Omertà

Sinopse: Kim Taehyung assumiu a liderança da famiglia Kim após a morte do pai. Como de costume, desde a infância fora ensinado a como lidar com os negócios da família, sendo o único na sucessão da máfia para se tornar o próximo Vante; o que nunca fora ensinado é como devia lidar com o fato de que se encontrava apaixonado pelo gangster problemático Suga e por seu recente sócio, Hope. Envolvidos num romance sem chance de dar certo, os três rapazes se dividem entre seus deveres, seus próprios sensos de justiça e seus sentimentos conturbados. O que poderiam fazer se o proibido os atraía mais?
Shipp: TaeYoonSeok
Gênero: Romance / Ação / Drama
Classificação: +18
Restrição: Personagens fixos; conteúdo maduro/sensível
Beta: Rosie Dunne

Capítulos:

00. Prólogo

O terno azul marinho com pequenos bordados verdes no formato de abelhas, corações, estrelas e os G’s característicos da grife era seu favorito, afinal fora o último dos presentes do pai. Encaixava-se nos ombros como se tivesse sido costurado em seu corpo, ajustado perfeitamente nos pulsos com os botões amarronzados brilhando. A calça social combinava com o blazer e com o oxford também da grife — que parecia recém saído da caixa. Na opinião de Taehyung, havia nascido para vestir Gucci, ou então Gucci havia sido criada para vesti-lo no futuro.

Era uma pena que seu terno favorito de sua grife favorita estivesse sendo usado numa ocasião como aquela. A prova disso era a faixa preta amarrada em seu braço. A cortina negra separava o falecido Kim Jae Sang dos presentes que estavam ali para prestar-lhe homenagem. Um longo altar estava preparado e inundado com as mais diversas flores, com velas e incensos e, bem no centro desta, a foto do pai fazia os olhos de Taehyung marejarem cada vez que a encontrava. Nesses momentos tinha que respirar fundo mais uma vez naquela tarde para controlar o nó na garganta e desviar a atenção para varrer o salão com os olhos e encontrar todos aqueles estranhos que havia visto no máximo duas vezes na vida. Eram os sócios da família.

A mãe, Yang Mi, estava em um canto conversando com uma amiga qualquer baixinho, enxugando esporadicamente uma lágrima insistente, e vez ou outra olhava na direção do filho para certificar-se de que ele estava “bem” e servir-lhe um sorriso acalentador. Sabia o quanto o mesmo estava assustado com tudo o que viria a seguir — fora um jovem relativamente normal durante toda a vida até ali —, mas esse era o preço a se pagar por ser O Kim. Todos compreendiam, querendo ou não.

— Senhor Kim, — a voz de Ho Shun, um dos homens de confiança do pai, soou baixa por trás do garoto que não se deu o trabalho de se virar. — está na hora.

Taehyung respirou fundo.

— Não podemos fazer isso mais tarde?

— Creio que não. Vários dos convidados viajaram até aqui para prestar as condolências e tratar com o senhor. É de bom gosto que o senhor vá recebê-los o mais rápido possível, para causar uma boa primeira impressão.

Taehyung amassou um punhado de tecido da calça nas mãos e mordeu o interior da bochecha antes de finalmente responder:

— Mande chamar meus tios e Seok Jin e Namjoon. Avise que devem ir ao gabinete.

— Sim, senhor.

Estava ciente de seu dever, mas isso não tornava as coisas menos difíceis. Demorou alguns minutos até juntar coragem o suficiente para levantar e começar a caminhar para fora do salão, sentindo os olhos de todos os chefes queimando sua nuca. Deu a volta no jardim e adentrou a enorme mansão dos Kim a caminho do gabinete. Um dos dois seguranças que guardavam a sala abriu-lhe a porta e Taehyung se viu no centro do local onde por anos observou o pai trabalhar incansavelmente, mantendo os negócios da família funcionando, sobre a mesa. Agora esta era sua.

Deu a volta no móvel e sentou-se na poltrona aveludada olhando ao redor. Não era tão grande quanto outros cômodos e era escura; não apenas por carecer de iluminação, como também por todos os detalhes variarem entre preto, marrom, verde musgo, vinho e cinza. De cada lado da sala, uma de frente para a outra, estavam as mesas pertencentes aos braços da famiglia que em breve seriam ocupadas pelos primos. Um tapete de pele de urso cobria o centro do gabinete, e bem em cima um lustre pendia elegantemente com seus cristais cintilantes. Ao fundo um enorme sofá verde se dispunha, era ali onde os convidados se sentavam — e ocasionalmente ele mesmo. Naquele momento tudo lhe causava um amargor na língua. Estava ocupando o lugar do pai pois o mesmo havia morrido. Nada, por mais familiar que fosse, lhe tiraria esse sabor da boca.

A porta foi aberta novamente e Taehyung observou enquanto os dois tios, Kim Yoong Joon e Kim Dong Gun, entravam e paravam a frente de sua mesa olhando-o de cima, intimidando o jovem sem querer. Logo em seguida Namjoon e Seok Jin preencheram a sala com suas presenças tão imponentes quanto a dos pais. Taehyung olhou um por um e naquele momento deixou que seus olhos marejassem e algumas lágrimas escorressem. Mesmo que brevemente, finalmente estava em família e não precisava fingir uma serenidade que não possuía.

— Vamos, Taehyung, não fique assim! — Dong Gun se aproximou e esfregou as costas do sobrinho para acalmá-lo. — Vão perceber que seus olhos estão vermelhos e isso pode causar a impressão errada sobre sua posição. Você precisa ser forte.

— Por que vocês não podem fazer isso por mim? — choramingou, enxugando os olhos, mas as orbes azuis brilhantes entregavam a tempestade em seu coração.

— Porque você é o chefe agora, Tae. — Yoong Joon se sentou na beirinha da mesa de forma que alcançasse a cabeça do garoto chorão, e bagunçou os fios castanho claro beirando o loiro. — Queríamos que isso tivesse acontecido de outra forma, mas é assim que Deus quer.

— Samchon…! — choramingou novamente, apoiando a testa na mesa gelada. — Eu não sei se posso fazer isso. É muita pressão!

— Não existe ninguém mais competente e preparado para assumir os negócios da família do que você, Taehyung. Quer dizer, há seu tio Gun e eu, mas está fora de cogitação. Jin, Namjoon e você darão conta.

— É sério, Tae. Vai dar certo, eu prometo.

O jovem olhou para o primo Seok Jin e fez um biquinho manhoso. Engoliu novamente o nó na garganta e se endireitou na poltrona. Deixou a cabeça apoiar-se no acolchoado e se concentrou em parar de chorar. Alguns soluços insistentes faziam o corpo tremelicar, mas sabia o que precisava ser feito.

— Esses senhores vão vir e prestarão as condolências. De acordo com a tradição, você deve perguntar a eles se pode contar com sua lealdade para dar continuidade aos negócios. — Yoong Joon falou enquanto se endireitava e ajeitava o terno.

— Vai ser sempre assim? — o olhar dos quatro se voltaram para o mais novo. — O mundo pode estar acabando e eu vou ter que cuidar dos negócios?

Namjoon, que se mantivera em silêncio até aquele momento, olhou-o fundo nos olhos. Seu peito doía tanto quanto o de Taehyung e não podia imaginar o quão mais pesada toda a responsabilidade estava sendo em suas costas. Ainda assim, disse:

— O nosso mundo está acabando, Tae. O deles, não.

01. Una buona mamma vale centro maestre

O homem sentado no sofá verde musgo encarava Taehyung com certo desprezo. Os olhos do garoto foram treinados para interpretar emoções e expressões por mais discretas que fossem, e conseguia ver nitidamente que este não levava a sério sua posição, provavelmente achando um absurdo que um jovem de vinte e quatro anos assumisse os negócios da família. Apesar de sua fragilidade naquele momento, Taehyung era orgulhoso demais para simplesmente relevar aquele desaforo. Umedeceu os lábios com a língua e cerrou os olhos, estudando o homem — que imediatamente se sentiu desconfortável.

— Eu sei que está engolindo sapos, senhor Choi. Deixe-nos saber o que lhe perturba. — disse, indicando os primos imóveis a sua esquerda e a sua direita. — Em vista a presente situação que pegou a todos nós de surpresa, qualquer fala mal colocada hoje será perdoada.

Os tios encostados na parede ao lado da porta olharam para Taehyung, arqueando as sobrancelhas em curiosidade.

— Eu posso confiar no senhor, senhor Kim? — Choi Min Sik perguntou, cruzando as pernas e apoiando as mãos no joelho. O anel de prata com o brasão da família reluziu no dedo mindinho da mão direita.

— Alguma vez os Kim deram motivo para não fazê-lo? — Taehyung retrucou.

Choi Min Sik sorriu em escárnio. Pra começar, achava tudo aquilo um absurdo, como a mistura de tradições ridícula no funeral; uma família que sequer era de fato coreana dominando os maiores centros sul-coreanos; por último, um adolescente estava à frente de negócios de enorme magnitude, que movimentava milhões de wons. Na verdade Min Sik alimentava um terrível ressentimento de Jae Sang, afinal fora ele quem arrancara seus melhores domínios e o forçara a se aliar, como um cachorrinho indefeso.
Porém, apesar de todos os aborrecimentos, os Kim lhe asseguravam sucesso nos negócios e segurança o suficiente para não precisar se preocupar mais do que o necessário.

— Nunca. — respondeu após um longo período em silêncio. Namjoon fez uma nota mental para ficar atento àquele homem, pois por sua postura provavelmente daria dor de cabeça em algum momento do futuro.

Taehyung se levantou e deu a volta na mesa, caminhando de braços abertos até a frente do móvel. Min Sik sabia exatamente o que estava por vir e odiava. Forçou um sorriso no rosto e se levantou também, cobrindo o mais novo com os braços e batendo duas vezes em suas costas.

— É um prazer poder contar com você em nossa famiglia, senhor Choi. — Taehyung disse, segurando a mão do homem e apertando, fazendo-o sentir a firmeza do primogênito.

Todos os presentes na sala curvaram-se num cumprimento educado antes de Min Sik sair. Assim que a porta se fechou, Taehyung deixou a careta se formar no rosto e cheirou o ombro, sentindo a mistura terrível de perfumes impregnados em seu terno. Havia abraçado dezenas de homens e mulheres, selando a renovação das alianças.

— Faltam quantos ainda? — perguntou desgostoso, voltando a sua poltrona.

Seok Jin pegou seu caderno de notas e leu o nome. Era o último da lista.

— Apenas um, Tae.

— Consigo imaginar quem é. Mande-o entrar.

O tio Joon, que ainda estava ao lado da porta, bateu na mesma. O segurança do lado de fora logo entendeu e abriu-a para que o jovem que aguardava ali pudesse entrar. Taehyung o olhou dos pés a cabeça, observando enquanto caminhava até o sofá verde musgo e sentava-se confortavelmente cruzando as pernas. Um sorrisinho presunçoso dançava em seus lábios grossos.

— Senhor Park. — disse, apoiando o queixo em uma das mãos. — A família Kim agradece por ter disponibilizado seu tempo para prestar homenagem a meu pai. Como deve imaginar, eu, Kim Vante, assumo o posto de chefe da famiglia Kim a partir de hoje. Então, como nos manda a tradição, lhe pergunto: Podemos contar com o senhor no que diz respeito aos negócios de nostra famiglia?

O Park sorriu e abriu os braços, caminhando até o Kim mais novo, onde virou-o na poltrona e o abraçou com força, sendo retribuído no mesmo segundo.

— Que pergunta idiota, Tae! Você sabe que por essa família eu dou minha vida. Como você está, bebê?

— Quando você chegou? Eu não te vi no salão. — Taehyung perguntou, a voz abafada no ombro do melhor amigo.

— Cheguei a pouco, você conhece a mamãe.

Realmente conhecia. Não era era segredo para ninguém que a senhora Park odiava o envolvimento do filho com a família Kim, afinal tratava-se de uma família do que ela costumava chamar de criminosos, mas fora impossível separar Jimin de Taehyung. Quando soube que o filho estava aprendendo a usar armas, praticando lutas e se envolvendo mais a fundo com os negócios daquelas pessoas ficou furiosa. Porém havia algo maior que a raiva da senhora Park, e era sua ganância. Adorava ver o filho chegar em casa com seus presentes de milhares de euros, adorou não ter que pagar a melhor e mais cara universidade do filho e principalmente viver numa mansão luxuosa no mesmo condomínio dos mais ricos de Seul. A mulher odiava Taehyung, mas amava o dinheiro que saía de seus bolsos.

— Obrigado por estar aqui. — sussurrou. — Eles não estão me dando folga nem hoje.

Jimin olhou de Namjoon para Jin com as sobrancelhas franzidas.

— Hyungs! Não sejam maus com ele. — ralhou numa falsa raiva.

E pela primeira vez em três dias Taehyung agradeceu. Foram os três piores dias de sua vida, nunca se sentiu tão mal. Não fora capaz de sorrir uma única vez, nem para a própria mãe — coisa que havia jurado a si mesmo que faria, afinal Yang Mi se preocupava demais quando o filho não sorria, visto que Tae era uma das pessoas mais felizes que todos conheciam.

Jimin e Taehyung tinham uma ligação especial, desde que se conheceram sentiam que eram quase a mesma pessoa. Quando ficaram mais próximos, suas emoções começaram a refletir independentemente se estivessem perto ou não: se o mais novo se sentisse estressado, onde quer que Jimin estivesse conseguiria sentir que o amigo não estava bem. Pouco tempo depois até seus pensamentos se completavam e sem querer se pegavam pensando nas mesmas coisas ao mesmo tempo. Era bom, se sentiam parte um do outro. Eram almas-gêmeas.

— Está tudo bem, eu só quero que isso acabe logo. — disse, ajeitando a faixa no braço. — Mamãe não quis crema-lo de acordo com a tradição do lado japonês da família e nem imagino como vão reagir quando descobrirem isso. — esfregou os olhos, estressado.

— Vão enterrá-lo? — Jimin perguntou, sentando-se em uma das pernas do amigo e abraçando-o pelo pescoço.

— Sim, no monte atrás da mansão. Ele não quis ficar com o clã… — era constrangedor falar aquilo mesmo para Jimin, pois o pai basicamente estava negando o templo da família e não era algo bem visto para os coreanos de família tradicional.

Bom, não que fossem uma família tradicional coreana.

Os bisavós de Taehyung não eram coreanos. O bisavô, Lorenzo Vanccine, pertencia a uma máfia siciliana de grande relevância na itália e, em uma de suas missões, teve de ir fechar negócios com a Yakuza. Foi onde a história começou. Lorenzo se apaixonou pela filha de um dos chefões da máfia japonesa, Saito Yua, e não demorou para que sua cabeça fosse parar no livro bingo japonês. A famiglia, querendo evitar confrontos com uma máfia tão poderosa quanto ela mesma, decidiu entregar Lorenzo, mas Yua e ele conseguiram fugir para a Coreia, onde começaram a reconstruir suas vidas naquilo que conheciam com a palma da mão: uma nova família. Uma nova máfia. Fizeram seus nomes como os Vanccine (que mais tarde seria apenas “Vante”, o nome que o patriarca assumia), mas, digamos, tentar ser uma máfia híbrida dentro de um país completamente diferente não era fácil. Só foram conseguir alguma relevância no mercado negro com a segunda geração, onde a filha mais velha dos Vanccine, Giovanna Saito Vanccine, tornou-se uma Kim por meio do casamento. Seu marido entrou para a família como patriarca e trocaram o nome. As coisas melhoraram, mas sua grande explosão veio com a terceira geração.

Kim Jae Sang, juntamente do irmão Kim Yoong Joon e o melhor amigo de ambos, Kim Don Gun, fez os negócios decolarem, dominaram Seul inteira e logo Busan, Ilsan, Jeju, Gwangju e Daegu (apesar das constantes revoltas do último) pertenciam a seu território. Kim era a máfia mais influente do país, seus negócios variando entre tráfico de drogas, armamentos, milícias, contrabando, jogos de azar, agiotagem, lavagem de dinheiro e políticas públicas. A família movimentava milhões de dólares e não existia sequer uma pessoa com coragem o suficiente para tentar tirar o hegemonia dos Kim.

Taehyung assumiu a quarta geração, e podia sentir a responsabilidade de ser filho de Jae Sang crescer em suas costas. Não só teria que manter o império que seu pai construiu, como queria superá-lo. Sempre foi seu sonho, mas agora que era seu dever as coisas pareciam simplesmente impossíveis, pois, até então, achava que poderia contar com a ajuda do mais velho, todavia agora ele estava… morto. E Taehyung estava sozinho. Pelo menos era como se sentia. Era essa a responsabilidade de ser um Kim Vante, infelizmente herdara muito mais do que os olhos azuis e cabelos quase loiros do bisavô italiano, herdou também o grande império e toda a responsabilidade que este exigia.

— Você está pronto? — Jimin perguntou, levantando-se e puxando o amigo pela mão. — É o último dia, depois acabou. Vamos nos despedir e deixá-lo finalmente descansar.

O câncer do pai fora muito agressivo e pegou todos de surpresa, o garoto nunca o vira sofrer tanto, nem quando Jae Sang levou cinco tiros durante uma invasão. Era doloroso demais vê-lo a cada dia parecendo que um fio de vida o deixava. O tratamento não fazia efeito e durante o último mês teve que passá-lo em coma induzido para suportar a dor. Apenas no que foi seu último dia pode acordar e suportou tudo para dar os últimos comandos aos irmãos e ao filho.

Ouviram uma nova batida na porta que logo foi aberta, permitindo que Yang Mi se colocasse na sala. O cabelo comprido e negro preso num coque alto, o rosto quase todo coberto por um véu fino que lhe dava um sombreado preto e um dos braços sob os seios apoiando o outro que ostentava um cigarro entre o dedo médio e o indicador. A mulher olhou os seis homens reunidos ali e expeliu uma nuvem esbranquiçada por entre os lábios opacos.

Mamma, está fumando de novo? — Taehyung choramingou, levantando-se e indo até a mulher que o recebeu em um dos braços num abraço caloroso.

— Hoje, querido, só hoje estou me dando essa folga. — ela respondeu, a voz ainda rouca pelas horas chorando compulsivamente. A essa altura, depois de três dias velando o marido, Yang Mi sequer tinha uma lágrima para derramar. — Você terminou de ver os chefes? — ele assentiu com a cabeça escondida no pescoço da mãe, como uma criança. — Ótimo, agora você precisa se reunir com Siwon e ver como ele está.

Siwon era um dos homens de confiança de seu pai e havia sido preso a alguns meses após ser emboscado durante uma abordagem. Tinham conseguido negociar sua soltura a algumas semanas e até onde sabiam Siwon havia sido submetido a sessões de tortura para que entregasse os esquemas da máfia, porém era de extrema confiança e estava sob o juramento, o que o impedia de revelar qualquer coisa. O dever de Taehyung era se reunir com o homem e, como o antigo patriarca a quem servia faleceu, lhe dar a opção de deixar a famiglia.

— Sim, o tio Dong marcou um jantar para amanhã. — o jovem se endireitou e buscou o cinzeiro do pai para que a mãe pudesse bater as cinzas.

— Ótimo. Vejo que Jimin está aqui também, agora é oficial? — perguntou, olhando para Jimin que assentiu com a cabeça. Yang Mi sorriu, satisfeita. — Sua mãe vai querer minha cabeça por permitir isso, querido. Vocês precisam juramentar tudo. — apontou tanto para Jimin quanto para Jin e Namjoon.

— Ah, verdade. — o jovem quase havia esquecido e, pela cara dos tios de “nossa, é mesmo”, não apenas ele.

— Vou organizar as coisas e faremos ainda nesta semana. — Yang Mi jogou a bituca dentro do cinzeiro e retirou um lenço de dentro do hanbok negro e moderno, e limpou os dedos para tirar o máximo do cheiro de fumaça. — Agora, vamos logo. O carro já está esperando e os convidados já estão prontos.

Todos assentiram e logo se retiraram, a mulher liderando o grupo, sendo seguida por Taehyung e Jimin — que estavam de braços dados —, Namjoon e Jin lado a lado e os tios por último.
Saíram pela porta frontal da residência e de longe Taehyung conseguiu ver a multidão que os aguardava e o rabecão já fechado, com o caixão do pai dentro do mesmo. Respirou fundo e apertou o braço do Jimin, que com a mão livre acariciou as costas do amigo tentando lhe passar algum conforto.

O caminho até chegarem próximos do carro pareceu grande demais, com todos os olhos em sua direção. Yang Mi seguiu firme, olhando apenas para frente. Taehyung podia apostar que os tios e os primos estavam da mesma forma. Jimin mantinha a cabeça baixa e com certeza estava segurando o choro. Era doloroso para o Park também, Jae Sang fora a figura paterna em sua vida, afinal o pai o abandonara quando era um bebezinho e a mãe não fazia muito mais do que reclamar sobre como sua vida era um inferno. Os Kim o “adotaram” e o mimaram como se fosse da própria família, e era eternamente grato pelas oportunidades e todo o amor que lhe proporcionaram.

Dong Gun foi até a janela do motorista e conversou baixo por alguns segundos antes de retornar aos Kim. Logo o rabecão deu a partida e todos começaram a segui-lo pelo caminho de trilha acidentada até o monte atrás da mansão. Para os convidados que não tinham o costume de caminhar até lá, fora um pouco difícil e escorregadio devido a garoa que umedecera a terra na noite anterior, mas os Kim já estavam acostumados e por isso chegaram ao cume rapidamente. Era uma belíssima paisagem, como uma clareira que se abria e dava visão para Seul ao longe. Já era início de tarde e o céu salmão já se machava com o negro característico, o que permitia que a visão das luzes da cidade se tornassem mais fortes como um céu estrelado de ponta cabeça.

Quando finalmente estavam todos reunidos, Dong Gun, Yoong Jun, Taehyung e Jimin se apressaram para puxar o caixão de dentro do carro e o levarem até a cova cavada no ponto mais alto da colina. Era simples, apenas o buraco feito no chão com uma lápide onde o nome Kim Jang Sae estava esculpido delicadamente nos três idiomas da família: o romanizado do italiano, o kanji do japonês e o hangul do coreano.

Era de costume que os homens mais próximos do falecido levassem seu caixão. Aquilo foi extremamente doloroso, era o ponto final de todas as mentiras que o Kim mais jovem contava a si mesmo; que aquilo não era nada demais, que as pessoas morriam todos os dias, que seu pai estava num lugar melhor; que doeria mas logo iria passar.

Enterrar seu pai era como enterrar parte de si mesmo, e Taehyung sentia-se como se fosse só uma criança novamente vendo seu herói (ainda que as leis o tratassem como bandido) ir embora para sempre, coberto por uma camada de terra.

Mas estava bom, concluiu. Para toda a eternidade Jang Sae iria poder olhar para a paisagem que mais gostava no lugar que mais gostava e bem pertinho da família.

Foi pensando nisso que lançou uma rosa branca sobre o caixão.

— Amo você. — sussurrou. — Esteja onde estiver, você vai sentir orgulho de mim.

Sentiu o beijo carinhoso na bochecha e sorriu para a mãe que o abraçou apertado antes de também jogar sua flor.