Quem vai cair primeiro?

Quem vai cair primeiro?

Sinopse: Min Yoongi e Jeon Jungkook eram completos opostos, mesmo que sempre estivessem um na cola do outro por conta de seu ciclo de amizades. Jungkook achava o outro desnecessariamente grosseiro e Yoongi não tinha paciência para a hiperatividade do mais novo.
Uma noite de bebedeira faz com que eles passem uma noite juntos e diferente do que todos esperavam, eles não agem como se nada tivesse acontecido ou como se aquele fosse o maior erro de suas vidas. Min Yoongi e Jeon Jungkook começam a agir como um casal, mas o que ninguém sabia é que tudo aquilo era uma brincadeirinha nada inocente para fazer um ao outro se apaixonar. E o perdedor sairia com a humilhação da derrota e um coração partido.
Gênero: Comédia romântica
Classificação: +18 anos
Restrição: não interativa.
Beta: Regina George

Capítulo 1 – Os opostos não se atraem.

Yoongi.
Não haviam muitas coisas nas quais eu pudesse pensar que conseguiam ser pior do que a faculdade. Talvez bife de fígado ou feijão no pote de sorvete, mas a faculdade com toda a certeza do mundo era uma das piores coisas que existiam. E eu dizia isso como alguém que realmente amava o curso que fazia, então imagine como deve ser para aqueles que não tem a mesma sorte que eu e são obrigados a estudar qualquer outra coisa? Tudo bem, talvez se eu tivesse escolhido Teatro ou até mesmo Filosofia não receberia o mesmo apoio que tinha de meus pais enquanto um aluno de Arquitetura, mas aquilo era apenas um detalhe.
Eu não era do tipo que vivia reclamando das coisas, para ser bem sincero, na maior parte do tempo que não odiava tanto assim a faculdade. Gosto de estudar e me empenho e divirto demais com os projetos que algumas disciplinas propõe, mas então chega aquela maldita semana e parece que toda a minha existência entra em crise e tudo começa a dar errado. Durmo pouco, faz muito calor ou muito frio, a biblioteca está sempre cheia, os alunos estão sempre gritando pelos corredores e não existe a menor chance de conseguir um lugar no refeitório sem precisar chegar meia hora antes do horário de almoço. A comida já não era lá essas coisas e para piorar, às vezes precisávamos dividir mesa com outras pessoas e isso sempre me incomodava. Eu não era antissocial ou algo parecido, eu apenas não suportava bagunça enquanto estava comendo ou estudando. Sendo filho único, nunca precisei dividir meu espaço com outra pessoa e ir para a faculdade e encontrar compartilhamento em tudo – quarto, banheiro, refeitório, sala de estudos e todo o resto – era um de meus maiores problemas. Quando estava na escola, eu ao menos podia voltar para casa e para a paz do meu quarto. Na Yonsei eu tinha um colega de quarto bagunceiro que deixava a roupa dele jogada em cima da minha cama.
Kim Namjoon tinha sorte por ser meu melhor amigo desde os cinco anos, porque caso contrário, eu já teria matado ele.
– Falta muito para o final do semestre? – Hoseok indagou e eu precisei conter a vontade de revirar os olhos. Ele vinha perguntando aquilo há três semanas e eu simplesmente não aguentava mais.
– Falta, mas as provas estão acabando. PENÚLTIMO DIA DE PROVAS! – Seokjin berrou e eu quis sumir. Eu amava meus amigos, mas às vezes odiava mais.
– Se nenhum de vocês pegar dependência né – Namjoon murmurou, recebendo olhares nada satisfeitos em retorno enquanto eu enfiava mais comida na boca para evitar rir. Seokjin estava do meu lado e eu não iria conseguir fugir de um tapão, então era melhor evitar.
– Quem?
– Quem o quê?
– Te perguntou alguma coisa – Hoseok completou, enquanto Jin caía na risada e Namjoon revirava os olhos.
– Essa é mais velha que a minha vó, como você consegue cair nisso? – indaguei desacreditado. Para quem tinha QI 148, Namjoon era lerdo demais.
– Não me enche ou eu volto a dormir no nosso quarto – ameaçou e eu dei de ombros.
– Você pode tentar, mas não estou dizendo que vai conseguir. Eu tô dormindo no chão tem dois dias porque a maquete está ocupando as duas camas – suspirei em cansaço.
– E já tá pronta? – Hoseok indagou.
– Que droga você tá fazendo? O castelo de Hogwarts em tamanho real? – Seokjin franziu o cenho.
– É um projeto de shopping, nada demais, só ficou maior do que eu esperava, tive que pedir ajuda para a Soyeon com a elétrica. Eu não precisava fazer com tantos detalhes, mas quero tirar uma boa nota com o projeto e ir para o TCC mais tranquilo – dei de ombros.
– Soyeon? Jeon Soyeon? – Hoseok franziu o cenho e eu assenti, já pressentindo o rumo que aquela conversa tomaria, porque falar de Soyeon era trazer ele para o assunto.
– Por favor, nada de falar daquela peste – murmurei. – Eu nem terminei de comer ainda para poder me estressar direito.
– A implicância entre vocês é tão sem nexo – Namjoon murmurou pela enésima vez. Eu já conhecia aquele discurso e não estava animado para ouvir mais um sermão sobre como eu deveria ser mais maduro e não implicar com o maknae daquele grupo bizarro de amigos que eu mantinha na minha vida.
O ponto é que: eu não suportava Jeon Jeongguk por uma infinidade de motivos que não cabem em uma única página de caderno.
Tudo naquele garoto me irritada, desde a risadinha, até a forma como ele batia palmas para tudo ou então aquele cabelo sem cor definida porque ele era preguiçoso demais e nunca retocava aquela merda de cherry hair. Não que eu me importasse com a forma com a qual ele se apresentava para o mundo, eu não dava a mínima, mas nós éramos tão diferentes um do outro que todas aquelas disparidades tornava nosso convívio difícil porque nunca concordávamos em nada. Não tínhamos um mísero gosto em comum e a antipatia só tinha crescido com o tempo.
E por tudo isso eu torci os lábios em desgosto quando o ouvi. Não era difícil reconhecer Jeongguk, principalmente para pessoas com a maldita mania de observação aos detalhes como eu tinha. Dava para identificar os passos dele, por conta das botas pesadas que ele usava até no verão e Jeongguk nunca fora discreto. Ele ria sem se importar se estava chamando a atenção e estava sempre pulando e batendo palmas por ai, como a droga de um coelhinho animado.
Minha paciência para ele se esgotava antes mesmo de tê-lo sentado a nossa mesa e precisei respirar fundo quando os olhos escuros, que mais pareciam duas galáxias dentro de bolas de gude, pousaram em mim e aquele sorriso irritante tomou os lábios finos. Jeon sentou-se bem a minha frente, a bandeja como sempre lotada de comida e eu fiz questão de ignorar a presença dele, acenando apenas para Jimin e Taehyung, já que Soyeon se recusava a sentar conosco durante o almoço.
E para ser sincero, se eu pudesse escolher, também não sentaria naquela mesa.

🎯

Jeongguk.
Quando se está na faculdade, você precisa de um hobby para evitar surtar e jogar tudo para o alto. As poucas horas de sono, muita matéria acumulada, professores que passam mil trabalhos e toda a bagunça de campus fazem qualquer um entrar em colapso e por isso eu me mantinha ocupado com diversas atividades. Eu era faixa preta em taekwondo e estava praticando boxe nos últimos meses, também gostava de pintar, desenhar, escrever e cozinhar. Era muito bom em boliche e qualquer outro tipo de esporte, mas meu hobby favorito era testar a paciência daquele hyung que vivia implicando comigo.
Não, eu não era aquele tipo de pessoa insuportável que vive para infernizar a vida dos outros. Na verdade, eu era bem tímido algumas vezes e na maior parte do tempo, apenas agia como qualquer outra pessoa. Eu tinha dias ruins onde queria que o mundo queimasse e virasse pó, mas quem nunca teve esse pensamento não é? Yoongi não tinha realmente motivos reais para não gostar de mim e nem eu mesmo tinha qualquer coisa de relevante contra ele, mas não nos dávamos bem de jeito nenhum.
Dentro daquela rixa não havia espaço para o clichê de amor e ódio/tesão reprimido. E mesmo que nossos amigos tivessem adotado aquele discurso por um tempo, ao menos para mim, já que eu não podia falar por Yoongi, aquilo nunca tinha sido verdade. Se fosse apenas vontade de transar, já teríamos feito aquilo e acabado de vez com aquela picuinha besta. Parecíamos duas crianças da segunda série brigando por lápis de cor e mesmo tendo ciência de que aquele comportamento era ridículo, uma vez que estávamos envolvidos naquilo, era impossível sair.
Jeon Jeongguk e Min Yoongi eram como água e óleo, impossíveis de misturar.
– Vocês ainda tem alguma prova hyungs? – indaguei antes de enfiar um pedaço de frango frito na boca.
– Sim – Jin hyung respondeu. – E você saeng?
– Apenas um trabalho para hoje e então estou livre. Namjoon hyung me ajudou com o arranjo dessa canção, então finalizei mais rápido – sorri animado e orgulhoso.
– E começou a babação de ovo com o Namjoon – Yoongi revirou os olhos e eu virei o rosto em sua direção, abrindo um sorriso exageradamente doce logo em seguida.
– Ciúme hyung? Já disse que você tem um lugarzinho no meu coração, não se preocupe – atirei um beijo para ele e Yoongi apenas revirou os olhos e voltou a atenção ao prato de comida a sua frente.
– Nós fazemos o mesmo curso também e você não me ajuda em nada! – Hobi reclamou para Jimin e eu precisei morder o sorriso apaixonado quando Park revirou os olhos e torceu os lábios.
– Eu mal dou conta dos meus trabalhos, como poderia ajudar você com alguma coisa? – bufou e eu ri baixinho, voltando a encarar meu prato e sentindo o olhar de Yoongi sobre mim. Droga, eu estava dando muita bandeira e precisava me policiar já que eu não queria que ninguém soubesse que eu estava apaixonadinho pelo Jimin hyung. Mais ninguém no caso, já que a chata da minha irmã tinha me pego no pulo e eu tinha certeza de que Taehyung desconfiava.
Não que eu fosse um exemplo de discrição de qualquer forma.
O caso era que sim, eu tinha adquirido uma crush em Park Jimin depois de oito anos de amizade. Eu não sei exatamente que porra tinha mudado nos últimos meses, mas eu não conseguia ver apenas o meu melhor amigo agora. E quem poderia me culpar? Eu era um bobo que se apaixonava muito fácil, mas Jimin hyung era simplesmente… Jimin. Não havia como explicar de outra forma, nós éramos como duas metades de um todo, tínhamos gostos em comum e nossa compatibilidade era de 99%. Só não era 100% porque ele não conseguia me perdoar por ouvir as músicas do Justin Bieber, mas eu nunca tinha afirmado que era perfeito. E ao mesmo tempo em que eu aceitava e entendi os meus sentimentos, eu já tinha decidido que nunca iria confessar nada para ele para não arruinar nossa amizade. Tinha certeza de que poderia passar alguns meses sofrendo de dor de amor, mas jamais poderia viver o resto da vida sem o meu melhor amigo.
E aqui está o fardo de ser maduro sentimentalmente. Não recomendo, em todo o caso.
– Ei, vocês vão na festa amanhã? – Taehyung indagou, interrompendo meus pensamentos e as conversas paralelas que tinham tomado conta da mesa nos últimos minutos.
– Nem estou sabendo de festa – Hoseok torceu os lábios de forma insatisfeita.
– É de um veterano do meu curso – Tae deu de ombros. – Vai ter bebida e pizza, acho que vale a pena aparecer por lá.
– Ninguém nega bebida nesse grupo – Jimin murmurou.
– Eu nego – Yoongi resmungou e eu revirei os olhos. Ele gostava de discordar do Jimin e aquilo me irritava antes mesmo de descobrir que eu estava apaixonadinho pelo Park. Min Yoongi parecia viver em um eterno mal humor.
– Porque é chato – retruquei.
– Fica quieto coisinha desbotada – abriu uma careta para o meu cabelo e eu bufei.
– Vou ficar quieto quando o hyung deixar de ser azedinho – estalei os lábios.
– E começou – Seokjin soltou o ar dramaticamente.
– Não, por favor – Namjoon praticamente implorou e como eu era um bom saeng, menos para Yoongi, é claro, decidi ficar quieto e terminar o meu almoço antes de ser arrastado para o outro lado do campus por Namjoon, já que éramos do mesmo curso e tínhamos aula no mesmo prédio.
– Então vamos para a festa amanhã? – Tae indagou apenas para garantir que ninguém iria dar para trás.
– Claro que sim, precisamos comemorar a liberdade!
– Não estamos de férias ainda – o estraga prazeres do Yoongi murmurou.
– Cala a boca Yoongi – Seokjin reclamou.
– Obrigado hyung – sorri largo.
– Fica na sua pirralho – Yoongi retrucou e eu me virei para ele outra vez, com a resposta na ponta da língua ao mesmo tempo em que meus amigos bufavam e reclamavam por estarmos começando tudo de novo.
Às vezes eu sentia pena deles, mas durava pouco porque Yoongi me irritada muito mais.

Capítulo 2 – Gosto de cereja

Yoongi.
Minha cama, videogame e um prato cheio de carne. Aquilo era tudo o que eu queria e precisava para aquela noite de sábado ser incrível. Afinal, minha semana tinha sido a porra de um inferno por conta das provas e apresentações de trabalho e tudo o que eu queria era comemorar o A que tirei no projeto de shopping na paz e tranquilidade do espaço de 8×5 do meu dormitório.
Mas eu tinha os piores amigos do mundo, já que eles só podiam me odiar muito para me obrigar a sair de casa para ir a uma maldita festa.
Deslocado era pouco para a forma como eu me sentia desde que havia sido arrastado do dormitório por Namjoon e empurrado para dentro do carro por Seokjin, enquanto Hoseok, o motorista da vez, reclamava da minha demora em aceitar a derrota, já que eu deveria estar acostumado a perder. Era realmente uma merda ser o mais baixo do grupo e principalmente, ter o físico impróprio até mesmo para correr atrás de ônibus. Como o bom estudante de Arquitetura, eu passava quase todas as horas dos meus dias sentado em uma mesa enquanto trabalhava em projetos. Não havia muito tempo para que eu me alongasse e fizesse qualquer exercício ou mesmo espaço, porque se Namjoon e eu não conseguíamos ocupar o corredor que separava nossas camas ao mesmo tempo, que dirá fazer abdominal dentro do dormitório? E eu não era maluco para tentar frequentar uma academia ou praticar qualquer luta, gostava do meu corpo fraco, obrigado.
– Ajeita essa cara hyung – Hoseok murmurou quando desligou o carro. – Parece até que a gente tá indo pra algum enterro.
– E estamos enterrando a minha felicidade nessa noite – retruquei mal humorado.
– Ele fala do Jeongguk, mas é tão dramático quanto – Namjoon implicou e eu revirei os olhos.
– Vocês são insuportáveis e eu juro que vou trocar de amizades.
– Tá bom saeng – Seokjin concordou apenas para me fazer calar a boca e não demorou a me arrastar pelo estacionamento, em direção ao prédio da fraternidade que estava dando a festa.
American Pie não havia mentido naquele quesito, porque todo o resto da vida universitária apresentada naquele filme era a maior bosta que eu já tinha visto na vida. A universidade não eram, nem de longe, um lugar de curtição, festas todos os dias e muito álcool. Pelo menos na Yonsei, aquele tipo de festa acontecia apenas nos períodos após as provas e a maioria dos estudantes só aparecia quando não pegava dependência em alguma matéria. Seria burrice pagar uma fortuna de mensalidade de desperdiçar toda a vida acadêmica com festas regadas a álcool e sexo. Eu não transava há quatro meses e não conhecia nenhum solteiro com a vida sexual ativa. A universidade era realmente uma maravilha, como todo mundo pode ver.
– Eu vou encher a cara e vocês são obrigados a cuidar de mim e me deixar no dormitório, são e salvo, já que me trouxeram arrastado para cá – avisei aos berros assim que passamos pela porta.
– Era melhor ter deixado ele no dormitório – Hoseok murmurou e eu abri um sorriso largo, satisfeito por ter tornado a noite dos meus amigos tão ruim quanto a minha seria. Eu era um bêbado insuportável e eles sempre tinham trabalho comigo quando eu estava naquelas condições.
Passamos pela cozinha para pegar bebidas e acabamos no quintal, onde a festa realmente acontecia. O calor tornava possível uma festa na piscina e encontrar colegas e conhecidos apenas de roupas de banho não foi nenhuma surpresa. Acenei para meia dúzia de pessoas, enquanto meus amigos pareciam cumprimentar o campus inteiro até que acabássemos com o grupo de sempre, já que nossa amizade se estendia para além dos almoços no refeitório. Eu não teria um ‘a’ para reclamar sobre isso caso Jeon Jeongguk não estivesse incluso no pacote de amizade.
Pelo menos naquela noite eu teria a companhia de Soyeon e talvez assim Jeongguk passasse menos tempo me enchendo o saco e mais tempo babando por Jimin. Sim, eu tinha notado, principalmente porque ele não era nada discreto e só sendo muito tapado para não perceber aqueles olhos gigantes brilhando por Park. Eu tinha cinco amigos tapados, porque só quem parecia ter notado era Soyeon e aquilo nem me surpreendia. Homens são burros, é um fato comprovado pela ciência.
– Vocês conseguiram mesmo trazer o Yoongi hyung? – Taehyung riu desacreditado e eu revirei os olhos.
– Eu fui arrastado. Literalmente – pontuei e todos riram, menos Jeongguk, que apenas estalou os lábios e sorriu sem mostrar os dentes de coelhinho.
Insuportável demais.
– Você precisa se divertir hyung – ele murmurou, em um tom claro de provocação.
– Estou me divertindo horrores – retruquei, bebendo um longo gole de cerveja para exemplificar a minha fala. Jeon apenas riu e deu de ombros, voltando a atenção para Jimin e Taehyung.
– Me diz que você tirou ‘A’ no projeto Yoongi-yah?
– É claro que sim, meu shopping tinha luz elétrica, o professor jamais me daria um ‘B’. – falei e Soyeon riu.
– Mérito meu, não esqueça e me agradeça pegando mais bebida para mim – ela sacudiu o copo vazio em frente ao meu rosto e eu revirei os olhos antes de pegar o objeto e rumar para a cozinha, sem me dar conta de que estava sendo seguido pelo Jeon mais novo.
– O hyung gasta todo o seu amor com a parte chata da família Jeon – Jeongguk murmurou quando parou ao meu lado para encher o copo de soju com o liquido da garrafa que eu tinha acabado de tirar da geladeira.
– Não é o meu amor que você quer receber Jeon, você sabe disso – pisquei para ele e Jeongguk arregalou os olhos.
– Eu não sei do que você está falando hyung – declarou, em um tom de voz nada convincente. Ele podia ser maior do que eu e ainda assim, parecia uma criança quando estava acanhado e começava a gaguejar.
– Tá bom – eu dei risada, sem querer estender o assunto, afinal aquilo não era da minha conta.
– Eu tô falando sério! – Jeongguk retrucou, franzindo o cenho em sinal de irritação. Se a intenção era me amedrontar, ele tinha falhado miseravelmente. Se não fosse tão irritante, eu o consideraria um tantinho fofo.
– Você não tem que provar nada pra mim Jeongguk – lembrei. – Mas ficar em negação para si mesmo pode ser um problema, então… pense bem. – finalizei e dei as costas para o garoto, voltando para o quintal e encontrando um grupo menor do que quando tinha ido buscar a bebida de Soyeon, que inclusive também não estava mais ali.
– Cadê o resto? – indaguei para Namjoon.
– Jimin, Soyeon e Taehyung estão dançando perto da piscina.
– Pelo menos alguém está se divertindo – Hoseok murmurou.
– Jimin vai se divertir até demais – Seokjin riu, apontando para o trio no mesmo instante em que um calouro se aproximava de Park com um sorriso nada casto.
Não precisei procurar Jeongguk com o olhar para saber que aquilo tinha afetado ele, já que o garoto puxou o copo que eu carregava para Soyeon da minha mão e bebeu todo o líquido em poucos goles antes de retornar pelo caminho que tínhamos acabado de fazer.
Se antes eu tinha alguma duvida de que ele estava caidinho por Park, agora já não tinha mais. Jeon Jeongguk tinha dois grandes defeitos, fora todo o resto que vinha com o pacote irritante e insuportável que já o acompanhava: ele não sabia mentir/ser discreto e também não sabia beber.
Para o azar dele e eu ficaria bem quietinho no meu canto apenas observando o caos.

🎯

Jeongguk.
Ciúme é o primeiro passo para um relacionamento abusivo, era o que o Namjoon hyung vivia dizendo e eu não discordava dele nenhum pouco. Qualquer sentimento de posse ou necessidade de controle sobre outra pessoa não me parecia natural e eu tinha jurado para mim mesmo que jamais seria um babaca ciumento que surtaria apenas por ver a pessoa que eu gosto com outra.
Mas bem, ao que tudo indicava eu era um grandessíssimo palhaço porque além de estar me mordendo de ciúme, eu ainda era idiota ao ponto de encher a cara para tentar esquecer que estava com ciúme e que daria tudo, tudo mesmo – até meu colecionável raro do Homem de Ferro-, para ser o cara que estava dançando com Jimin quando tentei voltar para o quintal da casa depois de dois copos de soju.
Eu já estava no quarto copo e sentia meu corpo meio mole e meu raciocínio muito mais lento, mas eu só costumava apagar com o oitavo copo e sabia que estava seguro. Afinal, eu não tinha nenhum motivo para me sentir enciumado. Jimin e eu éramos apenas melhores amigos, eu tinha decidido não expor meus sentimentos românticos para, mas não conseguia não me sentir frustrado com a situação porque eu sabia que ele nunca me veria daquele jeito se eu não falasse nada. Park nunca olharia para mim como se quisesse me beijar, porque para ele, eu era apenas seu melhor amigo, quase seu irmão caçula.
Por que ele não podia adivinhar que eu gostava dele? Ler a minha mente ou decifrar meus sentimentos de longe, sem que eu precisasse falar sobre aquilo? Nas fanfics sempre dava certo, os personagens sempre suspeitavam quando eram alvo de interesse amoroso para alguém. Em plenos 2020 nós ainda precisávamos expor nossos sentimentos com palavras? Eu me sentia como um homem das cavernas, sinceramente.
Se a minha vida fosse uma fanfic, Jimin já saberia sobre meus sentimentos e nós terminaríamos aquela noite no meu quarto. Mas eu não estava dentro de uma narrativa de fãs e a realidade me deu um chute na cara quando eu decidi que estava sendo um frouxo e abandonei o refúgio da cozinha.
Jimin, meu Park Jimin, estava aos beijos com um garoto qualquer no meio da pequena pista de dança organizada perto da piscina. E eu era apenas mais um fracassado com o coração partido porque era bundão demais para confessar o que eu sentia e aquilo me sufocava e me dava vontade de chorar. Ok, eu era chorão, aquele não era um fato que eu poderia negar, mas eu tinha certeza que estava melhorando, já que na última vez que Soyeon havia gritado comigo por causa das roupas sujas espalhadas pela lavanderia, eu tinha derramado apenas algumas lágrimas ao invés de cair no choro e soluçar como uma criancinha depois de tomar bronca.
Tinha alcançado o auge do fracasso quando precisei correr para dentro da casa a procura de um banheiro vazio onde eu pudesse lavar o rosto e disfarçar os olhos marejados.
Inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira… Perdi a conta de quanto tempo eu passei fazendo aquele exercício de respiração, buscando resgatar um pouco de sobriedade, mesmo que minha cabeça continuasse girando de forma pesada e eu já não soubesse mais definir com clareza meus ideais éticos ou de autopreservação. Qualquer atitude impensada poderia me colocar em maus lençóis e meu plano não era sair mais daquele banheiro pelas próximas horas.
Mas se Deus existe, ele claramente me odeia.
Algumas batidas desesperadas na porta me fizeram erguer a cabeça e eu corri para secar o rosto com papel higiênico, já que não confiava nenhum pouco na toalha que estava pendurada ao lado da pia. Respirei fundo outra vez, terminando com o soju que ainda estava no copo que eu carregava antes de girar o trinque da porta e abrir o objeto apenas para me sentir ainda mais miserável e querer enfiar a cabeça dentro do vaso.
– Jeonggukie! – um Jimin risonho exclamou, os olhos pequenos transformados em dois risquinhos por conta da pressão que as bochechas grandes faziam em seu rosto. Porra, ele era lindo demais e eu era um fracassado que estava prestes a cair no choro. – Consegue liberar o banheiro pra nós? – apontou para seu acompanhante, que tinha uma das mãos em torno de sua cintura fina e eu quis morrer naquele instante.
Não!, meu lado ciumento rugia. Cale a boca seu idiota, o melhor amigo de Jimin retrucou e eu entendi que aquela já era uma batalha perdida, então apenas assenti devagar, por conta da cabeça pesada de álcool e sai do banheiro, deixando o espaço livre para que o cara por quem eu estava apaixonado transasse com um desconhecido.
Encontrei meu cantinho da vergonha na sala, enquanto muita gente dançava e se divertia e eu apenas aceitava todos os copos que me eram oferecidos junto de olhares pesarosos. Minha cara deveria estar uma merda, eu tinha certeza.
– Ei, você está bem?
Não desviei o olhar do copo em minhas mãos, mas eu não precisava olhá-lo para reconhecer sua voz. Min Yoongi não era alguém que você simplesmente esquecia ou confundia com outra pessoa.
– Estou ótimo hyung, por que a pergunta?
– Porque parece que mataram o seu cachorro – ele retrucou e eu ri fraco por causa do álcool. Meus pensamentos estavam mais lentos que o normal, que já não era lá grandes coisas.
– Não foi o meu cachorro que morreu – declarei por fim e Yoongi estalou os lábios, me obrigando a encará-lo.
– Você sabe que desse jeito ele não vai te notar né? – indagou e eu suspirei em derrota. – Não gosto de você, mas não posso fingir que não notei e que não acho que está sendo burro. Se você não falar ou demonstrar, Jimin nunca vai ver você com outros olhos.
– Eu não quero falar – choraminguei. – Não quero que ele se obrigue a me ver de outro jeito só porque eu estou apaixonado por ele, mas também não vejo como mostrar que eu não sou mais um adolescente e que posso ser um possível interesse amoroso para ele.
– Você sempre pode ser infantil e beijar alguém na frente dele, para que ele perceba que você não é mais criança – Yoongi riu, claramente debochando da ideia. Mas para o meu cérebro bêbado, tudo aquilo fazia muito sentido e não havia outra forma de conseguir que Jimin me olhasse com outros olhos.
Como se o universo estivesse me agraciando com alguma benção, no mesmo instante em que eu me virei para Yoongi para agradecer pela ideia, de relance vi Jimin e o-cara-desconhecido-que-eu-queria-muito-ser saírem do banheiro e meu cérebro bêbado e burro só conseguiu raciocinar em me incentivar a seguir o plano de Yoongi e sem tempo para procurar alguém para beijar, joguei o copo plástico no chão e puxei o Min pelos ombros para perto antes de grudar meus lábios nos dele.
Foi esquisito, porque me meio ao choque, Yoongi não reagiu de imediato e quando se deu conta do que estava acontecendo e fez menção de se afastar, eu abri a boca e suguei o lábio inferior dele, pedindo permissão para aprofundar o beijo. Para a minha surpresa, não tomei uma joelhada e Yoongi deu um passo para frente, buscando mais contato com o meu corpo e entreabrindo os lábios para que eu pudesse aprofundar o beijo.
E foi ai que eu perdi a completa noção de onde estava e do porquê estava beijando Min Yoongi. Eu apenas queria beijá-lo mais, sentir as mãos grandes de dedos finos se afundando em minha cintura enquanto eu abandonada o toque em seus ombros para segurar seu rosto e espalmar suas bochechas proeminentes. Yoongi tinha gosto de cereja e cada estalar de lábios ou girar de línguas, em me afastava mais do objetivo de fazer ciúme para Park Jimin e me afundava nas sensações de estar naquele beijo ansiando por mim. Não foi uma surpresa quando Yoongi me empurrou contra a parede, porque tudo no que eu conseguia pensar era em ter mais daquelas sensações, mais de Yoongi contra mim. Puxá-lo para o segundo andar a procura de um quarto vazio também não me surpreendeu e eu só me daria conta do que tinha feito no dia seguinte.
E eu não tinha certeza de que poderia culpar a bebida.

Capítulo 3 – Emocionado demais

Yoongi.
Eu nunca desejei tanto ter amnesia alcoólica como desejava naquele momento, enquanto observava as costas nuas de Jeongguk, já que o lençol estava cobrindo apenas seu quadril e bunda. Pela minha mente passavam todos os beijos e toques que tínhamos trocado durante a madrugada e eu simplesmente não conseguia entender porque não estava arrependido. Quero dizer, eu não suportava aquele garoto, dormir com ele não estava na minha lista de coisas de fazer antes de morrer nem se ele fosse o último homem na Terra e eu tivesse apenas algumas horas antes do mundo acabar. Eu não ia negar que Jeongguk era lindo e tinha um corpo delicioso, mas eu nunca tinha pensado sobre ele daquela forma porque ele realmente me irritava.

Mas agora eu estava ali, completamente nu, arranhado e marcado de mordidas e chupões porque Jeon Jeongguk tinha sido a melhor foda da minha vida.

Com certeza eu estava pagando meus pecados por ter furado a fila do refeitório na semana passada, não tinha outra explicação.

Tudo bem, eu tinha que pesar as consequências dos meus atos e pensar no que fazer. Poderia fingir que nada tinha acontecido, que não lembrava de nada e nem gostaria de lembrar, mas aquilo era filho da puta demais até para mim. Poderia pedir para que ele esquecesse que aquilo aconteceu, dizer que foi um erro e não deveríamos ter feito aquilo, mas também era coisa de filho da puta. Eu deveria ser maduro e encarar aquilo de cabeça erguida. Transamos? Sim, fazer o quê?

É, sem dúvidas aquela era a melhor opção. Eu só tinha que esclarecer para ele que tinha sido apenas uma noite, uma foda irresponsável entre dois bêbados que jamais fariam aquilo sóbrios. Jeongguk apenas não podia se emocionar e confundir as coisas. Eu o conhecia, sabia que confundia as coisas e acabava se apaixonando fácil. Ele tinha se apaixonado por Jimin sem nem ter beijado o garoto, eu nem queria imaginar o que poderia se passar na cabeça dele por conta da situação na qual a gente se encontrava. Eu definitivamente não queria ter que lidar com os sentimentos de Jeon.

Respirei fundo e me arrastei para longe da cama, ocupando o banheiro e me encarando pelo espelho da pia para avaliar o estrago em meu corpo. Minha pele era clara demais e qualquer coisinha deixava marcas, mas eu me encontrava em um estado além de crítico. Meus mamilos estava doloridos e a área ao redor estava levemente arroxeada, ao mesmo tempo em que haviam arranhões no meu peito, barriga e eu sentia que nas costas também. Marcas de dentes e de chupões tomavam todos meu pescoço, clavícula e ombros e eu nem queria entrar no tópico a respeito da minha bunda.

Quando eu pedi para ele me bater, pensei que ia levar uma palmada e não uma surra. Não que tivesse sido ruim, de forma nenhuma, eu tinha adorado. Mas eu não esperava aquilo de Jeongguk.

Lavei o rosto e usei enxaguante bucal, voltando para o quarto e procurando pelas minhas roupas para poder me vestir. Tinha acabado de subir o jeans pelas pernas quando o barulho de Jeongguk se mexendo me chamou a atenção e eu me virei a tempo de vê-lo se sentar, os cabelos completamente revirados e os olhos pequenos de sono. Seu rosto estava inchado e amassado e enquanto ele se situava e voltava para o planeta Terra, eu pude constatar que havia feito o mesmo estrago que ele havia feito em mim no corpo dele.

– Que porra… – ele murmurou de forma desorientada, arregalando os olhos quando se deu conta de que estava nu e que eu estava ali. Ruborizou e tentou cobrir o corpo com o lençol, me arrancando uma risada.

– Não tem motivos para se cobrir, eu já fiz bem mais do que te ver – declarei e Jeon apenas corou mais.

– Puta que pariu, eu não tô acreditando nisso – gemeu frustrado, se jogando de costas na cama. Suspirei e me aproximei, ocupando a beirada do colchão antes de vestir a camiseta e voltar a olhar para Jeongguk.

– Pois é, tá difícil de acreditar – ri sem graça.

– Isso é culpa sua! – acusou.

– É o que?

– Foi você quem disse que eu deveria fazer ciúme para o Jimin!

– Com outra pessoa, não comigo! – retruquei de forma irritada. De jeito nenhum ele ia jogar toda a culpa e responsabilidade para cima de mim.

– E por que você não me empurrou e se afastou?

– E por que você me beijou?

Jeongguk me encarou por alguns instantes, antes de suspirar em derrota e cobrir o rosto com as mãos. Parecia perdido e eu nem poderia julgá-lo, já que estava surtando mentalmente antes de ele acordar. Mas eu já tinha avaliado as opções e precisava tomar uma posição, mesmo que parecesse muito insensível abordar aquilo enquanto o garoto surtava.

– Olha Jeongguk, não tem como voltar atrás. A gente transou pra caramba, foi gostoso e tal, mas não podemos repetir e eu não quero que você interprete isso de forma errada, ok?

– Do que você tá falando? – ele indagou e eu suspirei. – Por que eu interpretaria isso de outro jeito?

– Não tô falando isso por implicância e nem nada do tipo, mas… você é meio emocionado – murmurei e ele se sentou, me lançando um olhar nada amigável e completamente diferente dos olhares que normalmente direcionava para mim. – Só esse ano você se apaixonou umas vinte vezes e nós estamos no final de abril. Eu não quero que você acabe se iludindo, porque nós não vamos passar disso: uma foda de uma noite de bebedeira.

Eu não sabia o que esperar de Jeon, na verdade, o conhecia o suficiente para saber que ele poderia ter qualquer reação, mas estava esperando que ele levasse numa boa e entendesse. Eu nunca poderia retribuir os sentimentos dele e levar aquilo como uma ofensa poderia fazer mais mal do que bem. Se ele simplesmente aceitasse, poderíamos seguir nossas vidas como dois adultos responsáveis que sabiam lidar com as consequências dos nossos atos.

Jeongguk me encarou de forma incrédula por alguns instantes, antes de sacudir a cabeça em negação e acabar rindo em deboche.

– Você é ridículo Min Yoongi – declarou. – Fala sério, acha que eu vou me apaixonar só porque a gente transou?

🎯

Jeongguk.
Ele tinha passado de todos os limites de “babaca” aceitáveis e eu não conseguia ter qualquer outra atitude que não fosse rir da cara dele. Fala sério, ele tinha um ego tão elevado assim para pensar que ia me dar chave de pau com apenas uma noite?

Ok, eu era mesmo emocionado e tinha me apaixonado diversas vezes naquele ano, mas não eram paixões sérias, eu apenas me encantava por um detalhe de alguma pessoa e passava alguns dias agindo como um idiota apaixonado, mas de forma nenhuma aquilo justificava aquela atitude de Yoongi. A gente tinha transado, seguiríamos a vida e ele não precisava ser um idiota comigo só porque não queria lidar com um futuro que era tão improvável quanto chover no deserto.

– Bem… sim? – murmurou de forma confusa e eu ri um pouco mais.

– Eu não me apaixonaria por você, nem se você estivesse empenhado em me conquistar, o que dirá com apenas uma foda – revirei os olhos. – Eu me apaixono fácil, não vou negar, mas nunca o faria por você só porque transamos. Não sei se esse pensamento te torna apenas inocente ou um completo babaca que acha que o mundo gira em torno do teu pau. Se for o primeiro caso, então tudo bem, apenas vamos seguir nossas vidas. Se for o segundo, bem, acho que deveria se inscrever no Guinness para ganhar o recorde de cara mais prepotente do mundo.

Sacudi a cabeça para os lados enquanto ria e me levantei da cama, deixando Yoongi com uma expressão de que tinha levado um soco. Catei minhas roupas pelo chão e me vesti, agradecendo aos deuses por encontrar enxaguante bucal e uma escova de cabelo limpa no banheiro. Todo esse processo foi realizado em meio ao mais absoluto silêncio e eu jurava que Yoongi já tinha ido embora, mas quando voltei para o quarto ele estava em pé, escorado contra a porta, os braços cruzados em frente ao corpo e uma expressão indecifrável no rosto bonito.

Eu não poderia negar que ele era lindo e que eu sentia certa atração por ele, mas se nas circunstâncias anteriores eu nunca dormiria com ele, agora que jamais repetiria aquele ato em sã consciência. Na minha bunda preciosa Min Yoongi não metia aquele pau nada mixuruca nunca mais.

– Achei que já tinha ido – falei, sem realmente dar atenção para ele, já que estava ocupado calçando meus tênis. Queria ir embora de uma vez e tomar um banho bem longo, mas teria que passar na farmácia antes e comprar pomada para hematomas. Yoongi tinha maltratado meu corpo de forma deliciosa e aquilo era realmente uma droga porque ele era um idiota.

– Eu faria você se apaixonar se eu tentasse de verdade – declarou e eu franzi o cenho, confuso por um instante, antes de compreender o que ele estava falando.

– Não faria – ri em deboche e voltei a amarrar os cadarços do All Star.

– Sim, eu faria – retrucou. – Mas eu não me apaixonaria por você.

Sacudi a cabeça para os lados e me levantei, findando a distância entre nós com alguns passos e também cruzando os braços em frente ao corpo. Yoongi era menor que eu, tanto em massa corporal como em altura, mas eu não podia negar que aquele olhar penetrante me deixava um pouco acanhado. Ele era intimidador, mesmo que fosse fofo por conta das bochechas e dos olhos pequenos.

– Você quer apostar hyung? – indaguei, sabendo que estava sendo burro, mas não conseguindo conter meu lado competitivo.

– Apostar? – ele franziu o cenho.

– Sim – assenti depois de alguns instantes, enquanto pensava nos termos daquela aposta. Eu realmente estava sendo burro, mas eu nunca tinha sido um exemplo de qualquer forma. – Não vamos sair daqui fingindo que nada aconteceu e que foi apenas uma transa como qualquer outra e sim como se fossemos um casal. Vamos sair em encontros, dar presentes um para o outro e agir como se estivéssemos apaixonados. E quem realmente se apaixonar primeiro, perde – dei de ombros, como se aquilo não fosse nada demais.

Yoongi apenas me encarou por um longo tempo antes de estalar os lábios bem desenhados e sorrir torto.

– E como eu vou saber que você não vai estar mentindo caso se apaixone primeiro?

Revirei os olhos.

– Eu não vou mentir e espero que você também não hyung – declarei. – E outra, não tem como fingir não estar apaixonado. Nós vamos perceber, mesmo que nenhum de nós fale sobre.

– Certo… então o perdedor sai com um coração partido – Yoongi falou e eu assenti. – Isso não soa muito saudável.

– Bom, nós dois sabemos quais as consequências. Não é uma brincadeira onde uma das partes se ilude com as más intenções da outra parte – falei. – E você pode não aceitar Min Yoongi – ri em provocação e ele estreitou ainda mais o olhar para mim.

– Eu aceito – Yoongi disse com convicção e eu assenti.

– Então estamos combinados – sorri com os lábios fechados estendi a mão para ele, para selarmos nossa aposta. Yoongi me puxou, envolvendo a minha cintura com os braços e se inclinando para beijar meu queixo de forma demorada, deixando uma mordida antes de se afastar e piscar para mim.

– Não é com um aperto de mais que se sela uma aposta desse tipo – falou e eu franzi o cenho, apenas entendendo o ponto quando Yoongi desceu as mãos para a minha bunda e me puxou para mais perto.

– A gente não vai transar de novo hyung – eu estalei os lábios. – No máximo um boquete, porque beijar com frequência deixa a gente excitado, mas o sexo em si não vai rolar.

– Que tipo de conquista é essa que não envolve sexo? – revirou os olhos e eu ri.

– Para quem não queria que eu me apaixonasse depois de uma foda, você parece bem interessado em transar de novo… – provoquei e Yoongi apenas revirou os olhos de novo. – Mas sexo só ia atrapalhar e nos faria confundir fogo no rabo com paixão. Eu vou fazer você se apaixonar por mim hyung, não pelo meu pau.

– E quem disse que eu quero teu pau? – ele indagou e eu ri.

– Você durante a madrugada, gemendo todo manhoso e pedindo uns tapas na bunda – retruquei.

– Irritante pra caralho – devolveu, me fazendo rir.

– E essa vai ser apenas uma das minhas características que vai te deixar de quatro por mim e eu não tô falando sexualmente – estalei um beijo em seus lábios e me desvencilhei do meio abraço, empurrando Yoongi para que ele liberasse a porta e eu pudesse ir embora.

Ainda não sabia se aquela ideia tinha sido apenas estúpida ou estúpida pra caralho, mas eu iria me esforçar para não ser o cara magoado ao final de tudo aquilo.

Capítulo 4 – Um exemplo de estupidez

Yoongi.
Existem pessoas burras em todo o mundo. A estupidez humana é quase tão certa quanto a morte, na minha opinião, e eu já nem me surpreendia quando via algum político abertamente corrupto sendo eleito como “salvador da nação” ou então ouvia Seokjin contar suas piadas completamente sem graça. Eu estava acostumado a esperar pela não salvação da humanidade – sério, as piadas de Seokjin eram simplesmente as piores -, mas acabar tendo que me incluir no navio que zarparia para o fim do mundo não era algo do que eu poderia me orgulhar.
Eu tinha sido tão estúpido quanto as pessoas que afirmavam que dormir deveria ser algo desnecessário e agora além de estúpido, eu também estava ficando louco, já que estivera brigando comigo mesmo em voz alta durante todo o caminho até o dormitório.
Yoongi burro.
Yoongi idiota.
Yoongi por que você é imbecil desse jeito?
Era só dizer não seu orgulhoso desgraçado!
Mesmo que internamente eu estivesse entrando em colapso por ter tomado uma decisão tão idiota quanto aquela, eu também rezava para que Namjoon não estivesse no quarto. Ele era meu melhor amigo e mais cedo ou mais tarde, eu teria que contar para ele que estava “jogando” com Jeongguk, mas naquele momento eu precisava de paz e sossego para colocar meus pensamentos em ordem e buscar uma solução para aquele problema. Por mais que a ideia de magoar alguém não me fosse atraente, mesmo que esse alguém fosse o insuportável do Jeongguk, eu também não queria sair de coração partido – não que eu acreditasse que poderia me apaixonar pelo garoto, claro que não, eu estava apenas prevenindo um eventual desastre! – e nesse caso não haviam muitos opções para mim. Eu teria de fazer Jeon Jeongguk se apaixonar por mim e então quebrar o coração dele.
E não, eu não me achava feio ou desprovido de habilidades de sedução. Por mais que eu evitasse contatos pessoais e não entrasse em um relacionamento há bastante tempo, eu sabia como agir para conquistar alguém. Não seria difícil conquistar Jeon se Park Jimin não estivesse na jogada. Eu não estava tentando me sabotar nem nada do tipo, mas não me parecia uma competição justa. Mesmo sem saber dos sentimentos do mais novo, Jimin estava há quilômetros de distância do ponto de onde eu estava partindo em busca do afeto de Jeon.
Estúpido para um santo caralho, era isso que eu era.
Suspirei em alívio quando sai do elevador e segui para o quarto que eu ocupava desde o início da faculdade, não conseguindo conter um resmungo inconformado quando entrei no cubículo e encontrei não apenas Namjoon, como Seokjin e Hoseok comendo pizza enquanto assistiam Naruto.
– Bom dia garanhão! – Hoseok murmurou em provocação e meu corpo todo se retesou, entrando em alerta. Como diabos eles sabiam?
– Yoongi hyung finalmente tirou o pinto da miséria! – Namjoon comemorou e eu fiz uma nota mental de que não podia sufocar meu melhor amigo enquanto ele dormia, já que homicídio era crime.
– Agora resta saber com quem ele tirou o pinto da miséria – Seokjin murmurou. Franzi o cenho em confusão, sem entender realmente sobre o que eles estavam falando. Se eles não sabiam sobre Jeongguk, como eles sabiam que eu tinha transado? Ok, eu não costumava dormir fora ou sumir em festas já que minha vocação era reclamar a noite inteira por ter sido obrigado a sair, mas eu podia sei lá, ter ido patinar durante toda a madrugada?
E lá estava eu ultrapassando os limites da estupidez mais uma vez.
– Vocês não deveriam estar no quarto de vocês? – indaguei após fechar a porta, optando pelo mau humor como forma de defesa. Eu não podia agir de forma suspeita ou acabaria com aqueles três na minha cola antes do previsto.
– Se você não tivesse passado a noite fora nós estaríamos – Hoseok sorriu. – Mas queremos a fofoca.
É claro que as coisas não seriam tão fáceis como eu desejava.
– Eu não sei do que vocês estão falando – retruquei e não demorei a pegar roupas e toalha limpa, a bolsa que eu guardava meus produtos de higiene e chinelos, visando fugir para o banheiro e ganhar mais alguns minutos para elaborar uma boa desculpa para os meus amigos.
Funcionou, mas nem tanto, já que assim que voltei para o quarto, os três se grudaram em mim e só me deixaram em paz quando eu repeti pela octogésima vez que não me lembrava e que tinha acordado sozinho naquela manhã. Uma mentirinha boba para salvar os meus ouvidos de anos de zoação e piadinhas caso meus amigos descobrissem que eu tinha transado com Jeongguk.
Enquanto tentava ignorar a bagunça do trio, me enfiei debaixo do meu edredom e conectei o celular no carregador que eu tentava manter na tomada ao lado da cama e que Namjoon sempre desplugava alegando que aquilo poderia causar um incêndio. Esperei alguns minutos enquanto o aparelho pegava um pouco de carga para enfim abrir o Spotify e colocar os fones de ouvido. Ignorei todas as notificações que pulavam na tela enquanto escolhia uma playlist e estava comemorando a pequena vitória de ter encontrado uma playlist com músicas calmas quando a vida resolveu me fornecer outra derrota.
Ei, vamos sair em um encontro na próxima sexta 😉

🎯

Jeongguk.
Quando você entra em uma disputa cuja vitória já está garantida, não existem motivos para se preocupar ou surtar com o desenrolar do jogo. Claro, pode haver algum empecilho ou dificuldade, mas o desenvolvimento não anula o resultado final e eu tinha certeza de que iria ganhar, porque mesmo que Yoongi não se apaixonasse por mim, eu não iria fracassar porque não iria ser conquistado por ele.
Eu já gostava de alguém e estava completamente seguro dentro daquela “brincadeirinha” e por isso não estava surtando naquele momento.
– Onde você estava? – Soyeon berrou assim que colocou os pés dentro do apartamento que dividíamos e me encontrou jogado no sofá, ainda com as roupas com as quais tinha ido pra festa. Eu também sabia que meu rosto estava uma droga e eu nem queria mencionar o meu cabelo ou acabaria chorando. Yoongi tinha fodido comigo completamente e eu nem poderia reclamar porque tinha sido muito gostoso.
– Onde você estava? – retruquei com o cenho franzido e nem tive tempo de raciocinar antes de levar um chute enquanto ela passava por mim em direção a cozinha, com duas sacolas de compras nos braços.
Droga, era meu dia de fazer mercado e eu não estava em casa. Já previa as reclamações de Soyeon pelo resto da semana e não estava animado para viver aqueles dias. Minha irmã conseguia ser uma grande pé no saco quando queria e ela sempre queria muito quando eu faltava com alguma responsabilidade. O que, infelizmente, acontecia com frequência porque eu não era exatamente um exemplo de pessoa atenta.
– Fui fazer o que você deveria ter feito caso estivesse em casa – ela xingou e eu suspirei baixinho. Eu podia ser um homem adulto, mas Jeon Soyeon sempre iria me intimidar.
– Desculpa, eu esqueci completamente e perdi a hora.
– Onde você estava afinal de contas? – ela indagou, abandonando as compras na cozinha e parando na soleira da porta com os olhos semicerrados em minha direção. – Eu sai cedo da festa porque já tava tontinha – ela riu. – Mas liguei pro Tae e pro Jimin e você não estava na casa deles e se você não estava na casa deles, estava onde? – voltou a me encarar com uma expressão desconfiada e por puro instinto eu soltei uma risadinha culpada.
Burro, era isso que eu era.
– O que você fez Jeon Jeongguk?
– Ah, então…
– Desembucha moleque!
– Você tem que jurar que não vai contar pra ninguém, ok? – me sentei no sofá, torcendo os dedos da mão enquanto Soyeon me encarava.
– Pra ninguém mesmo ou posso contar pro Tae e pro Jimin?
– Pra ninguém!
– Nem pro Yoongi?
Soltei uma risada quase desesperada.
– Yoongi hyung já sabe – murmurei e minha irmã franziu o cenho.
– Como assim?
Respirei fundo, buscando coragem dentro de mim para confessar o que tinha acontecido. Queria um pouco mais daquela coragem bêbada que tinha me dominado na noite anterior.
– A gente transou – falei de uma vez. Soyeon soltou uma risada descrente, parecendo entrar em pânico em seguida e quase pular em cima de mim.
– Tá brincando! – gargalhou, enquanto me segurava pelos ombros e vasculhava meu corpo atrás de marcas. Riu ainda mais ao se deparar com o estado do meu pescoço e das minhas costas e eu precisei empurrar ela para longe para conseguir respirar direito. – Eu não acredito nisso! – Soyeon gargalhou outra vez e eu bufei irritado.
– Acha que eu ia brincar com algo sério assim?
– Tá bom – ela concordou. – Mas eu ainda não tô acreditando. Eu sabia que aquelas picuinhas era tudo tensão sexual.
– A gente só transou porque tava bêbado, ok? Não tem nada de tensão sexual – chiei e Soyeon revirou os olhos.
– Vai tomar um banho enquanto eu preparo o almoço, quero saber de tudo, detalhe por detalhe – sorriu largo e me empurrou para fora do sofá. Sabendo que não tinha como questionar, apenas segui para o meu quarto em busca de toalha e roupas limpas, mas antes de me trancar no banheiro, peguei meu celular enviei uma mensagem no grupo com Tae e Jimin, avisando que estava bem e então puxando o contato de Yoongi pela primeira vez na vida.
Eu tinha que começar a colocar meus planos em prática, não podia deixar espaço para que Yoongi botasse aquela cabeça para funcionar e começasse a tramar planos que foderiam comigo.

Capítulo 5 – Sonhando alto demais

Yoongi.
Eu ainda estava um pouco dolorido quando eu acordei na segunda-feira e se eu fosse um pouco mais desleixado e preguiçoso, teria faltado a aula e ficado no dormitório coberto por sacos de ervilhas congeladas. E sim, eu estava amaldiçoando Jeongguk por ter me deixado naquele estado e esperava, do fundo do meu coração, que ele estivesse tão dolorido – ou mais – quanto eu estava. De qualquer forma, eu tinha responsabilidades e segui minha rotina normalmente. Até a hora do almoço e eu esperava que meu sumiço repentino não levantasse qualquer suspeita. Ignorei as mensagens de Namjoon e Soyeon e me escondi no gramado do campus para fazer um lanche e tomar um pouco de Sol. Não que fizesse qualquer diferença e eu deixasse de ser menos pálido, mas eu gostava de me iludir com a possibilidade.
Um sanduíche, suco de caixinha, fones de ouvido e minha mochila servindo como travesseiro era tudo o que eu esperava das duas horas de intervalo que costumava ter, mas é claro que o Universo estava novamente me testando e eu não pude aproveitar nem trinta minutos de paz antes de ter meus olhos cobertos por um par de mãos grandes e cobertas de anéis. Em outras épocas eu daria um chute naquele moleque abusado, mas agora eu supostamente deveria tentar conquistá-lo e certamente não conseguiria isso com chutes.
– Advinha quem é? – ele indagou em um tom de voz amistoso demais e que me deixaria desconfiado até poucos dias atrás. Agora eu me sentia um pouco ameaçado, se fosse ser sincero comigo mesmo.
– Uh… eu realmente não faço ideia.
– Vou te dar uma dica, ok?
– Vá em frente – incentivei.
– Fui a melhor transa da sua vida – alegou em um tom de voz presunçoso e eu precisei conter a vontade de revirar os olhos e xingar aquele abusado. Ok, ele tinha sido realmente, mas precisava ser metido daquele jeito?
– Kwan? Você saiu de Daegu só pra vir se gabar aqui? – indaguei em provocação, não ia deixar aquele moleque sair por cima de jeito nenhum. Em resposta recebi um beliscão na bochecha esquerda antes de ter meus olhos descobertos e poder observar Jeon se jogar no gramado ao meu lado, com uma carranca ainda maior do que o nariz dele.
É, a minha paz realmente tinha ido para o saco.
– Kwan é o caralho – reclamou e só então eu me permiti dar risada.
– Não fica com ciúme benzinho – provoquei, estendendo a mão para tocar o rosto do mais novo. – Você é um oito, pode melhorar.
– Você é um porre, sabia?
– Sei – assenti. – Não precisa ficar aqui pra me dizer isso, ok? Não é nenhuma novidade.
– Você pretende tentar me conquistar por telepatia? – debochou.
– Seria ótimo, para ser bem sincero – estalei os lábios e Jeon revirou os olhos, empurrando meus braços para deitar a cabeça em minhas coxas. Segurou minha mão direita e levou aos seus cabelos, em um claro pedido de carinho.
– Quando você pretende retocar essa tinta? – impliquei, sem mover os dedos nos fios macios dele. – A cada dia você aparece mais desbotado.
– Cuida do teu cabelo, sim? – estirou a língua para mim. – Eu gosto do tom desbotado. O cherry era muito chamativo – se explicou.
– Claro, porque os teus sapatos enormes quase não chamam a atenção – debochei.
– Parece que alguém prestava muita atenção em mim… – abriu um sorriso de dentinhos para mim, me obrigando a revirar os olhos.
– Eu sou observador por natureza, não se sinta especial.
– Se isso te faz dormir a noite, então tudo bem – deu de ombros, torcendo os lábios em desgosto em seguida. – Faz carinho em mim poxa, os teus dedos não vão cair se fizer.
– Você é muito carente – torci os lábios em desgosto.
– E você é muito chato – retrucou.
– Nenhuma novidade, como eu já disse. Mas me diz… – comecei a movimentar os dedos e Jeongguk fechou os olhos em satisfação, soltando um suspiro baixinho. – Como você vai conquistar o Jimin se vai estar ocupado tentando me conquistar?
– Eu não… não quero conquistar o Jimin hyung – ele murmurou, em um tom de voz mais baixo e mais conformado. – Ele não me vê desse jeito e tá tudo bem, eu posso gostar dele de longe e não estragar a nossa amizade.
– Como você sabe que ele não gosta de você desse jeito?
– Esse tipo de coisa a gente sente hyung – deu de ombros. – Alguns amores simplesmente não são para ser uma via de mão dupla, mas isso não os torna menos bonitos.
– Pra mim soa como estupidez – murmurei e ele riu fraco.
– Porque você ainda não se apaixonou de verdade. Nós somos estúpidos quando estamos apaixonados, mas não se preocupe… vou garantir que a sua vez chegue logo – sorriu convencido e eu revirei os olhos outra vez.
– Você está sonhando alto demais Jeon.

🎯

Jeongguk.
Tinha bibimbap quentinho na mesa e o chá de hortelã favorito de Soyeon também estava servido quando ela chegou em casa naquele fim de quinta-feira. Ela normalmente tinha aulas pela manhã e estágio durante a tarde, de forma que acabávamos nos vendo apenas à noite e jantando lamen porque eu tinha preguiça de cozinhar.
Mas naquela noite eu precisava de informações e assim como eu, Soyeon era facilmente convencida com comida.
Ela me lançou um olhar desconfiado quando entrou na cozinha e colocou os olhos na mesa, mas não perdeu tempo e logo se sentou para jantar, enchendo o prato de comida e bebendo o chá com muita satisfação. Jantei em silêncio, apenas esperando o momento em que a comida a deixaria mais calma para poder fazer as perguntas que eu precisava fazer. Meu encontro com Yoongi hyung seria na noite seguinte e eu não fazia ideia para onde deveria levar – e como impressionar – ele. Se eu precisasse prometer lavar as roupas por um mês em troca de informações, então eu o faria sem nem pensar duas vezes. Meu plano era perfeito, não tinha como dar errado.
– Eu sei o que você está tentando fazer – minha irmã murmurou após engolir o resto de carne em seu prato e então bebericar o chá gelado.
– Oi?
– Chegou tarde Jeongguk – Soyeon riu. – Yoongi me pagou um almoço enorme na quarta-feira em troca de informações.
Aparentemente meu plano podia dar errado sim.
– Noona eu não acredito que você vendeu o seu próprio irmão, sangue do seu sangue, por um almoço qualquer!
– Em minha defesa não foi um almoço qualquer – ela estalou os lábios. – E só porque eu dei algumas informações para Yoongi, não quer dizer que eu não possa fazer o mesmo com você – deu de ombros e sorriu largo. – Se vocês dois querem ser estúpidos e brincar de quebrar corações, que sejam. Enquanto isso eu tiro algum proveito da burrice de vocês.
Minha irmã era uma peste e eu tinha provas daquilo.
– O que você contou para ele? – indaguei após bufar irritado. As coisas realmente não estavam saindo como eu tinha planejado.
– Isso é sigilo médico – declarou.
– Você não é médica e nem estuda medicina – acusei e ela deu de ombros.
– Não posso expor os meus clientes.
– Eu vou contar para a nossa omma que você tá me vendendo por comida – ameacei e ela revirou os olhos.
– E eu conto para ela do seu plano idiota de magoar o Yoongi. Omma adora o Yoongi, ela vai te comer vivo.
– Que inferno mesmo – reclamei, montando uma expressão emburrada e cruzando os braços em frente ao corpo.
– Não chora bebezão… vou te contar algumas coisas. O bibimbap. estava incrível, você deveria cozinhar mais vezes e não apenas quando quer me chantagear – alegou com as sobrancelhas arqueadas em acusação, mas eu não me senti arrependido nem por um segundo.
– Ok, vamos começar então – sorri animado e Soyeon revirou os olhos. – Para onde eu levo ele?
– Para comer ou então para algum lugar que seja arquitetonicamente interessante. Yoongi também gosta muito de música e de arte, então qualquer coisa nessa vibe vai deixá-lo contente, mesmo que ele finja que não.
– Certo, isso não vai ser difícil – murmurei para mim mesmo. – Que tipo de comida ele gosta mais?
– Carne – respondeu. – Ele não tem muita frescura pra comer, qualquer coisa com carne já está mais do que bom.
– Ok, maravilha – sorri animado. – Algo mais que possa ser útil?
– Yoongi parece durão, mas ele é um dos caras mais incríveis e amorosos que eu já conheci e para ser bem sincera, se ele não fosse gay eu já teria tentando algo, mas não com essa ideia burra de partir o coração dele – Soyeon murmurou. – Vocês dois fizeram perguntas tão diferentes e isso me faz pensar que apenas um de vocês sabe realmente o que fazer para conseguir vencer essa disputa idiota. Apenas… não pense que você está seguro por causa de Jimin, às vezes o Universo gosta de nos provar que não temos o controle sobre nossas vidas.
E com isso ela levantou da mesa e deixou a louça suja dentro da pia, bagunçando meus cabelos quando passou por mim e seguiu para o corredor que levava aos nossos quartos. Limpei toda a bagunça com as palavras de Soyeon martelando em meus pensamentos, sem realmente conseguir entender sobre o que ela estava falando. Gostaria de acreditar que eu tinha feito as perguntas certas e que tinha alguma vantagem sobre Yoongi, mas bem lá no fundo, eu sentia que estava errado e que sim, eu deveria tomar cuidado.
Eu não queria me apaixonar pelo Min e por isso daria 110% de mim para fazê-lo cair primeiro.

Capítulo 6 – Sem mais encontros

Yoongi.
Um encontro. Apenas um encontro, como outros que eu já tivera ao longo dos meus vinte e três anos de vida. Não havia motivos para pânico ou qualquer tipo de surto, iriamos jantar em algum lugar bonito e agir como pessoas perfeitas já que ninguém nunca mostrava seus defeitos no primeiro encontro – e algumas pessoas conseguiam fingir muito bem e não mostrar os defeitos nunca, mas eu não era uma delas. Na verdade, era difícil frear meu “azedume”, como Jeongguk gostava de chamar, mas mesmo que eu não fosse completamente agradável, ao menos eu era sincero e isso deveria contar para alguma coisa.

Mas meus devaneios não são sobre sinceridade ou qualquer outra coisas e sim sobre estar me arrumando para sair em um encontro com Jeongguk e ter Namjoon me infernizando para tentar descobrir com quem eu iria sair. Eu não havia falado nada sobre ter um encontro, então as calças jeans e a camisa passada devem ter me entregado, já que eu sou um devoto aos moletons por serem mais confortáveis. Eu já tinha que passar quase todos os meus dias sentado e fodendo a minha coluna e não via motivos de me submeter a tortura medieval de usar jeans colado diariamente.

– É com aquela menina do teu curso? Hierin ou sei lá? – Namjoon chutou pela vigésima vez e eu revirei os olhos, voltando minha atenção para o cabelo que eu tentava arrumar e naquele dia em especifico, estava lutando arduamente contra mim. Se eu fosse loiro, estaria parecendo um periquito arrepiado.

– Não – torci os lábios. – Eu sou gay, esqueceu?

– Eu sei, mas naquela outra festa você ficou com a Chae – deu de ombros.

– A gente só se beijou, meu pau nem tentou subir – estalei os lábios e Namjoon riu.

– Então é um cara… – estreitou os olhos. Desisti do cabelo e me sentei na cama, buscando meu celular na mesa de cabeceira e então abrindo o aplicativo de mensagens para perguntar a Jeon se ele já estava a caminho.

Tínhamos combinado de nos encontrar no saguão, já que eu não queria correr o risco de Namjoon nos ver e como nenhum outro amigo nosso morava naquele prédio, eu supunha que estávamos seguros. Mas também sabia que não iria conseguir esconder aquela bagunça por muito tempo, já que se eu estava determinado a conquistar Jeongguk, eu não poderia me restringir a momentos em que conseguiríamos ficar sozinhos. Até porque, logo nossos sumiços começariam a parecer suspeitos e nenhum de nós poderia usar Soyeon como desculpa ao mesmo tempo.

– Obviamente – ri sozinho e Namjoon bufou.

– Eu sou seu melhor amigo e você não me conta nada – reclamou. – Eu contei sobre meu crush.

– Mas não me contou em quem era e eu precisei descobrir sozinho que era no Seokjin hyung – retruquei. – Aliás, já passou da hora de você contar pra ele.

– Espera sentado por esse dia, porque não vai acontecer.

– Medroso – provoquei e ele revirou os olhos.

– Maduro Min Yoongi, maduro.

| ei, já estou te esperando docinho

ok, já vou descer
e não me chama assim |

– Meu cara chegou – murmurei, tentando conter a careta ao pensar em Jeongguk como algo meu. Não em um sentido possessivo e sim sentimental. Era esquisito demais.

– Vai lá com teu cara misterioso – Namjoon fez careta e eu ri, me inclinando para apertar as bochechas dele e recebendo um beliscão.

– Eu tô bonito?

– Não, tá ridículo – devolveu antes de revirar os olhos. – Não tem como você não estar bonito porque você é lindo hyung, se orienta.

– Por que você não se apaixonou por mim, hein? – brinquei e Namjoon riu.

– Porque eu te conheço desde pirralho.

– Você tem um ponto – admiti. – Enfim, estou indo. Qualquer coisa me liga, mas somente se for uma emergência. Nada de “não sei onde coloquei minha meia azul”, é caso de vida ou morte mesmo – pontuei e meu melhor amigo revirou os olhos.

– Só perdi minha meia uma vez – revirou os olhos.

Sai do quarto em seguida, não demorando a encontrar Jeongguk e puxando o garoto para longe do prédio antes mesmo de receber um “oi” e só parei de andar – e puxar Jeon pela mão, coisa que fiz automaticamente ok? – quando estávamos fora do campus. Por sorte o prédio do meu dormitório era o mais próximo do portão, mas aquilo ainda não nos deixava livres, já que Taehyung e Jimin também não moravam dentro do campus e sim em um apartamento ao redor da universidade, igual a Jeongguk e Soyeon.

– Para onde nós vamos? – indaguei quando nos aproximamos do ponto de ônibus e engoli um grito ao ser puxado em direção a Jeongguk subitamente. Ele me abraçou pela cintura, com um sorriso pequeno nos lábios e os grandes olhos escuros brilhando como duas galáxias.

– Oi hyung, tudo bem com você? – indagou com diversão e eu revirei os olhos. – Não seja azedinho, gosto de quando sorri.

Tudo bem, ele estava se empenhando e por um segundo eu realmente esqueci que estávamos em uma disputa idiota de partir corações. Foco Yoongi, não seja um paspalho!

– Desculpe, mas nós ainda não falamos sobre contar para o pessoal sobre… essa loucura. Acho melhor evitarmos sermos vistos juntos até decidirmos isso – tentei ser mais ameno ao invés de dar uma patada no garoto, afinal, apenas em fanfic as pessoas se apaixonavam alguém que as trata mal.

– Eu não me importo com isso – deu de ombros, ainda sem me soltar. Eu estava completamente ciente dos dez dedos e da palma de Jeongguk em minha cintura e aquilo podia ser um problema. – Acho que vai ser engraçado a gente simplesmente aparecer juntos, eles não precisam saber que estamos jogando.

– Vamos falar sobre isso depois – decidi. – Você me deve um encontro, não deve? – arqueei as sobrancelhas, decidindo abraçar Jeongguk em retorno. Eu era um pouco mais baixo do que ele e precisava ficar na ponta dos pés para equiparar as nossas alturas, então apenas repousei os braços em torno de seu pescoço e comecei a brincar com os cabelos dele.

– Você me deve um “oi” e um beijo – retrucou e eu revirei os olhos para o abuso daquele garoto.

– Beijo só se você merecer, comigo as coisas não são tão fáceis – sorri torto. – Mas oi Jeongguk, eu estou bem e você?

– Melhor agora hyung – tentou flertar e eu não consegui suprimir uma risada.

– Brega.

– Por você hyung – deu de ombros, me roubando um selinho e desfazendo o abraço para entrelaçar os dedos nos meus. Voltamos a caminhar até o ponto de ônibus, mas Jeongguk tinha o celular na mão livre e o aplicativo do Uber aberto.

– Vai me contar aonde vamos? – indaguei.

– Não – sacudiu a cabeça. – Se você já conhece o lugar, vai descobrir no caminho. Se não conhece, vai ter uma surpresa. Boa, eu espero – sorriu com os dentes de coelhinho a mostra.

– Não vamos precisar caminhar, não é?

– Só um pouco – admitiu e eu suspirei.

– Se eu ficar cansado, você me carrega nas costas – decidi e Jeongguk sorriu.

– Se isso fizer o hyung feliz.

Porra, ele estava ensaiando para aquele encontro ou o quê? Eu tinha sempre que me lembrar de ser mais amável e carinhoso e para Jeon as coisas pareciam tão naturais… era assustador, mas de alguma forma, também era bom.

Espera aí, que porra eu tô pensando?

🎯

Jeongguk.
Aquele, definitivamente, não tinha sido o meu melhor planejamento de primeiro encontro. Era óbvio que Yoongi já conhecia a Aldeia Hanok de Bukchon* de trás para frente, já que ele era apaixonado por arquitetura e tinha um forte interesse por História. Ficou claro que nada daquilo era novidade para Yoongi e eu apenas perdi o ânimo para os planos que eu tinha montado, já que tudo o que eu sabia era que o local era uma aldeia tradicional coreana e Yoongi sabia tudo sobre os hanoks*, a Dinastia Joseon e os palácios e o santuário em torno da aldeia.

Me senti péssimo, para ser bem sincero. Não fazia ideia de como eu ia conquistar aquele cara que sabia listar quase todos os reis de uma dinastia de 600 anos e assistia documentários históricos por diversão, enquanto eu era viciado em visitar o Lotte World* porque amava parques de diversão e assistia gameplay de Minecraft quando tinha tempo livre.

Yoongi não tinha sido um pé no saco, como eu sabia que ele teria sido se não estivéssemos feito aquela aposta idiota. Ele tinha me levado por toda a aldeia como um verdadeiro guia turístico e ao invés de despejar fatos e mais fatos que apenas provariam que ele é um sabichão e eu sou uma mula, Min esperava que eu demonstrasse interesse sobre algo para então compartilhar comigo o conhecimento que ele tinha. Tinha sido legal para ser bem sincero, mas eu não tentaria mais nenhum encontro naquele estilo com Yoongi porque eu odiava fazer papel de bobo, mesmo que fosse apenas para mim mesmo.

Depois de uma tarde de caminhadas entre as ruas da aldeia, decidimos voltar para Sinchon-dong* e jantar em algum restaurante ao redor do campus. Acabamos em um restaurante tradicional e pedimos uma porção de bulgogi* e um extra de kimchi*, já que eu não tinha certeza do tamanho da fome de Yoongi porque sempre que eu chegava para o almoço no refeitório da universidade, ele já estava quase no fim de sua porção de comida. Sentamos lado a lado e eu me atrevi a abraçá-lo pelos ombros, me surpreendendo quando Yoongi pendeu a cabeça para o lado e deitou em meu ombro ao invés de me xingar e revirar os olhos como ele sempre fazia.

Ainda era estranho ter o Min tão carinhoso para comigo, mas eu admitia que não era de todo ruim aquela sensação. Eu gostava de carinho, apenas precisava manter em mente que nada daquilo era real para não acabar quebrando a cara.

– O próximo encontro vai ser planejado por mim, ok? – ele murmurou.

– Não levo mais você em encontros hyung. Daqui pra frente apenas pizza e filme no meu apartamento – declarei e Yoongi riu.

– E por que isso? – levantou o rosto para me encarar, se apoiando no sofá

– Não ficou óbvio? Eu achei que estava arrasando e na verdade sou um idiota, porque você já conhece todos esses lugares bonitos e históricos de Seoul porque não é um viciado no Lotte World.

– Você é viciado no Lotte World? – ele riu e eu revirei os olhos.

– Não estamos falando sobre isso agora.

– Tudo bem – Yoongi assentiu, claramente mordendo um sorriso. – A intenção foi boa Jeongguk e não foi um passeio perdido. Eu já revisitei a aldeia mais de uma vez e você conheceu um novo lugar, não é?

– Isso não serve para nada dentro do meu plano – bufei e Yoongi sorriu.

– Então você tem um plano? – arqueou as sobrancelhas para mim e eu mal pude acreditar que ele estava se fazendo de sonso daquele jeito. Qual é, óbvio que eu tinha um plano – ou pensava ter, já que agora nada do que eu planejava fazia sentido. Um tapado, era isso que eu era.

– Claro que sim e você também tem um – apontei. – Soyeon noona me contou.

– Contou o quê? – indagou, parecendo preocupado e aquilo me deixou levemente curioso e com medo do que Soyeon teria falado para Yoongi. Afinal, ela era minha irmã e conhecia todos os meus podres.

– Que você gosta de arquitetura e carne – fui sincero e Yoongi acabou rindo após um segundo de choque. Realmente, eu tinha poucas informações e só agora entendia o que Soyeon quis dizer com “fazer as perguntas erradas”.

– Por isso o bulgogi? – indagou com diversão e eu suspirei, deixando os ombros caírem em derrota. – Isso foi bonitinho Jeongguk.

Ok, o quê?

Yoongi tinha me elogiado?

Não, ele tinha elogiado minha burrice. Achado “bonitinho”. Só podia ser sarcasmo, não tinha outra opção.

– Tá bom hyung – eu ri pelo nariz, tentando não me deixar afetar pela brincadeira. Eu não tinha sido realmente esperto e atento, mas ele também não precisava debochar.

– Não tô brincando – Yoongi insistiu e eu o encarei com descrença. – Falo sério Jeongguk. Se eu não soubesse que isso não passa de encenação e o seu propósito não é estar comigo de verdade, eu teria caído de amores por um instante. Foi atencioso da sua parte, mesmo que inocente. Mas a inocência também não é uma coisa ruim, então tá tudo bem – sorriu de forma reconfortante.

– Acho que estamos falhando nesse plano – eu comentei. – Nós sabemos o que está acontecendo e não estamos nos deixando iludir. Não vai funcionar pra nenhum de nós dois hyung.

– Você tem razão – concordou. – Mas fazem poucos dias que entramos nisso e esse é o nosso primeiro encontro. Antes disso, você só foi me infernizar durante o intervalo. Não tivemos tempo para nos acostumar com uma relação… amigável.

– Você pretende ficar preso nessa brincadeira pelo resto do ano? – questionei e Yoongi torceu os lábios.

– Por Deus, de jeito nenhum. Não vou te aguentar por mais de dois meses Jeongguk.

– Um mês então – propus. – Se nenhum de nós se apaixonar nos próximos 30 dias, então desistimos e nós dois saímos vencedores.

– É justo – concordou. – Mas você vai perder – apontou para mim com um sorriso torto nos lábios rosados e eu ri em deboche.

– Sim, é claro que você sonha com isso hyung. Mas a vida não se baseia em nossos sonhos, ok? – puxei Yoongi para perto e se recostou contra meu tronco.

– Digo o mesmo para você.

– Certo – eu ri. – Agora mudando de assunto… como a gente vai contar?

– Contar o que?

– Pro pessoal, que estamos… saindo? – sugeri e Yoongi riu fraco.

– Ah sim, isso. Sei lá cara, a gente inventa alguma coisa na segunda.

– Uau, estou impressionado com a sua capacidade e inteligência hyung. Eu nunca chegaria tão longe, esse é realmente um plano tão perfeito e impecável – debochei e Yoongi moveu o braço, acertando uma costela com o cotovelo. – Ai caralho!

– Então inventa alguma coisa sabichão – reclamou e eu assenti, tomando para mim a responsabilidade de montar alguma estratégia. Já tinha estrado tudo mesmo, não havia como piorar a situação.

– Só uma coisa… você não tá preocupado com o Jimin?

– Por que eu estaria preocupado com o Jimin hyung? – franzi o cenho em confusão.

– O plano não era você fazer ciúme para ele? – Yoongi indagou.

– Esse era o plano do Jeongguk bêbado hyung – ri sozinho, em puro desgosto. – O Jeongguk sóbrio sabe que não tem chances e não quer perder o melhor amigo.

– Isso é… triste – murmurou e eu mordi um sorriso torto, decidindo que não iria deixar aquele pensamento me afundar outra vez. Eu iria ser amado de volta um dia, tinha que ter esperança.

– Me dá carinho hyung, eu tô triste – aproximei o rosto do pescoço de Yoongi e deixei um beijinho na curva do ombro dele. – Um carinho no pau – completei e recebi outra cotovelada, rindo em seguida.

– Abusado do caralho – Yoongi resmungou, se afastando assim que a comida foi deixada em nossa mesa.

Fui deixado de lado pelo bulgogi. Aquela não era uma disputa justa, afinal de contas.

* Aldeia Hanok de Bukchon é uma aldeia tradicional coreana que mostra um ambiente urbano da Dinastia Joseon, que durou 600 anos.

* Hanoks são casas tradicionais coreanas, desenvolvidas durante a Dinastia Joseon no século XIV.

* Lotte World é um parque de diversões gigantesco localizado em Seul.

* Sinchon-dong bairro dentro do distrito Seodaemun em Seul, onde se localiza a Universidade Yonsei.

* Bulgogi prato típico coreano, feito de carne marinada grelhada em molho de soja, alho picado e semente de gergelim, e servido com verduras

* Kimchi são condimentos típicos da culinária coreana, com base em hortaliças.

Capítulo 7 – Provocadorzinho de meia tigela

Yoongi.
A pior coisa sobre os finais de semana é que eles acabam em um piscar de olhos. É como se o sábado e o domingo estivessem dentro de uma realidade paralela onde as horas passam muito mais rápido do que nos dias normais, como se cada dia da semana durasse setenta e duas horas e os finais de semana, apenas doze horas cada um. Eu tinha ligado para casa e conversado com meus pais, iniciado uma nova leitura e trocado algumas mensagens com Jeongguk, enquanto Namjoon enchia o saco para tentar me convencer a contar com quem eu tinha saído e quando pisquei, já estávamos pedindo a pizza de todo domingo à noite para assistir algum filme cult da lista de Hoseok. Eu não sabia como cabíamos os quatro dentro daquele cubículo que eu chamava de quarto, mas dávamos um jeito.

Eu gostava de paz e sossego para poder prestar atenção no longa-metragem, mas tinham noites em que Seokjin hyung e Hoseok simplesmente encarnavam o espirito Ragatanga* e me deixavam mais irritadiço que o professor de Planejamento Urbano e Infraestrutura II, que dava a minha primeira aula da manhã nas segundas-feiras e tornava mais difícil a missão de não cometer um crime de ódio dentro daquele campus. Eu simplesmente não aguentava aquele homem falando como se toda a turma tivesse cinco anos e não estivesse finalizando o curso naquele ano. Tudo bem, ele sabia muito mais coisas do que nós, já que tinha doutorado na área, mas ninguém ali era completamente sem noção e não sabia o básico sobre Arquitetura. Eu preferia ter Namjoon reclamando sobre amizades falsas no meu ouvido por uma hora do que aquele professor falando por dez minutos.

– Qual é a dessa cara de quem chupou limão e não gostou? – Seokjin me cutucou nas costelas e eu fiz uma careta, bebericando mais do café antes de responder.

– Vocês não me deixam prestar atenção no filme porra – falei ao mesmo tempo em que Namjoon murmurou, de forma amarga e claramente vingativa, só porque eu não tinha contado para ele detalhes do meu “encontro”.

– Deve ter brigado com o namoradinho dele.

– Namoradinho? Que namoradinho? Desde quando o hyung tem um namoradinho? – Hoseok indagou praticamente aos berros e eu quis sumir no mesmo momento.

– Olha, não tem namoradinho nenhum, ok? – tentei consertar a situação, lançando um olhar mortal para a cobra que se dizia meu melhor amigo e recebendo um sorriso falsamente inocente em retorno. Eu realmente ia rever a decisão de matar Namjoon sufocado durante à noite. – Eu só tô saindo com um cara e o Namjoon tá revoltado porque eu não contei quem é.

– Meu melhor amigo é um ridículo – Namjoon xingou e eu joguei uma almofada nele, acertando seu rosto graças a pouca distância de uma cama e outra.

– Cadê o respeito com o teu hyung, seu desaforado? – reclamei e ele deu de ombros, mantendo um bico enorme nos lábios, como uma criancinha birrenta de quatro anos. E aquilo era esquisito e cômico, já que Namjoon era alto e a academia o estava deixando corpulento.

– Eu quero ver uma foto do teu namoradinho – Seokjin falou, esticando a mãozona em direção ao meu celular, que repousava em cima das minhas coxas, me obrigando a enfiar o objeto no bolso e decidir que eu não ia mais falar sobre aquele assunto. Eles continuaram a reclamar, mas eu era ótimo em me fazer de sonso e fingi que a briga não era comigo, mesmo com Jin hyung praticamente berrando ao meu lado. Certamente teria que aguentar aquela bagunça durante o almoço no dia seguinte, mas eu tinha esperança de que eles desistissem daquela história antes de Jeongguk se unir ao grupo para comer. Ou então, que ele ficassem bem quietinho e não colocasse lenha na fogueira, já que era o tipo de coisa que aquele provocadorzinho de meia tigela faria com um sorriso enorme nos lábios finos.

– Deve ser alguém do curso dele – Hobi supôs, quase me arrancando uma risada. Eu falava tão pouco sobre a minha vida amorosa – porque bem, iria falar de algo que não existia por quê? – que eles poderiam chutar a universidade inteira e ainda assim, nunca descobrir a verdade. Até porque a verdade era completamente insana, não é mesmo?

– Aposto que é aquele intercambista que vive atrás do Yoongi – Seokjin murmurou e eu franzi o cenho em confusão. De quem diabos ele estava falando?

– Quem? – Namjoon indagou.

– Aquele Max… tá sempre procurando o Yoongi quando eu esbarro com ele.

– Ele é hétero e tem uma noiva – comentei, apenas para me divertir às custas da confusão dos meus amigos. Se eles adivinhassem que eu estava saindo com Jeongguk, eu pintaria os cabelos de azul canetinha.

– Menos um na lista então – Jin hyung deu de ombros, sem demonstrar qualquer frustração.

– E se vocês esperassem eu contar, que tal? – sugeri como se estivesse contando uma super novidade. – Se eu não disse nada, é porque ainda não estou seguro pra falar sobre isso.

– Quem não te conhece que te compre hyung – Hoseok revirou os olhos. – A gente sabe muito bem que você está fazendo suspense pra nos deixar curiosos e infernizar nossa vida.

Sorri sem mostrar os dentes, sentindo a satisfação tomar conta de mim.

– Se vocês não me arrastassem para mil festas que eu odeio, eu não teria motivos para me vingar – declarei.

– Cadê o respeito com o seu hyung, seu fedorento? – Jin reclamou, me cutucando outra vez, com mais força e arrancando um murmúrio dolorido dos meus lábios.

– Cadê o cuidado com o seu saeng, seu maluco? – devolvi e ele revirou os olhos teatralmente.

– Tá, mas… quem é o cara? – Hobi indagou, ignorando toda minha última fala e tendo o apoio dos outros com murmúrios e olhares inquisitivos para mim.

– Vocês são insuportáveis – declarei. – Vou colocar vocês a venda e comprar um skate.

– Você nem sabe andar de skate – Namjoon fez uma careta e eles voltaram a discutir, me obrigando a voltar a me fazer de sonso. Pelas próximas duas longas horas.

🎯

Jeongguk.
Tem algo engraçado sobre estar apaixonado. Você sabe, é muito bonito e tal, existem centenas de milhares de todos os tipos de artes para representar esse sentimento e eu realmente acredito que todos nós fomos feitos para amar e se apaixonar perdidamente pelo menos uma vez na vida. Eu já tinha me apaixonado várias vezes, mas nem por isso sentia que deixava de ser especial e bonito a sua maneira.

E também engraçado, já que estar apaixonado era como ser o bobo da corte do castelo de Park Jimin. Porque eu era, indubitavelmente, um tonto por ele. E só conseguia admitir isso porque eu já tinha experimentado diversos tipos de paixões, em diferentes moldes e intensidades. Porque estando apaixonado, é inevitável ficar um pouco cego de amor e não ver o óbvio, mesmo que esteja a dois palmos de nosso nariz. Você não vê os defeitos da pessoa e quando ela erra com você, acaba criando desculpas e dando aquela “passada de pano”. Quando a outra pessoa não é uma babaca que te usa e trata mal, não vejo problemas em aceitar ser um pouquinho trouxa.

Park Jimin me deixava extremamente feliz em ser um trouxa por ele.

Veja bem, estar apaixonado pelo meu melhor amigo não era exatamente o sonho da minha vida. Jimin e eu nos conhecíamos desde a infância e tínhamos compartilhado tantos segredos e vivências que tornava inviável a simples ideia de não tê-lo por perto. Ele era meu melhor amigo antes de se tornar minha paixão e eu nunca, nunca mesmo, faria qualquer coisa que pudesse colocar em risco a permanência dele em minha vida. Eu precisava de Jimin como precisava de ar. Mas estava apaixonado por ele e dessa maneira, era impossível evitar ser um paspalho.

E por isso eu estava com um sorriso idiota no rosto, observando meu melhor amigo gargalhar de alguma piadinha de Soyeon enquanto eles preparavam o café da manhã naquela segunda-feira. Apenas eu tinha aula durante o primeiro da manhã, mas tinha pedido para Jimin e Taehyung aparecerem no meu apartamento porque eu queria conversar com eles. Eu não iria contar sobre Yoongi hyung assim, mas iria alertá-los de que estava “saindo com alguém” e que logo eles iriam descobrir quem era a pessoa. Ainda precisava confirmar com Yoongi se estava tudo bem “assumirmos” aquilo hoje para colocar meu plano em prática e causar histerismo em nossos amigos e deixar o hyung sem ter onde enfiar a cara.

Eu adorava irritá-lo e não iria perder aquela chance de jeito nenhum.

Jimin ainda não tinha notado que eu estava escorado contra o batente do portal da cozinha, mas Taehyung sim e ele me deu um beliscão antes mesmo de me desejar um bom dia. Fiz uma careta e tentei revidar o gesto, mas Tae se esquivou e deu a volta no balcão, se mantendo longe de mim.

– Para de babar – ele murmurou, apenas movendo os lábios, sem emitir qualquer som. Fiz uma careta imediata, seguindo em direção a ele para retrucar:

– Não sei do que você está falando – e então me aproximei de Soyeon e Jimin, recebendo um beijo na bochecha de cada um deles e sentindo meu coração palpitar quando os lábios grossos do hyung encostaram em minha pele e não consegui evitar a comparação entre os lábios de Yoongi e Jimin. Eu sabia que não era justo, já que eu não tinha uma relação amorosa – verdadeira, pelo menos – com nenhum deles e o ato de comparar duas pessoas soava escroto demais para mim. Mas era impossível escapar daqueles pensamentos, mesmo que eu tentasse. Me questionava como seria o beijo de Jimin hyung, se os lábios dele seriam tão precisos quanto os de Yoongi e também sobre o sabor que o beijo teria. Certamente não de cereja e só agora que eu me dava conta de que Yoongi pintava os cabelos de vermelho cereja e aquele era o sabor de seu beijo.

– Bom dia noona e hyung – murmurei, sorrindo largo para eles. – Dormiram bem?

– Que bom humor é esse? – Soyeon franziu o cenho em confusão. – Normalmente nessa hora você ainda está no modo zumbi.

– Faz tempo que eu não vejo o Gguk de mau humor quando acorda – Jimin comentou e eu ouvi a risadinha de Taehyung.

– Só com você – Soyeon me entregou e eu quis sumir no mesmo instante. – Eu não recebo nem um “bom dia” às vezes.

– Jeongguk! – Jimin me repreendeu e eu abri um bico, tentando ganhá-lo com a minha cara de cachorrinho abandonado. Ele estalou os lábios e me puxou para um abraço, causando um reboliço em meu coração. Desfiz o contato o mais rápido que eu pude, sem deixar explícito que estava fugindo e ocupando a cadeira ao lado de Taehyung, enquanto Soyeon servia o café da manhã em quatro pratos e Jimin depositava os copos de suco em cima da pequena mesa.

– Então, vamos comer antes do grande anúncio ou você vai falar agora saeng? – Soyeon fingiu curiosidade e eu precisei morder a língua para não chamá-la de cobra, afinal ela sabia exatamente sobre o que eu queria falar.

– Estou curioso – Jimin admitiu e Taehyung assentiu em concordância.

– Eu… que tal comermos antes? – tentei ganhar tempo e recebi um chute na canela dado pela minha irmã amorosa. – Ou não – conclui e Taehyung franziu o cenho em confusão.

– Fala logo então Gguk!

– É que… – limpei a garganta com um pigarro e desviei o olhar de Jimin, cutucando a comida com os hashis. – Eu meio que… estou saindo com uma pessoa. Quero dizer, nós saímos na sexta e eu… – engoli em seco, ainda sem conseguir levantar o olhar. Sabia que encontraria o deboche no rosto de Soyeon e tinha um limite de mentiras que eu conseguia proferir sem começar a gaguejar. – Meio que tô gostando dele e marcamos de sair de novo – dei de ombros, para não parecer que aquilo era grandes coisas.

– E nós conhecemos? – Taehyung murmurou, claramente surpreso com a notícia. Jimin sorria animado, os olhos brilhando em uma muda torcida. Murchei um pouquinho ao constatar que eu realmente era apenas o melhor amigo dele.

– Até demais – ri sem achar qualquer graça e Jimin arregalou os olhos.

– É alguém da sua turma? – Jimin indagou e eu sacudi a cabeça para os lados.

– Nós vamos almoçar juntos hoje e vocês vão… descobrir – suspirei baixinho.

– Estou tão animada para conhecer meu cunhadinho! – Soyeon bateu palmas, rindo um pouco mais do que o normal, mas sem causar qualquer suspeita em Jimin e Taehyung.

Jimin e Tae não faziam ideia do quanto Soyeon estava animada para aquilo. Já eu? Agora nem tanto.

* Música lançada em 2002 pelo grupo feminino Rouge.

Capítulo 8 – Perder o réu primário

Yoongi.
Existem momentos de nossa vida, onde realmente começamos a pensar se vale a pena guardar o réu primário para alguma situação mais complicada do que a vontade de matar os seus amigos. No meu caso, eu me fazia aquele questionamento mental muito mais vezes do que poderia ser considerado saudável, mas a culpa não era exatamente minha, já que meus amigos eram um pé no saco e parecia que tinham como missão de vida, infernizar a minha.

Naquele dia em especifico, eu estava sendo infernizado desde o momento em que tinha aberto os olhos e tomado consciência. Seokjin hyung e Hoseok estavam no meu quarto antes mesmo das sete da manhã e junto de Namjoon, eles me seguiram para todos os cantos. Me esperaram do lado de fora do banheiro, me assistiram vestir roupas confortáveis, arrumar o cabelo e carregar a mochila pesada e várias cartolinas – que continham meus projetos – pelos corredores da universidade, enquanto analisam todas as pessoas que me desejavam bom dia – que não eram muitas, para ser bem sincero – e também pareciam analisar todos que sequer moviam os olhos para perto de mim.

Não, eles não são assassinos em série me usando como isca para cometer crimes. Eles apenas querem saber quem é o cara com quem eu estou saindo e ao invés de esperarem, como pessoas normais, pelo momento em que eu iria revelar a identidade da pessoa – fala sério, ainda era esquisito demais estar naquela situação com Jeongguk -, eles acharam melhor me seguir como três malucos e tentar adivinhar com base nos “bom dia Yoongi” que eu recebia de meus colegas e dos calouros para quem eu dava monitoria.

– Não, esse cara não é o tipo do Yoongi hyung – Namjoon murmurou, depois que Dongyul, um cara com quem eu tinha feito trabalho há alguns semestres, passou por nós e acenou para mim em cumprimento.

– E desde quando sabemos o tipo do hyung? – Hoseok indagou exasperado. – Ele não sai com alguém desde que a luz elétrica foi inventada!

Essa foi pesada, mesmo que tivesse um fundo de verdade o fato de que eu não saía com alguém há bastante tempo. Mas entre estudar para garantir um futuro razoável e sair com alguém que não teria paciência pra aguentar meu humor ácido e falta de tempo, eu preferia garantir que não iria passar fome depois de me formar, já que eu teria um emprego razoável – eu já tinha desistido da ideia de ficar rico apenas por ter estudado.

– É só listar os idols em quem ele tem crush e então você chega em um padrão de homem – Namjoon explicou. – Esses caras do curso de Arquitetura não estão nesse padrão.

– Eles são padrão Yoongi e não padrão do Yoongi – Jin hyung observou e eu precisei cessar minha caminhada acelerada, em uma falha tentativa de fuga, para me virar e encarar meus amigos com uma expressão nada satisfeita.

Que porra era essa de padrão Yoongi?

– Que porra é essa de padrão Yoongi? – repeti a frase de meus pensamentos e Seokjin abriu um sorriso meio culpado.7

– Ah, você sabe…

Cruzei os braços após deixar a mochila e as cartolinas no chão, não me importando de estar atrapalhando o caminho no corredor principal do prédio de Arquitetura e esperando uma explicação plausível de meus amigos. Sentia que iria gastar meu réu primário naquele momento e nem iria mostrar arrependimento para a polícia.

– Não sei não – bati o pé. – Pode explicar hyung, eu estou esperando…

– Poxa vida, eu estou atrasado para a aula! – Hoseok murmurou, claramente tentando se safar da bronca que eu daria, sendo segurado por Seokjin assim que tentou se afastar. Namjoon também teve seu braço segurado pelo hyung e aquilo só me deixou mais em alerta.

– É que… sabe… pequeno, sem disposição para exercícios… – Seokjin deu de ombros, como se aquilo não fosse nada demais.

– Vocês são os piores amigos do mundo – declarei, me abaixando para pegar minhas coisas e me afastando a passos rápidos. Já estava na metade do corredor e perto da minha sala quando me virei e gritei: – Ele vai almoçar com a gente hoje!

Não esperei para ver a reação dos meus amigos e durante toda a manhã, ignorei as mensagens que chegavam em meu celular. Namjoon tinha me ligado seis vezes e Seokjin tinha enviado cinquenta mensagens no privado e mais um monte no grupo, junto de Hoseok. Apenas voltei a dar atenção para o meu celular quando a hora do almoço estava próxima e eu precisava confirmar com Jeongguk que iríamos “assumir” naquele dia.

| sim hyung, já avisei meus hyungs
eu só vou chegar um pouco atrasado
mas você pode pegar comida pra mim 🙂

tá achando que eu sou o que? |
teu empregado?

| você deveria me mimar para me conquistar hyung

não é assim que eu vou te conquistar garoto |
já tem gente demais fazendo as tuas vontades

| que maldade 🙁

Decidi não responder mais nada, guardando o celular no bolso e juntando meu material quando o professor encerrou a aula. Não encontrei os garotos me esperando no corredor e segui sozinho para o refeitório, ocupando o lugar vazio ao lado de Namjoon depois de sofrer para equilibrar duas bandejas. Ok, eu tinha cedido aos caprichos de Jeongguk, mas só porque tinha negado em um primeiro momento e sabia que ele não estaria esperando por aquilo. A mesa estava em completo silêncio, Namjoon, Hoseok e Seokjin hyung apenas me encaravam com olhares curiosos, enquanto eu fingia estar ocupado em meu celular – e na verdade até estava, enquanto aguardava a mensagem de Jeongguk sinalizando que estava chegando.

Eu não fazia ideia de quais eram os planos dele, mas nunca teria cogitando Jeongguk quase causar um surto coletivo ao sentar em meu colo e não no banco vazio ao meu lado, sorrir largo e me beijar depois de acariciar minhas bochechas com cuidado.

🎯

Jeongguk.
Eu não sabia o que estava fazendo quando ignorei a pergunta de Jimin hyung sobre sentar-se ao lado de Yoongi para deixar o banco livre para meu “namorado” e simplesmente dei a volta na mesa, afastando os braços de Yoongi para que pudesse me sentar em seu colo e grudar nossos lábios em um beijo rápido. Sorri durante todo o tempo e acariciei as bochechas macias dele, recebendo olhos arregalados e um riso nervoso por parte dele quando me afastei. Me virei para a mesa, alargando o sorriso quando percebi a bandeja extra que ele mantinha por perto e voltei a encara-lo.

– Você disse que não ia pegar comida para mim hyung! – acusei com uma risada, cutucando Yoongi levemente nas costelas para que ele reagisse de algum jeito menos esquisito do que me encarar como se tivesse levado um soco.

– Peguei porque eu quis, não porque você pediu saeng – declarou por fim, em arrancando outra risada e outro selar de lábios.

– Como você quiser hyung – provoquei e Yoongi revirou os olhos.

– Estou falando sério Jeongguk – bufou. – Você pediu e eu neguei, então você não insistiu e eu peguei a comida porque eu quis.

– Vai cair seu braço se admitir que queria me agradar? – arqueei as sobrancelhas para ele e Yoongi revirou os olhos outra vez, abrindo a boca rosada para retrucar e sendo impedido pelo grito de Seokjin hyung.

– QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO AQUI?

Só então eu me virei para a mesa e encontrei o mais perfeito caos. Jimin e Tae hyung ainda estavam em pé, encarando a mim e Yoongi com os olhos arregalados e o queixo no chão. Namjoon, Hobi e Jin hyung – sentados a direita, pareciam ter levado uma surra  e mantinham olhares abismados em nossa direção. A única pessoa que parecia se divertir era Soyeon, ocupando o lugar onde eu costumava me sentar com um sorriso largo e olhos brilhantes.

– Boa tarde hyung – murmurei com um sorriso educado, arrancando uma gargalhada de Soyeon.

– Boa tarde? BOA TARDE? – a voz de Seokjin saiu esganiçada. – ALGUÉM ME EXPLICA O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

– Pare de gritar hyung, daqui a pouco o refeitório inteiro vai estar olhando para nós – Yoongi advertiu.

– Eu não vou gritar, mas também gostaria de saber o que está acontecendo, apesar de parecer obvio que… vocês estão juntos? Por algum motivo que eu simplesmente não consigo imaginar? – Taehyung questionou, tão surpreso quanto Seokjin hyung e seus gritos.

– Yoongi hyung é o meu cara – dei de ombros, como se aquela fosse a noticia mais normal do mundo.

– Como assim o “seu cara”? Quando isso aconteceu? Semana passada vocês ainda estavam se matando! – Namjoon murmurou.

– Vocês estão namorando? – Hoseok indagou.

– Isso é sério? – foi a vez de Jimin e só então eu levantei o olhar para realmente prestar atenção em meu melhor amigo. Ele estava surpreso, mas havia algo mais. Parecia um tanto decepcionado? Triste? Eu não saberia dizer, nunca tinha visto Jiminie hyung com aquela expressão, mesmo que o conhecesse desde sempre e já o tivesse visto em diferentes facetas. Não iria me iludir achando que ele estava triste por sentir algo além de amizade por mim, eu sabia que não, porque se ele sentisse já teria me falado. Diferente de mim, Jimin era corajoso e ia em busca do que queria ao invés de se conformar com o que recebia. Então sim, eu estava confuso sobre o que estava acontecendo e precisaria conversar com ele.

– Quando isso aconteceu? – Seokjin voltou a perguntar, um pouco mais controlado do que antes.

– Na festa – respondi, já que Yoongi se manteve em silêncio. – A gente acabou transando e resolvemos tentar – dei de ombros. – E está sendo legal.

– Eu nunca pensei que ia viver pra ver isso – Hoseok murmurou.

– Eu sempre disse que eles brigavam porque tinham tensão sexual – Namjoon deu de ombros. – Por que você não me disse? – se virou para Yoongi, com uma expressão indignada. – Eu sou seu melhor amigo!

– Porque eu sabia que vocês iam fazer um fiasco e Jeongguk e eu ainda não tínhamos decidido nada – Yoongi deu de ombros e eu abri um sorriso falsamente alegre, me inclinando para deixar um beijo na ponta do nariz dele.

– Vocês simplesmente decidiram tentar? Tipo, do nada? – Taehyung indagou, não parecendo estar convencido com a nossa explicação.

– O sexo foi ótimo e quando conseguimos parar de brigar e realmente conversar, percebemos que não nos odiávamos de verdade e continuamos trocando mensagens, até que eu o convenci a sair comigo. Desde então, decidimos apostar nisso – estalei os lábios. – Não precisam tornar isso uma grande coisa, ok? Se não der certo, não deu.

– Vocês voltam a se matar – Seokjin resmungou.

– Mas isso não é nenhuma novidade – Hoseok completou e eu acabei rindo, porque bem, ele não estava mentindo. Foquei minha atenção em meu almoço, mas o olhar de meus amigos não deixaram a mim e Yoongi e eu notei que aquilo o deixava desconfortável. Me arrastei para o banco livre, ainda mantendo nossa proximidade e levantando os olhos para o pessoal.

– Podem agir normalmente? Tá ficando esquisito e o Yoon fica desconfortável – reclamei e enquanto todos arregalavam os olhos por eu estar chamando Yoongi por um apelido que ninguém usava, o próprio Yoongi me encarava surpreso e um tanto agradecido. Me inclinei e beijei seus lábios, abrindo um sorriso em seguida antes de finalmente começar a almoçar. Estava se tornando menos estranho agir daquela forma com Yoongi e eu não sabia o que pensar a respeito.

Capítulo 9 – Maldito QI

Yoongi.
Eu conhecia aquele olhar de Namjoon e estremeci levemente, tendo a plena consciência de que não ia conseguir mentir para o meu melhor amigo caso ele tentasse me interrogar. Namjoon podia ser atrapalhado e meio lerdo, mas quando desconfiava de algo e colocava os 148 de QI dele para funcionar, chegava a dar medo e por isso eu evitava acionar aquele lado do Kim. Mas é claro que o plano – eu sequer podia chamar aquilo de plano? – de Jeongguk tinha chamado a atenção de Namjoon e deixado meu saeng desconfiado. Eu teria que evitar ficar a sós com ele por um bom tempo e como tinha sido culpa do Jeon eu estar naquela situação, ele teria que salvar meu pescoço.

Cutuquei Jeongguk e ele levantou a cabeça, me encarando com um olhar confuso e as bochechas cheias de comida. Acabei rindo, mesmo que fosse um pouco nojento e um tanto preocupante a quantidade de comida que ele ingeria e aguardei que ele engolisse para que pudéssemos conversar.

– Vamos sair hoje – murmurei baixinho, apenas para ele ouvir.

– Não vai dar hyung, eu tenho um trabalho da faculdade para fazer – torceu os lábios, bebericando o suco enquanto mantinha o olhar em mim.

– Então eu vou para a sua casa e fico vendo TV enquanto você estuda – declarei e Jeon franziu o cenho, para então abrir um sorriso malicioso.

– Eu sei que você sente muito a minha falta hyung, mas precisa de tudo isso?

Revirei os olhos, reprimindo a vontade de xingar até a oitava geração daquele abusado, já que não ia fazê-lo se apaixonar por mim na força do ódio. Aquilo só acontecia na ficção, infelizmente.

– Você é adorável saeng – minha língua estalou com a falsidade e Jeongguk riu com gosto, chamando ainda mais a atenção de nossos amigos. Veja bem, estávamos todos na mesma mesa e por mim que eles fingissem não estar nos encarando, eu não apenas sentia os olhares como também ouvia os cochichos. A única pessoa que parecia se divertir horrores com a situação era Soyeon e eu nem podia julgar, porque se estivesse no lugar dela estaria fazendo a mesma coisa.

– Se não me contar o motivo de querer ir para o meu apartamento, eu não vou deixar você ir comigo – deu de ombros por fim. Pelos céus, que garoto irritante! Se eu ainda não tinha falado, era porque não podia falar naquele momento. Além de irritante Jeongguk era burro, não tinha outra explicação. Respirei fundo, buscando paciência para não cometer um homicídio culposo.

– Eu quero transar Jeongguk, precisa que eu desenhe? – bufei, sabendo que a atenção de todos na mesa estava em cima de nós. Jeongguk arregalou os olhos, quase se afogando com a própria saliva antes de assentir em concordância.

– Tudo bem, eu só preciso… – ele engoliu em seco, as bochechas em um tom avermelhado por conta da vergonha e eu acabei rindo. Ele ficava fofo daquele jeito, tinha que admitir. – Sabe… organizar as coisas.

– Não precisa não, eu estou pronto – garanti e dei o assunto por encerrado, voltando a atenção para a sobremesa que eu ainda não havia mexido.

– Estamos mesmo ouvindo eles combinarem quem vai dar o cu? – Seokjin murmurou de forma nada discreta, causando um leve engasgo em Jimin. – Eu não acredito que meus pais me colocaram no mundo pra isso.

– Você que é fofoqueiro e fica ouvindo a conversa dos outros hyung – retruquei.

– Estamos na mesma mesa, eu tô praticamente do seu lado!

– É só tapar os ouvidos – dei de ombros e sorri sem mostrar os dentes, recebendo um beliscão de Seokjin, que se espichou e acabou empurrando Namjoon para poder me alcançar.

– Me respeita seu fedorento!

– O hyung não é fedorento – Jeongguk retrucou, para ninguém em particular, já que continuava empenhado em acabar com a comida que eu tinha servido para ele. – Ele tem cheiro de cereja. Gosto também – riu e eu franzi o cenho.

– Cereja? – indaguei, me virando para ele e Jeongguk assentiu.

– Uhum – assentiu. – É pra combinar com o cabelo? – indagou, parecendo realmente curioso.

– É do sabonete – dei de ombros.

– Eu gosto – disse por fim, se inclinando e deixando um beijo na ponta do meu nariz antes de voltar a comer.

Tudo bem, aquilo me pegou de surpresa e deixou meu coração levemente bagunçado, mas só porque eu não sabia reagir a coisas fofas. Não era nenhum indício de encanto por Jeongguk, de jeito nenhum, mas eu precisava tomar cuidado. Aquele garoto era perigoso, principalmente quando eu não sabia se ele estava forçando aquelas atitudes ou estava apenas sendo o bocudo imprevisível que ele sempre fora.

– Eu vou vomitar – Hoseok murmurou em implicância e eu estirei o dedo do meio para ele.

– Aliás, porque a noona não está surtando? – Taehyung indagou, se virando para Soyeon com o cenho franzido.

– Porque eu já sabia – Soyeon sorriu. – Não se preocupe, eles ouviram muitos gritos e risadas.

– Ainda está difícil acreditar – Namjoon comentou, o olhar analítico preso em mim.

– É, nem me fale – Jimin concordou, mas eu não prestei muita atenção já que voltei a olhar para Jeongguk para evitar o olhar de Namjoon.

– Precisamos comemorar – Taehyung decidiu. – Que tal uma festa?

– Não, nada de festa – eu decidi.

– Poxa hyung – Hoseok fez um bico. – Uma festinha de nada não vai matar você.

– Na última festinha “de nada” que eu fui com vocês, eu e o Jeongguk acabamos transando – retruquei de cara feia.

– E isso não é uma coisa boa? – Namjoon indagou com desconfiança e eu quis me bater por ser um idiota e não me atentar nas coisas que digo.

– Claro que sim, mas não quero sair casado na próxima! – inventei uma desculpa esfarrapada, mas só pelo olhar de Namjoon eu pude perceber que não tinha colado.

Maldito QI de 148!

– Gay é emocionado demais, não estão nem namorando e Yoongi está falando de casamento – Seokjin revirou os olhos.

– Pizza então? – Taehyung voltou ao assunto da comemoração e sabendo que não teria como fugir para sempre daquilo, me rendi e assenti em concordância, enquanto meus amigos comemoravam e começavam a traçar planos pra a noite da pizza.

– Hyung? – Jeongguk me chamou em um cochicho e eu o encarei curioso.

– Sim?

– Nós vamos mesmo transar? – questionou e eu acabei rindo, me aproximando para abraçá-lo de forma torta e encobrir nossa conversa.

– Não Jeongguk, nós não vamos – respondi, deixando um beijinho na curva do pescoço macio dele.

– Aish… – bufou. – Meu pau até ficou animado – choramingou, me fazendo rir com gosto.

– Pois trate de desanimar. Você vai estudar e eu vou dormir no sofá – um último beijo e então me afastei, rindo do bico que Jeongguk mantinha nos lábios e apertando as bochechas dele. – Nada de bico!

– Você quer mais sobremesa? – indagou quando o soltei e neguei com um aceno de cabeça.

– Estou bem, obrigado.

– Vou pegar mais um docinho e então vamos, tudo bem?

– Você vai comer mais? – indaguei, realmente preocupado. – Como você não explodiu ainda?

– Gasto minha energia com você hyung – piscou charmoso.

– Sai pra lá com essas cantadas podres – ri.

– Você gosta – deu de ombros, estalando um beijo no meu rosto antes de levantar e ocupar um lugar na fila da comida.

– Mais tarde a gente conversa – Namjoon murmurou ao meu lado e eu suspirei, não tendo outra alternativa fora assentir, enquanto bolava planos para fugir mais uma vez.

🎯

Jeongguk.
Não era mentira quando Yoongi disse que ia dormir no sofá, já que quando desisti de terminar o trabalho e segui para a sala, encontrei o Min todo encolhido no sofá, claramente em um sono pesado enquanto passava um documentário sobre a arquitetura grega na TV. A noite já estava caindo e eu suspeitava que Yoongi não ia acordar facilmente para ir embora, então optei por colocá-lo na minha cama enquanto preparava o jantar. O cobri com uma colcha e fechei a porta do quarto tentando não fazer barulho, voltando para a sala para desligar a TV e arrumar as almofadas bagunçadas.

Acabei me entretendo na cozinha e não notei quando Soyeon chegou em casa, levando um susto enquanto ela me cutucou na cintura.

– Inferno noona – reclamei, deixando os legumes de lado para massagear a área cutucada. – Como você não faz barulho?

– Eu sou pequena e meu equilíbrio e noção de espaço são ótimos – deu de ombros, sentando no balcão e pegando uma maça para comer, enquanto me encarava com curiosidade.

– O que foi?

– Transou? – ela riu da minha desgraça e eu bufei.

– Você sabe que não. Ele tá dormindo lá no quarto – dei de ombros.

– Por que ele veio dormir aqui?

– Ele tá com medo do Namjoon hyung – eu ri, já que não conseguia entender o motivo daquele medo. Namjoon não fazia mal nem para uma mosca, que dirá para Yoongi, que era seu melhor amigo há anos.

– Namjoon é muito persuasivo quando quer e ele certamente vai achar essa aposta de vocês uma grande de uma merda – Soyeon murmurou. – O que não deixa de ser mentira, não é mesmo?

– Blá blá blá – bufei e recebi um tapa na nuca, cortesia da minha adorável irmã.

– Me respeita ou eu ligo pra omma – ameaçou.

– Você só sabe me ameaçar, credo – abri uma expressão desgostosa. – Termina de ralar as cenouras, vou ver se o hyung tá bem lá no quarto.

– Hmm, todo preocupadinho com o hyung dele – Soyeon debochou. – Vai acordar ele com beijinhos?

– Vai a merda garota, eu hein – estirei o dedo para ela e lavei as mãos antes de sair da cozinha, ouvindo apenas a gargalhada da minha irmã como resposta.

Abri apenas uma fresta da porta, encontrando o quarto em completa escuridão e não conseguindo identificar se Yoongi estava dormindo ou não. Movi a mão direita para dentro do cômodo, pressionando o interruptor e piscando rapidamente por conta da claridade.

– Apaga! – Yoongi reclamou, cobrindo a cabeça com o cobertor e me fazendo rir baixinho.

– O jantar vai estar pronto logo – avisei. – Quer tomar um banho? Alguma roupa minha deve servir em você e eu tenho cuecas novas.

– Eu acho que vou pra casa – Yoongi resmungou, completamente sonolento e eu revirei os olhos por conta da teimosia. Ele não facilitava em nada meus planos de conquistar ele, poxa vida.

– Eu fiz mais comida do que o normal, então você vai ficar e vai comer hyung – decretei, seguindo para dentro do quarto e catando roupas limpas para que Yoongi tomasse banho. Entreguei as peças e uma toalha limpa para ele, que agora estava sentado na cama e esfregava os olhos. – Tem sabonete novo no armário – avisei antes de deixar o quarto e voltar para a cozinha. Soyeon já tinha ralado as cenouras e não demorei nada a preparar o bibimbap, com muito mais carne do que o normal por causa de Yoongi.

– Cadê ele? – Soyeon indagou.

– No banho. Ele queria ir embora – revirei os olhos. – Tenho cara de palhaço pra ter feito comida e ele não comer? Eu hein – estalei os lábios em irritação e minha irmã me encarou por um instante antes de começar a rir.

– Você não fica com medo? – perguntou em seguida e eu franzi o cenho em confusão.

– Medo do que?

– De se apaixonar por ele – Soyeon não desviou o olhar do meu. – Mas de verdade.

– Eu sempre me apaixono de verdade! – retruquei. – Ou você também acha que eu sou emocionado demais e crio muito caso pra um sentimento fraco?

– Vamos concordar que sim, você se apaixona fácil demais e sem profundidade? As vezes você nem conhece a pessoa e se diz completamente apaixonado.

– Eu conheço o Ji hyung e estou apaixonado por ele – rebati com teimosia e Soyeon suspirou.

– Mas você sabe que não é e nem vai ser reciproco, então se certa forma, também está apaixonado por uma projeção dele.

– Eu não… – precisei engolir minhas palavras por causa do barulho da porta do quarto e pelo olhar de Soyeon, ela também notou que Yoongi estava se aproximando.

– Só pensa nisso com cuidado, ok? – sorriu fraco e me puxou para perto, deixando um beijo na minha testa – depois de ficar na ponta dos pés e me obrigar a me inclinar – no mesmo instante em que Yoongi entrava na cozinha, trajando minhas roupas que ficavam enormes nele e com os cabelos vermelho cereja completamente bagunçados por não tê-los secado.

– Afeto, eca – torceu os lábios em desgosto exagerado e Soyeon riu.

– Quem é que estava trocando beijinhos na hora do almoço hoje? – implicou e eu a empurrei sem colocar força.

– Vai tomar um banho, você tá fedendo e o jantar já está pronto

– Não tô fedendo nada! – Soyeon reclamou e Yoongi se aproximou para cheirá-la, torcendo o nariz apenas para provocar.

– Tá fedendo sim, sai pra lá.

– Vocês dois se merecem seus insuportáveis! – xingou e saiu batendo pé, deixando a mim e Yoongi em um silêncio esquisito antes de cairmos na risada.

– Soyeon é maluca, você tem a quem puxar – sorriu em provocação e eu revirei os olhos. Yoongi se aproximou, me abraçando pela cintura e recostando o rosto contra as minhas costas, já que eu continuava montando o bibimbap. – Estou com fome.

– Não era você que queria ir embora? – estalei os lábios. – Deveria te deixar com fome.

– É assim que pretende me conquistar? Me deixar com fome até que eu esteja delirando e confunda meu estômago vazio com paixão? – exclamou em tom de brincadeira.

– Quem confunde estômago vazio com paixão? – franzi o cenho, finalizando o bibimbap e me virando para Yoongi após lavar as mãos, devolvendo o abraço e aproximando meu rosto da curva do pescoço dele.

Era gostoso ficar de chamego daquele jeito, eu tinha que admitir. Não era nenhuma novidade o quanto eu era carente, então estar sempre recendo carinho de Yoongi desde que tínhamos feito aquela aposta era bom, de alguma forma. Mas eu também não conseguia fingir que aquilo era de verdade, eu sabia que todos os movimentos dele eram calculados, assim como os meus, mas estava me permitindo aproveitar e suprir a carência que nunca me abandonava.

– Se eu estivesse delirando de fome, poderia confundir.

– Sua cabeça não está boa hyung – murmurei, aproveitando para deixar alguns beijos na parte descoberta de seu ombro, já que a minha camiseta era grande demais para Yoongi – não porque ele fosse muito menor do que eu, mas sim porque eu gostava de camisetas enormes – e deixava uma grande parte de sua pele exposta. – E você não está cheirando a cereja – torci o nariz e Yoongi riu.

– Não sei de onde você tirou que eu tenho cheiro de cereja, tenho quase certeza de que meu sabonete é de rosas e não de frutas.

– Quase não é certeza – apontei.

– Quer apostar?

– Outra aposta? – ri baixinho, deixando um último beijo na pele de Yoongi para então encará-lo com diversão. – Tudo bem, vamos lá.

– Se meu sabonete for de flores, você vai fazer tudo o que eu quiser por uma semana – sorriu sem mostrar os dentes, claramente se divertindo com a situação.

Ok, ser o escravo de Yoongi por uma semana seria ruim, para não dizer terrível. Tenho certeza que ele me faria sair de casa as três da manhã só para pegar água para ele no frigobar do quarto que ele dividia com Namjoon, então eu precisava escolher algo bom…

– Ok – concordei. – Mas se for de frutas, você me deve um boquete.

Yoongi me encarou com os olhos semicerrados – o que o deixava praticamente de olhos fechados, mas acabou assentindo e selamos a promessa com um aperto de mãos.

E mais tarde naquela noite, quando eu já estava quase pegando no sono, Yoongi me enviou uma mensagem que me fez gargalhar tão algo que Soyeon bateu na parede e me mandou calar a boca.

| eu vou escolher quando e onde, não você
não fica todo animadinho porque ganhou a aposta

meu pau vai aguardar ansioso pela sua vontade hyung |

Capítulo 10 – Tudo sob controle

Yoongi.
Muita gente desacredita, mas a verdade é que a vida do universitário é uma merda. Parece que as pessoas esquecem tudo o que viveram quando saíram da universidade e por isso continuam incentivando os jovens a cursarem uma graduação em busca de um futuro estável. Nunca pensei muito sobre montar uma família, mas se um dia eu chegar a ter filhos, vou ser completamente sincero sobre o inferno que é estar na faculdade ao invés de romantizar e causar danos psicológicos posteriores. Eu teria escolhido vir para a universidade de qualquer jeito, mas gostaria de ter conhecimento da realidade e ter vindo preparado ao invés de completamente iludido.

Meus pais juram que me amam, mas nunca me disseram que eu ia comer o pão que o diabo amassou durante esses anos de graduação. O amor é uma mentira e eu tenho provas.

De qualquer forma, nessa semana em questão eu estava feliz por mal ter tempo para comer e dormir direito, já que eu ainda estava fugindo de Namjoon e sua conversa sobre meu “relacionamento” com Jeongguk. Mesmo que, supostamente, esse fosse o mês de tranquilidade antes da segunda leva de provas chegar para finalizar o semestre, meus professores não estavam tendo pena de ninguém e passavam o dobro de conteúdo e consequentemente, o dobro de trabalhos. Acredito que seja algum tipo de vingança por estarmos tão perto da formatura, mas reclamar não adiantava de nada e eu passava muito mais horas na biblioteca do que o costumeiro. Não que eu deixasse de reclamar, é claro.

Suspirei, completamente exausto e com o pescoço dolorido por conta das várias horas curvado sobre a mesa enquanto desenhava projetos. Estava longe de me sentir satisfeito com os esboços, mas ao menos sentia que estava no caminho certo de conseguir um bom resultado e uma boa nota, então todo o esforço valia a pena. A tarde já estava chegando ao fim e eu precisava encerrar os estudos cedo, caso contrário meu corpo e cérebro iria colapsar por passar tantos dias sobrevivendo com o mínimo e eu não queria ser o cara que surtou na biblioteca naquele semestre. É sério, todo semestre alguém acaba surtando na biblioteca, era um evento esperado por todos os alunos, ao mesmo tempo em que todo mundo desejava não ser o surtado da vez.

Fechei os olhos por um instante, desejando minha cama e um prato de lamen mais do que tudo naquele momento. Talvez eu pudesse passar no restaurante do campus e comprar comida antes de ir para casa. É, aquela era uma boa ideia. Apesar de ainda estar fugindo de Namjoon, resgatei o celular do fundo da mochila para enviar uma mensagem para o meu amigo para saber se ele também iria querer lamen.

| eu quero sim hyung

ainda não consegui parar para descansar e estou morrendo de fome

tudo bem

logo chego com a comida |

Guardei meus pertences, enrolando todas as cartolinas com cuidado e colocando dentro do tubo para não amassar ou estragar nada. Segui para fora da biblioteca com passos preguiçosos, eu realmente estava exausto naquele dia e precisava de um descanso verdadeiro para conseguir acabar a semana. Meu celular não parava de receber notificações, mas eu supunha que eram os saengs no grupo do Kakao – eles sempre tinham muitas besteiras para falar naquele horário – e não me dei ao trabalho de visualizar as mensagens até estar na fila do restaurante para fazer o meu pedido.

| hyung

hyung

hyuuung

hyuuuuuuuuuung

cadê você?

Suspirei e revirei os olhos para as outras vinte variações de “hyung” que Jeongguk tinha enviado nos últimos minutos, indeciso sobre ignorar e respondê-lo apenas em casa ou me livrar daquele problema de uma vez. Mais cinco mensagens chegaram no chat e eu decidi tirar o band-aid antes de marchar até o apartamento do mais novo e esganá-lo.

o que foi? |

| nossa que seco

Jeongguk não testa a minha paciência

estou cansado, com fome e com dor nas costas

daria tudo por uma massagem então fala logo |

| chatooooooo

mas enfim

queria te convidar pra ver um filme

por quê? |

| por que o quê?

Jeongguk era a criatura mais sonsa que existia na face da Terra e eu podia provar. Revirei os olhos, aproveitando que a fila tinha andado para fazer o meu pedido de uma vez, solicitando o dobro na esperança de que sobrasse lamen para o dia seguinte. Me sentei em uma das mesas enquanto aguardava a comida, voltando a trocar mensagens com Jeongguk e sua cara de pau.

porque você quer ver um filme comigo |

| porque eu gosto da sua companhia oras

e estou tentando te conquistar e tal

facilita por favor

até parece

você tá é querendo criar um clima pra eu te chupar |

| um homem pode sonhar, ok?

se bem me lembro, foi você que vetou sexo quando fizemos o acordo

eu estava bem disposto a transar mais algumas vezes |

| eu sei, eu sei

mas a gente fica trocando beijinhos e eu sou carente

é óbvio que meu pau vai ficar querendo sair da miséria

mas ainda acho uma péssima ideia envolver sexo nisso

pode acabar não sendo parcial

é, você tem um pouco de razão

então vamos cancelar a última aposta? |

| de jeito nenhum

me lembro bem de concordar com boquetes

odeio você |

| mentiu

tchau |

| hyuuuuuung eu estava falando sério sobre o filme

se você insiste, aparece lá no cubículo

eu preciso da minha cama hoje, estou exausto |

| estou saindo de casa

Guardei o celular após avisar Namjoon que teríamos companhia e voltar ao caixa para pedir uma porção de mandu¹, já que eu conhecia Jeongguk e sua fome implacável. Meu lamen do dia seguinte tinha sido apenas um sonho, mas eu obrigaria Jeon a massagear os meus ombros e para mim aquele era um bom acordo.

Jeongguk já estava no quarto quando eu cheguei e me ajudou com as sacolas de comida enquanto eu guardava o tubo e a minha mochila. Namjoon estava em sua cama, lendo um livro de Filosofia e apenas nos encarou com o cenho franzido quando Jeon me puxou para selar nossos lábios.

– Vai tomar um banho hyung, eu organizo as coisas aqui – falou e por mais que sempre fosse esquisito começar aquele teatrinho, eu assenti e corri para o banho. Quanto mais cedo eu voltasse, mais rápido estaria jantando e era daquilo que eu precisava. Vesti roupas confortáveis e voltei ao quarto, ocupando um espaço da minha cama e deixando o resto para Jeongguk, enquanto ele dividia a comida em três cumbucas. Namjoon agradeceu quando recebeu sua cumbuca e Jeongguk se aconchegou ao meu lado, sorrindo satisfeito antes de enfiar um mandu na boca e suspirar em satisfação.

Acabei rindo, ignorando a sensação de leveza que a companhia dele me causava.

🎯

Jeongguk.
Yoongi estava quase dormindo no meu ombro e mesmo que estivéssemos confortáveis, já era tarde e eu precisava ir para casa. Mas estava tão quentinho debaixo daquele cobertor, o ar condicionado estava na temperatura perfeita e eu já me sentia sonolento. Estávamos assistindo The Greatest Showman, que tinha uma das melhores trilhas sonoras do cinema atual, mas Yoongi estava realmente cansado e cochilava desde a primeira meia hora do longa-metragem.

Tínhamos jantado e improvisado a sobremesa com uma porção de balas que Namjoon tinha na mochila antes que eu colocasse o filme e ajeitasse o notebook em cima da cadeira da escrivaninha, de modo que Namjoon também pudesse assistir. Afinal somos dois entusiastas de trilhas sonoras, como bons estudantes de música.

– Hyung – chamei baixinho, beijando-o na bochecha já que Namjoon hyung estava apenas fingindo cochilar na cama ao lado. – Hyuuuuung.

– Me deixa dormir Jeon – Yoongi retrucou.

– Eu vou deixar – garanti. – Vou embora, tudo bem? Outro dia assistimos ao filme. Você está exausto e precisa descansar.

– Que horas são? – Yoongi indagou, ainda de olhos fechados e aconchegado do meu lado.

– Quase onze – murmurei após verificar o horário no celular.

– Está muito tarde para você atravessar o campus sozinho – Yoongi bocejou, esfregando os olhos com as mãos e então levantando a cabeça para me encarar com os olhos pesados de sono. – Dorme aqui.

– Tem certeza? – indaguei, realmente pego de surpresa pela proposta. Não que fosse algo totalmente chocante, afinal estávamos tentando conquistar um ao outro e para isso era necessário passar um tempo juntos, e, visto que éramos estudantes e tempo era algo precioso, aquilo iria acabar acontecendo uma hora ou outra. Mas não pensei que seria tão rápido, para ser bem sincero. – Eu posso chamar um Uber, não quero te incomodar hyung.

– Eu tô muito confortável e ainda não ganhei uma massagem nos ombros por ter te alimentado – Yoongi retrucou e eu ri baixinho. – Pode ficar. Eu quero que você fique.

Ok, aquela frase tinha me deixado levemente nervoso, eu tinha que admitir.

– Você não me contou essa parte enquanto combinávamos por mensagem – murmurei em um tom de voz mais baixo, tentando reverter meu nervosismo em charme para tentar causar em Yoongi as mesmas coisas que ele tinha causado em mim.

Girei meu corpo, de forma que eu pudesse ficar sobre Yoongi e cobrir seu corpo com o meu. Não deixei que todo meu peso caísse por cima dele, apoiando um de meus cotovelos no colchão enquanto minha mão livre segurava e acariciava o rosto do Min com cuidado. Aproximei nossos lábios e os selei uma vez, sem aprofundar o beijo e arrancando um pequeno suspiro de Yoongi.

– Achei que tinha ficado subentendido – ele retrucou, seu tom de voz muito mais firme do que eu gostaria que estivesse.

– Temos um problema de comunicação hyung – sussurrei, mordiscando o lábio inferior de Yoongi e sentindo meu próprio coração me trair ao pulsar muito mais rápido. Eu realmente odiava ser carente e emocionado daquele jeito.

– Uhum… – Yoongi concordou, sorrindo torto quando me empurrou e eu não tive escolha fora me sentar. – E de manipulação. Minha massagem Jeongguk, anda logo – estalou os lábios, virando-se de costas para mim em seguida e puxando a camiseta para fora do corpo, deixando a pele clara e macia a minha disposição.

Me aproximei um pouco mais, deixando Yoongi entre as minhas pernas e passando a dedilhar o caminho de sua coluna até os ombros. As marcas que eu tinha deixado no corpo dele há duas semanas não eram mais visíveis e naquele momento eu estava realmente arrependido de ter vetado sexo entre nós ao firmarmos a aposta, mas eu sabia que era o tesão falando e não a razão que existia lá no fundinho da minha mente e aparecia só de vez em quando.

– Eu já vou avisando que não sei fazer massagem direito e você está proibido de reclamar, ok?

– Em primeiro lugar, eu sou seu hyung e você não manda em mim – Yoongi chiou. – Em segundo lugar, não se faça de sonso. Você é bom em tudo o que faz Jeongguk, é claro que deve saber fazer massagem.

– Chato – reclamei e Yoongi beliscou minha coxa, arrancando um resmungo dolorido de mim. – Ai hyung!

– Anda logo Jeon, eu tô morrendo de dor e quero dormir.

– Tá bom, tá bom – bufei. – Tem óleo de massagem?

– Não, só creme hidratante.

– De cereja? – provoquei e ganhei outro beliscão.

– Quer o hidratante ou não?

– Quero – fiz um bico, me inclinando para beijar a nunca de Yoongi e observando-o de afastar para pegar o creme na gaveta da mesa de cabeceira. Espalhei um pouco do produto nos ombros de Yoongi, sabendo que a substância iria secar em breve e comecei a massagear. Eu estava longe de ser um massagista profissional, mas sabia pelo menos o básico já que massagens também eram uma forma de chantagear Soyeon quando eu precisava de algum favor vindo dela.

– Eu disse que você estava se fazendo de sonso – Yoongi disse, resmungando em alívio em seguida, conforme eu desfazia os nós e aliviava a dor em seus ombros. Minhas mãos passeavam com cuidado e um tantinho de pressão por sua pele.

– Shiu – apertei meus dedos com mais força e Yoongi gemeu de dor.

– Ai caralho!

– Não me estressa hyung, não me estressa – murmurei em tom de ameaça, terminando a fala com uma risada.

– Você vai ver só – Yoongi retrucou, mas se manteve quieto pelo restante do tempo em que eu o estive massageando. Quando finalizei, levantei da cama e segui para o banheiro, lavei as mãos e então usei uma escova nova – que Yoongi me disse para usar – para escovar os dentes, voltando para o quarto e aceitando a camiseta e a bermuda que ele me ofereceu para que pudéssemos dormir. Enquanto Yoongi se escovava, ajeitei a cama e então desliguei o notebook, só então percebendo que Namjoon estava mesmo dormindo e que eu não estivera fingindo intimidade com Yoongi desde que tinha começado a massagem e também não havia feito aquilo movido pelas segundas intenções de conquistá-lo.

Ok Jeongguk, nada de pânico. Foi só um pequeno deslize, nada com o qual você não consiga lidar. Apenas se lembre que você e Yoongi estão jogando e você não pode confundir as coisas. Isso não é um relacionamento, não daria certo mesmo se vocês não tivessem feito essa aposta. Tá tudo sob controle.

Respirei fundo, me deitando na cama, sem saber exatamente qual lado ocupar já que eu não sabia qual a preferência de Yoongi. Ele não demorou cinco minutos no banheiro e quando voltou, apagou a luz e escalou meu corpo, ocupando o lado da parede e me deixando ser a conchinha de fora. Abracei Yoongi pela cintura, beijando sua nunca algumas vezes antes de encaixar meu rosto na curva de seu ombro e suspirar satisfeito pelo descanso que viria.

– Boa noite hyung – murmurei em um sussurro.

– Boa noite Jeonggukie – Yoongi devolveu, em um tom de voz tão baixo que eu supunha que ele esperasse que eu não ouvisse. Mas eu ouvi e meu coração bateu mais rápido por um instante graças ao apelido, me obrigando a ignorar aquela reação idiota do meu corpo.

Capítulo 11 – Deixar pra lá

Yoongi.
Existe um limbo entre a inconsciência e a consciência. É algo meio nebuloso, quando a mente ainda não despertou totalmente mas é capaz de captar algumas sensações físicas. As coisas são mais lentas e a vontade de continuar dormindo quase te derruba caso o despertador não esteja tocando em alto e bem som em algum lugar próximo o suficiente para incomodar sua audição. Bem, eu estava nesse limbo, ainda meio inconsciente, mas a percepção de ter um braço envolvendo minha cintura era tão certa quanto respirar.

Meu discernimento sobre a realidade tomava conta de mim aos poucos, de forma preguiçosa e eu respirei fundo antes de bocejar e tatear as cegas em busca de meu celular. Eu precisava apertar apenas um botão para que aquele objeto infernal me deixasse dormir um pouco mais e estava confiante de que realizaria aquela tarefa, sentindo-me satisfeito quando minha mão encontrou uma área maciça. Um resmungo incomodado preencheu o ambiente quando meus dedos apertaram o local e eu franzi o cenho em confusão, ainda sonolento demais para me dar conta do que estava acontecendo.

Então o torpor me abandonou e eu entendi que tinha dormido com Jeongguk e provavelmente estava apertando alguma parte do corpo dele. Merda.

Abri os olhos, piscando rápido por causa da claridade e então me situando no tempo e espaço. Eu estava na minha cama, no canto da parede. O braço de Jeongguk estava na minha cintura, tornando aquela conchinha extremamente confortável. O corpo dele estava colado no meu, já que caso contrário ele teria caído da cama, mas apesar do pouco espaço, eu tinha dormido muito bem e estava mais descansado do que em qualquer outro dia daquela semana. Só podia ser a massagem, não tinha outra explicação, não é mesmo?

Me virei na cama com cuidado para não acordar Jeon e em um primeiro momento, a minha intenção era passar por cima dele e começar a me organizar para enfrentar aquele dia, mas quando meu olhar recaiu no rosto dele eu simplesmente voltei a deitar a cabeça contra o travesseiro e me permiti um segundo para analisar Jeongguk. Não era nenhuma novidade o quanto ele era bonito e atraente, mas ali, com aquela expressão tão serena e nenhuma má intenção para cima de mim, ele se tornava… um pouco mais. E por isso eu fugi para o banheiro, afastando aqueles pensamentos da mente e só voltando para o quarto quando já estava de banho tomado e vestido. Acordei Namjoon antes de me aproximar de Jeon e sacudi-lo com cuidado para que acordasse.

– Hm – resmungou enquanto despertava, acabando por ocupar toda a cama e não dando qualquer indício de que iria acordar sem mais incentivos.

– Jeon – chamei, cutucando a costela dele com um pouco mais de força.

– Não – retrucou, me fazendo rir.

– Você não tem aula pela manhã hoje?

– Não – respondeu e eu estava prestes a deixá-lo dormir mais um pouco quando o grito de Namjoon soou do banheiro.

– TEM SIM!

– Levanta moleque! – fui firme, puxando Jeon para fora da cama e fazendo questão de derrubá-lo no chão. Ele caiu com um estrondo, uma careta no rosto e os olhos enormes me fitando com irritação e dificuldade por causa do sono.

– Odeio você – declarou enquanto se punha de pé, massageando a área do corpo que tinha batido contra o piso.

– Então vai ficar sem café da manhã – sorri sem mostrar os dentes, dando as costas para Jeon e passando a organizar algumas coisas que eu precisaria na mochila. Senti a aproximação de Jeongguk antes mesmo dos braços dele me envolverem, seu queixo repousando na curva do meu pescoço e então um selar de lábios sendo depositado na minha bochecha quando ele virou o rosto para me encarar.

– Você tem que alimentar o seu bebê, hyung – mais um beijo quando eu estreitei o olhar para ele.

– Não tenho filho, ainda mais dessa idade – o empurrei e Jeon riu, sentando na cama e passando as mãos pelos cabelos. – Dormiu bem?

– Sim, você é fofinho – provocou.

– Vai tomar no cu – rosnei e Jeon gargalhou. – Na próxima eu deixo você no chão, para aprender a não ser abusado.

– Na próxima? Então vamos dormir de conchinha mais vezes? – arqueou as sobrancelhas.

– Você entendeu o que eu quis dizer – bufei.

– Sim, é claro. Você adorou dormir comigo porque sou cheiroso e gostoso e agora vai ficar viciado e querer dormir junto todos os dias.

– Meu Deus, quem te iludiu assim? – revirei os olhos. Namjoon saiu do banheiro em seguida e nos encarou com o cenho franzido.

– Discutir dá tesão em vocês? – questionou, mas eu senti a alfinetada mesmo assim. Ele não estava acreditando naquele “relacionamento” e estava comendo pelas bordas, buscando uma forma de pegar a nossa mentira no pulo. Namjoon pode ter um QI 148, mas eu não fico tão atrás não.

– Sim, é uma delicia transar depois de discutir – assenti sem um pingo de vergonha na cara e então me virei para Jeon. – Café, anda logo!

– Você é tão romântico hyung, fico realmente tocado – fez drama e eu revirei os olhos mais uma vez.

– Por causa dessa gracinha a conta vai ficar na sua responsabilidade – declarei e ele riu, assentindo com a cabeça e então levantando para me seguir para fora do quarto.

– Tudo para não deixar o hyung rabugento o resto do dia – murmurou, se aproximando para beijar meus lábios com suavidade antes de entrelaçar nossos dedos e me puxar para fora do quarto, deixando um Namjoon boquiaberto para trás.

🎯

Jeongguk.
Nunca tive aquele tipo de relacionamento com alguém. Não que estivesse em um relacionamento com Yoongi, eu sabia muito bem que tudo aquilo era mentira e que eu e o Min estávamos apenas em um joguinho completamente absurdo e sem noção. Mas eu não podia negar que estava gostando de experimentar a companhia de Yoongi como se fôssemos um casal. Dormir de conchinha, receber cafuné e até mesmo estar sentado com as pernas entrelaçadas as dele enquanto comíamos alguma coisa antes de ir para a aula… era bom. Era realmente bom e quando essa loucura acabasse, eu iria abandonar minhas paixonites impossíveis e tentar encontrar alguém para namorar de verdade.

Depois de vinte e um anos, eu finalmente estava carente e queria um amorzinho.

Mas por agora iria aproveitar e abusar um pouquinho de Yoongi e por isso me inclinei para beijar a boca dele, recebendo um olhar surpreso em retorno e em seguida um estreitar de olhos, o que me fez rir. Ele estava sempre um pé atrás comigo e eu precisava dar um jeito naquilo se quisesse ganhar. Precisava chegar mais perto de Yoongi, criar mais intimidade para poder passar pela barreira que ele tinha criado para me manter longe e não se apaixonar.

Talvez eu fosse precisar barrar a regra do sexo para conseguir chegar no coração do Min. Alguns homens se agarra pelo estômago, outros com bunda, a vida tem dessas.

– Me deixa comer – chiou em seu habitual mau humor e eu ri outra vez.

– Hyung como cabe tanto ranço nesse corpinho pequeno?

– Vai tomar no cu Jeon – virou a cara, voltando a comer o gimbap* como se eu nem estivesse ali. Que homem difícil meu Deus!

– Estou pensando seriamente nisso – retruquei, desviando o olhar para a comida quando Yoongi me encarou com os olhos arregalados.

– É o que?

– Sei lá, estou com tesão – dei de ombros, como se aquilo não fosse nada demais. Naquele exato momento eu não estava com tesão, mas Yoongi não precisava saber daquilo.

– Você é maluco? Ontem mesmo nós conversamos sobre isso e concordamos que transar não era uma boa ideia – alegou e eu assenti, demonstrando que lembrava da conversa.

– Eu só tô pensando hyung, não se apresse – ri baixinho e recebi um beliscão. – Você só me maltrata, não aguento mais.

– Você aguenta bem mais que um beliscão Jeongguk, não tenta me passar a perna – revirou os olhos. – Mas mudando de assunto…

– Sim?

– Tem planos para sábado?

– Depende de você – estalei os lábios e Yoongi me encarou.

– Vou te levar em um encontro então, pode ser?

– Eu vou adorar – sorri. – Como estão as coisas com Namjoon hyung? Eu notei ele nos encarando de canto ontem

– Fugi de uma conversa a semana toda, então não sei. Ele não está acreditando muito e nós nem podemos julgar porque é realmente suspeito. Os outros só caíram nessa farsa porque são…

– Idiotas – completei o que Yoongi não quis falar e ele riu. – Não temos amigos normais, precisamos ter isso em mente.

– É, bem… mas acho que uma hora ele desiste. E se não desistir, temos só mais vinte e poucos dias nessa brincadeira.

– E depois ele vai precisar te ajudar a juntar os caquinhos do teu coração quebrado – murmurei com tranquilidade.

– Sai da tua imaginação Jeongguk – retrucou e eu ri.

– Hyung… – chamei após alguns instantes e então Yoongi me encarou, a boca cheia de comida e as bochechas estufadas. – Você já pensou no depois? – ele franziu o cenho sem entender e eu suspirei, sem saber se aquele era um assunto que deveria abordar com ele, mesmo que já tivesse perdido uma ou duas horas pensando naquilo. – Caso você se apaixone por mim e tal… o que você faria?

– Eu não vou me apaixonar por você – disse com convicção. – Mas se eu me apaixonasse de verdade, eu iria deixar para lá. Nós não daríamos certo, de qualquer forma. Isso aqui só funciona porque a gente está se esforçando para ser legal e agradável, mas na realidade somos diferentes demais. Não vale a pena insistir em algo que está destinado ao fracasso. – deu de ombros e eu assenti em concordância.

– E você? O que faria se acabasse se apaixonando de verdade por mim?

– O mesmo que você – murmurei e Yoongi também assentiu, encerrando o assunto ao voltar a atenção para a comida, enquanto eu me perdia em pensamentos a respeito da fala dele.

Em primeiro lugar, eu tinha mentido. Não faria o mesmo que ele, mas minha ação iria depender exclusivamente do contexto. Não daria meu coração para Yoongi em uma bandeja de prata como o bobo emocionado que eu era, mas também não conseguiria seguir sem nem mesmo tentar saber se aquilo daria certo. Sim, éramos opostos, mas não tanto quanto Yoongi presumia. Eu não estava forçando simpatia ou fingindo ser alguém que eu não era, mas se ele estava fazendo aquilo, então tínhamos muito mais diferenças do que eu supunha e talvez ele realmente estivesse certo.

Mas eu não acreditava naquilo. Yoongi não era tão bom mentiroso e ele não estava fingindo comigo, por mais que tentasse provar que sim.

Não gostava de pensar na possibilidade de sair quebrado daquele jogo, mas eu precisava ser inteligente e analisar todas as possibilidades. Eu ainda sou apaixonado por Jimin, não tenho realmente nada a temer e não entendo porque a fala de Yoongi me causou desconforto. Talvez eu esteja começando a ficar maluco.

Gimbap: Prato coreano feito de arroz cozido e outros ingredientes que são enrolados em gim – folhas secas de algas marinhas – e servidos em fatias pequenas.

Capítulo 12 – Tentando te ganhar

Yoongi.
Eu estava longe de ser um cara romântico. Nunca tinha tido tempo para relacionamentos – paciência menos ainda, então eu não sabia exatamente que tipos de coisas as pessoas faziam em encontros e o que esperavam daquele ato. No caso de Jeongguk, supunha que ele esperava algo grandioso, que acabasse superando o encontro que ele tinha planejado e que para ser bem sincero, tinha sido bem legal e divertido, apesar de termos andado muito mais do que eu gostava. Então sim, eu tinha feito uma lista com vinte ideias para aquele sábado e no final, acabei não usando nada porque não era com um passeio de balão que eu iria conseguir conquistar Jeon. Ele esperava algo grande, então eu precisava lembrar dos conselhos de Soyeon e focar nas pequenas coisas.
O que me levava a uma pequena quase crise existencial: eu estava me esforçando muito para ser um babaca e quebrar o coração de uma pessoa e apesar de ser rabugento e levemente mal humorado, eu evitava magoar as pessoas caso pudesse evitar. Mas quando comentei com Jeon sobre o assunto na noite anterior, enquanto trocávamos mensagens, ele debochou e perguntou se eu estava com medo por estar me apaixonando.
Puff, como se aquilo fosse realmente possível.
Em vinte e três anos, eu nunca tive um relacionamento porque nunca quis um relacionamento. Chame de preguiça, falta de vontade, o que for. Nunca me interessei e nunca entendi as pessoas que acham que viver um grande amor é a maior conquista que podem alcançar em suas vidas. Eu tinha tantas metas, sonhos, vontades… coisas minhas, que não dependiam de ninguém fora eu mesmo e por isso estar com alguém e ter um relacionamento nunca tinha estado na minha lista de prioridades. E eu estava muito bem daquele jeito, obrigado. Não me apaixonaria por Jeon e se ele não queria voltar atrás com aquela ideia estúpida, eu esperava que não fosse castigado por ter magoado ele deliberadamente.
– Hyung você está tão bonito – Jeongguk me elogiou assim que pós os pés para fora de sua casa, me analisando dos pés à cabeça e abrindo seu sorriso de coelhinho quando seus olhos encontraram os meus. Seus cabelos estavam ainda mais desbotados e usava seus inseparáveis coturnos. Estava lindo para um caralho, eu tinha que admitir.
– Você também está saeng – sorri pequeno, apertando meus braços em torno dele quando Jeon me puxou para um abraço, deixando um beijo na curva do meu pescoço em seguida. – Só falta retocar esse cabelo.
– Aish, deixa meu cabelo em paz! – resmungou, mas parecia mais drama do que realmente incômodo.
– Então pinta ele – revirei os olhos, entrelaçando nossas mãos quando Jeon quebrou o abraço. – Vamos?
– Vamos para onde? – indagou, os olhos grandes brilhando de curiosidade.
– Perto – foi tudo o que eu disse e ele não questionou, engatando uma conversa sobre um filme novo que tinha assistido mais cedo enquanto caminhávamos pelas ruas da cidade.
Como prometido, não fomos longe. Na verdade, podíamos ter parado em qualquer parque, mas eu tinha optado por escolher o parque mais bonito para deixar aquele final de tarde mais agradável para nós dois. Jeon franziu o cenho em confusão quando interrompi a caminhada, tirando a mochila das costas e me agachando para retirar os objetos de dentro. Uma manta grossa, potes com comida e uma caixinha de som. Organizei tudo enquanto Jeongguk me observava com o cenho franzido, arregalando levemente os olhos quando eu tirei os sapatos e me sentei, batendo no lugar ao meu lado para que ele fizesse o mesmo.
– Vamos fazer o quê? – questionou ao sentar do meu lado, já sem os sapatos e buscando um dos potinhos para bisbilhotar.
– Ouvir música, comer, conversar e observar o céu enquanto a tarde vai embora… – dei de ombros. – Nada de muito glorioso, me desculpe se você estava nutrindo muitas expectativas.
– Assim está ótimo hyung – Jeon sorriu largo quando encontrou o gimbap, não perdendo tempo ao enfiar uma fatia na boca.
– Montei uma playlist pra gente ouvir – murmurei, pegando a caixinha de som e ligando para conectar ao meu celular. – Acho que consegui misturar bem as músicas que gostamos, então vai estar agradável para nós dois.
– Como sabe dos meus gostos?
– Você fala bastante sobre as coisas que gosta, não sei se notou – murmurei e ele riu fraco. – Eu só chutei e escolhi alguns relacionados.
– Certo… – assentiu. – Só estou surpreso por você prestar atenção no que eu falo e tal.
– Eu não presto… – me defendi rápido, sabendo o quanto aquilo era estranho. Como explicar que eu tinha a infeliz mania de observar tudo e que Jeon nunca fizera questão de ser sutil e por isso eu acabava reparando bastante nele? – Você só é legível demais.
– Certo – Jeon mordeu o sorriso, pescando mais uma fatia de gimbap para pôr na boca. – Então vamos ouvir a playlist, por favor. Você deve ter levado algum tempo fazendo ela, já que é todo metódico e perfeccionista. Passou horas pensando em mim e em músicas pra gente ouvir juntinho hyung?
– Aham – o encarei com desdém. – Fiz até uma playlist de sexo, pra quando você finalmente merecer aquele boquete.
– Essa doeu dentro do meu coração Yoongi – Jeon torceu os lábios, me fazendo rir.
– Hyung – corrigi.
– Você não está merecendo respeito Y-o-o-n-g-i – abriu um sorriso travesso e eu revirei os olhos apenas por costume, já que não consegui conter a risada.

🎯

Jeongguk.
Carinho na cabeça é jogo muito sujo e quando você recebe o combo de: música boa, comida gostosa e um anoitecer incrível, torna ainda mais difícil não suspirar satisfeito com o carinho que está recebendo. E por isso eu estava todo molinho, jogado sob aquele cobertor, com a cabeça no colo de Yoongi enquanto ele acariciava os meus cabelos.
– Uma maratona de O Senhor dos Anéis ou de Harry Potter?
– Harry Potter – Yoongi respondeu. – Eu acabo dormindo em O Senhor dos Anéis porque os filmes são longos demais.
– Mas Harry Potter tem mais filmes, isso não faz sentido hyung.
– Eu sei, nunca disse que fazia – deu de ombros. – Se pudesse ser ou fazer qualquer coisa no mundo, o que você escolheria? A paz mundial ou qualquer coisa desse tipo não vale.
– Você é muito especifico nas suas perguntas – eu ri. – Não sei, nunca pensei sobre isso. Acho que eu só acabaria me esforçando mais ainda para alcançar meus objetivos. Quero ser o nome por trás de milhares de canções de cantores famosos, compor trilhas sonoras e provar que eu sou capaz.
– Não acho que alguém duvida que você nasceu para isso Jeongguk – Yoongi tentou me confortar.
– Você ficaria surpreso – ri sem graça, sem querer estender aquele assunto. – Deita do meu lado hyung – pedi com um bico nos lábios e apesar de fazer o que eu pedi, Yoongi deitou do lado avesso, então eu não podia buscar aconchego no peito dele. Virei a cabeça para a direita, encontrando os olhos pequenos de Yoongi fixos em mim.
– Gostou da comida? É do meu restaurante favorito – comentou. – Prefiro cozinhar, porque me conheço e sei como eu gosto de comer certos pratos, mas esse restaurante é o melhor da cidade e o gimbap deles é perfeito.
– É realmente muito bom, eu adorei. Está tentando me ganhar pelo estômago, hyung? Já é a segunda vez que você me alimenta.
– Estou tentando te ganhar de qualquer jeito – foi sincero e eu assenti. Já tinha percebido aquilo de qualquer forma.
O silêncio tomou espaço, mas não era desconfortável. O clima estava bom, não tínhamos sido atacados por nenhum inseto, a comida estava ótima e o céu nos proporcionava uma visão e tanto conforme o dia dava lugar para a noite. A sensação que eu tinha era de que não gostaria de estar em nenhum outro lugar, com nenhuma outra pessoa e aquilo me fazia questionar a mim mesmo sobre a possibilidade de Yoongi e eu virarmos amigos, depois de tudo, caso nenhum de nós saísse de coração partido.
E por mais estranho que fosse, eu estava torcendo para que aquilo acontecesse.
– Gosto dessa música – comentei quando FOOLS começou a soar pela caixa de som. – Mas estou surpreso por ela estar na playlist, não é uma música que eu penso que poderia te agradar também.
– Gosto da sonoridade dela – Yoongi deu de ombros.
– Gosto porque me faz sofrer – tentei fazer piada, mas ele sabia que havia um fundo de verdade ali.
– Qual é o seu lance com sofrimento? – indagou, parecendo curioso. – Desde que eu te conheço, você se apaixona fácil, não faz nada para conquistar a pessoa e então se afunda em sofrimento por algo que você criou na sua cabeça.
Sempre tinha sido muito mais fácil viver romances somente dentro da minha cabeça. Eu me apaixono fácil, sempre admiti isso, mas também sempre tive medo de me entregar e expor os meus sentimentos e acabar sendo magoado. Eu sabia lidar com as minhas ilusões, eu sofria por algum tempo, mas conseguia superar quando eu mesmo criava a armadilha que me machucava. Se tudo tinha acontecido somente dentro da minha cabeça, eu poderia culpar apenas a mim mesmo. Mas quando outras pessoas se envolviam… bom, eu preferia evitar aquele tipo de mágoa. O sentimento de insuficiência, a falta de esperança em encontrar alguém que realmente goste de mim… não era o tipo de coisa que eu queria viver. As minhas inseguranças e paranoias existiam de qualquer forma e eu não precisava que ninguém me lembrasse ou fizesse eu me sentir miserável.
– É mais fácil lidar com a decepção quando fui eu quem inventou tudo – murmurei. – A culpa acaba sendo somente minha, por ter guardado tudo pra mim, por ser covarde e etc. Tenho medo de me abrir para outra pessoa e ela apenas me mostrar o que eu já sei. Não quero ser um fracasso nessa área da minha vida e não quero decepcionar mais pessoas do que eu já decepcionei.
– Do que você está falando? Quem você acha que decepcionou?
– Deixa pra lá hyung, não é importante. Não agora – suspirei, desconfortável com o assunto e Yoongi assentiu, mas seu olhar desconfiado não abandonou meu rosto e por isso eu me arrastei um pouquinho para conseguir unir nossas bocas em um beijo. Ele não me negou e não demorei a levar minhas mãos até seu rosto e seus cabelos. Era estranhamente bom beijar do avesso, mesmo que eu acabasse beijando o queixo dele conforme nossos lábios se movimentavam.
Yoongi findou o beijo com um selinho demorado e eu acabei rindo quando abri os olhos e ele ainda mantinha as pálpebras fechadas.
– Tá afim de ir pra minha casa pagar aquela aposta? – arqueei as sobrancelhas e abri um sorriso sacana.
– Até estava, mas como você sugeriu, não quero mais – sorriu e eu revirei os olhos.
– Que maldade hyung – bufei e recebi outro selinho nos lábios.
– Não seja birrento – Yoongi resmungou e voltou a me beijar. E para a minha surpresa, eu gostava demais de ser beijado por ele e ainda não queria que aquele “encontro” terminasse.

Capítulo 13 – Nenhum motivo em específico

Yoongi.
Eu odeio os meus amigos. Sério, odeio com toda a força que existe dentro de mim. Se eu não precisasse pagar pelo crime, eu certamente faria picadinho de todos eles e ia viver sozinho e feliz no meio do mato. Seria uma vida tão boa, tão calma e saudável. Sem as risadas escandalosas de Hoseok, os gritos de Seokjin ou então a observação analítica de Namjoon. Apenas eu, meus livros e um chazinho de tarde.

– Anda logo hyung, nós já estamos atrasados! – Hoseok reclamou, bufando impaciente conforme me observava arrumar os cabelos.

– Sério? – indaguei, o encarando brevemente. – Que pena.

– Eu estou pagando meus pecados tendo que aturar o Yoongi nessa vida – Seokjin suspirou, se jogando ao lado de Namjoon na cama e se apoiando no ombro de meu melhor amigo, deixando-o de olhos arregalados e provavelmente sem respirar. Descanse em paz Namjoon, foi ótimo conhecer você – em alguns momentos.

–­ Abre uma reclamação na prefeitura – retruquei.

– Ele está impossível hoje – Namjoon suspirou.

– Por que será? – debochei. – Tínhamos combinado uma noite da pizza, e lembrando que também fui obrigado a aceitar isso, e vocês mudaram para um bar e música ruim.

– A música não é ruim! – Hoseok defendeu, já que ele tinha escolhido o maldito bar.

– A questão não é essa Hoseok – revirei os olhos.

– Você está mais rabugento que o normal. O que aconteceu saeng?

– Nada – fora o fato de que eu tinha sonhado com Jeongguk, nada tinha acontecido. Nada mesmo, nadinha!

– Tem certeza? Sabe que pode contar qualquer coisa pra gente, não sabe? – Jin indagou e eu assenti, sentindo-me levemente culpado por estar guardando mais de um segredo de meus melhores amigos. Eu queria matá-los quase sempre, mas era grato demais por tê-los em minha vida nos demais momentos. – Brigou com o Jeongguk?

– Não, tá tudo bem – forcei um sorriso. – Só queria ficar em casa mofando na cama – dei de ombros. Aquilo não era exatamente mentira, mas eles não precisavam saber.

– Dormindo de conchinha com o Jeongguk na verdade – Namjoon corrigiu e eu revirei os olhos quando Seokjin e Hoseok começaram a gritar e exigir a fofoca completa. Terminei de arrumar os cabelos no exato instante em que batidas soaram na porta. Hoseok estava mais perto, então foi ele quem abriu e recebeu Jeongguk, Jimin, Taehyung e Soyeon. Como couberam oito pessoas dentro do cubículo que era aquele quarto, eu jamais descobriria, mas no segundo seguinte Jeon já me puxava para perto e me beijava com cuidado.

Exatamente como no sonho, mas sem as lágrimas no rosto dele e sem meu coração partido por vê-lo chorar. Droga Yoongi, esquece isso, foi só um sonho idiota!

– Você está lindo hyung – ele elogiou. – Esse jeans realmente favoreceu a sua bunda.

– Começou cedo – revirei os olhos, apenas por costume, e Jeongguk riu, me abraçando pela cintura e se inclinando para me beijar outra vez.

– Que tal pagar aquela aposta hoje? – murmurou em um sussurro, movimentando a boca pela minha bochecha e meu pescoço.

– Não estou com vontade.

– E se eu oferecer algo em troca?

– Continue falando…

– Você faz em mim e eu em você. Soa justo para mim – se afastou para me encarar, sorrindo torto.

– Vou pensar – foi a minha resposta e ao invés de bufar, Jeongguk apenas sorriu mais largo.

– Vou convencer você – decidiu.

– Convencer no quê? – Seokjin indagou, chamando a nossa atenção.

– Cuida da sua vida hyung – retruquei, entrelaçando os dedos nos de Jeon e o puxando para fora do quarto. – E andem logo, Jeongguk e eu temos um compromisso depois.

– Ainda bem que não pretendo dormir em casa – Soyeon murmurou e eu só pude rir, porque ela era ótima atuando e todo mundo acreditava no que ela dizia.

Não demoramos a chegar no bar, tendo nos dividido em dois táxis, o que deixou a corrida ainda mais barata. Hoseok tinha reservado uma mesa para nós e rodadas de cerveja foram servidas, mas eu estava muito ocupado analisando o cardápio de bebidas e aproveitando do carinho que Jeongguk deixava na minha nuca para me envolver na conversa que rolava na mesa. Só foquei minha atenção no grupo quando Seokjin gritou meu nome e com uma careta, concordei com a as porções de comida que eles já tinham escolhido e abandonei o cardápio, não me interessando por nada que não fosse cerveja. Me recostei contra Jeon, levando o copo aos lábios para beber um gole generoso enquanto Jeongguk aproximava a cadeira da minha para poder me abraçar e beijar meu pescoço vez ou outra.

A música realmente não era ruim e as luzes baixas nos davam mais privacidade ainda, mesmo que a mesa escolhida por Hoseok fossem bem afastada do bar e da bagunça de clientes. Era um local aconchegante, eu não podia negar. E também não negaria que ainda queria estar em casa indo para a cama.

– Então, temos mesmo compromisso depois daqui?

– Ainda estou em analise – murmurei.

– Vou pedir mais bebida para você – ele falou. – Fica muito mais fácil te convencer quando está ficando bêbado.

– Como assim “ficando bêbado”? Eu estava bêbado naquele dia! – retruquei em um tom de voz irritado, mas baixo, para que ninguém além de Jeon me escutasse.

– Não estava – ele riu. – E nem eu. Se estivéssemos mesmo bêbados, não teríamos capacidade de fazer nada. Estávamos alegres e desinibidos.

– Você está me dizendo que a gente brigava porque tinha tesão acumulado?

– Não, a gente brigava porque você é rabugento e eu sou implicante. Mas naquele dia nós não estávamos completamente fora de nossas mentes.

– Não concordo – fui firme, torcendo os lábios enquanto Jeon ria.

– É claro que não, eu nem esperava que concordasse comigo hyung. Você é tão rabugento quanto teimoso.

– Festival da ofensa gratuita?

– Dizer a verdade agora é ofender? – questionou risonho e eu me virei para ele, tomando sua boca na minha de forma precisa e lenta. Comandei o beijo completamente, tanto por estar segurando o queixo de Jeongguk como pelo movimento da minha língua e dos meus lábios. Nem sempre um beijo era uma sincronia ou uma bagunça. Eu gostava de dominar da mesma forma que gostava de ser dominado e todos os beijos que eu tinha trocado com Jeon até agora tinham sido uma mistura de nós dois. Mas não aquele beijo. Jeongguk seguia o meu ritmo, esperava que a minha língua procurasse e acariciasse a dele e se deixava suscetível as minhas vontades.

– O que você estava dizendo? – indaguei quando finalmente separei nossas bocas, puxando o ar as os pulmões de forma calma, enquanto Jeon parecia voltar de um sufocamento.

– Eu… sei lá – deu de ombros, se deixando ser beijado por mim mais uma vez.

🎯

Jeongguk.
Nem eu e nem Yoongi tínhamos bebido tanto naquela noite. Eu parei na segunda caneca de cerveja e Yoongi bebeu mais duas antes de encerrar a noite e se recostar contra mim, pedindo para que eu levasse comida até sua boca porque ele estava cansado demais. Aquela era a maior desculpa do mundo, mas eu não reclamei ou me neguei e por isso estava afastando os hashis, enquanto Yoongi mastigava com gosto e saboreava a carne de olhos fechados.

Nossos amigos ainda bebiam e não prestavam realmente atenção na comida ou em mim e Yoongi, o que tornava muito mais fácil para que conversássemos. E naquela noite eu me permiti não pensar em aposta nenhuma, possíveis corações partidos ou qualquer outra coisa. Apenas conversei com Yoongi e o beijei vez ou outra. Sabia que precisava ser mais natural em minhas ações e não havia jeito de fazer aquilo com meu cérebro fazendo tantas suposições e montando planos e cenários. Aquilo aumentaria as minhas chances de acabar caindo tendo o feitiço virado contra mim? Se eu não fosse apaixonado por Jimin sim.

E por falar no Park, eu precisava admitir que estava preocupado com ele. Jimin andava recluso, mal conversávamos por mensagens – ok, eu passava muito tempo no telefone com Yoongi, mas agora Jimin levava um ou dois dias para responder uma única mensagem enviada por mim e eu sentia que ele andava me evitando. Tentava não criar paranoias com aquilo ou acabar me iludindo com algo que eu sabia que era impossível, mas eu não podia negar que às vezes aquele “e se” passava pela minha mente. E se ele gostasse de mim? E se tivesse percebido isso quando apareci com Yoongi?

Uma pontinha de esperança estava crescendo em meu coração, mas eu continuava podando-a porque eu precisava aceitar a realidade. Jimin não gostava de mim daquele jeito e qualquer que fosse o motivo pelo qual ele se mantinha afastado de mim, iria me contar quando se sentisse confortável para falar sobre o assunto.

– A comida Jeongguk – Yoongi me puxou de meus devaneios e eu revirei os olhos, pescando mais alguns pedaços de carne e levando até a boca do Min.

– Você quer um namorado ou um empregado?

– Sorte minha ter encontrado você, que é os dois – cutucou em provocação.

– Mas a gente não namora – devolvi em um péssimo momento, já que a mesa ficou em silêncio e todo mundo acabou escutando meu comentário engraçadinho. Parabéns Jeongguk, você é BURRO!

– Gente o Jeongguk cobrando pedido de namoro ao vivo! – Seokjin gargalhou mais do que o normal.

– Essa foi feia hyung – Hoseok sacudiu a cabeça em negação, ainda mais triste do que o álcool normalmente o deixava.

– Eu não…

– Yoongi hyung enrolando o garoto – Namjoon riu.

– Cadê a sua dignidade Jeongguk? – Taehyung indagou bravo, batendo a mão na mesa e me fazendo arregalar os olhos. Meus amigos ficavam bizarros quando estavam bêbados, não tinha outra explicação. – E você hyung, não tem vergonha de brincar com o Gguk? Ele é grande, mas é um bebê com sentimentos!

– Mas o que tá acontecendo? – Soyeon, que acabava de voltar do banheiro, fez a pergunta de ouro.

– Estou mais perdido que você noona – admiti.

– Não é legal brincar com os sentimentos das pessoas hyung! – Taehyung continuava discursando. – Você precisa assumir o Jeongguk ou deixar ele em paz! Ou caga ou desocupa a moita e…

– Jeongguk você quer namorar comigo? – Yoongi se virou para mim, arregalando os olhos para indicar que eu deveria falar algo quando dois segundos se passaram e eu não proferi nenhuma palavra.

– O fora ao vivo! – Seokjin gritou, como se estivesse assistindo a um jogo emocionante.

– Essa doeu até em mim – Namjoon riu.

– Imagine em mim – Yoongi murmurou, tentando fazer graça da situação. Pelo amor de Deus, quando nosso jantar virou aquele circo? Há meia hora eu estava beijando Yoongi e agora estava no meio do fogo cruzado sem entender absolutamente nada.

– Eu não… dei um fora – disse por fim. – Não estava cobrando um pedido de namoro, por isso não soube reagir quando Yoongi o fez. Vocês que pegaram o bonde da conversa andando e ainda quiseram sentar na janela.

– Bonde? Em que século a gente tá? – Hoseok questionou, arrancando uma risadinha de Jimin pela primeira vez desde que aquela conversa bizarra estava acontecendo. O encarei, mas ele desviou o olhar e voltou a beber a cerveja em sua caneca. Algo estava bem errado com meu melhor amigo e apesar da preocupação, naquele momento eu precisava priorizar sair daquela situação sem comprometer a mim e a Yoongi.

– Não interessa! – Taehyung cortou. – Você aceita ou não Jeongguk?

– Eu acho que isso é problema deles – Soyeon murmurou, em uma tentativa de nos ajudar.

– Eu concordo – Jimin falou. – Vocês estão fazendo um circo sobre isso e não de uma forma legal. Jeongguk e Yoongi hyung são adultos e… sabem o que fazem de suas vidas.

– Você está certo Jimin – Taehyung suspirou. – Eu fui muito metido e…

– Não tô nem aí, quero saber da fofoca! – Namjoon declarou. – Aceita ou não? – me encarou e eu acabei rindo.

– Estamos namorando hyung – falei por fim, segurando a mão de Yoongi e entrelaçando meus dedos aos dele, levando-os até meus lábios para deixar um beijo.

– Cafona – Hoseok declarou, voltando a atenção para a bebida. A conversa alta e as risadas voltaram em seguida e eu levei meu olhar até Jimin. Ele sorriu pequeno, mas não fez questão de falar comigo em qualquer momento durante o resto da noite e aquilo me deixou mal. Jimin não confiava mais em mim? Eu tinha feito algo para ele? Gostaria de me desculpar, mas nem sabia pelo que deveria pedir desculpas.

– O que aconteceu? – Yoongi indagou quando nos afastamos do grupo, já fora do bar. Seguimos em direções opostas, já que buscávamos um táxi enquanto os outros tinham se dividido em Uber. Soyeon dormiria em casa, mas para colaborar com nosso teatro do início da noite, dividiria um Uber com Taehyung e Jimin já que eles desciam na metade do caminho. Soojin, a melhor amiga de Soyeon, morava há algumas quadras da nossa casa e era o endereço fictício de minha irmã naquela noite. – Você ficou cabisbaixo e não voltou ao normal ainda.

– Não é nada hyung – murmurei e Yoongi não acreditou, por isso emendei. – Quero saber se vai rolar aquele boquete hoje.

– Não, estou cansado demais – Yoongi bocejou exageradamente.

– Aish, você só me enrola hyung! – bufei, torcendo os lábios em desgosto.

Yoongi caiu na risada e por todo o caminho até o meu apartamento, ele foi me cutucando na cintura para que eu desfizesse a carranca. Apesar de afirmar veementemente que tinha disposição, o sono me dominou assim que me joguei na cama depois de escovar os dentes e trocar de roupa. E naquela noite dormi agarrado a Yoongi por nenhum motivo em específico.

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Nota: O trailer de QVCP tá aqui, então se você ainda não viu, corre pra ver porque tá um amorzinho e também foi feito com muito cuidado!

Lembrando a tag de Quem vai cair primeiro? é #CaiYoonkook. Vocês também podem me achar no twitter pelo @/ stillwithjeon e no gato curioso com esse mesmo @, mesmo tendo apenas criado a conta e nunca usado, acho que chega notificação né hahahahah

Também temos uma playlist no Spotify e tem músicas de todos os estilos e todas elas combinam muito com os nossos yoonkook!

Um beijo e volto em breve <3