Jamais Vu

Jamais Vu

Sinopse: Poucas coisas seriam capazes de fazer Jeon Jungkook abandonar a vida que estava construindo nos Estados Unidos e voltar para Busan, mas a morte de sua mãe certamente era uma delas e Jungkook não poderia ignorar a responsabilidade sobre a caçula da família.
Voltar a conviver com seu pai controlador e preconceituoso não seria fácil, principalmente quando as aulas de dança que sua irmã tanto sonhava em praticar iriam ser ministradas por Park Jimin, o ex detento com um passado misterioso que deixava Jungkook com as pernas bambas a cada sorriso provocante que lhe lançava.
Poderiam eles serem o remédio um do outro ou ambos acabariam destruindo seus corações mais ainda?
Shipp: Jikook
Gênero: Romance, drama, suspense.
Classificação: 18 anos.
Restrição: Fanfic restrita para maiores de 18 anos. Personagens fixos.
Beta: Regina George.

Capítulos:

프롤로그

Tudo o que ele conseguia sentir era apatia. Sentia-se uma pessoa ruim e saberia que seria julgado caso as pessoas presentes naquele velório soubessem tudo o que se passava – ou o que não se passava – dentro de sua cabeça naquele momento.
Estava velando sua própria mãe e não conseguia sentir nada. Nenhum pingo de tristeza ou remorso por ter passado quase cinco anos do outro lado do mundo. Tinha ligado para ela duas ou três vezes? Não fazia ideia e não era como se ela se importasse. Jungkook tinha perdido sua mãe muito antes de ela morrer por causa de um câncer no pulmão. Ele a havia perdido aos 12 anos, quando Jeon Dongyul lhe deu o primeiro murro por gostar de “coisas que não eram para meninos” e ela não fez nada além de concordar com o marido.
Virou o rosto para a esquerda, encontrando Sunhee fungando e limpando as lágrimas com a manga da blusa escura que ela usava. A caçula não havia tido a mesma mãe terrível que Jungkook, então sentia a dor da perda de uma forma que ele jamais sentiria. Jungkook a puxou para perto e a abraçou pelos ombros, deixando que a garota chorasse contra seu peito enquanto o envolvia desajeitadamente pela cintura. Sunhee havia sido sua única saudade em todos aqueles anos em que estivera nos Estados Unidos e tudo o que Jungkook mais desejava era que seu pai abrisse mão da guarda para que eles pudessem ir embora daquela cidade.
Mas aquele era um sonho em vão e por isso havia levado todos os seus pertences de volta para Busan. Tinha quatro anos pela frente até Sunhee atingir a maioridade e mesmo que viver sob o mesmo teto que Dongyul fosse seu inferno particular, ele jamais deixaria a o destino da caçula nas mãos do pai.
– Oppa… eu quero ir para casa – ela fungou baixinho e se encolheu mais ainda no abraço do irmão. – Não consigo mais ficar aqui, está doendo muito.
– Tudo bem – Jungkook assentiu. – Vamos para casa, Sunie.
– Appa vai deixar?
– Ele não tem que deixar nada, Sunie – Garantiu. – Pegue o seu casaco e vá para o carro. Vou avisar ao appa que estamos indo embora.
– Tudo bem – Sunhee assentiu, se desvencilhando dos braços do irmão e indo em busca do casaco e da bolsa que havia levado consigo naquela tarde. Jungkook respirou fundo e atravessou o salão, recebendo alguns olhares dos familiares e quase revirando os olhos para os cochichos nada discretos.
Sim, ele tinha beijado garotos e por isso tinha ido embora para os Estados Unidos na primeira oportunidade que havia surgido.
Mas agora estava de volta a Busan e sabia que as pessoas falariam sobre ele.
Mas era e por isso Jungkook odiava aquela cidade.
Não abaixou a cabeça quando o olhar gélido de Jeon Dongyul pairou sobre si, mesmo que uma parte de si estremecesse com as lembranças que sempre voltavam aos seus pensamentos quando pensava no pai. Estar na presença dele era mil vezes pior, mas Jungkook estava ali por Sunhee. E permaneceria por ela.
– Sunie está exausta e eu vou levá-la para casa – Avisou. – Não vou voltar para cá.
– Não vai velar a sua omma? – O tom de voz cortando de Dongyul teria feito Jungkook se encolher alguns anos atrás.
– Minha omma nunca se importou comigo. Duvido que se importe se eu estou velando-a ou não – E com isso Jungkook deus as costas, mas não se afastou a tempo de não ouvir as palavras do pai para os colegas de trabalho.
– Ele continua sendo o moleque frouxo de sempre. É a minha maior vergonha, acreditem.
E novamente o corte causado por Jeon Dongyul abriu e Jungkook precisaria mais do que alguns band-aid para não acabar quebrando completamente.

하나

Era estranho estar novamente naquela cidade e principalmente, naquele bairro. Jungkook havia crescido ali. Brincado naquela praça, andado por aquelas ruas e estudado na mesma escola onde havia deixado Sunhee há poucos minutos. Ela ainda estava abatida e Jungkook sabia que ela tinha chorado durante a noite, e mesmo que tivesse tentando animar a caçula cozinhando suas comidas favoritas e assistindo com ela as animações que gostava, sentia que iria precisar se empenhar um pouco mais para conseguir distrair Sunhee.
Suspirou, passando a mão pelos cabelos e ligando o carro após observar a irmã desaparecer dentro do pátio da escola, manobrando o veículo para longe. Tinha marcado de encontrar com Yoongi em um café naquela manhã e já estava levemente atrasado e sabia que o mais velho iria reclamar em seus ouvidos, mas havia sentido tanta falta do melhor amigo que até as reclamações seriam bem-vindas.
Acabou estacionando o carro em uma ótima vaga e cobriu a cabeça com o capuz do moletom enquanto caminhava em direção ao estabelecimento, o celular vibrando dentro do bolso apenas como uma constatação de que estava atrasado e Yoongi estava a sua procura. Reclamão e sem qualquer paciência, do jeito que Jungkook lembrava. Abriu um sorriso largo quando avistou o amigo sentado em uma das mesas mais ao fundo da cafeteria, se aproximando sorrateiramente e aproveitando que Min estava de costas para abraçá-lo e deixar um beijo no topo da cabeça do mais velho. Yoongi já tinha feito o pedido e mesmo que seu café estivesse esfriando, Jungkook sentia-se grato por não ter que esperar até o pedido ser entregue. Estava faminto, como sempre e Min o conhecia o suficiente para pedir algo que ele gostava de comer.
– Hyung! – Jungkook exclamou com animação enquanto Yoongi reclamava e tentava se livrar do abraço, causando risos em Jeon. – Senti sua falta!
– Nós conversamos ontem, Jungkook. Conversamos todos os dias – revirou os olhos.
Jeon riu mais um pouco e desfez o abraço e sentou na cadeira em frente a Yoongi, recebendo um uma análise profunda em forma de olhar. Apesar dos pequenos olhos que pareciam sempre sonolentos, Yoongi era um ótimo observador e sua experiência o ensinara a ler Jungkook tão bem quanto qualquer outro livro, já que o mais novo nunca fora de compartilhar livremente suas aflições.
– Mas eu sinto sua falta sempre, hyung. Pare de reclamar e aceite o meu amor – bufou e Yoongi revirou os olhos outra vez. Jungkook bebericou o café antes de dar uma mordida generosa no sanduíche.
– Eu também senti a sua falta, Jungkookie – admitiu por fim e o largo sorriso que o mais novo abriu fez a confissão valer a pena para Yoongi. Jeon era como um irmão mais novo para ele e o amava com todo o coração. – Como você está? A viagem foi tranquila? Queria estar aqui quando chegou e também para o velório, mas você sabe que Dongyul não gosta de mim ou de Hoseok…
– Está tudo bem hyung, é sério. Não é como se a morte dela tivesse me deixado triste ou qualquer outra coisa. Estive mais preocupado com Sunhee do que com o velório em si – Jungkook murmurou. – Está sendo difícil para ela e eu não sei o que fazer para melhorar as coisas – suspirou frustrado.
– E Dongyul? – Yoongi indagou com cuidado.
– Não sei – deu de ombros. – A casa é grande e eu tive sorte de não encontrá-lo por todo o final de semana. Sunhee não parece próxima dele e acredito que isso torne as coisas mais fáceis. Preciso que ele abra mão da guarda dela o mais rápido possível, hyung.
– E se ele não abrir? – Min indagou com preocupação. – O seu plano é ficar alguns meses e voltar para os Estados Unidos, mas e se ele não cooperar? Sunhee ainda tem quatro anos presa a ele até completar a maioridade e eu sei que você não planeja ficar quatro anos aqui, Jungkook.
– Ela pode ir com 18 anos para estudar. Eu fui – Jeon lembrou.
– Você foi porque Dongyul queria que você sumisse. Por isso ele aceitou que você fosse para o outro lado do mundo, pagou tudo e sempre te mandou dinheiro para que você continuasse lá. Ele não deve pensar o mesmo sobre Sunhee. Você sabe que a criação dela foi diferente da sua e eles… – Yoongi não completou, mas para Jungkook ele nem precisava. Sabia exatamente sobre o que Min se referia e por isso largou o sanduíche no prato, engolindo mais um gole de café. Estava amargo ou talvez fosse apenas o resultado do desconforto que aquela conversa lhe trazia.
– A amavam. Dongyul ama Sunhee de um jeito que nunca me amou, eu sei disso. Não vai ser fácil conseguir a guarda dela, mas eu preciso tentar, hyung. Não vou abandoná-la e se precisar passar os próximos quatro anos nessa cidade infernal, tudo bem, eu vou fazer isso. Mas eu não quero e você sabe o porquê – respirou fundo.
– Você não quer e não pode – Min completou. – Ele vai ferrar com a sua cabeça de novo, Jungkook.
– Ele não pode ferrar com algo que já está ferrado – deu de ombros e o sorriso sombrio que se abriu em seus lábios deixou o mais velho preocupado. – Eu preciso de um emprego e você disse que ia me ajudar – Jungkook mudou de assunto, arrancando um suspiro do amigo.
– E eu vou – Yoongi torceu os lábios. – Hoseok ofereceu ajuda e talvez você deva enfiar esse orgulho no rabo e aceitar o trabalho – bufou.
– Quero fazer as coisas sozinho, hyung. – Jeon murmurou. – E então ele não poderá dizer que eu sou um completo incompetente que dependo dos outros para tudo. Você sabe que eu devolvi cada centavo que ele me mandou e que eu usei para ir embora. Eu só vou ficar naquela casa por causa da Sunie e se as coisas demorarem, vou alugar um apartamento para não precisar depender dele para nada. Ele não precisa saber nada sobre a minha vida – disse por fim.
– Tudo bem, então vamos fazer as coisas do jeito que você quer – Yoongi concordou.
– Como está Hobi? Pensei que ele viria com você – Jungkook comentou. – Conversei com ele ontem à noite, mas foi muito rápido porque eu estava morrendo de sono.
– Ele tinha que estar no escritório mais cedo hoje. Algo sobre treinar um novo funcionário, não sei bem – Yoongi deu de ombros. – Não falamos muito sobre trabalho. Quando estamos juntos é para esquecer que a realidade existe.
– Eu fico feliz que tenham finalmente se acertado – Jungkook sorriu. – Eu não aguentava mais ficar no meio de vocês dois naquele grupo.
Yoongi riu e passou a mão pelos cabelos para tirar a franja dos olhos. Ele tinha novamente mudado a cor e o preto o deixava com uma aparência ainda mais jovial.
– É um relacionamento aberto – lembrou. – Não funcionamos muito bem sem isso, parece que sempre falta algo.
– Isso é coisa da cabeça de vocês – Jeon revirou os olhos. – Mas eu não vou me meter. Vocês que são gays e que se entendam. – fez piada e Yoongi revirou os olhos.
– Você é gay – apontou. – Eu sou bi.
– Não estrague meu argumento – estirou a língua para o mais velho e Min acabou rindo.
– Sobre o que vocês conversaram?
– Quero encontrar um curso de dança para Sunhee. Você sabe que ela sempre gostou de dançar. Ela está muito abatida e acho que isso poderia ser bom. Ela sempre quis fazer e eles nunca deixaram – suspirou. – Hobi ficou de me enviar alguns endereços, mas acho que ele esqueceu.
– Vou mandar uma mensagem para ele – Min murmurou, já puxando o celular do bolso do jeans e acessando o aplicativo de mensagens.
E enquanto Yoongi conversava com Hoseok, Jungkook terminou o sanduíche e o café, fazendo careta para o amargor. Preferia coisas doces e por isso pediu um pedaço de torta. Yoongi sorriu pequeno para a atitude do mais novo e observou Jungkook saborear a torta como se não comesse há anos.
Minutos mais tarde eles deixaram o estabelecimento, Yoongi seguiu para seu carro e depois de um abraço apertado – que ele recebeu sob reclamações, mesmo que Jungkook soubesse que ele secretamente adorava ser abraçado -, eles se despediram em definitivo. Min tinha que trabalhar e Jungkook tinha o endereço de um pequeno estúdio onde poderia inscrever Sunhee em segredo. Sabia que Dongyul não iria aprovar a ideia e quanto mais afastado o estúdio fosse do bairro em que moravam e em uma zona da cidade onde os olhos do chefe de polícia não estivessem sempre atentos, mais chances Sunhee tinha de não precisar abandonar as aulas e Jungkook de não precisar entrar em conflito com o pai.
Jeon atravessou a cidade seguindo as instruções do aplicativo de rotas e quando estacionou o carro em frente a um pequeno estúdio que mais parecia um armazém, mandou uma foto do local para Hoseok apenas para confirmar que estava no lugar certo.

Hobi
Sim, é esse mesmo
Não é uma área nobre, mas ouvi falar que o rapaz é excelente professor
Um conhecido meu indicou

Quanto mais distante melhor, você sabe hyung
Quem eu devo procurar?

Hobi
Park. Park Jimin.

Seu cabelo estava uma bagunça naquele dia e Park Jimin não hesitou em colocar uma touca na cabeça antes de descer para o primeiro andar e seguir para a cozinha, de onde o cheiro maravilhoso do café da manhã fazia seu estômago revirar. Não tinha jantado na noite anterior, já que tinha ficado até mais tarde para ajudar um aluno com uma coreografia e o dinheiro estava apertado demais para que ele se desse ao luxo de jantar fora. E não queria incomodar Seokjin e Namjoon mais do que já incomodava por morar no quarto de hóspedes do apartamento dos amigos, então apenas tomou um banho e caiu na cama.
– Bom dia hyungs – sorriu quando passou pelo portal e seus olhos pequenos piscaram rapidamente por conta do ambiente mais claro.
Como de costume, Jin estava no fogão e Namjoon sentado na bancada lendo o jornal, mas naquela manhã a ausência de Taehyung foi a primeira coisa que Jimin percebeu e precisou de um segundo para recordar que o amigo havia trocado de emprego e seria o primeiro a sair de casa daquele dia em diante, já que precisaria atravessar a cidade até o escritório de advocacia onde começaria a trabalhar. Jimin estava tão acostumado com a rotina que tinham todas as manhãs que o estranhamento não lhe era surpreendente.
– Bom dia, Jimin-ah – Seokjin lhe lançou um sorriso largo antes de voltar os olhos para a panela. – Não ouvimos você chegar ontem.
– Me desculpem por chegar tão tarde. Um aluno precisou de orientação extra e eu não estou em posição de negar qualquer trabalho – suspirou e sentou-se na banqueta, de frente para Namjoon.
– Ficamos preocupados – Namjoon murmurou. – Eu poderia ter buscado você no estúdio, Jimin. É perigoso andar de ônibus tão tarde da noite.
– Não gosto de incomodar hyung, você sabe. E estou acostumado a pegar ônibus – tentou sorrir reconfortante.
– Você não jantou outra vez – Seokjin acusou e se virou para o balcão, trazendo uma frigideira em mãos e dividindo a refeição em três pratos. – Deixei um prato dentro do forno para você e ele estava intocado quando acordei hoje – encarou o mais novo e Jimin suspirou.
– Meu aluguel está atrasado hyung, eu não…
– Park Jimin, você não é um hóspede nessa casa e nós já falamos sobre isso! – Seokjin bufou. Deixou a frigideira vazia dentro da pia e voltou para perto do balcão, sentando-se ao lado de Namjoon e empurrando um dos pratos para Jimin, que seguiu o gesto do mais velho e também se sentou. – Você é da família e eu amo você como um irmão, assim como Taehyung. Nós sentimos a sua falta durante os quatro anos em que você esteve naquele lugar horrível e acreditamos em você, Jimin-ah. Se você começar com essa história de hóspede mais uma vez eu vou ser obrigado a dar um surra em você! – Jin reclamou e mesmo tocado pelo discurso do mais velho, Park acabou rindo fraco por conta da velocidade com a qual Seokjin despejava as palavras quando estava exasperado ou irritado. Se não convivesse com ele por quase toda sua vida, certamente não estaria acostumado com aquilo e não teria entendido nada.
– Desculpe hyung. Eu só não quero atrapalhar vocês – suspirou.
– Você não atrapalha em nada, Jimin. Você e o Tae são como nossos filhos e nós cuidamos de vocês – Namjoon sorriu e Jimin voltou a assentir com a cabeça. Levantou da banqueta para abraçar os mais velhos e voltou a se sentar, dando a primeira garfada no kimchi que Jin havia preparado e arrancando um sorriso satisfeito do mais velho.

Minutos mais tarde e Jimin estava correndo para o ponto de ônibus com a mochila quase caindo do ombro. Sentou-se ao fundo e tirou o celular e os fones de ouvido do bolso, batucando os dedos contra as pernas conforme o ritmo da música que ouvia. Na metade do trajeto, decidiu enviar uma mensagem para Taehyung, desejando um bom primeiro dia de trabalho e quando saltou do ônibus e seguiu por mais alguns metros até o estúdio de dança onde lecionava, uma sensação esquisita lhe atingiu em cheio e Jimin apenas desejou que aquele dia não fosse uma completa desgraça e nada de ruim acontecesse.
Não ia aguentar outra visita da polícia no meio de sua aula. Na última vez que tinha acontecido, quase tinha sido demitido e havia perdido dois alunos – e ele nem tinha muitos alunos e aquela perda havia feito uma grande diferença em seu bolso. As coisas já estavam bastante complicadas e ele não precisava de mais problemas em sua vida.
Acenou para a recepcionista e seguiu para a sala onde costumava lecionar, deixando a mochila no armário lateral e retirando as roupas pesadas que usava, permanecendo apenas com a calça de moletom e uma camiseta leve. Trocou os tênis pelas sapatilhas e ocupou o centro da sala para começar a se alongar. Seus alunos do turno da manhã chegariam apenas em uma hora e Jimin sempre tirava aquele horário livre para treinar suas próprias coreografias. Mesmo sabendo que era um sonho quase impossível, ele não podia deixar de ter esperanças em se tornar um bailarino profissional algum dia. Adorava dar aulas e seus alunos eram maravilhosos, mas quando olhava para trás e lembrava do Jimin de 10 anos que tinha decidido seguir carreira com a dança, enxergava além de um estúdio pequeno que lhe proveria o suficiente para pagar as contas do mês – com sorte. Queria palcos imensos e plateias gigantescas.
Suspirou antes de sentar-se no chão com as pernas afastadas e inclinar o tronco para frente, levando as mãos até a ponta do pé esquerdo e alongando todo o corpo enquanto contava as batidas de seu coração.
Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. Dez.
Trocou e levou as mãos até o pé direito.
Outra vez e então trocou o exercício, até completar seu alongamento e se colocar em pé com um salto, seguindo até o aparelho de som e ligando o objeto. Conectou o celular no objeto e depois de selecionar sua playlist de treino, moveu-se para o centro da sala e fechou os olhos, respirando profundamente e deixando que todos os pensamentos escapassem de sua mente e a música preenchesse cada pedacinho de sua alma. E tomado pela melodia, Jimin deixou que as batidas guiassem seus movimentos conforme ele performava – porque mesmo não tendo um público, ele era incrivelmente bom naquilo e seus ensaios pareciam apresentações profissionais.
Movia-se de acordo com a música, os olhos fechados e o coração cheio daquela certeza que apenas a dança lhe proporcionava: ele havia nascido para aquilo e mesmo com os obstáculos, não deveria desistir de seu sonho. E motivado por aqueles pensamentos, Park se entregou completamente a música, com movimentos tão intensos quanto graciosos.
Estando completamente entregue a dança, Jimin não percebeu quando o rapaz sorriu para a recepcionista como agradecimento pela informação e permissão que ela havia lhe dado. Também não percebeu o olhar vidrado e encantado que recebia do rapaz de olhos grandes e escuros que o observava através do vidro da porta. Todos os seus movimentos eram apreciados e mesmo que ele não entendesse nada sobre dança, estava impressionado com o que estava vendo Jimin fazer.
A música terminou e o dançarino finalizou a coreografia com um espacate, abrindo os olhos lentamente enquanto seu peito subia e descia rapidamente com a respiração acelerada. Abriu um sorriso satisfeito para si mesmo, contente por não ter cometido nenhum erro ou deslize e só se deu conta de que não era a única pessoa vivendo aquele momento quando uma batida soou na porta e Jimin levantou a cabeça, franzindo o cenho quando seus olhos encontraram os do telespectador. Pelo vidro conseguia ver apenas os cabelos escuros na altura dos olhos e os ângulos perfeitos de um rosto extremamente bonito. Parecia alto – talvez mais alto do que ele era – e Jimin pode observar o corpo anguloso e forte conforme o rapaz entrava na sala e fechava a porta. Deu cerca de dez passos e esse foi o tempo que Park levou para se colocar em pé e ajeitar as roupas amassadas pela dança.
– Hm – o outro murmurou parecendo indeciso. Não tinha uma voz grossa, era melodiosa e tantinho adorável. Não que Jimin quisesse pensar algo sobre aquele desconhecido, mas era inevitável quando o homem em si era tão atraente para si. – Bom dia seonsaeng, eu me chamo Jeon Jungkook…
O homem continuou falando mais uma porção de coisas nas quais Jimin simplesmente não prestou atenção. Ouvir aquele sobrenome foi como levar, outra vez, um soco na cara e ser algemado sem que ao menos tivesse tido qualquer reação. Reviveu novamente sua prisão e toda a luta burocrática que seu advogado travara para garantir justiça, mesmo que ambos soubessem que nada adiantaria. Não quando Jeon Dong-yul, o delegado da cidade, estava tão determinado a fechar os olhos para o crime que não havia sido cometido por Jimin, mas que o havia motivado a cometer um.
– Desculpe, eu estou atrapalhando? – Jeon Jungkook indagou e agora que Jimin sabia algo sobre ele, conseguiu perceber alguns traços em comum entre o rapaz a sua frente e o homem que havia arruinado sua vida. Não eram muitos, mas nem aquilo causava algum tipo de conforto para Park.
– Me desculpe Jungkook, eu acabei me perdendo em pensamentos. Poderia repetir? -pediu com uma calma invejável e que nem em mil anos pensou que poderia ter. Mas o responsável por sua desgraça não era o rapaz a sua frente e o aceno compreensivo que recebeu apenas reafirmou aquilo em seus pensamentos.
Não era Jeon Dong-yul. Jimin precisava se lembrar daquilo.
– O meu nome você ouviu – o rapaz sorriu e os dentes da frente proeminentes deixavam aquele gesto ainda mais encantador e Jimin fechou as mãos em punho, cravando as unhas curtas contra a pele. – Eu estava dizendo que você foi recomendado por um amigo do meu hyung. Estou procurando um professor para a minha irmã mais nova e mesmo que não tivesse escutado coisas boas sobre o seu talento, pude… verificar pessoalmente – ele gaguejou um pouco e Jimin respirou fundo. – Teríamos que negociar um horário e um local diferente, já que ninguém além de nós poderá saber sobre essas aulas – finalizou e Jimin arqueou as sobrancelhas em surpresa.
Jeon Jungkook queria esconder as aulas de dança de sua irmã das pessoas? Não via nenhum motivo para aquilo ser necessário, a não ser que… claro, era óbvio. Jungkook não queria que as pessoas soubessem que ele estava tendo contato com Park Jimin, já que sua existência e permanência naquela cidade eram como uma praga. Acabou reprimindo o riso debochado e assentiu em concordância. Se os Jeons queriam fazer de sua vida um inferno, ao menos arrancaria o dinheiro deles, já que não iria cobrar barato pelas aulas.
– Eu não tenho muitos horários livres – falou e o outro assentiu no mesmo instante. – O local não pode ser perto do centro da cidade.
– Tudo bem – Jeon assentiu outra vez.
– E eu cobro por aula – acrescentou e recebeu mais um aceno de cabeça.
– Como quiser – sorriu pequeno e Jimin o encarou com curiosidade.
– Você quer que ela comece hoje?
– Pretendo dar a notícia hoje e começarmos… amanhã? – sugeriu e foi a vez de Park assentir. – É tempo o suficiente para encontrar um local.
– Certo. Pode anotar o meu número e enviar uma mensagem com o endereço? – pediu e ditou os números enquanto Jeon digitava em seu celular. Por fim estendeu a mão em cumprimento e Jungkook a encarou por um instantes antes de cobri-la com a sua e apertas os dedos longos contra os dedos pequenos de Jimin, causando um pequeno arrepio na nuca de Park quando ele sorriu torto e quebrou o contato.
– Muito obrigado, Jimin-ssi – se curvou levemente em respeito e Park arqueou a sobrancelha mais uma vez. Por que aquilo parecia tão tentador para ele? Sua mente estava lhe pregando peças quando deveria se manter em alerta. Ele era um Jeon e Park precisava tomar cuidado. – Até mais tarde – sacudiu o celular e deu as costas para Jimin, seguindo para fora da sala e deixando o rapaz com os pensamentos bagunçados e o coração levemente acelerado, sem saber porque Jeon Jungkook lhe causava sensações tão esquisitas quando eles mal se conheciam.
E aquela era uma complicação da qual Jimin realmente não precisava.

¨¨¨¨¨¨

Nota da autora: Ai ai primeiro encontro dos jikook e ján tem tanta coisa acontecendo! Eu tô muito ansiosa pra continuar escrevendo essa história e espero que estejam gostando da forma como ela tá iniciando.

Vocês podem entrar no meu grupo de leitoras no WhatsApp e no Facebook e também me encontrar no Twitter com minha conta pessoal e no fc. @graziesescreve no Instagram também!

Um beijo e até a próxima att, não deixem de comentar <3

Se Yoongi o visse naquele momento, com aquele sorriso besta no rosto, provavelmente faria cara de nojo apenas para implicar – já que ele gostava de fingir que era durão e insensível, quando na verdade era apenas um gatinho manhoso que gostava de receber carinho e se derretia quando Hoseok estava por perto – com Jungkook e sua mania de se encantar pelas pessoas sem conhecê-las direito.
Mas se Min tivesse visto o mesmo que Jungkook, entenderia completamente o motivo pelo qual ele sentia-se completamente eufórico.
Não esperava encontrar alguém como Park Jimin em suas expectativas imaginárias na busca de um professor de dança para Sunhee. Não apenas porque ele deveria ser o cara mais bonito em quem Jungkook já tinha colocado os olhos, mas por tudo o que o envolvia enquanto dançava. Jeon também era um artista e sabia reconhecer quando outra pessoa fazia algo com o coração e a alma. Park Jimin dançava com tudo o que havia nele e aquilo era encantador para Jungkook. Poderia passar horas e horas vendo o rapaz se movimentar com tanta graciosidade e jamais se cansaria. Era hipnotizante e inspirador. Queria muito não ter compromissos pelo resto da manhã para poder ir para o lugar onde estava dormindo – porque jamais chamaria um teto dividido com Dongyul de casa – e colocar em palavras, melodias ou rabiscos toda aquela euforia que sentia, mas ele tinha deveres a cumprir e não podia deixar nada para depois.
Não quando teria seu pai repetindo o discurso sobre Jungkook ser um completo inútil que não servia nem para arrumar um emprego e pagar suas próprias contas.
E agora que teria um gasto extra com as aulas de Sunhee, Jeon precisava urgentemente de um emprego. As economias que tinha trazido dos Estados Unidos não durariam dois meses e ele precisava tomar um rumo, mesmo que temporário, já que tinha esperanças de não ficar tanto tempo em Busan.
Respirou fundo e passou a mão direita pelos cabelos, recostando o corpo no estofado e puxando o celular do bolso para verificar se tinha recebido algum retorno de qualquer uma das diversas vagas de emprego para as quais tinha mandado currículo no dia anterior. Suspirou frustrado ao encontrar apenas mensagens de Yoongi e Hoseok, ambos lhe perguntando como tinha sido o encontro com o professor e Hoseok adicionando novamente a proposta de dar uma mãozinha para Jungkook conseguir um emprego.
Jeon sabia que estava sendo orgulhoso e um tanto estupido, afinal, ele estava de volta a Busan depois de cinco anos e apesar de tudo parecer o mesmo, muita coisa tinha mudado. Ele não tinha mais os amigos e os contatos que tivera outrora e fora Yoongi e Hoseok, Jungkook podia contar apenas com Sunhee, e ela era apenas uma adolescente. Não que tivesse uma rede social invejável nos Estados Unidos, mas tinha deixado muita coisa no Ocidente. Um apartamento pequeno do qual ele gostava muito, um emprego confortável como professor de música, alguns freelances como artista gráfico, colegas de faculdade, amigos próximos e um ex namorado, que apenas se tornara ex porque Jungkook não podia afirmar quando voltaria para os Estados Unidos. Se amava Jasper? Sabia que não, mas gostava o suficiente do rapaz para sentir falta do que tinham, mas não especificamente dele.
Sentia-se perdido e sozinho em Busan, do mesmo jeito que se sentia antes de ir embora e conseguir viver sua vida do jeito que ele queria: sem se esconder e sem ter medo.

Hobi hyung
Como foram as coisas?
Fechou com o Park?
Yoon hyung
Se não tiver fechado, podemos procurar outro
O que não faltam são professores de dança
Ainda acho que seria uma ótima ideia Hobi ensinar a Sunnie
Hobi hyung
Você sabe que eu não danço há muito tempo Yoon
Eu só iria atrapalhar a Sunnie
Yoon hyung
Um homem não pode mais sonhar?
Hobi hyung
Depois eu te recompenso por isso

Me privem dos detalhes
Por favor hyungs
Eu só tenho cinco anos

Yoon hyung
Cinco anos em cada perna e em cada braço
E ainda faltam alguns anos pirralho
Hobi hyung
Quem vê até acredita que você não transa

Eu sou um anjo
Vocês pensam tão mal de mim hyungs

Hobi hyung
Quem não te conhece que te compre moleque
Mas conta logo se conseguiu fechar com o Park
Tenho a tarde livre e podemos procurar um local para os ensaios
Yoon hyung
Tarde livre?
Você não tinha que treinar um novato?
Hobi hyung
Falamos sobre isso mais tarde, sim?
Ainda estou digerindo a situação

O que aconteceu Hobi hyung?

Hobi hyung
Nada grave
Só que o novato é um gostoso
E eu sou muito fraco para homens bonitos
Yoon hyung
Isso é verdade
Eu sou um exemplo vivo

Jungkook acabou rindo, entendendo os sentimentos de Hoseok como nunca. Também tinha um fraco por homens bonitos e naquele momento, a sombra de Park Jimin ainda estava em seus pensamentos e de jeito nenhum ele poderia julgar Hoseok por estar sofrendo por causa de um cara.

Yoon hyung
Amanhã vou visitar você pra saber se o cara é gostoso mesmo
Hobi hyung
Nem vem Yoongi
Essa sua carinha vai conquistar ele
E eu vou ficar chupando dedo
Yoon hyung
Se a minha carinha conquistar ele
Você vai chupar outra coisa junto comigo e não um pirulito

EU SÓ TENHO QUATRO ANOS
PAREM COM ISSO

Hobi hyung
Alguns minutos atrás você tinha cinco anos
Benjamin Button coreano é você?

HOBI HYUNG HAHAHAHHAHAHA

Yoon hyung
Depois discutimos isso Hobi
Agora fala logo pirralho
Eu tenho que voltar ao trabalho

Certo, eu me distrai
Mas consegui contratar Park Jimin
Ele não vai cobrar barato, mas eu vi um pedaço do ensaio dele
E hyungs ele é incrível
Sunnie vai aprender tanto com ele
E também…

Yoon hyung
Lá vem
Quer apostar que ele se apaixonou pelo cara Hobi?
Hobi hyung
Não, porque ele se apaixonou e eu ia perder dinheiro pra você

Jungkook fez uma careta imediata, enviando uma sequencia de emojis com cara de bravo para os amigos antes de digitar alguma resposta coerente.

Eu não me apaixonei!
Ele só é lindo e gostoso pra caralho
Mas não vai rolar nada
Vocês sabem que eu não posso
Não aqui

Hobi hyung
Eu sei Kookie
Vai ficar tudo bem
Logo vocês dois vão estar longe
Yoon hyung
Vamos ser positivos

É, acho que sim

Suspirou em derrota, trocando mais algumas mensagens com os amigos e marcando um ponto de encontro com Hoseok para que pudessem procurar por um lugar apropriado para as aulas de dança. Quase uma hora mais tarde e Jungkook já estava entrando no terceiro prédio, com Hoseok ao seu lado e o proprietário de um dos flats animado demais para alugar o local. O valor do aluguel era bom – muito mais baixo do que Jungkook esperava, mas se levasse em conta a localização e o estado do prédio, era bem justo – e para sua total surpresa, o flat não estava completamente caído e implorando por reformas. Na verdade era um local simples e espaçoso, mas Jeon imaginou-se morando ali, livre de Dongyul e podendo proporcionar um pouquinho de felicidade para Sunhee em suas aulas de dança.
Pediu a opinião de Hoseok apenas para descargo de consciência, já que tinha tomado sua decisão após analisar as paredes e o teto com cuidado e confirmar que estava tudo em seus devidos lugares. Assinou a papelada e se despediu de Hoseok para poder buscar Sunhee na escola e lhe contar as novidades. Recebeu um abraço apertado da garota e lhe beijou a testa, dirigindo para uma sorveteria e comprando uma casquinha para cada antes de arrastar a irmã para uma das mesas do estabelecimento.
– O oppa está estranho – ela murmurou com o cenho franzido e Jungkook riu. Sunhee não era nada parecida com ele, já que era observadora e muito esperta. – O que aconteceu? Foi o appa?
– Não foi o appa, Sunnie. Não se preocupe, eu estou bem – sorriu para tranquilizar a garota. – Na verdade, eu tenho duas notícias para você.
– Uma boa e uma ruim? – ela indagou e Jungkook riu outra vez.
– Uma incrível e uma boa.
– Fala logo Jungkookie! – Sunhee reclamou com uma careta muito parecida com as que Jungkook fazia quando estava bravo.
– Eu vou me mudar – murmurou. – Você sabe que seria horrível morar com o appa, mas eu vou estar perto de você sempre, para o que precisar.
– Isso é incrível oppa! – Sunhee abriu um largo sorriso e Jungkook imitou o gesto. – Eu estava preocupada, não quero ver você triste e sei que iria ficar triste caso ficasse lá em casa.
– Você é esperta demais Sunnie – Jungkook torceu os lábios.
– E qual a notícia boa?
– Essa era a notícia boa – o mais velho murmurou e Sunhee franziu o cenho. – A notícia maravilhosa é que você vai poder fazer as aulas de dança que sempre quis. Tem muito espaço no flat que eu aluguei e eu já contratei um professor.
– Sério? Oppa, você não está brincando não é? – ela indagou com a voz fina e quando Jungkook negou com um aceno de cabeça, levantou da cadeira em um pulo e se jogou nos braços do irmão, tomando cuidado para não derrubar nenhum dos sorvetes e deixando uma porção de beijos no rosto do irmão. Jungkook gargalhou quando ela se afastou, completamente contagiado pela felicidade da caçula, sentindo que havia cumprido com sua missão. – O appa concordou? – Sunhee indagou e o Jeon mais velho suspirou, o sorriso morrendo em seus lábios.
– Ele não precisa saber, Sunnie. Ele não pode saber – se corrigiu e a garota assentiu com a cabeça. – Para todos os efeitos, você só vai estar passando um tempo comigo.
– Tudo bem – assentiu outra vez, voltando a sorrir largo. – Eu estou muito feliz oppa, muito obrigada!
– Tudo por você Sunnie! – murmurou e ela o encarou com os olhos brilhando.
– Mais um sorvete então? Tudo por mim sabe – riu e Jungkook a acompanhou, revirando os olhos teatralmente e entregando algumas notas para que ela comprasse mais um sorvete e observando a irmã saltitar para o caixa.
Respirou fundo e puxou o celular do bolso do jeans, procurando por um contato em especifico e digitando uma mensagem enquanto seu coração batia um tanto esquisito dentro do peito.

Park Jimin?
Aqui é Jeon Jungkook
Já tenho um local para as aulas

Park Jimin
Pode falar Jungkook-ssi

 

Taehyung enfiou o celular para dentro da gaveta assim que a porta do escritório se abriu, como se fosse uma criança com medo de ser pego fazendo arte, apenas pelo costume de precisar esconder o aparelho como fazia em seu antigo emprego. Mas ali ele tinha liberdade para implorar por mensagens para Seokjin preparar bibimbap* para o jantar sem precisar fingir que iria ao banheiro pela quarta vez consecutiva, mas ainda não havia se acostumado com as novidades e por isso tinha sido automático esconder o celular.
Esperava não ter arranhado a tela. Suas contas do mês já estavam fechadas e nem uma bala poderia estar fora do orçamento, que dirá uma película protetora para o aparelho.
Focou o olhar na tela do computador, sem absorver qualquer das palavras do processo que estava analisando quando ouviu aquela voz se aproximar de onde estava. Já era ruim o suficiente ter um crush, mas ter crush no filho do chefe era duas mil vezes pior. Mas o que Taehyung poderia fazer se Jung Hoseok era o homem mais bonito que ele tinha visto na vida? Tudo bem, conhecia muitos homens bonitos. Jimin, Jin, Namjoon e ele mesmo era realmente bonito, mas Hoseok exalava um brilho diferente e prendia sua atenção como uma estrela cadente cruzando o céu no meio da noite e recebendo milhares de pedidos.
Taehyung não levantou o olhar quando sentiu a presença de Hoseok ao lado de sua mesa, continuou com os olhos na tela como se estivesse realmente concentrado no que lia e arrancou uma risadinha do advogado. Só então virou o rosto em direção a ele, inclinando levemente a cabeça em saudação e recebendo em estalar de lábios em reprovação.
– Nada de formalidades Taehyung-ah, por favor. Temos quase a mesma idade.
– Estou acostumado com isso Hoseok-ssi – murmurou. – Vai levar um tempo para que eu me acostume com essa nova rotina.
– Eu posso esperar – Hoseok falou com uma piscadela e se inclinou para o computador, procurando ver o progresso do mais novo com o trabalho. Assoviou impressionado após alguns minutos e só se afastou quando o barulho do elevador, do outro lado da sala ampla onde estavam, chamou sua atenção e ele abriu um sorriso largo ao se virar.
Vencido pela curiosidade, Taehyung seguiu o olhar do mais velho e prendeu a respiração quando outro homem entrou em seu campo de visão. Era mais baixo do que ele e Hoseok, branco como papel, os cabelos escuros caiam levemente em sua testa e o undercut lhe dava uma aparência mais sexy e sofisticada. Usava roupas comuns, camiseta e jeans, mas andava com segurança e os olhos pequenos e puxados se prenderam em Hoseok por um instante – e Taehyung quase se sentiu atingido pelo amor e admiração que eles transbordavam – para então se prenderem nele e arrancaram uma batida fora de ritmo do seu coração.
Puta merda, como podia estar na mesma sala que os dois homens mais bonitos do mundo?
Eles eram completamente diferentes um do outro, mas pareciam se completar como se… apenas pertencessem. E perante aquele misto de sentimentos, o mais novo abaixou o olhar e fingiu novamente estar ocupado com a leitura do processo, mesmo que o canto de seus olhos estivesse observando o momento em que o recém chegado parou ao lado de Hoseok e o puxou pela cintura com a mão direita antes de plantar um beijo leve em seus lábios.
E Taehyung não sentiu inveja de nenhum deles. Para seu total espanto, o que mais queria naquele momento era estar entre os dois e não com apenas um. Se Jimin estivesse ali, iria rir e chamá-lo de guloso e era exatamente como Taehyung se sentia, mesmo que soubesse que nunca teria nenhum deles. Aquela atração ficaria guardada para si e só iria compartilhar aqueles pensamentos com Jimin porque não conseguia esconder nada dele.
– Já está tarde Taehyung-ah, por que não deixa o restante do processo para amanhã? – Hoseok falou com calma e o mais novo o encarou após controlar a respiração. Os dois pares de olhos escuros estavam fixos nele e Taehyung sentiu-se levemente desnorteado. – Nenhum de nós vai morrer se acumular um pouco de trabalho – riu com diversão. – Tenho certeza de que tem alguém esperando por você em casa – seu riso se transformou em um sorriso de lábios fechados e o mais novo arqueou as sobrancelhas levemente enquanto o outro homem soltava uma risadinha e abaixava a cabeça quase que envergonhado.
Aquele era o jeito discreto de Hoseok sondar se Taehyung era comprometido? Porque teria sido mais fácil perguntar diretamente do que tentar soar desinteressado.
– Meu irmão e o marido – Taehyung respondeu e mordeu o sorriso torto que gostaria de abrir. – Somos apenas nós três para o jantar hoje – completou, sabendo que não estava mentindo. Jimin não estaria em casa por conta das aulas que daria para sua nova aluna, então realmente seriam apenas os três.
– Poderão aproveitar um tempo juntos – dessa vez o sorriso do mais velho foi amplo e Taehyung apenas assentiu com a cabeça e eles se afastaram. Hoseok mantinha o braço em torno dos ombros do outro, que na metade do caminho, virou a cabeça para trás e piscou para Taehyung. O rapaz engoliu em seco e o outro sorriu, voltando o rosto para frente e sumindo dentro do elevador junto de Hoseok. Só então o mais novo conseguiu soltar o ar dos pulmões e seus pensamentos só voltaram a ter coerência muitos segundos mais tarde. Resgatou o celular da gaveta e enviou uma dezena de mensagens para Jimin, buscando compreensão com o melhor amigo para tentar compreender como ele mesmo se sentia.
Mas não teve resposta e ao checar o horário no visor, se deu conta de que estava realmente tarde e que Jimin já estava a caminho da aula. Suspirou e guardou suas coisas, seguindo para fora da empresa ainda sentindo-se meio fora de órbita.

Estava um pouco atrasado, mas toda a culpa pelo atraso era do transporte publico e não tendo um carro, Jimin estava sujeito a passar um pouco de raiva todos os dias. Estava acostumado com a correria matutina, onde tinha poucos minutos para conversar com seus hyungs antes de sair correndo de casa para não perder o ônibus. Estava acostumado com o trajeto e até mesmo podia dormir porque seu relógio biológico sempre lhe informava quando estava perto de sua parada.
Taehyung dizia que aquele era o maior indício de quem alguém era pobre e Jimin não discordava. Ricos não precisavam se preocupar com ônibus lotado ou em perder a parada e caminhar mais do que o necessário até seu destino.
Para sua sorte, conhecia a área onde se localizada o endereço enviado por Jungkook e não tardou a chegar ao prédio e tocar o interfone. Se identificou com um murmúrio e o portão foi aberto, dando livre passagem para que Jimin adentrasse o local e seguisse diretamente para o elevador. Batucou os dedos contra as coxas durante os dez andares necessários e engoliu em seco antes de estender a mão e apertar a campainha do apartamento 110 do andar. Não parecia ser um local grande e segundo as explicações de Jungkook, aquele tinha se tornado seu local de residência, mas como ele precisava apenas do quarto e da cozinha, todo o espaço que deveria ser da sala de estar estava desocupado para que Jimin pudesse dar as aulas para sua irmã caçula.
Park sentia-se completamente confortável com a ideia? De forma nenhuma, mas realmente não havia cobrado barato de Jeon e ele precisava do dinheiro.
Tomou coragem e apertou a campainha, tendo apenas quatro batidas cardíacas antes da porta ser aberta e Jeon Jungkook lhe encarar, usando uma camiseta muito maior do que ele e calças de moletom. Os cabelos estavam revirados, lhe deixando ainda mais bonito e charmoso do que o costume. Jungkook se curvou em respeito e deu espaço para que Jimin entrasse no flat, deixando os calçados ao lado da porta e seguindo o mais novo até a área da sala. Park deixou a mochila no chão e se aproximou da garota deitada no centro do cômodo, alongando as pernas para o alto enquanto cantarolava uma música e se distraia com a própria atividade.
– Sunnie… – Jungkook chamou em um tom de voz amoroso, o que fez Jimin lhe lançar um breve olhar surpreso. – Esse é Park Jimin, seu seonsaeng – abriu um pequeno sorriso quando a garota se levantou com um pulo e se curvou em respeito, os olhos brilhando em animação. – Jimin, essa é Jeon Sunhee, minha irmã caçula e sua aluna.
– É um grande prazer conhecê-lo seonsaeng – se curvou mais uma vez e apesar de saber que deveria se manter afastado e o mais profissional possível, Jimin não conseguiu conter o encanto que Sunhee tinha lhe despertado. Em nada a garota lembrava Jeon Dong-yul, já que era uma cópia feminina de Jungkook e aquilo era, de certa forma, reconfortante. Já bastava o sobrenome lhe atormentando, não precisava do rosto de Dong-yul lhe encarando através dos filhos.
– Por favor, me chame apenas de Jimin – pediu e a garota arregalou os olhos, buscando o irmão em busca de permissão e quando Jungkook suspirou e se aproximou de Sunhee, Jimin tentou ao máximo não ouvir a troca de palavras, mas foi impossível e aquilo só o deixou ainda mais confuso.
– Você não precisa me pedir permissão, Sunnie. Jimin está lhe dando a única permissão necessária nessa situação e eu não sou ninguém para lhe dizer o que fazer.
– Desculpe oppa, eu não queria chatear você – Sunhee murmurou e Jeon a abraçou rapidamente, parecendo se dar conta de que não estava sozinhos e abrindo um sorriso amarelo para Park. – Estou atrapalhando a aula de vocês, então vou me distrair com algum jogo, mas qualquer coisa que precisarem, é só me chamar – encarou Jimin por um instante e recebeu um aceno de cabeça antes de se afastar e subir os poucos degraus que levariam ao quarto. O flat não tinha paredes, então Jimin pôde observar o trajeto de Jeon pelo espaço pequeno e a forma como se jogou na cama, parecendo exausto.
– Vamos começar? – indagou para Sunhee, que bateu palmas animada e correu para a cozinha e largou o celular na bancada. Jimin conectou seu próprio aparelho na caixa de som que havia levado e quando a música animada começou a tocar, acabou rindo dos pulinhos animados que Sunhee dava antes que começassem a se alongar.
E por uma hora inteira, Jimin se divertiu na companhia da garota, sem negligenciar as aulas que haviam o levado até ali. Sunhee tinha talento para a dança e aprendia os passos mais rápido do que Jimin poderia esperar e a aula simplesmente fluiu de uma forma natural e descontraída que Park jamais poderia acreditar que partilharia com um Jeon. Havia decidido que iria separar as coisas e não julgar os filhos pelos erros dos pais, a não ser que ele tivesse algum motivo para aquilo. Mas também se manteria afastado, principalmente porque sentia latejar dentro de si a atração que Jungkook havia lhe despertado.
Quando a aula acabou, Jungkook instruiu Sunhee para que fosse tomar banho e a garota só seguiu as orientações após combinar com Jimin a próxima aula e lhe abraçar rapidamente como agradecimento, sumindo para o segundo andar do flat em seguida, enquanto Jungkook tinha as bochechas ruborizadas por conta da atitude da irmã.
– Desculpe, ela não tem muito controle sobre os impulsos e…
– Está tudo bem – Jimin garantiu. – Ela é uma boa garota, você deve ser um bom exemplo para ela – falou, sem realmente entender porque estava puxando assunto quando deveria estar indo embora.
– Eu tento, porque alguém na vida dela precisa ser – Jungkook murmurou para si mesmo e Park franziu o cenho em confusão, mas visto o olhar arrependido do mais novo, não insistiu na conversa e apenas juntou suas coisas e seguiu para a porta, com Jungkook em sua cola.
– Eu volto em dois dias, no mesmo horário – repetiu o acordo que tinha feito com Sunhee e Jungkook assentiu com a cabeça. – Boa noite Jungkook – Jimin desejou, já com a mão estendida para a maçaneta.
Para o seu azar, Jungkook havia tido a mesma ideia e a fração de segundo onde suas peles estiveram em contato foi o suficiente para lhe deixar atordoado e quase o fazer correr para longe quando Jeon abriu a porta, murmurando algo incompreensível antes do elevador chegar e Jimin se enfiar dentro do cubículo sem levantar o olhar.
Tinha muito o que contar para Taehyung naquele dia, mesmo que as coisas dentro de sua mente ainda estivessem confusas e difíceis de compreender.

*Prato coreano composto por arroz branco, vegetais e carne misturados e preparados em tigela de pedra vulcânica.

다섯

Jungkook não pensou que seria tão difícil conseguir um emprego como estava sendo. Já tinha feito entrevistas em todas as escolas de música de Busan e recebido a mesma resposta em todas elas: vamos analisar o seu currículo e entramos em contato em até vinte e quatro horas. Já faziam trinta e seis e a única ligação que havia recebido era da operadora de seu celular lhe oferecendo um plano com mais benefícios.
Não queria pensar que todas aquelas recusas silenciosas tinham o dedo de seu pai, mas no dia anterior quando tinha ido deixar Sunnie em casa, Dongyul tinha perguntado sobre sua busca por um emprego e o sorriso sarcástico não tinha passado despercebido por Jungkook. Era típico de seu pai usar sua influência para seus próprios fins e a busca de Jungkook por independência, morando sozinho e buscando seu próprio sustento não lhe agradava de nenhuma forma. Se Jeon Dongyul não tivesse o filho à mercê de suas vontades, então ele não estava contente. Jungkook sempre tinha sido o saco de pancadas do genitor e agora que estava de volta a Busan, Dongyul talvez esperasse que as coisas continuassem como eram antes de Jungkook ir embora.
Mas ele tinha se enganado, porque de forma nenhuma ele deixaria que sua vida voltasse a ser comandada pelos caprichos do pai. Preferia engolir seu orgulho e a ideia de fazer tudo sozinho do que acatar as ordens de Dongyul e por isso Jungkook estava se dirigindo para o escritório de advocacia da família de Hoseok, onde encontraria o amigo junto para que pudessem conversar sobre a vaga que Hobi tinha oferecido para Jungkook. Não era em sua área de formação e nem de longe ele ganharia um salário alto como um advogado, mas seria o suficiente para arcar com suas despesas e pagar as aulas de Sunhee – que não eram baratas, tinha que admitir.
Pensando naquilo, a mente de Jungkook voltou-se para Park Jimin. Não era a primeira vez que pensava no homem desde a noite de segunda-feira, mas tentava se policiar e evitar que sua mente fantasiosa e segundo Yoongi, fanfiqueira, inventasse mil e uma realidades onde eles acabavam se relacionando. Afinal, Park não tinha demonstrado qualquer interesse e mesmo que ele próprio tivesse tratado o homem da forma mais respeitosa e impessoal possível, não tinha conseguido sucesso completo e seus olhares diziam muito. A própria Sunhee tinha notado e quando questionou o irmão mais velho, Jungkook desconversou e ofereceu hambúrguer para o jantar da noite anterior. Assim como ele, Sunnie adorava comer e era muito fácil distraí-la com comida.
Deixou o carro no estacionamento, checando as mensagens apenas para confirmar que Hoseok e Yoongi já o esperavam no escritório e que sua entrada estava liberada na recepção. A família Jung era dona do maior escritório de advocacia de Busan e representavam apenas as grandes empresas e os ricaços. Hoseok não compactuava com nada da podridão que seu pai e seu tio escondiam embaixo do tapete com suas defesas e mesmo que trabalhasse por vontade própria no escritório, escolhia os casos que iria representar a dedo e com muita cautela. Nunca havia perdido um caso e por isso não tinha problemas com sua família. Yoongi tinha uma história parecida, mas no caso do mais velho, sua família era proprietária de escritórios de contabilidade e trabalhavam para grandes empresas de Seul, mesmo com a residência do escritório em Busan. A mãe de Yoongi não gostava da capital e por esse motivo a família Min residia ali. Para Jungkook, aquela era uma realidade completamente inusitada. Nunca tinha tido o apoio ou mesmo a falta de criticas vindo de seus familiares e a única pessoa com quem se importava, fora seus amigos, era Sunhee.
– A única pessoa na antessala se chama Taehyung e ele vai avisar da minha chegada – repetiu para si mesmo as instruções de Hoseok antes de guardar o celular no bolso e as portas do elevador se abrirem. Jungkook adentrou a sala de espera. Segundo as informações de Hoseok, Taehyung não era seu secretário ou um recepcionista. Era seu assistente, mas como aquele andar tinha apenas uma sala, ele estava instalado na antessala enquanto as reformas eram planejadas e iniciadas. E por isso Jungkook encontrou uma bagunça de materiais de construção em um canto e do lado oposto uma mesa enorme cheia de papéis onde um rapaz de cabelos escuros era quase engolido por eles.
Aquele só podia ser Kim Taehyung, de quem Hoseok e Yoongi vinham falando tanto nos últimos dias. Jungkook tinha que admitir que não colocara fé na empolgação dos amigos, mas agora que estava ali, vendo Taehyung, entendia completamente o motivo de ambos estarem completamente de quatro pelo rapaz. Se Jimin não estivesse em seus pensamentos daquela forma, Jungkook também acabaria rendido pelo Kim. O tom de pele, o rosto anguloso e o olhar ferino eram atraentes demais e junto do cabelo preto e do corte mullet, ele se tornava irresistível. Um olhar daquele homem colocava qualquer um de quatro, Jungkook não tinha dúvidas.
Se aproximou da mesa e antes mesmo de estar frente a frente com o rapaz, a única porta do local se abriu e Hoseok colocou a cabeça para fora, os olhos estreitos por um instante antes de sorrir quando encontrou Jungkook.
– Eu já estava achando que tinha se perdido – brincou e Jungkook revirou os olhos, perdendo a atenção do amigo para Taehyung. – Esse é Jeon Jungkook, de quem eu lhe falei mais cedo. Jungkook, esse é Kim Taehyung, meu assistente.
– É um prazer conhecê-lo – Jungkook murmurou e se curvou levemente em respeito.
– Jeon? – Kim indagou com o cenho franzido. – De Jeon Dongyul?
Jungkook torceu os lábios. Odiava ser relacionado ao seu pai, mesmo que soubesse que aquilo era inevitável.
– Exatamente como de Jeon Dongyul – falou com uma careta e o outro assentiu, parecendo desconfiado.
– Venha Jungkook, temos muito o que conversar – Hoseok logo cortou a conversa e com um aceno de cabeça, Jungkook se despediu de Taehyung e rumou para a sala do amigo. Assim que a porta se fechou, Taehyung catou o celular na gaveta e abriu o aplicativo de mensagens, procurando pela conversa com seu melhor amigo para lhe contar as novidades, ainda que fossem se encontrar em pouco tempo, já que tinham combinado de tomar café juntos antes de Jimin seguir para sua aula.

Estava no ônibus, como de costume, quando sentiu o celular vibrar no bolso do moletom e sorriu automaticamente quando leu o nome de Taehyung na tela do aparelho. Desbloqueou o aparelho e abriu a conversa, franzindo o cenho para a nova mensagem já que eles tinham falado sobre o mesmo assunto há alguns minutos, antes de Jimin pegar o ônibus.

Tata
Já tá vindo?

Eu já te disse que sim????

Tata
É que tipo

Eu acho que conheci o teu crush

Em primeiro lugar eu não tenho um crush
Já te falei mil vezes
Em segundo lugar
Como caralhos tu encontrou o Jungkook?

Tata
Não tem um crush mas sabe que eu tô falando do Jeon

Vai a merda Taehyung

Tata
Hm kkkkkkkkk

Enfim
Ele tá aqui no escritório???
Acho que ele e o Hoseok são amigos ou sei lá
O Yoongi também tá aqui e eles tão em reunião
Se não for reunião eles tão fazendo ménage
E tomara que não porque eu ia ficar triste

Isso é esquisito

Tata
Eu ficar triste?

Passei a noite toda ontem chorando no teu ombro porque queria sentar no Hoseok e no Yoongi
Não presta atenção no que eu falo

Que drama
Mas eu tava falando sobre o Jungkook ser amigo deles
Pelo que a Sunnie me disse ele é professor de música

Tata
Podem ser amigos de infância

Nós não temos nada em comum e somos amigos

É, você tem razão
De qualquer forma eu tô no ônibus e logo tô ai
Vê se não me deixa esperando igual um tonto

Tata
Tonto você é sempre, não tô entendendo

Palhaço
Tchau

Tata
Bjos

Até daqui a pouco

Jimin guardou o celular e tentou se concentrar na música que soava pelos fones, mas sua mente teimava em pensar em Jungkook e em todas as incertezas que rondavam a súbita aparição do rapaz em sua vida. Não confiava nele – nem mesmo em Sunhee, mesmo que ela fosse apenas uma criança -, mas já não tinha tanta certeza de que Jungkook o havia procurado sob instruções de seu pai ou mesmo que Dongyul sabia sobre as aulas de Sunhee. A melhor maneira de acabar com todas as dúvidas que lhe atormentavam seria perguntando a Jeon, mas aquela atitude levantaria questionamentos sobre a vida de Jimin que o dançarino não estava disposto a expor.
Alguns minutos mais tarde e ele estava cruzando algumas esquinas em direção ao prédio onde o escritório Jung se localizava. Já tinha mandando uma mensagem para Taehyung avisando que estava chegando e que o amigo deveria começar a arquivar os processos nos quais estava trabalhando. Não tinha recebido nenhuma resposta, mas preferiu se escorar na mureta em frente ao prédio e esperar por alguns minutos antes de começar a ligar para o melhor amigo. Estava distraído batucando o pé contra o concreto no ritmo da música e não notou quando Taehyung saiu do prédio junto de três rapazes e só se deu conta do que estava acontecendo quando recebeu um chute na panturrilha e levou o olhar irritada para o Kim.
– Seu… – sua frase se perdeu no mesmo instante em que seu olhar encontrou Jeon Jungkook e Jimin precisou se controlar para não arregalar os olhos ou suspirar dramaticamente.
– Jimin-ssi? – o mais novo indagou e seus grandes olhos se arregalaram um pouco mais, causando um burburinho esquisito na boca do estômago de Park. –
– Olá Jungkook – sorriu simpático. – Como está?
– Bem e você? – também sorriu, mas parecia um tanto nervoso. – Vocês são amigos? – olhou de Jimin para Taehyung e o outro assentiu.
– Melhores amigos – pontuou.
– Não consigo mais me livrar dele – Jimin tentou fazer graça. – Ninguém compraria.
– Se estiver mesmo vendendo, posso fazer uma oferta.
– Hoseok-ssi! – Taehyung reclamou com as bochechas coradas e Jimin mordeu o sorriso. Seu melhor amigo estava completamente apaixonadinho pelo chefe e pele peguete do chefe e aquilo era um tanto engraçado porque eles se conheciam há poucos dias. Mas quem era ele para julgar, já que conhecia Jungkook pela mesma quantidade de dias e também sentia coisas estranhas relacionadas a ele?
– Você é um assistente excelente – Hoseok deu de ombros, mas seu olhar deixava claro que aquele não era o único motivo para seu comentário. O sorriso do outro, Yoongi pelo que Jimin podia chutar – apenas confirmou suas suspeitas e Jimin acabou trocando um olhar com Jungkook, já que ambos estavam “sobrando” ali.
– Você já estava indo lá pra casa? – Jungkook indagou para Jimin, atraindo a atenção do trio. Park ignorou o sorriso malicioso de Taehyung e só não o chutou porque aquilo deixaria a bandeira ainda mais visível.
– Não, nós… vamos tomar um café – indicou o amigo e Jungkook assentiu em compreensão.
– Gostariam de ir? É um local ótimo, acho que podem gostar – abriu seu sorriso quadrado e aquilo foi o suficiente para convencer Hoseok e Yoongi, que assentiram no mesmo segundo, sem dar tempo para que Jungkook dissesse qualquer coisa.
– É, acho que pode ser legal – ele concordou por fim, enquanto Jimin o observava pelo canto dos olhos. – Mas eu n]ao posso ficar muito, preciso buscar Sunhee na escola.
– Jimin vai com você, já que vocês tem o mesmo compromisso essa noite – Yoongi decidiu e segurou o antebraço de Taehyung para que seguissem para o carro junto de Hoseok, deixando Jimin e Jungkook para trás propositalmente. Trocaram mais um olhar antes de Park assentir e se colocar em pé, indicando que Jeon deveria mostrar o caminho até o carro dele, sentindo o nervosismo se intensificar dentro dele.

여섯

Jungkook estava quieto de um jeito que Hoseok e Yoongi nunca tinham visto na vida, nem mesmo quando ele ainda era um menininho com medo e que escondia as marcas de surra com a maquiagem que tinha roubado da mãe. Jeon era tímido em alguns momentos, mas na maior parte do tempo era serelepe e tagarela, principalmente quando estava com os amigos e sem qualquer menção a seu pai na conversa.
Mas naquele momento, Jungkook parecia um cachorrinho amedrontado e não levantava o olhar da segunda fatia de torta em seu prato. O motivo? Jimin estava sentado a sua frente e mesmo que tentasse, não conseguia evitar que seu olhar recaísse sobre o mais novo como se estivessem conectados e o peso de se manter afastado fosse pesado demais para que ele carregasse.
Jeon já tinha se apaixonado antes e sabia o que estava acontecendo. Seu primeiro amor havia sido no ensino fundamental e por causa dele havia descoberto que não gostava de meninas da forma que seu pai esperava que ele gostasse. Nunca tinha imaginado um casamento ou filhos, não com uma mulher pelo menos. E sua primeira paixão por um garoto apenas provou que Jungkook não era “normal” e daquele dia em diante, ele aceitou a si mesmo como nenhuma outra criança poderia ter feito, mesmo que para grande parte do resto do mundo ele não fosse um exemplo a ser seguido. Jungkook tinha uma inteligência emocional complexa e levava pouco tempo para assimilar seus sentimentos, entender e aceitar o que estava acontecendo dentro de si. Ele não surtava por pequenas coisas como outras pessoas faziam e por isso não tinha dificuldade em se expressar. Mas com Jimin as coisas estavam um pouco diferentes e aquilo era levemente assustador.
Estava se apaixonando, aquela dúvida não existia dentro dele. Sentia que havia muito entre eles, uma ponte que não poderia ser atravessada correndo. Ele só chegaria do outro lado se Park lhe estendesse a mão e eles fossem juntos, mas Jeon ainda não conseguia ver as pedras no caminho que mantinham Jimin afastado, mesmo que pressentisse que elas estavam ali, apenas esperando o momento certo para derrubá-lo.
Sentia-se angustiado e impotente porque não iria conseguir se manter afastado e longe da bagunça que aquele sentimento iria causar dentro de si. Porque o primeiro incentivo para se afastar de alguma coisa vinha do querer e Jungkook não queria, de jeito nenhum, manter Jimin longe. Eles tinha convivido e conversado muito pouco e ainda assim sentia uma conexão inexplicável. Uma familiaridade completamente desconhecida para ele.
– Então, de onde vocês se conhecem? – Taehyung indagou, seu olhar atento se movendo de Jungkook para Hoseok e Yoongi. – Jimin e eu somos amigos a vida inteira – contou. – Éramos vizinhos de porta durante a infância e agora somos vizinhos de porta no mesmo apartamento – sorriu e Park o acompanhou.
– Jungkook é o nosso bebezinho – Hoseok murmurou. – Nos conhecemos na escola, mesmo com as diferenças de idade e nos tornamos amigos de uma vida inteira.
– Não vi as letras miudinhas do contrato que assinei, então preciso aguentar – Yoongi fez graça e Jeon revirou os olhos para ele.
– Fala isso mas não vive sem mim e os gifs de gatinho que eu mando – retrucou. Hoseok riu e Jimin mordeu o sorriso.
– Gifs de gatinho? Por quê? – Taehyung franziu o cenho em confusão.
– Olha bem para ele Taehyung-ssi – Jungkook ergueu a mão direita e levou até o rosto de Yoongi em um tentativa de apertar as bochechas do mais velho e recebendo um tapa. – Parece um gatinho bravo.
– Respeita o seu hyung moleque! – Min reclamou, mas já era tarde demais o Taehyung o encarava com os olhos brilhantes e um sorriso besta no rosto.
– Parece mesmo, minha nossa – riu sozinho. – É fofo – deu de ombros e eles trocaram um olhar intenso, que deixou Jungkook envergonhado e o obrigou a voltar a encarar a torta pela metade no prato.
– Acho que… vou comprar algo para Sunnie comer – murmurou para ninguém em especial. – Já volto – estalou os lábios e em um segundo já estava andando em direção ao caixa, arrancando uma risadinha de Hoseok e um franzir de cenho de Jimin e Taehyung.
– Nunca vi ele desse jeito – Yoongi murmurou.
– Ele está com muita coisa na cabeça Yoon, você sabe – Jung tentou desconversar.
– É, claro que sim – O mais velho revirou os olhos e Taehyung arqueou as sobrancelhas antes de cutucar Jimin na cintura de forma cúmplice. Eles não tiveram tempo de falar mais nada porque Jungkook voltou em seguida com uma embalagem fechada em mãos e a atenção focada em terminar a torta e o café.
– Como estão as aulas com a Sunnie? – Hoseok indagou para Jimin, que abriu um largo sorriso.
– Ótimas, ela é uma aluna incrível e tem um carisma contagiante – murmurou e Jungkook sorriu orgulhoso.
– Ela tem muito do JK, por isso é assim – Yoon murmurou. – Quando eles se juntam para comer é um problema – riu.
– As calúnias sendo ditas bem na minha cara pelos meus amigos – Jungkook dramatizou. – Não dá para confiar em ninguém mesmo.
– O drama – Hoseok revirou os olhos e mudou o rumo da conversa. Jimin mantinha-se quieto e observador e quando Jeon avisou que precisava ir buscar Sunhee e lhe ofereceu carona, ele sorriu pequeno e assentiu, bagunçando os cabelos de Taehyung e acenando para Hoseok e Yoongi antes de se afastar com Jungkook.
– Seus amigos são…
– Esquisitos – Jungkook finalizou e desativou o alarme do carro, fazendo uma careta quando Park abriu a porta de trás do carro. – O que está fazendo?
– Sunhee vai na frente? – respondeu em formato de pergunta e o mais novo negou.
– Não, ela vai atrás sempre.
– Oh, certo – Jimin corou e fechou a porta, se acomodando no banco do carona em seguida. Jeon afivelou o cinto e deu a partida, tentando ignorar o ritmo acelerado de seu coração.

A viagem da cafeteria até a escola de Sunhee havia sido rápida e Jimin permaneceu no carro enquanto Jungkook ia até os portões da escola alertar a irmã de sua presença. Jimin observou o mais novo caminhar com as mãos no bolso e então uma figura animada correr em direção a ele e pular em seus braços, quase derrubando Jungkook e arrancando um largo sorriso dele. Aquele sorriso bonito, que deixava seus olhos pequenos e mostrava os dentes da frente proeminentes, tornando todo o ato ainda mais bonito e fofo do que o recomendado para a saúde mental de qualquer pessoa.
Jungkook e Sunhee seguiram de mãos dadas até o carro e a garota pulou animada quando viu Jimin, batendo no vidro da janela antes de ocupar o banco traseiro e se inclinar até o professor pelo vão entre os bancos da frente.
– Jimin-ah – saudou. – Como está?
– Bem e você Sunnie? – indagou e o Jeon mais velho entrou no veículo, trancando a porta e dando partida.
– Estou ótima, obrigada por perguntar – sorriu largo e torceu os lábios quando Jungkook a mandou sentar-se direito e colocar o cinto de segurança.
– Como foram as aulas Sunnie? – ele indagou com curiosidade e preocupação e Jimin se limitou a observar a interação entre irmãos, lembrando como era sua própria relação com Hayun antes de tudo acontecer. Sentia falta da irmã, mas sabia que as coisas estavam melhor daquele jeito.
– Foram boas oppa – Sunnie respondeu. – Mas estou com problemas em Geografia e vou precisar fazer trabalho extra.
– Sábado vamos estudar para esse trabalho – Jungkook falou.
– Appa não vai deixar. Ele já não gosta que eu vá para a sua casa durante a semana e por apenas três dias, ele não vai me deixar sair no sábado para ficar com você mesmo que seja para estudar – ela suspirou em frustração e Jimin franziu o cenho, sentindo a curiosidade lhe tomar completamente.
Gostaria tanto de entender o que se passava naquela família, mas sabia que precisava se manter afastado o máximo que conseguisse. Ele tinha problemas demais envolvendo um Jeon para se meter nos problemas que eles tinham entre si enquanto família.
– Eu vou conversar com ele Sunnie, não se preocupe – Jungkook findou o assunto. – Tem lanche para você na sacola – apontou para o banco direito ao lado da garota com a cabeça e ela abriu um sorriso largo.
– Obrigada oppa, estou faminta!
– Está sempre faminta, nem me surpreendo mais – Jungkook revirou os olhos.
– Puxei ao meu irmão – Sunhee atirou um beijo para Jungkook e Jimin acabou rindo quando o mais velho, em uma atitude muito madura, estirou a língua em retorno.
– Jimin-ah, que música eu vou aprender hoje? – Sunnie mudou de assunto. – A música da aula passada eu memorizei todos os passos e consigo dançar sem interrupções – sorriu orgulhosa de si mesma e Jimin a acompanhou.
– Você tem talento saeng, é uma dançarina maravilhosa e seria uma bailarina excelente.
– Obrigada- ela corou e desviou o olhar, assim como Jimin tinha notado que Jungkook fazia. – Também herdei isso do meu oppa – encarou Jungkook pele espelho retrovisor.
– Não sou nada bom com isso Sunnie – ele retrucou.
– Mentir é feio Jeon Jungkook! – declarou, fazendo-o rir e Jimin o encarar com curiosidade.
– Você dança Jungkook-ssi?
– Não danço bem.
– Mentira la la la, mentira la la la – Sunhee começou a cantarolar.
– Shhhhh! – Jeon reclamou.
– Vamos colocar o seu irmão para dançar hoje com a gente Sunnie – Jimin disse e Jungkook o encarou pelo canto dos olhos com o cenho franzido. – Quero ter a certeza de que não é bom nisso, como está dizendo – sorriu esperto e Sunhee bateu palmas animada.
Mesmo sob protestos e bochechas coradas, Jungkook não conseguiu fugir da aula quando chegaram ao apartamento e Jimin descobriu que ele era um ótimo dançarino. Jungkook tinha ritmo e aprendia os passos rapidamente e eles levaram pouco mais de metade da aula para dançar em sincronia e de acordo com o ritmo da música. Sunhee havia lhe mandado uma playlist de suas músicas favoritas para Jimin e ele estava criando coreografias e adaptando passos antigos para que pudesse ensinar o máximo possível para a garota, de acordo com o gosto dela.
Quando se despediu dos irmãos algumas horas mais tarde, tinha um sorriso tão largo no rosto que suas bochechas doíam. Tinha passado ótimos momentos com eles, se divertido de verdade e esquecido que estava lá a trabalho e não como um convidado para uma noite de dança entre amigos. Não podia evitar sentir-se confortável e em casa quando estava com Jungkook e Sunhee e menos ainda evitar a forma como estava caindo pelo Jeon mais velho, sem saber se começava a culpar o sorriso ou os grandes olhos brilhantes que ele achava tão bonitos.

¨¨¨¨¨¨

Nota da autora: Eu amo essa pequena não família com tudo que há em mim, namoral tô soft demais com esse capítulo.

Vocês podem entrar no meu grupo de leitoras no WhatsApp e no Facebook e também me encontrar no Twitter com minha conta pessoal e no fc. @graziesescreve no Instagram também!

Um beijo e até a próxima att, não deixem de comentar <3