Coffee Prince – De volta para você

Coffee Prince – De volta para você

Sinopse: Nos conhecemos no último ano do colegial, Cameron Harrington veio transferido de outra escola, sendo o único gay – assumido – naquele ambiente, foi inevitável que nos aproximamos. Eufemismo seria dizer que não me apaixonei à primeira vista pelos cachos rebeldes, a coleção de sardas, lábios cheios e sempre adornado com um sorriso fácil.
Três anos mais tarde, surgiu uma pequena sugestão. Tudo tinha começado como uma brincadeira, em uma noite chuvosa e regada com muita bebida.
Cameron, cansado de passar pelo mesmo processo, todas as noites entre as boates e os calouros, lançou a pergunta:
“Por que não cortar a besteira e aproveitar que nos conhecemos por tanto tempo, e adicionar um pequeno detalhe: amigos com benefícios, Chase?”
O que eu tinha a perder?
Aparentemente, tudo.

Gênero: Romance, drama.
Classificação: +18
Restrição: Pode ou não conter cenas de sexo; linguajar chulo.
Betas: Donna Sheridan

Capítulos:

Parte I

Chase Mayes x Cameron Harrington

Let Her Go — Passenger

Olhando para o teto no escuro
O mesmo velho sentimento de vazio em seu coração
O amor chega devagar e passa muito rápido
Bem, você o vê quando cai no sono
Mas para nunca tocar e nunca manter
Porque você o amava muito
E você mergulhou muito fundo
Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol, quando começa a nevar
Só sabe que o ama quando o deixar ir
Só sabe que estava bem quando está se sentindo pra baixo
Só odeia a estrada quando está com saudade de casa
Só sabe que o ama quando o deixar ir
E você o deixa ir
PS: Música foi sutilmente alterada para se adequar ao ambiente

Onde tudo começou.

— Tenho uma ideia.
— Ok, é aqui que já sei que não pode ser uma boa coisa.
Afastei a garrafa, ainda minha primeira garrafa, que passei a última meia hora bebericando enquanto Cameron já estava em sua sexta. Então, sim, sua ideia não poderia ser nada boa.
— É sério, Chase. — Depositou sua garrafa devagar. Talvez, usando toda sua concentração para que parasse em cima do vidro da mesa de centro no apertado apartamento no qual dividíamos fora da faculdade. — Veja, estou cansado de toda a caçada, sabe? — Não esperou que respondesse para que continuasse seu monólogo, ao mesmo tempo em que se punha de pé. — Há quanto tempo nos conhecemos, Chase? Uma vida? Algo assim, certo? — Dei um aceno observando-o contornar a mesa com uma curva acentuada e parar a minha frente. — Por que não cortar a besteira e aproveitar que nos conhecemos por tanto tempo e adicionar um pequeno detalhe: amigos com benefícios, Chase?
— O quê?!
Aproveitando do meu atordoamento, depositou um joelho próximo ao meu quadril e em seguida, o outro do lado esquerdo. Em questão de segundos estava perigosamente próximo ao seu quadril. Num gesto casual, dedilhou meu ombro, passeando lentamente por meu pescoço, causando um estremecer que não pude evitar, para, então, entrelaçar os dedos pelo meu cabelo e inclinar minha cabeça para atrás.
Engoli em seco.
Acompanhei o deslizar da língua por aqueles lábios tentadores ao passo que os dígitos da outra mão vieram lentamente caminhando pelo meu maxilar até esfregar contra meu lábio inferior, causando uma pequena separação.
Engasguei uma respiração.
Porra!
— Cam, você está tão bêbado. — Espremi uma risada angustiada, soou como algo entre um grunhido e gemido ofegante.
— Pareço bêbado para você, Chase?
Dotado de um sorriso zombeteiro escorregou para meu colo.
Lentamente, pressionado o quadril pelo meu tórax, numa tortura lenta onde pressionou o exuberante pacote rígido até se aconchegar sobre meu quadril. Não obstante, se mexeu até que em um gemido rouco, pressionou o traseiro carnudo contra o abaloado do meu jeans. — Chase… — Sussurrou aproximando os lábios sobre os meus.

Um ano depois, adeus.

Assim que cheguei em casa, o vi andar de um lado para o outro, sem perceber que eu havia chegado. Definitivamente não era um bom sinal. Descansei a bolsa e as chaves no aparador ao lado da porta, retirei o tênis e suspirei de alegria.
— Você chegou. — Se a caminhada errática não fosse o suficiente para subir todas as bandeiras de alerta, a falta de reação de sempre me alcançar e me dar um beijo, aliada à palidez excessiva, teria tido o mesmo efeito.
— Tudo bem? – Respeitando sua postura, caminhei lentamente em direção ao sofá, se havia alguma notícia ruim a ser recebida, pelo menos, poderia estar sentado. Fiz um gesto para que Cameron tomasse o lugar à minha frente, não que precisasse de qualquer formalidade, não na nossa casa.
— Isso não está dando certo, Chase. — Fez um gesto abrangendo-o e a mim. E automaticamente, desabou na poltrona, bagunçando o cabelo num ato de desespero. — Era apenas um passatempo para nós, não é? — Fitou-me por um instante antes de, novamente, desviar o olhar.
— Um passatempo? — Engoli a bile que ameaçava verter por entre meus lábios e vi a palidez ser acentuada diante do meu tom estarrecido.
— Sim. — Assentiu efusivamente. — Enquanto nada melhor aparecia. — Não consegui me impedir de arregalar os olhos e o vi corar. — Isso soou errado, Chase, me desculpe…
— Sem problemas. — Mascarei a dor com uma pequena gargalhada, fazendo um gesto displicente. — Tenho certeza que esse não é o único motivo pelo qual você parece tão agitado.
Não poderia ficar pior, não é?
Ou poderia?

— Eu conheci alguém.
Deus me ajude!
Engoli em seco e agradeci aos céus por Cameron não ter tido coragem de dizer isso olhando para meus olhos. A letargia deu espaço para o latejar dolorido em peito, o ar naquele instante não parecia ser o suficiente. Esmagando toda a gama de emoções, tratei de arquivar e lidar com isso mais tarde.
— Isso é bom, e quando o conhecerei? — Ergueu a cabeça atordoado, fitando-me em descrença. — O quê? — Tratei de colocar um sorriso em meus lábios e rezei para que minhas pernas me sustentassem ao levantar e caminhar até ele. – Estou feliz por você, meu amigo.

Seis meses depois.

Observei o casal entre os amigos, reunidos na cafeteria onde trabalhava, esperando que a minha última hora terminasse para que me juntasse com eles, mais uma vez. A essa altura já deveria ser normal assisti-los, mas não funcionava dessa maneira.
— Você está bem? — A pergunta veio acompanhada do toque gentil em meu ombro, balancei a cabeça numa firmação e dei meu melhor sorriso à Judith Campbell.
— Claro, apenas foi um dia cansativo. — Ela viu através da mentira, mas me permitiu escapar, desvencilhei suavemente e continuei os pedidos.
— Chase, não quero te pressionar, mas você já tem uma resposta? — Desviei o olhar para encontrar as írises esverdeadas da minha gerente.
Ainda restava uma pequena parcela de dúvida se ela realmente precisava de um novo gerente em outra filial ou se o sentimento maternal sobrepunha a necessidade de um novo contratado nessa categoria.
Em todo o caso, já havia tomado a minha decisão.
— Sim, eu irei. Já tenho quase tudo pronto, posso assumir imediatamente após a formatura, se está tudo bem para você.
— Por mim, está tudo certo. Infelizmente, a pessoa nesse cargo tem tido problemas e sei que você pode assumir o lugar. — Suspirou visivelmente cansada ao se apoiar no balcão, fez um gesto em direção a mesa que antes fitava. — Você já contou que está indo?
— Cameron já não mora no apartamento desde que começou seu relacionamento. Nossas vidas estão levemente separadas, Judy. — Dei de ombros recolhendo a louça esquecida no balcão. — Não vi necessidade de perturbá-lo com isso.
— Perturbar quem? — Ignorei o nó na garganta e voltei-me em direção ao balcão.
— Apenas um cliente. Posso pegar alguma coisa, Zachary?
Zachary Collins, o atual namorado de Cameron, alguém que gostaria muito de odiar, mas a doçura dos olhos de whiskey e a boa índole do rapaz me tinha preso na ponta dos pés.
— Não se preocupe, na verdade estava indo para o banheiro, mas notei que você parecia um pouco preocupado. Gostaria de saber se está tudo bem.
— Oh, não é nada, Zachary, são apenas as preocupações diárias do negócio.
— Tem certeza? — Sinalei em afirmação. — De qualquer forma, se algo mudar e precisar conversar, pode contar comigo.
— Obrigado, vou me lembrar disso. — Deu um sorriso e voltou para seu caminho original. — A vida é realmente engraçada, quem diria que seria o namorado do meu melhor amigo a notar e não o mesmo? — Dei de ombros com indiferença forçada e evitando que uma enxurrada de consolo viesse, continuei. — Já está quase na hora da Andria chegar, você pode ficar aqui enquanto faço uma última geral na cozinha?
— Vai lá, tigrão. — Eu ri e me afastei.
Não, na verdade, eu não poderia odiar Zachary, não quando ele possuía tamanha sensibilidade e era uma pessoa generosa, não quando ele poderia colocar um sorriso especial nos lábios de Cameron, mesmo que não fosse direcionado a mim.
Não, Zachary era especial demais para isso.
Encaminhei-me para limpar as mesas recém deixadas e carregar as louças, o trabalho facilmente manual de carregar a lava-louça me distraiu do elefante no recinto e coloquei-me habilmente a fazer uma lista mental do que ainda faltava organizar em casa.
Os móveis vieram junto com o apartamento, logo os deixaria, sem falar que o meu novo companheiro de casa, além de Carlos, Hill Murphy, que entrevistamos naquela semana, ficaria por mais dois anos. Os eletrônicos e a maioria das roupas, previamente alinhadas, poderia despachar amanhã. Salvo por uma caixa perdida no meu quarto, não restava mais nada do Cameron e isso também poderia ser arranjado para que fosse entregue na casa do Zachary, em silêncio.
Então, não havia mais nada a ser feito, nada que me prendesse em Saint Louis.
Era estranho e reconfortante saber disso.
Sendo assim, só havia apenas um punhado de dias até encontrar meu novo lar, New Orleans.

Formatura.

O dia da formatura veio mais rápido do que o esperado. Havia conseguido escapar de todos os compromissos nesse interim, salvo pela mochila em meu quarto, tudo já havia sido entregue na minha casa. No Coffee Prince, tudo estava efetivado para minha transferência, que ocorreria em três dias.
Avistei meus pais na platéia e uma pouco mais atrás, os Harrington.
Houve uma ruptura entre as famílias quando eles descobriram que eu era gay, enquanto meus pais, Allison e John, aceitaram e sentaram comigo para conversar em como seria minha vida dali para frente; os Harrington, Veronica e Alfonso, trataram como algo a nunca ser comentado, varrido para debaixo do tapete. E mesmo depois de anos, ainda mantinham a esperança que achasse a mulher certa, Cameron retornaria ao seu juízo – palavra deles. Diante da recusa em aceitar a realidade do próprio filho, não foi surpresa ter Zachary junto a minha família e não com a do Cameron.
Munido da sensação de liberdade, assim como os outros, descartei o capelo e corri para minha família. Mamãe mantinha os olhos rasos de lágrimas e papai o sorriso orgulhoso dividindo seu rosto, até mesmo Zachary. Por ter chegado um semestre após nós, ele não havia se formado conosco, mas parecia tão contente quanto nós. Não tardou para Cameron surgir e ser recebido tão efusivamente quanto eu fui e, de certa forma, me senti feliz. Como quando éramos no começo.
Não demorou para que nos retirássemos para restaurante previamente estabelecido por meus pais, já imaginando que veria a seguir do outro clã, também fizeram questão que o casal nos acompanhasse.
Não foi até o fim do jantar que a bomba caiu.
— Você tem certeza que não quer que te acompanhemos? Ainda dá tempo de comprar as passagens e mesmo que não dê, podemos ir no próximo voo. — Mamãe perguntou num tom relativamente baixo ao meu lado.
— Você não precisa se preocupar, já está tudo tão organizado, quanto poderia ser, sem falar que não é tão distante assim, mamãe. — A provoquei num toque de ombro e fui amplamente arrebatado em um abraço apertado e um beijo estalado na bochecha.
— Enquanto Chase está indo para Luisiana, quais são os planos para vocês? — John perguntou inocentemente e me senti perder a cor em meu lugar.
— Desculpe-me? — Senti-me encolher diante do tom habilmente articulado para soar calmo, pela periférica vi o queixo caído do Zachary e ao lado, Cameron franzindo as sobrancelhas, lançando olhares de mim ao meu pai.
Era difícil esconder alguma coisa da pessoa que cuidou de você desde que nasceu e Allison era a única pessoa que sabia dos meus sentimentos, talvez papai também soubesse, mas ele mantinha a rédea curta quando se tratava de coisas do coração. Não foi difícil para Allison perceber o que estava acontecendo comigo e o porquê Cameron parecia tão surpreso.
— O jantar estava maravilhoso, mas estou pensando na sobremesa, ouvi dizer que o petit gateou daqui é fabuloso.
— Isso eu não vou deixar passar. — Em um gesto discreto vi John acenar para o nosso atendente e Allison entabular uma conversa com Cameron e incluir Zachary no pacote, já que essa era a especialidade dele.
Durante todo o tempo senti o peso do olhar perfurando a lateral do meu rosto.
— Eu vou passar, pessoal. Amanhã cedo tenho que ir para o CP. Agradeço pelo jantar, pai, mãe. — Aproveitando a conversa paralela, escorreguei do meu lugar e deixei um beijo para Allison e John, escapando antes que fosse tarde demais.
Covarde, eu sei, mas um covarde um pouco menos machucado.

Meia hora depois estava abrindo a porta do apartamento e agradecendo aos céus por Carlos e Hill não estarem em casa. Ambos eram legais de ter por perto, principalmente Carlos, que havia contribuído muito para que não caísse em uma rotina prejudicial e me isolar. Foi natural que Cameron passasse seus dias gravitando ao redor de Zachary e por mais amigos que tivesse durante o período de aula e o pessoal na cafeteria, não tinha disposição para manter o ritmo como se nada tivesse acontecido. Metade de mim tinha ruído no dia que soube sobre o Zachary, o outro pedaço que sobrou era pequeno demais para deixar a deriva e correr o risco de ser pisoteado, novamente.
Foi uma benção receber o pequeno tagarela Carlos em casa, mas hoje não era um dia que gostaria de conversar. Era minha última noite ali e queria descansar para o voo cedo.
Mesmo sabendo que não dormiria instantaneamente.
Retirei a roupa e joguei pela última vez na máquina de lavar, munido da toalha, me encaminhei para o banho. Suspirei ao sentir a água quente trabalhar nos músculos tensos, descansei a testa no azulejo e permaneci de olhos fechados por um par de minutos apenas aproveitando a pressão da água, para então, começar a tomar banho.
Enrolei a toalha da cintura, recolhi alguns dos itens de perfumaria para colocar na bolsa, deixando apenas o que usaria na manhã seguinte. Com as mãos cheias, voltei para o quarto e estaqueei na porta.
— Como diabos você entrou aqui?
— Eu ainda tenho a chave, Chase.
— Certo, me dê um minuto. — A tensão recém perdida achou seu caminho rapidamente para meu corpo, atando em nó meu estômago.
Ignorei a figura sentada aos pés da minha cama e me encaminhei para a mochila, retirei a boxer e o conjunto do pijama que até então não tinha pretensão de usar, fiz o caminho de volta para o banheiro para trocar de roupa, novamente ignorando o olhar perplexo.
— Sério? — Dei de ombros e fechei a porta.
Durante o tempo do colegial e após, enquanto dividíamos o apartamento — antes mesmo de sequer existir o sexo entre nós — pela familiaridade e a amizade, não havia nenhum recato a ser mantido, era habitual trocar de roupa na frente do outro ou até mesmo estar despido. Mas agora, por mais próximos fisicamente que havíamos sido e que Cameron conhecesse meu corpo, não havia maneira que faria isso novamente diante dele.
— Pronto, o que posso fazer por você, Cameron?
— O que você pode fazer por mim? — Ergueu as sobrancelhas fitando-me com estranheza.
— Sim, acredito que você veio por algum motivo, correto? Deixe-me aproveitar e te entregar isso, durante a mudança, achei algumas coisas suas, ia enviar, mas já que você está aqui, pode levar com você…
— Foda-se, Chase! Que tal ir direto ao ponto. Quando você ia me dizer que estava indo embora? Eu não sou o seu amigo? Não deveria receber algum tipo de aviso? — Antes que pudesse evitar, deixei escapar uma gargalhada que soou histérica até para meus ouvidos.
— Um tipo de aviso? Sério, Cameron? — Que dia de merda! Traguei uma respiração funda que não valeu de nada, pois não conseguia parar de rir, nervoso. — Isso não deveria ser tão engraçado.
— Isso não tem a porra da graça, Chase! — Extravasou passando os dedos entre os cabelos, visivelmente irritado.
— Desculpe. — Respirei fundo, controlando a histeria que sentia guerrear com toda a tonelada de rancor que gostaria de esfregar em cada suposta ferida aberta no seu discurso inflamado. — Aconteceu de repente a abertura da vaga em outro estado, com a faculdade terminando, resolvi aceitar a nova proposta. Sim, você é meu amigo, não vejo a necessidade de alarde sobre o assunto, Cameron. — Seu queixo caiu.
— Alarde?! Nós somos amigos, Chase. Amigos! — Engoliu, recuando um passo. — Bastardo! Como você… Eu não sei porque eu vim aqui.
— O que você quer de mim, Cameron? O que quer que eu te diga?
— Por que não me contou, Chase? — Endureci diante do olhar ferido. — Achei que pudéssemos falar de tudo um com o outro. Sei lá, quem sabe um aviso, uma mensagem.
— Aviso? — Ponderei por um momento. — Eu não sei o que é isso. Se me lembro corretamente, não recebi nenhum. E quanto a falar de tudo um com o outro, nós podemos, já não fizemos isso anteriormente? — Engoli o amargor em minhas palavras, passei as mãos pelo rosto e respirei fundo. — Novamente, Cameron, me desculpe por não te contar sobre essa mudança, tudo aconteceu rápido. Vi a oportunidade e pulei nela. Não sei mais o que posso dizer.
Cameron me fitou, como se realmente me visse pela primeira vez em muito tempo, permaneci ereto durante seu escrutínio, educando meu rosto para que nada mais ficasse a mostra. Seus olhos estreitaram por um instante e desviei o olhar.
— Chase, vo-você… — Gaguejou e cortei antes que pudesse virar uma verdadeira bola de neve.
— Estamos bem, Cameron, sempre estaremos. Você é meu melhor amigo na porra desse mundo. — Dei uma batida no ombro dele. — Não esquente a cabeça, está tudo bem, certo? — Vagamente assentiu. — Não querendo ser um filho da puta insensível, o avião sai amanhã cedo. — Fiz um gesto em direção a porta.
— Ok. Certo. — Franziu as sobrancelhas engolindo com uma certa dificuldade, coloquei a caixa em seus braços e delicadamente o encaminhei em direção a porta.
— Assim, que chegar por lá e deixar tudo em ordem envio o endereço. Podemos agendar alguma coisa, talvez, não nos primeiros dias, já que não sei ao certo a escala e como vai se desenvolver o trabalho. Mas assim que puder, o farei.
— Entendo. — Abri a porta o deixei passar, voltou um passo e me abraçou num gesto enérgico, pelo menos, o quanto era possível com a caixa. — Nós estamos bem, Chase? — Perguntou baixinho, quase como se não quisesse perguntar ou tivesse medo da minha resposta. Engoli o nó firme em minha garganta e apenas assenti, não confiando em mim mesmo para dizer alguma coisa — Eu nunca quis te magoar, nunca.
— E você não o fez. — A culpa era minha, minhas expectativas, meu sonho infantil de ter um relacionamento com o meu melhor amigo, nunca seria culpa dele. — Eu te disse, estamos bem. — O aperto se tornou tenso a minha volta antes que recuasse desvencilhando do abraço. — Dê um abraço no Zachary por mim. Nos veremos em breve.
Dessa vez ele não encontrou meus olhos, correspondi o aceno e o vi sumir pelas escadas.
Aquele capitulo foi firmemente encerrado.

 

Parte II

Te bebi de uma vez só
Achei que poderia te afastar com a noite fria
Deixar alguns anos diminuírem o que eu sinto por você
Você pode partir meu coração em dois
Mas quando sara, ele bate por você
Eu sei que é demais, mas é verdade
Quero te abraçar quando eu não devo
Quando estou deitada do lado de outra pessoa
Você está grudado na minha cabeça e não consigo te tirar
Se pudesse fazer tudo de novo
Sei que voltaria para você
Selena Gomez — Back to you
 

Três anos depois

Viver em New Orleans definitivamente foi uma mudança bem-vinda.
Os últimos três anos foram nada mais do que um longo tempo dedicado a mim mesmo e meus pais, quando eles apareciam. A sensação de ser egoísta e lentamente me distanciar de Cameron não foi nem de longe algo que fiz de ânimo leve e havia momentos onde apenas queria alcançar o celular e mandar uma mensagem, mas nunca o fiz.
Diziam que o tempo poderia ajudar a cicatrizar algumas feridas e, veja você, não era necessariamente uma verdade absoluta. Não, nem um pouco, se for sincero. Mas as coisas estavam encaminhadas de uma maneira que poderia controlar, pelo menos aquele pedaço da minha vida. Enquanto minha vida no trabalho era articulada e regada a companheirismo e trabalho de equipe, o mesmo não poderia ser dito da minha vida privada. Entrei uma rotina onde acordava cedo e ia para o trabalho às cinco da manhã e era o último a sair às meia-noite.
Acontece que, quando cheguei ali, Judy não tinha mentido sobre precisar de rédeas curtas e colocar a bagunça nos eixos. A equipe anterior foi regiamente demitida após eu dar uma de Undercover Boss, os novos trabalhadores foram escolhidos a dedo por mim e não apenas pelo seu Curriculum, mas por quem eram fora dali e seus backgrounds familiar e em alguns casos, a falta dele.
Então, quando a pequena Ariana entrou ofegante no meu escritório, claramente abalada em suas belíssimas curvas e sorriso fácil, me vi sorrindo antes que pudesse evitar. Sim, sua pele canela foi coberta de uma cintilante camada carmesim ressaltando seus belíssimos olhos âmbar, aquilo só podia significar uma coisa: uma ou um belo cliente havia aparecido.
— Chase! — Jogou-se na cadeira claramente se abanando — Preciso de você lá fora, cherrie. — Seu sotaque pingou doçura e tomando uma longa respiração tratando se acalmar os ânimos.
— Já posso imaginar o motivo da sua agitação. — Consciente da sua constante manobras para me arranjar encontros, fui rápido para escorregar para longe. — E por mais que gostaria de descansar os olhos desses números, não posso fazer isso nesse momento. — Mal terminei de falar e ela estava dispensando minha recusa em um aceno.
— Você não entendeu, Chase, estão procurando por você.
— Por mim? — franzi o cenho conferindo que dia da semana era, não havia nada previsto – Não tenho nada agendado. — Murmurei conferindo no celular, também nada. — A não ser que seja algum cliente importunando.
— Seria mais fácil te arrastar pelas orelhas até o balcão e deixar você resolver isso. Aparentemente não é um cliente regular, apesar de ter feito seu pedido, não me parece ser alguém enviado para empurrar algum produto. Então, erga seu traseiro magro e vá ver o que o semideus quer com você. — Fez uma careta pondo-se de pé e alisando a roupa — Enquanto isso, ficarei ao lado apreciando a bela paisagem. — Piscou antes de se retirar.
Por mais que minha posição fosse um degrau acima dos outros, me mantinha na mesma linha que todos adotando o mesmo uniforme, horários e rodízios quanto a manutenção do ambiente coletivo. Não havia nada que me diferenciasse de um dos trabalhadores e particularmente apreciava, ao mesmo tempo que, mantinha minha equipe equilibrada, estava mais próximo aos clientes já que ninguém podia imaginar que usando uniforme como os outros era, finalmente, dono do estabelecimento e deixavam escapar comentários bons, ruins e dicas do que poderia melhorar.
Arrastando-me da minha mesa, não me importei em conferir se estava devidamente alinhado, podia imaginar que meu cabelo estava um pouco desalinhado pelo movimento repetitivo de passar os dedos pelo cabelo e nem com quilos de maquiagem poderia esconder a fadiga, nem mesmo os aros que permaneciam escorregando em meu nariz podiam amenizar as olheiras.
Antes que pudesse entrar na área da vitrine, Ariana apontou para a porta que levava para o hall onde os clientes poderiam retirar seus pedidos. Desviando da rota de origem, abri a porta esquadrinhando os poucos clientes conversando ali e arrastei o olhar para um deles de costas largas e um terno muito bem preenchido, o tom castanho avermelhado teceu um nó em minhas entranhas ao lembrar de uma juba comumente desgrenhada naquela mesma tonalidade. Arquivei o desconforto habitual causado pela lembrança e tecendo meu caminho até a mesa, aproveitei para cumprimentar os rostos assíduos. Não podendo adiar mais, caminhei para a mesa do canto próximo a janela.
Só foi tarde demais, ao parar ao lado da mesa, que me dei conta do tamanho do erro que havia cometido.
Tudo me atingiu ao mesmo tempo.
Os olhos esverdeados cravaram nos meus, o sorriso curvou os traços cinzelados, agora mais pronunciados. A juba havia sido substituída por um corte moderno de escritório, o jeans foi substituído pelo Armani. O ar brincalhão que sempre mantinha todos em êxtase parecia ter crescido, porém, com um toque a mais de poder. Ele estava mais maduro, não mais como o garoto que havia deixado para atrás.
E eu, mais uma vez, me vi profundamente perdido diante dele.
— Chase. — Meu nome ressoou como uma melodia antiga, vibrando e rodopiando por meu corpo, atingindo cada nervo e sossegando em meus ossos. Engoli em seco ao ter o velho coração juvenil gaguejando uma batida.
— Cam. — Saiu como um sussurro intimo o qual rapidamente engoli e voltei a pronunciar com mais ênfase e um fio de enregelado. — Cameron.
O sorriso quase predador aumentou de tamanho ao passo que ele afastou a cadeira ficando um pé a mais do que lembrava da minha altura. Dando a volta a mesa de pequeno porte, diminuiu a distância entre nós e sem o mínimo de cerimonia após os anos afastados, tomou-me em seus braços em abraço apertado.
Levei alguns segundos para retribuir, se ele percebeu, não comentou, apenas continuou o aperto firme.
Por outro lado, foi como voltar para casa. Meu corpo rapidamente recobrou como era estar em seus braços nas mais diversas situações. Foi inevitável não deixar escapar o profundo suspiro estrangulado do meu peito que tentei trancar naquela caixinha que já não mais abria, mas não foi possível. Apertei o abraço tanto quanto ele, esquecendo por um minuto de onde estava e do quanto tinha se passado. O perfume profundo amadeirado com toque de especiarias e um fio de Moscato Rosé, ainda era o mesmo. O corpo parecia mais firme contra o meu e meu cérebro foi rápido em ressaltar como nossos corpos encaixavam-se com perfeição, quase como se fossemos criados do mesmo molde. Fechei os olhos a caricia intima e, ao mesmo tempo, inocente de roçar os dedos por meus fios desgrenhados.
— Finalmente você o encontrou! — A voz entusiasmada foi como um balde de água fria em meu corpo aquecido, nas memórias e lembranças do tempo longínquo, imediatamente dei um passo atrás, me repreendendo sobre minha fraqueza e por nem mesmo me perguntar onde o dono da voz estava.
— Ei, Zachary. — Profundamente dolorido abri o sorriso com o máximo de entusiasmo que pude revolver entre os escombros do que havia acabado de ruir.

Três malditos anos.

Porque quando você olha para mim com aqueles olhos
 

Estou sem palavras
 

 

Speechless — Dan + Shay

Minha última lembrança era: o rapaz atormentado que envolveu seus braços a minha volta, de forma desajeitada, uma mistura clara de afastar e puxar para perto, de olhos perdidos, claramente empurrando-me para mais longe dentro do que era possível.
Não houve um dia em que eu não repetia o que havia acontecido durante aquele último ano e a maneira como tudo terminou.
Foi além de estar perdido porque meu amigo saiu, sem olhar para atrás, por olhar em volta e não o enxergar ou tê-lo a distância de um toque ou pela falta de contato que, sejamos francos aqui, eu também não o fiz — claramente magoado com a situação. Porém, quanto mais o tempo passava, mais a dor aumentava e nada mais parecia fazer sentido.
Foi óbvio para Zachary o que estava acontecendo enquanto eu ainda estava desiquilibrado, tentando me adequar a uma rotina com uma parte faltando.
Só havia um problema nisso.
O que fazer com dois corações partidos, e possivelmente um terceiro?
E um fato ainda mais importante, como voltar e dizer que o rapaz que facilmente caiu devido as graças do segundo, perdido em uma exuberante paixão repentina, era agora o homem que, agora eu sabia a quem realmente pertencia?
Um olhar piscou traído rapidamente em minha direção antes que ele pudesse se fechar diante dos meus olhos e articular-se o suficiente para ser educado e receptivo por quem uma vez havia tomado seu lugar.
— Venha aqui! — Zachary não esperou que ele tivesse tempo antes de envolvê-lo em um abraço apertado de quem não via seu amigo há muito tempo, pelo menos ele o via dessa forma. — Confesso que nunca tive a oportunidade de vir aqui, rapaz, isso é uma beleza e não digo apenas sobre seu lugar. — Se afastou e fez um gesto apontando ao entorno, antes de, novamente, prender Chase pelos ombros. — Que, devo dizer é uma graça. — Zachary parou por um segundo tomando uma longa respiração de olhos fechados, para, então, abrir os olhos e fixar em um Chase aturdido.
— Não me diga que isso que estou sentindo é Beignets?! — Seus olhos dobraram de tamanho, como uma criança ao ter seu doce preferido, diante da confirmação abriu um sorriso largo. — Ok, eu vou ter que ir atrás disso e um café com chicória, ouvi dizer que é uma maravilha! — Soltou um Chase estupefato. Caminhando alguns passos antes girar e parar a minha frente, um passo dentro do meu espaço pessoal. — Ah! O hotel já foi reservado. — Colocou a mão em seu próprio bolso e acenou o cartão magnético, para escorregá-lo em meu bolso.
Chase não perdeu o latejar afiado dos diamantes no anel de platina, da aliança de noivado. Como se fosse ainda mais insuportável, o vi afastar quase como reflexivamente um passo atrás, e a cor que ainda lhe restava, escorreu por sua face. Ele desviou o olhar para longe da troca, levemente encurvado como se houvesse recebido um soco no estomago. Tratando de se recompor, levou a mão trêmula na bonita bagunça cacheada e escura dos seus cabelos.
Se Zachary percebeu a falta significativa de cor nas bochechas de tom canela e a dor escorrendo nas irises acastanhadas, ele apenas ignorou e nos lançou uma piscadela antes de afastar-se e começar uma conversa animada com a mesma moça que havia me atendido, Ariana.
— Então, o que o traz aqui, Cameron?
Como se uma versão robótica fosse posta no lugar do Chase, separando hermeticamente sua vida do profissional, que agora assumia a conversação, da vida pessoal do primeiro instante.
Causou um pulsar dolorido em meu peito.
E eu não gostei nada daquilo.

Você

Mesmo se o meu corpo quebrar, mesmo se o meu coração está despedaçado
 

A promessa de proteger você
 

Aquela promessa vai ser eternamente a mesma coisa
SHINee — Y.O.U
Não havia palavras possíveis nessa vida, e em outras, para descrever o quão idiota e esperançoso eu poderia ser. Aqueles malditos fragmentos que haviam me sobrado durante todos esses anos e estavam guardados naquela pequena caixinha em meu peito que brilharam por um segundo diante de um mero aceno, foram duramente pisoteadas até que o mais fino pó sobrasse em seu lugar.
Acenei para a mesa e me sentei antes que minhas pernas pudessem falhar diante do esforço Herculano que fiz ao tentar manter o tom agradável em vez de sair rastejando em direção ao meu escritório e me esconder embaixo da mesa, esperando que os dois sumissem da minha frente, como uma versão infantil de mim que se escondia embaixo das cobertas nos dias de chuva.
— Então, os parabéns estão em ordem? — Acenei em direção a Zachary e injetei o melhor sorriso que poderia conseguir com o que havia restado da minha energia. — Fico feliz por vocês. — Fiquei satisfeito por não engasgar em minha própria mentira e ainda mais, por não deixar transparecer que estava profundamente deteriorado em inveja. — Se está aqui pelos velhos tempos, toda aquela coisa de acompanhar vocês do início, e a procura de um padrinho, eu sou seu cara.
A face cinzelada turvou em confusão enquanto ele me olhava como se tivesse criado uma segunda cabeça. Com um traço não tão aleatório de quando estava em uma situação além do que podia controlar, continuei a divagar, como se minha própria boca não pudesse ficar em silêncio.
— … só preciso que me diga qual a paleta de cores e prometo que estarei em dia com qualquer coisa que vocês escolherem para o terno, fraque ou smoking, algo que vocês tenham escolhido. Eu preciso conferir que dia seria e se poderia estar de folga….
— Chase? Espero não estar interrompendo, mas temos uma situação. — Nolan Gobrecht interrompeu a ladainha itinerante e eu poderia beijá-lo por fechar a torneira da diarréia verbal que me tinha acometido.
— Sem problemas. — Saltei da cadeira sem um segundo pensamento. — Eu falo com você depois, Cameron, certo? A não ser que você esteja apenas de passagem. — Franzi as sobrancelhas num misto de alegria e tristeza e, novamente, querendo usar a cadeira para testar o quanto minha cabeça era dura por me importar se ele ficaria mais um minuto. — De qualquer forma, foi bom te ver. Digo, ver vocês.
Se eu podia ser rápido, o antigo leão ruivo não havia perdido sua agilidade, à minha frente era ainda rápido em seus passos e agarrou meu pulso. Toda uma enxurrada de arrepios percorreu meu corpo, criado ondas de frisson do topo da minha cabeça até os dedinhos dos pés. Mordi uma resposta ainda mais vergonhosa da minha parte e deixei que meus olhos pousassem na mão polvilhada de sardas, passando pelo majestoso tecido do Armani e ergui os olhos para encontrar a tempestuosidade esverdeada fitando-me com determinação.
— Se for cinco minutos ou algo que te detenha pelo resto do seu turno, estarei exatamente aqui te esperando. Não importa o quanto demore.
Oh, Porra!

Sem palavras

Porque observando você é tudo o que eu posso fazer
 

E eu estou sem palavras
 

… depois de todo esse tempo eu estou tão nervoso
Dan + Shay — Speechless
Droga!
Nada estava saindo da maneira que eu queria.
Voltei a sentar revirando o copo entre minhas mãos enquanto olhava pela janela a vasta gama de turistas caminhando e sorrindo, enquanto deste lado do vidro, eu sentia cada parte de mim estar lentamente desmoronando numa crise renovada de nervoso e medo.
— Deu certo?
— Antes ou depois do seu showzinho? — Respondi mal-humorado e Zachary revirou os olhos.
— Não sei o motivo do drama, estava apenas dando um empurrãozinho e pelo que descobri, nosso garoto não anda vendo ninguém, segundo a bela moça do balcão. Isso não é uma boa coisa? E tem outra, pelo que vi, Chase ficou profundamente abalado por nosso suposto noivado. Não sei porque você está tão preocupado, Cam.
Traguei uma longa e profunda respiração para não estrangular o belo pescoço do meu amigo e ex-namorado enquanto ele apreciava sua sobremesa sem um pingo de arrependimento.
Como explicar a ele que temia por uma rejeição?
Não importava realmente como Chase havia reagido. Sim, importava, mas poderia ser por tantos motivos que nada tinham a ver comigo exatamente. Ele poderia ter reagido exatamente como reagi três anos ao não saber que ele estava indo embora. Tantas coisas passavam pela minha cabeça, mesmo aquela pequena gaze de informação não era o suficiente para abrandar o temor que regia meus ossos.
Havia tanto a ser dito, tanto a explicar, pelo menos tentar, e rastejar por um minuto do seu tempo, ou trabalharia com o que fosse me dado, desde que ele quisesse estender as mãos em minha direção.
— Não é difícil perceber que você já não é mesmo do tempo da faculdade. E não digo isso apenas por sua aparência que mudou em 180º daquele rapaz, também não digo sobre as marcas de expressões que você agora carrega, ou as olheiras…
— Espere, isso era para me animar? — Ergui uma sobrancelha para ganhar um farfalhar da mão dispensando minha pergunta e ele continuou.
— Se para mim é fácil perceber essa mudança, para ele que não o vê há tantos anos, no primeiro momento que realmente sentarem para conversar, ele saberá, Cam. Não tem nada a temer. Nada. — Cobriu minha mão deixando um aperto reconfortante. — E se por um acaso Chase já não esteja na sua, o que devo dizer, é mais fácil o tal inferno congelar, existem mais peixes nesse mar. — Deu de ombros.
Zachary dizendo assim, parecia tão fácil, mas não era isso que sentia.
Longe disso.
— Então, que horas Theodore chegará? — O brilho do olhar do outro foi o suficiente para clarear o ambiente ao nosso redor, ao passo que, um belo sorriso foi estampado em sua face.
— Cerca de uma hora ou um pouco mais, ele está resolvendo algumas coisas para nossa nova casa. Quem sabe, seremos vizinhos se tudo der certo. — Mostrou os dedos cruzados de ambas as mãos. — Assim que ele chegar, sairemos do seu cabelo, antes terei que apresentá-lo para Chase, como meu noivo, é claro.
Seu sorriso tomou proporções maiores deixando entrever os dentes inferiores levemente separados, que anteriormente havia-me feito balançar, porém, agora não passava de um detalhe charmoso, mas sem chamas. Um belo sorriso contagiante.
Ou, pelo menos, quase contagiante.

Parte III

Softcore

Está acabando comigo e de repente eu estou… me desfazendo
Ele está acabando com a minha mente
Ele está acabando com a minha vida
The Neighbourhood — Softcore
— Graças a Deus, Nolan! — Mal dei tempo para que ele passasse antes de fechar a porta e recostar sobre ela.
— É ele, certo? — Encostou-se a beira da minha escrivaninha cruzando os braços com um olhar de curiosidade e conhecimento, turvado os traços de cansaço. Confirmei num balançar de cabeça e ele assobiou. — Ele é ainda mais bonito do que você disse ou vi em fotos. O bonitinho no balcão era o namorado?
— Noivo. — Respirei fundo, alisando minha roupa e saindo da posição onde estava para dar a volta e sentar na minha cadeira. — Te devo uma pela desculpa.
— Bom, não era realmente uma desculpa. — Girou em sua posição e sentou-se à minha frente. — Annelise precisará fazer outra consulta hoje às cinco e dessa vez Cecilia não estará em casa para levá-la.
Conferi o horário no pulso, 16:15.
— Você precisará sair mais cedo, sem problemas, Nolan.
A pequena Annelise era sobrinha do mais próximo do que podia chamar de amigo íntimo entre os funcionários, Nolan, e sofria com leucemia mieloide aguda, não há muito tempo descoberta e tanto o tio, como a mãe, Cecilia, estavam fazendo um verdadeiro malabarismo quanto ao tratamento e revezando-se para cuidar da pequenina.
— Está dispensado, Nolan, e saiba, qualquer coisa estou ao alcance de um telefonema, certo? — Dei a volta na mesa e deixei um abraço apertado no rapaz abatido ainda sentado. — E não se preocupe com nada, você está coberto.
— Obrigado, Chase, no fim, sou eu que estou te devendo uma. — Piscou pondo-se de pé. — Não seja bobo e não se esconda aqui, está me ouvindo? Se ele veio até aqui, é porque tem algo a dizer.
Abanei com a mão enxotando-o para fora do aposento. — Você sabe, duas garrafas de vinho, ficar bêbado e despejando um monte de porcaria, não quer dizer nada, Nolan, esse navio zarpou há anos.
— Certo. — Bufou dando de ombros. — Você é quem sabe, chefe, mas onde tem fumaça, há fogo. E aquele lá. — Apontou com o polegar por cima do ombro. — Está pegando fogo, sem trocadilho com aquele cabelo maravilhoso.
— Por Deus no céu, Nolan! Vá de uma vez. — Ainda com o um ar sabichão o vi escapar pela porta.
Esperei que a porta se fechasse para sussurrar.
— Ele é noivo. — Relembrando o anel maravilhoso que estava na mão de Zachary. — Eu estou feliz por eles. — Respirei fundo afastando o redemoinho no peito se rebelando contra aquela frase praticamente sem sentido. — Eu estou, coração estúpido!
Tomando outra respiração, alcancei meu avental com o logotipo da loja, passando pelo banheiro dos funcionários, arrumei o cabelo desajeitado em um coque, lavei o rosto para afastar o cansaço do dia e após isso, me dirigi a frente do estabelecimento, junto a Ariana e Jonelle. Claro que o ritual não tinha nada a ver com quem preenchia uma das mesas, nem mesmo perto.
A partir daquele momento, começaria um dos horários de pico, pessoas saindo do trabalho, outras passando para pegar uma coragem líquida para começar seu turno, sem falar nos turistas que geralmente escolhiam aquele horário para uma parada estratégica e descansar os pés.
Não tardou para que rostos conhecidos misturados a outros não tão conhecidos enchessem a loja, pedindo uma variedade de bebidas, doces e toda a coleção de pastelaria. Uma boa hora havia se passado antes que o próximo cliente parasse a minha frente com um sorriso largo, com uma certa intimidade, como se já me conhecesse.
— Boa tarde, Chase. — Completou dando uma olhada no crachá em meu peito e, se possível, seu sorriso cresceu mais um pouco.
— Boa tarde, o que posso fazer por você? — Lhe dei um sorriso educado.
— Vou querer um café gelado com sorvete de laranja, calda de chocolate, essência de baunilha e chocolate em pó, chantilly, leite, canela e hortelã. — Anotei o pedido bem especifico e ao fim, ele sorriu novamente, destacando os piercings nas bochechas.
— Mais alguma coisa? — Ergui o olhar para ele e este me observava com renovada atenção, tardando em responder minha pergunta.
Assim como ele o fazia, parei para observá-lo melhor, ele parecia ter a minha altura, entre meus 1,75 ou até mesmo 1,80, asiático, com o cabelo no estilo taper fade dramático e estilizado em um tom perolado contrastando com o terno de lavagem escura.
— Ouvi dizer que os Beignets são uma delícia por aqui, gostaria de prová-los e, por favor, duas tortinhas de chocolate.
— Eles realmente são. — Sorri com orgulho, pois era justamente eu quem os fazia. — Mais alguma coisa?
— Por enquanto é só. — Estendeu seu cartão e logo fiz o desconto retornando o mesmo e a nota fiscal. — Obrigado, Chase.
— Eu que agradeço, Perry…
— Meus amigos me chamam de Theodore ou Theo. — Certo, um minuto de estranheza bem aqui, por fim, dei de ombros, quem sabe ele se tornaria um cliente regular.
— Certo, Theodore, seus pedidos logo serão entregues. — Assentiu dando uma olhada em volta e enquanto eu partia para voltar a atender o restante da fila.
Não demorou que a calmaria novamente reinasse e aproveitei do instante para ajudar as meninas, tanto com as bebidas, quanto os alimentos. Cerca de meia hora depois que não havia mais nada a ser feito a não ser limpar as mesas e levar utensílios usados para cozinha, ouvi meu nome ser chamado do balcão.
— Ei, Zachary, o que posso fazer por você? — Notei que ele não estava sozinho, mas Theodore estava com ele. Rapidamente procurei alguma lembrança do rapaz do tempo da faculdade, voltando com nada.
— É mais o que eu posso fazer por você. — Sussurrou não tão baixo como deveria, ergui as sobrancelhas e os fitei com curiosidade. — Nós já estamos de saída e não queria partir sem antes te apresentar Theodore. — Pousou o braço na cintura do mais alto e o outro o abraçou sobre os ombros, o levando para mais perto do seu corpo. — Meu noivo.
Senti meu próprio queixo escancarar e rolar para longe diante da última parte. Ao passo que, as palavras meu noivo pareciam rodopiar a minha volta, zombando diante da minha perplexidade.

Lullaby

 

Então, basta tentar mais uma vez
 

Com uma canção de ninar
 

E aumente o som disso no rádio
Nickelback — Lullaby
 

— Espere, o quê?! — O esmorecer me fez segurar com firmeza no balcão tentando codificar as frases soltas por Zachary, como se não fossem nada demais.
— Bom, aconteceu há cerca de três anos. — Ele deu de ombros como se não fosse nada grandioso, como havia sido receber aquela notícia. — Bom, de certa forma não é minha história para contá-la, essa parte, pelo menos, fica com o grandão.
Apontou com a cabeça a direção, segui o olhar para encontrar um Cameron completamente perdido olhando para os transeuntes.
— Mas se quer mesmo saber. — Voltei a fitá-lo numa perca de palavras. — Foi bom para me fazer enxergar por quem realmente eu estava apaixonado, mesmo que não soubesse inteiramente. — Pousou a mão no peito de Theodore e este logo segurou a mão do primeiro e o levou até os lábios.
— Sinceramente, nem sei o que dizer, Zachary. — Balancei a cabeça para me tirar do estupor que me encontrava, ainda anestesiado que a informação que colhi anteriormente não poderia ser mais incorreta.
— Então, não diga e nos dê os parabéns. — Piscou esperto e rapidamente soltando do noivo, me alcançou por cima do balcão dando um abraço apertado e completamente desajeitado. — Eu sei que é repentino e totalmente fora do que você estava esperando, mas dê uma chance, deixe que ele te explique e esclareça algumas partes que você nem imagina. Cameron é um bom garoto e assim como você, esses três anos não foram exatamente tranquilos em praticamente nenhum aspecto da vida dele. — Sussurrou em meu ouvido. — Prometa, Chase, que vai pelo menos ouví-lo?
— Claro. — Garanti mesmo não tendo certeza se o faria.
— Sendo assim, nós vamos agora. — Soltou-me deixando um beijo em minha bochecha. — Foi realmente bom vê-lo novamente, Chase. Sei que nos veremos com frequência, afinal os meninos estão vindo trabalhar aqui. Opa, alerta de spoiler! — Cobriu a boca com ambas as mãos como se realmente estivesse preocupado, totalmente aquém do olhar brincalhão que me lançou e piscou, para então acenar e sair com Theodore.
Atônito acompanhei o casal sair de mãos dadas e olhares trocados entre eles como se ninguém mais existisse ao redor de ambos, logo estavam perdidos em meio à multidão que passava e eu ainda parado sem acreditar.
— Chase, tudo bem? — Ariana tocou meu braço e virei-me para fitá-la.
— Sinceramente? — Observei o aceno ansioso e a preocupação com um traço de curiosidade em seu olhar discretamente maquiando, ressaltando os pontos dourados em suas irises castanhas. — Eu não sei.

Paraíso

A vida continua
 

Fica tão pesada
 

A roda corrompe a borboleta
Coldplay — Paradise
— Aparentemente os parabéns, com relação a você, não estão em ordens. — Observei enquanto Chase descansava as mãos nos bolsos e olhava-me avaliativo.
— Não estão, a não ser que conte estar mudando de estado e terminando qualquer relacionamento com a minha família? Bom, acho que nesse caso, é um sim e obrigado.
— O quê?! — Ele empalideceu e afastou a cadeira sentando com um baque. — Certo, eu sabia que naquele tempo, seus pais eram extremamente idiotas quanto quem você realmente é, que nenhuma mulher pode mudar isso, mas as coisas chegaram a esse ponto? — Confirmei com um aceno e ele bufou. — Bom, é a perda deles, certo?
— Certo. — Ficamos em silêncio apenas olhando de um para outro, quase a ponto do constrangimento. Aparentemente, havíamos perdido a camaradagem silenciosa também.
— Olha, Cameron, eu não tenho planos de sair daqui até o encerramento, além de estar no lugar do Nolan, o rapaz de antes, e isso não acontecerá antes que seja muito tarde. Sendo assim, eu te aconselharia ir para seu hotel e tomar um descanso.
— Mas… — Ele ergueu as mãos e eu rapidamente silenciei meu protesto.
— Cameron, se você quer conversar comigo, pode voltar mais tarde e prometo que iremos conversar sobre o que você quiser, desde que seja rápido, tenho que estar aqui cedo. Podemos marcar para amanhã ou qualquer outro dia. — Dei um pequeno aceno. — Prometo que não irei a lugar nenhum, veja, você sabe onde eu trabalho e moro praticamente perto daqui, não há verdadeiramente uma escapatória. — Riu sem um pingo de humor. — Fica a seu critério, certo?
— Agora posso falar, papai? — Ergui a sobrancelha o que causou um sorriso que a custo ele manteve na baia. — Deus, ninguém me chama de Cameron, além do meu pai. — Fiz uma careta estremecendo em repulsa e dessa vez ele riu.
— Certo, Cameron, faz muito tempo que você já não é Cam que eu conhecia e não sei se é correto usar esse apelido. — Foi a vez dele de fazer uma careta e pender a cabeça pensativo. Não durou muito para que um sorriso sacana torcesse os lábios carnudos. — Vou ficar com Cameron mesmo.
— O que você quiser. — Revirei os olhos e ele riu causando um espiralar em meu estômago de felicidade por fazê-lo rir, nem que fosse de uma coisa boba como aquela. — Bom, acho que com isso estou sendo dispensado, correto?
— Não exatamente. — Deu de ombros desviando o olhar. — Fica a seu critério.
— À vista disto, ficamos por aqui, pelo menos por hora. — Afastei minha cadeira ficando de pé e Chase fez o mesmo. — Obrigado por me receber.
— Não precisa agradecer por isso, Cameron. — Frisou meu nome e sorriu largo.
— Idiota. — Resmunguei o que só fez aumentar o sorriso dele, o que por sua vez, causou uma dor no peito pelo saudosismo de ter visto aquele sorriso antes e finalmente conseguir, mais uma vez, ser o receptor de tal beleza.
— Ei, não me culpe, você é quem me procurou, Cameron.
— Eu sei e não me arrependo disso. — O sorriso foi deixado de lado por ele diante do meu tom sério, Chase apenas balançou a cabeça desviando olhar para quem passava na rua.
— Certo, acho que é isso, né. — Abraçou-se sem jeito mantendo o olhar para qualquer lugar, menos para meus olhos.
— Sim, mas dessa vez, não irá demorar, Chase. — Antes que ele pudesse falar alguma coisa, deslizei o cartão com meu contato e em um passo de fé que não iria levar um soco, deixei um beijo em uma bochecha muito bem aparada e fui embora antes que ele pudesse reagir.

Você consegue ver aqui dentro?

 

Todos têm seus demônios
 

Bem acordados ou sonhando
 

Eu sou aquele que acaba indo embora
 

Para que tudo fique bem
 

5 Seconds Of Summer — Jet Black Heart
 

— Ei, Chase.
— Porra! Que susto, Cameron! Porra! — Podia sentir meu corpo estremecer pelo susto e, ao mesmo tempo, regozijar por ele ter voltado, mesmo que fosse tarde.
Ainda recuperando do susto, deixei um olhar varre-lo, Cameron estava ainda mais deslumbrante sem o terno de antes. Agora munido de uma calça jeans escura e uma polo de tom avermelhado, cobrindo quilômetros de pele solida por baixo, ele estava ainda mais bonito, com os olhos brilhantes e um sorriso solto naqueles lábios.
Talvez desconfortável pelo meu escrutínio, vi seu rosto bonito levemente ser tingido numa tonalidade que, no ensino médio, ele tinha raiva pelo efeito desconfortante, mas que eu, particularmente, achava adorável o rosado em suas bochechas.
— Eu imaginei que você pudesse estar cansado de toda pastelaria e trouxe umas pizzas. — Indicou em direção as caixas que segurava e apenas o cheiro fez meu estômago roncar. — Acho que acertei?
— Com certeza. — Ri apesar do constrangimento da minha situação. Não tinha feito minha parte no rodizio para o descanso e quando finalmente tudo estava calmo, acabei voltando para o escritório e a coleção de papelada. — Por mais faminto que eu esteja, tenho certeza que não conseguiria comer as duas pizzas. Venha, minha casa fica à alguns quarteirões daqui. — Ele arregalou seus bonitos olhos e eu sorri. — O quê? Achou que eu te faria comer na rua? Não, meus pés precisam de descanso o mais rápido possível, então, vamos indo.
Atravessamos ruas ainda em pleno movimento perto da meia noite e lugares que estavam longe de fechar, Cameron me seguiu tranquilamente, fazendo um comentário e outro sobre algo que via pelo caminho. Ao contrário do que eu esperaria dele, este me pareceu um pouco nervoso, segurando as pizzas como forma de segurança. Aquele era um Cameron que eu não conhecia e, novamente, me fiz lembrar que eu já não o conhecia como antigamente e, da mesma forma que mudei, ele também o fez.
Não tardou para que chegássemos em frente ao prédio que outrora havia sido industrial e agora era todo voltado para uma coleção de lofts à venda, quem diria que uma conversa atoa no café me traria um lugar como aquele, graças a um dos clientes da loja.
— Certo, as coisas podem estar um pouco bagunçadas e Tyrell pode estar de mau humor por minha demora. — Alertei enquanto subia as escadas para o terceiro andar.
— Sem problemas, você viveu por um longo tempo comigo para saber que não sou exatamente organizado.
— Isso não mudou? — Ergui uma sobrancelha fitando sobre o ombro.
— Não exatamente. — Novamente o vi corar e guardei um sorriso para mim terminando os últimos degraus. Aquele era um Cameron que podia me associar tranquilamente.

 

Correndo através da noite negra

 

Isso eu sei
 

Desde o início, como se fosse a primeira vez
 

Ele finalmente se sente como voltar para casa
 

Jetta — Feels Like Coming Home
Ok, vamos ser sinceros, eu não sabia exatamente o que esperar quando ele citou o colega de apartamento, Tyrell, mas com certeza, não era a bola de pelo cinza miando indignado de sua posição no encosto do sofá.
— Eu sei, meu amor, mas eu tive que ficar mais tempo. — Chase ronronou enquanto o pegava no colo acariciando as orelhas do bichano que logo trocou a indignação por um ronronar apreciativo.
Chase sempre havia tido um fraco por gatos, apesar dos seus pais não serem favoráveis, fiquei feliz por ele finalmente ter o felino pra si em sua própria casa. Aproveitei a troca de afeto para observá-lo enquanto trocava palavras com o gato e este parecia responder, até que por fim, deve tê-lo perdoado e escondeu o rosto peludo no pescoço do dono.
O gato tinha mais sorte que eu.
Assim que o depositou no chão, Tyrell veio gingando até meus pés, miando ressentido, como se eu fosse o culpado do atraso do seu pai.
— Eu sei que você está chateado, amiguinho, mas eu juro que não fui a causa da demora dele. — Me agachei para coçar as orelhas peludas e aparentemente fui perdoado ao receber um ronronar, o que ocasionou em um esfregar voluntário contra minha mão.
— Ele é uma puta para carinho. — Chase balançava a cabeça, seu olhar quase como se tivesse sido traído. — Fique à vontade, só vou tomar uma ducha rápida e já volto.
Enquanto o via seguir para um pequeno corredor afastado do espaço amplo, onde deveria ser sua suíte, deixei mais um carinho em Tyrell antes de lavar as mãos e procurar entre os armários os pratos e, pelo menos, aquela parte não havia mudado, a disposição das coisas eram praticamente da maneira que eram no apartamento que compartilhávamos. Deixei tudo empilhado na ilha e em uma olhada rápida na geladeira, pesquei duas cervejas.
Nesse meio tempo, o gato sentou-se na frente de um dos armários, lançando um apelo em direção a ele, o abri e achei uma vasta coleção de petiscos para o pequeno. E Tyrell não se fez de rogado ao chafurdar em uma lata, indicando exatamente o que queria e, nesse caso, quem era eu para negar-lhe?
— Vejo que ele já te levou para o caminho dos petiscos.
— Sim, sentar na frente do armário e miar foi um sinal bastante claro. — Olhei-o rapidamente para desviar o olhar, sentindo-me como a criança que foi pego com a mão no pote dos biscoitos.
— Ele faz isso para qualquer pessoa que chega aqui. — Franziu as sobrancelhas diminuindo seu tom. — Mesmo que seja somente os amigos do trabalho. — Deu de ombros. — Vamos para essa pizza? — Fez um gesto para isso e após lavar as mãos o acompanhei.
Um gemido de aprovação soou daqueles lábios sensuais ao colocar dois pedaços da maravilha em seu prato, se acomodou em seu lugar, já devorando e aumentando a ladainha satisfatória. Eu por outro lado, ainda estava perdido no gemido inocente acompanhado do visível short de pijama e uma camiseta que mal lhe dizia o que havia embaixo, enquanto bebia da sua presença. Sacudindo-me do meu torpor, sentei-me a frente dele e me servi da pizza morna.
— Então, acredito que você não veio aqui exatamente para me dar, e ao gato, comida. Sendo assim, qual sua intenção, Cameron?
Direto na jugular.
E, sinceramente, não esperava menos.
Esperei um segundo para engolir o que havia na garganta, lavar com a cerveja e antes que pudesse me conter, diante do olhar penetrante, estiquei as costas, automaticamente perdendo o clima de camaradagem.
— Uma chance de provar que não sou mais aquele garoto.

Parte IV

Pintado No meu Coração I

Eu pensei que você sairia dos meus pensamentos
E que eu finalmente havia aprendido a viver sem você
Eu pensei que seria apenas uma questão de tempo
Até que eu tivesse milhares de razões pra não pensar em você
Mas não é bem assim
Aerosmith — Painted On My Heart
 

Vamos por parte, certo?
Certo.
Eu tive um dia corrido. A parte administrativa não era meu forte, logo, ter que fazer a papelada não era um prazer; se isso já não fosse de arrancar o cabelo, não esperava encontrar meu antigo amigo que pensei que estava noivo, mas não estava; Zachary que era o namorado do Cameron, suposto noivo, que de fato estava noivo, porém de outra pessoa que, por sinal, parecia ser uma pessoa interessante e faziam um casal bonito; para ter Cameron querendo reatar a amizade, para agora, ele querer pegar de onde largou há mais de três anos.
Bom, não foi exatamente surpresa engasgar com o pedaço de pizza que engolia quando ele soltou a frase. Obviamente eu não deveria perguntar e comer em seguida. Claro que isso não foi nada como sufocar e terminar com o pedaço indo direto da minha garganta para o prato de Cameron, enquanto as lágrimas forçadas caiam pelo canto dos meus olhos, como uma cena hollywoodiana de comédia malsucedida.
O silêncio reinou absoluto enquanto eu não sabia onde enfiar minha cara e secava rapidamente as lágrimas por conta da garganta abusada. Sem dizer nada, Cameron levantou e jogou aquele pedaço infame de pizza direto no lixo, me alcançou um par de guardanapos e sinalou para a cerveja para ajudar com a garganta, ainda calado tomou seu antigo lugar e esperou pacientemente por minha resposta.
— Posso considerar isso como uma recusa tácita? — Perguntou quando o silêncio se estendeu ainda mais.
Meu cérebro estava tendo uma crise sem precedentes na mera tentativa de proceder com a pergunta recebida, o que ele realmente queria dizer? Ergui um dedo pedindo um momento enquanto engolia um bom bocado da cerveja e tinha mais um segundo antes que vertesse uma romaria sem sentido.
— Bom, eu acredito que as pessoas podem mudar. — Engoli em seco revirando o que sobrou da pizza no meu prato antes de fitá-lo. — Veja, Cameron, há algum tempo eu achei que as brincadeiras entre nós e todo momento de intimidade que tivemos eram prenúncio de um futuro juntos. Eu sei que assumi algo quando não deveria, e coloquei meus óculos de lentes cor-de-rosa e apaixonado como eu estava naquele tempo acima de qualquer outra coisa. — Um bufar escapou antes que pudesse evitar, a amargura começando a transpirar por meus poros. — A culpa não é sua por nada disso, e tenho consciência que jogar meus desejos em seu colo naquele tempo seria tolice, visto que você não sentia o mesmo por mim, ou talvez, agora você pensa que sente ou algo do tipo. Cameron, querendo ou não, tendo culpa ou não, você quebrou meu coração e eu realmente não sei se há uma maneira de consertá-lo. Eu o amei com todas as minhas forças, com tudo que tinha em mim. Mas agora? Não sei o que te dizer.
Saí do meu lugar levando o prato para a pia, descartando o que havia restado, o nó em minha garganta se aprofundou e respirei fundo por um momento. Voltei-me para ele, este estava sentado na mesma posição, suas sardas destacadas pela sua palidez ainda mais aprofundada, o olhar atormentado, o rosto numa máscara de dor e toda uma quantidade de emoções transitando por ali.
— E, Cameron, somente em uma hipótese: como saberei que você estará realmente comigo e não irá correr para o primeiro homem que te chame a atenção? Como posso confiar que não serei, novamente, deixado de lado quando alguém melhor aparecer? Como, Cameron? — Meu corpo estava envolto em uma onda de fúria e ressentimento e a última frase saiu num grito cercado de uma dor que pensei que tinha morrido ao passar dos anos, mas não. — Diga-me, Cameron, como posso confiar em você? — Minha voz saiu abalada até para meus próprios ouvidos e, adrenalina anteriormente adquirida, transformava-se em um tremular angustiado perambulando por meu corpo.
Sem que pudesse articular mais alguma coisa sem verter o que me turvava a imagem dele dos meus olhos, me encaminhei para a porta, sem mais uma palavra a dizer, e abri. Ouvi o ranger da baqueta enquanto ele saia do seu lugar, seus passos vieram suaves até que ele apareceu na minha frente.
Encontrei o olhar macerado, claramente embotados e úmidos assim como os meus estavam, seu olhar demorou mais um pouco no meu rosto e com um apertar de lábios, talvez para não dizer nada, em um assentir, ele foi embora.
Fechei a porta e encostei a testa nela, deixando que as antigas lembranças tomassem conta de mim e não tardou para que um sacudir viesse acompanhado de um soluço dolorido. Finalmente deixando escapar a dor purulenta e o ranger dos cacos em meu peito convulsionando em desespero.
Eu chorei.
Eu sangrei na tentativa de expurgar o que me ia na alma.
E eu estremeci diante do rugido dolorido do outro lado da porta.

Pintado No meu Coração II

Mas não é bem assim
E depois de todo esse tempo, eu ainda não consigo desistir
Eu ainda tenho seu rosto
Pintado no meu coração
Rabiscado na minha alma
Gravado na minha memória.

Aerosmith — Painted On My Heart
Não houve nada que pudesse me alertar, o rugido escapou por minha garganta numa tentativa de extravasar a dor que parecia escorregar por baixo da porta e deslizar para encontrar a minha. Cada mísero pedaço de mim estava em angústia e dor, como se tivesse caminhado para dentro de uma fornalha. A dor era como as chamas que me consumiam e lambiam sobre cada ponto dolorido, martelando continuamente até que não restasse mais nada ali.
Espalmei a porta querendo que pudesse atravessá-la e segurá-lo em meus braços e dizer que tudo ficaria bem, para secar as lágrimas e tentar consertar todo o mal que havia causado a ele. A dor em mim era como um valsar de amortecimento pelo mal causado e o entorpecer sem esperança que algo pudesse acontecer. Que, talvez, num golpe de sorte e chance, pudesse com delicadeza reunir o que estava estilhaçado e tentar encaixá-lo para ele e para mim.
Mas aquilo parecia ser impossível e além da minha capacidade.
Relutante, saí dali, perambulando pelas ruas, alheio para onde estava indo até entrar um taxi e estacar na frente da casa do Theo, sem ao menos saber como havia dado o endereço ao motorista. Não me lembrava de nada do caminho ou o quanto demorou para ali chegar.
Não tardou para a porta abrir e Theo sair pronto para dizer algo engraçado como era inerente dele, mas algo no meu rosto o fez mudar de ideia e sem titubear, me tomou em seus braços e não houve nada mais que pudesse fazer, além de deixar as lágrimas torrenciais molharem sua camiseta.
Zachary apareceu em seguida e nos abraçou direcionando para dentro da sala. Saiu e voltou minutos depois munido de três xícaras de chocolate quente no estilo red velvet e marshmallows, como ele sempre fazia quando as coisas não iam como o esperado, seu cobertor de apoio, muito bem vindo naquele instante.
— Não… tem… mais jeito de… consertar. — Falhei em formar uma pequena frase, ainda sentindo meu corpo sacudir. Sentindo o frio do abonando sacudir meus ossos e enrolar-se em minha alma.
— Chase? — Zachary perguntou dando um aperto em meu joelho quando confirmei. — Meu amor, você é cabeça quente quando está ansioso por alguma coisa e precisa dar um tempo a ele, afinal, são três anos, querido. — Sua repreensão não teve calor que estava esperando, sua voz transmitia um conhecimento de causa.
— Veja desse ponto, Cam. — Theo afastou-se, depositando sua xicara na mesinha de centro, para então segurar meu rosto fitando-me com determinação. — Eu estive na posição do Chase, pode ter sido um pouco mais fácil, por não ter esse intervalo como você, porém, não foi menos dolorido assistir dia após dia quem eu amava com outra pessoa e veja, nós não tínhamos uma ligação como havia com vocês. E pelo que vi hoje, Chase estava mortalmente abalado com você, da mesma forma que sou com Zachary. No entanto, posso adivinhar que as coisas não saíram como você queria, certo? — Assenti.
— Você acha que pode ter uma chance mesmo que fosse remota com ele? — Zachary questionou fitando-me com esperança, quase como se a situação atual fosse com ele.
— Ele me amava. — Puxei uma longa respiração e fitei a xícara. — Ele realmente me amava quando eu apenas achei que não era sério e pior, e disse isso a ele naquele tempo. Eu não sei o que fazer. — Franzi as sobrancelhas falando mais para mim do que para eles. — Obrigado por tudo, mas voltarei para o hotel.
— Tem certeza, Cam? Sabe que pode ficar conosco sem problemas, até prefiro que fique aqui do que atormentado sozinho. — Disse Theo preocupado assim que me levantei.
— Exatamente, ainda não temos o quarto de visitas pronto, mas o sofá dá pra dormir tranquilamente, acho até melhor ter você aqui.
— Eu amo vocês e nem sei como agradecer, mas eu preciso ir. Talvez colocar a cabeça no lugar e formular um plano de ataque. — Tentei sorrir e vi que falhei ao ver o rosto nem mesmo um pouco menos preocupado que antes. — Assim que chegar no hotel, mandarei uma mensagem avisando, certo? — Deixei um selar em cada bochecha e me retirei antes que cedesse ao carinho de ambos e aceitasse a oferta do sofá.
Ainda sentia o formigar de desespero e dor em meu peito, mas não iria desistir se tivesse uma centelha de esperança esperando por mim.
Isso era tudo que precisava.

Fragmentado

Porque agora eu sinto que estou quebrado
Agora eu sinto que estou sufocando

The Neighbourhood — Too Serious
— Bom dia, cherrie, tudo bem?
— Sim, com você? — Olhei rapidamente para Ariana e voltei para esticar a massa do beignets.
Recebíamos uma grande quantidade de comidas prontas para serem vendidas ali e ajudar os outros comerciantes locais, mas o beignets eram uma coisa que gostava de fazer por mim mesmo e, graças aos céus, havia sido recebido muito bem pelo público.
— Estou bem, talvez um pouco cansada, mas o que posso dizer, quem pode resistir a uma festinha de fim de noite com os amigos? — Voltei meus olhos para ela.
Sorriu de orelha a orelha, fazendo com que eu balançasse a cabeça, não sabia como ela conseguia fazer a façanha de ter uma vida agitada e, ao mesmo tempo, parecer como uma flor fresca na manhã seguinte.
Talvez eu estivesse ficando velho, vai saber.
— Vamos conversar sobre o que aconteceu ontem e se isso tem algo a ver com suas olheiras que estão na altura do seu queixo, ou fingiremos que nada aconteceu? — Pousou as mãos na cintura fitando-me com ousadia, como se a recusa fosse algo que nem tinha lhe passado pela cabeça.
Tanto Nolan, como Ariana, haviam se tornado amigos próximos com o passar dos anos, e depois da terrível bebedeira após um dia particularmente ruim enquanto ainda mal caminhávamos com a reabertura da loja, ambos sabiam o que me tinha feito fugir da minha casa como se o próprio diabo estivesse me perseguido e acabasse aqui.
— Fingiremos que nada aconteceu, até porque nada realmente aconteceu. — Dei de ombros.
Não que eu quisesse compartilhar que passei, praticamente, a noite em claro remoendo o que havia acontecido e me martirizando pela minha falta de controle que me deixou tão vulnerável na frente dele. Exalei um suspiro.
— Veja, Ariana, não quero inventar uma desculpa e mentir para você, mas eu realmente não quero falar sobre isso. — Ela estreitou os olhos.
— Então, é pior do que pensei. — Voltei a dar de ombros.
— Te peço que dessa vez deixe passar e, assim que conseguir organizar meus pensamentos, eu falarei, certo?
— Falará sobre o quê? — Nolan escolheu justamente aquela hora para entrar e viajou seu olhar entre nós. — Estamos conversando sobre o Lion-O?
— Oh. Meu. Deus. — Gemi.
— Exatamente, e devo dizer, Nolan, esse apelido é perfeito! — Ariana riu enquanto deixava um beijo na bochecha do outro e o enlaçava pela cintura. — Foi tudo bem com a pequena Anne?
— Não reagiu muito bem à terapia ontem, mas ela é forte vai passar por isso.
— Nós não temos dúvidas sobre isso e se precisar de alguma coisa, conte conosco, certo, Ariana?
— Sim, não precisa nem perguntar. Bom, agora vamos deixar o senhor “eu não quero falar sobre isso” para quando ele estiver disponível para conversar. — Disse ela saindo antes que pudesse reclamar do bolinho roubado.
O trabalho vinha sendo repetitivo durante esse tempo e era fácil, esticar, cortar, fritar, deixar que a gordura fosse absorvida pelo papel toalha, para então polvilhar cada mini travesseiro com açúcar de confeiteiro, e poderia fazê-lo praticamente de olhos fechados.
Fácil para me desligar e deixar os pensamentos saírem do controle rígido que auto infligi assim que acordei do cochilo que mal dei naquela noite, pelo menos o que sobrou dela.
Num sacudir severo, afastei qualquer coisa que não era trabalho para depois do expediente, sei que poderia contar com qualquer um deles para fechar a loja e fazer o registro do caixa. Talvez fosse a hora de finalmente relaxar em minha função e distribuir aos dois que mais conhecia, já que durante esse tempo não tive sequer um minuto de folga.
Além do fato de ser um novo projeto, não queria voltar para casa e encontrar qualquer coisa que poderia doer, como já tinha dado para perceber, não sou bom em embates e ter meu coração possivelmente machucado por vezes repetidas me fazia congelar e manter-me no mesmo lugar, longe de casa.
Logo depois de terminar uma quantidade exorbitante de travesseiros do paraíso, como costumava chamar o beignets, levei-os para frente da loja bem na hora que os primeiros clientes chegavam. Ainda faltava uma hora para que os outros dois funcionários chegassem, e como sempre, acompanhei-os depois com os pedidos a até a chegada de Jonelle e Kevin.
Como uma máquina bem oleada, trabalhávamos sem parar, mas sem deixar o bom humor de lado e sempre com brincadeiras entres nós e os frequentadores assíduos da nossa loja. Assim que os dois chegaram, me retirei para o escritório para finalmente dar fim na bagunça em minha mesa. Munido de um café gigante e um sanduiche que provavelmente seria esquecido em meio as contas, retirei-me.
No meio do horário do almoço, ouvi uma batida na porta. Não era do meu feitio fechar a porta, já que tinha o costume de receber todos a qualquer momento enquanto estava ali. Logo, aquilo era desnecessário, porém, ao erguer meu olhar para a porta, encontrei Kevin segurando uns bons pares de caixas.
— Entre, Kevin, estamos recebendo alguma encomenda que eu deixei passar? — Levantei para ajudá-lo a depositá-las na minha mesa e fui recebido com um perfume saboroso que logo me tinha em nós no estômago.
— Não acredito que seja algo para loja, Chase.
Kevin era um dos mais silenciosos da loja, do tipo que mais observava do que realmente deixava escapar algo e, dessa forma, ele foi silencioso ao depositar um envelope sobre as caixas e sair sem outra palavra.
Sem conter a curiosidade, abri uma por uma, e a cada nova descoberta, um sorriso, contra minha vontade, surgia e mordi os lábios para contê-los. Na primeira, havia meu sanduiche preferido, um Philly Cheesesteak, a carne em tiras e a quantidade exagerada de queijo derretido, naquele pão maravilhoso lembrando uma mini baguete que me fizeram salivar. No próximo, sabendo que apenas um Philly não seria o suficiente, veio o Cuban Sandwich, o pão cubano recheado de porco assado, presunto, queijo tipo suíço, picles finamente fatiado e mostarda.
Não só meu estômago roncou, como gemi de felicidade ao ter uma terceira e quarta caixa e dessa vez, era algo para saciar meu dente doce. Na primeira dei de cara com uma torta de Shoofly, se o recheio feito de melado e açúcar mascavo não fosse o suficiente, a cobertura de uma farofa doce feita com farinha, açúcar mascavo, canela e noz moscada, vinham para coroar aquela delicia. Já na segunda, a torta Muddy Mississipi Cake esperava por mim, com base de chocolate, recheada com mais chocolate e com cobertura de chantilly. Sem falar, é claro, na quarta camada que ia logo acima da base e sendo um bolo de chocolate sem farinha.
Na quinta caixa, eu simplesmente não aguentei e ri sem parar. Deitado contra as almofadas de palha, havia duas garrafas, uma contendo suco de inhame com limão e maçã e a outra suco de laranja com limão, gengibre e chá verde. Ele nunca havia me perdoado por uma vez na faculdade acabar entrando em um módulo de nutrição, no qual me levou para uma loucura, de curta duração, — e um graças a Deus aqui por isso—, para sucos nutritivos e, dentre a coleção questionável que eu o fiz experimentar, aqueles dois tinham sido os meus preferidos. Estava na cara que ele mesmo os tinha feito, a menos que ele conhecia algum lugar perturbador de sucos questionáveis.
Balançando a cabeça, sentei na ponta mesa e por um minuto de leveza com a surpresa, me deixei pegar o envelope entre as mãos e observar a escrita determinada e rebuscada, e era aqui que eu pegava no pé dele por isso. Sem mais delongas, abri o envelope e retirei um pedaço de papel reciclável.

Não existe nada que eu diga ou faça que possa te fazer melhor sobre o sofrimento que causei durante esse tempo. Porém, espero que pelo menos o de ontem possa ser revertido em, no mínimo, um momento agradável hoje em seu dia.
Tenha uma boa tarde.
Com amor,
Cameron.

PS: tirando o suco, Deus, como você pode gostar disso??? Argh!

Deus, ele era um imbecil sem tamanho que me fez rir por causa de um suco ainda mais idiota e saudável.
E quase me fez esquecer do que havia acontecido.
Quase.
Peguei meu celular, ao mesmo tempo em que procurava pelo cartão que ele havia me entregado no dia anterior, após uma busca de alguns minutos retornei a ele uma simplesmente mensagem: “Não tem nada de errado com meu suco.” Seguido de uma emoji mostrando a língua.
Nada, de fato, poderia corrigir os anos anteriores ou a dor que ainda martelava no fundo da minha mente, mas a lembrança de todas as coisas que eu gostava, somado ao fato de que Cameron lembrou e procurou fazer algo para me alegrar, algo que nunca havia me passado pela cabeça, fez com que com que a dor, pelo menos, daquela vez, perdesse uma batida.

Esperança

Nós nos separamos…
…Você está longe demais para voltar atrás?
Você estava me escapando por meus dedos e não entendi

Aerosmith — What Could Have Been Love
Eu ri.
Ri como se um peso tivesse saído das minhas costas.
Ri como se nada mais importasse.
Não liguei nem mesmo para o olhar curioso dos funcionários no canteiro de obras.
Ri até que a visão a minha volta nublasse e sentisse o liquido quente escorrendo dos meus olhos.
Eu ri.
Ri com renovada esperança.
Eu simplesmente ri, dando as costas para quem me assistia, pois aquele momento era íntimo demais para ser compartilhado por estranhos.
Apenas uma frase foi capaz de trazer a esperança em sua integralidade, e eu pude sentir a renovação das forças golpear meu corpo, quase falhando minha respiração com tamanha perspectiva que nem tudo estivesse realmente perdido.
E eu agarraria o que pudesse, como alguém se afogando em alto mar, me agarraria até mesmo as migalhas se essas me fossem dadas, porque além de amá-lo como o homem maravilhoso que ele era e havia se tornado, eu o amava como amigo.
E se isso fosse a única coisa que me sobrasse, eu agarraria com todas as minhas forças e me contentaria com isso. Pois, Chase, para mim, era mais importante que qualquer pessoa, e sua presença ao meu lado bastaria, mesmo se fosse apenas platônico.
— Está tudo bem? — Theo parou ao meu lado olhando-me com curiosidade mal disfarçada.
— Melhor do que bem, meu amigo. — Dei uma palmadinha em seu ombro.
Respondi: “Coca-Cola. Apenas Coca-Cola. Nada pode superá-la.” colocando o celular no bolso, eu era incapaz de esconder o sorriso, o que causou um arquear de sobrancelha por parte dele.
— Então, o suco deu resultado. — Voltou a escrutinar, na tentativa de saber se eu deixaria mais alguma coisa escapar.
— Sabe quando dizem que o diabo mora dos detalhes? — Ele assentiu e eu abri um sorriso que poderia rivalizar ao Coringa. — Eles têm razão.
Senti o vibrar no meu bolso e não pude deixar de verificar, sem atentar para Theo e seu olhar curioso sobre meu ombro. “Não sei se posso concordar com isso, mas, talvez, você deva receber a sua Coca-Cola pessoalmente. Onde você estará mais tarde?”.
— Meu Deus, ele virá até aqui?! Isso é um encontro? Isso parece um encontro! Eu tenho que contar para o Zach, se o Jeff já tiver ido. — Sem que pudesse falar alguma coisa, Theo saiu correndo em direção ao contêiner onde estava localizado nosso escritório.
Pelo que pude ver daquela distância, Theo ainda demoraria para contar as “novidades”. Respirei fundo antes de respondê-lo, fazendo o possível para manter as expectativas em baixa: “Não é realmente longe do seu trabalho, estou a, maios ou menos, cinco quadras após sair e virar à esquerda no fim da sua rua. Não tem como perder o canteiro de obras.”. Segundos depois recebi um “Certo.”.
Fazendo o possível para esconder o sorriso, voltei em direção ao restante da equipe.
O espaço não era exorbitantemente grande, seria um restaurante de um renomado chef, Jeff Sanford, que havia resolvido estender suas garras naquela cidade. Enquanto eu atualizava a equipe sobre os horários e o que era esperado de cada um, Zach e, agora, Theo, estavam com o proprietário resolvendo os últimos detalhes. Dispensando os funcionários, já que o material ainda não havia chegado, foi minha vez de me encaminhar para o contêiner.
Jeff Sanford era um homem de estrutura sólida, maior que os meu 1,85, com uma barba bem aparada, tão escura quanto seus cabelos, o qual denunciava que já tinha feito parte de alguma espécie de militarismo, seus olhos azuis eram risonhos com pronunciadas covinhas que dava um toque de um gigante urso de ombros largos, porém, gentil. Atualmente encostado de forma relaxada contra a mesa do Theodore, claramente empolgado ao conversar com Zachary sobre alguma receita que estava longe do que eu mesmo conhecia.
Após a formatura a vida tinha tomado um rumo diferente. Na minha vã tentativa de agradar meus pais caminhei na linha de negócios e economia, algo que descobri que não gostava e não levava jeito para a coisa, o que, novamente, me fez imperfeito diante dos meus pais, causando mais uma vez decepção a eles. Que me levou diretamente para fora da empresa e diretamente para um canteiro de obras onde trabalhei como um ajudante, enquanto tentava colocar a cabeça no lugar e saber o que faria dali para frente, foi quando realmente descobri que aquele trabalho era algo que me satisfazia. Não demorou para pegar o jeito da coisa e com esforço redobrado, de dia estava trabalhando e a noite fazia aulas online nessa área. Não havia muita coisa em meu nome ou deixada diretamente a mim, já que um Harrington jamais teria um desviado, então, o pouco que tinha rapidamente foi rearranjado de acordo para as minhas necessidades e outras foram vendidas para a poupança.
Tudo isso graças aos meus pais adotivos.
Acabamos nos tornando um trio de rejeitados, Zachary foi expulso de casa, assim como Theodore, ao ter ambos apresentados em suas respectivas famílias, depois de chutarem a porta do armário. Por sorte, Theodore vindo de uma longa família rígida na cultura chinesa e prospera, tinha um fundo generoso, por parte de sua avó que já prevendo que algo poderia acontecer, não o deixou a ver navios nessa situação. Sem nada mais nos prendendo ao ambiente tóxico de nossas família e supostos amigos, e esses últimos foram rápidos em dar-nos as costas quando o status deixou de ser um fator decisivo em nossas vidas. Zachary era o único entre nós que não vinha de uma família proeminente, porém, ele sempre havia dado duro para perseguir seu sonho e, além da faculdade, ele trabalha em dois empregos de meio período para completar a bolsa, e durante esse tempo, ele fez o possível para enxugar o máximo a despesas e ter um pé de meia por ele próprio, o que foi muito bem vindo quando a merda bateu no ventilador.
O próximo que sabíamos, éramos que estávamos longe qualquer plano havíamos feito para o futuro. Mas não víamos isso como necessariamente algo ruim e o período após a rompimento entre Zachary e eu, a aproximação entre este e Theodore, foram de fato algo que nos motivou a seguir em frente, mesmo quando as coisas não foram como pretendíamos e tinha meu coração numa mistura ambivalente entre o rasgo de quem havia perdido e a felicidade de não causar estragos a Zachary, e a felicidade por ele ter encontrado realmente o que estava esperando e algo que eu mesmo jamais poderia dá-lo da maneira que ele o merecia. Durante três anos, entramos num consenso do que queríamos para o futuro e aproveitamos para angariar o que seria necessário para fazer aquela mudança e quem seria o primeiro que nos daria a chance de realmente confiar em nós em nosso primeiro projeto de grande escala.
Sendo arrancando bruscamente do que era um caminho de lembranças pela batida hesitante na porta aberta, automaticamente viramos naquela direção para encontrar Chase seguido de Nolan e uma quantidade exorbitante de sacolas.
— Ei. — Caminhei apressado até eles, da mesma maneira que, ao meu lado, Jeff vinha para aliviar os pacotes da mão de Nolan.
— Desculpe interromper, mas achei que seria uma boa hora para uma pausa? — Chase tinha sua bochecha um pouco corada ao ter os olhares nele.
— Graças a Deus, Chase, já poderia sentir meu estômago começando um canibalismo com ele mesmo. — Zachary sorria de orelha a orelha e não deixou de me dar uma piscadela quando não foi percebido, corei sentindo o calor no meu rosto.
Logo havia uma coleção de petisco e bebidas em minha mesa e nunca me senti tão feliz por ter uma coca entre eles, mesmo que houvesse um recipiente de café entre eles com meu nome. Não tardou para que as exclamações de felicidade viessem de Zachary e Theodore por ter seu café exatamente como haviam pedido no Coffee Prince no dia anterior. Apesar de Jeff não ter sido incluído na conta, ele recebeu meu café que o empurrei para Nolan e fiz um gesto de cabeça em direção ao Jeff, o que me rendeu um rubor do mesmo e quando ele se virou para o homem em questão, esse havia uma um olhar de gavião sobre o rapaz, apreciativo e ele não saiu da visão de Jeff, claramente embasbacado pelo rapaz.
Uma apresentação logo foi feita e não passou despercebida a ninguém a demora entre a troca e comprimentos entre os dois, Jeff e Nolan, e o crepitar entre eles. Peguei minha querida coca e um pralinê de pecan e indiquei a porta para Chase, que segurando seu café e um daqueles travesseiros maravilhosos, me acompanhou. Sentamos onde havia conversado com os novos funcionários e após uma mordida no meu praline não pude resistir a sons de alegrias, e tudo coroado com a coca era algo maravilhoso.
Chase me assistia com um sorriso de satisfação curvando sua feição.
— Me desculpe por ontem, não foi justo minha explosão, e como disse, volto a pontuar, as pessoas podem sim mudar e não cabe a mim julgá-lo como o rapaz que você era. Porém, isso não me dá tranquilidade sobre o que você sente ou o que se passa comigo. Então, se ainda assim você quiser ser meu amigo, veremos onde vamos daqui. Eu aceito que comecemos lentamente e novamente nos conhecendo. Isso é, se você ainda quiser.
Por isso eu não estava esperando e uma comoção surgiu em meu peito, euforia por aquela chance, ao passo que, um fiozinho de medo também se instalava. Mas não deixei que aquele pedaço viesse a corromper a parte boa de tudo que foi dito. Empurrei o praline com a coca e sorri a ele que me avaliava de perto.
— Serei sincero, Chase, isso é muito mais do que eu esperava. Entendo também que ter essa nova oportunidade também não é algo tomado de ânimo leve da sua parte e me comprometo a ir no seu tempo e voltar a nos conhecermos, mesmo que ainda temos uma pequena base no que trabalhar. Também não fugirei o do que causei e assumo as responsabilidades por meus atos não pensados naquele tempo de cachorro no cio. — O que causou um riso em Chase. — Também tenho consciência, como foi citado ontem, não poder carregar 100% das suas expectativas, porém, me comprometo a respeitá-las e prometo que levarei minhas ações em consideração daqui para frente. Atentando apenas que, as suas expectativas também são as minhas. Posso adiantar verbalmente, que não existe uma maneira possível de ter alguém além de você na minha linha de visão. Também estou consciente que apenas falar não adianta realmente, mas que ações provarão que já não sou aquele rapaz.
— Obrigado por entender, Cameron, e fico feliz em saber que estamos na mesma página…
Uma comoção saáa pela porta do contêiner, Nolan estava branco, enquanto Jeff parecia genuinamente preocupado, ao meu lado, Chase pulou de seu lugar e correu até ele.
— O que aconteceu?
— Anne sofreu um desmaio e estão levando-a para o hospital, me desculpe Chase, mas eu preciso ir. — Seu olhar amedrontado encontrou o de Chase.
— Você sabe que temos suas costas, você precisa de uma carona até lá? — Chase estava tão abalado quanto o primeiro.
— Vou chamar um Uber, um taxi e vou correr para lá.
— Se você não se importar, estava de saída quando vocês chegaram e posso te levar até onde você precisa ir. — Disse Jeff.
— Eu agradeço, mas não quero tirá-lo do seu caminho.
— Longe disso, faço questão e não sairá do meu caminho. Meu carro está ali. — Apontou na direção de uma picape, já colocando a mão nas costas de Nolan o direcionando para o caminho indicado. — Assim que tivermos alguma notícia, atualizaremos vocês. — Disse sobre o ombro afastando-se enquanto os observávamos.
Ficamos em silêncio enquanto Jeff fazia a manobra e levava um Nolan completamente atormentado.
— Certo, por essa eu não estava esperando. — Theodore deixou escapar de boca aberta.
— Meu amor, às vezes você deixa escapar as coisas mais obvias. — Zachary balançou a cabeça quase desconsolado, deixando uma batidinha no peito do noivo. — Espero que fique tudo bem.
— Eu também. — Concordou Chase deixando um suspiro carregado escapar. — Bom, está na hora de voltar ao trabalho. Foi bom vê-los novamente, acredito que será uma constante agora.
— Com certeza. — Theodore deu um polegar para cima.
— Mal poso esperar para nos reunirmos para um jantar. — Completou Zachary.
— Eu adoraria. — Um rubor incendiou o rosto de Chase e ele sorriu sem jeito, causando um descompasso no meu coração. — Aproveitem para continuar na pausa e aproveitem.
Zachary deixou um selar na bochecha de Chase, aumentando o rubor no rosto do mesmo, ao passo que o noivo deixou um abraço apertado nele. Balancei a cabeça os vendo entrar.
— Então. — Virei-me para ele. — Te mandarei uma mensagem mais tarde.
— Certo, vou esperar. — Concordei e na bochecha contrária beijada por Zach, deixei um selar e ouvi um sufocar surpreso.
— Tenha uma boa tarde, Chase. — Ele concordou tocando a bochecha, claramente não esperando por aquilo, acenou de maneira desajeitada e caminhou para fora, com a aparência ainda perdida.
Não tardou para que eu tivesse um sorriso do gato que comeu o canário e fizesse uma dancinha desajeitada de pura felicidade.

Parte V

O que eu sei?

Eu estou tentando me agarrar
A todas as coisas que eu deixei pra trás, yeah
É, sou eu de novo, você sabe
Eu acho que preciso de uma pequena ajuda dessa vez
Aerosmith — Just Feel Better
O que diabos eu estava fazendo?
O mantra ecoou constantemente até que voltei ao serviço e as coisas ficaram caóticas por causa da falta do Nolan, chamei Kevin que não tardou a chegar, claramente agradecido por mais um dia de trabalho e uma graninha extra.
Apenas a noite parei um momento para comer alguma coisa.
A verdade era que meu estômago estava em nós. Veja, a parte racional do meu cérebro sabia melhor que meu coração tolo que dar uma chance a Cameron seria perigoso. Sem falar naquela parte sarcástica que não deixava de enviar lembretes que ele não era assim confiável e que novamente cairia no mesmo erro. Porém, eu queria acreditar com todas as forças que ele não era o rapaz que fora. Da mesma maneira que tirei minhas lentes rosas e passei por tudo que passei nos últimos anos.
Era uma luta difícil.
Isso sem contar a parte abalada do meu emocional, onde eu ainda não me sentia importante ou que fosse o suficiente para ele ficar, caso as coisas ficassem sérias.
Na verdade, ele ou qualquer outra pessoa.
E, nesse caso, não tinha um coração estúpido o suficiente para cobrir essa área e mergulhar sem encarar o abismo e vê-lo encarando-me de volta com seu sorriso de quem sabia demais e estava pronto para me devorar.
Dei dois passos atrás mentalmente.
Saquei do celular, só havia uma pessoa capaz de dar um pouco de tranquilidade à minha mente preocupada, e ela morava há uma porrada de distância. Assim que digitei a senha, havia notificação de mensagens perdidas.
Espero que tenha chegado bem.”
“Ainda não tenho uma casa própria e não quero parecer andar mais do que posso, mas gostaria de sair e jantar. Quando você quiser, é claro.”
“Isso soou muito adiantado?! Tenho a sensação que estou metendo os pés pelas mãos. Desculpe-me se for esse o caso.”
Digitei uma mensagem antes de fazer minha ligação.
“Não é de todo adiantado. Podemos sim marcar alguma coisa, mas como você reparou, meus horários não são exatamente fixos. Mas isso não impede que tenhamos algo no meu dia de folga ou algo do tipo.” Enviei com um emoji sorrindo.
— Olá, boneca, como está? — Disse assim que a ligação foi atendida.
— Oi, meu amor! Estou bem e você? O que tem de errado? — Era como se ela pudesse prever que algo não ia de acordo.
— Quem disse que tem algo de errado? — Sorri já imaginando o revirar de olhos que ela me daria se estivéssemos cara a cara.
— Porque sou sua mãe, meu anjo, e apesar de ser nosso dia de ligar, você não o faria no horário de trabalho se fosse um dia normal, apenas quando chegasse em casa. Se isso não é um alerta de algo errado, eu não sei o que é. — Ela riu apesar do tom levemente acalorado da última frase.
— Você está certa. — Ela riu do outro lado. — Cameron apareceu por aqui.
— Oh. — Ouvi o barulho da poltrona preferida dela ranger e o farfalhar das almofadas.
— Oh?! Por que isso soa como se não fosse uma surpresa? — Foi minha vez de me ajeitar na cadeira e olhar para o teto pedindo paciência para seja lá o que viria.
— Digamos que eu já sabia que isso iria acontecer? — Ela tentou, por um triz, soar inocente do outro lado.
— Pare bem aí, mocinha, como assim você sabia que iria acontecer? O que estou perdendo? — Senti os pelos levantarem. Minha mãe não era do tipo de guardar qualquer coisa de mim, no entanto, nada surgiu nas últimas conversas e agora ela sabia que isso poderia acontecer? — Teria sido bom receber qualquer tipo de aviso, mãe. — Ralhei e a ouvi bufar do outro lado.
— Para você correr mais alguns quilômetros e deixar essa situação ainda aberta?
— Você sabe que não é bem assim, mãe…
— Não? Porque parece que já se passaram três anos e não houve qualquer indício de alguém novo na sua vida ou que você o tenha esquecido. — Sua voz agora, apesar de determinada, soou mais amorosa e mais calma do que esperava.
— Eu só não estava pronto. — Fiz uma careta para o teto.
— E agora você está?
— Não sei. — Respondi sincero ao invocar a imagem do ruivo e seu olhar genuíno de mais cedo. — Eu estou um pouco confuso.
— É perfeitamente natural. Você sabe, eu odeio combates, e você deve ter puxado isso de mim, mas está na hora de tirar sua cabeça da bunda e dar um jeito nessa situação.
— Mamãe!
— O quê?! É a verdade. E apesar de você ser meu filho, meu bebezinho, não posso passar a mão na sua cabeça quando o assunto está em suas mãos para resolver e tem sido empurrado com a barriga. Óbvio que não sei os detalhes, e tem coisas que uma mãe não precisa saber, devo salientar, mas que tal dar um jeito nessa bagunça? Não tem feito bem para você e nem a ele.
— E o que você sabe sobre isso? — Questionei atônito por ela parecer estar a par da vida dele, tanto quanto da minha.
— Bom, desde que ele ocupou o quarto de visitas desde que foi chutado de casa? Ou perambular por aí como se tivesse sido chutado nas bolas?
— Meu pai amado, mamãe!
— Não sei porque a euforia, você aprendeu seu linguajar colorido comigo, agora se sente ofendido. Quem entende uma coisa dessas. — Resmungou do outro lado e tive que concordar desse lado.
— Certo, sinto que temos muitas coisas para esclarecer, mas apenas me responda uma coisa antes que eu volte ao trabalho. Por que você não me disse sobre ele estar morando com vocês durante todo esse tempo?
— Chase, honestamente, você estava pronto para ouvir sobre isso?
— Não, acho que não. — E aquela admissão doeu em meu peito.
— Aí está sua resposta, meu amor. Agora volte ao trabalho e se cuidem. Qualquer coisa, você sabe que estou a um digitar do telefone ou uma passagem aérea de distância. Amo você.
— Eu sei. Também te amo e diga ao papai o mesmo.
Continuei parado no mesmo lugar encarando a mesa sem realmente vê-la, havia tanta coisa a ser pensada, revista, e eu não sabia por onde começar, ou, se na verdade, poderia.

 

Bússola

Você está sempre lá para me ajudar quando estou triste
Tenho sorte que você tem me mantido por perto
Você é a estrela que eu procuro todas as noites
Quando estiver escuro, você ficará do meu lado
The Neighbourhood — Compass
O toque veio cedo, um pouco antes do despertador tocar e sorri ao ver o nome da tela, como se pudesse sentir vibrações boas vindo de um simples display.
— Ei, mãe, está tudo bem por aí? — Me ajeitei melhor na cama do hotel, lembrando que deveria procurar por uma casa mais do que rapidamente, apesar da oferta generosa de Zachary e Theodore, não me sentia bem invadindo a intimidade do casal.
— Está, meu filho, e com você? Como seus planos de recuperar o meu bebê estão indo?
Não sei exatamente em que ponto da nossa vida ela se tornou minha mãe e eu seu filho adotado, mas era uma relação que enchia meu coração de calor, calor este que sempre foi me negado ao longo da vida, desde que seria falta de decoro expor tais sentimentos entre familiares. Desde o princípio fui acolhido e automaticamente amado pelos Mayes, sem nem mesmo um piscar de olhos, apenas aconteceu naturalmente e era uma tortura ter que voltar ao mausoléu do que era minha casa.
— Devagar e sempre, mãe. Estamos começando a pôr os pingos nos is e lentamente nos aproximado, afinal, um longo tempo se passou e estamos diferentes agora.
— Posso imaginar, mas não deixe que ele te dê merda, sei que as coisas foram abruptas entre vocês, mas como disse a Chase, está na hora do vai ou racha. Espero que seja o vai, nesse caso, mas se for o racha, também não tem problema. Ambos são meus bebês e os amo, estarei aqui por vocês independentemente do resultado. Certo?
— Certo, mãe.
— Não é exatamente minha função, mas sei que a vida em hotel é desgastante e não ter seu próprio um lugar é um incômodo. Andei vistoriando algumas casas, apartamentos onde tem um bom preço e talvez, seja algo que caiba em seu bolso e você possa se livrar do hotel, mandei no seu e-mail.
— Uau, não sei nem o que dizer, fora agradecer várias vezes. — Meus olhos encheram de lágrimas que apressei em enxugar, tamanha dedicação daquela mulher, que nem mesmo era minha mãe biológica.
— Isso não é nada, meu filho. — Sua voz soou tão próximo de uma caricia que fechei os olhos diante de tanto afeto.
— Eu só… nem sei o que dizer, mãe, me sinto profundamente tocado.
— Isso não é nada, é o mínimo que posso fazer para um dos meus filhos. Agora levante essa sua bunda bonitinha e se ajeite para o trabalho e tenha um bom dia. Amo você e se cuide. — Eu ri e ela fez o mesmo do outro lado.
— Pode deixar, e da mesma forma, amo você e se cuidem, mande um abraço ao pai.
— Será entregue, até mais.
Desativei o alarme já que faltava cinco minutos para ele e com renovadas forças, me estiquei e levantei da cama, fiz minha higiene enquanto ligava o notebook. Tome uma ducha rápida para espantar o restolho de sono e logo estava olhando o que me foi enviado, procurando por um novo lugar, ao mesmo tempo que tomava meu café.

Quem é você?

Que coragem a sua
Acabar com a minha solidão
E dizer que me quer
Como ousa marchar para dentro do meu coração
Oh, que grosseria sua
Arruinar minha tristeza
Alessia Cara — I’m Yours
 

Com o passar dos dias, Cameron, sutilmente, tornou-se uma constante em minha vida, seja pelas mensagens engraçadas e uma vasta coleção de vídeos de gatinhos fazendo trapalhadas, quanto pelas ligações que fazia.
Começou devagar, assim como quem não quer nada.
A primeira foi tão desajeitada que, automaticamente nos levou ao riso e logo, a quebra do gelo, mas foi uma ligação curta. Mas, no fim, me deixou como um sorriso pateta nos lábios que dificilmente consegui apagar.
Já nas próximas, estendeu-se uns minutos a mais, mas não muito, desde que era tarde e tanto ele como eu precisávamos trabalhar no outro dia, mas lá, no fim do dia, mesmo que fosse extremamente tarde para ele, Cameron me esperava para trocar algumas palavras e dividir como foi seu dia e perguntar como foi o meu.
E em uma dessas vezes, veio o convite para que fosse com ele na visitação de algumas casas que ele estava de olho. Bom, eu aceitei. E era justamente o motivo de deixar a loja na mão da Ariana e sair quase no fim da tarde para encontrá-lo. Cameron iria me buscar na minha casa em cerca de uma hora.
O trajeto não era longe, Warehouse District, onde ficava nossa loja até as quadras que me separava do loft, mas, por via das dúvidas, chamei um Uber só para ter um tempinho de sobra.
Não adiantou lembrar que não era realmente um encontro, estava ligado naquele modo, procurando pelas melhores peças no closet, para parecer bem, mas sem esforço. Um fiozinho de excitação, aliado ao desejo de estar muito bem apresentável, estava latejando firmemente em meu peito e antes que pudesse fazer algo para parar aquilo, estava vinte minutos adiantado e alinhado. Com uma calça jeans que havia comprado mas nunca usado, desde que não tinha para onde ir, já que era comum chegar do serviço e querer me enterrar no sofá com as pernas para cima; uma camiseta de botões e dobrada na altura do antebraço e toda gama de cabelos soltos dando um minuto de descanso a eles que estavam constantemente presos por conta do restaurante.
Enquanto estava tentando modelar os cachos rebeldes, ao passo que Tyrell me observava da porta, alternando miados, sem realmente entender, já que ele estava acostumado comigo em casa nos meus momentos de folga. O interfone tocou e foi uma corrida automática de antecipação gingando por meu corpo.
Claramente ofendido por ter seu discurso interrompido, passei por cima da bola de pelo. Tyrell me seguiu e depois ficou parado a porta, esperando para saber quem era o intruso que tinha a ousadia de tirar seu dono de casa. Não tardou para que Cameron surgisse e ele veio acompanhado de um vaso e, junto a ele, um petisco para o resmungão.
Aparentemente, o ranzinza não teve problemas com o intruso ou a magia dele também atingia os animais. Tyrell não deixou de ralhar enquanto se esfregava pelas pernas muito bem torneadas pela calça jeans preta que o vestia como uma segunda pele, na parte superior uma camiseta simples preta, o conjunto foi fechado com as botas de motoqueiro, um pouco gastas eu diria, e seu cabelo estava um pouco curtido pelo vento.
— Pequeno, me desculpe, mas levarei seu pai comigo. Mas se serve de consolo, trouxe isso para te animar enquanto saímos. — O latejar da lembrança pipocou no meu cérebro, me trouxe lembrança de um passado onde eu achei que nós seriamos papais de alguém de carne e osso.
Fui rápido em arquivar e o que aquilo trazia consigo.
A essa altura, Tyrell que era mais esperto que eu, ou não, tinha passado de indignado para um ronronar feliz ao ter seu queixo e orelhas coçados, ao ponto de se jogar no chão e praticamente mostrar a barriga que foi atenciosamente acariciada. Deixando o vaso de lado abriu o zip lock da embalagem e agarrou um dos snacks e deu-lhe, se o gato antes já o tinha amado, agora eles já seriam melhores amigos para sempre.
Bufei.
Veja, puta para carinho e para snacks.
Pior que isso, só eu com inveja do bichano.
— Ei, Chase. — Esticou o vaso em minha direção, um pouco envergonhando, um contraste direto com seu estilo todo descolado, ou talvez, fosse uma das coisas que devia esquecer.
— Cameron, entre. — Enquanto o deixava entrar, aproveitei para levar as flores de aparência delicada e uma cor violácea até o nariz, elas não eram apenas bonitas, mas tinha um odor suave.
— Pedi a eles, na floricultura, algo que pudesse durar enquanto você estivesse no trabalho e não precisasse de tanto trabalho, mas que continuasse a enfeitar. Eu achei essa mais bonita entre elas, é uma orquídea borboleta ou Phalaenopsis. — Deu de ombros como se não fosse nada demais.
— Elas são lindas. — Levando-as novamente para meu nariz e vi seu sorriso apreciativo e, até mesmo, um pouco corado enquanto me observava. — Nunca ganhei flores antes, obrigado.
— Não é nada. — Foi rápido em dispensar o elogio desviando o olhar para Tyrell.
Isso era mais uma das coisas que não sabia que podia acontecer, Cameron nunca foi o modelo de menino rico que se gabava do que tinha e era arrogante sobre isso, pelo contrário, ele levava tudo na esportiva e se o assunto era trazido à tona, ele era rápido em lembrar que a grana era dos pais e não dele.
Agora, esse homem a minha frente que ficava desconfortável ao receber um elogio e corava lindamente, era uma versão diferente daquele que um dia eu conhecia.
E isso abriu uma pequena brecha no que eu achei que sabia.

Há males que vêm para o bem

O que te faz tão bonito
É que você não sabe como você é lindo para mim
Você não está tentando ser perfeito
Ninguém é perfeito, mas você é para mim
Carly Rae Jepsen Feat. Justin Bieber — Beautiful
Já havia se passado um mês desde que o tinha visto pessoalmente, tinha as mãos coçando para o abraçá-lo, beijá-lo e sentir seu cheiro, porém, seria no tempo dele, tudo no tempo dele. Mas não era fácil. Queria mergulhar as mãos naquele cabelo cacheado e seguir o cheiro do perfume pelo pescoço dele e o deixar entre meus braços, aconchegados no sofá, para sempre.
Em vez disso, coloquei as mãos no bolso, sem jeito, enquanto apreciava Chase colocando o vaso na ilha da cozinha e tocando gentilmente cada pétala, como um bem precioso. Ele fez uma última ronda, conferindo se Tyrell tinha tudo o que precisava, com um último afago e uma nova tigela para os snacks, ele sorriu em minha direção.
— Agora, sim. Acho que não falta mais nada a não ser irmos. — Ele fez um gesto para a porta e assenti. — Você está de carro? Podemos usar o meu, chamar um Uber, o que você achar melhor.
— Bom, tendo em vista que nosso escritório será nessa mesma vizinhança, pensei que poderíamos ir a pé. — E pude sentir meu rosto mudando para uma variedade de vermelhos, por um momento esqueci que ele poderia estar cansado e sair a pé não era realmente uma boa ideia. — Você prefere ir de carro?
— Sem problemas nenhum, Cameron, sério. Apesar do tempo que moro aqui, nunca andei apenas por diversão, acabei me perdendo no trabalho e pouco prazer. — Deu de ombros ao fechar a porta já se encaminhando para as escadas.
— Você sempre morou aqui? — Perguntei um tanto curioso.
— Não, minha primeira casa foi um apartamento tão pequeno e apertado que mal podia me mexer sem esbarrar em alguma coisa. Depois de um ano que consegui esse lugar, foi um achado, graças um cliente, de bendita memória, que já não está entre nós.
— Oh, eu vejo. Que bom que ele esteve em seu caminho.
— Sim, foi uma benção. — Já na rua ele parou olhando para ambos os lados. — Qual direção?
— Um minuto. — Retirei o celular com as informações e apontei para o sentido contrário do caminho que anteriormente havíamos feito. — Por lá, é um apartamento, parece interessante ou algo assim. Depois tem mais um e esse fica perto do Coffee Prince.
— Sério? — Seus olhos estavam arregalados e havia um meio sorriso que ele tentou esconder ao olhar para o lado.
— Sim, na verdade, gostei mais desse. — Dei de ombros. — Mas também gostaria de deixar as opções abertas e saber se o de agora valeria a pena, colocar tudo na balança, sabe? E ter uma segunda opinião sempre é uma boa pedida. — As bochechas ficaram automaticamente coradas e mordi os lábios para não lhe dar um selar em cada uma.
Ninguém disse que seria fácil estar perto e ter o Grand Canyon entre nós.
Mas cada passo disso valia a pena.
— Como tem sido o trabalho? — Perguntou enquanto parávamos em um semáforo.
— Tem sido divertido apesar de perdermos alguns dos novos funcionários que vieram trabalhar e descobriram que não somos tão héteros quanto eles. A perda é deles, sempre. — Suspirei. — Ainda passamos por esse tipo de coisa, quase não dá para acreditar.
— Pessoas são idiotas em qualquer lugar, como sempre. — Fez uma careta. — Você sabe, meus funcionários são um punhado e temos de tudo um pouco, apesar de serem poucos na grade regular, mas tivemos alguns eventos desse tipo, principalmente com a Ariana e sua namorada há uns anos.
— Aparentemente eles não podem se misturar conosco ou estar no mesmo ambiente. Sinto muito por essa situação.
— Se eu disse tudo bem, estarei mentindo, porque ainda me causa revolta, mas entendo o que quer dizer. Qual o número? — Apontou para a coleção de prédios na rua em questão.
— 1200, vamos ter que subir a rua. — Olhei em volta. — Parece agradável.
— Era exatamente o que ia dizer. Um dos novos ou talvez reformado. Pode ser uma boa opção. — Ele manteve o tom leve, mas Chase não me pareceu exatamente no humor, quase desinteressado.
Concordei e continuamos seguindo até um dos prédios de tijolos a vista e lá estava a moça com quem havia falado no telefone, Gabriella deu um olhar aguçado na nossa direção e não me passou despercebido o olhar de desaprovação que ela rapidamente tentou esconder. Ergui as sobrancelhas ao mesmo tempo que Chase que não tinha perdido o desconforto da outra, fitou-me com descrença.
— O que eu disse? Pessoas. — Sussurrou estreitando os olhos e sem ter um segundo pensamento, segurou forte minha mão, entrelaçando os dedos e quando o bufar mal disfarçado veio, ele sorriu de orelha a orelha, piscando os olhos teatralmente. — Oh, querido, não me parece uma beleza? Pena que eles não querem o nosso dinheiro.
— Cameron, certo? — Ela foi rápida em dar um passo em frente como se nada tivesse acontecido, estendendo a mão que logo foi ignorada por Chase e eu. — É um prazer te conhecer, vocês no caso. — Seu sorriso forçado parecia um rasgar de trapo na face que estava apenas a procura de ganhar comissão.
— Sim, Cameron e Chase, mas pelo que pude perceber, você tem uma questão conosco sendo um casal e seu comportamento foi totalmente fora de linha, minha senhora. Logo, não faço questão de ver esse apartamento ou tratar com uma agencia que não nos aceita por quem somos. Passar bem. — Demos as costas a ela, voltando por onde viemos sem soltar nossas mãos.
— Espere!
— Não, espere você, somos como qualquer outro casal, por que você acha que tem direito de nos julgar? Quem é você para querer julgar qualquer pessoa que saia da sua mente quadrada que só cabe uma determinada sequência? Não, você não merece um minuto do nosso tempo ou de qualquer pessoa. E pode deixar que terei um ou dois comentários a respeito do seu tratamento para com os clientes. — Disse sem dar chance de qualquer outra troca de palavras.
— Passar bem. — Chase sorriu e acenou ao meu lado, com a cabeça erguida e talvez, um pouco orgulhoso de mim, o que, novamente, provocou um calor em meu peito.
Dessa vez, não resisti e deixei um selar em sua bochecha e ele me olhou corando violentamente e seu sorriso se tornou algo que sempre queria ver naqueles lábios, um quê de timidez e um pouco bobo, mas a melhor parte foi que Chase não soltou minha mão e pareceu se aconchegar ao meu lado.

 

Parte VI

 

Sabor de Cereja

 

E eu sei que eu
Que eu preciso assumir o controle agora
Mas eu vendi minha alma há um tempo atrás
Eu me sinto como um fantasma agora
 

The Neighbourhood — Cherry Flavoured
 

— Vejamos, temos algum um tempo até a outra visitação, certo? — Cameron assentiu. — Podemos dar uma olhada por algo em volta do próximo lugar ou podemos passar no CP e beber alguma coisa?
— Nada disso, mocinho, sei que você pode estar preocupado com sua loja, mas tenho certeza que você só contratou os melhores funcionários, correto? — Foi minha vez de concordar. — Então, podemos sim dar uma olhada por volta do meu, futuro a ser, lugar e também podemos fazer uma refeição. — Deu olhada no celular. — Quem sabe, jantar?
— É uma boa ideia e você tem razão. Coffee Prince tem sido a menina dos meus olhos, é difícil sair e apenas relaxar. — Fiz careta e ele assentiu compreensível.
— Às vezes não é fácil deixar o controle ir depois que você está envolvido com algo dessa natureza. Estou orgulhoso de você e como lida com o seu trabalho, principalmente no caso do Nolan. — A aprovação dele não era necessária, tecnicamente não, mas me encheu o peito de orgulho, tanto pelo meu estabelecimento, quanto por meus funcionários e em especial o Nolan.
— Ariana e Nolan têm estado comigo desde o começo e ambos são especiais demais. Jamais viraria as costas para Nolan em nenhum momento, principalmente agora com a pequena Anne.
— Eles são como Theo e Zach são para mim.
— A diferença é que eu não dormi com ele. — Fiz uma careta mentalmente pela rebatida ácida. Olhei de esguelha e o vi encolher, como se tivesse lhe dado um tapa, seus passos engasgaram por um momento, Cameron foi rápido em disfarçar seu mal-estar.
— Bom, não é algo que posso negar. — Dessa vez ele realmente parou seus passos colocando um pouco de espaço entre nós ao fitar-me nos olhos. — Eu sei que não deve ser fácil de entender como passamos de namorados para amigos, mas é assim que nossa relação se tornou. Se isso é algo que você precisa de tempo para processar, não tem problema, apenas me diga, certo? Eu estou disposto a discutir qualquer tópico com você, sem barreiras. Estou completamente despido na sua presença, todas as minhas cartas estão na mesa para debate, Chase.
Dessa vez eu não soube o que dizer e pedir desculpa pelo fel que verteu de forma automática, não me parecia o suficiente no momento, apenas acenei com a cabeça. Cameron sorriu, mas não alcançou as irises esverdeadas e eu me senti idiota por ter batido naquela tecla.
— Então, esse apartamento fica em cima de um restaurante. — Cameron retomou os passos, já como se nada tivesse acontecido. — Você pode, talvez, conhecer quem são eles. É um restaurante de comida típica, fica na rua atrás do CP, o Po´Boy.
— Se eu conheço? Aqueles pralinês vieram de lá e sempre que posso, peço no almoço ou jantar, conheço Logan porque ele é nosso distribuidor, mas nunca tive o prazer de visitá-lo.
— Terá uma ótima oportunidade hoje. — Sorriu largo e dessa vez parecia que o mal estar tinha desvanecido totalmente. — Logan está alugando o apartamento em cima do restaurante, soube por Theo que tem sido um cliente constante por lá e logo entrei em contato. Espero que seja agradável, as fotos que vi me deixaram realmente interessado.
— Sem falar que ficará entre a loja e minha casa, podemos nos ver com mais frequência ou algo do tipo. — Disse um pouco atrapalhado com todo um novo traço de timidez que não sabia que ainda mantinha em relação a ele. — Se você quiser, é claro.
— Será meu prazer, podemos marcar para assistir alguma coisa, criar uma tradição semanal, o que acha? — Seus olhos estavam brilhando no mesmo ritmo que meu coração batia contra minha caixa torácica, um pouco mais animado que deveria. — Uma coisa só nossa.
— Penso que seja uma boa pedida.
Fui rápido em concordar, por mais que ainda existiam gatilhos e suspeitas da minha parte, ainda havia outra parte que estava lutando para se estabelecer e realmente querer começar algo em um novo capitulo.
Eu só precisava lidar com meus demônios e dar um passo de fé.
O que, de fato, não era nada fácil.
Continuamos a avançar pelas ruas até chegarmos no Po´Boy, Cameron deve ter sentido minha tensão por estar próximo ao trabalho e de fato, fora meus funcionários e alguns clientes que presenciaram a cena desagradável com Ariana, eu não estava fora e não sabia se queria passar pelo estresse de estar exposto e ser visto justamente com ele.
Sem que dissesse alguma coisa, com extrema delicadeza, Cameron guardou sua mão no seu bolso do jeans, me deu um sorriso compreensível dando de ombros, como se não fosse nada demais. Porém, eu sabia que se fosse ao contrário, não estaria completamente confortável em ter um parceiro que não queria ser visto comigo. E, em oposição a minha reação inicial de me esconder, senti sua ausência ainda mais destacada ao tê-lo novamente distante de mim, como se um vazio viesse de mansinho, cobrindo cada parte do meu corpo com sua mortalha fria.
Sem perder a batida, ele se adiantou para abrir a porta do restaurante e piscou quando passei. Um pequeno gesto e senti como se um pouco de calor viesse ao meu encontro. O espaço na esquina era amplo e muito bem iluminado, várias mesas distribuídas e articuladas em meio a vasos de plantas, dando uma intimidade mesmo que pequena a cada uma. Havia um palco no centro e uma abertura especial para quem quisesse dançar. Sem falar com o cheiro estimulante de vários pratos da culinária local e o burburinho animado de quem já estava por lá antes de nós.
Não demos dois passos adentro e logo Logan já tinha nos alcançado e enquanto eu mantinha um passo atrás após as formalidades trocada entre nós, aproveitei para acompanhar a interação entre eles.
Logan, pelo que desconfiava, possivelmente tinha o dobro da nossa idade, flertando com seus cinquenta anos, mas ele ainda era muito atraente para deixar passar. Sua juba era toda grisalha e tinha os olhos maravilhosos de água marinha, sua pele corada de quem estava no mar quando podia e seu sotaque italiano apesar dos anos que já vivia ali, era um plus para o pacote completo que o fazia um bom partido. Ele não perdeu o ponto em deixar uma coleção de toques aqui e ali, indicando uma mesa ou a maneira que ele sorriu como um verdadeiro predador ao ver sua presa. Até seu tom sempre efusivo tinha caído para um tom rouco que, em qualquer outro tempo, seria um motivo para deixar qualquer pessoa em estado de êxtase pela atenção e sedução implícita.
Contudo, Cameron parecia ter perdido seu radar sempre certeiro e estava completamente alheio ao fato que Logan estava enviando todos os sinais corretos. Enquanto Logan parecia focado em atirar seu charme, e devo por uma nota aqui, ele era realmente tentador; Cameron estava totalmente voltado aos negócios e conversava mantendo um olhar atento em minha direção, como se não quisesse me perder de vista.
Agora já na mesa, com a promessa que Logan voltaria após o jantar para nos mostrar o apartamento, estávamos sozinhos e com um certo ar de hesitação, após o episódio na rua.
— Se tivéssemos marcado, isso não teria dado certo! — Ergui a cabeça para encontrar Zachary e Theodore de mãos dadas fitando-nos com uma dose açucarada em um sorriso gigante.
— Que coincidência, será que podemos juntar as mesas? — Theodore perguntou já pronto para acenar a alguém.
— Calma, querido, você nem sabe se eles querem nossa presença. — Zachary o advertiu indo para abaixar a mão já erguida, sinalando para que alguém viesse.
— Claro que sim! — Pulei na oportunidade rapidamente dando uma olhada para Cameron que acenou em concordância.
Não demorou para que tudo fosse arranjado e logo me vi ao lado de Theo e de frente para Cameron. Parei um instante para observá-los, Cameron e Zachary, meu coração pareceu encolher. Apesar da minha vontade de seguir em frente foi impossível não voltar e vasculhar aquele baú velho de anos atrás ao ver a proximidade entre eles. Foi praticamente uma dor física, provavelmente, eu não estivesse assim tão preparado para qualquer interação entre nós.
Os próximos minutos foram passados em um borrão enquanto eu misturava as cenas de antes e as de agora, como uma pessoa que começava a beber tudo o que via pela frente, mas em vez de álcool correndo por minhas veias, era apenas as imagens embaralhadas. Foi automático colocar-me em segundo plano, pendendo alheio ao que ia a minha volta, tudo me parecia cru à medida que o tempo passava.
Enquanto eles escolhiam os pratos típicos, eu já sabia o que queria, mas também estava ciente que seria palha na minha boca. Como um bom robô configurado para sorrir e acrescentar sons de concordância a uma conversa que não sabia sobre o que se tratava, continuei ali isolado em meio aos três, fechado no meu próprio mundo dolorido e sem realmente entender como consegui parar ali, ou melhor, como escapar.
Com o avançar da hora, o palco foi aberto para uma banda de zydeco — uma mistura de ritmos cajun com melodias francesas, toques africanos e caribenhos, tocado com sanfona, triângulo e washboard —, foi instalada. Assim que ouviram os primeiros acordes, alguns dos clientes já estavam arrastando suas cadeiras para dançar, já que o ritmo rural da Louisiana não deixava ninguém parado.
A nossa mesa não foi intocada, Zachary estava de pé pronto para se ajuntar aos outros casais, pais e filhos e toda população turística que, também foram enfeitiçados pelo ritmo.
— Vamos, Theo? — Agitou os dedos em direção ao noivo.
— Hoje não, meu amor, que tal você, Chase? — Theodore virou-se para mim e eu fui rápido em negar.
— Acredite em mim, você não quer seus dedos esmigalhados. Sou um péssimo dançarino, Zachary. — Dispensei um pouco mais duro do que pensei e o vi se retrair por um instante. O doce Zachary foi rápido em se recuperar e com um gesto de abandono, voltou-se para Cameron.
Foi aí que senti que a palha poderia ser vertida sobre a mesa.
— E você? Topa ir dançar?
— É claro!
Vi os dois afastarem-se e tomei um longo gole da cerveja que nem mesmo lembrava que havia pedido, não os perdendo de vista. Por mais desajeitados que eles pudessem ser no meio das outras pessoas, Zachary parecia estar se divertido e arrancando gargalhadas de Cameron que, por sua vez, parecia relaxado mesmo estando fora do ritmo, fazendo uma dança estranha que mais parecia um brinquedo de dar cordas.
— Você não tem medo de deixar os dois juntos? — Mordi a língua por deixar a pergunta escapar e rezei para que Theodore, mesmo ao meu lado, pudesse não ter ouvido, ele parecia tão divertido como os dois na pista.
Para o meu azar, o que parecia estar acontecendo muito nessa noite, ou talvez, eu só fosse um cara amargo que deveria estar afastado da multidão que não fosse a minha clientela; Theodore girou em seu lugar e fitou-me detidamente arqueando as bonitas sobrancelhas.
— Medo? Por que eu deveria ter medo de deixá-los juntos, Chase? — A alegria se apagou do seu rosto e ele estava sério ao me questionar. — Talvez, por que eles foram namorados um dia? Porque esse barco já partiu, meu amigo, você pode dar com uma vara naquele arbusto que nada sairá de lá. Achei que por essa altura, você já saberia disso. — Ele soou decepcionado e eu automaticamente fiquei na defensiva.
— E como você sabe realmente? — Estreitei os olhos fitando-o com mais arrogância do que deveria naquela situação.
— Em primeiro lugar, Chase, caso você não tenha notado, eu o amo e ele a mim. Em segundo, vem a confiança, de outra forma, por que diabos o teria pedido em casamento? Por que quereria viver o resto dos meus dias ao lado dele? — Senti uma onda de vergonha me banhar da cabeça aos pés e minha pele entrar em combustão, mas ele não parou ali. — Sabe, Chase, eu não tenho ideia do que vocês passaram, apesar de saber apenas a versão do Cam sobre tudo. Não sei o que você passou. Sei apenas o que aconteceu com o Cam após você sair, não estou aqui para te julgar ou pender a balança para quem eu conheço e me relaciono a mais tempo. — Com toda calma do mundo ele continuou, agora, suavizando seu olhar. — Porém, a única diferença entre nós, que posso ver e saber, até porque não nos conhecemos realmente, apenas superficialmente e não o suficiente para apontar o que você deve ou não fazer. Nem é o meu lugar, devo ressaltar, eu não tive seu tempo distante do Zach. Quando tive a oportunidade, eu agarrei com tudo o que tinha, não perdi um minuto do tempo quando meu noivo me contou que ele já não namorava, e, novamente vou ressaltar, isso após uma semana que você foi embora.
— O quê?! — Chocado senti o baque de suas palavras como socos, um atrás do outro sem ter o mínimo tempo para respirar.
— Exatamente o que eu disse, Chase, e quer saber a melhor parte ou, porventura, a parte mais fodida disso? É que durante todo esse tempo, ele só tinha uma meta para seguir em frente e essa meta era você. Não existiu outra pessoa na vida dele, porque assim como você, ele estava quebrado demais para notar que existia vida além dele mesmo. Tanto por você, quanto pela família dele. A única pessoa que poderia ajudá-lo a juntar seus pedaços tinha ido embora sem pensar duas vezes. — Arquejei e ele me fitou com uma espécie de piedade em seu olhar. — Não posso e não vou te julgar, porque você é o único que sabe o que passou entre vocês, o que sentia durante o tempo de namoro deles, como se sente hoje em dia. Mas continuar ruminando algo que já não existe, não é verdadeira solução, não é? Agora com licença, vou resgatar meu noivo daquela marionete. — Ele deu dois passos antes de voltar e me encontrar ainda na mesma posição. — Só para recapitular, essa é a primeira vez que o vejo sair e se divertir. E por que você acha que isso aconteceu? — O vi partir mais uma vez para tê-lo voltando para mais uma dose de realidade em minhas veias. — Se você tivesse a oportunidade de realmente ter uma segunda chance na vida, você não a pegaria?
Dessa vez ele deu as costas sem esperar por uma resposta. Continuei ali, sentado, enquanto os assistia brincar e sorrir, tão logo Theodore chegou a eles, Zachary escorregou para os braços do noivo e outra vez, fui testemunha do olhar apurado entre eles e o mundo se apagar lentamente para o resto das pessoas a volta deles. Não consegui desviar o olhar, nem mesmo quando Cameron, sentou-se novamente a minha frente.
Com o choque por conta da revelação do Theo, voltei-me em direção ao rapaz a minha frente, mas antes que algo pudesse ser dito diante da hesitação bailando entre nós, foi a vez do Logan voltar.

Talvez, um começo

 

Cada noite sem fim tem um dia amanhecendo
Cada céu, por mais escuro, tem um raio brilhante
E ele brilha em você
Amor, você não vê?
Você é a única pessoa
Que pode brilhar para mim
 

Ricky Martin feat Meja — Private Emotion

Logan foi rápido para nos direcionar para uma das portas e saímos do restaurante para um beco lateral, longe da agitação da rua e seu restaurante. — Não perguntei se você tinha carro, eu mesmo não faço uso, já que tenho tudo praticamente a minha disposição por aqui. O máximo que sinto é a necessidade de sair e velejar e isso posso fazer rapidamente a poucos passos daqui. Alguns dos funcionários deixam seus carros por aqui e nunca tivemos problemas. — Esclareceu sacando um molho de chaves. — Eu moro aqui desde que meu marido faleceu há alguns anos, mas tenho sentido que já não é o meu lugar. Tem muito espaço e lembranças que, apesar de serem maravilhosas, sinto que já não pertenço aqui. Está na hora de levantar as velas e partir para outro destino. Algo mais aconchegante e quem sabe com um novo amor.
Deu uma piscadela que rapidamente ignorei, eu já era carta fora do baralho há muito tempo para qualquer pessoa. O único que realmente queria para passar o resto da minha vida, estava perdido em algum lugar entre o constrangimento na rua, durante o jantar e agora mantinha seus braços enrolados em si mesmo, quase como se estivesse se protegendo de alguma coisa. Aproveitando que Logan ia na frente pontuado os atrativos do lugar, dei-lhe uma batida de ombro e Chase pareceu despertar do seu devaneio e deu sorriso sem graça, de quem havia sido pego no flagra.
— Está tudo bem? — Sussurrei e o vi sacudir a cabeça afirmando, porém, sem tanta confiança, como talvez, quisesse mostrar. — Nós já vamos embora, ok?
— Leve seu tempo, não tenho pressa. — Cochichou e dessa vez ele sorriu e me pareceu mais sincero do que há alguns segundos.
— Aqui estamos, meninos, fiquem à vontade para olhar tudo. As janelas e as varandas podem ser abertas para aproveitar o ar da noite, tem uma vista 180°, e ao fechá-las fizemos questão de que o barulho não nos perturbasse, o que é uma vantagem morando em cima do restaurante e os bares a nossa volta. Bom, vou deixar que vocês deem uma olhada em volta e podemos nos encontrar lá fora, o que acham?
— Uma ótima ideia. — Concordei mais que depressa a um triz de empurrá-lo escada abaixo e finalmente ter um momento para saber o que estava acontecendo com Chase.
Todavia, ele não me pareceu inclinado a olhar em volta, estava da mesma forma, encolhido em seu próprio aperto, olhando pela janela aberta. Deixei-o ter seu momento a sós com seus pensamentos e saí para dar uma olhada em volta. Era um lugar tão interessante quanto o de Chase, com o conceito aberto, onde tudo podia ser visto no primeiro momento, até que achei um corredor discreto que levava a duas suítes, uma principal e outra provavelmente para visitas. Todo espaço era colorido de forma harmoniosa, sem deixar de lado o gosto pessoal de cada um que compunha o antigo casal. Em algumas das paredes, ainda haviam retratos de Logan e seu marido em vários momentos. Parei em um instante em um deles, Logan o abraçava por trás deixando um beijo na bochecha direita do homem, este por sua vez, parecia rir com os olhos da mesma maneira que os lábios estavam arreganhados em um sorriso de pura alegria.
Por um pequeno segundo, tive inveja do que via ali e meu próprio coração engasgou com a saudade latente de quem estava há poucos metros de mim.
Talvez nunca mais tivesse a chance de ter essa intimidade.
Talvez, se tivesse sorte, poderíamos começar novamente.
Mas só o tempo diria com certeza, durante esse meio tempo só poderia sonhar com estar daquela mesma maneira com Chase.
Durante o tempo que passei com Allison e John, eu pude ver como era ter uma família de verdade, que realmente se importava com você, até te levar as raias da loucura e nem por um momento pude reclamar do amor cedido a mim por eles. Na mesma medida, crescia a vontade de ter o mesmo tipo de amor, onde um deixava o outro louco, mas o carinho e o calor entre eles ainda eram palpáveis depois de todo o tempo em que estavam juntos. O desejo de ter uma família que, nunca antes tinha me passado pela cabeça, devido a minha própria criação genérica, veio como um cobertor quente. Aquecendo as partes dentro de mim que estavam praticamente congeladas diante do abandono ao longo da minha vida.
E aquele apartamento seria um bom lugar para começar uma família, talvez ainda não com o cachorro que desejava ter, mas com Tyrell e mais um par de filhos; sem falar que seria próximo para o trabalho do Chase e o meu, o suficiente para que fossemos a pé.
— Eles são lindos, não são? — Sua voz soou baixa, quase como se não quisesse quebrar a quietude do ambiente e a alegria irradiando do momento íntimo na hora do click. Concordei num balançar de cabeça, também aproveitando-me da intimidade suave da situação. — É notável que eles se amavam, está quase impresso em cada lugar que vi. Não deve ser fácil.
— Não mesmo. O que achou do lugar?
— Perfeito, como foi pontuado, tem tudo aos seus pés. Se soubesse que estava disponível, talvez, passasse a perna em você e assumiria esse lugar sem nem pensar duas vezes. — Ele riu e voltei-me para assistí-lo, seu olhar encontrou o meu e rapidamente com um corar, desviou para longe, retirando-se em direção a sala.
Em silencio descemos a escadas e dessa vez, minha mão foi envolvida por outra levemente enregelada e o acolhi entrelaçando os dedos. Chase não disse nada. Eu também não. Chegando na calçada, o encontramos terminando um cigarro enquanto fitava o céu, parecia levemente emocionado.
— O que acharam? — Perguntou ainda fitando o céu.
— Perfeito, exatamente o que estava procurando.
— Fico feliz em ouvir isso, ainda mais em vê-los começando uma nova vida a dois. — Enviei uma olhada de esguelha para Chase, mesmo estando com seu rosto ruborizado, ele não se apressou para corrigí-lo e eu muito menos o faria, tendo em vista que aquilo era o desejo do meu coração. — Sabe, meninos, nem sempre será fácil, mas vale a pena. Cada maldito segundo vale. Então, espero que você aceite meu acordo, não tenho necessidade de ter um aluguel alto, mesmo morando praticamente no centro, tenho um bom pé de meia feito por mim e outro que ganhei do meu marido quando ele se foi. — Por uma fração de segundo sua voz tornou-se embargada. — É como eu sempre digo, seu eu pudesse ter somente mais uma chance, um minuto a mais com ele… — Respirou fundo e dessa vez ele não escondeu a tristeza ou o olhar úmido que logo lhe escorreu pelo olho esquerdo. — Bom, mas não é sobre isso que estamos falando, perdoe esse velho emocional.
— Não há nada ser perdoado, Logan. — Desvencilhando dos meus dedos, deu os três passos que os separava, Chase o envolveu em abraço apertado e cochichou algo no ouvido do mais velho. — Espero que você tenha uma próxima oportunidade de encontrar alguém que possa amá-lo da maneira que você merece. — Disse assim que se afastou e voltou a tomar minha mão.
— Também é o meu desejo. — Logan ainda tinha seu tom sufocado pela emoção. Dando uma tossidela, alcançou o bolso de trás. — Esse é um contrato que venho carregando há algum tempo, esperando a pessoa certa e acho que é você, Cameron. O preço, como disse anteriormente, é apenas simbólico. Espero que você não seja ofendido por isso e queira cuidar desse lugar por um longo tempo.
Peguei o contrato, era simples e direto ao ponto: o preço era uma bagatela de quinhentos dólares. Foi de fato uma surpresa, mas não recusaria por nada desse mundo, ainda mais tendo em vista o que tinha em mente junto a uma boa dose de esperança. Os termos eram de que cuidaria do lugar por tempo indeterminado, tendo o direito de adequar o lugar como bem quisesse dentro do limite da área, até que uma das partes quisesse sair, no meu caso, ou ele precisasse do lugar, Logan me avisaria com antecedência de dois meses.
— Se você está de acordo, só preciso de uma caneta. — Disse animado com a perspectiva de começar a mudança logo nos próximos dias.
— Você é como meu falecido Teddy, sempre dispostos a fazerem tudo o mais rápido possível. — Comentou entregando-me a caneta que outrora estava em seu bolso da camisa.
— Não posso realmente culpa-lo por isso, Logan, a vida me ensinou na tenra idade que as melhores coisas têm que ser agarradas na primeira oportunidade, caso contrário, existe o risco de nunca mais ter a chance de conseguir. — Esclareci enquanto assinava no lugar indicado e ele fez o mesmo.
— Você tem razão, Cameron. Apenas precisarei de, no máximo, uma semana para retirar o que for necessário e o que eu realmente precise, o que sobrar você pode utilizar ou fazer uma venda de garagem. O que achar melhor. — Assenti ele estendeu a mão que logo correspondi. — Bom, você sabe aonde me encontrar caso precise de alguma coisa ou tenha dúvidas. Boa noite, meninos, e os vejo daqui uma semana. — Acenou antes de se retirar em direção ao restaurante.
— Logan? — Gritei e ele parou seus passos, virando-se para nós. — Como você sabia que eu seria a pessoa indicada para estar aqui?
— Teddy sussurrou em meu ouvido. — Deu de ombros e voltou a seus passos.
Aliada a frase mística, uma brisa nos acercou, bagunçando os cabelos de Chase, quase como uma caricia, e meus próprios cabelos, fazendo com que nós, no mesmo instante tivéssemos um arrepio. Quem sabe Teddy também estava nos dando as boas-vindas.
— Obrigado pela recepção, Teddy. — Chase sussurrou olhando em volta, por fim, chegou-se mais perto e passando os braços a minha volta, me deu um abraço apertado. — E parabéns pela sua aquisição.
— Obrigado, Chase, fico feliz que você também tenha gostado.
O abraço demorou mais do que teria esperado e quando chegou ao fim, Chase colocou as mãos em meu maxilar e levou-me até ele, seus lábios tocaram os meus por alguns segundos antes de se afastarem.
— Você merece. — Comentou ainda contra meus lábios.
Como passamos de não segurar a minha mão até receber aquele beijo, parecia um caleidoscópio e estava momentaneamente sem reação. Traçando ligeiramente minhas sobrancelhas e meu rosto de forma carinhosa, Chase sorriu, voltando apenas a segurar minha mão.
— Está na hora de me levar para casa. — Ele disse batendo o seu ombro no meu, ou pelo menos tentou, e sem que pudesse me impedir, sorri de orelha a orelha.
Dessa vez o caminho foi feito num silêncio agradável, em um passo tranquilo, quase sem pressa de chegar. Chase parecia ter caído num estado contemplativo e quem era eu para atrapalhar seu momento, não é mesmo? Pois é, em meio a isso, uma leve carícia era direcionada a minha mão com o polegar, como um ato que nem ele havia percebido que estava fazendo, talvez, acostumado a fazer o mesmo com o Tyrell.
Chase não soltou minha mão nenhuma vez durante os passos até chegar ao seu loft e mesmo assim fez um gesto para que entrasse. O segui para encontrar Tyrell enrolado no sofá, sem se dignar a levantar a cabeça ou nos receber com seus miados. Ele indicou as banquetas e sentei, Chase pescou um par de taças no armário e da adega climatizada, sacou um Casal Mendes Rosé.
— O que aconteceu quando fui embora? — Perguntou servindo uma dose generosa em cada taça.
— Por essa eu não estava esperando. — Comentei e ele riu. — Tudo parecia diferente quando você se foi, sem sentindo, sabe? Passei muito tempo pensando no que tinha acontecido com você e comigo, como acabamos da forma que aconteceu. Nunca vou esquecer do seu rosto quando o deixei aquele dia. — Esfreguei o peito na lembrança dolorosa. — Era como se uma parte vital de mim havia ido embora e eu não sabia precisamente como processar essa informação. Lentamente definhei sem compreender exatamente porque sua saída tinha me sido tão dolorosa. Foi então que Zach sentou-se para conversar comigo. Foi como se toda uma cortina fosse aberta e eu visse tudo pela primeira vez. — Dei um gole na bebida fresca e suculenta.
— Não sei como dizer sem isso sem ter a certeza de um especialista, um psicólogo, que nesse caso, foi Zach quem fez o papel. Foi como se eu o tivesse afastado antes que você o fizesse comigo. Era tão mais fácil te manter a distância de um braço, assim você não poderia me machucar ou me trocar. Então, eu mesmo acabei fazendo a troca. Nunca me passou pela cabeça que você poderia realmente gostar de mim. Nunca mesmo, Chase. Quando eu tive aquela ideia que nos levou para tudo isso, eu estava consciente e foi algo que eu queria fazer, pois eu queria, nem que fosse por um instante, ter você em meus braços, ter pelo menos, um pedaço do que seria realmente a felicidade. Porém, o tempo passou e tornou-se confortável ter você sempre presente e foi aí que todo o caos entrou em combustão.
— Minha cabeça estava confusa esperando que um dia viesse e você ficasse cansado de mim e mais uma vez eu seria deixado, da mesma forma que fui deixado de lado por meus pais durante minha vida, já que nunca pude alcançar as metas pré-definidas por eles. Logo, nunca poderia ser o suficiente para você, alguém tão especial não ficaria comigo, isso não poderia acontecer, não nesse mundo. Não quando já tinha sido amaldiçoado com uma família que não me queria e fazia questão de deixar isso claro em todas as vezes que estava com eles, ou que era pressionado a ficar com alguma garota para não sujar o nome da família.
— Nunca entendi. O que diabos é um nome afinal? É mais importante que seu filho? Aparentemente na minha casa, é. Foi então que entendi que a parte faltando era você, que o que eu sentia sobre o medo de te perder ou me afastar, que acontecesse algo do tipo, era porque eu realmente tinha sentimentos por você. E quando isso é explanado por seu namorado é algo ainda mais espinhoso do que parece. Mas nem tudo estava perdido, pelo menos para Zach, ele compreendia o que acontecia comigo e decidimos que já não éramos capazes de manter um relacionamento baseado em nada. Assim como abri meus olhos para a grande verdade, ele também o fez. Na manhã seguinte dei de cara com um rapaz asiático batendo às cinco da manhã na nossa porta e quando Zach o viu, eu soube exatamente o que ele queria dizer.
— Eu saí de lá para ir para casa no mesmo instante, dando privacidade a eles, onde fui recebido com um arquear de sobrancelhas de Veronica e um bufar irritadiço do Alfonso às seis da manhã. Veja, nem mesmo um diploma foi capaz de alegrá-los ou dar um minuto de pausa na constante reclamação que, eles não haviam esperado a vida inteira para terminar com um filho como eu. Já na empresa eu era um estorvo constante não somente para meu pai, mas para todos que me viam apenas como o filho do chefe. Eu não podia me adaptar naquele lugar, foi nesse momento que recebi um ultimato dos meus pais: entrava linha, e isso queria dizer casar com uma moça e carregar o bom nome da família. Era essa a única coisa que poderia fazer, já que alguém inútil como eu, não seria capaz de fazer qualquer outra coisa, ou sair pela porta e nunca mais voltar.
— Eu recolhi as poucas coisas que tinha e que levava meu nome e fiz o que eles disseram, saí pela porta para nunca mais voltar. — Observei o líquido de cor salmão na taça. — Eu não tinha exatamente para onde ir, com tudo enfiado no meu carro alternava entre estacionamentos dormindo no carro. Não queria balançar o barco do Zachary e Theodore, já que eles estavam em uma nova fase. Precisava guardar o pouco que havia restado, assim como eles não me queriam por quem eu era, também não queria nada do que tinham, o que me deixou com algumas centenas no meu bolso e sem uma casa. Foi em um desses dias que John me encontrou dormindo no estacionamento do mercado próximo a nossa casa. Ele não demorou a juntar dois mais dois e chegar à conclusão do que havia acontecido, desde que aparentemente era a conversa que havia surgido no bairro que dizia que os Harrington haviam expulsado seu filho de casa por ser um desviante.
— Você sabe, Chase, John é um homem de poucas palavras e uma determinação fora de série, ele não saiu de lá até que eu o seguisse para sua casa. Seus pais me acolheram sem pensar duas vezes, dando-me um punhado de coisas para pensar e um teto sobre minha cabeça. Agora com um endereço, era mais fácil procurar um emprego, tendo em vista que meu diploma não era algo que queria prosseguir na área, foi então que encontrei serviço em uma obra, como ajudante de pedreiro, caiu como uma luva para mim. Nunca poderia adivinhar que seria aquilo que me faria feliz, mais do que usar um terno em um ambiente tóxico como estive. Então, eu trabalhava de dia, após chegar em casa, ia para faculdade online e fiz todos os cursos que eram possíveis nessa área. Nos dias de folga e fins de semana, encontrei um segundo emprego, sempre procurando guardar tudo que podia e ainda ajudar na casa, não que seus pais me deixaram o fazer. Mesmo assim eu continuava depositando todo mês o dinheiro naquele pote de dinheiro em cima da geladeira, sabe? — Ele assentiu com um sorriso de sabedoria. — Do que seria um aluguel ou fazia compras no lugar deles, o que causava uma espécie de guerra em casa. Foi a melhor época da minha vida, se posso dizer. Não havia um dia que não era acolhido ou questionado sobre como foi meu dia e como estava indo os estudos, ou até mesmo, se precisava de alguma coisa.
— Toda vez que algum deles saíam tinham em mente sempre trazer algo para mim. — Respirei fundo, sentindo o peito apertar e os olhos embaçarem. — Sabe, aquele chocolate que eu gostava, uma revista que eles viram que poderia ser aproveitada para meu curso, até mesmo um par novo de calça jeans, um casaco e todas as vezes que queria retornar eles apenas diziam que esse era o trabalho dos pais, deixarem seu filho o mais confortável possível. Veja, seu filho. Eu nunca tive isso durante mais de vinte anos da minha vida e, de repente, eu tinha uma família nova que realmente olhava para e por mim. Sem se preocupar se eu me deitaria com homens ou mulheres. Eu apenas pertencia ali como se fosse um deles.
— Allison sentou comigo um dia, ela apenas me observou como quem poderia ler meus pensamentos e a pergunta que veio a queima roupa foi: Por que você não está saindo, meu filho? Te vejo ir e voltar do trabalho, estudar e ter a visita dos meninos aqui, mas e você? E eu só tinha uma resposta: Porque eu amo seu filho e eu quero passar o resto dos meus dias com ele, apenas com ele. Ela não disse nada, deu a volta na mesa e me abraçou de uma maneira que só uma mãe poderia fazer ao seu filho.
— Onde você estava todas as vezes que fui para casa? — Sussurrou estendendo suas mãos sobre as minhas.
— Com Zach e Theo, tive medo que se você me visse lá, poderia não querer ficar e não era justo deixar você desconfortável dentro da sua própria casa. Também pedi a eles que não contassem a menos que você perguntasse por mim. Na mesma época que aconteceu isso comigo, ambos passaram por situações semelhantes em suas próprias famílias ou no que deveria ser. Foi então que com a ajuda da sua mãe, alguns contatos de Theo, viemos para cá depois de finalmente conseguir o suficiente para começar nossa própria empresa. Apesar de ser algo distante do que era o plano de Zach, ele foi rápido em se adaptar nessa nova realidade, apesar de dizer que, se um dia tiver oportunidade, retornará ao seu caminho original. Foi assim que tudo aconteceu durante meu tempo longe.
— Eu não sei o que dizer, Cam. — Franziu as sobrancelhas fitando nossas mãos. — Confesso que é muito para assimilar, porém, três anos são tempo o suficiente para qualquer um de nós. Ou eu tenha recebido pistas demais durante a noite. — Ele riu, meio querendo não acreditar, mas quando aqueles bonitos olhos me alcançaram, eles refletiam o que me ia na alma também. — Se for sincero, não tive nenhum interesse amoroso esses anos, porque tinha esse cara na minha cabeça o tempo todo e ninguém parecia alcançar o padrão dele, não que eu também tivesse tempo, mas tive um ou dois clientes insistentes, só que nenhum deles era você. — Eu ri sentindo o coração acelerar e a esperança florescer com força total. — Mas também não sei se estou completamente pronto para esse passo de fé. Eu quero você em minha vinda, Cam, Deus sabe o quanto eu o quero, mas podemos levar isso devagar?
— É claro. — Alcancei seu rosto acariciando suas bochechas de pelos aparados e vi seu olhar fechar e sua cabeça pender na minha mão. — Agora que estamos aqui, temos todo o tempo do mundo.
— Você está ciente do que eu sentia naquele tempo. — Ergueu seu olhar para o meu. — Nada realmente mudou durante esse tempo. Tem sido uma briga que cansei de lutar comigo mesmo e com o medo que tenho, não vou negar.
— Toda vez que seu medo pressionar, eu estarei aqui para te lembrar que nunca mais será da mesma maneira. — Alcancei seu rosto depositando um beijo em sua testa. — Sempre que precisar desse lembrete, estarei exatamente aqui para te recolher em meus braços e lhe lembrar de que a única pessoa que eu amo, é você.
Um som como um protesto escapou daqueles lábios carnudos quando o soltei, mas rapidamente dei a volta na ilha e o puxei para seus pés. Ele veio de bom grado, os braços jogados por sobre meus ombros, um sorriso tímido bailando em seus lábios, lhe sorri apenas aproveitando aquele momento de intimidade antes do beijo. E quando finalmente aconteceu, achei que poderia ter que ser amparado em algum lugar, era ainda melhor do que me lembrava. Um gemido rouco soou de alguém e a emoção de estar ali era apenas demais para que pudesse suportar e em vez de aprofundar o beijo, apenas descansei minha testa na dele, o trazendo para mais perto.
— É melhor do que eu lembrava. — Sussurrou contra meus lábios para puxar meu lábio inferior entre os dentes.
Dessa vez eu soube de quem era o gemido, entrelacei os dedos na juba cacheada, aprofundando o beijo angulando sua cabeça da maneira que desejava, tomando tudo que me era entregue. Chase não foi passivo em sua entrega e logo eu estava de encontro a ilha, com ambas as mãos em meu maxilar e seu gemido contra meus lábios a cada tracejar da língua contra a minha, como se estivesse bebendo o vinho da minha boca com sofreguidão, um quê de desespero, como se fosse a única oportunidade que ele teria.
E eu sabia exatamente como ele se sentia.
Era o mesmo para mim.
Duas forças se encontrando e guerreando por mais, sempre mais, mas assim como ele não estava pronto realmente, eu também não estava. E queria aproveitar cada galgar dos degraus para que ambos estivéssemos confortáveis, desprovido de qualquer desconfiança e insegurança. Quando me afastei dessa vez, escondi meu rosto em seu pescoço e senti contra meus lábios sua pele se arrepiar e ele gemeu em protesto.
— Eu sei, meu amor, eu sei. — O aconcheguei em meu peito e não perdi que, assim como eu, Chase estava excitado. — É o mesmo para mim. Sempre foi. — Deixei um selar em seu pescoço e ele pendeu a cabeça, dando espaço, entregue. — Eu adoraria com todo meu coração tê-lo nu em meus braços e seu corpo enroscado ao meu, mas nós dois sabemos que é cedo demais dentro do cenário atual, certo?
— Sim. — Respirou fundo, afastando-se um pouco, para me fitar. — Quem diria que o cabeça quente é a voz da razão atualmente? — Eu ri e ele também, acariciando meu rosto. — Não posso negar, você tem razão, seria fácil se deixar levar pelo lado físico do nosso relacionamento, como fizemos antes. Dessa vez devemos pôr o pé no freio.
— Exatamente e enquanto estamos por aqui. — Conferi no relógio. — Ainda é cedo, podemos ver algum filme ou série antes que eu me vá. O que acha?
— Perfeito! — Sorrindo puxou-me pela mão em direção ao sofá, enquanto ele escolhia um dos clássicos da nossa adolescência, eu o aconcheguei em meus braços, da mesma forma que queria ter feito mais cedo.
Se isso não era perfeito, eu não saberia o que mais poderia ser.

O que poderia ter sido amor

 

O que poderia ter sido amor
Deveria ter sido a única coisa destinada a acontecer
Eu não sabia, não pude ver o que estava na minha frente
E agora que estou sozinho
Tudo o que tenho é o vazio que vem com a liberdade
O que poderia ter sido amor, nunca será
 

Aerosmith — What Could Have Been Love

Acontece que o pé no freio só durou um pouco mais de um mês e não seria eu que reclamaria disso. Cameron era uma presença constante no meu lugar e eu no dele, assim como era ele no CP, e eu no lugar da construção. Nas próximas vezes que vi Zachary e Theodore, ainda não era de todo fácil, mas aos poucos parecia caminhar naquela direção.
Era o que me bastava, pelo menos, por enquanto.
Quando finalmente contamos aos meus pais sobre nós, foi uma verdadeira festa e tão rápido quanto puderam, estavam no próximo voo, tanto para conferir de perto se tudo realmente estava bem, quanto para averiguar o novo lugar de Cameron. Que além de ser tratado como genro, era também como filho e recebeu um ou dois puxões de orelha quanto a decoração da sua casa e porque as paredes ainda não haviam recebido um novo papel de parede ou uma bela mão de tinta. O karma, como sempre, era uma ótima cadela e a risadinha durou até que ela chegou no loft e quase teve um treco quando encontrou algumas coisas fora do lugar e a dispensa praticamente vazia.
Foi minha vez de escutar um pequeno sermão e Cameron rolar de tanto rir.
Fazer o que, era a vida e eu estava muito satisfeito até aquele momento.
Talvez, eu tivesse apressado demais e estado feliz por muito mais tempo do que o esperado, ou quem sabe, tenha caído na mesma besteira de sempre, como um pato em uma armadilha, porque nada, nada mesmo poderia me alertar para o que encontraria.
Era nosso aniversário de seis meses, como um marco comemorávamos a data todos os meses, ficando em casa e fazendo um jantar especial ou conheceríamos um novo ponto turístico. Foi comum trocar as chaves com o passar do tempo e era natural que quando podia, saía mais cedo para ter um tempo a mais com Cameron, da mesma forma que ele o fazia, sempre nos encontrávamos na casa dele e raramente na minha desde que a dele era mais perto.
Porém, dessa vez, o que eu encontrei não era nada que esperava, havia um rapaz sentado em uma das baquetas da ilha que ele tinha recentemente adicionado. E eu não o conhecia, até onde podia me lembrar, ele tinha os cabelos loiros e molhados de quem havia acabado de sair do banho. Ele vestia uma das camisas de Cameron e também uma das bermudas.
Devo ter feito algum barulho porque ele virou-se em minha direção, seus olhos incomuns me lembraram do peridoto em uma bonita cominação de verde e amarelo que, se arregalaram ao me ver, apressou-se em descer da banqueta e se empurrar contra o balcão. Ele não parecia ter mais de vinte anos e flagrantemente assustado por me encontrar ali, não deveria já que tinha fotos minhas e do Cameron durante os seis meses.
Eu não queria ir até lá, mas meu cérebro já tinha feito sua corrida e tirado sua própria conclusão do que havia se passado ali, meu corpo entrou numa espécie de torpor e deixei que os pacotes que carregava caíssem todos no chão. Eu ouvia um zumbindo em minhas orelhas e parecia que estava a quilômetros dali. Assistia como uma terceira pessoa, como se minha alma tivesse me abandonado e agora acompanhava a cena.
Pela visão periférica vi que Cameron estava vindo pelo corredor, vestido apenas com uma toalha e nada mais. Ele parou a minha frente, mas não conseguia processar nada do que era dito, via sua boca mexer e ele gesticulava beirando ao pânico, o que parecia acrescentar ainda mais culpa à situação. Meu cérebro só revirava as imagens dos dois e provavelmente os momentos íntimos que eles tiveram ali, ali mesmo onde eu também dormia. Quanto tempo isso acontecia? Era um caso recente? Haviam tido outros durante todo aquele tempo.
— Eu não devia ter confiado em você. — A frase saiu em tom baixo e mesmo assim teve efeito de uma bomba e o vi encolher, seus olhos magoados e derrotados enquanto ele me fitava sem querer acreditar no que ouvia. — Dessa vez, eu acreditei que seria diferente, você veja, eu confiei em você com meu coração, meu corpo, durante todo esse tempo e agora isso. — Indiquei com a cabeça o rapaz. — Eu nunca serei o suficiente, não é, Cameron?
— Você sequer escutou qualquer palavra que eu disse? Alguma mísera palavra do que eu expliquei? Não, Chase, foi eu quem foi idiota de ter confiado em você. Mas agora é tarde demais, você não ouviu nada do que eu disse e rapidamente tirou sua própria conclusão sobre algo que você não tem sequer todos os fatos. Mas fui julgado e condenado no seu tribunal. — Ele riu e foi um som gutural, tão dolorido quanto eu me sentia. — Eu só tenho uma única pergunta Chase: alguma vez hoje, durante seu dia de trabalho, você pegou seu celular e escutou alguma das mensagens que lhe deixei?
Franzi as sobrancelhas tentando lembrar se tinha pego o celular, só lembrava que na noite anterior ele havia descarregado e tinha deixado para carregar na loja, mas não o havia feito. Se a palidez anterior já tinha me atingido, agora podia me sentir como um fantasma quando me dei conta do tamanho do meu erro.
— Eu sabia. — Ele disse num tom desesperançado. — Eu deveria ter sabido que isso poderia acontecer, não é, Chase? Era apenas uma questão de tempo antes que algo pudesse acontecer e você estaria rapidamente me tratando como o garoto idiota que um dia eu fui. Quando você vai perceber que eu não sou mais aquele garoto? Quando vai entender que aquela pessoa há muito tempo foi queimada, tem suas cinzas enterradas e já não está entre nós? A pior parte disso, é que eu acreditei que algo de bom poderia sair disso. Bom, talvez, nem toda parte do antigo rapaz foi destruída. Aquela parte idiota de acreditar que eu poderia ser alguém que pudesse ser amado não foi totalmente destruída. Continuo sendo um tolo crédulo. — Cameron afastou-se em direção a ilha, o rapaz estava encolhido no chão, abraçando suas pernas num choro baixo. — Está tudo bem, Damien, nada vai te acontecer, que tal você esperar no quarto de visitas que eu te mostrei antes?
— Me desculpe, Cam, eu não queria que nada disso tivesse acontecido. — Ele olhou por cima do ombro de Cameron, fazendo-me desviar do olhar angustiado para fixar na marca de mordida que tinha deixado ali na noite anterior, a faca já cravada em meu peito foi girada lentamente, aprofundando ainda mais seu corte.
— Está tudo bem, você não fez nada de errado. Entendeu?
O jovem balançou a cabeça sem tirar os olhos de mim, mas era visível que ele não acreditava em nada daquilo, ainda dessa maneira apoiou-se nas paredes e sumiu em direção ao quarto de visitas. Ao som, de uma gaveta abrindo virei para encontrar Cameron do outro lado do balcão, segurando uma pequena caixa aveludada. Seus lábios estavam franzidos, enquanto ele olhava a caixa sem realmente vê-la por alguns minutos onde nenhum de nós falou.
Então ele a abriu e girou em cima do balcão em minha direção.
— Hoje era a noite do nosso aniversário de seis meses, o dia que tinha guardado para lhe pedir em casamento. — Ele ainda tinha seu olhar no veludo escuro, sua voz rasgada e baixa. — O mais engraçado de tudo isso, é saber que meus pais realmente tinham razão. Veja, Veronica e Alfonso sempre bateram na tecla que não haveria ninguém no mundo que pudesse ter qualquer tipo de carinho por mim, muito menos me amar, um palerma inútil como eu jamais teria uma chance. E, no fim, eles estavam certos.
— Cameron…
— Está tudo bem. — Seus olhos sem vida me fitaram sem realmente me ver, um espectro no lugar do homem sempre sorridente. — Se você não se importa, pode ir agora, daqui um pouco Zach e Theo estão chegando para levar Damien e eu ainda preciso trocar de roupa. — Fez um gesto para a toalha. — De qualquer forma, obrigado por passar, faça um bom caminho para casa. — O fender angustiado do que seria um sorriso mal tocou seus olhos ou qualquer parte do seu rosto, acenou e deu as costas.
— Espere, Cameron.
— Nunca vou conseguir colocar em palavras o que foram esses seis meses, obrigado por eles, Chase, entretanto, não há como continuar sem confiança. Se cuide.
Dessa vez não tinha nada a dizer, porque se fosse sincero comigo mesmo e devia a sinceridade a ele, da mesma forma, que devia mim, não existia confiança, mas ao contrário do que ele estava pensando, eu não confiava em mim mesmo.
Foi o que justamente me levou até ali, o fim.
Dessa vez, eu não tinha nem forças para chorar.

 

Parte VII

 

Seguindo em frente

 

Quando eu me curvo para rezar
Tento fazer o pior parecer melhor
Senhor, me mostre o caminho
Para cortar através de todo esse couro desgastado
Tenho cem milhões de motivos para ir embora
 

Lady Gaga — Million Reasons

Todas as músicas conhecidas pelo homem não poderiam fazer jus à dor que havia dividido minha alma em pequeninas partes. O karma estava batendo em minha porta e cobrando a dívida que tinha em haver com Chase. O que passei antes e durante os anos de distanciamento, ainda poderiam ser descritos por um punhado de palavras, porém, as de hoje, não. Ainda assim arquivei o que me restava de consciência para o que teria que lidar dali uns minutos.
Engoli em seco ao entrar no closet e encontrar os pertences de Chase distribuídos ali, muito bem alinhados em contrapartida ao meu lado que era uma bagunça. Vesti as roupas que vi pela frente O ar parecia estar falhando naquele momento, torcendo meu corpo de modo que me vi ajoelhado diante da falta de ar e a dor disputando cada pedaço de mim. A visão escureceu e senti que perdia os sentidos por alguns segundos e lutei rapidamente contra aquela sensação de que tudo estava se fechando a minha volta.
Lembrei de um dos programas que havíamos assistido onde uma psicóloga explicava o que fazer em um momento de desespero. Procurei uma posição confortável, inspirando pelo nariz contando até quatro, segurando o ar contando até dois e soltando devagar pela boca contando novamente até quatro.
Após uma longa série do exercício, consegui perceber que grande parte da ansiedade ficou sob controle, apesar sentir que estava à beira do precipício o tempo todo, com a maldita me espiando, apenas há alguns metros, esperando uma nova oportunidade para dar o bote e cravar seus dentes afiados em mim. Saí da posição conhecida como flor de lotus para ir em direção a Damien e quem sabe, conseguir confortá-lo. O que ele passou nenhuma pessoa deveria ter que passar, independente de quem era.
O encontrei encostado na parede, sentado, com as pernas contra o peito e os braços em volta, seu queixo delicado sobre o joelho e um olhar apavorado em direção a porta.
— Ei, Damien, você gostaria de tomar alguma coisa? Água, refrigerante ou uma cerveja? Quem sabe um suco?
— Estou bem. — Encolhendo-se ainda mais ele olhou por sobre meu ombro. — Ele já foi embora? — Assenti, ele titubeou abaixando o olhar perguntou. — Era seu namorado?
— Era, não mais.
— Você… — Olhou-me rapidamente e voltou a abaixar o olhar. — Merece sim ser amado e me desculpe pela confusão.
— Você ouviu sobre isso, hein? — Balançou a cabeça rapidamente sem me fitar, seu rosto pálido ficou vermelho como um tomate. — Não se desculpe, Damien, você não tem culpa de nada, foi apenas um mal entendido que já foi resolvido. Bom, obrigado por suas palavras. O mesmo vale para você também.
Damien fez uma careta, negando veementemente e eu fiz o possível para não rir. Ele era tão jovem, tinha passado por tanto e ainda assim, tinha um ar de pureza que estava além da minha capacidade de compreensão.
— Acho que temos companhia. — Disse ao ouvir o barulho do interfone. — Você pode esperar aqui ou vir comigo, tenho certeza que é Zach e Theo.
— Se você não se importar, gostaria de esperar aqui.
— Sem problemas. Já volto.
Me adiantei para interfone confirmando que era o casal, enquanto eles subiam as escadas, aproveitei para recolher as sacolas espalhadas no chão, as coloquei no balcão fechando cada uma e já procurando um aplicativo para que a comida fosse endereçada para o lugar certo.
— Ei, bonito, tudo certo por aqui? — Zach enfiou a cabeça pela fresta da porta.
— Claro que sim, entre. — Apontei em direção aos quartos. — Damien está no quarto de visitas, ainda abalado, como o esperado. — Zachary assentiu e dirigiu-se para lá.
— Deus, quando tivemos a ideia de abrir a Wang & Harrington, nunca pensei que poderíamos passar por isso. — Theodore não tinha recuperado sua cor desde o incidente e parecia tão abalado, quanto o próprio Damien.
— Nem me fale, Theo. Espero que ele consiga se erguer depois disso, ele é bom rapaz. — Suspirei esfregando o rosto, sentindo o cansaço do dia e a tristeza por todas as situações se acomodarem sobre meus ombros. — Só não dá para acreditar nessa merda.
— Não mesmo, mas pelo menos temos pessoas ao nosso lado para nos ajudar a passar por isso. Que horas Chase está chegando? — Ouvir o nome dele foi capaz de quase me deixar prostrado e antes que meu rosto pudesse revelar alguma coisa, me encaminhei para a geladeira com a desculpa de ter uma garrafa de água.
— Mais tarde. — Engoli um bocado de água ainda olhando para o conteúdo da geladeira com mais concentração que deveria.
— E você vai deixar isso aqui no público, para Chase chegar e já ver a aliança?
Senti os dedos enregelados subir pelas minhas costas provocando uma certa ansiedade e eu não tinha uma boa resposta para aquela pergunta sem me virar para ele e não tinha certeza, se dessa vez, poderia esconder o que estava acontecendo.
— Que nada, Theo, só estava conferindo se estava tudo certo, você sabe como é. — Fechei os olhos, trincando os dentes quando outra onda de ansiedade passeou pelo meu corpo e sem piedade enfiou suas garras afiadas, despedaçando o que restava do meu coração.
— Ao contrário do que Zach pode pensar, eu sou um bom observador, Cam. Bom, as janelas também não ajudam quando o quesito é se esconder. — Senti a mão sobre meu ombro e foi impossível esconder a rigidez do meu corpo. — Quando quiser conversar sobre isso, você sabe onde me encontrar. Posso vir sozinho ou com Zach, sempre que você precisar de alguma companhia ou estiver disposto a falar sobre isso.
— Obrigado, Theo. — Segurei sua mão no meu ombro e encontrei seu olhar preocupado pela janela. — Vai ficar tudo bem, já passei por isso antes e saí vivo do outro lado. Dessa vez não será diferente.
— É uma pena, meu amigo, que tenha que passar por isso. Queria que o amor fosse mais fácil e qualquer pendência fosse rapidamente dissolvida, mas a vida é uma cadela com c maiúsculo, vadia miserável, ela devia era desalojar esse pau que está permanentemente enfiado na bunda dela e quem sabe assim as coisas seriam melhores. — Sua indignação causou um riso, afrouxando, mesmo que por alguns segundos, a dor latejando por meu corpo.
— Isso foi tão Zach, Theo. — Comentei e ele piscou matreiro.
— Tenho um excelente professor quando se trata de colorir frases.
— Sou fenomenal, não é mesmo? — Zachary voltou acompanhado de Damien que, agora vestia um par de tênis, calça jeans e uma camiseta. — Nós já podemos ir, isso é, se o meu querido noivo já se cansou de colorir suas frases.
— Ainda tenho uma coleção delas, mas deixarei para outra ocasião que não nos faltarão. — Ele me abraçou apertado e cochichou. — A qualquer hora que quiser.
— Obrigado e me lembrarei disso. — Voltei a ele para ser envolvido por Zachary assim que o noivo se foi.
— Seja lá que esteja errado, pode contar conosco. — Deixou um beijo na minha bochecha e lhe sorri.
Sem jeito e sem a intimidade que nos cercava, Damien, acenou e murmurou desculpa, algo que fui rápido em dispensar e trazendo-o para o círculo interno, deixando-lhe um abraço delicado, porém, consistente. Afinal éramos todos muito táteis, isso por conta de Zach, que era contagiante e sem um pingo de vergonha ao esboçar seus sentimentos, sendo sempre genuíno e com uma raiz forte de delicadeza em como e quando demonstrar seus afetos para não ofender qualquer pessoa.
Por fim, eles foram embora e eu fiquei novamente sozinho.
Chamei um Uber e já quitei a corrida para a casa do Chase, para que a comida fosse entregue. Deixando a calça jeans e a camiseta de lado. Puxei uma bermuda e munido de uma coleção de cervejas, apeguei todas as luzes e me dirigi a varanda.
Ainda que não pudesse sair do trabalho por conta do incidente e me internar no apartamento por um bom par de dias, até que pudesse me recompor o suficiente para que fosse sociável e conseguir manter minha cabeça erguida. Não havia meios de tirar uns dias livres para relaxar, mas poderia fazer algo que ninguém mais poderia fazer por mim, e isso era: cuidar de mim mesmo.
Não, dessa vez não me jogaria no trabalho como uma forma de fuga e continuaria sufocando naquele veneno recorrente ou nos labirintos perigosos em minha mente. Eu já tinha conseguido dar um rumo diferente para minha vida e dessa vez não seria diferente. Com aquela resolução em mente, procurei um profissional que poderia me ajudar a passar por aquilo.
Feliz não sexto mês de namoro para mim.
Ri amargo.

De onde eu estava

 

…Haviam linhas que eu não podia mudar
…Eu estava perdido, sim
…Cruzei linhas que não deveria ter cruzado
…Eu estava assustado, estava assustado
Cansado e despreparado
 

Coldplay — In My Place

No momento que saí de lá, sabia que tinha feito a pior coisa poderia ter decidido na vida. Deus, como alguém poderia ser tão idiota quanto eu? Que merda havia acontecido comigo que, mesmo depois daqueles meses onde, quando não estávamos no serviço, estávamos juntos, eu não percebi que Cameron, de fato, não tinha se apartado do meu lado, nem mesmo na hora de dormir, já que eu rolava todos os dias para seus braços mesmo durante o sono e acordava envolvido nele ou ele em mim.
Como alguém poderia ser tão estúpido em acreditar que ele teria me traído?
A dor dele ainda parecia irradiar e ser levada comigo enquanto andava apressado para chegar em casa. E, quando finalmente o fiz, a primeira coisa a ser feita foi colocar o celular no carregador e rezar que ele ligasse rapidamente já nos primeiros por cento de bateria.
Quando a voz soou no aparelho eu não aguentei me segurar em minhas pernas e ali mesmo no lado do balcão me deixei cair.
5:45 – Bom dia, querido, você mal acabou de sair, mas quero dizer que já estou com saudade e espero que seu dia seja tão bom quanto espero que seja o meu. Mal posso esperar por essa noite!
11:30 – Meu amor, não fique em suas papeladas ou no atendimento ao público, ao ponto que te impeça de lembrar de almoçar, amo você.
13:00 – Chase, aconteceu uma tentativa de estupro, entre os funcionários, não sei dizer se ele chegou a ir até o fim. Theo está aqui com os policiais enquanto levarei o rapaz para o hospital para o exame corporal.
15:00 – Ei, amor, não sei se você recebeu as outras mensagens, mas estou com Damien e Zach ainda aqui no hospital. Deus, isso é tão fodido. Damien é apenas um rapaz, ainda aprendendo a andar nesse mundo e aconteceu isso com ele. Eu não consigo acreditar. Não posso processar que no meio de tanta gente deixamos um estuprador estar entre nós. Deus, Chase, eu queria que você pudesse estar aqui agora.
16:15 – Chase, o pior aconteceu, foi feita a coleta do material genético. Porra! — pude ouvir a respiração abalada — Ele não tem para onde ir por agora, ele também foi expulso de casa por ser um de nós. Que mundo fodido é esse? O que esses pais têm na cabeça? Deus, eu nem sei o que dizer.
17:00 – Estarei o levando para casa, para que Damien possa tomar um banho, enquanto Zach vai para sua própria casa começar uma arrumação no quarto sobressalente e fazer uma espécie de enxoval para o rapaz, ele só tinha um par de roupas além do que estava usando no momento. Por favor, se cuide por aí, meu amor. E não se assuste caso você chegue em casa e se depare com ele.
Porra de situação fodida!
— Foda-se! — Gritei com uma onda renovada de ódio percorrendo meu corpo.
Agora podia entender porque ele parecia tão desesperado quando me viu ou porque não me deu as costas em nenhum momento. Tudo isso era tão fodido, Deus!
Como tudo poderia ter dado tão errado dessa maneira?
O que me restava do almoço estava embrulhado em meu estômago, em nós. Não demorou para que a vontade de regurgitar surgisse e tropeçando em meus pés cheguei no banheiro apenas há um segundo de verter tudo. Apoiei na louça do vaso enquanto corcoveava tentando expurgar o que já não havia sobrado para sair.
Junto a isso, as lágrimas vieram impetuosas.
Dilacerado, sentei ali mesmo e deixei que a dor se apresentasse em sua totalidade, assim como a força da natureza, deixando-me em pedaços e bagunçando minhas emoções como um furacão. Minha cabeça doía, as lágrimas não paravam de cair e o estômago ainda tentava expelir qualquer resquício do que pudesse achar. Nauseado, fechei os olhos e tombei a cabeça contra a parede. Meu corpo tremia violentamente e o único lugar que queria estar era, justamente, aonde não poderia ir, nos braços de Cameron.
Era tão fácil apenas acusar e apontar o dedo na direção do outro, esquecendo do meu próprio erro, das minhas inseguranças e, possivelmente, da espera que inconscientemente ou não, procurava uma brecha. Pronto para surgir, para esfregar na minha cara e, principalmente na dele, que Cameron não havia mudado.
Mas enquanto ele havia crescido e se tornado diferente do garoto que conheci, a verdade que era realmente dura, apenas eu que ainda estava parado no tempo.
Repetindo incansavelmente, em alguma parte deturpada do meu cérebro, que Cameron falharia e eu esqueci que eu também podia cometer erros.
Agora, talvez, um que não pudesse ser revertido em tempo hábil.
O interfone tocou e ainda atrapalhado, sentindo-me fraco, me encaminhei com a esperança ali, espiando, e com todas as minhas forças, rezei que fosse Cameron, mesmo sabendo que eu deveria ir atrás dele e não o contrário, que eu havia cometido o erro. Contudo, a esperança era falha e cega na sua conduta, manteve-se firme até ouvir alguém que não conhecia do outro lado, avisando que tinha minhas sacolas de compras.
Foi uma porrada na cara.
Aquela noite, eu não dormi.
Nem nos dias seguintes ao dia fatídico.
Não foi realmente uma surpresa quando chamei Nolan e Ariana para uma reunião a portas fechadas, onde deixei claro que estava saindo de férias, por tempo indeterminado. Foi algo que eles nunca esperaram de mim, mas estava mais do que na hora de retirar um tempo apenas para mim. Sabendo que Nolan era mais voltado para administração e aliado ao fato da pequena Anne estar em uma situação ainda mais delicada, o deixei responsável por aquela parte; enquanto Ariana estaria encarregada dos funcionários, inclusive do treinamento dos novos rapazes.
Quando a poeira finalmente abaixou o suficiente para retirasse a cabeça da minha bunda, como diria minha mãe, entrei em contato com Zachary e não somente com ele, mas com Damien também. O primeiro me contou que o segundo ainda estava abalado demais para voltar para aquele trabalho, foi então que os convidei para me visitar. Ambos vieram até a loja, um tanto ressabiados pelo que pude notar, até mesmo Zachary e sua maneira contagiante estava num estado de moderação.
A merda realmente tinha batido no ventilador em todas as direções.
Contei a eles, delicadamente, que sabia o que realmente havia acontecido no dia que havia conhecido Damien e queria pedir desculpas por meu comportamento errático. Zachary parecia acompanhar a conversa como quem assistia uma partida de tênis, aparentemente, sem ter nenhuma ideia do que eu estava falando. Então, ofereci a ele um lugar para trabalhar, isso é, se ele quisesse.
Expliquei que tinha apenas quatro funcionários, Nolan, Ariana, Kevin e Jonelle, fora eu mesmo que também colocava a mão na massa quando era ou não preciso. Que se fosse do desejo dele, ele poderia entrar no quadro de funcionários nos próximos dias após os exames para a contratação e o próprio contrato. Não apenas ele, mas Zachary também. Esclareci que não estaria na loja dentro de alguns dias antes de entrar de férias e que tanto Damien, quanto, Zachary, viriam em boa hora. Além do fato que Nolan estava cada vez mais ausente diante do quadro de saúde de Annelise se deteriorando.
No primeiro instante, Damien pareceu um peixe fora d’água, olhando-me como se não pudesse acreditar. Zachary espelhava sua imagem, claramente atordoado e, pela primeira vez desde que o conheci, sem palavras. Também esclareci que não era um plano de sabotagem para a Wang & Harrington, mas sabia que Zachary poderia permanecer em meu lugar na cozinha e no atendimento ao público, ainda fazendo o que gostava.
Apontei que esperaria que ele conversasse com Theodore antes de tomar qualquer decisão, tendo em vista que o trabalho de secretário, o qual ele fazia na outra empresa, ficaria em aberto caso ele aceitasse a oferta. O pouco que conheci Theodore durante os últimos meses, sabia que o rapaz tinha e queria o melhor para seu noivo, que nesse caso seria o trabalho ali. Eu não estava errado e dois dias depois do encontro, recebi a confirmação que ambos fariam parte do Coffee Prince.
Tudo foi encaminhado para o advogado, redigindo os contratos; os exames foram feitos e após uma semana, ambos estavam aptos para começar a trabalhar. Levou apenas um par de dias para que Zachary pegasse todos os meandros dos beignets. Damien ainda estava um pouco retraído com a clientela, e no caso dele, era perfeitamente normal, porém, a equipe o apoiou e enquanto estive por ali, vi que logo ele estaria entrando nos eixos.
Tendo o Coffee Prince alinhado e pronto para deixar em mãos responsáveis, era hora de cuidar de outra parte e essa parte era eu.
Reservei uns dias para passar na casa dos meus pais, respirar um novo e antigo ar, enquanto traçava o curso do que faria quando voltasse. Se eles sabiam que nós havíamos terminado, nenhum dos dois tocou no assunto e nem em Cameron. O que, de certa, forma era irritante e um alívio. Lembrava-me dos anos anteriores, onde eu voltava pra casa no fim do ano e tudo estava do mesmo jeito, mas ninguém diria algo sobre ele.
Talvez, fosse melhor assim.
Quando voltei para casa, foi a vez de finalmente dar por encerrada minha guerra interior, me despir dos pré-conceitos e receber o tratamento psicológico que necessitava.
O tempo parecia se arrastar e era inegável que sentia falta dele, cada parte do loft parece guardar resquícios das poucas vezes que estivemos ali. Toda vez que o interfone soava, Tyrell corria para porta, talvez esperando pela sua dose de carinho ou os snacks que Cameron sempre tinha a mão. Mas assim como felino esperançoso, eu também já não me acostumava a minha própria casa sem ele. A orquídea ainda se mantinha firme e forte, cada vez mais bonita, e até mesmo havia comprado outras e meu lugar estava pronto para ser uma floricultura. Nessa altura, Tyrell já havia se acostumado as flores, a única coisa que ele parecia ainda não estar acostumando, era com a falta do outro ser humano.
Eu também não.
Naquele dia em particular, enquanto contava os poucos minutos que ainda levaria para que desse o horário da minha consulta, estava perdido em pensamentos e Tyrell deitado ao meu lado parecia carregar o mesmo tipo humor. Averiguando que ele tinha água fresca e sua ração em dia, me dirigi ao consultório que nos últimos três meses estava frequentando.
Latisha Parma era uma luz brilhante, quase irritante aos meus olhos, diante do que havia se tornado minha vida nos últimos meses. Houveram momentos embaraçosos, para mim, onde chorei como uma criança e em outros, estava apenas revoltado comigo e com a situação que havia me metido. Tudo isso vinha sendo trabalhado e após abrir aquela rolha que guardava uma boa dose de rancor contra Cameron pelo que havia acontecido há anos e por mim mesmo na atualidade, tudo tinha se tornado um pouco mais suportável.
Tinha plena consciência que, se agora, por uma obra do destino e se Ele tivesse piedade de mim e houvesse outra oportunidade, faria o possível para agarrá-la, praticamente livre das amarras que antes me prendiam. Assim, como tudo na vida, os passos que me levaram a constatação de que ambos — e sim, eu disse ambos, para o meu próprio espanto — éramos inocentes, como Latisha gostava de ressaltar.
Cameron, não tinha um background no qual se apoiar e diante do que havia acontecido na sua vida, era quase um milagre que ele tivesse dado a volta por cima, segundo as palavras dela. O que, automaticamente, me deixava orgulhoso do homem que amava. Ainda assim, era um pouco mais difícil trabalhar com minha consciência que teimava em me acusar do último incidente e palestrar que não deveria ter qualquer chance com ele.
Quem diria que perdoar a si mesmo era a coisa mais difícil de se fazer?
Pois é, uma batalha continua, pois havia minha própria cobrança e culpa por ter duvidado dele quando na realidade, Cameron não havia me dado motivo. E era nessas horas que Latisha era firme para me direcionar aos trilhos novamente, lembrando-me que, assim como perdoara o rapaz que Cameron havia sido, também estava na hora de me perdoar e seguir em frente. Era uma luta constante, como tudo na vida era, mas era uma batalha que estava disposto a ganhar, pois quando esse dia chegasse, eu sabia que era o dia em que o procuraria.
Isso é, se a vida não o tivesse levado para sempre de mim.
Ainda para me ajudar com meu autoconhecimento, Latisha me indicou a escrita terapêutica, oferecendo um Caderno do Eu, onde encontraria atividades que trabalhariam com minha dor, transformando-as em cura. Não poderia ser algo ruim e não custava nada tentar. Munido do que havia recebido, me despedi de Latisha e me encaminhei para fora do consultório, pronto para agendar minha próxima consulta e após isso, fui em direção aos elevadores.
Aproveitando que levaria alguns segundos para chegar ao andar onde estava, aproveitei para dar uma boa folheada no material e, no primeiro instante, me pareceu interessante, ainda que quase juvenil demais para um homem da minha idade. Enquanto lia o prefacio, ouvi o elevador chegando e sem olhar para onde estava indo e já acostumado a nunca encontrar pacientes de Latisha, desde que ela sempre tinha alguns minutos entre as consultas, não notei que alguém saia enquanto eu tentava entrar.
Foi aí que meu mundo virou de ponta-cabeça, num vertiginoso giro de cento e oitenta graus, onde o ponto final era justamente nos braços de quem eu jamais poderia imaginar, Cameron.

Se você quiser se apaixonar

 

Te vi hoje, depois de tanto tempo
Me senti como antes
… Vou ficar por perto
Se você quiser se apaixonar
Não vou esperar, mas estou disposto se você me ligar
Se você quiser se apaixonar
Vou ficar por perto
 

James Bay — If You Ever Want To Be In Love

As portas se abriram enquanto respondia a Theodore sobre o jantar na sua casa mais tarde. Não me dei conta que havia alguém no caminho, até que esbarrei contra a pessoa e no ato, fiz o possível para segurar o corpo levemente menor. Não sei apontar exatamente o que me atingiu primeiro. O perfume marcante e amadeirado que ele sempre usava, o gingado estonteante dos cachos brilhosos ou o arfar estupefato que ele deixou escapar. Seus olhos de painita, tão bonitos, quanto me lembrava, dobraram de tamanho quando ele se deu conta que quase tinha caído sobre mim.
— Cameron. — Aquele sussurro foi o suficiente para que meu coração que já havia falhado algumas batidas por reencontrá-lo, agora estava totalmente fora do prumo. — Me desculpe, não olhei para onde estava indo. Eu te machuquei?
— Está tudo bem, Chase. Me desculpe, eu que deveria estar prestando atenção. — Sinalei o celular em minhas mãos, mesmo assim seus olhos percorreram meu corpo rapidamente, fazendo uma vistoria por ele mesmo se eu realmente estava bem.
— Não tem problema, eu também estava distraído. — Trocou o livro de mãos enquanto fazia o mesmo com o peso em seus pés. — Não é comum encontrar outros pacientes por aqui.
— Da mesma forma aqui. É minha primeira vez encontrando um outro paciente. E olha que estou aqui há bastante tempo. — Dei de ombros redirecionando meu passo para o lado oposto de onde ele estava. — Bom, eu vou indo. Te vejo por aí, Chase.
— Certo. — Ele engoliu em seco, balançando a cabeça e desviando o olhar.
A cada passo para longe, era como se o vazio em meu peito aumentasse e a alegria de revê-lo sequer poderia sanar o tamanho da saudade que sentia dele. Tinha gosto de cinza em minha boca, assim como meu corpo moribundo parecia se desfazer a cada centímetro no caminho contrário a ele.
— Cameron?
Sua voz soou alta para o corredor tranquilo, fazendo com que eu levasse um susto e tivesse outra falha cardíaca pelo contato, mesmo que longínquo. Parei meus passos e voltei-me para ele. Chase tinha o livro amassado em suas mãos e seu olhar parecia um pouco úmido daquela distância. Aparentando precisar de tempo para processar o que lhe ia na cabeça, o que fazia surgir aquela pequena ruga entre as sobrancelhas, outro ponto que sempre tinha me chamado a atenção, apenas por sua beleza ser ainda mais ressaltada no rosto pensativo.
— Sim?
— Você gostaria de tomar um café comigo hoje? Mais tarde? Talvez um outro dia ou melhor, qualquer dia desses? — As perguntas vieram em um folego só, Chase traçou os cabelos com uma das mãos demonstrando todo seu nervosismo, deixando escapar um suspiro ansioso.
— Eu adoraria.
Chase mordeu os lábios, tentando esconder, sem sucesso, o sorriso naqueles lábios, era minha vez de suspirar e apreciar a beleza daquela pessoa que tinha meu coração em suas mãos, mesmo que uma vez ele o tenha deixado cair, ainda só pertencia a ele.
— Ok. Certo. — Dessa vez ele não escondeu a vista da coleção de dentes e observei com um farfalhar agitado no peito, os lábios curvarem um sorriso tão bonito quanto o dono. — Quando? — Ele corou diante do seu próprio tom ansioso e novamente os dentes cravaram na carne suculenta do lábio inferior. — Deus, eu não sei mais convidar as pessoas para saírem sem parecer um tagarela ansioso.
Ele riu do que seria sua própria desgraça, mas era encantador o quanto ele era uma bagunça de timidez e nervoso no mesmo pacote especial que era: Chase sendo ele mesmo naqueles momentos de ansiedade mal disfarçada. Travei meus passos onde estava para não cobrir a distância até ele para assegurar que estava tudo bem, era apenas eu e que ele não precisava estar nervoso.
— Que tal amanhã? — Sugeri e ele assentiu. — Escolha um lugar e estarei lá.
— Certo e, Cameron, até amanhã.
Acenou e fiz o mesmo retornando meus passos para o consultório de Latisha.
Após o procedimento padrão de perguntar-me como eu estava, como havia sido os últimos dias, se havia alguma novidade. Não demorou muito para ela perceber que estava completamente aéreo a qualquer assunto que era trazido à baila, ainda repassando os momentos há pouco vivido.
— Você está francamente distraído, Cameron, quer me contar sobre o que se trata?
— Por que ninguém me tira da mente que isso foi proposital? — Latisha arqueou as bonitas sobrancelhas enquanto fitava-me aparentemente alheia ao que aconteceu.
— Sobre o que exatamente você está falando, Cameron?
— Acabei de encontrar Chase saindo daqui quando cheguei. Durante todo esse período, eu nunca tinha visto nenhum dos seus pacientes.
— E, então? — Fitou-me compenetrada.
— Nada demais, só me pareceu… estranho. Eu não sabia que ele também estava em tratamento e justamente aqui, você não me disse nada.
— Primeiro que, discutir a vida de outro paciente está totalmente fora das regras e como eu saberia que esse Chase, era exatamente o seu Chase? Não é como se existisse só uma Maria no mundo, Cameron. Quanto aos horários, faço questão que ninguém se encontre, já que tenho algumas pessoas que não podem serem vistas num ambiente como este, por isso existe este intervalo entre as consultas, para dar tempo de um sair e o outro entrar.
— Eu vejo, só é muita coincidência.
— Nisso temos que concordar, mas não passou de apenas uma coincidência. Como você se sente a esse respeito? Vê-lo novamente?
Ponderei por um instante, tentando alinhavar os pensamentos e filtrar para que tudo pudesse caber em uma só frase, não que não tivéssemos tempo para debater, mas havia aquele sentimento forte e conciso.
— Foi como voltar para casa. — Olhei para minhas mãos e alisei os calos onde as luvas não poderiam proteger a pele. — Ele sempre foi como uma casa para mim, meu lugar seguro e ter esse pequeno vislumbre, não tem comparação com o que tenho vivido até agora. A sombra, como uma versão preto e branco de como a vida deveria ser. E sei que já conversamos sobre manter as expectativas e não as deixar sobrepor a qualquer realidade atual, mas Chase… o meu Chase, é o sol. Infiltrando em cada rachadura e arranhadura dos meus poros, sacudindo a poeira e trazendo a vida toda sorte de esperança e desejos amortecidos.
— Como já dito antes, é bom realmente manter as expectativas em baixa, porém, não é de todo ruim, se por acaso tiver a oportunidade de reconciliação. Lembrando apenas de esclarecer desde o princípio o que cada um deseja desse relacionamento e se virá a ter algum ou continuaram na vida um do outro como apenas amigos. — Ajeitou-se em sua poltrona, lançando-me um sorriso maternal que havia recebido muito ao longo do tratamento. — Você tem tido ótimas mudanças durante sua trajetória até aqui e me sinto orgulhosa de quem você é atualmente, diferente do rapaz devastado que entrou por aquela porta. Tem agora um propósito e novas metas em sua vida que não estão centradas em apenas uma pessoa, porém, novamente, Chase também pode fazer parte da sua vida, mas sem tomar todo seu horizonte, certo?
— Certo. Como sempre, um passo de cada vez e veremos para onde vamos daqui e, dessa vez, farei o possível para manter o mais tranquilo que conseguir e se ver que algo está saindo do previsto, me comprometo a ser fiel a mim e aos meus sentimentos em primeiro lugar.
— Exatamente, como disse, você me deixa orgulhosa da sua mudança. Bom, ficaremos por aqui hoje e espero lhe ver na próxima semana. Se cuide.
— Da mesma forma para você, até a próxima.


No dia seguinte ainda não tinha tirado o encontro da cabeça, bom, na verdade, em nenhum momento Chase saiu do meu pensamento, porém, o encontro acidental tinha apenas acentuado sua presença nos mais variados cenários possíveis. Dificilmente poderia deixar de sonhar com o suposto café ou algo do tipo que teríamos. Alguma parte de mim era relutante, mas no fim das contas, em algum ponto da minha vida, — aquele ponto exatamente onde estava na casa dos Mayes e culpo Allison e John por isso — havia me tornado um tolo romântico.
E foi justamente aí, em meio a lembranças do casal mais velho, que recebi a notificação de uma mensagem, vinda dele:
“Olá, gostaria de lhe convidar para jantar esta noite, isso é, se estiver disponível.”.
Estranhei o tom formal, mas tendo em vista que não nos falávamos durante um longo tempo, foi quase normal uma mensagem mais neutra.
“Olá, estou livre.”.
“Será um prazer revê-lo, te aguardo no Sepia, às 20:00h.”.
“Certo, até lá.”
— Não sei o que exatamente provocou esse sorriso, mas continue fazendo isso, já estava cansado da sua bunda amarga pela obra.
— Porra, Theo! Eu juro que um dia desses você vai me matar do coração. — Ele ergueu as mãos em sinal claro de inocência.
— O quê?! Cheguei aqui fazendo barulho, você que estava perdido e não me ouviu chegar. Então, o que temos para hoje?
— Você? Eu não sei. Eu tenho um encontro.
— Oh, um encontro…? — Theo pareceu chocado por um momento. — Estamos seguindo em frente?
— Talvez, sim. Talvez, não. — Dei de ombros. — Só o tempo dirá, Theo.
— Certo, eu acho… Não estava esperando que você estivesse pronto pra seguir em frente depois de todo esse tempo, mas não importa realmente. Estarei do seu lado, não importa quem seja ele.
— Fico feliz por ouvir isso.
Não tentei corrigir o erro de Theodore, ao assumir que estava saindo com outra pessoa, na verdade, estava com medo de assumir qualquer coisa naquela altura. Sem falar que, poderia sair da lá apenas como amigos e nada mais. Já havia apreendido durante aquele tempo que nem todos era como Theodore e Zachary, realmente destinado a ficarem juntos.
Alguns só não eram para ser e estava tudo bem com isso. Vale ressaltar que a parte racional estava de acordo com isso, já a parte emocional queria colocar Chase sobre o ombro e fugir com ele para algum lugar longínquo onde existiria só ele e eu.
O resto do dia passou como uma lenta tortura, já sabendo que poderia virar um gatilho para a ansiedade pelo porvir, enfiei minha cara no trabalho e não parei até a hora de sair. Acenei para Theo e saí antes que ele pudesse querer encarnar a santa, nem um pouco santa, inquisição e saber com quem sairia.
Nesse interim, Theodore e Zachary haviam se tornado ainda mais zelosos por minha pessoa, o que era um plus, tendo em vista que não tinha ninguém na cidade, fora os parceiros do trabalho e o dois que considerava como família, isso com o acréscimo do Damien que era uma figura presente na casa dos dois, e logo havia se tornado essencial na nossa pequena, mas unida família. Sem falar que ele era uma espécie de filho adotado pelos dois, tendo não só um local para morar, quanto alguém que olhava por ele. Ainda podia rir da cara de espanto do Damien ao saber sobre como havíamos acabado juntos e que Zachary e eu éramos uma coisa e que hoje ele era um bom amigo.
Eles também agiam com um certo cuidado quando o assunto era Chase, como se não quisessem que o tópico surgisse e isso pudesse provocar alguma reação a mim. Da mesma maneira que desconfiava que acontecia com Chase. Apesar dos três fazerem uma frente firme ao meu lado, eles não deixaram Chase desamparado durante esse tempo. Era uma espécie de rodízio, pelo que podia desconfiar e foi confirmado quando Damien deixou escapar que eles também estavam preocupados com o abandono do Chase em relação a sua loja.
Não que ele tivesse jogado tudo para o alto e lavado as mãos, mas Chase havia realmente balanceado as coisas e agora estava confortável em delegar e ter uma vida fora da loja, pelo menos, foi o que chegou a mim. E quando nós quatro não estávamos reunidos, sabia que eles estavam juntos, isso, de certa forma, acabou acalmando meu coração.
Enquanto caminhava para casa pesquisei sobre o restaurante. Era praticamente a meio caminho de nossas casas, um lugar imparcial, com ambiente requintado e o menu, pelo que havia no site, parecia ser de outro nível e sabia que os pratos de frutos do mar seriam amplamente apreciados por nós.
Após um longo banho e um barbear que era muito necessários, já que tinha acabado deixando crescer, desde que não estava necessariamente preocupado se iria ou não favorecer o olhar de alguém, mesmo sabendo que eu deveria fazê-lo ou não por mim e apenas por mim, resolvi, por bem, aparar o suficiente para deixar um curto pelo nas bochechas. Ao contrário das bonitas madeixas do Chase, meu cabelo, um pouco maior, viraria uma bagunça, nem liso e sem cacheado, apenas um ninho de pássaro, então, pelo menos isso, mantinha sempre aparado e os penteei para bagunçar com o finalizador de cera, para dar um visual mais natural. Vesti uma calça de alfaiataria num tom verde escuro e camisa branca, dobrada até na altura do antebraço, junto a um oxford escuro.
Adiantado por cerca de meia hora, caminhei em passos comedidos até o lugar, ainda tendo dez minutos de sobra, chegando a recepção do mesmo, dei meu nome anfitriã e fui guiado para um lugar mais afastado e privativo do ambiente aconchegante, porem clássico e romântico, o que na realidade não estava realmente esperando. Cerca de cinco minutos depois enquanto estava observando o delicado enfeite de mesa, escutei uma leve tossidela que me fez erguer o olhar, para levantar diante do belo homem a minha frente.
— Olá, meu nome é Chase Mayes. — Estendeu a mão, um pouco perplexo pela introdução, de forma automática aceitei o comprimento. — E isso é para você.
Estendeu uma única e delicada rosa vermelha.
Se eu já havia ficado surpreso com ele pela apresentação, isso tinha vindo para dar um toque ainda mais especial, assim como ele, em todo aquele quase um ano atrás, eu não havia recebido flores antes, o pequeno gesto aqueceu meu coração que já havia desencadeado um turbulento sacolejar.
— Cameron Harrington. — Disse após alguns segundos de silêncio onde apreciava o delicado botão levando-o até o nariz, me aprofundando no perfume suave.
— Por favor, sente-se Cameron, e obrigado por ter vindo. — Deu a volta na mesa para empurrar a cadeira na hora que sentei, vendo que estava confortável sentou-se à minha frente.
Mal Chase havia tocado sua cadeira, o garçom foi rápido para nos atender, deixando-nos com a carta de vinho. Sabendo que Chase era muito melhor em escolher bebidas do que eu, fiz o gesto para que ele fosse em frente e após a saída do rapaz, pude finalmente fazer minha pergunta.
— Não que eu não esteja gostando desse certo clima, mas o que está acontecendo aqui, Chase?
— Veja, eu não sei como dar muitas voltas, algo que estou aprendendo, como você bem sabe devido ao nosso encontro anterior, mas esclarecerei alguns pontos, tudo bem? — Assenti em silêncio, ainda girando o botão entre as mãos e fitava Chase atentamente, vendo-o alisar a bonita ruga entre as sobrancelhas. — Eu cresci em uma casa simples em relação as outras, meus pais só me tiveram em um golpe de sorte e por isso, posso dizer que, sem sombras de dúvidas, fui muito bem mimado enquanto crescia. Tudo o que queria estava no alcance das mãos e sempre desejei que tivesse o mesmo tipo de amor que meus pais tiveram ainda na escola, onde eles cresceram juntos e terminaram juntos, até mesmo, indo para faculdade no mesmo lugar e certo período. Então, há alguns anos, eu já não me via ou imagina que alguém me chamaria atenção no colégio, desde que conhecia uma boa parcela das pessoas dali. Sabia quem poderiam ser os gatilhos, quem estava tão bem trancado em seu armário que até poderia chegar a Nárnia se desse mais um passo atrás.
— Foi quando esse bonito garoto foi transferido. Ele preenchia todas as caixinhas da minha lista de homem perfeito e me deixou tão fora dos meus pés que passava todos os dias sendo cuidadoso para que eu fosse o amigo perfeito, enquanto escondia firmemente o quanto ele estava crescendo em meu peito. Tive a sorte de ir pra a faculdade com ele, dividimos o apartamento até que um dia recebi uma proposta que, por mais ousada que pudesse ser, eu queria, por pelo menos um momento fantasioso da minha vida, ter o que meus pais tinham. Foi fácil me entregar a ele, mesmo que fosse de maneira escondida, ali no meu peito, onde eu sonhava que construía a bonita casa com cercas brancas e já fazia a lista de possíveis barrigas de aluguel ou os processos para adotar uma criança.
— Porém, em meio a isso, enquanto eu construía minha família imaginária com meu amigo que nem ao menos sabia o que eu sentia, eu esqueci que ele também era humano, que assim como eu, também poderia ter planos e sentimentos, medos e desejos, que talvez, eu nunca pudesse entender, ou ser aquele que estaria ao lado dele. Quando ele trouxe à baila que queria terminar, foi um ferimento tanto na lista que tinha de desejos, quanto ao orgulho ferido de, pela primeira vez na vida, ser deixado de lado. Mas como disse antes e volto a reforçar, eu não me lembrei que ele era humano. Foi meu primeiro erro.
— Não sabendo lidar com aquilo e totalmente alheio no que acontecia do outro lado da cerca e fechado no meu próprio mundo de dor e sofrimento, eu corri o mais rápido e o mais longe possível do que considerava que era a dor mais profunda que poderia sentir. Mas como uma boa história, ela não acabou aí. Cerca de um ano atrás, esse mesmo rapaz voltou a minha vida, mas longe do rapaz que eu conhecia, ele se apresentou como um homem diferente, um adulto e com vivências que eu nunca tive, dotado de um coração puro e uma vontade ferrenha de ter um novo capítulo reescrito se eu desse a chance a ele.
Chase respirou fundou antes de continuar.
— Por um tempo, eu dei a chance a ele e tive os melhores momentos da minha vida a dois, não foi nem mesmo algo que já havia imaginado. Não, era muito maior do que os sonhos bobos da adolescência. — Ele parou por um momento enquanto éramos servidos e escolhíamos os que pediríamos na presença do garçom. Assim que ele saiu, Chase voltou a narrativa. — Eu nem sequer podia imaginar que a vida pudesse ser daquela maneira e tornou-se uma coisa que eu vivia mais não podia, de certa forma, estar presente de corpo e alma, porque eu ainda estava ferido por ter ficado em silêncio antes, quando tive oportunidade de brigar por ele. Talvez, não desse em nada. Talvez, isso poderia ter mudado minha vida.
— Aliada a essa vontade de querer e a dor que não havia superado, não vi o que estava diante dos meus olhos. Posso acrescentar nessa nota que, foi um pouco do meu orgulho ferido por um dia ter sido fraco por apenas te desejar e não executar, a dor de ser trocado como se também fosse algo sem valor, quando eu mal sabia que só precisava de uma palavra para que o jogo virasse. Porém, esse tempo havia passado, o rapaz já não existia, mas eu ainda estava parado naquele tempo.
— A verdade é: eu ainda o amava e ele a mim, mas eu não vi embaixo do rancor. Era uma camada grossa demais para avistar do outro lado e foi em uma dessas que, aquela dor que outrora havia sentido, nunca poderia ser comparada a dor que causei, toda refletida nos bonitos olhos verdes quando ele realmente viu o quanto eu fui idiota e infantil por acusá-lo sem saber de toda situação. O que de fato havia acontecido, quando não dei a chance que ele merecia, afinal, supostamente estávamos em um novo capítulo. Ele, como sabia com a experiências de sua vida, já estava naquele capítulo. Eu, por outro lado, me agarrava ao capítulo anterior, afinal, eu já conhecia tudo por lá, sabia o que poderia vir depois, era fácil.
— No momento em que me dei conta da verdade, já era tarde demais, ele estava longe, ferido e magoado como eu jamais poderia imaginar e, dessa vez, era eu quem o havia apunhalado pelas costas, torcido a faca até sumir o cabo entre as costelas. Pela primeira vez a vida, eu pude ver claramente o que estava acontecendo, o que um ato falho poderia gerar. A dor conflitante em mim, mas muito pior do outro lado, ainda mais quando seu namorado tem um dia tenso e envolvido em uma situação delicada, para chegar em casa e ter o dedo apontado a ele, sem ele ter feito nada de errado.
— Prometi a mim mesmo que tentaria entender o que havia de errado comigo, que procuraria ajuda para me tornar alguém que pudesse realmente encerrar aquele capítulo. Talvez, se tivesse oportunidade e o destino desse-me outra chance, eu iria agarrá-la e contar a ele que estou construindo e entendendo como deixar o passado ir pra finalmente alcançá-lo no outro capítulo. — Enquanto ele ajeitava o prato a sua frente, com as bochechas coradas, Chase voltou a me fitar. — Eu acredito que as coisas podem acontecer de uma maneira, que pode existir destino e coincidências. Então, quando o vi ontem, no consultório da Latisha, eu não podia deixar essa oportunidade passar e mesmo que você já não esteja inclinado a ser algo mais que um amigo, eu gostaria fazer parte da sua vida, mesmo que só me restar o papel de amigo.
Fiquei em silêncio e Chase não se apressou para quebrá-lo, dando-me todo o tempo necessário para processar o que escutei e articular um pensamento coerente. Eu estava maravilhado e confuso, com a esperança içando velas, enquanto uma boa parte de mim, estava ressabiado com a mudança, mesmo sabendo que um bom tempo transcorreu e acreditando na força de vontade dele e a ajuda de Latisha, algo poderia sim ter mudado. Mas valeria a pena me colocar novamente naquele caminho e talvez, num futuro próximo, ou não tão assim, eu pudesse ser novamente machucado?
Eu seria capaz de passar por isso sem arranhões?
O amor que sentia por ele ainda estava lá, latejante e fluorescente, após tudo que havia escutado, desejando com renovadas esperanças que pudesse se agarrar aquela outra alma que nasceu para a minha e seguir a vida.
A única pergunta que sobrava era: eu poderia fazer isso?

 

Parte VII

 

Com todo meu coração

 

Agora que eu tentei conversar com você e te fazer entender
 

Tudo que você tem a fazer é fechar os olhos
 

E só estender suas mãos e me tocar
 

Me abrace, nunca me deixe ir
 

Extreme — More Than Words

Vi o dia amanhecer enquanto bebericava meu café, dessa vez, Zachary estaria assumindo a primeira hora, mas após anos e anos com o mesmo procedimento, era difícil perder velhos hábitos e lá estava eu assistindo mais um dia chegar. A vida tinha dado um loop que mal podia acompanhar, mas não podia negar que aquela manobra tinha trazido consigo uma sucessão de novidades e não pude esconder meu sorriso.
Eu olhava para trás e via um longo caminho percorrido, mas muito ainda tinha por vir, a pessoa que outrora fora, já não existia mais. Cada erva daninha havia sido arrancada pela raiz, fazendo meu peito ser novamente aberto para novas aventuras, novos desejos, mas ainda mantinha minhas consultas com Latisha, duas vezes por mês. Para continuar a melhora, pois sabia que levaria um bom caminho para chegar aos cem por centos que almejava. Era profundamente agradecido pelo que havia conquistado, mas queria ir além, muito além.
Finalmente as coisas haviam se assentado da maneira correta. Quando finalmente resolvi dar aquele passo para a melhora, tinha sido uma briga comigo mesmo para entender e, principalmente, querer fazer a mudança. E essa mudança veio para mudar uma área da minha vida que, acabou pendendo também para outros pequenos detalhes que não vi que precisava de mudança.
Como qualquer outro ser humano, trabalhava com minhas dúvidas e medos, mas era assim que a vida seguia e isso era apenas uma das coisas que estava aprendendo a entender. Estávamos todos no mesmo barco, suscetível a qualquer transição brusca e a diferença era que uns sabiam que podia haver uma mudança e ir com ela ou fincar suas raízes no chão e permanecer da mesma forma.
Bom, a primeira opção me pareceu mais viável e a qual eu gostaria de entender e lidar melhor. Era com isso que vinha trabalhando ao longo dos meses. Outro ponto que foi me aberto aos olhos, era a parte do diálogo, não foi fácil quebrar o pensamento que nem todos podiam e tinham sua maneira de pensar e que se eu não falasse ninguém saberia o que estava acontecendo no meu cérebro. Sim, eu sei, era uma coisa obvia, mas, novamente, eu precisei entender isso profundamente, sair do meu lugar e olhar em volta para ver as situações de outro ângulo.
Nos últimos meses também estávamos acompanhando de perto Nolan e sua crescente preocupação com Annelise, a pequena apesar de sempre nos alegrar quando vinha nos visitar, não estava reagindo ao seu tratamento e o médico optou por um suporte e quem sabe reduzir os efeitos da doença, mas ainda assim, a pequena apresentava crescente fadiga, náuseas e perda de apetite, o que era difícil de assistir em uma criança. Esperávamos pelo melhor, porém, sabendo que poderia não existir uma real melhora e o pior acontecer. Tinha feito de tudo ao meu alcance para deixar as coisas mais fáceis para Nolan, dando o suporte no trabalho e flexibilizando seus horários, ele também havia me pedido para que não ficasse de fora do CP, já que seu tempo era dividido com Cecilia e, assim como ele, ela também queria ter seus momentos com sua filha.
O que me deixou exclusivamente para parte administrativa da loja; Ariana continuava na manutenção dos outros funcionários; Zachary tinha assumido de vez a cozinha, trazendo com ele algumas alterações e uma variação generosa ao nosso menu já vasto, também cuidava das entregas e afins, apenas, às vezes, ficava por lá, para que ele tivesse também um horário flexível em casa. Jonelle e Kevin preferiam manter seus trabalhos o mais simples possível, dentro do que era esperado. Jonelle tinha seu próprio filho para cuidar e o fazia sozinha e não queria acrescentar mais nenhuma bagagem; Kevin sempre estava empolgado por horas extras, mas da mesma forma que Jonelle, preferia estar apenas envolvido com o trabalho superficialmente e, estando a par da sua história, sabia que levaria ainda algum tempo para que ele entendesse que tinha um lugar fixo conosco.
Damien estava crescendo a olhos visto ali, depois que ele se recompôs o suficiente para seguir em frente, já sabendo que Latisha era minha psicóloga e também de Cameron, ele se sentiu mais seguro em fazer suas consultas com ela e lidar com o pesadelo que havia vivido. Dentro do trabalho ele era sempre simpático com a clientela, porém, sem se envolver com as pessoas que demonstravam qualquer interesse para com ele, tinha um jogo de cintura invejável para lidar com o flerte constante de homens e mulheres, sempre saindo de qualquer situação e se algo fosse além do comum, Damien não pensava duas vezes em cortar o mal pela raiz e deixar explicita sua opinião sobre o assunto e dar o ponto final na questão.
O que era um motivo constante de orgulho para Zachary e eu, que estávamos a par do que havia acontecido com ele e permanecíamos com Damien a maior parte do dia. Nosso garoto estava crescendo e acompanhar essa mudança era como ver uma criança dando os primeiros passos, tendo uma misto de emoções, desde o orgulho de vê-lo caminhar por si mesmo, até as possíveis caídas que ele poderia ter e se isso acontecesse, estaríamos ali para cuidar dos seus joelhos ralados e possíveis partes doloridas.
O braço rodeou minha cintura e o rosto foi escondido contra meu pescoço, arrancando-me do meu devaneio, logo tinha um sorriso em meus lábios enquanto ouvia o gemido de protesto ainda sonolento.
Era em momentos como aqueles que sabia o quanto era sortudo.
Deixando minha xicara sobre a bancada, girei em seus braços e coloquei os meus sobre os ombros sardentos, o vi fazer um bico que não condizia com um homem daquele tamanho, mas me fazia rir como uma criança ao receber seu doce preferido.
— É muito cedo, amor, o que você está fazendo aqui? — Abraçando-me para o aconchego dos seus braços, me deixei levar e respirei profundamente o cheiro da sua pele ainda morna da cama que dividia com ele.
— Apenas aproveitando a vista enquanto você não acordava. — Murmurei contra o bonito pescoço e o via estremecer, deixando escapar um gemido rouco.
— E agora que estou acordado, ou pelo menos tentando, o que você fará? Se é de valia, pelo menos uma parte de mim está acordado e operante. — Eu ri quando ele esfregou contra meu quadril.
— Oh, era exatamente isso que tinha em mente.
— É? Que bom que estamos na mesma página. — Murmurou contra meus lábios. As mãos percorreram até a altura da minha coxa e com um impulso, me agarrei a ele passando as pernas envolta da cintura muito bem definida pelo seu trabalho.
Após o jantar, onde esclareci algumas coisas que estavam deturpadas por mim, nos propormos a continuar nos encontrando. Não foi um caminho fácil ou rápido, e por vezes, queríamos dar passos além do que estávamos preparados. E nessas ocasiões sentávamos e conversávamos sobre o que realmente queríamos, se era uma boa ideia e lentamente fomos construindo uma relação saudável. Também decidimos fazer um acompanhamento com Latisha, agora como um casal, onde aproveitamos para aparar algumas arestas que haviam sobrado e daí em diante, tinha sido uma nova vida para ambos.
Nova vida, não menos difícil ou sem as complicações que vinham junto a um relacionamento.
O que posso finalmente dizer é que, valia pena!
Digo, realmente valia a pena.
Resolvi alugar o loft onde morava e acrescentar mais aquele dinheiro a economia da casa, onde dividíamos até o último beignets, caso fosse preciso. Decidimos fazer nosso ninho temporário na casa do Cameron, já que era mais próximo ao nosso trabalho e podia ganhar alguns minutos a mais com ele de manhã, o que não foi nada difícil, tendo em vista que já estávamos naquele esquema anteriormente. Tyrell ainda estava descobrindo os detalhes do apartamento e estava constantemente, aparentemente, feliz com seu novo espaço e dois servos somente para ele.
Durante aquele período os pais de Cameron nem uma única vez haviam tentando contatá-lo. Apesar de já saber que aquilo não aconteceria, a menos que eles aceitassem seu filho como ele realmente era, mantinha uma fagulha de esperança que eles pudessem pôr a mão na consciência e entender o que estavam perdendo ao manter seu filho longe. Enquanto Cameron estava em paz com isso e tinha meus pais como substitutos, eu gostaria que ele também pudesse ter seus pais acompanhando a mudança da sua vida e o desenrolar dela. Mas nem tudo era como queríamos, não é? Era a perda deles e não nossa.
Meus pais estavam nas nuvens após todos aqueles anos, de idas e vindas e, por fim, conosco estabelecendo uma relação fixa, com planos para ampliar nossa família, ter nossa própria casa, mas isso não tinha pressa. Porém, não nos deixou fora do gancho e quando eles nos visitavam, havia sempre um puxão de orelha, agora para ambos e ao mesmo tempo.
Uma relação baseada em confiança, amor e diálogo, acima de qualquer coisa.
É apenas o que poderia indicar a qualquer um que nos perguntasse como era ter uma relação saudável e em constante mudança, sempre para melhor, como a nossa. Eu estava orgulhoso dele, de mim também e nada nessa vida poderia substituir a alegria que agora tinha em minha vida.
E se pudesse ter outra vida, queria tê-lo ao meu lado novamente, mas dessa vez, sem o drama!

Fim
 

Cena extra 1 — Pequeno colibri

Estava na hora.
Eu só sabia, quase como um sexto sentido ou Teddy sussurrando no meu ouvido, como sempre parecia ocorrer quando novos ventos surgiam e durante todo esse tempo, esse sexto sentido, que apelidei com o nome do meu falecido marido, Teddy, nunca tinha errado nenhuma vez e tinha certeza absoluta que não seria daquela vez.
Tendo em vista que tudo estava pronto para os próximos dias de férias em alto mar, resolvi apenas avisar Chase que teria um novo rapaz que faria as entregas. É claro que poderia sacar do telefone e o avisar, mas algo me impelia a sair de casa e ir pessoalmente lhe dar as notícias.
Como disse, sexto sentido.
Para o que seria dessa vez? Não tinha a menor ideia, porém, seja lá o que for, estava pronto para o que viesse em meu caminho.
Tracei o trajeto até loja situada apenas duas quadras de onde morava atualmente. Coffee Prince parecia estar saindo de um rush e ainda havia várias pessoas por ali conversando enquanto outras esperavam seus pedidos. Por mais que estivesse ali, na parte de trás, onde as entregas eram feitas e onde recebia de graça uma recarga de café, não havia tido tempo para entrar e apreciar o café no seu próprio ambiente. Acenei para o rapaz e logo fui respondido por um Chase de sorriso largo.
— Ei, Logan, como você está? — Terminando o que estava fazendo veio em minha direção, para o final do balcão enquanto Jonelle assumia seu lugar, de pronto aceitando minha mão estendida.
— Estou bem, passei apenas para dar um oi e tomar uma bebida, apenas para te deixar a par de algumas notícias.
— Certo, já pegarei seu café e te encontro na mesa. — Não precisava dizer como gostava do meu café, após aquele longo tempo, ele já sabia perfeitamente como prepará-lo.
Escorreguei para uma mesa um pouco mais afastada enquanto observava tudo a minha volta, até que meus olhos caíram na figura mais bela que já havia visto.
É ele
Pendi a cabeça no mais leve sussurrar em meus ouvidos.
Teddy!
E agora eu sabia porque senti a necessidade de vir até ali.
Ele tinha um sorriso comercial enquanto atendia as pouquíssimas pessoas na fila. Dali, onde estava, ele me pareceu o ser mais belo e instigante que poderia ter encontrado e logo me vi curvando os lábios para aquela peça rara. Nesse momento, ele virou-se em minha direção, quase como se fosse atraído por mim, encontrando meus olhos.
Ele era simplesmente bonito dos pés à cabeça, um tanto encabulado, pelo que pude perceber, mas seu olhar não desviou do meu enquanto suas bochechas pálidas adquiriam uma nova tonalidade. Ele sorriu, mesmo banhado naquela timidez que o cercava, longe do sorriso outrora forçado pelo trabalho. Não, esse sorriso era todo ele e seu dente da frente levemente torto, aumentando seu ar inocente. Deus, eu estava tão perdido naquela troca que, quando Nolan se aproximou dele, talvez lhe pedindo ajuda, eu quis que o outro sumisse e deixasse que o pequeno colibri continuasse ali.
— Então. — Chase escorregou o café para mim, chamando minha atenção para sua chegada. Lhe sorri enquanto bebericava o café exatamente da maneira que gostava. — Aparentemente chegou o momento de seguir em frente?
— Sim. Espero que isso não seja um problema. — Perguntei por pura cortesia, desde que Chase era seu chefe, possivelmente amigo, e eu estava descaradamente encarando seu funcionário.
— Da minha parte? Nenhum. Possivelmente dos pais adotivos, também não. Só nos resta saber o que nosso garoto pensa sobre isso.
— Essa é parte mais importante na verdade, sem querer ofender. — Acrescentei.
— Nenhum ponto tomado da minha parte, fora essa notícia que pode vir a ser maravilhosa, o que te trouxe aqui fora da entrega? Não que não esteja feliz em vê-lo.
— Estava indo para contar que passarias uns dias em alto mar e quem estaria lhe servindo seria um dos nossos novos rapazes, mas vejo que meus planos mudaram se isso. — Apontei com a cabeça em direção ao rapaz que tinha voltado para o caixa. — For uma coisa certa, não existe motivos para estar tantos dias fora de casa, muito pelo contrário.
Voltei-me para onde ele estava e sorri ao ver o mais novo ter seu olhar novamente conectado a mim.
— Sei que parece uma coisa fácil, tendo em vista que Damien realmente aparenta estar interessado em você, mas vá devagar com ele. Primeiro porque ele é o nosso bebê, segundo porque ele não teve uma vida fácil até agora, certo?
— Dou a minha palavra que ele será muito bem cuidado por mim se eu tiver uma chance com ele, Chase. Aparentemente, pelo que posso sentir, eu estava esperando durante todo esse tempo para encontrá-lo. — Esfreguei a mão na altura do coração. — Posso sentir aqui dentro que Damien é ele.
— Fico feliz, meu amigo, espero que as coisas fluam nesse sentido.
— Eu também, Chase, eu também.

Cena extra 2 — Adeus

Mesmo que ela estivesse lá o tempo todo e soubesse que poderia acontecer, nunca me passou ela cabeça que esse dia chegaria. E veio, com suas mãos geladas e traiçoeiras levando a única coisa que me mantinha caminhando naquele momento da minha vida.
A frase lançada suavemente para que fosse recebida de uma maneira que nos acalmaria, daquela vez não teve sucesso, ou, se alguma vez, poderia ter. Daquela vez, a pequena Annelise não havia conseguido e havia sido levada de nós. Enquanto braços fortes me rodearam e me apoiaram contra seu peito firme, senti minhas pernas como gelatinas.
Não era possível ou era?
Aquilo era verdade ou apenas uma brincadeira de muito mau gosto?
— Ele está brincando, certo, Jeff? — Perguntei em tom rouco, mal tendo a garganta úmida o suficiente para produzir uma frase sem sentir o arranhar que colidia com a dor em meu peito. — É mentira, não é, Jeff? Por favor, me diga que isso é mentira.
A voz que saiu por minha garganta não pertencia a mim, mas sim à dor que parecia dilacerar e fulminar cada parte do meu sistema. Não vi se havia outras pessoas também no corredor logo após ser afastado do quarto da pequena. Só queria chegar o mais rápido possível à porta a minha frente, gritando por ela, chorando enquanto era detido pelos braços de ferros e palavras suaves ditas no meu ouvido, tentando trazer uma centelha de calma.
Mas não me alcançava, parecia tão distante, vinda de algum lugar longínquo e nebuloso, com a visão turvada e ainda indignado por aquela mentira, tentei novamente alcançar a porta e ter minha sobrinha em meus braços, nem que fosse para apenas tê-la comigo um momento a mais. Para repetir a história que, por várias vezes já havia contado, mas ela sempre me pedia que fosse lida uma outra vez mais. Nem que fosse para dividir com ela todos os doces que escondia nos bolsos para que ela pudesse ter um pequeno deleite enquanto passava pelo calvário que era estar no hospital.
Mas do que havia adiantado? Ela havia sido retirada de mim e uma parte havia se desvanecido, assim como a existência dela. Parei de lutar e fui amparado quando toda sorte de adrenalina havia evaporado, fixando aquela notícia que, minha pequena menina, já não estava entre nós, que nunca a veria ter o primeiro namorado ou namorada, que não iria em sua formatura e não passaria pela conversa tensa sobre abelhas e flores, usar absorventes e afins. Não foi me dada essa chance de vê-la crescer e se tornar a bela mulher que ela seria.
Cecilia me encontrou ali, devastado e longe do chão apenas porque Jeff me tinha firme em seus braços e na posição em pé. A reação dela não foi diferente da minha, nem mesmo por uma vírgula. Segurando sua mão de um lado e a de Jeff do outro lado, conseguimos finalmente entrar para encontrar Anne deitada com o rosto relaxado de quem parecia estar descansando, e Deus era testemunha do quanto ela havia sofrido no seu tempo na terra. Pelo menos agora, ela estaria finalmente do outro lado e tendo seu descanso tão merecido.
Não sabia como, mas não tardou para que Chase estivesse esperando por nós no corredor, seu rosto banhado em lágrimas. Desvencilhei da mão firme para cair nos braços do meu amigo e chorar o que me restava das lágrimas. Não somente Chase, mas Ariana, Jonelle, Kevin, Damien, Zachary, Theodore e Cameron estavam lá. As palavras de conforto me tinham debaixo de um manto de conforto que nem mesmo sabia que precisava.
Agora, estava perdido circulando por minha casa, agarrando e soltando os objetos no quarto simples que fora de Annelise, tendo o olhar cuidadoso sempre me acompanhando, mas respeitando meu silêncio, Jeff permanecia da mesma forma. Cecilia não tinha condição e estava passando os dias sedada como forma de alivio e também fuga para o que havia acontecido com nossa coelhinha, sobrando para mim toda sorte de trabalho que deveria fazer para dar um descanso digno para Annelise.
No primeiro instante não sabia o que fazer, enquanto como tio não podia fazer muitas coisas, já que a mãe era a única que poderia lidar com a documentação necessária, sobrou para mim a parte mais cruel, se eu realmente pudesse disser assim. Porém, aquilo foi tirado de minhas mãos tão logo foi posto. Jeff e Chase tinham tratado de todo o procedimento para o velório junto a funerária. Meu trabalho agora tinha sobrado para cuidar dos poucos pertences da minha menininha.
Agarrei um pequeno elefante, já esbranquiçado do seu cinza original, seu parceiro de todas as noites e histórias que contava a ela. Alisei a pelúcia já velha e desgastada, mas que ainda tinha o cheiro dela. Sem que pudesse evitar, sentei na cama de princesa que ela tanto desejou e me abracei ao brinquedo. Meus ombros tremeram e por um minuto não me dei conta que estava chorando e os tremores advinham disso. O colchão pendeu a ter o outro peso, o braço rodeou meus ombros, puxando-me para seu peito largo.
Jeff era engraçado e havia passado bastante tempo conosco durante o último ano, vinha acompanhando de perto todo o processo de Annelise e sua incansável alegria mesmo diante do que enfrentava todos os dias. Além de amigos, ele havia se tornado um pilar, minha segurança em todos os meandros daquele tortuoso e torturado caminho de assistir a luta pela vida.
Sem um pingo de maldade, levou-me para seu colo e me abraçou firme, esfregando minhas costas e logo minhas lágrimas já não estavam mais sozinhas. O choro rouco e dolorido me deixou saber como ele estava se sentindo diante daquele acontecimento.
Eu não estava sozinho.
Nunca estive sozinho durante aquele período, além da presença constante de Jeff, todos davam um jeito de estar por perto, mesmo que eu estivesse afastado do serviço por tempo indeterminado, todos mantinham-se ao nosso lado, até o CP tinha diminuído suas horas de trabalho para que a nossa família mantivesse unida.
Quando chegou o dia da despedida final, todos estavam lá, assim como grande parte dos meus amigos, não havia realmente ninguém além deles que pudessem passar por aquela hora comigo. Cecilia havia sido expulsa de casa quando descobriu a gravidez e se recusou a casar com o pai biológico da Annelise, da mesma forma que, eu fui convidado a me retirar já que uma família de religiosos não podiam aceitar uma mãe solteira, logo, um filho gay era tão mal visto quanto a filha e uma verdadeira abominação.
Naquele momento, mesmo o céu tinha suas próprias lágrimas que vertiam com fúria durante todo o procedimento do enterro, diante daquela perda tão traumática. Cada um tinha um lírio branco para dedicar a pequena Annelise e rezavam para que ela pudesse descansar na outra vida. Ariana tinha Cecilia em seus braços, num aperto tão firme quanto eu mesmo recebia de Jeff e segurava a mão de Chase durante todo o processo, até chegar a minha vez. Ambos ficaram um passo atrás de mim, me despedi da pequena fazendo votos para que, se tivesse uma vida após aquela e ela pudesse reencarnar, que Annelise viesse novamente para nós, eu estaria esperando.
Após isso, ela se foi para sempre, o que causou uma renovada onda de choro em todos os presentes. Nem mesmo o grandalhão ao meu lado foi imune a dor da situação e sem se preocupar com quem estava em volta, tomou-me em seus braços e sua dor dançou junto a minha.
E foi aí que eu soube.