Tire a camisa e se vire.

— Tio…

— AGORA, PORRA! — ele gritou. Eu tremi.

Ele estava totalmente bêbado. Provavelmente drogado também. Tive medo do que poderia acontecer se eu não o obedecesse. Tire a minha camisa, e me virei de bruços.

— Você precisa trazer dinheiro pra essa casa, Turner! Você precisa virar homem! Seus pais não estão aqui pra te sustentar! Como vamos alimentar você e aquela peste?

Eu quis gritar e dizer que eles nunca preparavam comida para nós. Eu quis xingá-lo por se referir a minha irmã daquele jeito. Eu quis gritar até meus pulmões doerem. Eu quis gritar até alguém me escutar e me resgatar daquele inferno.

Eu quis gritar. Eu quis chorar. Eu quis morrer.

Meu tio deu a primeira chicotada. As lágrimas desceram. A segunda. Soltei um ruído do fundo da garganta. A terceira. Meu choro desesperado, implorando por ajuda. A quarta. Meu coração sendo estilhaçado. Eu estava perdendo a esperança. A quinta. A dor física doeu mais do que a emocional. Minha pele ardeu e eu sabia que estava sangrando. As marcas ficariam por mais alguns dias na minha pele.

A sexta. Eu gritei alto. Tão alto, que meu tio me chutou e me prensou contra o chão, com as mãos no meu pescoço. A sétima. Eu lutei contra a pressão em meu pescoço. O ar me faltava. Eu sabia que poderia morrer. A oitava. Minha cabeça batendo contra o chão. A nona. Minha cabeça latejava. Meu pescoço ainda sendo segurado com força. A décima. Meus olhos se fechavam lentamente. Chorar já não parecia o suficiente. Gritar não era necessário. Ninguém me salvaria.
A décima primeira. A minha visão escureceu. Perdi os sentidos. Meu corpo não se mexeu.”

Meu corpo tremia enquanto os soluços escapavam dos meus lábios. Relembrar de toda aquela tortura era doloroso. Eu era uma pessoa traumatizada. Me tornei assim por causa dos meus tios.

Heaven encostou a sua testa na minha. Suas lágrimas se misturando com as minhas.

— Eu sinto muito por isso.

Eu me agarrei a ela. Me agarrei a sua sinceridade. A sua força. A seu carinho por mim. Me agarrei como se eu fosse o mesmo garotinho de 9 anos atrás. Ela me apertou em seus braços. Beijou várias vezes o meu rosto. Limpou as minhas lágrimas. Eu limpei as suas.

Beijei os seus lábios suavemente. Eu só queria me sentir vivo novamente. Eu só queria sentir alguma coisa. E eu sentia algo quando estava com ela.

Eu sentia algo forte, dolorosamente intenso quando eu a olhava nos olhos. Algo indescritível e profundo enquanto beijava os seus lábios. Eu sentia o meu coração bater mais rápido por causa dela. Apenas por ela.

Todas as reações que ela causava em mim. Por cada célula do meu corpo. Cada músculo. Cada parte de mim. Cada batida do meu coração. Era tudo e exclusivamente por causa dela. Ela me puxou até o seu quarto, me fez sentar na sua cama e foi até o banheiro.

Heaven voltou com um kit de primeiros socorros na mão, sentou-se ao meu lado e disse:

— Eu sei que não vai fazer diferença mas… eu quero cuidar de você.

E eu deixei. Deixei suas mãos deslizarem por cada cicatriz. Por cada centímetro da minha pele. Deixei que ela cuidasse de mim. Deixei que ela me tocasse como ninguém nunca havia me tocado.

✩✩✩✩✩
Dei um beijo no topo da sua cabeça e baguncei os seus fios dourados. Ela fez um bico fofo pra mim e empurrou as minhas mãos.

— Você bagunçou o meu cabelo, seu chato… Como que o Henry vai olhar pra mim…

Ela arregalou os olhos e levou as mãos até a boca. Estreitei os meus olhos e me agachei ao seu lado.

— Quem é Henry?

— Ninguém. — Ela começou a andar apressadamente para dentro da escola. Segurei seu braço carinhosamente.

— Hope, olhe pra mim. — Soltei seu braço e esperei.

Ela virou-se. Seu rosto estava corado. Ela era extremamente fofa. Era um esforço não apertar as suas bochechas rosadas e admirar os seus olhos azuis iguais aos da nossa mãe.

— Quem é Henry? — repeti a pergunta, controlando-me para não explodir de ciúmes.

— Um menino que eu gosto. – Curta e grossa, era assim que Hope era.

Passei as minhas mãos no rosto.

— Você é muito nova pra essas coisas.

— Para quê? Se apaixonar?

Meu Deus, eu não queria estar tendo essa conversa com Hope. Não agora. Não na frente de desconhecidos.

A puxei para um banco. Me virei em sua direção.

— Eu tô apaixonada, . Muito. — Ela piscou os seus olhinhos azuis pra mim.

Bufei. Incapaz de dizer qualquer coisa.

— Hope… você pode se magoar. Você precisa ter cuidado.

Ela levantou-se abruptamente. Me encarou com raiva nos olhos.

— Sabe, , eu não vou ser igual à você. Não vou ficar apenas olhando a pessoa que eu gosto e ficar calada.

Pisquei.

— Oi?

— Eu vou falar tudo pra ele. Não tô nem aí. Ao contrário de você, eu não tenho medo de me apaixonar. De entregar o meu coração, e quer saber mais? Eu não me importo se ele vai me magoar! Eu gosto dele, é isso que importa!

Eu pisquei, atordoado, processando tudo o que ela disse.

— Você é um covarde, sabia. É apaixonado pela Heaven, mas não admite nem pra si mesmo. Não faz nada para ficar com ela. Eu não quero ser como você. Eu não quero ver o Henry com outra pessoa.

— Como? — Minha voz saiu fraca.

— Heaven não vai te esperar pra sempre. Um cara vai aparecer e fazer o que você não fez. Você irá perdê-la, . E eu… Não gostaria de perder o Henry.

Ela foi em direção à sala de aula, deixando-me boquiaberto.

✩✩✩✩✩
Heaven dormia tranquilamente ao meu lado. Hope, comia pipoca com o balde nas mãos. Os créditos do filme subia lentamente na tela da televisão. Hope suspirou e levantou-se. Ela não falou comigo desde que voltou da escola. A nossa conversa ainda rondava a minha mente. Ela agarrou o balde de pipoca, passando por mim.

— Vou dormir.

— Espere, você não quer que eu te leve até a cama e leia uma história?

Ela revirou os olhos dramaticamente.

— Eu já tenho 10 anos! Sou uma moça, . Não precisa.

— Hope…

— Ei, leve a Heaven, huh? Com certeza é melhor pra você. Sabe, criar coragem pra assumir certas coisas…

— Que coisas, Hope? Pare de falar besteira.

Ela riu baixinho.

— Você é apaixonado pela Heaven. Até Grace já percebeu.

— Eu não sou…

— Você é um burro e Heaven tá completamente cega. Meu Deus.

— Pare já com isso!

— Tudo bem. — Ela começou a se afastar. — Olhe seus braços… Seu corpo não nega os sentimentos, irmãozinho.

Eu olhei para os meus braços em volta dos ombros de Heaven. Ela dormiu encostada em mim, com as minhas mãos sobre ela.

Quando que isso aconteceu?

Porra.

Me desvencilhei da garota e a peguei no colo com cuidado, andei até o seu quarto e a coloquei na cama. Fiquei observando o seu rosto relaxado. Seu modo de respirar. Observei Heaven por um bom tempo. Até me tocar de que, provavelmente, aquela cena era estranha. Me fazendo ser um obcecado por ela.

Peguei um edredom e a cobri. Beijei o topo de sua cabeça e sussurrei:

— Boa noite.

Ela se remexeu na cama quando meus lábios se afastaram de sua testa. Eu caminhei até a porta o mais rápido possível para não acordá-la. Antes de fechar a porta, ouvi um murmúrio suave.

— Boa noite, .

Meus pés travaram. Me virei para olhá-la. Heaven estava completamente virada de costas para mim. Saí do quarto com um sorriso idiota no rosto.

✩✩✩✩✩
Hope não fora para a escola hoje. Ela não estava se sentindo bem. A levei até o hospital. Eram 18:00 quando retornamos para a casa. Casa. Essa palavra ainda soava estranho para mim. Minha casa sempre seria aquela casa. Lugar onde meus tios estavam. Mas, por enquanto, a casa de Grace era a minha casa também.

— Ela não comeu muito, acabou caindo no sono — Grace murmurou, sentando-se ao meu lado.

Eu movi a cabeça, suspirei e passei as mãos pelo rosto. Eu não conseguia pensar em nada. Apenas no pior. Na sua morte. Menos de um ano.

— Ela… Ela pode ir mais cedo, ? — Grace chamou a minha atenção, sua voz completamente trêmula.

— Eu não sei — falei, num fio de voz.

Eu sentia como se todas as minhas forças estivessem esgotadas. Me sentia fraco. Inútil. Impotente.

— Ah, Deus! Eu espero que ela fique bem. Ela tá tão fraca… tão vulnerável. Dá pra ver claramente que ela tá doente, ela…

— Grace… pare, por favor — implorei. Minha garganta quase se fechando.

— Certo, me desculpe. Amanhã ela vai acordar melhor. — Ela levantou-se, passou ao meu lado, repousou uma mão em meu ombro enquanto inclinava a sua cabeça em direção a minha testa. Ela plantou um beijo e se foi.

Fiquei por alguns minutos apreciando o silêncio. A minha mente à mil. Eu tentava deixar o medo de lado e encarar aquela situação como um adulto. Mas eu sabia que seria difícil. Escutei o barulho de portas de carro batendo. Franzi as sobrancelhas, estranhando. Me levantei, afastei a cortina da janela e olhei o lado de fora.

Meu coração quase saiu pela boca. Heaven estava abraçada com o tal do engomadinho ou melhor, Calvin. Ela estava de costas para mim. O filho da mãe sorria abertamente com as mãos em sua cintura. Eles se separaram e Calvin engoliu em seco antes de encarar o rosto dela. Ele não disse nada, apenas esquadrinhou o seu rosto.

Então eu notei. Seus dedos repousados em suas bochechas. Ele umedeceu os lábios. Heaven ainda continuava parada, sem reagir. Ele aproximou o rosto, tocando as suas narinas e sorriu minimamente, antes de beijá-la. Meus dedos ficaram brancos, pela força que eu segurava a cortina. Meu corpo todo tremeu. Senti como se tivesse tomado um soco no estômago.

Eles se beijaram. Lentamente.

Coloquei duas coisas na merda da minha cabeça:

1) Heaven estava solteira.

2) Eu precisava urgentemente e desesperadamente parar de pensar nela.

Mas, porra… era tarde demais.

Enquanto observava Calvin se afastar e beijar a sua bochecha, e, em seguida, entrar dentro do seu carro estupidamente caro e bonito, eu senti algo.

Senti a porra do ciúmes. E eu sabia.

Eu estava ridiculamente e desesperadamente apaixonado por ela.

✩✩✩✩✩
Nota da autora: depois desse cap intenso e triste, vou deixar o meu recado falando da única parte boa aqui.

ELES SE BEIJARAM!!!!! E, FINALMENTE, ADMITIU ESTAR APAIXONADO POR ELA.

tô ansiosa pra saber oq vcs estão achando, e pelos próximos cap ;). Até breve!

Heaven
— Obrigada pela carona, Calvin, mas não precisava. Você não tem nenhuma obrigação comigo — eu falei, assim que a porta fora aberta. Calvin apenas riu, e fechou a porta para mim.

— Eu já disse, não gosto de te ver andando sozinha por aí.

— Nem está tão escuro, ainda são 19:00 da noite.

— Mesmo assim… Eu gosto de te ajudar.

Eu sorri, dei alguns passos e me virei para o loiro. Ele me encarava com curiosidade.

— Tá, eu nunca vou me acostumar com a sua generosidade comigo. Então, obrigada.

Ele sorriu de lado, colocou a mão dentro do bolso da calça jeans e andou até mim. Parou na minha frente. Seus olhos azuis intensos me avaliando.

— Você me faz bem, Heaven.

Eu quase engasguei com o ar.

— E a sua bebê? Já pensou em algum nome? — perguntou, de repente.

— Hum… Ainda não.

Nós nos encaramos e desviamos o olhar no mesmo tempo. Me aproximei e o abracei. Seu corpo ficou tenso, imediatamente. E aos poucos, ele relaxou e retribuiu.

— Obrigada. De verdade.

— Não precisa agradecer, eu já disse. — Ele afastou-se e tocou o meu rosto. Seu polegar acariciou a minha bochecha.

Eu fiquei sem reação. Aos poucos, seu rosto se aproximou. E, no mesmo segundo, seus lábios estavam contra os meus. Não reagi de imediato. Meu cérebro tentou processar tudo o que estava acontecendo. Quando vi, já estava movendo a minha boca contra a sua. Acariciando a sua língua, lentamente.
Eu sabia que aquilo era errado. Mas Calvin não parava. Ele não parecia querer parar.
Meus pensamentos foram longe. Me lembrei dos lábios de . Da sua agressividade e atitude enquanto explorava a minha boca.

Calvin era o oposto de .

Ele me beijava com o maior carinho e dedicação que existia no mundo. Como se eu fosse quebrar a qualquer momento. Eu gostei do beijo. Gostei mesmo. Mas não amei. Ele não era .

Ele se afastou, e abaixou a cabeça.

— Desculpa, eu… eu…

Dei um passo pra trás.

— Tudo bem. Esquece isso.

— Você não tá brava comigo? — Ele me olhou com uma expressão dolorosa.

— Não, porque estaria?

— Você tem razão. Eu preciso ir, tchau.

Ele andou rapidamente até o carro e foi embora. Eu respirei profundamente. Entrei dentro de casa, estranhando o silêncio.
Dei alguns passos e me assustei com a figura de na cozinha. Ele passava uma faixa nas mãos. Imediatamente, me aproximei.

— Você tá bem?

Ele riu, amargamente.

— Tô bem.

— Não é o que parece… O que aconteceu?

— Nada. — Ele levantou e passou por mim, caminhando até a sala.

Ele pegou algumas chaves e a jaqueta de couro em cima do sofá, e andou até a porta.

— Onde você vai?

parou. Virou-se lentamente e me encarou. Seus olhos estavam tristes. Sua expressão vazia. Sua postura tensa. Algo havia acontecido com Hope, eu pensei.

deu as costas e saiu.

Certo. Não aconteceu nada com a Hope.

Alonguei o meu corpo, me preparando para tomar um banho quente e relaxar.

✩✩✩✩✩
Acordei, de repente. Olhei em volta e liguei o abajur. Me assustei ao avistar Hope deitada ao meu lado. Ela adquiriu esse costume com o tempo. Às vezes, ela aparecia na minha cama e se embolava no meu edredom. Levantei-me da cama com cuidado, peguei meu celular e saí do meu quarto. Passei em frente ao quarto de Hope e paralisei.

O quarto estava vazio. não estava ali. Imediatamente, pensei o pior. Depois da sua crise, não saia de casa com frequência e, muitos menos, dormia fora. Sentei-me no sofá, liguei o meu celular, e abri o aplicativo de mensagens.

“Ei, , onde vc tá?”

“Aconteceu algo?”

“Tá tudo bem?”

“Posso ligar?”

30 minutos passou e nada. Então, liguei para o seu número. Ele não atendeu. Liguei umas 5 vezes. Joguei o celular no tapete e me deitei no sofá. Aos poucos, as minhas pálpebras foram se fechando e eu caí no sono.

Senti o meu corpo sendo balançado, fazendo-me despertar.

— Heaven!

Abri meus olhos, lentamente e observei a menininha loira de olhos azuis.

— Bom dia — murmurei.

— Você perdeu hora.

Levantei do sofá em um pulo.

— Que horas são?

— 10:00.

— Droga — sussurrei e saí correndo em direção ao meu quarto.

— Heaven! — Hope gritou.

— Desculpe, pequena, mas tô atrasadíssima.

— O Calvin ligou!

Congelei. Hope veio até mim e me entregou o meu celular.

— Calvin Landock, seu patrão, ligou.

— O que ele disse?

— Você pode tirar o dia livre hoje.

— Sério?

Ela assentiu.

— Obrigada, meu Deus! — Agradeci aos céus. Hope riu. E, então, me lembrei de um pequeno detalhe. — Seu irmão tá aqui?

— Sim.

— Onde?

Ela me olhou, como se não entendesse a minha pergunta.

— O que quer, Heaven? — Ouvi a voz de atrás de mim.

Meu corpo inteiro arrepiou. Virei e dei de cara com um sério. Um que eu nunca vi antes.

— Nada… Eu só fiquei preocupada com você. Percebi que passou a noite fora.

— Passei, sim.

— Você não fazia mais isso. Digo… Sair e ficar a noite inteira na rua.

Ele riu.

— Eu sempre fiz isso. E aliás, por que você se importa?

Arregalei os meus olhos. Por que diabos estava sendo grosso comigo?

— Na-nada — gaguejei, de um jeito ridículo

— Patética. — Ele revirou os olhos e passou por mim. — Vamos comer, pequena.

Hope concordou mas não aceitou a mão, que estava estendida em sua direção.

✩✩✩✩✩
estava me ignorando há dias. Ou melhor, há semanas. Ele nunca falava diretamente comigo. Apenas comentava algo quando Hope o chamava na conversa. Eu tentei, Céus, eu juro que tentei entender o que estava acontecendo, entretanto estava decidido a me ignorar pelo resto da vida.

Eu estava cansada demais daquele jogo silencioso. Não queria apenas olhar em seu rosto e receber um olhar de desdém. Queria conversar, rir de coisas desnecessárias com ele. Então dei o primeiro passo. estava em cima do telhado. Como sempre esteve todos os dias. Me sentei ao seu lado e falei:

— Quero te convidar pra ir no médico comigo amanhã.

Ele não reagiu. Eu continuei:

— Você nunca foi em nenhuma ultrassonografia. Eu acho que você irá gostar, mas, se não quiser….

— Eu vou — disse simplesmente.

Eu tentei fingir a minha cara de espanto.

— Ok… às 15:00, pode ser?

— Certo — respondeu.

E, ficamos ali, admirando as estrelas e mergulhados na escuridão da noite.

— Por que você gosta de ficar aqui?

Ouvi o seu suspiro. Olhei de relance, vendo-o engolir em seco.

— Eu e minha mãe costumávamos olhar as estrelas. Todos os dias.

— Significa muito pra você.

Ele apenas concordou com a cabeça. Ficamos fazendo companhia um ao outro por um longo tempo. Quando começou a ficar frio, levantou-se e me ajudou a descer. Dentro de casa, começou a andar até o seu quarto. Eu parei em sua frente. Ele soltou um suspiro e me encarou atentamente.

— Por que você me ignorou durante esses últimos dias?

Ele desviou o olhar. Trincou a mandíbula, apertando os punhos ao lado do corpo.

— Tá tarde, vamos dormir.

— Não. Eu queria saber o porquê dessa sua atitude.

Ele passou as mãos pelo rosto e cabelo.

— Você… — As palavras pareciam entaladas na sua garganta.

— Eu? — instiguei, extremamente curiosa.

— Você beijou aquele cara. Calvin, não é?

Ah, claro. Agora as coisas faziam sentido para mim.

Turner estava com ciúmes de mim.

Oh, merda!

— Ah — foi tudo o que saiu da minha boca.

Ele balançou a cabeça, rindo.

— Você… Você ficou incomodado?

— Claro que sim! — Ele me olhou como se eu tivesse sete cabeças.

— Com ciúmes? — provoquei.

Sua expressão endureceu.

— Por que tá agindo assim, ?

— Por que talvez você tenha me beijado e depois beijou aquele idiota?

Eu ri.

— Ah, claro. Suas ficantes também beijam outros caras e você não parece incomodado com isso.

Ele ficou me encarando. Seu rosto inexpressivo. Eu não fazia ideia do que passava em sua mente. puxou o meu corpo contra o seu. Suas mãos rodearam a minha cintura. Seus lábios foram em direção ao meu pescoço. Eu me derreti completamente em seus braços.

Ele trilhou alguns beijos até chegar a minha boca. Colei os nossos lábios, sentindo uma necessidade de beijá-lo. Nossas bocas se entreabriram e nossos línguas se encontraram. Seu beijo era intenso e rápido.
Suas mãos agarram o meu cabelo. E as minhas mãos foram em direção a sua nuca, raspei as minhas unhas naquela região. Ele arfou durante o beijo.

começou a caminhar. Minhas costas encontraram a parede e seus lábios investiram contra os meus de modo feroz. Ele me beijava como se a qualquer minuto o mundo fosse acabar. Separei nossos lábios contra a minha vontade. Ele encostou a sua testa na minha, acariciando o meu rosto.

— Eu fiquei puto quando te vi beijar aquele homem. Sabe o por quê?

Neguei com a cabeça. Meus olhos observando atentamente os seus lábios. Eu estava hipnotizada por eles.

— Por que eu quero ser o único pra você, Heaven. Eu quero beijar seus lábios. Quero te abraçar. Quero tocar o seu corpo. Eu quero você.

Eu não pensei em mais nada, apenas em dizer o que estava preso na minha garganta há dias:

— Eu também, . Eu quero você.

Ele sorriu de canto e me beijou suavemente.

— Eu chego 14:30 da escola da Hope, prometo que vou com você na consulta.

Então ele sai andando sem olhar pra trás. Minhas pernas tremeram. Meu coração ficou disparado. Saí correndo em direção a cozinha e bebi bastante água.

✩✩✩✩✩
— Tá nervoso? — eu ri, desacreditada.

segurava fortemente as minhas mãos enquanto a obstetra passava um gel na minha barriga. Aquela era a minha 4° ultrassonografia. Imediatamente ele balançou a cabeça, e riu de nervoso.

— Você não ficou nervosa na sua primeira consulta?

— Muito. Mas Grace estava comigo.

— Desculpa. — Ele aproximou o seu rosto do meu e murmurou — Eu não estivesse presente na sua primeira vez. Se eu pudesse voltar no tempo…

— Shiu. — Coloquei os meus dedos em seus lábios. Ele esboçou um sorriso de leve.

— Acho que você já sabe que é uma garotinha, não? — A médica olhou para . — Mas, a primeira vez que você ouve o coração do seu filho, é sempre emocionante.

Ele sorriu, não se importando em ser chamado de “pai” pela médica. Ela ligou alguns aparelhos e logo ouvimos o coração da minha bebê. Ritmos acelerados e desconcertados. Eu abri um sorriso. A médica realmente tinha razão quando disse que sempre é emocionante ouvir. Era a minha quarta vez e lá estava eu, me derretendo novamente pela minha filha.

Minha filha. A cada dia que passa essas duas palavras não soam estranhas e fazem mais sentido na minha vida.

A médica riu alto de algo quando olhou para o meu parceiro. Eu arqueei as sobrancelhas, interessada. Olhei para o lado e encontrei uma cena um tanto cômica. limpando os cantos dos olhos.

Sério, eu soltaria uma gargalhada se não achasse extremamente fofo. Eu apertei a sua mão, que não abandonara a minha desde que entramos na sala. A médica decidiu nos ignorar e continou a movimentar o aparelho na minha barriga, enquanto a máquina cuspia algumas fotos da ultrassonografia.

sorriu de um modo tímido e inclinou-se em minha direção. Seus lábios beijaram o topo da minha cabeça.

— Isso é muito bonito.

Seus lábios desceram mais um pouco. Beijando a ponta do meu nariz.

— Tô feliz por você, de verdade.

Meu coração errou uma batida quando sua boca tocou a minha, e senti aquela sensação que só o beijo de possuía sobre mim.
O beijo durou pouco. Sua boca deixou a minha num estalo. Ele sorriu e percebi uma lágrima deslizar pela sua bochecha. Toquei o seu rosto.

— O que foi? — sussurrei, só pra ele ouvir.

Ele me olhou e virou o rosto, focando a sua visão na pequena tela que exibia a imagem da minha bebê. Nós olhamos admirados para aquela cena. Observei cada detalhe. Cada batida. Cada movimento que ela fazia. A menina estava com as pernas arreganhada e eu ri, sendo acompanhada pela gargalhada espontânea de . Sua expressão mudou de repente. Suas sobrancelhas se franziram e seus lábios ficaram numa linha reta.

— O que foi?

Ele abriu a boca pra falar, mas a voz da médica interrompeu:

— Pronto! Vou deixar vocês a sós enquanto pego uma lista de alimentos pra você. — Controlei a minha vontade de revirar os olhos. Aquela senhora insistia em me passar uma lista de alimentos, segundo ela, “adequados para grávidas”.

Se ela soubesse que ultimamente comi mais bolo de banana e brownies de canela do que os legumes que ela indicava.

— Eu me lembrei da primeira ultrassom da minha mãe. Meu pai não pôde ir e ela me levou. Eu chorei enquanto escutava o coração de Hope. E continuei chorando no caminho de casa. Agora, vendo tudo isso de novo. Senti as mesmas emoções e, porra, é difícil controlar.

— Você não precisa ter vergonha de chorar, . Chorar faz bem. Alivia a alma.

— Obrigado. — Ele agradeceu à algo que eu não sabia exatamente.

— Pelo que?

Ele tocou o meu rosto com as pontas dos dedos.

— Por você existir. Por ser apenas você — ele sorriu, dando de ombros, sua expressão puramente inocente.

Inclinei a minha cabeça em sua direção e beijei os seus lábios com urgência. retribuiu na mesma intensidade.

— Eu vou ficar mal acostumado desse jeito.

Eu gargalhei e dei um tapa no seu braço, voltando a me deitar.

— Você me bateu! — exclamou, arregalando os olhos, dramaticamente.

— Bati. — Dei de ombros e abri um sorriso.

— Ah, não vai ficar assim.

— Não, é? Vai me bater de volta?

— Não. Seu castigo será melhor do que isso.

— Qual será o meu castigo?

Ele umedeceu os lábios e aproximou-se, sussurrando no meu ouvido:

— Quando chegarmos em casa, você vai saber.

Caralho. Meu corpo inteiro arrepiou. Fechei os meus olhos enquanto ele plantava um beijo no meu pescoço.

✩✩✩✩

Heaven
Assim que saímos do consultório, segurou a minha mão e me conduziu ao caminho ao contrário.

— Onde você tá me levando, ? — perguntei, desconfiada.

— Vamos comprar roupas! — exclamou, animado. Muito animado. Extremamente animado, na verdade.

— Mas eu já tenho roupas! — debati.

— Roupas para a bebê, Heaven! Ou você já comprou?

— Não.

— Então vamos. Eu perdi muitas coisas da sua gravidez. Quero fazer parte de alguma coisa.

Eu sorri.

— Você quer?

— Sim. — Ele parou de andar e segurou o meu rosto. — Você não acredita, não é?

— Em que? — perguntei, hipnotizada pelos seus olhos castanhos.

Um sorriso surgiu em seus lábios.

— Que eu quero você.

— Hum… é… isso é um pouco estranho, na verdade.

— Por quê? — Ele franziu as sobrancelhas.

— Nós nunca fomos amigos e, do nada, você me ajuda e, depois de algum tempo, me beija e diz que me quer. Estranho…

— Eu não acho. — Seu rosto se aproximou do meu. Sua voz sussurrou no meu ouvido. — Pra mim, é algo que eu sempre quis.

— Se-sempre? — gaguejei, ridiculamente. Ele gargalhou, balançando a cabeça. — Como assim?

— Eu sempre quis ficar com você, Heaven. Lembra daquela festa em que você ficou com o Gregory e depois…

— Nós nos beijamos naquele jogo idiota — completei, revirando os olhos.

— Isso. — Ele abriu um sorriso largo. — Se Gregory não tivesse chegado quando nós estávamos conversando e bebendo, eu teria tentando beijar você.

— Então… você tava caidinho por mim naquela época?

— Provavelmente — ele riu, e pegou a minha mão.

Começamos a caminhar na rua, olhando algumas lojinhas de roupas. Paramos em frente à uma loja com o nome de “For My Baby Confort”. me olhou, como se questionasse se deveríamos entrar e eu o puxei para dentro da loja.

— Calma, garota! — exclamou, rindo.

Caminhamos para dentro da loja. Uma jovem de cabelos loiros até na cintura, sorriu para nós.

— Boa tarde! Gostariam de ajuda? — Seus olhos encaravam , em específico.

abriu a boca para responder, mas eu falei primeiro:

— Sim. Hum… você pode mostrar roupas de recém-nascidos, por favor?

— Claro. Me acompanhem. — A seguimos até o fundo da loja.

Percebi de soslaio, que encarava a sua bunda. Revirei os olhos, e bati no seu ombro, desfazendo o laço das nossas mãos.

— Ei! — Comecei a caminhar em sua frente, ignorando-o. — Doeu, viu?

A moça parou e pegou algumas roupas, que estavam nos cabides. Ela mostrou um macacão azul e eu entortei o nariz.

— É uma menina.

— Ah, desculpe. — Ela guardou o macacão azul e pegou um vestido rosa claro ao lado. — Um macacão macio e bonito.

— Gostei desse. — chegou por trás de mim e colocou o braço no meu ombro. Lancei um olhar transbordando de raiva em sua direção.

— Não gostei — retruquei, cruzando os braços sobre a minha barriga. Eu não iria comprar uma roupa que gostou, não mesmo.

Ele riu, fazendo o meu corpo inteiro arrepiar. O sopro da sua respiração chegou até o meu ouvido.

— Chata.

Ignorei o seu comentário. A moça pegou uma outra peça, um macacão lilás com algumas estrelinhas douradas.

— Muito bonito também — falou no meu ouvido.

— Não gostei. — Olhei para o seu rosto. Ele jogou a cabeça para trás e começou a gargalhar. Eu me irritei e comecei a procurar por alguma roupa que eu gostasse.

— Vocês não vão querer ajuda? — perguntou a moça, um pouco decepcionada pela minha atitude.

Eu olhei para ela e dei um sorriso.

— Não precisa, mas obrigada mesmo assim.

— Tudo bem. Qualquer coisa, é só chamar.

— Eu não sei o seu nome? — perguntou , na maior cara de pau. Flertando com a garota na minha frente. Filho da mãe. Quer dizer, Elizabeth parecia ser uma mulher muito boa.

Ridículo. Essa palavra era melhor.

A menina sorriu e suas bochechas ficaram vermelhas.

— Rose.

— Rose — repetiu, estreitando os olhos. — Se precisarmos, iremos chamá-la.

— Tá bom. — Ela se afastou.

ficou olhando a garota andar. Eu queria tirar os seus olhos fora com uma faca. Ele virou o rosto para mim e sorriu.

— O que foi?

— Você é muito ridículo. Flertando com a garota bem na minha frente, .

— Eu não flertei, apenas perguntei o nome dela.

— Você flertou! — acusei.

— Não. Eu não flertei. — Ele deu alguns passos e ficou na minha frente. — Eu não sou do tipo que flerta, meu bem. Quando eu quero, eu beijo e pronto.

— Ah, é? Bom saber.

Ele segurou o meu rosto nas suas mãos e colou os nossos lábios. Sua boca começou a devorar a minha.

— Viu? — ele sussurrou, afastando-se de mim.

Eu me virei de costas e comecei a procurar por alguma roupa que realmente fosse bonita. afastou-se, andando pela loja. Segurei um vestido amarelo com alguns girassóis estampados no tecido. Olhei todos os detalhes e me apaixonei pelo vestido. Era tão lindo e fofo. Segurei-o e voltei a procurar por mais.

voltou, segurando um ursinho da Peppa Pig em uma mão. Eu observei o urso atentamente e segurei o riso. Ele me mostrou um outro vestido, da cor vermelho, com as bordas douradas.

— Esse é lindo, .

— Eu sei. — Sorriu de modo presunçoso.

E, novamente, eu quis deixar a roupa que ele gostou. Mas o vestido era tão lindo, que me rendi e aceitei a minha derrota.

— Vou levar esse também.

Ele pegou o vestido amarelo das minhas mãos e segurou junto com o ursinho e o vestido vermelho. Voltei a olhar as roupas.

— Ei, acho que precisamos voltar.

— Por quê? — encarei-o.

— Vou buscar a Hope na escola daqui a pouco. – Ele encarava o relógio no seu pulso.

— Ah.

— Mas nós podemos voltar amanhã e escolhemos mais roupas, o que acha?

— Por mim tudo bem.

— Certo. Vamos lá.

Caminhamos até o caixa. Quando pensei em tirar a meu dinheiro da calça jeans, segurou o meu braço.

— Deixa que eu pago.

— Mas…

— Aceite como um presente para ela.

E então, ele estendeu algumas notas para a atendente e pagou por tudo. Saímos da loja e caminhamos em passos largos até em casa. A casa de Grace não ficava muito longe. Demorava no máximo 15 minutos do centro até lá. Levei todas as sacolas para o quarto com atrás de mim. Ele se encostou no batente da porta e me observou enquanto eu arrumava as roupas.

— Acho que não vou poder te dar o castigo hoje.

— O quê? Você realmente estava falando sério?

— Sim.

— Meu Deus!

— Vou deixar pra outro dia. Essa caminhada pelo centro acabou comigo e ainda vou sair de moto para buscar a minha irmã.

, você realmente tá falando sério?

Ele deu de ombros, cruzando os braços com uma expressão relaxada.

— Você é…

— Sou o que? — Ele caminhou até mim.

— É um…

— Um? — questionou.

Eu bufei, frustrada. Eu nem sabia o que iria dizer.

— Esquece! — Me virei.

Senti sua mão na minha cintura, e seus lábios no meu pescoço. Ele mordeu a minha nuca, fazendo o meu corpo arrepiar.

— Eu preciso ir, mas, ao mesmo tempo, não quero.

— Vai logo, a Hope não vai gostar se você chegar atrasado.

Ele riu contra a pele do meu pescoço. Puxou o meu cabelo para o lado e beijou o meu pescoço e nuca.

— Ela vai amar, principalmente por que um garoto que ela tá gostando é um dos últimos a ir embora.

— Não importa, vai logo, . — Arranquei forças do meu interior para empurrá-lo.

— Tá bom. Eu vou, tchau. — Ele andou até a porta e virou-se para mim. — Ah, o meu beijo de despedida.

— E quem disse que eu quero te beijar?

Ele me olhou de um jeito malicioso e aproximou-se de mim, puxando a minha nuca.

— Você não precisa dizer. Eu percebo pelo seu olhar.

Em seguida, seus lábios me tocaram levemente. E rapidamente, ele se afastou.

— Volto logo.

✩✩✩✩✩
— Ela tá se mexendo! — Hope gritou, enquanto suas mãos estavam em minha barriga enorme.

estremeceu. Eu não me movi.

— Meu Deus! Meu Deus! Que legal — ela exclamava, eufórica. — Coloca a mão, .

Eu fiquei estática, deitada em cima dos edredons que havia colocado para as nossas costas não doerem. Estávamos em cima do telhado, observando as estrelas. Meio que se tornou um ritual nosso nessas últimas semanas.

se aproximou, meio hesitante, sentou-se com as pernas cruzadas e me lançou um olhar, como se pedisse por permissão. Eu sorri. A única reação que eu tive depois de sentir um chute na minha barriga. Não era o primeiro. Eu já havia sentido outros, há dois dias atrás, e chorei bastante emocionada. Eu estava sozinha. Apenas eu e a minha bebê.

Agredeci por ter presenciado aquela emoção antes, senão eu não me controlaria na frente de Hope e . A mão de fria de tocou a minha pele. Seus olhos encarando a minha barriga. A bebê parou de se movimentar.

— Eu acho que… ela não gosta de mim — ele soltou um riso meio nervoso e frustrado.

— Calma. Ela deve tá assustada. — Hope encarou o irmão. — Você é um fofo, , todo mundo gosta de você, tá?

sorriu. Um sorriso largo, exibindo todos os seus dentes e uma leve covinha na sua bochecha. Eu realmente apreciei aquela imagem. era tão lindo que me deixava irritada. Eu simplesmente caí em seus encantos, como todas as outras. Como todas as garotas que eu criticava.

Eu me hipnotizei pelo seu rosto. Me deliciei com os seus lábios. Me encontrei em seu abraço. Me perdi em seu cheiro. Me identifiquei com o seu caos.

Estranhamente, nós tínhamos muitas coisas em comum. Cicatrizes. Dores. Corações partidos. Medos. Inseguranças. Tristezas.

fora o meu refúgio ultimamente. E, depois daquele episódio na cozinha, onde eu me deparei com as suas marcas, percebi que ele confiava em mim. Ele se abriu comigo. Contou a sua história. Chorou. Desabafou. Perdeu o controle emocional. Nós éramos o refúgio um do outro, enquanto tentávamos esquecer a droga da vida real.

Vida. Essa palavra significava muito à ele. Por causa de Hope. Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas, só de olhar para o rosto de enquanto ele encara a sua irmã, você nota. O pavor. O medo. A emoção. Tudo dentro de seus olhos.

Resolvi não perguntar por nada. Se havia algo a ser dito, queria ouvir da sua boca. Quando ele sentisse que precisava falar.

Os olhos castanhos se arregalaram ao sentir um chute. Esse foi o mais forte. Franzi a testa e, instintivamente, minha mão parou na minha barriga. Exatamente em cima das mãos de . Hope olhou para nós dois com os olhinhos brilhando.

— Não é legal, ?

Seu irmão estava concentrado, suas mãos apoiadas na minha barriga.

— Gente, precisamos de um nome! Daqui alguns meses a bebê nasce e nós não temos um nome para ela.

Entortei os lábios.

— Eu não sou criativa, Hope. Não consigo pensar em nada.

— Nem eu — ela balbuciou, baixinho. Seus olhos tristes caíram para baixo.

— Ei, mas nós vamos pensar em um nome bem bacana, tá bom?

Ela sorriu, exibindo seus dentes, junto a um espacinho nos dentes da frente. Uma janelinha. Hope era extremamente adorável.

— Sim! — exclamou, esbanjando alegria.

continuava com as mãos na minha barriga. A bebê não se moveu novamente.

— Love — ele disse, de súbito.

Eu e Hope olhamos em sua direção. Minhas sobrancelhas franzidas, em curiosidade.

— Eu pensei em Love… para o nome da bebê. — Suas mãos se afastaram. Seus olhos encontraram os meus por um instante. Percebi que há algo por trás de seus olhos.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo grito estridente de Hope.

— Ah! Eu amei!

Ela bagunçou o cabelo de , fazendo-o gargalhar. Os dois me encaravam, esperando por uma resposta, visto que não manifestei nenhuma opinião sobre o nome. Me sentei, abaixando a blusa e fechando o meu casaco. Estava frio e uma brisa gelada fazia o meu corpo arrepiar.

— O que acha, Heaven? A sua opinião é a mais importante aqui — questionou.

Eu ponderei por um momento. O nome era simples, fácil e bonito. E eu não conseguia pensar em outro nome, então…

— Porque não? Eu gostei.

Outro gritinho estridente de Hope, me fez apertar os olhos.

— Ahhh! Então, Love. Love. Love. Que nome lindo!

Ela colocou a mão sobre a minha barriga.

— Você realmente concorda com isso? Não precisa aceitar, se não gostou. — franziu a testa e lançou-me um olhar preocupado.

— Eu adorei. De verdade.

— Love… quer dizer, bebê, você quer ser chamada de Love? É um nome meio aleatório que saiu da boca do meu irmão estranho e legal mas, se não quiser, podemos pensar em algo melhor… não que Love seja feio, eu achei muito bonitinho e… fofo, e acho que…

Um chute. Hope arregalou os olhos azuis. O azul intenso de seus olhos me encararam.

— Parece que temos uma opinião mais importante do que a minha então. — Dei de ombros. Eles sorriram para mim, olhos transbordando alegria e emoção.

✩✩✩✩✩
Nota da Autora: GENTEEE, tô apaixonada pelo nome da bebê <3. Ninguém melhor do que o pp para escolher o nome da baby, né? Amei essa cena dos três olhando as estrelas AAAAA. Me digam oq estão achando, e até a próxima att!

Heaven
Certo. Respire. Inspire. Respire. Inspire. Certo. Tudo certo. Perfeitamente bem. Tudo sobre controle. Não surta. Senti umas dores incômodas na minha barriga. Meus pés estavam inchados e doloridos. Me encostei contra o balcão e observei a movimentação na lanchonete. Hoje o dia estava terrivelmente agitado. Pessoas circulavam para lá e para cá. Entravam e saiam. O sino ,que anunciava a chegada de novos clientes, pertubava a minha mente.

Eu estava completamente cansada.

Brit se aproximou de mim.

— Tá tudo bem, amiga?

Eu movi a minha cabeça, incapaz de responder a sua pergunta. Senti um enjoo repentino. Meu estômago se revirou. Provavelmente o salgado que comi no fundo da lanchonete não me fez bem.

— Você tá pálida. Quer beber uma água?

Neguei com a cabeça.

— É só… — Fui incapaz de completar a minha frase. Senti o vômito subindo pela minha garganta. Corri até a portinha e passei pelo largo corredor, até o banheiro.

Ouvi vozes me chamando pelo caminho. Não consegui distinguir quem eram. Apenas coloquei todo o meu almoço para fora.

— Heaven.

Era Calvin. Suas mãos estavam em meus ombros.

— Respire fundo, certo?

Meu corpo curvou para frente enquanto uma ardência subiu pela minha garganta. Voltei a vomitar novamente.

— Meu Deus! Que porra tá acontecendo?

Brit forçou o meu rosto para cima e encarou o meu rosto.

— Você tá péssima! O que aconteceu?

— Não… — Voltei a vomitar.

Brit soltou o meu rosto. Escutei os dois discutirem, e após alguns segundos, Brit bufou e chutou a porta com força, fazendo-a bater.

— Vai se foder, Landock.

Ela se agachou, segurou o meu rosto e olhou nos meus olhos.

— Esse idiota vai cuidar de você. Hoje o dia tá agitado, não posso abandonar a lanchonete. Desculpa.

— Eu não vou fazer nada, Brit. Até parece que você não me conhece.

Ela revirou os olhos.

— Volto daqui a pouco, desculpa mesmo, Heaven.

Então, ela abriu a porta e saiu. Calvin apareceu na minha frente. Ele puxou alguns fios da minha testa e me olhou atentamente.

— Melhor?

Respirei profundamente. E senti um alívio, meu estômago parecia mais leve.

— Talvez.

Ele sorriu torto, levantou-se e pegou uma toalha de mão pendurada em um guincho. Ele abriu a torneira e deixou um pouco de água cair, assim que ele fechou, voltou a minha frente. Ele me encarou, sorriu e passou o pano na minha testa.

Fechei os olhos, puxando o ar.

— Acho que você não pode continuar trabalhando — ele disse, quebrando o silêncio.

Eu abri os meus olhos, encarando o seu rosto preocupado.

— Você tá perto do final da gestação. Seus enjoos, mal estar e dores na barriga vão aumentar. Você não vai conseguir ficar em pé o dia inteiro.

— Mas…

— Heaven, escute. Eu sei que você quer continuar, nunca vi alguém mais animada ou dedicada ao trabalho como você. Eu aprecio isso, de verdade. Mas não dá.

Ele começou a descer o pano pelo meu pescoço, seus olhos nunca desviando do meu rosto.

— Eu sei que você precisa do salário, você não vai ficar sem recebê-lo. É o seu direito, tudo bem?

— Certo.

Seus dedos tocaram a minha bochecha. O pano parado em meu pescoço. Calvin estava com uma expressão diferente. Ele umedeceu os lábios, provavelmente, num gesto nervoso e aproximou-se lentamente. Quando seus lábios quase tocaram a minha boca, virei o meu rosto para o lado. Ele beijou a minha bochecha, abaixou a cabeça e limpou a garganta.

— Desculpa. Eu não deveria…

— Tudo bem, Calvin. Só não… tente de novo, certo?

Ele me olhou com um olhar arrependido.

— Eu gosto muito de você — confessou.

— Eu sei — mordi o meu lábio, nervosamente.

— Você…

— Não. Eu sinto muito, mas não.

Ele me lançou um último olhar chateado e levantou-se.

— Vamos, a partir de hoje, você não precisa mais trabalhar aqui. — Ele me estendeu uma mão. Eu aceitei a sua ajuda.

— Como isso funciona? Eu nunca tive um emprego antes — perguntei, quando estava em pé.

— Você só vai ficar afastada por um tempo. E vai receber o seu salário normalmente.

— Certo.

— Quer carona? Eu te levo até a sua casa.

Com um aceno mínimo, aceitei sua carona.

✩✩✩✩✩
Ouvi algumas batidas na porta. Me encolhi no edredom, desligando o celular.

— Entra — minha voz soou arrastada. Eu estava cansada e enjoada. Comi um prato de comida quando cheguei, e depois, me deitei na cama.

A figura de surgiu na porta.

— Eu não tô te enxergando… — murmurou. Eu ri e liguei a lanterna do celular.

— Melhor agora? — Mirei a lanterna no seu rosto. Ele piscou meio atordoado pela luz, e caminhou até a minha cama.

— Tá tudo bem? — perguntou, a voz embargada de preocupação. — Grace disse que você saiu mais cedo do trabalho e ficou o dia inteiro no quarto.

— Eu tô enjoada e cansada, apenas isso.

— Claro. Você já tá de 6 meses, demorou para começar a se cansar da sua rotina. Você deveria parar de trabalhar. Tá nítido que você não aguenta mais.

— Ei, eu sou forte! — exclamei, levemente ofendida.

— Eu não quis dizer isso — ele riu. — Foi no sentido de fraqueza física. Você é uma mulher forte, Heaven. Admiro muito a sua força, a sua dedicação, a sua…

Interrompi o seu monólogo, avançando como um predador em cima da sua presa. Meus lábios colocaram nos seus. Eu senti como se precisasse beijá-lo. Reprimi a minha vontade há mais de duas semanas. Fazia duas semanas que eu não sentia os lábios de sobre os meus. Suas mãos rastejaram sobre a minha pele arrepiada. chupava e mordia os meus lábios, fazendo-me gemer baixinho contra a sua boca.

Ele interrompeu o beijo, indo com a sua língua quente no meu pescoço. Agarrei o seu cabelo e mordi os meus lábios, reprimindo um gemido de prazer. Quando a sua boca refez o caminho, e me beijou com ternura e paciência, todo o meu autocontrole foi para o ralo. Subi em seu colo e o beijei como nunca havia beijado antes.

Com fogo. Com paixão. Com luxúria. Com prazer.

Ele retribuiu na mesma medida. Gemendo e sugando os meus lábios. O meio das minhas pernas pulsou de desejo. Eu estava excitada com apenas uns beijos. Em minha defesa, a gravidez me deixou muito sensível. E, caramba, não deu pra me controlar quando a boca de desceu pelo meu pescoço e parou no meio dos meus seios.

Eu estava usando uma roupa confortável. Uma blusa pequena, que exibia a minha barriga levemente grande e um shorts pequeno. Ele tocou os meus seios e um gemido escapou dos meus lábios.

Caralho, eu estava muito sensível…

Ele percebeu o prazer transbordando naquele som, e me tocou novamente.

… — eu sussurrei.

Ele enfiou a cabeça no meu pescoço e sugou a minha pele, suas duas mãos foram em direção aos meus seios. Apertou levemente e começou a acariciar os meus mamilos. Eu rebolei contra a sua ereção. estava tão excitado quanto eu. Seu membro marcava a calça jeans, firme e duro. Passei as minhas mãos ao redor do seu pescoço e balancei o meu quadril num ritmo lento e torturante.
Ele suspirou no meu pescoço, fazendo o meu corpo arrepiar.

— Heaven… — sussurrou no meu ouvido, com a voz rouca de prazer.

— O quê? — perguntei, rebolando mais uma vez.

Ele tirou a cabeça do meu pescoço e me encarou. Seus olhos avaliaram o meu rosto e depois os meus lábios entreabertos. Rebolei lentamente. O seu cenho se franziu.

— Você… A gente…

Outra rebolada. Suas mãos me apertaram fortemente na minha cintura.

— A gente não pode…

— Porquê? — aproximei as nossas bocas e mordiquei o seu lábio inferior, chupando e sugando com vontade.

— Porquê…

— Hope e Grace estão acordadas?

— Elas saíram… — ele engoliu em seco, seu corpo inteiro ficou tenso. — Foram até a casa da amiga de Grace. Elas vão jantar lá.

Exibi um sorriso malicioso. Grudei os nossos lábios brevemente e falei no seu ouvido:

— Então, essa é a oportunidade perfeita para nós.

— Heaven… Você tem certeza?

— Eu tô excitada pra caralho, . Você ainda acha que eu vou parar agora?

Ele me fitou, seu rosto inexpressivo. Os segundos se passaram, e eu fiquei subitamente estressada com ele. Quando meu quadril levantou do seu colo, suas mãos me impediram de sair.

— Eu tenho medo…

Encarei-o, sem entender.

— A gente não…

— Nós não precisamos de um relacionamento para fazermos sexo.

— Não é isso — ele desviou o olhar, parecendo um pouco constrangido. E, com a voz relutante, continuou — é.. Sobre a bebê, e se… Eu machucar quando… Você sabe.

O silêncio caiu sobre o quarto escuro. Segundos depois, a minha risada histérica ecoou por todo o cômodo. me olhou de modo irritado. Tentei me recompôr e toquei o seu rosto, fazendo-o virar para mim. Admirei o seu rosto de perto. O quarto escuro me impedia de ver se suas bochechas estavam coradas. Mas, imaginei que sim. era um garoto confiante, mas, em alguns momentos, demonstrava timidez.

— Seu pau não vai chegar até lá, . Só se você tiver uns 25 cm… — comecei a rir novamente.

Ele bufou visivelmente arrependido pelo comentário.

— Mas, acho fofa a sua preocupação.

Ele não respondeu. Sua mandíbula estava marcada e seus ombros tensos e duros. Beijei a sua bochecha e admirei os seus lábios.

— Eu preciso de você, . De preferência, dentro de mim.

Ele fechou os olhos com força. Aproveitei de sua vulnerabilidade e beijei o seu queixo, sua mandíbula e a sua boca. Ele suspirou, abrindo lentamente os olhos.

— Heaven, se isso acontecer, não vai ter mais volta.

— Eu sei.

— Tem certeza? — A hesitação inundou no seu tom de voz.

— Totalmente. Eu quero transar com você.

Num piscar de olhos, a sua boca estava contra a minha. Ele devorou os meus lábios como um cão faminto.

— Eu não vou conseguir me controlar depois que estiver dentro de você

— Então não se controle.

Dito e feito. me jogou com carinho no colchão e tirou as suas roupas numa velocidade impressionante. Seus lábios trilharam um caminho torturante pela minha pele, até chegar ao meu pescoço, onde ele desceu até os meus seios. Retirei a minha blusa e meu sutiã, e, em seguida, a sua boca me fez fechar os olhos com força. Sua língua brincou com os meus mamilos enquanto suas mãos grandes o apertavam. Seus lábios desceram. Sua língua rastejou pela minha barriga, pela minha virilha e, então, parou.

Ele abaixou o meu short junto com a calcinha. Em questão de segundos, eu estava nua diante dele. Estremeci quando a sua respiração se aproximou da minha boceta molhada. Sua língua deslizou pelo meu clitóris e ele gemeu de prazer ao perceber que eu estava molhada, logo começou a me chupar, lentamente. Envolvi as minhas pernas em volta dos seus ombros. Movimentei o meu quadril buscando por mais prazer. Sua língua bateu contra o meu clitóris e me contorci, agarrando os lençóis.

introduziu dois dedos dentro de mim enquanto sua língua chupava o meu clitóris no ritmo das suas estocadas. Lentas, provocantes e deliciosas. Eu sentia o meu corpo entrando naquela nuvem de prazer. Fechei os meus olhos, puxei o seu cabelo enquanto me deliciava com a sua língua. Ergui o meu quadril, gemendo alto. Ele intensificou as suas estocadas, conforme a sua língua me chupava. Quando ele raspou o dente no meu clitóris inchado, gemi, sentindo o prazer se espalhando pelo meu corpo.

Seus dedos entravam e saiam de modo frenético. Ele ergueu a sua cabeça, me encarando. Aquela imagem era tão sexy, que não resisti, e soltei mais um gemido. Segurei o seu cabelo, os fios bagunçados caiam em sua testa suada. Ele deixou um gemido escapar dos seus lábios enquanto me observava. Toquei os meus seios e esfreguei o meu mamilo conforme os seus dedos me deixava louca. voltou a me devorar com a sua língua, dançando sensualmente no meu clitóris.

Ele chupou com vontade, aumentando a velocidade dos seus dedos. E, então, eu estremeci, gemendo alto enquanto gozava na sua boca. Ele fez questão de me chupar, se deliciando de cada gota. Seus lábios não se afastaram enquanto eu tremia e apertava o travesseiro. Quando pareceu ser o suficiente, ele se levantou e pegou a sua calça, voltando com uma camisinha nas mãos.

Ele abriu e, com uma maestria impecável, vestiu o seu pau. Meus olhos brilharam em luxúria. Sexo com deveria ser incrível. Eu estremeci com a expectativa de senti-lo dentro de mim. Ele tocou as minhas pernas e beijou as minhas coxas, subindo preguiçosamente os seus lábios pelo meu corpo. Chupou os meus seios, e o seu pau cutucou a minha boceta. Qualquer movimento mais brusco, o faria deslizar para dentro.

E, caralho, eu precisava dele dentro de mim.

— Me fode, . Agora. — Agarrei os seus ombros e passei as minhas pernas ao seu redor.

Ele riu e acariciou a lateral do meu rosto.

— Calma, linda. Eu vou te foder.

Eu arfei. Puxei a sua nuca e beijei os seus lábios, e então o seu pau deslizou para dentro. Um gemido suave escapou da minha garganta, ecoando pelo quarto.

— Caralho — falou, parando de se mover.

Minha boceta pulsava. Minha carne o apertava. Ele fechou os olhos com força e colou a sua testa na minha, voltando a se mover. Seu pau entrou lentamente e saiu por completo. Ele se ajeitou dentro de mim, colocou os cotovelos do lado da minha cabeça e começou a me foder com força, literalmente. Ele entrava e saia como se o mundo fosse acabar a qualquer segundo. E eu me segurava ao seu corpo como se minha vida dependesse dele. entrava rápido e forte. Sua mão direita deslizou para o meio das minhas pernas, e ele brincou com o meu clitóris enquanto me penetrava intensamente.

Abaixou a cabeça, procurando pelos meus lábios. Seu beijo era raso, superficial. A cada movimento, um gemido escapava das nossas bocas. Num movimento rápido, puxou as minhas pernas ao redor do seu quadril, me penetrando profundamente. Estremeci, os meus pés se torceram e arqueei o meu corpo em sua direção, sentindo um prazer intenso e gostoso. Ele continuou, até ficar fraco e cair em cima de mim. Por um momento, ele se esqueceu da minha barriga enorme.

Acaricei os seus fios castanhos e beijei o seu pescoço. Ele tremeu, arrepiando-se por inteiro. Seu corpo caiu para o lado, aliviando o peso em cima de mim. Seus braços me puxaram de encontro ao seu peito.

— Isso foi… Incrível — murmurou, sua voz rouca e arrastada.

Deslizei os meus dedos sobre a sua pele. Seus dedos começaram uma massagem deliciosa no meu cabelo. Ficamos em silêncio, apenas ouvindo o som das nossas respirações. Minha cabeça estava contra o seu peito, e me surpreendi quando os seus batimentos cardíacos ainda estavam acelerados. Pensei que era por conta do orgasmo, mas continuou lá, batendo fortemente no meu ouvido.

Levantei a minha cabeça e dei de cara com os seus olhos castanhos. Ele levantou um braço e tocou a minha bochecha.

— Você é linda — sussurrou. Eu sorri, e ele sorriu também.

inclinou a cabeça e tocou os meus lábios com delicadeza.

— Te machuquei? — A preocupação dominou o seu rosto. Contive o impulso de revirar os olhos e neguei com a cabeça.

— Foi maravilhoso, .

Ele sorriu, colocando uma mecha atrás da minha orelha.

— Acho melhor a gente se vestir, elas podem voltar a qualquer momento.

— Claro. — Me joguei para o lado e ele se levantou.

Meus olhos admiraram a sua bunda. E caramba, que bela bunda. Fiz uma nota mental para tocar aquela área na próxima vez.

Espera… Na próxima vez? Que merda é essa, Heaven???

Sentei-me na cama e vesti a minha blusa. subiu o zíper da calça jeans e parou na minha frente.

— Certo — disse, engolindo em seco.

Eu ri, diante do seu constrangimento. Sentei-me sobre os meus joelhos e o beijei. Suas mãos envolveram a minha cintura involuntariamente.

— Você tá com fome? Vou preparar alguma coisa pra gente — ele disse, afastando os seus lábios dos meus.

Eu movi a minha cabeça, positivamente. Ele rastejou os seus dedos na lateral do meu rosto e beijou suavemente a minha testa.

— Te espero na cozinha, linda. — Afastou-se, deixando a porta aberta.

Um sorrisinho bobo surgiu em meus lábios.

✩✩✩✩✩
Encostei a minha cabeça no ombro de . Ele me olhou de esguelha e aproximou a palma da sua mão no meu cabelo, em seguida, seus dedos subiam e desciam, causando uma sensação maravilhosa. Estávamos assistindo um filme de ação. O jantar fora incrível e, mais uma vez, me surpreendi com o talento de na cozinha. Ele preparou um macarrão com queijo e molho branco. Delicioso. Bem… A comida e o próprio . Ele ficava incrivelmente sexy enquanto cozinhava.

Seus dedos se moviam distraidamente sobre o meu braço. Eu não estava dando atenção em mais nada. O seu toque me fazia perder os sentidos. Virei a minha cabeça, observando-o concentrado na TV. Ele parecia tão focado, como se não imaginasse que meu corpo estava quente novamente pelo seu toque. Ele notou o meu olhar, e virou-se para me encarar.

— O que foi? — perguntou, genuinamente confuso.

— Me beija — minha voz saiu fraca, rouca de desejo.

Um sorriso de canto cresceu lentamente em seus lábios.

— É pra já, minha linda.

Puta que pariu. Pulei em seu colo em questão de segundos e colei os nossos lábios, beijando-o de modo feroz. Uma mão segurou a minha nuca enquanto a outra desenhava círculos na minha cintura. Meu corpo implorava por novamente. Ele afastou as nossas bocas. Soltei um gemido frustado, e, no mesmo segundo, fui jogada para o sofá de novo.

— Ei — gritei.

A porta foi aberta de repente e a luz acesa. A claridade fez meus olhos arderem. Apertei os meus olhos e observei Hope e Grace entrando na sala.

— Meninas! — exclamou , falsamente animado. Sua voz saiu forçada e pela careta que elas fizeram, notaram a falsa animação na sua voz.

Ele rumou até elas, abraçando a irmã. Grace caminhou lentamente e parou na minha frente, olhando para a TV.

— Gosto desse filme. — Na TV, passava os mercenários 2.

— Eu também — assenti, levemente.

Ela virou-se e sorriu de um jeito malicioso para mim.

— Vocês jantaram?

Ignorei a parte da minha mente que gritava, dizendo que sua pergunta era completamente sexual.

— Sim. A comida estava deliciosa — respondeu, me olhando intensamente.

Grace sorriu animada demais.

— Imagino. — E, então, andou até o corredor que levava para os quartos. — Boa noite, crianças.

Hope cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha.

— O que foi? — perguntou .

— Vocês se beijaram — afirmou, com a voz confiante.

arregalou os olhos.

— E não adianta mentir. As suas bocas estão inchadas e o chupão no pescoço da Heaven diz tudo.

Imediatamente, coloquei a palma da minha mão no pescoço.

— Tá marcado? — questionei.

Hope sorriu triunfante.

— Não falei. — Piscou para nós, e caminhou até o corredor. — Acho melhor eu dormir, podem aproveitar a noite, crianças.

continuou olhando para as paredes. Minha mão ainda petrificada contra o meu pescoço. Ele virou a cabeça, lentamente, e me olhou.

— Você não me falou dessa droga de chupão no pescoço! — acusei.

— Desculpa.

— Que vergonha, sério. Justo a Hope notou isso!

Ele se aproximou e tocou os meus ombros.

— Desculpa, de verdade.

— Tá bom, . — Me levantei. — Acho que vou dormir, boa noite.

— Heaven — ele me chamou, parei e me virei.

abriu a boca várias vezes, antes de dizer:

— Boa noite, e desculpa por isso, de novo.

Anui a cabeça lentamente, e virei-me, rumando em direção ao meu quarto.

✩✩✩✩✩

Heaven
Depois daquela noite, não me tocou novamente. Não me beijou. Não flertou comigo. O que me levou a um fato: ele estava me ignorando. Motivo? Não sei.

A sua banda estava ficando famosinha na região. Em todos os finais de semana, dormia fora. Hope adorava a ideia de ter um irmão “rockstar”. Não deixei de pensar que fora por isso que ele me ignorou após aquela noite. Ele deve ter mulheres lindas e sensuais se rastejando por uma noite.

Me senti péssima. Minha barriga estava enorme, meus seios fartos, meus pés redondos e doloridos. Eu estava horrível. Enquanto encarava o meu reflexo no espelho, controlei as lágrimas que queriam aparecer. Eu não era esse tipo de mulher. Nunca chorei por me sentir feia. Engoli o choro e forcei um sorriso no rosto. Pronto. Lá estava a Heaven confiante e linda, novamente.

Duas batidas na porta me despertou.

— Entra — eu gritei. Em seguida, a porta se abriu e Hope apareceu.

— Oi, posso entrar? — ela sorriu.

— Claro. — Abaixei a minha blusa e me sentei na cama. Hope sentou-se ao meu lado, seus olhos azuis me avaliando atentamente.

— Por que você tá chorando?

— Ah. — Eu fui incapaz de formular uma resposta.

— É o , né? Ele ainda está te ignorando? — Hope questionou.

Imediatamente, neguei. Hope era esperta e observadora. E a maior prova disso fora o dia em que ela reparou no chupão no meu pescoço.

— Não…

— Heaven… é um idiota que tem medo de se apaixonar por uma garota legal como você.

— Hope, não é sobre o seu irmão. É… — Poderia ser ridículo eu dizer aquilo para uma garotinha de dez anos, mas, ela era a única pessoa que estava ali preocupada comigo.
— Eu tô me sentindo horrível. Meus pés e minhas bochechas estão inchadas.

Hope estreitou os olhos.

— Você tá se sentindo feia? – questionou. — Você. Heaven. Feia? — ela falou, pausadamente.

Eu me permiti soltar um riso nasalado.

— Sim.

Ela segurou minha mão e me puxou, caminhando em direção ao espelho. Parou na minha frente e apontou para o nosso reflexo.

— Me fala onde essa garota linda, com os cabelos ondulados, pernas longas, rosto sem espinha, é feia?

Eu gargalhei, tombando a cabeça pra trás. Passei as mãos pelo seu cabelo macio e apoiei o meu queixo no topo da sua cabeça.

— Você é linda, Heaven.

— Obrigada. Agora que você falou tudo isso, me sinto um pouco melhor.

Ela abriu um sorriso largo.

— Eu vou conversar seriamente com o . Ele é um idiota sem noção por te ignorar.

— Hope… Eu não me importo. Seu irmão tá ocupado com a banda, é melhor você não fazer nada, hein.

Ela cruzou os braços, com um biquinho formado nos lábios. Cutuquei a sua barriga até fazê-la gargalhar.

— Tudo bem, tudo bem.

— Você promete que não vai falar nada?

Ela me encarou por alguns segundos, antes de sair correndo.

— A tia Grace tá me chamando, tchau! — Olhou por cima dos ombros e fechou a porta com força.

Eu balancei a cabeça, rindo.

Hope era uma figura.

✩✩✩✩✩

Olympia: Como tá o bebê da titia?

Eu soltei uma gargalhada repentina. Olympia não parava de me enviar mensagens.

Eu: Ela tá quieta hj, mexeu só qnd acordei.

Olympia: Ah, ela deve tá cm saudades da titia!!!!

Eu: Oh, claro.

Olympia: O que vc tá fazendo?

Eu: Terminei de almoçar, tô assistindo um ep de Keep Up With The Kardashians.

Olympia: Cadê o boy gostoso?

Eu: Hahahaha, se vc tiver falando de , bem… Foi levar a irmã até a escola.

Olympia: Hum…

Eu: O que vc tá fazendo?

Olympia: Tô parada na frente da porta da sua casa esperando o seu boy gostoso terminar uma ligação, para abrir a porta!!!! é enrolado d+

Dei um pulo do sofá.

Eu: Vc tá aqui??? Sério????

Olympia: Abre a porta, Heaven. Se eu ficar mais um segundo perto desse homem eu bato nele.

Deixei um riso nasalado escapar. Eu não duvidava de Olympia. Abri a porta e dei de cara com a minha melhor amiga com o celular nas mãos. Ela soltou um grito estridente e me puxou para um abraço.

— Saudades de você! — exclamou no meu ouvido.

Por cima dos ombros de Olympia, a carranca de me assustou. Ele fechou a porta e passou por nós, indo até a cozinha.

— O que você tá fazendo aqui?

Olympia me lançou um olhar decepcionado.

— Poxa, eu venho te fazer uma surpresa para te animar um pouco, e você me trata assim…

— Desculpa, Olympia. Eu tô feliz com a sua visita.

Ela estreitou os olhos para mim, rindo histericamente, em seguida.

— Ei. — Ela fez uma concha com as mãos, como se fosse contar um segredo. — Por que ele tá com essa cara?

Dei de ombros. Ela apertou mais ainda os seus olhos.

— O que rolou entre vocês? Ele mal olhou pra você, amiga.

Bufei, dando as costas para Olympia. Sentei-me no sofá e a esperei. Em segundos, ela sentou-se ao meu lado.

— Depois eu te falo, ele tá na cozinha e dá pra ouvir tudo — cochichei. Ela riu, concordando com a cabeça.

Ela franziu o nariz diante do episódio de Keep Up With The Kardashians na TV.

— Vamos assistir algo mais… Emocionante? Que tal Friends?

Revirei os olhos. Olympia era louca e viciada por Friends.

— Meu Deus, nós já assistimos todas as temporadas! — argumentei.

— Vamos assistir de novo, então. — Ela pegou o controle e começou a procurar por Friends no catálogo de séries.

Soltei um suspiro derrotado e desviei a minha atenção da TV. Como se fossem ímãs, meus olhos focaram nos olhos castanhos de , do outro lado do cômodo, na cozinha. Ele engoliu em seco e abaixou a cabeça, digitando algo no celular. Segundos depois, senti o meu celular vibrar nas minhas mãos.
Desbloqueei a tela e abri o aplicativo de mensagens.

: Hope conversou cmg no caminho até a escola. Acredite, vc tá mais linda do q nunca.

Ergui os meus olhos. Ele me encarava com um sorriso de canto. Encarei a mensagem, e pensei em uma resposta.

Eu: Pq tá me ignorando?

franziu o cenho diante da minha mensagem. Olhou para mim e digitou.

: Eu estou te ignorando agr?

Mordi os meus lábios, com raiva. Eu queria xingá-lo de todos os palavrões.

Eu: Vc me ignorou por um mês inteiro.

: Vc tá contando?

Seus lábios se curvaram num sorriso presunçoso.

Eu: Vai se foder 😉

Olympia me cutucou.

— Esse episódio, pode ser? — Apontou para a TV, quando começou um episódio. Eu movi a cabeça, concordando.

Na cozinha, a gargalhada de vibrou pelo cômodo inteiro. Olympia me olhou e girou os dedos na direção da orelha.

— Ele é maluco.

— É mesmo. — Fui obrigada a concordar, reprimindo um riso.

O celular vibrou, anunciando mais uma mensagem. Espiei, quando a minha amiga estava completamente concentrada na TV.

: Se for com vc, eu topo.

Ah. estava fazendo joguinhos comigo. O cara me ignorou o mês inteiro e agora me mandou mensagens dizendo que quer foder comigo. Ah, pelo amor de Deus.

Eu: Vc não tem vergonha na cara?

: Não 😉

Eu: Ridículo. Não tô afim de foder cm vc, se quer saber.

Mentira. Eu estava super afim, mas, ele não precisava saber.

: Jura? Eu não paro de pensar naquela noite…

Puta que pariu! definitivamente estava tentando mexer comigo.

: Seu corpo suado, sua boca macia, seu gemidos…vc me deixou louco, Heaven.

Eu: Hum…

: Caralho, Heaven.

Então, ele se levantou abruptamente e saiu. Olympia me encarou.

— Tá legal, o que tá rolando?

— O-o quê? — gaguejei, pateticamente.

— Cara, eu não sou idiota. Eu tô vendo você sorrindo pro celular e encarando você. O que tá rolando?

Suspirei fundo, desligando o meu celular.

— Certo. Nós ficamos juntos.

— Eu já sei.

— Quem te contou?

— Porra, Heaven, tá estampado na sua testa! Eu quero saber os detalhes… Quantas vezes?

— Uma.

— Quando?

— Há um mês atrás.

— Hum… E porque não rolou de novo?

— Por que ele tá me ignorando desde daquela noite.

— Ah.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. Os olhos de Olympia estavam vagos e distantes. Ela quebrou o silêncio, sussurrando:

— Ele se apaixonou por você.

Arregalei os olhos, e empurrei o seu ombro.

— Esquece o que eu te falei. Você é péssima em dar conselhos.

Ela riu, e deu de ombros. Voltamos a assistir à TV. Sem nenhuma presença para me distrair.

✩✩✩✩✩
Depois que Olympia fora embora, segurei a folha rabiscada que ela me entregou antes de ir. Ela murmurou no meu ouvido e apertou o papel amassado na palma da minha mão.

— Risca os quadrinhos e me diz o resultado depois.

E é exatamente isso que eu fiz.

(X) te encara por mais de cinco segundos?
(X) já tocou a sua barriga?

(X) foi carinhoso durante o sexo?

(X) falou algum segredo pra vc? Ou contou algo somente pra vc?

(X) Ele já chorou na sua frente?

( ) Ele quer ser o pai da bebê?

Eu parei pra pensar por um instante. nunca mencionou que queria ser o pai da bebê. Nunca. Então, não risquei essa alternativa.

(X) cozinha pra vc?
(X) conta sobre a sua vida, seus medos e seus sonhos?

(X) te levou a algum lugar especial?

Ah, merda! Quase todos os quadrinhos estavam assinalados. Aquilo não era um bom sinal. Tirei foto da folha e enviei para Olympia. Ela respondeu no mesmo instante, vários emojis de olhos arregalados.

Olympia: Pqp!!!! É pior do q eu imaginava, Heaven.
FOGE DELE, AGORAAAAA!!!!!

Eu: Eu não posso tirar conclusões precipitadas só por causa desse teste q vc fez.

Olympia: Confie em mim, esse teste diz mt coisa. Ele tá apaixonado por vc, por isso, tá te ignorando.

Eu: Mas pq?

Olympia: Medo? Ele sabe como vc é… Heaven só beija e transa, não se apaixona.

Mordi os meus lábios, num gesto nervoso.

Eu: Ele tbm só beija e transa… Nunca teve namoradas.

Olympia: Ele tá na sua, amiga. Se eu fosse vc, mandava a real.

Eu: Qual é a real?

Olympia: Que vc n quer nada cm ele!!!!

Meus dedos pararam em cima do teclado. Eu realmente não queria nenhum contato com ele?

Olympia: Porra, vc tá caidinha por ele tbmmmm!!!

Eu: Q???

Olympia: Vc demorou mais de dez segundos pra responder, pqp Heaven, isso tá estranho.

Eu: Não tô apaixonada, ok? E nem ele, ponto final.

Olympia: Tudo bem. Só não diga que eu não avisei 😉

Desliguei o celular. Parei para pensar sobre tudo. O jeito estranho que ele estava. O seu olhar. O seu toque. E, pela primeira vez, eu não me sentia bem em concordar com a minha melhor amiga.

✩✩✩✩
Ouvi batidas frenéticas na minha porta. Abri os meus olhos lentamente.
Andei até a porta e a abri, estava encostado na parede, sem camisa. Meus olhos avaliaram o seu abdômen definido.

— Você precisa saber de uma coisa.

Que ele não esteja apaixonado por mim, pensei. E uma outra parte do meu coração queria ouvir aquelas malditas palavras.

— Diga — falei simplesmente.

Ele inalou o ar e estalou a língua.

— Você não vai acreditar. — Ele balançou a cabeça. — Cara, nem eu tô acreditando…

— Fala logo, — murmurei, impaciente.

Ele riu, e umedeceu os lábios, trocou o peso das pernas e apertou as mãos.

— Certo. — Silêncio. Respirou fundo. — Sua mãe… Sofreu um acidente.

Arregalei os meus olhos.

— Como?

— Ah, houve um acidente de carro. Ela tava saindo de um espetáculo da Broadway.

E, então, algumas peças se encaixaram. O espetáculo que eu estaria apresentando hoje. Era óbvio que não iria faltar. Ela estaria lá, mesmo se eu não estivesse mais.

— Ela morreu? — As palavras reverberam pelo corredor.

— Não sei — falou, baixinho.

Eu apertei os meus olhos, tentando sentir alguma empatia pela situação daquela mulher que um dia eu chamei de mãe. Eu não estava devastada com a notícia. Mas, de certo modo, surpresa.

— Você tá triste? — questionou, genuinamente preocupado.

Balancei a minha cabeça. A minha garganta estava seca e eu temia que as palavras não saíssem da minha boca.

— Quer ficar sozinha? — sussurrou.

Eu abri os meus olhos. O seu castanho intenso me encarava de um jeito diferente. Ponderei por um instante, depois neguei com a cabeça. Ele se encostou no batente, inclinando a cabeça na minha direção. Sua respiração tocou a minha bochecha, e eu segurei a maçaneta com força.

— Quer que eu fique?

Olhei em seus olhos. Balancei a minha cabeça, mecanicamente. Seus olhos transbordaram de alívio. Ele tocou o meu ombro, suavemente. E eu prendi a minha respiração.

— Se você pudesse… Você iria vê-la? Se fosse a última vez?

— Não. — Franzi o cenho. — não ama ninguém, além de si mesma. Ela iria me mandar pra outro país para viver uma outra vida.

Seus dedos subiram, alcançando o meu pescoço. Ele desenhou círculos sem nexos, seu rosto franzido em preocupação.

— Você tá vivendo uma outra vida agora. Você tá em uma cidade desconhecida.

E sua resposta me atingiu como um soco no estômago.

— Eu não quero te influenciar… — ele disse, percebendo a minha expressão. Era como se algo tivesse cutucado o fundo da minha alma. — Mas, é que… Eu daria tudo pra ver a minha mãe antes…

Um silêncio agonizante caiu sobre nós. Os dedos de estavam na minha mandíbula, e ele acariciava o local com carinho, ao contrário, da sua expressa perturbadora. Ele engoliu em seco.

— Antes dela morrer. Eu daria tudo, se fosse para vê-la pela última vez. — Sua voz soou embargada. Seus olhos se encheram d’água.

Imediatamente, minha mão parou sobre a sua bochecha e uma lágrima escorreu de seus olhos. não tinha mais vergonha de chorar na minha frente. Limpei o seu rosto e deixei a minha mão cair ao lado do meu corpo.

— Minha mãe não é como a sua. Ela nunca me amou.

Ele sorriu, tristemente.

— Mas ainda é a sua mãe, não? — Deu de ombros. Suas mãos tocaram as minhas bochechas. — Esqueça isso, não quero te perturbar.

Balancei a minha cabeça. se aproximou, seus lábios estavam a milímetros de distância. Sua respiração quente batia contra o meu rosto. Ele fechou os olhos, e eu me preparei para beijá-lo. Entreabri os meus lábios, sedenta pela sua boca macia.
Meu corpo inteiro murchou quando sua boca tocou a minha bochecha num beijo casto e demorado. Ele demorou por tempo suficiente para me fazer odiar aquela situação em que estávamos.

— Por que tá me evitando, ? — A pergunta saiu dos meus lábios. Ele virou o rosto, ainda muito perto da minha boca.

Ele franziu as sobrancelhas.

— O que eu fiz pra você?

Ele deu um passo para trás.

— Eu estive ocupado com a banda — ele inventou a primeira desculpa.

Eu soltei um riso de escárnio.

— Claro. Você tá ocupado nos finais de semana e durante a noite, . E os outros dias?

— Hope — falou rapidamente. — Ela precisa de mim.

— Claro — murmurei.

Apertei a maçaneta com força. Lembrei da lista patética que Olympia fez. Lembrei de tudo que aconteceu entre nós. Desde o dia em que eu o beijei naquela festa, até o dia em que nossos corpos se encontraram, se fundiram um no outro. Nas sensações, nas reações, nos sorrisos, nas lágrimas, nos sentimentos, que compartilhamos.
E porra… poderia estar realmente apaixonado por mim. Dei um passo em sua direção, cortando a distância fria entre nós. Seu corpo ficou tenso. Seus olhos acompanhando cada movimento que eu fazia.

. — Toquei o seu rosto, e não pensei muito. O beijei lentamente.

Não era um beijo faminto. Ou urgente. Era um beijo calmo. Suave. Terno. Delicado. Era um beijo completamente diferente de todos que ele me deu. De todos que eu ganhei.
me tocava como se eu fosse quebrar a qualquer instante. Talvez a minha barriga o assustasse, por isso ele não se aproximava muito. Raspei a minha unha em sua nuca, enquanto suas mãos fazia um carinho nas minhas bochechas. Ele suspirou nos meus lábios, os soltando lentamente.

— Heaven — sussurrou com a voz rouca. Sua cabeça tombou para trás. — Não faça isso comigo.

Passei os meus braços pelo seu pescoço e toquei o seu rosto, fazendo-o olhar para mim.

— Fica comigo.

Seus olhos vacilaram.

— Eu quero você. Aquela noite não foi o suficiente para mim. — E eu não sei se qualquer noite seria o suficiente.

Sua respiração ficou tensa. O clima entre nós mudou.

— Eu não posso… — Ele deu um passo para trás.

.

Ele balançava a cabeça, negando o meu pedido.

, por favor — supliquei, ridiculamente.

parou, me olhou no fundo dos meus olhos, e deu um passo à frente, trazendo o calor de volta para o meu corpo.

— Não me peça por uma noite, Heaven.

— Porquê? — questionei.

— Porque eu não quero apenas uma noite com você. — Eu estremeci, atordoada, um tanto surpresa e chocada. A mensagem de Olympia brilhou na minha mente.

“Ele tá apaixonado por vc!!!”

Porra.

deu as costas, sumindo da minha frente. Olhei para o corredor vazio e escuro, encontrando absolutamente nada ali. Encostei a minha testa na porta e respirei fundo. A outra mensagem de Olympia brilhando na minha mente igual a letreiro de motel barato.

“Porra, vc tá caidinha por ele tbmmmm!!!”

✩✩✩✩✩
“O jovem prodígio é a sensação do momento: Corey Edwards, de 19 anos, conquistou o coração de todos com o seu rosto angelical e o seu charme. O rapaz estreou recentemente uma peça na Broadway, chamada: O momento de partir. Corey provou para o mundo que possui muito talento para a arte e, claro, exibiu o talento no papel do mocinho, ao lado da talentosa Juliette Smith, atriz que foi escalada de última hora na peça, após a morte de Heaven, a protagonista que nos deixou no ano passado…”

Todos olhavam para a TV em silêncio. tinha um copo de leite nas mãos, Hope mastigava cookies, e Grace fazia crochês.
De canto de olho, observei Grace pegar o controle da TV.

— Quer mudar de canal, Heaven?

” Nós entrevistamos Corey Edwards e ele nos contou como se sentiu no palco…”

— Não, não. Pode deixar.

“Ah, cara, foi incrível… Eu tô sem palavras. Não esperava por essa positividade do público, parece que todos adoraram, o que é ótimo, nós trabalhamos duro nessa peça.” — Seus olhos focaram no entrevistador. O homem falou no microfone:

“Corey, nós percebemos a sua emoção quando a peça foi encerrada. Você estava emotivo, feliz e agradecido por tudo. No que você pensava enquanto as palmas e as luzes te fizeram chorar?”

Corey exibiu um sorrisinho triste.

”Passou um filme na minha cabeça, sabe? Tudo o que aconteceu nos ensaios, nas pessoas incríveis que eu conheci. Principalmente na Heaven” — Ele exibiu um sorriso melancólico. — ”Ela era… Cara, sensacional. Atuava como ninguém. Todos nós sabíamos que ela iria conquistar o mundo com o seu talento. Ela nasceu com o dom. Eu enxergava a sua paixão pela arte através de seus olhos…”

O entrevistador tirou o microfone da boca de Corey, quando ele balançou a cabeça, com um olhar perdido.

”Imagino que não foi fácil perder uma colega de profissão” — concluiu o entrevistador. Corey concordou, o olhar perdido ainda predominava o seu rosto.

”Ela era mais do que isso para mim. “

O entrevistador soltou um riso meio nervoso, meio enigmático. Corey percebendo o que acabara de falar, apressou-se em consertar:

”Quero dizer… Ela era especial. Para todos nós. Heaven sempre estará em nossos corações, sem dúvidas. “

E, então, o entrevistador falou mais algumas coisas e despediu-se de Corey. Grace e Hope me lançaram um olhar confortante.

— Você queria estar lá, né? — Grace perguntou.

Eu senti um nó na minha garganta. Senti meu coração martelar no meu peito. Ver Corey falando sobre mim, com tanto carinho, mexeu comigo. Não de um jeito diferente como conseguia. Mas, de um jeito que me fez sentir saudades do teatro. Da minha paixão. Todos aqueles meses, eu não pensara muito na mansão, no colégio, nos ensaios… Da antiga vida de Heaven. Eu não sentia falta, pelo menos era isso que eu achava. Até escutar Corey Edwars falando. Ele acreditava que o teatro era a minha paixão. Ele acreditava que eu era especial.

Então, percebi que eu sentia falta do teatro. Desejei desesperadamente estar naquela TV, sendo entrevistada ao lado de Corey, e sendo aplaudida pelo espetáculo que trabalhei duro para finalizar. Eu queria aquilo. Eu queria o teatro mais do que tudo.

— Eu sinto falta do teatro — confessei. Grace suspirou, e Hope me abraçou apertado.

— Um dia você vai voltar aos palcos, acredite. — E eu acreditei nas suas palavras.

, por outro lado, não parecia contente com aquela confissão.

— Você sente falta do teatro ou do Corey Edwards? — perguntou friamente.

Eu o encarei, indignada.

— Eu não sinto nada pelo Corey.

— Mas ele sente por você. Os olhos dele brilharam quando falou o quão especial você é.

— Iguais aos seus, não é, ? — Hope intrometeu na discussão. — Seus olhos brilham quando você olha para Heaven também.

A sala ficou em silêncio. olhando para a irmã com um olhar matador. Hope encarando-o de volta com um sorriso presunçoso, e Grace olhando para nós com um olhar perdido. levantou-se e saiu da sala, batendo a porta da sala. Hope riu, graciosamente.

— Não liga pra ele. É praticamente impossível ninguém não se apaixonar por você, Heaven. Nós entendemos o Corey.

Grace riu nasalado.

— Concordo plenamente. Aliás, esse Corey é bonitinho. Tem belos olhos verdes.

Elas riram juntas e eu sorri, envergonhada. Meus pensamentos me levaram até .
E senti algo no meu peito. Meu coração se apertou e eu desejei correr até ele e explicar alguma coisa. Eu queria beijá-lo, abraçá-lo. Eu desejava ser abraçada, beijada. Eu precisava dele ao meu lado. E merda… Eu sentia falta do teatro.

não poderia confundir o meu amor pelo teatro, com o fato de Corey dizer que eu era especial. Isso não significa nada. Nem que ele ainda estava apaixonado por mim ou que eu estava apaixonada por ele. Eu sabia que era impossível enxergar Corey com outros olhos. Por que sempre que eu pensava em qualquer outro garoto, meu coração me levava de volta a ele. A .

Eu só conseguia pensar em na minha vida a partir de agora.

✩✩✩✩✩
Nota da Autora: EU AMO A OLYMPIA MDSSS!!! HAHAHA ELA É A MELHOR. O QUE ACHARAM DA ENTREVISTA DO BB COREY? E QUE CIÚMES BOBO FOI ESSE, HEIN?!!

Sem condições para esse temperamento do pp, aquele amor e ódio basico por ele haha. Até a próxima att ;).

Heaven

me ignorou por mais duas semanas. Depois da entrevista de Corey. E, honestamente, estava ficando ridículo. Ele desviava do meu caminho, não olhava no meu rosto e não falava um A para mim. Eu estava odiando aquela situação. Por isso, bati na porta do seu quarto. Eram 15:00 da tarde. Hope estava na escola. Grace preparava um bolo para a sua amiga, Hillary. Elas iriam se encontram mais tarde. Ouvi seus passos se aproximando, e a porta foi aberta. Ele arregalou levemente os olhos e encostou o corpo no batente da porta.

— Oi? Aconteceu alguma coisa?

— Aconteceu — falei. Ele franziu o cenho, preocupado.

— O que houve?

— Aconteceu que eu não aguento mais essa situação, . Eu. Não. Aguento — repeti, pausadamente.

mordeu os lábios, balançando a cabeça e bufou.

— Você pode me explicar o que eu fiz pra você?

— Você não fez nada, Heaven. Absolutamente nada.

— Tudo bem. Então, nós não somos mais amigos?

Ele abaixou a cabeça, passando os dedos entre os seus fios castanhos.

— A gente pode conversar mais tarde?

Eu não respondi, tentei decifrar a sua expressão. era um mistério para mim.

— Talvez… Sair pra comer ou algo assim.

Um sorriso surgiu lentamente no meu rosto.

— Você tá me chamando pra sair, é?

— Você quer? — Ele sorriu, tímido.

— Quero. — Senti o meu corpo começar a trabalhar em expectativa, a ansiedade surgindo, corroendo a minha pele.

— Certo. Às 19:00?

— Pode ser.

✩✩✩✩✩

Grace e Hope saíram juntas até a casa de Hillary. Desde que chegou da escola, não saiu do quarto. Eu estava arrumada, sentada em frente à TV e mordendo as minhas cutículas discretamente. Vesti um vestido preto, com decote no colo e simples que batia até a metade da minha coxa. Meus pés calçados com um tênis confortável e meus cabelos soltos e penteados. Meus olhos tinham um pouco de rímel e um delineado discreto. E, para finalizar, passei um gloss nos lábios e borrifei um perfume doce pelo meu corpo.

A TV não me distraia mais, a desliguei e peguei meu celular.

Eu: E se ele falar algo mt romântico? E se eu quebrar o clima e estragar td? E se esse encontro for horrível e ele não querer mais me ver??

A resposta da minha melhor amiga não demorou a chegar.

Olympia: E se ele não te querer, ELE SERIA UM IDIOTA. Aliás, ele já é um idiota, não? Mas um idiota respeitável, pelo menos.

Olympia: Mas sério… Só entra no clima, se ele falar algo romântico, se você gostar, só aproveite. Não pense mt.

Eu: Esse é o meu problema: se eu não pensar, perco o controle de td.

Olympia: Às vezes, é bom perder o controle. Se joga e aproveita, amiga. Esse é o meu conselho.

Fiquei pensativa. O celular vibrou nas minhas mãos.

Olympia: E TRANSE DE NV COM ESSE HOMEM!!!!! PELO AMOR DE DEUS!!!!!

Eu gargalhei alto. Olympia era uma comédia.
surgiu na minha frente, as mãos enfiadas dentro da jaqueta de couro, o seu cabelo estava úmido e um resquício de um sorriso de canto, iluminando o seu rosto.

— Do que tá rindo?

Respirei fundo, negando com a cabeça e abanei a mão no ar.

— Nada. Só tô falando com a Olympia.

— Ah — ele riu graciosamente. — A sua amiga é hilária.

— É mesmo — concordei. Desbloqueei o celular e respondi minha amiga.

Eu: Tô indo, tá? A gente se fala mais tarde, bjssss.

— Vamos?

maneou a cabeça. Caminhamos para fora, em direção a um carro. O mesmo carro que ele me deu carona no dia da festa. Ele sorriu quando notou o reconhecimento passando através dos meus olhos.

— Ele sentiu saudades de você. — E abriu a porta para mim.

… Não tente ser cavalheiro, isso não combina com você. — Mentira. Combinava totalmente com o novo que eu conhecia.

Ele inclinou a cabeça para trás, levando a mão livre no coração.

— Desse jeito você parte o meu coração, hein.

Entrei dentro do carro e fechou a porta. Deu a volta, sentando ao meu lado.

— Cinto, senhorita . — Ele se aproximou e puxou o cinto até ficar confortável na minha barriga. Seu rosto estava próximo do meu. Eu podia sentir o seu perfume. O cheiro do shampoo do seu cabelo.

Eu poderia beijá-lo. riu, fazendo o meu corpo inteiro despertar. Uma onda de calor subiu pelo meu rosto.

— Você fica com vergonha com facilidade, Heaven. — Ele virou o rosto. — A Heaven que eu conhecia era desinibida, extrovertida e não se importava com nada. Por que você tá com as bochechas coradas agora?

Seu rosto era tão lindo, que eu me sentia hipnotizada por ele. Atraída pelo caos. Seduzida pelo garoto que eu costumava não gostar.

— É por causa de mim, Heaven? — ele ergueu uma sobrancelha.

— É, . Por você.

Um sorriso presunçoso desenhou em seus lábios. Ele virou o rosto, ligando o motor.

— Ligue o rádio, Heaven.

Eu estiquei a minha mão, ligando o rádio. Uma canção pop preencheu o ambiente.

— Curte pop, huh? — provoquei.

— Não. Amo o Rock. Mas Hope não tem bom gosto para música.

Eu ri, encostando-me no assento.

— E você? Qual é o seu estilo de música favorita? — ele puxou assunto.

— Eu não ouço música com frequência, mas gosto de eletrônica, um pouco de pop também.

— Eletrônica é bom.

— É.

E nós dois não falamos mais nada, somente a música era ouvida dentro do carro. O silêncio nos acompanhou por um bom tempo.

✩✩✩✩✩

parou o carro em frente a um posto de gasolina. Abriu a porta do carro e me olhou.

— Vamos comprar algumas besteiras pra comer?

— Hum… Ok.

Nós descemos do carro e caminhamos até a pequena loja. Entramos e ele me guiou pelo corredor como se eu fosse sua irmã mais nova.

— Quer bolacha recheada? Chocolates? Doritos?

Eu gargalhei, segurei o seu braço, fazendo o seu rosto se virar.

— Você escutou quando a médica disse para seguir a minha dieta especial?

— Hum… Ela disse isso? — Ele fez uma expressão falsa de confusão. — Não me lembro. Pegue alguns chocolates, Heaven, você não vai morrer se comer algum doce.

— Tudo bem. — Controlei a vontade de revirar os olhos, diante de sua insistência.
— Se é pra comer doce, então eu prefiro sorvete de chocolate.

— Então, vamos pegar. — Ele segurou a minha mão e me levou até o frizzer. Pegou um pote de sorvete e mostrou para mim.
— Pode ser?

— Claro, mas esse pote é meu.

— Você vai comer um pote inteiro de sorvete? — Me olhou com uma expressão desacreditada, seus olhos levemente arregalados.

— Sim — sorri.

— Porra, o que as suas amigas de Hollywood vão achar de você? Heaven, a garota rebelde que saiu da dieta…

— Antes eu me importava com as aparências, .

— Isso é bom. Você não deve se privar de comer algo gostoso por ter medo de engordar.

— Como se eu fosse ficar mais gorda do que isso — apontei para a minha barriga. Ele riu e me puxou para outra fileira de doces.

— Você é a gorda mais linda que eu já vi. — Sua frase saiu tão espontânea e natural, que até ele ficou tenso, de repente.

Eu mordi os lábios, não larguei a sua mão e peguei um pacote de bolacha recheada.

— Acho que já chega de doces.

— É. Também acho.

✩✩✩✩✩

— Certo. — deu uma colherada no meu sorvete e continou falando: — Qual é o seu país favorito? Você conhece muitos lugares diferentes e…

— Você acabou de pegar o meu sorvete! — acusei, apontando a minha colher em sua direção.

Ele riu, limpando os lábios sujos de chocolate.

— Você tem que dividir as coisas, Heaven. Não seja egoísta.

— Eu não sou egoísta. Esse sorvete era só meu.

— Tá bom, não vou pegar mais. — Ele abaixou a colher e saiu de cima do capo do carro.

Estreitei os meus olhos, estranhando, por ele ter desistido do sorvete cedo demais. E, então, ele virou-se e enfiou a colher novamente no meu pote.

— Ah!

— Desculpa, não consegui me controlar — disse, enfiando o sorvete na boca.

Eu espremi os meus lábios, controlando uma parte do meu corpo que queria bater nele. Enquanto a outra queria beijar os seus lábios doces.

— Se você pegar de novo… Eu corto o seu pau.

Ele tombou a cabeça pra trás, gargalhando na minha cara.

— Meu brinquedo, não!

— Você nunca mais vai brincar no parque, eu corto esse pau fora. Fique longe do meu sorvete.

— Eu não duvido. Mas, você deveria ter empatia com ele… Sabe, você gostou do brinquedo quando experimentou.

encostou o seu corpo em mim, encaixando perfeitamente entre minhas pernas. Suas mãos seguraram a minha coxa enquanto eu engolia o tijolo gelado de chocolate.

Por que diabos ficou tão difícil de engolir a merda de um sorvete?

tirou o pote de sorvete da minha mão e repousou em cima do capô. Segurou a minha mandíbula e alisou a lateral do meu rosto com as pontas dos dedos. Seus lábios ficaram perto o suficiente dos meus, mas de repente, se afastou.

— O que foi? — A confusão transbordou nos meus olhos.

— Eu só vou fazer algo que você queria, Heaven.

— Você…

— Eu só vou te tocar, se você quiser ser tocada.

Se antes era difícil de engolir o sorvete, agora era extremamente difícil de engolir a minha saliva.

— Eu não quero dar um passo para depois você dar dois para trás.

Então, eu entendi tudo. estava com medo de me beijar novamente. Mas não entendi o seu medo. Era ele que me ignorou por semanas, e não eu.

— Por que você fala como se eu fosse te magoar?

— Você me magoou, Heaven.

— Caralho, , foi você que me ignorou durante semanas!

— Eu tive um motivo, Heaven. Um bom motivo.

— Ah, é? E eu poderia saber qual é?

Ele me encarou, sua expressão séria.

— Eu vi quando o Calvin te beijou.

E aquilo me acertou em cheio.

— Acredite, eu fiquei puto, mas nunca iria brigar com você. Te ignorar foi a melhor solução.

— Você ficou incomodado?

— Muito.

— Por quê?

E, então, tocou o meu rosto com delicadeza.

— Você realmente quer ouvir?

Porra, era claro que sim! Mas, será que eu estava preparada para ouvir? Reagir as suas palavras?

— Diga, .

Bem, foda-se, eu gostaria de ouvir a sua voz. Aquelas palavras que rondavam nos meus pensamentos. Ele me encarou por alguns segundos, pensando se me contaria ou não.

— Eu estou apaixonado por você.

Aquelas palavras. Olympia me alertou, mas eu realmente não me preparei para ouvi-las.

— Há muito tempo, Heaven. Muito tempo. Sempre olhei pra você. Sempre foi você.

Desviei o meu olhar do seu. Era demais escutar tudo aquilo enquanto olhava em seus olhos.

— Eu não tinha uma quedinha boba por você, era mais do que isso. Só que… Nem eu sabia exatamente o que era naquela época.

Ele acariciou o meu cabelo.

— Me diz alguma coisa.

Respirei fundo, e olhei para a escuridão em nossa frente.

— O que te levou a essa conclusão? Você nunca… Demonstrou. Nunca pensei que você seria capaz…

— De gostar de alguém além de mim mesmo? Pois é, eu sou a porra de um humano, Heaven.

— Não é isso, é só que… Já faz muito tempo que moro com Grace e por quê… agora?

Ele desviou o olhar.

— Eu percebi que, se eu ficar calado, vou te perder. E eu não quero te perder.

Silêncio. Dois passos para trás. se afastou de mim.

… Eu não sei o que dizer.

— Você não precisa dizer nada — sorriu com um ar melancólico. — Eu não quero te beijar para depois ter que lidar com a porra do meu psicológico.

— Eu não posso prometer nada pra você.

Seus olhos brilharam no meio da escuridão.

— Não quero promessas. Eu sou apaixonado por você. E você não precisa corresponder a esse sentimento, eu entendo.

— Pior que… eu nem sei o que eu sinto.

— Você nunca se apaixonou? — ele perguntou.

— Nunca — falei, num fio de voz um pouco envergonhada.

Ele deu dois passos pra frente, aproximando-se de mim. Segurou a minha cintura, olhando fixamente para mim.

— O que você sente?

— Não sei…

— Se eu te beijar… você vai…

, eu não vou beijar outra pessoa. Ninguém é como você e…

Ele me calou com um beijo. Sua língua pediu passagem e eu cedi, me derretendo nos seus braços. Ele me segurou com as suas mãos firmes. Passei os meus braços ao redor do seu pescoço e o beijei intensamente. Seus lábios acariciavam os meus com cuidado. Era como se ele tivesse medo de me quebrar, como uma boneca. Separei as nossas bocas e encostei a minha testa na sua. Seus braços fortes me seguraram, e enfiou o seu rosto no meu pescoço, inalando o meu perfume doce.

— Adoro o seu cheiro.

Eu ri, tocando o seu cabelo, de modo relutante. Ele riu alto, inclinando a cabeça para me olhar.

— Você pode me tocar, Heaven. Acho que a paixão não é contagioso.

Massageei os seus fios e suspirei.

— Eu também gosto do seu perfume.

— Bom saber… Quem sabe eu não te conquisto pelo meu cheiro?

Beijei os seus lábios suavemente, num selinho demorado.

— Então, quer dizer que você me ignorou por que estava apaixonado por mim? — Cruzei os meus braços atrás de seu pescoço, fazendo uma expressão pensativa.

— Fiquei morrendo de ciúmes. — ele segurou pela cintura. — Eu não sou do tipo que faz cena na frente dos outros, prefiro guardar os meus sentimentos.

— Você é real? — questionei, rindo.

Ele moveu a cabeça e sussurrou no meu ouvido:

— Sou e posso provar.

— Como? — sussurrei de volta.

Um sorriso lavisco surgiu em seus lábios, lentamente. Seus olhos castanhos me avaliaram minuciosamente, desde os fios do meu cabelo castanho até os meus tênis surrados. Ainda com a cabeça baixa, suas mãos rondaram na minha cintura, segurando-me fortemente. Estremeci quando seus lábios tocaram o meu pescoço.

— Você tem um cheiro doce que me deixa doido — murmurou contra a pele do meu pescoço, e eu me arrepiei inteira. Seus lábios sugaram a minha pele enquanto o seu corpo se insinuava contra o meu.

Eu não era boba. Sabia qual era a sua intenção com aqueles toques e beijos.

, estamos na rua…

— No meio do nada — ele completou, seu tom de voz gutural. A palma de sua mão abandonou a minha cintura e desceram até as minhas coxas, apertando levemente, se deliciando da minha pele macia.

— minha voz soou arrastada, eu estava desconcentrada e levemente tonta com os seus toques.

avançou contra os meus lábios, sua língua áspera entrando em contato com a minha. Ele me beijava com desejo. Mordiscando e chupando os meus lábios como se fosse seu doce predileto. Sua respiração ofegante bateu contra o meu rosto, quando nossas bocas se afastaram.

— Eu juro que… porra, Heaven. Tô louco pra… — Ele balançou a cabeça, como se quisesse esquecer o que acabara de pensar.

Não precisei terminar de escutar as suas palavras. Compreendi assim que olhei em seus olhos. Os castanhos se escureceram de desejo. Minha intimidade latejou, ansiosa para senti-lo novamente. Senti meu corpo inteiro ansiar para aquele momento, de avançarmos, e tê-lo de novo, e de novo… era como uma droga, e merda, agora eu estava completamente viciada.

Ele olhou ao redor, desviando o olhar do meu corpo, como se fosse impossível controlar o desejo que sentira. Repeti o seu movimento, observando a rua escura e silenciosa. Estávamos num bairro afastado da nossa casa, havia uma árvore enorme que nos cobria com uma sombra. A praça logo a frente estava morta, sem nenhuma pessoa sentada nos bancos espalhados pela calçada. Prendi a respiração. O desejo correndo a minha pele, o meu sexo latejando de ansiedade. Ultimamente eu estava louca por sexo, e a culpa era totalmente da gravidez. Minha obstetra avisara que o desejo por relações sexuais aumentaria. E caralho, eu estava morrendo de vontade de tê-lo entrando dentro de mim.

Sem pensar nas consequências e se alguém nos pegaria na hora do ato, puxei-o em minha direção, fazendo um vinco se formar em sua testa. Ele abriu a boca para dizer algo, mas o calei com os meus lábios. Eu nunca me cansaria de beijar os lábios de . Somente ele sabia como me levar ao delírio com um simples beijo. Nossas bocas se afastaram e nossa respiração era o único som que quebrava o silêncio. Mordi a sua orelha, seu pescoço, seus lábios e seu queixo. Eu estava louca, desejando-o mais do que tudo.

Puxei a sua cintura de encontro a minha, e senti a sua ereção cutucando a minha barriga. era maior do que eu. Fiquei nas pontas dos pés e murmurei no seu ouvido.

— Me fode.

Ele revirou os olhos de prazer, e num movimento brusco levantou o meu corpo, colocando-me no chão e prensou a sua ereção contra mim. Eu gemi quando a sua dureza me tocou.

— Alguém pode nos ver… — falou baixinho, sua expressão desorientada, visivelmente atordoado.

— Estamos embaixo de uma árvore… É meia-noite, ninguém irá nos ver, só faça o que eu disse, .

Beijei o seu pescoço, remexendo o meu quadril contra a sua erecão. Ele me colocou em cima do capô do carro, beijando-me lentamente. Cruzei as minhas pernas ao redor da sua cintura, e suas mãos me puxaram contra o seu corpo.

— Heaven… Isso é perigoso.

— O perigoso é mais gostoso, — um sorrisinho malicioso surgiu nos meus lábios. Ele sorriu, me acompanhando. Maneou a cabeça, desacreditado.

— Olha o que você faz comigo. — Sua mão direita desceu até a minha bunda. Sua outra mão rastejou por toda a minha perna arrepiada e sumiu por debaixo do meu vestido. — Você me faz fazer coisas que…

— Você nunca transou com ninguém escondido?

— Já. — Me lançou um olhar malicioso. Sua mão afastou a minha calcinha, e começou a massagear o meu clitóris. — Eu queria que a minha boca estivesse aqui, na sua boceta, te chupando e enfiando a minha língua, até você pedir por mais…

Um gemido rouco escapou da minha boca. parou com o movimento dos seus dedos e sorriu enquanto me lançava um olhar reprovador.

— Se você começar a gemer, eu paro. Ou você quer que alguém atrapalhe? — Ele não esperou por uma resposta e enfiou dois dedos dentro de mim.

Tampei a minha boca com a minha mão, apertando os dedos com força e revirando os olhos, quando ele atingiu algum ponto prazeroso dentro de mim. Enquanto dois dedos entravam dentro de mim, seu polegar massageava o meu clitóris. Comecei a mover o meu quadril contra os seus dedos. trilhou um beijo do meu pescoço até a minha orelha. A sua outra mão soltou a minha cintura e foi em direção aos meus seios. Ele os tocou e apertou suavemente, fazendo-me revirar os olhos, apertando os lábios em uma linha reta. Sua boca desceu, encontrando um dos meus seios. abaixou o decote do meu vestido, fazendo os meus seios tampados pela renda preta surgir no seu campo de visão.

Abaixando a sua mão, ele desceu o elástico preto e abocanhou a minha carne. Não contive um gemido de surpresa. Ele aumentou a intensidade dos seus movimentos, e estocou os seus dedos com força e profundidade. Gemi no seu ouvido enquanto ele chupava a minha pele, mordendo e chupando. Ele girou os dedos, minha boceta pulsou e senti o prazer se aproximando.

— Goza nos meus dedos, linda — sussurrou, entrando e saindo, forte e fundo. Fechei as mãos e levei até a boca. Seus dedos me levaram à loucura. Meu gemido de prazer saiu abafado contra a minha mão. Me derreti inteiramente nos seus dedos.

Ele entrou e saiu mais umas duas vezes enquanto eu tremia e revirava os meus olhos. retirou os seus dedos de mim. Com um olhar intenso sobre o meu rosto, seus dedos foram até a sua boca e ele os chupou. Puxei o ar e soltei, meu corpo estava mole e trêmulo. Suas duas mãos rodearam a minha cintura, puxando-me contra o seu corpo e a sua boca chocou-se contra minha, fazendo ambos gemerem baixinho. Enrolei a minha perna ao seu redor, minhas mãos desceram até o cinto de sua calça jeans e depois abaixei o seu zíper.

Afastei os nossos lábios, encarando os olhos escuros e intensos do garoto. estava louco de prazer, seus olhos estreitos avaliavam os meus seios cobertos pelo tecido rendado Sorri quando a minha mão alcançou a sua ereção. Acariciei o seu pau por cima do tecido e mexeu o quadril em minha direção.

— Para com isso. Não vou durar nem um minuto dentro de você.

Eu ri, soltando o seu pau. Levantei as minhas mãos, indo em direção ao meu sutiã. Desci o tecido, fazendo com que um dos meus seios ficassem expostos. voou para cima dele, apertando e chupando a minha pele, brincando com o meu mamilo na ponta da língua. Aquilo estava me torturando. Apressadamente, abaixei a sua calça até a metade da sua perna.

— Por favor, me diz que você tem uma camisinha… — Fiz esforço para não gemer em protesto quando os seus lábios afastaram-se do meu mamilo.

Ele levou as mãos até o bolso da calça, segurou uma carteira preta e balançou uma camisinha na minha frente. Rasgou o plástico com os dentes enquanto eu abaixava a sua cueca. Sua ereção saltou para fora, fazendo-me apertar as coxas. vestiu o seu pau rapidamente, com maestria. O segurou pela base e levou em direção a minha boceta molhada e pulsante. Seu pau brincou na minha entrada, acariciando o meu clitóris. Eu joguei a minha cabeça para trás e soltei o ar, sentindo minhas pernas enfraquecerem. Meus seios — um coberto pelo tecido preto e o outro molhado pela sua saliva — bateram em seu rosto.

— Tira essa porra do sutiã — falou, impaciente. Largou o seu pau e procurou pelo fecho do sutiã.

Afastei as suas mãos, abrindo-o pela frente, os dois lados se abriram e meus seios estavam totalmente livres. não esperou nem mais um segundo e entrou dentro de mim. Nós dois arfamos, sentindo o prazer tomando conta dos nossos corpos. Ele me empurrou com um movimento ágil. Passei as minhas mãos ao redor do seu pescoço, gemendo contra a sua pele suada. Uma de suas mãos estavam na minha bunda, e meu vestido subiu para cima, ele me empurrava, enterrando o seu pau totalmente dentro de mim. Gemi o seu nome no seu ouvido, mordendo a sua orelha. Minhas mãos foram em direção a sua bunda, apertando aquela carne macia. Sua outra mão livre foi em direção ao meu seio, e ele brincou com o polegar em cima do meu mamilo.

Estremeci, apertando o seu pau. Minhas paredes segurando-o e pulsando ao seu redor. O impulsionei contra o meu corpo enquanto apertava a sua bunda dura. Ele entrou profundamente. Girou os quadris, alcançando algo lá no fundo, que me fez revirar os olhos, inclinando o corpo em sua direção. Estocou firme e fundo, batendo o seu quadril contra o meu. O barulho dos nossos corpos se chocando e as nossas respirações entre cortadas era o único som presente naquela rua deserta. Ele me desceu de cima do capô, ergueu uma das minhas pernas e abrindo-a estrategicamente, se posicionando para me segurar com cuidado. enterrou o seu rosto no meu pescoço e gemeu quando voltou a estocar fundo. Girou os quadris, abrindo mais as minhas pernas. A minha boceta o apertou com força. Eu gemi, agarrando-o em sua carne dura e macia, movendo-me contra o seu pau.

Nossos corpos dançavam num ritmo frenético. me fodia com força. E eu o fodia também. A posição não era confortável mas eu não estava me importando, apenas aproveitei o prazer se instalando por todo o meu corpo. Apreciei o sexo gostoso que fazíamos. Arrepiando os meus pelos, fazendo-me fechar os olhos e tombar a cabeça para trás, abrindo a boca. Um gemido silencioso escapou.

girou novamente, seu pau duro entrando com força. Mordeu o meu pescoço, estocando com rapidez, meus pés se contorciam e eu sabia que o orgasmo se aproximava. Ele entrou mais fundo. Nossas intimidades se chocando causando um barulho alucinante. O orgasmo me fez gemer, agarrando o seu corpo com força, contorcendo-me. Ele continou entrando. Batendo o quadril contra o meu. Seu pau entrava e saia. Seus gemidos abafados contra a minha pele suada. Agarrei os seus fios, puxando a sua cabeça para trás. O abracei com as minhas pernas ao redor de sua cintura e ele atingiu o seu orgasmo, gemendo baixinho.Ambos estávamos cansados e suados. me colocou de volta em cima do capô, e quando o seu pau entrou novamente dentro de mim, um gemido rouco saiu da sua boca.

Sua testa encostou contra a minha e nossa respirações se misturaram. O suor brilhava no seu corpo. O meu coração martelava contra o meu peito, meu corpo ainda tremia pelos espasmos do orgasmo. Ele se retirou de dentro de mim, apoiou a sua cabeça no meu ombro e respirou profundamente. Alguns minutos depois, abaixou a cabeça e tirou a camisinha do seu pau, enrolando-a nos dedos e em seguida, jogou na sarjeta. Eu encostei a minha cabeça no seu ombro, esperando a minha respiração voltar ao normal.
ergueu a sua calça e subiu o zíper, depois, tirou o meu sutiã solto no meu corpo grudado pelo suor, e arrumou o meu vestido. Agarrou a minha cintura, colocando-me de volta no chão.

— Consegue ficar em pé sem cair? — zombou de mim. Lhe mostrei o dedo do meio, um sorrisinho mínimo surgindo nos meus lábios enquanto sua mão não abandonava a minha barriga.

Uma sensação diferente tomando todo o meu corpo. O seu toque me fazia querer segurá-lo para sempre ao meu lado. levou o meu sutiã, que ele tirou do meu corpo, até o nariz, ainda rindo.

— Posso ficar com ele?

Estreitei os meus olhos.

— Você é…

— Hum? — Deu um passo, encostando o seu corpo, que exalava sexo contra o meu. Puxei o ar, sentindo o seu cheiro gostoso misturado a sexo. Eu poderia me perder nele novamente, sem dúvidas.

— Você é um gostoso.

Ele riu, seus olhos surpresos ao ouvir a minha fala.

— Você é fodidamente gostosa, Heaven. E eu quero que entre nesse carro agora mesmo, e quando chegarmos em casa, eu vou querer você de novo.

Me senti embriagada. Fechei os meus olhos, maneando a cabeça.

— Sim, e eu vou pedir para você não parar, .

Ele soltou um barulho rouco. Rastejado e banhado de tesão.

— Entra logo, Heaven. Antes que eu tire as suas roupas aqui mesmo.

Eu ri, inclinando a minha cabeça.

— Não é uma péssima ideia.

Ele balançou a cabeça, guardou o meu sutiã no bolso da calça e abriu a porta pra mim.

— Tô louco e quase explodindo de novo. Entre logo, Heaven.

Sorri maliciosamente, passei ao seu lado e apertei a sua ereção que estava dura de novo. Ele inalou o ar, suas narinas dilatadas, respirando fundo.

— Heaven… — murmurou. Fechou a porta, deu a volta no carro. Sentou-se ao meu lado, segurando o volante com força. — Espero que as meninas não estejam em casa. Porque hoje vou te fazer gritar.

E, então, todos os meus pelos se arrepiam. ligou o carro, focando a sua atenção completamente na rua, como se eu não estivesse do seu lado, morrendo de vontade de pular em seu colo.

✩✩✩✩✩

ligou o seu celular, e uma música suave começara a tocar. Deitou-se ao meu lado, com o seu corpo virado para mim. Nossas narinas quase se tocando. Fechei os olhos, aproveitando a sensação de paz. A música lenta me fazia relaxar e a presença de , me passava uma sensação de segurança e conforto. Senti seus dedos tocando a minha pele. Ele massageou a lateral do eu rosto carinhosamente. Aproximei-me mais perto e nossas narinas se chocaram. Ele soltou o ar pela boca, movendo o seu rosto no meu.

Era um tipo de carinho, que eu não estava acostumada. Mas era extremamente bom.
desenhou círculos imaginários por toda a minha pele descoberta. Havíamos acabado de fazer sexo – novamente. Ele cumpriu com a sua palavra, e me fez gritar. Minha voz estava um pouco rouca e meu corpo dolorido. Mas não me arrependi nem por um segundo.
Fizemos sexo devagar, beijando as partes do corpo um do outro, com carinho. Acredito que o que acontecera a trinta minutos atrás era a definição de fazer amor. E eu gostei.

Ele entrelaçou as nossas pernas, puxando-me contra o seu corpo. A palma da sua mão puxou com delicadeza a minha cabeça, fazendo-me encostar no seu peito.
Cedi, deitando-me no seu peitoral. Seus dedos passaram no meio dos meus fios de cabelo, num gesto carinhoso. Plantei um beijo demorado na sua pele, perto do seu coração, que batia fortemente no meu ouvido. Ele fez o mesmo, beijando o meu cabelo. Sua mão que antes estava no meu cabelo, desceu em direção a minha a barriga, alisando a minha pele com ternura.

— Você realmente concordou com o nome da bebê ou só falou aquilo pra me agradar? — Sua voz soou divertida.

— Eu gostei — admiti. — E também não consigo pensar em algum nome que faça mais sentido. Love é perfeito.

Ele riu, baixinho. Não falou mais nada e a música preencheu novamente o ambiente. Me aconcheguei em seus braços aproveitando a sensação de felicidade no meu peito.

— Como você tá se sentindo? Sabendo que, daqui algumas semanas, a Love estará entre a gente — sua voz reverbou nos meus ouvidos, baixinho.

Eu sorri, apreciando a troca do termo “bebê” para o seu nome “Love”.

— Não penso muito nesse momento. Ainda. Porque eu sei que vou começar a ficar nervosa e ansiosa. Um pouco apavorada também.

— Por quê? — questionou, parando o seu carinho na minha barriga.

— Criar um filho não é fácil, . Acho que você sabe muito bem disso. Tenho medo de ser uma péssima mãe, não saber agir certo quando for preciso. E se eu não souber quando a minha filha estiver com dores? — minha voz saiu mais alta do que eu imaginava.

segurou a minha mandíbula, levantando o meu olhar para o seu rosto. O encarei atentamente. Ele ria, exibindo os seus dentes alinhados e uma leve covinha na sua bochecha esquerda. Extremamente lindo. Pra caralho.

— Heaven… Você não será uma péssima mãe. Vejo como se preocupa com Hope.

— Com Hope é diferente. Ela já é grande.

— Talvez seja diferente, mas nada muda, o brilho nos seus olhos quando a ajuda com as tarefas de casa. Ou quando você a coloca na cama para dormir. Ou quando você prepara o café da manhã com panquecas sorridentes, especialmente para ela.

Eu sorri, concordando com ele.

— Caralho, eu sempre quis provar as suas panquecas. Você tem noção de que vocês têm algo único? Ela nunca me deixou comer um pedaço da panqueca e você nunca fez uma para mim.

Gargalhando, movi a minha cabeça no seu peito, coloquei as minhas mãos embaixo do queixo e o admirei.

— Você vai ser ótima. E eu vou estar aqui, para ajudá-la quando precisar, prometo. — Tocou o meu rosto, puxando para o lado uma mecha do meu cabelo.

Seus olhos transbordando um brilho diferente. Aquilo foi a gota d’água para mim. Senti que eu poderia facilmente me apaixonar perdidamente por . Ele selou a sua promessa com um beijo na ponta do meu nariz. Fechei os meus olhos, inconscientemente. A sensação do calor dos seus lábios no meu corpo ainda mexia comigo.

E, caralho, eu poderia facilmente me apaixonar por , e até mesmo, amá-lo como eu nunca amei ninguém antes.

Nossas mãos estavam entrelaçadas. A expressão de Heaven completamente relaxada. A brisa empurrava os seus fios cacheados para trás. Eu me pegava sorrindo toda vez que ela bufava enquanto colocava uma mecha atrás da orelha. Nós estávamos caminhando na beira da praia. Foi bem difícil achar um lugar para relaxar, e após, alguns minutos rondando com o carro pela cidade, encontramos esse lugar maravilhoso, no fim da estrada. Heaven adorou. Ela estava animada. E bem, eu também. Queria esse momento entre nós dois. Precisava de ficar nos seus braços novamente. Heaven e eu estávamos passando por um período de descoberta. Na verdade, ela estava passando. Eu sabia exatamente o que eu sentia e o que eu queria. Mas Heaven ainda não. Ela parecia insegura.

Eu me declarei para ela mais duas vezes depois daquela noite. Ela não reagiu. Apenas sorriu e beijou suavemente os meus lábios. Nunca dizia nenhuma palavra sobre. Soltei um suspiro. Eu era paciente. Esperaria o tempo que fosse necessário para ouvi-la dizer exatamente o que eu quero ouvir. Ela apertou a minha mão, indicando a areia com a cabeça.

— Vamos nos sentar?

Concordei, sentando-me na areia. Heaven acompanhou os meus gestos. Olhou para cima e fechou os olhos, sorrindo suavemente. A brisa suave levou os seus cabelos para o lado. Toquei uma mecha, enrolando nos meus dedos. Levei até o meu nariz, inalando o cheiro doce de morango.

— Gosto do cheiro do seu cabelo.

Ela riu, nasalado. Coloquei a mecha de cabelo atrás da sua orelha, e fiquei admirando o seu rosto. Ela era perfeita. Linda de morrer. Seus traços eram delicados, sua boca carnuda e macia, sua mandíbula marcada, suas bochechas levemente saltadas. Acariciei a sua pele, e sua cabeça inclinou em direção a minha mão. Ela abriu os olhos, e visualizou algo além dos meus ombros.

— A lua e as estrelas estão lindas hoje.

Olhei em direção ao céu. As estrelas brilhavam intensamente e a luz da lua nos iluminava. Voltei os meus olhos para o seu rosto.

— Bem, temos um grande problema: eu acho que você é a mais linda hoje.

Ela gargalhou, jogando a cabeça para trás. Minha mão abandonou o seu rosto.

— Não diga isso, a beleza natural é tão linda.

— Você é natural também, linda — eu ri. — De verdade, você é linda.

Seus lábios formaram um linha reta. Heaven olhou brevemente nos meus olhos, desviando para o céu.

— Eu gosto de olhar as estrelas.

— E eu gosto de olhar para você — eu disse, encarando o seu rosto.

Um sorriso surgiu nos seus lábios. Ela balançou a cabeça, negando.

— O que você quer de mim, ?

Fiz uma careta, rindo.

— Como assim?

— Não sei. Você tá me elogiando, me tocando, alguma coisa você quer.

— Eu não faço isso todo dia? — Franzi o cenho, rindo.

— Faz. Mas, hoje você tá diferente. Não sei… — sorriu, envergonhada. — Seu olhar tá diferente. Seu toque…

Mordi os meus lábios, voltando a encarar a imensa escuridão com a única luz da lua e os pontos brilhantes acima de nós.

— No que você tá pensando? — sussurrou, aproximando-se de mim.

Ponderei sobre a sua pergunta. Sobre o que eu estava pensando?

Eu queria ouvir aquelas malditas palavras. Eu queria sentir seus lábios nos meus. Eu queria o seu coração. Eu a queria. Completamente.

— O que você sente sobre mim? — Esquadrilhei o seu rosto.

Heaven arregalou os olhos, assustada com a pergunta.

— Eu… Eu não sei. Ainda.

— Você confia em mim? — murmurei.

Sua expressão era de pura confusão.

— Eu precisei confiar em você há alguns meses atrás. Você foi o único que esteve do meu lado.

— Você confia em mim? — repeti a pergunta, observando a sua expressão.

Sua cabeça balançou lentamente. Em um aceno mínimo.

— Por que eu sinto que há algo entre nós?

— O quê?

— Não sei, Heaven. Só… parece que você não quer sentir nada quando estamos juntos. E quando você sente… Você se afasta. Eu não sei o que pensar sobre isso.

Ela desviou a atenção do meu rosto, e olhou para a areia. Moveu o seu dedo, fazendo círculos imaginários.

— Eu não fui acostumada a falar sobre os meus sentimentos, . Menos ainda a sentir alguma coisa, além de tristeza e raiva. Tudo isso é novo para mim… E me assusta.

— O que te assusta?

— Sentir isso. Merda, . Eu… — Sua expressão se contorce em dor. — Eu nunca senti isso por ninguém. E… Minha mente tá uma bagunça. Na verdade, eu sou uma bagunça.

— Eu também sou. Todos nós somos.

Ela concordou, movendo a cabeça.

— Você me conheceu por completo, Heaven. Você sabe sobre mim mais do que qualquer outra pessoa. Exceto por Grace e Hope, obviamente.

Heaven não respondeu, exalou um pouco de ar e soltou lentamente pelo nariz. Repetiu isso umas quatro vezes, antes de dizer:

— Você não me conhece.

— Conheço o suficiente para me apaixonar por você.

Sua expressão se contorceu novamente em dor. Ela ergueu a cabeça, olhando as estrelas.

— Eu comecei a usar drogas aos 14 anos — disse, de repente.

Ela continou olhando as estrelas, em silêncio. Eu não respondi. Não sabia o que dizer.

— Por causa dos meus pais. Pela minha mãe, na verdade. Meu pai é… inocente no meio disso tudo. Mas, a minha mãe… Ah… ela me odeia. Definitivamente.

— E seu pai… ele te ama?

Seus olhos caíram sobre o mar. As ondas suaves e calmas. A brisa soprou o seu cabelo para o lado, e eu lutei contra a vontade de arrumar os seus fios novamente.

— Acho que sim.

— Como você acha que ele reagiu com… a sua morte?

— Não sei — disse baixinho. — Ele não expressa os sentimentos. Provavelmente deve ter ficado triste e se trancado no escritório o dia inteiro.

— E o que você sente sobre a sua morte?

Ela me lançou um olhar perdido.

— Não sei. A única coisa que eu sei é que estar aqui foi a melhor coisa que aconteceu comigo.

Um sorriso genuíno surgiu no meu rosto.

— A minha antiga vida era… abusiva e tóxica. Eu não fazia ideia do quão ruim minha mãe era. Lutei contra a ansiedade desde pequena…

A frase morreu no ar. Seus olhos se encheram de lágrimas, e, por um segundo, eu achei que ela fosse desistir.

— Eu queria morrer. Principalmente depois que eu saí da clínica. Quando eu retornei, mudei completamente. Comecei a provocá-la. Não usei drogas, mas… bebi demais, sai demais, transei demais — Um riso amargurado escapou. — Eu criei um mundo menos doloroso para mim. E tudo estava indo bem… O teatro estava ficando incrível, e, pela primeira vez, eu… eu senti como se algo fizesse sentido, sabe?

Ela puxou o ar.

— E então aconteceu. Quando Amber me disse que iria falar com a minha mãe… eu tive esperanças… eu…

— Me explica melhor. — Eu estava realmente confuso com o rumo daquela conversa.

Ela riu, me encarando.

— Você não faz ideia, não?

— Não…? — A minha resposta saiu como uma pergunta.

— Então… Eu só fiquei com o Gregory por causa de uma aposta. A intenção era: ter Greg Woods por um mês no meu pé, e então Amber daria um jeito de me tirar daquela casa. Ela deveria conversar com a minha mãe.

— E porque a sua mãe escutaria a ela e não você? — questionei.

Heaven virou a cabeça para o lado, e um soluço escapou da sua garganta.

— Por que, Heaven? — Meu coração estava disparado. Nem percebi meu nervosismo tomando conta do meu corpo.

— Porque ela é a minha irmã, .

Definitivamente, sem palavras.

— Minha mãe traiu o meu pai. Descobri isso na época em que entrei na rehab… Minha mãe deu um jeito de me fazer ficar com a maldita boca fechada.

— Ela te machucou? — sussurrei.

— Pior. Colocou drogas nas minhas coisas, fui presa e respondi pela minha liberdade… E adivinha?

Seus olhos estavam transbordando de tristeza.

— Cumpri a ordem do juiz. Um ano na rehab. Além de traficante, eu era uma usuária de drogas também. Fiz um ano de serviço voluntário e me escrevi para o teatro novamente, desde pequena eu cursava teatro. E sabe o que é mais engraçado nisso?

Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Ela apertou os olhos, abaixando a cabeça.

— Eu amo atuar… ou amava… E aquela mulher, sempre fazia questão de jogar essa merda na minha cara. Então, eu tentei fingir que estava triste com o teatro. Foi a pior coisa que eu fiz. ficou obcecada em me tornar a melhor atriz de Washington.

— Sua mãe é…

— Insana, é, eu sei. E então, você surgiu e aí você sabe como isso termina.

— Ainda não terminamos, Heaven.

— Isso não é o fim, né? — Ela lançou um olhar para a sua barriga. — É apenas o começo.

— Ainda há muita coisa para acontecer.

— E eu tenho medo — murmurou, sua voz chorosa.

Passei o meu braço na sua cintura, puxando-a contra mim.

— Eu vou estar aqui. Por você.

— Eu me senti sufocada quando vi que ela estava bem, . Eu não deveria me sentir assim. Minha mãe estava morrendo e eu…

— Minha linda, você tem todo o direito de sentir isso. Ela fazia mal a você, eu entendo.

— Ela está bem agora. O acidente não a matou. E isso significa que ela ainda pode me achar.

— Linda… enquanto eu estiver do seu lado, ninguém vai me separar de vocês.

Uma lágrima escorreu dos seus olhos, e ela me apertou fortemente. Segundos depois, nós nos separamos. Heaven passou as mãos no rosto vermelho, encolheu os ombros, e me olhou.

— Vocês? — ela riu.

— É. — Sorri, beijei a lateral do seu rosto e desci a minha mão até a sua barriga. — Eu meio que… Me apaixonei pela Love também.

Heaven gargalhou de mim. Seu corpo balançou suavemente enquanto sua cabeça encostava no meu ombro.

— Você acha que ela também está apaixonada por mim? — Eu perguntei, torcendo para ela notar o real sentido da minha pergunta.

Eu não queria que Love estivesse apaixonada por mim. Eu queria que Heaven estivesse.
Sua expressão estava concentrada em algo que se passava na sua mente. Senti a sua mão quente e macia tocar a minha mão em cima da sua barriga. Levantei os meus olhos para o seu rosto, ela retribuiu o olhar. Seus castanhos intensos e expressivos me analisavam. Seu rosto se aproximou, lentamente. Sua respiração se misturou com a minha e seus lábios tocaram os meus.

— Talvez ela esteja se apaixonando por você.

✩✩✩✩✩

Eu me sentia a porra de um sortudo. Meu sorriso era tão grande, que eu não sabia como não rasgara o meu rosto. As coisas entre Heaven e eu estavam indo bem. Ela estava em meus abraços, meus dedos deslizando pelo seu cabelo macio e cheiroso. Levei o meu nariz até a sua nuca, apreciando o seu perfume doce. Heaven se encolheu, e soltou um riso.

— Bobo.

Sorri e beijei a sua bochecha. Ela pegou o fone que estava no meu ouvido, colocando-o no seu. Seus ombros começaram a se mexer conforme as batidas da música. Eu apostava que a minha expressão era patética, no mínimo, ridícula. Mas, eu não me importava. Não exatamente. Ela começou a cantarolar a letra da música.

Aren’t you somethin’ to admire, ‘Cause your shine is somethin’ like a mirror. And I cant help but notice, you reflect in this heart of mine. If you ever feel alone and the glare makes me hard to find. Just know that I’m always parallel out on the other side.

Sua voz não era ruim, mas também não era incrível. Era relativamente boa. Heaven me cutucou, movendo os seus ombros. Ri, balançando a cabeça.

— Canta comigo! — Sua mão foi em frente à minha boca, indicando o gesto de um microfone. — Vamos!

Eu me senti estupidamente tímido. Nunca havia cantando para ela, mas mesmo assim, me rendi ao seu charme. Articulei a boca, mas ela me interrompeu.

— Espera. — Retirou um fone de ouvido, colocando-o na minha orelha, e voltando a cantarolar, em seguida. — Just put your hand on the glass. I’m here tryin’ to pull you through you just gotta be strong.

E então, comecei a cantar a letra da música Mirrors, do Justin Timberlake.

‘Cause I don’t wanna lose you now.
I’m lookin’ right at the other half of me. The vacancy that sat in my heart. Is a space, but now you’re home. Show me how to fight for now. And I’ll tell you baby, it was easy.
Comin’ back into you once I figured it out. You were right here all along It’s like you’re my mirror. My mirror…

Ficamos cantando por algum tempo. Desde músicas animadas até as músicas mais tristes que eu já havia estudado. Quando a música Little Do You Know começou a tocar, seus olhos brilhantes me encaravam em expectativa. Sorri enquanto me aproximava do seu ouvido, e sussurrei:

— Dança comigo.

Seus olhos castanhos se arregalaram, surpresos.

— Aqui no meio da sala?

— Não importa o lugar, desde que seja com você, minha linda.

Um sorriso tímido desenhou nos seus lábios. Beijei a sua mão suavemente, olhando nos seus olhos com a expressão de sofrimento, implorando por apenas uma dança.

— Tudo bem, — Soltou um suspiro derrotado. Nós nos levantamos, e eu a segurei pela cintura, aproximando os nossos corpos.

— Ei, você não foi no baile de formatura… — comecei a dizer.

— E… — Ela me lançou um olhar questionador.

E… essa é a chance para você ter a sua dança. O cara perfeito pra você está bem aqui, e a nossa música está tocando… É a oportunidade perfeita.

Ela gargalhou. Olhei em seu rosto de modo chateado.

— Desculpa — parou de rir, subitamente, quando notou o meu olhar. — Hum… você é o cara perfeito pra mim?

— Bem… — ri, nervoso. — Eu quero ser, ou tento ser, na verdade.

— Você é perfeito pra mim, . — Seu rosto se aproximou, e então, sua cabeça encontrou o meu peito. Eu a apertei em meus braços. — E essa música… é perfeita para nós.

— Também acho, linda. — Beijei o seu cabelo.

Seu corpo começou a se mover lentamente, de um lado para o outro. Eu acompanhei o seu ritmo lento, aproveitando de cada segundo ao seu lado. Quando a música acabou, Heaven beijou os meus lábios suavemente.

— Ei, novo casal!

Nós olhamos assustados para a figura pequena. Hope nos encarava com um olhar divertido.

— São 00:00, crianças. Amanhã tenho aula, e Grace precisa sair cedo. Vocês poderiam fazer menos barulho por favor?

Heaven se afastou do meu corpo, indo em direção à Hope.

— Desculpe, Hope. O que você acha de… dormir comigo hoje, huh?

Hope sorriu, negando com a cabeça.

— Meu irmão gostaria de ir no meu lugar. Mas obrigada Heaven, outro dia eu te faço companhia.

Eu soltei um suspiro. Hope era… impossível.

— Boa noite, pombinhos. Até a manhã!

Ela saiu andando em direção ao seu quarto. Heaven me olhou. E eu dei de ombros.

— Posso dormir com você? — perguntei. Ela sorriu, e girou nos calcanhares. Eu a segui até o seu quarto.

Ela abriu a porta, e esperou, fechando-a, em seguida. Eu entrei dentro do cômodo e me virei em sua direção.

— Não me olhe assim, . Seu safado, vamos apenas dormir.

Eu gargalhei, e deixei o celular na cômoda ao lado da cama, e me deitei em sua cama. Heaven caminhou lentamente e se deitou ao meu lado. Os seus cabelos castanhos se espalharam pelo travesseiro. Meus dedos passaram entre eles, massageando a sua cabeça. Aos poucos, seus olhos se fecharam e ela dormiu como um anjo. Sua respiração lenta, subia e descia num ritmo calmo. Me aconcheguei no seu corpo, abraçando-a.
Fechei os meus olhos. O barulho irritante do meu celular me fez rolar os olhos. Sentei-me na cama, liguei o abajur e procurei pelo aparelho em cima da cômoda ao lado da cama.

Li o nome da chamada na tela, e franzi o cenho ao notar o horário. Eram 00:30.

— Ei, Leyden!

— Oi, cara, foi mal pelo horário, viu? Mas, a parada é importante.

— Aconteceu alguma coisa?

— Aconteceu. — Ele fez uma pausa um pouco dramática, antes de começar a gargalhar. — Cara, nós fomos notados, caralho!

— Como assim, Leyden? — perguntei, impaciente.

— Mano, uma casa noturna na capital quer a nossa presença lá. Tipo… nós… The Burns tocando para mais de 200 pessoas.

— Uau. — Eu estava realmente sem palavras.

— É só isso, cara. O show é amanhã à noite, e nós vamos no seu carro, beleza?

— Puta que pariu, Leyden! Vamos no seu carro, porra. Eu não vou ficar dirigindo de madrugada.

— E quem falou que nós vamos voltar de madrugada? Ganhamos um dia num hotel bacana também.

— Cara, você tem certeza de que isso é… Real?

— 100%. Acredite em mim. Finalmente os humilhados serão exaltados.

— Mano, eu não tô acreditando.

— Ah, cara. Eu também tô grato por isso, muito mesmo.

Soltei um suspiro, meu sorriso de felicidade mal cabia no meu rosto.

— Eu também. Agora não vou conseguir dormir.

— Você precisa estar descansado, afinal, você é o motorista, hein.

— Seu folgado filho da mãe.

— Também amo você, seu idiota. Fui. — E encerrou a ligação. Fiquei olhando para a tela do celular por um tempo, sem realmente acreditar no que eu acabara de ouvir.

Notas: eu nem sei oq dizer dps desse hot. Eu tô apaixonada pelo Jace. Hope é minha fav hahaha ela é d+. Até os próximos caps, e não se esqueçam de dizer o que estão achando ;).