The Hunt

The Hunt

Sinopse: Depois de jogar a bruxa Doce no forno para salvar seu irmão, ela recebeu uma benção (ou maldição) de sentir quando seres místicos se aproximam do seu caminho e adquiriu múltiplos conhecimentos que a capacitaram para ser a caçadora que é. Por sua fama, é contratada para eliminar um certo mago que anda causando problemas ao povo. O feitiço ás vezes se vira contra o feiticeiro.
Gênero: Ficção, Fantasia, Sobrenatural
Classificação: +18
Restrição: Cenas de violência, insinuações e práticas sexuais.
Beta: Rosie Dunne

Capítulos:

 

Capítulo 1

 

Estava escuro. O vento frio tocava minha pele e tudo o que eu conseguia ver eram as sombras das folhas nas árvores baixas que se fechavam sobre mim, como um túnel que se apertava. Olho para baixo e vejo meus pés descalços no chão frio de terra úmida e folhas secas. Olho para trás e tudo que vejo são trevas, a mais pura escuridão. Decido seguir pelo caminho que vai se abrindo a minha frente, como se as árvores me dessem licença para passar. A cada passo que meus pés tocam nas folhas úmidas no chão, meu corpo se arrepia e sinto um suor gelado se formar em minha nuca. Sinto cheiro de biscoitos assando e chocolate quente conforme dou pequenos passos vacilantes, os pedaços de galhos secos incomodam as solas dos pés. Fecho os olhos para apreciar o cheiro reconfortante e, quando os abro novamente, o túnel escuro de árvores se foi e me encontro na frente de uma casa feita de doces.

O pequeno jardim que enfeita a frente da casa possui flores de jujuba e açúcar plantadas no que se assemelha a terra, mas cheira a amendoim; as paredes são feitas de pão de ló, que parece fofinho, e biscoito amanteigado, enquanto o telhado que escorre lentamente, mas não chega a cair no chão, é feito de marshmallow, as janelas adornadas de balas diversas e a porta de chocolate aerado decorada com balinhas coloridas, finalizada com um tapete feito de bolo de laranja, sinto pelo cheiro. O aroma vinha dali, percebo, se espalhando lentamente com a fumaça cor de rosa que exalava a chaminé. Ou seria algodão doce?

Não tenho tempo suficiente para questionar, a porta de chocolate se abre sem emitir som, revelando o interior da casinha contendo uma pequena mesa redonda com três cadeiras que reparei serem feitas de biscoito, decorada com confeitos coloridos no meio da casa. A iluminação tinha um tom de amarelo aconchegante causado pelo trepidar do fogo no grande forno construído na parede á esquerda, pouco acima deste estava uma grande prateleira com múltiplos potes grandes, médios e pequenos com líquidos das mais diversas cores, uns borbulhavam, outros pareciam estragados e alguns pareciam guardar criaturas vivas dentro. Em outros potes era possível identificar pó colorido e embolorado, e nos rótulos haviam desenhos intrigantes e palavras em uma língua que não reconheci.

Na parede do lado direito, havia um grande armário de madeira envelhecida com bacias e potes de vidro cheios de maria-mole, doce de banana, balas de menta, biscoitos de várias formas e cores e muitos outros doces. Ao lado, uma porta feita de biscoito e chocolate branco estava entreaberta, mas não era possível enxergar o que ela guardava em seu interior, apenas se ouvia a melodia tranquila que saia por ela, como uma música de ninar. Dei um passo, curiosa para descobrir o que havia ali.

! – exclamou a voz familiar me fazendo parar. Olhei na direção do som e encontrei meu irmão, Alec, sentado na mesa de biscoitos que antes estava vazia e agora dispunha de uma variedade de bolos lindos e apetitosos, com coberturas coloridas e decorações chamativas.

– Vem, ! Está delicioso! – seu rosto estava sujo da cobertura branca de um dos bolos, assim como suas mãos. Seu cabelo preto caia em sua testa quase a ponto de tapar seus olhos, suas bochechas estavam coradas pelo entusiasmo. Sorri e dei um passo em direção ao meu irmão, entrando completamente dentro da casa. Quando levantei um dos pés, pronta para mais um passo, a porta atrás de mim bateu com força e ouvi o barulho da tranca. Rapidamente virei minha cabeça para trás e vi a porta fechada. Quando voltei meus olhos na direção de meu irmão, antes que minha mente pudesse formar um questionamento sobre, a mesa com os bolos havia sumido e Alec estava dentro de uma grande gaiola de metal enferrujado pendurado ao teto, me olhava assustado e mordia o lábio inferior em apreensão.

– Agora é a sua vez, minha criança. O que vai comer, minha doce Maria? – disse uma voz rouca, simpática, que não vinha de nenhum lugar específico, como um eco. Segurei firme com as duas mãos na barra de meu vestido, o suor na nuca havia aumentado, brotava em minha testa como uma bica.

– Quem está aí? – perguntei num fio de voz. O medo e o desespero subiam pelo meu corpo á medida que os arrepios aumentavam, como ondas. Alec agora chorava com suas mãos pequenas segurando nas grades da gaiola enferrujada. Uma risada cortou o ambiente, como se a garganta de quem emitia o som estivesse arranhada. Uma gota de suor escorreu por minha costas, fazendo meu corpo estremecer.
Num piscar de olhos, era eu dentro da gaiola. Meu irmão não estava ali. Alec estava amarrado pelas mãos e pés e amordaçado com panos velhos e encardidos próximo ao forno na parede, chorava silenciosamente me encarando, um mudo pedido de ajuda. Senti meu coração acelerar pela adrenalina, precisava salvar Alec. Segurei nas barras da gaiola e as chacoalhei, como se pudesse de algum modo quebrá-las enquanto lágrimas quentes desciam pelo meu rosto. Quente. O calor das lágrimas se expandiu para o resto do meu corpo. Olhei para baixo e vi fogo abaixo da gaiola. Eu estava dentro do forno. Levantei meus olhos e vi pela porta do forno Alec na gaiola outra vez, ainda chorava. Tentei gritar seu nome mas não consegui, a visão estava embaçada pelas lágrimas. Uma cabeça entrou em meu campo de visão, escondendo Alec. Pele rugosa, suja e arroxeada, verrugas verdes, olhos negros como buracos no meio do rosto e cabelo grisalho e seco como palha velha. A risada ecoou mais uma vez e vinha dela, a bruxa com seu sorriso endiabrado de dentes podres. Mesmo no forno, consegui sentir o cheiro de podridão que sua boca exalava.

– Oh, minha doce Maria! Não se preocupe minha criança, João e eu aproveitaremos muito bem o banquete. – Soltou outra risada cortante, vislumbrei meu irmão ao fundo chorando antes que a porta do forno se fechasse.

Acordei em um pulo, puxando o ar com força para os pulmões. Meu peito queimava e o suor brotava em gotas por meu rosto, nuca, pescoço e costas. Me sentei na cama desconfortável, passando uma mão pelo rosto a fim de tirar os fios de cabelo que ali tinham grudado pelo suor. Respirei fundo mais uma vez fazendo minha visão focar antes de jogar as cobertas pro lado e me colocar de pé, sentindo o chão irregular sob meus pés descalços. A casa estava escura, ainda não havia amanhecido mas já conhecia o caminho de cor. Me dirigi até a cozinha, desviando da goteira que já era minha velha conhecida, peguei um copo de chifre e um jarro de barro com água que estavam sobre a mesa, me servi e bebi o líquido com rapidez. Repeti a ação antes de os colocar de volta aos seus lugares e me sentei na cadeira velha de madeira e palha ao meu lado. Outro sonho. Outro pesadelo. E infelizmente eu já sabia o significado. Espalmei as mãos ao redor de meu rosto e apoiei meus cotovelos nos joelhos respirando fundo

? Tudo bem? – Alec, com sua voz grossa de quem estava dormindo pesado, perguntou. Ele atravessou o pequeno cômodo e puxou uma cadeira a colocando na minha frente e se sentando. Me encarou com seus profundos olhos azuis que estavam pequenos e levemente inchados pela noite de sono. Seus cabelos, tão negros quanto a noite, estavam despenteados de forma engraçada. – Outro daqueles sonhos?

– O que acha? – respondi esfregando um dos olhos com a mão. Alec bocejou antes de levantar da cadeira e a colocar no lugar.

– Amo sua simpatia da madrugada. Acha que já está na cidade? – perguntou enquanto caminhava a passos arrastados de volta ao quarto.

– Acredito que não. Amanhã vou até Theodora saber mais. – soltei um suspiro cansada. O dia seguinte seria maçante.
– Já está amanhecendo, irmã. Tente dormir mais um pouco e pela manhã iremos. – sua voz soou longe e abafada, provavelmente já havia enfiado o rosto no travesseiro, sempre tivera facilidade para dormir. Ao contrário de mim.

Desde o dia em que jogamos a bruxa Doce no forno, sempre que uma bruxa se aproxima da aldeia, tenho o mesmo pesadelo, como uma maldição que ela me direcionou. Ou uma benção, como diz Alec. Também tenho sonhos inquietos sempre que uma figura mística ronda o vilarejo.

Deitada na cama outra vez, encaro o teto de palha enquanto ouço ao longe o canto baixo dos pássaros que começam a acordar com a aurora. Os olhos pesam e me rendo ao sono outra vez.

 

Capítulo 2

O sol brilha alto no céu azul. O vilarejo de Alba já estava com seu burburinho costumeiro. Mercadores andando de um lado pro outro, moradores querendo comprar e vender os mais variados produtos e viajantes em busca de novidades andavam distraídos, mal notavam as crianças que trançavam por ali com suas mãozinhas ágeis á procura de uma moeda ou um objeto que valesse uma migalha qualquer. Eram chamadas de ‘crianças perdidas’, sem pai ou mãe que os cuidassem. Vez ou outra o padeiro da esquina se compadecia e lhes dava alguns pedaços de pão e bolo. Passo os olhos no beco onde alguns se concentram, grandes e pequenos, sujos e maltrapilhos, os olhos se movendo de um lado pro outro em busca de um cidadão distraído ou de uma boa oportunidade para roubar qualquer coisa que valha comida. Sinto pena. Sei na pele como é ter fome, como é não ter pais. Afasto o pensamento ao desviar de um senhor com grandes e pesadas bacias com peixe fresco, ele quase as derruba ao tentar se desviar. Pego duas e Alec mais duas, o peixe cheira mal e sinto meu café da manhã se revirar no estômago. Atravessamos a rua abarrotada com dificuldade, o fluxo de pessoas a essa hora é grande.

– Por aqui! – diz o senhor. Ele é careca e baixinho, tem os braços tão finos quanto as pernas de uma cabra. Não iria conseguir atravessar a multidão equilibrando tudo aquilo nunca.

– Aqui, bem aqui. – ele aponta a barraca feita de bambu. Coloco as bacias seguida por Alec e limpo minhas mãos na calça. – Obrigado! Sem vocês acho que levaria um bom tempo para atravessar por toda essa gente. – ele sorri.

– Não foi nada. – Alec responde por nós. Me limito a sorrir e acenar com a cabeça, o senhor retribui meu gesto.

O sol já começa a incomodar mas os cidadãos parecem não se importar. Continuam serpenteando pelas ruas, anunciando, vendendo, ou apenas curiosos com o que os viajantes trouxeram. Minhas botas afundam no chão lamacento à medida que saímos da aglomeração do centro, o ar se torna mais leve e o burburinho aos poucos diminui. Viramos para esquerda, entramos no beco ao lado da casa com um porco velho e solitário na varanda, subimos um lance de escadas de pedra escorregadio pela lama e lodo e viramos para a direita. É fácil se perder mas conheço o caminho como a palma das minhas mãos, conseguiria chegar até de olhos fechados. Isso é ótimo, visto que minha mente está ocupada com meus pensamentos. Respiro fundo ao pensar no que pode vir pela frente. Seria uma Nimue? Um Medeia? Até mesmo uma Arandia? Só de pensar um arrepio percorre minha espinha. Espero que Theodora consiga ver.

Alec cessa o assobio que entoou por toda nossa caminhada ao pararmos na porta da velha casa de madeira mofada. Subo os três degraus da varanda enquanto meu irmão sobe todos de uma vez com suas longas pernas, a madeira sob nossos pés range pela falta de costume de ter visitantes andando nela e pela ação do tempo. Alec levanta a mão fechada para bater na porta.

– João, Maria. Que bom tê-los aqui. – Antes que meu irmão encostasse os nós dos dedos na madeira surrada, Theodora ronrona de dentro da casa, como um gato. A porta se abre com um rangido. Olho pro rosto de Alec antes de empurrar a porta com a mão e entrar.

A casa de Theodora é pequena e escura, iluminada por algumas velas velhas que nunca terminam de derreter por completo aqui e ali. Vários tapetes coloridos e de estampas diferentes cobrem o chão de madeira que ainda range levemente a cada passo. Muitos livros estão empilhados, espalhados aos montes em cantos das paredes, nas prateleiras, em armários e um montante chega a cobrir uma das janelas. Livros gastos, rasgados, mofados, alguns tem só a capa e outros estão em uma língua que não consigo identificar. Do teto pendem cordões amarrados com folhas, penas, artesanatos e até ossos de animais. Theodora diz que serve para afastar maus espíritos, embora eu nunca tenha visto um e não possa afirmar se realmente existem. A casa cheira a chá de camomila e fim de outono. Theo está com um livro de capa verde e suja na mão direita e com a esquerda segura os óculos (como ela chama as lentes de vidro presas no arame), não parece interessada em mais nada além do conteúdo do livro.

– Você coloca alguém no telhado para nos vigiar, não é possível! – Alec brada abrindo os braços. Sua voz é grave mas o sorriso querendo escapar no canto do lábio o denuncia. Theodora não desvia os olhos do livro nem assim.

– Uma mãe conhece os passos dos filhos. – um sorriso aparece em seu rosto ao ouvir a risada de meu irmão, não consigo não acompanhar. Theodora apareceu em nossas vidas quando Alec e eu decidimos deixar a casa doce e vir pra cidade.

A casa ficava muito afastada das aldeias, o que nos custava alguns dias de viagem para realizar os serviços de caça. Ao chegar em Tytos, vilarejo vizinho de Alba, com a grande fama dos irmãos caçadores era difícil arrumar um lugar para ficar em paz. Quem nos oferecia abrigo e comida queria em troca um serviço, fazer uma série de perguntas ou apenas nos exibir.
Assim que construímos nossa casa, Theo apareceu. Na verdade, ela sempre esteve lá, nos observava de longe no meio da multidão que nos seguia. Ela jogou sobre nós um feitiço de confusão, isso fez com que nenhum cidadão conseguisse achar nossa casa, mesmo se nos seguisse. Logo ela começou a cuidar dos negócios, recebia e avaliava os trabalhos e nos ajudava com seu poder. Theodora é uma feiticeira. Seu rosto de meia idade e sua doçura escondem suas centenas de anos.

– Deixe-me adivinhar: teve outro dos pesadelos? – perguntou fechando o livro e desviando seus olhos para mim. O objeto soltou uma nuvem de poeira com o impacto.

– Como sabe? – Pergunto. Levanto a mão direita na altura do rosto fazendo com que ela feche a boca antes de responder. – Já sei: “uma mãe conhece seus filhos”.

– Conhecer seus sonhos já é demais até para mim. – ela encaixa a mão na cintura e tomba a cabeça levemente pro lado. – O que conheço são essas olheiras horríveis debaixo dos seus olhos. Já ouviu falar de sono da beleza?

Do meu lado, Alec gargalha alto. Lhe dou um soco no ombro mas um sorriso está a ponto de escapar de minha boca.

Theo vira as costas para nós e procura algo no grande armário amarelo, já bem desbotado pelo tempo, e com tinta descamada na parede. Ela joga uma meia velha sobre o ombro, uma colher e um livro. A meia acerta Alec que grunhe de nojo.

querida, pegue a bacia azul por favor. – a voz de Theodora sai abafada já que sua cabeça está dentro de uma das portas do armário. Olho em volta procurando a bacia azul no meio de toda bagunça e a encontro no meio de uma pilha de livros, pra variar. Theodora continua a lançar objetos sob as costas.

– Irmão, uma ajuda seria bom. – digo tentando puxar a bacia sem deixar que a pilha de livros caia sobre mim. Alec levanta alguns livros me dando um pequeno espaço para puxar a bacia. – Consegui.

– Achei! – exclama Theodora ao erguer o braço com um chumaço de penas na mão. As penas são brancas e possuem bolinhas azuis e pretas nas extremidades.

Coloco a bacia sobre a mesa de madeira grossa e pesada. Theodora se abaixa sob a mesa e volta com um pote cheio de folhas secas, desenrosca a tampa e joga algumas proferindo palavras em outra língua. Joga também um líquido amarelo de um pequeno frasco, metade de uma maçã verde e por último uma das penas.

Theo entoa as palavras em tom baixo, quase um sussurro. Uma melodia, na verdade. Ela segura nas bordas da bacia azul enquanto o conteúdo começa a formar um leve redemoinho que vai aumentando gradativamente até que seu meio começa a borbulhar. A mistura marrom da bacia começa a ficar clara como uma vidraça, as bolhas cessam. Theodora passa uma das mãos por cima da bacia.

Mutasd meg nekem. – “mostre-me”, ela disse.

Como mágica, o líquido da bacia nos mostrava a floresta Piros, ao leste de Alba. Na verdade, aquilo era mágica. Theodora era uma feiticeira, e das boas. Aquilo era apenas uma amostra de tudo que ela podia fazer.

Na imagem da bacia, as árvores frutíferas e os arbustos floridos pareciam tão reais que eu sentia que se estendesse a mão, poderia tocá-los. A imagem foi se movendo, o chão de folhas secas e grama verde começou a se tornar purulento, seco, morto. Algumas árvores estavam tão murchas e podres que se uniam ao lodo do chão, como uma montanha de podridão. As flores, antes tão belas e com cores vibrantes, se transformaram em botões marrons, pretos, tão secos que despedaçaram com a menor brisa que soprava ali. A podridão era tamanha que nem as moscas aguentavam, e morriam. Parecia irreal que as folhas e arbustos tão verdes, as flores e frutos coloridos e tão vivos haviam se transformado em um brejo podre em segundos. Mas a realidade não tardou a aparecer.

Uma mão, que mais parecia uma garra, com dedos compridos e unhas tão longas e pretas quanto os galhos podres que segurava, apareceu no canto da imagem. Minutos atrás, aquilo era um lindo ramo de flores. A mão levou o ramo seco até um capuz que cobria um vestido em trapos mas que era feito de seda preta. O rosto estava oculto pela sombra do capuz, mas não foi necessário enxergar o rosto para saber do que se tratava; era uma Trívia. Eu só havia encontrado com uma alguns anos atrás, foi difícil matá-la.

Trívias são das espécies de bruxas maiores, detém mais poder e consequentemente, são mais difíceis de aniquilar. Nas línguas antigas, quer dizer “morte” ou “desolação”. Por onde passa, em qualquer lugar que toca, traz a morte consigo, desde plantas até seres humanos. Extraem suas energias e forças a partir da morte de um ser vivo que possua sangue nas veias. Theodora tocou a superfície do líquido na bacia com o dedo indicador e a imagem desapareceu como uma bolha de sabão que estoura, dando lugar ao líquido marrom de antes.

– Tragam as armas e os fios de cobre pra cá, vou começar a preparar as poções. – Theo disse se virando para a pilha de livros perto da lareira e começando a procurar algo.

– Ela está perto do cume Tule, chegará rápido na aldeia. Temos um dia, no máximo dois. – Alec jogou o conteúdo da bacia azul pela janela.

– Não se o que a bruxa procura for importante. Nunca as subestime. – Theodora grasnou. Estava nervosa, sabia bem como agia uma Trívia e como funcionava seu poder.

– Nos vemos mais tarde. – falei antes de abrir a porta de madeira, que reclamou da rapidez com que foi aberta com um rangido.

Alec estava ao meu encalço enquanto percorríamos o caminho conhecido até nossa casa, passando com destreza entre as vielas e becos escorregadios. Cortamos caminho pela ponte de pedras lisas que se estendia sob um riacho de águas claras para evitar a aglomeração do centro. Porém, nem o barulho calmo do fluxo das águas é capaz de acalmar meus pensamentos. Meus passos são automáticos, já sabem o caminho, o que me dá tempo para arquitetar possíveis estratégias que tornem a captura da Trívia menos difícil. Da última vez, Alec quase morreu. A prata forjada pelas mulheres do forte Piedmont não fizeram nem cócegas. Se não fosse pelo chicote de cobre banhado nas poções de Theodora, Alec não estaria aqui hoje. E eu não iria pagar pra ver outra vez.

Um aroma agradável exalava da pequena casa de madeira. Foi possível ouvir em alto e bom som o ronco que saiu da barriga de Alec. Meu irmão era um saco sem fundo, sempre fora. Ao abrir a porta frágil de madeira clara, encontrei Amélia mexendo avidamente uma grande panela de pedra no fogão improvisado.

– Alguém com fome? Alguém que não seja Alec. – ela completou antes que meu irmão tivesse a chance de se pronunciar.

– O cheiro está bom. – digo sorrindo para a mulher de cabelos loiros. Meu irmão a abraça por trás e espia o conteúdo da panela. Eles formam um belo casal.

– Eu adoro seu ensopado. – Alec diz enquanto esfrega o rosto na lateral do pescoço dela, que sorri feliz pelo elogio.

Deixo os dois na cozinha e caminho até meu quarto. Tiro meu cinto grosso de couro e o jogo na cama, apoio o pé direito na cadeira frágil de madeira ao lado e tiro a faca que fica presa no coldre, na parte de dentro da bota, dando a ela o mesmo destino do cinto. O quarto não é grande, possui apenas a cama simples, um armário que já passou da idade e um grande tapete que cobre quase todo o chão. Me ajoelho ao lado do tapete, no pequeno espaço descoberto por ele. Passo as mãos pela borda e deslizo os dedos pelo bordado bem feito sentindo as ondulações das linhas sob minha pele, aquele havia sido um presente de Theodora.

Com o fundo vermelho, linhas emaranhadas em preto, cinza e azul escuro se juntavam e separavam, sem formas definidas e sem padrão entre os traços, formando um desenho abstrato mas ainda sim, belo.

Deslizei meus dedos para a borda do tapete outra vez e o puxei, jogando pro lado e deixando o chão de madeira gasta á vista. Comecei uma contagem passando os dedos, do lugar que seria a borda do tapete, nas finas ripas de madeira. Uma, duas, três, quatro. Parei entre a quarta e quinta ripa, fechei o punho e pressionei para baixo. O chão se abriu, as ripas formando uma tampa não tão grande, mas também não tão pequena, que escondia meu pequeno arsenal.

Pistolas, espadas, arcos, cordas, machados, canivetes, flechas, correntes, chicotes, facas, balas dos mais diferentes materiais, poções e livros ocupavam o espaço do porão secreto. Aquilo era obra de Alec, um mestre da mecânica e física.

Passei os olhos pelo material escolhendo o que seria a opção mais letal para a querida bruxinha. Optei por balas de prata, alguns arcos e flecha, correntes de prata e cobre, duas pistolas e claro: o chicote de cobre. Estiquei o braço para alcançar o emaranhado brilhante de fios e, ao tocá-lo, me arrepiei. Recordei da cena de meu irmão machucado e desmaiado, com a mão da Trívia a centímetros do pescoço dele. Se eu tivesse falhado, se o chicote não tivesse funcionado…

A risada de Amélia e Alec fez as lembranças irem embora como fumaça espalhada pelo vento. Apertei o chicote, sentindo-o frio em minha mão.

João e Maria nunca falham. João e Maria sempre matam.

 

Capítulo 3

Não sei o motivo, mas fiquei repetindo essas frases ridiculamente infantis durante todo o caminho até os arredores da montanha de Tume. Devia ser o medo e o nervosismo pelo último encontro com uma Trívia. Meu corpo estava tenso, ansioso para o que enfrentaria.
Apesar de bobas, as frases se tornaram nossa propaganda quando estávamos no começo dessa vida de caça. O povo vibrava e se agitava ao ouvir que mais uma vez os irmãos não falharam, mais uma vez deram fim ao monstro, gritavam a frase e comemoravam mais uma vitória. Bom, pra eles era uma vitória, para nós, apenas mais um trabalho.
– Maria. – Meu irmão sussurrou antes de parar de andar subitamente e levar a mão direita até o quadril, apertando firme o facão no coldre. O sol ainda estava alto no céu mas um vento estranhamente frio soprava entre as árvores da floresta de Piros. Os pássaros, outrora tão barulhentos, não cantavam e não havia nenhum sinal de qualquer outro animal por ali, nem mesmo insetos. Senti os músculos de Alec tensos, não diferentes dos meus. Respirei fundo enquanto passava meus olhos por entre os troncos das árvores altas da mata fechada, buscando qualquer sinal da Trívia. Tudo parecia espantosamente normal, embora eu soubesse que não estava. As árvores gigantes, os arbustos cheios, as flores coloridas e as frutas brilhantes e suculentas estavam intactas. Franzi a testa, confusa com a situação.
Alec deu um passo à frente estalando pequenos galhos secos que jaziam ao chão, seguido por mim e tirou o facão do coldre em seu quadril, fazendo um chiado pelo atrito. Tirei o arco das costas e peguei uma flecha da bolsa de couro clara pendurada no ombro, posicionei a flecha e continuei a procurar por algo no meio da mata em que mirar. Nenhum som se fazia ouvir, apenas nossas respirações. Mais um passo incerto de Alec e antes que eu tivesse tempo de levantar meu pé e o acompanhasse, um cheiro de podridão tomou conta do ar, antes limpo.
– Sentiu isso? – Alec perguntou em um sussurro. Concordei com a cabeça mesmo que ele estivesse de costas pra mim. Puxei a gola do casaco pra cima de modo a tapar o nariz e meu irmão enrolou o cachecol no rosto. Uma pequena flor, murcha e seca caiu no ombro de Alec. Levantei minha mão esquerda para tirar dali e parei no meio do caminho quando percebi o que estava acontecendo.

– Alto! – gritei apontando a flecha pro alto e atirando. Um grito demoníaco rasgou o silêncio da mata. Meu irmão se virou para mim e cortou um galho de uma árvore acima de nossas cabeças, nos permitindo um vislumbre do vulto da Trívia. Peguei outra flecha na bolsa e mirei atirando rapidamente, mas a bruxa conseguiu ser mais rápida saltando para outra árvore. Alec estava com uma corrente de elos grossos feitos de cobre e prata, usando como artifício para ajudá-lo a escalar pelo tronco grosso de uma das árvores. Sem perder tempo, posicionei outra flecha e atirei, errando por pouco. Ouvi um estalo atrás de mim, ao olhar sobre o ombro, vi que uma árvore grande tombava em minha direção. Corri para direita tentando me desviar dos cipós e arbustos que faziam um emaranhado no caminho, acabei por tropeçar em uma raiz, caindo e rolando pelo chão irregular. Por pouco, consegui me desviar do tronco podre que desmoronou ao meu lado, levantando poeira e folhas secas e fazendo tremer de leve o chão com o impacto. Me levantei rápido e senti uma fisgada nas costelas. Uma risada aguda ecoou do alto antes de o galho que Alec estava em pé, se equilibrando ficar mofado e preto, cair. Antes da queda, ele jogou a corrente e enlaçou um dos tornozelos da bruxa, fazendo com que ela caísse junto e substituindo a risada por um grito de surpresa.
Antes que ela reagisse, lancei duas flechas seguidas na direção dela em meio a nuvem de poeira e folhas. Bom, acredito que tenha acertado o alvo já que ela gritou outra vez. Alec havia se levantado rápido mas perdera a sua ponta da corrente. As árvores e plantas ao nosso redor começaram a murchar e morrer, se curvando sobre nossas cabeças como se fizerem uma reverência, fazendo com que a luz do sol fosse quase que completamente ocultada. Peguei outra flecha da bolsa, segurando firme em posição. Meu coração batia acelerado no peito, fazendo a costela latejar. Mesmo com a brisa fria que soprava ali, minha testa e pescoço estavam molhados de suor e meu corpo vibrava em adrenalina. Ou medo.
Olhei envolta na tentativa de ver meu irmão mas tudo que eu enxergava eram as sombras das copas das árvores. Exatamente como no sonho. Flexionei meus joelhos para ter mais estabilidade e respirei fundo, fechando os olhos brevemente para me concentrar em qualquer som, qualquer movimento.
– Então se cansou de apodrecer as maçãs da Branca de Neve e decidiu mudar de vilarejo? – Falei alto, sem demonstrar meu nervosismo e temor por Alec. A risada aguda ecoou entre as sombras, não me deixando saber de onde exatamente tinha vindo.

– Estou atrás de outra garota doce e jovem. Enfeitiçada mas ainda pura. Que tal você, minha Maria? – meu corpo tremeu, talvez pelas lembranças. – Ou será que seria melhor um forte e viril rapaz?
Antes que o arrepio terminasse de percorrer meu corpo, galhos se quebraram e um barulho agudo e horrendo cortou o ambiente. Ouvi o tilintar de correntes e andei o mais rápido que consegui na direção do som, tentando não tropeçar e cair no meio do breu. Correntes. Claro! Eu estava com a minha de prata. Como não me lembrei antes? Com a mão esquerda mantive o arco posicionado e com a direita tirei a corrente enrolada do cinto em meu quadril. Movi meu punho para trás e para cima e a impulsionei, enrolando a corrente em alguns galhos do alto e as puxei pra baixo com força fazendo com que os galhos se quebrassem e abrisse um buraco entre as plantas dando lugar a luz do sol. Ouvi mais uma vez o tilintar de correntes perto e, ao olhar pra frente, vislumbrei Alec próximo. Nossos olhares se encontraram, e como em uma conversa silenciosa, sabíamos o que fazer. Enrolamos as correntes em torno da mão direita ao mesmo tempo e começamos a andar para frente. Mal tive tempo de colocar o arco nas costas e senti o chão tremer. Meu irmão caiu no chão apoiado nas mãos e joelhos e eu consegui me agarrar em um tronco seco.
– Vocês não entendem! Isso tem que acontecer! Vai acontecer! E vocês não poderão fazer nada, NADA!! – A Trívia gritou em fúria. Procurei Alec e o encontrei ainda no chão, tentando se proteger dos galhos que despencavam do alto feito chuva, sem cessar. O chão sacolejava me fazendo abraçar com força o tronco da árvore em que me segurava. A casca arranhava a pele da minha bochecha esquerda e a palma das minhas mãos pelo atrito.
– Dois jovens tolos não serão capazes de impedir, guardem minhas palavras!! – Ela gritou outra vez.
O tremor do chão aumentou, algumas plantas podres não aguentavam e se quebravam, caindo ao chão. Folhas secas caiam como confetes do alto. Era como se o chão se abrisse. Na verdade, ele estava se abrindo, fazendo um buraco, uma rachadura. A árvore em que me segurava não aguentou e se soltou das raízes, caindo dentro do pequeno abismo que se abria ali. Tentei laçar algum outro galho ou tronco que me segurasse mas não tive força suficiente pro impulso, falhei. Cai de costas por cima de muitos galhos secos e apodrecidos, o baque fez com que a costela começasse a latejar fortemente. Coloquei a mão no lugar da dor por cima da roupa e olhei. Sem sangue pelo menos. Ao redor, uma confusão de poeira, folhagens e arbustos secos não me permitia abrir os olhos completamente ou enxergar meio metro a frente para procurar por meu irmão. Me sentei e tentei gritar seu nome mas minha boca foi invadida pela poeira fina da terra me fazendo engasgar e tossir. A cada tosse, minha costela fisgava de dor. Abracei meus joelhos com toda força que consegui e apertei os olhos repetindo em minha mente “por favor esteja bem, por favor esteja bem”.
Tão repentino quanto começou, o tremor terminou. Levantei a cabeça devagar e esfreguei o rosto com as mãos tentando limpar a visão. Olhei ao redor procurando algum sinal do meu irmão. Meu coração batia tão acelerado que eu conseguia ouvi-lo e o incômodo em minhas costelas se tornara insignificante agora. Levantei devagar, apertando a corrente ainda enrolada na mão direita. Engoli seco e passei a língua em meus lábios secos e rachados. Vasculhei com os olhos a confusão de mato podre em que estava. Olhei pro alto, observando a poeira aos poucos abaixar e percebi que estava em um buraco. Não muito fundo mas também não raso.
– Maria?! – ouvi a voz de meu irmão abafada, seguida de uma tosse.

– João! Aqui! – gritei de volta. Comecei a andar na direção da voz de meu irmão, desviando aqui e ali de troncos quebrados, passando por cima de arbustos destruídos e pulando alguns galhos e raízes no caminho. Encontrei Alec completamente sujo, de costas pra mim e encarando o barranco que nos prendia.

– Ei, tudo bem? – perguntei tocando seu ombro direito.
– Inteiro, e você? – Falou virando o rosto para me olhar.

– Vou sobreviver. – sorri de lado e ele retribuiu. – Como vamos sair daqui?

– Eu te impulsiono e depois você me puxa usando as correntes, pode ser? – Concordei com a cabeça. – Eu só preciso limpar a minha antes. – Ele mostrou a outra ponta da corrente que não estava enrolada em sua mão. Estava enrolado em algo pequeno, escuro e viscoso e tinha…

– Dedos?! Isso são dedos?!?! – Gritei. Alec soltou uma gargalhada alta.

– Dedos de um pé. – Ele me olhou sorrindo.

– Você arrancou o da Trívia?! – perguntei incrédula. Sabia que cobre queimava a pele delas mas ainda sim, era inacreditável. Alec respondeu apenas com um levantar de ombros, se gabando.- Que nojo.

– Pense nisso como… um troféu. – ele levantou a corrente deixando o pé asqueroso à vista. Franzi o nariz com o odor putrefato que aquilo exalava e senti a bile subir na garganta. – Ok, você tem razão. Nojento demais para ser um troféu. – Alec fez uma careta e sacudiu a corrente, jogando o pé podre e preto pra longe.
Depois de sair do buraco, Alec e eu demos uma volta pela região na tentativa de encontrar a bruxa outra vez, sem sucesso. Raramente deixávamos as criaturas escaparem. Parece que João e Maria falharam dessa vez.