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[REVIEW] Miss Americana

[REVIEW] Miss Americana

Miss Americana é um documentário, dirigido por Lana Wilson, que acompanha alguns anos da carreira da cantora e compositora norte-americana Taylor Swift, traçando uma retrospectiva que vai desde os primeiros passos de Taylor no mundo da música até os dias atuais, com o lançamento de seu sétimo álbum de estúdio, intitulado Lover. A produção foi lançada na Netflix e já está disponível na plataforma de streaming.

A narrativa do documentário alterna entre uma cronologia linear sobre a carreira de Swift e comentários da cantora sobre a vivência ao longo daqueles anos na indústria musical. Vemos Taylor de forma honesta, expondo pensamentos e comentários sobre sua própria vida, que resultaram na mulher que ela ainda luta para se tornar.

Taylor sempre teve um problema com a atenção da mídia, com a opinião dos outros sobre ela. No começo de sua carreira, ela afirma que sempre tentou ser boa, como pessoa e como artista. Por ter suas raízes no country, se educou para ser a garotinha boa e recatada que vivia um sonho, porque sempre acreditou no talento que tinha. Sempre trabalhou duro para merecer os aplausos e o amor das pessoas, e com o fatídico episódio no VMA de 2009, onde Kanye West tomou o microfone de sua mão e afirmou que Beyoncé merecia o prêmio, Taylor passou a desacreditar de seu talento. Ela comenta que achou que as vaias eram para ela e não para Kanye e aquilo a fez pensar que só ganhava mídia porque ela uma boa pessoa e não porque era uma boa artista.

E aqui precisamos destacar que essa atitude de West foi machista. Ele jamais teria arrancado o microfone da mão de Eminem, por exemplo, mesmo tendo perdido um prêmio para o rapper na mesma noite. Taylor era uma garota de 19 anos ganhando um dos principais prêmios da noite – por votação pública – e West se achou no direito de subir no palco e lhe humilhar. Porque ele não apenas a interrompeu, como disse que o trabalho dela não era bom o suficiente. 

Com isso em mente, Taylor precisava se reinventar. A garota que cantava country não era boa o suficiente e ela precisava se mostrar capaz. O álbum 1989, lançado em 2014, foi a forma que Taylor encontrou de provar que era capaz, que era uma artista completa e que ela podia chegar ao topo do mundo porque trabalhava duro. Abandonou suas raízes na música country e se reinventou completamente. E ela chegou. Esse álbum levou Taylor a um nível de sucesso que ela nunca havia experimentado antes. Não são todos os artistas que conseguem migrar entre estilos musicais e fazer isso de forma satisfatória. Não como Taylor fez.

Antes desse álbum, Taylor já era afetada pela opinião pública de forma prejudicial, sempre calculando sua vida e todos os seus passos para nunca estar fora da linha, tentando não dar motivos para falarem coisas ruins sobre ela. E ela foi consumida, cada vez mais, pela necessidade de agradar e ser boa o suficiente. Sentia-se sempre fora do padrão de beleza, sofrendo de transtornos de imagem que a levaram a distúrbios alimentares. Apesar de estar dentro do padrão de muitas maneiras, a forma como era tratada pela mídia e as expectativas que o mundo tinha sobre ela, a fazia se sentir insuficiente. Falavam sobre seu corpo, sobre seu comportamento, sobre suas amizades e seus relacionamentos. O espetáculo Taylor Swift.

O episódio de exposição de Kim Kardashian a respeito da música de Kanye West, onde ele afirma que “fez essa puta famosa” foi mais um divisor para Taylor. Porque todos se voltaram contra ela e sua defesa a respeito do ocorrido foi ridicularizada e tratada como vitimismo. Diziam que Swift só estava tentando sair por cima em mais uma jogada de marketing. Esse era o recado da mídia para o mundo e aquilo lhe abalou de formas profundas. Ela havia centrado sua vida na missão de ser uma boa pessoa e de repente, o mundo acreditava que ela era uma vadia manipuladora. Nunca boa o suficiente. As críticas não eram mais apenas sobre seu trabalho. Eram sobre ela, como pessoa. E aquilo foi demais.

Passou um ano inteiro fora da mídia. Sentia-se sozinha e amargurada, e escreveu o Reputation como um desabafo. Queria criar um trabalho que a orgulhasse, mesmo que aquele trabalho fosse mais uma imagem do que as pessoas esperavam dela, do que a própria Taylor. O Reputation não foi seu melhor trabalho e Taylor sabia. Com a falta de indicações para o Grammy, decidiu que iria criar um álbum melhor. E durante o decorrer do documentário, podemos perceber que Lover foi realmente o álbum que Taylor queria criar para orgulhar a si mesma e não o mundo.

O episódio de assédio sexual que sofreu durante um meet&great foi outro ponto importante para que Taylor encontrasse sua voz e se empoderasse ainda mais. Começou a refletir a respeito daquilo, porque mesmo tendo provas e testemunhas, ainda perguntavam para ela o porque ela havia deixado. Porque não gritou. Porque não saiu daquela situação. Mesmo tendo ganhado a causa, aquilo impactou Taylor e a fez abrir os olhos para uma realidade que talvez ela ainda não conhecesse. A vulnerabilidade da mulher dentro da sociedade e a necessidade de “fazer o certo”. Com isso em mente, tomou posição política pela primeira vez em sua vida. Queria fazer a diferença e havia resolvido tirar as amarras de sua boca.

“Queria não sentir que há uma versão melhor de mim por aí.”

Beirando os 30 anos, Taylor havia finalmente encontrado dentro de si, a pessoa que sempre esperou ser. Hoje ela tem noção do que enfrenta: uma sociedade machista, que nunca valoriza o trabalho de uma mulher e sempre encontra uma forma de fazê-la sentir que não merece o sucesso que alcançou com seu próprio esforço. Taylor sabe que as artistas femininas precisam se reinventar muito mais vezes que os homens para não serem descartadas pela indústria musical. E apesar de isso nunca ter sido um problema para ela, que sempre trabalhou duro para superar cada trabalho, ela afirma que vai trabalhar bastante até a sociedade achar que ela já fez o suficiente, porque sabe que as artistas femininas caem muito mais rápido quando não se deixam ser produto de imprensa. Swift não vai parar de se impor e tentar mudar o mundo com a voz que ela tem. Não se sente mais amordaçada e ela mesma se libertou. 

Miss Americana mostra a trajetória de Swift de forma delicada e sincera, com um olhar da própria cantora sobre seus erros e seus acertos. Mostra também, que Lover é seu álbum mais especial, porque ele é o resultado de anos de aprendizado e amadurecimento. Taylor aprendeu a não depositar em outras pessoas o motivo para sentir-se feliz e suficiente. E mesmo que esse empoderamento possa parecer tardio, ele é extremamente necessário e importante. E essa é a melhor lição que uma mulher pode ter na vida.

Taylor Swift é lendária e é a indústria da música. 

Escrita por Grazie S.