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“Meu coração batendo é legítima defesa”

Nos últimos dias temos presenciado um dos momentos mais importantes das sociedade moderna: O movimento Black Lives Matter, onde protestantes saíram às ruas dos Estados Unidos para protestarem contra o racismo. Os protestos tiveram início após quatro policiais brancos assassinarem brutalmente George Floyd, tendo um deles ajoelhado em seu pescoço por quase nove minutos, enquanto ele pedia para respirar. E quando falamos sobre casos de violência excessiva de policiais, não precisamos ir tão longe, afinal no Brasil também ocorrem casos como esse todos os dias. Demos então destaque ao caso João Pedro, no Rio de Janeiro, onde um adolescente de 14 anos foi assassinado dentro de sua própria casa com um tiro nas costas. Sua residência conta com mais de 70 marcas de tiros de fuzil.

O FOFIC então resolveu abrir nosso site para tratar de assuntos que realmente tem relevância para a sociedade, e dar voz às pessoas pretas através de uma breve entrevista com quatro mulheres pretas, que sentem todos os dias o racismo implantado no mundo. Foram entrevistadas as jovens Caroline Andrade, Nina Mawandji, Leidiane Ramos e Clarice Otaciano. Esse foi o resultado.

Como você está se sentindo com tudo o que está acontecendo?

Caroline: Me sinto muito mal e triste, porque a gente já sabia que isso iria acontecer, e que isso acontece, só que é um racismo mais velado. Ver tudo explodindo, pessoas indo pra rua é destruidor. A gente se sente impotente, insignificante, e me faz me perguntar “o que leva alguém a pensar que tem o direito de fazer isso com a gente?”.

Nina: Estou me sentindo extremamente cansada e ansiosa. É horrível viver em um mundo onde as pessoas não fazem mais questão de esconder o racismo delas, mesmo com todo acesso à informação e a educação elas ainda reproduzem e esse tipo de preconceito. Um preconceito que fere, machuca e mata todos os dias.

Leidiane: Eu enxergo tudo isso que está acontecendo como um debridamento. Certas feridas só cicatrizam quando todo tecido não viável é arrancado. Quem não entende e/ou nunca passou por racismo talvez ache exagero, extremista ou “mimimi”, esses são pacientes que acham desnecessário o tratamento. Mas quem vive na pele sabe que a mudança só virá com movimento, com barulho, com força. Quem está lutando nesse momento é como se fosse o enfermeiro.

Clarice: É até difícil explicar os meus sentimentos no momento, é uma mistura de ódio, tristeza e vontade de ir pra rua fazer justiça com as mãos. Mas é difícil lutar sem armas nessa situação em que 111 balas foram disparadas, ou quando 70 balas atinge a casa de uma criança, quando um carro de família é fuzilado.

Como a discriminação racial afeta você?

Caroline: A discriminação afeta em tudo, porque desde pequeno a gente sofre com isso. É triste, porque as crianças aprendem isso dentro de casa, a falar mal de outras apenas pela cor da pele delas. Às vezes, antes dos pais enfiarem esse tipo de coisa na cabeça delas, elas são ótimas, só que depois que eles “plantam a sementinha do mal”, elas mudam. Afeta também o psicológico, afeta nossa forma de enxergar o mundo. Afeta nossa vida no geral.

Nina: Eu diria que a discriminação muda até a minha forma de ser, falar e de viver. Hoje em dia eu tenho medo de entrar numa loja e ser discriminada ou não ser bem atendida só por causa da minha cor. Eu tenho medo de ser excluída pelo meu ciclo social, eu tenho medo de me posicionar e ser vista como agressiva, eu tenho medo de dar a minha opinião e ser vista como grossa, eu tenho medo de andar mal vestida e ser mal vista, e entre outras coisas.

Leidiane: A discriminação me afeta de todos os modos possíveis, pois em tudo que vemos e fazemos ela está presente. Quando eu entro no ônibus e a senhora branca sentada não pede pra segurar minha mochila pesada, mas pede a sacola praticamente vazia da mocinha branca, quando eu ligo a TV e não me sinto representada em praticamente nenhum programa, quando eu ando na rua com pressa e vejo alguém segurar a bolsa com mais força, quando eu digo que estou na Universidade Federal e dizem “sorte que existem as cotas”…

Clarice: Afeta de todas as formas e jeitos, principalmente o psicológico. Felizmente não vivo a realidade de muitos negros, como os da periferia, mas tenho medo todos os dias de que meu irmão não volte pra casa após uma partida de futebol com amigos às 20h da noite. Negro, cabelo afro, andando em grupo de adolescentes o retrato do “menor marginal”. Sabe aquela frase de “na hora errada e no lugar errado”, para pessoas negras todas as horas e todos os lugares podem ser errados.

Como pessoas brancas/privilegiadas podem ajudar a construir o movimento?

Caroline: Sinceramente, eu não sei como as pessoas brancas podem ajudar no movimento, porque, até que se prove o contrário, eles estão todos juntos.

Nina: Eu acho que pessoas brancas deveriam estudar sobre como o preconceito racial age no nosso país. O primeiro passo é elas começarem a repensar sobre as suas atitudes, sobre as suas falas e começar a reparar no meio que elas vivem. Por exemplo, a maioria das pessoas brancas estudam em colégio particular ou pagam para fazer cursinho de Pré-Enem/Pré-Vestibular, será que já se perguntaram o porquê delas terem tido só um, dois ou nenhum professor negro? Por que na salas delas só tem/tinha um, dois, ou nenhum preto? Será que elas já pararam para pensar por que no meio social delas quase não tem pessoas pretas? Ou quando tem, essa pessoa está servindo a classe branca… Para mim, esse é o primeiro passo para que essas pessoas comecem a reparar como as pessoas negras são inferiorizadas, porque no mínimo é estranho em um país com 50% da população sendo preta e as pessoas brancas não conviverem com gente preta. Reparando nesses pequenos detalhes e tendo empatia por isso, elas vão usar o seu privilégio para combater qualquer atitude, fala ou ação racista. E isso será reproduzido por outras pessoas brancas…

Leidiane: É aquela famosa frase, “não basta não ser racista, tem que ser antirracista”. Mas não um antirracismo de rede social e sim no cotidiano. Tem que ter peito para discordar do papai “bolsonarista”, para ir contra a turma da faculdade particular, ter consciência do privilégio e usá-lo para dar visibilidade a “”minoria”” (somos a maior parte da população).

Clarice: Abraçando a causa, entrando na luta! Mas a primeira coisa a se fazer é repensar e refletir sobre as falas preconceituosas. Isso em si já vai mudar muita coisa.

Qual a melhor forma de lidar e combater o racismo no Brasil?

Caroline: Não tem uma forma boa de combater o racismo no Brasil. Nem no mundo, na verdade, porque se passam anos e essa coisa de racismo ainda persiste. Talvez se houvesse uma punição mais eficaz, sabe, talvez o racismo diminuiria. Porque o racismo sempre vai existir, mas talvez as pessoas parassem de fazer o que fazem, já que, infelizmente, algumas coisas só são vencidas com o medo.

Nina: Então, eu acho que é muito difícil a gente combater o racismo no Brasil em pouco tempo, porque a gente vive num país que ainda é escravocrata. Não tem nem 200 anos que a escravidão foi abolida do Brasil e ela deixou marcas profundas no nosso país. O sistema é o maior culpado por não dar oportunidades para as pessoas pretas. Oportunidade de estudar, de trabalhar, de ter uma casa digna e de ter uma vida digna. Se o sistema oferece pouca oportunidade para a população preta subir na vida, eles sempre vão se encontrar abaixo da classe branca, em posição de serventia. E se a gente não tem uma representatividade na classe média e alta, essas pessoas vão sempre ter a visão de que preto não quer nada com a vida, de que preto não gosta de estudar e preto não gosta de trabalhar. Enfim, são mil coisas que tem que mudar para que o racismo seja combatido.

Leidiane: Parece bobo, mas NÃO SENDO RACISTA. O racismo não é um instinto, não é algo que as pessoas nascem com ele… É uma construção, uma escolha. O racismo tem que ser visto, desmascarado, ser tirado de trás das piadas, dos comentários “sem maldade”. Ele deve ser apontado para que as pessoas enxerguem o racismo nelas, para que se olhem no espelho e sintam vergonha de suas atitudes.

Clarice: Começando com  mudança nas políticas sociais. Infelizmente os direitos não são iguais, e não falo só de salário ou moradia, mas também no ensino, para que todos consigam de forma justa “crescer na vida”.

Como você enxerga a violência policial, tanto no Brasil quanto em outros lugares?

Caroline: Extremamente desnecessária e racista! Porque policiais tratam negros violentamente, mas os brancos podem fazer o que quiserem e nada acontece. Faz parte da nossa estrutura racista e para mudar isso, talvez, só tirando todo mundo que está lá e colocando gente nova.

Nina: Totalmente racista e segregadora.  Eles atacam, prendem, batem e param somente pessoas de cor. Tratam todos como se fossem bandidos, atiram e matam pretos desarmados, sem dar chances de defesa. A polícia mantém apenas pessoas brancas de classe média em segurança. Entram em favela atirando, tratam moradores de favela super mal e não demonstram proteção a essa população. Por isso muitos crescem odiando a polícia, pois ela trabalha para brancos.

Leidiane: A violência policial nada mais é que a demonstração do que a população racista gostaria fazer, mas não tem “poder” suficiente. A prova disso são os “panos” que são passados para ações que, se ocorressem com um branco, causaria prisão imediata.

Clarice: Me revolta em um nível extremo! Pessoas fardadas com o dever de nos proteger, ceifando vidas sem nenhum motivo. A sociedade precisa acordar e enxergar que não é com mortes que vai diminuir a violência.

Você consegue contar algum caso onde você sofreu racismo?

Caroline: Eu sou privilegiada porque eu não tenho a pele preta escura, sou uma negra de pele clara, mas um dos maiores casos de racismo que já vivenciei e vivencio é quando a gente está andando no supermercado, ou loja que a queremos muito comprar alguma coisa, cinco minutos depois você percebe que tem alguém te observando. Tem um segurança te observando. As vezes isso só parava quando meu pai chegava, porque ele usa roupa social e as pessoas ainda julgam muito as outras pelas roupas que vestem, então pensam que “está de roupa social, ok”. Mas essa é a forma mais simples e clara de racismo porque, se você fala com uma pessoa branca que isso acontece, ela não acredita, só que isso acontece! Daí a gente tem que segurar a bolsa mais firme, deixar bem claro que só está olhando, não encostar nas coisas, ou pegar e pôr no carrinho para deixar claro que está no carrinho e não dentro da sua bolsa, entre várias coisas…

Nina: Com certeza eu já sofri vários casos de racismo, sejam eles de uma maneira mais forte ou seja ele disfarçado de simpatia. Comentários como: “nossa você tem alguns traços finos né”, “você é uma preta bonita” (clássico), “sua cor de pele é diferente”, “você é uma negra muito educada”, “você já ficou com brancos?”, “você é uma negra que se veste bem”. Um dia um menino branco falou para mim que ninguém nunca iria querer me beijar, porque eu era muito feia. Que a única pessoa que se importava comigo era minha mãe e que, se ele morresse todo mundo iria no enterro, mas, se eu morresse só minha família iria. Uma menina também já falou que eu seria bonita se eu tivesse uma pele mais clara. Outra já achou que a cicatriz que eu tenho no ombro foi por causa de um tiro. Que eu sou uma pessoa agressiva… Um cara já me parou na rua pra perguntar se eu estava indo fazer faxina (e eu estava indo pra faculdade), e um segurança do banco já mandou eu abrir a bolsa pra entrar na agência… Enfim, vários casos.

Leidiane: Sofri racismo a minha vida toda, mas o primeiro que me lembro – que na verdade foram anos até eu demonstrar que sentia – eu tinha uns 4 anos. Eu tenho uma prima por parte de pai, que a mãe dela é de descendência italiana. Nossos traços são parecidos, até o cabelo crespo, só que ela é branca. Cresci com meus tios chamando-a de linda, tratando como uma princesa. Ela ganhava presentes e eu não, ela recebia elogios e eu não. Quando fiz 4 anos percebi que a única diferença gritante entre nós era a cor de pele. Passei meses triste pois não podia mudar minha cor. Eu queria ser branca, ser “bonita”, queria que meus parentes gostassem de mim também. Eu não queria viver o racismo hoje, muito menos naquela época… Eu ainda carrego as marcas do racismo de toda uma vida, então não importa por quantos anos um branco foi racista, tem que haver desconstrução, arrependimento, consciência. É como dizem: “quem bate esquece, quem apanha não”.

Clarice: Sim. São diversas formas de preconceito que sofremos todos os dias mas vou te contar os mais curtos: Gosto da cultura afro, de usar turbantes. Em um dia comum usando meu turbante fui entregar alguns documentos onde trabalho, e ouvi comentários como “nossa parece aqueles panos que as empregadas domésticas usam na cabeça pra limpar a casa”, “nossa você é uma negra bonita” – como se negros fossem feios por serem negros -. “Posso encostar no seu cabelo? Parecem duro! Nossa é fofinho!”.

Após essa entrevista, que demonstra muito da luta preta, nós do FOFIC queremos que todos saibam que apoiamos toda e qualquer luta pelos direitos humanos, sempre nos posicionaremos quando for necessário e nunca nos calaremos! Não toleramos e abominamos qualquer forma de preconceito. Estamos na luta com vocês! VIDAS PRETAS IMPORTAM, E MUITO!

Por Amanda Ritis e Camila Fieri.