Tiramisu

Tiramisu

Sinopse: Ela deveria ter adivinhado que tê-lo de volta em sua vida não seria tão fácil assim. Ele estava revivendo nela sentimentos enterrados, desejos apagados, sonhos esquecidos. Ela sabia que não podia se deixar levar pela paixão de tantos anos, que se entregar seria completamente errado. Especialmente quando a paixão em questão tinha uma namorada tão legal.
Gênero: Romance
Classificação: 16
Restrição: Sexo explícito, poliamor
Beta: Rosie Dunne


Five, four, three, two, one
Meu corpo se mexe no ritmo da canção, absorvendo a melodia e a transformando em arte. Meus braços desenham o ar e se fecham, apertando-me contra mim mesma. Meu corpo gira uma, duas vezes, cai ao chão. Minhas pernas se juntam contra meu peito e se abrem novamente. Eu deito de costas contra o chão de madeira e deslizo a mão por meu tronco.
And here I go
Eu fecho os olhos quando a música acaba e penso em cada parte que não está boa o bastante. A de nove anos, que odiava balé clássico mas ainda assim se esforçava porque amava dançar, briga comigo, critica minha postura, meus cabelos cacheados formando o black power perfeito, meus pés descalços. Ela grita comigo e soa como minha antiga, horrível professora.
Ainda de olhos fechados, respiro fundo e repasso a coreografia em minha própria mente, odiando o final que dei a ela. Sei que preciso fazer algumas alterações, sei que Estela poderá me ajudar com isso, mas odeio ficar implorando por sua ajuda todo o tempo. Estela não é mais minha professora de balé contemporâneo há muitos anos, e certamente precisa viver a própria aposentadoria.
Eu ainda não mostrei a ela minha nova coreografia, que deverá ser minha apresentação solo do festival anual do Centro de Artes e Prestígio Duncan, porque ainda não me sinto completamente feliz. Eu sinto que meus passos, meu corpo não expressa bem o bastante a linda melodia e a profundidade da letra que Murder Song passa.
Suspiro e abro os olhos antes de erguer o corpo, me sentando no chão mesmo, pronta para me levantar a passar a dança uma vez mais, tentar me conectar melhor com as notas e com a voz de Aurora.
Porém o som de aplausos me congela completamente.
Viro rapidamente, e a imagem na porta do estúdio faz com que minha cabeça gire e meu estômago embrulhe.
— Você ‘tá brincando comigo — eu solto antes de levantar, ainda tentando absorver o que está acontecendo ali.
Eu posso estar louca, mas naquele momento, parado na minha frente, está , ator em ascensão, novo latino queridinho da Netflix, o nome da boca das adolescentes que amam um romance clichê. E meu melhor amigo desde que eu me lembro por gente.
— Isso foi incrível — é o que ele fala, como se o simples fato de que ele está aqui, no Brasil, em São Paulo, fosse completamente comum.
— É você mesmo ou eu ‘tô alucinando? — apesar da minha pergunta ser feita em voz alta, é mais para mim do que para ele.
— Será que nós dois estamos alucinando juntos? — ri e entra no estúdio, olhando o próprio reflexo nos espelhos e sorrindo, depois voltando a me encarar. — Eu não mereço um abraço? Um “eu morri de saudade de você, ”?
Eu ainda estou em estado de choque, então fico parada exatamente no mesmo lugar, de boca aberta, encarando-o ainda sem conseguir acreditar.
Faz mais ou menos oito anos que se mudou para os Estados Unidos, em busca de realmente conseguir alavancar sua carreira como ator. Aqui no Brasil ele já estava crescendo rapidamente, e poderia ter virado um dos atores famosos, mas sempre sonhou alto, sempre quis mais e, aos vinte e um anos, a vida de ator no Brasil de repente não era mais o suficiente para suas ambições.
E, como tudo na vida dele, o filho da puta conseguiu.
Há dois anos ele se tornou um nome muito conhecido, estrelando os romances mais clichês da Netflix. Nem sempre no papel principal, porque mesmo que ele tenha chegado relativamente longe, não é um homem branco, mas sendo o padrão latino, ele sempre consegue a atenção necessária para ter ao menos um pouco de destaque. Sem contar que as gringas amam sexualizar um latino, mas ele não fala sobre isso.
Eu caminho até , meus pés não produzindo um som sequer contra o piso, e paro de frente para ele. Eu sou alguns centímetros mais baixa que ele, não porque eu seja baixa, apenas porque é ridiculamente alto. Eu estudo o rosto dele, a barba rala, o sorriso malandro, os olhos escuros brilhantes com cílios gigantes que eu sempre invejei e que tornam seu olhar penetrante.
A pele naturalmente morena parece mais escura que o normal, porém ainda estando bons tons abaixo da minha. O cheiro cítrico que ele emana me traz uma sensação boa, memórias de infância, misturado a um tom um pouco fresco, provavelmente o perfume que ele usa. Se ele passou tantos e tantos anos ganhando em dólar, chuto que trata de uma marca cara. Por isso, e porque sempre foi uma pessoa de gostos caros.
A realidade me atinge e, de fato, está na minha frente.
Minha primeira reação é dar um fortíssimo tapa em seu braço.
A segunda é puxá-lo para o abraço mais apertado que eu consigo.
— Você me deixou confuso, — a risada dele é ridiculamente deliciosa e eu não consigo acreditar em como eu senti falta disso. — Você me ama ou me odeia?
— Eu odeio te amar — me afasto dele, novamente estudando seu rosto, como se tudo aquilo fosse falso, como se a qualquer momento fosse simplesmente desaparecer e eu estaria sozinha novamente naquele enorme estúdio. — O que você ‘tá fazendo aqui?
— Aqui onde você dá aula de balé? Ou aqui em São Paulo?
— Aqui no Brasil!
— Ah, isso — ele dá um daqueles sorrisos que eu tenho certeza serem o motivo para que a carreira dele como ator tenha ido tão longe. Não que ele não seja ótimo, porque ele é. Mas aquele sorriso é simplesmente irresistível demais, eu tenho total certeza de que foi assim que ele conquistou todos os diretores e produtores. — Eu voltei.
Eu não sei como lidar com esse simples “eu voltei”. Ele pode querer dizer qualquer coisa, um milhão de possibilidades. Além disso, eu não sei realmente se estou pronta para lidar com qualquer uma delas. Mesmo que vinte e nove anos ainda seja considerado um pouco nova, eu ainda posso ter um infarto a qualquer momento, eu sei muito bem disso.
— Como assim voltou?
— Eu comprei uma casa aqui e me mudei pro Brasil. De novo — e, sim, esse é o tipo de coisa que eu não estou mesmo pronta.
— Como? Quando? Onde? Por quê?
— Com dinheiro. Essa semana. Aqui mesmo, pertinho do estúdio. Eu fechei um contrato com a Netflix Brasil para ser o protagonista de uma nova série totalmente brasileira — conforme ele fala, eu tento processar as informações, mas parece demais. — Por enquanto o contrato é de três temporadas, mas dependendo da audiência, pode renovar.
Eu ainda estou parada, apenas o encarando, tentando entender como nada daquilo é um sonho maluco. Como simplesmente aconteceu do meu melhor amigo estar de volta em nosso país. De volta para ficar.
Durante os anos, visitou o Brasil em algumas datas muito específicas. No começo era quase impossível que ele viesse visitar, o dinheiro sempre curto. Depois, com o tempo e com o início dos trabalhos maiores, ele conseguiu começar a vir ao menos uma vez por ano. Desde que começou a fazer trabalhos maiores, a agenda o impediu completamente de vir. Faz dois anos que eu não o via pessoalmente.
E agora, eu o veria todos os dias.
Não todo dia, claro. Eu ainda tenho um emprego a manter, assim como ele. Mas agora eu o veria com frequência, e o turbilhão de emoções ainda é forte demais para que eu não pareça uma completa idiota.
? — agita a mão na frente do meu rosto, tentando chamar minha atenção, ou me trazer de volta para o planeta Terra. — Você ouviu o que eu falei?
— Você veio pra ficar?
— Vim. Por um bom tempo, pelo menos.
Eu o abraço novamente, sentindo os braços dele ao meu redor. É incrível como eu senti falta disso. Poucas sensações do mundo são tão boas quanto abraçar seu melhor amigo, especialmente após tanto tempo sem nenhum contato físico.
— Por que você não me falou nada? — dessa vez eu não me afasto dele, ainda me perdendo em seu abraço, quase como se estivesse com medo de deixá-lo ir.
— Eu queria fazer uma surpresa pra você — a resposta faz com que eu me afaste e estreite os olhos. — É sério!
— Eu sei que é. E você sabe que eu odeio isso.
— Se eu te falasse antes que eu ia voltar pro Brasil, você ia começar a pirar, querer ir ver a casa, ajudar na mudança, blábláblá revira os olhos e eu odeio que essa é a maior verdade de todas. — E eu sei que você está ensaiando para a solo do festival do CAPD, eu não poderia correr o risco de te atrapalhar.
— Mas… Eu poderia ter feito uma festa de boas vindas. Tem tanta gente que sente sua falta!
— Eu vou falar com todas essas pessoas, mas você é a mais importante por enquanto — ele pisca e desvio o olhar rapidamente. Eu odeio esse idiota. — Além do mais, eu queria antes te convidar para um jantar de boas vindas na minha nova casa. E… Eu quero finalmente te apresentar pra .
— Ela veio com você? — eu arregalo os olhos, chocada.
— Você acha que eu ia deixar minha namorada nos Estados Unidos? — ri. — Claro que ela veio, ela sempre me acompanha!
— E ela aceitou numa boa deixar Los Angeles e se mudar pra São Paulo? — levanto as sobrancelhas, incrédula. — Ela largou o trabalho dela pra isso?
— Ela foi transferida pra Netflix Brasil — e isso explica muita coisa.
— Então ela não veio por você, ela veio apesar de você — eu rio com a careta que ele faz.
— Ela pediu pra ser transferida pra cá pra podermos vir juntos, sua chata — ele cutuca minha cintura do exato jeito que fazíamos quando é mais novos. — Mas o importante é: jantar na minha casa. Sexta. Por favor.
— É óbvio que eu aceito! — sorrio, animada. — Primeiro, porque eu nunca recuso comida. Segundo, porque eu ‘tô doida pra conhecer a , você sempre falou tão bem dela!
— Comida, … Eu mesmo você nem liga, né?
— Quem é você mesmo?
— Palhaça — ele me puxa novamente para um abraço apertado. — Eu senti sua falta feito louco, sabia?
— Eu também sentia a sua — solto um suspiro feliz, sentindo-me um pouco mais completa com de volta a ser uma presença física em minha vida.
Não demora muito para nos despedirmos porque já está relativamente tarde e eu preciso fechar o estúdio. Além disso, aparentemente, ele ainda tem muitas coisas relativas à mudança para organizar.
Enquanto dirijo de volta para casa, mal me preocupo em reclamar do trânsito horrível de São Paulo, de como vai demorar quase o dobro do tempo para chegar em casa simplesmente porque essa cidade é um completo inferno. Tudo que consigo pensar é que está de volta no Brasil e, consequentemente, de volta na minha vida.
É ridículo porque sempre foi meu porto seguro, tudo o que eu sempre precisei, quando eu precisei. Mesmo quando se mudou para os Estados Unidos, sempre nos mantivemos em constante contato, contando tudo sobre nossas vidas. Ele foi o primeiro a saber quando consegui o emprego no CAPD. Eu fui a primeira a saber quando ele passou no teste de seu primeiro filme.
Mais ridículo ainda é pensar que, mesmo com tanto tempo morando longe, mesmo com todos esses anos separada fisicamente dele, vê-lo e abraçá-lo novamente me mostraram o quanto eu ainda sou ridiculamente apaixonada por ele.