Coffee Prince – Segunda Chance Para Amar

Sinopse: Logan Vacchiano
O mundo está inteiro em suas mãos, você pode controlá-lo.
E, de repente, ele está girando descontroladamente para longe do seu agarre.
Foi assim que me vi, girando e girando, como se nunca mais fosse parar. Segurei sua mão inerte contra a minha, chorando a dor de ter minha alma rasgada ao meio, sabendo que nunca mais o veria com vida, perdendo o único homem que já tinha amado.

Damien Rhynes
Minha vida tinha desabado no momento que meus pais souberam que eu não estava em meninas, pelo contrário, não sentia nenhuma espécie de desejo por elas, mas sim, por eles.
Eu não sei exatamente o que deu errado, sempre fui capaz de sair de qualquer situação, mas daquela vez, eu não havia sido esperto ou estava confortável demais.
Qualquer um deles.
Tive meu corpo violado.
Fui roubado.
Fui contaminado pela maldade humana.
Fui profundamente corrompido.

Gênero: Romance, drama.
Classificação: +18
Restrição: Estupro, linguajar chulo.
Betas: Donna Sheridan

Capítulos:

 

Prólogo

Setembro, 2016

O mundo está inteiro em suas mãos, você pode controlá-lo.
E, de repente, ele está girando descontroladamente para longe do seu agarre.
Foi assim que me vi, girando e girando, como se nunca mais fosse parar. O braço esticado para o banco do passageiro num reflexo que veio junto ao primeiro impacto. O rangido do metal parecia ecoar em meus ouvidos e o gemido moribundo saía de nós ou apenas dele, não sabia precisar de quem estava vindo quando tudo parou.
Eu pisquei por um instante e tudo pareceu negro a minha volta, quando abri os olhos novamente, foi com o gemido dolorido e a mão tentado agarrar a minha.
― Lo… Lo. ― Girei a cabeça lentamente em direção onde estava meu marido, completamente confuso e sem entender porque estávamos de cabeça para baixo. ― Você está aí. ― A voz de Teddy soou trêmula e completamente aquém do homem que eu conhecia. Pisquei sentindo o embebedar do entorpecer tentando me arrastar e fui puxado novamente ao ter minha mão agarrada. ― Me prometa uma coisa, meu amor. ― Sua voz soava pausada, um pouco longínqua e tão baixa que fazia um esforço enorme para ouvi-lo.
― Teddy. ― Murmurei tentando agarrar a mão que me tinha preso e manter os olhos abertos, aquele não era o homem que conhecia, pisquei lentamente encarando os lábios manchados com sangue, talvez com o impacto do airbag, porém, quando ele corcoveou expeliu… sangue. ― Teddy! ― Repeti seu nome com mais força fazendo o possível para manter os olhos abertos.
― Estou aqui, querido. ― Os dentes brancos estavam manchados de vermelho, parecia respirar lentamente, reunindo o que podia capturar do ar e superficialmente. ― Se algo acontecer, quero que me prometa… ― Tossiu e vi com crescente horror, seus lábios verterem mais da cor purpura. ― Você seguirá em frente.
― Não. ― Gemi uma negação tentando sair daquela posição apenas para tê-lo parando-me e mantendo um aperto firme em minha mão. ― Você vai sair daqui.
Respirei fundo sentindo a dor voltar ao meu corpo na velocidade da luz e documentei com aflição que, cada parte de mim parecia ter sido massacrado e espremido em um compartimento de trinta por trinta centímetros.
Se eu estava assim, não podia sequer imaginar como Teddy estava se sentindo.
― Prometa, Logan, por favor. ― Trinquei os dentes diante do meu nome completo, ele só usava meu nome dessa maneira quando falava sério, e em progressiva negação assistia a pele de canela perdendo a cor enquanto os olhos negros perdiam a vida, não podia aceitar aquilo. ― Eu… eu amo tanto você… quero que seja feliz, Lo.
― Eu amo você, Teddy, não sei se poderia conseguir sem você aqui. ― As lágrimas começaram a verter em algum ponto, o aperto da sua mão parecia diminuir a cada segundo que passava.
― Eu sei, mas eu nunca vou te abandonar. ― As pausas entre as palavras aumentaram. Teddy tentou sorrir, ostentando o que deveria ser sorriso cheio de dentes e alegre que ele sempre mantinha, mas nem ao menos chegava perto do que era o original. ― Mesmo se não estiver aqui fisicamente, estarei com você em espírito. Eu te amo.
Ao longe, ouvi barulho de sirenes se aproximando e rezei com todas as minhas forças para que chegassem rápido, para que cuidassem do meu Teddy. Como eu poderia viver minha vida se metade dela estava me escorrendo entre os dedos?
Não era possível.
A dor em meu peito era maior que a física enquanto Teddy gaguejou um par de respirações ainda me olhando, sorrindo, até que os olhos tremularam e fecharam.
― Não!
Meu grito saiu tão dolorido e mais baixo do que poderia expressar.
Segurei sua mão inerte contra a minha, chorando a dor de ter minha alma rasgada ao meio, sabendo que nunca mais o veria com vida, perdendo o único homem que já tinha amado.

Julho, 2019

Minha vida tinha desabado no momento que meus pais souberam que eu não estava interessado em meninas, pelo contrário, não sentia nenhuma espécie de desejo por elas, mas sim, por eles. Sabia que existia uma parte conservadora regendo a minha casa, mas dali para estar na rua com a roupa do corpo e mais algumas peças que tinha conseguido capturar antes de parar ali, nem longe havia me passado pela cabeça.
Afinal, não eram eles meus pais?
Por que não podiam me amar da maneira exata que nasci?
Aquelas, e quaisquer outras perguntas que rondavam minha mente, ficariam para depois, porque além de ser jogado na rua, ainda havia escoriações do que seria uma boa luta para me trazer o juízo de volta e, mesmo assim, depois de ser espancado por meu próprio pai e ter meu corpo perdido no chão da sala com dores transitando livremente pelo meu corpo, com minha mãe olhando-me num misto de amargura e desprezo, eu ainda não podia mudar o fato que nasci para amar os homens e não as mulheres.
Não havia mais nada que pudesse fazer, tive um minuto para que saísse de lá e encontrasse minha própria casa, a rua. Assim como as outras pessoas na mesma situação que eu, permaneci um minuto ainda atordoado com o que havia acontecido, juntando o que me restava e antes que fosse de vez cortado, antecipando a movimentação deles, corri para o hospital mais próximo, ainda usando o plano de saúde da família.
Bom, era o mínimo que eles poderiam fazer, já que haviam me jogado na rua.
Além dos hematomas visíveis, tinha quebrado um bom par de costelas e deveria permanecer no hospital para observação, porém, sabendo que logo teria meu nome riscado da família, na primeira oportunidade, escapei.
Os primeiros dias não foram fáceis.
Minha família nunca havia sido rica, longe disso, mas tinha um teto sobre a cabeça e a barriga cheia. Agora era raros os dias que tinha alguma comida no estômago ou um teto para dormir, se por um acaso havia uma menção a ambos, vinha com segundas intenções que, fui rápido para saber como seria o pagamento.
Mesmo estando consideravelmente protegido dentro de casa, não era alheio ao mundo a minha volta e o que as pessoas passavam morando na rua e como as situações os levavam para um caminho, muitas vezes, sem retorno.
Fiz todo o possível para me manter longe de problemas e quando via que as coisas não estavam indo do meu jeito, fazia o possível para escapar da situação sem que recebesse alguma porrada por, supostamente, ser uma provocação de pau.
Minha vida tinha seguido dessa maneira até encontrar um cartaz de uma construtora, Wang & Harrington, que precisava de mãos de obras, o salário era decente, o lugar parecia da mesma forma e as pessoas que me atenderam pareciam assim também, mas apenas ter uma boa vontade não era o suficiente e ralei para conseguir o trabalho sem um endereço fixo.
Dos três, Theodore Wang, Cameron Harrington, os proprietários e Zachary Collins, o que parecia fazer o trabalho de um assistente administrativo, Cameron parecia entender mais do que eu dizia, pegou o que não estava explícito e ele mesmo tratou de me dar uma chance, já que trabalharia diretamente com ele.
Finalmente tinha um trabalho e quem sabe, no fim do mês, até mesmo poderia alugar um pequeno apartamento na parte mais afastada da cidade, mesmo que fosse distante do trabalho e quiçá, pudesse ter uma boa alimentação ou começar a ter uma.
O ambiente parecia seguro já que dois, Theodore e Zachary, dos três estavam em um relacionamento e o resto do pessoal que ali trabalhava, não pareciam ameaçadores contra a causa LGBT, ou apenas estavam trabalhando sem dar um segundo pensamento sobre de onde vinha o salário, e os outros simplesmente não se importavam ou assim eu pensei.
Eu não sei exatamente o que deu errado, sempre fui capaz de sair de qualquer situação, mas daquela vez eu não havia sido esperto ou estava confortável demais.
Qualquer um deles.
O restaurante que estava sendo construído, não era um lugar enorme, mas já estava avançado e havia vários lugares longe dos olhares alheios e numa dessas, um dos rapazes pensou que seria uma boa ideia dar em cima de mim, mas quando não correspondi e tentei sair da situação, as coisas pioraram rapidamente.
Num minuto estava tentando sair do ambiente semifechado onde estava rebocando, para estar do outro lado da parede, com a boca tampada e minhas calças sendo arriadas sem meu consentimento, fiz o possível e o impossível para lutar contra o agressor que tinha duas vezes o meu tamanho.
Eu ouvi a mais diversa coleção de palavreado sujo e o que ele faria comigo enquanto as mãos imundas percorriam meu corpo, lembrando-me que era apenas um viado e que merecia passar por aquilo, jogando seu peso contra o meu, mantendo-me preso a parede. Quando vi que não conseguiria sair daquela situação, o desespero já estava há quilômetros de distância e não havia ninguém passando ali no momento.
Me chame de estúpido e idiota, mas aquela parte de mim e o momento que tinha em mente, que seria algo especial e com alguém que pudesse ter sentimentos, estava arraigado dentro de mim e não queria que alguém tomasse de mim a minha virgindade.
Meu estômago estava embrulhado e as lágrimas caiam torrencialmente enquanto ele se esfregava contra mim. Mas eu não podia desistir de mim e me deixar render naquela situação. Tentei novamente me livrar ou tentar gritar, mas dessa vez, de saco cheio das minhas tentativas, socou minha cabeça contra a parede escurecendo minha visão por um bom par de minutos.
Talvez fosse melhor assim.
Quando voltei a consciência, ele estava alojado dentro de mim, causando toda sorte de nojo e tristeza por mais uma vez ter sofrido aquele tipo de traição, talvez embriagado por seu feito e ainda pensando que estava desmaiado, não percebeu que estava acordado e relaxou em seu aperto após gozar.
Eu gritei.
Gritei novamente.
E mais uma vez.
Com toda força que me restava, eu gritei.
Ouvi a coleção de passos correndo naquela direção, o primeiro foi Zachary que me alcançou e vi o choque em seu rosto enquanto não conseguia me manter em pé e escorreguei para o chão. Cameron veio acompanhado de Theodore que rapidamente afastaram o outro cara, não antes desse último deixar um bom soco de quebrar o nariz do mesmo. Não que fizesse diferença no que havia acontecido, com a dor na minha cabeça ou naquela parte delicada da minha anatomia, mas foi satisfatório.
Zachary recolheu os trapos que sobraram e se desfazendo da sua própria roupa sobressalente, me cobriu. O resto dos rapazes tinham levado o outro cara para longe, amarrado numa espécie de nó-cego com o que tinham em mãos e pelo que pude distinguir do que diziam, as coisas não seriam fáceis para ele, a polícia estava chegando junto com a ambulância.
Os três que sobraram comigo, estavam lívidos e não sabiam o que fazer para me confortar. Quando a polícia chegou e foi explicada a situação, agradeci aos céus porque, pelo menos, para um deles, a situação era importante e seria levada para frente. Prometi prestar depoimento assim que fosse atendido no hospital. Zachary e um Cameron transtornado fizeram o translado junto comigo, dando todo o apoio necessário.
Mas até então, apesar de sentir o corpo dolorido e a crescente sensação de vazio, tudo parecia abstrato demais, extracorpóreo e não tinha plena consciência que havia sido estuprado.
Disseram que era o choque pelo que havia acontecido.
Era comum em vítimas como eu.
Compreendia as palavras, mas nada parecia fazer sentido.
Nada.
A compreensão pelo que havia acontecido só chegou muito mais tarde quando estava presenciando discussão entre Cameron e seu namorado, Chase. Ali, naquele momento confuso e aquém de mim, eu entendi.
Tive meu corpo violado.
Fui roubado.
Fui contaminado pela maldade humana.
Fui profundamente corrompido.
Mesmo sabendo que a situação ali tinha sido um gatilho para o que vagamente acompanhava do acalorado embate, eu me vi, novamente, sendo estopim para que outra coisa de ruim estivesse acontecendo.
Eu era um constante erro, aonde quer que eu estivesse.
Eu merecia o que tinha acontecido comigo.

Nota da Autora: Olá, antes de conhecerem Logan e Damien, é preciso esclarecer algumas coisas. Esses personagens já apareceram no Coffee Prince – De Volta Para Você, assim como os personagens da estória anterior também estarão por aqui. De forma alguma quero diminuir ou ser leviana com a situação descrita aqui. Bem como, levo a sério o tema estupro e saúde mental. Pode parecer repetitivo, mas se algo acontecer, sempre terá um psicólogo na estória, assim como os gatos. Apesar de começar com um tema difícil, a intenção é ser leve e navegar por um caminho de romance no estilo água com açúcar e, talvez, um pouco lento para alguns gostos. Tendo isso em vista, espero que gostem e qualquer dúvida, podem falar comigo.

Capítulo I

Quem era ele? – Setembro, 2020

A vida sabia como surpreender e eu realmente não sabia o que fazer com ela.
Não fazia muito tempo desde que havia chegado de Latisha e entrava no meu turno no Coffee Prince. Um dia normal como todos os outros, vai e vem de clientes, uns bons, outros conhecidos, caras novas e então, aquela flecha corrompendo meu corpo e se alojando com um vacilar cardíaco e uma boa dose de adrenalina.
Algo pelo qual não esperava.
Havia muito que eu não esperava durante o último ano, isso vinha da família virando as costas, à um casal maravilhoso me adotando e cuidando de mim como se fosse um filho, não que nossas idades fossem assim tão distantes, pelo contrário, mas Theodore e Zachary haviam me dado tudo que não havia recebido ao longo da minha vida: amor.
E não somente isso, a liberdade de viver como eu realmente sou, sem olhos tortos por quem eu poderia estar interessado. Eu pude ter uma casa segura, uma rede de apoio que contava não somente com eles, mas também com Chase e Cameron. Os quatro que sabiam pelo que havia passado e, ainda assim, estavam comigo sem titubear.
Caminhando ao meu lado e travando a luta, os momentos difíceis, mesmo que com Chase a coisa não havia começado muito bem, após a primeira impressão e a confusão da situação dele com Cameron, onde eu sem querer havia caído de paraquedas em um relacionamento conturbado e acabei aumentando a situação, até mesmo causando a ruptura entre eles. Chase sem me conhecer, apenas sabendo do calvário que havia galgado, estava disposto a me estender a mão e, da sua maneira, cuidar de mim.
Então, após os conflitos, a volta desse casal, da amizade que veio através do sofrimento e a nossa família, eu não esperava que algo, durante aquele tempo adormecido, voltasse para me morder no rabo e despertar para a vida daquela forma.
Podia sentir meu rosto esquentando e corando à medida que os olhos capturavam os meus, tragando-me para profundeza dos cristalinos olhos azuis. Meu coração estava descompassado e podia sentir cada parte do meu se acordando e reconhecendo o que poderia ser algo extremamente bonito e, ao mesmo tempo, aterrorizante.
Se por um lado eu estava eufórico com a atenção silenciosa, pelo outro, estava sentindo os primeiros calafrios e uma medida desnivelada de receio.
Enquanto queria me deleitar no que parecia ser um flerte a longa distância e o homem parecer ter uma certa idade e não parecia brincar, estava com medo do que aconteceria e se aconteceria algo. Podia sentir o pulsar vibrando contra a camisa do uniforme, a calça tornar-se justa contra certa parte da minha anatomia que não tinha vida desde o incidente infeliz.
E isso era realmente emocionante, porque nada e ninguém, até então, despertou minha atenção ao ponto de ter uma reação física, o que Latisha explicou que poderia acontecer nos casos como o meu e que seria questão de tempo até o cérebro se ajustar ao corpo e perceber que poderia viver uma vida normal, mas que após o choque, poderia ocorrer uma certa demora em desassociar o estupro do ato natural e consensual do sexo com alguém da minha escolha. Desde que, no princípio, havia sido retirado de mim essa escolha.
Sim, eu gostava de homens. Sim, eu poderia apreciar um bom homem quando o via. Mas em nenhum momento, alguém tão mais velho havia, de fato, despertado algo a mais do que apenas a admiração genuína de reconhecer a beleza na outra pessoa. Mas esse homem ali estava apertando os meus botões, e uns que eu nem sabia que existia. Enquanto a incerteza estava entrelaçada à curiosidade, podia me sentir pendendo para aquele lado e realmente não sabia o que fazer.
Era tudo tão novo e, ao mesmo tempo, tão repentino.
E, por mais que havia uma certa expectativa, da minha parte, estava com medo.

Primeiro contato

Aproveitei a distração de Damien para me aproximar do caixa e fazer meu pedido, se de longe o rapaz era uma graça, agora tendo uma visão mais apurada, eu não pude deixar de exalar um suspiro de apreciação. Ele parecia da minha altura, talvez pouquíssimos centímetros nos distanciavam, três ou cinco, algo assim. Apesar de ter alguns traços delicados, seu maxilar era bem recortado, terminando num delicado queixo, os lábios medianos tinham um sorriso ao conversar com Jonelle, destacando o que deveria ser a covinha no lado esquerdo. A moça notando minha aproximação, fez um gesto para ele e sem dar um segundo pensamento, girou para me cumprimentar, no caso, o que seria o próximo cliente.
— Boa tarde, o que… — Ele arfou quando me viu ali e seu discurso logo morreu.
Pelo jeito, não era o único afetado pela flecha do cupido.
— Olá, Damien.
Assisti com esperança quando o vi corar e rapidamente morder os lábios, desviando rapidamente os olhos, não ouvi o que ele murmurou para si mesmo, mas não demorou para que retornasse a me fitar, erguendo os ombros , numa tentativa clara de retomar o controle da situação.
— O que posso fazer por você?
— Você poderia jantar comigo qualquer dia desses. — Damien me olhou duas vezes e em um sacudir a cabeça afastando a supressa, ele sorriu, as bochechas coraram.
— Receio que isso não está no nosso menu, senhor. — Apontou por cima do ombro, em direção ao letreiro digital.
— Fico feliz, nunca fui bom em dividir. — Dessa vez ele deu uma pequena gargalhada, que logo escondeu mordendo os lábios.
— Certo. — Arrastou a palavra com um corar, sacudiu a cabeça e deu uma tossidela. — Então, posso anotar seu pedido?
— Sim, gostaria de uma Muffaletta tradicional, um praline de chocolate belga e jantar com você.
— Certo. Espere, o quê? — A confusão era clara nas bonitas irises esverdeadas.
— Colocando as brincadeiras de lado, Damien, gostaria de jantar com você e quem sabe, te conhecer melhor, mas isso não tem pressa. Quando você quiser e sentir-se à vontade, até lá esperarei. — Esclareci enquanto Damien parecia francamente atordoado. — E também, um ristretto tamanho grande.
— Encaminharei seu pedido agora. — Estendi o cartão para que finalizasse a compra e ao retornar o cartão, Damien segurou o mesmo impedindo que o recolhesse. Arquei as sobrancelhas diante do impasse e o vi sorrir zombeteiro. — Você me convida para jantar e, apesar de saber meu nome, ainda não estou ciente do seu.
— Logan Vacchiano. — Soltei o cartão para lhe estender a mão, após uns segundos de relutância e fitá-la como se fosse algo desconhecido, tomando do que parecia ser uma respiração profunda, hesitante, deslizou a mão contra a minha.
— Damien Rhynes. — Sua voz não escondeu sua perturbação e depressa retirou sua mão, claramente envergonhado pela sua reação, ele não me fitou ao prosseguir a conversa. — Então, Logan, fico lisonjeado, mas não penso que seja uma boa ideia.
— Justo. — Concordei e seus olhos rapidamente encontraram os meus. — Não estou desistindo do convite ou diante do primeiro não, mas creio que você é grande, assertivo para tomar suas decisões e, principalmente, as respeito, Damien. E se, porventura, um dia você mudar de ideia, o convite está de pé e sem data para expirar.
— C-certo. — E lá estava o rapaz tímido de mais cedo, com as bochechas afogueadas e sem saber o que fazer.
— Bom, espero que você goste, são os meus preferidos.
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, me afastei em direção a parte de retiradas do balcão, para sacar meu café. Lá chegando, encontrei a moça sorridente, Jonelle. Interessante o quanto a vida poderia ter seus meandros para organizar as coisas, pois durante aquele tempo, eu conhecia todos os funcionários do CP, porém, Damien nunca me foi apresentado ou eu o vi antes. Sempre fazia questão de entregar pessoalmente todos os produtos produzidos pelo restaurante, logo, conhecia as pessoas nos estabelecimentos, seus donos ou funcionários, tendo em vista que algo poderia acontecer e não ser atendido pela mesma pessoa.
— Ei, Jonelle, tudo bem? Como está o pequeno Archie?
— Estou bem e Archie tão arteiro como sempre, querido. E você? — Saudou-me alegremente.
— Da mesma forma. — Aproximei do balcão em tom conspiratório e fiz o gesto para que ela fizesse o mesmo. — Preciso de um favor. — Seus olhos brilharam curiosidade e ela me ouviu atentamente.
Assim que terminei o pedido, ela sorriu esfregando as mãos e sacudindo a cabeça alegremente diante do meu pedido inusitado, rápida em atendê-lo. Agarrando meu café ou a tinta negra, como Teddy gostava de salientar, justamente porque gostava de consumi-lo tão forte quanto pudesse e sem nenhum acompanhamento. Dei um aceno para a moça e deixei meu olhar cair para o rapaz que estava atendendo no caixa, já sentindo saudades.